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nha maior felicidade é ver um carro sair inteiro da oficina depois de chegar guinchado. Não há satisfação maior”, diz.

Paixão pesada

Para que crescer? Para dirigir, ué Aos três anos, Ana Carolina Yamakawa representa uma geração que colocará por terra os padrões arquetípicos sobre homens e carros.  Todos os dias, quando vai à escola, há uma mulher na direção. De sua cadeirinha, ela acompanha os olhos amorosos da mãe que zela por ela através do retrovisor. Talvez pela naturalidade desse exemplo cotidiano, ou simplesmente pelo prazer de andar de carro, Carol diz ter decidido o que fazer quando crescer.  Um dia, antes que a mãe usasse a estratégia do aviãozinho para fazê-la comer, a menina adiantouse à colher e pediu mais. “Quero comer um montão, mamãe”.  Para quê? A mãe quis saber. “Para crescer logo”. E para que crescer logo? “Pra dirigir, ué!”.  Óbvio assim, “Ué!” Em outra situação, depois de ver Carros no cinema (sim, ela pediu), Carol quis que os pais lhe comprassem uma casinha. Não a da Barbie, mas a do Relâmpago McQueen. Tinha de ter um Ferrari estampado nela. No estacionamento da casinha, ela colecionaria carrinhos, bicicletas, motos e tudo o mais que se automove sobre rodas; inclusive um modelo vermelho que ela pode dirigir pelos corredores da casa. Para quem vê nisso uma tendência masculina, não se engane: ela se veste de rosa, pinta as unhas, quer passar as maquiagens da mãe e ser a princesa do pai, como qualquer garota. Quando Carolina finalmente tirar sua habilitação, é provável que a dualidade homem versus mulher ao volante esteja obsoleta, e os carros saiam de fábrica com configurações cada vez mais pensadas para elas ou mais customizadas. Mas é preciso não se esquecer das mulheres que teceram essa história de sucesso e igualdade, conquistada como numa corrida de bastão, passado de mão em mão por Bertas, Stellas, Fabianas e Carols.

No imaginário popular, as boleias de caminhões ainda são um reduto essencialmente masculino. Mas quem conhece a realidade da profissão sabe que a presença das mulheres nas ruas e rodovias brasileiras é cada vez maior

POR LILIAN LOBATO

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cupantes pouco usuais das boleias dos caminhões, as mulheres vêm, gradativamente, desconstruindo o mito de que a profissão de caminhoneiro é exclusividade masculina. Para isso, contam com o incentivo da família e de empresas como a Braspress Transportes Urgentes, parceira da Iveco que há mais de uma década aposta no talento feminino atrás do volante. Atualmente, elas ocupam 40% dos cargos de motoristas da frota da empresa. É o caso de Maria Nunes Campos, 54 anos. Quando foi contratada pela Braspress, em 2002, ela já contava doze anos de experiência como motorista. Mesmo após uma década e meia na profissão, ela não esquece as dificuldades do começo da carreira. “Quando comecei, as mulheres não tinham tanto espaço como têm atualmente. Para se ter uma ideia, toda vez que ia entregar as mercadorias ao fornecedor, os funcionários ficavam observando possíveis erros durante as manobras. Isso raramente acontece nos dias de hoje”, recorda. Embora o aprendizado tenha sido precoce – ela aprendeu a dirigir aos 15 anos de idade – Campos só conseguiu a carteira de habilitação bem mais tarde. “Desde a infância admirava as pessoas dirigindo. No entanto, somente tirei a carteira de habilitação na categoria B, para dirigir carros, aos 34 anos”, revela. A autorização para dirigir caminhão surgiu logo depois, em um misto de necessidade e oportunidade. Precisan-

Maria Nunes Campos, caminhoneira há 15 anos: “Quando comecei, as mulheres não tinham tanto espaço como têm atualmente”

Fotos Ignácio Costa

capa Ana Carolina Yamakawa: paixão que vem do berço

ses contratempos desencorajou a jovem. Resultado: os homens acabaram se rendendo à competência dela, e o número de clientes mulheres chega, hoje, a 70% do total da clientela. O pai, feliz, deulhe o apelido de Marcha Lenta, injusto ao ritmo de trabalho da moça, mas que ela nunca reclamou.  Ao contrário, ela se orgulha de ser, ao lado dos irmãos Gasolina, Graxa e Rosca Fina, uma peça importante do time. Fabiana não reclama para si o título de precursora na profissão nem de agente de transformação de oficinas mecânicas – hoje numerosamente mais clean –, mas sabe que tem seu lugar entre as que abriram caminho para a mudança. “Mi-


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A caminhoneira Alcione Mara da Silva mantém em dia os cuidados com a beleza

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do melhorar a renda para ajudar na criação dos dois filhos e trabalhando como responsável pelo setor de entregas de um depósito de cargas, Maria Campos vislumbrou a chance de melhorar de vida se investisse em uma carreira que estava logo ali ao lado. “Como caminhoneira poderia contribuir mais com as despesas de casa”, explica. Logo após ser aprovada no exame de habilitação da carteira específica para veículos pesados ela conseguiu uma vaga na própria empresa onde trabalha atualmente.

Maria Campos ressalta que, no início, o trabalho como caminhoneira teve forte impacto na família. Os filhos sempre foram grandes incentivadores e ficaram satisfeitos com o passo dado pela mãe. “Já meu marido não gostou muito da ideia, no começo. Ele ficou preocupado com a minha segurança, mas hoje me apoia e tem muito orgulho do trabalho que faço”, conta. Segundo ela, conciliar o trabalho com as tarefas de casa é um dos maiores desafios, e exige esforço e dedicação. “O fim de semana é reser-

vado para a limpeza da casa, estudos e, claro, um breve descanso”, lista. “É também no sábado que vou ao salão, arrumo os cabelos e faço as unhas. Entretanto, diariamente não deixo de passar um batom e cuidar da minha imagem”, explica. A profissão de caminhoneira também se tornou sinônimo de realizações para Maria Campos. Além de ajudar nas finanças domésticas, ela conseguiu comprar seu primeiro carro zero quilômetro e pagar a faculdade – ela cursa o terceiro ano

de Letras. “É muito gratificante adquirir conhecimento e ter sabedoria para buscar o que desejo. Não tenho intenção de sair da empresa, mas almejo atingir cargos superiores. Preciso aproveitar as oportunidades dadas pela vida”, revela. Prazer em família Na família de Alcione Mara da Silva, 37 anos, o prazer de dirigir parece estar no sangue. Ela descobriu a paixão pelos caminhões com o marido, também caminhoneiro. “Eu o acompanhava em viagens a trabalho e acabei aprendendo a gostar da profissão”, relembra Silva, que destaca também o desejo do filho de 20 anos de seguir o mesmo caminho. “Ele é motorista, mas trabalha com carros em função de não ter completado 21 anos. Entretanto, logo irá tirar a carteira de habilitação para dirigir caminhões. O amor pela direção é de família”, afirma. Há dois anos na Braspress, ela diz estar satisfeita com a função. “Sou técnica de enfermagem, mas nunca me vi atuando na área. Como motorista me sinto realizada”. Como a colega Maria Campos, Alcione Silva acredita que conciliar o trabalho com tarefas domésticas é o mais difícil em sua rotina. “Mas sempre arranjo um tempinho para sair para pescar com meu marido. É quando consigo me desligar da rotina pesada”. Os cuidados pessoais também não são deixados de lado pela motorista, que gosta de manter cabelos e unhas sempre arrumados. “Batom e o blush também estão sempre comigo no dia a dia”, destaca. Para a caminhoneira, a profissão só pode ser destinada a pessoas que realmente têm prazer em dirigir. “Pretendo continuar na área e o próximo passo é fazer o exame de habilitação para dirigir carretas”, revela.

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