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O PAI DOMÉSTICO | POR JUVA BATELLA*

Dona saudade Q

PRESTES A VOLTAR AO BRASIL, NOSSO COLUNISTA LUSOCARIOCA BRAVAMENTE ANTECIPA DOIS BONS MOTIVOS PARA A SAUDADE QUE IRÁ SENTIR DE PORTUGAL

uando terminar de escrever isto, terei escrito sobre o futuro e, escrevendo sobre este meu futuro próximo, estarei já inundado de saudade – uma saudade que bravamente antecipo, sentindo-a como se já a sentisse há muito tempo. E creio que morar em Portugal por oito anos tem a ver com isto, fazendo de mim o que já sou pela metade, um português, ao menos nas questões principais da existência: a saudade, a forma de se defender da saudade e a alegria à mesa diante de peixe e vinho barato. Não falarei aqui da alegria à mesa diante de peixe e vinho barato, mas da saudade e da forma de se defender da saudade. E é por isso que já começo a sentir saudade das minhas duas piolhas – Alice e Clara – antes mesmo de estar longe delas; antes mesmo de pegar o avião, sair de Portugal e voltar a morar no Brasil depois de oito anos em Lisboa. Como bom brasileiro que sou, e ótimo carioca, transformo-me em

“COMO ASSIM, PAPÁ? O QUE QUERES DIZER COM ISTO? DISSESTE QUE VAIS PASSAR MAIS TEMPO NO BRASIL DO QUE EM PORTUGAL. É ISSO?” – PERGUNTA A MAIS VELHA português e sofro duas vezes mais e alguns meses antes – sofro antes do instante em que começarei de fato a sofrer. De saudade. E, assim, já tendo sofrido tanto e convencido de que não será possível sofrer mais, enfrentarei a saudade real preparado e fortalecido pelo duplo sofrimento anterior, como se o cara – digo, o gajo – já conhecesse de tempos idos essa senhora de ares melancólicos e olhos sempre um pouco úmidos e que atende pelo nome de Saudade.

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O português já nasce sentindo saudade, ou melhor, a sentir saudade, e não sabe bem de que, e atravessa o mar da vida à procura da razão de sua saudade. Se morre de morte morrida (e não “de susto, de bala ou vício”), é porque, bem investigada a causa mortis, morreu, pois, de saudade. — Como assim, papá? O que queres dizer com isto? Disseste que vais passar mais tempo no Brasil do que em Portugal. É isso? – pergunta a mais velha. — Pois é, minha linda. Portugal está num momento difícil, e o papai não arranja trabalho aqui, e por isso vou arranjar uns trabalhos lá, e… — Então vais trabalhar no Brasil? — Sim, de certo modo, digamos… É como se… bom, é como disse a vocês duas… E a mais novinha ali, parada, com um pastel de nata a ocupar toda a boca. — ... como disse a vocês duas: vou passar mais tempo no Brasil do que em Portugal. Vou trabalhar no Brasil. — Isso quer dizer que… E nós?... E a mais miudinha, conseguindo finalmente engolir o pastel de nata, diz: — … quer dizer, mana, que o papá vai morar no Brasil, mas só para trabalhar, porque à noite, toda noite, ele vem morar em Portugal pra nos dar um beijinho na testa, contar uma história da vaca amarela que deu um pum e acabou-se a história, e dormir ao pé de nós, não é, papá? Não soube responder. Vou perguntar àquela senhora, a dona Saudade. — Quem deu o pum – corrigiu a mais velha, impaciente, salvando a pátria – foi a vaca Vitória. E assim acabou-se a história.

* Doutor em literatura brasileira, o carioca Juva Batella é autor de, entre outros livros, Confissões de um pai doméstico (Planeta, 2003). Pai de Alice, 10 anos, e Clara, 6

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