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OLHO MÁGICO | POR MARCELLO ARAÚJO*

Questão de matemática NA ÁRVORE GENEALÓGICA IDEAL, TODOS SERÍAMOS GALHOS SAÍDOS DO MESMO TRONCO, SEM HIERARQUIAS — INCLUINDO AS AMIZADES

L

aurinha senta do meu lado e me mostra o livro que fez na escola. “Eu e as mudanças não nos damos muito bem”, ela escreveu, descrevendo sua resistência à troca de turma, na verdade de prédio, pois no ano que vem irá para um espaço maior, no qual estudam as crianças mais velhas. A primeira mudança de escola, há três anos, foi mais difícil para nós, pais e mães, do que para nossos filhos e filhas. No dia da festa de fim de ano, todo mundo chorava junto, cantando a letra de “O trenzinho do caipira” e enxugando as lágrimas: “Lá vai o trem com o menino, lá vai a vida a rodar...”. As festas e as reuniões de pais se transformaram em amizades duradouras. E, depois da mudança, embora a vida a rodar tivesse espalhado o grupo por quatro escolas diferentes, continuamos nos encontrando. Já faz quase quatro anos que viajamos juntos, pelo menos duas vezes por ano: uma viagem com as crianças e outra somente dos pais. A viagem com os filhos é sempre de carro ou ônibus. Vamos para uma casa alugada na praia ou para um hotel-fazenda. Cada um que chega é recebido com um carinhoso “Olha quem chegou!”. Um marco da passagem do tempo foi na viagem para a praia do ano que passou: a pelada que jogamos, pais e filhos misturados em dois times. “Passa, pô! Você é fominha, não passa a bola!”, grita para mim o João, colega da Laurinha e pontaesquerda que conheci quando ele dava os primeiros passos na escola. O jogo, que durou horas, acabou empatado em 9 a 9. Para mim durou um pouco mais, pois estou mancando até hoje. Na viagem dos pais, o encontro no aeroporto acontece em um clima de excursão de escola. Vamos contando piadas no avião, mesmo nas horas de tur-

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bulência, e, depois, cantando na van. Todo mundo tem uma história: “Aquele Chevette era uma belezinha...”, “Pitágoras era vegetariano, o cara era muito louco...”, “Meu pai cantou no Chacrinha...”, “A gente pegava a prancha, colocava no ônibus e passava o verão em Ubatuba...” e por aí vaí. Resumindo: pode-se dizer que as crianças organizaram esse encontro para os adultos brincarem e fazerem novos amigos.

PERGUNTO SE NÃO TERIA QUE SER DIFERENTE, COM OS PAIS MAIS ACIMA E AS FILHAS, O CACHORRO E O PEIXE MAIS PARA BAIXO. “AH, PAI! NÃO TEM MATEMÁTICA NESSA ÁRVORE...”, ELA ME RESPONDE, E SAI ANDANDO. De volta para o livro da escola. Olhamos juntos o que minha filha imagina para seu futuro, próximo e distante. Laurinha me mostra a página em que aparece com uma roupa branca, uma cruz vermelha no chapéu e cercada de peixes e cachorros. Na legenda ela conta que vai ser veterinária — e feliz. Além de uma árvore genealógica oficial e completa, Laura desenha uma menor, na qual estamos nós, os pais, Carolina, a irmã mais velha, o cachorro Juba e seu finado peixe Zezinho, vítima “da doença dos olhos grandes”. Nessa árvore, todos somos galhos saídos do mesmo tronco, sem hierarquia. Pergunto se não teria que ser diferente, com os pais mais acima e as filhas, o cachorro e o peixe mais para baixo. “Ah, pai! Não tem matemática nessa árvore...”, ela me responde, e sai andando.

* Pai de Laura, 8 anos, e Carolina, 20, o ilustrador Marcello Araújo é autor das coleções “O saco” e “1, 2, 3 e já!” e acaba de lançar o livro Psiu!

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Revista Lilica&Tigor 10

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