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Universidade de S達o Paulo Escola de Engenharia de S達o Carlos Departamento de Arquitetura e Urbanismo

O OURO COMO ESTRUTURA URBANA Araraquara, SP Trabalho de Gradua巽達o Integrado II

Lisandra dos Santos Casagrande Junho de 2009


ÍNDICE AGRADECIMENTOS ...................................................................................................................................................................................................................................... i INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................................................................................................. ii MOTE DO TRABALHO ............................................................................................................................................................................................................................... 01 paisagem: ser humano e meio físico natural .................................................................................................................................................................................. 01 novos olhares, novos valores ......................................................................................................................................................................................................... 05 PROCESSO DE LEITURA E RECORTE: DO MACRO AO MICRO ................................................................................................................................................................ 11 um elemento: a água ..................................................................................................................................................................................................................... 13 a bacia hidrográfia: micro-bacia do ouro ....................................................................................................................................................................................... 17 o sítio urbano: araraquara .............................................................................................................................................................................................................. 21 a região urbana .............................................................................................................................................................................................................................. 29 um trecho urbano – um sistema de paisagem ................................................................................................................................................................................ 39 a unidade de paisagem .................................................................................................................................................................................................................. 51 o lugar: personagens e apropriações .............................................................................................................................................................................................. 61 PROCESSO PROJETO: DO MICRO AO MACRO ........................................................................................................................................................................................ 71 Estrutura da unidade de paisagem proposta ................................................................................................................................................................................... 73 Projeto: hierarquia de espaços livres .............................................................................................................................................................................................. 95 Escolhas Formais ............................................................................................................................................................................................................................ 96 Pátio .............................................................................................................................................................................................................................................. 99 Praça ........................................................................................................................................................................................................................................... 103 Rua .............................................................................................................................................................................................................................................. 105 Parque ......................................................................................................................................................................................................................................... 113 O conjunto da unidade de paisagem ........................................................................................................................................................................................... 123 diretrizes para o sistema de paisagem .......................................................................................................................................................................................... 125 BILIOGRAFIA .............................................................................................................................................................................................................................. 127


AGRADECIMENTOS Dedico este trabalho, primeiramente, aos amigos que mais me apoiaram em meus sonhos desde pequena: meus pais, Maria Helena e Antonio, meu avô Aguiar, meus tios Pedro e José, minhas tias Nair e Adelina, e meu irmão Lucas. Também compartilho este agradecimento com aqueles amigos que conheci posteriormente e que me influenciaram direta ou indiretamente nas escolhas que tomei até aqui. Kiko Lopes, um grande professor não apenas de arte, mas de vida e de sonhos. André, Samuel e Nilson, com os quais pude compartilhar o gosto em comum pela pintura e paisagem. Agradeço também às amizades que foram construídas durante o curso, com as quais tive um grande aprendizado, e que me deram suporte e força para enfrentar as adversidades, muitas vezes em comum. Destaco algumas delas pela maior proximidade que pude ter, mas tenho em mente a singular contribuição que recebi da turma com a qual estudei: Priscila, Clarissa, Marlon, Vergara, Hulk, Cepacol, Chuchu, Carol, Simone, Pará, Ana, Cibele e Gabriel; e peço desculpas aqueles que posso ter esquecido. Dos meus mestres, agradeço aos que me auxiliaram diretamente nas descobertas de meus gostos profissionais: Heverson, pela disciplina, o rigor do desenho e a valorização das pessoas. Anja, que me incentivou às buscas individuais e novas formas de enxergar o mundo. Givaldo, pelo auxílio direto no desenvolvimento deste projeto, e pela clareza de suas idéias. Paulo Fujioka, pelo professor incondicional que é. E, Luciana, em especial pela influência direta que teve em minha descoberta do gosto pela Arquitetura da Paisagem. Por fim, meus sinceros agradecimentos ao meu grande companheiro e também amigo, Felipe, que muito me auxiliou nos momentos mais difíceis, ao qual sou muito grata.

i


INTRODUÇÃO Tendo isso em vista que o trabalho final de graduação, ou TGI (Trabalho de Graduação Integrada) como é denominado em nossa Escola, é reconhecido como um momento de reflexão do aluno sobre o próprio curso, assim como de suas buscas individualmente traçadas, trouxemos como uma das questões principais o tema da relação homem e meio físico natural 1, assunto de grande interesse dos profissionais da área da Arquitetura da Paisagem. A opção por tratar tal temática devese, primeiramente, à observação de sua quase ausência na realidade das cidades em que vivemos, qual seja, a enorme distância entre o respeito aos elementos e processos naturais e a ocupação urbana que bem conhecemos: o modelo desenvolvimentista de vias dispostas junto às margens de rios, quando não, o tamponamento do curso d´água ou a construção de setores urbanos inteiros sobre seus leitos, o esgoto descartado diretamente nos corpos hídricos, o desmatamento da vegetação natural e a construção junto a encostas litorâneas, a poluição do ar e solo, dentre inúmeros outros exemplos. Tal olhar crítico, a pesar de partir de algumas reflexões individuais, acentuou-se ao longo do curso, e teve seu aprofundamento no decorrer do trabalho de Iniciação Científica, desenvolvido parcialmente paralelo ao TGI, cujo tema era Paisagem: Cidade e Sustentabilidade 2. A conceituação teórica de tal pesquisa muito nos alimentou para o presente trabalho, ao nos possibilitar o contato com obras de grande prestígio.

ii

1 Utilizamos meio físico natural em substituição do termo natureza ou natural, em alusão a algumas teorias mais contemporâneas como a do geógrafo Milton Santos, precursor de uma nova abordagem geopolítica, que expande a escala de compreensão dessa palavra. Natureza, segundo ele, “pode ser definida como o conjunto de todas as coisas existentes, ou, em outras palavras, a realidade em sua totalidade. A natureza se encontra em estado de movimento permanente e cada um dos seus movimentos é sempre fugaz.” In:

SANTOS, M. Por uma Geografia Nova: Da Crítica da Geografia a uma Geografia Crítica. 4ª ed. São Paulo: Hucitec, 1996. p. 158. O mesmo autor, alguns anos depois, em seu livro A Natureza do Espaço, defende que o ser humano, suas ações e interferências no meio também fazem parte da mesma natureza, na medida em que, ao longo do tempo a transforma. In: SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo/ Razão e Emoção. 3ª ed. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 105106. 2 Bolsa de Iniciação Científica do Programa Ensinar com Pesquisa (PEP), que ocorreu de março de 2008 a março de 2009, sendo que o trabalho foi orientado pela professora doutora Luciana Bongiovanni Martins Schenk.


Parte dessa base conceitual é expressa aqui, amparando uma série de leituras sobre uma parcela da micro-bacia do Ouro, que abarca boa parte da urbanização de Araraquara, Estado de São Paulo. O processo envolveu a realização de recortes em diversas escalas, a fim de entender, sumariamente, a dinâmica urbana dessa cidade média e seus problemas de caráter sócio-ambiental. Nessas interpretações, simultaneamente já são feitas algumas inferências, que nortearam certas escolhas projetuais utilizadas em um trecho urbano específico, de caráter periférico. A tentativa foi no sentido de prover espaços livres de qualidade inseridos na malha urbana, através dos quais uma nova paisagem se constituiria. A intenção era a de trabalhar o vale como um conjunto, por isso o projeto explora novos espaços tanto para a área de APP, propondo parque linear, como para parte de um bairro, desenvolvendo as demais áreas que compõem os espaços livres: praças, pátios e ruas. Essa configuração proposta busca enxergar a ocupação humana não como um campo à parte, encerrado em si, mas enquanto fragmento de um sistema maior, como de fato já o é, embora isso muitas vezes não seja reconhecido. Envolve, em suma, uma questão de percepção.

iii


MOTE DO TRABALHO paisagem: ser humano e meio físico natural “Estética e ciência. Arte e ecologia, Cultura e natureza. Arquitetura e paisagem. Cidade e campo. Público e privado. Razão e emoção. Feminino e masculino. Homem e mulher. Homem e natureza. (…) Filósofos e críticos culturais como Jacques Derridà, Gilles Deleuze e Alice Jardine identificaram o pensamento binário como um instrumento de controle de poder e como forma de naturalizar a relação hierárquica. Esta separação coloca as pessoas fora do ecossistema do qual elas fazem parte e reforça uma ética de demarcação de controle ou posse ao invés de uma relação horizontal e igualitária.” 3

Teóricos como Ian McHarg, John Tillman Lyle, Michael Hough, Elizabeth Meyer e Anne Spirn apresentam em comum a abordagem do tema específico que aqui tratamos, ou seja, a dissociação entre o ser humano e a lógica dos elementos do espaço físico, um distanciamento refletido na configuração das cidades. Destacamos estes nomes por serem os mais emblemáticos, pois sobressaem na defesa por um meio ambiente urbano mais coerente com o meio sobre o qual se implanta, mas seguramente não são os únicos que abordam tal questão, como pudemos observar na investigação do trabalho de Iniciação Científica, citado anteriormente. 1

3 “Aesthetics and science. Art and ecology. Culture and nature. Archietecture and landscape. City and country. Public and private. Reason and emotion. Male and female. Man and woman. Man and nature. (…) Philosophers and cultural critic such as Jacques Derrida, Gilles Deleuze, and Alice Jardine have identified binary thinking as tool for controlling power and making natural hierarquical relationships. (…)This

separation places people outside the ecosystems of which they are part and reinforces a land ethic of they control or ownership instead of partnership and interrelationship.” In: MEYER, E. K. The expanded Field of Landscape Architecture. Ecological design and planning . THOMPSON, G. F. STEINER, F. R., editors. New York : John Wiley, 1997.


Figura 1 e 2 – Projetos de Olmstead para Boston: Fens (1877) e o Riverway (1892), respectivamente. Ambos desempenhavam a mesma função: purificar a água e proteger os terrenos adjacentes da inundação. Fonte: SPIRN, A. O Jardim de Granito, a natureza no desenho da cidade. São Paulo: Edusp, 1995. p.166.

2


Em verdade, essa é uma temática bastante antiga, que remonta ao século XIX, por exemplo, quando se inicia na Inglaterra o movimento dos parques urbanos (urban parks and walks) 4 ,que defendiam cidades mais saudáveis, tanto física como mentalmente, a partir da inserção de espaços verdes no cenário urbano. O contexto era o período industrial, que gerava uma série de problemas sociais, como o êxodo rural, as moradias insalubres, a expansão populacional, a exploração do trabalho, entre outros. No mesmo século, mas em terras norte-americanas, Olmsted foi um dos exemplos singulares desse novo ideário, pois desempenhou um importante papel na reformulação do pensamento sobre as cidades, através de parques, bulevares e parkways, estabelecendo uma “estreita ligação entre estes e a diminuição dos problemas ambientais e sociais da cidade daquele século”. Era, segundo Anne Spirn, uma “nova visão dos valores sociais da natureza na cidade “ 5. Ele contribuiria de forma significativa para a então recente profissão Arquitetura da Paisagem 6, compreendendo ser a função do profissional desta área como a atividade de criar espaços capazes de educar o público a perceber e valorizar a Natureza da qual participa 7. A paisagem modelada, desempenhando papel didático, é uma das características marcantes de seus projetos, assim como de sua argumentação, na qual essa vontade se explicita.

3

4

LYLE, J. T. Regenerative Design for Sustainable Development.

New York: John Wiley & Sons, Inc, 1994. 5 SPIRN, A. op. cit. 6 “Anterior ao estabelecimento do primeiro programa de graduação em Landscape Architecture, Arquitetura da Paisagem, sob a direção de Frederick Olmsted Junior, em Harvard, 1900-1901, data a fundação da ASLA, American Society of Landscape Architects, de 1899. Essa organização, embora recebesse em seu título a denominação arquitetos, não se restringiu a eles, ampliando seu quadro a amadores da paisagem, jardineiros, superintendes de parques, engenheiros, escritores e artistas em geral (...).”In: SCHENK, L. B. M. “Arquitetura da Paisagem: entre o Pinturesco, Olmsted e o Moderno”. 2008. 162 f. Tese (Doutorado em Arquitetura) – Arquitetura e Urbanismo - EESC, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2008, p. 131. 7 Em carta a Charles Eliot de 28 de outubro de 1886. Apud: SCHENK, L. B. M., op. cit, p. 130.


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Miguel Ruano é arquiteto e urbanista especializado em projetos de grande escala. Sua área de trabalho inclui temas de sustentabilidade assim como o impacto das novas tecnologias nos habitats humanos. Fonte: http://www.vitruvius.com.br/livros/livr o_desc.asp?Codigo=396 9 RUANO. M.

“Ecourbanismo: entornos humanos sostenibles: 60 proyetos”. Barcelona: Gustavo Gili, 1999. p. 08.

Pouco tempo depois, no final do século XIX e início do XX, Ildefonso Cerdà, na Espanha, e Ebenezer Howard, nos EUA, tomariam a frente nessa luta por uma cidade mais humana. Segundo Miguel Ruano 8, ambos expressavam a busca dos espaços livres verdes como forma de saúde pública 9. A partir de seus ideais higienistas, o primeiro elaborou, entre outros trabalhos, o plano para Barcelona, enquanto o segundo formava o conceito de cidade-jardim, que já vinha sendo pensado por vários outros teóricos da época, ainda que sob enfoques diferentes. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas o importante é observar o peso que tal questão adquiriu e de que modo as respostas dadas pelas soluções urbanas atuais que conhecemos não correspondem às preocupações levantadas desde séculos anteriores. As evidências disso são desastrosas e o desequilíbrio gerado pela falta de atenção ao meio ambiente físico afeta não apenas ao sítio, tido como um elemento a parte do homem, mas também às próprias pessoas.

4


novos olhares, novos valores

“O valor é uma construção humana e difere de categorias como o tempo e o espaço; não possui uma representação quantitativa, mas, exclusivamente qualitativa. Os valores são construídos a partir de consensos, acordos entre homens, sendo uma categoria puramente histórica, que dá sentido ao tempo e ao espaço.” 10 A segunda questão central do trabalho, que está intimamente conectada à primeira, ou seja, a relação entre pessoas e meio físico natural, é a noção de valor. Uma das raízes do distanciamento entre a esfera urbana ‘humanizada’ e o que se considera ‘natural’ está justamente no tipo de valoração empregada pela sociedade ao longo da história. É uma questão, portanto, essencialmente cultural. Ao observarmos os valores que regem as ações e os interesses humanos, podemos perceber o quanto o valor econômico, por exemplo, se sobrepõe aos valores sociais, históricos, ecológicos, entre outros. Tal análise pode ser encontrada em excertos de diversos autores, como Ian McHarg, que aponta o processo de atribuição de valor monetário como um dos fatores de separação entre a esfera ‘humana’ e a ‘natural’, ou o filósofo francês Félix Guattari, para o qual prevalece os interesses do império de um mercado mundial que lamina os sistemas particulares

de valor, que coloca no mesmo plano de equivalência os bens materiais, os bens culturais, as áreas naturais etc.. 11 5

10

SILVA, A. F. et al. Os Valores Patrimoniais do Paisagismo Cultural: Uma Abordagem para o Processo de Intervenção. Paisagem Ambiente: ensaios (Especial ENEPEA 2006), São Paulo, n. 24, p. 301, 2007.

11

GUATTARI, F. As três ecologias. Bittencourt, M. C. (trad.). 3ª ed. Campinas: Papirus, 1991, p. 08.


Figura 3 e 4 – Imagens aéreas de dois tipos de tratamento 6 de um mesmo curso d´água, o ribeirão do Ouro, no município de Araraquara. Na primeira imagem, área urbanizada, ele aparece canalizado e as construções são implantadas bem próximas de seu leito, enquanto que na segunda, desempenha um formato original de meandros e uma densa vegetação ciliar em sua área de várzea. Fonte: Google Earth.


Um paralelo a essa crítica pode ser encontrado em Anne Spirn e Michael Hough, que abordam como os espaços verdes livres são observados segundo os valores contemporâneos. Para Spirn, ao longo do tempo, as cidades quase sempre foram vistas como resultado das forças sociais e econômicas, sendo que a ‘natureza’ desempenhava um papel pouco importante 12. Para ela, o valor ecológico, dentro dos espaços urbanos, deveria ganhar peso, mas isso só ocorreria quando este valor fosse incorporado de fato na consciência das pessoas:

“A natureza na cidade deve ser cultivada e integrada com os vários propósitos dos seres humanos; mas primeiro precisa ser reconhecida, e seu papel de formar os empreendimentos humanos avaliado.” 13 Michael Hough também identifica a separação entre os conceitos de humanidade e

natureza. Segundo o autor, essa “dicotomia tem tido uma profunda influência no pensamento da humanidade: de um lado, as cidades onde habitam as pessoas, e de outro, as regiões não urbanas, para além da cidade, onde vive a natureza”

14.

Mas além desse distanciamento, há

também várias contradições de valores inseridas no pensamento das pessoas, como a diferenciação entre dois tipos básicos de paisagens que, sinteticamente, comporiam a cidade: a formalista e a constituída pela vegetação natural. A primeira, segundo o autor, é uma 7

12

SPIRN, A. op. cit p. 17.

13

SPIRN, A. op. cit, p. 27.

14

“Los conceptos ‘humanidad’ y ‘naturaleza’ han sido entendidos durante mucho tiempo como problemas separados. Esta dicotomía ha tenido una profunda influencia en el pensamiento de la humanidad: por una parte, las ciudades donde habitan las personas, y por otra las regiones no urbanas, más allá de la ciudad, donde vive la naturaleza.” HOUGH, Michael. Naturaleza y Ciudad. Planificación Urbana e Processo Ecológicos. Gustavo Gili. 2003, p.09.


15 “El primer paisaje tiene muy poca conexión con la dinámica de los procesos naturales, y sin embargo, ha sido considerado socialmente como una expresión de esmero, valor estético y espíritu cívico.” Idem,

p.08.

16

“So, while I do not believe design can change society, I do believe it can alter an individual’s consciousness an perhaps assist in restructuring her priorities and values.” In: Elizabeth Meyer. Manifesto. In: Landscape Architecture, v. 98, n. 10, out 2008, p.106.

composição que “tem muita pouca conexão com a dinâmica dos processos naturais e, no

entanto, tem sido considerada socialmente como uma expressão de esmero, valor estético e espírito cívico.”

15

Todas essas distorções de valores ou supervalorização de um aspecto em detrimento de outro traz em seu cerne a forma pela qual as pessoas enxergam o meio em que vivem. Portanto, uma das intenções de nosso trabalho é a busca ao despertar de novas percepções, em especial dos olhares da própria população que vive no bairro e nas proximidades da área tratada. Temos clareza de que não seria possível mudar a sociedade apenas através de um projeto arquitetônico paisagístico, como diria Elizabeth Meyer, mas como a mesma autora acredita, uma nova espacialidade pode ser capaz de alterar a consciência individual e talvez ajudar a reestruturar suas preferências e valores. 16 Em nossa proposta, há a intenção de integrar espaços livres de qualidade ao cotidiano das pessoas, que atuassem não apenas como uma opção de lazer nos finais de semana, mas também como área de fruição, contemplação, esporte, cultivo, junto às próprias habitações, áreas de trabalho e estudo. Além disso, em cada escolha projetual prevalece o entendimento e o respeito aos processos naturais, com o intuito de que, aos poucos, sua lógica também seja reconhecida como importante e valiosa para as pessoas que participam daquele meio.

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PROCESSO DE LEITURA E RECORTE: DO MACRO AO MICRO

17

“Intervenções mínimas requerem precisão, uma precisão que deriva do mapeamento e compreensão de uma área em escalas diversas, com a intensão de trabalhar um pequeno fragmento capaz de influenciar áreas muito amplas.” 17 O desenvolvimento do trabalho ocorreu através do método apontado por Linda Pollak 18, ou seja, envolveu, desde a escolha da área, passando por um processo de leitura até as elaborações projetuais e de diretrizes, o uso do olhar em várias escalas. Esse esforço deveu-se, primeiramente, à busca por uma área de projeto que trouxesse uma problemática local compatível com as questões teóricas abordadas há pouco. Sua escolha, portanto, deveria seguir uma seqüência de recortes bastante cuidadosa, a fim de encontrar um terreno com maior potencial para tal fim. E, em segundo lugar, o entendimento em diversas escalas fazia-se necessário para o tipo de projeto que almejávamos: um sistema de espaços livres, que também é uma questão metodológica. Essa primeira parte, portanto, será composta por uma seqüência de leituras, nas quais implicitamente já estão inseridas algumas intenções de projeto, seguindo um processo de aproximação gradual. Enquanto que, para a segunda etapa, parte-se da escala micro, local, para a qual é desenvolvido um projeto específico e, posteriormente, como que em um processo inverso, um distanciamento visual, esboçam-se diretrizes para o sistema paisagístico como um todo.

11

“Interventi minimi richiedono precisione, um precisione che deriva dalla mappatura e dalla comprensione di um sito a scale diverse, con l´intento di lavorares u picooli frammenti per influenzare ambiti più allargati.” In: POLLAK, L. Il paesaggio per il recupero urbano – infrastutture per uno spazio quotidiano che comprenda la ntaura. Revista Lótus, n. 128, p. 36 18 Linda Pollak, AIA, ASLA Associate, é arquiteta, designer de paisagem e educadora. Seus trabalhos, com clientes particulares e comunidades, são projetos que buscam uma formulação imaginativa em relação ao interesse social e ambiental. Seu escritório, Marpillero Pollak Architects, (MPA) faz parte do

NYC Department of Design and Construction Design Excellence Program. In: NEW YORK ARCHICTECTS. Disponível em: <http://www.newyork-architects. com /index.php?seite=ny_ profile _architekten_detail_us&root=76943&s ystem_id=10352>. Acessado em: 15 dez 2008.


12 Figura 5 â&#x20AC;&#x201C; Fotografia do cĂłrrego Pinheirinho no Parque do Basalto, Araraquara.


um elemento: a água “A Geografia é desenhada pelas águas dos rios que esculpem o padrão básico das

colinas e vales. A água é um elemento simbólico, referencial na paisagem urbana. A água do rio é fundamental para a existência da cidade, do agrupamento humano: abastecimento, irrigação, força hídrica, comunicação." 19 A primeira escolha foi a de um elemento físico natural que estruturasse a implementação do sistema de espaços livres idealizado, de forma integrada à cidade. Tal componente foi a água, dado seu caráter de configuração linear, que muitas vezes atravessa partes distintas do território urbano e que poderia atuar como um agente conector, possibilitando o desenvolvimento desse sistema de ‘vazios’ ao longo de sua várzea, onde naturalmente já ocorrem alagamentos. Outra justificativa para o uso da água, é a própria importância direta para a sobrevivência humana e, portanto, para a existência das ocupações urbanas, como bem coloca Alexandre Delijaicov. Essa relação entre pessoas e o seu suprimento básico, a água, em especial a das nascentes e o curso dos rios tem se manifestado de uma forma muito frágil, pois segundo Eni Cardoso Tolle, o homem urbano contemporâneo desvincula-se desse contato porque “ainda que se

passem dias sem que veja um rio ou reconheça a existência de um deles, ele abrirá a torneira e 13

19

DELIJAICOV, A. Os Rios e o Desenho das Cidades. 1998. 108f. Dissertação (Mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.


20

TOLLE, E. C. Nossas águas: uma reflexão cotidiana. In: Revista

USP, São Paulo, n. 70, p. 36-45, jun./ago. 2006.

21

HOUGH, M. Op. cit., p. 29.

terá garantida pelos serviços públicos toda a água necessária para sua sobrevivência, mesmo que às custas do sacrifício e da degradação de terrenos longínquos.” 20 A evidência de que nos desconectamos de uma série de processos de ordem natural, como época do ano, luz do dia e escuridão noturna, ou o próprio ciclo hídrico também é levantada por Michael Hough, para o qual esta questão, a da visibilidade, está intimamente ligada à separação entre esfera humana urbanizada e os espaços menos transformados, tidos como ‘naturais’. Para ele, passamos boa parte de nosso cotidiano em lugares que encobrem os “processos que sustentam a vida, e que seriam um dos responsáveis pelo empobrecimento sensorial do entorno em que vivemos.” 21 Tornar visível esses processos, portanto, seria uma das funções daqueles que projetam os espaços urbanos, em especial os de âmbito público, nos quais essa visibilidade se manifesta enquanto uma experiência coletiva. Uma das maneiras mais fortes de se conseguir tal ato, o de desvelar esses processos, particularmente quanto ao recurso hídrico, é através do poder simbólico da água. Potencial que já foi muito explorado por inúmeras civilizações antigas, e mesmo por séculos de nossa história mais recente:

“A água, talvez muito mais que qualquer outro elemento da paisagem, possui determinados significados espirituais e simbólicos profundamente arraigados, aos quais deve responder o projeto. Como um elemento de grande poder experimental, a água foi 14


historicamente manipulada e empreendida para criar lugares de deleite e beleza; foi um reflexo das atitudes culturais sobre a natureza.” 22 Em nossa proposta, o uso da água, portanto, terá basicamente três intenções principais: a função infra-estrutural, a partir do entendimento do processo de drenagem; sua atuação como estruturadora do sistema de paisagem proposto, devido ao próprio percurso linear que interliga partes distintas de um mesmo território; e por último, a sua importância como suprimento humano vital, evidenciada por um projeto que desperte novos olhares e compreensão de tal fato a partir de uma experiência estética.

15

22

“(...) el agua, quizá mucho más que cualquier otro elemento del paisaje, posee unos significados espirituales y simbólicos profundamente arraigados, a los cuales debe responder el diseño. Como un elemento de gran poder experimental, el agua ha sido históricamente manipulada y conformada para crear lugares de deleite y belleza; ha sido un reflejo de las actitudes culturales hacia la naturaleza.” In: HOUGH, M. Op. cit., p. 81.


Figura 6 - Bacias hidrográficas do Estado de São Paulo. Fonte: Disponível em: <http://www.daee.sp.gov.br/cobranca/cartilha /imagens/comites.png> . Acessado em: 15 out 2008

16

Figura 7 - Micro-bacias na região de Araraquara. Fonte: Plano Diretor de Araraquara, 2005.


a bacia hidrográfia: micro-bacia do ouro

“O bem conhecido princípio de Barry Componer de que ‘tudo está conectado a alguma outra coisa’, se converteu, nos anos noventa, no eixo de uma grande visão tanto regional e global, como local. (...) A compreensão de um lugar determinado, portanto, requer a compreensão de seu contexto: a bacia e a região biológica na qual se implanta.”23 Tomando a bacia hidrográfica 24 como unidade referencial de localização, devido a sua íntima relação com a geografia do território (diferente das demarcações abstratas dos perímetros geopolíticos), elegemos a micro-bacia do Ribeirão do Ouro, pertencente à Bacia do Rio JacaréGuaçu, no Estado de São Paulo, como primeiro recorte (macro) para o desenvolvimento de uma proposta projetual. Segundo dados da prefeitura municipal de Araraquara, a região traz como características o relevo dos Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná, em altitudes que chegam a superar os 750 m, e resultam em formas de relevo mais aplainadas (onde há rochas sedimentares) ou mais onduladas e formando espigões alongados (onde está a rocha basalto e o solo de terra roxa), sendo favorável ao desenvolvimento de uma rede hidrográfica bastante numerosa.

17

23 “El bien conocido pricipio de Barry Componer de que ‘todo está conectado a alguna otra cosa’, se ha convertido, en los años noventa, en el eje de una gran visión tanto regional y global, como local. (…) A comprensión de un lugar determinado, por tanto, requiere la compresión de su contexto: la cuenca y la región biológica en la que descansa.”In: HOUGH, M. Op cit. p.

24. 24

“A Bacia Como Unidade de Planejamento - A necessidade de promover a recuperação ambiental e a manutenção de recursos naturais escassos como a água, fez com que, a partir da década de 70, o conceito de bacia hidrográfica passasse a ser difundido e consolidado no mundo. A Lei 9.433/97 estabelece que a bacia hidrográfica é a unidade territorial para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema de Gerenciamento de Recursos Hídricos. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos - CNRH, aprovou em 15 de outubro de 2003, a Resolução No. 32 que instituiu a Divisão Hidrográfica Nacional.” Disponível em: http://velhochicovivo. blogspot.com/2008/08/aziz-absbercritica-o-projeto-de.html. Acessado em: 15 março 2009.


Apesar de estar dentro do perímetro urbano do município de Araraquara, apenas uma parte da micro-bacia abarca a área urbanizada, uma característica importante, pois traz consigo a noção de conexão desenvolvida por Michael Hough, exposta há pouco. Essa visão ecossistêmica, pela qual tudo está de alguma maneira interligado, nos permite observar o quão importante é o tratamento dado à porção da micro-bacia que está inserida na malha urbana, pois esta influenciará a unidade hidrográfica como um todo e até mesmo as demais à jusante, em especial neste caso em que a ocupação urbana está inserida na área da nascente.

18


19


20 Figura 8 – Carta da configuração urbana de Araraquara em 1971. Fonte: Documento escaneado do acervo da Prefeitura Municipal de Araraquara.


o sítio urbano: araraquara

Uma grande cidade se mede pela sua qualidade de vida. E os habitantes de Araraquara sabem bem o que isso significa. Conhecida como a Morada do Sol, Araraquara está localizada na região central do Estado de São Paulo, considerada a mais rica e de maior poder aquisitivo, além de grande mercado consumidor do Brasil, possuindo uma renda per capita de 5 mil dólares. Fundada em 22 de agosto de 1817, Araraquara é uma cidade moderna, que impressiona bem os visitantes por algumas de suas características marcantes, como o elevado IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), a urbanização, a arborização, o grande número de jardins e praças e a limpeza de suas vias públicas. 25 Araraquara, uma cidade com 192 anos e aproximadamente 200 mil habitantes, pertence à classificação atual de cidade média. Esta nova categoria de urbanidade tem despertado especial interesse de teóricos de diversas áreas, dadas as suas características muito peculiares, até pouco tempo presentes apenas nas grandes metrópoles. O aumento populacional, a expansão horizontal, os problemas advindos da falta de controle e suporte do poder público como desemprego, violência, ocupação inapropriada etc. são sintomas ou reflexos da lógica das grandes cidades, mesmo que em menor escala.

21

25

Breve descrição de Araraquara disponível no website da prefeitura: < http://www.araraquara.sp.gov.br/>. Acessado em: 20 agosto 2008.


22

Figura 9 - Demarcação da área de projeto, seu entorno e pontos referenciais sobre foto aérea de 2008. Fonte da fotografia: Prefeitura Municipal de Araraquara.


A região de uma cidade média seria, nesse sentido, terreno propício para se trabalhar as questões do (des)equilíbrio sócio-ambiental, pois traz um quadro bastante desafiador e paradoxal: possui problemas sociais, mesmo que em pequenas dimensões, atrelados quase sempre aos impactos ecológicos, mas tem ainda grande potencial de mudança, dada justamente à menor complexidade social e à presença de áreas pouco modificadas, algumas com resquícios de traços originais, seja pela vegetação, situação de corpos d´água, relevo e outros. Além disso, é também a oportunidade de se pensar sobre os possíveis problemas já encontrados nas cidades maiores, e aprender a partir deles, a fim de buscar modos de mitigá-los. É justamente essa a postura adotada em nosso projeto, pois atuamos numa área da cidade, melhor explicitada mais adiante, que está em processo de transformação: espraimento horizontal das habitações, vazios urbanos, mas também a presença de alguns elementos físicos naturais com grande potencial paisagístico. Uma situação que demanda planejamento, para que o conflito entre ocupação humana e meio físico seja minimizado, permitindo a valorização de ambos. A leitura urbana da cidade de Araraquara poderia ser realizada a partir desse fragmento, exposto na imagem 9, pois nele está presente muito de seu perfil, em especial duas características fortes: primeiramente, o espalhamento horizontal das edificações, configurando uma situação de vazios que chega ao índice de 50% dentro do perímetro urbano 26; em segundo lugar, a presença na cidade da arborização, que por sua vez tem um potencial que não pode ser desconsiderado: 34 m2 de área verde por habitante 27. O que não significa que não deva haver uma reflexão sobre esse dado, pois de fato qual é a qualidade dessas áreas e como estão distribuídas na malha urbana?

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26

“Segundo informação da própria Prefeitura Municipal de Araraquara – Divisão de Cadastro Técnico.” In: CINTRAO, L. M. G. Os

vazios urbanos da estruturação da cidade de Araraquara. 2004.134 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004, p. 17. 27 Este dado está disponível no website da prefeitura, <http://www.araraquara.sp.gov.br/>, onde este valor é comparado ao índice mínimo recomendado pela OMS Organização Mundial de Saúde, que é de 12m2 por habitante.


Figura 10 - Localização das áreas verdes públicas. Em destaque, à esquerda, algumas delas na porção central da cidade, na seqüência: Parque Infantil, ao redor do qual há uma pista de caminhada; avenida Espanha, corredor verde que conecta a Faculdade de Odontologia, a biblioteca Municipal e o Palacete São Bento; praça Pedro de Toledo, que abriga uma Escola de Ensino Fundamental com o mesmo nome e o Museu Municipal; o Jardim Público; e o Bouvard dos Oitis, que é tombado e passou por reforma recente. E, à direita, algumas da região periférica, respectivamente: Parque Pinheirinho, que possui espaço para banho e recreação; Parque do Basalto, projeto da universidade particular UNIARA (Universidade de Araraquara), mas que provê acesso do público em geral; os dois terrenos ociosos na seqüência aguardam obras de praças; e, por último, uma praça em processo de construção em finais de 2008. Fonte: Mapa de equipamentos públicos e de áreas verdes: cedido pela Prefeitura Municipal de Araraquara. Fotografias de autoria própria.

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Ao observar este mapeamento abstrato de maneira isolada, poderíamos inferir que há uma divisão relativamente eqüitativa das áreas verdes. Entretanto, muitas das que estão demarcadas nesta imagem (figura 10), em especial na periferia da cidade, ainda estão em processo de implantação ou mesmo não possuem projeto de fato, e seus espaços se apresentam como terrenos ‘baldios’. Isso se deve ao processo de crescimento da cidade, que teve duas fases decisivas: de sua formação até os anos 1970, quando ocorria ao redor do núcleo histórico, deixando apenas os espaços livres para praças e jardins, muitos dos quais são mantidos ainda hoje, como o das fotografias à esquerda; e o período a partir desta data, quando o setor imobiliário passa a ganhar peso e encontra especial apoio do poder público. Tal leitura é feita por Luciana Márcia Gonçalvez, atual dirigente da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da cidade, segundo a qual, as políticas públicas municipais teriam incentivado o espalhamento urbano, na época entendido como desenvolvimento. 28

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CINTRAO, L. M. Op cit p. 17.


Figura 11 - Evolução urbana de Araraquara, na qual é possível notar o espraiamento e a configuração de grandes vazios a partir de 1970.

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Essa postura do poder municipal se mostrou bastante problemática, ao longo do tempo, pois a existência de infra-estrutura ociosa, como a de transporte coletivo e telefonia, ao longo de enormes trechos vazios, e a replicação das redes de equipamento público a cada novo núcleo habitacional, como educação, saúde, esporte e lazer, resultaram num encarecimento do custo de vida na cidade. Esse gasto elevado dos serviços, por sua vez, agiu no sentido inverso ao esperado pelos especuladores imobiliários, ou seja, desacelerou o crescimento populacional que a cidade vinha tendo, dada a migração de muitas pessoas para municipalidades vizinhas, cujo custo de vida era inferior. E embora o poder público sempre tenha dado suporte aos novos loteamentos, com a implantação de equipamentos e serviços, muitas vezes as demandas foram maiores que a velocidade de execução das obras oferecida pela prefeitura, daí a desigual qualidade dos espaços livres entre região central e periférica, ou mesmo a dificuldade de manutenção destes últimos. Em contrapartida a esse modelo de urbanidade, que prevaleceu durante algumas décadas e que foi responsável pelo tipo de ocupação do território que existe hoje, há uma nova perspectiva para a cidade, iniciada a partir do Plano Diretor Municipal, desenvolvido entre 2002 e 2004, enquanto uma ação conjunta entre diversos agentes construtores do espaço urbano. Algumas das obras previstas no mapa da figura 10 são frutos deste documento. Em alguns casos, a execução desses projetos encontra-se em curso, como mostra algumas das fotografias.

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Figura 12 – Demarcação em fotografia aérea do anel delimitado pelo Plano Diretor Municipal. Fonte da fotografia: Google Earth.

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a região urbana

“Com o advento do Estatuto da Cidade, que regulamenta os dispositivos constitucionais sobre a política urbana, devemos reconhecer os significativos avanços em relação aos marcos urbanísticos regulatórios, possibilitando a implementação de políticas públicas para uma melhor qualidade de vida, desenvolvimento sustentável e socialmente justo.” 29 O Plano Diretor de Araraquara traz uma visão inovadora no que se refere à área de planejamento do meio ambiente urbano 30, devido à incorporação dos interesses ecológicos, sociais e históricos em diversos instrumentos regulatórios, inaugurando talvez uma nova maneira de se enxergar a urbanização, entendendo-a como uma parte integrante de um território maior. Esse enfoque, dado pelo poder público e explicitado por Luis Antonio Falcoski 31, que trabalhou diretamente na formulação do plano, veio de encontro aos interesses buscados por nosso trabalho, pois alguns instrumentos legais nos deram suporte para a elaboração de diretrizes urbanísticas, ou mesmo para algumas escolhas projetuais, em escala local. A seguir, mostramos alguns dos produtos do Plano que nos auxiliaram: mapas temáticos, como as diretrizes de estratégia de produção, habitação social, mobilidade urbana e zoneamento ambiental.

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FALCOSKI, L. A. N. Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental de Araraquara: instrumentos urbanísticos inovadores e agenda para uma cidade sustentável. In: BUENO, L. M. M.; CYMBALISTA, R. Planos Diretores Municipais. São Paulo: Annablume, 2007. capVII, p.123-170.

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O termo meio ambiente é utilizado por Marília Steinberger, em substituição a urbano ou cidade. Segundo ela, esta é uma área de estudo oficial que se consolida em nível nacional e mundial, a partir do Fórum Global das ONGs, ocorrido paralelamente à Eco 92, quando “se explicitou que a questão ambiental era também uma questão urbana”.In: STEINBERG, M. A

urbano

(re)construção de mitos, sobre a (in)sustentabilidade do(no) espaço urbano. In: Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, n.4, p. 09-32, maio 2001. 31

Luis Falcoski é Arquiteto e Urbanista, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos, Doutorado pela FAU-USP, consultor em Planejamento e Projeto Urbano, foi Secretário de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura Municipal de Araraquara (2003-6).


Figura 13 â&#x20AC;&#x201C; Detalhe do Mapa de Qualidade e EstratĂŠgico Zoneamento Ambiental. Fonte: Plano Diretor de Araraquara, ANEXO I.

30


Figura 14 – Detalhe do Mapa Estratégico de Produção da Cidade e Habitabilidade. Fonte: Plano Diretor de Araraquara, ANEXO I.

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Figura 15 - Mapa EstratĂŠgico de Centralidade, Mobilidade e Acessibilidade. Fonte: Plano Diretor de Araraquara, ANEXO I.

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Entre as diversas estratégias propostas, há dois zoneamentos que foram de especial importância para nosso projeto: os CEUs (Corredores Estruturais de Urbanidade) e os CIECOs (Corredores de Integração Ecológica). O primeiro possui um enfoque de estruturação urbana por meio da mobilidade e pólos de centralidade; o segundo enfatiza os valores ecológicos ao longo de determinados cursos d´água, incentivando a implantação de sistemas de espaços livres ao longo de suas margens, numa faixa mais generosa que a prevista pelo código das APPs (Área de Proteção Permanente). Na seqüência, apresentamos alguns fragmentos da Seção III e IV, que explicam com mais detalhes os objetivos desses dois programas:

Seção III - Dos Corredores e Pólos de Centralidades Urbana Art. 109. Os Corredores e Pólos de Centralidades Urbana apresentam a seguinte constituição de definições e objetivos : I - Corredores e Pólos Estruturais de Urbanidade - CEU, definido como corredores e pólos de incentivo e formação de novas centralidades e espacialidades urbanas, bem como a integração do tecido urbano, representado pela acessibilidade de eixos estruturais da cidade, denominados nesta Lei de Avenida-Parque Ribeirão das Cruzes, AvenidaParque Orla Ferroviária, e Unidades de Conservação e Preservação Histórico-Cultural, incluindo o centro histórico; (...)

33


Seção IV - Das Redes Hídricas e Corredores de Integração Ecológica Art. 110. As Redes Hídricas e Corredores de Integração Ecológica - CIECO apresentam os seguintes objetivos: (...) II - Proteção e preservação da biodiversidade, dos recursos e elementos de conservação natural; III - Melhoria da qualidade ambiental da cidade, estimulando a implementação de ações, instrumentos, programas e projetos estratégicos, visando a criação e implantação dos CIECO, como parques lineares urbanos de integração e acessibilidade dos diversos fragmentos urbanos, integrados ao sistema de áreas verdes e arborização urbana; (...) V - Ampliação das áreas verdes permeáveis ao longo dos fundos de vale, com dispositivos de retenção controlada de águas pluviais e controle de enchentes; VI – Estímulo ao saneamento ambiental, recuperando áreas ambientalmente degradadas juntos aos cursos d´água, e preservação de nascentes em áreas urbanas e municipais; VII - Evitar o uso de corredores viários estruturais nas faixas limítrofes às redes hídricas e CIECO, privilegiando o uso de modais de transporte sustentáveis, e possibilitando referenciais estéticos e paisagísticos para a melhoria da qualidade ambiental de bairros; (...)

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IX - Estímulo ao processo de participação da população em programas de controle, educação e preservação ambiental das unidades, elementos de conservação natural e espaços livres públicos. Art. 111. Para a implementação dos objetivos e programas de corredores de integração ecológica e recuperação ambiental, fica previsto uma faixa com largura mínima de 100 metros ao longo de cada uma das margens dos cursos d’água, fundos de vale ou talvegues do conjunto das redes hídricas I - Considera-se non aedificandi a faixa de 30 metros ao longo de cada uma das margens dos cursos d’água existentes da cidade e no município, destinada a implantação dos CIECO, aplicando-se dispositivos de legislação federal pertinente; II - Considera-se uma faixa adicional de 70 metros, non aedificandi, permitindo-se o uso apenas de áreas verdes provenientes de empreendimentos urbanísticos objeto de parcelamento do solo, para a implantação de Parques Lineares Urbanos nos seguintes cursos d’água : a) Ribeirão das Cruzes b) Córrego do Paiol, c) Córrego do Ouro, particularmente o trecho de integração com o Parque linear da Orla Ferroviária como Corredor Estrutural de Urbanidade; d) Córrego do lajeado. 32

35

32

Plano Diretor de Araraquara. LEI COMPLEMENTAR Nº 350 - De 27 de dezembro de 2005.


Figura 16 – Detalhe Mapa Estratégico de Produção da Cidade. Fonte: Plano Diretor de Araraquara, ANEXO I.

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A partir desses dois programas (CEU e CIECO), pudemos estabelecer um primeiro recorte de aproximação, a demarcação de uma região urbana, formada pelo CEU da Orla Ferroviária, cuja linha para trem de cargas, que atualmente corta a malha urbana, será transposta para a extremidade do limite urbano, e o CIECO do Ribeirão do Ouro, inserido na micro-bacia que estamos tratando. Esses dois zoneamentos compõem um anel, a partir do qual seria possível imaginar uma nova configuração de cidade, que poderia se organizar através do vazio, porém agora, em seu sentido qualitativo. Esse seria composto por espaços livres como parques lineares, equipamentos culturais e de lazer, redes de mobilidade alternativa, como a ciclovia, o transporte coletivo, como VLT (Veículo Leve sobre Trilho), que aproveitaria a infra-estrutura já disponível pela linha férrea etc. Enfim, seria uma oportunidade de encontro social, assim como entre as pessoas e o meio físico, abrindo espaço para uma nova apreensão e valorização deste, não mais enquanto resquício ou sobra, mas como componente de um mesmo mosaico, ou até um dos organizadores desta composição, configurando-se como nova estrutura urbana.

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Figura 17 - Sucessão de recortes de aproximação: bacia hidrográfica (micro-bacia do Ouro) e a sobreposição desta com a malha urbana; o anel indicado pelo Plano Diretor de Araraquara; e por fim, a intersecção dos dois programas do mesmo plano (em vermelho o CEU da Orla Ferroviária, e em verde, o CIECO do Ribeirão do Ouro). Fonte: montagem sobre imagens do PD de Araraquara.

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um trecho urbano – um sistema de paisagem

“Um SISTEMA DE PAISAGEM pode ser ordenado tanto por predominâncias físicas sob forma cristalizada ou por fluxo, presentes na natureza e criados por ação antrópica, tais como: conjuntos de serras, morros, colinas; correntes climáticas; correntes hídricas de superfície, doces ou salgadas (bacias e mares), ou subterrâneas (lençóis); metrópoles, cidades, vilas, articuladas por vias, redes de infra-estrutura e comunicações, auto-estradas e obras de engenharia como pontes, barragens, etc. A UNIDADE DE PAISAGEM é, portanto, uma subdivisão do sistema de paisagem e está muito mais ligada à escala da percepção humana comum.” 33 Do anel composto pela junção dos dois programas do Plano Diretor, CEU da Orla Ferroviária e CIECO Ribeirão do Ouro, destacamos um trecho que é formado pela intersecção de ambos. Essa porção nos interessava pela oportunidade de tratar componentes estruturantes do território urbano (mobilidade e equipamentos públicos, em especial), associados com áreas de APP (Área de Proteção Permanente) do corpo d´água do Ribeirão do Ouro, junto às quais poderia se pensar em projetos de espaços livres.

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33

FRANCO, M. A. Desenho Ambiental. São Paulo Annablume, 1997, p.136


Figura 18 - Leitura de uso do solo do trecho urbano recortado. Fonte fotografia: Google Earth.

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Esta sobreposição poderia ser lida como um sistema de paisagem, segundo a abordagem de Maria Assunção Franco, devido a sua estruturação, em escala macro, pelo próprio elemento natural: o talvegue do Ribeirão do Ouro; e também por características desenvolvidas pela ação humana: o tipo de apropriação e uso do solo, assim como o planejamento futuro para esta porção. Características que, quando associadas, conferem certa unicidade, apesar de ser formada por uma variedade de unidades de paisagem. É uma porção marcada pela fragmentação devido aos grandes vazios urbanos potencialmente especulativos (cercados, em sua maioria, pela ocupação mais recente - últimos 40 anos) e também por causa da descontinuidade das vias principais de ligação inter-bairros. Há uma predominância de uso residencial, com alguns espaços livres como praças recentes e os dois parques urbanos (extremidade direita da imagem: Parque do Pinheirinho e do Basalto), mas também, nas áreas mais transformadas e próximas ao centro histórico, à esquerda, existem algumas indústrias de porte. Os equipamentos públicos ainda são escassos nas áreas que fazem limite com o espaço rural, embora haja um esforço do governo municipal para a implantação de novos postos de saúde, creches e escolas de ensino fundamental e médio. As primeiras leituras desta enorme seção urbana, que ocorreu através de mapas, fotografias aéreas e várias visitas de registro fotográfico compunham um cenário com pouca nitidez, dada a enorme extensão (7 Km) e a descontinuidade de seu mosaico ainda por se constituir.

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42 Figura 19 – Fotografias ao longo do percurso urbano do Ribeirão do Ouro e demarcação (em branco) do tipo de tratamento que recebe nos vários trechos em que passa: meandros (

~~~), cruzamento com vias de automóveis (- - -),

retificado (_____) e canalizado ( \__/ ).


Neste momento, fazia-se necessário o uso de algum instrumento de leitura urbana, capaz de destrinchar os componentes constitutivos de sua trama, a fim de torná-los mais claros, para depois juntá-los novamente e, somente então, entender minimamente o todo. A entrada escolhida, portanto, foi a aproximação utilizada por Kevin Lynch em seu conceituado livro A Imagem da Cidade, que aborda questões relativas à legibilidade urbana, a construção da imagem mental da cidade através de algumas estruturas e da própria identidade estabelecida com o lugar. A imagem da qual o autor fala é aquela formada no subconsciente das pessoas, que seria capaz de atuar como referência para sua locomoção ou apenas como memória de determinada área. Se tais imagens se juntassem, se constituiria o que Kevin Lynch intitula de imagem pública:

Parece haver uma imagem pública de qualquer cidade que é a sobreposição de muitas imagens individuais. Ou talvez exista uma série de imagens públicas, cada qual criada por um número significativo de cidadãos. (...) Cada imagem individual é única e possui algum conteúdo que nunca ou raramente é comunicado, mas ainda assim ela se aproxima da imagem pública que, em ambientes diferentes, é mais ou menos impositiva, mais ou menos abrangente. 34

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34

LYNCH, K. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 51.


Figura 20 – A forma visual de Boston. Fonte: LYNCH, K. Op cit. p. 21.

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Figura 21 - Peça gráfica de leitura do sistema de paisagem que estamos tratando, utilizando-se dos elementos lyncheanos (vias, limites, nós, bairros e marcos), porém com interpretações próprias.


Lynch desenvolve conceitos importantes para a área de apreensão urbana, como a sistematização de elementos que estruturariam estas imagens em nossas mentes, qual sejam: as vias, os limites, os bairros, os pontos nodais e os marcos. Através desses componentes do meio urbano, Lynch realiza uma pesquisa de campo em diversas cidades, levantando as respostas dos cidadãos quanto ao mapeamento desses elementos no meio urbano. Evidentemente não teríamos esse suporte em nosso trabalho – a cuidadosa pesquisa de campo realizada com várias pessoas, todavia nos apropriamos do instrumental de Lynch, ainda que com algumas modificações, de acordo com o enfoque que pretendíamos dar, e o utilizamos segundo uma leitura individual do grande sítio em questão. As alterações que fizemos foram quanto ao critério de classificação de tais elementos: os bairros foram demarcados segundo seu período de implantação, pois no geral cada momento de urbanização guardava características distintas quanto ao tipo de ocupação do solo; os demais elementos – vias, limites, pontos nodais e marcos também incorporaram outras informações, como por exemplo: limites em verde que simbolizam a massa vegetativa densa, ou ainda os marcos em vermelho que apontam equipamentos de educação, entre outros. Feito esse mapeamento, pudemos estabelecer uma linha de contorno para esse sistema, que foi traçada justamente onde ocorre uma mudança marcante de paisagem, provocada por vias de grande fluxo, limites naturais ou antrópicos, existência de marcos ou pontos nodais de porte e diferenciação brusca entre bairros.

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Figura 22 â&#x20AC;&#x201C; Leitura do Sistema de Paisagem segundo 46elementos de Lynch, agora separadas as trĂŞs unidades de paisagem.


E, após olharmos novamente para esse conjunto, foi possível dividí-lo em três grandes áreas, ou unidades de paisagem, explicitados na figura X. Na seqüência, da direita para a esquerda, temos: a primeira unidade, que agrega mais elementos se comparada com as outras duas unidades, uma malha mais rica quanto à densidade e variedade de ocupação do solo, muitos marcos35 (equipamentos públicos e indústrias) e diversos pontos nodais, assim como a importante presença da linha férrea, que é um forte limite ao dividir ao meio a grande área; além disso, sua proximidade visual com o centro histórico indicaria algumas diretrizes paisagísticas de projeto, e também sua possível área de influência, de caráter municipal, dada a localização e a extensão de suas áreas livres. A segunda, embora localizada no centro desse conjunto, é a menos ocupada, reflexo da lógica especulativa, sendo que os bairros em amarelo denotam loteamentos aprovados, mas ainda não asfaltados e sem construção; é, portanto, definida apenas por grandes vias, como a curva da linha férrea que deixa a cidade e a avenida estrutural que se liga à rodovia, sentido Ribeirão Preto, assim como pelos limites da vegetação de várzea e alguns resquícios de cerrado original. Esta porção é, nesse sentido, um importante ponto de entrada da cidade, o que denotaria um caráter de abrangência regional para projetos de espaços livres neste local. A terceira e última unidade de paisagem, localizada na extremidade desse trecho, já faz limite com a área rural – onde predomina o plantio da cana-de-açúcar- e é caracterizada por bairros recentes, não mais que 20 anos, que em geral abrigam uma população de baixa renda. Também se destacam alguns marcos de peso, como os dois parques urbanos – do Pinheirinho e 47

35 O conceito de marco incorporado aqui é um pouco diferente do utilizado por Kevin Lynch, para o qual este seria associado, em geral, a elementos verticais ou em destaque visual na paisagem. Nossa abordagem se aproximaria mais do conceito de marco local, que atuaria como

“indicador de identidade, ou até de estrutura”, sendo “visível apenas em lugares restritos e a partir de uma certa proximidade In: LYNCH, K. Op. cit, p. 53. ”. Nesse caso, associamos os marcos aos elementos referenciais, em geral associado a uso específico.


Basalto, a penitenciária municipal e o aterro sanitário. É uma parte da cidade bastante paradoxal, pois embora possua enormes áreas verdes de lazer, há poucas áreas livres de qualidade inseridas no próprio bairro. É uma região que necessitaria um tratamento cuidadoso na esfera local, na tentativa de melhorar a qualidade de vida das pessoas do bairro, já que a atenção aos equipamentos de abrangência municipal e até regional já estão dadas. Cada uma dessas unidades, como foi visto, apresentam um perfil peculiar, são distintas entre si apesar de diversas semelhanças, o que, na prática, demandaria uma aproximação diferenciada para cada uma delas no processo de projeto de seus respectivos espaços livres.

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49


Figura 23 - Fotografia da maquete de leitura da região selecionada. Sua construção foi realizada pela colagem de imagens do próprio lugar, e a composição final tenta expressar um pouco da 50 fragmentação que há nessa área, estabelecida entre os bairros distintos e entre a ocupação urbana e o meio físico natural.


a unidade de paisagem

“Paisagem não é uma mera superfície visível, uma composição estática, ou um pano de fundo passivo para o teatro humano (...) Paisagem implica na lógica de dar forma, no sensitivo e no estético, incorporado à cultura. A linguagem da paisagem restabelece a conexão dinâmica entre lugar e aqueles que o habitam.” 36 A partir da definição das três unidades de paisagem, teríamos de escolher uma delas para o desenvolvimento de um projeto específico, que levasse em conta as próprias marcas e indícios do lugar e que, ao mesmo tempo, dialogasse com a lógica do conjunto do qual faz parte, ou seja, o sistema de paisagem elencado há pouco, e no limite, a própria micro-bacia do Ouro. A opção tomada foi pela terceira área, devido a sua situação de transição entre urbano e rural, seu paradoxo entre enormes áreas de lazer e pouca qualidade dos espaços livres intra-bairro, sua carência, tanto social e econômica quanto de equipamentos públicos. Enfim, dentre as unidades de paisagem, esta última nos parecia a mais instigante pela quantidade de questões que levantava e, paralelamente, pelas potencialidades que apresentava, enquanto um lugar em construção, que já começa a se consolidar, mas que ainda possui relativo espaço para a configuração de uma nova paisagem. O termo paisagem, por sua vez, quando interpretado pela maioria dos profissionais da área de arquitetura da paisagem, é entendido segundo uma definição próxima a formulada por Anne Spirn. É justamente tal compreensão que incorporamos em nosso trabalho.

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36 “But landscape is not a mere visible surface, static composition, or passive backdrop to human theater; therefore dictionaries must be revised, and the older meanings revived. (…) Landscape connotes a sense of the purpose fully shaped, the sensual and aesthetic, the embeddedness in culture. The language of landscape recovers the dynamic connection between place and those who dwell there.” In: SPIRN. A. “The Language of Landscape”. Connecticut: Yale University Press, 1998.


Figura 24 - leitura da unidade de 3, paisagem segundo elementos de Lyngh

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Figura 25 demarcação sobre fotografia aérea da região escolhida para projeto: o ‘Y’ formado pelos braços do córrego Pinheirinho. Fonte da aérea: fotografia Google Earth.


Essa ressalva é necessária, pois as interpretações são múltiplas de acordo com o ponto de vista de cada profissional. Para o geógrafo Milton Santos, por exemplo, a paisagem seria apenas um “sistema material”, ou “fixos” enquanto que o espaço, “um sistema de valores”, “fluxos” 37. Interpretação que causa algumas discordâncias por autores como Eugênio Queiroga e Denio Benfatti, ao afirmarem que “reduzir a paisagem a um sistema material, à dimensão visível dos sistemas de objetos não permite apreender, sobretudo na escala do lugar, toda a dimensão qualitativa desta “visibilidade” que caracteriza a noção de paisagem.” 38 Embora existam diferenças interpretativas, há uma constante entre essas e as demais abordagens que tentam descrever esse termo, que é a leitura de paisagem como sobreposição de camadas históricas, sendo, portanto, em sua essência, uma construção cultural. É esse ponto central que tentamos não perder de vista ao refletir sobre essa unidade de paisagem e, principalmente ao projetar algumas de suas áreas livres. A delimitação da unidade já havia sido traçada, faltava ainda a demarcação exata da ou das espaços livres a serem de fato projetadas. E tal recorte foi realizado depois de olharmos nosso levantamento novamente e procurarmos pelo ponto que melhor sintetiza a unidade de paisagem. Deparamos-nos, então, com o entroncamento entre os dois braços do córrego Pinheirinho, afluente do Ribeirão do Ouro, que não é apenas a junção de elementos físicos naturais, pelo contrário, é um ponto a partir do qual a urbanização vem se organizando.

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37

SANTOS, M. Sociedade e espaço: A formação social como teoria e como método. Tradução de Maria Beltrão. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n. 54, p. 81-99, 1977. In: QUEIROGA, E. F. BENFATTI, D. M.

Sistemas de Espaços Livres Urbanos: Construindo um Referencial Teórico. Paisagem Ambiente: ensaios (Especial ENEPEA 2006), São Paulo, n. 24, p. 83, 2007. 38

QUEIROGA, E. F. BENFATTI, D. M. Sistemas de Espaços Livres

Urbanos: Construindo um Referencial Teórico. Paisagem Ambiente: ensaios (Especial ENEPEA 2006), São Paulo, n. 24, p. 83, 2007.


Figura 26 - Área recortada para projeto, com demarcações de elementos

lyncheanos.

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Como já foi colocado por Alexandre Delijaicov, a água molda o terreno e esse relevo constituído por sua ação condiciona direta ou indiretamente a ocupação urbana. Nesse caso, por exemplo, o ‘Y’ formado pelos corpos d´água congrega fragmentos dos vários bairros que formam toda a unidade tratada, interfere no desenho das ruas e incentiva a locação de um nó em seu centro, responsável por articular grande parte do fluxo de pedestres, ciclistas e automóveis que se deslocam de uma margem à outra, de um bairro a outro. A partir desse foco, foi possível selecionar pelo menos um exemplar de cada elemento lyncheano, a partir dos quais nossa proposta se estruturaria, enquanto diretrizes e enquanto projeto. Na imagem ao lado, é possível ver tal seleção: Vias. Três situações: uma via de menor porte que liga bairros e uma de maior peso que, se completada, conectaria o bairro à porção sul da cidade. Nesta segunda, há um canteiro central com uma linha de alta tensão utilizado pelos moradores locais para plantio de flores e hortaliças. A terceira via é traçada por caminhos espontâneos de pedestres que refletem a necessidade de se pensar em outras formas de percurso além da de automóveis. Limite. O limite mais significativo é o conjunto do corpo d´água e sua mata ciliar, que ainda guarda alguns traços da vegetação original e se mostra relativamente densa no trecho demarcado. Sua presença é pouco valorizada, como expressa a retificação ocorrida em algumas trechos, o descarte de entulho em suas margens, o plantio de mudas em seu leito, que provoca assoreamento, ou mesmo a construção de uma rotatória sobre seu curso.

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Figura 27 - Fotos da รกrea associadas aos elementos lyncheanos demarcados na figura 26.

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Figura 28 - Fotos da รกrea associadas aos elementos lyncheanos demarcados na figura 26.

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Ponto nodal. Classificamos como ponto nodal a rotatória construída sobre o córrego do Pinheirinho (que passa nesse ponto por um tubo), sendo capaz de articular os vários fluxos já citados, pedestres, ciclistas, automóveis, além de ser um tímido ponto de encontro, numa área em que ainda inexistem praças construídas. A função de conector inter-bairros é ressaltada aos finais de tarde, quando os ônibus escolares e de trabalhadores rurais competem por espaço com automóveis, motocicletas e bicicletas conduzidos pelos que voltam de seus serviços. Bairro. A situação de bairro que escolhemos para projeto está compreendida entre dois tipos de ocupação do solo: a de auto-construção (bairro 1) e a habitação popular padronizada (bairro 2). Há uma série de críticas sobre esses padrões, como o baixo aproveitamento do solo devido ao espraimento horizontal das edificações, a pouca qualidade das habitações e a inexistência de espaços livres consolidados e a baixa permeabilidade do solo. Mas, são realidades com as quais teríamos de dialogar e, ao mesmo tempo, contrapor um projeto ou um plano capaz de pontuar outras possibilidades de ocupação que não ignorasse os aspectos do meio físico, como drenagem, relevo, vegetação nativa, e que também proporcionasse formas alternativas de abrigar populações de baixo poder aquisitivo, visando sua qualidade de vida ao invés do mero lucro financeiro. Marcos. Foram considerados marcos alguns equipamentos de uso público que seriam capazes de servir como referencial urbano para os moradores do bairro. Apontamos três: uma creche recém-reformada pela prefeitura municipal, uma estação de coleta de resíduos de construção civil e o parque do Basalto, que embora projetado e mantido por dirigentes da 58


universidade particular UNIARA (Universidade de Araraquara), provê acesso público. A pequena quantidade de pontos referenciais já denota uma carência de determinados equipamentos públicos no local. Após a demarcação desses diversos elementos que estruturariam nossa proposta, foi possível estabelecer limites mais definidos para a área de intervenção, que resultou num polígono de formação irregular, como pode ser visualizado na figura 29.

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Figura 29 - Delimitação da área de intervenção sobre fotografia aérea. As áreas livres, ainda vazios urbanos, são estruturadas pelos elementos lynchianos explicitados há pouco. Fonte da fotografia: Prefeitura Municipal de Araraquara.


o lugar: personagens e apropriações

“O lugar (...) define-se como funcionalização do mundo e é por ele (lugar) que o mundo é percebido empiricamente. (...) Cada lugar se define como por uma existência corpórea, quanto por sua existência relacional. (...) O lugar não pode ser visto como passivo, mas como ativo, e nele a globalização não pode ser enxergada apenas como fábula. O mundo, nas condições atuais, visto como um todo é nosso estranho. O lugar, nosso próximo, restitui-nos o mundo: se este pode se esconder pela sua essência, não pode fazê-lo pela sua existência.” 39 Nossa aproximação enquanto leitura da área, objeto de intervenção, tentou abordar aspectos não apenas abstratos ou de visualização de sobrevôo, mas também buscou apreender um pouco da experiência dos atores que vivem diariamente neste local. Daí a busca pelo registro de características a nível do lugar, de seus personagens, seus usos, suas formas de locomoção, interação e visualização do meio ambiente no qual habitam.

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SANTOS, M. Da Totalidade ao Lugar. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005. 158163.


62 Figura 30 - Montagem fotográfica com registros de personagens urbano em diversos pontos pertencentes ou lindeiros à área de intervenção.


Personagens. As pessoas que habitam esses bairros são tão simples e espontâneas como as próprias edificações que constroem. A presença acentuada de jovens e crianças nas ruas públicas é um indício da potencialidade que os espaços livres teriam, e que poderiam abrigar também uma determinada quantidade de idosos. Mas, também os trabalhadores poderiam desfrutar de novos espaços de descanso, não apenas nos finais de semana, mas igualmente em seus momentos de retorno do serviço, nas áreas livres ao lado de suas habitações. Ou ainda, se criadas mais oportunidades de trabalho, poderiam ganhar seu sustento no mesmo bairro em que moram, sem precisar de se locomover por grandes distâncias. Algumas formas de mobilidade, por sua vez, se mostram bastante freqüentes, como o uso da bicicleta e motocicleta, que disputam espaço do leito carroçável com o automóvel. Mas há também outras modalidades menos comuns de serem vistas em centros urbanos, como as carroças, que em geral são utilizadas para transporte de resíduo sólido, como de construção civil ou lixo reciclável, para usinas de reciclagem próximas. O trabalho de coleta, assim como outras funções ligadas à baixa escolaridade, são um reflexo do pequeno grau de instrução da população majoritária de tais bairros. Algo que é comprovado pelos indicadores fornecidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) como os índices de analfabetismo por setor censitário, que atingem uma das taxas mais elevadas da cidade neste local.

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Figura 31 – Mapeamento fornecido pelo IBGE sobre número de analfabetos por setor censitário. Os retângulos (em verde) demarcam a localização de nossa área de intervenção. Fonte dos mapas: IBGE Araraquara.

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Figura 32 – Fotografia de alguns estudantes que acabaram de voltar de ônibus de escolas em outros bairros distantes. Fonte: Autoria própria.


Outra questão ligada à educação, é o desligamento entre escola e bairro: boa parte dos estudantes residentes em periferias urbanas assiste aula em escolas distantes de sua moradia. Esse fato gera alguns problemas, como a perda de identidade entre alunos e local de estudo. Após essas análises e identificação de determinadas carências, relacionadas à emprego, educação, cultura e recreação, imaginamos que seria necessário propiciar algo mais que espaços livres de lazer e ócio. Haveria a necessidade de se pensar segundo uma lógica de sistema, composto por vários usos não mais segregados, mas sim justapostos e sobrepostos, mas com o cuidado de, ao mesmo tempo, não anular os valores já presentes no lugar.

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Figura 33 - Montagem fotográfica com registros de apropriações positivas ou negativas em diversos pontos pertencentes ou lindeiros à área de intervenção.


Apropriações. Alguns dos valores construídos ou cultivados nas pessoas residentes da porção urbana em questão são expressos por sua própria forma de apropriação do espaço, segundo ações espontâneas que dialogam com o meio de maneira positiva ou negativa. Um exemplo é o plantio de flores, hortaliças e ervas aromáticas nos canteiros sob a linha de alta tensão, que por lei permite vegetações de até 4 m de altura. São terras ociosas que passam a adquirir um perfil, uma forma ainda que fragmentada e de caráter muito simples, mas que exprime a vontade desses moradores em ter o contado com a terra. A mesma prática é utilizada em diversos outros terrenos livres (públicos e privados), como o cultivo de bananeiras no leito do córrego Pinheirinho. Neste caso, a retirada da camada de vegetação rasteira, onde a arbórea já inexiste, contribuiu para o assoreamento do corpo d´água. Outra ação que também se configura como um desrespeito às áreas de várzea é o descarte clandestino de resíduos de construção civil junto à mata ciliar do mesmo córrego. Tendo em vista que a poucos metros existe uma estação de coleta para tal fim, fica evidente que uma mudança real de atitude das pessoas com o meio em que vivem exige uma reformulação cultural, de valores, à qual a forma arquitetônica pode auxiliar, mas nunca por si só garantirá tal transformação. Ainda sobre valores, nos chamou à atenção a busca pela identidade através da diferenciação. A diversidade é procurada e de certa maneira alcançada até mesmo nos locais em que o padrão e a repetição são uma constante. O bairro Altos do Pinheiro, por exemplo, possui duas faces: uma que pode ser vista pela perspectiva distante, a partir da qual vislumbra-se 67


as habitações populares como cópias exatas replicadas dezenas ou centenas de vezes; e outra, quando se percorre suas ruas, das quais é possível sentir um outro ambiente: fachadas diversas, portões de materiais, cores e texturas muito distintos entre si. Possivelmente as inspirações são os bairros que abrigam a população de renda média, onde muitas casas foram construídas e reformadas por trabalhadores de bairros periféricos como esse, que agora têm a oportunidade aplicar aqueles mesmos valores em suas próprias residências, mesmo que aos poucos (por falta de capital financeiro disponível). Informações como essas que acabamos de trazer nos auxiliaram direta ou indiretamente no processo de projeto que descreveremos a seguir, pois atuaram enquanto indicadores de potencialidades ou, no sentido contrário, serviram como alertas de possíveis distanciamentos entre idéia e campo real. Não que isso tenha significado uma menor liberdade de criação, pelo contrário, pois ao mesmo tempo em que nos despertou um espírito crítico acerca das próprias propostas, nos fez repensar a realidade que é tida como um fato consumado.

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PROCESSO PROJETO: DO MICRO AO MACRO

“Planejamento Ecológico é o processo pelo qual uma região é entendida como um processo biofísico e social compreensível através de operações de leis e de tempo. Isto pode ser reinterpretado quando comparado a ter oportunidades e restrições explicitadas para qualquer uso humano particular. Uma pesquisa irá revelar a locação e o processo mais adaptável (para determinado uso). Projeto Ecológico segue as idéias do planejamento e introduz o conceito de forma. Propõe uma localização intrinsecamente adequada, processos com materiais apropriados, e forma. Projeto requer um designer informado com imaginação visual, assim como habilidade gráficas e criativas. Isto configura uma adaptação criativa revelada através de uma forma intrínseca e expressiva.“ 40 Após as leituras e sucessão de recortes realizados, abordaremos nosso processo de projeto, que em parte já vinha sendo desenvolvido no próprio ato de se pensar o existente. As propostas, algumas alternativas para as problemáticas locais e municipais apontadas, vão ocorrer em duas instâncias: enquanto plano, ou seja, diretrizes conceituais e volumétricas; e enquanto projeto para alguns determinados casos, para os quais serão elaboradas resoluções de desenho urbano segundo as particularidades do lugar.

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“Ecological planning is that process whereby a region is understood as a biophysical and social process comprehensible through the operation of laws and time. This can be reinterpreted as having explicit opportunities and constraints for any particular human use. A survey will reveal the most fit locations and processes. Ecological design follows planning and introduce the subject of form. There should be an intrinsically suitable location, processes with appropriate materials, and forms. Design requires an informed designer with a visual imagination, as well as graphic and creative skills. It selects for creative fitting revealed in intrinsic and expressive form.” McHARG, I. L. 40

Ecology and Design. In: THOMPSON, G. F. STEINER, FREDERICK R. Ecological Design and Planning. New York: John Wiley, 1997, p. 321.


Devido à extensão da área que estamos lidando, não seria possível nem adequado que houvesse um projeto rígido e fechado para esse todo. Dimensões como essa demandariam, em primeira instância, a definição de certos sistemas capazes de reger e restringir as formas de ocupação do solo urbano para a porção, entendendo-a como parte de um sistema de paisagem maior. Muitas dessas indicações já são dadas pelo próprio Plano Diretor da cidade, as quais seguimos em boa parte, mas também propomos alguns contornos que poderiam somar ao que já é colocado por lei. Já em um segundo momento, tratamos de alguns pontos com maior especificidade, ou seja, enquanto projeto. Essas definições com maior precisão são dadas para determinados espaços livres: algumas áreas de pátio e praças, inseridos em uma das quadras propostas; duas situações de ruas existentes que recebem qualificação; e um parque linear criado junto ao córrego Pinheirinho, afluente do Ribeirão do Ouro. E se nossas leituras e entendimento da área ocorreram de acordo com uma aproximação sucessiva de escalas, nosso processo de projeto, por sua vez, partirá de determinadas proposições intrínsecas do local para, a partir delas, delinear novas estratégias de se pensar o meio ambiente urbano.

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Estrutura da unidade de paisagem proposta A partir do mapeamento dos elementos constituintes da unidade de paisagem em questão, foi possível perceber certas carências, em diversos sentidos, nos vários pontos levantados. Mesmo que isso se deva à recente ocupação, o que explica em parte os poucos equipamentos públicos, muitos ainda por se instalar, há algumas observações que já podem ser tiras nas próprias obras construídas. As ruas, por exemplo, oferecem pouca qualidade aos transeuntes, e já se conformam como problema de circulação, ainda que insipiente, em determinados períodos do dia. Os bairros instalados, por sua vez, proporcionam baixa qualidade de vida aos moradores, tanto internamente aos lotes, como nas áreas de uso comum, ainda sem proposição projetual. Enfim, o entendimento desse local segundo uma abordagem mais ampla necessitaria, primeiramente, de uma estruturação geral, a partir da qual se faria possível o desenvolvimento mais específico de algumas áreas. É nesse sentido que propomos uma nova composição urbana, a partir de diretrizes, cujos elementos são definidos de acordo com o seguinte critério: devem se relacionar com as referências do lugar, como as potencialidades de apropriação social e a lógica do meio físico natural (por exemplo, drenagem, relevo e vegetação). E, a partir dessa linha, definem-se os vários sistemas que compõem a implantação geral, que será apresentada a seguir, acompanhada dos diagramas que a constituem.

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Figura 34 – Implantação geral

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Figura 35 â&#x20AC;&#x201C; Diagrama sistema de mobilidade

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Figura 36 â&#x20AC;&#x201C; Diagrama uso do solo.


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Figura 37 â&#x20AC;&#x201C; Diagrama Relevo.


Figura 38 â&#x20AC;&#x201C; Diagrama Relevo.

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A definição desses vários sistemas (mobilidade, uso do solo, espaços livres, vegetação, topografia e drenagem) foi o resultado da análise do lugar e a tentativa do estabelecimento de uma conversa com o existente, ainda que propondo uma paisagem nova e em certa medida bastante distinta dos padrões do lugar. Para o entendimento das operações projetuais, expostas nos mapas anteriores, elaboramos um diagrama síntese dos elementos urbanos criados, utilizando ainda o mesmo método de Kevin Lynch que nos auxiliou na leitura do sítio. Estes serão definidos com mais detalhes na seqüência, assim como as justificativas de cada escolha.

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Figura 39 â&#x20AC;&#x201C; Diagrama de elementos referenciais, baseado na abordagem de Kevin Lynch.

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Vias. O novo delineamento da estrutura viária automotiva ocorre a partir de um traçado que tenta se adaptar o máximo possível ao relevo, preservando alguns resquícios de mata original, ou mesmo dando maior ‘respiro’ aos corpos d’água e suas nascentes. Contudo, preocupou-se, ao mesmo tempo, em não ignorar a malha viária dos bairros adjacentes, provendo interligações com os mesmos. Quanto à hierarquia dessas vias procuramos atender à lógica do meio físico e a conciliação com outras formas de locomoção, como os pedestres e ciclistas. As avenidas de maior fluxo são locadas nas áreas de cumeeira ou pelo menos em porções mais afastas do curso d´água, como é previsto pelo Plano Diretor, ou seja, é um tratamento que vai no sentido oposto ao da lógica rodoviarista que propõe avenidas marginais de grande porte. Há um tratamento diferenciado à avenida dupla (1) a leste da área de intervenção, cujos canteiros centrais abrigam torres de alta tensão, pois vem se configurando como um eixo comercial importante. A partir dela, foi possível traçar uma avenida de fluxo intermediário (2) que cortaria o bairro proposto e promoveria acesso a alguns equipamentos públicos como uma creche e o parque do Basalto existentes, e possíveis outros programas que surgiriam. Para a avenida de interligação inter-bairros (3), uma via que apesar de local abriga uma circulação de uso intenso e potencialmente saturado, propõe-se um binário, a partir da criação de uma rua paralela a esta (4), junto ao bairro que iremos propor, desafogando o tráfego e possibilitando mais espaço para a criação de ciclovias, plantio de árvores, ponto de ônibus e áreas de estar. 83


Junto ao parque linear é delineada uma via de fluxo local (5), em sentido único, e hierarquicamente subordinada às circulações de pedestres e ciclistas. Sua morfologia segue uma outra lógica: ainda que adequada ao relevo, possui um traçado mais orgânico, a fim de incentivar uma velocidade de circulação e de apreensão do espaço diferenciada. Sua forma tenta se adequar à faixa dos 100m de margem proposta pelo Plano Diretor para a implementação de parques junto aos corpos d´água (vide código de leis expostos na página 35). Essa faixa é ampliada na porção mais ao norte, próximo à entrada do Parque do Basalto, onde há resquícios de mata de cerrado, que passa por um processo de regeneração. Nesse ponto, a via sofre uma inflexão (6), criando uma ‘alça’ ao contornar essa área verde de especial interesse. A partir da estrutura viária exposta até aqui, foi possível demarcar outras travessias de menor intensidade ou de caráter híbrido, como algumas ruas internas nas quadras propostas (7). Essas ruas (demarcadas em laranja na figura 35) são obtidas a partir de um deslocamento no sentido diagonal ao das curvas de nível, possibilitando declividades relativamente baixas tanto para acesso dos veículos das habitações, como dos próprios pedestres. Essas ruas também cumpririam o papel de organizar o espaço das próprias quadras, indicando algumas orientações dos edifícios, a criação de núcleos e nichos de encontro social, e a própria forma de locomoção interna. Outra rede de circulação proposta é a do ciclista que ocorre por ciclovia ou por ciclofaixa. Os percursos são propostos de duas formas: de circulação rápida, com a meta da conexão mais simples entre dois pontos (8), ou atendendo aos aspectos da fruição e contemplação da 84


paisagem, com traçado em meandros, como os que ocorrem na área de parque (9). Essa rede tem por objetivo incentivar formas de locomoção ativa e não poluente dos moradores locais, assim como municipais, se pensarmos na expansão de seus vetores. E por fim, a circulação de pedestres, que embora seja mais livre, também é definida a partir de alguns percursos possíveis. Seu deslocamento necessita da mesma baixa declividade demanda pelo ciclista, mas pede a incorporação de áreas de estar, descanso e contemplação com mais freqüência. A circulação interna às quadras será privilegiada, em especial pelas ruas de acesso interno, e nas bordas das mesmas quadras, são previstas faixas livres de edificação (10), que promoveriam uma conexão direta com o parque, configurando uma seqüência de praças. Essas faixas são uma extensão da lógica de áreas livres adotada pelos bairros do entorno, nos quais surgem como resquícios dos cul-de-sac e que ainda não possuem qualificação. Nas demais delimitações de quadra, as calçadas surgem como passeios mais generosos que os convencionais, indo de uma faixa de 3 a 6 metros, de acordo com intensidade de circulação prevista. Algumas travessias possuem ligação direta com o parque linear como a que corta um dos quarteirões proposto (11). Os demais trajetos de pedestres no parque (12) buscam uma menor declividade, possivilitando o maior acesso possível pelo cadeirante, e em suas dobras, ocorrem alguns prolongamentos que abrigam áreas de encontro e estar.

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Limite. O corpo d´água e a mata ciliar continuam atuando como limite (13), porém em alguns trechos propõem-se algumas travessias, por passarelas, ou abertura visual, com a criação de algumas lagoas de contenção (14). Além disso, busca-se uma nova interpretação e valorização desse conjunto formado por mata e água, ao trabalhar suas bordas como transição com as áreas edificadas, que se dará através da implantação de um parque linear. Ponto Nodal. O nó principal escolhido (15), que atualmente é rotatória organizadora do fluxo de veículos de vários bairros, é importante pelo cruzamento que faz com o curso d´água. Nossa proposta é a de separar o nível de passagem de veículos do fluxo do córrego (que atualmente passa por um duto sob o asfalto), a partir da criação de uma ponte. Esta desempenharia não apenas a função de passagem (de automóveis, ciclistas e pedestres), mas também proporcionaria espaços para o estar e a contemplação da nova paisagem criada, marcada por um novo tratamento do elemento hídrico. Assim como esse ponto principal, também são criados outros ‘nós’ menores, como as passarelas (16), os espaços livres gerados nos cruzamos de ruas internas com ruas locais (17), e os próprios entroncamentos de caminhos pelo parque linear (18), nos quais são criados espaços de estar.

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87 Figura 40, 41 e 42 â&#x20AC;&#x201C; Delimitação, gabarito de alturas e corte das quadras propostas


Bairro. A delimitação lateral do principal bairro proposto é obtida através da seqüência de praças, que é a extensão da faixa livre vinda dos bairros do entorno, como pode ser visto na imagem 40. A implantação das edificações busca, por conseguinte, dialogar com esses espaços livres e com as habitações do entorno, a partir de sua disposição de fachadas (criando nichos ou simplesmente estando voltadas para o exterior), e da relação de alturas (nas bordas das quadras os edifícios são mais baixos, entre 2 e 3 pavimentos). A lógica de gradação de gabaritos também ocorre em relação à declividade e proximidade com o córrego, ou seja, nas partes mais baixas do terreno, privilegia-se uma densidade de ocupação menor com relação às quadras das áreas mais elevadas. Essa questão, a da densidade, é um ponto importante, pois se configura como uma resposta alternativa à lógica de espraiamento horizontal das edificações que, como vimos, causa uma série de problemas sócio-ambientais ao território urbano. Com base em alguns cálculos preliminares, obtivemos valores significativos para serem comparados com as situações de entorno. Nos bairros existentes, compostos por habitações de auto-construção e do tipo popular padronizada, ambas horizontais, a densidade é por volta de 115 e 220 habitantes por hectare, respectivamente. Enquanto que nas três quadras propostas, das terras mais baixas para as mais altas, obtivemos os seguintes valores: 260, 330 e 400 habitantes por hectare, ao fazermos uma estimativa aproximada. Mas esses valores ganham especial relevância quando comparamos a relação entre edificação e os espaços livres obtidos entre elas. A riqueza e a multiplicidade potenciais dos 88


espaços atingidos em uma disposição mais verticalizada influenciarão diretamente na qualidade de vida dos moradores, ao mesmo tempo em que funcionam como uma singular estratégia de drenagem, ao possibilitar maior permeabilidade do solo, se comparada com as edificações horizontais. E, por último, as volumetrias propostas que, ainda como diretrizes, são pensadas a partir da distribuição dos seus vazios, ou seja, ocorrem enquanto processo inverso ao da lógica de construir o ‘cheio’ e obter o ‘vazio’ como resquício. Neste caso, estamos privilegiando o vazio como primeiro grau de importância, e ao redor deste desenvolvem-se os volumes. Essa relação entre edificação e espaço livre é interpretada por Christian de Portzamparc segundo uma lógica bastante interessante. A seguir, uma de suas falas é transcrita por David Sperling, obtida a partir de uma palestra que Portzamparc realizou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1997:

“Para o arquiteto francês Christian de Portzamparc, todos os espaços construídos ao longo da história (...) poderiam ser reduzidos a dois tipos básicos e às associações possíveis entre eles. O primeiro seria o marco na paisagem, elemento identificador de lugares e orientador de percursos. Como um signo espacial, confere distinção a si e ao locus onde está implantado. Diagramaticamente, seria representado por uma ocupação vertical em meio a uma clareira, espaço amplo horizontal. Ao marco estaria normalmente

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destinado um local hierarquicamente privilegiado para que possa funcionar como tal, em uma relação de simbiose entre o elemento que marca e o espaço marcado. O segundo seria a clareira, espaço horizontal a ser ocupado; não o espaço infinito, pois que a clareira é definida somente pela existência de limites. Um vazio relacional, região delimitada aberta a acontecimentos. Diagramaticamente, seria representada por um espaço horizontal com uma limitação vertical de sua extensão. Enquanto ao primeiro, espaço em positivo, ocupado, corresponderiam vetores de forças centrífugas, isto é, de fluxos, ações que se dirigem a ele e logo se dispersam, ao segundo, espaço em negativo, a ocupar, corresponderiam vetores de forças centrípetas, que se dirigem ao vazio e nele tomam lugar. 41

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SPERLING, D. M. As arquiteturas de museus contemporâneos como agentes no sistema da arte. Disponível em: <http://forumpermanente.incubadora.fa pesp.br/portal/.painel/artigos/document. 2005-03-14.6817880600#_ftn8>. Acessado em: 10 abril de 2009.

Nesse sentido, entendendo o vazio como um local que possibilita a interação e o encontro social, o vazio relacional, privilegia-se uma série de áreas abertas, espaços livres tanto nas bordas de quadra e como nas áreas internas, configurando determinados pátios. O marco e a clareira (Ilustração: David Sperling)

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Uma das referências conceituais desses espaços internos são as quadras abertas do mesmo Portzamparc, um conceito por ele desenvolvido que explora a relação entre edifícios diversos dispostos numa mesma quadra e seus espaços livres criados. A partir da autonomia das edificações, conseguem-se aberturas visuais e iluminação natural privilegiadas, e os espaços

internos (...) podem variar do restritamente privado ao generosamente público, sem desconsiderar as nuances entre o semi-público e o semi-privado. 42 Em nosso projeto, embora haja uma menor variação formal das edificações do que a defendida pelo conceito de quadra aberta, os blocos propostos buscam uma certa multiplicidade de composição, criando locais diferenciados entre si. São edificações de no máximo cinco pavimentos, e direcionados para moradores de baixa e média renda, sendo que no térreo de algumas há o uso de comércio ou serviço público, e quando isso não ocorre, propõem-se pequenos jardins privados, de forma a garantir certa privacidade domiciliar. A atenção principal nessas quadras, devemos ressaltar, é muito mais o percurso do caminhante, a qualidade dos espaços livres e a criação de situações do que os edifícios em si, cuja forma poderia ser resolvida de maneiras muito diversas, mas seus vazios ainda assim se configurariam segundo essa mesma lógica. Portanto, definiremos com maior precisão algumas de suas áreas abertas e o desenvolvimento das edificações serão apenas enquanto diretrizes volumétricas.

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FIGUEROA, M. Habitação coletiva e a evolução da quadra. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/arquit extos/arq000/esp357.asp>. Acessado em: 25 de abril de 2009.


Marcos. Estes pontos de interesse, como fora dito anteriormente, são entendidos em nosso projeto enquanto elementos referenciais, não necessariamente verticais, portanto, classificamos como marcos alguns programas responsáveis por criar certa dinâmica na área e suprir determinadas carências do bairro existente, assim como as futuras demandas exigidas pelas novas ocupações. Esses marcos, nesse sentido, serão os próprios equipamentos públicos propostos: Uma escola de Ensino Fundamental (EMEF) (19), locada junto à creche existente, compondo com a mesma uma quadra institucional. Próximo dessa, mas na porção pertencente ao parque linear, propõe-se uma Escola Livre (20) voltada para os estudos do Meio Ambiente e Uso do Solo, uma instituição de formação e pesquisa que proveria cursos em diversos níveis para a população local e mesmo de outros bairros. A intenção é que o parque funcione como um ‘laboratório’ desta instituição (21), no qual seriam realizadas atividades de cultivo agrícola sem agrotóxicos e onde determinadas áreas de reserva fossem recuperadas e monitoradas pela mesma escola. Estando numa área em transição entre urbano e rural, essa atividade seria de especial interesse, e se mostraria como uma alternativa às formas de agricultura predatória como a monocultura e o uso de produtos que poluem o solo e a água, e que também são danosos à saúde humana, tão comuns em nossa região. Esse programa é associado à criação de um restaurante popular (22), em uma das esquinas da quadra junto à avenida das torres de alta tensão, o qual proporcionaria uma alimentação rica e de custo acessível, ao utilizar os produtos cultivados no parque. Seria uma 92


forma de incentivo a hábitos mais saudáveis e também uma forma de re-conectar pessoas e ao uso da terra, relação esta que atualmente possui laços muito tênues ou inexistentes, pois, em geral, já não associamos nossa alimentação a estações do ano ou a sua forma de produção, sendo um dos pontos de desligamento entre ser humano e meio físico. Um outro hábito que trabalha a saúde do corpo é a atividade esportiva, cujo incentivo é dado pela implantação de algumas quadras no próprio parque (23), mas principalmente com a criação de um centro esportivo (24) na grande quadra adjacente ao parque linear na porção oeste do mesmo. Esse complexo não será desenvolvido enquanto projeto, apenas como indicação por plano de massas, sendo que sua presença já é prevista pela prefeitura e o terreno já possui certo ajuste de nível para tal. Atuaria, portanto como um complemento das atividades do parque, com uso aberto para a população geral, e como suporte para a escola de ensino fundamental proposta e as demais dos bairros próximos. Também prevemos a locação de um posto de saúde (25) no térreo de um dos edifiícios propostos. A localização é dada junto à avenida de canteiro central criada para acesso às instituições educacionais e ao parque do Basalto (26). E, por fim, como um marco de grande importância temos o próprio córrego (27), em especial no ponto em que se faz mais visível (lagoas), atuando como um local de respiro dada sua amplitude e seu posicionamento em uma cota diferenciada das ruas de relativa movimentação. É também destacado como um local de especial interesse do ponto de vista do caráter ‘didático’ que potencialmente poderia representar, ao entendê-lo segundo a 93


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LYNCH, K. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 51.

interpretação de Frederick Law Olmsted para seus projetos de requalificação paisagística, que em geral somavam aspectos estéticos e infra-estruturais. Todos os elementos descritos até aqui são os pontos síntese que estruturam nossa proposta. A classificação deles, por sua vez, apesar de seguir determina lógica de denominação, não se pretende nem poderia ser compreendida como uma forma de definição rígida, pois, segundo Kevin Lynch, “a imagem de uma dada realidade física pode às vezes mudar de tipo conforme as diferentes circunstâncias do modo de ver” 43. Por exemplo, “uma via expressa pode ser um canal de circulação para o motorista e um limite para o pedestre”, ou seja, as interpretações seriam múltiplas de acordo com a leitura de cada pessoa, como o autor coloca. A organização aqui realizada, portanto, é utilizada apenas como um instrumento de desenvolvimento didático, e não como amarras e restrições de entendimento. E, após a descrição das linhas gerais fundantes de nossa proposta, apresentaremos o desenvolvimento de algumas áreas específicas.

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Projeto: hierarquia de espaços livres

“Os espaços livres urbanos, como Miranda Magnoli (1982) já definira, são espaços livres de edificação, todos eles: quintais, jardins públicos ou privados, ruas, parques, rios, mangues e praias urbanas, etc. Tais espaços formam, nas palavras de Catharina Pinheiro (2004), um ‘tecido pervasivo’, sem o qual não se concebe a existência das cidades, estão por toda parte, mais ou menos processados e apropriados pela sociedade; constituem quase sempre, o maior percentual do solo das cidades brasileiras.”44 A atenção quanto ao desenvolvimento de projeto, propriamente dita, é dada aos espaços livres, que são entendidos enquanto um conjunto, um sistema formado por determinadas esferas de caráter distinto, embora complementares entre si: os pátios, as praças, as ruas e o parque. A diferenciação entre esses espaços muitas vezes é tênue, e a transição entre um e outro é dada de acordo com a disposição das edificações ou das relações sociais que direta ou indiretamente o desenho do espaço condiciona. E embora cada uma dessas esferas seja caracterizada por um tipo de uso ou influencie determinado grupo distinto de pessoas, há um certo diálogo que se tenta estabelecer entre elas. Esta busca por uma unicidade é dada pelo próprio desenho, seja pela disposição de volumes criados, traçados de piso, eixos de caminhos ou disposição arbórea.

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44 QUEIROGA, E. F. BENFATTI, D. M. Sistemas de Espaços Livres

Urbanos: Construindo um Referencial Teórico. Paisagem Ambiente: ensaios (Especial ENEPEA 2006), São Paulo, n. 24, p. 86, 2007.


Escolhas Formais 45

“Ecological mimicry is a component of sustainable landscape design, but the mimicry of natural processes is more important than the mimicry of natural forms. In my experience, natural-looking design landscapes quickly become invisible landscapes and neglected landscapes. (…)” In: MEYER, E. Op, p.118.

“O mimetismo ecológico é um componente do projeto de paisagens sustentáveis, mas a reprodução dos processos naturais é mais importante que a cópia da forma natural. Em minha experiência, projetos de paisagem com aparência natural rapidamente se tornam paisagens invisíveis e esquecidas.” 45 A escolha do traçado de nossa proposta surge a partir de uma reflexão a respeito do que venha a ser um projeto que atue de acordo com a lógica dos processos do meio físico. A busca por espaços que consigam transmitir minimamente tal preocupação não deveria se fundar, em nosso entendimento, na simples cópia da forma dos elementos naturais, mas sim se basear em um entendimento mais profundo de sua estrutura, como, por exemplo, nas questões hídricas, de relevo e vegetação. Nesse sentido, optamos por um desenho que criasse uma tensão: ao mesmo tempo em que é uma intervenção marcadamente empreendida pela ação humana, um artifício, não deixa de atentar para os processos do meio físico e busca uma relação de respeito para com esse. Esse tipo de atuação poderia ser identificada como mímese, ou seja, um processo de projeto que procura interpretar os elementos e os processos constituintes do próprio meio, criando algo diferenciado:

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“Na mímesis grega, a idéia de eleição é ponto de partida; seja a eleição de um especial que se emula, ou a escolha, entre vários, dos mais singulares elementos consagrados em uma composição. Longino, século I, afirma ser a mímesis não a mera cópia, mas a exaltação arrebatada pelo exemplo; não a coisa, ou o objeto em si, mas a força que a produz; uma estratégia que pretenderia tornar o artista apto a ter a visão, revitalizando desse modo a percepção do mestre.” 46 É a partir deste entendimento que optamos por utilizar um traçado marcadamente retilíneo e angulações variantes, a partir dos quais foi possível criar espaços diferenciados entre si, de acordo com a variação da intensidade de rigidez (preponderância de retas) e graus de abertura. Não apenas o traçado compõem as definições formais, mas também a materialidade utilizada possui determinada intenção. Optou-se principalmente pela incorporação de materiais simples e do local, em geral já pertencentes ao repertório da população da área. Esses são, por exemplo, tijolo (em especial os de demolição), blocos de concreto inter-travado (reciclado), toras de madeira de reflorestamento, pedras (em especial basalto, que é da região), gabião, dentre outros. Esses materiais, quando rearticulados a partir da composição do espaço proposto, potencialmente poderiam despertar novas apreensões de paisagem. Na seqüência, apresentamos os espaços livres criados, a partir dos quais essas escolhas projetuais se evidenciam. 97

46 SCHENK, L. B. M. Op cit, p.50, citando LONGINO, Pseudo Longino ou Dionísio. Do Sublime. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Figura 43 – Implantação de uma das quadras propostas.


Figura 44 – Implantação de uma das quadras propostas.

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Pátio

“A soleira fornece a chave para a transição e a conexão entre áreas com demarcações territoriais divergentes e, na qualidade de um lugar por direito próprio, constitui, essencialmente, a condição espacial para o encontro e o diálogo entre as áreas de ordens diferentes.” 47 Das quadras propostas, desenvolvemos com mais detalhe aquela que faz conexão direta com o parque. Nesta, procurou-se trabalhar a permeabilidade dos espaços livres, evidenciada em especial pelo desenho de piso e disposição arbórea. De acordo com a disposição dos edifícios, criam-se alguns ‘nichos’, que hora estabelecem relação com as bordas de quadras e habitações existentes e, em outras com os edifícios entre si, configurando alguns pátios. Estes, embora possibilitem a passagem pública de pedestres, não apenas moradores dos edifícios, já possuem um caráter de uso mais reservado se comparados à situação de praças. Para Hermam Hertzberger são áreas que se constituem como uma transição, um intervalo entre a esfera pública e privada:

99

47 HERTZBERGER, H. Lições de Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes,

2006, p. 32.


100 Figura 45 – Perspectiva detalhe pátio.


“O conceito de intervalo é a chave para eliminar a divisão rígida entre áreas com diferentes demarcações territoriais. A questão está, portanto, em criar espaços intermediários que, embora do ponto de vista administrativo possam pertencer quer ao domínio público quer ao privado, sejam igualmente acessíveis para ambos os lados, isto é, quando inteiramente aceitável, para ambos os lados, que o ‘outro’ também possa usálo. 48 Os ambientes criados em cada um dos pátios são diferenciados entre si, embora haja conexões a partir de aberturas visuais, continuidade de piso e de massa vegetativa. Destacamos um deles, como é possível ver na figura ao lado.

101

48

Idem., p. 40.


Figura 46 â&#x20AC;&#x201C; Perspectiva detalhe de um trecho de praça.

102


Praça

“Se a rua como uma coleção de blocos de edifícios é basicamente a expressão da pluralidade de componentes individuais, na maior parte privados, a seqüência de ruas e praças como um todo constitui potencialmente o espaço em que deve tornar-se possível um diálogo entre os moradores. 49 A seqüência de praças criadas nas bordas das quadras propostas desempenham um papel duplo: primeiro enquanto conector entre as edificações propostas e as casas existentes, e em segundo lugar, como um corredor verde de acesso ao parque linear. Junto às praças, no térreo dos edifícios, em geral são locados estabelecimentos de comércio e serviços, provendo uma dinâmica diferenciada daquela encontrada nas porções de pátio. Mas também há, em outros trechos de praças, alguns dispositivos de recreação, como playgrounds e quadras esportivas, atendendo aos habitantes de ambos os lados da rua.

103

49

Idem, p. 64.


104 Figura 47


Rua

“Se as casas são domínios privados, a rua é domínio público. Dar igual atenção à moradia e à rua significa tratar a rua não apenas como espaço residual entre quadras residenciais, mas sim como um elemento fundamental complementar, espacialmente organizado com tanto cuidado que possa criar uma situação na qual a rua possa servir a outros objetivos além do trânsito motorizado.” 50

50

HERTZBERGER, H. Lições de Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 64.

Das vias criadas ou requalificadas, escolhemos duas situações para tratar com mais especificidade. A primeira é uma rua existente (vide página 56), relativamente estreita para o uso que possui: ligação inter-bairros com fluxo de veículos marcante. Para este caso, é proposto um binário a partir da criação da via paralela a essa. A circulação em mão única desafogaria o trafego de veículos, possibilitariam a implementação de ciclovia, baias para estacionamento e pontos de ônibus. Além disso, com a criação desses canteiros, utilizados para parar carros ou coletivos, seria possível o plantio de árvores, mais afastadas das edificações, promovendo um ambiente mais convidativo para pedestres e ciclistas. Na seqüência, mostram-se dois cortes desta via (um na linha de canteiro e outro no platô de acesso ao ônibus), nos quais pode-se destacar as questões de acessibilidade, iluminação compatível com a arborização proposta e a separação dos diversos tipos de locomoção possíveis. 105


Figura 48

106


107

Figura 49


108

Figura 50


A segunda via, localizada na porção mais alta de nossa intervenção, é um importante eixo viário, pois se conectados seus trechos fragmentados, conectaria extremidades opostas da cidade. O canteiro central comporta uma linha de alta tensão, um significativo elemento vertical que marca a paisagem neste local. A área livre disposta sob as torres não pode receber edificação ou arborização (acima de 4 metros), sendo utilizada pelos moradores do bairro para cultivo de hortaliças e flores (ver página 66). Esta forma de apropriação do espaço é mantida e qualificada, a partir da criação de passeios tanto nas bordas como no sentido transversal aos canteiros, facilitando o acesso à tais áreas. As edificações propostas voltadas para esta rua são predominantemente de uso misto, com comércio e serviço no térreo e habitações nos demais pisos. No primeiro pavimento, o edifício sofre um recuo, junto ao qual se implantam canteiros que sequem o desnível do terreno, e sobre os quais se locam algumas entradas em nível às lojas. O tratamento de piso é dado por blocos inter-travados de concreto, e a diferenciação entre rua de circulação e via de acesso ao bairro é feita através de paralelepípedos. A seguir, tem-se um corte da avenida tratada.

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110


111 Figura 51


112

Figura 52


Parque 51

“(...) Quando interrogado a respeito de parques em uma conferência, Olmsted sintetizou suas idéias de forma concisa, como na conclusão de sua carta de 1868 para a Prospect Park Scientific Association: ‘Um parque é um trabalho de arte, projetado para produzir certos efeitos sobre a mente do homem.’” 51

“(...) When asked to lecture on parks, Olmsted concisely summarized his ideas, as in his conclusion to his 1868 address to the Prospect Park Scientific Association: ‘A park is a work of art, designed to produce certain effects upon the mind of men.” In: MEYER, E. Op cit., p.94.

O parque linear proposto possui, basicamente, três situações distintas de tratamento que, em parte, foram ditadas pelas próprias características do sítio, em especial o relevo, vegetação existente e o elemento hídrico. O tratamento dado ao relevo é uma das principais chaves, pois guarda o traço da intervenção humana em diversos graus de intensidade. A implantação de terraços, por exemplo, possibilita o cultivo agrícola e cria novas espacialidades de acordo com as relações de altura com os usuários. A criação de arquibancadas apenas por contenção com madeira possibilita espaços de estar e contemplação. Ou a simples demarcação do relevo existente que ocorre através de pequenas toras que indicam pontos referenciais. A arborização existente é preservada e recuperada em alguns trechos, configurando situações de bosque, trilhas e estar. E, por fim, o curso d´água que é mantido em boa parte em seu estado original (quando ainda preservado pela mata ciliar), recebendo intervenção mais marcante no ponto de encontro de águas. 113


114 Figura 53


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116 Figura 54 â&#x20AC;&#x201C; Perspectiva parque parte 1


A primeira parte do parque é a que recebe menor transformação, devido à mata ciliar relativamente densa e os resquícios de vegetação nativa nas áreas mais elevadas. Predominam a contemplação, por mirantes e estares, e o percurso, tanto de ciclistas como de pedestres, que nesta área possuem um traçado mais fluído.

Figura 55 – Implantação parque parte 1

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118 Figura 56 â&#x20AC;&#x201C; Perspectiva parque parte 1


O segundo trecho do parque é o que sofre uma maior intervenção em seu relevo. Atua como uma expansão das atividades da Escola Livre, servindo como área de plantio para experimentação de técnicas de cultivo menos impactantes. Esse terraceamento é cortado pelos percursos de ciclistas e pedestres, que ocorrem em nível ou no sentido diagonal às curvas de nível, provendo maior acessibilidade e formas distintas de apreensão do terreno modificado. As conexões estabelecidas com as quadras habitacionais são dadas pelo platô gramado que se estende sobre a via de automóveis, possibilitando acesso em nível. Há também a ligação por um caminho que é um prolongamento do traçado do parque.

Figura 57 – Implantação parque parte 2

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120 Figura 58 â&#x20AC;&#x201C; Perspectiva parque parte 3


E, por último, o conjunto das lagoas de retenção de água de chuva, que atua tanto como infra-estrutura de drenagem, como um novo marco visual para o lugar. A relação com a água é dada pelos caminhos de ciclista e pedestre em suas bordas, pela transposição e contemplação quase em nível através do trapiche, e os espaços de mirante nas bordas da ponte e nas arquibancadas criadas pelo desnível.

Figura 59 – Perspectiva parque parte 3

121


Figura 60 – Maquete de implantação da unidade de paisagem.

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O conjunto da unidade de paisagem Após a exposição das diversas camadas que compõem a unidade de paisagem proposta e a definição mais específica de alguns dos seus espaços livres, voltamos a olhar novamente essa paisagem como um todo, agora modificada. Nela é possível ver a busca por uma configuração urbana que se incorpora aos sistemas do meio físico, e a procura por novos caminhos para se pensar o meio ambiente urbano enquanto conjunto. Evidentemente, a profundidade e a complexidade de tal tarefa demandariam uma atuação de caráter multidisciplinar. Mesmo tendo clareza deste fato, nosso ensaio se faz no sentido de investigar potenciais espacialidades guardadas nos planos de massas de diretrizes urbanas. A leitura e o entendimento das peculiaridades da esfera do lugar são, a nosso ver, instrumentos essenciais para uma atuação mais coerente com o meio.

123


Figura 61 – Maquete de implantação geral.

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diretrizes para o sistema de paisagem 52

“Os espaços livres urbanos formam um sistema, apresentando, sobretudo, relações de conectividade, complementaridade e hierarquia. Entre os múltiplos papéis, por vezes, sobrepostos, estão a circulação, a drenagem, atividades do ócio, convívio público, marcos, referenciais, memória, conforto e conservação ambiental, etc.“ 52 A unidade de paisagem proposta, quando re-inserida no sistema que a compreende, traz novas informações que auxiliam no desenvolvimento das demais áreas. Como, por exemplo, os vetores de circulação (automóveis, ciclistas, percursos de pedestres), o sistema de drenagem (a partir da criação de outras lagoas de retenção) e a criação de um circuito de espaços livres conectados e complementares entre si. Relembrando os conceitos de Linda Pollak53, um pequeno fragmento pode ocasionar influências em campos relativamente extensos.

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Urbanos: Construindo um Referencial Teórico. Paisagem Ambiente: ensaios (Especial ENEPEA 2006), São Paulo, n. 24, p. 86, 2007.

53

In: POLLAK, L. Op. cit, p. 36


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Trabalho Final de Graduacao - TGI