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SÁBADO, 10 DE DEZEMBRO DE 2016

O ESTADO DE S. PAULO CRISTIANO ANDUJAR/ESTADÃO

Recomendação. Usar a tatuagem como uma espécie de prontuário está se tornando mais frequente no Brasil. Em vários casos, a sugestão é do próprio médico, para que o paciente não corra risco de vida em emergências


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O ESTADO DE S. PAULO

SÁBADO, 10 DE DEZEMBRO DE 2016

CHECK-UP

País é um dos dez maiores mercados farmacêuticos do mundo e tendência é brasileiro consumir cada vez mais – já são duas doses diárias por pessoa Alline Magalhães, Carolina Werneck, Paulo Batistella, Paulo Beraldo, Plínio Aguiar, Sara Abdo e Sarah Teófilo

m um ano, o brasileiro consumiu, em média, 700 doses de remédios comprados em farmácias. É como se cada habitante tomasse diariamente duas unidades de medicamentos. Isso coloca o Brasil entre os dez maiores mercados farmacêuticos do mundo, com um consumo de 144 bilhões de doses entre outubro de 2015 e setembro de 2016. E a tendência é que esse número continue crescendo: em três anos, o País deverá chegar à quinta posição do ranking global de mercados farmacêuticos, segundo a Interfarma, com base em dados da consultoria QuintilesIMS.

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trangeiras que detêm mais de 95% do mercado no Brasil. Excesso. Um levantamento

ainda inédito do Ministério da Saúde, obtido pelo Estado, revelou que metade dos entrevistados tomou ao menos um remédio nas duas semanas anteriores à pesquisa. Foram ouvidos 41 mil brasileiros, entre 2013 e 2014, e os dados ainda estão sendo analisados. “Uma prevalência de 50% de medicação em uma população que víamos que não está doente é elevada”, diz a pesquisadora Andréa Dâmaso, epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que participa do estudo.

Automedicação

53% l se medicam para febre por indicação de amigos, sem saber que pode ser sintoma de alguma infecção ou outra doença

O presidente da Anvisa, Jarbas Barbosa, afirma que o consumo de medicamentos no Brasil tem dois extremos. “Há pessoas consumindo acima da média e outras que têm muita dificuldade de acesso.” Segundo levantamento feito em 2014 pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) e Datafolha, metade dos brasileiros não consegue comprar todos os remédios de que precisa para o tratamento total. O presidente da Interfarma, Antonio Britto, que representa 56 laboratórios de grande porte, diz que iniciativas como o programa Farmácia Popular não são suficientes. “Isso tende a piorar com o avanço do porcentual de idosos.” O ministro Barros garante que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem garantido medicação para todos que precisam. “O abastecimento está em ordem. Quem precisa está sendo atendido.” Caminhos. As propostas para enfrentar o aumento no consumo variam de um acompanha-

RAQUEL DAMASCO/ACERVO PESSOAL

l Enquanto você lê este texto, 2.036.436 doses de remédio estão sendo consumidas no Brasil

Os números traduzem uma realidade que combina automedicação, consumo excessivo, acesso facilitado, investimento pesado em publicidade, lobby setorial e regulação falha. O resultado é uma alta de 42% nas vendas de medicamentos em farmácias nos últimos cinco anos. “O brasileiro gosta de tomar remédio. Muitas pessoas vão ao médico e não podem sair de mão vazia”, resume o médico Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Hospital das Clínicas da USP. O ministro da Saúde, Ricardo Barros, admite que o consumo de medicamentos no Brasil é maior do que a média de outros países. “É cultural. Todo mundo tem um armarinho cheio de medicamento que comprou,

não usa, está vencido e continua lá.” O professor de história cultural Leandro Karnal diz que esse consumo está ligado à busca pela felicidade plena. A sociedade brasileira contemporânea, diz ele, não tolera a dor e acha que a tristeza deve ser evitada. “Quando essa felicidade não ocorre, recorremos a uma muleta química, o remédio.” Para a indústria, vários fatores explicam o salto nas vendas. O presidente do Sindicato da Indústria Farmacêutica (Sindusfarma), Nelson Mussolini, diz que a principal razão é que a população está crescendo e envelhecendo. “Idosos tomam mais medicamentos”, justifica o representante dos laboratórios. Além disso, ele argumenta que agora há mais pessoas preocupadas com a saúde e que o acesso aos remédios aumentou nos últimos anos, particularmente devido à entrada dos genéricos. “Excluindo os hipocondríacos, ninguém toma medicamento sem precisar”, garante Mussolini. O Sindusfarma reúne 271 empresas nacionais e es-

RAQUEL DAMASCO/ARQUIVO PESSOAL

} Minha mãe ficou muito aliviada quando resolvi fazer essa tatuagem. Ela me deu de presente de aniversário.”

ACERVO ESTADÃO

Raquel Damasco, de 20 anos, estudante de Ciências Sociais

Juntas, as marcas de remédios gastam mais em anúncios do que montadoras de carros ou operadoras de telefonia no Brasil. Em 2015, início da crise econômica, o setor farmacêutico subiu quatro posições e chegou ao sexto lugar no ranking de maiores investidores em propaganda. Foram R$ 8,1 bilhões aplicados pelos laboratórios, segundo a Kantar Ibope Media. Responsável por quase metade desse valor, a mexicana Genomma Lab se tornou a maior anunciante do País.

serva com olhar crítico, percebe que estão burlando”, aponta a psicóloga Mariana Carminati, pesquisadora da área de Políticas Públicas. A diretora de Inovação e Responsabilidade Social da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Maria José Delgado Fagundes, nega o excesso de irregularidades. Para ela, o setor produz cada vez menos peças publicitárias problemáticas. “É um processo de amadurecimento dos empresários e da sociedade, que passou a exigir mais informações.” Infrações. No Conselho Nacio-

nal de Autorregulamentação Publicitária (Conar), porém, a categoria de medicamentos e serviços para saúde foi a segunda com mais reclamações em 2015. A Anvisa emitiu 97 autos de infração só para esse setor. Até 2012, a agência tinha uma Gerência Geral de Propaganda,

mas ela foi extinta e suas atribuições foram englobadas pela área de Inspeção e Fiscalização – a instituição garante que o monitoramento é mantido. O sanitarista Bonfim contesta. “Não existe regulação no Brasil. As multas são irrisórias e correspondem a uma fração mínima dos lucros da indústria farmacêutica.” Para ele, a publicidade de remédios deveria ser vetada. A representante da Interfarma discorda que a proibição possa solucionar a má utilização de medicamentos. Maria José entende que o caminho seria aliar políticas de educação e saúde, apostando em medicina preventiva. Outra proposta, defendida pela psicóloga Mariana, seria exigir uma sanção prévia do material publicitário. “Hoje, ele é colocado em rede televisiva sem passar pelo crivo da Anvisa. Quando a agência percebe que há alguma irregularidade, o mal já está feito.”

Medicamento prometia futuro sem DSTs, em 1927 ACERVO ESTADÃO

Bibiana Borba Lígia Morais

O carro-chefe são os anúncios de medicamentos vendidos sem receita, os únicos liberados pela Anvisa para divulgação. A principal regra é incluir advertências como “Procure o médico” e “Leia a bula”. As frases, porém, estimulam ainda mais a compra, acredita o médico sanitarista José Ruben Bonfim, que coordena a Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravime). “A pior consequência da publicidade é incentivar a automedicação.” A regulamentação, atualizada em 2008, também determina que o protagonista do anúncio fale sobre riscos do remédio, embora isso raramente aconteça. A norma ainda é contraditória sobre a participação de celebridades. Um artista pode falar sobre o produto, mas não recomendar explicitamente o uso. “As empresas muitas vezes aparentam cumprir a legislação, mas, quando você ob-

Em 1929, pílula garantia fim dos problemas renais ANVISA/DIVULGAÇÃO

Especialista diz que a propaganda estimula a automedicação. No ano passado, Anvisa emitiu 97 autos de infração

Nos anos 1930, a droga era remédio até para crianças


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mento mais minucioso até venda fracionada. Para o ministro, a solução é informatizar o controle em um prontuário eletrônico dos pacientes e desmembrar a venda de medicamentos nas farmácias. Em 2006, a Anvisa regulamentou o fracionamento, mas, passados dez anos, a venda por unidades ainda é restrita. Mussolini, do Sindusfarma, nega oposição dos laboratórios. “O que a indústria sempre considerou absurda era a venda fracionada que foi adotada no governo passado.” Segundo ele, o farmacêutico picotava, com tesoura, a embalagem, podendo comprometer a estabilidade da droga. O excesso de medicamentos aumenta os riscos de interações negativas entre as substâncias, efeitos colaterais, intoxicações e internações. Apesar de o Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do SUS registrar uma queda de 14,5% nos últimos cinco anos, a realidade parece ser outra. O Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), da Fiocruz, contabilizou 12 mil casos de intoxicação em 2013, sem incluir a Região Sul. Só no Hospital das Clínicas da USP, surgem pelo menos 7 mil casos por ano. Wong, diretor do Ceatox do hospital, estima uma média de 2 milhões de intoxicações causadas por remédios a cada ano. “Não posso avaliar se há falha nas notificações, mas a questão da intoxicação por excesso de medicamentos, de fato, é um problema”, afirma o ministro.

Segundo a coordenadora do Sinitox, Rosany Bochner, a pressão vem da indústria. “Há uma pressão externa muito grande de fabricantes de medicamentos que não querem que esses dados apareçam.” De acordo com ela, os laboratórios contratam firmas especializadas para atender casos de intoxicação e, assim, as ocorrências não constarem no sistema público. Com os dados oficiais subnotificados, não é possível calcular o alcance dos problemas causados à saúde pela automedicação e pelo consumo excessivo. Segundo a pesquisa do ministério, mais da metade da população se automedicou para febre com base apenas em sugestão de conhecidos. Para a dor, 52% tomaram remédios indicados por familiares ou amigos. Outros ainda recorrem ao “Dr. Google”: a plataforma se torna um estímulo para internautas encontrarem diagnósticos e escolherem seus tratamentos. Especialistas ressaltam que as drogas representam um avanço importante, principalmente para doenças graves ou crônicas, como problemas cardiovasculares, hepatite, diabetes, hipertensão e câncer. Autor do livro Farmacologia Clínica – Fundamentos da Terapêutica Racional, o pesquisador e cardiologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Flávio Fuchs defende que é preciso saber consumi-los e prescrevêlos na quantidade correta. “O uso racional evita a exposição desnecessária.”

Tatuagem e prevenção A lista tatuada no braço é longa. Inclui antibiótico, anti-inflamatório e até remédio para dor de cabeça. “Basicamente, sou alérgica a tudo”, diz a universitária Raquel Damasco, de 20 anos. Seus problemas começaram aos 12, quando apresentou reação a vários medicamentos e também a corantes artificiais, que provocaram uma parada cardíaca. O diagnóstico: o corpo de Raquel vai desenvolvendo resistência às drogas. “Remédio não entra na minha vida.”

Especial H3

Indústria e empresas de comércio farmacêutico destinaram R$ 28,9 milhões a candidatos que se elegeram em 2014 Elisa Clavery, Marina Mori e Matheus Lara

ados sobre a receita das campanhas eleitorais de 2014 mostram que as maiores doações do setor farmacêutico foram, muitas vezes, direcionadas a candidatos com estreita ligação aos interesses de seus financiadores. Parlamentares que receberam recursos de fabricantes de remédios ou de grandes redes de farmácia integram, hoje, comissões da Câmara dos Deputados que são relevantes para a indústria ou já levantaram projetos de lei ligados ao setor. O Código de Ética da Casa proíbe o deputado de submeter projetos que beneficiem diretamente seus financiadores, mas não menciona atividade em comissões. Sem regulação no País, o lobby tem atuação forte no ramo de medicamentos, como mostram dados do Tribunal Superior Eleitoral. No último ano em que as doações empresariais eram permitidas, 23 fabricantes deram R$ 16,6 milhões para 81 candidatos de 16 partidos que se elegeram aos cargos do Legislativo e do Executivo – R$ 4,4 milhões só para deputados federais. A maior doadora foi a Hypermarcas, responsável pelo remédio mais vendido no Brasil, o Neosoro, com R$ 6 milhões em doações. O comércio não fica para trás. Redes de varejo, atacado e distribuidoras de remédios doaram R$ 12,3 milhões para candidaturas que tiveram sucesso. Para Manoel Leonardo Santos, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador da pesquisa Percepções sobre a Regulamentação do Lobby no Brasil, doa-

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Financiamento

217 l candidatos que se elegeram para cargos do Legislativo e do Executivo receberam doações do setor farmacêutico em 2014

ções altas podem criar dependência. “Você não financia se não tiver um candidato alinhado politicamente e esperando que represente seu setor.” O vice-presidente do Conselho Federal de Farmácia, Valmir de Santi, também vê relação entre o apoio financeiro e o avanço das pautas. “Mesmo agora, sem as doações empresariais, não acredito que as empresas vão se distanciar. Elas vão bancar de outros caixas.” Indústria. Oito dos 30 deputados federais eleitos que receberam verba de laboratórios são titulares ou suplentes na Comissão de Seguridade Social e Família, que aborda temas como saúde. Um deles é o médico Arlindo Chinaglia (PT-SP), que também preside a Subcomissão de Fármacos, sobre uso de substâncias experimentais para doenças graves ou raras. Da Câmara, Chinaglia é o segundo que mais recebeu: foram R$ 623,5 mil, vindos da Hypermarcas e da Aché Laboratórios. Ele diz que nunca foi pressionado pela indústria e que é a favor do financiamento público de campanha. O deputado federal campeão em arrecadação foi Marcos Abrão (PPS-GO). Só da Geolab, ganhou R$ 1,26 milhão. Até 2011, Abrão presidia a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás, que administra distritos industriais no Estado, entre eles o polo de Anápolis, onde estão 22 laboratórios. Ele afirma que “as doações foram fruto de uma relação familiar de mais de 50 anos” e que não apresentou projeto de lei ligado ao setor. Afastado da Câmara desde que assumiu o Ministério das Cidades, Bruno Araújo (PSDBPE) recebeu, ao todo, R$ 340 mil da Aché e da Biolab. Ele já se manifestou contra a quebra de patentes de remédios em 2007, quando propôs audiência pública para discutir o assunto. No mesmo ano, criou um projeto de decreto para barrar o desconto de 24,69% na compra de remédios pelo Executivo. O parlamentar nega ter sido pressionado. Aché e Geolab dizem que as doações atenderam à legislação. A Biolab não quis se pro-

nunciar e a Hypermarcas não respondeu. Comércio. As redes de varejo,

atacado e as distribuidoras investiram nas campanhas de 136 candidatos eleitos em 2014, para as esferas estadual e federal. A maior doadora foi a rede de farmácias Pague Menos, a segunda maior em faturamento no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácia (Abrafarma). Foi quase R$ 1 milhão para 12 candidatos de 6 partidos. Quem mais recebeu foi o deputado federal Leonardo Quintão (PMDB-MG), que arrecadou R$ 1,4 milhão. Nove das dez empresas com maior faturamento do País doaram para o peemedebista. Ele atuou para que a Lei 13.012/2014, que reconhece as farmácias como unidades de assistência à saúde, fosse aprovada sem prejudicar a competitividade do comércio. O deputado e a Pague Menos não retornaram o contato do Estado. O presidente executivo da Abrafarma, Sérgio Mena Barreto, diz que as doações refletiam a confiança das redes de farmácia em figuras que se diziam comprometidas com a saúde. “Nós acompanhamos os projetos, mostramos o nosso lado. O que a Abrafarma defende não é o interesse do empresário, mas o da população.” Para Santos, o lobby faz parte do cenário democrático. Ele reforça, porém, a importância da sua regulamentação, principalmente no que diz respeito à transparência e ao equilíbrio de setores com condições econômicas diferentes. “A regulamentação teria que ser pensada para que setores que muitas vezes não têm condições econômicas, nem são tão poderosos como os laboratórios, possam participar”, explica. Na web l Confira outras reportagens e material multimídia no especial produzido para o site do Estadão. http://infograficos.estadao.com.br/ focas/tanto-remedio-para-que/

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ENTREVISTA Jarbas Barbosa, presidente da Anvisa

Barbosa rebate críticas por atuação burocrática e diz que aposentadorias podem atrapalhar atuação da agência Alline Magalhães Paulo Palma Beraldo

Criticada pela área médica e pelo próprio ministro da Saúde, Ricardo Barros, que disse ao Estado que “a Anvisa precisa diminuir a burocracia para tudo”, o presidente da instituição, Jarbas Barbosa, garante que a agência está alinhada com o que há de mais avançado no mundo. À frente da Anvisa desde 2015, ele reconhece que a instituição precisa ser mais eficiente e teme um estrangulamento por falta de profissionais nos próximos anos. Nesta entrevista, Barbosa fala sobre o consumo excessivo de

remédios, a divisão nebulosa da fiscalização e os desafios da agência. l A área médica reclama que a

Anvisa é muito burocrática para validar remédios importantes. Por que tanta demora?

As pessoas confundem o papel da Anvisa com o do Ministério da Saúde. O que fazemos é analisar a qualidade da fabricação, verificar se os testes exigidos para comprovar segurança e eficácia foram realizados. Isso não é um procedimento burocrático, não é carimbar papel. A Anvisa decide se um medicamento pode ser utilizado e o ministério, se vai incorporar ao SUS. A Anvisa também não escolhe o que será licenciado, é o produtor quem pede o registro. Quando sai uma inovação radical, a maioria registra primeiro nos Estados Unidos. l Qual sua avaliação da legisla-

ção do setor farmacêutico?

O ambiente legal do Brasil hoje é alinhado com o que temos de mais avançado no mundo. Isso propiciou um desenvolvimento importante da própria Anvisa, que é considerada pelos seus pares uma das grandes agências do mundo, com padrão de qualidade semelhante ao das demais. l Como ficou a situação financeira da Anvisa com a crise?

Temos um orçamento enxuto de R$ 800 milhões, mas não tivemos restrição orçamentária. A Anvisa é praticamente autossuficiente. Nossa maior necessidade é continuar o processo de recomposição da força de trabalho. É uma instituição nova, de 17 anos, e uma parcela do nosso quadro foi herdada do Ministério da Saúde. Grande parte dessas pessoas – 450 servidores de um total de 2.800 – pode se aposentar nos

próximos dois anos. Chega um determinado ponto em que esbarramos na nossa capacidade física. Podemos ter problemas de um certo estrangulamento e aumento de tempo em filas pela insuficiência de recursos humanos. l O que falta para avançar?

Para começar, a busca de maior eficiência, que tem de ser um mantra permanente. A constante revisão dos processos, no sentido de ter mais agilidade, sem perder a garantia de qualidade e segurança. Outra questão importante é definir melhor os papéis dentro do sistema nacional de vigilância sanitária, estabelecendo o que o município, o Estado e a Anvisa fazem. Em alguns setores, essas responsabilidades estão em uma área cinzenta que pode não nos colocar em uma situação melhor em relação ao cenário internacional.

l Cada brasileiro toma, em média, duas doses de remédio por dia. Estamos consumindo muito?

Isso acontece no mundo todo. Temos o fenômeno da transição demográfica. Anualmente, 1 milhão de pessoas ultrapassa a barreira dos 60 anos, aumentando a ocorrência de doenças crônicas e o uso de remédios. Por outro lado, há uma oferta muito maior, não só de medicamentos, mas de vitaminas e suplementos. Deve ter pessoas consumindo acima disso e outras com muita dificuldade de obter os remédios. Dados mostram que no Brasil e na América Latina os medicamentos que mitigam a dor severa têm consumo per capita muito menor que o padrão mundial. E há remédios importantes para controle de diabetes, hipertensão e algumas infecções em que há dificuldade de acesso, em especial para a população mais pobre.

l Enquanto você lê este texto, 1.410.894 doses de remédio estão sendo consumidas no Brasil


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SERGIO CASTRO/ESTADÃO

} São tantos anos tomando Rivotril que hoje ele nem faz mais efeito. Mas, se tento parar, sofro de abstinência.” Marcelo Machado, de 45 anos, atendente de estúdio de tatuagem

Dos pacientes diagnosticados com a doença na Região Metropolitana de São Paulo, 4% se tratam apenas com hipnóticos e sedativos, e ignoram antidepressivos Elisa Clavery e Rafael Gonzaga

ado inédito de uma pesquisa sobre o uso de psicotrópicos na Região Metropolitana de São Paulo revelou que médicos estão receitando remédios como o Rivotril como único medicamento para pacientes com depressão. O problema é que o sedativo é apenas auxiliar no tratamento da doença e deve ser usado em poucos casos. Segundo o levantamento, coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), as drogas da classe dos hipnóticos e sedativos são consumidas como se fossem antidepressivos por 4% dos entrevistados com transtorno de humor. O resultado é reforçado por um estudo inédito do Ministério da Saúde, que aponta o princípio ativo do Rivotril como o segundo mais usado por pessoas com depressão no Brasil. “De repente, virou uma moda receitar Rivotril, mas ele não trata. É o antidepressivo que trata”, diz Laura Helena Andrade, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que

D l Enquanto

você lê este texto, 1.429.158 doses de remédio estão sendo consumidas no Brasil

Remédio indicado para déficit de atenção está sendo usado para aumentar desempenho nos estudos Naomi Matsui Samuel Quintela

O consumo de psicoestimulantes por concurseiros e universitários vem crescendo no País. Sem diagnóstico de Transtorno

coletou dados para a pesquisa, chamada São Paulo Megacity. Realizado com 5.037 pessoas, o levantamento é parte da iniciativa internacional World Mental Health Survey, feita em 28 centros de pesquisa no mundo para mapear os transtornos psiquiátricos e seus tratamentos. O clonazepam, princípio ativo do Rivotril, é um anticonvulsivante que deve ser usado principalmente para tratar epilepsia, ressalta a pesquisadora. No entanto, essa substância é consumida por 18,2% dos diagnosticados com depressão no País, segundo pesquisa do Ministério da Saúde. Só perde para o antidepressivo fluoxetina (19,2%). As vendas deram um salto de 11% nos últimos cinco anos. O Rivotril é, hoje, o tarja preta mais vendido no Brasil. Com a receita de um clínico geral, Luiza F., de 23 anos, começou a tomar apenas o Rivotril para tratar depressão e insônia. Só passou a usar antidepressivo dois anos depois, quando o quadro se agravou e o tratamento para a doença começou a ser feito com um psiquiatra. “Demorou até minha família perceber a gravidade da coisa”, diz ela, que prefere não se identificar por medo de sofrer preconceito

do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), jovens têm recorrido a remédios como Ritalina e Venvanse para aumentar o foco e a resistência durante os períodos de estudo e provas. Um levantamento feito pelo Estado com 12 neurologistas e psiquiatras aponta uma alta estimada entre 70% e 100% nos últimos dois anos, com base nos pedidos de receitas. Um dos médicos, inclusive, tem como prática indicar essas drogas – vendidas apenas com prescri-

por usar o medicamento. Hoje, ela toma dois antidepressivos e conta que a combinação funcionou. “Eu acho que minha depressão melhorou 90%. Às vezes, ainda tenho recaídas, mas nada muito grave”, afirma. Reações. A bula do remédio in-

forma que a associação com antidepressivos é indicada apenas em casos de ansiedade e no início do tratamento. Entre as possíveis reações ao uso do Rivotril, aponta sonolência, cansaço, vertigem, coordenação anormal, irritabilidade, perda de equilíbrio e concentração prejudicada. A Roche, fabricante do remédio, diz que somente o médico pode prescrevê-lo, seguindo as necessidades do paciente e por meio de receita controlada pela Anvisa. O laboratório afirma que segue a legisla-

Consumo

18,2% l das pessoas com depressão usam clonazepam, substância do Rivotril. É o 2º remédio mais utilizado por quem tem a doença

ção e regulamenta a promoção e a venda da droga. Para o psiquiatra Thiago Marques Fidalgo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os maiores problemas do uso desse remédio são a dependência e o risco de abuso. “O organismo precisa de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito”, alerta. O relações públicas Lucas El’Osta, de 25 anos, consome Rivotril há um ano e meio, associado com antidepressivos para combater a doença. Perto do fim do tratamento, é o único medicamento do qual não quer abrir mão. “Se viajo em um fim de semana e esqueço, preciso voltar em casa ou dar um jeito de comprar, senão tenho dificuldade para dormir.” El’Osta sabe que a substância causa dependência e admite os efeitos colaterais indesejados. “No começo, foi ótimo. Era colocar o comprimido sublingual e em dez minutos sentia o corpo relaxado. Quase não lembrava dos problemas”, conta. Com o tempo, começou a identificar outras reações, como problemas de memória e nas funções cognitivas. “É como estar anestesiado. Você acha que no começo é bom, mas depois não é bem assim”, diz.

ção – para quem deseja passar no vestibular, em concursos ou finalizar trabalhos acadêmicos. As ‘smart drugs’ vêm sendo procuradas por elevarem a sensação de concentração e reduzirem o sono, além da ideia de que podem melhorar o rendimento nas provas. Derivada de anfetaminas, a Ritalina age no sistema nervoso aumentando a concentração de dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer. O efeito é semelhante, em menor nível, ao de substâncias como a cocaína. “Quando você usa Ritalina, o aumento de dopamina é brutal. Assim que o nível da substância cai, o que você mais quer é outra dose”, diz a professora Maria Aparecida Moysés, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Isso faz com que a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) desaconselhe o uso recreativo do medicamento. Na busca por efeitos mais fortes, o advogado Fernando Mar-

tins, de 25 anos, migrou para o Venvanse. As reações adversas, no entanto, o fizeram voltar à Ritalina. “Não tive o diagnóstico (de TDAH). Eu só pedia para o médico, ele me passava a receita e eu comprava.” Martins começou a usar psicoestimulantes há quatro anos, esporadicamente. Mas o consumo passou a ser diário com a proximidade do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Ficava agitado com o estimulante, então tomava o ansiolítico para relaxar”, diz. Além da excitação, a Ritalina pode provocar taquicardia, insônia e aumento da pressão arterial. Apesar dos riscos, a estudante de Medicina Marina, 22, que não quis revelar o sobrenome, começou a consumir a substância para ficar mais tempo acordada. Foi um amigo do curso pré-vestibular que repassou pela primeira vez. “É muito comum em pessoas da minha idade e é até mais aceito, por ser

Receita médica. Psiquiatras acreditam que a tendência de receitar apenas o Rivotril é reforçada por médicos de outras especialidades clínicas. “Talvez isso se deva ao treinamento do psiquiatra, ou pelas outras técnicas que usamos, como psicoterapias”, diz o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva. Quem receitou a droga à pensionista Zulmira Fernandes Cotulio, de 70 anos, foi seu cardiologista. Diagnosticada com depressão, ela toma Rivotril há 15 anos e já ouviu de outros médicos que deveria interromper o uso. “Nunca vou parar de tomar, sem ele eu não durmo”, diz Zulmira, que consome a droga associada a antidepressivos. A aposentada está no grupo dos maiores consumidores de clonazepam, que são as mulheres idosas, diz a pesquisadora Angela Campanha, do Departamento de Farmácia da Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Como o remédio tira um pouco da coordenação motora, pode ser mais perigoso para os idosos, que já têm naturalmente risco de sofrer quedas”, explica a especialista, uma das autoras da pesquisa São Paulo Megacity.

uma droga usada para estudar.” A sensação de concentração, no entanto, se dá pela redução da capacidade de focar em diferentes atividades. Com a atenção direcionada para uma única tarefa, há uma chance maior de executá-la de modo contínuo. “Mas não significa que ficará mais inteligente”, diz a professora Maria Aparecida. O neurologista Marcello Prates acompanha 50 pessoas que usam Venvanse na preparação para o vestibular. “Nunca tive paciente com dependência química. O que pode acontecer é dependência psicológica, quando a pessoa passa a acreditar que só consegue estudar caso tome o remédio.” A prática, entretanto, é condenada pela ABP, que considera infração ética grave a prescrição para pessoas sem diagnóstico psiquiátrico. “Isso deve ser denunciado aos conselhos Regional e Federal de Medicina”, informou a ABP, em nota.


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Especial H5

Combate a bactérias resistentes requer combinação de drogas

Gabriel Justo, Naomi Matsui e Samuel Quintela

falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento de antibióticos está levando médicos a recorrerem a drogas antigas e tóxicas para tratar infecções. Medicamentos como a Polimixina B, da década de 1960, estão sendo combinados com substâncias recentes para burlar os mecanismos de defesa das “superbactérias”, resistentes aos remédios disponíveis no mercado. “Somos obrigados a recuperar essas drogas esquecidas por não haver remédios novos no mercado”, afirma Gabriel Cuba, infectologista do Hospital 9 de Julho. O risco é essas drogas já em desuso, sem terem sido testadas com rigor no passado, causarem complicações renais e danos ao sistema nervoso. Uma das combinações mais comuns entre antibióticos envolve justamente a Polimixina B e o Imipeném, desenvolvido na década de 1980, época em que foram apresentadas as últimas inovações para o tratamento de infecções por bactéria. Desde 1987, nenhuma classe nova de antibiótico foi descoberta ou patenteada. Ao mesmo tempo, as bactérias evoluíram e os remédios existentes perderam a eficácia. Alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que doenças como gonorreia, pneumonia e alguns tipos de tuberculose já não têm antibióticos capazes de curá-las isoladamente. Outro fator agravou esse quadro: o consumo indiscriminado desses remédios. “Paro de tomar assim que me sinto bem, e guardo os comprimidos que sobram para a próxima vez”, afirma o publicitário Daniel Bovolento, de 24 anos, que tem de quatro a cinco amigdalites por ano. Como resultado, a amoxicilina – uma das drogas mais modernas para combater bactérias – parou de fazer efeito nele. É o que pode acontecer quando um antibiótico é administrado de forma errada ou se o tratamento não for completo. Bovo-

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Clonazepam na veia Marcelo Machado não conseguia dormir e sofria de ansiedade. Do consultório do psiquiatra, saiu levando uma receita de Rivotril. Era apenas a primeira: sua dependência completou dez anos. Até tentou parar de tomar, mas sentiu tontura por um mês. “Sou tão viciado que, se me derem aspirina falando que é Rivotril, vou sentir o mesmo efeito”, diz Machado, que tatuou a fórmula do sedativo.

ENTREVISTA Leandro Karnal, professor de história cultural da Unicamp

Karnal diz que há uma ‘medicalização’ dos sentimentos no País, porque o brasileiro não tolera a dor Mariana Machado Sara Abdo

Professor de história cultural e colunista do Estado, Leandro Karnal afirma que o excesso de remédios é resultado de uma sociedade que não tolera a dor e deseja estar sempre no controle do que está à sua volta. l Por que o brasileiro está toman-

do tanto remédio?

É uma consequência da medicalização do sentimento, uma característica nossa. Infelizes devem tomar Prozac. Desatentos devem tomar Ritalina. Há uma tentativa de traduzir o ser humano em uma felicidade constante e permanente. Quando essa felicidade não ocorre, a dimensão trágica da existência aparece e recorremos a uma muleta química, o remédio. l Qual o comportamento médico em relação a isso?

Nos Estados Unidos, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um problema grave. Os médicos receitam Ritalina em uma quantidade similar à nossa. Na França, onde os médicos e pediatras não acreditam nessa doença, não há prescrição. l A medicina, então, depende do

momento?

Assim como qualquer pensamento. Na infância, fiz tratamento para pé chato, que hoje não se trata mais. A medicina descobre novidades, traz à luz doenças novas e tira dessa categoria alguns comportamentos. A homossexualidade foi consi-

derada enfermidade por anos. Uma pessoa melancólica no século 15 hoje tem depressão. l Há excesso de diagnósticos de depressão?

Sem dúvida. A depressão é uma doença gravíssima e tem várias origens. Porém, imaginar que tristeza seja depressão é um erro de diagnóstico. Não há nada errado se você ficar triste porque perdeu alguém querido. O médico acredita nesse diagnóstico. A sociedade e a indústria, também.

l Enquanto você lê este texto, 1.461.120 doses de remédio estão sendo consumidas no Brasil

lento precisou tomar Clavulin, antibiótico que age combinado ao clavunato de potássio, para vencer as defesas da bactéria. Mas quanto maior é a associação de drogas, maior o risco, alerta o infectologista Ralcyon Teixeira, do Hospital Emílio Ribas. “Você aumenta ainda mais a toxicidade do remédio, mas em alguns casos é a única saída.” As perspectivas não são animadoras: nenhum antibiótico completamente novo deverá passar por testes nos próximos cinco a dez anos, alerta a pesquisadora Cristina D’Urso, do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Tivemos muito pouco investimento. Então, teremos um futuro negro na próxi-

A vida e a (quase) morte de um antibiótico

l Acaba-se criando uma inércia?

Sim. O conhecimento médico é fruto de uma concepção objetiva e técnica somada à cultural. O fato de termos hoje uma grande quantidade de cesarianas não é fruto de uma questão técnica, mas de uma cultura. l Nossa cultura não tolera dor?

Não gosta da dor, não tolera o parto e teme que deixe sequelas. A sociedade já não vê no parto natural o valor que antigamente se concebia. A preferência por cesáreas pode ser pela crença no indivíduo pleno, que não deve ter dor. Consideramos que o estado de dor e tristeza deva ser evitado. Nem sequer suportamos que ele exista, ainda que passageiro. Acreditamos que o ser humano deva ser plenamente feliz. l E nesse processo nos automedicamos porque “encontramos” o nosso diagnóstico?

Vivemos com a crença de que a vida tem de estar sempre sob controle e devemos estar o tempo todo disponíveis. l Quais seriam os exemplos dessa crença ‘exagerada’?

As pessoas ficam perdidas ao se depararem com o caráter aleatório da tragédia, como a queda do avião da Chapecoense.

Fórmulas manipuladas para perder peso preocupam médicos; Anvisa não acompanha venda desde 2009 Matheus Prado Willy Delvalle

Inibidor de apetite, antidepressivo, calmante, laxante, diurético, hormônio, acelerador de metabolismo. Sem falar de queimadores de gordura e potássio. Tudo dentro de uma cápsula manipulada para emagrecer, que pode ser comprada sem receita na internet, ou mesmo prescrita em consultórios médicos. Especialistas ouvidos pelo Estado afirmam que a procura e a indicação desse tipo de fórmula têm crescido no País em relação aos industrializados. Mas não há pesquisa que comprove essa alta. Embora as farmácias sejam obrigadas a declarar as substâncias vendidas, a Anvisa não reúne esses dados desde 2009, quando fez a última pesquisa sobre o tema. Há sete anos, os números já demonstra-

ma década”, afirma. Segundo ela, as patentes de novos antibióticos em desenvolvimento mostram um desinteresse da indústria por essas drogas. São as drogas mais caras, para doenças como câncer e aids, que concentram os esforços de laboratórios e pesquisadores. Atualmente, apenas um em cada cinco antibióticos em fase de testes chega ao mercado. “Temos percebido muitas ações para financiar o desenvolvimento de novas drogas, mas o funil ainda é muito estreito”, explica Manica Balasegaram, diretor do Programa de Pesquisa Global de Antibióticos da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês).

vam o uso irracional de remédios manipulados para emagrecer – inclusive com associação proibida de substâncias. Com reações que podem variar de uma alteração de humor a até mesmo a morte, esses medicamentos estão sendo prescritos para pessoas que estão com dois ou três quilos acima do peso. “As pessoas buscam fórmulas mágicas”, afirma Alexandre Hohl, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). A Anvisa informa que o problema saiu de sua agenda de acompanhamento por falta de profissionais para analisar os dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). O ministro da Saúde, Ricardo Barros, nega que a Anvisa tenha problemas de pessoal e explica que a agência precisa, na verdade, se adaptar e simplificar seus processos para ter informação. “Se o medicamento controlado foi vendido na farmácia, a Anvisa pode saber online.” Por causa de uma dessas bombas emagrecedoras sem fiscalização, a soldadora Fabiane Or-

tiz, de 38 anos, foi parar no hospital. “O médico que me atendeu disse que eu estava tomando mata-rato”, conta. Ela queria emagrecer e procurou uma médica em Pelotas (RS) que, de acordo com Fabiane, apenas perguntou-lhe se tomava algum medicamento. A fórmula foi receitada sem informar as substâncias. Após três semanas de uso, Fabiane desmaiou e foi levada ao hospital. Depois do susto, recuperou quase todo o peso que havia perdido. Fiscalização. Para Hohl, da SBEM, é preocupante a Anvisa não monitorar o uso dos manipulados para emagrecer e tampouco fazer estudos sobre as substâncias de modo isolado – não apenas misturadas. Ele defende a fiscalização de médicos e farmácias de manipulação e propõe mudanças no comportamento dos pacientes. “Uma força-tarefa que juntasse Conselhos Regionais de Farmácia, Medicina e Anvisa poderia modificar esse cenário”, propõe. A Anvisa recebe informações sobre venda de medicamentos controlados, mas afirma que a fiscalização cabe à vigilância sanitária de Estados e municípios. Questionada sobre como são elaboradas políticas públicas sem dados, a Anvisa reconhece: “Essa é a dificuldade.” / COLABOROU BÁRBARA MANGIERI


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O ESTADO DE S. PAULO

SÁBADO, 10 DE DEZEMBRO DE 2016

CHECK-UP

Um dos remédios mais vendidos do País ultrapassou medicamentos centenários para dor de cabeça. Mas, em excesso, pode ser mais perigoso para o organismo do que seus semelhantes Jonas Lírio e Ludimila Honorato

le é o melhor amigo, o companheiro nas horas difíceis e está sempre por perto. Os mais de 1,3 milhão de fãs no Facebook confirmam que ele é o remédio mais popular do Brasil. No começo dos anos 2000, já figurava no noticiário como um dos medicamentos mais vendidos no País. Com a popularidade em ascensão, deixou para trás remédios centenários, como a Aspirina, ganhou força entre os brasileiros e criou uma nova onda de consumo: a “febre” Dorflex. Nos últimos cinco anos, ele esteve entre os dez medicamentos mais vendidos e, entre 2013 e 2016, pulou da nona para a quinta posição no ranking da QuintilesIMS. O sucesso do Dorflex está nos princípios ativos de ação rápida e, em parte, na publicidade bem direcionada. Como todo remédio, porém, o uso abusivo é perigoso. Quando utilizado para um problema que não é indicado, ele anula os efeitos e cria um ciclo vicioso de dor intensa e consumo excessivo. Na mesma página virtual em que muitos confessam um relacionamento fiel e duradouro com o remédio, outros alertam para o “perigo escondido em um comprimido inocente”. A neurologista Thais Villa, chefe do Setor de Investigação e Tratamento das Cefaleias da Unifesp, diz que o tipo de analgésico consumido varia confor-

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Paula Pauli

Um dos criadores do termo slow medicine, o cardiologista italiano Marco Bobbio questiona no livro O Doente Imaginado (Bamboo Editorial) algumas das práticas médicas atuais, como a prescrição exagerada e, por vezes, desnecessária de remédios. Para ele, o movimento que defende só retoma um atendimento mais individualizado e humano. Leia, a seguir, quatro perguntas para o secretário da Associação Italiana de Slow Medicine.

Lígia Morais

Ester Gewehr, hoje com 45 anos, foi ao médico para tratar da coluna e saiu com uma prescrição incomum: fazer uma tatuagem. A empresária marcou no antebraço, com tinta amarela, um triângulo de advertência e as palavras “alergia”, “dipirona” e “paracetamol”, como se vê na capa deste especial. A informação pode salvar sua vida em caso de emergência, como um desmaio ou um acidente. Isso porque, depois de anos abusando do Dorflex, ela adquiriu a rara síndrome de StevensJohnson, que pode causar até a morte se receber uma injeção

me a classe social, mas confirma: a “febre” Dorflex existe. “Remédios combinados tendem a ser os preferidos porque são mais eficazes do que a dipirona pura”, diz. Além da dipirona, cada comprimido contém relaxante, que reduz a tensão muscular, e cafeína, que diminui a pulsação da artéria e da dor latejante. A combinação produz um efeito rápido e alivia a dor. “Um analgésico simples faz menos mal para o organismo do que um analgésico combinado, como o Dorflex”, alerta a neurologista Carla Jevoux, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia. rotina diária da arquiteta Rosalia Alessi há 15 anos. Ela toma pelo menos um comprimido para dor de cabeça todo dia. Em março, levou um estoque suficiente para quatro meses na bagagem da mudança para o Canadá. O plano era que a mãe enviasse mais quando terminasse, mas o país proíbe a importação de dipirona. Quando as dores voltaram com mais intensidade, outros analgésicos não tinham o mesmo efeito e as idas ao hospital se tornaram frequentes. “Não dava para viver no hospital”, conta a arquiteta de 35 anos, que voltou ao Brasil para continuar tomando Dorflex. Rosalia sofre de enxaqueca, quadro mais complicado do que uma cefaleia tensional, a típica dor de cabeça. Nesses casos, Carla explica que analgésico não é o tratamento correto.

“Ele melhora, mas não acaba com a dor, e seu uso contínuo é o principal motivo para a transformação da enxaqueca em dor crônica”, diz. Para a dor tensional, qualquer analgésico resolve, diz a médica, desde que seja respeitada a recomendação de não tomar mais de dois comprimidos por semana. Como esses analgésicos são liberados pela Anvisa para venda sem prescrição médica, o risco de abuso sempre existe. Arnaldo Lichtenstein, clínico geral do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que é o uso constante que faz com que o organismo se adapte ao remédio e exija doses maiores para obter o efeito desejado. “É uma situação que se inverte, e o remédio acaba por perpetuar a dor de cabeça.” Com o tempo, o chamado efeito rebote faz com que o comprimido perca a eficácia e provoque a dor. O médico diz que é preciso passar por um processo de desintoxicação, que deve ser acompanhado por um profissional. A mistura de analgésicos com outros medicamentos pode anular os efeitos ou provocar reações contrárias, e até afetar outras partes do organismo, alerta Pedro Eduardo Menegasso, presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP). Quem é hipertenso, por exemplo, deve evitá-lo porque a dipirona altera a pressão sanguínea, diz o farmacêutico. Os analgésicos também desprotegem o estômago e o uso excessivo pode causar ou agravar quadros de gastrite e úlcera, alerta.

Sucesso. Além da fórmula de ação rápida, outro ponto que fortalece a popularidade do remédio é o direcionamento comercial da marca, afirma Menegasso. “Você tem muito mais casos de cefaleia do que de dor nas costas, então o Dorflex explode como um produto de consumo quando começa a ser indicado para dor de cabeça”, diz. A Sanofi, laboratório responsável pela marca, informa que a indicação para dor de cabeça tensional sempre esteve nas campanhas publicitárias do remédio e não divulga os valores de investimento. Entre especialistas, o sucesso do medicamento passa pela relação custo-benefício e pela tradição de longa data. “Dorflex vende mais porque uma cartela vem com dez comprimidos e é mais barata do que outros analgésicos”, diz a neurologista Carla. Para consumidores como Rosalia, essa relação ficou mais atrativa neste ano, quando a Sanofi aumentou de 30 para 36 a quantidade de comprimidos em uma caixa. “Fiz um tratamento por três anos, mas não pude continuar por questões fi-

1.

2.

3.

Abuso. O remédio faz parte da

Quais são os princípios do slow medicine?

Para mim, o movimento é basicamente fazer uma boa consulta. O slow medicine tem como base uma medicina sóbria, justa e respeitosa, que utiliza a tecnologia com cautela e prioriza a boa relação entre o médico e o paciente. Assim, os dois têm como decidir juntos qual o melhor tratamento a seguir. Isso evita a prescrição exagerada de medicamentos e respeita os interesses e a disposição dos pacientes.

com o composto de dipirona. A doença não tem cura e atinge apenas seis em cada um milhão de pessoas por ano. A sensibilidade que provoca é tanta que Ester tem reações alérgicas só de abraçar pessoas que tomaram a substância. A alergia ao paracetamol foi descoberta pouco tempo depois, quando teve reações ao dar um beijo no marido, que havia tomado um antigripal. As cartelas de Dorflex e paracetamol foram descartadas e hoje ninguém na família consome esses remédios. Para evitar riscos, Ester passou a levar sempre um antialérgico na bolsa. A empresária convive com es-

l Enquanto você lê este texto, 1.735.080 doses de remédio estão sendo consumidas no Brasil

O senhor defende a “desprescrição” de remédios. Por quê?

Muitas vezes, quem está com um problema de saúde consulta diferentes especialistas. Cada médico receita um remédio, sem pensar no histórico do paciente e na interação que pode haver entre as drogas que ele está tomando. Há casos em que o medicamento é indispensável – e deve ser prescrito. Só não se pode receitar para tudo. O excesso de remédios provoca mais malefícios do que a doença em si.

se problema desde 2009 e tentou outras formas de sinalizar a alergia, como um colar e uma pulseira, antes de o médico dizer que o método mais seguro era mesmo a tatuagem. “Eu vejo que as pessoas tomam medicamento sem ter a percepção de que é uma droga e que pode fazer muito mal.” Ela mesma usou Dorflex sem indicação médica, de forma frequente, acreditando que resolveria assim a dor crônica na coluna adquirida quando se desdobrava para conciliar trabalho, estudos e cuidados com a filha. “Minha vida saiu de controle e o primeiro sinal foram dores insuportáveis da coluna.” Aos poucos, porém, ela começou a ter dificuldade para caminhar, comer e até respirar. Surgiram bolhas de água pelo corpo. A boca e o nariz pareciam queimar e os olhos inchavam e ardiam. Em quatro meses, Ester passou por três consultas em clínicas diferentes. Os médicos disseram que era estresse. Mas o diagnóstico correto só veio após consultar um especialista: alergia a dipirona.

Popularidade

1,3 milhão l é o número de curtidas na página do Dorflex no Facebook. É o maior volume de fãs entre os analgésicos, o que confirma sua popularidade.

A que se deve a prescrição exagerada de medicamentos?

Muitos médicos são induzidos pela indústria farmacêutica, que oferece regalias em troca da prescrição. Isso provoca conflito de interesses. Existe também o medo do que pode acontecer ao paciente se ele não receber nenhuma medicação. Isso leva os profissionais a receitarem de imediato para se isentar dessa responsabilidade. É mais fácil adicionar um comprimido à rotina de um paciente do que retirar um.

nanceiras. É muito mais barato comprar uma cartela de Dorflex do que pagar R$ 200 no remédio indicado pelo médico”, conta Rosalia. A neurologista Thais atribui o sucesso da droga à própria história do medicamento, que está há 45 anos no mercado. “As pessoas só conhecem analgésico para tratar a dor de cabeça e acabam aderindo pela propaganda boca a boca mesmo”, diz ela. Foi assim que a estudante Angélica Silva, de 27 anos, começou a tomar Dorflex. A indicação veio da irmã, que usava quando tinha ressaca. Com o tempo, Angélica percebeu que o remédio a deixava mais disposta. “Passei a tomar um por dia, mas depois um só não fazia mais efeito. Aumentei a dosagem para dois, depois três, depois quatro. Quando abri o quinto comprimido, me dei conta do que estava fazendo e decidi não tomar”, conta ela. Atualmente, Angélica evita qualquer tipo de medicamento e prefere esperar a dor passar, mesmo que persista por dias seguidos. A neurologista Thais ressalta que a dor de cabeça é um sintoma e não a doença em si. Quando ocorre toda semana, a médica recomenda suspender os medicamentos e consultar um especialista. O clínico geral Lichtenstein diz que o histórico de cada paciente é importante. “São medicamentos que precisam ser individualizados, considerando os remédios de uso contínuo que a pessoa já toma”, orienta.

4.

Quais são as alternativas à prescrição de medicamento?

Uma delas se chama watchful waiting (espera atenta), abordagem médica que aguarda para ver como o corpo reage aos sintomas em vez de prescrever remédios de imediato. Mudanças no estilo de vida também são uma alternativa, como redução do consumo de sal e prática de exercícios. Mas é preciso ter uma boa relação com o paciente. Caso contrário, ele pode se frustrar ao não conseguir uma receita.

FUCAS FRASCA

De quem marcou a pele para salvar a vida aos que tatuaram no corpo o apego aos remédios, as fotos deste especial ilustram a forte relação entre pacientes e medicamentos. Usar a tatuagem como uma espécie de prontuário é uma prática comum no exterior que começou a ficar mais frequente no País. Algumas vezes, a sugestão de fazer o desenho parte dos próprios médicos. A ideia é evitar que seus pacientes, em casos de emergência, recebam substâncias a que são alérgicos. No Brasil, o grupo que mais

aderiu à tatuagem é o dos diabéticos, pelos riscos que eles enfrentam em sua rotina. O fotógrafo Lucas Frasca, de 35 anos, tatuou o alerta depois de episódios em que desmaiou por causa do baixo nível de açúcar no sangue. “Pode acontecer de me levarem para um hospital e me colocarem no soro normal, que tem glicose”, afirma Lucas. “Para um diabético, isso é perigoso.” Há ações específicas estimulando a prática. Caso da IdentiArte, promovida pela Associação de Diabetes Juvenil (ADJ), em parceria com o Led’s Tattoo, em São Paulo. “Eles se sentem mais seguros”, diz Sergio Leds, dono do estúdio de tatuagem. / RAFAEL GONZAGA


O ESTADO DE S. PAULO

SÁBADO, 10 DE DEZEMBRO DE 2016

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Especial H7

Em excesso, descongestionantes e analgésicos podem provocar doenças graves

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les estão no balcão da farmácia e na caixa de remédios que todo mundo tem em casa. São baratos e parecem inofensivos. Neosoro, Dorflex, Paracetamol: remédios famosos por proporcionar alívio quase imediato a sintomas comuns, do nariz entupido à dor de cabeça. Quando consumidos em excesso, porém, podem ter o efeito inverso e causar doenças difíceis de resolver. Uma rinite que piora após sete dias de uso do descongestionante, uma dor de cabeça que se torna crônica com o consumo de dez comprimidos mensais e um tratamento para gripe que pode causar hepatite e, em alguns casos, até levar à morte. Medicamento mais vendido no Brasil há cinco anos consecutivos, segundo a consultoria QuintilesIMS, o Neosoro Ad oferece uma sensação de bemestar instantâneo, sem parecer perigoso. Embora seja um tarja vermelha, que necessita de receita médica, este e outros descongestionantes podem ser comprados sem prescrição facilmente. Além de causar rinite medicamentosa, eles estão frequentemente associados às intoxicações – ocupam o terceiro lugar na lista, de acordo com o

Caroline Monteiro Sara Abdo

Seis em cada dez idosos consomem mais de cinco remédios por dia, o que aumenta os riscos de interação entre as substâncias e leva a uma taxa maior de internação e morte. A prescrição de medicamentos inadequados para essa faixa etária e a dificuldade em seguir o tratamento só fazem a situação piorar. “É uma questão de saúde pública”, afirma José Elias Soares Pinheiro, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. O uso de nove remédios por dia levou o aposentado Fabio Valentini, de 89 anos, a uma tosse seca, queimação no peito e azia, provocados por refluxo. A médica da família reduziu a lista de medicamentos e, hoje, ele toma só dois diariamente. “Com o uso de três substâncias, já fica difícil prever as reações”, diz a geriatra Silvia Pereira, do Fórum Internacional da Longevidade. “A partir de cinco, consideramos que o idoso está tomando remédio em excesso.” A mistura de medicamentos pode duplicar a chance de infarto, como é o caso do omeprazol, usado para o estômago, com o clopidogrel, indicado para quem sofreu ataque cardíaco. O problema seria resolvido com a troca do primeiro pelo pantoprazol, segundo o farmacêutico André Baldoni, da Universidade Federal de São João del-Rei. É dele a pesquisa que mostra que 60% dos idosos consomem mais do que cinco remédios. Mas há reações que não dependem de mistura. Estudo da UFMG revela que 44% dos idosos usam remédios inadequados para a idade. É o caso do anticonvulsivante Rivotril e do antialérgico Polaramine, que causam sonolência, aumentando o risco de quedas. Esquecimento e trocas de remédios são outros fatores de risco. A aposentada Maria Antonia Teixeira, de 77, por exemplo, teve crise de hipoglicemia, após repetir a dose do remédio para diabetes.

Centro de Assistências Toxicológicas do Brasil (Ceatox). Em sete dias de uso consecutivo, com três aplicações diárias, o remédio já pode oferecer riscos, diz o professor João Mello Júnior, chefe do grupo de Alergia em Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da USP. “O alívio é imediato porque o medicamento contém substâncias vasoconstritoras que reduzem o fluxo sanguíneo. Porém, o uso contínuo faz com que o resultado seja cada vez menor, o que causa o efeito rebote.” Além de machucar a mucosa, o especialista diz que o uso frequente pode causar perfuração de septo e perda do olfato. Arritmia, aumento da pressão arterial e retenção urinária também são reações adversas relatadas. Em crianças, pode provocar convulsões e levar à morte. O produtor gráfico Vitor Alcalde, de 27 anos, sofreu com as consequências mais graves do remédio: ficou três dias na UTI com pressão alta e mais duas semanas internado após usar descongestionante quase todos os dias por oito anos. “Nunca imaginei que estava passando mal por causa do Naridrin. Mas, enquanto não acontece uma coisa dessa, ninguém acredita que pode fazer tanto mal”, conta ele, há quatro meses sem o

medicamento. Desde então, Vitor toma comprimidos diários para problemas de coração, pressão, ansiedade e estômago. As empresas EMS, fabricante do Naridrin, e Neo Química, do Neosoro, informam que seus produtos devem ser usados sob prescrição médica e que os riscos e reações adversas constam nas bulas. Além disso, a Neo Química afirma que o Neosoro não cria dependência. Para evitar complicações, Mello Júnior recomenda a higienização diária do nariz com soro fisiológico morno pela manhã e à noite. Outra opção é utilizar o lota, utensílio de origem indiana para a limpeza nasal. Ele explica que, em situações pontuais, como uma gripe forte, o descongestionante é permitido, desde que não ultrapasse três dias. Cefaleia. Não tão

rápido quanto o descongestionante,

l Enquanto você lê este texto, 1.447.422 doses de remédio estão sendo consumidas no Brasil

o efeito rebote dos analgésicos costuma aparecer após três meses de uso contínuo, com o consumo de 10 a 15 comprimidos por mês, segundo a Sociedade Internacional de Cefaleia. “Eles geram um fenômeno no cérebro chamado de hiperexcitabilidade, que deixa os neurônios mais sensíveis à dor e causa os mesmos sintomas de uma enxaqueca forte”, explica o neurologista Mario Peres, do Hospital Albert Einstein. A longo prazo, gastrite, úlcera e insuficiência renal também podem aparecer. O gerente comercial Jorge Remaeh, de 30, fazia parte desse grupo e chegou a tomar mais de 15 comprimidos de analgésico por mês. Quando o remédio não surtia mais efeito, investiu em 60 gotas diárias de dipirona. Após três anos de automedicação, procurou um neurologista. “Não me preocupava com os problemas que poderia ter, mas o médico disse que o hábito tinha

virado vício.” Com quatro sessões de massagem miofascial – técnica de relaxamento muscular feita por um fisioterapeuta –, as crises diminuíram. Hepatite. Analgésicos compostos por paracetamol também são os principais causadores de uma doença chamada hepatite medicamentosa, que não é contagiosa. Usados para gripe e dor de cabeça, seu consumo excessivo pode levar a sérios problemas hepáticos, incluindo transplante e morte. Segundo o hepatologista Eduardo Cançado, do Hospital das Clínicas, o paracetamol é um dos remédios mais perigosos para o fígado. “A ingestão de três gramas em um dia pode desencadear hepatite.” Ervas da medicina alternativa também podem causar hepatite, alerta o hepatologista Aécio Flávio Meirelles. Ele cita as ervas de São Cristóvão, São João e cidreira, além dos chás de cavacava e cavalinha e algumas plantas asiáticas, como a consumida pela professora universitária Cássia Vanícola, de 51. Ela contraiu a doença no fim de 2014, após consumir por dois meses cápsulas à base de ashtanga, receitadas por um homeopata. Acabou internada por duas semanas. “Sempre gostei de tratamentos alternativos, mas agora pesquiso antes.” / COLABOROU PEDRO ROCHA

} As fãs sabem do meu vício em Neosoro. Várias vezes, ganhei o remédio de presente, com embalagem bonita e fitinha colorida.” Adriel de Menezes, de 25 anos, vocalista da Banda Pollo

SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Marina Mori e Ricardo Miorelli

Um milhão de Neosoros por aí Nariz tampado, rinite e sinusite fizeram Adriel de Menezes usar o descongestionante pela primeira vez quando ainda criança. Hoje, aos 25 anos, o vocalista da banda Pollo aplica o remédio três vezes por dia e não consegue parar, mesmo após recomendação médica. Nos shows, muitas vezes está com o Neosoro no bolso. “Já tive de ir para outra cidade no meio da noite para comprar um vidrinho.”


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O ESTADO DE S. PAULO

SÁBADO, 10 DE DEZEMBRO DE 2016

CHECK-UP Marcado pelo DNA O microempresário Alexandre Prado de Aragão Júnior, de 20 anos, não sabe como é viver sem remédios. Ele nasceu com fibrose cística, uma doença genética, e precisa tomar até seis pílulas de Creon diariamente. Uma relação que Alexandre gravou na pele: o desenho da cápsula é acompanhado de uma espiral de DNA e da árvore da vida.

ALEXANDRE PRADO DE ARAGÃO JÚNIOR/ARQUIVO PESSOAL

} A pílula representa a doença que me acompanha desde que nasci. Tomar o remédio já faz parte do meu dia a dia.” Alexandre Prado de Aragão Júnior, de 20 anos, empresário

gravidar. “A internet potencializa esse comportamento.” O Google Trends, ferramenta que permite visualizar as estatísticas de buscas, mostra que, no período analisado pelo Estado, o Brasil foi o 24º colocado no ranking global de interesse por gravidez. Os cinco primeiros são Irã, Indonésia, África do Sul, Nigéria e Quênia. A sexóloga Maria Claudia Lordello, da Unifesp, diz que a dificuldade de acesso à informação é uma das razões para esses países estarem no topo, além de questões de direitos das mulheres e sexualidade. “Falar de gravidez é afirmar que a pessoa tem uma vida sexual, o que é um grande tabu.”

Um dos tópicos mais pesquisados, ela é resultado para sintomas que vão de um clássico enjoo a sensibilidade nos dentes Letícia Naísa, Paulo Batistella e Sarah Teófilo

ode digitar na internet qualquer um destes sintomas: enjoo, cólica, cansaço, tontura, dor nas costas, azia, sensibilidade nos dentes, sangramento da gengiva, coceira, choro, bolhas no peito, intestino preso. Todas as buscas levam à gravidez. “Tive sintomas emocionais, acne, chorava muito, e o Google falava que tudo era gravidez”, diz Luciana Lima, de 22 anos. As pesquisas pelo tópico no

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Plínio Aguiar

A cada 20 minutos, a professora de educação infantil Carla de Morais Ribeiro, de 24 anos, lava as mãos. Também aproveita para higienizar os pés, esteja onde for, por receio de se contaminar. Recentemente, jurava que tinha um linfoma. Um pouco antes, acreditava que seu problema era câncer no pescoço. Ainda hoje, ninguém lhe tira da cabeça que tem leucemia. Chegou a desenvolver uma gastrite de tanto tomar vitamina C para não contrair gripe suína. O medo de morrer a cada se-

buscador superam de longe as de outros assuntos de saúde. Os termos mais buscados são “gravidez”, “grávida” e “sintomas gravidez”. Entre dezembro de 2015 e novembro deste ano, a procura pelo tema foi três vezes maior do que por diabetes e câncer – duas das doenças crônicas mais comuns no Brasil. Hipertensão, também corriqueira, é quatro vezes menos procurada. No caso de Luciana, nem três negativas em testes foram suficientes para convencê-la de que não seria mãe. Ela usava anticoncepcional e menstruou,

mas acreditou ser nidação, sangramento comum a grávidas. Essa não foi a única vez que “engravidou”. A segunda suspeita veio com uma bolha de água abaixo do pescoço. “Joguei no Google e era aids ou gravidez.” Consultou uma dermatologista e descobriu uma alergia. “A médica riu, falou que o Google sempre diz isso.” A ginecologista Zsuzsanna Jármy-Di Bella, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que as pesquisas, em geral, são motivadas por medo ou dificuldade, e vontade, de en-

gundo ou de pegar uma doença atrapalha tanto a vida da carioca que, em outubro, ela perdeu o emprego. A justificativa, segundo Carla, foi que isso poderia atingir os alunos. Sua hipocondria já afeta até a relação com o filho, Guilherme, de 3 anos – a cada tosse dele, a mãe logo pensa que se trata de algo grave. “Eu não tenho vida. Vivo com medo de ter uma doença no futuro. E todo mundo acha que é loucura da minha cabeça.” Diagnosticada com transtorno hipocondríaco há três anos, Carla hoje faz psicoterapia e meditação uma vez por semana.

Ela já se sente melhor, mas ainda sofre com os sintomas e com as consequências de uma disfunção pouco compreendida pelo companheiro, pelos pais e pelos empregadores. “Meu marido acha que é algo que consigo controlar. Na cabeça dele, não é nada de mais, mas na minha, não”, conta ela, casada há seis anos. Antes, ele a acompanhava ao hospital, mas hoje acaba indo sozinha. As brigas do casal também aumentaram em decorrência do problema. Desde 2013, a hipocondria está classificada dentro do transtorno de ansiedade, e costuma

l Enquanto você lê este texto, 1.004.520 doses de remédio estão sendo consumidas no Brasil

Parceria. Informações imprecisas sobre saúde levaram o Google a fazer uma parceria neste ano com o Hospital Israelita Albert Einstein – assim como nos EUA – para destacar as explicações de especialistas nos resultados de busca de ao menos 400 casos clínicos. Embora tenha apelo, gravidez não foi incluída na lista, apenas tensão pré-menstrual (TPM). O Google, que fez a seleção, não informa os motivos para não incluir esse termo. A vontade de ser mãe fez a publicitária Mariana Pondioli, de

estar associada a outros quadros psiquiátricos. No caso de Carla, o diagnóstico abrange ainda bipolaridade e ansiedade generalizada, o que também faz oscilar bastante seu humor – ela acredita que isso também contribuiu para sua demissão. Para controlar esses distúrbios, a professora toma remédios com acompanhamento médico. “Esses meu marido até entende, mas a hipocondria, não”, conta a professora. Ela acredita tanto que tem alguma doença que duvida de exames e profissionais que lhe dizem o contrário. Uma semana

33, buscar por qualquer sintoma. Resultados como corrimentos vaginais diferentes ou gosto metálico na boca já a convenciam. “Sempre dizia que estava sentindo algo pequeno que vi no Google, fiquei que nem louca procurando.” Ela engravidou meses depois, quando parou de pesquisar. Com expectativa contrária, a estudante Isabele Troyano, de 21, acreditou que urina em excesso fosse um sinal. “Entrei em pânico e chorei sem parar.” Em duas semanas, menstruou e descartou a gravidez. Mas o sintoma se agravou, e ela descobriu uma infecção urinária. Confusões assim são comuns, segundo Aldemir Humberto Soares, do Conselho Federal de Medicina. “As pessoas não têm filtros para avaliar o que veem no Google.” A ginecologista Carla Martins diz que o único sintoma a ser observado é o ciclo menstrual irregular. Especialista da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, ela sugere um exame de sangue após dez dias de atraso. Caso dê negativo e a paciente não menstrue, é preciso repetir o exame e ir ao ginecologista. “Não é só perguntar ao oráculo, tem de consultar o médico.”/ COLABOROU LEONARDO RIBEIRO

antes desta entrevista, sentiu coceira pelo corpo, cansaço e mal-estar. “Fui a três médicos e me falaram que não era nada, mas estou conversando com você agora e achando que é câncer e que vou morrer.” Esse, como todos os outros diagnósticos, Carla tirou de pesquisas na internet. Seu marido já chegou a cortar o sinal da rede em sua casa por uma semana para impedir que a professora pesquisasse doenças. Ela tenta seguir o conselho de sua psiquiatra: “Pare de procurar no Google porque o Google não é médico.” Mas não consegue.

Realização:

DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Conheça os Focas No alto, primeira fileira: Lígia Morais, Matheus Lara, Matheus Prado, Ricardo Miorelli, Paulo Batistella, Rafael Gonzaga, Paulo Palma Beraldo, Leonardo Ribeiro, Gabriel Justo, Bárbara Mangieri e Samuel Quintela. Na segunda fileira: Sarah Teófilo, Letícia Naísa, Alline Magalhães, Elisa Clavery, Marina Mori, Sara Abdo, Caroline Monteiro, Plínio Aguiar, Pedro Rocha e Willy Delvalle. Na terceira fileira: Ludimila Honorato, Naomi Matsui, Carolina Werneck, Bibiana Borba, Paula Pauli, Mariana Machado, Larissa Teixeira e Jonas Lírio.

Patrocínio:

Suplemento Focas Diretor de Jornalismo João Caminoto Supervisão editorial José Alberto Bombig, Ricardo Grinbaum e David Friedlander Coordenação Carla Miranda Edição Andréia Lago, Aryane Cararo, Carla Miranda e Luiz Carlos Ramos Reportagem Alunos do 27º Curso Estado de Jornalismo Direção de Arte Fabio Sales Projeto gráfico Thiago Schiavetti Jardim Produção Marisa Oliveira

Caderno 'Tanto remédio para quê?'  

Caderno especial do jornal O Estado de S. Paulo, produzido pela turma de focas do 27º Curso Estado de Jornalismo e publicado na edição do di...

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