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รกgora Revista do Curso de Jornalismo do Centro Universitรกrio Newton Paiva

Ano IV | Janeiro a Julho de 2009

Tecnologia para divertir

Zouk

sacode as pistas

Sexo

com o melhor amigo


ágora ESTA É UMA REVISTA LABORATÓRIO DA DISCIPLINA JORNALISMO IMPRESSO (PRODUÇÃO DE REVISTA)

RUA CATUMBI, 546 - BAIRRO CAIÇARA

expediente

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS REITOR: Professor Luis Carlos de Souza Vieira

PRO-REITOR ACADÊMICO: Professor Sudário Papa Filho

PRO-REITOR DE PLANEJAMENTO E EXTENSÃO: Administrador Eduardo Eterovick

COORDENADORA DO CURSO DE JORNALISMO: Marialice Nogueira Emboava

EDITORA: Rosangela Guerra

EDITORA DE ARTE E PROJETO GRÁFICO: Helô Costa 127/MG

MONITORES DE DIAGRAMAÇÃO: Adrielle Lopes e Rodrigo Honório

REPÓRTERES: Ana Izaura Duarte, Ana Luíza Rodrigues, Anna Paula Morais, André Campos, Bianca Rabelo, Bruna Souza, Claúdia Gomes, Dandara Andrade, Deborah Mageste, Elania Aguiar, Jefferson Delben, Kênia Pires, Larissa Pontes, Leonardo Mota, Lucas Amaral, Luciene Alexsandra, Marcellus Madureira, Mariana Garcia, Nayara Amâncio, Patrícia Nestor, Raul Carvalho, Renata Nunes, Rodrigo Honório, Silvio Araújo, Thiago Fernandes e Valdir Ramalho.


Big Brother divulgação

DE OLHO NELES

Em sua nona edição o Big Brother Brasil ainda atrai milhões de olhares. Por que será que os brasileiros gostam tanto desse reality show? André Campos, Leonardo Mota, Marcellus Madureira e Raul Carvalho

O caminhoneiro Gersy Moreira dos Santos tem 44 anos e sai de casa todos os dias às cinco horas da manhã. Ele acorda cerca de meia hora antes de sair para trabalhar. E dentro do caminhão, ele e dois ajudantes discutem quem sairá no próximo paredão. O almoço também é regado à discussões sobre o Big Brother, reality show brasileiro que já está na sua nona edição. Santos chega em casa por volta das dez horas da noite e senta-se no sofá amarelo, ao lado de seu

filho. No outro sofá da sala sua mulher também observa o que se passa no programa global. Quando o BBB começa, os olhos se ligam e o riso começa. Comentários não faltam. Um participante logo é apontado como chato, enquanto uma moça é chamada de volúvel. Diante dessa cena, surgem perguntas: o que acontece com o povo brasileiro que se apaixona tanto pelo BBB? Qual será a graça de vigiar a vida de outros? Esses questionamento, no entanto, não importam para o motorista que saiu cedo, dirigiu o dia inteiro e no fim do dia, ao invés de dormir, senta-se no sofá e assiste ao programa.

Bendita Baboseira Brasileira “O programa pode arrecadar para a emissora numa noite de paredão cerca de 8 milhões e 700 mil reais. Acho que as pessoas não ficariam nada felizes em saber que elas mesmos pagam o prêmio do vencedor”, diz o crítico de arte, José Gonçalves, que não vê com bons olhos o programa que ele chama de Bendita Baboseira Brasileira. Para ele, o horário do BBB poderia ser ocupado com uma programação cultural. “Esse tipo de programa existe no mundo inteiro, mas persiste em paises de terceiro mundo. Agora pense num BBB só com pesso-

as de nível cultural mais avançado. Será que iria ter um sucesso ou morreria na primeira edição?” A pergunta do crítico abre portas para outro questionamento: será que a televisão e a força de sua comunicação poderiam condicionar o espectador e sua rotina? “Acho que a TV não é capaz de determinar o que as pessoas pensam, mas pauta os questionamentos que as pessoas fazem. De certa forma, a TV condiciona porque dá os elementos para a interpretação dos questionamentos”, esclarece Marcelo Loures, professor de Psicologia para cursos de Comunicação.


Entreter ou in-formar? “Eu acredito que a emissora e os patrocinadores de televisão ganham muito porque o produto está (literalmente) exposto, mas do ponto de vista pessoal e cultural o público não lucra muito”, aponta o professor universitário Rodney Souza. Ele lembra que em países mais ricos as pessoas têm condições de frequentar espaços culturais. Talvez por falta de dinheiro, a televisão

seja o nosso principal meio de divertimento”, frisa Rodney Souza. Muitos dizem que os espectadores podem desligar o televisor ao se sentirem incomodados, mas acontece que as pessoas já se acostumaram a descansar na frente da televisão. “Se você me perguntar se a televisão emburrece, eu acredito que não. As pessoas são capazes de perceber coisas muito além daquilo que está em evidência”, finaliza Marcelo Loures. O caminhoneiro Gersy Moreira dos Santos, aquele que assiste o BBB sentado no sofá amarelo, agradece.

O GRANDE IRMÃO Todos os cidadãos da i n t e rc o n t i n e n t a l O c e a n i a deviam manter a ordem conquistada pelo poder estatal em nome do bem comum. O governante dessa mega cidade, o Big Brother ou Grande Irmão, ditava regras e costumes através da televisão, transformada em máquina estatal, que se fazia presente em todas as casas. Cartazes fixados nas ruas, programas de rádio e alto-falantes diziam: “O Grande Irmão zela por ti”, e mais uma vez em nome do bem comum, toda forma de livre pensamento que pudesse contradizer a ordem era negada. Esse enredo lembra uma história próxima a realidade? Pois foi com

este argumento que George Orwell escreveu o livro 1984. O livro serviu como uma crítica aos regimes totalitários e à toda forma de homogeneização da conduta e do pensamento dos homens pelo poder estatal. Inspirados no enredo futurista – que já não é tão futurista assim – e nos experimentos da Psicologia Social, os idealizadores do Big Brother criaram o reality show. Além de manter o controle através da câmera e dar a sensação de vigilância, o objetivo do programa é realizar o experimento diante do inusitado: a convivência forçada com pessoas diferentes num espaço privado. Tanto no programa como no livro há um ideal semelhante: sacrificar uma parte da liberdade em nome de algo que é objeto de desejo. Enquanto os personagens do livro 1984 sacrificaram sua liberdade em nome do bem do estado, os escolhidos do reality show sacrificam sua privacidade em nome de um prêmio em dinheiro.


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Mariana Reis

Relacionamentos sexuais entre amigos aumentam cada vez mais e ultrapassam as barreiras do preconceito


No colinho gostoso do

melhor amigo Jefferson Delbem, Lucas Amaral e Thiago Fernandes

Você se envolveria em uma relação sexual com seu melhor amigo? Não se assuste com essa pergunta, pois hoje isso é mais comum do que se possa imaginar. Em Belo Horizonte, há quem admita viver uma relação que vai muito além da pura e simples amizade. Essas pessoas afirmam que o relacionamento sexual em nada atrapalha a amizade. Pelo menos é o que dizem. Algumas usam o discurso de que, diante da carência - sentimento comum entre os jovens de hoje - isso é até uma solução. Outros acham que esse hábito surgiu por causa das doenças sexualmente transmissíveis. Dalila*, uma garota de 16 anos, admite ter uma “amizade colorida” com um dos seus melhores amigos. Essa relação ocorreu pela primeira vez espontaneamente. "Eu estava passando por um momento de muita carência porque meu ex-namorado tinha acabado de terminar comigo. Marcelo (o seu amigo) veio conversar para tentar me ajudar, mas a nossa troca de carinhos foi ficando intensa e rolou", conta Dalila. Marcelo diz que sempre teve uma "quedinha" por sua colega, mas, achava quase impossível ter alguma coisa com ela. A relação dos dois, para ele, não vai passar desse nível. "Ela é uma ótima amiga, eu a adoro. Se a gente tentar ser namorado vai atrapalhar tudo, não nos daríamos tão bem", diz o garoto, que admite ter outros relacionamentos. Carla* diz que sua mãe é bastante liberal: “Ela acha melhor eu fazer ter relações sexuais com quem eu conheço e convivo do que com um qualquer”. Ela conta que, às vezes, encontra parceiros na internet, mas só depois de conhecê-los pessoalmente é que rola algo mais. Os conservadores, claro, são contra, coi-

sas desse tipo. Maria José de Almeida, dona de casa, de 70 anos, é mãe de dezesseis filhos com idade entre quatro e 31 anos. Vinda de uma família tradicional mantém costumes ensinados pelos pais. “Aprendi, desde pequena, que o ato sexual é algo que só deve se concretizar se feito com amor, apenas quando duas pessoas se gostam tanto ao ponto de se casarem. Mas se um dos meus filhos vier a se apaixonar por uma amiga, aí tudo bem”, diz Dona Maria. O sexólogo João Nepomuceno não vê problemas: “Sexo entre amigos e sem nenhum vínculo amoroso está cada dia mais normal”. João diz ainda que essa prática não é restrita somente aos adolescentes. “Engana-se quem pensa que os adultos também não aderiram a essa prática”. É grande o número de adultos que dá prioridade à vida profissional e que deixa a busca por um relacionamento sério em segundo plano. Ele faz um alerta: “Não adianta transar com alguém que conhece bem, a camisinha é sempre aconselhável”. Existem comunidade virtuais dedicadas exclusivamente ao incentivo dessa prática. Entre os homens é muito mais fácil admitir que o que se quer é uma noite de sexo e nada mais. Talvez por isso haja mais internautas do sexo masculino nos fóruns. Entre as mulheres, ainda há receio em assumir um relacionamento assim. A maioria dos participantes dessas comunidades virtuais são homossexuais. Com a possibilidade de usar um nome fictício, a internet é um espaço aberto para quem não quer e não pode se expor. Pelo jeito, a ideia de que há necessidade de se ter um parceiro fixo e duradouro está em processo de extinção na sociedade. O que será do casamento, então? Ou será que vem por aí um outro modelo matrimonial? *Algumas pessoas entrevistadas na matéria não quiseram ser identificadas


No balanço do busão

É nesse ritmo que várias histórias acontecem em meio à correria do dia a dia

Ana Izaura Duarte

Ana Izaura Duarte, Cláudia Gomes, Mariana Garcia e Nayara Amâncio

Ônibus, busão, coletivo. Todos esses nomes são dados para o meio de transporte oferecido pelos órgãos públicos à população de uma cidade. Na capital mineira, passam pelas roletas quase 1,5 milhões de pessoas por dia em 2.823 linhas de ônibus, sem contar os suplementares, que são 289. Imagine, então, quantas histórias engraçadas ou acontecimentos marcantes podemos descobrir durante uma conversa com as pessoas que pegam o busão todos os dias. O que mais se vê são pessoas cansadas, que reclamam, principalmente, da superlotação. Relatos sobre a falta de respeito entre os passageiros são constantes, mas também há casos de solidariedade que emocionam e também assustam. O vigilante José Antônio Costa, 37 anos, viaja de ônibus diariamente para trabalhar e conta que, de tudo o que presenciou, a história a seguir foi a mais comovente. Um dia, voltando para casa num ônibus cheio de gente ele viu quando um idoso com muletas entrou. No entanto, ninguém cedeu o assento para o senhor, nem mesmo os jovens que ocupavam as cadeiras reservadas para as pessoas da terceira idade. Lá de trás, incomodado com a situação, José Antônio comentou com os passageiros o absurdo que se passava ali. E sua indignação foi ainda maior quando uma das passageiras, que estava sentada em um dos bancos da frente, disse, em alto tom, que estava cansada do trabalho e que não cederia seu lugar para um “velho que só estava andando à toa”. Sentindo-se humilhado, o senhor levantou a calça, mostrou a perna mecânica e explicou que não andava à toa, mas vinha de uma consulta médica. Diante da vergonha que passara, a mulher chorou e pediu desculpas a todos que estavam no ônibus.


Vendo a vida acontecer “Para o mau humor e o batente da profissão não basta boa vontade, tem que gostar do trabalho”, diz Antônio Messias de Jesus, motorista em Belo Horizonte há 17 anos. Ele reclama que as empresas deveriam investir mais na saúde do profissional, incentivando a prática de atividades físicas, por exemplo. Messias é descontraído e procura manter um bom relacionamento com todos os passageiros, mas conta um episódio que o deixou embaraçado. Por volta das nove da noite, próximo à Praça Raul Soares, um casal brigava no ponto do ônibus. A moça entrou no coletivo e o rapaz continuou ali. Antes que o motorista fechasse as portas, a passageira

se arrependeu, saltou e quebrou as pernas. “Foi um transtorno, pois tivemos que levá-la desacordada para o hospital e aguardar o desenrolar da história. Mas, graças ao depoimento de 25 testemunhas que estavam no coletivo e da própria acidentada, eu e o cobrador não fomos considerados culpados”, lembra Messias. Ser motorista era o sonho de Messias e, apesar dos incidentes e dos perigos da cidade, ele não se arrepende da profissão que escolheu. “Quando presto atenção, percebo que em um dia entra uma senhora grávida, logo depois já está com a criança, que depois já é adolescente. Vejo a vida acontecer”, filosofa.

Além da vida A história de amizade entre Elen Costa Reis e o motorista Geraldo Amancio começou em 1996. Depois das aulas na Faculdade de Pedagogia, Elen voltava para casa de ônibus e construiu uma relação de afeto com Amancio, o motorista. Mesmo formada, quando não utilizava mais o busão, Elen continuou a manter contato com Amancio. Contava para ele seus projetos e cobrava uma visita, já que ele não pôde ir à sua formatura. Por telefone, a pedagoga dizia que estava feliz com suas conquistas. Elen trabalhava na biblioteca de uma escola infantil e já tinha comprado o primeiro carro, o próximo passo seria o tão sonhado casamento. Tudo ia bem até que ela descobriu que estava com insuficiência renal. Contou para amigo e

Fim das histórias.

pediu que não se preocupasse, pois estava melhorando. O caso de Elen foi se agravando a cada mês e, em uma de suas crises, ela disse à sua mãe que não aguentava mais a doença e tinha o pressentimento de que sua vida chegava ao fim. Contou que havia escrito uma carta com o nome e telefone dos seus melhores amigos, dentre eles Amancio, para que avisasse caso acontecesse o pior. E, infelizmente, foi o que aconteceu. Em outubro de 2008, poucos dias depois do seu aniversário, Elen faleceu. “Fiquei imensamente triste ao saber da sua morte e fui me despedir, como ela desejava. Que Deus tenha esta pessoa que foi tão maravilhosa e prestativa neste mundo”, diz Amancio emocionado.

Chegamos ao Ponto Final!


Fotos Elania Aguiar e Valdir Ramalho

e liberal

irreverente

Ser Diferente


Cabelos de cor, raça e graça Tranças que balançam, looks variados, de cores vivas, cabelos raspados, enrolados, alisados, cada um com seu estilo Dandara Andrade, Elania Aguiar, Patrícia Nestor e Valdir Ramalho

“Cabelo raspadinho, estilo Ronaldinho, cabelo pintado, cabelo embaraçado, encaracolado, rastafari, rock and roll!”. O som do grupo de axé music, Chiclete com Banana mostra a variedade de penteados que a juventude exibe por aí. Mudam os cabelos, os modismos, os estilos e, principalmente, as cabeças. Beatriz Helena Santana, 44 anos, trabalha num salão especializado em penteados afro há 27 anos. Ela diz que o cabelo crespo é o melhor para se trabalhar, pois oferece várias opções de penteados. “Muita gente chega aqui e diz: ‘sou pixaim e daí’?, conta a cabeleireira. Os penteados afro estão em alta e vêm dando lucro aos salões de beleza. Já Patrícia Fernanda dos Santos, 21 anos, funcionária deste mesmo salão, assume que costuma fazer a famosa chapinha. “Meus cabelos são crespos e mesclo a chapinha com as tranças por comodidade. Dão menos trabalho.” Ela informa que a maioria dos frequentadores do salão é jovem que usa o cabelo “in natura”. No entanto, muitas pessoas alisam os cabelos por vergonha de assumir a identidade negra. Mas isso não acontece apenas com quem tem o cabelo afro. Os donos das cabeças cacheadas também querem ter um cabelo liso . É a febre da chapinha. E se a questão é o que está na cabeça, não podemos esquecer daquelas que não têm nada. Os carecas e raspadinhos também têm seus motivos para manterem o visual. Júnior Lopes, 25 anos, conta que depois de passar no vestibular teve a sua cabeça raspada por amigos e familiares. O

estudante confessa que, no início, teve dificuldade de se acostumar com a careca. “Usei o cabelo grande na infância e adolescência, foi muito engraçado e estranho mudar de repente”, conta Júnior. Mas o “engraçado e estranho” acabou virando um estilo. Ele não deixa mais os cabelos crescerem e ainda diz que a opção foi feita depois de perceber que a praticidade poderia se aliar a seu espírito livre. “O fato de não ter mais que me importar com os cabelos me deixa muito mais solto. Além disso, como minha família é toda cabeluda, eu me destaco”, brinca. Muitas empresas exigem um padrão estético de seus funcionários, fazendo com que os funcionários negros raspem seus cabelos. Essa imposição não deixa espaço para as diversas identidades e, mais que isso, é preconceituosa. O funcionário dos Correios, Cláudio do Nascimento, 39 anos, diz que sofreu muito quando começou a trabalhar há quatro anos. Mas, com o tempo, as pessoas se acostumaram. “A chefia se preocupa apenas com o cuidado básico com a aparência. Faço vários tipos de penteados e vou trabalhar tranquilo, sem medo de ser discrtiminado”, conta. Qual o problema em ser negro e usar a cabeleira crespa? Por que as loirinhas de cabelos pra lá de lisos aderem aos penteados radicais, como os dreads, por exemplo? Nos shopings, nas ruas, nas baladas, nos ônibus, nas praias, por onde quer que se passe o que se vê é um desfile de penteados em diversas cabeças pensantes. Como canta o Chiclete com Banana: “Tranqüilidade na cabeça, quem é da paz tem sangue bom, é do cabelo á raiz, é da cabeça feliz, fazer a paz, fazer amor, fazer o som!”.

Assim se penteia a humanidade Ao longo do tempo os penteados foram mudando. Símbolo de status social e de posições políticas, podese dizer que cada cabeça tem mesmo uma sentença. Na corte do século 18 as perucas eram sinônimo de riqueza e poder. Com a revolução burguesa, o glamour deu lugar à praticidade. Na década de 60, o movimento black power levantou a cabeleira dos negros e deixou crescer as madeixas dos que preferiam paz e amor ao invés da guerra.


Sensualidade no salão

Um rebolado, uma jogada de cabelo e até mesmo uma virada de pernas, isso se chama zouk Ana Luíza Rodrigues e Larissa Pontes

Divulgação BH Dança de Salão

Quem vê a dança zouk pela primeira vez, fica encantado com a ginga dos dançarinos, que mistura lambada francesa com o ritmo de dança africana. Seria estranho pensar que a dança não daria certo no Brasil, pois a novidade tem o que mais se valoriza aqui: a graça e a ginga. O zouk dançado no Brasil tem um estilo um pouco diferente daquele que surgiu nos anos 90. A dança original nasceu nas Antilhas Francesas e, atualmente, os principais pólos da dança no Brasil são: Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Alguns especialistas apontam o zouk como sendo uma lambada eterna. É o que relata Wilson Milagres, 44 anos, apaixonado pela dança: “O zouk é uma releitura da lambada que estava em decadência nos anos 90. A música é caribenha e das ilhas dos Açores e Madeira”. Para Wilson, a dança é importante para o corpo e para a alma. “A de salão é um rico exercício e dá consciência corporal. É uma forma de descansar a mente e reforçar o corpo”, afirma.


DANÇA E SUTILEZA Para as mulheres, vestidos de tecido leve, cabelos longos e soltos, para acompanhar o movimento ou a “malemolência”, como dizem os sambistas. Os homens guiam suas parceiras com firmeza e sensualidade, usando roupas coloridas e coladas ao corpo para dar agilidade ao movimento. A sutileza encontrada na dança zouk abrasileirada pode ser resumida a um fator essencial: a leveza dos movimentos. Como toda dança de salão, o zouk mantém a tradição de que os dançarinos devem olhar nos olhos de seu parceiro. Também comparado ao merengue e ao bolero por causa do swing, o zouk é dançado revezando o peso do corpo, com movimentos de cabeça, ombros e quadril. Em relação à lambada, pode-se dizer que houve uma adaptação de estilo e de movimentos. A lambada é uma dança, com movimentos mais rápidos e precisos. O zouk abrasileirado incorporou também passos da salsa, do chamado forró universitário, entre outros ritmos. Com essa mistura, o zouk foi dividido em vários estilos, dentre eles o estilo Tradicional, o Soulzouk, o Neozouk, o Revolution. Independente do estilo escolhido, o fato é que o Zouk seduz e é seguido por uma legião de apaixonados por essa dança.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO DO EVENTO: DIA 22/05 FESTA DE ABERTURA DO 4º BH ZOUK Local: Av. Contorno, 8471 – 3º andar – Gutierrez Horário: 22h às 2h DIA 23/05 MOSTRA COREOGRÁFICA Local: Teatro Isabela Hendrix Horário: 21h GRANDE FESTA Local: Av. Contorno, 8471 – 3º andar – Gutierrez Horário: 22h às 3h DIA 24/05 FESTA ESPECIAL Local: Casa de Vidro Horário: 22h às 2h DIA 25/05 FESTA NA PRAÇA – ENCERRAMENTO Local – Buffalo Beer Horário – 18h às 1h


um futuro

incerto Luciene Alexsandra

Muitas mulheres abandonam seus filhos. Enquanto isso, a adoção esbarra na burocracia


Deborah Mageste, Luciene Alexsandra, Renata Nunes e Sivio Araújo

“Mãe é aquela que cria!” É comum a gente ouvir essa frase para falar daquela que se dedica a cuidar de quem um dia foi desamparado. Isso porque são inúmeras as mulheres que, apesar de não serem mães biológicas, adotam crianças como se fossem nascidas de seu ventre. Rute Hipólito está entre as mães que amam incondicionalmente seus filhos adotivos. Tudo começou há 12 anos, quando uma mulher jogou o filha prematura no vaso sanitário. A criança emitiu um som que chamou a atenção da vizinha de Rute. “Como sabia da minha dificuldade em ter filhos e do meu desejo de adotar uma criança, ela me entregou a menina”, lembra. Imediatamente, Rute e a vizinha levaram o bebê para receber cuidados médicos. Rute deu à menina o nome de Karla Paloma. Depois de algum tempo, outro fato inusitado: uma menina de seis meses, muito machucada e fraca, foi abandonada na porta da casa de Rute. Para surpresa de todos, com o passar do tempo foi descoberto que as duas crianças eram irmãs biológicas. “Foi uma luta muito grande para conseguir a guarda das meninas. Graças a Deus eu pude ficar com as duas”, agradece Rute. Hoje, Karla e sua irmã, Ana Carolina, estão com 13 e 10 anos respectivamente. Karla tornou-se cantora gospel e já gravou CDs e DVDs, sendo que em um deles houve a participação de sua irmã. “Enfrentei e enfrento tudo para não perdê-las. Faço qualquer coisa por elas”, afirma Rute.

AbAndono ou EntrEgA A enfermeira, Cristina de Melo, 47 anos, diz que a maioria dos pais entrega seus filhos por questões sociais, como desemprego, envolvimento com drogas, abusos sexuais, entre outros. De acordo com o artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente, toda criança tem direito à vida, à saúde, à alimentação, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Segundo Denise Gomes, do Juizado da Infância e Adolescência, não é isso que acontece. No Brasil é comum casos de maus tratos. Só na Maternidade Pública de Betim, a cada 300 partos realizados, dois bebês são entregues para adoção. A mãe pode assinar um termo,

segundo o artigo 45 do Estatuto da Criança e do Adolescente, permitindo a adoção. A falta de preparo e imaturidade da mãe são fatores que contribuem para o abandono. Ocorrem também casos em que deficiências no bebê, favorecem a rejeição. Se por um lado o internamento protege as crianças dos abusos e maus tratos, por outro elas enfrentam problemas, como a falta de afeto e infecções hospitalares. Denise Gomes destaca que é preciso saber quais os motivos que levam uma mãe a abandonar seu filho. “É raro quando alguém a ouve com cuidado, pois na imaginação de muitos, a mãe foi cruel, perversa e não merece respeito. Acho isso injusto, pois os casos devem ser analisados isoladamente”, comenta. Para ela, o que muitos chamam de abandono é considerado entrega, pois a mãe deixa o filho com alguém que ela considera ter condições melhores que as suas para criar a criança.

SozinhoS no lAr Algumas vezes, as mães são denunciadas por deixarem seus filhos pequenos em casa, o que caracteriza abandono. A diarista Roberta Portela experimentou isso ao deixar seus três filhos de quatro, seis e oito anos sozinhos em casa. “Eu não mau trato os meus filhos. São todos saudáveis e bem cuidados”, defende-se Roberta. No dia da denúncia, ela tinha deixado as crianças em casa para trabalhar. Roberta sempre confiou no filho mais velho para cuidar dos irmãos. Além disso, sempre teve o costume de avisar os vizinhos para irem em sua casa de vez em quando. “Preciso trabalhar, pois ainda não estou recebendo a pensão deles e tenho que sustentá-los. Agora eles estão em um abrigo, como se eu não existisse”, lamenta. Denise Gomes, do Juizado de Menores, explica que muitas mães não entregam o filho para adoção, mas os deixam sozinhos, sem um adulto por perto, enquanto vão trabalhar. É preciso verificar a convivência dessa mãe com a criança, aconselha Denise. Para evitar maus tratos e abandonos criou-se o parto anônimo. A mãe tem o direito de preservar sua identidade quando deseja entregar a criança para adoção. Segundo Denise, o ideal é que haja uma política de planejamento familiar mais eficiente, um acolhimento à gestante e um espaço de escuta à mulher que deseja doar o seu filho, sem julgamentos nem preconceitos.

A vidA SurprEEndE Adotar um filho é muito difícil devido à burocracia. Madalena Farias passou por abusos sexuais e foi violentada várias vezes pelo seu companheiro. Por isso, não quis criar o seu filho. Assim que teve alta do hospital, Madalena decidiu deixar o bebê no fórum de sua cidade. Rosilene, a enfermeira que auxiliou o médico durante o parto do bebê, cruzou com Madalena no trajeto do fórum. Como sabia que o garoto seria abandonado, a enfermeira decidiu levar o menino para que sua irmã Rosani o adotasse, já que ela queria muito ter um filho. Com a ajuda da mãe biológica, Rosani conseguiu a guarda da criança depois de muita luta para enfrentar o pai da criança.


SOU

Garis, formiguinhas: pausa para o batom é a beleza na hora de varrer as ruas

E SOU

ANNA PAULA MORAIS

Fotos Anna Paula Morais

Entre vassouras e os lixos de Belo Horizonte, há quem guarde um batom no bolso para estar bela até na hora de varrer as ruas. Maria dos Anjos Rodrigues e Maria Batista são garis, formiguinhas, varredoras da SLU (serviço de limpeza urbano), mas, acima de tudo, mulheres. Elas se arrumam para limpar, varrer, cuidar de todos. Não importa como esteja o tempo, elas estarão ali debaixo do viaduto Floresta, reunidas para determinar os pontos de varrição. Nas ruas, pausa para o batom. Não é futilidade: é a autoestima sendo trabalhada. De unhas feitas, batom de cor avermelhada e sombra nos olhos, Maria dos Anjos, ou simplesmente Mariinha, sai assim todos os dias para trabalhar. “Não é porque trabalho na rua recolhendo o lixo que não vou usar um batom, fazer as unhas, arrumar o cabelo”. “Estou na profissão de gari há 21 anos”, conta Maria Batista com orgulho de poder mostrar a sua história de vida. “Sou mãe, pai, vó, cuido de todos na minha casa, tudo que tenho devo a minha profissão. Sou uma mulher guerreira. Todos os dias levanto bem cedo, faço o café, arrumo as minhas coisas e saio para o trabalho”, diz Maria Batista que também revela ser coordenadora de um grupo de varredouras da própria SLU. Ela fez um concurso na empresa e passou. Hoje observa o grupo e ensina como fazer o serviço corretamente.


GARI

MULHER

ASSOVIOS NA RUA Segundo Denilson Freitas, gerente de Limpeza Urbana Centro Sul, a distribuição do protetor solar é feita de dois em dois meses. Mariinha e Maria Batista não deixam de usar o protetor. “Trabalhamos diariamente debaixo do sol, a pele não aguenta”, conta Maria Batista. Mesmo depois do trabalho o cuidado com a pele continua em casa, Mariinha diz usar bastante hidratante para o rosto: “a sujeira e a poluição deixam a nossa pele muito ressecada”. “Muitas pessoas acham que não temos que estar bem arrumadas para limpar a rua, a aparência conta muito. “Até motorista de ônibus já assobiou para mim”, em risos conta Mariinha, que tem orgulho de varrer as ruas, usando os seus brincos vermelhos combinando com a cor do batom. “Ter cuidado com a nossa pele é ter cuidado com a nossa autoestima, se a gente estiver alegre de bem com a gente mesma, as pessoas nas ruas sentem”, conta Maria Batista. “Um dia uma senhora passou por mim e falou que eu estava de parabéns, que eu trabalho igual às mulheres de São Paulo, toda maquiada, e ainda perguntou por que as outras não são assim”, diz Mariinha.

ORGULHO E ALEGRIA O trabalho dos garis é cuidar da saúde da população, e a jornada de trabalho é de oito horas diárias, segundo Denilson Freitas. Haja lixo para varrer. Mariinha conta que varrer sem olhar para trás é a melhor solução. “Não podemos ficar voltando para pegar o lixo que foi jogado logo após que passamos, assim perdemos muito tempo”, diz. Mariinha revela que de vez em quando as formiguinhas têm que escutar alguns desaforos. “Se nós não jogássemos lixo vocês não teriam emprego”, lhe disse uma mulher que jogou casca de fruta no chão. “É sempre bom poder encontrar pessoas varrendo as ruas de bem com a vida”, relata João Emanuel, vendedor. Segundo João é agradável saber que existem pessoas que trabalham assim bem humoradas e bonitas.


Fotos

ação

Divulg

Pela real

Preços do Nintendo DS: entre R$ 600 e R$ 900

diversão virtual Chega de preconceito, sedentarismo e solidão: o vídeogame de hoje rompe essas barreiras Bianca Rabelo, Bruna Souza, Kênia Pires e Rodrigo Honório

Jogo Guitar Hero original: entre R$ 250 e R$ 300 * Jogo Guitar Hero original com guitarra: entre R$ 380 e R$ 450 *

* preço do jogo é o mesmo para qualquer videogame (exceto os portáteis)

Preços do Wii: entre R$ 1200 e R$ 1900

Será que os jogos eletrônicos são só para crianças e jovens desocupados? Não mais. Desde o fim de 2005, foram lançados jogos e vídeogames para adultos, um nicho de mercado antes desprezado pelas grandes produtoras. Sorte de quem não gosta de ficar horas sentado em frente à televisão. A diversão pode estar nos novos jogos após um dia cansativo de trabalho. Com eles é possível tocar guitarras, fazer exercícios, jogar boliche, golfe ou tênis no ambiente virtual. A inovação tecnológica começou no fim de 2004 com o lançamento do Nintendo DS, um vídeogame portátil de duas telas, sendo que a inferior é sensível ao toque. Dois anos depois, a mesma empresa lançou o Wii, um vídeogame caseiro que tem controles sensíveis ao movimento. Nos dois casos, os concorrentes, da Sony e Microsoft, são mais potentes. Isso permitiu à Nintendo abaixar os preços, tornando o Wii mais atrativo para os jogadores casuais. Quem explica é Wallace Lages, que tem mestrado na área de computação gráfica e atualmente trabalha em um projeto de realidade virtual na UFMG. “A Nintendo conseguiu evitar o combate direto com seus concorrentes atingindo um público que era ignorado”, argumenta. Marcelo Souza Nery é professor e coordenador da área de pesquisa e cursos sobre jogos digitais da PUC Minas. Ele afirma que qualquer pessoa pode ser foco de atenção no ramo de entretenimento, questionando: “para que competir num único mercado, já tão compe-

titivo, e cheio de novas empresas brigando pelo mesmo nicho?” Interessado no mercado de jogadores “veteranos” e atraindo “calouros”, foi criado o jogo Guitar Hero, que teve a primeira edição lançada no fim de 2005. Hoje é uma série de sucesso, que já levou bandas como Aerosmith e Metallica a lançarem versões exclusivas.

“ESSE TAL DE ROCK N’ ROLL” Será que o rock estava num bom momento e foi isso que impulsionou o sucesso do Guitar Hero e de posteriores concorrentes, como Rock Band? Não para Wallace, que brinca: “o rock n’ roll sempre esteve na moda!” Ele explica que o acessório da guitarra também ajuda na imersão e torna a experiência mais real. O estudante Gerardd Lyon, 18 anos, joga desde os 6 anos e já experimentou vários estilos, do mais simples ao mais sofisticado. Lyon acompanhou as novas tendências e aprovou o Guitar Hero, que é uma opção para quem quer gastar pouco. Com uma ficha de R$2,50 o jogador ganha 10 minutos para tocar músicas de bandas conhecidas. “Poder tocar músicas da banda AC-DC é uma coisa de louco”, empolga-se Gerardd. O Guitar Hero não é exclusivo dos shoppings. Quem quiser se divertir em casa pode comprar o jogo com ou sem o acessório da guitarra. O técnico em informática Vinícius Vieira achava que, além de caro, o jogo era simples demais. Ele só resolveu testar porque já tinha um vídeogame compatível. “A inovação no controle ajudou, pois aprimorou essa simulação de se tocar um instrumento”, diz Vinícius.


Rodrigo Honório

"O vídeogame é muito importante na formação intelectual de uma criança, pois ele ajuda a desenvolver sua percepção e cognição". Lenise Ortega.

Gerardd Lyon se transforma em guitarrista jogando Guitar Hero no shopping

De vilão a mocinho! Se antes os vídeogames estavam ligados ao sedentarismo, hoje pode ser justamente o contrário. Passaram de vilões a mocinhos. Com a opção de mudanças na forma de jogar, os usuários exercitam mais do que os tendões dos dedos. A saúde agradece. Além disso, a antissociabilidade – tão temida por pais e profissionais – pode ser quebrada com esses jogos. Um encontro entre amigos pode virar uma festa. O termo “Wii”, utilizado pela Nintendo, é uma referência a “we” (do inglês, nós), em que as duas letras “i” representam pessoas jogando junto. “O Wii conseguiu atingir um perfil diferente de pessoas: aquelas que cresceram jogando vídeogames, mas agora são muito ocupadas; e as que sempre acharam vídeogames coisas muito sofisticadas e complexas”, explica Wallace Lages. A utilidade desse vídeogame com manete sensorial superou as expectativas iniciais. Além de ser um sucesso de vendas, o Wii tem sido usado por médicos estadunidenses na reabilitação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral ou que passaram por cirurgia. O método tem se mostrado eficiente, já que os jogos requerem movimentos semelhantes aos das terapias tradicionais. A

melhor parte é que a distração promovida pelos jogos traz um conforto que os pacientes não teriam na terapia convencional. A clínica de fisioterapia da Universidade Cidade de São Paulo também está aderindo aos games como esratégia na recuperação de pacientes.

EDUCAÇÃO Segundo a pedagoga Lenise Ortega, o vídeogame é muito importante na formação intelectual de uma criança, pois ele ajuda a desenvolver sua percepção e cognição. Ao jogar, a criança recebe uma informação muito rápida, que é processada, analisada e respondida de forma imediata. Lenise recomenda aos pais que acompanhem a interação dos filhos com o vídeogame para impedir que eles fiquem muitas horas diante dessa atividade. Tudo em excesso não faz bem para o desenvolvimento da criança. Pais e profissionais precisam conhecer o que há de disponível em termos de tecnologia para auxiliar a formação delas. Ela sugere que os pais façam trocas com os filhos, permitindo que eles joguem em um tempo limitado, depois que tenham estudado e realizado suas obrigações.

“O Wii conseguiu atingir um perfil diferente de pessoas: aquelas que cresceram jogando vídeogames, mas agora são muito ocupadas; e as que sempre acharam videogames coisas muito sofisticadas e complexas”. Wallace Lages.



Revista Ágora 1_2009