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entre

#2


Vermelhos

em azuis

Olhou para ela. Era difícil ver seus olhos através da penumbra do ambiente. Fumaça, fumaça e mais fumaça. Quase todos tinham um cigarro aceso nas mãos. Mais a neblina etílica que permeava a todos, era ainda mais difícil ver. Só se podia sentir a presença dela ali. O rosto era apenas um vulto, os cabelos emoldurando uma mancha mais clara, envolta em fumaça com aroma de menta. Ele não fumava, só bebia... Um uísque, uma dose de absinto e duas cervejas marcadas na cartela. Além da escuridão e da bruma de cigarros, os olhos já estavam embaçados de álcool. Pegou a mão dela. Pequena, macia, quente. As unhas pintadas de esmalte escuro. Ele não via a boca, mas sabia que estava pintada de carmim, contrastando com a pele muito branca dela. Ela fazia de propósito, sabia que ele adorava o contraste. Sorriu sem que ela visse. Gostava de agradá-la tanto quanto ela o agradava. Um acorde de guitarra, sofrido como um lobo uivando ao namorar a lua, tentou cortar a neblina do ambiente. Absorto em acariciar aquela mão, envolto em nicotina e álcool, pareceu-lhe que o som chegava abafado e distante. Era bom estar ali no escuro, sem que ninguém os vissem. Discrição, mesmo não sendo necessária, era importante. Melhor assim. Ela tocou-lhe a perna com a ponta da sapatilha vermelha. Ela parecia um morango naquela noite, pensara nisso quando a vira mais cedo. Vermelho nos pés, nas unhas, na boca gulosa. Vermelho no casaco de cashmere e nas flores que enfeitavam o tecido leve e branco do vestido. Vermelho no sangue que esquentava a mão que ele segurava com carinho. No sangue que corria por debaixo daquela pele branca e cheia de pequenas sardas. Aquela pele sedosa e cheirosa, cheia de sabor. Ele levantou-se, tirou algumas notas do bolso, mais que o suficiente para pagar a conta e garantir uma gorjeta sincera ao garçom e puxou-a para si, colando sua boca na dela. Através da parede de fumaça, a guitarra continuava a uivar, empurrada por um rolo compressor de baixo e bateria. Abrindo espaço entre a neblina até eles, uma voz rouca cantava sobre um amor bandido, em um blues elétrico e dolorido. As línguas se abraçaram e ele apertou-a, sentindo-a quente e pulsante. O cantor pedia que a mulher o deixasse seguir seu caminho e ele sorriu por dentro, querendo que a mulher que ele abraçava permanecesse em sua estrada, em sua cama, em seu colo.


A retomada Ele não prestava, ela sabia disso. E ainda continuava presa a ele. Continuava grudada, feito o passarinho que não desvia o olhar da cobra até terminar de ser devorado. Ele não a merecia, ela sabia disso. E continuava ali, se humilhando, se deixando levar, vivendo um dia de cada vez. Contando as horas, esperando que elas fossem as últimas. E ele continuava a maltratar-lhe. Não fisicamente. Era pior. Ele a maltratava psicologicamente. Mentalmente. Espiritualmente. Ele envenenava-lhe o sangue dia após dia. E com isso ela bebia. E se encharcava de uísque, vodca e steinhaeger com cerveja. E apelava para caipirinhas de maracujá ao som de Nina Simone e Ella Fitzgerald para poder pegar no sono. Só para acordar no dia seguinte e ter de passar o dia a seu lado. Sentindo asco, dor e vergonha. De ser fraca, de se submeter por qualquer coisa. Por não ter os culhões que uma mulher de verdade teria de mandá-lo à merda e tomar nas próprias mãos o próprio destino. Sua mãe não lhe criara para aquilo. Seu pai não a levara a museus e ao Quebra-Nozes ano após ano para que ela se sujeitasse àquilo. Ela era uma mosca morta. Uma imprestável. Uma qualquer. Só isso poderia explicar como é que ela se deixava dominar por ele. Sozinha em casa, encheu novamente o copo de suco de maracujá com um bom gole de cachaça e duas pedras de gelo. Sem açúcar, que era pra não engordar. Era uma imprestável, mas era magra. Riu sozinha de sua condição. Uma otária. Mas uma otária magra. Olhou-se no espelho. Era magra e ainda tinha uma bunda bonita. Trinta e sete anos e a bunda estava lá, durinha, sem um furinho sequer. Podia não ter fibra, mas tinha uma genética que permitia biquínis e garantia assovios. Admirando o próprio traseiro, deu-se conta que não precisava mais dele. Com aquela bunda ela arrumaria coisa melhor. Era só ir ao salão, dar um trato no visual, ajeitar o cabelo. Dar um tempo na bebida pra melhorar as olheiras. Se bem que largando daquele encosto, poderia dormir melhor e a aparência melhoraria também. Deu uma gargalhada de fazer inveja à uma pomba-gira e arremessou o copo ainda pela metade contra a parede. Ria agora. Finalmente se sentia livre dele. Só a bunda salva! Deu um tapinha nas próprias nádegas, só para se sentir mais dona de si. Estava certa! Aquele traseiro podia conseguir tudo! Tinha um belo espécime da preferência nacional. De posse de toda aquela exuberância, era capaz de conquistar o mundo! Se para ele, nada que viesse prestava, ela o largaria de lado e trilharia seu próprio caminho, ela era poderosa, ela tinha uma bunda sem celulite! Jogou-se na cama. Leve, confiante, senhora de si. Pela primeira vez na vida ela tinha certeza do que era capaz. de se livrar dele Amanhã mesmo mandaria aquele emprego à merda e começaria uma vida nova. Adormeceu de bruços, sorrindo, decidida a pedir demissão e com uma certeza na cabeça: uma bunda sem celulite não era garantia de sucesso, mas já era um bom caminho andado.


Memórias

Betinho resolveu se casar num feriado. Dia das crianças, Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, você pode escolher. Pra mim era apenas mais um feriado e casamento do Betinho. Betinho e sua mania de querer aproveitar as coisas. Esperou um feriado numa sexta e casouse. Perturbou a todos por um ano com emails e recados no celular, para quem ninguém marcasse nada e fosse no casamento. Acho que ele conseguiu, estávamos todos lá. A parentada toda e nós, a turma do colégio. Estudamos juntos a vida inteira, do jardim de infância ao vestibular. Quase quinze anos juntos. Três caras e quatro meninas. Inseparáveis. Eu, Betinho e Lauro. Dedéia, Carminha, Vanessa e Melissa. Depois do vestibular, cada um pra um canto. Cada um com uma vida diferente. Vinte anos depois, todo mundo ali junto, no casório do Betinho. Acho que foi uma das únicas vezes, naquelas duas décadas que a turma tava toda reunida. Todo mundo casado e com os filhos, exceto eu, é claro. Se bem que tenho uma filha. Mas ela não estava lá comigo e, se dependesse da biscate da mãe dela, não estaria com ela nunca, nem mesmo no aniversário da criança, que era a única vez que ela deixava eu ver a garota. Fazia questão não. Tem hora que acho que é melhor assim mesmo. Betinho continuava idêntico. Só com alguns cabelos brancos nas têmporas. Lauro agora estava gordo e careca. Broxa talvez. Eu também não havia mudado muito. Ter chafurdado alguns anos na lama do fundo do poço só haviam me presenteado com rugas. Nada

mais. Eu ainda tinha cabelo. Minha barriga era a mesma de quando saí da casa de meus pais pra estudar fora e continuava sendo apreciado pelas mulheres com quem saía. Carminha e Melissa tinham dois queixos agora. Nem se pareciam as duas porraloucas que atazanavam a vida de todo mundo no segundo grau. Uma com três filhos e a outra com dois. Cinco pestinhas. Dedéia continuava igual. Feia e engraçada. Divertida até dizer chega. Mas posso afirmar que o tempo fez bem a ela. Cheguei a cogitar a hipótese de saber se ela ainda tinha pensamentos pecaminosos comigo. Mas o marido dela não parecia ser de muita brincadeira e deixei pra lá. Vanessa não tinha engordado, mas estava completamente diferente. Continuava com o mesmo sex-appeal, mas tinha algo de destrutivo nela. Melhor nem brincar. Já sou destrutivo o suficiente sozinho. Ficamos um tempo os sete, lembrando histórias, rindo. Me diverti um bocado na festa, tomando cuidado para não beber. Deixei isso para o Lauro. Antes da final da comemoração ele já estava dando vexame e teve de ser levado embora pela mulher e o filho. Acabei ficando quase sozinho num canto depois de um tempo. Apreciando aquelas pessoas com quem convivi praticamente metade da minha vida. Por sorte, Betinho casara-se numa cidade vizinha à nossa cidade natal e fui poupado de ter de encontrar com mais gente conhecida. Não suportava aqueles olhares. Bando de imbecis. Caretas, conservadores e babacas. Gente que lotava igrejas e templos mas não era capaz de perdoar ou de dar uma segunda chance. Escrotos! Fiquei até ver Betinho com o olhar tão torto quanto à gravata. Despedi-me e fui para o hotel. Queria voltar pra casa no dia seguinte e teria de acordar cedo para conseguir isso. Morava agora em outro estado e teria de baldear duas vezes. Três ônibus diferentes e torcer para nenhum atrasar. Só assim conseguiria chegar em casa em menos de oito horas de estrada. Primeiro trecho... até minha cidade natal. Com sorte, ficaria lá menos de quinze minutos. Com azar, uma hora e meia. Mas era melhor assim. Ter ido para um lugar onde não conhecia ninguém e ninguém


me conhecia foi uma das poucas coisas certas que fiz na vida. Melhor jeito de lidar com a tentação era ficar longe dela. Sacolejei durante quarenta minutos até rever a cidade onde nasci. Nada mais me prendia lá. Ainda bem. Tirando duas ou três pessoas, queria distância daquilo tudo. Saltei na rodoviária e conferi o relógio. Estava com sorte, menos de dez minutos para o meu ônibus. Me deu fome e fui até o bar. Estava terminando meu salgado com refresco de caju quando uma voz familiar pediu um maço de cigarros. Me voltei e era ela. Não era uma daquelas duas ou três pessoas que citei antes. Pensando bem, podia ser. Gostava dela e sabia que ela gostava de mim também. Ela continuava igual. A mesma cara de menina. Mulata de pele brilhante e um corpo! Um corpo que a mania que ela ainda tinha de se vestir feito homem não conseguia esconder. Curvas e curvas que se mantinham desde que a conhecera. Para minha tristeza, vi vários fios brancos salpicando os cabelos dela, presos atrás num rabo de cavalo frouxo e displicente. - Lembra de mim, menina? - Mas péra... - ela analisou meu rosto e depois de alguns segundos, o sorriso dela se abriu. Continuava o mesmo... largo, brilhante, cativante - você não é o ...? Foi a minha vez de sorrir, tentei dar a ela o sorriso mais sincero que pude. Acho que consegui - Sou sim... estou de passagem. - Não vem aqui tem tempo, né? - Quatro anos. Só vim porque Betinho casou, lembra dele? - Vagamente... Ela continuava linda, mas uma aura de cansaço a envolvia. - E aí? O que anda fazendo da vida? Casou, menina? - Eu não podia ser mais babaca com essa pergunta. Ela sorriu e apontou uma moça morena, baixinha e sem-graça que comprava passagem do outro lado da rodoviária. - Tem uns dois anos que tou morando com ela. Tou me acostumando ainda. Mas ela é boa pra mim... - Resolveu escolher um lado então, não é? - Mais uma... eu era especialista em frases idiotas e desnecessárias. Mas ela não entendeu assim e voltou a sor-

rir. Um sorriso triste e cansado. - A gente era muito doido aquela época. Acho que se algumas coisas não tivessem acontecido, outros rumos teriam sido tomados, não é? Uma lembrança ao mesmo tempo boa e dolorosa me envolveu. Foram meses de deliciosa irresponsabilidade e loucura. Não haviam limites para nós. Vários daqueles amigos haviam ficado pelo caminho. Éramos sobreviventes. Acho que era por isso que nos entendíamos. Fui obrigado a concordar. - Tem hora que acho que estamos aqui por milagre. - Não deixa de ser, não é? - a morena se chegou a ela, enlaçando-a pela cintura. Até tentei, mas não consegui ter nenhum pensamento lascivo em relação às duas. Só mesmo minha antiga amiga mexia comigo - Essa é a Bianca - Ela me estendeu uma mão mole e fria. Algo nos olhos dela sabia onde eu entrara na vida da mulher dela e isso não a agradava muito. Resolvi fazer graça, já sabendo que não ia dar certo. - Prazer, Bianca... Vê se coloca juízo na cabeça dessa menina e a faz parar de fumar... Ela sorriu por obrigação e Ju respondeu: Já diminuí muito... e você? - Parado à três anos. Com tudo. Exceto uma taça de vinho no almoço de domingo e duas no Natal. Não posso mais. Só estou aqui por isso. Fomos interrompidos por meu ônibus, que encostou levantando uma nuvem de poeira. Me despedi das duas com beijinhos no rosto. Fiz questão de acertar o canto da boca de ambas só por pirraça. Nenhuma reclamou e Jurema - lembrei de como ela odiava o nome - ainda se deixou demorar um pouquinho. Talvez em homenagem à quando eu era a exceção nas preferências dela. Saíram caminhando rápido, sem olhar para trás. O motorista começou a recolher os bilhetes. Voltei-me para o cara do bar, um moleque cheio de espinhas, e pedi uma garrafa de água mineral, dessas de um litro e meio. Meus demônios começavam a querer acordar e uma vontade brutal de álcool começava a me assolar, ia tentar afogar os malditos com água sem gás. A mesma água que ia usar para lavar da minha cabeça a lembrança daquela mulher e do tempo que passei com ela.


Sexta-feira, três e meia da manhã. A cidade dormia, bêbada e feliz. As festas já haviam se acabado todas. Os últimos cabarés e botequins já haviam fechado as portas, os galos ainda cochilavam e o silêncio só era quebrado por algum motor ao longe ou um cachorro apreciando a lua. Ele era a única pessoa na rua àquela hora. Havia pego carona em um caminhão e saltara naquela cidade. De seu, uma mochila de lona com algumas roupas, uma panela velha, uma garrafa com água e um guarda-chuva com o cabo quebrado. Por sorte a noite estava quente e agradável. Havia colocado a mochila sob uma árvore na praça e a usava como travesseiro. Contava as estrelas, pensando em como seria voltar para casa depois de mais de três anos como andarilho, percorrendo o país sozinho, praticamente a um passo da mendicância. De repente, algo o chamou a atenção. Vinda de uma rua perpendicular à praça, uma mulher de uns vinte e cinco anos caminhava, trôpega, em direção a ponte sobre o rio que cortava a cidade. Ficou em pé de um pulo e escondeu-se atrás da árvore, sem nem bem saber o motivo do gesto. A mulher usava um vestido de festa e calçava sandálias prateadas de salto alto. Apesar do andar meio cambaleante, ela não parecia bêbada, somente desorientada. De longe, ele foi acompanhando-a, esgueirando-se por entre as sombras, apesar disso não ser necessário. Ela não olhava para trás. Quando ela chegou no meio da ponte, descalçou as sandálias, deixando-as sobre o passeio e sentou-se no parapeito. Ele ficou com medo de que ela fosse cair, se jogar e resolveu mostrar que estava por ali. Começou a cantar baixinho e veio para luz, cambaleando como se estivesse embriagado. Ela virou-se para ele, pela primeira vez. Tinha os cabelos cortados na altura dos ombros, castanho-escuros e olhos tristes. Os olhos dos dois se cruzaram, mas ele manteve a farsa até estar bem

perto dela. Parou, gingando de um lado para o outro. Completamente sóbrio, mas agindo como se nunca houvesse tirado a garrafa das mãos. - Cê vai pulá? - E isso te interessa? - Ó, mas é claro! Só num sei se é bão tomá banho gelado essa hora da noite, dona! - de um pulo ele se colocou em pé sobre o parapeito e começou a se balançar, segurando um poste de luz. - Você é doido? Ela virou-se, saindo do parapeito e voltando para o passeio, segurando-o pelas calças e puxando-o, para evitar que caísse. - Não, nem um pouco. Só não queria assustar você... e quer algo mais inofensivo que um bêbado? - a voz dele agora ela firme, assim como seus gestos. Os olhos dela fuzila-

À beira


ram-o, irritados por terem sido enganados - Você ia pular, não ia? - ... Ele a segurava pelos ombros, suave, mas firmemente. Olhos nos olhos - Porque ia fazer isso? Normalmente não é a melhor solução. E ainda ia te estragar a escova - ela não conseguiu reprimir um sorriso e ele continuou - Olha, você deve estar pensando quem é esse maluco que está me segurando nessa madrugada, né? Eu sou um andarilho, nunca imaginei passar por aqui, mas o destino me colocou ali, embaixo daquela árvore justamente na hora que você ia fazer uma besteira. Acha mesmo que essa era a única saída? - Não sei... mas tou oca por dentro. Era pra eu estar morrendo de felicidade. Acabei de ser pedida em casamento. Olha só - ela pegou o vestido,

do nada

exibindo-o - Lindo, não é? Ele que comprou, custou uma nota. E eu não faço a mínima idéia porque eu ainda deixo ele pensar que pode me fazer feliz... conveniência é uma merda - lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, transformando a maquiagem em um borrão. Eles continuaram a se olhar, fixamente. Em um impulso, ele puxou-a para si e beijou-lhe a boca. Há anos, desde que caíra na estrada, que praticamente vivia sem o sexo oposto. Exceto uma ou duas aventuras ocasionais, sua vida era de celibato quase total. Ela recuou um pouco no primeiro momento, mas acabou se entregando àquele desconhecido, de roupas surradas e cheirando a suor. Ele não tomava banho há dois dias, a barba estava por fazer e o cabelo, grande. Ela não fazia a mínima idéia de onde ele teria vindo ou quem ele era, mas quando deu por si estava puxandoo, colando mais ainda seu corpo no dele. O homem pegou-a pelos quadris e sentou-a novamente no parapeito da ponte, agora com as costas para o rio. As mãos sôfregas dos dois libertando um ao outro de suas dificuldades até que ele conseguiu possuí-la. A mulher beijava-o, arranhava suas costas, puxava-lhe os cabelos. Nunca havia tido uma experiência como aquela, tão inusitada, perigosa e tresloucada. Sentada na ponte, ela recebia-o, puxava-o para dentro de si, mais e mais, agradecendo por ele ser desconhecido, por ele não julgá-la, não olhar para sua condição ou seu passado. Ali eram apenas os dois, um homem e uma mulher. Amando-se em uma ponte deserta no meio da madrugada de uma cidade igualmente deserta, perdida nos rincões do país. Atingiram o clímax juntos, ele se aninhando nos seios dela, que o abraçava mais forte, em um gemido rouco e abafado. Amortecida pelo prazer, ela desequilibrou-se, pendendo o corpo para trás, ele tentou segurá-la, abraçandoa, mas o peso do corpo dela era excessivo, arrastando os dois para o rio que corria, sombrio e veloz, sob a ponte.


(des)Acertando ponteiros

Entrou na loja. O shopping estava às moscas. Segundafeira, vinte minutos antes do fechamento das lojas. Dia 28. Ninguém nos corredores. A vendedora, uma morena de cabelos amarrados em coque e sombra esverdeada nos olhos estava debruçada no balcão, alheia à tudo, brincando no celular. Ele pigarreou, chamando a atenção da moça, que levou um susto e empertigou-se com o melhor sorriso amarelo da praça - Boa noite! Em que posso ajudá-lo? Ele se aproximou, sorrindo também e tirando um relógio do bolso - Eu comprei esse relógio com vocês um tempo atrás. Agora a bateria acabou, vocês têm dela pra trocar? A atendente com um “Regina” escrito no crachá pegou o relógio, analisando o modelo - Nossa! Tem tempo, hein? Não vejo um desses aqui há anos! Quando você o comprou? - Tem uns quatro anos, nunca me deu problema. Hoje eu cheguei atrasado no trabalho porque ele parou e eu não notei. Levando em conta o tempo, nem posso brigar com ele, não acha? Ela olhou para ele e sorriu, abaixando-se em seguida para procurar a bateria sob o balcão. Quando ela levantou-se, com a caixa de baterias e ferramentas na mão ele notou que,

na mão direita dela, havia uma marca mais clara no dedo anular. Ficou observando-a trabalhar. Em instantes ela havia aberto o relógio e trocado a bateria. Quando ela foi acertar as horas no relógio recém-consertado, ele resolveu arriscar. - Ainda dói? Sem entender nada, ela olhou para ele, que, delicadamente, levou o dedo até a mão dele, tocando suavemente a marca - Aliança? - Ela assentiu com a cabeça, sem falar nada, mas ele reparou que os olhos dela tremeram, como se temessem se molhar - Eu te entendo... - colocou as duas mãos sobre o balcão, retirando um largo anel de prata do anular esquerdo, deixando à mostra uma marca bem mais fina e clara na pele do dedo. Sem levantar os olhos, completou Três semanas ontem. E não... por mais que pareça, isso não é uma cantada, tá? Só me deu vontade de desabafar... Ela tocou-lhe a mão, a pele dela era morna e macia. Sem que os olhos dos dois se cruzassem, enfim ela respondeu. - Quatro dias, e dói como se nunca mais fosse sarar...

EntreAspas #2  

Coletânea de contos de Lionel Mota

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