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Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011 Preço: 1 euro web: www.thesatelite.weebly.com

Cuidados Paliativos

“Não tratamos a morte, mas a vida que os doentes ainda têm” País

Págs. 3 a 5

Uma contestação onde todos se uniram num dia histórico A greve que parou o país a 24 de Novembro

págs. 6 e 7

Cultura

Das tribos alternativas aos estilos massificados Das mais tradicionais às mais recentes. pág. 25 e 26 Economia

Carlos Sá

“Ando em busca dos meus limites. Felizmente ainda não os encontrei.” Local Porto

Desporto

“O Porto é um exemplo onde Goalball: Quando sentir vale as coisas funcionam bem” mais do que ver págs. 17 e 18

pág. 24

A morte anunciada da moeda única

Especialistas anunciam a queda do Euro. pág. 15 País

Portugal em números Uma evolução social e económica do país. pág. 8 Internacional

Líbia: Retrato de um país em guerra

págs. 10 e 11


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DESTAQUE

“Não tratamos a morte, tratamos a vida que o doente ainda tem” No Hospital de São João, a unidade de cuidados paliativos recebe e trata pacientes com diversas patologias. Este tipo de acção médica exige ciência e humanismo, assim como um maior reconhecimento por parte da sociedade. O SATÉLITE visitou esta unidade e conversou com Edna Gonçalves, a médica responsável.

Humanismo, o mais importante nos cuidados paliativos - foto: DR O maior hospital do norte do país recebe milhares de pessoas todos os dias. A unidade de cuidados paliativos deve ser aquela que inspira mais atenção, e a que é a mais silenciosa do hospital. A equipa de cuidados paliativos é composta por 3 médicos, 4 enfermeiras e 1 psicólogo. Os cuidados paliativos são uma resposta organizada do Serviço Nacional de Saúde às necessidades de tratar, apoiar e acompanhar doentes em fase final de vida. Apesar dos progressos da medicina, as doenças crónicas, incuráveis e a longevidade crescente do ser humano levaram à necessidade de um acompanhamento permanente dos afectados.

“contribuem para a humanização do S. João”, ainda que não estejam “directamente ligados ao serviço de humanização do hospital”

social e emocional”. Depois dos tratamentos, há doenças cujos sintomas se encontram estabilizados ou até doenças que desaparecem, o que, de acordo com Edna Gonçalves, acontece algumas vezes, nesses casos os doentes podem ter alta dos cuidados paliativos. Assim, a enfermeira Cátia Ferreira diz mesmo que “a nossa intervenção não altera o prognóstico, o curso da doença é o curso da doença.”

A Dra. Edna Gonçalves lidera esta unidade que tenta confortar aqueles que se encontram com dores e que, muitas das vezes, estão nos seus últimos dias de vida. Momentos delicados que estes profissionais enfrentam todos os dias. No entanto, os cuidados paliativos não são só para as pessoas que estão a viver os seus últimos momentos. Nos cuidados paliativos tratam-se pacientes com “doenças Cuidados Paliativos têm muito de incuráveis, avançadas e progressivas”, mas que não medicina, e ainda mais de humano têm, necessariamente, de estar nos seus últimos dias Estes cuidados, que são bastante específicos, são de vida, como explica Edna Gonçalves. Mas nos cuidados paliativos não se pode saber só prestados a doentes em situação de grande sofrimento de medicina. Segundo Edna Gonçalves, “no mínimo e com doenças incuráveis, mas que podem ter outro Se assim fosse, Edna acredita que a unidade não um terço do nosso trabalho tem que ver com desfecho que não a morte. Combinam ciência e faria sentido e não teria utilidade considerável. Os comunicação” e isso começa a ser posto em prática humanismo. Contudo, o Serviço Nacional de Saúde tratamentos seriam muito curtos e não surtiriam desde a primeira consulta dos pacientes, uma vez distingue cuidados de acção paliativa. A acção sequer melhorias nos doentes. que “o plano para o tratamento do doente é feito paliativa são as medidas terapêuticas tomadas, que pelo médico e pelo próprio doente, sem isto não há apesar de não terem O principal objectivo cuidados paliativos”. Note-se, assim, a importância intenções curativas, dos cuidados paliativos que a opinião do doente tem para o tratamento da p r e t e n d e m e de todos os médicos doença e a “cumplicidade” que deve existir para que minorar o impacto e enfermeiros é não só os procedimentos dêem resultado. Esta é outras das negativo da doença acompanhar os pacientes diferenças entre o modo de trabalho dos profissionais e aumentar o neste tipo de processo (a dos cuidados paliativos e dos profissionais de outras conforto do doente. maior parte das vezes, unidades. Praticam-se em hospitais e centros de saúde; e em doloroso), e providenciar-lhes melhor qualidade de unidades especializadas como é o caso do Hospital de vida, mas também acompanhar a sua família, através são João. De acordo com Edna Goncalves, a médica do “alívio do sofrimento”, causado tanto pela dor responsável pela unidade, os cuidados paliativos física, como pela dor com uma “componente mais

Os doentes são heróis mas as famílias são super-heróis.


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DESTAQUE Em alguns países, os cuidados paliativos também podem ajudar pessoas que sofram de doenças curáveis. Porém, isso ainda não acontece em Portugal. De acordo Edna Gonçalves, a equipa que acompanha cada doente é composta pelo “médico, o enfermeiro e sempre que necessário, a assistente social”. Mas no S. João, há também psicólogos disponíveis para ajudar e assistir as equipas.

Unidade nasceu há 5 anos

tratadas crianças. “Às vezes o que acontece é o pediatra contactar-nos para saber qual é a melhor Neste hospital em específico, como explica forma de tratar uma dor ou outra.”, conta Edna. No Edna Gonçalves, o desafio de criar uma unidade geral, os doentes aceitam bem o tratamento e as de cuidados paliativos partiu “do conselho de consultas dos cuidados e, como corrobora a médica administração do S. João.” O repto foi lançado há três responsável, “não sei se posso contar pelos dedos anos atrás, quando Edna Gonçalves e Cátia Ferreira das mãos o número de casos de pacientes que não trabalhavam no IPO, também na área dos cuidados quiseram a nossa consulta.” paliativos. Segundo a médica, “a grande diferença Todos os profissionais da unidade são especializados entre o trabalho no IPO e no S. João é que no S. João Porém, a enfermeira Cátia Ferreira admite que na área e, como afirma a enfermeira Cátia Ferreira. são também tratados doentes não oncológicos.” existe “uma incapacidade maior dos profissionais “O trabalho em equipa é característico das unidades de saúde do que dos doentes em abordar o assunto de cuidados paliativos”, destaca. Além destas unidades, os cuidados paliativos podem dos cuidados paliativos.” A médica, Edna Gonçalves, ser também prestados em regime de internamento acrescenta ainda que “há pessoas que ficam Família é acompanhada durante todo o ou domiciliário. No S. João não existe internamento admiradas connosco por falarmos com o doente próprio destes doentes e a causa, de acordo com sobre morrer.” Porém os profissionais dos cuidados processo Edna Gonçalves, “não é a falta de dinheiro nem paliativos tentam abordar o tema da morte e fazer com que deixe de ser um assunto tabu e passe a ser Como já foi referido, o grande objectivo é o bem- a falta de profissionais.” Para a responsável pela falado com o à vontade de qualquer outro tema. estar e a qualidade de vida que se pode proporcionar unidade, “esta área não avança mais”, porque “é preciso a contribuição das instituições políticas e de aos pacientes. São cuidados activos Como refere Edna Gonçalves, “há um momento Há um momento de nascer, e globais, porque incluem também o de nascer, ao qual normalmente é atribuída muita apoio à família. Na opinião da médica ao qual normalmente é alegria e um de morrer, ao qual é atribuída tristeza, responsável, “os doentes são heróis mas temos de falar sobre ambos. O que nós fazemos atribuída muita alegria e um mas as famílias são super-heróis.” é tentar falar disto como se fala do nascimento.” Quer no processo quer na fase de luto de morrer, ao qual é atribuída a família é acompanhada por uma Estes pacientes têm necessidades muito especiais, tristeza, mas temos de falar equipa de profissionais qualificados. e encontram nos cuidados paliativos a resposta aos No caso específico do Hospital S. João, sobre ambos. problemas de final de vida. Casos como doentes de a família é contactada e fala com um cancro, SIDA e insuficiências de órgão avançadas dos profissionais que fazem parte da unidade, “Se quem organiza a macro gestão da saúde”, e isso não é são quem procura com mais frequência este tipo de não houver outra forma, por telefone, três ou quatro feito o suficiente para desenvolver a área. cuidados. semanas depois de o doente morrer”. É importante destacar que os cuidados paliativos se destinam a todas as doenças e idades. A Associação A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, considera também que os cuidados actuais são Contudo, a médica explica, “o que nos anima é as Portuguesa de Cuidados Paliativos destaca, num praticamente insuficientes, pelo menos os serviços famílias virem, em presença física, agradecer-nos manifesto no seu site, que não são só os idosos a que estão devidamente organizados. A associação pouco tempo depois de o doente morrer.” Acrescenta procurar estes cuidados, porque o grave problema avança também que a consciencialização acerca ainda que “é uma recompensa muito melhor do que das doenças incuráveis e, muitas vezes terminais, deste tipo de cuidados é muito importante, porque qualquer prenda material que me possam dar. E são passa por todas as faixas etárias. cerca de 90% das mortes ocorrem após uma doença muitos os casos em que isso acontece.” No hospital de São João, neste momento, não são crónica e avançada.

Dra. Edna Gonçalves e Enfermeiroa Cátia Ferreira - foto: Liliana Pinho


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DESTAQUE

Testamento Vital e Eutanásia Associada a esta problemática dos cuidados paliativos surge o testamento vital. É um documento onde consta uma declaração antecipada de vontade, que o paciente pode assinar quando se encontra numa situação de lucidez mental. Este documento é depois levado em conta, quando o dito paciente já não estiver com capacidades mentais apropriadas para tomar determinadas decisões.

por não concordar. Mas será justo prolongar um matem. De acordo com a médica, isto “quer dizer sofrimento sem necessidade? que temos muito trabalho para fazer.”

Informações

Eutanásia, um tema problemático

Os autores do testamento vital pretendem distanciar esta questão da eutanásia, alegando que não é terminar com a vida de alguém a pedido, mas sim permitir ao doente uma decisão livre e responsável sobre os tratamentos que pretenda receber, quando não tiver capacidade mental para tomar decisões. Na opinião de Edna Gonçalves “o testamento vital Esta questão leva também à discussão da decisão de ou é vinculativo ou não faz sentido, se não qualquer doar órgãos. um o pode alterar.” A médica acrescenta ainda que o documento “responsabiliza muito quem o faz”, O testamento vital é algo muito recente em porque “a pessoa pode ter mudado de ideia em Portugal. Mas, neste tema, é inevitável não partir relação a alguns procedimentos e ter dito aos amigos para a discussão da eutanásia, sendo que há uma e no dia seguinte tem um acidente e os médicos não diferenciação em eutanásia activa e passiva. A activa podem fazer nada porque existe um documento que é o término consentido da vida de um paciente que contraria. Mesmo que venha um amigo dizer que o não faleceria de causas naturais; a passiva é uma não paciente mudou de ideia, o médico não tem como aplicação de tratamentos médicos numa patologia, saber se é verdade.” que acabaria por provocar a morte do paciente, por falta de assistência. A responsável pela unidade de cuidados paliativos advoga ainda que “o testamento vital só faz sentido Quem sustenta a validade do testamento vital, em pessoas que não estão competentes”, mas, de verifica a validade da decisão do paciente, naquela qualquer forma “eu não gastaria muito do meu tempo que acaba por ser uma maneira natural de para tratar do testamento vital porque quando nós morrer. No caso do hospital de S. João, a médica temos tempo para falar com os doentes e a família e a enfermeira responsáveis pelos cuidados só se discutimos as decisões de fim de vida.” lembram de um caso em que a eutanásia era mesmo uma possibilidade se fosse permitido ser levada a Este tipo de documento já gerou controvérsia no cabo em Portugal. parlamento. O projecto do testamento vital teve a aprovação do Partido Socialista e do Partido Segundo a enfermeira Cátia Ferreira esta era “uma Comunista, a abstenção do Bloco de Esquerda e os doente que dizia que se estivesse noutro país seria votos contra do Partido Social Democrata e Partido uma vontade dela” optar pela eutanásia. A médica Popular. Curiosamente, na altura, a deputada refere ainda que a paciente “tinha familiares que socialista Matilde Sousa Franco juntou-se à oposição diziam que concordavam com ela”, mas , como em para votar contra o projecto, em 2008. Portugal não era possível, a doente aceitou uma solução de sedação paliativa leve, que permitia ficar Em Setembro último, o assunto voltou à discussão e interagir com a família. no parlamento, pela mão do BE. Nestas situações extremamente complexas, pode uma pessoa apoiar- É claro que, como afirma Edna Gonçalves, “numa se num testamento para não ser reanimada? Num primeira abordagem há pessoas que pedem para hospital, e em caso de paragem cardíaca, não se morrer, mas isso é mais um desabafo do que um presta auxílio ao paciente, porque ele assinou um pedido real para matar.” Isto surge, muitas vezes, testamento? Normalmente, o médico acaba por se causado pelo sofrimento que as pessoas passam, mas opor a medidas pré-estabelecidas pelos pacientes, não quer, realmente, dizer que a pessoa quer que a

Podemos observar os dados de 2007, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística: • Faleceram em Portugal 103 512 pessoas; • Deste número, estima-se que 62 107 tiveram necessidade de cuidados paliativos; Tendo em conta estes resultados, a Associação de Cuidados Paliativos estima que sejam necessárias 1062 camas, distribuídas por hospitais e lares. O número de médicos e enfermeiros está também aquém do necessário, e aconselhável. Uma distribuição equitativa dos que Portugal já tem pelo território nacional, não tem sido conseguida, por diversas razões. Mas mesmo assim, nota-se uma clara ausência de avaliação dos serviços. Um estudo de Manuel Luís Vila Capelas, do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, apresenta, como estimativa a necessidade de 133 equipas de cuidados paliativos, que sirvam os doentes ao domicílio. Neste momento existem 4 equipas deste género em Portugal. No Norte só existe uma: a do IPO Porto. Nenhuma destas equipas garante uma apoio 24 horas por dia/7 dias por semana. O mesmo acontece com as equipas intra-hospitalares: existem 7, são necessárias 102. Este estudo destaca também a falta de oferta formativa para médicos e enfermeiros e a falta de condições que estimulem profissionais a enveredar por esta área. Seria também importante uma articulação entre o sector público e privado, para se conseguirem formar mais equipas e desenvolver os equipamentos, adequando-os às necessidades portuguesas. Liliana Pinho Pedro Bártolo Irina Ribeiro Júlia Rocha

Edna Gonçalves afirma que há uma clara falta da disciplina de cuidados paliativos nas universidades e os estudantes sentem isso. Existe em algumas universidades a disciplina como opção, que enche sempre e existem também alguns seminários e aulas extra. Porém os estudantes fazem algumas iniciativas e tentam procurar o que a universidade não está a dar. A médica responsável pelos cuidados paliativos no S. João afirma que já deu vários seminários e formações extra na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), em iniciativas da Associação de estudantes. Hospital de S. João - foto: DR


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País Uma contestação nacional, onde todos se uniram num dia histórico A contestação voltou às ruas. Sob o mote “Contra a exploração e o empobrecimento dos trabalhadores”, UGT e CGTP mobilizaram a população numa greve geral que, afirmaram os sindicatos, ter tido maior afluência do que há um ano. Esta greve ficou marcada por alguns confrontos, e incidentes.

Protestos no Porto - fotos: Júlia Rocha Entre as reivindicações que motivaram o protesto, constam o aumento do preço Na Avenida dos Aliados também teve lugar uma concentração a favor da greve, da electricidade, gás, transportes e medicamentos; a proposta de diminuição do onde se juntaram indignados e vários trabalhadores. Uma senhora, que não se número de feriados; o aumento dos horários de trabalho; os cortes nos apoios identificou, quis expressar a raiva e os problemas que o governo tem causado aos sociais e as privatizações dos transportes. portugueses: “Portugal devia ter uma ETA, para dar cabo daquele governo. O meu marido trabalhou durante 36 anos e agora estão a descontar-lhe na reforma. “Quando se põe em causa o presente e o futuro, a questão que se coloca é o que Estou aqui por ele.”. No meio de cartazes e demonstrações simbólicas de vários fazer? A resposta só pode ser uma: Lutar, por todos os meios ao nosso alcance, participantes, viam-se famílias inteiras. pela defesa da nossa dignidade, contra a exploração e o empobrecimento, por um Portugal desenvolvido e soberano!”, afirma a CGTP. Esta central sindical José Alberto trabalhador da Câmara Municipal de Gaia também não identificado foi a responsável pela convocação da greve geral, tendo depois obtido o apoio disse que ninguém pode ficar indiferente a esta manifestação e a este protesto da UGT. nacional. Alguns jovens diziam, no local, estar a fazer greve forçada, visto que se encontram desempregados e não têm quaisquer perspectivas de futuro. Esta greve ficou marcada por eventos controversos. Ataques a repartições de finanças com “cocktails molotov”, os confrontos mal explicados junto à A maior parte destes participantes declararam ao Satélite, que o povo português Assembleia da República. O Sindicato Nacional dos Oficiais dos Polícias, não está adormecido, simplesmente está com medo. “Isto já parece antes do 25 considerou que os acontecimentos decorridos em Lisboa são o início de uma de Abril”, dizia uma manifestante. Os cartazes e dizeres das pessoas diziam que onde de conflitos que se poderão gerar. Portugal poderá vir a ter conflitos como os portugueses não têm que pagar pelos ricos, e que o povo português tem de os que se passaram na Grécia. começar a ser temido pelos governantes. Além dos confrontos e marchas em Lisboa, a cidade do Porto também ficou marcada pela greve. Além das paragens da STPC e Metro do Porto, que encerrou às 21 horas e só teve veículos a circular de meia em meia hora, da CP e de repartições públicas, a greve geral também condicionou escolas e a própria Universidade do Porto. Muitas aulas não foram dadas.

A CGTP acrescenta a estas declarações: “só temos uma certeza: É que se não lutarmos, perdemos de certeza”. Prometem assim que a greve continua. De acordo com esta central sindical, os portugueses, “contrariaram o provérbio popular de que “quem cala consente”. “E demonstraram que foram mais os que contestaram a política do Governo do que o conjunto dos votos que receberam para governar”.


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Para a CGTP-IN os portugueses estão acordados Divergências quanto aos números e activos. Demonstraram no dia da Greve Geral e vão continuar a fazê-lo nas semanas e meses que se Sem surpresa, governo e sindicatos estão em avizinham. desacordo em relação aos números da greve. A Direcção-Geral da Administração e do Emprego A realização de uma semana de luta contra o aumento Público estima uma adesão de 10,48% dos do horário de trabalho, de 12 a 17 de Dezembro, o funcionários públicos, ou seja, 43 592 trabalhadores, anúncio de paralisações em diversas empresas dos enquanto Bettencourt Picanço, dirigente do sectores privado e público, a realização de iniciativas Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (STE), contra as portagens nas SCUTS, o enceramento de previa que o valor rondasse os 80%. Centros de Saúde e o aumento das taxas moderadoras e dos transportes, são, entre outros exemplos, de que E, no que toca a totais, “esta foi uma Greve Geral a luta vai continuar.”, declararam representantes da que ultrapassou a adesão da realizada em 2010 e que CGTP ao Satélite. contou com a participação de mais de 3 milhões de trabalhadores”, segundo a CGTP. A convicção da organização sindical foi prontamente negada pela Ministra do Trabalho, Helena André. “Se 3 milhões

Ecos da Greve: - Centenas de voos cancelados - 8 portos paralisados - Metros do Porto e Lisboa com suspensão ou supressão de serviços - CP prolongou supressões nas linhas de longo curso para dia 25 - Metade dos balcões da CGD encerrados - Fenprof declarou ser a greve com maior adesão de professores - Autoeuropa parada

País

tivessem feito greve, o país teria parado. E todos pudemos observar que o país esteve a funcionar e não esteve parado”, observou a governante. Esta não foi apenas mais uma greve não só pela dimensão que atingiu, mas por que voltou a unir as centrais sindicais, UGT e CGTP. Apesar das “posições diferenciadas relativamente a questões centrais para a vida dos trabalhadores, das famílias e do país”, a tendência para a mobilização conjunta parece ser para ficar. “Pela nossa parte continuaremos empenhados em construir a unidade na acção com todas as organizações sindicais a partir do local de trabalho e em torno de questões concretas”, garante a CGTP. Pedro Bártolo e Júlia Rocha


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País

Suspeito de ser o “Estripador de Lisboa” detido

Anticoncepcionais poderão continuar a ser A Polícia Judiciária deteve José Guedes, de 46 anos, suspeito de ser o “estri- comparticipados pador de Lisboa”, responsável por ter assassinado três prostitutas em 92 e 93. O facto de um dos filhos do suspeito ter concorrido à Casa dos Segredos Ao contrário do que foi avançado inicialmente, há a possibilidade de alguns com este facto, lançou as suspeitas. medicamentos - entre os quais as pílulas

O caso do “estripador de Lisboa” já prescreveu. Passaram estripador. Contudo, a PJ ainda não confirmou a relação 15 anos desde os crimes, o que obrigou ao arquivamento entre os crimes de Lisboa e de Aveiro. O “Estripador de de processo. Contudo, José Guedes, 46 anos, casado e Lisboa” matou e arrancou o coração, fígado e intestinos com três filhos, confessou agora os homicídios. Vivia de três prostitutas. Em comum as vítimas tinham, além da prostituição, o facto de actualmente em Matosinhos e serem toxicodependentes é construtor civil de profissão. e estarem infectadas com Aparentemente, o suspeito o vírus da SIDA. José mantinha um diário onde Guedes confirmou ao escreveu pormenores acerca semanário SOL ter sido dos crimes. Os filhos do o autor destes macabros suspeito denunciaram-no à crimes. Contudo, a mulher polícia depois da leitura destes encontrada em Aveiro não textos, por causa de conflitos apresentava os mesmos familiares. Um dos filhos, de sinais macabros, o que tem 21 anos, tentou concorrer levantado algumas dúvidas ao concurso televisivo “Casa às autoridades. dos Segredos”, apresentando Em declarações à SIC o como segredo o facto de ter antigo coordenador da um pai assassino. Apesar de secção de homicídios da o jovem não ter participado José Guedes, alegado estripador - foto:DR PJ de Lisboa, João de Sousa, o no concurso, as informações que deu chegaram às mãos da Polícia Judiciária. Os crimes foram responsável pelas investigações de há 18 anos, disse que, cometidos nos arredores de Lisboa, mas a suspeita de que praticamente, só existe um modo de saber se José Guedes pelo menos um crime tenha sido executado no Norte de é ou não o “estripador”: “Teria de ser confrontado, nos locais das mortes, com pormenores das investigações Portugal. que apenas os polícias, e naturalmente o próprio O suspeito esteve também emigrado na Alemanha, onde assassino, conhecem.”. As suspeitas da PJ não parecem se investigam também a possibilidade de homicídios infundadas, visto que desde os anos 90, muitas pessoas semelhantes. Pelos crimes em Lisboa, José Guedes se têm apresentado como sendo o “estripador de Lisboa”. Júlia Rocha já não pode ser condenado, caso se confirme ser ele o

anticoncepcionais – continuarem a ser comparticipados. Estes medicamentos também são distribuídos gratuitamente nos centros e saúde.

A decisão já foi tomada e, segundo o secretário de Estado e Adjunto da Saúde, Fernando Leal da Costa, será anunciada brevemente. “Para breve vamos assumir qual é a nossa decisão final sobre a comparticipação dos anti-contraceptivos orais”, disse, rematando: “É uma matéria sobre a qual em momento próprio faremos a divulgação.” Liliana Pinho

Foto: DR

Portugal em Números Numa altura em que está em cima da mesa a salvação do euro e Portugal vive um dos períodos mais negros da sua história, em termos financeiros, importa auscultar a evolução de alguns dos principais indicadores sociais e económicos do país.

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Protecção Social Neste capítulo, merece destaque em particular a % do PIB para as pensões, que incluem pensão de invalidez, de reforma parcial, de sobrevivência, de velhice, Na educação, o nº de matriculados no ensino superior tem vindo a aumentar. Em de velhice antecipada, reforma antecipada e outras prestações sociais. Aqui, 2005, o nº ascendia a 380 937 indivíduos, enquanto no presente ano registou-se a Portugal coloca-se à frente da média europeia ao atribuir 13,2% do seu PIB às inscrição de 396 268 pessoas. Terá este aumento correspondência na aposta que pensões sociais, no ano de 2008. Já os 27 estados membros da união reservaram, o governo faz nas políticas educativas? em média, 11,7% do seu PIB para este sector. Tomando como referência o ano de 2007, constatamos que a % de ajuda Além disso, desde 1998 que os governos nacionais sobem ou mantêm este valor. financeira aos alunos no total das despesas de educação era de 3,7%, um valor Contrariamente, a UE a 27 só entre 2007 e 2008 acrescentou décimas a este valor. aquém da média da União Europeia, situado nos 6,4%. Contudo, de realçar que De 2000 a 2007, a quantidade do PIB para as pensões sociais sofreu uma quebra de 2000 para 2007, Portugal registou um aumento de 1,4% neste parâmetro e os ligeira – passou de 12, 2 para 12. países da União Europeia a 27 um incremento de 1,2%. E se no ensino superior o cenário é animador, em relação ao abandono escolar, Portugal fica a léguas da média europeia. Apesar da taxa de abandono escolar Desemprego precoce ter diminuido sempre desde 2006, quedando-se em 2010 nos 28,7%, a UE a 27 fica-se pelos 14,1%. Em Portugal, a taxa de desemprego tem vindo a crescer de forma galopante. Em Nota ainda para o facto de entre 2000 e 2010 a % do PIB destinada à educação 2000, o desemprego era significativamente mais baixo do que a média europeia em portugal ter aumentado apenas 0,1%, sendo de 5%. (9,2%), ficando-se pelos 3,8%. Em 2010, o panorama era bem diferente: Portugal tinha uma taxa de desemprego de 10,8%, enquanto a média dos 27 estados membros era de 9,6%. I&D – Investigação e Desenvolvimento Mas será que o fosso na qualidade de vida dos portugueses face à média europeia se reflecte numa maior participação política? Aparentemente não. No que toca ao investimento em I&D, a % do PIB dedicada a actividades de Nas eleições legislativas de 2002, a abstenção foi de 38,4% e, mais recentemente, investigação e desenvolvimento era de 1,66%, em 2009. Uma vez mais abaixo nas últimas legislativas que conduziram ao poder a coligação PSD/CDS, esta da média europeia – 2,01%. Ainda assim, é importante destacar que este valor registou um valor de 41,9%. Números que em nada contribuem para a vitalidade cresceu em Portugal a um ritmo muito superior face ao da UE27. Em 2000, o e o aperfeiçoamento da democracia portuguesa. investimento da UE27 na área correspondia a 1,86% e o de Portugal a 0,73%. Pedro Bártolo

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Lutar contra as adversidades de ser recém-licenciado

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Irene Leite concluiu o curso de Ciências da Comunicação em 2009, e como muitos jovens portugueses recém-licenciados, encontrou entraves à sua actividade profissional. Mas não cruzou os braços e criou o ciberjornal “Som à Letra”, que conta hoje com meio milhão de visitas mensais. Irene sempre foi uma apaixonada por música e o “Som à Letra” foi uma continuação de um projecto académico. Como proposta de uma cadeira, criou um jornal temático, em que tratava, obviamente de música: “Como não encontrava na actualidade nenhum jornal “à minha maneira”, decidi criar o Som à Letra (créditos do nome do jornal para a minha irmã), Foi uma experiência fantástica, onde encontrei o tipo de jornalismo em que me enquadrava mais: o musical, que fundido com a rádio, a minha outra paixão, me preenchia a 100%.” Irene não quis desistir do jornalismo, e aliou a música e o jornalismo digital. Começou por criar uma página no

Facebook para o seu projecto, e criar um blog, a primeira versão do “Som à Letra”. Conseguiu leitores e colaboradores e hoje, o ciberjornal é visitado cerca de 7000 vezes por mês, e é cada vez mais coeso. Irene estima de através do Facebook, o blog ainda recebe mais 500 000 visitas mensalmente.

A página do Facebook já tem 4000 fãs, em ano e meio. Para já, o “Som à Letra” não tem qualquer publicidade e ainda sofre de uma escassa divulgação, fruto de não ser um projecto “oficial”. “Com 20 anos é difícil inicialmente conquistar credibilidade, ainda para mais um projecto criado sem qualquer investimento financeiro em publicidade. Tive

que persistir bastante e mostrar que o Som à Letra não era nenhuma moda, hobbie,mas sim uma tendência para ficar.”, afirma Irene Leite. Grande defensora de um jornalismo cultural de qualidade, Irene estagiou no JPN, Antena 1, RTV e trabalhou no CETAC.media. Actualmente frequenta também o mestrado em Multimédia na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. A jovem defende a aposta no meio digital e aposta na busca de um modelo de negócio. Destaca que o importante é não parar, aceitar críticas e melhorar com elas: “. Estes dois anos têm sido muito gratificantes. Tenho aprendido e amadurecido imenso e olhando para trás, apesar da dificuldades iniciais, não posso deixar de estar muito orgulhosa.”. Um caso de sucesso com ainda muitos desafios pela frente. Júlia Rocha

Taxa de desemprego sobe Número de emigrantes está a aumentar para 12,5% A taxa de desemprego em Portugal subiu para os 12,5%, em Setembro. A taxa, estimada pela OCDE, é maior do que a média dos outros 34 países, que fica nos 8,2%. Este número faz com que Portugal tenha a quarta taxa de desemprego mais elevada dentro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O número só é ultrapassado pela Eslováquia (13,5%), a Irlanda (14,2%) e a Espanha (22,6%).

O número de emigrantes portugueses está a aumentar. Dentro dos vários destinos, os mais procurados têm sido a Suíça, a França e a Angola. A recente vaga de emigração deve-se, principalmente, à situação económica e às condições precárias, em que as pessoas vivem.

Segundo o secretário de Estado das comunidades, José Cesário, dentro destes novos imigrantes já existem pessoas de 40 e 50 anos. Não é possível obter um número exacto de emigrantes, uma vez que a circulação de pessoas é totalmente livre dentro da União Europeia, contudo José Cesário acredita que o número tem aumentado devido à crescente procura dos consulados e às Segundo dados da OCDE, não houve grandes graves dificuldades económicas pelas quais os variações, entre Agosto e Setembro deste ano, nas taxas portugueses estão a passar. de desemprego nos países que integram a organização. No entanto existem excepções, como é o caso da Portugal é historicamente um país de emigrantes, Espanha, em que a taxa subiu de 22,2% para 22,6%, porém na nova vaga existem algumas diferenças a Itália, que aumentou de 8,0 para 8,3% e a Hungria, em relação às anteriores. Os destinos que as pessoas que registou uma queda de 0,4 pontos percentuais e procuram não são os mesmos, por exemplo a ficou, assim, nos 9,9%. Ainda de acordo com a OCDE, Angola é hoje um dos principais países escolhidos a taxa de desemprego na zona euro atingiu o nível mais pelos emigrantes portugueses, o que não acontecia alto desde Junho de 2010, já que aumentou 0,1 pontos muito frequentemente há alguns anos atrás. percentuais e passou para os 10,2%. Também o Brasil começa a ser procurado. Isto acontece porque há, nestes países, cada vez mais De acordo com as estimativas, em Setembro havia 44,8 oportunidades de emprego, ao contrário do que milhões de pessoas desempregadas, mais 10,8 milhões acontece com Portugal. de pessoas em relação a Setembro de 2008. Irina Ribeiro

Para além disso, também já se notam algumas diferenças na idade das pessoas que escolhem sair de Portugal, uma vez que a geração com 40 e 50

anos também passou a arriscar. De acordo com o secretário de Estado das comunidades, a maior parte do emprego é conseguido em actividades como a construção civil, a hotelaria e as limpezas, no entanto acrescenta ainda que pontualmente há emigração mais qualificada para países como o Canadá e a Austrália. Através deste fenómeno podemos explicar também o facto de os números de imigração serem cada vez mais baixos, ou seja, não há pessoas de outros países a virem para Portugal para viver. As causas são as mesmas, a crise económica e a, consequente, falta de emprego. Irina Ribeiro


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internacional Líbia: Retrato de um país em guerra

O que começou por ser uma onda de protestos populares contra a ditadura de Muammar Khadafi, acabou por ter consequências muito importantes para o país. Perceba como foi a escalada dos eventos até chegar ao ponto em que o país está hoje. As reivindicações sociais e políticas, que começaram no dia 13 de Fevereiro de 2011, na Líbia, fizeram com que, depois de algum tempo de instabilidade e insegurança no país, o governo de Muammar Khadafi fosse derrubado, o líder fosse morto e o Conselho Nacional de Transição fosse assumido como novo governo, reconhecido pela comunidade internacional.

Apesar do governo de Khadafi oferecer um sistema médico, o serviço era mau e fazia com que, muitas vezes, as pessoas tivessem de ir procurar ajuda a países como a Tunísia. Por fim, a administração de Khadafi era também pautada pela corrupção financeira no governo.

Muammar Khaddafi e contra a falta de liberdade e democracia no país.

Os protestos contra a intransigência do governo e a repressão contra os manifestantes, fizeram com que o conflito se desenvolvesse e a revolta espalhouse rapidamente pelo país. Em algumas partes da Líbia o exército juntou-se à oposição. Os rebeldes Primavera Árabe Os conflitos na Líbia fizeram parte de um movimento conseguiram “conquistar” várias cidades em pouco País de protestos nos países árabes, que ocorreram entre tempo e já ameaçavam o poderio das tropas do A Líbia é um país do norte de África, limitado a 2010 e 2011. Tal como na revolução da Tunísia e na governo, por isso as forças leais a Khadafi lançaram norte pelo Mar Mediterrâneo. Faz fronteira com o revolução no Egipto, os manifestantes exigiam mais ataques a várias cidades para tentar recuperá-las. Estes ataques e a violência generalizada causaram Egipto, o Sudão, o Chade, a Nigéria, a Argélia muitas mortes e isso foi condenado e a Tunísia. A capital do país é Tripoli e esta é pela comunidade internacional. também a cidade mais populosa. Os EUA estabeleceram sanções contra Muammar Khadafi. Porém nem todos concordaram. Vários chefes de estado da América Latina apoiaram o governo de Khadafi. Em Março de 2011, foi proposta a resolução 1973 da ONU, pela França, pelo Reino Unido e pelo Líbano. A resolução previa um cessar-fogo imediato, uma ocupação externa e, ainda uma zona de exclusão aérea. A proposta foi aprovada com dez votos a favor e 5 abstenções.

A Líbia tem cerca de seis milhões de habitantes, sendo que a maioria é árabe. Os principais recursos naturais do país são o petróleo, o gás natural e o gesso.

Economia

A economia líbia é extremamente dependente do sector petrolífero. Este sector assume cerca de 30% doPIB e é responsável por 95% das exportações. Isto faz com que a Líbia seja um dos países africanos com mais rendimentos per capita. Contudo, a distribuição desses rendimentos não é igualitária, por isso existe um grande fosso entre os pobres e os ricos o país, sendo que os pobres, muitas vezes, têm dificudade em satisfazer as necessidades básicas como a alimentação.

Muammar el-Kadhafim já falecido - foto: DR

Ditador

Em 1969, a Líbia passava por uma grande insatisfação popular. O recurso mais precioso do país, o petróleo, era usado pelos EUA sem que houvesse contrapartidas para os líbios. Muammar Khadafi, que era um dos líderes dessas insatisfações instalou-se no poder depois de um golpe de estado, a 1 de Setembro de 1969. O regime de Khadafi trouxe algumas melhorias para o país. Houve melhorias nas habitações e o analfabetismo praticamente acabou. Para além disso, a Líbia melhorou A revolta da população líbia.- foto: DR o sector económico, já que lucrava com o petróleo. Contudo, o ditador não demorou muito a liberdade e democracia, mais respeito pelos direitos revelar-se. Uma das primeiras decisões de humanos, uma melhor distribuição da riqueza e a redução da corrupção do Estado e das instituições. Khadafi foi retirar todas as comunidades judaicas No caso da Líbia, a principal figura contestada era do país e a Líbia passou a ser um país que seguia Muammar Khadafi, que liderou a Líbia durante 42 escrupulosamente os cânones islâmicos. Além disso, anos, o que fazia dele o chefe de Estado árabe que a maior parte dos recursos líbios eram controlados durante mais tempo esteve no cargo. pela família de Khadafi. De acordo com o Índice de Liberdade de Imprensa, a Líbia era o país com maior Guerra Civil censura do norte da África. A Líbia foi, ainda, suspensa do Conselho de Direitos Humanos da ONU por cometer violações aos direitos humanos, geralmente contra opositores ao governo.

A guerra civil ou revolução líbia começou em Fevereiro de 2011 e consistiam, basicamente, em manifestações populares contra o governo de

A intervenção militar pretendia enfraquecer as forças leais a Khadafi, e para isso previam atingir vinte locais estratégicos das tropas. No dia 21 de Agosto, os rebeldes começaram a invasão a Tripoli, a capital líbia, e no dia 23 de Agosto, tomaram o quartelgeneral de Khaddafi, que já não estava lá. No mesmo dia, Khaddafi aparece numa mensagem na rádio e promete “morte ou vitória.” O ditador tinha fugido, tal como o resto da família. Depois desta vitória, o Conselho Nacional de Transição transferiu a sede para Trípoli e tentou assumir o controlo de todo o território, para pôr fim à guerra. Os rebeldes ganharam, assim, o controlo de mais cidades e a 20 de Outubro de 2011, Sirte estava sob o seu poderio. Foi neste dia que a imprensa, mais especificamente, a rede de televisão árabe Al-Jazeera, anunciou que Muammar Khaddafi tinha sido morto em combate na cidade de Sirte. As imagens do ditador líbio morto chegaram a todo o mundo.

Conselho Nacional de Transição O Conselho Nacional de Transição foi formado por opositores ao regime de Khadafi, durante a revolução líbia. A formação foi anunciada em


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internacional

Benghazi, a segunda principal cidade da Líbia, a 27 de Fevereiro de 2011.

O porta-voz do Conselho Nacional de Transição durante os conflitos era o advogado especializado em direitos humanos, Hafiz Ghoga. Nesta altura, os nomes de alguns membros foram mantidos em Conselho Nacional de Transição sigilo, como forma de evitar ameaças às próprias O Conselho Nacional de Transição foi formado por pessoas e às famílias. opositores ao regime de Khadafi, durante a revolução líbia. A formação foi anunciada em Benghazi, a A 8 de Agosto, o líder do conselho, Abud Al Jeleil, segunda principal cidade da Líbia, a 27 de Fevereiro dissolveu a equipa uma reestruturação do órgão. Isto veio no seguimento do assassinato general Abdul de 2011. Fattah Yunes, chefe do Estado-Maior da rebelião e O conselho foi organizado por contestatários do antigo membro do governo líbio. Já em Novembro regime vigente e pouco tempo depois do início da de 2011, foi eleito o primeiro-ministro, que ficou revolta já havia sinais da vontade e esforços para a cargo de Abdurrahim el-Keeb, um professor formar um novo governo. No início do processo universitário, que obteve 26 votos de um total de 51 de formação o líder era o ex-ministro da justiça dos membros do conselho. líbio Mustafa Mohamed Abud Al Jeleil. A criação de um governo alternativo recebeu o apoio de Durante o conflito, a comunicação por telefone personalidades como o embaixador líbio nos EUA, foi difícil e foi completamente cortado o acesso Ali Suleiman Aujali e o vice-embaixador da Líbia à internet. Além disso, a imprensa internacional nas Nações Unidas, Ibrahim Omar Al Dabashi. A 5 não foi autorizada a entrar no país. Os rebeldes de Março de 2011, o conselho nacional de transição receberam apoio financeiro e logístico da OTAN, difundiu uma declaração em que se intitula o “único mais especificamente dos EUA, do Reino Unido e da França, que perpetraram ataques em território representante de toda a Líbia”. da Líbia. Depois de findos os combates, o Conselho

Saída de Berlusconi aprovada pelo Parlamento

Nacional de Transição foi, oficialmente, reconhecido como o governo líbio pela comunidade internacional. Além da devastação que o país sofreu e as dificudades que os líbios tiveram durante e depois do conflito, vários países, que, de alguma forma se envolveram nos conflitos, gastaram muito dinheiro na guerra civil líbia. Irina Ribeiro

Gastos de cada País na Guerra da Líbia

O parlamento italiano aprovou a lei do orçamento italiano, deixando aberta a porta para Silvio Berlusconi. A população de Roma celebrou nas ruas a partida do primeiro-ministro. com Reuters Berlusconi tem as portas abertas para a s ua saída. O antigo comissário europeu Mario Monti é o responsável por formar um conselho de transição, capaz de lidar com a crise económica., par ao qual já iniciou contactos.

à aprovação do pacote de medidas económicas exigidas pelos parceiros europeus. O agora ex-primeiro ministro entregou a sua demissão ao presidente Giorgio Napolitano. Centenas de protestantes anti-Berlusconi concentraram-se na na residência presidencial, o Palácio Quirinale, Esta semana, a bolsa italiana viu-se perto de desastre onde festejaram a partida do bilionário, o primeiroeconómico quando títulos com mais de 10 anos ministro que governou Itália durante mais tempo. dispararam mais de 7,6%. Em declarações à Reuters, Renato Cambursano, Berlusconi demite-se depois de ter perdido a votação deputado da oposição “Itália de Valor” afirmou que no parlamento, terça-feira. A votação era referente Itália perdeu todo o seu prestígio nos últimos anos

Médicos cubanos podem ter encontrado a cura para o cancro do pulmão

A primeira vacina terapêutica contra a doença acaba de ser patenteada em Cuba e a terapia não tarda: mais de 1000 pacientes já estão a receber o novo tratamento. Um grupo de médicos cubanos, liderados por Gisela González, são os responsáveis por desenvolver a vacina CIMAX-EFG que - segundo a investigadora em entrevista ao semanário cubano “Trabajadores” - poderá transformar o cancro do pulmão numa doença crónica controlável. Esta vacina foi desenvolvida a partir de “uma proteína que todos temos: o factor de crescimento epidérmico, relacionado com os processos de proliferação celular. Quando há cancro, essa proteína está descontrolada”. Assim, o objectivo é produzir anticorpos contra essa mesma proteína. A equipa de investigação pretende ainda perceber se existe “forma de empregar o mesmo princípio desta vacina noutros tumores sólidos (cancro da próstata, útero e mama). Obtivemos resultados importantes, mas é preciso esperar”, afirma Gisela González. A CIMAX-EFG é indicada para os doentes que terminam o tratamento com radioterapia ou quimioterapia e que são considerados pacientes terminais sem alternativa terapêutica. É nesta fase, pós-tratamentos, que a vacina é aplicada para ajudar a controlar o crescimento do tumor. É certo de que esta vacina “vai aumentar a expectativa e a qualidade de vida do paciente”, afirmou a investigadora. Este projecto já dura há 15 anos, mas a vacina só foi patenteada depois de testada a sua eficácia em mais de 1000 doentes, que não tiveram quaisquer efeitos secundários. Só em Portugal, o cancro do pulmão mata pelo menos 3.000 pessoas anualmente. Liliana Pinho

e que a culpa é inteiramente de Silvio Berlusconi. “Finalmente, ele vai embora Finalmente acabou.”, desabafou o deputado. Mario Monti tem a seu cargo a nomeação de um gabinete, até às eleições de 2013. Gabinete este, que tem como missão tirar a Itália da depressão financeira onde se vai afundando. Júlia Rocha


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internacional Breves do Mundo The Daily é o novo jornal exclusivo para iPAD Esta é a primeira vez que um jornal é feito exclusivamente para uma marca e que não terá versão em papel. Desenvolvido pela Apple e a News Corporation, deverá estar disponível já no ano que vem. Robert Murdoch, responsável pelo projecto, descreve o The Daily como uma empresa pioneira digital e o projecto mais entusiasmante da empresa, que revela

Irão, Coreia do Norte e Birmânia condenados por violações humanitárias Irão, Coreia do Norte e Birmânia foram condenados por violações humanitárias pela resolução do comité de Direitos Humanos da Assembleia Geral das Nações Unidas, aprovada por maioria. Em relação ao Irão, estão em causa a tortura e os tratamentos desumanos e degradantes por parte

uma nova categoria no consumo da informação.

sociais.

Numa altura em que a leitura de jornais em papel cai drasticamente, este jornal mutimédia tem como principal objectivo a união de texto, fotografia, vídeo em alta definição, infografia e áudio com a interacção proporcionada pelo gadget. Os leitores do The Daily podem contar com imagens em 360º, páginas de conteúdo informativo generalista, de entretenimento, opinião, desporto, actualidade e uma infinidade de outros temas, a opção de salvar artigos para ler depois, comentários escritos ou áudio, meteorologia e ligação às redes

Este projecto representará um investimento de cerca de 22 milhões de euros e contará com o envolvimento de jornalistas e cerca de dez técnicos. Prevê-se que o jornal multimédia terá o acessível custo de 0,99 cêntimos de dólar por semana. Segundo Murdoch, também dono da cadeia Fox e dos jornais “The Times” e “The Wall Street Journal”, o The Daily precisa de atingir os 800 mil leitores para se tornar economicamente viável. Liliana Pinho

das autoridades e ainda o aumento do uso da pena da Birmânia, a resolução justifica com as violações de morte, principalmente contra menores. Esta dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. resolução foi apresentada pelo Canadá. A Síria é o próximo país a ser julgado, já que também Quanto à Coreia do Norte, estão também em causa vai ser votada uma resolução que condena as violações dos direitos humanos, mais precisamente violações humanitárias no território. É de destacar a tortura, as execuções públicas e as detenções que os problemas na Síria já decorrem das revoluções arbitrárias, em relação às quais a resolução aprovada do início deste ano. expressa grande preocupação. Neste caso, são A proposta, apresentada pela França, o Reino Unido ainda comentados o grande número de campos de e a Alemanha já conta com 61 países. detenção existentes e os trabalhos forçados. No caso Irina Ribeiro

Samsung em negociações para lançar a Google TV O presidente da divisão de televisão da Samsung, Yoon Boo-keun, afirmou que estão a ser feitas as últimas negociações para o lançamento da Google TV e, sem elaborar, revelou ainda isso deve acontecer num evento do próximo ano. A Google TV, que vem actualmente com alguns modelos de televisões SonyCorp e Logitech, permite aos consumidores ter acesso a vídeos on-line, sitíos

Investigadores criam material metálico mais leve do mundo Engenheiros norte-americanos criaram uma estrutura metálica, com propriedades de absorção de energia. Uma equipa de engenheiros norte-americanos anunciou ter fabricado o material mais leve do mundo. É uma microestrutura metálica 100 vezes menos densa do que a esferovite, que pode vir a ser utilizada no desenvolvimento de baterias e amortecedores. A investigação foi feita com o contributo dos Laboratórios HRL e o Instituto de Tecnologia da Califórnia. A microestrutura tem uma densidade de 0,9 miligramas por centímetro cúbico e é construída a partir de pequenos tubos metálicos, ocos, organizados num padrão diagonal cruzado, com espaços exíguos entre eles. 99,9 % destas microestruturas metálicas é ar e a parte sólida representa apenas 0,01% do material.

tubos ocos com uma espessura de parede mil vezes mais fina do que um cabelo humano.” O estudo, publicado na revista Science, revela que a microestrutura tem propriedades de absorção de energia”. Daí vem a ideia que este material pode fazer parte do futuro das baterias e dos amortecedores. Outra característica surpreendente deste material é o facto de poder ser comprimido até metade da sua dimensão e depois conseguir recuperar 98% do tamanho e formato originais.

Para William Carter, director dos Laboratórios HRL, isto significa que está a haver uma revolução nos materiais ultraleves. Os investigadores salientam que este é o material metálico mais leve existente na O coordenador da investigação Tobias Schaedler, da Terra e que pode ser posto em cima de um dente-deUniversidade da Califórnia, citado pela BBC, explica leão sem o danificar. que “o truque é fabricar uma rede interligada de Irina Ribeiro

Web e também aplicações especializadas, tais como jogos de vídeo, nas próprias televisões. A Google lançou, em Outubro, uma versão remodelada deste serviço mas não obteve a melhor reacção por parte dos consumidores. A Samsung Electronics é o maior fabricante mundial de televisões, e Yoon Boo-keun afirmou que a empresa planeia lançar televisões com displays OLED, que produz imagens nítidas e são mais finos e mais eficientes em termos energéticos do que os LCDs. Irina Ribeiro (com Reuters)


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política

Cimeira do Euro – Estados membros procuram salvar a moeda única A Europa vive dias difíceis e Portugal, como um dos seus membros mais vulneráveis, obedece às directrizes da Troika com escrutínio, rigor e muitos sacrifícios pedidos aos portugueses. Mas é bom lembrar que a crise não é restrita a Portugal ou ao espaço europeu. O dia 9 de Dezembro de 2011 fez soar o alarme ainda mais alto. Os 27 estados membros da União Europeia que David Cameron nunca esteve de facto connosco, debateram estratégias para a salvação do euro, um naquela mesa”, disparou a governante. cenário nunca antes reconhecido ou ponderado publicamente. A posição britânica inviabilizou assim a alteração do Tratado de Lisboa e forçou os 26 estados membros A Cimeira colocou em cima da mesa a possibilidade em acordo a contornarem a legislação da UE, daí de avançar com um tratado intergovernamental, a via de criação de um acordo internacional entre voltado para medidas de consolidação orçamental os países da zona euro e os restantes 9 membros severas, que incluem sanções económicas aos concordantes. Numa frase comedida, Herman Van incumpridores e incentivos à limitação constitucional Rompuy, presidente do Conselho Europeu, deixou do défice. claro que o novo entendimento ainda caminha por Esta última medida foi um caminho já adoptado pela Espanha e que mereceu o aplauso da União Europeia, em Outubro. “Congratulamo-nos com as importantes medidas tomadas pela Espanha para reduzir o seu défice orçamental, reestruturar o sector bancário e proceder à reforma dos mercados de produtos e de trabalho, bem como com a adopção de uma alteração constitucional tendo em vista um orçamento equilibrado.”

social-democrata. À esquerda, Miguel Portas chamou a atenção para a transferência considerável de soberania dos Estados para a União Europeia. “Os Parlamentos nacionais vão ter a função de ratificar apenas orçamentos decididos em Bruxelas, em articulação com Berlim”, disse o eurodeputado, do Bloco de Esquerda. Quanto às medidas, as políticas de austeridade podem ser a resposta, mas apenas quando ministradas com moderação. É esta a convicção de Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Pedir uma consolidação extrema é contraproducente”. Além de que, no entender do economista francês, a paciência é um requisito essencial. “O mundo todo está de acordo que deve haver um ajuste, mas não é preciso que seja tão rápido”, alertou.

À data, também a Itália ouviu elogios à sua Face à recusa do prestação. “Tomamos Reino Unido em nota do compromisso aderir ao tratado da Itália no sentido de ntergovernamental, reformar a legislação a defesa da moeda laboral, nomeadamente única pode conhecer as regras e procedimentos o seu primeiro teste A cimeira do euro diviviu o governo bitânico. - foto: DR em matéria de despedimentos, e de rever o de fogo, na Irlanda. Michael Noonan, ministro actual sistema fragmentado de subsídios de das finanças do país, deixou claro que, caso desemprego até ao final de 2011, tendo em conta as águas turvas. “Devemos assegurar que os novos se constate a necessidade de rever a Constituição restrições orçamentais.” procedimentos vão permanecer o mais estreitamente Europeia para o acordo firmado na Cimeira ser possível integrados com a estrutura da União.” aplicado, o consequente referendo irá pôr nas Da reunião mais recente entre os 27 nasceu ainda mãos do povo irlandês “apenas” uma decisão: a a pretensão de reforçar as mudanças do mercado O ecoar da Cimeira continuidade ou não, na Zona Euro. de trabalho, tendo em vista a flexibilidade a nível “A grande vencedora da cimeira foi Angela Merkel, das empresas e a empregabilidade da mão-de-obra. enquanto o grande derrotado foi Nicolas Sarkozy”, Pedro Bártolo Contudo, a resolução nuclear da cimeira é o carácter analisou Mário Soares. O ex-presidente da República mais vinculativo das orientações propostas pelos considera que “a desagregação da União não ficou, órgãos europeus. inteiramente, fora de questão” e que “ a austeridade, por si só, não chega e, pelo contrário, estimula a Com as alterações visadas, por exemplo, a Comissão recessão”. “Assim, União Europeia não será capaz de Europeia passa a ter o direito de conhecer os salvar o euro”, rematou. orçamentos de cada país antes dos parlamentos nacionais. Por seu turno, o eurodeputado Paulo Rangel, apesar de dizer que se podia ter feito mais, acredita na A eventual perda de soberania desagradou ao mudança de decisão do Reino Unido e rejeita que a primeiro-ministro britânico, David Cameron, que cimeira tenha sido um fracasso. “Não é pouco que 26 recusou o tratado proposto pelos países da zona tenham estado de acordo, é muito. Estou confiante euro, e levou a chanceler alemã, Angela Merkel, a que o Reino Unido, o tal barco salva-vidas, vai proferir algumas palavras menos simpáticas. “Acho acabar por se juntar outra vez ao navio”, afirmou o


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política

Salários até 600 euros não sofrem cortes nos subsídios O governo cedeu à pressão da oposição e decidiu subir os valores dos rendimentos base, a partir dos quais há corte gradual ou na totalidade dos 13º e 14º meses, para 600 e 1100 euros, respectivamente. Na proposta inicial do Orçamento de Estado para 2012, o executivo de Passos Coelho tinha definido que os cortes começavam a ser aplicados nos salários desde os 485 euros e, num rendimento base que ascendesse a 1000 euros, estes retirariam na íntegra os subsídios de Natal e de férias.

a política do governo nesta matéria. Bettencourt Picanço, dirigente do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, apontou a medida do corte dos subsídios aos funcionários públicos como discriminatória e apelou ao Presidente da República, Cavaco Silva, para averiguar a constitucionalidade da proposta.

noção de que a execução do Orçamento do Estado é crítica para que os resultados que vamos apresentar coloquem Portugal no caminho do crescimento.”, disse o PM, em entrevista à SIC «Se isto, por razões externas, não se confirmar e for pior, logo teremos menos receitas e chegaremos ao final do ano sem cumprir a meta do défice; claro que assim teremos O 1º Ministro considerou a cedência do governo Num tom igualmente crítico, Mário Nogueira, de adoptar tais medidas, mas julgo que esta não é a uma prova de abertura, mas diz ser incontornável secretário-geral da Federação Nacional de altura para as dizer”, esclareceu Passos Coelho. a austeridade presente no orçamento. As medidas Professores (Fenprof), não foi meigo nas palavras e tomadas pela coligação PSD/CDS mereceram o apelidou o corte nos subsídios à função pública de Sabe-se desde já que o corte do subsídio de Natal irá aplauso da “troika”. “A proposta (agora aprovada) “roubo, saque e banditismo”. render ao Governo cerca de 800 milhões de euros, de cortar dois subsídios é boa e nós apoiamo-la enquanto as autarquias ganham com a diminuição/ totalmente», afirmou Paul Thomsen, líder da missão O descontentamento na função pública levantou a supressão de ambos os subsídios – Natal e férias do FMI, em Portugal, em entrevista à RTP. questão sobre eventuais cortes também no sector aos funcionários públicos cerca de 146 milhões de privado. A possibilidade não é negada por Passos euros. Contudo, várias figuras manifestaram-se contra Coelho, mas não parece prioritária. «Temos a Pedro Bártolo

“Havia margem para não cortar subsídio de Natal” O deputado socialista Miguel Laranjeiro afirmou não haver necessidade de cortar o subsídio de Natal. Em declarações à Lusa, Laranjeiro chamou à atenção a referências do primeiro-ministro a um excedente de 2000 milhões de euros. A entrevista de Pedro Passos Coelho à SIC, suscitou diversas reacções por parte do Partido Socialista. O deputado eleito por Braga, Miguel Laranjeiro, referese às declarações do primeiro-ministro e garante que não havia necessidade de cortar o subsídio de Natal. Laranjeiro refere-se à frase proferida por Passos Coelho: “Existe uma verba excedente de cerca de 2000 milhões de euros que vamos destinar a pagamentos à economia.” Estes fundos fazem parte do fundo de pensões da banca para a Segurança Social. O deputado considera que o Natal dos portugueses vai ser mais magro somente por opção governativa, “sem necessidade do ponto de vista financeiro, e com consequências gravosas” para a economia nacional. “Pode dizer-se que pela boca morre o peixe. Desde Agosto que se sabia da transferência do fundo de pensões da banca, e o governo não quis ouvir o Partido Socialista.”, acrescentou ainda o deputado eleito por Braga. Apesar de Passos Coelho ter considerado

este excedente um dado positivo, os socialistas consideram que não existia necessidade de impor este corte aos portugueses.

sirva para pagar as dívidas, e que é necessário que as empresas públicas paguem o que devem aos bancos, de forma a haver mais lucro a ser injectado na economia, para apoiar a actividade das empresas.

Passos Coelho disse que este dinheiro Miguel Laranjeiro continua retirado do fudo de a afirmar que com este pensões da banda excedente ainda e x i s t i a será injectado na margem para pagar o economia através subsídio por inteiro e saldar de um processo António José Seguro diz que é muito importante que as as dívidas do Estado. O de regularização empresas paguem o que devem aos bancos - foto: DR deputado destacou também de pagamentos de a falta de diálogo entre o dívidas que o próprio Estado tem. governo e o Partido socialista no campo do aumento do IVA e dos cortes nos subsídios de Natal e férias. O secretário-geral do PS, António José Seguro, também comentou este assunto à agência, destacando Júlia Rocha que é importante que uma parte desse dinheiro


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A vida e anunciada morte da moeda única

economia

A revista britânica “The Economist” avisou que há um risoc muito grande de o euro se desintegrar nas próximas semanas. A crise económica está a assustar investidores e governantes. O futuro do instrumento de união da Europa pode estar comprometido. A directora do FMI, Christine Lagarde fala no propagação dos problemas europeus ao resto do mundo. No sábado, dia 26 de Novembro, a “The Economist”, publicação económica britânica, muito prestigiada anunciou o fim da moeda única. “O risco de a moeda única se desintegrar dentre de semanas e altamente alarmante.”, estava escrito num artigo da revista. A verdade é que dia após dia, semana após semana e praticamente meses e anos uns a seguir aos outros, a crise da zona euro alastrouse a um nível galopante. Começou na Grécia, depois Irlanda,Portugal, Espanha e agora Itália.

Dezembro de 2008. Este é só um, no conjunto de sinais de que toda a economia da zona euro está a caminhar para uma recessão. Juntamos a intensificação das pressões financeiras executadas por outras economias mundiais. O facto de um país estar num estado “desordeiro” economicamente, uma corrida a depósitos bancários, revoltas contra a austeridade já são por si só pontos de partida para o início do fim da zona euro. Duras críticas têm sido tecidas a Angela Merkel pela forma de gerir a crise. A chanceler alemã assumiu a liderança da luta contra crise, juntamente com o Banco Central Europeu (instituição esta que se encontra agora num período de transição). Segundo a The Economist, a cautela alemã está a ser eficaz a nível político, e como exemplo dá a saída de Sílvio Berlusconi de cena. Mas economicamente está a ser difícil de fazer provar as medidas propostas pela líder alemã. Angela Merkel ainda não reconheceu completamente a extensão do pânico instalado nos mercados e o BCE rejeita financiar em último recurso, mesmo para auxiliar os governos em apuros e assim evitar derrocadas financeiras completas.

Orlando Oliveira, economista considera que a moeda única pode ter o fim à vista, mas “acho pouco provável. Neste caso, as perdas seriam enormes, para todos os países do euro. Por isso acredito que tudo se fará para evitar que isso aconteça.” Também considera que este cenário não seria a solução para a dívida da banca: “A banca portuguesa veria as suas dificuldades aumentarem consideravelmente. O nosso país voltaria ao escudo, mantinha-se a dívida, incluindo a da banca, em euros ou outra moeda forte. Neste processo a nossa moeda (escudo) entraria num processo de desvalorização permanente, que faria disparar o valor da dívida de tal forma que se tornaria insustentável. A banca, para além de ver a sua dívida ao exterior crescer, deparar-se-ia ainda com um A directora-geral do Fundo Monetário Internacional aumento de crédito mal parado, em consequência (FMI) Christine Lagarde, garante que nenhum país do aumento dos juros ao crédito concedido, está a salvo do alastramento da crise financeira devido à desvalorização da moeda”. Acrescenta europeia. O afundamento da economia europeia e ainda que “Basta para tal pensarmos nos custos de o previsível fim do euro não deixa ninguém a salvo. financiamento que iriam aumentar, dificultando Numa nota divulgada no site do FMI, Lagarde o investimento. Mas o mais grave seria o aumento destaca que a América Latina é uma das regiões mais Christine Lagarde - foto: DR incontrolável da nossa dívida ao exterior, que nos expostas e vulneráveis a choques exteriores, e que não levaria à banca rota.”. está a salvo de uma “explosão que parta da Europa. Ninguém está.” No entanto, Christine Lagarde sublinha as capacidades dos países sul-americanos que estão No caso de Itália, os transalpinos já não escapam sem medidas de austeridade. a poupar para o futuro que se avizinha sombrio e que tentam assegurar que os Mario Monti, primeiro-ministro, que veio substituir Silvio Berlusconi, e a sua riscos do sector bancário sejam bem controlados. administração, já aprovaram um pacote de austeridade no valor de 30 mil milhões de euros, acima dos 20 mil milhões de euros esperados pelo mercado, No entanto, alertou a responsável, “no mundo interligado, não há nenhum que inclui a renúncia ao salário do primeiro-ministro. Confrontado pela lugar para se esconder” e os países da América Latina deverão tomar todas as imprensa estrangeira, Monti afirmou: “Eu entendo a preocupação”, mas “temos precauções e preparar-se para um eventual choque oriundo da Europa. Orlando de pensar sobre o que pode ser a Itália, na ausência deste pacote”. Oliveira garante que as proporções de uma crise alastrada são ainda terreno algo desconhecido, mas que “as consequências para esses países serão tanto maiores quanto o grau de interdependência económica tiverem com a Europa.”. O alargamento da crise Os limites permitidos estão a esbater-se e a crise, que parecia confinada à É preciso um alerta mesmo para os países europeus que esperam que os líderes periferia europeia, começa a entrar no coração do continente. Em Setembro tomem as decisões necessárias. Júlia Rocha deste ano, a produção industrial da zona euro caiu 6,4%, o maior declínio desde

Títulos de estabilidade encontram resistência Economistas da zona euro consideram que “eurobonds” não são a solução para a dívida europeia e para a crise actual. A chanceler Angela Merkel também já recusou estes títulos.

A chanceler alemã Angela Merkel já se tinha recusado a aceitar os “eurobonds”. Para o comissário e político finlandês, a União Europeia tanto pode enveredar pelo populismo e arriscar-se a perder tudo o que já conquistou no combate à crise, ou trabalhar e tomar decisões responsáveis para dominar as turbulências dos mercados e reforçar a governação económica.

O bom senso tem de prevalecer sobre as questões sentimentais dos estados. Também economista-chefe demissionário do BCE, Jurgen Stark, considera que os “eurobonds” são um incentivo aos países endividados. Segundo este economista, a crise da dívida não vai ser resolvida pela emissão conjunta de obrigações na zona euro. “Não há soluções simples nem rápidas Olli Rehn, comissário europeu dos assuntos financeiros, considera que os para a resolução da crise de dívida ao nível europeu.”, declarou em comunicado “eurobonds” podem encontrar forte resistência. Segundo o comissário, qualquer à Reuters. Stark vai sair do BCE no final do ano, ao que tudo indica, com tipo de “eurobonds” tem de estar associado a uma supervisão e coordenação divergências quanto ao programa que permite ao banco central comprar títulos fiscais bastante fortes. A criação de títulos de estabilidade podia ajudar a superar de dívida a países da zona euro. Estas declarações vieram a propósito da proposta a crise, mas a resistência a este instrumento é forte, sublinha Rehn. É necessário que a Comissão Europeia fez para a criação de “eurobonds”. uma grande discussão dos Estados soberanos da zona euro sobre este assunto. Júlia Rocha


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economia

Rating da CGD, BCP e BPI diminuído a lixo

requerida para tal deve ser mais constrangida, por causa do enfraquecimento do ambiente financeiro e “provável deterioração de resultados e de qualidade de activos.”.

A agência financeira Fitch cortou a notação financeira de alguns bancos portugueses. A decisão vem no seguimento da decisão do corte ao “rating” da República. CGD, BCP e BPI são os bancos envolvidos.

A Fitch acrecenta que a Caixa tem beneficiado da forte rede de retalho e quota de mercado nos depósitos. A dívida da CGD chega à maturidade em 2013 e corresponde a 7,5% dos activos. Quanto ao BCP, a Fitch destaca que o banco enfrenta muitos desafios, porque, comparativamente aos outros, está numa posição mais fraca relativamente ao financiamento, liquidez e risco de crédito. O BPI está sob maior pressão ainda, por que tem rácios de capital mais fracos , porque a exposição à dívida soberana é de maior dimensão relativa.

A descida do “rating” dos bancos é uma “consequência directa do corte da dívida soberana”, segundo declarações da agência de notação financeira. A Fitch, cortou no “rating da República”, ao reduzir a notação de “BBB-“ para “BB+”, mantendo assim a performance negativa. O mesmo acontece nos cortes realizados aos bancos. A Caixa Geral de Depósitos, o BCP e o BPI são as instituições abrangidas por esta decisão. O seu rating foi cortado para “BB+”, com perspectivas negativas para o futuro. O BES nao foi mencionado e o Montegio e o Banif antiveram a sua avaliaçãoo de “BB” e “B”, respectivamente. Se o rating de Portugal continuar a ser cortado, o rating dos banco acompanhará estes cortes, segundo relatório da Fitch. Segundo a agência, os bancos tem necessidade de capitalizar, mas a flexibilidade

Juros da dívida portuguesa batem máximos históricos na Grécia e Espanha Vai ser criada uma nova linha de crédito para países da zona euro em dificuldades, segundo o que foi anunciado pelo FMI a 22 de Novembro. De acordo com a instituição financeira, o novo mecanismo vai ajudar grandes economias, para quebrar as temidas cadeiras de contágio de stress a nível global ou regional. Nessa terça-feira, na maturidade dos cinco anos, a taxa de juro subiu dos 13,454 por cento para os 13, 473.

Júlia Rocha

A crise nos bancos - foto: DR

Governo brasileiro reajusta o valor do salário mínimo O governo brasileiro enviou ao Congresso Nacional uma revisão para o valor do salário mínimo em 2012, que vai passar de 619,21 para 622,73 reais, cerca de 255 euros. O salário mínimo no Brasil é reajustado, com um aumento de 3,52 reais, com base na previsão do Índice Nacional de Preços do Consumidor (INPC), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que, em Agosto, quando foi enviada a primeira proposta de orçamento ao Congresso, estava em 5,7%.

O spread neste prazo situava-se nos 1.249 pontos base. No prazo dos dez anos, os juros seguiam nos 11,281 por cento, com o spread nos Porém o índice passou para 6,3%, por causa da subida da inflação, e isso levou à 937.3 por cento. Na Grécia, a tendência também foi de subida, assim como em proposta de reajuste. Espanha. Irina Ribeiro Júlia Rocha

Cotações de Mercado


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Local

“Há quem seja contra as coligações, mas o Porto é um exemplo onde as coisas funcionam bem”

A líder distrital da JP Porto entende que a consciência dos jovens está cada vez mais crítica mas falha a comunicação, porque segundo Vera Rodrigues, a liberdade é condicionada pelo bloco central do Estado. Já no Porto, PSD e CDS têm sabido trabalhar “respeitar-se e trabalhar em conjunto”.

em conseguir lançar um comunicado ou uma Como agora se diz que os jovens estão cada vez mais afastados da política, como está a juventude VR: O conservadorismo não tem de ser entendido tomada de posição num jornal nacional, mas se necessariamente como algo mau. Talvez num calhar já conseguimos ter mais facilidade em fazê-lo popular em termos de popularidade? nas redes sociais, por exemplo. VR: Eu diria que nós estamos num momento E qual é o balanço de três eleições em que de contra-ciclo. Quer queiramos quer não, houve coligação? A vossa representação a realidade recente tem trazido algumas ficou valorizada como partido? mudanças que têm mexido efectivamente com a consciência dos jovens, que é cada Muitíssimo. Dentro do partido e da JP há vez mais crítica e informada e isso faz com quem seja contra as coligações, mas o Porto que muitas vezes a sua própria ânsia de é um exemplo onde as coisas funcionam participação e manifestação, seja de que muito bem. Nós temos conseguido ter forma for, possa acontecer. nas juntas de freguesia esse trabalho de proximidade. Nesses meios, conseguimos Não concordamos de todo que os jovens claramente crescer, porque fruto do nosso estejam alheados da política, estão cada trabalho, o reconhecimento veio por vez mais envolvidos noutras formas de acréscimo. associação mas estão cada vez mais críticos. Tenho dificuldade em aceitar que estão O facto de termos conseguido ganhar mais afastados, porque o sinal que nós o segundo mandato alimentou mais o temos tem sido contrário. Temos estado a reconhecimento de que as coisas estavam crescer bastante em termos de estruturas A vereadora Vera Rodrigues- foto: Liliana Pinho a ser bem feitas. Estive na junta de freguesia e de implementação, temos nalguns casos alguma dificuldade de comunicação. O CDS e a JP sofrem momento como este, com as circunstâncias em que de Paranhos nos últimos quatro anos e tive a de um mal. Há um conjunto de mitos que de todo vivemos, o conservadorismo possa ser uma coisa oportunidade de acompanhar tantas coisas que uma correspondem à realidade, que nós somos o partido boa, quando pensamos em mudanças bruscas, como junta de freguesia pode fazer bem, sobretudo no dos ricos, dos betos da foz, e não é verdade. É uma a que o governo do partido socialista que fazer. Se apoio social. ideia completamente errada que tentamos despir. calhar, se fosse o CDS ou eventualmente até o PSD, É na proximidade que se tem com as pessoas que se Nós temos militantes que vivem em bairros sociais, era apelidado de ultra-liberal e fascista. consegue fazer aquilo que pode parecer simples mas como temos militantes que vivem na foz. É evidente que não podemos continuar como é complicado e determinante para a qualidade de Mas não lhe parece que posições do tipo ser estamos. Temos de repensar o país e perceber que vida das pessoas. Ali, sentimos que cada orçamento contra a lei actual do aborto ou contestar algumas não temos suporte, porque também não temos e cada verba disponibilizada era empregue e muito medidas de reposição de igualdades em relação população para aguentar a estrutura que temos bem empregue. aos homossexuais são um pouco anacrónicas e se definida ao nível das entidades públicas e do sector governamental. Este conservadorismo, em algumas Há pouco tempo, determinou-se que a limpeza calhar contribuem para alimentar esse mito? situações, e nomeadamente situações de crise, pode de uma parte da cidade ficava a cargo de uma VR: Não, é preciso que não misturemos as coisas. ser importante como factor estabilizador. É nessa empresa privada que, segundo o comunicado do PCP custaria no início um determinado valor (5,4 É evidente que o partido terá uma ideologia que medida que leio o conservadorismo no CDS. milhões de euros). Quando foi feita a adjudicação podemos considerar dominante ou não, mas se era outro (7,1 milhões de euros) e quando vemos eu lhe disser que dentro da juventude popular há Como é que a JP transmite estas ideias aos a conta de gerência, era um valor ainda superior pessoas a favor do aborto ou a favor do casamento jovens? Como é que têm criado uma política de (8,4 milhões de euros). Isto não dá a parecer que homossexual provavelmente não acredita, mas é proximidade com a cidade e especialmente com a algo ilegal está a acontecer? Universidade do Porto? verdade. Não está a pegar, em parte, numa informação O partido tem uma forma de pensar que defende, Temos um gasto público devidamente factual, na medida em que sendo mas nem todas as pessoas que estão dentro do CDS um comunicado do PCP e tem á partida algum insustentável e uma conteúdo de combate. Eu não conheço o valor em ou da JP pensam exactamente da mesma forma. O que me preocupa é o que a JP e o CDS defendem população que com o que que possa ter havido essa derrapagem, mas há um princípio fundamental - o Estado e os organismos e nesta lógica assumimo-nos como o partido mais públicos devem revelar e supervisionar bem. Temos conservador, mas isso não tem de fazer de nós os produz não paga o que gasta. organismos públicos a mais, temos um gasto público aliens que não têm noção nenhuma daquilo que se passa na realidade e tão pouco quer dizer que todas Há aqui várias dinâmicas e várias formas de actuar. insustentável e temos de facto, um conjunto de população que com aquilo que produz não paga o as pessoas que estão dentro do partido pensam Quando falamos de cidade do Porto podemos falar que gasta. exactamente da mesma maneira. Aliás, os nossos nos organismos de governo da cidade, onde possamos pilares ideológicos são, aliás, quase antagónicos entre estar representados. A JP, de uma forma global, tem O PCP pensa que o que venha da coligação e de Rui si. O liberalismo, o conservadorismo e a democracia feito algum contacto político e se houve deputado e Rio e dos seus vereadores é uma história parecida cristã são aparentemente incompatíveis e no fundo, juventude partidária que chamou a atenção para o com o lobo mau e que toda a gente está cheia de reúnem exactamente pensamentos que são diversos atraso na definição das bolsas de estudo, foi o nosso más intenções. Evidentemente que haverá uma mas que se tentam colocar, e se calhar por uma razão líder Michael Seufert. justificação para o caso de ter havido essa alteração face ao que estava prevista. O Estado, naquilo que histórica, há direita. Em perguntas na Assembleia da República, em atribui aos privados, não tem conseguido cumprir o E como é que combinam a ideia de conservadorismo comunicados que fomos lançando, principalmente seu papel, que é fundamental. com a ligação ao mundo empresarial e à inovação, numa política junto das pessoas onde conseguimos passar a nossa mensagem. Nós sentimos dificuldade duas ideias que o CDS pretende transmitir?


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Local

Nesse caso a Câmara não precisaria de desmentir nada, bastava ser transparente… A ter havido um desvio face aquilo que foi o inicialmente orçamentado, há necessariamente uma razão. Se a Câmara estivesse sucessivamente a desmentir tudo e a forma como aquilo que vem a público é transmitido, não fazia absolutamente mais nada. E uma pessoa apercebe-se disso por exemplo, na Assembleia Municipal. Muitas das vezes, é puro combate político. Mas também fomenta a dúvida na população do Porto.

mercado de arrendamento? A SRU tem uma participação maioritária do Governo e não da Câmara. E por isso, a forma como tem actuado é por via de parcerias com fundos imobiliários, com o próprio Estado, com a própria Câmara Municipal, mas sobre a área de influência que a SRU pode ter, já fez muito mais que a entidade que antes estava com essa responsabilidade e, para o bem e para o mal, a reabilitação da baixa não pode estar exclusivamente das mãos do financiamento público, por isso tem dependido muito também do interesse imobiliário nessa reabilitação. E o mercado imobiliário está em queda e portanto não ajuda a que haja um interesse suficiente. Ainda assim, o que se tem feito e nomeadamente a construção das unidades hoteleiras previstas para a zona da Baixa serão símbolos dessa revitalização e o tipo de equipamentos, lojas, restauração, bares… que lá se estão a instalar são prova disso mesmo. Os prédios que a SRU tem vindo a reabilitar têm tido uma procura enormíssima, portanto o que não está a ser feito não está a ser feito simplesmente porque não há financiamento.

Não creio. Muitas vezes o PS e o PCP lançam, de facto, suspeitas completamente infundadas para mostrar trabalho. E aquilo que se tem vindo, quer queiramos quer não, a perceber é que a Câmara tem feito imenso trabalho. Fala-se tanto da falta de agenda cultural desta cidade, mas provavelmente é uma agenda e são opções culturais que podem chocar com algumas forças políticas ou grupos. Mas não é segredo nenhum e basta entrar no site da Câmara, clicar na Agenda Cultural e perceber a quantidade de espectáculos que vão acontecer só nos próximos meses. Então é inevitável que o Porto continue a perder habitação, e nomeadamente, jovens? É também combate político a questão do centro materno-infantil? Qual é o real interesse da Não, de maneira nenhuma. Porque aquilo que é a Câmara do Porto? Parece que esta a haver uma Baixa hoje tem zero a ver com aquilo que era a Baixa simples luta politica usando o argumento do há cinco anos atrás. Quando vemos o tipo de ofertas PDM. que a própria iniciativa privada lá esta a localizar, alguma coisa há-de querer dizer. É um claro sinal de Há muitas dúvidas sobre a pertinência de se construir que a Baixa está a ficar na moda. Mas depois temos o Centro Materno-Infantil que têm a ver com a aqui um pequeno problema. Nós nesta altura temos localização e o projecto que os responsáveis pelo muita vida na Baixa e temos pessoas a queixaremCMI têm vindo a defender. Se vir o projecto, percebe se do barulho que os jovens fazem. A Baixa estava que aquilo é uma coisa completamente absurda sob o ao abandono, tínhamos pessoas a queixarem-se de ponto de vista do contexto e do enquadramento que assaltos na rua porque não havia movimento. Não é a área envolvente. E há um conjunto de questões é fácil gerir tudo isto. Mas o que é importante é que que têm a ver com a circulação na envolvente, que a Baixa está a ganhar uma dinâmica que eu nunca seriam absolutamente caóticas. Aquilo ficaria um tinha visto. edifício completamente descontextualizado de tudo o que estava à volta. Também se coloca a questão se Relativamente aos cortes orçamentais que serão é ali que faz sentido construir ou não. levados a cabo na autarquia, em que se pode canalizar essa poupança? Parece-lhe suficiente o papel que a SRU tem desempenhado? A Câmara poderia ter um papel Eu acho que há áreas em que a Câmara do Porto mais interventivo, por exemplo promovendo um não pode deixar de investir – a área social e a área

da educação. Tem-se investido muitíssimo nas parcerias com as empresas de construção para ajudar a que os próprios habitantes possam fazer a recuperação das suas casas. Porque são áreas críticas para o Porto, nesta altura. Eu se calhar punha à frente da cultura, por exemplo. Claramente que sim. Nós temos que ter no Porto uma população e crianças que tenham condições de crescimento salutares, porque a não existência destas condições, inquina completamente as gerações que virão. E por isso temos de criar condições de formação, boa educação… principalmente às classes que mais o necessitem. Para construímos um Porto mais equilibrado e que seja um Porto de futuro. Liliana Pinho

Vera Rodrigues divide a sua actividade profissional entre a Economia e a presidência da distrital do Porto da Juventude Popular. Acredita que a Baixa está a “a ficar na moda”, mas os jovens continuam a sair do centro por causa do ritmo lendo da reabilitação, que se deve às “circunstâncias actuais, que não ajudam à dinâmica do mercado imobiliário”. Afirma ainda que a esquerda do Porto critica para “apresentar trabalho” e que “tem muito pouco conteúdo” no combate político que leva a cabo. Acredita que se deve investir cada vez mais na área social e educativa.

“Prepare-se a Invicta, que se vai cantar o Fado”

O Fado nasceu em Lisboa mas apaixonou a Cidade da Porto. Se durante algum tempo se perderam os acordes pelas ruas da cidade, as casas de fado estão cada vez mais na moda na noite portuense. Jantares que são autênticas especialidades, petiscos, ceias, Fado Vadio e Fado de Coimbra preenchem as noites junto ao rio ou longe dele, para novos e velhos. São muitos os restaurantes que mantêm a tradição ou se renderam recentemente às cantorias dos fadistas.

e à música portuguesa, oferece actuações de trios e de cantores residentes há mais de trinta anos. Lília Oliveira é a responsável. Conta que o espaço abriu apenas como casa de fados, mas “houve uma época em que estacionou e desde aí, o fado só voltou em 2006” porque “o fado era muito dispendioso e tinhase de cumprir com os pagamentos, então optou-se O Mal Cozinhado, na Rua do Outeirinho, é um dos por acabar com o fado e pôr só música de baile”. mais conhecidos da cidade. Situado num edifício Agora misturam um bocadinho dos dois e Lília do século XIV, é de um ambiente histórico e rústico acredita que o fado voltou a ser uma das atracções sem igual. A decoração, de onde fazem parte bustos deste Cantinho. em bronze de fadistas consagrados, completa o ambiente. Por aqui já passaram nomes como Fernando Henriques é cliente há tantos anos quantos Amália Rodrigues, Dulce Pontes e Carlos do Carmo. tem a casa e não poupa elogios. “Fado para mim é Actualmente, de segunda a sábado das 20:30h à no Cantinho da Teresinha, porque não há casa como 01:00h, dá voz a Rosinda Maria e Valdemar Vigário, esta, com um bom cenário e um bom ambiente que “o melhor intérprete vivo do Fado de Coimbra”, que traz aqui muitos fadistas”. domina a guitarra portuguesa desde os 15 anos. E Fernando não vem sozinho, traz consigo mulher, filhos e netas. Três gerações onde o fado se mantém E escondido no Centro Comercial de Cedofeita, vivo, mostrando que a música tradicional ainda vive todas as quartas-feiras, o Cantinho da Teresinha abre nos corações dos mais jovens. Na Adega do Rio as portas por voltas das 22h para receber os amantes Douro canta-se o fado vadio há mais de 30 anos. de fado. Um local referenciado no que toca ao fado Todas as terças-feiras, num horário mais prematuro

(das 16:30h às 19h) se acompanha a música com petiscos num espaço animado e característico. Os xailes, os poemas, os retratos de fadistas e os acordes no ar não deixam enganar. Já O Fado é um restaurante típico situado no Largo de S. João Novo, em pleno Porto histórico. Todos os dias, excepto ao domingo, ouve-se cantar o fado pelas vozes de Leonor Santos, Fernando Moreira e Fernanda João. Das 20:30h às 02:00h, acompanhado do melhor vinho ou da comida caseirinha que O Fado oferece. E de quarta a domingo, em Matosinhos, quem faz as honras é o Janelas do Fado. Com um vasto elenco de catorze pessoas, com idades para todos os gostos, a noite é de cantoria na Rua Augusto Gomes. Num espaço moderno que conserva a tradição não existe consumo mínimo, só uma grande dose de paixão pelo fado. Uma paixão que parece ser comum a todos aqueles que do Fado fazem a sua alma e o seu negócio. Liliana Pinho


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Local

Roteiro

Mercearias do Porto

As mercearias centenárias do Porto mantêm os clientes fiéis e atraem cada vez mais turistas e jovens “A Pérola do Bolhão” Rua do Rosário, 277

António Reis é o actual proprietário da “Pérola do Bolhão”, depois de 90 anos a passar de geração em geração. A mercearia, que se situa mesmo em frente ao mercado, oferece todo o tipo de produtos, de chocolates a queijos e enchidos, passando pelo arroz, a massa e os enlatados. As especialidades são os presuntos, os fumeiros, os queijos e a grande variedade de frutas frescas e cristalizadas que se mantêm todo ano com a qualidade que lhes é característica. “Porque a fruta faz melhor que os remédios”, diz António Reis. Quanto à clientela há sempre os clientes fiéis “e os passantes” que entram porque está mesmo à mão ou precisam de alguma coisa imediata. Mas seja qual for o motivo da entrada, são sempre os mais velhos que a ela se rendem. Os mais jovens parecem preferir outras superfícies, “até porque nem comem o que os velhotes comem”, ri António. Na “Pérola do Bolhão” ainda se seguem tradições, mas há muito se deixou de fazer fiado. “Antes nós também comprávamos a crédito, agora conforme nos exigem a pronto, nós exigimos aos clientes”. E em dias de passeio nada melhor que dar um saltinho à “Pérola” para, quem sabe, saudar os sabores de Natal com as melhores frutas secas da cidade.

“A Favorita do Bolhão”

Rua Fernandes Tomás, 783/785 Aberta desde 1934, oferece “produtos muito específicos para clientela muito específica”. A especialização da “Favorita” estende-se a produtos que não se encontram nas grandes superfícies, ou pelo menos, que oferecem “uma qualidade muito superior”, afirma Nuno Rocha, o responsável. A oferta vai das especiarias importadas a uma das melhores garrafeiras do Porto, entre licores, vinhos de mesa, espumantes e whisky. Têm inclusive produtos da Zélly, equivalente à pasta Couto ou aos lápis Viarco que exportam para todo o País. Os clientes dividem-se entre os “da casa” que frequentam os estabelecimento “há 40, 50 anos” aos da “onda revivalista da Caderneta de Cromos e coisas do género que procuram o artigo mais tradicional”. Já o fiado só se faz aos clientes que não precisam dele, “até porque há pessoas que estão habituadas a isto e acabam por se estabelecer relações de amizade”. Não contes, portanto, passar a ser “cliente de livro”, mas podes sempre dar um pulinho na “Favorita do Bolhão” e escolher entre os inúmeros tipos de amêndoa acabadinha de chegar para a Páscoa.

“Pomar Castro”

Rua Miguel Bombarda, 160 A mercearia de Paula está na mesma família desde que o negócio nasceu, há 42 anos. Os produtos são do mais variado possível, mas destacam-se essencialmente as frutas, dispostas mesmo à entrada ou até penduradas no toldo. O tamanho, a cor e a forma fazem com que não passem despercebidas. Esta é uma típica mercearia de bairro, diferente das anteriores. O Pomar castro é uma mercearia mais jovem, com produtos mais tradicionais, mais variados e com menos especialização. É ainda um negócio pequeno de família e ainda não tem o estatuto das anteriores. Mas se os clientes até há pouco eram os mais antigos, agora até os jovens se rendem. “Há mais pessoas jovens que vieram para aqui morar”, diz Paula. Mas nesta mercearia também já não se usa a tradição do fiado. Se leva, paga. Senão, “perde-se o cliente e perde-se o dinheiro”, conta Paula O Pomar Castro acalma a fome das pessoas que todos os dias passam na Miguel Bombarda, com fome ou sem ela. Liliana Pinho (fotos de Liliana Pinho e Júlia Rocha)


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Local

“Não haverá nunca um país forte com um Porto fraco” Francisco Assis é o cabeça de lista do Partido Socialista pelo distrito do Porto. Em tempo de crise económica, Assis acredita que o melhor para o Porto é investir nas pessoas e no território. Na passada sexta-feira, num almoço de apresentação dos compromissos eleitorais do Partido para a região, o candidato à Assembleia da República falou do Porto e do que acredita ser melhor para o distrito. Para Assis, é preciso lembrar que esta é uma “região que está a atravessar uma fase de alteração do seu perfil económico”, levando ao “ aumento do desemprego, alguma exclusão e até potencial pobreza”. A solução passa por “investir na educação, na investigação tecnológica, na inovação, no incentivo à criação de novas empresas em áreas inovadoras, e na modernização de todo o tecido empresarial”. È importante ainda investir nas “áreas tradicionais e garantir que elas possam modernizar-se, qualificar-se e competir nos mercados internacionais”. E para o candidato do PS às próximas Legislativas, investimento é o que não tem faltado no Porto.

“O governo do País reconhece a importância do Porto” Para além do investimento da educação, Assis garante que a reabilitação urbana e o apoio social serão outras das preocupações. “Esses mantêm-se, adaptados às circunstâncias económicofinanceiras actuais. Há uma capacidade do Estado responder, apoiar as pessoas e de impedir que elas caiam em situações de pobreza e de miséria. E isso é algo que gostaríamos de manter”.

Estando ou não no Governo, Francisco Assis garante que defenderá sempre os interesses da Cidade. Mas não quer antecipar resultados para dia 5 Francisco Assis é cabeça de lista pelo PS no Porto - foto: Liliana Pinho de Junho e destaca a importância dos partidos na resolução de um futuro próximo. “Todos somos necessários. Uns numa perspectiva, outros noutra mas temos a “Realizaram-se múltiplos investimentos no Porto, nos últimos anos”, afirma. convicção e a consciência de que todos somos necessários na construção do Mas vai mais longe. “Julgo que nenhuma região do país teve mesmo tantos futuro do nosso País”. E o Porto é também vital na construção desse futuro. investimentos públicos como o Porto, e ainda bem que teve. É justo que os tenha “Nós não conseguiremos desenvolver o País sem ter aqui uma região activa, tido”. empreendedora e com capacidade para se impor”, garante. Liliana Pinho

A possibilidade de um futuro superior Autismo, Síndrome de Asperger: o que são, quem afectam? Cada vez mais pessoas são diagnosticadas como sofrendo de uma perturbação do espectro do autismo. A vida académica de um autista é ainda desconhecida, visto que muitos não são considerados como possíveis candidatos. Apesar dos números aterrorizadores (cerca de 1 em cada 150 pessoas), estas patologias, altamente complexas, são pouco compreendidas. A maior parte dos casos conhecidos são relacionados com crianças, e com jovens que, por causa das suas limitações não são capazes de prosseguir os estudos no ensino superior. Há, no entanto, excepções, em que estudantes com este tipo de deficiência são perfeitamente capazes de ingressarem na faculdade. Para isso, assim como em todos os níveis de ensino são necessários apoios. Ana Maria Gonçalves, da APPDA Norte (Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo) garante que, nos últimos anos já muito foi feito, mas ainda falta bastante. “A inclusão já é obrigatória, apesar da resistência de alguns professores, as coisas já são diferentes. Felizmente outros não são assim. As coisas vão melhorando, é insuficiente, mas já existe alguma coisa”, confirma a presidente da instituição.

Ana Maria Gonçalves congratula-se com a existência do decreto-lei (3/2008), que exige que haja inclusão, acompanhamento e condições específicas para pessoas com autismo, que funciona apenas a nível do ensino básico e secundário. Contudo em páginas na Internet de certas faculdades, como a FCUP há a garantia de apoio a estudantes com necessidades educativas especiais. Mas será suficiente? Não faltará apoio no ensino superior? O JUP teve conhecimento do caso de um jovem diagnosticado com síndrome de Asperger, estudante na FEUP, no 1º ano.

Segundo Alzira Rebelo, mãe do jovem, o processo de candidatura ocorreu dentro dos parâmetros do contingente especial, apesar de o jovem ter média suficiente para se candidatar pelas vias normais, e entrar no curso desejado: Electrotecnia e Ciências dos Computadores. A mãe deste jovem garante que a recepção na FEUP foi muito positiva, especialmente da parte do gabinete de apoio ao estudante com necessidades especiais, na pessoa da Dra. Helena Lopes, psicóloga. A Dra. A associação, com delegação norte em Vila Nova de Gaia desde 1984, dá apoio Helena foi a responsável por ajudar à inclusão deste estudante, desde falar com permanente a pessoas diagnosticadas (neste momento 60) e consultas que professores e alunos mais velhos, a até responsáveis da praxe académica. O caso muitas vezes permitem diagnóstico. Como em tudo o que rodeia estas crianças tem sido atentamente seguido, e os professores têm sido espectaculares, garantiu e jovens, nasceu de um esforço dos pais, e tem crescido desde então. A APPDA a mãe. tem uma residência e uma equipa permanentemente disponível. Em todos os níveis de escolaridade, focando aqui o ensino superior, a responsabilidade Segundo a mesma, a faculdade não estava preparada, “como ninguém está até dos Ministérios da Educação e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino ter necessidade de aprender, mas considero que a FEUP está a fazer tudo o que Superior tem de ser assumida. pode para o integrar.” Este jovem autista estará a receber ainda este semestre o apoio de um professor tutor. Um caso de integração bem sucedido. Infelizmente, “É pena que não haja mais pais a trabalhar em Ministérios, por exemplo. raro. Falta percorrer um longo caminho na estrada do ensino superior, para a Porque é assim que as coisas acontecem. A obrigação dos ministérios é fazer completa aceitação de quem é diferente, e por isso, muitas vezes esquecido pela um levantamento destas situações, como agora, nos Censos. Estas pessoas são sociedade. consideradas cidadãos de segunda, é esta desigualdade na nossa sociedade que Júlia Rocha eu considero muito má”.


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DEsporto

“Ando em busca dos meus limites. Felizmente ainda não os encontrei” Parecem não existir barreiras físicas ou psicológicas no mundo de Carlos Sá. O português partiu à conquista do deserto e voltou com o oitavo lugar entre os melhores ultra-maratonistas do mundo, mas não pretende ficar por aqui. Como começou a sua carreira como ultramaratonista? Sempre fiz desporto até aos 19 anos, mas depois fiquei saturado. Os meus amigos gozavam a vida e eu cansei-me de trabalhar, estudar e treinar. Entrei numa situação de stress e abandonei tudo. Não me arrependi, mas depois mais tarde engordei muito e comecei a fumar. Cheguei aos 92 quilos e o meu filho, com um ano, tentava imitar-me com pauzinhos, a fingir que fumava. Aquela imagem chocou-me e pensei para mim que não era aquele o exemplo que queria dar ao meu filho. Foi difícil, mas fui começando a correr, a fazer bicicleta... entrei para a associação Amigos da Montanha e os feitos do João Garcia, que é diretor técnico da associação, motivaram-me a iniciar-me no montanhismo. Nesse mesmo ano fiz uma expedição nos Pirinéus e foi uma descoberta espetacular. Num ano ou dois, já estava a fazer treinos diários com menos 10, 15 quilos. Em 2005 fiz uma expedição ao Perú com o João Garcia , fiquei fascinado. Começamos logo a sonhar com a sexta montanha mais alta do mundo, nos Himalaias, que tem 8201 metros e exige os limites máximos de condição física. consciência de que tinha de Desistir é a últimaTomei treinar muito mais e de estar no das opções meu máximo. Entretanto iniciei-me nas corridas de montanha como forma de treino para realizar esta expedição, que acabou por ser adiada por exigir muitos gastos. Começo desde logo a obter resultados espetaculares, a ficar nos primeiros lugares. Nessa altura fazia provas de 14, 15 km e um dia um colega meu desafiou-me para uma maratona de 47km no Gerês. Nunca tinha corrido uma maratona e tinha muito respeito por essa distância, mas envolvi-me no grupo da frente e acabei em segundo, a disputar o lugar com o vencedor. Tomei consciência que afinal até tinha jeito para aquilo. Depois dessa maratona nunca mais parei, e os resultados estão à vista. Por acaso ainda não conseguimos ter apoios para os Himalaias, mas quero acima de tudo subir essa montanha como treino para um dia mais tarde subir o Evereste, um dos meus grandes sonhos.

condições e não as aproveita. Para mim desistir é a última das opções. Qual é a sua melhor qualidade, enquanto atleta? É a persistência, sem dúvida. E uma força interior que não consigo descrever muito bem, também. Passo por grandes dificuldades, mas só no final é que me sinto satisfeito. Como é que foi a experiência na Marathon de Sables, uma das mais duras do mundo? Na Marathon de Sables, passei por situações muito difíceis mesmo. Mas houve algumas que me marcaram especialmente. Por exemplo, nós temos de levar toda a logística às costas para essa semana, só nos dão a água. Eu bebia quase 1,5l por hora. Houve uma altura em que me senti bastante mal, mas tinha de continuar. Entretanto vejo um carcaça de um camelo e, no meio do nada, passo por um poço meio seco e por um grupo de crianças. Como é que é possível? Uma delas atirou-se aos meus pés a implorar por água . Com tudo isto ganhei uma força enorme. Comecei a correr, a reagir e avistei um colega marroquino que já ia a andar, cansado. Apercebi-me de que ele estava a enfrentar grandes dificuldades. Deixei-me ir com ele, até porque também estava com dificuldades e ao menos enfrentávamos isso juntos. A partir daí fomos sempre juntos e comecei a ficar com um ritmo bastante forte. Faltavam cerca de 30 km e ele de vez em quando deixava-se ficar para trás. Entretanto, acabámos os dois com grandes ritmos, juntos e de braço dado, os dois em sétimo lugar. Foi qualquer coisa de fascinante e para mim, um dos episódios mais bonitos quer a nível desportivo quer humano. Nem toda a gente terá este lado humano, estão obcecados pela competição. Mas essa forma de estar não é a minha e orgulho-me disso.

E quais foram as maiores dificuldades que enfrentou nesta prova? Para começar, eu não consegui preparar esta prova convenientemente. Primeiro, por falta de tempo, depois, o aspecto financeiro é realmente complicado e não é fácil arranjar apoios. Por fim, as questões físicas E como é que na primeira também estão um pouco ligadas vez que participa no Alpino à falta de tempo, neste caso para Madrileño conquista o em recuperação. O meu treinador segundo lugar, só com o queria que eu fizesse vários treinos campeão europeu à sua específicos de forma a simular frente? as condições que encontro no Há coisas para as quais nem deserto, e não tive possibilidade. Carlos Sá, um vencedor. - foto: COVADONGA CUÉ/ MDS eu tenho resposta. Deve-se É que aqui para beber um litro e talvez ao potencial físico que estava aqui por descobrir e também à capacidade meio de água tenho de forçar, lá bebia 12 litros e estava sempre cheio de sede. de trabalho e de treino que o Paulo Pires, o meu treinador, consegue explorar A nível físico é muito duro mesmo. Por exemplo, nós metemos um creme em mim. hidratante nos pés, mas a areia é tão fina que entra em todo o lado , mesmo com É a trabalhar de uma forma não profissional, mas em equipa. Este trabalho as polainas nos sapatos e cola-se a esse creme e funciona quase como lixa. Ao fim não é só meu, eu não sou nenhum talento inato. Provavelmente há muitas de uns quilómetros, estamos sem pele quase. Na última etapa fiz uma lesão de pessoas que poderiam fazer o que eu faço com a mesma motivação, o mesmo esforço no gémeo e pensei quase que ia morrer na praia. Nem conseguia andar. empenho. E claro, se tivesse por trás uma equipa que, não sendo profissional, Nos primeiros três km, Cada pedra que calcava, tem provavelmente mais dedicação que muitas profissionais não têm. enquanto o músculo não Durante esta última ultramaratona do deserto, por exemplo, passei muito mal. mandava berros no meioaqueceu, aquilo era um dor Um dos meus medos era defraudar toda esta gente que me está a apoiar. Eu só muito difícil de descrever. da montanha. Mas a dor é pasconsigo retribuir todo o esforço deles ganhando provas. Isso acaba por me dar Mas estava determinado e mais responsabilidade e força, quando as dificuldades são a sério. não eram 18 quilómetros sageira e a glória é eterna que me haviam de parar. É o que é que mais o incentiva a continuar? Acabei por conseguir É também tentar superar-me. Como costumo dizer, ando em busca dos meus segurar o oitavo lugar, felizmente. Depois é a higiene... a água era pouca para limites, e felizmente ainda não os encontrei. Enquanto for preciso dar um beber quanto mais para nos lavarmos. Salvo erro, lavei a cara duas vezes em sete passo em frente e conseguir mais e melhor. Eu sou a demonstração prática de dias, porque a salitre já não me deixava abrir os olhos. Quando tirei as meias, quem sem trabalho não se consegue nada. Há muitas pessoas que têm todas as estavam estáticas. Mas as mulheres ainda sofre mais, neste caso.


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DEsporto por exemplo. E qual é a sensação de finalizar uma prova deste calibre? Eu senti-me revitalizado, sinceramente. Quer o façam a correr quer o façam a caminhar, o esforço é imenso e as pessoas vão aos seus limites físicos. Mas quem consegue concluir uma coisa destas, a felicidade é enorme. E o sentimento é igual Eu cheguei a partilhar a tenda com um madrileno que teve de desistir na segunda etapa do ano passado e ficou completamente frustrado . Este ano estava lá com um receio tal que estava quase obcecado em terminar a prova. As pessoas não se sentem realizadas se não o conseguirem e tentam as vezes que forem precisas. Este ano ele terminou sem problemas e com uma boa classificação e era o homem mais feliz do mundo. Sei que é uma pessoa reservada. Como é que foi depois lidar com todo o mediatismo que adveio deste resultado? Não foi nada fácil, mas eu aprendo fácil. E tenho aprendido a lidar com tudo isso. Tenho tentado dar resposta, até porque tenho uma grande responsabilidade . Sendo eu um exemplo para muitas pessoas, e mesmo para as crianças, sinto a obrigação de me preparar e de passar a minha mensagem. Condições inóspitas acompanharam o ultramaratonista - foto: COVADONGA CUÉ/ MDS O que é que mudou na sua vida, depois de se tornar neste “atletaexemplo”? E a nível psicológico? Essa é a minha grande virtude. A nível psicológico é preciso ser-se muito Mudou muita coisa, mesmo. Primeiro sinto-me muito orgulhoso e tenho agora forte. Como o meu treinador costuma dizer, até poderia haver pessoas com uma razão muito forte de viver, para além da minha família que já seria razão capacidades físicas superiores às minhas mas a minha força psicológica ele mais que suficiente. Sinto-me muito mais realizado e provavelmente há meia dúzia de anos atrás não encontrava a vida grandes pontos de motivação que hoje nunca viu em ninguém. Suporto a dor quase até ao limite, mesmo. Por exemplo, quando ganhei o Grand Rayd dos Pireneés tinha a ponta do pé em encontro. carne viva e quando cheguei aos 120 km os enfermeiros tentaram convencer-me Liliana Pinho a desistir mas eu estava em segundo e só faltavam 40 km para acabar. Ganhei uma força que não sei bem onde a fui buscar e consegui ultrapassá-lo e ganhar a prova. Cada pedra que calcava, mandava berros no meio da montanha. Mas a dor é passageira e a glória é eterna. Sentiu-se devidamente apoiado e seguro, na Maratona das Areias? Sim, esta prova em termos de segurança foi espetacular. Para mim foi uma novidade e eu já sabia que a logística era muito boa, mas surpreendeu-me. É-nos dado um foguete very light e aparece logo um helicóptero ao pé de nós. Depois, temos de levar anti-sépticos e agulhas de extração de veneno... é que no deserto há escorpiões, aranhas e as cobras mais venenosas do mundo. Todos os anos, em cada 100 desistências, 25 são devido a picadas e essa, juntamente com a possibilidade de me perder, era dos meus maiores receios. Já houve atletas a andarem nove dias por lá perdidos e nem mesmo com o foguete os encontraram.. Nessas situações eles aconselham que não saiamos do mesmo sítio, mas nesse caso eles entraram em pânico. Quando o encontraram estava a apanhar morcegos e a beber da própria urina, até ser salvo por uma tribo local. Mas com a organização da prova, estas situações são muito pouco prováveis de acontecer. No entanto, não podemos ter ajuda, é tudo só para controle. Se eu precisar de cuidados médicos ou de hidratar, é tudo descontado e penalizado em horas de prova. Está tudo pensado, de forma a não haver simulações. É só mesmo em situações limite em que há administração de soro,

A preparação é essencial - foto: COVADONGA CUÉ/ MDS 2011

Panathinaikos vence sem a presença de Jesualdo Ferreira

Barcelona vence Real Madrid no Santiago Barnabéu

FC Porto vence Académica de Espinho no hóquei

O clube grego Panathinaikos venceu por 2-1 o Panionios, na 13ª jornada do campeonato helénico. Começaram a partida a perder, mas recuperaram por intermédio de Leto e Katsouranis, ex-jogador do Benfica. O treinador, o português Jesualdo Ferreira tinha sido internado no dia anterior ao jogo com uma infecção respiratória. O antigo técnico do FC Porto foi submetido a exames médicos, e o repouso no internamento foi-lhe aconselhado, segundo comunicado do clube grego no seu site da Internet.

O clube catalão voltou a sair vencedor do estádio madrileno. A equipa de Pep Guardiloa venceu o Real Madrid por 3-1 conquistando 3 pontos preciosos. Consegui atingir o Rela no topo da tabela classificativa, apesar de os merengues ainda terem um jogo a menos. O Real foi o primeiro a marcar, logo aos 2o segundos. O Barcelona empatou antes do intervalo e regressou mais forte para a segunda parte. Xavi e Dani Alves fecharam a contagem. José Mourinho e Cristiano Ronaldo voltam a ficar rendidos aos catalães.

O Futebol Clube do Porto retoma a liderança isolada no campeonato nacional de hóquei. Depois de receber e vencer o Académica de Espinho, por 8-4, ficou com 24 pontos, mais dois que o rival Benfica. A vitória não deixou de ser suada. A Académica, orientada por Carlos Realista ofereceu luta e sempre uma resposta a alto nível, permitindo que os decacampeões nacionais só se destacassem no fim da partida.


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DEsporto

Inês Lopes, (mais) uma portuguesa anónima de sucesso À primeira vista, é difícil vislumbrar uma ligação entre o basquetebol em cadeira de rodas sueco e Portugal. A resposta surge em duas palavras: Inês Lopes. A treinadora portuguesa é uma das obreiras do sucesso da modalidade no país da Escandinávia. Pode soar a lugar-comum, mas os factos suplantam a suspeita. Inês Lopes é mais um exemplo de competência que Portugal viu escapar e que atingiu o patamar da excelência. “A razão pela qual vim morar para a Suécia foi para trabalhar no desporto para pessoas com pessoas com deficiência”. Assim começou a aventura.

homenzinhos de 50 anos”, remata com ironia. “Da primeira vez, ganharam só um jogo, da segunda foram bronze, nos mundiais de sub 23 ganharam o bronze, e ano passado, no campeonato da Europa de sub 22, o ouro”, conta.

italianas e a selecção inglesa, Inês foi contactada para assumir o cargo de seleccionadora nacional. Respondeu com um sim. No primeiro estágio com a selecção das quinas, confessa que se deparou com um nível mais baixo do que ao que estava habituada, “não em termos de clubes, comparando com a Suécia, mas em termos internacionais. E esse é o nível a que, quem tem ambições, tem de jogar”, afirma convicta.

Um trabalho que requer paciência, mas compensador Apaixonada por basquetebol, quando decidiu morar no final. E Inês sustenta a importância das políticas em Gotemburgo, soube que a equipa local de Bcr de formação com resultados. “Em 2007, levei um Contudo, houve aspectos na postura dos atletas (basket em cadeira de rodas) precisava de treinador. destes juniores connosco, que está agora a jogar em portugueses que mereceram a sua admiração. Sem qualquer formação específica de basquetebol Itália, como profissional. “Gostei da atitude. A nível de empenho, luta, adaptado, abraçou o desafio, que começou por ser de coração e vontade foi uma diferença muito grande. aprendizagem. “Os primeiros 2 Fiquei apaixonada por isso, anos a treinar a equipa serviram porque estava habituada para entrar no ritmo do basket à mentalidade de que só em cadeira de rodas”, afirma. tinham direitos e nunca deveres”. 2001 é o ano que marca a entrada de Inês para a equipa Sem negar que o Estado técnica da selecção sueca, sueco “toma mais conta das enquanto adjunta e 2005 um pessoas com deficiência dos momentos altos da carreira: do que em Portugal.”, passa a treinadora principal da garantindo o acesso a carro e selecção. Uma decisão “bastante apartamento adaptado, Inês difícil de tomar, porque na condena a forma de pensar altura a selecção era treinada das pessoas com deficiência, por um ex-jogador que decidiu na Suécia. “A atitude das voltar a jogar”, e que foi avante pessoas aqui é a de terem na condição de o seu adjunto ser tudo servido. Há pouca luta, Nils Ander, ex-jogador sueco. porque em princípio não têm de lutar por nada. Aí tem que Na liderança da selecção, Inês se conciliar trabalho, família conquistou o Campeonato da e desporto”, destaca. Europa da divisão A e levou Inês Lopes em acção. - foto: DR os vikings aos Jogos Paraolímpicos de 2008, feitos Apesar de enaltecer a conduta lusa, Inês responde de inimagináveis para um país onde o basquetebol não Tem 19 anos. Em 2008, levei mais dois, um deles está um modo pragmático quando questionada acerca do é de todo um dos desportos predilectos. Contudo, na Turquia, e o outro também em Itália”. que se deve fazer para aumentar a competitividade o caminho da glória esteve longe de ser fácil. “Foi do Bcr nacional. “É preciso haver pessoas a uma luta muito grande para que a federação lidasse Referências na modalidade interessarem-se como se joga lá fora, mais jogadores com o nosso basket da mesma forma que lidava com Ao longo da carreira, Inês teve a oportunidade a tomarem o passo que o Hugo (Hugo Lourenço o convencional. Durante muitos anos, cada coisinha de defrontar os basquetebolistas mais talentosos actuou durante vários anos na 1ª liga espanhola) que tinha a ver com Bcr, eles diziam “A Inês sabe, a do planeta. Do vasto leque, quais serão os que deu” Além disso, “é preciso boa organização em Inês faz”, desabafa. deslumbram a treinadora portuguesa? “O Patrick Portugal, que não há”, dispara. Anderson é um dos melhores jogadores, se não E nem a vitória no campeonato da Europa despertou o melhor do mundo. Tecnicamente é brilhante, A jornada de Inês ao leme da selecção foi, porém, o interesse dos dirigentes. “Dizia-lhes para que o mas não gosto muito da atitude dele. Gosto muito interrompida devido às dificuldades financeiras da responsável das selecções também fizesse parte da de um jogador inglês, Terry Bywater, de 4,5, e dos Anddemot (Associação Nacional de Desporto para nossa. Só no princípio de 2008 é que apareciam 1 hora jogadores australianos em geral, porque dão sempre Deficientes Motores) que não conseguiu apoios para ou 2 nos nossos campos de treino. Mas a competições o seu máximo, sempre, sempre. Eles sabem que para a participação da equipa no Campeonato da Europa nunca foram.”, diz com mágoa. A falta de apoio da obter resultados, não vale a pena fazer um treino de da divisão C, em kaunas, Lituânia, em Setembro. federação acabaria por ditar o abandono da técnica lançamento ou de cadeira a meio gás. É tudo sempre Uma situação que deixou Inês desapontada. “Fiquei portuguesa. “O nosso sucesso foi mais aceite lá fora, a acelerar”, salienta. muito triste. Estávamos a fazer um bom trabalho e pela IWBF (International Wheelchair Basketball tinham sido dados muitos passos à frente, mesmo Federation), treinadores e outros envolvidos no Bcr Dos atletas que estiveram às suas ordens, Inês que ainda tivéssemos muitos ainda para dar, e a nível internacional do que na Suécia. Isso doeu um destaca Joakim Lindén, jogador sueco de 23 anos estava a gostar muito da experiência”. A falta de bocado.” que actua na Alemanha. “Ele tem em princípio sustentabilidade económica acabou mesmo por tudo. Lançamento, rapidez, técnica de cadeira, tem culminar na paragem das provas oficiais de Bcr, em Mas antes da saída, a abnegação e o empenho de cabeça, visão de jogo, tem tudo. Foi muito bom ter Portugal, na presente época. Inês Lopes deram outros frutos e, acima de tudo, tido a possibilidade de trabalhar com ele”, revela perspectivas de futuro ao basquetebol adaptado na com orgulho. Pedro Bártolo Suécia. “Uma das coisas que eu tentei fazer com a federação foi obrigá-los a enviar uma equipa Selecção nacional às competições de sub 22. Apercebi-me que se Em 2008, fechado o capítulo da selecção sueca, não fizesse nada, daqui a nada íamos jogar com durante o qual teve convites para orientar equipas


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DEsporto

Quando sentir vale mais do que ver A maioria dos que assistem a um jogo de goalball, provavelmente sentem-se traídos. Partem com a expectativa de encontrar um espectáculo de comiseração compartilhada, onde, pelo menos, se pode actuar como figurante e adoptar a mágoa alheia para se tomar o papel de cidadão exemplar. Desenganem-se. O goalball é um desporto. Como os outros.

Foto: Pedro Bártolo Fomos assistir a um treino do Académico FC, equipa que ingressou no campeonato nacional apenas em 2005, mas que tem nas suas fileiras atletas com vasta experiência na modalidade. António Santos, de 53 anos, é um deles. Santos, como é conhecido entre os colegas, dedica-se ao goalball “praticamente desde que (o desporto) chegou a Portugal, no início dos anos 90”. A veterania não o impede de ser um dos que vive mais intensamente o Goalball. A devoção que lhe presta fica bem patente numa revelação espontânea e insólita. “Dos jogos não gosto tanto. Porque os jogos são mais parados. Há os timeouts, as substituições, enquanto aqui (nos treinos) num piso como este nós jogamos muito rápido, porque a bola nem vai para longe”. Questionado sobre o que mais o deslumbra no Goalball, António responde sem demora. ”É a capacidade de orientação que temos dentro do campo e o tempo de reacção às bolas. Fascina-me ver a bola e conseguir atirar-me para o sítio certo”, afirma. O caminho de Mário Lopes, companheiro de equipa, cruzou-se com o Goalball de uma forma que o próprio classifica como irónica. No decorrer do seu estágio, foi diagnosticada ao futuro professor de educação física retinopatia pigmentar, doença que implica a perda progressiva da visão. Mário entendeu que devia procurar outras pessoas com deficiência visual para que “pudesse vivenciar e tentar aprender alguma coisa com elas”. “Na altura em que me mudei para o Porto – estudei em Coimbra e sou de Lamego -, achei que devia oferecer os meus préstimos como treinador à ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal)”. O prazer de jogar que experimentou ao longo da primeira época fez com que descartasse sem arrependimento as funções de timoneiro. “Aquilo durou um ano e meio, porque comecei a gostar de jogar. Logo no primeiro campeonato em que participámos já joguei com eles. Depois fui a contratação milionária do Académico”.

O nascimento do Goalball remonta a 1946, mas a primeira aparição oficial data de 1976, ano em que se organizou o 1º Campeonato do Mundo de Goalball, na Áustria. A modalidade chega a Portugal em 1992 pela mão dos professores José Santos e António Santinha, que promoveram demonstrações dirigidas ao público escolar. Três anos volvidos, realiza-se a primeira edição do campeonato nacional com cinco equipas. Disputado entre duas equipas, cada uma constituída por 3 jogadores de campo mais 3 jogadores suplentes, pratica-se em recinto coberto com piso em madeira polida ou sintético, sendo necessário durante o jogo o máximo silêncio de modo a que os atletas percepcionem a bola, que tem guizos para o efeito. O objectivo é atirar a bola para a baliza adversária, cuja largura coincide com a do campo. O lançamento da bola é feito com a mão e ao nível do chão. O campo tem as dimensões do campo de voleibol (9m x 18m) e possui marcações em relevo para possibilitar a orientação dos jogadores. Divide-se em 3 áreas por equipa: área de equipa; área de lançamento; área neutra. Todos os jogadores devem jogar com vendas de maneira a que estejam em pé de igualdade, já que o desporto está aberto a atletas cegos e de baixa visão.

explica por que é que uma participação paraolímpica continua a ser uma hipótese ilusória. Para o atleta, “o factor humano ainda é o principal” entrave ao crescimento do Goalball, em Portugal. Contudo, Mário Lopes não deixa de louvar, numa esperança contida, o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em Lisboa na divulgação e captação de novos praticantes. O atleta de 35 anos, valendo-se da sua experiência de 7 anos enquanto professor de educação física, propõe até a inclusão do Goalball nos programas escolares para que os mais novos se vinculem com naturalidade à actividade física adaptada. “Como professor de educação física, acho que a modalidade se insere perfeitamente e as reacções que temos sempre que fazemos uma demonstração junto de miúdos têm sido positivíssimas”. Tiago Ferreira, estudante da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e treinador da equipa, também lamenta o escasso dinamismo em torno do Goalball, refutando que os apoios económicos sejam o principal problema. O técnico não se coíbe de apontar o dedo à Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais (ANDDVIS). “Algumas pessoas da associação estão empenhadas, outras têm mais interesses pessoais, não em divulgar e melhorar o goalball do país”. No que respeita aos materiais, Tiago acredita ser esta postura apática que impede o cumprimento dos requisitos mínimos para a prática da modalidade.”Uma bola custa 70 euros e não há ninguém a querer dar 70 euros por uma bola para 6 “ceguinhos”, como se costuma dizer. Conseguir pavilhão também é difícil: o desporto adaptado em geral tem essa dificuldade”. O rol de obstáculos que o Goalball enfrenta faz com que a modesta participação da selecção nacional em competições internacionais não seja surpreendente. O atleta Márcio Carneiro, que representa as cores lusas, aponta o II Oporto cup, realizado no Palácio de Cristal, em 1998, como aquele que marcou a entrada em cena de Portugal. A projecção à escala mundial é assim reduzida. “Na Lituânia, a campeã O que separa Portugal do mundo do mundo, fala-se de basquetebol e de goalball, aqui “Falta o mesmo que falta ao Liechtenstein no fala-se de futebol e futebol. Se o goalball ainda fosse futebol: base de recrutamento. E são muito poucos uma actividade para pessoas “normais”, tudo bem, aqueles que têm qualidade para participar a nível agora sendo um desporto para deficientes, é uma internacional.” É com estas palavras lacónicas que utopia isso acontecer cá.”, confessa o treinador Tiago Mário traça a realidade competitiva nacional e nos Ferreira com a perplexidade de quem o soube no

momento.

Integração social e a mentalidade portuguesa

Boa parte da desvalorização a que tem sido condenado o Goalball encontra justificação nas barreiras impostas pela mentalidade portuguesa em relação à deficiência visual. Mário enaltece as “muitas acções de divulgação” e a “preocupação em legislar”, mas estas “ainda não produzem grande efeito junto da sociedade”. Reforçando que esta é a concepção dominante, o atleta conta que o contacto próximo com casos de deficiência visual mais profunda alterou a sua perspectiva. “Bastou vir aqui uma ou duas vezes e uma pessoa cega levar-me ao Metro do Carolina Michaelis. Era de noite, e eu vejo muito mal à noite; essa pessoa conhece isto como a palma da sua mão e levou-me”. “O deficiente visual é (visto como) uma pessoa diminuída. Por vezes, até associam a deficiência visual a outro tipo de deficiências. A pessoa por ser deficiente visual, não é surda, nem deficiente mental”, salienta em tom amargo. Um ponto de vista partilhado por António Santos. “Nota-se alguma diferença, mas não muita.”, admite a custo. No entanto, António realça uma abertura ténue das pessoas na convivência com deficientes visuais. “Ao início, não sabem o que um cego faz, do que é capaz, à medida que vão convivendo connosco aí a opinião já muda.” O técnico Tiago Ferreira também não imaginava a autonomia do deficiente visual. “Depois de lidar mais com eles, mudou tudo, tudo, tudo. Eu achava que um cego era minimamente independente, mas tanto nunca pensei”. Quando começou a treinar equipa, Tiago lembra que a capacidade de orientação dos seus jogadores foi o que mais o impressionou. “O primeiro choque foi eles orientarem-se melhor que eu. Foi um choque, não vou dizer que não. Mesmo as bolas sem guizos, eles sabiam onde elas estavam. Essa é a beleza do Goalball. E não é preciso o resguardo académico para perceber o poder dos sentidos e da plasticidade humana. Basta-nos a sensibilidade para compreendermos. Tiago compreendeu. Espera-se que outros também. Pedro Bártolo


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Das tribos alternativas aos estilos massificados

cultura

Dos tradicionais punks, hippies e góticos aos mais recentes emos e indies, é imenso o leque das chamadas tribos urbanas a que os jovens parecem aderir cada vez mais.

A cultura é essencialmente, um modo de vida que compreende formas de agir, pensar e sentir. Sociologicamente, determina os valores e crenças dos indivíduos, assim como a forma como os seus pensamentos e sentimentos são expressados. A expressão “tribos urbanas” surge através do sociólogo francês Michel Maffesoli, em 1985, e caracteriza grupos de amigos ou jovens com afinidades e interesses em comuns, sejam estes políticos, musicais ou outros. Distinguem-se principalmente através da forma de se vestirem, mas devem ainda ser coincidente relativamente a determinados hábitos, valores e formas de agir ou pensar para serem realmente aceites como pertencentes a algum género específico. São verdadeiras culturas à parte, como o próprio nome indica.

Conceitos: Underground vs Padrão

Mariana Oliveira, de 21 anos, acredita que “ainda faz sentido” falar de culturas urbanas, mesmo que haja cada vez mais uma ““uniformização das pessoas e uma formatação na forma como pensas e te vestes, aos sítios onde vais”. Para a estudante da Universidade do Porto, “cultura urbana é um conceito muito abrangente, pode ir desde os movimentos ligados ao hip-hop e ao grafitti às tendências mais underground, digamos assim. É o que se passa nas cidades, é um pouco de tudo e nada em concreto. São jovens que têm formas diferentes de se expressar ou de ver o Mundo e que se reúnem” afirma. “Underground”, para Mariana, é “tudo o que sai da norma, da convenção”, apesar de achar que “é um rótulo um bocado idiota”. “Para mim não faz muito sentido mas utilizei o termo como eu acho que a maior parte das pessoas o entende”, explica.

Mas ao contrário de Mariana, são muitos os jovens que se engasgam perante os conceitos de um “underground” ou “tribo urbana”. Aparentemente, aqueles que seguem os “pa drões standard”, como muitos os definem. Mariana Oliveira integrou um movimento gótico durante vários anos mas acabou por deixar. “Em grupos pequenos torna-se difícil viver. Depois, acaba por haver uma estupidificação e não um progresso de tudo o que o grupo valoriza ou reivindica. Continuo a ter o meu gosto pela música, pela arte, mas afastei-me das pessoas”.

que o conceito de tribos urbanas não passa de um “estereótipo” e que “é basicamente dividir o pessoal em grupinhos, por causa da imagem”. Defende que é devido à propagação cons-tante de imagens e ideias que os jovens “acabam por adoptar um bocadinho de cada uma ou virar-se só para uma”. “Mas eu acho que adoptar um bocadinho de cada uma é mais fixe”, garante rindo.

Vítor Costa tem 18 anos, também frequenta a ACE e integra o grupo de Joana. Define tribos urbanas como grupos de pessoas que têm algum tipo de gosto O gosto pelo gótico surge devido à paixão pelo em comum “como nós que estamos aqui a jogar às século XIX, pelo vitoriano e pelo revivalismo. “Mas cartas, por exemplo”. também pela música. A música faz parte da minha Laura Del Río é despachada e não tem papas na vida, não consigo viver sem música. Costumo língua. A amiga de Vítor, igualmente com 18 anos, dizer que a minha cabeça é uma jukebox”, explica é mais assertiva. Define tribos urbanas como Mariana. E muitas destas tribos urbanas parecem “pessoas que têm os mesmo interesses, defendem os diferenciar-se principalmente pelo estilo de música e mesmo valores e portanto se juntam e desenvolvem pela forma como se apresentam aos outros através da actividades do seu interesse”. Acredita que se unem roupa, maquilhagem, acessórios e outros. “É através porque “as pessoas não gostam de se sentir sozinhas das roupas que te mostras aos outros, é o primeiro e eles têm algo em comum, portanto agrupam-se”. impacto e o que a pessoa vê. Apesar de dizeres que só valorizas o que a pessoa é, não é assim. Claro que Tal como Vítor, acredita que se justifica “cada depois te conhecem e percebe se tu também percebes vez mais” falar de tribos urbanas na sociedade se és aquilo que estás a tentar fazer passar”, explica. portuguesa, mas que “nem todas são saudáveis, porque há muitas que defendem valores errados”, Nem todos sabem do que se fala quando a do seu ponto de vista. “Por isso mesmo é que não pertencem ao meu grupo, porque não defendemos questão é tribos urbanas Joana é aluna da Escola Contemporânea de Artes do as mesmas coisas”, sublinha. Liliana Pinho Espectáculo (ACE) e tem 17 anos. Está sentada no chão, à porta da escola, com um grupo de amigos todos diferentes entre si. Ouvem e produzem música étnica, jogam às cartas, conversam e riem. Joana tem rastas, distingue-se pela roupa colorida e pela pose descontraída. Dir-se-ia que tem um estilo de inspiração hippie, mas Joana acredita

As Tribos à Lupa da Curiosidade Estas tribos urbanas surgem essencialmente como uma forma de expressão contra as normas-padrão e o estilo estabelecido e massificado. Em Portugal alguns movimentos tiveram mais sucesso que outros, mas quase todos tiveram uma representação significativa. Para os mais distraídos, ficam algumas ideias gerais que caracterizam alguns destes grupos sociais. Hip-Hoppers • O Hip-Hop surge como uma cultura artística na década de 70, no seio das comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da cidade de Nova Iorque. • São quatro os pilares da cultura hip-hop: o rap, o Djing, o breakdance e os grafittis. • O DJ Hollywood foi o primeiro a introduzir Mc’s nas festas, que animavam com rimas e frases, dando origem ao Rap.

Indies • O Indie, ou Indie Rock surge enquanto género musical no Reino Unido e EUA durante a década de 80, com influências de rock alternativo e pós-punk.

• O breakdance surge como uma forma de canalizar a violência dos ghetos, competindo com • O termo é associado aos meios de produção e distribuição de música passos de dança em vez de armas. Isto foi sugerido por Afrika Bambaataa, considerado o underground independente de grandes editoras (feita essencialmente pela padrinho da cultura hip-hop. internet) de modo a manter a independência e o controlo da carreira pelos artistas. • A Zulu Nation é a primeira associação que começa a organizar batalhas entre gangues como competições artísticas, como forma de acabar com a violência. • O conceito de indie surgia ao invés de alternativo, mas rapidamente migrou do • Geralmente, as roupas utilizadas no hip hop são largas, para que os movimentos fiquem

maiores, dando mais efeito visual à dança.

género musical para o social e o termo indie passou a ser usado para denominar bandas “da moda” ao invés das habituais underground.


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cultura

Hippies

Skinheads

• O movimento hippie surge na década de 60, com a célebre frase “Paz e

• Surgem no final dos anos 60, entre os jovens da classe operária do Reino Unido e são Amor”. chamados assim precisamente pela forma como rapam o cabelo.

• Ideias ligados à liberdade sexual, à prática do nudismo e às preocupações • Apresentam-se essencialmente com botas da tropa e suspensórios e praticam o culto à ambientais. virilidade, ao futebol e ao hábito de beber cerveja.

• Tipo de vida comunitário, nómada e em comunhão com a natureza, baseado • A subcultura skinhead não tinha inicialmente qualquer ligação a política ou a questões num socialismo anarquista que se levantava contra qualquer forma de poder raciais. No entanto, no final dos anos 70, a raça e a política viraram factores determinantes, governamental, nacionalismo, capitalismo massificação ou autoritarismo. gerando divergências e divisões entre os skinheads.

•Apresentam-se com longos cabelos compridos e em desalinho cheios de

• O espectro político abrangido pela cultura skinhead vai da extrema-direita à extrema- flores. As roupas eram coloridas e largas, cheias de pequenos detalhes e esquerda. bordados, conjugadas com malinhas de tiracolo e calças de cintura baixa à • Os skinheads em Portugal são conhecidos por defenderem valores nacionalistas e conservadores de extrema direita ligados à ideologia nazi da supremacia branca.

boca-de-sino.

•O músico John Lennon foi uma das principais figuras do movimento e o Festival de Woodstock um dos auges da cultura hippie.

Punks • O movimento Punk surge a meados dos anos 70, como uma reacção à não-violência, a alguma inércia e optimismo da comunidade hippie. Vê a sua primeira genuína representação na banda The Ramones, em 1974. • Sustenta valores como o anti-machismo, a anti-homofobia, o anti-fascismo, o amor livre, e a liberdade individual. • O estilo punk pode ser reconhecido pela combinação de alguns elementos considerados típicos, como as calças jeans rasgadas, os blusões de cabedal, os piercings ou o penteado chamado moicano. Mas também há indivíduos intimamente ligados a

Góticos • A cultura gótica teve início no Reino Unido durante o final da década de 1970, derivado do género pós-punk. • Extremamente ligada à literatura filosófica e à música, principalmente gothic rock, pós-punk, darkwave e synthpop. • Atribui grande importância à estética das roupas, da maquilhagem e dos cabelos, normalmente desgrenhados e compridos. • Combina a cultura renascentista, com o vitoriano e o death rock, baseando-se essencialmente no preto e em temas ligados à decadência, ao niilismo e ao hedonismo. • Apesar de serem frequentemente ligados ao esoterismo, ao paganismo e ao anticristianismo, a subcultura Gótica é laica, e portanto cada indivíduo é livre de escolher a religião que pretender.

Emos • O Emo surge de uma forma semelhante ao Indie. Está ligado ao Rock, mas é caracterizado por uma musicalidade mais melódica e expressiva. • Surge com o hardcore punk em meados dos anos 80, comnhecido por emotional hardcore. Só no início da década de 2000 é que se torna uma subcultura, com a popularidade de bandas como Jimmy Eat World e Dashboard Confessional. • Os fãs de Emo são normalmente associados a pessoas depressivas de orientação sexual questionável. • O próprio termo é por vezes usado como insulto devido ao surgimento e ascensão mainstream de bandas de pop punk - e não Emo, mas rotuladas como tal - com nível de qualidade musical questionável segundo certos grupos de fãs de outros géneros de Rock.


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cultura

A complexidade de Thomas Struth Está patente, no Museu de Serralves a exposição Thomas Struth: Fotografias 1978-2010. Este reconhecido fotógrafo alemão exibe o seu trabalho pela primeira vez em Portugal, com uma exposição completa e complexa, como Struth.

Cidades desertas, retratadas por Struth - foto: Júlia Rocha Thomas Struth, de 54 anos, começou por estudar pintura, acabando mais tarde por ingressar fotografia. Tem uma carreira de 30 anos, com dezenas de exposições por todo o mundo. A sua obra é muita vezes descrita como uma viagem à volta do mundo, em vários locais diferentes e épocas que apesar de se aproximarem parece bem distantes. Este ano, foi contratado pela National Portrait Gallery do Reino Unido, para fotografas a rainha Isabel II e o Duque de Edimburgo. O facto de ter nascido durante a Guerra Fria, em plena separação da Alemanha afectou o seu trabalho, como ele próprio admite: “vivi diversas situações complexas que se reflectem nas imagens”, principalmente nos retratos citadinos. Os seus primeiros trabalho reflectem cidades desertas fotografadas a preto e branco, que como Struth declarou, mostram a diversidade e as mudanças porque um espaço como uma cidade passa ao longo dos anos, quer na evolução dos edifícios, que no que se vai construindo de novo. Passou nos anos 80 para retratos familiares, e depois para as chamadas “selvas urbanas” de cidades asiáticas por exemplo. A psicologia humana também fio algo que o influenciou a fotografar retratos de famílias. Não deixou contudo de se dedicar a fotografar grandes catedrais por exemplo, como é o caso de Notre Dame, em Paris e (locais e objetos) por vezes algo desconhecidos pela população. Para o artista, o realismo é importante, como está retratado na fotografia Las Vegas 1: “há coisas que queremos saber e outras que desejamos não querer saber. As casas ali parecem mais reais que o

edifício.”. O fotógrafo condensa em muitas das suas fotografias questões de uma vida: “Quando temos 40, 50, 60 pensamos o que estou a fazer da minha vida? O que é que os meus pais fizeram?”, principalmente nos retratos familiares, como destacou. Segundo James Lingwood, comissário da exposição, o trabalho de Struth é uma viagem ao passado, ao futuro e um passeio pelo presente e “o Museu de Serralves revela-se ideal para isso, pela própria constituição das salas”. Acrescenta ainda que cada fotografia de Thomas Struth pertence a uma família de fotografias e que “isso é mais perceptível nas imagens das cidades, em que se percebe que o fotográfo está sozinho numa rua deserta. É algo metódico. (...) A abordagem fotográfica não é pré-concebida”. João Gonçalves, diretor do Museu de Serralves, destaca a riqueza e a diversidade do trabalho de Thomas Struth, assim como a importância cultural desta exposição. Acrescentou que “há uma diversidade muito grande e não é cansativo ver estas fotografias”. Aberta ao público a partir do dia 29 de Outubro, a exposição é uma verdadeira viagem pela complexidade e diversidade do trabalho do alemão. A exposição está patente no Museu de Serralves até 29 de Janeiro de 2012, e resulta de uma parceria entre os museus Kunsthaus de Zurique, Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen de Dusseldorf e Whitechapel Gallery de Londres. Júlia Rocha


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cultura Sons da Primavera chegam ao Porto no Verão

17h às 4h, mas o festival ainda se vai difundir pelo resto da cidade, em salas mais ou menos convencionais. Os primeiros bilhetes postos à Não é mito, é mesmo verdade. O venda tiveram o custo de 65€, Primavera Sound vai acontecer mas esgotaram em dois dias. no Porto, já no próximo ano, Actualmente estão disponíveis até e os primeiros mil bilhetes 31 de Dezembro ao preço de 75€ disponibilizados esgotaram em nos locais habituais, e permitem o acesso aos quatro dias de festival, apenas dois dias. quer no recinto quer na cidade. Os rumores foram muitos, mas finalmente deu-se a confirmação oficial. De 7 a 10 de Junho, no Parque da Cidade, um dos maiores festivais de música indie do Mundo cria uma artéria de Barcelona para o Porto e promete trazer grandes nomes à Invicta. O Primavera Sound vai mesmo realizar-se há promessa de se anunciar os primeiros nomes já em Dezembro.

O Porto foi a cidade seleccionada, de entre muitas candidatas do Mundo inteiro, por partilhar “com Barcelona certos traços idiossincráticos, como a sua localização junto ao mar, o agradável clima, as suas dimensões, o seu carácter empreendedor ou a sua oferta de serviços”.

Mais em http://www. optimusprimaverasound.com/pt/ O espaço tem capacidade para trinta mil pessoas e quatro palcos, com concertos a decorrer das Liliana Pinho

Pearl Jam voltam ao activo com novo álbum na bagagem Depois do anúncio da pausa que desconsolou milhares de fãs no Optimus Alive! 2010, os Pearl Jam anunciam a preparação de um novo álbum. Com vinte e cinco demos em mãos a banda vai reunir-se em Abril para começar a escolher quais as cerca de quinze músicas que vão dar forma ao sucessor de Backspacer (2009). A notícia foi adiantada pelo baixista Jeff Amment à revista Billboard depois de, em 2010, terem uma pausa “por muito tempo” devido “ao cansaço” e para investirem nos seus projectos a solo. O investimento parece ter dado frutos. Jeff Ament terá um álbum a solo em nome próprio pronto a

sair para o mercado em 2012 e Eddie Vedder deverá lançar já em Junho um novo álbum composto de músicas escritas no ukelele, Uke Songs. O primeiro single do vocalista, “Longing to Belong”, deixa antever os sons suaves e envolventes a que Eddie já nos habituou com a banda sonora de “Into the Wild” (2007). No ano em que a banda comemora o seu vigésimo aniversário, espera-se a re-edição dos álbuns “VS” e “Vitalogy”, um documentário sobre os 20 anos da banda por Cameron Crowe e um livro retrospectivo que farão as delícias dos seguidores da banda de Seattle. Liliana Pinho

Lissabon e o amor A banda lisboeta Lissabon respondeu em peso ao pedido de entrevista, numa conversa a quatro. Garcêz, Soraia, Pedro e Inês prestam um tributo à cidade de Lisboa, e perseguem o sucesso. Para eles, o amor é o principal motor da música. Como começaram os Lissabon e onde procuram inspiração para o vosso som? Garcêz: Os Lissabon começam com a vontade do Pedro e da Inês em continuar a tocar juntos e compor novos temas depois do fim dos You Should Go Ahead. Depois entrou a Soraia e através de um amigo comum soube que procuravam baterista e candidatei-me ao cargo e por aqui estou. Não acredito muito na inspiração. Acredito no trabalho e na dinâmica de fazer coisas e criar conteúdos. Acho que cada vez mais o consumo está na capacidade de reciclares conteúdos que te vão sendo dados nas plataformas que usas diariamente. Soraia: Os Lissabon nasceram de uma ruptura com o passado e do desejo de criar algo novo e fresco, por um lado, e da vontade de partilhar emoções através da música, que todos tinhamos, cada um do seu jeito,·por outro. Pedro: De uma infindável lista de nomes, um deles era Von Lissabon, significa: de Lisboa. Curiosamente, o membro mais nortenho da banda, propôs retirar o Von e ficar só Lissabon... Todos gostamos... É uma espécie de tributo à cidade onde vivemos! A inspiração... as harmonias, melodias e o ritmo. Como é que se caracterizam? As diferenças entre vocês interferem no processo criativo? Soraia: Eclécticos porque somos quatro pessoas diferentes, que procuram reinventar-se a cada ensaio e que procuram inspiração noutros artistas, noutras artes, noutros saberes e experiências sem ideias pré-concebidas sobre o que poderá ser “bom” ou “mau”. Garcêz: Somos músicos, temos gosto pela criação e procura de novos caminhos e cores nas músicas que compomos em conjunto. Decidimos situar-nos num ambiente pop mais colorido, usando temas mais obscuros e até depressivos mas sempre na ideia de transmitir esperança e que no mundo o cinzerto pode ser uma cor do arco-iris Pedro: persistentes mas impacientes... e de bom humor! Tratamo-nos bem! E já agora, de onde surgem as letras? Qual é a fonte de inspiração? Pedro: Todos os temas/canções estão relacionados e falam de “amor”. Seja amor de amor, amor de amizade, de paixão, etc... tentam passar uma mensagem positiva, já que a resposta para os problemas da humanidade está no relacionamento, melhor, entre os seres humanos. Como caracterizam a vossa relação com o público? A recepção tem sido positiva? Pedro: A resposta tem sido bastante positiva. Apesar de termos dado poucos concertos ainda, o feedback tem sido muito bom. Inês: É inevitável a comparação com os projectos anteriores, em que estivemos envolvidos, mas a reacção tem sido excelente. Os concertos e a relação com o público tem sido um estímulo para darmos um passo em frente. Garcêz: Andamos na estrada há pouco tempo, digamos que vamos no nosso quarto concerto com princípio, meio e fim. São concertos importantes porque são em espaços pequenos, intimistas, e dão-te uma liberdade de testar alinhamentos, passagens entre os temas, no fundo permitem fazer um ensaio da banda noutra localidade que não Lisboa. O que falta em Portugal em termos musicais? Mais escolas, mais apoios?

Pearl Jam preparam novo álbum- foto: DR

Soraia: Mais escolas, e nas escolas um ensino que estimule os alunos para a criatividade. Mais apoios, certamente, não existem estruturas ou simplesmente são disfuncionais no apoio à criação e divulgação. Garcêz: Cultura Musical e de consumo de música. As pessoas têm de perceber que a música não pode nem deve ser gratuita. Eu não vou á tua loja de sapatos com a ideia de que me vou calçar à borla. Se assim fosse, tu não conseguirias suportar as despesas mínimas para manteres a loja em funcionamento. Não compravas sapatos na fábrica, a fábrica não teria clientes e não pagaria ordenado dos seus trabalhadores e estes não teriam dinheiro para comprar sapatos para andarem calçados. A indústria da música é igual. É necessário movimentar dinheiro: vende discos, vender bilhetes para concertos, porque um disco tem um custo, a promoção da banda tem um custo, a banda em as suas próprias despesas e acho que esta parte as pessoas ainda não entenderam. Como têm limites à sua própria construção não entendem que ser músico pode ser uma profissão. Pedro: Falta planeamento cultural. A classe política apresenta-se extremamente inculta e não consegue reconhecer os benefícios e qualidade de vida que a cultura pode trazer. não falamos só de música... Júlia Rocha


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cultura

Cultura à Lupa “Wasting Light”, de Foo Fighters - 9/10 Depois de quarto anos de pausa, os Foo Fighters voltam ao activo com Wasting Light. Uma espera que compensou a demora. Além de manter o espírito rock e arrebatador a que a banda já nos habituou, a sonoridade parece estar mais intensa e agressiva que nunca. O trabalho e a cumplicidade estão bem presentes entre os riffs de guitarra e a batida da bateria de Taylor Hawkins. Wasting Light é um voltar às raízes, com novas e claras influências do stoner rock de, por exemplo, Queens of The stone Age em “White Limo” ou “Bridge Burning”. A gritaria desenfreada é alternada com ritmos mais serenos, como “I should have known”, sem assassinar a energia contagiante que se sente do início ao fim. Este novo trabalho traz certamente novas pérolas para o show ao vivo e justifica o porquê de Foo Fighters ainda serem um marco no rock da actualidade. Arrisco mesmo dizer que o sétimo álbum da banda de Seattle é, provavelmente, um dos melhores lançamentos deste ano - saído directamente da garagem de Grohl. Liliana Pinho

“Cartas a Um Jovem Jornalista”, de Juan Luís Cebrián - 9/10

“Nos Idos de Março”, de George Clooney 8.5/10

Um livro obrigatório para futuros jornalistas, jornalistas e para quem se interesse. Tem uma escrita fantástica e acessível, de um dos mais conceituados profissionais espanhóis (fez parte do grupo fundador do “El País”, do qual foi o primeiro director). Juan Luís Cebrián, que já trabalhou em todos os meios de comunicação, escreve cartas a Honório, um aspirante a jornalista. Estas cartas são respostas a Honório, apesar de não estarem no livro as missivas do jovem. Juan Luís Cébrian é abertamente honesto sobre a sua profissão e responde às dúvidas do jovem aprendiz, que acaba por representar todos os estudantes, e sonhadores, que querem ser jornalistas. Põe sem dúvida os pés no chão e define a clara posição de Espanha no negócio dos media. Este livro foi também um oportunidade de Cebrián responder a algumas polémicas e questões em que esteve envolvido. Apesar de não ser um livro novo, é um “must read”, pela sua envolvência e dinâmica, e pelos seus conselhos. Júlia Rocha

Nos Idos de Março transformase numa verdadeira viagem pelos escuros subúrbios da política norte-americana. O filme acompanha os frenéticos últimos dias das eleições primárias democratas, que antecedem a decisão final: qual será o candidato democrata nas eleições para a presidência? George Clooney interpreta o futuro candidato, que esconde algo terrível, e bastante expectável no mundo da política norte-americana. Mas é Ryan Gosling que rouba o ecrã com a inteligência, perspicácia e alguma compaixão, que compõem a sua personagem. Um jovem e ambicioso assessor que daria a vida pelo seu candidato, mas que não pretende deixar fugir os seus valores, nem dignidade, quando o escândalo rebenta. O filme, uma típica realização à Clooney, deixa ainda uma necessidade de continuar a viagem eleitoral. Um filme interessante e particularmente incisivo, naquele que é o mais mediático processo de decisão democrática do mundo. Conta ainda com as interpretações de Phillip Seymour Hoffman e Rachel Evan Wood. Júlia Rocha

Crítica do Dia

Angles, de The Strokes - 8.5/10 Depois de uma breve separação os The Strokes estão de volta. “Angles” é o nome do novo álbum e contraria o algo sombrio “First Impressions of Earth”, de 2006. Apesar das raízes ainda presentes, principalmente com “Undercover of Darkness”, sente-se uma música mais leve e animada. Angles é uma obra fresquinha, composta por dez novas músicas, mas que mantém a irreverência que caracteriza a banda. Os The Strokes parecem querer adaptar-se às novas influências do rock. Os ritmos são cativantes, com cheirinhos de reggae e electrónica, interferências de synth-music dos anos 80, bossa nova e uns acordes havaianos aqui e ali, numa experiência clara de introdução de novos sons. Sente-se acima de tudo a maturidade e a autoconfiança da jovem banda, com a beleza das transições de Valensi e a ousadia de arriscar, patentes do início ao fim. Este não foi o álbum de Top que se esperava, mas traz boas experiências sonoras. A banda de Julian Casablancas marcou presença no palco do Super Bock Super Rock, a 16 de Julho deste ano, no Meco.

Para estas e mais críticas consulte o Satélite Online em thesatelite.weebly.com - Também no

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Liliana Pinho


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Opinião Crónica

A procura da felicidade por Irina Ribeiro Há alguns dias atrás, deparei-me com uma situação que me deixou um pouco confusa. Num almoço em que uma família celebrava o aniversário da sua matriarca toda a gente estava bemdisposta, conviviam num ambiente salutar e todos estavam de olhos postos naquele primo, (que há em todas as famílias) que conta anedotas e que passa o tempo todo a fazer com que os outros se riam. Durante o tempo do almoço todos estavam bem, todos comiam, todos bebiam e todos, aparentemente, se davam bem uns com os outros. Até aqui tudo bem, nada de anormal. O curioso e estranho aconteceu quando, no fim do almoço, cada um, no regresso a casa, parecia uma pessoa diferente. Uma vez separados, todos tinham alguma coisa má a dizer em relação a um primo, a uma tia, a uma irmã. As depreciações iam desde as coisas mais banais, como uma tia não gostar da roupa da sobrinha, até às ofensas. Obviamente não percebi isto tudo sozinha, visto que não tenho o poder da omnipresença, contudo tenho o poder da curiosidade (que, neste caso, não sei se é bom ou mau). Neste momento, quem está a ler isto deve pensar que eu sou muito ingénua por achar estranho as pessoas falarem mal nas costas umas das outras. Mas não sou. Não sei se sou a única, mas penso que mesmo que algum acto seja feito e repetido muitas vezes e por muita gente não faz com que seja aceitável, muito menos correcto (ou faz?). Para além disso, gostaria de saber como é que as pessoas conseguem ter, quase, dupla personalidade. Digo isto, porque quando se diz mal de uma pessoa (normalmente, quando não se gosta dessa pessoa) não se está, antes e depois, junto a ela a conversar e a rir, como se fossem os melhores amigos e nada tivesse acontecido. Na verdade, já nem sei o que pensar. Será que o mundo chegou a um ponto em que a dissimulação e a hipocrisia são tão grandes e tão frequentes que uma situação destas se torna aceitável? Ou será que estes casos, embora constantes no nosso dia-a-dia, continuam a ser reprováveis e condenáveis? Apesar da procura ainda não encontrei respostas, apenas me deparei com ainda mais perguntas às quais não sei responder. Por vezes, começo a pensar que a sociedade perdeu os seus valores, ou então, simplesmente os inverteu, tornando o que era, até então, reprovável em algo, agora, aceitável. Porém, todas estas contradições são compreendidas perante uma premissa: as pessoas são seres repletos de complexidade e imperfeições. No entanto, isto não nos impede de tentarmos ser melhores, antes pelo contrário, devia estimular-nos na procura de um nível de vida superior.

Com o alvo assinalado, foi só sacar do bloco com algum receio de ferir susceptibilidade e algumas pré-concebidas na cabeça de uma comunidade fechada e desconfiada. Nada de grave, para dizer a verdade.

O problema de generalizar

por Liliana Pinho Ao fim do dia, shame on me. Sem pretender Acredito piamente que quando é para se fazer opinião, é necessário que no mínimo saibamos do que estamos a falar. Há quem goste de mandar bitaites sobre o que não vê, sobre o que não ouve e até sobre o que não conhece, gerando uma revolta popular desnecessária por se generalizar uma opinião com que a maioria não se revê. Ou se calhar só acontece comigo, até porque revolta é uma coisa que já não se vê há muito tempo no âmago português.

generalizar, nunca conheci uma comunidade tão aberta, disponível e simpática. Não houve quem não me soltasse um sorriso, quem não quisesse explicar-me o que fazem e porque o fazem, as crenças que têm e o que procuram. São uma comunidade que não vive às custas dos apoios do Estado português, que adora Portugal e a tolerância dos portugueses, em comparação com outros povos europeus.

Que aqui quer estabelecer família, porque sabe que um dia não serão enviados para longe ou julgados em praça pública por terem uma origem diferente. São pessoas que não percebem a burka, que não pretendem impor nada aos seus filhos, que ficam verdadeiramente revoltados quando os relacionam com atos criminosos que abominam e Mas voltemos à questão. Há pouco tempo surgiu que mancham a imagem da sua fé e do seu povo. a possibilidade de fazer um documentário sobre a população muçulmana residente no Porto. Por isso quando o meu câmara se queria recusar a A curiosidade, o querer conhecer e a ânsia de “entrar no bairro dos muçulmanos”, mesmo depois “jornalar” falaram mais alto e lá fui eu, como de lhe explicar como funcionam as coisas, nem se não tivesse trabalhos da faculdade para sei bem o que me apeteceu. Mas para quem ainda fazer. Rendi-me imediatamente às evidências: a pensa que todos os muçulmanos são terroristas que comunidade muçulmana no Porto concentra-se guardam kalashnikovs debaixo das vestes e bombas definitivamente entre o Cativo e a Rua Chã, com artesanais na cave, ainda há esperança. Afinal, a lojinhas, restaurantes e espaços que não deixam ignorância tem cura. espaço para dúvidas. Crónica

A natureza abjecta de ser português

por Pedro Bártolo

acometi-me de um sentimento de impotência, até de embaraço, por não poder comunicar, por mais melodiosas e simples que fossem as palavras que me ocorriam. Mas acordei a tempo e prometi a mim mesmo aprender o quanto antes língua gestual. Infelizmente, sem querer pregar a superioridade moral da minha pessoa, há sempre quem seja capaz de encarnar a boçalidade com distinta fidelidade. Fiquei a saber, pela formadora da acção, que, no que toca à legendagem destinada à população com deficiência auditiva, RTP, SIC e TVI alegaram, nas barras dos tribunais, a sua indisponibilidade para investirem em recursos humanos e materiais, dados os orçamentos de que dispõem. Os mesmos que sustentam reality-shows degradantes, carradas de telenovelas e outra programação igualmente virtuosa...

Há uns meses atrás, deparei-me com a oportunidade de participar numa acção de formação dedicada à legendagem para surdosEnquanto futuro profissional da comunicação, senti-me compelido moralmente a inscrever-me no referido workshop, pois achei A formadora presenteou-nos com outra revelação que seria o ideal para colmatar esta lacuna. de ir às lágrimas. Nos anos 90, a RTP entendeu Na mouche. Foi uma daquelas decisões que pouco que os que estariam nas condições idóneas para tempo me levou a tomar, por inofensiva que legendar, atendendo às necessidades das pessoas parecia, mas das mais acertadas. No primeiro dos com deficiência auditiva, seriam profissionais parcos três dias ao longo dos quais se estendeu a invisuais. Gerar-se-ia supostamente uma espécie acção, entrei na sala na expectativa de absorver a de cumplicidade eufónica entre surdos e cegos, enxurrada de conhecimentos que ali iam debitar estes últimos, sem dúvida, os mais habilitados para poder “engordar” o meu currículo, por agora para incorporarem nos seus relatos a informação raquítico, naquela que foi uma atitude um tanto paralinguística que emergia no ecrã. mercenária. Depressa se dizimou o meu instinto competitivo de “atacar” mais um certificado ou “Se o ser que tem consciência ética necessita de experimentar a dor no próprio corpo, de vê-la diploma. num ente querido ou em qualquer ser vivo para se A presença de um jovem surdo despertou-me para humanizar, é porque está incapacitado para amar”, um aspecto singular da surdez: a solidão mesquinha disse Ramón Sampedro, em Cartas do Inferno. Pior e sádica que impõe aos que dela padecem. A surdez é, quando nem assim, sobre esses verte um pingo não se vê, por isso não existe. Nesses instantes, de sensibilidade.


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Opinião

Indignação e necessidade

importantes com as que temos de nos preocupar enquanto cidadãos de um país e de uma Europa, que neste momento, não está em condições.

por Júlia Rocha Não podemos continuar a deixar que nos ponham A indignação percorre as ruas portuguesas. Percorre as ruas do mundo. Todos temos direito à nossa opinião e à liberdade de expressão. Nascemos com ela como um direito fundamental à vida.

nas caudas de todas as listas e que digam que um comportamento negativo é “tipicamente português”. Há quem diga que existe o direito à greve, mas também existe o direito de não fazer greve.

E, penso que os pseudo-“che guevaras” deste país têm de se lembrar que estão a ter uma atitude fascista quando julgam e quiçá, ostracizam que decide não fazer greve. Há pessoas que perdem dias de salário Quero deixar claro que pr não irem trabalhar sem justificação. Se isso dá percebo os objectivos destas greves, concordo para outra greve? Dá, e isto torna-se num ciclo com a esmagadora maioria deles. Mas, nesta altura vicioso. do campeonato, o melhor a fazer não é deixar de trabalhar e por conseguinte prejudicar a vida a O nosso orgulho está ferido, mas há que aprender muitos outros portugueses, que não podem dar-se muito e percorrer um longo caminho para a ao luxo de faltar um dia ao trabalho. recuperação. Toda a minha vida ouvi a palavra “crise” repetidamente, e não foi só nos últimos Portugueses que, desde há muitos anos, não têm, anos. A recuperação económica não está nas mãos ou nunca tiveram nenhum tipo de subsídio, meses dos políticos que estão sentados numa assembleia, extras ou férias pagas. Portugueses que precisam a discursar sobre aquilo que os portugueses de apanhar comboios e autocarros para chegar precisam ou não. Eles são o auxílio (afirmação esta aos empregos. Também recordo que os estudantes que pode ser fortemente contestada). que tiverem que faltar às aulas, não deixam de ter faltas por isso... E isto mencionando só as greves Ainda temos de abrir os olhos para muita coisa e dos transportes. reagir. Mas reagir de uma forma produtiva... O país não está em condições de parar durante tantos dias, e durante horas e períodos de tempo indefinidos. Não estou em desacordo com o direito à greve, só considero que há coisas mais rótulos na fruta criou um facto social que estava por identificar até agora: o snobismo da fruta. Criança que, no recreio da escola, merende uma maçã desprovida de rótulo, passa a ser ostracizada por Ricardo Araújo Pereira pelos colegas que só consomem fruta de marca. Mesmo no âmbito das frutas de marca, haverá A crise europeia não uma hierarquia que distingue as frutas de marcas conseguirá derrotar-nos mais prestigiadas, consumidas pelas crianças enquanto formos capazes mais populares, das frutas de marcas menos boas, de não perder de vista o consumidas pelas outras. essencial.Não permitamos, amigo leitor, que o aumento Em segundo lugar, a rotulagem das frutas atrai um dos impostos, o desemprego grupo social incómodo: os coleccionadores. Onde e o corte dos subsídios nos houver etiquetas, há coleccionismo. Se o leitor impeçam de observar os julga que estou a inventar, tem bom remédio: uma grandes fenómenos sociais fácil e rápida pesquisa na internet revelar-lhe-á e culturais como este: a fruta, agora, traz etiquetas. vários fóruns de coleccionadores de rótulos de fruta, com indicações úteis acerca do melhor modo Eu ainda sou do tempo em que havia apenas dois de recolher, catalogar e trocar etiquetas, incluindo cuidados a ter com a fruta: lavar ou descascar. dicas práticas sobre o furto de etiquetas na zona Desrotular é uma preocupação contemporânea. dos frescos dos supermercados. “Lavaste essa maçã, Carlinhos?”, perguntavam as mães do século XX. “Lavaste e desetiquetaste essa Há numismatas sem dinheiro para investir em maçã, Carlinhos?”, perguntam as mães do século moedas que aplicam os seus conhecimentos em XXI. É mais uma preocupação extra, que as mães colecções de rótulos de fruta e filatelistas falidos de antigamente não tinham. Por outro lado, o que trocam os selos pelas etiquetas em álbuns que fenómeno alargou o mercado de trabalho, gerando podem ser menos valiosos mas são tratados com o as profissões de designer de etiquetas de fruta, mesmo esmero choninhas. fabricante de etiquetas de fruta e etiquetador de fruta. Em 2011, o sistema financeiro está à beira do colapso e a realidade que conhecemos pode mudar Um analista incompetente terminaria aqui o seu drasticamente. Mas há quem ponha etiquetas exame ao fenómeno das etiquetas da fruta. Não na fruta, e quem recolha as etiquetas para as é o nosso caso. Há que ir mais além e perceber coleccionar. Só não se percebe se isso é um indício todas as implicações sociológicas da etiquetagem de que temos salvação ou mais um sinal de que o hortofrutícola. Em primeiro lugar, a colocação de mundo está mesmo para acabar.

A griffe da fruta

Editorial

Na primeira edição do Satélite, abordamos os cuidados paliativos, e consequentemente a eutanásia e o testamento vital. Numa sociedade em que as pessoas têm uma esperança de vida cada vez maior, mas também são afectadas por flagelos como o cancro e outras doenças prolongadas, com sintomas difíceis de suportar, os cuidados paliativos são cada vez mais necessários. Mas a acção paliativa não se fica pelo acompanhamento dos doentes nos últimos dias de vida, como pensa grande parte da população. Esta baseia-se essencialmente numa evolução lógica da medicina rumo a uma prática mais humana, na relação entre os pacientes e os médicos. A unidade de cuidados paliativos do hospital S. João abriu-nos as portas e relembrou-nos que estes cuidados são ainda, em Portugal, uma área pouco conhecida e desenvolvida. O nosso objectivo é abordar temas actuais, como a Greve Geral, a guerra na Líbia e a crise do euro. Mas é também dar destaque a modalidades desportivas pouco valorizadas na nossa sociedade, de forma a mostrar que há vida além dos conteúdos monocórdicos oferecidos pela imprensa nacional. Exemplo disto é o goalball, um dos únicos desportos adaptados a deficientes visuais, que começa a tornarse popular na Europa, apesar de ser praticamente desconhecido em Portugal. Para levar a cabo este projecto, fomos buscar inspiração à resistência e à força de vontade de Carlos Sá, ultramaratonista, que conquistou a Maratona das Areias, uma das provas mais duras do mundo. O SATÉLITE é uma peça única, mas esperamos que não deixe de inspirar novos alunos e que promova os valores do bom jornalismo. Apesar de jovens e ainda muito crentes na nossa (futura) profissão, defendemos um jornalismo isento, justo e revelador. Revelador dos problemas da sociedade e moderno, atractivo e interessante.


32 || Satélite - 16 de Dezembro de 2011

última sudoku

Ficha Técnica Directores: Irina Ribeiro Júlia Rocha Liliana Pinho Pedro Bártolo Jornalistas: Irina Ribeiro Júlia Rocha Liliana Pinho Pedro Bártolo Número de registo na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social): 16122011

Satélite - 16 Dezembro 11  

Jornal para a cadeira de Imprensa, por Liliana Pinho, Júlia Rocha, Irina Ribeiro e Pedro Bártolo

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