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Hype

a moda da vez

Vida de Pet

Mordomia pura

tradição e preconceito

Ciganos

ágora Ano IV | Janeiro a Julho de 2010

Revista do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Newton Paiva


ágora ESTA É UMA REVISTA LABORATÓRIO DA DISCIPLINA JORNALISMO IMPRESSO (PRODUÇÃO DE REVISTA)

RUA CATUMBI, 546 - BAIRRO CAIÇARA

expediente

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS REITOR: Professor Luis Carlos de Souza Vieira

PRO-REITOR ACADÊMICO: Professor Sudário Papa Filho

PRO-REITOR DE PLANEJAMENTO E EXTENSÃO: Administrador Eduardo Eterovick

COORDENADORA DO CURSO DE JORNALISMO: Marialice Nogueira Emboava

EDITORA: Rosangela Guerra

EDITORA DE ARTE E PROJETO GRÁFICO: Helô Costa 127/MG

MONITORES DE DIAGRAMAÇÃO: Alana Amorim, Cibele Inácio, Leonardo Moreira e Thamires Lopes.

REPÓRTERES: Adrielle Martins, Bárbara Camilo, Carina Vilela, Dayse Aguiar, Indhiara Souza, João Paulo Mello, Juliana Baeta, Lucas Simões, Marília Corradi, Marnês Costa, Patrícia Righi, Paulo Duarte, Roberta Andrade, Raíssa Daldegan, Sérgio Duarte, Thayanna Sena e Wellington Sales.


GENtE

Garrafas ao mar

dom e paixão Ex-marinheiro francês se inspira na vida no mar para criar miniaturas em garrafas

Lucas Simões e Dayse Aguiar

O ex-marinheiro francês Angel François Christian Rodriguez trata com cuidado o documento de capa vermelha gasta e páginas amareladas pelo tempo. À medida que passa as folhas, vai apontando para os nomes carimbados, como para comprovar sua palavra. “Eu lhe disse, estive em todos estes: Sid Bel – Abess, Mort-Viso, Bambera, Bretafine, Provence”. Registrados na carteira de trabalho de 1948, estão todos os nomes de navios nos quais seu Angel trabalhou a serviço da marinha francesa, percorrendo cerca de 40 países, muitos deles em guerras. Ele aprendeu sozinho a arte da miniatura, guardando pequenos objetos dentro de garrafas e faz isso há 70 anos.

PElO BiCO dO VidRO

Fotos Dayse Aguiar

Em sua pequena oficina, no bairro Pompéia, região leste de Belo Horizonte, as estantes de madeira cuidadosamente protegidas por vidros são ocupadas por cerca de 500 pequenas garrafas e 60 lâmpadas, onde seu Angel introduz barcos e faz pinturas com a maior paciên-

cia do mundo. “Tudo tem que passar pelo bico do vidro”, explica. Ele demora em média 50 dias para montar uma garrafa com um pequeno barco e uma pintura. Alguns trabalhos exigem um tempo maior. Seu Angel demorou um ano para terminar sua obra mais complexa: um barco que precisou ser refeito várias vezes. Perfeccionista, o francês não faz uma peça da qual não tenha gostado, salvo uma ou duas exceções, que ele guarda escondidas em prateleiras. “Eu faço isso para os outros verem, então, tudo tem que ser lindo. Se não gosto, refaço até ficar bom”, afirma. Além disso, seu Angel fabrica instrumentos e peças que são usadas para montar as miniaturas, como pinças de vários tamanhos. E escolhe a dedo a matéria prima de sua arte que vem, na maioria das vezes, do lixo, como pedaços de madeira, arame, plástico e pano. Ele aproveita tudo.

“NÃO VENdO” Do fundo de sua oficina, seu Angel olha ressabiado quem se aproxima das garrafas. “Bom dia”, ele diz com sota-

que forte, apesar de morar há quase 40 anos no Brasil. Com pose de estrangeiro meio ranzinza, o francês analisa cada curioso que vem admirar suas miniaturas. E basta um elogio ou mero comentário para que ele puxe na memória uma história e comece a contar. As prateleiras com as miniaturas ocupam as paredes da oficina e têm inúmeras placas com os dizeres “não vendo”. “Não posso estabelecer um preço para elas. Cada garrafa tem um valor único que dinheiro nenhum paga. Sou incapaz de refazer qualquer uma delas”, justifica o ex-marinheiro que vive apenas da sua aposentadoria. Por isso, o francês adota o método de “chantagem honesta”, como ele mesmo diz, para aqueles que se apaixonam pelas miniaturas em garrafas e querem ter uma. “Para todos que me ajudam a divulgar o meu trabalho em exposições e reportagens, faço uma garrafa e dou de presente. Não quero dinheiro, só quero divulgação”, explica. É aí que dá para entender a paixão de seu Angel pela sua arte ou por seu “dom”, como ele gosta de dizer.


sOBRE as ONdas Aos oito anos de idade, em 1941, seu Angel assistia à 2ª Guerra Mundial bem de perto, na França. Ele encontrou em garrafas velhas da rua uma maneira para tentar se esquivar das dores da guerra. “Para me distrair, inclusive da fome, comecei a brincar de colocar objetos em garrafas. Era uma brincadeira que me tomava tempo e eu acabava esquecendo de muita coisa”, relembra. Meio sem querer, ele aprendeu uma arte que ocuparia sua vida, assim como a marinha. Nascido em Banyuls-Sur-Mer, no sul da França – “cidade sobre o mar”, em tradução literal, seu Angel lembra que teve a chance de escolher entre dois caminhos: trabalhar na produção de vinho ou em um barco de pesca. “Preferi a ‘liberdade’ do mar”, conta. Depois, ele acabou se alistando na marinha para servir militarmente seu país. Viu várias guerras de perto, como a Guerra da Coréia (1950-1953). No geral, as lembranças de guerra ficam limitadas aos companheiros de viagem e à fome que passou na infância. Se o assunto é guerra, sua voz fica mais fraca e os olhos do velho marinheiro mudam de expressão. “Apanhei muito. Corri atrás de comida em submarinos alemães e vi minha mãe pedir o resto da comida dos soldados alemães”, desabafa. Em longas temporadas em alto mar, fazer arte com as garrafas foi a distração de seu Angel. O francês navegou sem férias durante anos até se casar com uma brasileira que conheceu em uma de suas viagens pela Marinha da França. E, por causa dela, tomou a difícil decisão de abandonar seu país e o mar. “Por minha mulher faria tudo de novo”, diz.


saรšdE

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dia Cláu ral Ama

servido? Paulo Duarte e Roberta Andrade

Pare e pense. Em uma bela manhã, a mãe pede ao filho para ir comprar ração. Ao retornar com o pacote colorido, a mãe o repreende ao perceber que o filho não atendeu ao solicitado. E ele a questiona: Mas mãe, quem come ração aqui em casa não são os cachorros? Pois é, até pouco tempo era assim que acontecia. Porém, em vitrines de lojas de suplementos naturais já é comum encontrar a ração humana. Este composto alimentar desenvolvido pela nutricionista Lika Takagui, em 2005, é uma mistura de linhaça, colágeno, fibra de trigo, aveia, leite de soja, açúcar mascado, castanha, amêndoa, gergelim, gérmen de trigo, e outras fibras que vem atraindo muitas pessoas por auxiliar no emagrecimento e na estabilização do sistema digestivo. Mas é preciso ter cuidado ao consumir a mais nova queridinha das dietas. Não pense que a ração é milagrosa. A boa e velha prática de exercícios físicos ajuda a alcançar o efeito desejado. Algumas contra-indicações devem ser observadas para que o feitiço não vire contra o feiticeiro. O guaraná em pó, por exemplo, pode causar dores de cabeça e insônia, o açúcar mascavo não deve ser consumido pelos diabéticos, a mistura também contém glúten. Portanto, se você é alérgico a essa substância, fique atento. A recomendação mais importante dos nutricionistas é de que a quantidade máxima de ração huma-

na ingerida não ultrapasse três colheres de sopa por dia. A nutricionista Alline Targino fala sobre a importância de se procurar um profissional antes de iniciar o consumo da ração. “Como agora a ração está na moda, as pessoas começam a consumir sem procurar um profissional que as oriente e acabam tomando o suplemento de forma errada”. Segundo Alline, é preciso aumentar também o consumo de água para evitar efeitos colaterais. “Algumas pessoas podem sofrer com a irritação na parede do intestino, prejudicando a absorção de nutrientes e acumulando toxinas, por exemplo”. Ela explica que muitas pessoas tendem a substituir as refeições pela ração, mas, o ideal é utilizá-la como complemento alimentar. Comidas leves como sopas ou saladas são recomendadas nos almoços e jantares antes de ingerir a mistura. “Para ser mais saborosa, pode-se misturá-la com leite, suco ou iogurte no café da manhã”, diz. Mas se o objetivo é perder peso o ideal é que sejam substituídas duas refeições pela mistura. A quantidade dos cereais e fibras do composto varia de acordo com o peso, altura e a alimentação de cada pessoa. A mistura substitui os carboidratos e, de acordo com a quantidade de calorias que a pessoa ingere durante o dia, a ração serve para complementar as calorias restantes. “O valor energético para uma porção de 30 gramas correspondente a três colheres de sopa é de 111 calorias”, fala a nutricionista.

aos poucos a ingestão do pão nosso de cada dia é substituída por farelos

Vanessa Bonon consome o composto alimentar a quatro meses e se diz satisfeita com os resultados. “Aconselho a todas as gordinhas como eu a usarem porque é muito bom”, se entusiasma. “Depois que comecei a tomar a ração, meu apetite diminuiu. Fico saciada rapidamente”, conta Vanessa. Especialistas recomendam que os ingredientes sejam comprados separadamente e moídos na hora. E devese ter cuidado ao guardá-los. O mau armazenamento pode fazer com que percam suas propriedades. Já o casal Marcone e Liliane Nunes, adeptos a três meses da ração humana, acreditam que o composto alimentar é eficaz, principalmente, quando consumido no período noturno. Eles contam que acordavam cansados por causa de uma alimentação pesada à noite. Os exageros causavam insônia e pesadelos. Outro fato positivo observado pelo casal foi em relação às atividades físicas. “Como passamos a ter uma boa noite de sono, resolvemos acordar cedo para fazer caminhada”, diz Liliane. O resultado é visível. “Hoje minha barriga diminuiu e consigo correr muito mais no futebol sem me cansar tanto”, sorri Marcone. Com toda evolução que a cada dia somos apresentados, vale refletir é: em pleno século 21, estaria o homo sapiens mais parecido com os animais? Vivemos enjaulados em nossas casas, espremidos igual sardinha em lata no transporte público, e agora, comemos ração.


Cigano

diVERsidadE

Juliana Baeta, Marília Corradi, Patrícia Righi e Sérgio Duarte

Acredite, existe uma ciência que estuda os ciganos: a ciganologia. É um dos ramos mais difíceis da etnologia. A começar pela pouca documentação histórica deste povo e também por causa da falta de comunicação com os não-ciganos. Só para se ter uma ideia, os ciganos – também conhecidos como “Rom”- são ágrafos, ou seja, não escrevem, nem leem. A língua oficial cigana é o romani, ou romanês, e é apenas oral. É claro que os ciganos se adaptam aos vários lugares por onde passam e incorporam o vocabulário dessas regiões, mas o romanês é essencial na cultura deles. Reza a lenda que se você fizer a mesma pergunta sobre a história do povo Rom, para 20 ciganos, terá 20 respostas diferentes. Perguntamos para duas ciganas, que encontramos no centro de Belo Horizonte, sobre a origem de cada uma. As duas deram respostas diferentes. Aline Angélica, que não quis informar a idade, diz que ouviu dizer que seu povo veio da África. Já Ana Rosa, outra que também não quis revelar a idade, explica que a origem é a Europa. As duas moram na mesma comunidade, no bairro Veneza, em Ribeirão das Neves. Mesmo conta tanta divergência sobre a origem, vamos tentar contar a história dos ciganos.

tudo o que você sempre quis saber sobre os ciganos e nunca teve coragem de perguntar

dalits

A teoria mais aceita pelos estudiosos é de que o povo Rom surgiu no Noroeste da Índia (atual Paquistão) e se dispersou por não se submeter ao sistema de castas, que até hoje ainda existe lá. Eles pertenciam à casta dos párias, ou dalits, considerados os intocáveis por serem sujos e mal vistos por todas as outras castas. Cansados da exploração e humilhação, muitos resolveram fugir, buscaram outras formas de viver e passaram a esconder

sua origem. Uma dessas formas, que se perpetua até hoje, é o nomadismo. Eles nunca ficam muito tempo no mesmo lugar e se mostram ariscos ao contato com os não-ciganos. Repare: saias compridas, véus coloridos e uma maquiagem forte. Tudo isso se parece muito com o hábito de se vestir dos indianos, não é? Além disso, o romani tem expressões e palavras oriundas do sânscrito, antiga língua clássica da Índia. Há vários indícios de que o povo cigano tenha vindo da Índia.

Os GitaNOs tuPiquiNiNs Dentre suas incontáveis viagens desde à fuga da Índia, o povo Rom se dividiu em dois grandes grupos entre os séculos X e XIII. Um foi para a Ásia Ocidental e o outro para o Império Bizantino. Finalmente, no século XIV, chegaram ao Velho Mundo. Viviam em cavernas ou improvisavam tendas e viajavam pela Europa na condição de peregrinos. Em 1370, chegaram a ser escravizados na Romênia pelos proprietários de terras, pelo Estado e até pelo Clero. Os gitanos ganharam várias famas ao longo dos anos. Eram considerados festeiros, alegres e divertiam a população com atrações com animais, música e mágica. Mas eram também tidos como perigosos, inúteis, anti-sociais, vagabundos ou feiticeiros. Como não se submetiam ao controle dos governos, no século XIX, foram despachados para as colônias da América e da África. E assim eles vieram parar no Brasil. Estima-se que hoje, no Brasil existam 250 mil ciganos vivendo em acampamentos e viajando pelo País. Os gitanos tentam manter a tradição, passando de geração a geração, os valores da cultura Rom, como a quiromancia, o tarô, a dança a música e a virgindade das moças antes do casamento.


Arquivo

CidadaNia Existem projetos que ajudam os gitanos brasileiros a garantir os seus direitos, como por exemplo, o projeto "Cidadania de Ciganos e Nômades Urbanos", lançado em Minas Gerais em 2009. O objetivo é estimular e promover mutirões para registros civis, já que muitos não têm documentos de identificação. A iniciativa partiu do Sindicato dos Oficiais de Registro Civil do Estado (Recivil) e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH). O subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da SEDH, Perly Cipriano, lembra que a cidadania começa pelo registro civil. Segundo Cipriano, o Brasil tem a segunda maior população cigana do mundo e, por isso, é preciso fazer com que o trabalho iniciado em Minas Gerais seja disseminado para todo o País. "O projeto de nação que queremos, trata todas as raças e etnias com respeito e dignidade", diz ele. Pela lei, os ciganos também podem se casar no civil, mas a grande maioria prefere se casar em cerimônias tradicionais do povo Rom, com muita festa, música e dança. Assim como o registro em cartório e o casamento, eles também têm direito à saúde e à educação no Brasil. Mesmo assim, são poucos os ciganos que frequentam a escola. Eles educam os seus filhos ao modo clássico gitano e isso inclui a quiromancia, artesanato, música e dança.


Vida a JEitO dE ViVER

dois,

Para quem ainda não consegue se bancar sozinho e quer sair da casa dos pais, arranjar alguém para dividir o apartamento é a saída

a três,

a quatro,

a cinco...

Divulgação


Indhiara Souza

Geladeira, fogão, cama, pratos e TV...tudo novo. Não é casamento, mas parece. Por volta dos 17 anos, eles levantam voo para a cidade que tem o curso para a profissão dos sonhos e deixam na casa dos pais a adolescência. Na cidade nova, é necessário arrumar parceiros para dividir as contas, os móveis e eletrodomésticos. Parece tão difícil como escolher um noivo ou noiva, já que existe a divisão de rotinas, objetos e, principalmente, do mesmo espaço. Mas como fazer com que a vivência em repúblicas seja o menos traumática possível? Será que dá para juntar os trapos com um desconhecido, acordar e, em vez do irmão mais novo, dar de cara com uma pessoa que até ontem não existia na sua vida? Há quem jure que a internet é a melhor lugar para conseguir alguém para dividir as despesas no fim do mês. O analista de sistemas Leandro Damasceno tem 27 anos e aos 18 saiu de Governador Valadares, MG, para fazer faculdade em Belo Horizonte. Ele procurou no Orkut alguém para dividir as despesas e, desde então, já morou em várias repúblicas, com colegas que conheceu no mundo virtual. “Tive problemas com uma pessoa que conheci pela internet, mas isso poderia também ter acontecido com um amigo de infância ou até com meu irmão”, afirma Leandro. Ele diz que tirar a privacidade do outro é a pior coisa que um colega de apê pode fazer. Levar a namorada todos os dias da semana, por exemplo, está fora de questão. “Mexer nas minhas coisas também me deixa muito pê da vida”, esbraveja. Sair de Pedro Leopoldo, a 37km de Belo Horizonte, para mudar para a capital não fazia parte dos planos da relações públicas Danielle Moreira Costa, 28 anos. O deslocamento entre a casa, a faculdade na capital e o trabalho na cidade de Confins desgastou tanto Danielle, que ela precisou se mudar para Belo Horizonte para facilitar a rotina. Arrumou emprego em BH e firmou a vida por aqui, mesmo com a mãe morando tão

perto. “Minha mãe casou de novo e apesar de toda a liberdade que ela me dava, eu não tinha afinidades com o marido dela, o que me motivou ainda mais a sair de casa”. Danielle morou por quase nove meses com uma tia em BH, mas aquilo que dizem “morar com parentes é péssimo”, foi verdade na vida dela. “Um dia, saindo da faculdade, vi um apartamento com a placa “aluga-se”. Entrei em contato, os custos eram compatíveis com a minha renda e, por isso, aluguei quase no susto”. Depois de assinado o contrato, veio a parte complicada: arrumar alguém para dividir as despesas. Danielle teve sorte de conseguir companhias que eram de seu círculo de amizade e, felizmente, se deram bem. O seguinte foi comprar a mobília. “Parecia um casamento. Eu nunca tinha comprado um sofá, ou uma geladeira!”, ri. Mesmo morando com pessoas conhecidas, ela não escapou dos atritos com as colegas. O principal motivo era o descumprimento das regras: “Tínhamos uma escala de limpeza que algumas não levavam tão a sério”. Apesar da necessidade de organização, Danielle entende que essa obrigação de ter que beber água e lavar o copo imediatamente após usá-lo, é um saco. “Eu queria deixar o copo em cima da pia o tempo que eu quisesse. Não porque sou desorganizada, mas pelo simples fato de fazer o que eu quiser, quando eu quiser”. Mesmo com esses contratempos, Danielle e Leandro preferem os pequenos problemas de morarem em república, porque isso é compensado pela satisfação de estudar e trabalhar no que sempre sonharam. Quando o assunto é voltar para casa, a resposta é a mesma: quanto mais tempo fora da casa dos pais, mais adquirimos nossas manias e nosso próprio jeito de viver. Se voltássemos a morar com eles, seria um retrocesso. Assim que a situação financeira permitir, eles deixarão as respectivas repúblicas para morarem sozinhos e não vão mais “brigar com alguém que deixa a tampa do vaso sanitário levantada”, garante Danielle.

dÁ PRa CONFiaR? Várias são as comunidades do Orkut que abrigam a galera que quer companhia para morar nos mais diversos lugares do Brasil. Também há sites especializados no assunto como o moracomigo.com.br e o easyquarto. com.br. Nem sempre as pessoas acertam na procura dos companheiros e nem sempre dá para pedir referências. “É como um tiro no escuro”, diz Bruno Pereira, 26 anos, morador da república Arame Farpado, em Bambuí, MG. Ele se juntou a três amigos e montou a república que, segundo ele, é uma das mais famosas da cidade. À medida que os amigos se formavam, ele abria vagas para outros garotos. “Dos fundadores, só restaram eu e mais um na república, os outros chegaram recentemente”. A adaptação de Bruno foi difícil. Aprendeu a cozinhar na marra e não fazia ideia de como uma roupa suja de uma semana inteira ficava limpa, cheirosa e passada na casa da mãe dele. “Apanhei muito, aprendi e hoje faço um ovo frito excelente”, brinca., Depois da fase de adaptação e do surto de saudades de casa, Bruno tem certeza de que não volta a morar com os pais, mas também não deixaria a Arame Farpado. “Fiz uma história na Arame Farpado, tenho um carinho enorme pela república. Mesmo depois que terminar a faculdade vou ficar por aqui, depois vejo o que faço. Agora essa é a minha casa”. Danielle, Leandro e Bruno, mesmo não querendo voltar para a casa dos pais, transferem, sem perceber, valores, ideais e características essenciais às repúblicas onde moram: a característica de uma família. Está explicado porque mesmo depois de formados, muitos continuam nas repúblicas. A convivência, uma hora ou outra é acertada, as manias se ajeitam e um passa a aceitar o outro. Se não der certo, há a separação, readaptação, carinho e respeito novamente, como pode acontecer num casamento.


iNClusÃO

as mãos

falam

a linguagem dos sinais rompe o silêncio e contribui para a inclusão dos deficientes auditivos Arquivo Pess

oal

Núbia Aguila (ao centro) acompanhada de bailarinas com alto nível de surdez


Por Marnês Costa

A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), usada para a comunicação das pessoas com deficiência auditiva, começou a tomar forma em 1890, com a criação do Instituto Nacional de Surdos, no Rio de Janeiro. Mas não é uma invenção nacional: a LIBRAS tem origem na língua de sinais francesa. As diversas línguas de sinais têm particularidades em cada país e inclui expressões regionais. “Na LIBRAS, os verbos não são conjugados, aparecem sempre no infinitivo”, ensina o professor de LIBRAS, Wellington Fernando Costa. Ele se interessou pela língua de sinais por ter vários amigos com deficiência auditiva. Depois de aprender o básico com os amigos, Wellington procurou uma escola para se aperfeiçoar e ter um diploma para dar aulas para surdos. Uma curiosidade: ele conta que os deficientes auditivos falam várias gírias em LIBRAS. Apesar de todos de sua família serem ouvintes, Wellington ensinou a língua para a mãe e as irmãs. “Conversamos em LIBRAS para nos aperfeiçoarmos cada vez mais”, diz animado. Em 2005, por decreto federal, o ensino de LIBRAS passou a ser obrigatório nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério em nível médio (Normal) e superior (Pedagogia, Educação Especial, Fonoaudiologia e Letras). Mas há faculdades que não cumprem o decreto. No curso de Letras, da PUC Minas, por exemplo, a discipli-

na não é oferecida. “Gostaria muito de aprender LIBRAS, pois isso é fundamental para trabalharmos com as crianças com deficiência. Fica muito difícil o professor aproximar de um aluno se não conhece a “língua dele”, diz Bárbara Reis, do 8º período de Letras, na PUC Minas. Já a UNI-BH oferece a disciplina. “Cumprimos rigorosamente o decreto”, afirma Carlos Donizetti da Silva, coordenador do curso de Pedagogia. Ele informa que os alunos aprendem a linguagem de sinais no 3º período. Pós-graduada em Psicopedagogia e com especialização no ensino da linguagem de sinais, a professora Tatiana Papa Pimenta é a responsável pelo ensino de LIBRAS na UNIBH. Alguns centros de referência e apoio às pessoas com deficiência oferecem gratuitamente o curso de LIBRAS, geralmente para os familiares das pessoas com deficiência auditiva. Os demais interessados em aprender tem que investir financeiramente. O preço de um curso básico de LIBRAS, com duração de três meses, é de R$ 450.

iNClusÃO Sandy Oliveira é deficiente auditiva e desde cedo foi matriculada em uma escola especializada para surdos, onde aprendeu LIBRAS. Hoje, com ajuda de aparelhos, restabeleceu parte da audição e com algumas limitações fala várias palavras. Sandy optou por continuar a estudar numa classe especializada, mas mantém contato com os alunos que escutam e

iBRas

ONdE aPRENdER l

falam. “A educação me ajudou muito no convívio com as pessoas. Elas entendem as minhas limitações e me tratam com carinho”, conta a garota. Com 15 anos, ela leva uma vida como a de outros adolescentes. Vai à festa com os amigos, ao shopping e a outros locais frequentados pelos jovens. Não se sente isolada da sociedade e sonha com o primeiro namorado, mas o primeiro beijo já aconteceu. “Meu pai não pode saber disso, para ele eu continuo um bebê”, diz entre risadas.

CORPO sONORO Dançar sem ouvir a música é possível? O Ministério Ephatá é um grupo de dança Igreja Batista da Lagoinha que tem integrantes surdos e mudos. Núbia Aguiar é pastora, bailarina e líder do grupo. Ela diz que os surdos podem sentir os sons das músicas, com a vibração das ondas sonoras no corpo e no chão. É assim que percebem os ritmos e as pausas. Os deficientes auditivos desenvolvem a observação, captam rapidamente os movimentos da coreografia olhando quem os ensaia.“Eles têm muita facilidade com a dança, pois utilizam a expressão corporal e facial para se comunicar”, afirma. Além da dança, o Ministério promove cultos específicos para as pessoas com deficiência auditiva, com interpretes nos louvores e nas mensagens. Várias igrejas, principalmente as evangélicas, possuem departamentos específicos para atender os fiéis com deficiência.

-9936 ça 7 – tel: (31) 8451 , 441 – 3º andar – Pra iro ne Ja de Rio a Ru a eja Batista da lagoinh 25-0088 Ministério Ephatá igr onte/MG - tel: (31) 32 Cruzeiro – Belo Horiz 4 14 , ita alb a Ru 71 s surdos G – tel: (31) 3629-25 ação e integração do ntro – Vespasiano/M ão Nacional de Educ Ce raç – de 52 Fe a, – lim MG o is isc NE nc FE - Rua Fra dores de Vespasiano Partido dos trabalha do ra ltu Cu de se – MG Espaço 13


GastRONOMia

dElÍCia GElada

Fotos Cláudio Cunha

ice cream, helado, creme glaceé, gelato, eiscreme. Não importa a língua, o sorvete é unanimidade universal!


Por Adrielle Martins e Carina Vilela

De onde veio o sorvete? Há registros de que o produto tenha sido criado na China há cerca de três mil anos, mas foi na Europa, mais precisamente na Itália, que ganhou textura e sabores irresistíveis. Há notícia de que o sorvete já era conhecido na época dos gregos, e que um dos apreciadores, foi Alexandre O Grande. O produto era uma mistura de leite de cabra com gelo.

aliMENtO NutRitiVO

No verão, as sorveterias se enchem. Ao contrário de europeus e norte-americanos, os brasileiros não encaram o gostinho gelado no frio. Com 81 anos, a sorveteria São Domingos é tradicional em Belo Horizonte. Foi a primeira da cidade, segundo um dos proprietários, José Carlos Alves Moreira. Hoje, ali são produzidos cerca de 300 tipos de sorvete. “De tempos em tempos trocamos os sabores, mas sempre mantemos, em média 60 a 65”, conta José Carlos. Os sabores mais exóticos são bem brasileiros. Dentre eles estão os de araticum, manjericão, abacaxi com hortelã, limão siciliano, tamarindo e seriquela. Longe de ser só uma “guloseima que refresca”, o sorvete, além de agradar tanto crianças como adultos, é um alimento com alto valor nutritivo. A crença, de que os gelados provocam resfriados, dores de garganta, gripes e outros distúrbios, não é verdadeira. “O sorvete só faz mal para quem já está afetado por algum problema de saúde”, explica a geriatra e proprietária da sorveteria Punto It, Khenya Strumia.

sORVEtE aRtEsaNal

O sorvete mais famoso do mundo é o italiano. Mas em Belo Horizonte pode-se encontrar versões naturais produzidas à moda italiana e francesa. São os famosos gelatos e sorbets, produzidos artesanalmente e considerados muito mais refrescantes e saudáveis. “O sorvete artesanal usa matéria-prima melhor do que o

indústrial”, diz Khenya Strumia, proprietária da sorveteria Punto It. Segundo ela, o sorvete artesanal usa ingredientes frescos, por isso, tem de ser consumido rapidamente. Os sorbets são especialidade da culinária francesa. Na gelateria mineira I Scream, especializada em sorbets e gelatos, existem cerca de 40 sabores da delícia gelada. S e g u n d o Fernando Lana, proprietário da sorveteria, as opções de sabores são "infinitas" e tudo pode virar sorvete. As possibilidades vão desde os tradicionais sabores de maracujá, coco, chocolate até os exóticos: saquê, wasabi, prosecco com morango, papaia com licor de cassis, queijo frescal, mascarpone com figo e caipirinha. “Nossos sorbets são produzidos como na França, com a própria fruta e água”, conta Fernando. A diversidade das frutas brasileiras, que realçam o sabor, é uma grande aliada para a produção do sorvete artesanal.

dElÍCia X PERiGO

Mesmo sendo gostoso e nutritivo, o sorvete pode se transformar numa bomba calórica. Principalmente quando coberto com caldas, confeitos, biscoitos e outros acompanhamentos. Uma bola de sorvete de frutas tem, em média, 90 calorias se for feita somente com a polpa, como na maioria dos picolés e sorvetes. Caso tenha a adição de leite, tem algumas calorias a mais. Sabores como cremes, chocolate, avelã e outros podem chegar a mais de 300 calorias. A nutricionista Melina Reggiani Souza chama a atenção para os sorvetes industrializados, pois contêm estabilizadores, conservantes, emul-

sificantes e muita glucose. Além disso, um cuidado especial que todo mundo deve ter é com a gordura hidrogenada, presente em muitos sorvetes, especialmente os encontrados nos supermercados. “Esta gordura deve ser evitada, pois está associada à elevação do colesterol ruim (LDL) e diminuição do bom (HDL), o que aumenta os riscos de doenças cardiovasculares”, explica Melina. Mas, com tudo isso, o sorvete deve ficar fora do cardápio? Bem, não é preciso exagerar. Melina Reggiani ensina que devemos ficar atentos ao rótulo e preferir os sorvetes livres de gordura trans, com menores quantidades de calorias e gorduras e mais ricos em vitaminas e minerais. "De modo geral, os sorvetes de fruta são menos calóricos e mais ricos em vitaminas e minerais do que os de outros sabores, como de chocolate ou creme. Por isso são uma boa opção para quem deseja controlar o peso e o colesterol”, diz. Segundo a nutricionista Melina, além de saboroso, o sorvete é um alimento rico em proteína, carboidrato, lipídeos, vitaminas A, D, K e do complexo B e nos minerais cálcio e fósforo.


tECNOlOGia Bárbara Camilo, Raíssa Daldegan e Thayanna Sena

Eles estão longe de ser vilões, tampouco mocinhos. Os jogos da internet aumentam a autoestima dos usuários e liberam dopamina, neurotransmissor que estimula o sistema nervoso central, aumentando a atenção das pessoas. Por outro lado, também podem fazer com que elas percam a noção do tempo, se esqueçam de comer e dormir e podem ainda levar ao isolamento. Muitos devem estar se perguntando: como é possível alguém se tornar viciado em aplicativos on line? A resposta é muito simples. Para recompensar a dedicação da pessoa, os games oferecem rápido status social, ainda que seja virtual. As fases seguintes tornam-se mais difíceis, exigindo tempo e empenho. Outra característica desses simuladores é o fato de mobilizarem grande número de adeptos que se juntam em torno de um interesse comum. Além desses fatores, temos a facilidade de acesso à internet. Nas Lan Houses, por exemplo, as pessoas pagam pouco e têm acesso à rede. Por isso, esses locais acabam se tornando ponto de encontro dos jogadores e promovem amizades que extrapolam o mundo virtual.

NOVa FEBRE

Com quase 90 milhões de usuários, o jogo Farmville é o mais popular do site de relacionamentos Facebook. Dentre os mais jogados no mundo estão o World of Warcraft, simulador de ação e aventura com mais de 10 milhões de jogadores; o Defense of the Ancients, ou Dota, um jogo de estratégia em grupo focado no combate a heróis; o Grand Theft Auto, ou

GTA, é uma série que vendeu aproximadamente 40 milhões de cópias em todo mundo. Esse jogo mistura ação, aventura e direção e é indicado apenas para adultos por conter várias ações como roubar, matar e agredir. Um dos mais famosos é o Counter Strike em que equipes de terroristas e contraterroristas combatem entre si até a morte. Foi considerado um dos responsáveis pela popularização dos jogos on line e das Lan Houses no mundo. O estudante de Sistemas de Informação, Eduardo Lelis, 19 anos, joga Word of Warcraft há oito anos. Para ele, esse simulador tem uma das melhores interfaces gráficas da atualidade. “É uma maneira que encontrei de me distanciar da realidade e entrar num mundo em que é possível ter outras características, ser outra pessoa”, revela. Eduardo chegou a jogar 16 horas por dia e admite que isso pode isolar as pessoas do convívio social. O preferido do estudante Victor Paduani, 17 anos, é o Defense of the Ancientes. “O Defense é de estratégia em equipe, ao mesmo tempo que você conversa com os amigos, pode curtir esse hobbie relaxante”, diz. É importante informar que esse hobbie atrapalhou os estudos de Victor. Ele, que chegou a jogar seis horas por dia, conta que muitas vezes não conseguiu acordar para ir à escola porque ficou jogando até tarde da noite. “A gente fica condicionado e deixa de fazer coisas importantes, como estudar. Algumas vezes não consigo nem prestar atenção na aula”, confessa.

Entre a vida real

mund Eles mobilizam grande número de pessoas, tornam-se o principal ponto de encontro e ganham cada vez mais adeptos. Os jogos on line conseguem manter os jogadores por várias horas na frente de uma tela de computador


virtual do Diego Fialh o

leo

A Colheita Feliz é um jogo que ganhou grande adesão dos brasileiros e se tornou o mais popular do site de relacionamentos Orkut. Tem a finalidade de fazer com que os usuários dessa rede social interajam entre si. Na Colheita Feliz, o jogador planta vários tipos de frutas, legumes, verduras e flores, cuida de animais como porco, galinha, vaca, pato e outros. “Os fazendeiros” podem invadir a fazenda do vizinho para roubar e danificar, ou para adubar e regar a plantação. À medida em que a pessoa se dedica à fazenda, ela evolui. Ao vender o resultado da plantação, os usuários ganham moedas amarelas para comprar outros produtos, além de decoração. Algumas sementes e animais, no entanto, só podem ser comprados com moedas verdes. Essas moedas, por sua vez, só podem ser adquiridas com dinheiro real. Mas em determinando ponto tem-se a necessidade de comprar a moeda verde para poder evoluir: comprar novas terras e também um cachorro para proteger a fazenda de saques.

O Second Life é um simulador virtual em três dimensões da vida real. Criado em 1999 e desenvolvido em 2003, seu nome significa segunda vida. Estima-se que o jogo tenha 60 mil adeptos em todo mundo. Para jogar, o internauta deve acessar o site www.secondlife.com e instalar o aplicativo no computador. Além disso, é preciso fazer um cadastro no site. O fundamento do game está em estimular cada jogador a descobrir um meio de sobreviver, desenvolvendo atividades lucrativas, para aumentar a renda. A moeda usada é o Linden dollar, que pode ser trocada por dólares verdadeiros, segundo a cotação da moeda do dia. Para obter dinheiro, a pessoa pode criar objetos, construir imóveis e desenvolver acessórios para os “avatares”, que representam os usuários. Para tornar o personagem com uma aparência física parecida com a sua, o usuário pode modificar aspectos físicos, criar e comprar roupas. Mas tudo isso custa dinheiro de verdade, pago com cartão de crédito.

O estudante de Direito Matheus Machado, 22 anos, é moderador do Runescape, que é dividido em reinos e se passa em Guilenor, uma cidade virtual. Os jogadores podem se deslocar por várias regiões e utilizar vários feitiços. Em cada lugar existe um monstro que tenta impedir que a missão seja cumprida. Matheus conta que se tornou moderador a convite do próprio jogo, com sede no Reino Unido. “Eles escolhem alguns jogadores que se destacam para serem embaixadores da "paz" e ajudar os menos experientes a serem jogadores exemplares. Essa necessidade existe porque alguns usuários insistem em quebrar as regras”, explica. O estudante joga há 10 anos e admite que chegou a dedicar 11 horas do seu tempo ao Runescape. Hoje, joga cerca de uma hora por dia e nos finais de semana. Ele diz que os simuladores virtuais prejudicam as pessoas quando essas deixam de lado o trabalho, estudo e amigos. “Qualquer vício pode prejudicar. O importante é saber se policiar”, aconselha.


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Por Jéssica Bissuli

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Ousar nas roupas, nos acessórios, no make up e viver no universo fashionista

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Savassi é o point de encontro da galera underground. Prova disto é o atual estilo dos jovens de Belo Horizonte. A cena do tão conhecido emocore (emo) deixou de ser moda para dar espaço para o chamado universo fashionista. Ter traços badalados, estilo descolado, comportamento alternativo, grande interesse em moda e gostar de redes sociais são características do americanizado termo hype. A palavra é uma abreviação de hyperbole e, em português, hipérbole é uma figura de linguagem que representa o exagero, algo em excesso. Depois de causar frisson no ambiente alternativo de grandes metrópoles como Londres, Paris, Nova York, o hype conquistou o Brasil “Dizem que a moda não tem limite, que podemos usar o que nos faz sentir bem, mas acaba que todo mundo vai pelo mesmo caminho. O hype está um pouco à frente, pois antecipa tendência, lança looks que nem estão em evidência”, explica o estilista mineiro, Raphael Ribeiro. Usar modelitos excêntricos e que estejam nos parâmetros da década de 1990 - estilos grunge e boyband - é regra pra quem segue a tendência e frequenta lugares hypados. Assim como aderir à febre dos anos 1980 ombreiras, microvestidos, cores fortes, All star, jaqueta de couro e óculos wayfarer . Por isso, os brechós se tornaram top pra quem quer encontrar esses looks. “Sempre alguma coisa antiga volta a ser moda e, com certeza, os brechós são uma opção pra quem quer seguir esta influência. Mas, nada de ir aos que ficam na Savassi. O legal é ficar de olho nos brechós temporários, nos de igreja. Nesses, sim, a gente encontra coisa antiga, com história e por um preço irrisório. É totalmente hype”, alerta o estilista Raphael. As boates alternativas de BH também são exemplo de lugares hypados. Mary in Hell, Velvet, localizadas na Savassi, The Arts from Mars, no bairro de Lourdes, e o Club Cinco, próximo a Nova Lima, fazem parte do circuito quando o assunto é badalação para a galera fashion. Quando a pedida é um lugar mais tranquilo, a Mercearia Yoyo e o Café com Letras, ambos na Savassi, se destacam. A tendência hype esquentou o clima fashionista da cidade, conquistando uma vaga no paralelo Rio e São


Paulo. Prova disso, foi à sexta edição do maior evento hype de BH, o Minas Trend Preview, realizado de 28 de abril e 1º de maio de 2010. Um dos mais importantes eventos de pré-lançamento de moda do país, o Minas Trend Preview é uma iniciativa da FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais). O que mais se via no último Minas Trend Preview eram jovens estilistas e admiradores atrás de novidades, influências e incentivo. Além do sucesso no circuito Rio, São Paulo e BH, o evento também ganhou credibilidade em países como França e Inglaterra, onde sites de estilistas famosos mostraram a tendência hype de BH. “A moda está recebendo aqui no Brasil. A atenção que merece. Lá fora já é comum as pessoas se interessarem por crítica e produção de moda, mas hoje os jovens brasileiros estão, de fato, se informando mais sobre o assunto”, conclui Luísa Reiff, estudante de jornalismo da UNA e frequentadora do evento.

Muito mais que moda Apesar do hype ser ligado à moda, a palavra pode ser associada a outras vertentes. O meio musical tem tudo a ver com o termo. Bandas como The Storkes, The White Stripes e The Wines são consideradas hypadas por estarem em evidência, domi-

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Fotos Divulgação

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nando o topo das paradas e as picapes dos DJs nas baladas. “Por causa da explosão, em parte pelo trabalho da imprensa, o hype está crescendo e fortalecendo”, explica Tomaz de Alvarenga, colunista do Ragga Drops, mídia ligada à Revista Ragga, dos Diários Associados. O visual do grupo também conta, quando se fala de hype. Um dos looks que mais influenciam no atual estilo é o visual retrô/freak da cantora Lady Gaga, com seus modelitos pra lá de bizarros. “É a sintonia perfeita. Música e moda se encontram e dão as mãos, pois a moda lança tendências e a música molda o estilo. Como também pode ser vice-versa”, explica a estudante de moda da faculdade FUMEC, Cecília Cunha. Na televisão, Malhação, da Rede Globo, também se encaixa no universo hypado, com as roupas e as produções que o programa resolveu adotar. Adolescentes seguem à moda e se deslumbram com os personagens. Fiuk, filho do cantor Fábio Júnior e protagonista do programa, é a sensação do momento. “O Fiuk é um amor, sou apaixonada por ele! E posso dizer que todos os meus colegas copiam o estilo dele”, diz Marina de Almeida, estudante da 8ª série do Colégio Pio XII. Em matéria de moda, música e comportamento, o hype chegou para ficar. Só não se sabe até quando.

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1 . Dj na boate Mary in Hell 2 . Mercearia Yoyo 3 . Dj agitando na boate Velvet 4 . Ambiente do Café com Letras 5 . The White Stripes 6 . Looks Lady Gaga 7 . The Strokes 8 . The Hives


BiCHOs E Cia

animais de estimação

Os pets reinam em casa: a vida é pura mordomia

tê-los ou não tê-los? Eis a questão... Por Wellington Sales

Muitos recém-casados se fazem essa pergunta e até mesmo aqueles que não pensam em casamento têm essa dúvida. Na correria do dia a dia, os animais de estimação suprem a falta de um filho e ganham status de gente dentro de casa. Segundo pesquisa da Anfal Pet (Associação dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação), o Brasil é o segundo país do mundo em população de animais domesticados (cães e gatos), fica atrás dos EUA, que têm uma população de cerca de 50 milhões desses animais. A professora universitária Alessandra Coelho tem dois cachorrinhos da raça Lhasa Apso. O mais velho chama-se Paimei e o caçula, Bill. Os três formam uma família moderna e feliz, com todos os mimos que os pets (animais de estimação) podem ter nos dias de hoje. Por exemplo? Banho e tosa semanalmente, guia dupla para passeio lado a lado, babá e hotel quando a “mamãe” viaja! Apesar dos caprichos com os bichinhos, Alessandra afirma que os trata como cachorros e não como filhos. “Eles têm todo o meu carinho e cuidado, mas são tratados como animais. Dormem nas camas deles, têm os lugares onde ficam na casa e comem ração. Eu moro só, eles são minhas companhias. Desde que nasci, tive cães em casa, aprendi a gostar deles com a minha mãe.” Já a terapeuta Evelin Vidal Corrêa diz que Vick, sua Basset Hound, está a um passo de ser “gente”. A cadelinha tinha 45 dias de vida quando Evelin a

recebeu de presente. Hoje aos 11anos, Vick parece a dona da casa. Ela confessa que os meios que usa para educar a cadelinha não são os melhores. “Não sei colocar limites. Dou muita liberdade e acabo mimando o animalzinho. Pequei nos excessos. Em casa ela é uma lady, mas não sabe se relacionar com outros cães.” A terapeuta confessa que sua “filha” tem atrapalhado sua fase da vida. Aos 59 anos, lamenta não poder viajar e aproveitar a vida por falta de coragem de deixar Vick sozinha em casa ou mesmo em hotelzinho para cachorro. “Só viajo para os lugares que posso levá-lá. Quando ela morrer, não quero outro animal.”

PalaVRa dE EsPECialista Para a veterinária Ana Carolina Figueiredo carinho e cuidado são indispensáveis. É preciso estar em dia com as vacinas e vermífugos; dar banho e fazer tosa de acordo com a necessidade da raça; usar acessórios como sapatinhos para passeio (por causa da higienização); coleira de identificação e antiparasitária entre outros cuidados. Mas é preciso lembrar que cachorro e gato são animais e assim devem ser tratados. Portanto, nada de excessos. Óculos de sol, roupas, esmalte nas unhas, carrinho para passeio e qualquer outro produto que possa incomodar os animais faz com que eles percam suas características, seus instintos. “A humanização dos animais faz com que eles se tornem dependentes dos donos e saiam de suas realidades”, dia Ana Carolina. Ela conta que muitos clientes perguntam se o animal expos-


to para venda em sua loja late. “Eu respondo: é cachorro e latir faz parte da espécie.”

BOM PRa CaCHORRO O ramo de pets cresce a passos largos e movimenta cerca de 69 bilhões de dólares no mundo, segundo a APPA (Associação Americana de Produtos Pet). No Brasil, estima-se algo em torno de 9 bilhões de reais por ano, de acordo com dados da Anfal Pet. A pesquisa Radar Pet da COMAC (Comissão de Animais de Companhia) revela que 44% dos lares brasileiros possuem um cão ou gato. Hoje, é possível encontrar até creche para cachorros, onde são realizadas atividades e adestramento ao longo do dia. A qualidade de vida dos pets, sem dúvida, melhorou. Para se ter uma ideia, animais que antes comiam sobras de comida viviam, no máximo, 10 anos. Hoje, com as rações específicas, vivem mais de 15 anos. E como se não bastasse, já é possível cloná-los. Programas que traduzem miados e latidos dos pets já estão no mercado. É o que promete o Programa Japonês Bow-Lingual, que traduz em mensagens de texto o que os cães querem dizer. Assim, talvez, seja possível saber se eles querem ser tratados como bichos ou como humanos.

A veterinária Ana Carolina R. Figueiredo ao lado de uma cadela Labrador em seu consultório

Estúdio Fototó


atitudE

Para quem almeja uma sociedade livre da exploração animal, Belo Horizonte ainda é carente de alimentos especializados na cultura vegan. até quando?

sOB O Por João Paulo Mello

OlHaR VEGaNO

Belo Horizonte, sábado à noite, Savassi lotada. Em meio a uma multidão de pessoas que se concentram num dos diversos bares do bairro, não é possível identificar quem é ou não vegan ou vegano, em bom português. Sob a ótica do protecionismo à vida, eles deixam de consumir alimentos de origem animal, mas se deparam com dificuldades em encontrar um lugar que sirva esse tipo de alimentação . Na noite após as baladas, quando bate a fome, os veganos passam aperto. De acordo com Marina Dalila, 33 anos,

nutricionista e vegana há um ano, em BH, quem opta por esse tipo de dieta tem que gastar sola de sapato para conseguir comer algo. “Se não tiver outro lugar, uma opção é o Habbi’s, que mesmo sendo um fast food, serve o homus”. Trata-se de um prato de origem árabe, feito com grão de bico. Outra reclamação dos veganos é que os alimentos que não têm produtos de origem animal são caros, mesmo tendo como base vegetais, cereais, legumes e outros produtos de baixo custo. Em geral, são encontrados na região sul de BH, que tem um público com poder aquisitivo maior.

Mesmo após divulgação do Instituto Ipsos de que 28% dos brasileiros têm procurado reduzir o consumo de carne, o mercado ainda não atentou para o fato de que muitas pessoas estão interessadas em outro tipo de alimentação, como a vegana. Ser vegano em BH não é fácil, que o diga Henrique Lima, 28 anos e optante da dieta sem conteúdo animal há um ano. Ele diz que Belo Horizonte não tem mercado direcionado para esse público. É muito diferente do que ocorre em São Paulo, por exemplo. Henri mora há seis meses na capital paulista e se diz

Fotos João Paulo Mello

Em sampa, Henrique lima costuma encontrar o "V" nos cardápios, o que não acontece em Belo Horizonte

Paulo Renato militante da ala (aliança libertária animal) é culinarista e promove eventos sobre cultura vegan


Divulgação

FEiJOada VEGaN

Ingredientes: 1/2 quilo de feijão preto 1 xícara de prote ína vegetal textu rizada (PVT) grossa 1 xícara de cenour a em cubos 1 xícara de batat a em cubos 1 xícara de mand ioquinha em cubo s 1 xícara de abóbora em cubos 1 cebola pequena 3 colheres de sopa de óleo 3 dentes de alho 3 folhas de louro 3 colheres de sop a de coentro picad o 2 colheres de sopa de salsinha sal e pimenta a go sto

impressionado com a atenção que os estabelecimentos de comércio alimentício dão aos veganos. Segundo ele, em muitos lugares, há o “ V” de vegan nos cardápios.

COMER O quÊ? Chocolate, gelatina, pão de queijo, mel, macarrão. Você conseguiria viver sem tudo isso? Pois é, os veganos não consomem esses produtos por conterem derivados de origem animal. Se é difícil viver sem essas delícias, você deve estar se perguntando: “o que eles comem, afinal?” A boa notícia é que já existem no mercado produtos, como chocolate com soja (sem leite), salsicha de glúten, macarrão integral. Paulo Renato é promotor de eventos e “culinarista”, como ele diz. Um dos responsáveis pelo Grupo ALA – Aliança Libertária Animal, movimento militante em defesa dos direitos animais, ele explica que o grupo atua, principalmente, em Belo Horizonte promo-

vendo eventos para a divulgação da cultura vegan em ambientes como Parque Municipal, favelas e escolas da cidade. Conta ainda que o grupo ALA ocupa uma tenda no Parque Municipal, onde faz um trabalho educativo com vídeos. Ele faz também um trabalho de divulgação na Praça da Liberdade, onde distribui panfletos e projeta imagens de exploração animal nos edifícios do entorno. Um dos percussores da cultura vegana na capital, Paulo afirma que é quase impossível deixar de consumir produtos que tenham a ver com a exploração animal. “Até um chip eletrônico hoje pode passar, em alguma fase do processo, por contato exploratório”, admite.

diREitOs dOs aNiMais Com projeto de lei em tramitação na Câmara de Belo Horizonte, que determina o fim da ala de animais no Mercado Central da capital, os vegans já sentem o sabor da vitória na luta

Preparo: Cozinhe o feijão. Após cozido, abra a panela de pressã o e acrescente a cenoura, a mand ioquinha, o louro, o coentro, a salsin ha, sal e pimen ta. Ferva por 5 mi nutos. Adicione a batata e a abóbora . Em outra panela, refogue o alho e a cebola no óleo e junte ao feijão com os legumes . Deixe cozinhand o até que os leg umes estejam macio s e o caldo esteja conforme a consist ência desejada.

pelos direitos dos animais. O documento de nº 559/09 já foi aprovado em quatro comissões da Casa e após passar por outras 11, ainda dependerá da aprovação do Prefeito Municipal, que poderá vetá-lo ou não. Mas a expectativa de Paulo é que o projeto será vitorioso. O texto foi elaborado pelos próprios militantes e repassado à Casa Legislativa para análise. Acompanham o documento cerca de 3 mil assinaturas de pessoas que pedem aprovação do projeto e fotos das más condições dos alojamentos dos animais no Mercado Central. Para mais informações: http://www.guiavegano.com.br/nutricao/george/veganismo.html http://gato-negro.org/content/view/94/48/ www.cmbh.mg.gov.br www.verdevegan.com


Revista Ágora  

Revista Laboratório do curso de Jornalismo do Centro Universitário Newton Paiva

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