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Edição Piloto, outubro de 2010

Você sabe quanto custou o seu voto?

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$ Entrevista com João Antônio Gomes Pereira, coordenador do curso de Relações Públicas da Unipampa Corsan: ainda falta muito para a prefeitura romper contrato

Notas fiscais ajudam entidades de São Borja


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Da redação

SUMÁRIO

O FATO DO EDITOR

ENTREVISTA:

Nas eleições deste ano os eleitores viram diante de si os mais variados tipos de candidato. Além daqueles já reconhecidos como “raposas velhas”, que chegam ao ponto de se auto classificar como políticos profissionais – e que não desistem da vida pública por nada, temos representantes de praticamente todos os segmentos da sociedade. A diversidade dos candidatos, neste aspecto proporcional ao tamanho do Brasil, pode ser constatada nas propostas apresentadas pelos postulantes aos cargos, principalmente do legislativo. Nesta vasta sorte de candidatos, chama a atenção um tipo em especial: são aqueles cujo principal apelo eleitoral está na condição de ídolo que mantém junto à população. Por isso tivemos nosso voto pretendido por cantores, artistas de televisão e ex-jogadores, sobretudo de futebol. Também se registraram alguns casos onde parentes de políticos se candidataram. Isso demonstra que, apesar das dificuldades de uma eleição, um mandato de deputado é, definitivamente, um grande negócio, tanto para ganhar dinheiro ou para manter uma imagem em evidência. Quem possui a oportunidade para se apresentar ao eleitor tende a fazê-lo. Daí tantos interessados em uma vaga. Mas é preciso questionar se o eleitor é capaz de compreender todo este processo, separando idolatrias da capacidade crítica de avaliação de um candidato. Não existem garantias que um jogador que se destacou nos campos de futebol possua o mesmo talento para decidir os rumos do país. Cabe ressaltar que o direito de qualquer cidadão se candidatar é soberano e inquestionável. Entretanto, é preciso ajudar o eleitor a utilizar melhores critérios. Muitos candidatos ídolos conseguiram se eleger. Terão a oportunidade de mostrar seu trabalho a partir de 2011. Mas a pior conseqüência disto poderá ser sentida apenas em 2014, quando motivados pelo êxito destes de agora, muitos outros iguais deverão tentar uma eleição. Não se defende que a atual composição do Congresso Nacional e das Assembléias Legislativas seja excelente. Ao contrário, mudanças são bem vindas. Mas que ao menos possam melhorar os quadros.

João Antônio G. Pereira

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Cartas dos leitores

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Seção Contexto

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OPINIÃO:

Luis Alberto Mairesse

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Novidade

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CAPA:

Gastos de campanha

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Plano de saneamento básico

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Escola aberta

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Porto do Angico

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Notas fiscais

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Imagens comentadas

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Opções comparadas

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OPINIÃO:

Cárlida Emerim PERFIL:

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Sérgio Bastos Seitenfuss

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Resenhas & Agenda

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Crônicas

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A Revista Fato é uma publicação experimental, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do acadêmico Francis Jonas Limberger, graduando de Jornalismo na Universidade Federal do Pampa. Orientação da professora Me. Joseline Pippi.

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Entrevista

RELAÇÕES PÚBLICAS: UM NOVO CURSO SUPERIOR EM SÃO BORJA

Revista Fato: Como está sendo este primeiro semestre do curso de R.P. (Relações Públicas)? João Antônio Gomes Pereira: É bastante positivo. Por quê? Porque em menos de um ano nós já temos projetos de extensão dos professores do curso, participação em eventos da universidade, os alunos já realizaram viagens de estudos para conhecer um pouco mais sobre a área de produção cultural, os professores têm feito várias visitas de integração com as lideranças da comunidade e já estamos indo para o segundo evento de Relações Públicas Fato: Qual é a sua impressão sobre a primeira turma do curso? JoãoAntônio: É muito boa, ótima. Nós fizemos uma atividade de integração nos primeiros dias de aula e houve uma grande receptividade de todos os alunos. A participação deles foi bastante interessante. Nós apresentamos para eles o projeto pedagógico do curso do curso. Entre a parte das explicações nós desenvolvemos uma atividade de dramatização. Foi interessante porque todos os alunos que estavam presentes participaram, demonstrando bastante criatividade e interatividade com os colegas. Fato: Quais características são importantes para um profissional de R.P.?

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FOTO: Arquivo pessoal

No segundo semestre de 2010 estreou na Unipampa de São Borja o curso de Relações Públicas. É a quinta graduação oferecida pela instituição federal, que já está no seu quarto ano de atividade. O professor João Antônio Gomes Pereira trabalhou na implantação e foi nomeado o primeiro coordenador do curso. Formando em Publicidade e Propaganda pela UFSM, ele atua a 24 anos na região. Foi professor da Uri de Santiago e da Urcamp de São Borja, e também criou a sua própria agência de Marketing. Em entrevista concedida à Revista Fato, João Antônio falou das características da área de Relações Públicas e da ênfase na área cultural, algo inédito neste tipo de graduação.


João Antônio G. Pereira João Antônio: O curso de Relações Públicas aqui de São Borja tem um diferencial em relação aos demais, que é a sua ênfase em Produção Cultural. Então o profissional que vai se formar no curso tem que ter o gosto pela cultura, por projetos culturais. Tem que ter uma postura ética, esta interatividade em relação à comunidade, tem que ter a busca pela cidadania, persistência e perseverança. Tem que ser aquele profissional que está sincronizado com o tempo no qual está vivendo. Fato: O que significa um curso de Relações Pública com ênfase em Produção Cultural? João Antônio: O profissional de R.P. faz um “meio campo” entre a organização e os seus públicos, buscando esta interatividade com os diversos públicos. O profissional com ênfase em Produção Cultural vai trabalhar, além disso, em projetos culturais. A criação de projetos e produtos artístico-culturais, que vão desde produção televisiva, teatro, festivais, espetáculos como dança. Outro aspecto que nós temos aqui em São Borja é a Casa João Goulart. Este projeto que foi feito em parceria com a AES Sul foi realizado por uma profissional da área de produção cultural. Fato: Como o curso de R.P. pretende aproveitar o potencial cultural de São Borja? João Antônio: Fazendo visitas, buscando integração, trabalhando em parceria com as lideranças, buscando estas parcerias. Tanto eu como os outros professores têm buscado interação com as entidades de classe, Câmara de Vereadores, Prefeitura Municipal, visitando empresas. Os professores tem feito um trabalho muito forte e intenso neste sentido. Fato: O que determinou o direcionamento do curso para a área cultural?

João Antônio: Um dos fatores é a questão de um curso diferenciado, que não seja apenas um curso de R.P. a mais no Brasil. Outra questão é a área cultural. Nós temos um curso de Gestão Cultural na Bahia, um curso tecnológico na Universidade Fluminense, e São Borja é o único lugar que tem curso como o nosso. O curso continua sendo de R.P., mas a preocupação maior, a dedicação é para preparar os alunos para que eles invistam em projetos culturais. E a própria cultura de São Borja e a sua história ajudaram bastante a ter este diferencial. Fato: Como você avalia o campo de atuação para estes profissionais na região de São Borja? João Antônio: É preciso ter em mente que o curso em São Borja é de formação. Formação para atuar em qualquer lugar do Brasil. Nós temos alunos de São Borja, da região, mas também de outros estados, que vão se formar aqui e voltar para as suas cidades e começar um trabalho. Então eu acredito que o bom em ter este diferencial do curso em São Borja é trazer pessoas e aumentar a população, o que vai gerar divisas. Fato: O que uma empresa ganha ao contratar um profissional de Relações Públicas? João Antônio: A organização ganha em visibilidade adequada, ganha em notoriedade, maximização de seus resultados em termos financeiros também, maior integração da instituição na comunidade, soluções culturais para problemas de comunicação identificados, participação adequado em leis de incentivo a cultura e projetos culturais. Pelo que conheço já pesquisei, o profissional de Relações Públicas faz a diferença nas organizações. São vários os cases de sucesso nos quais quem investe num trabalho de Relações Públicas tem obtido retornos significativos.

Fato: O curso é relativamente novo. Ainda há um desconhecimento da população a seu respeito? João Antônio: O que eu noto é o seguinte: um dia eu estava visitando umas empresas de São Borja, mas por outro motivo. Muitos me falaram que em São Borja se precisa de alguém da Publicidade (antes João Antônio já era professor Curso de Publicidade e Propaganda) para fazer “tais e tais” coisas. Mas todas estas atividades que eles encomendavam não eram da Publicidade nem do Jornalismo. Eram das Relações Públicas. Então muitas vezes as pessoas ainda confundem as atividades de cada curso. Nós já fizemos uma visita à ACISB e participamos da reunião da diretoria da entidade para começar a fazer este contato e este esclarecimento. Fato: Como este profissional de R.P. pode colaborar para melhorar a realidade em que ele atua? João Antônio: Pode colaborar de várias maneiras conforme a atividade da organização, os objetivos de comunicação e finalidades de cada empreendimento: atividades que objetivem a visibilidade e à legitimidade dos assessorados perante a opinião pública, tais como o estabelecimento de relações com a mídia e o gerenciamento de crises de imagem; atividades que visem à construção da imagem pública de seus assessorados; de interlocução entre as funções de relações públicas e as demais funções profissionais ou empresariais existentes na área da comunicação, criação e organização de projetos artísticos e culturais, cuidando de todas as etapas, da captação de recursos à realização final. Há várias possibilidades de colaboração além das já mencionadas. O importante é as organizações investirem em profissionais da área para fazerem a diferença.

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Cartas dos leitores

Nesta edição foram publicadas as respostas dos leitores para a seguinte pergunta: O que você gostaria de ler numa revista jornalística de São Borja? Cleberson Fontella Correa Gostaria de ler matérias, resenhas e críticas relacionadas à cultura pop. Não aquelas tradicionais, mas algo que deixasse o público com a sensação de que o elemento cultural descrito no texto faz parte de sua vida. Por exemplo, narrar o encontro de ex-namorados e usar como pano de fundo as músicas de uma determinada banda. Mostrar ao leitor como uma obra artística (seja a música de uma banda, um filme, um livro, uma HQ, etc.) está intimamente ligada à vida dele, como ela desperta lembranças,

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desejos, paixões, sentimentos.

Andressa Schneider

Alcebíades Paulino

Gostaria de ver as áreas que não são abordadas em todas as revistas daqui. Por exemplo, não agüento mais “história do município”, presidentes, Maria do Carmo, Anjinho, Missões Jesuíticas e etc. Gostaria de ver os movimentos culturais da cidade, mas queria algo totalmente fora dessa coisa “CTG e pampa”. Legal seria mostrar livrarias e cafés bacanas por aqui, locadoras...

Uma revista que tivesse uma seção estritamente cultural, valorizando a cultura de São Borja: músicos, artistas, poetas, artesãos... Tem muita coisa acontecendo que não recebe a merecida atenção! Heleno Rocha Nazário Uma linha editorial que se permita questionar com responsabilidade, sem pender nem para a paranóia nem para a acriticidade; exploração de assuntos variados, existentes e circulantes em São Borja, além da proposição de temas que ainda não são discutidos na cidade; Um planejamento gráfico bonito, eficiente - do tipo que faria as pessoas se perguntarem “onde é que fazem essa revista?”; Importantíssimo: um plano de negócios que faça a publicação se manter e se desenvolver.

Deco Almeida Gostaria de ver o passado de suas ruas e logradouros e o tempo em que eram iluminadas por lampiões. Bruna Mena Bueno Neste tempo que estou em São Borja, verifiquei que grande parte de materiais publicados sempre são relacionados à história da cidade ou personalidades. Acho que seria in-


teressante uma revista multitemática, sem desconsiderar a história, mas abordando vários temas. Como se fosse uma revista com várias editorias ligadas a São Borja como, por exemplo, educação, saúde, turismo, ambiente, cultura, história, moda, etc. Desse modo, a abrangência também seria de um público diversificado e não, segmentado.

Caroline Welter Vargas

Eduardo Vieira da Silva

Gostaria de encontrar um conteúdo de qualidade e independente, porque aqui você pega um jornal e é tudo feito diretamente pelas assessorias de imprensa. Eles (os redatores) não escrevem nada. Gostaria de encontrar conteúdos diversos e atualizados. Não precisa ter quantidade, mas sim qualidade. Resumindo: informação de qualidade.

Eu gostaria de ver reportagens sobre a política local, mas mais aprofundadas do que as que são veiculadas nos jornais, mostrando os bastidores, antecipando o que virá, etc. Camila Schmitt Gostaria de ver assuntos relacionados à cultura, pois a cidade não dá o valor todo que eles têm.

Reportagens sobre a história da cidade, da fundação, da evolução, porque eu acho que a história da cidade tem muito mais além daquilo que a gente sabe, tem muito mistério. Rogério Savian

Pedro Tatsch O que eu gostaria de ver? CULTURA... música, cinema... mesmo que de nível regional ou nacional,

mas com uma abordagem do ponto de vista de profissional. Aline Donato Informações mais aprofundadas sobre os locais históricos, como curiosidades. E também alguma coisa que explique um pouco de políticas públicas e que guie o leitor para saber mais sobre o que é feito com o dinheiro público. Marcio Cavalheiro Reportagens nos bairros, com as pessoas das periferias, seus problemas e alegrias. Tudo aquilo que não vimos nos jornais tradicionais da cidade nem nas “revistas” que só enfocam o lado social/glamouruso da sociedade são-borjense. Reportagens com entrevistas com as pessoas, dando voz aos menos favorecidos e que jamais têm oportunidade nos veículos de comunicação regulares.

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Seção Contexto

ENTRE FATOS Pimenta no arroz Investimentos recentes do deputado federal reeleito Paulo Pimenta (PT) fizeram dele um dos mais novos empresários de São Borja. Ele acaba de adquirir a cerealista Beira Rio. O deputado também tentou comprar duas outras empresas locais: a ICR, de propriedade de Isidro Rigo, irmão de Celso Rigo e uma terceira empresa de nome não revelado. Especula-se que a Beira Rio poderá vir a ser uma das fornecedoras da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento), órgão do Governo Federal. Paguei, quero a nota! A Prefeitura Municipal de São Borja prepara para 2011 um programa de incentivo à nota fiscal. O nome oficial ainda não foi definido, mas já se sabe que valerá para o setor de prestação de serviços. Para isso será utilizado o recurso da nota fiscal eletrônica, que está sendo implantada em todo o país. Ao contratar um serviço, o número do CPF do cliente fica registrado junto à nota fiscal. No ano seguinte, o contribuinte poderá abater uma porcentagem (deverá ser 3%) de todo o valor que gastou com serviços naquele ano no seu IPTU. Não era óbvio? Com menos de cinco anos de funcionamento a Unipampa, campus de São Borja, já está enfrentado um sério problema. Ocorre que a

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área disponível para novas construções está quase esgotada. O terreno está situado próximo a uma área de preservação ambiental, que deve ser mantida. Além disso, há a sede da Polícia Federal e muitas casas nas proximidades. Mas tudo isso já existia quando o local foi escolhido. A reitora da Universidade, Maria Beatriz Luce e o prefeito Mariovane Weis já estiveram reunidos para discutir o assunto. Mundo virtual, problemas virtuais Pela primeira vez na história o número de crimes virtuais cometidos na rede mundial de computadores superou as ocorrências tradicionais (fora da rede). A informação foi divulgada este mês pela Polícia Federal. Com as facilidades oferecidas pela internet, os negócios e os relacionamentos virtuais se popularizaram. Como no mundo real, na rede também há aqueles interessados em se beneficiar às custas dos outros. Sugere-se que no computador seja adotado o mesmo tipo de precauções que se têm fora dele. Câmeras para que te quero? Quem transita pelo centro de São Borja pode perceber que as Praças contam agora com várias câmeras de monitoramento. Uma boa iniciativa para coibir a criminalidade. Entretanto, há um detalhe que ainda não está devidamente esclarecido. Consta que o monitoramento

destas imagens é feito por uma empresa de segurança contratada pela prefeitura. Até onde se sabe, somente o estado pode fazer uso de imagens públicas. Ruralistas no Congresso Um levantamento feito pela assessoria da casa aponta que, a partir de 2011, a bancada ruralista aumentará dos atuais 120 nomes para 135. A bancada ruralista do congresso é formada por deputados e senadores que possuem alguma relação ou origem na agropecuária. Geralmente estes parlamentares costumam votar em favor de pautas que julgam ser benéficas para o setor primário. Outro tipo de jogo O famoso técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo parece estar passando por uma das piores crises da sua carreira. Suspeita-se que o técnico esteja viciado em jogos de cartas. Neste mês chegou a se noticiar que ele teria fretado um jatinho do Rio de Janeiro até a cidade de Foz do Iguaçu, para participar de um torneio de pocker e voltar na mesma noite. Atualmente no comando do Flamengo, o técnico que já treinou a seleção brasileira e o poderoso Real Madrid da Espanha, não apresenta bom o mesmo desempenho, pelo menos no futebol. A sua última temporada com bons resultados foi em 2007, quando levou o Santos à semi-final da Taça Libertadores.


MAIS Milho Transgênico Nesta safra metade do milho gaúcho é geneticamente modificado. Um crescimento de 50% em relação a 2009. Os dados foram divulgados pela Associação dos Produtores de Sementes do Rio Grande do Sul, e apontam para uma área de mais que quinhentos mil hectares. A tendência é que se repita o que ocorreu com a soja transgênica, que hoje praticamente está em 100% das lavouras gaúchas onde a oleaginosa é cultivada.

+ MENOS Telefones Públicos Encontrar um “orelhão” que esteja funcionando corretamente é cada vez mais difícil. Em uma rápida pesquisa em São Borja foram testados quinze aparelhos. Sete deles estavam com algum defeito. O problema sempre existiu, e uma parcela de culpa é de alguns usuários, que não se preocupam muito em conservar o equipamento. Mas é preciso lembrar que a mesma empresa responsável pelos telefones públicos também trabalha com telefonia móvel. Para ela é mais lucrativo vender um celular.

OS FATOS DO MÊS DE OUTUBRO Surpresa, Dilma! O crescimento de Marina Silva (PV) é apontado como principal fator que levou a disputa presidencial para o inesperado segundo turno. TI-RI-RI-CA Ministério Público Eleitoral fez denúncia e o palhaço terá que provar que sabe escrever. O assunto diz respeito a, pelo menos, 1,35 milhões de pessoas. Estado máximo de atenção. Superbactéria causou infecção hospitalar e provocou 18 mortes. Outros 108 pacientes estariam infectados. Ainda bem que elas são apardidárias! Contando as horas. Realizado o resgate dos 33 mineiros presos por mais de dois meses em uma mina no Chile. A operação foi acompanhada em todo o mundo. A ‘Erenice’ do Serra. Ex-diretor do governo de José Serra (PSDB) em São Paulo foi acusado de desviar dinheiro para a campanha do tucano. Verde e neutra. Após bom desempenho nas eleições, Marina Silva anunciou que não vai apoiar nenhum candidato no segundo turno. Greves caras. Franceses em greve contra o projeto de reforma do sistema de aposentadoria provocaram perdas diárias de mais de 200 milhões de euros, Os dados são do governo francês, autor do projeto. Monitorar? Ceará, Alagoas, Piauí, Bahia e São Paulo podem criar conselhos para monitorar as atividades da imprensa. Basta saber o que vem depois do monitoramento... Nunca antes... Lula deve terminar o seu segundo mandato com aprovação recorde. Segundo o Datafolha, 83% dos eleitores brasileiros avaliam o governo do petista como ótimo ou bom. Lei vale no Brasil? Criada e aprovada antes das eleições, a validade Lei da Ficha Limpa ainda é incerta. A maioria dos candidatos barrados recorreu, e até agora se discute se a lei se aplica a eles. Fato, outubro de 2010

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Opinião

O GRANDE DESAFIO DE TARSO GENRO

Luiz Alberto Silveira Mairesse*

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ogo depois de confirmada a vitória de Dilma, Ciro Gomes acusou o PSDB de Fernando Henrique e o PT de Lula de montarem “uma estratégia para fragilizar e enfraquecer o Rio Grande do Sul nos últimos 16 anos”. E disse mais: “O objetivo claro foi de rebaixar o RS no cenário nacional, ações presidenciais que ferem a Constituição e o princípio federativo; e depois acusam os gaúchos de separatismo...” Quando questionado sobre o significado da vitória de Tarso Genro, o ex-governador do Ceará disse que esta será a grande oportunidade para que os gaúchos revertam esta situação, onde o RS vive a pior crise dentre todos os estados da federação (Rádio Gaúcha, 31/10/2010). Se é bem verdade o que disse Ciro, não é menos verdadeiro que a decadência do nosso Estado vem desde os tempos da Ditadura Militar de 64, quando nossas instituições públicas estaduais responsáveis pelas políticas de pesquisa, extensão e ensino começaram a ser sucateadas, com o incremento da centralização pelo Governo Federal. No início dos anos 70 o RS ainda era considerado o celeiro do Brasil, mas já havia prenúncio de graves crises. Ainda se vivia sob efeito de grandes realizações dos gaúchos. A modernização da pesquisa agrícola e industrial, a criação da CRT, CEE, CEEE, CESA, Aços finos Piratini, Refinaria Alberto Pasqualini, CORSAN; a construção da ponte do Rio Guaíba e de mais de 7.000 escolas em apenas uma administração, dentre muitas outras, nas décadas 50/60, parece terem sido os últimos atos de bravura que orgulharam o espírito de nossos ancestrais. Como “efeito da Lei da Inércia”, ainda liderávamos a política de pesquisa, educação e extensão para o Estado, pelos resultados que ainda eram obtidos. As instituições de pesquisa agrícola e industrial ainda eram reconhecidas no Brasil e no exterior, tanto que eram comuns as visitas de cientistas estrangeiros, para conhecer o trabalho pioneiro que realizávamos. Mas a crise estava chegando, com o desmonte de nossas instituições. 10

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Nossos governantes e representantes eram alertados na época para o que estava por acontecer, mas não davam ouvidos. Encantados pelo “canto da sereia” do governo central, tinham a ilusão de que seria vantajoso ao RS gastar menos, sucateando seus centros e deixando que o Governo Federal fizesse tudo. E em todas as áreas houve essa febre de federalização no RS e o que assistimos até hoje são os prefeitos e governos gaúchos de chapéu na mão pedindo recursos em Brasília. E ninguém se dá conta de que o dinheiro do governo federal é o nosso dinheiro. A diferença está em quem administra os recursos... O Estado de São Paulo, diferentemente, fez questão de manter e aprimorar suas instituições. Enquanto o RS se esquecia da CIENTEC, atrelava a EMATER ao Governo Federal e sucateava e diminuía o número de estações experimentais agrícolas da hoje FEPAGRO, transformando-as praticamente em subunidades da Embrapa, São Paulo aumentava o número delas e as modernizava, integrando pesquisa, ensino e extensão. A USP, que é uma universidade estadual, foi aprimorada, transformandose numa das 100 primeiras dentre mais de seis mil similares no mundo. (Hoje a própria USP está em decadência, mas este é um outro assunto.) Diversas outras universidades estaduais e até municipais surgiram em São Paulo, além de inúmeras instituições privadas. E foi assim em todas as áreas. Por exemplo: enquanto na onda da construção de estradas asfaltadas São Paulo fazia as suas, o RS se preocupava em pressionar o Governo Federal para asfaltar nossas vias. Diante desse clima de submissão paternalista, discussões que surgiam sobre a criação de uma universidade estadual aqui não tinham como prosperar. Enquanto isto, outros estados criavam suas universidades, inclusive até mesmo várias por estado, como o Paraná que hoje dispõe de seis universidades estaduais e 85 mil alunos. Comparações com a UERGS chegam a ser ridículas, quando a nossa instituição com pouco mais de dois mil estudantes, é a menor


Novidade

dentre as quase 50 universidades estaduais em todo o Brasil. Méritos sejam dados ao Governo Olívio ao criar a UERGS, apesar de ter sido esta uma exigência do PSB para participar da Frente Popular, pois até no PT havia muita resistência. Avanços mínimos, mas insuficientes, ocorreram no Governo Rigotto. Na gestão Yeda ocorreu um verdadeiro caos, não só na UERGS, mas em todas as nossas já depauperadas instituições estaduais. A comunidade gaúcha e o Governo do Estado precisam fortalecer a pesquisa científica estadual, integrar a EMATER e avançar com a UERGS. Estas instituições, conjuntamente, poderão trabalhar pelos interesses verdadeiramente gaúchos, sem desmerecimento às instituições federais e privadas, mas que estas trabalhem sob nossa liderança, diferentemente do que tem acontecido ultimamente. Ou o RS realmente será apenas corredor do Mercosul. Faltam recursos? Remeta-se àqueles tempos e se verá que as dificuldades eram muito maiores. Então, o que está faltando? Nada mais do que vontade política, o que não deve faltar ao futuro Governador. Mas a recuperação do Estado, tarefa hercúlea, inexoravelmente passa pela diminuição das desigualdades regionais e para isto é preciso ter coragem de se fazer justiça para com as Regiões da Campanha e Fronteira Oeste, tão esquecidas nas últimas décadas e ao mesmo tempo tão estratégicas nas nossas relações com o MERCOSUL. Este é o grande desafio de Tarso Genro.

COMO NÃO PENSEI NISSO ANTES? São as dificuldades que provocam os inventos mais úteis para as pessoas. Santos Dumont não conseguia segurar seu relógio de bolso com uma mão e pilotar com a outra. Por isso criou um assessório que prendia o relógio ao pulso, desocupando assim a mão. Pronto criou-se o relógio de pulso. Foi num momento de semelhante dificuldade que o carioca Leopoldo Aquino de Almeida viu uma oportunidade que logo se mostrou muito lucrativa. Enquanto comia um sanduíche num bar, Leopoldo precisou pedir ajuda ao garçom para abrir um sachê com maionese. Foi então que se perguntou se não seria possível construir um aparelho que abra esse tipo de embalagem com mais facilidade. Construiu o primeiro protótipo com uma lâmina de barbear e um cano de plástico. Depois de muitos testes Leopoldo encontrou um sócio e passou a fabricar o equipamento em escala industrial. Conta com 12 funcionários para fabricar até sete mil peças por mês. O produto faz o maior sucesso no Brasil e já foi patenteado nos Estados Unidos, na China e na Europa. Em breve devem começar as exportações para estes países. Não que esta seja uma invenção que vá mudar a humanidade, mas não deixa de ser um bom exemplo. De tão simples que é, parece que o abridor de sachês sempre existiu. Precisava alguém que fizesse as apresentações.

Para abrir o sachê, basta passar a ponta pela parte central do abridor.

FOTO: Divulgação

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*O Dr. Luiz Alberto Silveira Mairesse é Engenheiro Agrônomo e Professor Adjunto e Coordenador da UERGS - São Borja. Fato, outubro de 2010

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FOTO: Francis Jonas Limberger

QUANTO CUSTA UM VOTO? A interrogação acima não está se referindo àquela abominável prática da compra ilegal de votos, infelizmente tão comum. Porém, mesmo para os candidatos que obedecem à legislação eleitoral, os votos têm um preço. Uma campanha eleitoral depende dos recursos financeiros disponíveis, e a lógica é bastante simples: sem investimentos altos não se ganha uma eleição.


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ma pesquisa divulgada pelo IBOPE revelou que, faltando pouco mais de uma semana para as eleições de outubro, 60% dos eleitores gaúchos permaneciam indecisos quanto aos seus votos para Deputado Federal e Estadual. Os números da pesquisa, que podem até variar um pouco dentro de uma margem de erro, chamam a atenção pelo perfil do eleitorado que ajudam a revelar: um eleitor completamente alheio ao processo eleitoral, que procura não se envolver e nem mesmo se informar sobre os candidatos. Segundo o professor de Marketing Político do Centro Universitário Metodista, André Arnt, 70% dos eleitores não se interessam por eleições. Arnt fundamenta a estatística apresentada em pesquisas realizadas durante as campanhas eleitorais dos anos anteriores. “A gente tende a partir do pressuposto de que está todo mundo envolvido com a campanha política, 24 horas por dia vivendo a campanha, quando na verdade isso é uma grande falácia”, garante o professor. O motivo para tamanho desinteresse está principalmente na desvalorização da figura do parlamentar frente ao eleitor. Nos últimos anos ocorreram escândalos de toda natureza, incluindo desvio de dinheiro público, nepotismo e compra de votos de deputados federais em votações parlamentares. Fatos estes que chegaram ao conhecimento do público, quando certamente ainda há um bom número de casos que permanecem em segredo. Nestas circunstâncias, não há como esperar um eleitor motivado em comparecer às urnas. Ele o faz puramente em cumprimento a uma obrigação da lei. Outro fator que precisa ser considerado é a pouca maturidade política do eleitor. A maioria não tem consciência de que é parte envolvida no processo, e que está no seu voto a única possibilidade de transformar a realidade tão criticada. Quando o eleitor tiver mais interesse nas eleições, escolhendo criticamente seus candidatos, as mazelas começarão a de-

Capa saparecer da política. Mas enquanto isso não ocorre, segue o desinteresse do eleitor e as campanhas eleitorais perseguindo-o por todos os lados. Quando chega o dia do pleito o cidadão, ainda em dúvida, está sujeito a fazer uma escolha baseada nos critérios mais variados, e um dos principais é a sua memória recente. Por isso que a propaganda eleitoral, que visa fixar a identidade de um candidato é tão decisiva. Se for eficiente, ela pode trazer uma carga muito grande de votos dos eleitores que estavam indecisos às vésperas das eleições. A princípio parece difícil acreditar que uma chamada no rádio ou na televisão, um cavalete instalado na calçada, um santinho, um adesivo, uma bandeira ou uma placa possam se converter em votos para os seus donos. Mas a verdade é que essas ferramentas funcionam, principalmente quando o número de eleitores indecisos é tão alto. Sua principal função é marcar presença no cotidiano do eleitor, estando sempre ao alcance das suas percepções. Independentemente da forma – visual ou sonora – este é o mecanismo que fixa o nome, a imagem, o número ou até mesmo o slogan de campanha de um candidato junto ao eleitor. Quando isso ocorre, aumentam as chances deste candidato ser o escolhido. Já a ausência de determinado candidato em alguma plataforma publicitária pode ser muito mais relevante que a sua presença. “Quem aparece menos está mal”, sentencia um eleitor entrevistado no centro de São Borja. Neste contexto, não é segredo para ninguém que as campanhas eleitorais movimentam verdadeiras fortunas. Há muito tempo que elas se profissionalizaram, transformando as candidaturas em empresas e os candidatos em produtos. Estas “empresas” trabalham para alcançar a liderança no setor, com tempo muito limitado e sem margem para erros. Os investimentos são direcionados de acordo com orientação de profissionais das mais diversas finalidades. Estima-

Os deputados mais votados de São Borja e suas previsões de gastos com campanha: (Fonte: TSE)

Heinze R$ 2,5 milhões

Pimenta R$ 1,5 milhões

Contreira R$ 3,5 milhões

Cassiá R$ 900 mil

Rangel R$ 1,2 milhões

Christopher R$ 500 mil

Nadine R$ 1,5 milhões Fato, outubro de 2010

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FOTO: Francis Jonas Limberger

Os candidatos costumam contratar pessoas para ir Ă s ruas com suas bandeiras e distribuir material de campanha. Estes se somam aos militantes dos partidos.


como carros de som, materiais impressos para distribuição e anúncios nos meios de comunicação. Daí a exigência de tanto dinheiro para uma campanha. De fato, o dinheiro faz a diferença. Não a ponto de garantir o sucesso de candidaturas totalmente artificiais, mas no caso de dois candidatos com iguais características, é certo que ganha aquele que investiu mais dinheiro na campanha. O candidato que não alcançar um valor mínimo de investimentos dificilmente conseguirá ser eleito. Segundo a publicitária e professora do Curso de Publicidade e Propaganda da Unipampa, Juliana Salbego, “o dinheiro investido na campanha vai ser diretamente proporcional à quantidade de comunicação colocada na rua”. Ainda segundo Juliana, isso faz com que as propostas dos candidatos fiquem em segundo plano, muitas vezes passando despercebidas. A importância que o dinheiro adquiriu para as campanhas eleitorais traz conseqüências negativas: uma delas é que dificilmente um cidadão sem muito dinheiro conseguirá ser eleito, independentemente da sua índole e das suas propostas. “O que seria necessário seria estabelecer patamares mais justos de disputa, permitindo partidos de todos os tamanhos concorrerem em iguais condições”, afirma a professora Ângela.

Fonte: Candidaturas de São Borja

FOTOS: Francis Jonas Limberger

se que um candidato a deputado federal precise reunir pelo menos quinhentos colaboradores, caso contrário corre o risco de não ser eleito. Além disso, é preciso abastecer as ruas e os meios de comunicação com propaganda suficiente para, no mínimo, marcar presença diária. Com a profissionalização, as propagandas eleitorais passaram a ser mais uniformes, todas buscando refinar o tratamento dado ao discurso e ao uso das imagens. Ao observar um conjunto de diferentes propagandas não é possível distinguir as características de um partido ou candidato. A cientista política e professora da Unipampa, Ângela Quintanilha Gomez, aborda esta questão como uma forma de pasteurização da propaganda eleitoral, uma vez que todas as candidaturas procuram utilizar o que existe de mais novo em tecnologia e recursos midiáticos. Ângela recorda que “antes, quando a propaganda era mais ‘artesanal’, era possível perceber melhor a diferença entre os partidos e os candidatos”. Os profissionais que atuam nas campanhas eleitorais concordam que exageros nas propagandas, como a poluição sonora ou visual, atrapalham. Também afirmam que o contato direto entre candidato e eleitor está se mostrando cada vez mais eficiente. Mesmo assim não abrem mão dos recursos tradicionais,

Antes das eleições havia mais de cem cavaletes no centro. Depois delas, um caminhão cheio de lixo.

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Saneamento básico

UMA TRANSIÇÃO QUE AINDA NÃO COMEÇOU

“O prefeito está tratando da contratação da nova empresa de saneamento, e quando houver uma decisão, a imprensa será comunicada”. Esta declaração foi dada pela assessoria do prefeito há alguns meses. Obviamente é preciso considerar que a afirmação não partiu diretamente de Mariovane Weis, mas mesmo assim ela pode dar uma noção da forma como o tema vem sendo tratado. Além de demonstrar que, como sempre, não há muito interesse em permitir que a imprensa acompanhe o processo de perto, percebese que o gabinete do prefeito quer dar a impressão de que a situação está praticamente resolvida. A verdade é que no Palácio João Goulart, por enquanto, ninguém está trabalhando na contratação de qualquer empresa. Os próprios servidores o confirmam, e entre eles está o principal encarregado do projeto, o secretário de Planejamento Leo Augusto Tatsch. O secretário deixa claro que atualmente está sendo realizada uma análise jurídica do caso, para futuramente tentar anular o contrato com a Corsan. Feito isso, a prefeitura terá de decidir o que será feito a partir de então. “A possibilidade de o próprio município assumir estes serviços está praticamente descartada, pela falta de recursos para investir”, garante Tatsch. Portanto, o mais provável é que seja aberta uma licitação para firmar um novo contrato de concessão. De outro lado está a Corsan, com a alegação de que vem cumprindo todas as exigências do contrato em vigor. Ao que tudo indica, a estatal vai lutar até o fim para garantir que o contrato seja mantido. De acordo com um funcionário que não quis ser identificado, no caso do contrato ser rompido, a Corsan deverá exigir uma indenização de mais de 40 milhões de reais. “Contrato é contrato e não pode ser quebrado, afinal a gente está prestando o serviço, e bem”, afirma.

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FOTO: Arquivo

O contrato firmado entre a Prefeitura de São Borja e a Corsan deve ser anulado nos próximos meses e é bem provável que uma nova empresa seja contratada para prestar os serviços de saneamento básico. Até lá, o que não vai faltar são discursos.

Weis tem se esforçado para romper com a Corsan;


cos, o deputado Luiz Carlos Heinze (PP), que era o prefeito no ano de 1995 e foi o autor do contrato prestes a ser rescindido. O advogado Gastão Ponsi é um dos principais críticos da omissão do poder público em relação aos problemas do saneamento básico. Para ele, a população está acuada, vendo diante de si uma grande interrogação: “numa ponta uma empresa pública irresponsável e na outra a possibilidade de ficar sob a batuta de uma empresa privada”. O temor do advogado com a segunda possibilidade cogitada faz sentido. Caso uma empresa privada receba a concessão, ela deverá investir 80 milhões de reais nos próximos cinco anos. As autoridades garantem o contrário, mas parte dessa conta pode sobrar para o usuário. Aí fica difícil saber o que é pior: pagar caro e receber um serviço ruim ou pagar mais ainda para ver se melhora.

FOTO: Francis Jonas Limberger

Esta é a atual situação do saneamento básico em São Borja. Por trás dela há uma empresa pública que, ao contrario das alegações apresentadas, está muito longe de cumprir o seu contrato. Para constatar isso, basta sair do centro de São Borja e constatar que a maioria da população não conta com serviço de coleta de esgoto. O prefeito, por sua vez, tem muito o interesse em retirar a concessão da Corsan. Primeiro, porque de fato o serviço prestado não é satisfatório, e isso faz da prefeitura um alvo constante de críticas, uma vez que a responsabilidade pelo saneamento básico continua sendo do município, mesmo que ela o terceirize. Segundo, porque a previsão de novos investimentos por parte da Corsan não atendem às exigências do novo Plano de Saneamento Básico, aprovado pela Câmara de Vereadores neste ano. Mas também por que esta é uma boa oportunidade para Mariovane Weis criticar um dos seus maiores adversários políti-

A questão agora é resolver o que será feito para melhorar o serviço de coleta de esgoto em São Borja.

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São Borja

UMA ESCOLA ABERTA PARA TODOS

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fotografia mostra um dos laboratórios de informática da Escola Municipal Emílio Meyer, de Porto Alegre. O registro foi feito num sábado em 2009, e as pessoas que usam os computadores não são alunos. São pessoas da comunidade, que nos finais de semana participam do projeto “Escola Aberta”. A idéia foi implantada no Rio Grande do Sul em 2003. Nos sábados e domingos as escolas participantes abrem suas portas para alunos, pais, professores, vizinhos, enfim, a comunidade escolar. Comparecendo, as pessoas podem participar de diversos tipos de atividades. Cada escola determina a sua agenda. Algumas optam por oficinas de informática, como se observa no exemplo de Porto Alegre. A principal finalidade do projeto é afastar a juventude da criminalidade, que ocorre com mais freqüência nos finais de semana, quando não há aula. Assim, os jovens não ficam tão expostos e aproveitam para praticar alguma atividade extracurricular. O mesmo vale para as demais pessoas. Como as atividades são sugeridas pela própria escola, há a garantia de que são benéficas.

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Atualmente 177 escolas gaúchas estão integradas ao projeto. E nas próximas semanas este número deve subir para 182, já que cinco escolas municipais de São Borja aderiram. São elas a EMEF Duque de Caxias, EMEF Ubaldo Sorrilha da Costa, EMEF República Argentina, EMEF Vicente Goulart e CETIM Neuza Goulart Brizola. Isso equivale a um total de 400 alunos envolvidos, além da comunidade em geral, que também está convidada. Dentre as primeiras atividades oferecidas há cursos de alfabetização, de artesanato e modalidades esportivas. Todas elas monitoradas por pessoas designadas pelas escolas. Estas são as primeiras escolas da cidade a participar. Segundo a prefeitura, a intenção é fazer experiências, e com o tempo estender o projeto para as demais escolas e ampliar as opções de atividades. “A missão do Escola Aberta é valorizar os dons das pessoas, trazer uma fonte de renda para as famílias, afastar os jovens das drogas e da criminalidade, oferecendo-lhes lazer, cultura e diversão”, afirma Tatiane Rauber Dedé, responsável pelo Programa em São Borja.

FOTO: http://websmed.portoalegre.rs.gov.br

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PORTO DO ANGICO: UM NOVO VELHO PARQUE

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FOTO: Francis Jonas Limberger

prefeitura municipal anunciou que em breve serão iniciadas as obras para a construção de um parque no local hoje conhecido como Porto do Angico. A área que fica às margens do rio Uruguai, ao lado do Cais do Porto, já vem sendo muito utilizada para o lazer, principalmente no verão, quando é muito freqüentada. O nome “Porto do Angico” originou-se no período anterior à construção da ponte internacional. Nesta época todo o transporte de passageiros e cargas entre São Borja e São Tomé era feito por barcos. Oficialmente todas as embarcações vindas da Argentina deveriam atracar no Cais do Porto, onde tudo era fiscalizado na alfândega. Aquilo que não era oficial, ou seja, o famoso contrabando, passava escondido na noite por um lugar próximo, onde havia uma grande árvore de Angico. Por isso, Porto do Angico. Mário da Silva Fagundes, 55, mora há mais de duas décadas na vila próxima ao porto. No passado, ele trabalhava como barqueiro no porto de São Borja. Ele lembra que naquela época, o porto de São Borja era muito movimentado, parecendo uma grande feira ao ar livre. “Era um ‘comércio formiga’, que juntava uma multidão de pessoas. Sempre tinha muito frete para fazer”, relembra Mário. Os principais produtos comercializados eram

a cebola, a batata, a farinha e a maçã. A movimentação de pessoas no cais do porto e também no Porto do Angico mantinha uma grande vila no local. Mário conta que a maioria das casas era movediça, também conhecidas como casas volantes. Como ficavam muito próximas ao rio, as casas precisavam ser removidas na época de cheia. Dois fatores levaram a população a sair do local, que hoje praticamente despovoado, será transformado em parque: o primeiro, a construção da ponte internacional, que acabou com o comércio formiga. O segundo foi um projeto da prefeitura, que visava diminuir os prejuízos com as enchentes, e por isso ofereceu casas em outras partes da cidade aos ribeirinhos. Mário, um dos poucos moradores que ainda residem na área, concorda com a iniciativa da construção do Parque do Porto do Angico. Mas não deixa de lamentar as mudanças que ocorreram. Para ele, aquela era uma época de prosperidade, com emprego garantia de uma renda razoável. O ex-barqueiro utiliza o exemplo dos jovens da vila: “hoje estão aí correndo rua, sem ocupação nenhum e podem ir para o mau caminho”. Na época do porto os jovens usavam pequenos carros de mão para transportar as mercadorias dos barcos até a parte alta do cais.

Mário observa o antigo Porto do Angico. O local, que já vinha sendo utilizado como parque, agora vai receber atenção das autoridades e receber algumas melhorias.

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Notas fiscais

AJUDAR NÃO CUSTA NADA

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Instituições de São Borja arrecadam valores significativos através do projeto “A nota é minha”. Se todas as pessoas colaborassem, a arrecadação poderia ser muito maior.

o finalizar uma compra é preciso exigir a nota fiscal. É a maneira de garantir a legitimidade da operação, e que aquele estabelecimento comercial cumpra suas obrigações tributárias. Depois de algum tempo o cupom fiscal, que é um documento, acaba perdendo a utilidade. Na maioria das vezes o lixo acaba sendo o destino das notas antigas. O que muitos parecem não saber é que as notas fiscais podem ser revertidas em verbas para várias instituições beneficentes da cidade. O programa A nota é minha, do governo estadual, visa auxiliar entidades vinculadas à área da saúde, educação e assistência social. Tarase de uma parceria entre o governo, que incrementa suas receitas com arrecadação, a sociedade e as entidades. A estas últimas cabe a tarefa de agrupar as notas e transferi-las para a Secretaria da Fazenda, que

retorna os recursos de acordo com a quantidade de notas recebidas. Em São Borja há dezesseis instituições vinculadas ao projeto. São elas: Asilo São Francisco de Paula, Apae, Centro de Formação Tereza Verseri, Fundação Ivan Goulart, Liga Feminina de Combate ao Câncer e as onze escolas e colégios estaduais do município. Para colaborar, basta juntar as notas em casa e contatar uma das entidades participantes. Uma pessoa vai até a casa dos colaboradores e recolhe as doações. Ainda é possível colaborar depositando as notas diretamente nas urnas localizadas nos mercados. O mecanismo do programa funciona a partir de uma pontuação, que soma o número de notas coletadas e o valor que consta em cada uma delas. Cada nota recolhida equivale a um ponto. Além disso, há uma pontuação adicional para cada R$ 50,00 da nota (restritos ao limite

O programa A NOTA É MINHA já beneficiou as entidades de São Borja com mais de R$ 487.000,00. R$ 267.529,66 para a área da assistência social; R$ 171.178,31 para a área da educação; R$ 48.777,52 para a área da saúde;

O “cheque” da ultima verba recebida pelo Asilo São Vicente de Paula está fixado no mural de entrada da entidade.

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Somente em 2010 já foram distribuídos mais de R$ 62.000,00.


nais (APAE) de São Borja, Eulina Nolibus, comenta que muitas pessoas colaboram doando suas notas. No entanto, alerta que o volume de doação certamente poderia ser muito maior, dada a quantidade de cupons que é vista nas latas de lixo dos mercados. Eulina faz um apelo: “convidamos aqueles que ainda não doam suas notas, que colaborem com estas causas tão nobres”. Desde o início do programa, em 2004, as entidades de São Borja já foram contempladas com R$ 487.485,50. Enquanto isso, só em 2009 o município gerou uma arrecadação de ICMS no valor de R$ 21.220.000,00. Esta comparação ajuda a compreender que ajuda financeira recebida pelas instituições, embora pareça alta, poderia ser muito maior.

FOTO: Francis Jonas Limberger

máximo de R$ 1.500,00, ou seja, 30 pontos). No dia 30 de setembro foi feita a entrega das verbas referentes ao terceiro trimestre de 2010. A Apae recebeu R$ 889,41. Com esse recurso foi possível comprar mais materiais pedagógicos, um aparelho de som e um forno elétrico. Já o Asilo São Vicente de Paula, que recebeu R$ 9099,00 (foto pág. 24) pôde realizar um grande investimento na manutenção da infra-estrutura. A Fundação Ivan Goulart, vinculada ao Hospital Infantil de mesmo nome, usou os R$ 12609,87 para reformar o setor de hotelaria. Estes são apenas alguns exemplos da importância deste programa para as entidades. A diretora da Associação de Pais e Amigos dos Excepcio-

Moreira é um dos voluntários do Asilo. Ele ajuda a contabilizar as notas que chegam. Outros voluntários percorrem a cidade para recolher as doações.

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Imagens comentadas 2

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Tarso Genro (1), governador eleito do estado, e Israel Lucero (2), vencedor do programa Ídolos, entraram para a galeria dos são-borjenses ilustres. Como se sabe, são muitas as pessoas famosas que nasceram na cidade, e isso é motivo de muito orgulho para os seus moradores. E por falar em ilustre, Édson Arantes do Nascimento (3), o rei Pelé, completou 70 anos no dia 23 de outubro. A data foi lembrada em diversos eventos no Brasil e no exterior. Merecido. O resgate dos mineiros no Chile (4) fez as pessoas refletirem como reagiriam se estivesse na mesma situação. A principio, os 33 mineiros tiveram uma boa reação, mas e se fosse você? Já na Indonésia (5), os habitantes locais passaram por momentos difíceis nos dias 25 e 26. Primeiro foi um terremoto, seguido de um tsunami. Logo depois o vulcão do Monte Merapi entrou em erupção As catástrofes deixaram mais de 1000 mortos. Já está em funcionamento o parque temático da Ferrari (6). Construído em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, é o maior parque coberto já construído, com mais de 200 mil metros quadrados. Entre as atrações, a montanha russa mais rápida do mundo, que atinge até 240 km/h e um simulador de carro de Formula 1. CRÉEDITOS DAS IMAGENS: 1) Divulgação; 2) Flash SB; 3) Lemyr Martins / Placar; 4) Blog 8600lagos; 5) Andry Prsetyo / Reuters / Folha de SP; 6) AP / Folha de SP;

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Opções comparadas

NA RUA OU NA ESTEIRA? Parece ser uma regra de comportamento: nos meses que antecedem o verão as pessoas querem melhorar a forma física. A caminhada (ou corrida) está entre os exercícios preferidos, e pode ser realizada na esteira ou na rua. Mas como escolher entre as duas opções? as ruas estão disponíveis a qualquer hora. A primeira diferença está nos custos. Quem escolhe a rua não precisa pagar por isso. Já a esteira exige investimentos: na aquisição do aparelho ou com taxa de freqüência em uma academia. No que se refere às condições climáticas, ponto para a esteira. A chuva, por exemplo, pode impedir uma caminhada na rua.

Para se decidir entre o exercício na rua ou na esteira, é preciso conhecer os dois métodos e observar qual deles se adapta melhor. Em relação ao gasto calórico, há pouca diferença entre os dois tipos de exercício. O que determina a queima de calorias é a regularidade e a intensidade da prática. Neste quesito, portanto, há uma semelhança. Também em ambos os casos não há grandes restrições quanto aos horários. É comum encontrar academias que funcionem em horários flexíveis. Já

Os riscos para a saúde geralmente são menores na esteira, principalmente para quem corre. Como as ruas e calçadas costumam estar em condições precárias, facilita quedas e lesões. Quando o exercício é feito em uma academia, há a presença de um instrutor. As suas instruções reduzem os riscos. Para quem realiza a atividade com o objetivo de eliminar o estresse, o mais indicado é usar as ruas. Assim é possível variar os percursos e interagir com a natureza. Veja o resumo:

FOTOS: Francis Jonas Limberger

Exercitar o corpo não ajuda apenas a manter a aparência. Faz bem para a saúde, prevenindo várias doenças. O primeiro passo para quem decide iniciar uma rotina de caminhadas ou corridas é procurar um médico, para que ele examine as condições físicas do futuro atleta e dê orientações importantes sobre a prática.

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Opinião

A EDUCAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE MUDANÇAS A LONGO PRAZO

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Cárlida Emerim*

odo empreendimento que se inicia sofre com as expectativas, não de sua própria execução, mas de todos que depositam nele suas esperanças, desejos e sonhos. A educação é, no Brasil, bandeira mais antiga que a própria bandeira nacional e serve, desde então, seguida pela saúde, como tema de campanhas eleitorais e instrumento eficaz na sedução pelo voto das classes menos favorecidas. A Universidade Federal do Pampa surgiu num período eleitoral, cercada de funções políticas que se perdiam nos discursos do desenvolvimento econômico e social da região mais pobre do pujante Estado do Rio Grande do Sul. Foi saudada como a grande solução para os problemas da metade sul e considerada, por muitos políticos, como resultado de suas lutas individuais. Assim, a cada aniversário de fundação aparecem seus inúmeros pais, em todas estas regiões, lembrando o nascimento de seu filho mais ilustre. Contra esta perspectiva eleitoreira e propagandista governamental organizaram-se os primeiros professores, alunos e técnicos administrativos da Unipampa buscando o que realmente era importante e função da universidade: estruturar o ensino, a extensão e a pesquisa com vistas a oferecer uma educação de qualidade. O primeiro desafio, conseguir implantar os cursos escolhidos para cada cidade, pois estes não tinham critérios claros de seleção e as comunidades, em sua maioria, reclamavam pelos cursos mais populares: direito e qualquer um da área de saúde. Os pioneiros, além de driblar a rejeição dos cursos em suas comunidades também tiveram que lutar, e muito, para que a Unipampa não se transformasse em plataforma política do governo vigente nem tampouco de curral eleitoral dos partidos do governo nas cidades sede. Luta difícil, inglória e desleal. Mas, talvez, a mais difícil das lutas ainda esteja ocorrendo e passa despercebida, pois, não pode ser mensurada ou quantificada para servir de estatísticas de crescimento das metas do governo federal: é a mu-

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dança de paradigma, a construção de uma nova perspectiva de matriz social e cultural. Por engano, muitos acreditam que as mudanças econômicas são as principais na reestruturação das condições sócio-econômicas do meio. Mas, se a cultura e a educação não lhes derem suporte, a economia se esvazia, e o poder aquisitivo serve apenas para ajudar a movimentar o dinheiro, que resulta em aumento do poder de compra e, conseqüentemente aumento de inflação ativando o efeito devastador de economias emergentes que não tem suporte para segurar este tipo de contexto. A formação educacional e cultural de uma comunidade é o que a estrutura frente às mudanças do mundo, que a prepara para enfrentar as dificuldades e vencer, empregando estratégias que podem fazer “a roda girar e permanecer girando”, num fluxo que permite o crescimento coletivo, contínuo e permanente. A Unipampa tem esta função, a função de educar e promover uma mudança, a longo prazo, que só poderá ser percebida quando uma comunidade compreender que a universidade é um espaço de interlocução entre os pensadores da antiguidade e dos contemporâneos que servem de apoio para qualquer cidadão discutir sua própria condição enquanto ser social e instrumentalizar-se para buscar as mudanças que serão necessárias para uma vida em movimento. E esta busca não é pelas mãos de padrinhos políticos ou de partidos, é algo muito maior, que vai além deste jogo de favores e ganhos eleitorais. É pelos caminhos oferecidos pela educação de qualidade e de pensamento livre, que já está na hora da Unipampa aprender a fazer.

*A Dr. Cárlida Emerin é Jornalista, Professora da Unipampa e foi a primeira diretora do Campus de São Borja.


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Perfil

SÉRGIO BASTOS SEITENFUSS Autor do livro “Deus, o Gene e a Consciência”, o advogado diz que a inteligência humana é o que há de mais importante no Universo. No seu cotidiano, procura valer-se desse dom para a sua própria evolução pessoal.

FOTO: Arquivo Pessoal

O homem chegou até a consciência de ser, a inteligência, devido à sua capacidade de adaptação. Foi isso que o diferenciou das demais espécies. Quando o jovem Sérgio decidiu seguir a profissão do pai, o sistema jurídico era diferente do atual. Hoje o advogado experiente, casado e pai de família, lamenta tais transformações, que considera negativas. Apesar de acompanhar as mudanças e procurar se adaptar a elas, ele acredita que sempre manteve a conduta que considera ser a correta. Segundo afirma, isso faz parte da sua filosofia pessoal, onde cada momento da vida deve servir para uma evolução pessoal. No ano passado S. B. Seitenfuss (como assinou) lançou sua obra pessoal, onde apresenta uma série de reflexões e algumas teses sobre a origem e exis-tência do homem. Seus textos descrevem o tudo, o nada, Deus, as teorias sobre a origem do universo e a forma como o homem compreende este processo. Sua opinião é de que um dia o homem chegará ao conhecimento de suas origens, mas que isso não tem tanto valor quanto aquilo que o homem fez a partir dela. A existência ou não de Deus é uma questão

que fica em aberto, lembrando que não existem provas que comprovem um ou outro. Ressalta que, de qualquer forma, o que precisa ser exaltado é a condição humana, que, sob todos os percalços, sobrevive, luta, evolui, progride, se emociona... “Um Deus que criou certamente aceitaria esse valor de suas criaturas”, escreveu. Esta máxima elimina a religião como intermediária do indivíduo com Deus e até mesmo desmente a tese de que a entidade não existe para os ateus. Entretanto, acredita que a igreja e a ciência podem conviver perfeitamente nos tempos atuais, já que uma se vale de valores espirituais e a outra de evidências. Membro da Maçonaria, Sérgio acredita em uma sociedade melhor, mais justa, com um individuo que consiga se aperfeiçoar. Uma das críticas que faz – não no livro – é dirigida ao atual sistema político, que seria a fonte de todas as mazelas. “O poder corrompe – uma verdade que já foi dita e repetida. Não é o dinheiro que corrompe, mas a importância que damos a ele e, ao que nos fazem parecer, a maneira mais fácil de ganhar dinheiro é a política”, conclui.

temos algo a dizer que pode “ Todos interessar a outros. A comunicação

das idéias de cada indivíduo é a forma do progresso da humanidade, pois elas se somam, ampliando o conhecimento. Penso que todos devemos contribuir.

Sérgio Bastos Seitenfuss Fato, outubro de 2010

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Literatura & Cinema

A CATEDRAL DO MAR (2003)

SPARTACUS (1960)

ucesso absoluto de vendas, o primeiro livro escrito pelo advogado espanhol Ildefonso Falcones narra a história de Arnau Estanyol, um catalão medieval que ascende da condição de servo à barão. Como plano de fundo, a cidade de Barcelona do século XIV e a construção da Igreja de Santa Maria do Mar, um templo construído pelo povo e para o povo. Uma contradição para a época, quando o poder e o dinheiro determinavam absolutamente tudo. O romance histórico tem início com a fuga de Bernat Enstanyol e seu recém nascido filho Arnau. Eles deixam as terras do seu senhor feudal para procurar a liberdade na cidade de Barcelona. Depois de chegar à grande cidade, na época com a extraordinária população de 35 mil habitantes, eles passam a ter uma vida sofrida, com o pai sempre lutando para que o filho nunca precise se submeter a um senhor. Uma bem aprofundada pesquisa permitiu ao autor narrar a época com grande riqueza de detalhes. A terrível submissão dos servos da terra aos seus senhores, que proibiam, por exemplo, que os camponeses construíssem fornos para assar o seu pão. Deviam fazê-lo nas fornalhas do castelo e deixar um terço do pão como forma de pagamento. A igreja católica cometia todo tipo de desmandos, e agia unicamente em benefício dos seus cofres. Até o pecado era permitido, desde que o pecador pagasse uma taxa, antecipando assim o seu perdão. Com o passar dos anos Arnau vivencia guerras, pestes, crises de alimentos, a perseguição implacável dos católicos aos judeus, os luxos da realeza, o absurdos cometidos pela inquisição e principalmente a construção da Catedral de Santa Maria do Mar, esta construida pelas mãos do povo e para servir a ele. Ao longo dos 64 anos narrados, o personagem passa da condição de filho de um servo fugitivo e atinge a nobreza. Mesmo rico, ele nunca deixa de acompanhar as obras da igreja que adotou como sua. Ao longo da vida o protagonista vive vários percalços, mas nunca é derrotado. Esta é, acima de tudo, uma história que mostra um grande homem, apesar de acontecer numa época tão conturbada.

o gênero épico nenhum filme se compara a Spartacus. Produzido em 1960, ainda hoje é é considerado um grande clássico do cinema. “Pela primeira vez, o público não sabia o que aconteceria a seguir”, afirmou o próprio diretor Stanley Kubrick, reassaltando que procurou fazer algo diferente dos demais épicos. Não há personagens adorando aos deuses romanos e até mesmo o desfecho da trama não é o convencional, onde há a superação do herói. De fato, Kubrick conseguiu inovar, e agradou à crítica, que o premiou com quatro estatuetas do Oscar. Recentemente a Universal Filmes realizou um trabalho primoroso de restauração da película. E este é o primeiro ponto que chama a atenção: é fácil perceber que os planos de imagem, a estética e os cenários pertencem a uma outra época do cinema. Por outro lado, os aspectos técnicos como a resolução e a pigmentação (resultados da restauração) fazem pensar que tudo foi gravado recentemente. Spartacus (Kirk Douglas) é um escravo da Trácia que acaba de ser adquirido por uma mercador romano. Este treina seus escravos para que se tornem gladiadores, que mais tarde vão para as arenas romanas para lutar entre si até a morte, divertindo os nobres espectadores. Em meio aos treinamentos Spartacus inicia uma rebelião. Durante a fuga liberta milhares de outros escravos, reunindo uma magnífico exército, cujo único ideal é lutar pela liberdade. A revolta dos escravos logo chega ao conhecimentos das autoridades de Roma. Em um primeiro momento o inimigo é subestimado, mas logo depois percebem a gravidade da situação, que poderia arruinar o maior império do mundo na época. A maneira como a crise foi conduzida pelos senadores chama a atenção para o fundo político da história. Roma era uma república. Crassus (Laurence Olivier) está disposto a dar um golpe e iniciar uma ditadura. “Política é uma profissão prática. Se o criminoso tem o que você quer, negocie com ele”, afirma o personagem em determinado momento.

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Agenda

AGENDA Dia Nacional da Cultura: No dia 05 de novembro a SMEC promove evento na Praça da Lagoa. Na programação apresentação de danças, teatro, coral, capoeira, shows musicais, oficina de pintura, hora do conto e o projeto “Cinema vai ao povo”. Início às 9 horas. Durante o dia 19 de novembro a Câmara de Vereadores realiza programação especial sobre o Dia Nacional e Municipal da Consciência Negra. Local, plenário da Câmara. Exposições: A exposição fotográfica ‘Ponte da Integração: unindo países em uma só nação’, mostra a história da ponte internacional, dos primeiros movimentos em prol da sua construção até o dia da inauguração. De terça-feira à sábado, das 9h às 12h e das 14h às 17h, no o Museu Municipal Apparício Silva Rillo. Exposição de quadros fotográficos, sobre a história política de Getúlio Vargas. Dias 17 e 18 novembro, das 9h às 12h e das 14h às 17h no saguão da Prefeitura de São Borja.

DESTAQUE DA AGENDA As fotografias da exposição “Ponte da Integração: unindo países em uma só nação”, pertencem a Paulo Maurer, prefeito de São Borja em 1997, quando a ponte foi inaugurada. Antes disso, Maurer participou das diversas tentativas feitas para viabilizar a obra. A Revista Fato conversou com ele sobre o assunto:

de São Borja e de São Tomé. Aí começamos a trabalhar. Primeiro falávamos em ligar as duas cidades, mas depois vimos que estaríamos ligando dois oceanos, um continente inteiro. Quando foi decidido oficialmente que a ponte seria construída? Ela foi inaugurada em 1997. Foi decidido mais ou menos uns 5 anos antes. Nós tivemos uma felicidade muito grande, porque o governador de Corrientes, o Leconte, era muito amigo do nosso governador Pedro Simon. Eles assumiram e ai o projeto pegou rumo.

Como foi este trabalho?

Como foi a reação das pessoas em 1997, na inauguração?

Começamos em 1972, quando houve um movimento. Recebemos muitas promessas, mas passaram 10 anos e nada foi feita. Aí criamos uma comissão para a ponte, contando com gente

Foi fantástico. Vieram os dois presidentes (FHC e Menen), os governadores e mais 311 prefeitos dos dois países.

Exposição de jóias do designer são-borjense Celso Dornelles. Dias 26 a 28 de novembro no Memorial João Goulart. Horário: 9h às 12h e das 14h às 17h.

Festivais de Rock Rock Grande do Sul- 14ª edição, dia 14 de novembro, das 18h às 23h no Cais do Porto. Pampa Stock, dias 18 e 19 de novembro no Clube Recreativo. A promoção é dos alunos da Unipampa.

Uma das fotos em exposição: encontro pró-ponte em 1988, entre os governadores Ricardo Leconte (c), da província de Corrientes e Pedro Simon (e), do Rio Grande do Sul.

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Crônicas

UM TEXTO SOBRE O NADA

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Dhouglas Castro*

s pessoas adoram falar sobre o que acontece. Mas esquecem de falar sobre o que não acontece. E, numa cidade como esta, onde o que mais acontece é o que não acontece, é pertinente dedicar um tempo pra falar sobre nada. Pesquisas recentes apontam São Borja como uma das principais na lista de cidades onde nada é o que mais acontece. Para descontentamento da população, autoridades e especialistas em nada da região confirmaram recentemente que nada pode acontecer pelos próximos meses. A crítica, ainda mais especulativa em cidades do interior, já se posiciona pra falar sobre o assunto. Os mais otimistas acham que o nada é bom porque, se nada acontece, é porque coisas ruins poderiam estar acontecendo e não estão. Já os pessimistas acreditam que o nada não é bom, porque coisas boas poderiam estar acontecendo ao invés de nada. E então? Será o nada um problema à população? Você pode pensar que não é nada, mas muito pelo contrário: é nada. Com as eleições, muitos especulam sobre possíveis mudanças que podem acontecer no país, e qual serão seus reflexos em São Borja. As autoridades e especialistas em nada já estão prevendo porém que, mesmo com as eleições, o mais provável é que, por aqui, nada continue acontecendo. A Câmara de Vereadores e a Prefeitura já foram informadas sobre o assunto e estão a par da situação. Mas, sabe como é política. Mesmo que algo não seja um problema, eles transformam num problema pra depois dizer que encontraram uma solução. E isso acontece principalmente com o nada. Por isso, os parlamentares alegaram que o nada deve ser considerado um problema e que já estão trabalhando para resolvê-lo. Só que, até agora, nada foi feito. *Acadêmico de Jornalismo da Unipampa. 34

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SENTIR E SOBREVIVER

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Francis Jonas Limberger

esponda rápido, qual dos cinco sentidos do seu corpo você acha mais interessante para a sua vida? Ou melhor, qual dos seus cinco sentidos você prefere? É provável que as respostas variem, e que todos eles estejam na preferência de alguns, afinal não existe o sentido preferido. Isso conscientemente, por que no inconsciente há uma única preferência: o paladar. O nosso comportamento em determinadas ocasiões nos inclui em uma “sociedade oral”. E isso não tem relação nenhuma com o habito de falar. Acontece que sempre preferimos satisfazer nosso paladar. Se não acredita, posso provar. Quando recebemos alguma visita que nos agrada, que atitude costumamos ter? Oferecemos, como forma de confraternização, uma bebida ou algo para comer. Às visitas mais importantes servimos um almoço, um jantar ou varias rodadas de bebidas. Dificilmente tentamos agradar ao visitante convidando-o para a uma bela imagem ou ouvir uma boa música. Quando fizemos, é antes ou depois da refeição. Por que fazemos isso? Provavelmente é porque algum alimento ou bebida à visita, o anfitrião está tentando demonstrar a importância que esta pessoa tem junto ao dono da casa. Faz isso para agradar. Por que comer e beber agrada? Porque a fome e a sede perturbam. Uma visita inocente pode, na verdade, ser um ato de busca por alimentos. Uma luta pela sobrevivência. Um instinto tão antigo quanto a humanidade. Mais uma vez nós, os gaúchos, inovamos. Criamos, há muito tempo, um método que engana as necessidades alimentares das visitas. É o tradicional chimarrão. Quem recebe uma visita e não está muito disposto a gastar seu estoque de alimentos, oferece um “verdinho”. Fazendo isso durante um bom tempo, de repente ouve-se a rendição: “Bom, acho que já vamos indo. Já está quase na hora do almoço e ainda estamos aqui.”



Revista Fato