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Shhh...

Ele deitou-se ao lado dela, de bruços, apoiado nos cotovelos para poder olhar melhor para seu rosto. - Você é linda, sabia? Ela olhou fundo nos olhos dele e um arrepio percorreu-lhe espinha. Aquele jeito bovino de olhar, o sorriso idiota nos lábios. Algo lhe dizia que ele ia fazer aquilo. E ela não queria. Ela não queria absolutamente que ele colocasse tudo a perder. Ela o achava interessante, inteligente. Não era grudento, nem sumia. Era tudo na medida exata. Só ligava quando ela já começava a sentir falta. Parecia que ele adivinhava o momento de carência dela. Quando ela queria, ele estava disponível, quando ela não estava afim, ele simplesmente ia viver a vida dele. E ele continuava a olhar para ela daquele jeito imbecil que somente um apaixonado consegue. O frio na espinha começou a se espalhar por todo o seu corpo, atingindo áreas que, até instantes atrás, estavam em

brasa. Como sempre, o sexo havia sido ótimo, ele a levara a lugares que ela não ia há um bom tempo e era grata a ele por isso. Assim como era grata pelo carinho e respeito que ele tinha por ela. Mas aquilo era muito, era demais. Só se conheciam há dois meses. Era muito pouco tempo para receber uma responsabilidade daquele tamanho. Ela não estava preparada para aquilo. Quase perdeu a respiração quando notou que ele preparava o fôlego para poder falar algo. Para poder falar aquilo que ela não queria ouvir naquele momento. Daí há algum tempo, quem sabe, talvez, mas ali, naquele hotel, naquela cama, naquele momento, não. Nunca. Num ato reflexo, levou o dedo indicador aos lábios dele, pedindo silêncio, e com os olhos arregalados, falou o mais baixo e menos desesperadamente que pôde. - Por favor, não fala mais nada, não me quebra o clima...


Abriu a janela do quarto e olhou para a piscina da pousada. Estavam ali há quarenta horas e não haviam sequer aberto a janela. Só abriam a porta para receber a comida que pediam pelo telefone. Quarenta horas copulando feito coelhos no cio. Agora estavam ambos exaustos e precisavam de um pouco de ar. Ela concordara em sair um pouco da pousada e agora tomava banho para passearem um pouco. Ele já estava de banho tomado, roupa trocada e olhava pela janela, fumando um cigarro, o primeiro naquelas quarenta horas. Ela não permitira que ele fumasse, para não empestear o quarto e as roupas. Tragou prazerosamente o cigarro e começou a relembrar como havia parado ali, numa aventura que seus quarenta anos, dois divórcios e um filho não pareciam aceitar. Sempre fora um homem pacato e calmo, dado a poucos deslizes. Era sempre o mais sensato. Praticamente um babaca. Um otário. Até quarenta horas atrás. Aniversário de uma amiga em comum e ela apareceu. Inteligente, divertida, sensual e desbocada. O oposto dele. No início ele achou que ela só queria tirar sarro dele. Até ela mudar de lugar para sentar-se ao lado dele e apertar-lhe a coxa enquanto sussurrava obscenidades em seu ouvido. Quando a festa esfriara e as pessoas começaram a ir embora, ela pediu-lhe uma carona. Foram até o carro e ela pulara em cima dele antes mesmo dele ter aberto a porta. Atracaram-se no meio da rua mesmo. Entraram no carro aos beijos e amassos. Ele sugeriu irem a um motel e ela fez a proposta

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louca. Porque não pegavam a estrada e iam para um pousada qualquer na Região dos Lagos? Passaram em uma mercado aberto a noite toda e se municiaram de preservativos, refrigerantes e vodca. Encararam duas horas e meia de carro até uma pousada em frente à praia. Uma viagem completamente louca e irresponsável. Janis Joplin e Tim Maia berrando nos auto-falantes, abençoando aquela inconseqüência. Acordaram o porteiro que não entendia aquele casal tão diferente. Uma menina de cabelo azul e piercings com um tiozinho com jeito de professor - o que realmente era, história - os dois rindo alto e falando bobagens, se agarrando sem cerimônia e fedendo a álcool. Enfurnaram-se no quarto sem pensar no dia de amanhã, quase dois dias depois é que saíam. Ela desligou o chuveiro, cantarolando uma música idiota qualquer. Ele estava cansado e moído por aquela aventura. Ela era uma mulher tão sensacional quanto impetuosa. Diametralmente oposta ao jeito dele. Mas ele estava adorando tê-la junto a si. Pela primeira vez em anos sentia vontade de viver e não apenas deixar a vida seguir seu próprio rumo. Apagou o cigarro e jogou-o pela janela, estava tudo tão bom que ele nem havia ainda pensado em como seria assumir que queria namorar com a filha da melhor amiga da mãe de seu filho.

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Matinê Eram as mesmas músicas de quando ele era criança. Impressionante como o mundo era cíclico. Girava, girava e nunca saía do mesmo lugar. Olhou para o filho, um garoto de quatro anos que parecia ser a única coisa realmente importante que havia feito na vida. O moleque tinha ficado lindo de pirata. Lembrou de si mesmo, dos carnavais em que a mãe fantasiavao junto com os irmãos e os carregava para os bailes do clube da cidade. Lembrava das fotos amareladas do velho álbum na casa dos pais. Ele de pirata, índio, Homem-Aranha. Lembrava claramente que foi aos matinês até os sete anos. Depois desistiu, cansou, parou. Nunca mais brincara carnaval. Não lembrava o motivo. A única recordação era de um belo domingo de carnaval ter anunciado que não iria ao bailinho das crianças. Era o irmão do meio. A mãe julgou que ele tinha direito de escolher e deixou-o em casa, carregando pela mão um sultão e um índio. Eles saíram e ele também. Montou na bicicleta e partiu para a pracinha perto de casa.

Ficou rodando por horas na calçada oval. Até quase escurecer. Sozinho, sem pensar em nada. Só pedalando, sentindo o vento quente de fevereiro no rosto. A cidade toda estava dedicada aos festejos de Momo e a pracinha era só dele. As calçadas eram totalmente suas. Pedalava e pedalava. Ora mais lento, como se passeasse, ou correndo, numa disputa imaginária. Naquele momento, lembrando da infância, deu-se conta que sua vida, desde então, era uma repetição do movimento iniciado na pracinha. Voltas e mais voltas sem sair do lugar. Fora um estudante sem brilho, mediano. Conseguira passar raspando para uma faculdade pública. Se formara sem transtornos ou glórias, nunca acima do razoável, nunca abaixo do aceitável. Passara para um emprego insosso e sem graça em um concurso público. Namorara, casara, tivera o filho e ela o largara logo em seguida.

ela viajara para Olinda com o novo namorado e deixara o filho com ele durante o carnaval. Sem saber muito o que fazer, comprara a fantasia de pirata e levara o garoto para o clube do bairro. Dera um saco de confetes e serpentinas para o menino, que lhe devolvera os pacotes e agora pulava de mão dadas com uma odalisca e outro pirata. Passeou os olhos pelo salão. Mães, pais e filhos de todas as idades, tamanhos e cores. Uma mulher chamou um pouco mais sua atenção e ele colocou-se melhor para observá-la. Era alta, loira, não mais de trinta e cinco anos. O corpo era escultural, ela parecia uma modelo. Capa de revista. O sorriso largo cantando uma marchinha com o dobro da idade de seus ombros dourados. Com ela, uma menina tão linda e loira como a mãe. As duas de mãos dadas. A criança com um chapéu de fada parecia ser da idade de seu filho e tinha um sorriso tão lindo quanto o da mulher.

Sentiu um calor estranho ao tentar ver melhor as mãos da loira, torcendo para não encontrar nenhuma aliança nos dedos dela. Mesmo sabendo que isso não era certeza de nada. Foi-se o tempo que mulheres comprometidas era somente as que usavam alianças. Nada nas mãos com longas unhas pintadas de vermelho. Procurou Fazia um ano e meio. Agora o filho com os olhos, assustado


por ter ficado tanto tempo sem vigiá-lo, entretido com a desconhecida. Respirou aliviado quando o viu, junto com uma melindrosa, amarrando um índio com serpentinas a uma pilastra. Sentiu a boca seca. Comprou uma lata de cerveja. Engoliu praticamente metade do líquido em um único gole. Não era de beber, mas sentiu-se muito bem. Estalou a língua e arrematou a bebida. Sacudiu o corpo. A boca começou a acompanhar a letra da música que um grupo se esgoelava cantando no palco improvisado na quadra do clube. Contrariando toda uma vida desde aquele carnaval da bicicleta, teve um ímpeto e correu até o filho. Pegou-o e colocou-o à cavalinho no pescoço e saiu rodando pelo salão. O filho se divertia, jogando confete do alto em cima de outras crianças. Sentiu-se melhor ainda com as gargalhadas do garoto. Quando viu, estava ao lado da loira, que agora dançava com a filha no colo. Sem nem pensar, parou um milésimo de segundo ao lado dela, a boca colada ao ouvido coberto pelos fios dourados, tempo suficiente para berrar as palavras mais ousadas que nunca havia dito. - Você é a mamãe mais gostosa do matinê!

Ela fuzilou-o com o olhar e ele quase deixou o garoto cair. Foi salvo por um bando de préadolescentes que passaram entre os dois, fazendo trenzinho. Sentiu vergonha de si mesmo. Parecia que o que tinha feito era feio, errado. Levou o filho até onde estavam anteriormente. Colocou o menino no chão e voltou para o balcão. Pediu outra e mais outra cerveja, enquanto olhava o filho distraído. Na quarta lata de cerveja, o grupo atacou de Cidade Maravilhosa. Era a deixa para ir embora. Comprou um refrigerante para o filho e pegou-o pela mão. Ele já estava tão cansado que nem reclamou muito de ir para o colo e para casa. Meio bêbado e meio triste, foi arrastando-se para o apartamento naquele início de noite.O filho adormecera em seus braços. Por sorte, não morava muito longe. Chegou em casa e foi colocar o garoto na cama. Ao tirar a fantasia do filho, um papel preso numa dobra da roupa chamou-lhe a atenção. No verso do canhoto de um ingresso do matinê, em uma letra que parecia desenhada, um recado com um número de telefone no final: “- Desculpe, mas me assustei com você. Mas te olhei depois e senti que estamos num mesmo barco. Será que dá para remarmos juntos um pouco?”


Dois

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Faz dois anos que fui embora. Dois anos que ainda não sei se passaram rápido ou devagar. É meu primeiro sábado de volta à cidade, após um exílio voluntário, a mais de mil quilômetros. Fugi. Fugi de mim mesmo, das obrigações, dos desejos, tanta coisa. Acima de tudo, dela. De sua lembrança. De seus carinhos e opressão. Mas voltei. Cumpri a pena que me impus. Agora tento retomar a vida. Ando pela rua, como tantas outras vezes. Onde bebi tanto e amei mais ainda. Meus dois bares preferidos estão fechados. Talvez pela falta da renda que eu lhes proporcionava. Estou de volta quase tão mudado quanto o bar Um dia em um, um dia no outro. Religiosamente, meu que desprezo. Não sei se mais magro ou mais gordo. Mais cínico, com certeza. Procuro em vão os mantra de álcool e boemia. Um outro bar, onde iniciei rostos com quem partilhava as amizades. Como é minha peregrinação pelos estranho. Há dois anos eu conhecia todos por aqui. abismos - acho - ainda funcio- Mesmo aqueles com quem eu não conversava. Viana. Está reformado. As pare- os sempre, diariamente. No final, perto de minha partida, já trocávamos des que, em minhas retinas são amarelentas e cheias de acenos de cabeça. Não há nenhum Estou frágil. Rio de mim mesmo, observo uma restos de propaganda, estão de deles nessas calçadas, nesses bares. um branco vergonhoso de tão A rua está entregue a outros donos. mulher de meia-idade passar por mim e ir ao banbranco. “Até o banheiro deve Os proprietários foram desaloja- heiro. Olho a fila do toalete feminino. Isso não muestar limpo”, resmungo com dos, pediram abrigo em outros dou. Quat ro mulheres se espremem no corredor enescárnio, e continuo andando. cantos, morreram, casaram e não tre o balão e os freezers de reserva, olhando-se num convidaram ninguém. Porque rec- espelho manchado de bosta de mosquito. Uma é até lamo se também mudei? Se tam- bonita, mas lembra demais alguém que não merece lembrança. Volto a prestar atenção ao copo. bém os abandonei? Um rosto conhecido atravessa a rua. Faço sinal Entro em silêncio num bar que, apesar dos garçons que nunca vi, e ele entra no bar. Não me reconhece. Talvez pela mantém a atmosfera de antiga- mudança que se operou em mim, talvez pela quanmente. No som, Chico Buarque tidade de álcool ingerida. Pergunto pelos amigos conta a fábula de “João e Maria”. em comum de anos atrás. Não sabe de quase neDescanso o cotovelo no balcão e nhum. Os donos do bar onde o conheci voltaram peço uma cerveja. É uma música para o Pará. Uma amiga se casou com um comerque amo, mas que me dá uma ciante ali de perto, engordou trinta quilos em um ano e se separou. Quando vejo que não conseguirei tristeza enorme. nenhuma informação que sirva, pago-lhe outro traçado e ele se vai. me deixando sozinho com meus fantasmas. Uma moça entra no bar e compra cigarros. O rosto é conhecido. Apresento-me e nos lembramos um do outro. Ela começava a freqüentar a rua quando eu já me despedia dela. Não chegamos a ser amigos. Ela aceita um copo e a conversa. A madrugada dobra a esquina e, finalmente, me sinto em casa novamente.

Dois


Ananias Siqueira era um crédulo. Ou melhor, era um crente, que crédulo é quem acredita em tudo que dizem, e Ananias só acreditava, como devotos de certas igrejas, naquilo que queria.

De como a safadeza

Tudo começou na infância.As tias velhas e beatas falavam que um pedinte podia ser Jesus Cristo disfarçado, vindo testar a fé e a caridade das pessoas. Ananias ficou com aquilo na cabeça e passou a andar sempre com alguma coisa a doar a algum mendicante que encontrasse. Era uma moeda a um, um trocado a outro e ia assim Ananias, feliz da vida de estar sempre pronto a esbarrar com Jesus de canequinha ou receituário na mão em qualquer esquina. Eis que um dia, vinha Ananias voltando da repartição. Mão no bolso, assoviando, distraído que só, quando foi interpelado. O sujeito metido num paletó roto, que havia sido bege um dia, mas que agora pendia pro marrom. Do lado dele, uma morena repleta de adjetivos e predicados que Ananias nem prestou atenção, tão envolvido nas lamúrias do homem, que contava, de olhos marejados, a história de um filhinho com asma em casa, com ele e a mulher - a tal morena - andando quilômetros em busca de remédio.

matou a caridade

A história era tão triste, tão bem contada, de lágrimas tão grossas e pungentes, que Ananias não resistiu, meteu a mão no bolso e puxou uma nota de cinqüenta e largou na mão do aproveitador, que saiu como quem mete os treze pontos na esportiva. Nosso herói respirou fundo e seguiu seu trajeto, feliz da vida por ter ajudado uma pobre alma. Nem bem andou dois quarteirões e encontrou um amigo de longa data. Apesar de ser dado à credulidade e amigo de resolver o problema da mendicância à base de subsídio, Ananias também tinha a saudável propensão à boemia. E aceitando o convite do amigo, meteu-se na reta em direção ao Café Espanhol, reconhecido centro de diversões adultas daquela comarca. Qual não foi a surpresa de Ananias ao adentrar no recinto e ver o recém agraciado pedinte, com a respectiva morena, sentado numa das mesas do café, já tento abatido meia dúzia de cervejas e com a nota de cinqüenta a sobressair do bolso do paletó! Movido por uma força sobrenatural, Ananias se jogou contra os salafrários. E a cada bofetão que separava, embrulhava, remetia e entregava nos dois, berrava a plenos pulmões: - Safardanas! Depois dessa pode vir até Jesus Cristo, de bengala branca e cachorro, que se me estender a canequinha, vai é ter de se explicar na assistência de tanta bordoada que vai tomar!


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Coletânea de meus contos

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