Letras da Ilha

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Letras da Ilha - A arte vernacular nas embarcações da Ilha de Itamaracá. © 2021 Liliane Nascimento Este projeto foi fomentado com recursos da Lei 14.017/2020 - ALDIR BLANC, por meio da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de Pernambuco. É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios, sem autorização prévia da autora.

Pesquisa Lili Nascimento

Revisão Lili Nascimento e Ytallo Barreto

Texto Lili Nascimento

Tratamento de imagens Ytallo Barreto

Projeto gráfico Lili Nascimento

Fotografias Ytallo Barreto e Lili Nascimento


letras da ilha a arte vernacular nas embarcações da ilha de itamaracá

L ili Nascimento



Agradecimentos especiais ao CCEL - Centro Cultural Estrela de Lia, a Colônia de Pescadores - CZ11, Tuca Pintor, Jarbas, Beto Hees, Mauro Lira, Dorinha, Ytallo Barreto e a todos os pescadores e amigos que contribuiram direta ou indiretamente para a realização desse projeto.





Letras da Ilha é um projeto de pesquisa sobre tipografia vernacular, que tem como foco os letreiros presentes nas embarcações tradicionais da Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. O projeto nasce a partir da necessidade de registrar, valorizar e voltar o olhar para a produção gráfica popular e suas tradições, que em diversos lugares como na Ilha de Itamaracá, resistem em meio a um cenário cada vez mais digitalmente padronizado.

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Localizada no litoral norte de Pernambuco, a Ilha de Itamaracá fica a 48km da capital pernambucana e é um dos municípios que fazem parte da Região Metropolitana do Recife. Famosa por suas praias, sua história e seus fortes aspectos culturais, a ilha recebe um grande número de veranistas e turistas durante a alta temporada de verão, o que movimenta a economia da cidade, que tem a pesca artesanal e o turismo como principais atividades econômicas.

Na Ilha, a pesca artesanal e suas tradições perpassam as gerações de diversas famílias e após o fim do verão com a queda no número de turistas, a atividade de pesca se torna um dos principais meios de sustento para boa parte da população. Rica em belezas naturais, como suas praias de águas calmas, extensas faixas de areia, áreas de manguezais, reservas naturais de mata atlântica e seus pontos históricos, como o Forte Orange e a Vila Velha, uma das vilas mais antigas do Nordeste com mais

de 480 anos de história e onde se localiza a Igreja dedicada a Nossa

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Senhora da Conceição, considerada uma das igrejas mais antigas do Brasil, a Ilha de Itamaracá também se consolidou como a terra da ciranda, transformando-se em um forte ponto de cultura no estado. Lar da grande cirandeira Lia de Itamaracá, a Ilha já serviu de cenário e inspiração para diversas canções e é um importante lugar na memória popular de Pernambuco.

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Nas praias é notável a presença de embarcações de diversas cores, tamanhos e formas, dentro ou fora da água, as embarcações já fazem parte da identidade da Ilha e colorem o cenário tropical. Também é comum encontrar em alguns pontos da praia as tradicionais caiçaras, que são pequenas casas geralmente construídas com madeira, por vezes pintadas em cores vivas, utilizadas por pescadores para guardar materiais de pesca e para moradia.




Além do verão que movimenta a Ilha todos os anos, em Itamaracá o mês de Janeiro é marcado pelo fervor da tradicional festa da Buscada. Geralmente no fim de Janeiro, a festa acontece em comemoração ao dia de Nossa Senhora do Pilar, a tradição centenária se estende por mais de 230 anos, reunindo a população, pescadores e turistas em uma festa que se inicia no mar e toma as ruas da Ilha. O mês de Janeiro se torna o período de preparação para essa grande festa. Para os pescadores, é o momento em que as embarcações são retiradas da água para serem pintadas, ornamentadas e terem o letreiro renovado.

A festa da buscada reúne inúmeras embarcações em diferentes pontos da praia, parte delas segue a tradição de dar a volta na Ilha até chegar ao ponto de encontro onde a estátua de Nossa Senhora do Pilar, que é transportada por água saindo da Capela de São Paulo no Forte Orange, chega ao seu destino na praia do Pilar, onde é levada em cortejo até a Igreja de Nossa Senhora do Pilar. Devido à pandemia do Covid-19, em 2021 não houve a tradicional festa e, como efeito disso, durante o período de pesquisa foi notada a ausência de embarcações recém pintadas e a presença de alguns barcos ainda sem o letreiro.

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CZ11 é o código da colônia de pescadores da Ilha de Itamaracá, um dos principais pontos de encontro entre os pescadores da região e de venda de peixe. Localizada no bairro do Pilar, próximo à praça principal, na rua da colônia se encontram pescadores, vendedores, turistas e ilhéus que se misturam em meio às diversas placas informativas e aos pescados do dia. A colônia funciona durante todo o ano, mas é nos meses de alta temporada que o movimento de venda é intensificado. É comum observar diariamente a chegada de barcos carregados de peixes, o que possibilita a compra de pescados frescos a preços populares.

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A pesquisa aconteceu durante os meses de Janeiro, Fevereiro e Março de 2021, tendo como cenário a colônia de pescadores CZ11 e as praias da Vila Eldourado, Baixa Verde, Pilar, Quatro Cantos e Jaguaribe. Nas embarcações letras e texturas se misturam com a paisagem ao redor. Basta uma caminhada pela praia e logo se avistam pequenos portos, geralmente divididos por bairros, nesses portos é possível encontrar embarcações dentro e fora da água. Vinculadas à Colônia Z11, as embarcações são usadas tanto para a atividade de pesca quanto para passeios e se dividem em 4 tipos:

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com formas levemente curvas, seu uso era, até pouco tempo atrás, direcionado para a pesca dentro dos currais, o que vem mudando nos últimos tempos com o surgimento de embarcações mais curvas, capazes de chegar até o alto mar.

similar ao formato de uma canoa, a baiteira é geralmente usada para a pesca nos currais.

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embarcação maior destinada à pesca em grandes quantidades, parte de sua estrutura é destinada ao armazenamento de peixes, podendo ficar em alto mar por mais tempo.

com formas retas, geralmente é utilizada para chegar ao barco maior e transportar o material necessário para os dias de pesca.




A jangada é a embarcação mais popular da Ilha, nas praias é comum encontra-las fora da água, o que possibilita ver de perto os nomes que carregam. Já na água, barcos e baiteiras pairam sobre o balançar das ondas, tornando a aproximação possível apenas em horários de maré baixa. O estilo do letreiramento varia de porto para porto, mas não sofre grandes mudanças. Nas embarcações maiores, em sua maioria, os letreiros são feitos por pintores profissionais, mas também se encontram letreiros feitos por pintores amadores ou pelos próprios pescadores. Os barcos maiores possuem letreiros em caracteres grandes e pesados, geralmente na cor preta e para garantir legibilidade e visibilidade as letras devem possuir altura mínima de 10cm. Nas jangadas e baiteiras, o estilo de letreiramento possui mais variações, se encontram letras de forma, grotescas, condensadas, balanceadas, com serifa, decoradas, manuscritas. Em preto, vermelho, azul, verde.

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Acompanhado do nome, a sigla da colônia, CZ11, está presente em todas as embarcações e funciona como um código para definir sua zona de origem. Algumas embarcações também possuem um tipo de dingbat ao lado dos nomes. No caso dos barcos, o ornamento é aplicado em sua ponta, já nas jangadas é posto em suas quatro quinas. Um desenho às vezes com formas curvas, às vezes com formas retas, mas quase sempre com um círculo vazado. Não existe um padrão para esses ornamentos, sua função é estética, são usados para não deixar a ponta da embarcação com uma aparência seca.

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Já as catraias/burrinhas, carregam letreiros feitos sem tanta técnica, geralmente em caixa alta, ou misturando maiúsculas e minúsculas. As embarcações maiores frequentemente levam nomes de familiares, figuras religiosas, aves e peixes. Enquanto nas pequenas catraias, o humor tende a fazer parte dos nomes escolhidos.



Em sua maioria, as embarcações possuem a localização, Ilha de Itamaracá - Pernambuco, na parte de trás. Esses letreiros de localização geralmente são feitos com letras balanceadas. Frases religiosas também estão presentes em algumas embarcações, essas, assim como a localização, são quase sempre feitas com letras balanceadas.

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letras de forma arredondadas letras 3D

letras balanceadas

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Durante a análise do material registrado, foi possível identificar 4 principais padrões de letras.

Letras com serifa foram encontradas em menor quantidade. Letras minúsculas são incomuns nas embarcações, durante a pesquisa foram vistas apenas em algumas poucas catraias. a pesquisa

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Natanael Pires, conhecido como Tuca Pintor, é pintor e o abridor de letreiro mais popular da Ilha de Itamaracá. Ao começar a perguntar quem pintava barcos na ilha, o nome de Tuca logo surgiu, seguido da afirmação “Ele pinta até de cabeça para baixo!”. Pintor há mais de 40 anos, Tuca é uma referência como abridor de letras na região. Suas letras podem ser vistas em placas, fachadas, estabelecimentos, nos famosos bandeirões da buscada, em velas, jangadas, baiteiras e barcos por toda a praia.

Em nosso primeiro contato, Tuca estava pintando a igreja matriz da ilha, na praça do Pilar, e quando falamos de sua fama de pintar até de cabeça para baixo, Tuca logo riu. Sempre sorridente e simpático, logo combinamos para acompanha-lo em um dia de trabalho, para assim podermos ver de perto como se dá o processo de abrir letreiro em um barco dentro d’água, habilidade que o tornou conhecido na Ilha.

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Nos encontramos ainda pela manhã na colônia CZ11, carregando suas tintas e pincéis numa pequena bolsa, ele nos apontou de longe o barco que seria pintado. Para chegar até a embarcação utilizamos uma catraia, já Tuca, nos entregou a bolsa com seus materiais e se lançou ao mar, nadando até o barco ancorado.

Tuca nos diz que foi com 17 anos que ele iniciou de fato na pintura e que a facilidade para as artes vem da época de escola. Além de suas famosas letras, Tuca conta que também já pintou alguns quadros, em sua maioria paisagens da Ilha, mas os mesmo se perderam com o tempo.

Enquanto se debruçava sobre a ponta do barco para fazer as marcações, Tuca diz que com o tempo ele aprendeu a dançar com o barco em sintonia com o balanço do mar. Seus traços são precisos e enquanto risca a madeira de forma tranquila, ele nos conta um pouco mais sobre sua história com a pintura.

De acordo com Tuca, é na festa da buscada que a pintura de barcos é mais frequente, época em que ele chegava a pintar até 6 barcos por dia. Como esse ano não houve a buscada, devido a pandemia global de Covid-19, a demanda de barcos tem sido bem menor.

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O barco que está sendo pintado se chama Mateus e seu letreiro é feito em grandes e pesadas letras de forma na cor preta. Tuca nos diz que o nome do barco precisa ser visível e legível. É importante que todas as informações possam ser vistas à distância. Segundo Tuca, os tipos de letras mais pedidos pelos donos dos barcos são as letras de imprenssa, letras de forma, letras manuais e as letras balancedas, que possuem leves curvas em suas hastes. As cores utilizadas geralmente são escuras, como preto, azul e vermelho, visando sempre proporcionar um melhor contraste com o fundo da embarcação.

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É impossível caminhar pela praia e não perder o olhar nos diversos nomes que as embarcações carregam. As letras de Tuca e de outros pintores estão presentes por toda a ilha e são um ponto importante da resistência da cultura e tradição vernacular da Ilha de Itamaracá.

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