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7° SEMINÁRIO DE ARQUITETURA LATINO-AMERICANA – SAL 1995 TEMA 1- ARQUITETURA E CIDADE: Modernidade e Contemporaneidade na América Latina. TÍTULO DO TRABALHO - CASAS NO BRASIL: Dimensões de uma Praxis em Arquitetura1 • Carmem Mayrinck, arquiteta- Arquitetura 4, Arquitetos Associados, PE • Vera Pires, arquiteta - Arquitetura 4, Arquitetos Associados, PE • Clara Clabria, arquiteta - docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - UFPE - pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco FUNDAJ, PE Introdução Na sua evolução histórica, a América Latina revela expressões essenciais de valores culturais ibéricos, indígenas e africanos; no entanto, vem sofrendo influência de diversas outras culturas. Levamos em consideração os diferentes graus de assimilação que os lugares dispõem, do que resulta a formação de expressões sociais bastante heterogêneas. Evidenciam-se, ainda, uma diversificada fusão de culturas e uma permeabilidade às influências externas, como características da formação histórica latino-americana e da sua arquitetura. Nesse processo evolutivo de expressões culturais diversificadas identificam-se, em períodos mais recentes, não apenas uma sucessão de influências ou a justaposição de traços culturais pluralistas, mas a sincronicidade de distintas dimensões incorporadas à arquitetura, por vezes presentes numa mesma obra. Constata-se, ao mesmo tempo, a coexistência de assimilações díspares no fato arquitetônico influências externas e condições locais, onde interagem o civilizatório e o cultural.2 Tais dimensões - universal e local -incluem-se em nossa praxis arquitetônica, desenvolvida desde os meados da década de 70 até os dias atuais, e representada nos projetos de casas que foram construídas em diversos municípios da Região Nordeste do Brasil. Como fonte geradora para a atividade projetual das casas destacamos tipologias de residências locais e princípios moderno-universais que, por sua dimensão histórica e valores intrínsecos, assumem sentido de permanência.

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Como co-autores desta Praxis, através da realização de projeto de casas, mencionamos Liza Stacishin, Gilson Gonçalves e Marisa Dubeux. 2 Ressaltamos as discussões que se travam sobre a dialética que permeia toda a evolução de nossa arquitetura contemporânea, representada pela tensão contínua sempre presente entre o "espírito do lugar" - físico e cultural ("Genius loci", de Norberg - Shulz) - e a dimensão civilizatória ("Zeitgeist" - espírito da época ver Brown, E., 1991)


Tipologia Local A tipologia é considerada, em grande parte, como o momento analítico da arquitetura, enquanto interpretação dos seus processos históricos; e estes últimos revelam-se principalmente em nível dos elementos constitutivos da cidade. O seu valor estrutural e a sua excelência são também fato compositivo, expressão de valores ambientais, sociais, culturais, estéticos e históricos, de uma época e lugar.3 Admitimos em nosso trabalho a concepção de propostas arquitetônicas baseadas em costumes e tradições, ou numa tendência à valorização de aspectos da vida e da sua relação com o caráter peculiar de uma região, enfatizando-se os atributos que lhe são inerentes.4 Busca-se para o fato arquitetônico uma identidade singular, que pode ser constatada pelo uso de materiais e de técnicas construtivas, bem como de outros referenciais vinculados a expressões culturais e históricas. Como tipos de moradias já consagrados em nossa paisagem e referenciados em nossos projetos de casas, destacamos: a "casa grande de engenho" (reconhecida inicialmente como "casa de fazenda"); o conjunto de "correr de casas" da época colonial portuguesa; e também a tipologia de casas da década de 20, construídas em inúmeros bairros de nossa cidade. Essas casas, em seu conjunto e em suas diversas tipologias, reforçam a presença de elementos expressivos da nossa arquitetura de moradias - o sistema construtivos em alvenaria, o telhado e suas diferentes formas de composição nas caídas d'água, a telha cerâmica, e ainda a marcante utilização da madeira. As casas de engenho, sempre sóbrias e rústicas, construídas totalmente em alvenaria e estruturadas em primitivos sistemas de construção, incorporam alpendres de colunas de alvenarias, as quais servem como estrutura da edificação e como suporte para o peso da coberta. Tais construções expressam-se com honestidade, simplicidade e riqueza de argumentos em sua concepção última. As casas urbanas em fila, altas e magras, coladas nas divisas laterais e inscridas em lotes alongados, representam soluções de moradias que ainda se encontram visivelmente em áreas históricas do nosso acervo urbano. Originárias da tradição vernacular portuguesa, estreitas e profundas, caracterizam-se pelo seu aspecto simples e austero, onde os elementos de maior representatividade encontram-se na sua face exterior - mais precisamente na fachada sobre a rua e nas empenas dos telhados. A acentuada inclinação de suas cobertas (de influência também holandesa), alinhadas em ruas estreitas e tortuosas, emprestam um tom de singularidade sobre a escala e imagem do conjunto urbano. 3

Fazemos alusão ao texto "Reflexões Projetuais", do arquiteto Marco Antonio Gil Borsoi, apresentado no Sexto Seminário de Arquitetura Latino Americana - SAL, Caracas, 1993. 4 O conceito sobre regionalismo encontra-se no trabalho "Regionalismo na Arquitetura", elaborado no workshop do Programa Verão do Campus 2, sob a coordenação dos professores Gilson Gonçalves e Alexandre Braz, CAC-DAU-UFPE, Recife, 1995.


Da tipologia habitacional oriunda do início deste século e identificada como arquitetura "neocolinal simplificada", destacamos o arremate do telhado como criação vernacular inserida num tempo histórico. E, ao que parece, cogita-se para essa recriação tanto argumentos técnicos como o propósito de valorizar uma condição social e a própria edificação, face às mudanças que proporcionam na utilização singela da coberta com telha em material cerâmico aparente.5 Estas e tantas outras expressões arquitetônicas de moradias, criadas anonimamente, vão sofrendo transformações ao longo do tempo, principalmente quando se impõe uma outra forma de viver e conceber um determinado período de modernidade. Principios Universais Como marco histórico de inovação e de mudanças contundentes, ou ainda como proposta de transformação do modus vivendi em sua amplitude, difunde-se a cultura moderna, tida como universal em seu ideário social, sem seus sistemas de produção e em sua racionalidade técnico-científica. O modernismo evolui com forte poder de influir sobre inúmeros lugares, para além de seu contexto cultural europeu, conde se afirma uma tendência para eliminar diferenças em prol de um modelo civilizatório aparentemente universal, em contraposição a valores reconhecidamente locais. Estes últimos, por seu turno e em nome da preservação de uma identidade própria, não deixam de revelar uma outra face: a de legitimar formas obsoletas e conservadoras, encobrindo desta maneira uma postura mais critica e de autoreferência. No que diz respeito ao fato arquitetônico e mais particularmente à temática da habitação, esta última recria-se conduzida tanto pelas finalidade unifamiliares como para usos coletivos, e consegue evoluir desde os anos 40, deixando um legado de expressões singulares a influir decisivamente nos resultados finais que são obtidos para o arcabouço e ambiência da cidade. Todavia, evidencia-se no decorrer desse processo de mudanças, um relação de natureza continuamente conflitante entre o sentido de permanência - daquilo que é essencial - e a inovação/deformação, na medida em que se pressupõe ser possível descaracterizar e confundir valores e atributos culturais. Sob uma visão crítica, no entanto, parece-nos possível reconhecer que proposições relativas às habitações não se estruturam separadas da arquitetura entendida no seu conceito mais amplo, contrariamente ao que apregoavam certos setores do pensamento moderno. Podemos considerar também que muitas proposições sobre habitação foram concebidas no âmbito de experiências e especulações, as quais podem ser vistas eminentemente como teses e conceitos pertencentes 5

Para J.F.Lyotard, o simbolismo traduz sentidos ocultos, porém latentes na vida das pessoas. In Teixeira Coelho - texto "Cidade e Arquitetura no Cruzamento Pós-Moderno".


à história moderna da arquitetura, sem se caracterizarem de fato como referenciais mais conseqüentes. Vista sob um outro ângulo, a concepção moderna no seu legado histórico propiciou uma nova elaboração da organização interna das moradias, de modo a se obter maior flexibilidade e comodidade na vida cotidiana, dentro de padrões requeridos pela contemporaneidade. Essa busca de conforto - que proporciona maior liberdade e informalidade aos ambientes - traduz parte do ideário vanguardista dos anos 20, que tinha em Le Corbusier a sua maior expressão. A conquista de técnicas construtivas, aliada à descoberta do uso de novos materiais, atendendo inclusive }ás concepções de um "outro viver", enseja o recurso de se trabalhar maiores aberturas e transparência, do que decorrem uma sensação de leveza de um outro sentido estético nas edificações, com marcos exemplares de moradias em nossa arquitetura brasileira. As casas e suas dimensões A prática em arquitetura resulta, em última instância, de uma atividade projetual que implica, destarte, em tomada de decisções e escolhas frente a um sistema complexo de elementos que se impõem. Como resultado, faz-se necessário uma definiçãop primordial de referenciais e principios, a fim de que se possa nortear caminhos a ser perseguidos. Lembraríamos aqui, como reflexão metodológica para tal percurso, o instigante Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, que, com sua metéfora de antropofagia, define um processo de recusa, assimilação e superação em prol de uma independência cultural. O mesmo manifetso ressalta ainda o conceito de cultura em sua síntese, como transformação/recriação. As casas em consideração, e em sua concepção de síntese, foram construídas em diferentes localizações: ora inseridas nas áreas adensadas das cidades, ora situadas mais distantes do perímetro urbano. Definem-se por uma mescla de características moderno-universais e aspectos de inspiração regional. São projetos que incorporam a influência de composição clássica, com ênfase no ordenamento de eixos que direcionam a concepção de espaço, ao mesmo tempo em que refletem postulados modernos ( "corbusieranos", "writhianos", entre outros), pela utilização de planta livre, grandes aberturas, fluidez de espaços, vãos livres e tantos outros de elaboração projetual advindos do modernismo. Esse conjunto de idéias acaba direcionado principalmente pelas condições do lugar, ou pelo repertório de fatores existentes na localidade: natureza, paisagem, clima, traços da história e da cultura, técnicas e materiais de construção disponíveis. As casas projetadas pela "dimensão da época" - ou inseridas no contexto da inovação, da universalidade, do racional, finalmente dos avanços


técnicos conquistados- estão em toda parte, pelo menos no sentido subjetivo, e atualizam-se, porém sem deixar de ser influenciadas pela ambiência e natureza poética do lugar - vão assumindo, com o passar do tempo, características próprias e fincando suas raízes.6 São abordadas carateristicas peculiares a cada casa, de modo a que se perceba a liberdade de solução e expressões arquitetônicas assumidas e vistas como sinteses das dimensões já referidas. 1. Casa em Lajinha, AL, 1973-1974 Arquitetas: Vera Pires, Carmen Mayrinck, Clara Calábria, Liza Stacishin A interpretação do modo tradicional de viver da família e a utilização de princípios modernos na organização interna dos ambientes, são fatores que influíram decisivamente na definição morfológica da casa. Esta, por sua vez, foi estruturada em três blocos, interligados por um pátio central. O resgate do pátio e da sua centralidade enriquecedora proporcionaram circulação prazerosa, iluminação e aeração abundantes; sendo esta última condição essencial para o clima predominante quente da região. Outro aspecto essencial foi a consideração da paisagem que circunda a casa: atrás, a existência de um lugar histórico - "Quilombo dos Palmares" (refúgio de resistência escrava); ao lado, a usina, e na frente, o rio. Com o propósito de se apreender esses pedaços da história e da natureza, criou-se grande alpendre envolvendo toda a área de vivência da casa. A pedra - material abundante nos arredores - teve seu uso direcionado para a construção das paredes externas, enriquecendo a edificação e seus ambientes internos, por se diferenciar das demais construídas em alvenaria com massa branca. Além disso, a pedra, com sua textura natural e cor de terra, contribuiu para a integração com a natureza tão próxima. A utilização do pé-direito duplo e do mezanino, ao mesmo tempo em que atende ao prograna e às necessidades climáticas, confere o sentido de flexibilidade e de informalidade, suscitando um modo contemporâneo de viver.

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Fazemos referência à nossa praxis arquitetônica e reflexão metodológica em artigo publicado na revista Arquitetura e Urbanismo (AU) - "Sob a Inspiração da Paisagem Regional", fevereiro/março/89, Editora PINI.


Casa no Poço da Panela, 1986-1987 Arquitetas: Vera Pires, Carmen Mayrinck, Liza Stacishin A arquitetura da cidade do Recife, com origem no período colonial português do século XVII, dispõe de sítios históricos que detêm a rara qualidade de preservar ainda um conjunto arquitetônico e sua atmosfera de época; casarios, ruas estreitas, casarões, marcante vegetação, detalhes construtivos, entre outros. O poço da Panela impõe-se como um desses sítios históricos que se inserem na vida urbana e moderna da cidade. A consideração desses fatores e do próprio lote urbano condicionou a definição dos aspectos básicos da proposta da casa - planta com traçado regular, ênfase nas linhas geométricas da coberta. Esta última, por sua vez, torna-se enriquecida com a recriação de frontão de casas do "período neocolonial simplificado", existente em bairros da cidade. A casa estrutura-se através de um corpo central, de forma quadrada, e ,sob o principio da simetria, projetam-se alpendres que avançam no sentido frente-fundo, evidenciando o acesso principal e a área de vivência integrada ao jardim.


O grande vazio do interior revela-se como centro de interesse e de convergência de todos os ambientes, ao mesmo tempo em que se comunica com o exterior através de grandes aberturas para os alpendres. Situada intramuros, assume a sua feição predominantemente urbana.

Condomínio Recanto dos Corais, PE, 1989-19917 Arquitetos: Vera Pires, Gilson Gonçalves A referência tipológica aos sobrados recifenses e o uso de solução construtivas já consagradas na região, explorando a artesania e a mão-de-obra local, são os dois aspectos determinantes deste projeto. O sobrado recifense (edificação alta, magra, com vários níveis e aberturas frente-fundo, presença marcante na paisagem urbana, entre o século XVII e XIX) apresenta uma rica gama de solução funcionais, construtivas e formais. Tais soluções, ainda hoje, constituem lições válidas de um pensar 7

Texto do arquiteto Gilson Gonçalves.


arquitetônico operativo: idéia e execução como partes integrantes e interativas de um mesmo processo. Assim, a partir da rica concepção tradicional do sobrado, procurou-se soluções que atendessem às exigências (programática, de habitabilidade, construtiva) e ao gosto contemporâneo, sem imitações ou transposições inadequadas. Dessa forma, os espaços das casas são contínuos, claros e interligados por um vazio central que, além de atender ás necessidades de aeração exigidas pelo clima local quente-úmido, define um centro de interesse visual. Todos os ambientes de permanência prolongada - desejo expresso e imperativo num programa arquitetônico - t��m vista para o mar, através de aberturas amplas e protegidas. Como no sobrado, as paredes são estruturais para os pisos e para o telhado que tem águas frente-fundo, corresponde às aberturas. O telhado tem solução tradicional de telha sobre madeira com generosos beirais. A fachada para o mar avança e recua, abre e protege. Avança com os acessos à praia (sol, água, areia, coqueiros), através de uma passarela que permite desfrutar a paisagem de forma dramática e enaltecedora. Recua com as portas-janelas e cria terraços-proteções contra o sol e o vento, ao mesmo tempo cria pilares que marcam as quatros casas e também une, compositivamente, o conjunto.


Bibliografia BROWNE, E.- Espíritu de la época y espírito del lugar, in Arquitectura Latinoamericana, pensamiento y proposta, Universidad Autônoma Metropolitana, Mexico, 1991. COX, C.F.-Arquitectura y modernidad apropriada, Ed. Summa, Santiago do Chile, 1981. EISENMAN, P. e KRIER, L. - Reconstrution/Desconstrution, in Architectural Design Academy Group Lta, London, 1994. LEMOS, Carlos A. C. - Alvenaria burguesa, Nobel, São Paulo, 1985. NORBERG-SCHULZ,C. - Geniu Loci, Rizzoli, New York, 1980. OLIVEIRA, E.V de e GALHANO, F.-Casas esguias do Porto e Sobrados do Recife, Pool Editorial Recife, 1986. WAISMAN, M.- El interior de la história, in História y teoria latinoamericana, Bogotá, Escala, 1990.


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