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ágora Revista do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Newton Paiva

Divulgação Rock in Rio

Ano IV | Agosto a Dezembro de 2010

Rock in Rio IV O agito na cena pop vai começar

Salto alto

arrasa por onde passa

Pílula do bem

anticoncepcional faz 50 anos


ágora

ágora ESTA É UMA REVISTA

DA DISCIPLINA

JORNALISMO PARA REVISTA

RUA CATUMBI, 546 BAIRRO CAIÇARA BELO HORIZONTE MINAS GERAIS


ágora

reitor:

expediente

Professor luis carlos de souza vieira Pro-reitor acadêMico: Professor sudário Papa filho Pro-reitor de PlaneJaMento e eXtensão: administrador eduardo eterovick coordenadora do curso de JornalisMo: Marialice nogueira emboava editora: rosangela guerra editora de arte e ProJeto gráfico: helô costa 127/Mg Monitores de diagraMação: cibele inácio, daniela Mendonça, leonardo Moreira e ludmila rezende. rePórteres: caroline lopes, cecília Pedroso, cibele inácio, daisy silva, daniela Mendonça, gustavo lameira , José vítor camilo, larissa Moreira, leandro Wagner, lorrayne Peligrinelli, nathália gorito, Philippe hipólito, tamires fátima, renata lima, sheila Mendes, suzana costa e talitha denilli.


Por que ÁGORA Na Grécia antiga, quando um assunto relevante precisava ser discutido nas assembleias públicas, as pessoas se reuniam na ÀGORA, um espaço de comunicação, reflexão e debate. Foi por esse motivo que os alunos escolheram o nome ÁGORA para a revista do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Newton Paiva. ÁGORA fala de agora, olha o passado e vislumbra o futuro. Textos e imagens produzidos pelos alunos do 5o período mostram como a aprendizagem está sendo construída. A vivência desse processo representa para nós, educadores, uma oportunidade imperdível de partilhar com os alunos a aventura fascinante de fazer revista.

Rosangela Guerra Professora de Jornalismo para Revista


ágora

dinheiro

eDITORIAs

no verMelho Nathália Gorito e Talitha Denilli

PorQuinho online Gustavo Lameira, Leandro Wagner e Philippe Hipólito

Profissão eles brincaM no trabalho Daisy Silva, Lorrayne Peligrinelli e Renata Lima

cultura PoP in rio Gustavo Lameira e LeandroWagner

bichos adotar faZ beM Cecília Pedroso e Daniela Mendonça

seM hoMofobia escolhas: direito de cada uM Caroline Lopes, Suzana Costa e Sheila Mendes


Moda Assim caminha a humanidade Daniela Mendonça

Sáude Quando o coração sofre em silêncio Larissa Moreira, Philippe Hipólito e Tamires Fátima

Pílula do bem Daisy Silva, Lorrayne Peligrinelli e Renata Lima

História da vida real Vida louca, vida breve José Vítor Camilo

ator à espera de um personagem

Daniela Mendonça

Cibele Inácio


vermelho Dinheiro

No

Talitha Borges

Com tantas facilidades de crédito e produtos novos no mercado, resistir fica difícil. Não é à toa que muitos jovens estão cheios de dívidas


PARA eNTRAR NO AZUl Nathália Gorito e Talitha Denilli

Roupas, festas, viagens, carros, aparelhos eletrônicos ...... Para realizar cada desejo basta sacar o cartão de crédito, mas quando chega a fatura, os problemas aparecem. Por causa disso, muitos jovens não estão conseguindo quitar suas dívidas. Com as novas tecnologias no mercado, a tentação aumenta para aqueles que querem mostrar um padrão de vida mais alto do que na realidade têm. Segundo estudo divulgado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), a maior parte dos endividados inadimplentes no Brasil tem entre 18 e 29 anos. A falta de experiência, as compras por impulso, o crédito fácil e a entrada recente no mercado de trabalho são os principais motivos para a formação de uma nova geração de devedores. A agência Namosca, especialista em pesquisa do universo jovem, revela que os jovens brasileiros possuem fácil acesso a serviços bancários, por isso adquirem tantas dívidas. Segundo um estudo com estudantes de ensino superior das sete principais cidades do país, 86% dos jovens possuem conta corrente, 76,4% cartão de crédito e 62,3% cartão de lojas. Mas não para por aí! Cerca de 10% do grupo analisado querem um novo cartão de crédito e 6,9% desejam um cartão de loja. Marcela, que não quis revelar seu nome completo, 28 anos, precisa de ajuda. Há 10 anos, ela começou a adquirir serviços bancários que ofere-

ciam crédito facilitado e, com isso, passou a consumir. “Descobrir que podemos comprar aquilo que sempre sonhamos faz com que a gente assuma compromissos que não nem sempre podem ser cumpridos”, afirma a jovem. A prestação de um carro novo foi o primeiro bem adquirido por Marcela. Depois do carro, surgiram ofertas de viagens com amigos, compras no shopping, interesse por novos aparelhos eletrônicos, roupas e sapatos. “Não precisamos ter dinheiro na mão para começar a comprar. Basta ter a oportunidade de parcelar as compras! Isso é terrível”, enfatiza. Guilherme Muniz, 22 anos, vendedor, está endividado. Tudo começou há três anos quando ele “emprestou” o nome para um amigo abrir uma empresa de lanternagem e pintura. A empresa deixou para Guilherme um montante de dívidas que chega a 80 mil reais. O nome de Guilherme consta como inadimplente no SPC e no Serasa. Mas isso não foi só por ter emprestado o nome para a criação da empresa. Ele também se excedeu nas compras de roupas, sapatos e aparelhos eletrônicos, sem falar na conta do celular, que para ele é o vilão. “Os jovens usam o celular compulsivamente. Ainda mais se for pós-pago. Eu devo uma conta de celular de mais ou menos 2 mil reais”, revela. Somente no ano passado, Guilherme se deu conta do tamanho do problema em que se meteu: “Sempre tive os pés no chão, não fazia nem ideia que tudo isso iria acontecer comigo”, lamenta.

O consultor financeiro e advogado José Ramos há 12 anos presta consultoria para aqueles que querem quitar suas dívidas. Ele começou na profissão a partir de uma experiência própria com uma dívida de 10 mil reais. Depois disso, passou a ajudar os integrantes da Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos funcionários da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (Sicoob-Cofal), em que atua como diretor financeiro. José Ramos diz que não importa o tamanho da dívida, pois há sempre uma forma de resolver o problema. Para ele, vários fatores levam à situação de endividamento. O descontrole com cartões de crédito, com certeza, é um dos principais fatores. Ainda segundo ele, existe muita oferta de crédito, os bancos estão “brigando” para dar crédito à população. O consultor ofereceu, gratuitamente, sessões de consultoria para que Guilherme Muniz encontre uma saída para quitar a dívida que possui. “Agora estou tentando parar de fumar para cortar os gastos, como o consultor sugeriu. São pequenos gestos que podem me ajudar”, diz Guilherme. Para as pessoas que precisam controlar seus gastos, o consultor José Ramos dá dicas. Ele recomenda eliminar as despesas desnecessárias e enxugar as que não podem ser cortadas. Por exemplo: comprar a fruta da época ou trocar a marca de um produto mais caro por um mais barato. Uma regra infalível é não gastar mais do que se recebe. Um conselho bom e de graça é, sempre que possível, deixe para comprar depois. Aí o tempo passa, o desejo vai embora e o bolso agradece.


Dinheiro

Porquinho

Diego dos Santos

online

Jovens apostam na bolsa de valores e jogam pesado

Gustavo Lameira, Leandro Wagner e Philippe Hipólito

Números, barulho, confusão. Acompanhar a bolsa de valores não é uma tarefa fácil. O mercado tão complexo pode até ser um bicho de sete cabeças para muitos, mas é prática cada vez mais frequente entre muitos jovens do Brasil. Mário Pereira, 28 anos, por exemplo, deu a primeira tacada no mundo das ações aos 13, quando se pai deu 10 mil reais de presente a cada um dos três filhos para que todos eles começassem a investir. Mário conta que sempre teve orientações do pai sobre como movimentar o dinheiro. “Quando eu errava, conversava com ele para corrigir as falhas. Me dei muito bem e acabei montando um negócio”. Hoje diretor da corretora de valores “Um Investimentos”, localizada na região Centro-Sul de Belo Horizonte, Mário revela que seus dois irmãos, uma advogada e outro farmacêutico, desistiram da bolsa. “Sou

mais rico que eles”, brinca. A facilidade de acesso e o alto rendimento são os principais atrativos para entrada dos jovens no mercado de capitais. Nas corretoras, cursos e palestras ensinam o be-a-bá do mercado. Nos sites, estão disponíveis chats com especialistas e até simuladores para que os novatos treinem antes de arriscar o dinheiro. Mário afirma que o perfil do investidor que procura a corretora é heterogêneo, mas que cerca de 20% dos clientes são jovens. “Eles têm entre 21 e 23 anos e estão na universidade, aplicam o recurso do estágio ou emprego na bolsa de valores”, diz. Ele conta ainda que muitos estudam economia, administração e ciências contábeis. No entanto, estudantes de cursos de humanas e biológicas estão começando a procurar a corretora de olho nos negócios. “Operar na bolsa de valores é uma paixão”. É assim que o corretor André Picchioni, 25 anos, define o sentimento de estar mo mercado virtual.

“É fascinante comprar ações, planejar e lucrar”. O corretor desfaz um mito - o de pensar que para investir na bolsa é preciso ter muito dinheiro. “Você pode entrar até com um real, tudo depende do preço das ações”. Ele explica que os papéis podem ser adquiridos no mercado fracionário, com valores unitários ou em lotes padrões de 100 ações. Para André, no Brasil, o mercado de capitais é o mais promissor. Segundo ele, os investidores estão buscando rentabilidade nos países emergentes. Às vésperas da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, o Brasil passa a ser a galinha dos ovos de ouro. Segundo a BM&FBovespa, o país tem atualmente 560 mil investidores pessoa física e a estimativa é de que em cinco anos esse número chegue a 5 milhões e, em 10 anos, a 10 milhões. O economista e professor do Centro Universitário Newton Paiva, Renato Vale, explica que diversos fato-


res contribuíram para um boom de investimentos na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Renato conta que na década de 1990, o governo utilizava uma taxa de juros elevada para combater a inflação. “O lucro da renda fixa era muito bom e não tinha sentido procurar uma renda variável, que envolve nível de risco alto”. Com o fim da inflação, o governo diminuiu a taxa de juros e a rentabilidade caiu. O sistema produtivo foi mudando e as empresas procuraram outras fontes de investimentos e encontraram no mercado de capitais uma ótima alternativa. Renato lembra que a tecnologia facilitou o acesso da população. Antes, o investidor tinha que ir à corretora operar por telefone. Hoje, as transações podem ser feitas no computador de casa.

AGIlIDADe e eXPANsÃO Entre o bate-papo e o navegar nos sites de relacionamento, Eduardo Oliveira, 16 anos, fica de olho nas

cotações da bolsa por meio do Home Broker (HB), o programa que permite negociar ações pela internet. “Posso estar falando com a maior gata, mas se é pra comprar ou vender ações dou uma pausa”. Criada pela Bovespa em 1999, o HB se tornou a porta de entrada no mundo dos negócios para muitos jovens. “Com o HB, o jovem não depende mais do atendimento do gerente pra comprar e vender ações”, afirma Mário. Além de existir tutorias na web de como utilizar o programa, a Bovespa oferece informações sobre o andamento do pregão, gráficos e análises do mercado. Tudo com fins de minimizar riscos e ampliar os lucros. Apesar da nova tecnologia, o diretor recomenda cuidados para preservar a segurança nas negociações: “Procure uma corretora habilitada pela Comissão de Valores Mobiliários e pelo Banco Central e evite o uso de computadores públicos ou de uso coletivo”.

PAssO A PAssO Com tantos atrativos, existe fórmula de sucesso na bolsa de valores? Para o economista Renato Vale, é fundamental o jovem aprimorar seus conhecimentos sobre o mercado financeiro, por exemplo, com a literatura especializada. E adverte: “bolsa de valores não é um cassino e os resultados não podem depender da sorte”. Mário, que investe desde a adolecência diz que o dinheiro investido em ações não pode ser retirado do orçamento mensal. “Se for pra ter retorno daqui a seis meses, eu não recomendo”. Aplicar no mercado e não checar o investimento pode ser um risco. “As transações devem ser monitoradas todos os dias. Como não se lembrar do seu patrimônio?”. Mário alerta que é um erro grave subestimar o mundo financeiro. No início, já ouvia do seu pai: “você nunca vai saber tudo de bolsa, em 30 anos de investimentos o mercado ainda vai te surpreender”.


Profissão

eles

brincam no

Dançar, cantar e garantir a animação é função dos Djs. Para eles, a diversão é coisa séria

Daisy Silva, Lorrayne Peligrinelli e Renata Lima

O relógio marca 22h. Ela já tomou banho, achou a roupa ideal para a “naite”, fez a maquiagem, calçou os sapatos, pegou os fones, os discos e a carteira. Deu um beijo na mãe, outro no pai e avisou que já estava de saída para o trabalho. Paula Mendes tem 15 anos e ama seu trabalho, como DJ - da sigla inglesa disc-jockey. Ela chega à boate Label Club. As pessoas sorriem, dançam, cantam e se divertem. Não há chefes com cara fechada, funcionários reclamando do salário, muito menos pessoas querendo que a sexta-feira chegue logo. Afinal, já é sexta-feira. E o sábado chega rapidinho, ao som de um “tuntz, tuntz” sem fim. Graças a Toni Fonseca, empresário e professor da escola “Dj’s In Town”, Paula aprendeu a profissão e consegue ganhar dinheiro e se divertir ao mesmo tempo. Ela foi uma das alunas mais empenhadas de Toni. A média de idade dos alunos da “Dj’s In Town” é 16 e 17 anos. “Eles começam frequentando as festas de amigos. Daí surge o interesse em aprender a ser DJ”, conta Toni.

sucesso na pista Toni teve outros alunos que conseguiram realizar o sonho de viver da profissão de DJ. Houve até quem foi para o exterior e se deu muito bem. DJ pré-adolescente não é mais novidade. A paulista Mayara Leme, 15 anos, também é referência. Com o sucesso que está fazendo, Mayara pode seguir os passos do DJ Francis Marchi, que foi agraciado pela Real Hit Radio (Reino Unido), com o título de International Superstar DJ, um dos mais cobiçados pelos DJs do mundo. O campo de trabalho está cada vez maior: dá para tocar em clubes, festas particulares, eventos de empresas, desfiles e em alguns bares e restaurantes. Mas ganhar bem é privilégio de poucos. A maioria não recebe mais que 800 por mês, alguns poucos ganham dois mil reais e os tops recebem entre cinco a dez mil. Dênio Santiago dos Santos, 22 anos, não teve tanta sorte. Ele é vendedor e trabalha como DJ nas


o trabalho

horas vagas desde 2004. Lamenta não poder viver só disso. “Não é uma profissão barata. Um equipamento razoável está na faixa de oito mil reais”, conta. Seu interesse pela profissão começou aos 13 anos, quando acompanhava em festas e bailes seu tio que era DJ. A paixão pela música e a diversão de comandar uma pista são os principais motivos que o levam a seguir a carreira. Para ele, ainda há muitas dificuldades para o reconhecimento da profissão. “Somos chamados de loucos por fazermos o que fazemos, pelo sacrifício que, às vezes, passamos. Mas quando estamos tocando e vemos todos em nossas mãos, em um ritmo que conseguimos passar, sentimos que vale a pena ser DJ.”

Dance, dance Ensinar a arte da mixagem! Esse é o principal objetivo das escolas de Djs. Para isso, é preciso capa-

citar os interessados na área de discotecagem, produção musical, montagem e operaração de equipamentos, desenvolver feeling musical (sensibilidade para a música), e até mesmo comandar uma pista cheia. Hoje, o DJ se tornou uma figura indispensável nas festas, pistas de dança, desfiles e outros eventos. É ele quem executa as músicas e garante a animação do público. Mas o sucesso do DJ se deve, em grande parte, ao seu equipamento de trabalho. Atualmente, existem vários recursos de som e efeitos de luz que se tornaram indispensáveis para o bom desempenho desse profissional. Um dos equipamentos é o CDJs – que são leitores de CDs profissionais, que podem manipular os discos com o mesmo efeito do vinil, permitindo acelerar ou diminuir a velocidade da música, alterar o tom, entre outros. O Dj Dênio Santiago dos Santos explica que “com a tecnologia de hoje, o vinil é pouco usado. É mais por preferência de alguns e pela qualidade do som que ainda se usa os discos de vinil”.


Pop Cultura

O festival que serviu para mostrar a cara de uma juventude censurada e ávida por rock, agora se revela como uma grande marca, uma sacada publicitária

Gustavo Lameira e Leandro Wagner

“Se a vida começasse agora / e o mundo fosse nosso outra vez / se a gente não parasse mais de se amaaar / de sonhaaar / de viver / uououou... “Essa é a música tema do Rock in Rio. “Queria estar lá em 85, mas só tinha nove anos”, relembra o locutor Luiz Fernando que assistiu a primeira edição do festival pela TV, em Patos de Minas, MG. Mas em 2001, ele estava na plateia. Já estão sendo veiculadas na mídia as chamadas para o Rock in Rio IV. O último foi há nove anos. Nesse intervalo, seis edições aconteceram na Europa com a condição de manter o nome Rio, independentemente da cidade em que fosse realizado o festival. Grandes nomes da cena pop mundial e nacional vão passar pelo Rio de Janeiro entre os dias 23 de setembro e dois de outubro de 2011. A antiga cidade do Rock, em Jacarepaguá, vai dar lugar ao Parque Olímpico Cidade do Rock que terá dupla função: os jogos olímpicos de 2016 e as futuras edições do festival que estão programadas para cada dois anos na cidade. Para isso, a prefeitura do Rio vai investir 40 dos 60 milhões, que foram orçados para o projeto. O restante fica por conta do idealizador do festival, o publicitário Roberto Medina. Criado nos anos 1980, quando a ditadura dava seus últimos suspiros, o Rock in Rio era economicamente inviável. Na época, as empresas não investiam em eventos. Segundo Medina, montar um show no Brasil custava o dobro de um show no exterior. Além disso, os ingressos eram vendidos a preços simbólicos e não cobriam os gastos. O jornalista e crítico de música da Rádio Guarani FM, Kiko Ferreira, concorda com o publicitário. “Ninguém confiava no país, não existia estrutura, as bandas temiam não receber seus cachês. Só que o evento foi um sucesso e virou um marco na história da música bra-

sileira”. Foram dez dias de shows, 1,4 milhões de pessoas – um ajuntamento cinco vezes maior do que o lendário festival de Woodstock. Apesar de toda expectativa e diferenças técnicas, a favor das bandas internacionais, o Brasil não fez feio: tinha o rock irreverente de Rita Lee e Barão Vermelho; Gilberto Gil; Ney Matogrosso e o swing multicolorido de Pepeu Gomes e Baby Consuelo (atual Baby do Brasil) que na estreia do festival estava grávida de Kryptus, seu sexto filho. João Ricardo Lima, jornalista e blogueiro de música, estava lá quando o Rock in Rio ”pintou”. Ele conta que suportou empurrões e pontapés como se fossem um afago para se manter ali, o mais próximo possível do palco. “Era tanta gente brigando por aquele espaço que jurei nunca mais pisar num festival. Mas vi de perto o Queen, o Iron Maiden, o James Taylor...”. No dia seguinte, dedicado ao heavy metal, João Ricardo voltou à fila do gargarejo para ver os caras do Scorpions, Ozzy Osbourne e os roqueiros do AC/DC.

QUeM PODIA PAGAVA CARO Em 1991, o Rock in Rio II respondeu às expectativas, trazendo artistas de peso como Prince, Joe Cocker e as bandas Sepultura e A-Ha, mas balançou com algumas mudanças estruturais. Leonel Brizola, prefeito do Rio de Janeiro na época, havia solicitado a reintegração de posse do terreno de Jacarepaguá, transferindo o evento para Estádio do Maracanã. No gigante do esporte, os pagantes caíram pela metade. Foram 700 mil pessoas, em nove dias de shows. Affonsinho, guitarrista mineiro, não tocou. Mas o Hanoi-Hanoi, sua ex-banda, esteve no Rock in Rio em 1991. Ele reconhece que o festival foi decisivo para a consolidação da cena rock brasileira. Desinteressado do universo pop, Affonsinho fala que sempre se ligou à música por amor, nunca pela imagem, ou marketing. Hoje, seu som é mais


in Rio leve. Suas letras são um misto de poesia e humor com base no blues e na MPB. “Quando aprendi guitarra, os shows de rock aconteciam em lugares pequenos. Vi Os Mutantes, o Terço e o Tutty Frutty no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. A gente ia ao show pra assistir o show. Não era pra arranjar namorada, dançar etc.” Kiko Ferreira foi ao festival como jornalista. “Fiquei horas na fila sem beber água. O sanduíche de maionese, naquele calor, era uma ameaça. Banheiro, você podia esquecer, mas o Guns N’ Roses e o Judas Priest...” Ele confirma que só a partir do Rock in Rio as bandas começaram a investir em equipamentos no nível dos gringos. Conseguir bons discos de rock também não era fácil. Quem podia pagava caro, depois de garimpar pelas galerias e porões do gênero. “Ao contrário, a regra era fazer uma fitinha, na base da camaradagem”, relembra Luiz Fernando, o locutor. Em 1991, vivíamos em plena abertura econômica – a Era Collor – e não se falava em pirataria. Mas a fita cassete já estava ali, aparentemente inofensiva.

É PAGAR PRA VeR O Rock in Rio III, em 2001, levou 250 mil pessoas a Jacarepaguá para as apresentações de Sting, Red Hot, Chilli Peppers, Oasis, Pato Fu, Ira entre outros. Mas não faltou espaço na Cidade do Rock para Britney Spears, N’ Sinc, Sandy & Júnior e o mal compreendido Carlinhos Brown. O baiano até tentou conter a multidão – disse que era da paz, do amor, cantarolou o Hino Nacional – mas a chuva de latinhas de cerveja e copos plásticos não parou de cair até que ele se mandasse do palco. Nada justifica a violência. Desde o início, o festival sempre contou com artistas que não eram exatamente do rock in roll, mas que faziam um som pra cima, cheio de atitude. Só faltou dizer isso ao público.

Luiz Fernando, o locutor de Patos de Minas, foi sozinho para o show do R.E.M e não teve problemas para se enturmar, já que todos ali estavam na mesma vibração. “O ponto alto da festa foi quando o Stipe, vocalista da banda, propôs um brinde com caipirinha em homenagem ao Rio de Janeiro, a cidade mais sexy do mundo. Isso foi marcante no festival”, lembra. Os tempos são outros. De volta pra casa, após uma década, o Rock in Rio IV vai encontrar um Brasil mais forte do ponto de vista econômico. As classes C e D avançaram e agora consomem como nunca. O país se projetou para o mundo e tornou-se rota obrigatória para o show biz. De acordo com Roberto Medina, os ingressos devem custar algo, em torno de 90 reais (meia entrada) contra os 25 reais de 2001. Jota Quest, Capital Inicial, Roberto Frejat, Sandra de Sá, Ed Motta e Marcelo D2 regravaram o tema oficial do evento. Medina ainda sonha em trazer Shakira, Lady Gaga e Caetano Veloso. Ele promete até um site para uma consulta popular. Leonardo Bridge organiza excursões para concertos de rock e reclama do preço cobrado pelas entradas nos grandes shows realizados no país. “Estou aguardando a confirmação das atrações internacionais pra ver se vale a pena anunciar a viagem ao Rio de Janeiro, em setembro”, diz. Para estar na plateia de um evento mundial, fã que é fã ou baladeiro de plantão que se preze sabe o que isso significa, e não mede esforços. Afinal, quem resistirá a um show da Lady Gaga sob a marca Rock in Rio? É pagar pra ver.


Adotar

faz bem Bichos

Companheiros para a vida toda, há muitos bichos de estimação à espera de alguém para levá-los para casa

Arquivo pessoal

Cecília Pedroso e Daniela Mendonça

Você abre seu coração para um novo amigo, com quatro patas e um focinho gelado. Tem coisa melhor que chegar em casa e encontrar seu cachorro abanando o rabo? Depois de fazer essa festa, ele coloca as patas sujas de terra na sua calça branca. E, para completar, você acha isso a coisa mais linda do mundo. Pena que algumas pessoas desistem de seus animais. Quando se cansam, elas deixam os pets de lado. Ou, então, abandonam os bichos em qualquer lugar, sem pensar duas vezes. Tentando ajudar, alguns recolhem os bichinhos, tratam deles e, depois, procuram uma forma para que sejam adotados. Adotar é um gesto de amor, é dar pouco e receber muito. Aqui, cinco motivos para adotar um animal.


1.

3.

ADOTAR É MAI S EM CONTA LIMPANDO A CIDA Adquirir um filhotin DE ho nos petshops cu Sã o muitas as doença sta , em média, 300 re s causadas por ais. Além disso, o novo animais de rua. As mais co dono deve arcar muns são com despesas méd icas, “L eishmaniose”, “R aiva”, além vermifugação e ca do chamastração. Acrescente mais do “Bicho Geográfico”, que pr 300 reais à sua co ov oc a coceinta. Se a opção fo r ado- ra e alergia. Além disso, as fe tar, o custo é men ze s de cães e or. É o que gara nte gatos sujam a cidade. Quanto m Christiane Oliveira en os cães , coordenadora da ONG e gatos estiverem nas ruas, m “Cãopartilhe”, qu en or es serão e trabalha na recu pera- os problemas sanitários causad ção de animais de os por eles. rua. Segundo ela, após o resgate, os cães são encaminhados para clínicas veterinárias ou abrigos provisório UM BICHO AMIG s, onde recebem cu O idados, fazem ex An imais de estimação ames, são vacinados, castr sã o grandes amiados e ficam aguard an- gos. Quando chegamos em casa do a adoção. Chris eles fazem tine diz ainda qu e a muita festa. Pelo faro, adivinham ONG acompanha se estamos a adaptação do cã o em tristes ou felizes. Os cães adot seu novo lar. ad os tam bém são assim, se apegam a seus donos facilm ente. Rute Faria, jorna lista e publicitária, op to u pela adoção e não se arrepende: “tenho MENOS ANIMAIS du as cadelinhas, elas são MALTRATADOS fofas e companheir Para quem pensa as de que depois de tra to da a minha família ta ”, conta. A amizade dos e recuperados os cães são entregu de es à um animal de estimação é de gr qualquer um, enga aç a. E nã na-se. Todos os fu o turos importa se você prefere cães ale donos são seleciona gr es e br in ca dos por meio de rig o- lhões ou gatos elegantes e geniosos rosa entrevista. . Segundo Christia ne, é fundamental que o candidato a dono go ste muito de cachorro s e tenha possibili BOM PARA O CO da de de dar boas condiçõ RAÇÃO es para que eles viv Um es tudo publicado pela am bem, o que inclu British Journal i aspectos materia is e da Royal Society of Medicine com psicológicos. Além prova, pesdisso, cães adotad os soas que vivem com animais normalmente são reclamam SRD (sem raça de fini- menos de pequenas dores. Segu da ), os fa m os os nd o o veteri“v ira -la ta s” . M ar co s nário Alexsander Santos, além Rangel, adestrado de serem r de animais ex plica: companheiros, animais de estim “cães sem raça de aç ão ajudam finida são muito cari- na recuperação de doentes. “Em nhosos e companh alg un s hoseiros, pois já sofre ram pitais a terapia com animais é m m ui to se m co m ui to us ada. pa nh ia ”. Pe ss oa s qu e Os pacientes se recuperam m optam pela adoção ais rá pi do estão prontas para dar quando têm por perto um cachor amor e carinho ao ro’. Ainda s cachorros. segundo o veterin ário, animais dispon íveis para adoção cumpr em bem esse pape l pois são muito carinhoso s.

4.

2.

5.


sem homofobia

escolhas:

laura Zanutti na luta contra a homofobia

direito de cada um O nome social de trasvesti e transexuais passa a ser reconhecido nas instituiçþes públicas

Arquivo pessoal


Caroline Lopes, Suzana Costa e Sheila Mendes

Marina Wang

Laura Menezes Zanutti já foi dançarina em São Paulo, mas hoje mora em Belo Horizonte. Trabalha em um call center e, quando está na empresa, se comporta como homem: usa roupas masculinas e se apresenta como Edvaldo Cândido da Silva. Mas o que ela preferia mesmo é ser chamada pelo seu nome social, Laura, escolhido quando assumiu a identidade feminina. Laura conta que não teve muitos problemas com seus familiares. Eles, aos poucos, se acostumaram com a ideia ao vê-la se assumindo como travesti. Hoje, aos 25 anos de idade, Laura comemora a notícia que há um decreto para que as instituições públicas passem a utilizar e incluir o nome social dos travestis ou transexuais em seus registros (crachás, listas de chamada em salas de aula etc.). Nas escolas, essa medida, vale apenas para alunos maiores de

18 anos. Os estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Pará e Goiás já colocam o decreto em prática. Apesar disso ainda não estar acontecendo em Minas Gerais, Laura reconhece que algo está sendo feito contra o preconceito. “Se temos aparência feminina, por que não podemos usar o nome social feminino?”, questiona. Ela conta que enfrenta preconceitos no trabalho. Já foi barrada em um processo seletivo que a levaria a um cargo superior na empresa. “Inventam desculpas, mas nenhuma me convenceu de que não fosse preconceito por causa da minha opção sexual.” No Brasil, vários homossexuais (lésbicas, gays, transexuais ou travestis) sofrem preconceito, muitos são agredidos e assassinados. Segundo relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2009, foram assassinados no país 198 homossexuais. Desses, 117 eram gays, 72, travestis e nove lésbicas.

Para um mundo melhor O Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), desenvolve o programa do governo federal Brasil sem Homofobia. O objetivo é contribuir para a formação de profissionais da educação que possam lidar de maneira adequada e de forma educativa, em seu cotidiano escolar, com temas relacionados à orientação sexual e de identidade de gênero. O programa Brasil sem Homofobia envolve diversas entidades do governo na promoção do respeito à diversidade sexual e do combate às várias formas de violação dos direitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bisssexuais. Na UFMG, há um projeto Educação Sem homofobia, que capacita professores. O objetivo é questionar práticas, posturas e valores presentes no universo da escola que reforçam a heterosexualidade como a única sexualidade possível, o que acabam por excluir outras manifestações. Para saber mais acesse o site: http://www.fafich.ufmg.br/educacaosemhomofobia/index.php


Moda

nD on ça

Me Da To S

Quem diria que o salto alto começou com os homens? Apesar de não terem provas de quem o criou, o salto começou a ser utilizado na corte do Rei Luís XIV (1643 a 1715), da França, que usava e abusava de saltos e perucas. Com apenas 1,60 metros de altura, ele precisava de parecer mais alto. Contudo, o salto ficou realmente conhecido mais tarde, no reinado de Luís XV (1715-1774), que não só levou a fama, como também virou nome de um tipo de salto. Hoje, o salto alto é utilizado por mulheres que querem se sentir poderosas e dar um ar mais chique a suas produções. A aluna de jornalismo Thayanna Sena se equilibra em um salto sem perder a elegância. Começou a andar nas alturas inspirada em pessoas que admira e amam um bom par de saltos. Segundo ela, usar todos os dias causa dores e, por isso, costuma intercalar salto e sapatilhas. A personal stylist Daniela Amado diz que um salto deixa a mulher mais esguia, poderosa e confiante. Sem falar da sensualidade que deixa no ar. O sapato diz muito sobre quem o calça. Usar algo que não tem nada a ver com sua personalidade e estilo de vida pode prejudicar a imagem pessoal. Com isso, a escolha precisa ser coerente e precisa. É esse o conselho de stylist. Mas como unanimidade não existe, a estudante de jornalismo Juliana Baeta conta que se sente desengonçada em cima de salto: “tenho medo de cair”. Priscila Ribeiro, estudante de publicidade, reclama do cansaço nos pés e por isso não sobe no salto no dia a dia, mas reconhece que, dependendo da situação, vale o esforço. Os homens, em geral, adoram. O estudante de jornalismo Leonardo Moreira lembra que o salto atrai, tem fetiche. No entanto, pode trazer problemas também. O ortopedista Vicente Carlos Franco Macedo explica que a postura elegante vem da musculatura e não do salto: “O salto alto joga o peso do corpo para frente e, com isso, muda a biomecânica muscular”. Os principais problemas causados são dores nos joelhos e na coluna, além de calosidades e dores nos pés. Ele sugere usar o sapato de salto em tempo curto e em ocasiões especiais. Para trabalhar, segundo o médico, o bom mesmo é usar um saltinho de, no máximo, três centímetros e evitar os bicos finos, vilões que podem provocar os feios e doloridos joanetes.

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Daniela Mendonça

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Assim caminha a

humanidade


Os salto alto faz a cabeça das mulheres e dos homens

salto no mundo espanhol: Tacones Alemão: Hochsprung Francês: Saut en hauteur Inglês: High-heel shoes Holandês: Hoogspringen Italiano: Tacchi a spillo

Com que salto eu vou? AGUlHA OU sTIleTTO Criado pelo designer francês Roger Vivier ainda na década de 50, é o salto mais elegante e sexy de todos. Pode ser usado em sapatos fechados ou em sandálias. seu formato fino e alto (pode chegar até a 10 centímetros de altura). ANABelA É um tipo de plataforma, mas ao invés de ter um salto inteiriço, tem a base perto dos dedos mais baixa e evolui para o salto mais alto na região do calcanhar. É um dos melhores saltos para quem fica em pé muitas horas. lUIs XV OU CARReTel Com no máximo quatro centímetros de altura, é um salto elegante e confortável que tem a base mais larga. Também conhecido como carretel por causa de seu formato, foi popularizado pelo monarca francês luís XV, daí o nome. É um salto coringa: fica bem com vestido, calça, saia e shorts. MeIA-PATA Variação do salto plataforma, o meia-pata tem a base na região dos dedos no estilo plataforma, mas o salto é mais fino. Deixa os pés elegantes, mas não é indicado para quem passa muitas horas em pé. PlATAFORMA Por acompanhar todo o solado do sapato, o salto plataforma distribui o peso e a pressão do corpo pela planta do pé. Por isso, seja na bota ou na sandália, é um dos mais confortáveis. sAlTO CUBANO este modelo é mais baixo e mais grosso. ele começa bem largo na altura da sola e afina um pouco no final. Muito confortável e estiloso, é o salto usado pelas dançarinas de flamenco já que garante equilíbrio aos passos da dança. Pode também ser usado para a prática do tango. sAlTO QUADRADO Peça indispensável em qualquer armário, o salto quadrado é sinônimo de elegância e conforto. ele garante o equilíbrio do corpo, o apoio dos calcanhares e ainda diminui a pressão do peso sobre os dedos. sAlTO VÍRGUlA Criador do salto clássico stiletto, o designer francês Roger Vivier resolveu inovar o salto reto e alto e criou o irreverente Comma, que em português recebeu uma tradução literal do inglês e virou o salto Vírgula.


saúde

Quando o coração Tamires Fátima

sofre em silêncio Larissa Moreira, Philippe Hipólito e Tamires Fátima

Em dezembro de 2009, o estudante de administração, Waner Ferreira Rosa Pires, 23 anos, descobriu que tem alto índice de colesterol. Depois de passar mal em casa quando se arrumava para ir ao aniversário com sua namorada, Waner fez alguns exames que constataram a alteração. Sedentário, vivia almoçando sanduíche e tomando refrigerante. Waner não é uma exceção. Atualmente, os jovens e até as crianças sofrem cada vez mais com problemas que antes eram associados apenas aos idosos. Por quê? O estresse é o principal inimigo da saúde. Os jovens contemporâneos estão com muitas tarefas e responsabilidades. Antes de terminar o domingo, já estão pensando nas atividades da faculdade e do emprego durante a semana que está apenas começando. As tarefas do dia a dia se acumulam, tirando a paciência e aumentando o estresse. Enquanto isso, o colesterol aumenta e o coração sofre em silêncio. O cardiologista Márcio Kalil explica que além do estresse, outros fatores

podem contribuir para o aumento do colesterol, como tendência familiar e uma má alimentação. “Porém, um dos grandes culpados é a falta de atividade física. Isso pode levar ao aumento do risco de doenças cardiovasculares”, ressalta Kalil. Aproximadamente 80% dos problemas com o colesterol são causados por desvios alimentares e falta de exercícios físicos. Os outros 20% são por fatores genéticos. Márcio Kalil afirma que a prevenção é o melhor caminho para uma ótima qualidade de vida. Curioso é que pessoas magras também podem apresentar alto índice de colesterol. A estudante Mariana da Costa tinha 17 anos, quando descobriu o problema. “A ginecologista me pediu alguns exames de sangue de rotina, entre eles as taxas de colesterol. No diagnóstico, todos os percentuais estavam altos para a minha idade”. Mariana diz que a causa é genética, pois sua avó materna também tem colesterol elevado. A jovem não faz uso de medicamentos. “Não precisei até hoje porque mantenho meu colesterol controlado”, ressalta. Hoje, com 21 anos e 54 quilos, a estudan-

te faz caminhada, além de ter uma alimentação equilibrada. O colesterol alterado já é identificado até mesmo nas crianças. É o caso de Julia Evangelista dos Santos que tem 9 anos. A mãe Eva de Jesus notou que aos 7 sua filha não estava crescendo como devia. Mas como todos na família têm estatura baixa, achou que era normal. “Nunca imaginei que o problema estaria no colesterol da Julia, e acredito que muitos médicos também não. Quando ela começou a passar muito mal, dores de cabeça e vômitos, uma médica pediu o exame e foi constatado o alto índice de colesterol”, contou. A médica acredita que o problema da filha está todo na alimentação. “Agora, Julia toma refrigerante apenas nos finais de semana, não compro mais caixas de biscoitos recheados, diminuí as frituras e troquei leite integral pelo desnatado”. Hoje, a menina tem uma vida mais ativa, faz educação física e brinca com colegas no bairro. Por recomendação médica, os pais pretendem colocá-la na natação o mais rápido possível.


estresse, sedentarismo e má alimentação trazem problemas para os jovens, como o aumento do colesterol

Fotos arquivo pessoal

MARIANA COSTA Idade: 21 anos Quanto pesa: 54 kg Altura:1,61m Índice de colesterol total: Atualmente mantém em média 160 mg/dl, mas já chegou a 300 mg/dl Dieta: Pizza e hambúrguer somente finais de semana

O bom e o ruim Popularmente chamado de “gordura do sangue”, o colesterol não é só maléfico ao organismo. O cardiologista Márcio Kalil explica que existem dois tipos de colesterol: o bom (HDL) e o mau (LDL). “O bom retira o mau colesterol das células e facilita sua eliminação do organismo. Já o ruim, se deposita nas artérias levando a obstrução dos vasos, o que pode causar a infartos e derrames”, afirma. O colesterol faz parte da formação da membrana que reveste as células dos tecidos e constitui matéria-prima para a fabricação de ácidos biliares, hormônios e vitamina D. É um tipo de gordura produzida pelo fígado e que também está contida em certos alimentos como ovos, carnes e derivados de leite.

Mas afinal, quem cuida do adolescente? Para o atendimento de crianças há o pediatra e do adulto, o clínico. E para o adolescente? A enfermeira Izabella França explica que o hebiatra, é o profissional capacitado para acompanhar o desenvolvimento físico, prevenindo ou tratando doenças dos adolescentes. Segundo Izabella, nos postos de saúde há consultas individualizadas, além de grupos operativos para a sensibilização da população quanto ao diagnóstico e risco de doenças em adolescentes e jovens, como as taxas elevadas de colesterol.

WANER PIRES

Idade: 23 anos Quanto pesa: 85 kg Altura: 1,68 Índice de colesterol total: 261 mg/dl Dieta: Como o que gosto, só reduzi um pouco os hambúrgueres.

JULIA SANTOS

Idade: 9 anos Quanto pesa: 20 kg e 700 gramas Altura: 1,25 Índice de colesterol total: 179 mg/dl Dieta: Leite desnatado, suco natural. Açúcar, frituras e refrigerante somente nos finais de semana.

Colesterol T otal (HDL + LDL + VL

DL) deve estar inferior a:

2 A 19 ANO S - 170 ACIMA DE 18 - 20

mg/dl 0 mg/dl

Fonte: Socie dade Brasileira de Cardiologia


saúde

Pílula do bem Criado há 50 anos, o anticoncepcional tem tudo a ver com a independência e as conquistas femininas

Daisy Silva, Lorrayne Peligrinelli e Renata Lima

Nem Brad Pitt, nem Richard Gere, muito menos Tom Cruise. Muitos não o conhecem, nem têm ideia de quem ele foi e da sua importância na vida de todas as mulheres do mundo. Se você não sabe de quem se trata, fique sabendo a partir de agora: Gregory Goodwin Pincus é “o cara”. Ele é o responsável pelo maior símbolo de independência das mulheres: o anticoncepcional. E, este ano, comemora-se o aniversário de 50 anos dessa grande invenção. O direito de voto, a fundação da universidade feminina de Holyoke nos Estados Unidos, a busca da igualdade nos salários e o acesso a postos de responsabilidade foram fatores relevantes para a independência feminina. Mas nada se compara à contribuição dos estudos do norte-americano Gregory Pincus a respeito da fórmula mágica, que transformou em realidade o sonho de muitas mulheres. É verdade que a primeira geração das pílulas causava reações, como náuseas, visão turva, trombose, depressão, acidente vascular cerebral, ganho de peso e distensão abdominal. Tudo isso porque a primeira pílula possuía dez vezes mais hormônios que o necessário. Em meados de 1966, a dosagem de hormônios foi

reduzida por causa dos frequentes efeitos colaterais. Na década de 1970, foram lançados outros tipos do método contraceptivo: pílulas bifásicas (cartela com dois tipos de comprimidos de composições diferentes), as trifásicas (três tipos de comprimido), as de baixas dosagens, a minipílula (com apenas um tipo de hormônio, o progestógeno) e a com levonorgestrel ( progesterona sintética). Em 1980, apenas 3,4% dos contraceptivos orais de alta dosagem ainda se encontravam no mercado. Em 1990, a pílula foi reconhecida como segura e eficaz pela FDA (Food and Drug Administration), agência do governo norte-americano responsável pelo controle de alimentos, medicamentos e cosméticos. Foi nesse ano também que a pílula passou a propiciar outros benefícios, além da contracepção. E vamos combinar que não é à toa que o anticoncepcional é considerado como uma das melhores invenções do mundo. Ele pode reduzir a perda sanguínea durante a menstruação, o que ajuda a manter os níveis de ferro no organismo; diminui drasticamente a terrível cólica menstrual, que faz tantas mulheres faltarem ao trabalho, à escola e a outros compromissos; reduz a acne, entre outros benefícios.


ACessÍVel Fa ti n e O liv ei ra , 25 an os , es tu da n te de Publicidade e P ropaganda, afirma que o anticoncepci on al re vo lu ci on ou e m el h orou a vi da da mulher. “Se eu não fizer o uso da pílula , morro de cólica”, confes sa. E, como sabemos, não é só com ela que acontece isso. Mas e o acesso a tantos be n ef íc io s? S er á qu e é fácil? Segund o a ginecologista e psic óloga Lísia Gomes, hoje o anticonce pc io n al é ac es sí ve l. Pode-se pega r no posto m ai s pr óx im o de ca sa , comprar o m edicamento genérico ou m esmo pedir ajuda do compa nheiro na hora de compr ar. A farm ac êu ti ca M ar ia n a Salvador diz que os preços dos antico ncepcionais va ri am ba st an te : en tre “nada” e R$ 50,00. Mas para ter acesso às pílulas, gratuitamente , no posto de sa úd e é n ec es sá ri o ap re se n ta r um a re ce it a médica. É se mpre bom le m br ar qu e ex is te m vários tipos de anticoncepcionais pa ra as diversas demandas. Por isso, é essencial o ac ompanhamento pelo m édico, que irá receitar a pílula mais adequada para cada caso.

Sorayama Hyper Illustrations


Vida História da vida real

Por José Vítor Camilo

Pode parecer impróprio para um velório, mas foi durante o brinde da cerveja que ocorreu um dos momentos mais emocionantes do dia. “Ao meu pai, que morreu cedo, porém, sem deixar de aproveitar um momento da vida”, disse Lucas Eustáquio Melgaço, 29 anos, levantando o copo. Seu pai Nivaldo Melgaço tinha acabado de morrer de câncer aos 65 anos, vítima do cigarro e do estilo de vida desregrado que sempre levou. Nísio Melgaço, 69 anos, contou que seu irmão Nivaldo foi a ovelha negra da família. “Desde novo já dava trabalho para meu pai, que era militar e ficava louco com as atitudes dele”, lembrou. Nivaldo usava roupas surradas. Teve uma juventude embalada pelo som do rock progressivo. Adorava Pink Floyd. Cedo começou a fumar, a beber e, depois, passou a usar drogas. Sempre viajando muito, foi parar na Bahia, onde conheceu Lia Eustáquio,

louca,

com quem se casou e teve dois filhos, Lucas e Mateus. “Ele não foi um pai muito presente, mas eu não tenho nada a reclamar dele. Por incrível que pareça, mesmo tendo convivido pouquíssimo com ele, ninguém imagina o quanto ele me influenciou. Meu gosto musical, meu estilo de vida, meu jeito brincalhão de ser, parece até que isso tudo era genético”, disse Lucas, o filho mais velho. Além da alegria, os filhos herdaram uma das coisas mais peculiares em Nivaldo. “Ele imitava um peru como ninguém e não sei como, mesmo sem ele nunca ter nos ensinado, eu e meu irmão sabemos fazer o mesmo”, disse Lucas às gargalhadas. Maconha, cocaína, LSD e anfetamina, um poderoso estimulante do sistema nervoso central, fizeram parte da vida repleta de experimentações de Nivaldo. Ele se mudou para a casa de sua irmã Ana Aparecida Melgaço, em Uberlândia, MG. Não deu certo. Um dia, sem dinheiro para comprar a anfetami-

br

na, ele entrou em uma loja de roupas e tentou sair com duas calças. Os vendedores perceberam e chamaram a polícia. Depois que foi libertado, o cunhado o expulsou de casa. A vida continuou e, tempos depois, ele conheceu Luzia Dias Souza, 64 anos, uma morena de cabelos trançados com quem viveu até o fim de sua vida. Mas, para quem acha que a vida foi só curtição, está muito enganado. Nivaldo trabalhou como lixeiro, agente de zoonoses e, por fim, como coveiro. Durante o velório, a sobrinha Laura Melgaço contou que, quando crianças, ela e o irmão mais novo eram apaixonados pelo tio. Na época, ele trabalhava como lixeiro e assim que acabava o seu turno ia à casa dos sobrinhos. Da esquina, já começava a assobiar e Laura e o irmão saiam correndo para poder abraçar o tio com seu uniforme laranja. No fim da vida, mesmo já debilitado pela doença que se espalhou pelo seu corpo, a alegria continuava presente na vida de Nivaldo.


A história de um pai, filho, irmão, tio e amigo irresponsável e inconsequente que deixou alegrias e marcou a vida de muitas pessoas

reve

Em determinado momento do velório, um homem que ninguém conhecia entrou. Ele se apresentou como Reginaldo Lopes e disse ser afilhado do defunto. Papo vai, papo vem, o homem acabou contando por que foi apadrinhado por Nivaldo. “Quando o conheci, eu bebia muito, mas muito mesmo. Nivaldo estava tentando parar de beber e frequentava as reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Um dia, ele ia para lá, me viu jogado na rua, e conseguiu me convencer a ir também. Fui e consegui largar a bebida. Graças a ele eu ainda estou aqui”, contou o homem, que o considerava padrinho na luta contra o vício. Interessante é que e todos os parentes que o criticaram em vida, só em seu velório reconheceram a pessoa boa que Nivaldo sempre foi em sua “Vida louca, vida breve”, como diz a música de Lobão.

Arquivo pessoal

lIÇÕes NO VelÓRIO


História da vida real

Ator à espera de um personagem

ele já fez de tudo um pouco. Batalhou muito e ainda sonha ser protagonista numa novela


Cibele Inácio

Geraldo Eustáquio Barbosa, 53 anos, casado, pai de sete filhos, ator, cantor, compositor, jardineiro, nascido em Pedro Leopoldo, MG, onde ainda vive, é um contador de histórias. Apaixonado pelo teatro, escolheu como missão fazer o bem, apesar da sua nada mole vida. Sexto filho de uma família de 14, Nô, assim apelidado pela mãe, é para os amigos “ sincero, confiável e grande contador de histórias”. Viveu momentos difíceis. Ajudava os pais que trabalhavam numa fazenda de milho e por isso não pôde estudar. Seu contato com a terra trouxe o interesse pela jardinagem. Desde jovem sonhava com o sucesso da TV. Aos 16, atirou no escuro e foi sozinho para o Rio de Janeiro tentar ser artista. Fez teatro nas ruas e sua boa voz o levou a fazer um teste para cantar com Oswaldo Montenegro, no Teatro Cecília Meireles. Passou, mas só sua voz “aparecia” nas cenas. Como queria mostrar a cara, migrou para o Grupo Cecília Meireles, para poder cantar e representar. Em 1980, morando em São Paulo, SP, apresentou-se no programa de calouros do Silvio Santos. Tentou duas vezes e chegou à etapa final. Porém, sem condições financeiras, ele preferiu voltar para Belo Horizonte.

De NOVO NA BATAlHA No ano seguinte, Nô voltou para São Paulo, apresentou-se no Programa do Bolinha, passou por sete etapas até ser eliminado. Ganhou uma bolsa no curso de Artes Cênicas numa escola paulista e lá estudou durante oito meses. Mas como não tinha condições de ficar em Sampa, voltou para Belo Horizonte novamente. Conseguiu um emprego na Rede Ferroviária Federal S.A, onde trabalhou por 18 anos até a privatização da instituição. Passados 14 anos após sua demissão, ainda não foi indenizado. Os anos de 2000 e 2001 foram memoráveis. Nô gravou um CD de música gospel com músicas de autoria de uma de suas filhas. Vendeu 20 mil cópias, comprou um terreno, construiu uma casa, mas ainda não terminou construção. Versátil, ele apresentou o ”Guia por um dia”, da TV Alterosa, mostrando as belezas naturais de Pedro Leopoldo, Cordisburgo, Matozinhos e Capim Branco. Falando o que sabia, sem um roteiro, ele impressionou os profissionais da TV. Tempos depois, seu espírito aventureiro fez com que ele se lançasse de asa delta da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. O vento forte trouxe momentos de sufoco e Nô achou que sua vida acabaria ali. Que nada! A sua maior vitória foi a conquista do

papel de um sequestrador na novela “Prova de Amor”, exibida pela Rede Record, entre 2005 e 2006. Mesmo achando que não conseguiria, ele, aos 50 anos, foi escolhido entre as 580 pessoas que fizeram o teste no Rio de Janeiro.

NOVOs RUMOs Há cinco anos, Nô é jardineiro da Prefeitura de Pedro Leopoldo. Trabalha das 6 às 14 horas, depois vai para uma das escolas onde ensina artes cênicas na Cooperart, Cooperativa dos Artistas de Pedro Leopoldo. Também dá aulas gratuitas de xadrez e de reforço para crianças. No fim do ano letivo, chega a ter 40 alunos. Ele possui em casa uma biblioteca com cerca de sete mil livros. Nô é voluntário no combate à depressão na Maternidade Dr. Eugênio Gomes de Carvalho, em Pedro Leopoldo, e em hospitais de Belo Horizonte. Ele se veste de palhaço, canta, dança, faz teatro e leva alegria aos enfermos. Além disso, faz um trabalho de conscientização com usuários de drogas, garotos e garotas de programa. A esposa e os filhos são a sua felicidade. E as tristezas são as promessas não cumpridas que o fizeram. Seu sonho hoje, mesmo meio apagado, é conquistar um dos papeis principais numa novela. Talvez por isso ele goste tanto de contar histórias. Nelas, ele geralmente é o personagem principal.



Revista Ágora 2 2010