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As duas mil vidas de Ricardo Slayer

As duas mil vidas de Ricardo Slayer por: Lilian Kate Mazaki

Um homem com uma identidade incógnita. Alguém que anseia por respostas, para algo, para todos e para si próprio. Influente, inteligente e perspicaz. Conheça mais sobre Ricardo Slayer você também.

Ricardo Slayer, um homem de pouco mais de vinte anos, trabalhador ordinário de uma firma de publicidade em uma grande cidade. Alguém de passado um tanto misterioso e com o hábito de manter as pessoas longes de sua história. Educado, tranquilo e amante de boa literatura. Talvez um desafortunado sem solução no campo amoroso, mas ainda assim alguém que não parecia insatisfeito com o próprio estilo de vida. Em suma, alguém comum, que em um momento inesperado seria jogado em uma série de acontecimentos que iria mudar drasticamente seus conceitos e valores em relação a tudo. Uma trama que nem em duas mil vidas se poderia explicar.

***

Como era de seu costume aos sábados pela parte da tarde, Ricardo Slayer aproveitava a hora livre sentado em um local tranquilo do grande parque público no centro da cidade. Era um local muito diferente da agitação das ruas e ficava a menos de um quilômetro do apartamento onde morava. Um local ideal para alguém buscando relaxar de uma exaustiva semana de trabalho estar naquele horário. Porém, aquela tarde não estava sendo nada comum, isso porque ele estava sendo abordado por um estranho e desengonçado rapaz vestido de missionário. Talvez fosse menos incomum se não fosse o fato do rapaz na verdade ser ele próprio: ― A verdade é que cada sonho que se tem, se trata de uma vida paralela que está em andamento, e todos nós vivemos simultaneamente. - disse o jovem missionário. Sua face era a exata

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de Ricardo, porém seus cabelos eram curtos, aos moldes os frades, ou assim era o que pensava. Suas vestes eram inegavelmente de algum mosteiro dos mais humildes, porém aquela conversa estava demasiada diferente do que se esperaria para um religioso. ― Hm. . . ― foi tudo o que Ricardo conseguiu expressar. Expressava toda a sua desconfiança e temor daquele inofensivo servo de Deus com o olhar, mas o outro parecia determinado o bastante para não se afetar pela postura do outro, que sequer havia se dado ao trabalho de levantar-se do gramado para ouvir suas revelações fantásticas. ― Por exemplo, eu sou você em uma das suas outras vidas paralelas. ― continuou o frade. ― Hm. . . ― Ricardo olhou ao redor em busca de alguma câmera de televisão. Aquilo devia ser uma pegadinha das melhor elaboradas de todos os tempos, ainda que ele achasse que aquela conversa fiada sobre sonhos e vidas paralelas provavelmente iria acabar com a audiência da emissora que fosse transmitir aquilo no domingo à tarde. ― No caso, Ricardo, você tem outras 1999 vidas paralelas, nessas sub-realidades que na verdade dependem dessa sua vida “principal”. ― Hm. . . ― mas e se na verdade o desconhecido fosse um serial killer incrivelmente semelhante a ele próprio? Neste caso talvez fosse melhor ser morto, pois com certeza a Polícia Federal iria prendê-lo por engano e ele seria violentado das piores maneiras imaginadas na cadeia. ― O grande problema é que, por volta de 1950 dessas suas outras vidas, acabaram percebendo que são sub-vidas suas e ficaram revoltados. ― Ah. . . ― Ricardo ficou mais interessado na história agora que havia surgido algum problema “real” no meio daquela fantasia. ― Agora eles decidiram que querem aniquilar você para que algum deles possa assumir o seu lugar. ― Hm. . . ― os pensamentos de Ricardo continuaram trabalhando em alta velocidade enquanto a história transcorria. Até que de repente, ao observar um pouco mais a disposição das árvores ao seu redor ele finalmente chegou a uma conclusão simples e clara sobre aquela conversa.

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― Você está me escutando, Ricardo? ― o frade pareceu finalmente ficar irritado com a falta de interação do outro e o fintou mais insistentemente. Para sua surpresa a expressão do outro parecia mais distante, porém ainda mais débil do que achara antes, quando ele falou. ― Isso daqui é um sonho, não é? Os dois Ricardos se encararam em silêncio por alguns minutos. A incredulidade agora também estava evidente no olhar do misterioso religioso que viera fazer a pregação do universo das vidas paralelas naquele tarde. ― Eu estava falando sério, Ricardo. ― Se aqui é um sonho, então eu não tenho com o que me preocupar. - respondeu o Ricardo real, levantando parecendo bastante animado com sua nova perspectiva daquela situação. Seu olhar parecia bastante transtornado na opinião reservada do outro. O “verdadeiro” observou com mais atenção a grama e julgou que esta parecia tão macia e verde quanto há cinco minutos atrás, apesar de agora ele saber que aquilo não era real. Estava fascinado. ― Você não entendeu o problema. Eles se uniram e conseguiram agora um meio de você estar aqui. Isso é perigoso. ― argumentou o Outro Ricardo, parecendo ficar mais exasperado. ― Quer dizer que eles realmente podem me matar? – a falta de emoção ou relevância com a qual o Verdadeiro falava sobre a possibilidade real de perder sua vida num mundo imaginário estavam tirando a paciência do Frade. ― Sim. ― frisou o sacerdote. ― E então, lá na realidade eu vou aparecer morto? ― Ricardo ainda não levava a sério a chance de existirem consequências para um sonho maluco, com cara de ficção fantástica barata. Ele estava lúcido em seu próprio sonho. Tudo o que esperava era a chance de poder fazer alguma coisa interessante dos sonhos, como voar ou pular de alturas inacreditáveis sem se machucar. ― Não. Algum deles vai substituí-lo. ― o tom de voz do frade pareceu sério o bastante para fazer o outro esquecer seus desejos infantis por um momento. ― Sério isso? E ninguém vai notar se eu não for mais eu? Lilian Kate Mazaki NUPO: Cooperação Criativa – Copyright 2013

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― Todos eles são você. O silêncio recaiu novamente entre os dois Ricardos. O verdadeiro pareceu absorver finalmente as palavras do outro e sua expressão gradualmente ia passando de uma alegria despreocupada para uma tensão amedrontada. O frade achou aquela mudança tão verdadeira que quase riu do fenômeno. Mais do que entender realmente os riscos que corria, o Ricardo comum percebeu que aquele sonho estava se transformando em um pesadelo: ― Você é um dos que me odeia? ― perguntou, hesitante. ― Ainda não, mas talvez eu mude de ideia. ― respondeu o religioso. ― Ah.... - disse o Verdadeiro Ricardo, coçando o queixo enquanto encarava um silencioso e aparentemente exasperado ‘eu’ travestido de sascristão. ― Hã... - tentou retomar a conversa de modo sério o Ricardo missionário, mas foi em vão. ― Eu já sonhei que fui um missionário? ― perguntou de repente o Verdadeiro, refletindo vagamento sobre o motivo que o levaria a sonhar com uma versão de si próprio sendo um frade. ― Você não se preocupa mesmo? – irritou-se o religioso. ― Sonhos não doem, então está tudo bem. Eu acho. . . ― Ah... então você acha isso... ― E não é verdade? ― desafiou Ricardo Slayer com um olhar quase arrogante para sua versão onírica. ― Logo vai saber. ― Nossa, isso soou ameaçador. . . ― Até breve, Ricardo. - disse o Frade, desistindo de falar mais alguma coisa e dando as costas ao outro, afastando-se sem muita pressa. ― Que maluquice. . . - comentou Ricardo para o vento agradável que soprava no seu rosto. - Até parece que eu--ai! – exclamou ele ao tentar apoiar a mão em um tronco de árvore mais Lilian Kate Mazaki NUPO: Cooperação Criativa – Copyright 2013

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próximo e sentindo um fiapo da maneira perfurando sua palma. ― Espera... Mas, como eu senti isso num sonho? De repente o jovem percebeu longas sombras tomando conta da bela grama verde. Cada vez mais longas e mais escuras. Rapidamente ele viu-se totalmente coberto pela escuridão. Levantou-se ele olhou para a direção contrária, para ver de onde afinal vinha aquilo. E Ricardo não se surpreendeu quando viu um conjunto de arranha-céus que quase chegavam às nuvens escuras que estavam mais ao alto. Ele se perguntou, por um momento, de onde teriam afinal vindo as nuvens. Mas ignorou completamente o fato de também não saber de onde tinham vindo os prédios. Sem saber mais o que poderia fazer de bom naquele parque imaginário, ele decidiu que era uma boa ideia conhecer aquelas construções mais de perto. Caminhou até a entrada do hall do prédio mais próximo e sem aviso as portas de vidro se fechada às suas costas. Dentro o lugar era luxuoso e espaçoso, porém o silêncio completo deixou Ricardo apreensivo. Se aquele era um pesadelo muito bem elaborado, com certeza estaria chegando perto da parte onde as coisas se complicariam. Acreditou que provavelmente se sentiria melhor se voltasse para o agradável parque, por tanto deu meia volta e puxou as portas. Só que quando estas abriram o homem deu de cara com algo que não esperaria. Nuvens, céu, um vazio incalculável. Era como se o prédio tivesse sido transportado para o ponta mais alta e inóspita de uma montanha em um piscar de olhos. O vento que adentrou foi tremendo e o desequilibrou. Um berro escapou da sua boca quando achou que escorregaria e cairia pelo espaço sem fim abaixo. Mas neste momento alguém o puxou pela camisa: ― Hey, onde você vai, cara? ― disse uma voz masculina familiar, puxando Ricardo e o jogando para longe da porta que fechou novamente. O verdadeiro Ricardo se levantou apressado e deu de cara com outra versão de si mesmo. Este era um pouco diferente fisicamente, como se fosse um pouco mais velho. O físico do seu outro “eu” também era muito melhor trabalhado do que o seu próprio: ― Você é outro de mim? ― questionou Ricardo mais pelo vício retórico do que outra coisa.

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― Essa pergunta ridícula foi só por causa do susto, não é? Por favor, eu vou ficar decepcionado se o Número 1 for tão burro. ― respondeu o outro com um tom irascível, demonstrando ter uma personalidade bem diferente da versão religiosa de antes. ― “Número 1”? Espera, sou o “verdadeiro”, não é isso? ― confundiu-se o Verdadeiro Ricardo. ― Olha, me desculpa de dizer isso, mas. . . Você acha mesmo que um frade iria saber de alguma coisa do que tá rolando? Ele pode até ter tido uma intenção legal, te avisando das coisas, mas a verdade é que o Número 1229 é um ignorante completo na ciência da multidimensionalidade. ― disse o Novo Outro Ricardo, com um sorriso de deboche ao citar o que seria o tal “Número 1229”. ― Multi. . . Dimensões? Mas isso não era um sonho? ― agora sim o “Ricardo Número Um” estava confuso. Será que esta em um daqueles pesadelos que confundem tanto a pessoa que ela fica perturbada? ― Sim, é. Ou. . . mais ou menos. ― Você é um dos caras que quer me ver na pior né? Está me deixando maluco! ― Não! Eu vim pra essa armadilha pra te ajudar a sair. ― esclareceu o Ricardo-saradão (modo como o Verdadeiro Ricardo havia decidido usar para referir-se ao sujeito em seus pensamentos). ― Então isto é um sonho-armadilha? ― supôs, tentando encontrar algum sentido em algo que sabia não existir. ― Pode entender desse modo. Resumindo: vários dos caras que querem ocupar o teu lugar criaram uma armadilha multi-dimensional durante o sonho para poder te prender longe da realidade de forma definitiva. ― esclareceu melhor o Ricardo de físico trabalhado e camisa sem mangas. ― Me prender aqui? ― Te matar aqui Ricardo.

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― Mas. . . Se eu não sou o “verdadeiro”, porquê querem tomar meu lugar? ― Eles acreditam que a dimensão deles, por ser posterior à primeira, é inferior. Por tanto, eles querem a chance de viver algo, digamos, mais real. ― Mas que foi o idiota que conseguiu colocar numeração nas dimensões e, ainda por cima, numerar aquela vida tediosa que é a minha como a primeira?! ― exasperou-se o Ricardo Número Um, levando as palavras do outro como total verdade. ― Essa é uma boa pergunta. Nunca tinha pensado nisso. ― disse o outro, parando para refletir um momento sobre a questão. ― Provavelmente porque você não é o primeiro, isso nunca pareceu importante. ― Talvez, mas. . . Porém neste momento um som estridente cortou o ar, vindo do segundo piso para o hall. O som foi acompanhado de outros e Ricardo recuou até bater de costas no outro de si quando percebeu do que se tratavam os sons: ― São tiros?! ― Lá estão eles! ― berrou uma voz que Ricardo reconheceu como a sua própria, porém em um tom mais rouco e raivoso, e logo dois homens desconhecidos apareceram no parapeito do segundo piso para o hall com armas apontadas para os dois Ricardos próximos à entrada. ― Droga! ― exclamou o “Ricardo-saradão”, puxando sua versão comum pelo braço e avançando por um corredor próximo. ― Vai na frente, seu paspalho! ― disse, empurrando Ricardo. ― Aqueles não são outros de mim! ― Mas são capangas de um dos Slayer bem perigosos. ― Como é que vou sair daqui?! ― Você tem que encontrar uma saída por si próprio. ― Como é que é?! Você não disse que veio para cá para me ajudar?! Lilian Kate Mazaki NUPO: Cooperação Criativa – Copyright 2013

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― Mas é essa a ajuda! Qualquer porta serve, contanto que você sinta que é aquela a saída correta. Esse é o segredo para escapar de uma armadilha multi-dimensional. ― Qualquer porta?! Isso parece difícil! ― Você é burro mesmo?! Os sons de tiros ricocheteando foram se tornando mais próximos pelos corredores. Ricardo estava correndo deliberadamente mais devagar enquanto tentava entender como sair dali e o outro já estava completamente desesperado: ― Desgraçado, eles vão nos alcançar! Se morrer aqui vai ficar preso para toda a eternidade! ― e dizendo isto empurrou Ricardo com força, quase o derrubando. O “primeiro Ricardo” não parou para tentar compreender e continuou correndo. Só que antes de chegar ao final do corredor o som dos tiros e do impacto o fez olhar para trás. O outro Ricardo havia ficado parado lá atrás, numa tentativa de atrasar o avanço dos inimigos. Agora estava contra a parede, escorregando. Seu peito estava marcado com três manchas de sangue. O Ricardo original ficou tão chocado com a imagem de si mesmo baleado que perdeu o equilíbrio. Só não se estatelou no chão porque sua mão segurou em uma fechadura e ele pode apoiar-se. Viu quando os dois homens desconhecidos chegaram no corredor e observaram vitoriosos o ferido que agora já estava sentado no chão, com um olhar moribundo. Tinha que sair dali, imediatamente. Este foi o único pensamento que passou pela mente de Ricardo quando seu peso fez a mão deslizar pela fechadura onde apoiava a mão, abrindo a porta atrás de si. Essa foi sua salvação, pois mesmo que ele não tenha percebido, através da porta surgiu uma luz imensa que começou a puxá-lo gentilmente para fora daquela loucura surreal. Antes que se desse conta de qualquer coisa, Ricardo já não podia ouvir os sons do corredor, o que incluiu o berro de raiva que o Quarto Ricardo deu ao perceber que haviam errado o alvo. Porém sua visão ainda foi capaz de ver quando este o encarou, um sujeito com metade do rosto deformado, e apontou a pistola para si. Porém após isto tudo sumiu na luz.

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*** Despertou num salto. Olhou ao redor em desespero. Tudo que encontrou foi sua sala entre as sombras do início da noite e sua televisão de cinquenta e duas polegadas com créditos de um filme passando. Apenas a trilha sonora de sons graves da produção eram ouvidos na sala. Demorou algum tempo para finalmente entender novamente quem era e onde estava. Ricardo Slayer, apenas um sujeito comum, funcionário de uma firma de publicidade de algum prestígio. Um cara de passado misterioso, mas que fazia de tudo para viver de modo ordinário. Um cara que acaba de ter o sonho mais bizarro de todos os vinte e três anos da sua vida. Um sonho que ele atribuiu a culpa ao filme sobre invasões de sonhos que estava assistindo antes de dormir. De qualquer modo, apenas um sonho. Ou assim ele tentou se convencer de todas as maneiras que fosse. Talvez tenha sido difícil para ele ter coragem o suficiente para dormir com tranquilidade durante o fim de semana, porém, mais cedo ou mais tarde ele teria que adormecer para tirar a prova sobre aqueles estranhos acontecimentos.

As Duas Mil vidas de Ricardo Slayer – segunda versão - Abril 2013 Lilian Kate Mazaki NUPO – Cooperação Criativa

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As Duas Mil Vidas de Ricardo Slayer  

O primeiro conto de Ricardo Slayer, em nova versao

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