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LINCE

De olho na notícia Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo do Centro universitário newton Paiva ano V | nº 40 | Junho de 2010

Sai uma PorçÃo De "torK riNDS WitH FrieD maNioC": e aÍ, Vai eNCarar? | PáGina 7

Celton, um super-heroi tropical | PáGinaS 14 e 15

a buroCraCia Que DiFiCulta CaDa Vez maiS o FiNaNCiameNto eStuDaNtil | PáGina 3


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editorial

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"Essa disputa transforma a notícia em uma novela; e notíca não é novela"

Notícia

não é novela Camila Nogueira

A transformação de fatos do cotidiano em espetáculo se destaca com maior intensidade, atualmente, nos meios de comunicação. A abordagem polêmica do acontecimento leva a população ao consumo da notícia de forma excessiva. Isso resulta em um julgamento precipitado das pessoas envolvidas. Para atingir o maior índice de audiência, a imprensa se rende ao aspecto teatral. Matérias que poderiam ser educativas e até mesmo reflexivas perdem espaço para o que chamamos de sensacionalismo. O jornalismo ético e de qualidade precisa se previnir sempre dessa espetacularização da notícia. Um acontecimento para se tornar notícia é preciso ser relevante e afetar se alguma forma os indivíduos que aquele meio de comunicação tem como público. Sociólogos e especialistas em comunicação de massa acreditam que a seleção das matérias que serão divulgadas pela imprensa está ligada, muitas vezes, com à posição socioeconômica dos envolvidos no fato. Dessa forma, o poder de comover o público poderá ser mais intenso. Para caraterizar a espetacularização da notícia é impossível não citar seu principal adjetivo, ser dramática. A emoção impactada através do drama junto a forma da imprensa de abordar o fato, causa nas pessoas uma grande comoção e como consequência elas tendem a acompanhar o desfecho da noticia, com grande curiosidade. Fazendo uma análise das coberturas jornalísticas, é notável que a televisão é o meio que tende a potencializar o caráter sensacionalista. Seu objetivo é fornecer aos telespectadores entretenimento, assim toda a sua programação é contaminada pelo desejo de receber produtos com teor de diversão, inclusive o jornalismo. Usando das imagens e áudios as emissoras estão em constante competição, quem escolhe o melhor ângulo, a mais polêmica entrevista, quanto mais espetacular a notícia melhor será a cobertura. Essa disputa acaba transformando o fato em uma novela que passa a ser exibida em vários canais com abordagens diferentes. É recorrente a exposição excessiva na impressa de determinados assuntos como violência, tráfico e tragédias. O chamado caráter teatral é o que aumenta a curiosidade popular pela notícia e respectivamente, as vendas são acentuadas. É de extrema importância um posicionamento firme perante tal forma de trabalho, pois são dedicamos quatro anos na universidade para aprender as fomas corretas de se produzir um jornalismo qualificado e ético. A responsabilidade de tornar algo visível para sociedade requer comprometimento com a informação e consciência da sua abordagem. Construir credibilidade e se fidelizar perante o público é o objetivo do jornalismo e não designar funções incabíveis a sua profissão. O papel do jornalista é informar e não produzir novelas a partir de fatos.

expediente Reitor Luis Carlos de Souza Vieira

Res­pon­sá­vel pela edi­ção Pro­fes­sor Eus­tá­quio Trin­dade Netto (DRT/MG 02146)

Pró-reitor acadêmico Sudário Papa Filho

Pro­jeto grá­fico e Direção de Arte Helô Costa (127/MG)

Co­o r­de­n a­d ora do Curso de Jor­na­lismo Pro­fes­sora Ma­ri­a­lice Em­bo­ava

Diagramação: Alana Amorim Leonardo Moreira Thamires Lopes

crônica

Copa do mundo Suzana Ferreira Costa

masculino

Um dos maiores eventos mundiais está para acontecer. É a Copa do Mundo, 2010 que, dessa vez, será na África do Sul. Porém, o que se trata de “mundial” parece englobar somente o universo masculino. Será que todo o mundo gosta de futebol? Onde ficam as mulheres nessa história? Ou melhor, será que, nem mesmo as mulheres que gostam de futebol, têm o direito de participar da mesma forma? Todos esses questionamentos vêm da falta que sentimos de um toque feminino na Copa. É isso mesmo! Já pensaram em pesquisar em sites a participação das mulheres nesse mundial? Pois é. Só é possível encontrar promoções de esmaltes, de bolsas nas cores do Brasil, camisas autografadas por galãs, ou pior! Encontramos um guia para as mulheres durante os jogos que diz, basicamente: “Mulheres, saiam da frente da televisão, porque, agora, vocês não têm um pingo de importância!” Não se fala mais em outra coisa além dos gramados artificiais, do time que está muito bom, ou muito ruim... As mulheres foram esquecidas. É claro que temos as exceções. A jornalista global Fátima Bernardes fará mais uma cobertura dos jogos. Ela já é citada como a musa da seleção por ter acompanhado o Brasil em outras conquistas. Mas, ainda assim, percebemos uma enorme diferença na inclusão da mulher nesses jogos. E no que diz respeito ao futebol, as mulheres estão sim, muito distantes de ter a mesma participação masculina. Entretanto, nós, mulheres, não deveríamos ser assim tão excluídas do universo “futebolístico”. Mesmo porque, estamos cada vez mais envolvidas e já temos um mundial feminino (que é bem pouco abordado ou divulgado pela mídia, se comparado ao masculino). Porém, isso vem acontecendo não somente no futebol, mas também no trânsito e em diversas profissões. Temos jornalistas que podem fazer papel de comentaristas porque mulher não entende apenas de ginástica e nado sincronizado. Ou seja, entra copa e sai copa, estamos sempre de lado quando o assunto é futebol. E você, mulher (principalmente as jornalistas de plantão)? Vai continuar deixando os homens “tomarem conta” dos gramados? Vamos ter que ficar apenas na arquibancada ou comprando esmaltes pela internet? É o nosso momento de mostrar que Copa do Mundo não é só assunto de homem.

Monitores: Frederico Alves Lucas Horta Pedro Henrique Silva

Este é um jor­nal-la­b o­r a­t ó­r io da dis­c i­p lina La­b o­r a­t ó­r io de Jorna­ lismo II. Dis­t ri­b u­i ­ç ão gra­t u­i ta. Edi­ç ão men­s al. O jor­n al não se res­ pon­s a­b i­l iza pela emis­s ão de con­c ei­t os emi­t i­d os em ar­t i­g os as­s i­n a­ dos e per­m ite a re­p ro­d u­ç ão to­t al ou par­c ial das ma­t é­r ias, desde que ci­t a­d as a fonte e o au­t or.

Reportagens: Alu­nos do 4º Pe­rí­odo do Curso de Co­mu­ni­ca­ção do Centro Universitário New­ton Paiva (Manhã e noite)

Cor­res­pon­dên­cia NP4 - Rua Ca­tumbi, 546 – Bairro Cai­çara Belo Horizonte - Minas Gerais CEP 31230-600 – Te­le­fone: (31) 3516.2734 jornallince2008@gmail.com


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FieS

mesmo assim, o candidato deve se informar corretamente antes de contratar o financiamento, para evitar possíveis arrependimentos

FinanciamenTo arQuivo CPJ

estudantil pode facilitar ingresso à faculdade

estudantes que estão matriculados em instituições de ensino superior privadas já podem contratar o Fundo de Financiamento ao estudante do ensino Superior FieS. as inscrições começaram no último dia 3 de maio e devem ser realizadas exclusivamente por meio do Sistema informatizado do Fies (Sisfies). Criado pelo ministério da educação, o programa é destinado a financiar, prioritariamente, cursos de graduação do ensino superior a quem não possui condições de cus-

tear a formação, possibilitando o financiamento integral ou parcial do curso. mas nem sempre é fácil conseguir a adesão. neste ano de 2010, quem aderir ao FieS vai encontrar modificações. a redução nas taxas, que variavam de 6,5% a 3,5% ao ano, de acordo com o curso desejado, será única e passará a ser de 3,4% ao ano. a nova taxa entrou em vigor para contratos assinados a partir de 26 de agosto de 2009 e vale para todos os cursos de graduação. outro estímulo aos alunos foi a prorrogação do prazo para quitação da dívida, que

o financiamento é uma solução para quem deseja cursar um ensino técnico ou superior, mas estudantes devem se informar corretamente para não fazer a escolha errada e se arrependerem do financiamento. Foi o que aconteceu com a publicitária Clarisse Batista, 25, que afirma ter aderido ao financia-

mento para poder investir o dinheiro, que seria para o pagamento das mensalidades da graduação, na compra do primeiro carro. “eu me arrependi, por que se eu não tivesse feito o financiamento agora estaria livre de dívidas”, quando Clarisse aderiu ao FieS, a taxa era de 6,5% ao ano. ”eu não

NatHÁlia gorito

subiu de duas para três vezes a duração do curso contratado e também o prazo de carência, que subiu de seis meses para 18 meses. Por exemplo, um curso com duração de quatro anos, após a formação e o prazo de 18 meses de carência, o aluno terá 12 anos para a quitação da dívida.

desde que haja disponibilidade de recursos, o FieS financiará, também, cursos técnicos de nível médio, pós-graduação, mestrado e doutorado. isso vai ocorrer porque o

ministério da educação tem recursos para conceder 200 mil financiamentos e, atualmente, existem apenas 35 mil contratos ativos. Para aumentar o número de concessão de crédito, o ministério aprovou ainda a solicitação do FieS em qualquer época do ano, não sendo necessária a espera do processo seletivo anual. a contratação pode ser feita em qualquer agência da Caixa econômica Federal. Para que seja concluída a adesão ao FieS, é avaliada a situação socioeconômica do candidato, em que o valor da mensalidade do curso

deve comprometer no mínimo 20% da renda familiar bruta per capta. Por esse motivo, o aluno de engenharia Luiz Paulo Rodrigues teve o pedido de financiamento negado. “meus pais recebiam algo em torno de 17 salários mínimos; eu, como dependente deles não consegui o financiamento”. apesar de todas as facilidades, foi constatado que uma das maiores dificuldades encontradas pelos candidatos, na hora de aderir ao Financiamento estudantil, é a exigência de avalistas. Por esse motivo, muitos candidatos têm o pedido do financiamento negado.

repetiria isso, foi um erro; a taxa de juros está muito alta... até cheguei a pensar em vender o carro para pagar parte da dívida”, disse. Quando o financiamento é feito com consciência, não há do que se arrepender. Para a analista de sistemas Geíse Campos, 28, o financiamento foi uma ótima solu-

ção para o tão sonhado ingresso à faculdade. “não me arrependo, o FieS me deu a oportunidade de fazer um curso superior”, afirma. especialistas alertam que na hora de contratar um financiamento, os candidatos devem se questionar com perguntas que apontam a prioridade, estabilidade

futura e taxa. Perguntas como: “eu preciso mesmo fazer este financiamento agora ou posso deixar para fazê-lo mais tarde? depois de formado terei condições de pagar este financiamento? eu consigo taxas menores em outros lugares?” tudo isso ajuda na hora de tomar decisões. mas o melhor mesmo é evitar.

aValiStaS

Dois lados


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oUtSiderS

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siMone gueDes

Uma forma de ser

OUVIDO talitHa borgeS

É difícil saber, mas as pichações estão por toda parte. Lentamente, espaços revitalizados pela Prefeitura de Belo Horizonte vão acumulando rabiscos. nada escapa: vigas metálicas, viadutos, telhados, muros e até telefones públicos não escapam do ato de vandalismo provocado por jovens que promovem a pichação pela cidade. Para muitos psicólogos e sociólogos, estes atos são, muitas vezes, apenas o re f l e xo d o a b a n d o n o e necessidade emocional que a juventude tem vivido. Para a socióloga Jocélia de Castro Leão, ao pichar, os jovens manifestam um protesto, querem mostrar à sociedade que “existem”. “Falta

atenção do povo com estes jovens... muitas vezes, quando picham um prédio público, eles querem mesmo é chamar a atenção do governo ou da sociedade para algum fato que lhes provoca insatisfação. São membros de grupos não aceitos, e pichar, provoca neles um alívio, serve como o “direito de se expressar e ser ouvido”, afirma a socióloga. o motivo que leva estes jovens a provocar este ato de vandalismo ainda é pauta de muitas discussões entre psicólogos e psiquiatras. Para muitos, a escola, a família, o governo e a sociedade têm, cada um, sua parcela de culpa na exclusão e educação destes jovens infratores. e são estas mesmas esferas as responsáveis pela coerção do jovem que picha. aqueles que são pegos

cometendo esta infração podem ser presos, obrigados a pagar cestas básicas ou fazer trabalhos sociais. ainda para a socióloga Jocélia Leão, podemos definir de quem é a parcela maior de culpa dependendo de onde o jovem picha e o que ele picha. “Cada gangue quer expressar um pensamento diferente. temos que lembrar que faltam locais para que estes jovens ocupem seu tempo de outra forma mais produtiva. não concordo com o pagamento de cestas básicas por que isso não resolve. Como este ato é crime, o pichador tem que pagar pelo erro”. Para ela, a melhor solução seria colocar os infratores para revitalizar os locais pichados, limpando tudo e entregando de volta à sociedade como estavam.

Compulsão marginais ou apenas jovens carentes que picham porque querem chamar a atenção e mostrarem o que sentem?

o uso da internet pelas gangues está associado à compulsão dos jovens pichadores de dar visibilidade à própria ousadia — seja para impressionar colegas ou, principalmente, integrantes de grupos rivais. uma investigação do ministério Público descobriu que, além da pichação, os jovens agora exibem na rede internacional de computadores diversas campanhas fazendo apologia e incentivando outros jovens a pichar a cidade. Quanto mais difícil ou vigiado o local, mais valor tem a pichação. Lenízio tem 25 anos e já foi preso duas vezes, pichando. Hoje, diz que não picha mais, porque tem medo da polícia e

chegou a ver um amigo ser baleado quando pichava um muro no bairro Paraíso. “ainda acho legal, mas não sei mais se tem tanto sentido assim sair pichando por aí; pichar muro de casa de família pobre não tem nada a ver, eu queria era pichar uma coisa maior, tipo o Palácio da Liberdade”, diz. nas duas vezes em que foi preso pela polícia, Lenízio teve que lavar e pintar os muros que pichou. e conta que apanhou — “Fiquei pelado e o Pm gastou todo o tubo de tinta no meu corpo; demorei mais de 20 dias pra tirar a tinta”. o uso cibernético para divulgar pichações também se revelou uma faca de dois gumes, pois a polícia apren-

deu a comparar as fotos com os rabiscos e assim identificar as gangues. desde 2008, a Polícia militar vem intensificando os esforços para identificação das gangues e já prendeu mais de 15 pichadores — muitos, menores de idade. o próprio Lenízio conta que começou a pichar com pouco mais de dez anos de idade — “o primeiro muro que pichei foi o da minha casa; levei uma surra do meu pai e continuei pichando, só por vingança”. a súbita transformação de Lenízio, no entanto, tem lá suas razões. ele está casado há dois anos e conta que ficou furioso quando o muro de sua casa apareceu pichado. nada como um dia após o outro...


não dÁ mais

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PHiliPPe HiPólito Bate papo, pesquisas e entretenimento. a cada dia, a internet proporciona novas atividades. nos últimos anos, as redes sociais – como orkut, Facebook e twitter – viraram fontes de informação de primeira mão para acompanhar os desastres pelo mundo. também para fazer pedidos de ajuda e mostrar solidariedade ao fato ocorrido. Com isso, a maior rede de comunicação e informação criada pelo homem deixa de lado a diversão e os estudos para demonstrar uma coletividade sem fronteiras. assim que o forte terremoto de 7 graus na escala Richter atingiu o Haiti, a internet mostrou mais uma vez que

pode desempenhar funções vitais. em meio ao caos, à falta de luz e com as linhas de telefone fixo mudas em Porto Príncipe, as redes sociais se tornaram o único meio para mobilizar ajuda humanitária e facilitar a difusão de informações sobre a tragédia. Para Hely Costa, professor e coordenador do curso de pós-graduação em mídias Sociais do Centro universitário newton Paiva, agora realmente temos a notícia em tempo real. “É o usuário destas redes, que está no local das tragédias e nos informa o que está acontecendo”. ¬e ainda ressalta: — “Se antes tínhamos que esperar pela equipe de tV ou rádio chegar ao local, hoje temos essa informação inloco”.

maiS PróXimo Com o desastre no Haiti, informações relacionadas ao tema aumentaram na rede mundial de computadores. Segundo a empresa de segurança eletrônica Zscaler, o número de cliques relacionados com a palavra-chave “Haiti” cresceu 1.558 % nas primeiras 24 horas após o tremor. Léo magno, professor de multimídia do Centro universitário newton Paiva, destacou que as pessoas estão cada vez mais engajadas com os acontecimentos, sobretudo com as catástrofes. Há uma mobilização em torno dos fatos e quando necessário, as pessoas estão tomando atitudes humanitá-

rias, para o voluntariado. — “É sem dúvida, provocada pela forma com que as redes sociais integram as pessoas em um mundo mais próximo.” o twitter foi utilizado para dar informações sobre detalhes dos acontecimentos e o status da situação da região afetada, enquanto as redes de satélite forneceram mapas detalhando danos e ajuda humanitária. tanto o Google quanto o site Facebook elaboraram listas de desaparecidos em tempo real. no orkut, rede social mais popular do Brasil, internautas deixaram mensagens de conforto nas páginas pessoais dos soldados brasileiros vítimas dos terremotos.

eNQuaNto iSSo... “É um caminho sem volta”. assim, Léo comentou sobre o destino das redes sociais nos próximos anos. “a cada ano observamos um aumento do número de usuários ativos, melhoria no acesso e, principalmente, na qualidade da resolução dos vídeos que são publicados”, destacou o professor. no entanto, ainda há vários países em situação de acesso precário como o próprio Haiti. Cada vez mais, a internet se torna indispensável na vida de muitos cidadãos do planeta. Segundo um estudo elaborado pela universal mcCann, o Brasil era, até 2009, o quarto país com maior utilização das mídias sociais. no ano passado, 69% dos internautas brasileiros pesquisados disseram ter perfis nessas redes. enquanto você lê esse texto, milhares de pessoas se cadastram em alguma rede social na internet.

Antes, um passatempo; agora, com as redes sociais, a internet possibilita que o cidadão participe da transmissão da informação.

“Obrigado pelas preces” Segundos depois do tremor, milhares de mensagens começaram a pipocar nas redes sociais. afinal, foi por meio da internet que os haitianos e seus parentes pelo mundo procuraram saber se seus familiares e amigos sobreviveram à tragédia. no twitter, internautas do mundo todo comentaram o terremoto. Julmer04 pediu orações para a sobrinha e a filha de um casal de amigos. Horas depois, contou que as crianças estavam bem: "acabo de descobrir

que estão vivos; obrigado pelas preces!", publicou. a agonia de Rosa Godoy, q u e m o r a e m S ã o Pa u l o durou seis horas. ela ficou sabendo do terremoto pela tV e correu para a internet para saber notícias do filho, o soldado Luiz Gustavo de Godoy, de 21 anos. “Quando vi na televisão eu entrei no orkut e comecei a procurar informações”, contou. Por volta de uma hora da manhã Rosa Godoy recebeu a notícia de que seu filho estava bem.

internet

pRa viveR sem ela

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Diulgação/aXn

O CSI Junho/2010

da vida real

polÍcia

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Até que ponto a tecnologia — exibida com exuberância inimaginável nas séries da TV — pode influenciar completamente na elucidação de crime?

A tecnologia possível

joSé melgaço a primeira pergunta de qualquer pessoa que já assistiu a qualquer uma destas séries policiais norte-americanas que dominam a grade da tV é: isso é mesmo possível? Fios de cabelo encontrados no carpete imenso de uma sala, saliva em um talher, microgotas de sangue seco sob as unhas da vítima, qualquer resquício de material humano é suficiente para se fazer um exame de dna — que por sua vez é feito em questão de minutos — em programas como CSi, nCiS ou Law and order, em suas diversas franquias. e na realidade, a vida imita a arte? É claro que todo mundo sabe que isso não é possível, assim como não é real o que se mostra em filmes de ação, quando um homem consegue matar 100 soldados fortemente armados e treinados, com uma simples arma — e ainda sem nunca acabar a munição — só levando tiros de raspão ou na perna. mas até

onde a tecnologia pode realmente influenciar na solução de um crime? o diretor do instituto de Criminalística da Polícia Civil de minas Gerais, márcio Costa Ribeiro, respondeu algumas dúvidas que os cidadãos comuns costumam ter sobre como funciona mesmo o trabalho de um perito técnico. Segundo ele, todas as pessoas que trabalham nesta área passam por concurso público, mesmo que ele já tenha ingressado na Polícia Civil. deles é exigido apenas o nível superior de escolaridade, sem área específica. Começa aí a lista de diferenças para com as personagens de ficção, onde todo mundo parece ser PHd em química e biologia. em todo o estado de minas Gerais, existem 600 peritos técnicos da Polícia Civil, sendo que 200 destes atuam na Grande Belo Horizonte. o número de ocorrências que um profissional pode atender varia bastante, uma vez que os crimes no trânsito e

contra o patrimônio são mais comuns do que o restante. Peritos de crimes contra a vida atendem em média duas ocorrências por dia, que transitam entre homicídio, suicídio, tentativa de homicídio, tentativa de suicídio, encontro de feto, afogamento etc.

DoCumeNtoS CoPia? o trabalho da Perícia é dividido entre trabalhos internos e externos. no primeiro caso, os agentes realizam exames divididos em diversas seções. existem as seções de áudio, Vídeo e Fonética Forense; Crimes informáticos; Perícias Contábeis; documentoscopia (descobrir se qualquer documento, público ou privado, é falso); Papiloscopia e moldagem (impressões digitais); Balística Forense (examinar disparos de armas); Biologia Legal (dna) e Química Legal (drogas). os agentes externos também são divididos em seções: Crimes contra a Vida; Crimes

contra o Patrimônio; Perícias de trânsito; engenharia Legal e Crimes ambientais. ainda de acordo com márcio Ribeiro, em especial nos casos que envolvem a vida humana, os trabalhos precisam ser bastante meticulosos. “o agente examina toda a cena do crime à procura de vestígios, tirando fotografias, fazendo desenhos, coleta de materiais (como sangue, cabelo e impressões digitais), que ajudem na elucidação do caso”, conta o diretor. o Código Penal Brasileiro garante que em toda “infração que deixar vestígios será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado”. mas nem sempre é possível que as investigações sejam feitas perfeitamente. “o trabalho deles depende principalmente do isolamento e preservação da cena do crime. Se o local não sofreu alterações profundas, certamente os Peritos terão sucesso na investigação”, explica Ribeiro.

em minas já existe um banco de dna’s que foram coletados, mas ainda não é utilizado um banco de impressões digitais, como existem nos seriados televisivos, onde todas as informações são digitalizadas e a identificação se dá em segundos. no entanto, foi assinado recentemente um convênio com a Secretaria nacional de Segurança Pública que pretende implanta o sistema aFiS (Sistema automático de impressões digitais), com funcionamento previsto para até o fim do ano. Com isso, depois que for estabelecido um banco de dados, a identificação por meio de impressões digitais será feita assim como nas séries da tV, por meio de um computador, porém, obviamente, não tão rápido. Com relação aos trabalhos periciais da época pré-computação, nos dias de hoje se tem uma eficiência muito maior, mais credibilidade, facilidade e agilidade na execução das tarefas, segundo o diretor márcio Ribeiro. “mas ainda existem muitas diferenças entre o que se vê na televisão e a vida real, principalmente no que se relaciona com a estrutura de um modo geral, dos equipamentos utilizados, na valorização do profissional e, principalmente, no índice de criminalidade que é muito maior no dia a dia”, pondera. a vida, pelo menos em termos de Brasil, ainda vai demorar um pouquinho para imitar a arte.


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tamireS De FÁtima Cardápio: de acordo com o dicionário aurélio é a lista de iguarias dos bares e restaurantes. Como um árabe veria uma porção de torresmo, que é parte da carne de um animal proibidíssimo pelo islamismo? o atual surto de criatividade que povoa os cardápios dos bares de Beagá pode ser, em alguns momentos, muito estimulante, mas também deve trazer problemas para os proprietários de estabelecimentos que desejam agradar aos turistas, já pensando na Copa de 2014, quando será necessária a adoção de cardápios bilingues. Belo horizonte tem noites badaladas e é conhecida por ser a “capital dos botecos”. não por acaso. afinal, possui cerca de 14 mil bares, maior média brasileira. Sua culinária, com características peculiares — marcadas pela geografia e costumes — é apreciada internacionalmente. a nomenclatura tão específica, no entanto, sugere a necessidade de alguma adequação para melhor aceitação. Para o dono da Pizzaria e Restaurante Capresia, Fabiano augusto, sempre que acontece um evento de grande porte, como ele acredita que será a Copa do mundo, seu estabelecimento procura inovar e se adequar. mas ele não pretende fazer mudanças

bruscas no cardápio. “a princípio, não temos a intenção de mudar nenhum item”. Para ele, o turista deve ter a oportunidade de conhecer a culinária brasileira da forma como ela é, sem disfarces. “temos uma gastronomia rica — comer feijoada ou frango com quiabo são riquezas e delícias que irão agradar em cheia ao turista”, analisa. Vencedor do concurso “Comida di Buteco”, o Café Palhares também não pretende fazer mudanças. Segundo o gerente do bar, edson Soares, sequer será feita uma tradução do cardápio para outros idiomas. “Já recebo muito estrangeiro por aqui; normalmente eles trazem alguém para traduzir ou orientar”, comenta. Para ele, o cardápio deve ser mantido. “o estrangeiro vem com a intenção e a curiosidade de comer comida brasileira e o cardápio em português não atrapalha”, acredita. Já para o gerente Carlos anacleto, do Restaurante Parrillero, próximo ao mineirão, há a necessidade de tradução, sim. “temos a obrigação de ter o cardápio traduzido; nós já trabalhamos com ele no inglês e no espanhol”, comenta. o torresmo com mandioquinha frita, por exemplo, pode ser lido em inglês como tork rinds with fried manioc and lemon, já para o espanhol o prato aparece como Chicharro com yuca frita y limon. a professora de inglês débora Heringer concorda com Carlos.

Para ela deve, sim, haver uma tradução dos cardápios. “a culinária brasileira não pode perder sua essência e cultura, porém acho que o modo de preparo, escrito em inglês, fará com que o turista se sinta à vontade para escolher e experimentar os pratos típicos com maior segurança e satisfação”, diz ela. Viajante experiente, o economista Luís Sérgio Prates acha que deve ter “alguma tradução”, mas sem exageros. “no Japão ou na europa, alguém traduz alguma coisa pro português?” — questiona. mas, em relação ao atendimento, proprietários e gerentes foram unânimes: é preciso melhorar a qualidade e isso exige preparação. o coordenador da área de Gastronomia e Hotelaria do SenaC mG, Jackson Cabral, lembra que o curso da instituição, referência no estado, oferece todo embasamento teórico na preparação dos garçons para atuar diante das diversidades culturais, mas não oferece disciplinas de idiomas. É bom que os garçons, então, tomem a iniciativa para quando tiverem que explicar aos possíveis turistas o que vem a ser, em seus países de origem, algo como pequi, ora-pró-nobis, quiabo, jiló, caldo de mocotó, moelinha, carne de sol e outras, digamos, pérolas de nossa diversidade gastronômica... isso, para que ninguém caia na tentação de traduzir o contrafilé como “against filé”. Paulo aKa

diVerSidade

ToRK Rinds WiTH FRied manioc

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Imagine o pavor dos turistas estrangeiros que se aventurarem pelos bares e restaurantes da capital, onde criatividade dos cardápios beira a ficção científica


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o

GenTe

uma ageNDa baCaNa Começou a cantar em eventos particulares, bares, e restaurantes de BH e região — dentre eles, “Hunters” e “Paladino”, na Pampulha, e “engenho”, de Venda nova. Participou do programa “Caleidoscópio”, da tV Horizonte e, nesse meiotempo, compôs várias c a n ç õ e s . Pa r a d a r mais identidade à imagem, adotou o nome artístico “Wander Sá”. Hoje, aos 40 anos, Wander Sá tem muita história para contar. dentre elas, as dificuldades de um cantor da noite, que não são poucas. “um dos maiores problemas é a oscilação de agenda; tem mês que você fecha uma agenda bacana, tem mês que não”, explica. de acordo com ele, esse é um problema que a maioria dos artistas possui, exceto os cantores sertanejos, que estão “bombando” na mídia. “esses caras, que têm um cachê de dez mil reais, podem cantar uma vez por mês, ao contrário dos outros cantores da noite”, reitera. Segundo ele, outro problema é a falta de segurança em relação aos compromissos firmados. “É tudo contrato de boca, não tem nada assinado, a pessoa pode desmarcar com você quando quiser”, lamenta.

canToR

da noiTe Ele canta o que o cliente pede. Ou melhor, ordena. Sonhos nascem e morrem nos bares da vida

o pai era violeiro nato, chegado em música caipira. Com a influência, tomou gosto pela música, e começou a cantar. diferente de muitos, não possuía a ambição de ser famoso. o que, para o menino de 18 anos, era pura diversão de roda de amigos e distração, tornou-se compromisso sério, definindo, de v e z , s e u f u t u ro. e m s u a mente, conseguir, um dia, tocar em bares ou coisa do tipo, estava longe de acontecer. “num tenho condição pra isso não, sô” — dizia o

mineirinho acuado e desacreditado dos elogios e incentivos recebidos. a história teve início por causa de um amigo do amigo do dono do bar mais famoso de timóteo (no Vale do aço), que reconheceu seu talento e o incentivou a cantar lá. mal sabiam — “os amigos” e Wanderson da Silva, filho do violeiro nato, o tal menino de 18 anos... — que a primeira “canja” no bar mais frequentado de timóteo determinaria o início de uma grande história. depois desse dia, o telefone tocou. era o

dono do bar. “Garoto, quanto você cobra pra cantar lá, hein?”. Sem noção nenhuma de quanto pedir, Wanderson — que ainda era Wanderson da Silva — faturou, em seu primeiro cachê como cantor, o que seria, mais ou menos, o valor de 50 reais. a partir daí, não parou mais. após passar pelos palcos de timóteo, veio morar em Belo Horizonte com os pais. Voltou a timóteo porque conheceu sua esposa. depois do casamento, os dois vieram para BH, uma vez que no interior é bem mais difícil fazer esse tipo de trabalho.

Jamais cantei tão lindo assim... Wander Sá acredita que a internet ajudou muito a vida dos cantores. Para ele, se a divulgação é o ponto chave, com o poder de baixar músicas, os Cds perdem mercado, mas o cantor tende a ganhar mais dinheiro com shows. tanto que, mesmo com a dificuldade de fazer um Cd nos dias de hoje, Wander já recebeu proposta para ser

elaine alMeiDa

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agenciado. além disso, ele já consegue inserir músicas suas em seu repertório. “acontece de eu chegar para cantar e as pessoas pedirem uma música minha”, conta. apesar disso, ele já pensou em desistir da carreira por falta de reconhecimento. “minha esposa me incentivou a não parar”, conta. ainda bem que não desistiu. o sonho que não era sonho tornou-se reali-

dade. agora, falta tornar realidade outra parte desse sonho, que é cantar no Palácio das artes — “nem que seja só voz e violão... Pra mim, já vai ser o bastante”. Que nada! Lembrando outro grande poeta, com certeza, depois desse show, Wander só se lembrará de uma coisa: “jamais cantei tão lindo assim”.

Wander não abre mão do sonho de cantar no Palácio das artes

barziNHoS SÃo eSCola tem o caso do bêbado, que tropeçou e derramou conhaque no seu violão; daquela noite, em que o público foi à loucura a ponto de subir nas mesas e cadeiras, e daquele dia, que o cara pediu “Vítor e Léo”, sendo que o seu estilo musical é mPB e Pop Rock, e o seu cantor favorito — o melhor do mundo, de acordo com ele — é djavan... daria um livro só de casos engraçados, desagradáveis, prazerosos e, principalmente, de muito aprendizado. afinal, c o m o Wa n d e r S á mesmo disse, “barzinhos são escolas de cantores, não tem como negar”. Porém, “é uma escola onde todos querem se formar, e sair um dia de lá”, lembra. a verdade é que a maior parte dos “cantores da noite” não quer ficar com a marca de eterno “cantor de barzinho”. Sustentar família com a renda desse trabalho não é fácil. não é à toa que Wander Sá, além de trabalhar em casa com manutenção de computadores e elaboração de programas, procura avançar na carreira musical, e gravar um Cd. o projeto está caminhando. Possui suas canções, tem trabalho autoral, fez um Cd demo, e o definitivo sai no meio deste ano.


José Victor Melgaço O que esperar de um filme do Tarantino? Muita imaginação, violência, diálogos tensos e fina ironia. O d i re t o r f e z s e u p r i m e i ro filme, Cães de Aluguel (1992), com recursos escassos, mas acabou criando uma espécie de fórmula para todos os outros que viriam. De Pulp Fiction a Kill Bill, ele sempre usou e abusou da violência e do deboche como elementos centrais de seus roteiros. Não seria diferente em Bastardos Inglórios, seu filme mais recente, mesmo com um tema delicado como o nazismo. Tarantino criou uma versão mais “leve” (entre aspas, devido às várias cenas praticamente trash do longa) para um tema que costuma ser tratado sempre com certos pudores — afinal, o holocausto não foi nenhuma piada. A ação se passa na França invadida pelo 3º Reich e já começa com um impacto: enquanto o camponês francês Perrier LaPadite (Denis Menochet), que esconde judeus em sua casa, corta lenha, a trilha sonora apresenta a música mais tocada nos mortíferos caminhões de gás, “Pour Elise” (Beethoven). É desse início que surge a personagem Shoshanna Dreyfuss (Mélanie Laurent), que representa outra fixação do Tarantino: as loiras vingativas, assim como a musa do diretor, Uma Thurman. Ela é a judia que viu a família ser assassinada debaixo de um

assoalho e consegue fugir, até virar a principal estrela no clímax do filme, que é a explosão de um cinema cheio de nazistas. O próprio Hitler foi alvo de uma das principais características de Tarantino, que é a ironia. Ele foi retratado como um homenzinho afetado, que só fala gritando, quase burro e ainda mais sarcástico e sádico — é marcante a cena em que o ditad o r s e re m ó i d e r i s a d a s , enquanto assiste à matança de soldados aliados durante a estréia do filme Orgulho da Nação, promovido por Joseph Goebbels. A imagem irônica de Hitler chega a lembrar a famosa retratação caricata do ditador, por Charles Chaplin, no antológico O Grande Ditador. O diferencial é que no longa do Tarantino, o ditador alemão é rebaixado de protagonista a um reles personagem secundário. A atuação do galã Brad Pitt também surpreende. Com um cinismo de dar inveja a qualquer ator cult, ele interpreta o general Aldo Raine, que comanda uma tropa de soldados judeus com o principal objetivo de matar todos os nazistas que encontrassem. E da forma a mais cruel possível. “Os Bastardos”, como era conhecido o grupo, escalpelam todos os soldados alemães, e isso é mostrado em alta definição. Sem contar o sinistro costume do general de marcar os sobreviventes, para que pudessem ser reconhecidos mesmo sem a farda, com uma

suástica desenhada na testa. Em ponta de faca! E aí está outra fixação explícita de Tarantino, as facas, espadas e objetos cortantes em geral. Outro bom momento da atuação de Pitt resultou em uma das cenas mais engraçadas do filme. Três dos “bastardos” fingem ser italianos para se infiltrarem no cinema onde haveria uma estréia nazista. O problema é que nenhum deles sabe falar italiano... A cena acontece no meio da Operação Kino, que

planeja explodir o cinema na estréia do filme de Goebbels. O plano conta com a participação de uma espécie de espiã, a atriz alemã Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger), que acaba assassinada pelo grande vilão do filme, o coronel Hanz L anda (Christophe Waltz). É somente na estréia do filme que os personagens se cruzam, uma vez que, sem saber da operação, Shoshanna também planejou explodir o cinema e ainda gravou um vídeo em que ela avisa aos nazista que

todos eles vão morrer pelas mãos de uma judia. Além disso, outras características do diretor aparecem. Entre elas, a fixação por histórias em quadrinhos — precisamente na separação em capítulos. Em síntese, Bastardos Inglórios tem tudo o que qualquer pessoa espera de um filme de Quentin Tarantino, e é merecedor de todos os prêmios que ganhou. A estética da violência, no entanto, tem lá seu preço. É um filme só para quem tem estômagos fortes.

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cinema

Divulgação/Universal

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Nem tão inglórios assim...

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O Oscar, mais uma vez, esnobou o último filme de Tarantino, mas “Bastardos Inglórios” traz uma síntese do que o diretor tem de melhor


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em Belo HoRiZonTe

LEISHIMANIOSE reJane araÚJo

Doença preocupa veterinários e donos de cães; segundo dados da PBH houve aumento significativo do numero de mortes

“a Leishmaniose é uma doença considerada negligenciada pelo governo e, por isso, frente a outras doenças, tem poucos métodos de combate e prevenção”. assim, o veterinário adriano marchandeau descreveu o panorama da Leishmaniose em Belo Horizonte. Só no ano passado, na região noroeste, onde está o Caiçara, foram verificados nove casos humanos da doença e um aumento de 19,3% no número de mortes. essa não é uma doença contagiosa; é causada por parasitas que infectam, princi-

palmente, os cães. Sua transmissão se dá através da picada do mosquito flebótomo infectado. existem ainda dois tipos — a leishmaniose visceral cutânea e a visceral; esta última também conhecida como calazar. os sintomas variam de acordo com o gênero dessa patologia. no caso da cutânea, surge pequena elevação avermelhada na pele, que aumenta até se tornar uma ferida com secreção purulenta. Já na visceral, ou calazar, a pessoa infectada tem febre irregular, anemia, perda de peso e insuficiência renal.

EUTANÁSIA X PREVENÇÃO a prefeitura de Belo Horizonte adota ações de controle voltadas para o cachorro. São feitos exames laboratoriais e eutanásia dos animais soropositivos. além disso, são realizadas borrifações com inseticidas nas casas, para combater os mosquitos transmissores. Só que, para marchandeau, o sacrifício dos cães não resolve o problema. “a prefeitura imagina que os casos humanos vão diminuir com a eutanásia dos cães; isso não resolve, pois se não tem cachorro, o mosquito vai ter que picar alguém; ou seja, a leishmaniose humana vai aumentar”. ainda segundo o veterinário, o exame de sangue feito pela prefeitura nos bichos não apresenta 100% de fidelidade aos resultados. “existem outros maneiras de diagnóstico mais apuradas, como o de medula óssea.

nesse método você consegue ver o protozoário”, explica. Professora da disciplina estética e Criatividade, no curso de Jornalismo, a artista plástica marta neves conta que seu cão — que atende pelo simpático nome de “nelsinho” — teve Leishmaniose e há dois anos vem, desde então, se submetendo a tratamento com sessões de quimioterapia — “Hoje, ele se encontra saudável”. entretanto, marta lembra que o cachorro terá que tomar um medicamento todos os dias até o fim de sua vida, além de fazer exames anuais. ela reconhece que os cuidados aos quais seu bicho de estimação é submetido não são acessíveis a muita gente. “não é uma coisa viável para a maioria da população; varia entre mil e dois mil reais, o sujeito que ganha salário mínimo e cria cachorro não consegue fazer isso”, avalia.

MÉTODO INEFICAZ

cRescem casos de

Para marta neves, as campanhas de prevenção ainda não são tão eficazes. ela ressalta que há ainda outro problema, o crescimento urbano desordenado. “através do inchaço que as cidades enfrentam, com novas populações que vêm de fora e habitam lugares sem saneamento básico, começa a se criar focos de doenças que antigamente estavam extintas aqui no Brasil—que não se ouvia mais falar, mas que voltaram”. marchandeau também acredita que a forma de prevenção adotada pela prefeitura é ineficaz, pois não são feitas campanhas que alertam e informam de maneira adequada. ele conta que na clínica onde trabalha, o filho de um funcionário teve l e i s h m a n i o s e e m o r re u . “tivemos, aqui, um caso dentro da clínica, em que uma criança de oito meses de idade, filha de um funcionário ficou um mês e meio internada por causa da doença, teve insuficiência renal e morreu”, disse. a prefeitura de Belo Horizonte, através da Regional noroeste e do departamento de Zoonoses, foi procurada e não quis se manisfestar sobre o assunto.


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DaNiela meNDoNça

Seguindo à risca os versos do baião de Luiz Gonzaga e Humberto teixeira, coitado do jiló, ninguém ia gostar dele. mas o povo gosta. e não é só porque o jiló virou a estrela do recente festival gastronômico “Comida di buteco”. no centro da cidade, no mercado Central e até mesmo nas residências mais simples da periferia, o amargo do jiló não espanta ninguém. Combinado com fígado, carne moída ou até empanado, o jiló é o tal. Você conhece o Solanum gilo? É o nome erudito do nosso conhecido jiló. Geralmente considerado um legume, o jiló é na realidade o fruto de uma planta da família das solanáceas, tal como a berinjela. Sua origem é desconhecida, mas é muito abundante na áfrica e no Brasil. o jiló contém diversos elementos nutritivos, como os carboidratos, as proteínas, gorduras e minerais, como fósforo, cálcio e ferro — essenciais na prevenção e no combate à anemia. Sem falar nas vitaminas a, do complexo B e C. o funcionário público João

B a t i s t a m e d e i ro s , 5 4 , n ã o esconde que o jiló é o prato de que mais gosta. Por isso, não entende o porquê de tantas pessoas não gostarem. “Bem feitinho, o jiló não amarga; pra não amargar, é só colocar na água com vinagre”, receita. João Batista conta que na sua infância, comia jiló ao invés de carne — “minha infância era muito sofrida, toda criança queria comer arroz, feijão e carne, mas como em minha casa éramos m u i t o p o b re s , n ã o t i n h a dinheiro para carne, então, comíamos jiló, acho que por isso tomei gosto”. Porém, talvez por causa do amargo, o jiló ganhou também a fama de “comida de macho”. mas tudo indica que é lenda. Há muitas mulheres que não abrem mão de um bom prato com jiló. uma delas é a bibliotecária dora aparecida, 52, que gosta muito do jiló e acha que esse papo de que “só macho é que gosta”, é pura crendice — “isso é um mito, jiló é uma verdura com todas as outras; tem gente que gosta de chuchu e tem gente que gosta de jiló”. dora tem uma boa justificativa para gostar de

jiló, ela gosta justamente pelo seu gosto amargo. mas, por incrível que pareça, há pessoas, como o estudante matheus Fonseca, 17, que nunca comeu jiló, só por ouvir dizer que é ruim e amargo. “nunca experimentei, de tanto ouvir o que meus pais falavam e que só passarinho é que come: fiquei com receio de comer”. a observação de matheus procede. muitos criadores de pássaros usam o jiló para alimentar as aves. o criador antônio Carlos Viegas, 45, usa diariamente o jiló para complementar a alimentação de seus canários e periquitos. mas disputa com os pássaros, o consumo do produto. em sua casa, o jiló surge em receitas diversas, que vão do chips (cortado em rodelas finíssimas e temperado com sal, limão e vinagre ou azeite) ao tradicional casamento com fígado bovino. a popularidade do jiló pode ser medida pelo número de pessoas que viajam distâncias e vêm provar esse prato no nosso mercado Central. “Comida di Buteco” só confirmou o que todo mundo já sabia: com ou sem amargor, o jiló está com tudo.

“ai quem me dera voltar, pros braços do meu xodó, saudade assim faz doer e amarga qui nem jiló” (luiz gonzaga e Humberto teixeira)

Daniela MenDonça

TRadiÇão

Que nem

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ViSUaiS

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Quem iscRevÊ eRado podÍ seR mulTadu reNata lima

DiÊgo augusTo/CPJ

nas ruas de metrópoles, nas cidades do interior, pelas estradas do Brasil e, até mesmo, na internet, as placas — de trânsito e de comércios — e outdoors com erros estridentes de português chamam atenção. Por pura ignorância ou com a intenção de atrair olhares, elas colocam, há tempos, uma questão em debate: os donos de placas com erros ortográficos devem ser multados? em dezembro de 2007, uma lei foi sancionada pelo então prefeito do Rio de Janeiro, César maia, para multar cariocas que errassem o português. ela determinava o início da cobrança de multa de R$ 55 por dia de quem exibisse faixas, placas, letreiros ou outdoors com erros. na cidade de São Paulo, também foi criada uma lei durante a gestão do ex-prefeito Paulo maluf, a exemplo da sancionada pelo colega carioca. do mesmo modo, ocorreu em outras cidades do Brasil , mas até hoje não se conhecem casos em que pessoas foram multadas por exibir cartazes ou faixas com erros de ortografia. São várias as opiniões a respeito do assunto. o professor de Língua Portuguesa, everton Luís é favorável à purificação da língua, mas acredita que a multa é muito difícil de ser aplicada. “Você vai multar a pessoa com base em quê? na ignorância dela? Se for assim, no mínimo a metade da população brasileira vai ter que ser multada”, reconhece. o

vendedor Bruno Barroso, 31, que tem um “à partir” escrito onde trabalha, acha que “é muito radical multar erros de português nas placas”. de acordo com ele, a melhor solução é ter um fiscal que peça apenas a retirada das mesmas.

PoDer PÚbliCo erra multando ou não, elas estarão sempre presentes. nem mesmo as placas de trânsito escapam dos equívocos. Por quase todas as rodovias do país, encontramos dizeres do tipo: “oBRaS À 50 m”. a crase, neste caso, aparece empregada de forma incorreta, já que números são palavras masculinas. uma placa sinalizadora, às margens da rodovia BR 116, apresenta o vocábulo “verifique” escrito da seguinte forma: “verefique”. Só para constar, a referida placa pertence à classe de “placas educativas” do Código nacional de trânsito. o caso é mais sério nesses exemplos porque o erro é do poder público, uma vez que as placas citadas não foram colocadas por um cidadão comum, mas sim pelo órgão que administra as estradas. a comerciante Heloisa Helena Ferreira, 46, amante da língua portuguesa, declarou que está cansada de se deparar com erros de português nas placas de trânsito. Segundo ela, “alguns são tão comuns que as pessoas até acreditam que estão corretos e se assustam quando são contrariadas pela gramática.”

QuaSe NuNCa aCertam os erros mais comuns e “lights” são: “entregas à domicílio (em vez de “em domicílio” ou “no domicílio”), “vendas à prazo”, “lavagem à seco” (não se usa crase antes de palavras masculinas), e “preços à partir de...” (de acordo com a gramática, não se emprega crase antes do verbo). everton Luís afirma que é raro ver a palavra “muçarela” escrita corretamente. “em contrapartida, as pessoas escrevem “paço o ponto”, indigna-se. o que é também muito usado nas placas e outdoors, é o apóstrofo. “no caso do apóstrofo — por exemplo, Leonardo’s bar —, penso que a pessoa usa porque acha chique, mas, na maioria das vezes, ela não tem nem noção do que é”, explica. e o que será que o professor diria de “against Filé”? acredite se quiser, mas também há quem traduza o intraduzível. É uma realidade não muito agradável, mas é certo que a maior parte dos brasileiros não sabe a língua portuguesa. Quem sabe, indigna-se ou diverte-se. Se você sabe, vale a dica: http://kibeloco. com.br/kibeloco/page/5/. nesse endereço, encontramse alguns dos equívocos mais inacreditáveis. divirta-se! mas não sinta-se tão superior por conta desses absurdos. um dia, quem sabe, você pode ser multado por errar uma simples ortografia. e lembre-se: a nossa querida língua portuguesa é mestre em pregar peças. ou seria “pessas”?

Não é raro ver erros ortográficos escandalosos ou "gracinhas" como essa em placas e outdoors; mas é bom saber que a ignorância ou o senso de humor podem ser multados.


INFLAÇÃO E CONFUSÃO

Quando o tempo está bom demais, os preços das frutas, verduras e legumes podem cair. entretanto, o preço das carnes, do leite e seus derivados podem aumentar, uma vez que os pastos secam e os fazendeiros precisam complementar a alimentação do gado com r a ç ã o. Fa t o re s d o s m a i s estranhos e diversos podem provocar oscilações na inflação, fazendo com que consumidores desinformados sofram com o aumento dos preços. inflação é um proc e s s o p e l o q u a l o c o r re aumento generalizado nos preços dos bens e serviços, provocando perda do poder de compra da moeda. isso quer dizer menos dinheiro e mais necessidade dele. muitas vezes os índices inflacionários divulgados pelo Governo, aos olhos do consumidor, são muito menores que os encontrados nos supermercados. Segundo o economista moisés machado, isso ocorre porque o índice é uma média de todos os preços. inclusive os encontrados nos supermercados. “no supermercado, o

consumidor só notará os que tiveram maior aumento, os que vão afetar mais no seu orçamento. eles não são reajustados pelo índice de cesta básica, mas pelos seus custos próprios”, diz. C o n s u m i d o re s c o m o dioclédio Ferreira afirmam que o aumento dos preços preocupa. “agora, estou comprando apenas o necessário. não dá pra comprar e deixar s o b r a r, f a z e r g r a c i n h a ” , afirma. Comerciantes como Pedro Vitor dos Santos Filho, que está há 56 anos no mercado Central, também reclamam com a alta dos preços. “as vendas caíram uns 30%. as pessoas estão comprando em menor quantidade. minha sorte é que já tenho meus fregueses certos. Só na Semana Santa que deu pra vender um pouco mais”, afirma. Já o comerciante elias Vieira, que está há três anos no mercado Central, diz que as vendas caíram muito e só é possível recuperar o prejuízo nos fins de semana. “meio de semana é um fracasso! as verduras vêm pequenas e feias e, mesmo assim, o que eu vendia a R$1 hoje vendo a R$2,50 ou R$3. todo mundo reclama, mas fazer o quê?”.

Serviços Segundo a ex-deputada e presidente do movimento das donas de Casa de minas Gerais (mdCmG), Lúcia Pacífico, é importante o consumidor se orientar sobre o consumo consciente. “Comprar menos, aproveitar ao máximo o alimento consumindo talos, folhas e até mesmo casca, ajuda a diminuir o desperdício, o impacto ao meio ambiente e os gastos”, afirma. o mdCmG possui equipe treinada e, semanalmente, cinco donas de casa são escaladas para pesquisar preços em supermercados sempre alertando o consumidor sobre a importância da pesquisa, uma vez que cada produto pode ter variação de até 200% de um supermercado para outro. “É importante substituir os alimentos que estão caros por outros da mesma classe, mas que estão na safra,

assim o consumidor paga m e n o s e n ã o p e rd e o s nutrientes necessários”, ressalta Lúcia Pacífico. a dona-de-casa edna da Silva afirma que o mdCmG desempenha um importante papel ao orientar consumidores nos diversos setores da economia. “eu já fui a várias palestras no movimento e achei muito proveitosas, nós aprendemos a economizar de várias maneiras”, diz. a associação movimento das donas de Casas de minas Gerais desenvolve também atividades como atendimento jurídico referente aos direitos do Consumidor e Legislação da empregada doméstica, encaminha denúncias relativas a abusos em preços e fraudes na qualidade de produtos e serviços; promove campanhas de orientação e esclarecimento e realiza ainda palestras educativas.

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economia

DaYse aguiar

NatHalia gorito

rem e d n ente mos o ã n Por mecanis , os ação ão l f n i da sn e r o d mi gir consu como a m sabe te da alta dian


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Celton, o nosso

Capitão Marvel cUltUra

CaroliNe loPeS L acarmélio alfêo de araújo é conhecido pelos belo-horizontinos como Celton, o personagem das revistas em quadrinhos que ele mesmo produz. nascido em 1959, em inhapim, interior de minas, desde criança já se interessava por histórias em quadrinhos. Suas revistas preferidas na infância eram as de tarzan, marvel e Capitão américa. Como a mãe só o presenteava com histórias do Walt disney, ele lia escondido as revistinhas do irmão e amigos. a paixão pelo desenho apareceu bem cedo na vida de Lacarmélio, ele tinha apenas 13 anos quando veio para Belo Horizonte com sua família, e foi quando surgiu a idéia de produzir e vender suas histórias. Hoje, Celton vive nas grandes avenidas da capital mineira vendendo suas revistas em quadrinhos a apenas dois reais, e é desta forma, que ele ganha todo o seu sustento e de sua família.

Lince - Quando surgiu a vontade de produzir seus próprios quadrinhos? Celton - Quando eu tive idade pra viajar sozinho. na década de 70, eu comecei a ir atrás de editoras no Rio de Janeiro e em São Paulo pra tentar a publicação das revistinhas, mas não deu certo. Como isso era algo que eu queria muito, então pedi pra minha mãe fazer um empréstimo no banco pra eu mesmo conseguir bancar a publicação. ela fez o empréstimo, e foi exatamente em 1985 que publiquei minha primeira revista. detalhe: não vendeu nada! Lince - Quando o Celton nasceu? Celton - na década de 70. Quando eu criava histórias em quadrinhos na minha infância, eu criei o Celton, ele era um superherói da mesma linhagem dos personagens das revistas que eu gostava de ler quando era criança. Lince - Porque o nome Celton? Celton - Quando eu criei o Celton, eu não queria por o nome dele de homem e algum bicho, igual os superheróis, sabe? eu queria um nome fácil de falar, eu queria um super-herói com um nome como se fosse um oi, olá, que fosse fácil de assimilar. eu queria um herói diferente, um cara tranqüilo, na dele. o Celton está cada vez mais simples, ele tem uma superforça e corre em alta velocidade, mas não tem identidade secreta. ele tem uma oficina mecânica, onde ele conserta de tudo. normalmente, o brilho da história não fica em cima do Celton, mas dos personagens que têm a ver com o roteiro,

Caroline loPes

Ti r o m inhas históri maldit as da a” foi rua. “ quand parad A sogr o eu v o na r a i u u a m , a sogr trás, o a no b carro casal anco d na fre n e brigan t do com e, e a sogra a nora .

o Celton é como um apresentador de televisão. Lince - Quando você teve a idéia de vender as revistas nos sinais de trânsito? Celton - tive a idéia de vender as revistas na rua para pagar o empréstimo que minha mãe tinha feito. Primeiro, comecei a vender em barzinhos, porta de faculdade. Como não estava dando muito certo, parti para os sinais. Lince - E de onde surgiu toda essa sua experiência para vendas na rua? Celton - a partir dos meu 13 anos eu já vendia coisas na rua. Vendia loteria, picolé, doce, também fui engraxate, ou seja, eu tenho uma experiência muito rica de rua. Lince - Em sua opinião, qual foi o motivo para que as vendas das revistinhas crescessem tanto? Celton - É que eu já não

estava mais escrevendo o que eu tinha influência, eu comecei a sacar o que as pessoas gostavam de ler. eu escrevo o roteiro hoje, depois gasto muito mais tempo pra adaptar o roteiro pra uma linguagem simples e popular. eu escrevia muito pra mim; hoje eu escrevo pro leitor. Lince - Qual é a tiragem das revistas? Celton - Quando comecei, a primeira tiragem foram cinco mil. Hoje são 20 mil revistas por edição, e eu tenho que vender as 20 mil. tudo o que você está vendo aqui em casa, esse estúdio aqui, é tudo dinheiro retirado da revista. inclusive o cenário das histórias que eu escrevo, são as ruas de Belo Horizonte, isso foi muito importante para que as vendas aumentassem. Lince - Qual foi a revista mais rápida que

você produziu? E a mais demorada? Celton - Foi em dois meses a mais rápida. a mais d e m o r a d a f o i u m a n o. Quando eu faço o roteiro é uma coisa; quando eu parto pra produção, eu começo a ver se vai dar certo. a mais demorada teve uma aventura em duas partes, a primeira parte foi “o Fantasma de ouro Preto’’; e a segunda parte “o apocalipse de Belo Horizonte’’, que é uma história de um fantasma que sai de ouro Preto e vem pra Belo Horizonte tomar o título de capital de minas Gerais. ai, eu vou vendendo elas até a seguinte ficar pronta. Lince - Qual a revistinha campeã de vendas? Celton – “o combate da sogra com o capeta’’. essa revista vendeu as 20 mil e não parava de vender — cheguei a uma tiragem de 45 mil. eu fiz também “o com-


bate do galo com a raposa’’, mais ainda não vendeu como a da sogra com o capeta. a próxima vai ser “o taxista e a passageira’’. olha só outro titulo que está na minha cabeça, “o marido, a esposa, a amante e o Ricardão’’. Lince - E da onde você tira as histórias escreve? Celton - na rua mesmo. Primeiro, eu lancei “a sogra maldita’’, e foi a partir de uma observação no trânsito, quando eu estava vendendo a revista no sinal, que criei o roteiro do combate da sogra com o capeta. eu estava parado vendendo a revista no sinal fechado, e tinha dentro de um carro parado na rua, a sogra sentada no banco de trás e o casal na frente, e a sogra brigando com a nora, na maior discussão. então, eu fiquei pensando: ‘nossa, que bacana!”. e aí virou história. ela vende legal, porém muita sogra começou a falar mal de mim na rua. na revista tem meu telefone e elas ligavam pra minha casa, me xingando. Pensei né, vou lançar uma revista pra essas sogras e vou conquistá-las. Lancei ‘’a sogra maravilhosa’’, que não vendeu nada. Lince - Você já vendeu as revistas em outro estado? Celton - Sim, em são Paulo. a partir de agora estou ligado em assuntos mais nacionais pra poder vender aqui e lá, sem ter que produzir uma revista especifica pra cada estado. mas o cenário das revistas continua sendo de BH. a próxima vez que eu for vender em São Paulo, eu vou produzir uma revista com cenas de são Paulo. eu tiro fotos pra conhecer a cidade, tiro muita foto, e ai desenho. eu trabalho o tempo todo. onde tem trânsito, tem o Celton. Lince - A única forma de divulgação das suas revistas em quadrinhos são as ruas, mas já ouvi falar de pichações em muros sobre suas obras. É verdade? Celton – É. isso foi 1981. Comecei a pichar as paredes das casas na rua. eu escrevia assim: ‘leia Celton’, e embaixo, ‘magnífico’. olha, a revista ficou bem conhecida naquele período viu? mas depois eu fui procurado por muita gente e tive que pintar os muros de novo — e eu pintei muitos muros. Pintava o muro todinho.

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Lince - Qual a história que você teve mais prazer em escrever? Celton - ‘’o apocalipse de BH’’, porque gosto muito de história e geografia e a revista exigiu muita pesquisa, deu muito trabalho. também gostei de escrever “o capeta do Vilarinho’’, porque eu conseguir criar um roteiro em cima da lenda, sem desvendá-la. a lenda você tem que deixar continuar, “a loira do Bonfim”’ também gostei de escrever e vou lançar novas edições com ela. L i n c e - Vo c ê j á g a n h o u a l g u m prêmio? Celton - Já, um do instituto dos arquitetos do Brasil, por causa dos cenários de Belo Horizonte que rolam na minha revista. Já ganhei um prêmio da Prefeitura, e alguns outros prêmios por ai. muito bom.

Lince - Você deve passar por algumas situações inusitadas no trânsito... Celton - duas que eu tô lembrando aqui. Quando eu tava vendendo “o capeta do Vilarinho’’, eu estava carregando uma placa assim: neste número, o capeta do Vilarinho, e no período que eu estava vendendo a revista, apareceu um cara que arrancou a bíblia do bolso e começou a esfregar na placa, e ele gritava assim: ‘Jesus vai amarrar esse bicho, Jesus vai amarrar esse bicho’. depois teve outra, em frente ao minas Shopping. um casal mais velho passou de carro, quando eles viram o nome capeta na placa, o cara começou a jogar pedra e falou a mesma coisa do outro, ‘Jesus vai amarrar esse bicho’. e a mulher dele ficava fazendo sinal da cruz toda hora, sem parar. ontem mesmo, uma senhora da janela do ônibus gritou: Sai daí, sai daí.

Lince - Você acha que tem o reconhecimento que merece? Celton - eu sou um cara prático; pra mim, o reconhecimento aparece com a venda da revista por que eu preciso dela pra viver. Quando o Jô Soares me convidou para ir até o programa dele — eu já fui lá duas vezes, você sabe né? —, muita mídia de BH, que antes nem me via, começou a me ver. a minha obra começou a sair nessas revistas de critica de literatura sabe? e antes era abaixo da critica, (risos). eu considero isso um reconhecimento. agora há pouco, o maurício Kubrusly, aquele repórter do “Fantástico”, esteve aqui em casa e gravou também. e eu já apareci em alguns programas locais de São Paulo.

Eu tenho uma experiência muito rica da rua. Desde os meus 13 anos que eu já vendia coisas na rua. Vendia loteria, picolé, doce, também fui engraxate...


O essencial

é invisível aos olhos! FoTos Carlos roBerTo

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Roberto Minuzzi consola Samuel, heroi da conquista do Minas, e a câmera de Carlos Roberto capta toda a emoção

Mais adiante, ao se referir a esse “essencial”, o escritor francês Antoine de SaintExupery, autor da frase acima, diria que, esse essencial, “só o coração é que vê”

SHeila meNDeS apesar de todo o stress que rola dentro e fora de uma redação de jornal, o fotógrafo Carlos Roberto se supera para fazer da fotografia, uma arte. nascido em Curvelo, Carlos trabalha há 14 anos como fotógrafo do Jornal Hoje em dia. durante esse tempo, o que não faltaram foram momentos históricos, especiais, marcantes, todos devidamente registrados por sua câmara. acostumado a trabalhar sob pressão, para cumprir a pauta do jornal, Carlos sempre acreditou que isso não é desculpa para um trabalho robotizado, de tirar fotos como se as imagens fossem apenas mais uma testemunha para acompanhar uma noticia — “Saber como observar faz toda a diferença para que o trabalho de qualquer fotógrafo não se torne exaustivo”, comenta. Pensando assim, ele sempre procura uma maneira de se reinventar naquilo que já sabe sobre fotografia. Para ele, cada foto, cada imagem tem uma historia a mais para contar, ”além daquela que ela

própria já conta, tudo é uma questão de interpretação, pode ser uma foto para uma matéria policial, ou sobre dicas culturais, qualquer imagem têm um pouco de nossa cultura, nossos costumes e valores; a fotografia deve expressar como é o ser humano segundo o olhar do outro”, ensina. atento aos detalhes de uma imagem, ele busca ver nos objetos, e principalmente nas pessoas, detalhes que possam passar despercebido por muitos. “tenho como característica observar por horas algo. Procuro registrar o momento que melhor expresse o que pretendo mostrar. É importante deixar claro que o fotojornalismo não é uma obra de arte, é um trabalho, que, feito com tamanha perfeição, pode se tornar uma arte sem a pretensão”, disse Carlos Roberto. Com uma simplicidade de dar inveja, Carlos contou com muita timidez sobre sua infância, e sua trajetória profissional. Vindo de uma família humilde, Carlos Roberto teve, quando era criança, uma vida tranquila. acostumado a brincar como

seus amigos, fez tudo o que tinha direito e o que não tinha: soltou papagaio, jogou vôlei, quebrou vidraças, caçou pássaros e confessou (bastante envergonhado) que até roubou uma rosa de um jardim, para sua professora... até os 18 anos, Carlos não tinha a menor preocupação quanto à formação profissional, mas a natural curiosidade de menino, o fez ganhar um concurso de fotografia promovido pela telemig, que buscava novos talentos. Carlos ganhou por sua criatividade ao fotografar um vizinho que construía uma casa muito linda, enquanto a sua era bastante humilde... Foi tirando uma foto aqui, outra ali, que Carlos Roberto decidiu fazer um curso por correspondência. Começava ali uma nova vida e nascia um fotógrafo que teria muita história para contar e fotos para mostrar. desde então sua vida nunca mais foi a mesma. mas a foto que mais o emocionou oculta uma bela história, trágica, dramática, emocional. Foi no final da Superliga de Vôlei, em 2007, entre o telemig Celular minas e a Cimed, de

Santa Catarina. na quadra, o capitão Roberto minuzzi, do minas, abraçava Samuel Fuchs, seu colega de equipe, que na véspera, havia perdido seu irmão mais novo, andreas, em um acidente de moto. “Quando vi a cena, sabia que algo de muito humano estava acontecendo e resolvi registrar aquele instante, que para mim representou muito. a vitoria do minas tinha que ser noticiada, mas o que estava acontecendo entre os dois atletas, não poderia jamais passar despercebido”, disse Carlos Roberto, ainda emocionado. no dia a dia do fotojornalismo, é preciso filtrar, separar e tentar entender que por trás de cada furo de reportagem, estamos lidando com pessoas que têm sentimentos, e que estão, antes de mais nada, querendo a todo o momento se expressar. ao retratar a dor profunda de Samuel, Carlos Roberto resgatou esse raro sentimento, aquele instante mágico que, como bem disse Saint-exupery, pode tersido invisível para alguns olhos, mas não para quem fez de sua câmera seu próprio coração.

Jornal Lince_40  

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Newton Paiva