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O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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DECLARAÇÃO DA LIGA COMUNISTA PARA O DIA INTERNACIONAL DAS TRABALHADORAS

Fora Obama! Derrotar Dilma e sua política pró-imperialista de aumento da exploração sobre as trabalhadoras!

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pós a crise econômica, o imperialismo, tendo os EUA de Obama como representante maior, avança para obrigar os trabalhadores de todo o mundo a pagar as contas da farra especulativa capitalista, aumentando a exploração e a pilhagem sobre as riquezas naturais, e promovendo guerras “pela democracia”, como agora para recolonizar a Líbia e garantir a exploração do petróleo do país. Na visita que fará ao Brasil nos dias 19 e 20 de março, Obama se certificará de que Dilma Rousseff manterá as tropas brasileiras – de soldados assassinos e estupradores – no controle do Haiti, bem como fará um discurso populista no Rio de Janeiro, onde irá vistoriar como os governos do PT aumentam a repressão nos bairros proletários, por meio das Unidades de Polícia Pacificadora – UPPs. Na política externa, o governo Dilma vem demonstrando um acentuado servilismo em relação até mesmo a Lula, tomando posições em favor campanha “humanitária” pelo isolamento internacional de Cuba e do Irã e apoiando todas as sanções e medidas de intervenção da ofensiva imperialista contra a Líbia. Nesta atual etapa de ofensiva imperialista contra as proletárias, a eleição de Dilma não foi um ponto sem nó dos capitalistas. O imperialismo está muito bem representado no Brasil, por uma mulher, para melhor enganar a maioria da classe trabalhadora e seu gênero mais explorado – as proletárias – que graças ao machismo capitalista recebem 30% a menos que os trabalhadores homens. Sob o governo da primeira mulher na presidência, as trabalhadoras sofrem um brutal arrocho salarial. Dilma impõe um pífio reajuste de apenas 35 reais no salário mínimo para a felicidade dos empresários que lucram duas vezes: pagando menos aos seus escravos assalariados e disparando os preços dos aluguéis, alimentos, transportes, etc. Por outro lado, impõe também um ajuste fiscal para recapitalizar os cofres do Estado após o governo ter desviado dos mesmos bilhões de reais para salvar banqueiros e empresários durante a crise econômica. Essa medida penaliza sobretudo as trabalhadoras, com o corte de 50 bilhões de reais através do congelamento do salário dos servidores públicos, reduzindo verbas da previdência social (inclusive do seguro-desemprego) e fazendo cortes no orçamento federal para habitação, reforma agrária, educação, saúde, esportes, meio ambiente e transportes. A reação clerical antiaborto da campanha eleitoral foi outra prévia da perseguição ao direito das trabalhadoras, que veremos aumentar por trás da demagogia “feminista” na era Dilma. Não houve e nem haverá nenhum avanço no sentido da legalização, e milhares de mulheres trabalhadoras continuam morrendo vítimas da criminosa opressão capitalista que as obriga a recorrer a clínicas clandestinas sem as mínimas condições de higiene ou segurança, e ainda sendo criminalizadas pelas leis bur-

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guesas. O machismo tem como objetivo, antes de tudo, a desvalorização da força de trabalho feminina para aumentar a mais-valia capitalista. Nasceu com a propriedade privada e é utilizado pela burguesia, assim como todas as outras opressões (contra homossexuais, negros, indígenas, etc) para aumentar seus lucros através da superexploração desses setores da classe trabalhadora. Desgraçadamente, as organizações que hegemonizam o movimento operário, como PT, PCdoB, PSOL, PSTU, etc, se recusam a fazer com que a luta pela emancipação das mulheres seja parte da luta contra o capitalismo e seu Estado. Pelo contrário, esses partidos apostam abertamente na colaboração de classes quando se trata da “defesa das mulheres”, comprometendo assim a independência política de nosso combate ao machismo, que só pode ser vencido pela unidade de toda a classe trabalhadora por meio da luta revolucionária contra a exploração econômica imperialista e capitalista. Fazendo isso, combateremos o machismo também em nossas próprias fileiras. O que temos hoje é um movimento de “defesa das mulheres” completamente equivocado, e que está voltado apenas para fazer demagogia com a metade feminina da classe trabalhadora, pois possui um programa burguês e se autodeclara socialista. Mas, como pode ser socialista se está centrado no aumento do poder repressivo do Estado, através da reivindicação de mais delegacias da mulher, da “aplicação e ampliação” da Lei Maria da Penha e de “punição aos agressores”? Pior, como podem se dizer em defesa da mulher trabalhadora as organizações da esquerda pequeno-burguesa, se em 2006, por exemplo, PSOL e PSTU apoiaram a candidatura da senadora Heloisa Helena, que no auge de sua popularidade usou a mesma para defender a criminalização do aborto? Esse é um fato que serve para desmascarar o oportunismo político dessas correntes, e seu programa vendido à ganância por cargos no parlamento capitalista. Fortalecer o Estado burguês não serve aos interesses históricos das proletárias. Ao contrário, divide a classe trabalhadora, fazendo as mulheres acreditarem que seus inimigos são os companheiros homens, superexplorados e contaminados pelo machismo, e não o Estado capitalista, que se alimenta dia após dia do sangue e do atraso da consciência de classe dos homens e mulheres cuja força de trabalho produz toda a riqueza apropriada pela burguesia. A tarefa que se coloca na ordem do dia é jogar por terra essas bandeiras que exigem mais repressão burguesa, e substitui-las pelas bandeiras classistas que estão sendo ofuscadas ou até completamente esquecidas, como a de salário igual para trabalho igual, de um dia a mais de descanso por semana para as mulheres trabalhadoras e de pensão alimentícia paga pelo Estado e não SEGUE è


imposta sobre os miseráveis salários dos trabalhadores de quem já foi extraída a mais-valia, ou seja, que já foram previamente roubados. É necessário que toda a classe trabalhadora, todas as mulheres e homens proletários, se organizem em comitês operários, por locais de trabalho e locais de moradia, para que seus problemas, como por exemplo a violência doméstica e sexual, possam ser discutidos e resolvidos coletivamente, sem interferência do Estado capitalista burguês e sua polícia torturadora, e assim caminhem em direção à autodeterminação como classe, construindo um partido revolucionário da população trabalhadora para organizar a luta pela Revolução Socialista, única forma de pôr fim à opressão machista. A bandeira da libertação da mulher trabalhadora na África e Oriente Médio, como a mulher egípcia, vanguarda de muitas greves têxteis, não deve ficar na mão demagógica da burguesia liberal ou do imperialismo. Cabe à classe operária lutar contra a mutilação genital e todas as formas de opressão obscurantistas com seus próprios métodos e meios. Como constatou o fundador do Exército Vermelho: “Não haverá melhores comunistas no Oriente, nenhum lutador melhor para as ideias da revolução e para as ideias do comunismo do que a mulher trabalhadora desperta para a luta.” (Perspectivas e Tarefas no Oriente, Trotsky,1924) A libertação de todas as filhas da população trabalhadora da opressão clerical burguesa será obra de uma verdadeira revolução permanente nestes países contra

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a influência da burguesia liberal e do imperialismo sobre as massas. O primeiro passo do conjunto dessas tarefas é a organização de um ato nacional no Rio de Janeiro no dia 20 de março, para rechaçar a presença no Brasil de Barack Obama, o representante maior do imperialismo, como parte de nossa luta por libertar a nós mesmos e a nossas irmãs e irmãos palestinos, afegãos, haitianos, iraquianos, líbios, egípcios, tunisianos e de todo o planeta do imperialismo e do capitalismo. ►POR UM DIA DE FOLGA EXTRA POR SEMANA PARA AS TRABALHADORAS ►SALÁRIO IGUAL PARA TRABALHO IGUAL ►SALÁRIO MÍNIMO VITAL DE R$ 3.800,00 ►LICENÇA-MATERNIDADE POR 2 ANOS COM PAGAMENTO INTEGRAL DE SALÁRIO PELO ESTADO MAIS AUXÍLIO-MATERNIDADE DE MAIS 60% DO SALÁRIO ►LICENÇA-PATERNIDADE DE 3 MESES INTERCAMBIÁVEL COM O TEMPO DE LICENÇA MATERNIDADE COM SALÁRIO INTEGRAL MAIS AUXILIO PATERNIDADE DE 60% DO SALÁRIO ►POR ESCOLAS, CRECHES, HOSPITAIS, RESTAURANTES, LAVANDERIAS E MODERNAS BIBLIOTECAS COM PLENO ACESSO À INTERNET, PÚBLICAS, GRATUITAS E ESTATAIS CONTROLADAS PELA CLASSE TRABALHADORA ►PLENO DIREITO AOS MÉTODOS CONTRACEPTIVOS E AO ABORTO LEGAL, SEGURO, GRATUITO E ESTATAL PARA AS MULHERES TRABALHADORAS

Acesse o blog da Liga Comunista

á está em funcionamento nosso militante virtual, na defesa de um programa proletário, trotskista e internacionalista. No blog, estão atualizadas as seções: English, MOVIMENTO OPERÁRIO, INTERNACIONAL, BRASIL e TEORIA MARXISTA. Em breve Liga Comunista também em Espanhol e as seções jornal O Bolchevique e OPRESSÕES estarão em pleno funcionamento. Também, como os leitores podem conferir na capa dO Bolchevique # 3, já possuímos Caixa Postal, de número 09 e CEP 01.031.970, São Paulo, SP. E nosso e-mail permanece o mesmo: liga_comunista@yahoo.com.br. Entre em contato, faça críticas e sugestões a fim de que possamos aprimorar nosso trabalho militante e oferecer nossas melhores energias na reorganização principista e revolucionária do proletariado!

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ESPECIAL ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO

Revoltas populares e Recolonização imperialista

A CRISE CAPITALISTA É A MÃE DAS REVOLTAS POPULARES

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crise econômica de 2007-2008 provocou a onda de greves europeias em 2010 e de revoltas populares no norte da África e no Oriente Médio em 2011. Na América Latina, até o momento, mas não por muito tempo, os governos da chamada “centro esquerda” vêm retardando e amortecendo o conflito social através do controle que exercem sobre as organizações de massa. Após transferir uma enorme massa de capitais dos cofres estatais para o bolso dos grandes capitalistas a fim de sanear o rombo causado pelo “dinheiro perdido” pelas grandes empresas com a queda das ações nas bolsas, os Estados capitalistas, tendo a frente os EUA e a Europa, tratam de cobrar a conta da orgia especulativa à classe trabalhadora do planeta. O reaquecimento da economia posterior às demissões em massa geradas pela crise se apoia em um novo aumento da extração da mais valia e, portanto, no arrocho salarial, superexploração da força de trabalho, ajustes fiscais, cortes nos serviços sociais do Estado ligados à saúde e educação, destruição de conquistas trabalhistas, sindicais, da previdência estatal, etc. Enquanto esperava pela recuperação no valor das ações dos bancos e indústrias (automobilística, Internet, etc.), os especuladores transferiram seus investimentos para os chamados commodities, produtos de origem primária, pouco industrializados, de baixo valor agregado e alto consumo global. Primeiramente para os commodities de origem agrícola, os alimentos. O índice CRB, que mede o preço das commodities no mercado global, atingiu 518,7 pontos em dezembro, superando o pico de 476,7 em junho de 2008. A população passou a receber menores salários, trabalhar mais e ainda sentiu a comida subir de preço com a perversa especulação financeira com os alimentos. Também em 2007 e 2008, distúrbios populares contra a alta dos alimentos eclodiram em países como Tunísia, Argélia, Jordânia, Egito, Moçambique, Marrocos e Chile. Mas já em fevereiro, após iniciada a ofensiva dos EUA/ OTAN sobre a Líbia a fim de tomar a dianteira da Europa no controle do petróleo daquele país e estabelecer um novo ponto de apoio político, militar e energético do imperialismo ianque no centro da África do Norte, como quando da ocupação do Iraque, os investidores giraram suas apostas dos commodities agrícolas para os minerais. O preço do petróleo disparou, acompanhado também pelo do gás, ouro e prata. O FATOR BOUAZIZI OU O ELEMENTO INCONSCIENTE E ESPONTÂNEO A inflação alimentar foi um dos principais combustíveis da revolta em países cuja população trabalhadora possui um alto nível de desemprego e recebe baixos salários, gastando a maior parte de sua miserável renda com ali-

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Mulheres egípcias protestam contra a ditadura Mubarak

mentação. Enquanto nos EUA, a maioria da população gasta menos de 15% com comida, no Egito este índice passa de 50% dos salários. Este é o elemento social genuíno das revoltas, predominante na Tunísia, Iraque, Egito, Palestina, Bahrein, Iêmen, Sudão, Argélia, Marrocos, onde a elevação dos preços dos alimentos invoca imediatamente a antiga revolta da fome. Não por acaso, o epicentro da revolta está em países que possuem grandes concentrações urbanas no continente historicamente mais famélico do globo, graças ao colonialismo e ao imperialismo dominantes initerruptamente, do império romano ao império ianque. O desemprego juvenil é um agravante. Os países da Liga Árabe são os que concentram a maior quantidade de jovens. 65% da população do Magreb (Al-Maghrib, “nascente” em língua árabe, região que abrange do Marrocos à Líbia) e o Machrek (“poente”, do Egito à península arábica) tem menos de 30 anos. A região também detém a liderança mundial dos mais expressivos índices de desemprego, agravados após a crise financeira. Na Tunísia, a população gasta 36% do que recebe com alimentos. A média de idade do país é 29 anos. O levante popular que levou à renúncia do ditador Ben Ali no dia 14 de janeiro passado teve como estopim o suicídio de um jovem de 26 anos. Sem conseguir emprego regular, Mohamed Bouazizi ajudava sua mãe e irmã com 75 dólares mensais (120 reais) como camelô. Seu pai morreu no ano em que Ben Ali chegou ao poder através de um golpe de Estado, quando ele tinha três anos de idade e desde os 10 ele vendia nas ruas depois do colégio. Desempregado, ateou fogo no próprio corpo em frente à sede do governo provincial em protesto contra o confisco de seu carrinho de frutas pela polícia, que alegou ser ilegal a venda ambulante no país. A causa principal do suicídio de Bouazizi não foi o fato dele não poder votar ou não possuir um blog, mas por não suportar ver sua família castigada pela fome e pelo frio. A imolação foi seu protesto individual pelo direito ao trabalho. É este fator que leva a que genuínas revoltas contra a fome se convertam em protestos, greves econômicas e logo em greves políticas contra o desemprego, os baixos salários e à repressão. Marx considera que na luta pelo direito ao trabalho está o germe das futuras batalhas do


proletariado, sendo o direito ao trabalho, a fórmula primeira, embrionária, acanhada, em “que se condensavam as exigências revolucionárias do proletariado, [...] um desejo piedoso, miserável, mas por detrás do direito ao trabalho está o poder sobre o capital, por detrás do poder sobre o capital, a apropriação dos meios de produção, a sua submissão à classe operaria organizada, portanto, a abolição do trabalho assalariado, do capital e da sua relação recíproca”. (As lutas de classes na França de 1848 a 1850) O mesmo pode se dizer do conjunto das revoltas populares árabes nestes últimos meses, que são levantes espontâneos, desorganizados, sem consciência nem independência de classe, mas, sem dúvida, como as lutas contra a fome de 2007-2008 que as precederam, são escolas de luta política para as massas de toda a região. Na Arábia Saudita, Omã, Iêmen, Jordânia, Kuwait e no Bahrein os governos títeres do imperialismo, temendo que a intensidade dos protestos em seus países alcancem os níveis que ocorreram na Tunísia e Egito, tratam de realizar pseudo-reformas democráticas, conceder miseráveis aumentos salariais e “pôr as barbas de molho”. No entanto, a espontaneidade que num primeiro momento propulsiona o movimento, em breve se constitui seu calcanhar de Aquiles, ficando as massas rebeladas a mercê das articulações palacianas controladas pelo imperialismo. Sem um programa claro, sem uma estratégia de conquista do poder político e menos ainda organismos para isto, o movimento está condenado a um beco sem saída. Desgraçadamente, a heróica luta dos trabalhadores gregos acaba de comprovar, pela enésima vez, que sem teoria revolucionária fusionada com a luta da população trabalhadora, através de um partido político de vanguarda com influência de massas, não há movimento revolucionário. Mesmo as maiores greves gerais e as mais selvagens ocupações de fábrica não são capazes de resolver o problema da crise de direção revolucionária. Se no processo da luta as massas não encontram um rumo claro para sua emancipação e atendimento de seus objetivos, se não tiverem a sensação de que suas fileiras se tornam mais robustas e coesas, inevitavelmente, se inicia o processo da desmoralização. O combustível inicial, o agravamento da miséria, não é uma fonte regular e permanente de disposição de luta das massas para reagir coletivamente contra seus exploradores. Muitos setores que fazem sua primeira experiência cairão na passividade. Em meio à crise dos governos interinos, as direções sindicais se incorporam ao regime. Sem a direção resoluta do proletariado de forma altiva, vencendo as batalhas, a pequena burguesia tende a conformar-se com a falsa democratização. Na vanguarda, e particularmente na vanguarda da juventude desempregada e sem esperanças de futuro, diante do refluxo da resistência coletiva começarão a surgir tendências ao aventureirismo ou ao protesto de grupos isolados, alvos fáceis da repressão seletiva de grupos fascistas patrocinados pela burguesia, armados pelo aparato repressivo estatal e recrutados no lumpemproletariado, até a proliferação desesperada de novos protestos individuais como o de Bouazizi.

Mulher egípcia grita palavras de ordem contra o aparato policial

A REAÇÃO PLANIFICADA E ESTRATÉGICA “COM FORMA DEMOCRÁTICA” DO IMPERIALISMO Enquanto as massas sublevadas permanecem carentes de um plano estratégico e de organismos próprios, independentes para executá-lo, o imperialismo aproveitase da turbulência para realizar uma nova ofensiva com a finalidade de otimizar seus lucros na região. Como de costume, fingindo-se amante da liberdade e defensor da democracia, os EUA tratam de conduzir, por cima, um reordenamento de seu domínio na região, apoiando-se em cada país e, antes de tudo, na espinha dorsal de seus regimes títeres, nas Forças Armadas cipaias de suas semicolônias, controladas, em primeira instância, pelo Pentágono, CIA, M19 e Mossad. A “democratização” imperialista da África e da Ásia, controlada pela casta militar umbilicalmente ligada aos amos do grande capital, reedita, de forma ainda mais burlesca no século XXI e naquela parte do globo, os processos de transição das ditaduras militares para as democracias tuteladas, de abertura lenta e gradual da América Latina nos anos 1980 sob a pressão de jornadas de greves operárias e levantes populares em nosso continente. Todavia, o que acontece com o desvio da luta de nossos irmãos africanos e asiáticos expressa justamente o espirito reacionário de nosso momento histórico e a desfavorável correlação de forças para os trabalhadores na guerra entre as classes, criadas com o triunfo da contrarrevolução nos antigos Estados Operários da URSS e Europa e o AVANÇO DESIGUAL E COMBINADO DA RESTAURAÇÃO CAPITALISTA na China, Vietnã, Cuba e Coréia do Norte. Guardadas suas diferenças, a atual ofensiva imperialista contra a Líbia disfarçada de guerra civil tem o mesmo significado como divisor de águas da esquerda mundial que a guerra das Malvinas representou. Incomparavelmente mais importantes do que as ONGs patrocinadas pela CIA, as novas tecnologias da comunicação (internet, facebook, twitter, etc.), os organismos internacionais e profissionais da contrarrevolução estão tratando de apropriar-se dos destinos da turbulência para impor uma nova derrota as massas e realizar uma recolonização sob o tacão de Obama, mais profunda e consistente do que a ofensiva militar de Bush. Se os novos governos não conseguirem impor a estabilização política pela via do engano e das promessas “democráticas”, o farão pela repressão tão ou mais truculenta do que nos piores dias dos ditadores que deixaram a cena política. O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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TUNÍSIA: FRENÉTICA TROCA DOS “FUZÍVEIS” DO IMPERIALISMO O primeiro ministro substituto de Ben Ali não governou por 50 dias. Mohammed Ghannouchi, que havia sido membro do governo Ben Ali por 11 anos e que substituiu o ditador afugentado pelos protestos de dezembro e janeiro, também foi obrigado a renunciar após mais de uma semana de manifestações em massa controladas pela oposição burguesa contra o “novo” governo. O presidente interino, Fouad Mebazaa, outro ex-ministro de Ben Ali, nomeou então o Beji Caid-Essebsi, de 84 anos, que por um longo tempo foi funcionário do governo Habib Bourguiba, golpeado por Ben Ali em 1987, como o novo primeiro-ministro e reiterou a promessa de realizar eleições para substituir o regime interino até 15 de julho. Os oportunistas sindicais da União Geral dos Trabalhadores da Tunísia (UGTT), do Partido Comunista dos Trabalhadores da Tunísia (PCOT), stalinista, do Partido Progressista Democrático (PDP), partido da burguesia liberal e a oposição islâmica, Ennahda salivaram por ocupar três pastas no gabinete Ghannouchi. Mas, a exceção do PDP que assumiu o governo Ghannouchi, foram obrigados a retroceder diante da hostilidade das massas contra o ex-ministro de Ben Ali. Por isto, aliaram-se aos setores “democráticos” da burguesia para impulsionar um governo Caid-Essebsi que não seja imediatamente identificado pelas massas com os crimes de Ben Ali. Todavia, essa política de amortecimento da força do levante popular pavimenta a estabilização da reação burguesa. Seis dias antes de sua renúncia, Ghannouchi havia recebido a visita de dois representantes de alto nível do império ianque, os senadores John McCain e Joseph Lieberman. Este último é representante do sionismo na caravana parlamentar do Império e foi candidato à vicepresidência dos Estados Unidos em 2000, na chapa encabeçada por Al Gore. McCain, o candidato presidencial republicano em 2008, asseverou: “A revolução na Tunísia foi muito bem sucedida e tornou-se um modelo para a região”, e falando como representante do governo Obama acrescentou: “Estamos prontos para fornecer treinamento para ajudar os militares da Tunísia para garantir a segurança.” As palavras de MacCain não passam de proselitismo. A “revolução bem sucedida e modelo para a região”, ou seja, a reação que estancará o levante popular, lançou mão do recurso da “troca de fusíveis”. Se o imperialismo conseguir, através da rotatividade no poder das diversas alas da burguesia títere e da inclusão dos burocratas sindicais da UGTT no regime, conduzir as massas para as ilusões parlamentaristas e fazer refluir o movimento, o estrangulamento do levante pela via da reação “com forma democrática” se dará através do menor custo político, sendo necessário o esmagamento físico do movimento “para garantir a segurança” apenas de forma seletiva, para os setores mais indômitos do levante. EGITO: CONTINUIDADE DA DITADURA MILITAR SEM MUBARAK No Egito, o imperialismo cogitou mudar seu desgastado peão no poder sob a pressão das maiores revoltas populares do país, expressando um crescente depois das greves de Mahalla de 2006 e das greves contra a fome em 2008. “Nada disso surpreendeu muito a Casa Branca que há poucos meses, a pedido de Obama, começou a examinar a vulnerabilidade desses regimes e, mais recente-

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A “revolução jasmin” tunisina se espalha no mundo árabe mente, passou a examinar o que torna bem sucedida uma transição para a democracia. Michel McFaul, importante assessor de segurança nacional do governo americano, comanda o que chama brincando, de ‘Diretório Nerd’ da Casa Branca, onde passa semanas produzindo estudos de caso para o presidente e o Conselho de Segurança Nacional. ‘Não há um só enredo nem um só modelo, afirmou MacFaul.” (New York Times, 28/02/2011). Fanfarronice post festum ou não, o fato é que a relutância de Mubarak a retirar-se do poder acabou quando a alta cúpula das Forças Armadas, orientada pelos EUA, o pressionou a renunciar, para assumir ela mesma a frente do governo e fazer refluir a pressão popular no momento em que os trabalhadores deixaram de protestar como massa amorfa de manifestantes da Praça Tahrir e se somaram aos protestos como classe sindicalmente organizada através das greves de operários têxteis (48% da força de trabalho está empregada no ramo têxtil), dos trabalhadores do Canal de Suez, bancários, ferroviários, petroleiros, motoristas de ônibus. Os 24 mil operários da Misr Spinning and Weaving, a maior fábrica de fiação e tecelagem do país, cruzaram os braços no dia 10 de fevereiro. Mubarak renunciou no dia seguinte. Os operários da Misr entraram em greve novamente no dia 16, desafiando as advertências da Junta Militar de que as paralisações não seriam mais toleradas e, por seu peso estratégico dentro da classe operária egípcia, em quatro dias tiveram suas reivindicações atendidas, um aumento salarial de 25% e a demissão de um gerente corrupto. Em algumas greves, foram agregadas às reivindicações econômicas os mesmos slogans gritados na Praça Tahrir, principalmente o “Fora Mubarak!”. Em outras, o movimento grevista impulsionou a desfiliação de seus sindicatos da Federação Sindical corrupta e pelega, atrelada ao Estado desde sua criação por Nasser em 1957. Apesar de ter que realizar operações seletivas, como a contenção desta e de outras greves ou a repressão militar-policial direta ou por meio de grupos fascistas mascarados, após a renúncia de Mubarak a reação conseguiu o que buscava: a desmobilização da revolta. Vale destacar que uma vez desmontada a mobilização popular de caráter político, pela saída do ditador, setores de trabalhadores aproveitaram o momento para desatar greves, que por seu caráter econômico e pelo refluxo do movimento foram dispersadas em vez de unificadas. Afora algumas concentrações ordeiras semanais capitaneadas pela oposição burguesa egípcia (El Baradei, Irmandade Islâmica, etc.) em favor de que os militares mantenham sua palavra de realizar eleições no segundo semestre, o movimento tende a um novo refluxo. Depois de 18 dias de massivos protestos populares, o


governo Obama e a burguesia egípcia realizaram um gesto teatral em que simplesmente destituíram o ditador odiado para manter intocável a espinha dorsal do regime títere sobre as massas egípcias e palestinas a serviço do imperialismo e do Estado de Israel, ou seja, a tutela completa da casta militar sobre a máquina estatal capitalista, que controla 30% da economia do país. Além do país ser controlado diretamente por uma Junta Militar, o Conselho Supremo das Forças Armadas, todas as outras instituições petrificadas da ditadura Mubarak seguem governando. O ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi, que chefia o Conselho Militar, demitiu o gabinete e suspendeu o Parlamento para administrar, em conjunto com o arqui-mafioso chefe da Suprema Corte Constitucional. Nem sequer foi revogado o “Estado de emergência” (condição de Estado de sítio instituído por todas as ditaduras militares contra a população que, juntamente com o toque de recolher, outorga plenos poderes repressivos para as FFAA) instituído há três décadas. Se Mubarak tentava aparentar uma fachada civil, com eleições fraudulentas regulares, sob um governo cívicomilitar, sua renúncia tirou-o de cena como preposto das Forças Armadas. Agora governam diretamente os militares sob os quais o mubarakismo se apoiou por três décadas. Depois de Israel, o Egito é o país que mais recebe financiamento dos EUA, U$ 1,3 bilhões anuais, para aquisição de armamentos. O país é desde o governo Sadat, sucessor de Nasser e precussor de Mubarak, uma peça vital para a dominação dos EUA sobre o rico petróleo do Oriente Próximo. O Egito tem sido um aliado estratégico de Israel e ajudado no bloqueio de fome imposto pelo Estado nazi-sionista aos palestinos em Gaza, fechando a fronteira com o Sinai. Nos últimos cinco anos, a dívida externa do país cresceu cerca de 50%, atingindo US$ 34,1 bilhões em 2009. As reservas de US$ 36 bilhões do país são baseadas em dinheiro emprestado. No início da crise, especuladores detinham cerca de US$ 25 bilhões em títulos públicos, 40% do total. A “transição” na Tunísia e Egito ganha tempo para dissipar a revolta popular, preservar as políticas econômicas e os ajustes para pagamento da dívida externa e cristalizar a correlação de forças em favor do estabelecimento de um governo mais estável e economicamente rentável frente a odiada ditadura anterior. UMA OPORTUNIDADE PARA AUMENTAR A EXPLORAÇÃO DO PROLETARIADO É importante recordar que em seu discurso proferido no Cairo em junho de 2009, Obama deixou um recado para seus títeres na região: “uma coisa é clara, os governos que protegem os direitos democráticos são, em última instância, mais estáveis, bem sucedidos e seguros... a América no passado focou o petróleo e o gás nesta parte do mundo, hoje procuramos um engajamento mais amplo... vamos criar um novo corpo de voluntários empresariais para formar parcerias com contrapartes em países de maioria muçulmana,... identificar como podemos aprofundar os laços entre líderes empresariais, fundações e empreendedores sociais nos Estados Unidos e em comunidades muçulmanas em todo o mundo.” A administração Obama, praticamente parida da crise econômica, aposta profundamente na ideia imperialista de que a crise é o momento de aproveitar as oportunidades ampliando os negócios nos velhos domínios e dominando mercados em que não é hegemônico, como é o caso da Líbia. A destituição de Mubarak, que muitas organizações de esquerda dizem ser uma “revolução”, foi comemorada no “sensível” mundo das finanças, melhor dizendo, na alta roda do capital financeiro e especulativo mundial: “Bol-

Trabalhadores bancários do Banco Nacional do Egito ocupam agência durante revolta popular no país sas dos EUA fecham em alta no dia em que presidente do Egito deixou o cargo. Os principais índices acionários dos EUA inverteram a tendência da abertura e avançaram no dia em que o presidente do Egito, Hosni Mubarak, deixou o cargo após 30 anos no poder e manifestações que duraram 18 dias. O ditador delegou poderes às Forças Armadas, em uma decisão que trouxe alívio ao mercado desde a tarde.” (InfoMoney, 11/2/2011). Dentre os conselheiros da Junta Militar estão gente como o Secretario Geral da Liga Árabe, Amr Moussa, que excluiu a Líbia do organismo para isolar o governo Gadafi em favor da vitória rápida das forças pró-imperialistas sobre Trípoli. O bilionário egípcio Naguib Sawiris, proprietário da Orascom Telecom Holdings (OTH), a maior empresa de telecominicações do Oriente Médio e Magreb. “Apesar de estar sendo apontado pelos manifestantes da Praça Tahrir como um dos responsáveis pelas pragas do Egito, Sawiris, o bilionário, longe de desanimar, acha que da turbulência pode emergir uma economia mais vibrante egípcia. (Stanley Reed, “Mogul do Egito Telecom adota Uprising”, Bloomberg Business Week, 10/02/2011). As Bolsas e o sultanato burguês da região apostam claramente suas expectativas de lucro na reciclagem da ditadura militar com promessas “democráticas”. Como nos ensinou Trotsky “Um movimento democrático ou de libertação nacional pode oferecer à burguesia a oportunidade para aprofundar e aumentar suas possibilidades de exploração. A intervenção independente do proletariado na arena revolucionária ameaça tirar da burguesia a possibilidade de explorar qualquer coisa.” (‘Balanço e perspectivas da Revolução chinesa; suas lições para os países do oriente e para o Comitern’, em Stalin, o grande organizador de derrotas, 1930). AS TAREFAS DEMOCRÁTICAS IMEDIATAS DO PROLETARIADO ÁRABE A intervenção independente do proletariado do Magreb na arena política pressupõe conhecer as tarefas necessárias para impedir que a burguesia local e mundial aumentem sua exploração e o manipulem com sua luta democrática e anti-imperialista. Neste sentido, os aduladores revisionistas que usam de demagogia e triunfalismo para falar de “revolução árabe, democrática” e de “insurreição proletária” inexistentes, prestam um grande serviço ao imperialismo, jogando terra nos olhos das massas enquanto os governos interinos supostamente paridos das tais “revoluções” reestabilizam a situação política. Outras correntes, como a LBI, simplesmente rechaçam as tarefas democráticas fundamentais e imediatas em O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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No cartaz: “Egito apóia os operários do Winsconsin. Um mundo, uma dor” uma atitude de desprezo pela disputa da consciência dos trabalhadores. A atitude do marxismo em relação à democracia formal nada tem a ver com a negação estéril do anarquismo. Não podemos rechaçar a representação democrática do povo, nas condições de um período não revolucionário, quando as revoltas populares nem sequer realizaram suas tarefas mais imediatas, nem podem realizar nos marcos capitalistas. Não é renunciando as palavras de ordem democráticas que os revolucionários conquistarão a consciência das massas oprimidas por uma ditadura militar. Defender a assembleia constituinte em situações como à revolta popular de 2001 na Argentina, quando por quase duas décadas as massas já realizaram experiências com a democracia semi-colonial burguesa, como fez toda a família revisionista do trotskismo argentino (do PO a LOIDO) é alimentar ilusões parlamentaristas na recomposição burguesa do regime. Mas esta questão se coloca de modo completamente diverso nas semi-colônias e países governados por décadas por ditaduras militares burguesas como é o caso da Tunísia e do Egito e muitos outros países do Magreb e Oriente Médio, governados por ditaduras militares ou monárquicas. Para os genuínos trotskistas “a vitória da revolução democrática só é concebível por meio da ditadura do proletariado apoiada na sua aliança com o campesinato e destinada, EM PRIMEIRO LUGAR, a resolver as TAREFAS DA REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA.” (tese 4 da revolução permanente, Leon Trotsky, grifos nossos) Nestes países, as massas buscam uma fórmula política simples que expresse diretamente sua própria força politica, quer dizer, sua predominância numérica. E a expressão politica do predomínio da maioria é a democracia formal burguesa. “A questão da democracia formal é para nós o problema da atitude frente às massas pequenoburguesas e também frente às massas operárias, na medida em que estas não adquiriram ainda uma consciência de classe revolucionária (...) Cada dia de estabilização provocará enfrentamentos mais numerosos entre o militarismo e essa burocracia por um lado, e por outro não somente operários progressistas, mas também a massa pequeno-burguesa predominante nas cidades e do campo e inclusive, com certos limites, a grande burguesia. Antes destes enfrentamentos tornarem-se luta revolucionária, passarão, segundo os dados, por uma fase ‘constitucional’. Os conflitos entre a burguesia e suas próprias camarilhas militares se estenderão inevitavelmente, através de um “terceiro partido” ou por outros meios, aos estratos superiores das massas pequeno-burguesas.

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O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

No plano econômico e cultural essas massas são extremamente débeis. Sua força politica potencial deriva de seus número. As palavras de ordem da democracia formal conquistam ou são capazes de conquistar não somente as massas pequeno-burguesas, mas também as grandes massas operárias, porque essas oferecem a possibilidade – pelo menos aparentemente – de opor sua vontade a dos generais, dos latifundiários e dos capitalistas. A vanguarda proletária educa as massas utilizando essa experiência e as conduz adiante.” (‘Os Sovietes e a Assembleia Constituinte. A questão chinesa depois do VI Congresso’, em ‘Stalin, o grande organizador de derrotas’, 1930). Na Tunísia e no Egito, o imperialismo, os governos interinos herdeiros da ditadura e a oposição burguesa, o “terceiro partido”, tratarão de jogar com as ilusões democráticas das massas. Os marxistas devem tornar-se campeões da luta pela completa destruição da máquina assassina da ditadura Ben Ali e de Mubarak, da defesa das liberdades democráticas, da livre organização sindical e da imprensa operária, plenos direitos de greve e de reunião, de organização político partidária e eleitoral, por uma Assembleia Constituinte livre e soberana, revolução agrária, libertação de todos os presos políticos. A concretização dessas demandas exige a organização de uma insurreição proletária para derrubar o regime militar. Ao mesmo tempo, devem lutar para elevar a um nível superior as organizações da classe, como os comitês de greve, que devem se converter em órgãos embrionários de duplo poder das massas. Da mesma forma, a bandeira da libertação da mulher trabalhadora na África e no Oriente Médio, como a mulher egípcia, vanguarda de muitas greves têxteis, não deve ficar na mão demagógica da burguesia liberal ou do imperialismo. Cabe a classe operária lutar contra a mutilação genital e todas as formas de opressão obscurantistas. Como nos ensionou Trotsky, em discurso de 1924, “Perspectivas e Tarefas no Oriente”, “Não haverá melhores comunistas no Oriente, nenhum lutador melhor para as ideias da revolução e para as ideias do comunismo do que a mulher trabalhadora desperta para a luta.” Aliadas a estas tarefas democráticas, estão as da luta pela libertação nacional e pelo socialismo contra o julgo imperialista, o desconhecimento da dívida externa, a nacionalização sem indenização dos bancos, do capital financeiro e de todas as multinacionais, o pleno apoio à luta palestina pelo fim do cerco a Gaza e o bloqueio imperialista ao Irã, o fim das exportações de gás subsidiadas a Israel, pela destruição do Estado nazi-sionista e a criação de uma Palestina Soviética de conselhos de operários hebreus e palestinos, pela expulsão do imperialismo dos países vizinhos como a Líbia, Somália, Iraque, Afeganistão e sobre os escombros das atuais semicolônias dependentes e criar a Federação das Republicas Socialistas da África e Oriente Médio. Conquistando as massas da influência política da oposição burguesa ao tornar-se o defensor “número um” das tarefas democráticas que os “novos” governos vão continuar estrangulando através da recolonização imperialista apoiada nos setores mais reacionários das classes dominantes, o partido do proletariado demonstrará que a realização de tais tarefas só é possível através de uma aliança do proletariado com a pequena burguesia urbana e rural e, através dos métodos de ditadura revolucionária do proletariado, do armamento de todo o povo, dissolução das sanguinárias polícias, ocupação de fábricas, piquetes, greves gerais, expropriação das empresas capitalistas, das multinacionais, agroindústrias e latifúndios, controle operário das riquezas nacionais, rumo à conquista do poder pelos trabalhadores.


ESPECIAL ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO

“Revolução” ou Reação “com forma democrática”?

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ão é possível compreender o que se passa na África hoje desprezando a atual situação da luta de classes mundial. Hillary Clinton em recente declaração no Conselho dos Direitos Humanos da ONU, em Genebra, falando sobre a queda dos regimes despóticos nos países árabes, disse que “nossos valores e interesses convergentes no apoio a essas transições não é apenas um ideal, é um imperativo estratégico”. A representante do imperialismo foi clara ao definir os seus objetivos, apoiando-se nos levantes populares espontâneos e outros nem tanto, ocorridos nas últimas semanas. Trata-se de uma nova ofensiva imperialista pós-crise econômica de 2007-2008, assim como a guerra contra o terror de Bush foi a reação em forma de investimentos massivos na indústria bélica e na especulação com o petróleo para o capital se recuperar do crash da Nasdaq (2000-2001). O ato inaugural da nova ofensiva, dias antes da posse de Obama, mas orquestrado pelo ministro da defesa dos EUA da era Bush mantido no cargo pelo democrata, foi o maior massacre vivido pela comunidade palestina de Gaza perpetrado por Israel. Os atos seguintes foram o incremento da ocupação militar no Afeganistão e no Haiti, a substituição das tropas regulares por imensos exércitos de mercenários de empresas paramilitares multinacionais no Iraque, o cerco crescente, em forma de guerra de movimentos contra Irã e Coréia do Norte. Sob a atual administração “democrata” na Casa Branca assistimos até a volta dos Golpes de Estado na América Latina, em Honduras. Tudo isto indica que estamos vivendo a continuidade da recolonização militar dos EUA sobre o globo. A chamada “primavera árabe” abre uma nova etapa dentro dessa ofensiva. Como indicou o discurso de Hillary a transição que os EUA operam agora de surrados governos despóticos para novos governos títeres é um imperativo estratégico para os EUA e, como todos sabem, isto nada tem a ver com as aspirações democráticas dos povos árabes. “Nada disso surpreendeu muito a Casa Branca que há poucos meses, a pedido de Obama, começou a examinar a vulnerabilidade desses regimes e, mais recentemente, passou a examinar o que torna bem sucedida uma transição para a democracia.” (New York Times, 28/02/2011). A chamada “primavera árabe” é a repetição em forma de farsa do que foram os processos de “redemocratização” na América Latina, vividos em outros países também como na Indonésia e na América Central. Isto não quer dizer que não devamos, com o nosso próprio programa marxista, acompanhar e apoiar aos processos de rebelião de massas para influenciar de modo classista e revolucionário estas lutas enquanto os próprios processos não se cristalizarem em um mero joguete do imperialismo para restabelecer um novo, mais forte e mais estável controle sobre estas próprias massas. São os reformistas aprendizes de Bernstein que proclamam que o movimen-

Carreata da fascista “União Juvenil Cruzenista”, em defesa do “referendum” pela divisão da Bolívia.

Passeata de mineiros, indígenas e professores pela unidade da Bolívia contra o golpe “democrático” da oligarquia pró-imperialista de Santa Cruz to é tudo e o objetivo final não importa. Para o marxista revolucionário a disputa pelos destinos da luta de classes é o fundamental. A estratégia revolucionária socialista é quem subordina as táticas da luta. Por sua vez, o imperialismo aproveita-se do retrocesso ideológico de nossa época para manipular os levantes populares também em favor de seus “imperativos estratégicos”. A ausência do elemento consciente, subjetivo favorece aos inimigos de classe. Como poderia ser distinto se também os levantes atuais estão desprovidos de protagonismo proletário organizado sequer sindicalmente e menos ainda sem organismos de poder independentes da burguesia, para não falar na carência absoluta de direções revolucionárias antiimperialistas e anticapitalistas. O imperialismo e seus agentes desviam a luta popular para operar transformações em seu modo de dominação que lhe sejam favoráveis. O IMPERIALISMO É TAMBÉM UMA FASE DE CONTRARREVOLUÇÕES Ao aforismo de Lênin de que com o ingresso na fase imperialista do capitalismo, “vivemos numa época de guerras e revoluções”, Trotsky acrescentou um providencial O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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alerta: “e de contrarrevoluções”. Os verdadeiros marxistas costumam ser criteriosos quando se trata de definir o objetivo de sua atividade militante, a revolução. Não buscam confundir as massas ou euforizar sua base militante e seus leitores chamando de revolução as contrarrevoluções ou as alterações cosméticas operadas pelo regime de seus inimigos de classe que agem segundo aquele aforisma de Giuseppe di Lampedusa, “as coisas precisam mudar para permanecer como estão”. Nosso rigor não é um capricho, fazemos isto porque sabemos que nossos fins só serão alcançados com a derrubada violenta de toda ordem social existente. Mesmo após a ditadura monárquica czarista cair sob a pressão de uma revolução popular, que obrigou a burguesia a governar apoiando-se no controle que os mencheviques exerciam sob os sovietes, Lenin questiona o engano das massas pelos conciliadores de classe de sua época em nome da revolução.

“Por mais alto que gritem os capitalistas e seus lacaios [referindo-se aos mencheviques], afirmando o contrário, sua mentira não deixará de ser mentira. O que não faz falta neste momento é que as frases obscureçam o entendimento e embotem a consciência. Quando se fala de ‘revolução’, de ‘povo revolucionário’, de ‘democracia revolucionária’, etc; em nove de cada dez casos se trata de mentiras ou auto-engano. É preciso perguntar ‘que classe faz a revolução?’ Contra quem se fez a revolução?’. Contra o Czarismo? Neste sentido, na Rússia são hoje revolucionários a maioria dos latifundiários e capitalistas. Uma vez que virou fato consumado (a revolução politica de fevereiro) até os reacionários se baseiam nas conquistas da revolução. Na atualidade, o modo mais frequente, mais abjeto e mais nocivo de enganar as massas é elogiar a revolução neste sentido. A conclusão é clara, só o poder do proletariado, apoiado pelos semiproletários, pode dar ao país um poder realmente firme e verdadeiramente revolucionário. Será realmente firme, estável pois não se baseará, por necessidade, no conciliacionismo instável dos capitalistas com os pequenos proprietários, dos milionários com a pequena burguesia.” (Acerca do poder revolucionário firme, 06/05/1917).

CONTRARREVOLUÇÃO OU REAÇÃO “COM FORMA DEMOCRÁTICA”? Optamos inclusive por denominar o estrangulamento das revoltas populares árabes, através de governos continuístas apoiados no fortalecimento da casta militar, de reação com forma democrática e não contrarrevoluções “com forma democrática”. Sobre este último conceito, se inclui, por exemplo, a chamada República de Weimar, tão adorada como modelo de democracia pela burguesia liberal e pelos reformistas.

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O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

Um ano após a vitória dos bolcheviques em outubro de 1917, a vitória da contrarrevolução na Alemanha em 1918 conduziu ao fechamento da vaga revolucionária na Europa, aberta no ano anterior e que, de certo modo, condicionava o futuro do nascente Estado Operário Soviético e os desdobramentos da luta politica decisiva que viria a ocorrer dentro do Partido Bolchevique. A República de Weimar na Alemanha foi introduzida por uma lei marcial e pela conspiração reacionária da socialdemocracia e da burguesia alemã, o Estado-maior do Reichswehr, as Forças Armadas provisórias reunidas e os Junkers, que afogaram em sangue a insurreição de 1918, assassinando os dirigentes da revolução, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. A República de Weimar foi apontada por Lenin e Trotsky como um exemplo clássico de contrarrevolução com forma democrática. Mais tarde, quando um fenômeno similar vem a se expressar na Itália, Trotsky compara e tira lições dos dois acontecimentos:

“Significa isto que a Itália não pode por certo tempo tornar-se novamente um Estado parlamentar ou uma ‘república democrática’? Considero – e creio que nisto coincidimos perfeitamente – que esta eventualidade não se exclui. Mas não será o fruto de uma revolução burguesa, e sim o aborto de uma revolução proletária insuficientemente madura e prematura. No caso de uma profunda crise revolucionária e de batalhas de massas, no curso das quais a vanguarda do proletariado não estiver em posição de tomar o poder, é possível que a burguesia restaure o seu poder sobre bases ‘democráticas’. Pode-se dizer, por exemplo, que a atual República alemã representa uma conquista da revolução burguesa? Admitir isto seria um absurdo. Houve na Alemanha em 1918-19 uma revolução proletária que, desprovida de direção, foi enganada, traída e esmagada. Mas a contrarrevolução burguesa, apesar disto, viu-se compelida a se adaptar às circunstâncias provocadas por esta derrota da revolução proletária e a assumir a forma de uma república parlamentar ‘democrática’. Pode-se excluir a mesma variante – ou uma parecida – na Itália? Não, não se pode excluir. O fascismo chegou ao poder em 1920 porque a revolução proletária não foi até o fim. Somente uma nova revolução proletária pode aniquilar o fascismo. Se desta vez também não está destinada a triunfar (por debilidade do Partido Comunista, por manobras e traições dos socialdemocratas, franco-maçons, católicos), o Estado ‘transicional’ que a burguesia se verá obrigada edificar sobre as ruínas de sua forma fascista de governo não poderá ser outra coisa que um Estado parlamentar e democrático”


(Problemas da Revolução italiana, 14/05/1930). A caracterização de contrarrevolução “democrática” se aplica perfeitamente à restauração capitalista sobre os Estados operários burocratizados onde antes a burguesia e a propriedade privada dos meios de produção havia sido expropriada. As revoltas populares da Tunísia e do Egito não alcançaram a força de processos revolucionários proletários. E em Djibuti, Jordânia, Arábia Saudita, Omã, Bahrein, Iêmen, Iraque, a luta de classes ficou aquém dos dois primeiros países. Tal caracterização é fundamental para que nos levantes futuros ou na possibilidade da extensão imediata das lutas atuais possamos ajudar as massas a ir além, realizando as tarefas necessárias à sua luta emancipatória do imperialismo e das burguesias fundamentalistas e/ou monárquicas que as exploram. No caso da Líbia, pela ausência de um movimento de massas espontâneo contra o caudilho, o imperialismo, através de seus tentáculos dentro do próprio governo Gadafi e da burguesia líbia, tratou de fabricar um movimento completamente distinto dos que vemos em todos os outros países árabes neste momento. Preferimos definir de reação “com forma democrática” e não de contrarrevolução “com forma democrática” aos processos de transição da ordem burguesa realizados nestes dias nos países árabes porque os acontecimentos políticos que os propiciaram foram revoltas populares e não revoluções ou processos revolucionários. Se não resultar em maiores desdobramentos políticos e sociais, a chamada “primavera árabe” será a repetição atrofiada do que foram os processos de “redemocratização” na América Latina. Diga-se de passagem, nem de longe os processos transicionais latino americanos foram “revoluções democráticas” como caracterizara Nahuel Moreno, fundador da LIT, a corrente internacional que deu origem ao PSTU e à maioria das organizações que se dizem trotskistas em nosso continente. COMBATER A REAÇÃO IMPERIALISTA COM A CONSTRUÇÃO DE UM VERDADEIRO PARTIDO TROTSKISTA OPERÁRIO MUNDIAL A manipulação do legítimo descontentamento das massas exploradas sem consciência de seus interesses históricos, por uma fração das classes dominantes, contra um governo desgastado é um fenômeno “corriqueiro” na história da humanidade. O desenvolvimento dos meios de comunicação de massa contribuiu bastante para isto. Já Marx, a propósito da propaganda de guerra burguesa contra a Comuna de Paris alertara:

“Até ao presente acreditou-se que a proliferação dos mitos cristãos, sob o Império Romano, só foram possíveis porque a imprensa ainda não tinha sido inventada. O que aconteceu foi o contrário: a imprensa diária e o telégrafo, que a todo instante espalham na Terra semelhantes invenções, fabricam mais mitos num só dia do que nunca se pôde fazer outrora durante um século, e o rebanho burguês acredita em tudo e propaga.”

(Karl Marx, citado por Pierre Frank na Introdução do livro “A Revolução Traída” de Leon Trotsky)

Em nossa época, em que ao impresso, ao rádio e a televisão se agrera a internet, cresceu enormemente o poder de persuasão das classes dominantes e em um só se-

gundo são criados e exaustivamente repetidos os mitos que antes levavam um dia. O rebanho planetário sofre um bombardeio enganador muito maior e a esquerda pequeno burguesa, desgraçadamente, ajuda a propagar as mentiras. No imperialismo, a “arte” de desviar e fabricar “revoluções” vive o seu apogeu, atingindo o mais alto grau de sofisticação. Não apenas porque se tornou mais fácil manipular amplas massas e realizar golpes de estado com fachada de “rebelião democrática” graças ao espetacular desenvolvimento dos meios de comunicação de massas, mas, sobretudo, pela reação ideológica reinante no mundo pós-URSS, pela falta de direções políticas revolucionárias do proletariado, pela rejeição por parte das direções tradicionais da vanguarda das massas e dos centristas que as seguem, da estratégia da tomada do poder pelo proletariado. Na Polônia em 1981, o imperialismo identificou a possibilidade de tirar vantagem de um levante de massas contra a aplicação de seus próprios planos de ajuste antioperários. A burocracia stalinista de Yarujelsky que havia tomado empréstimos do FMI e aplicava dentro do Estado operário burocratizado a receita do Fundo Monetário para poder pagar o que o Estado “devia”, foi surpreendida com o levante proletário do Sindicato Nacional Solidariedade. De lá para cá, o “know how” do imperialismo em surfar na crista de uma onda de levantes populares só se sofisticou. Nestas três décadas já vimos de tudo, onde agentes do imperialismo impulsionam manifestações “de massa” que têm em comum uma estranha simpatia com o ocidente e com os EUA. Processos de massa de restauração do capitalismo no Leste Europeu, a contrarrevolução na URSS dirigida por Yeltsin. Anos depois vieram as revoluções “laranjas” para tirar da influência da nova burguesia russa as ex-repúblicas da antiga URSS. Vimos até manifestações “populares”, incrementadas com a presença do Partido Comunista Iraquiano, saudando a invasão de Bagdá pelo Exército de Bush. Houve também o golpe de Estado “popular” armado pelo imperialismo que destituiu Aristide no Haiti e deu início à ocupação militar no país capitaneada por governos cipaios como o do Brasil de Lula. Esta ocupação se incrementou com a re-invasão do Haiti pelas tropas ianques em nome de prestar “socorro humanitário” aos haitianos após o terremoto de 2010. Um dos casos recentes mais parecidos com a atual “rebelião líbia” foi o da Bolívia, onde a oposição burguesa pró-imperialista das províncias mais ricas do país na região da chamada meia-lua levantaram-se contra o governo Evo Morales a partir de um “democrático referendum” pela separação de Santa Cruz. A diferença é que na Bolívia, a oposição burguesa não conseguiu deslocar frações substantivas do Exército a seu favor. Recentemente, no Equador, uma greve policial nacional por pouco não se converteu em um golpe militar bem sucedido. No Tibet a “revolução” budista orientada pelo arqui-reacionário Dalai Lama se insurgiu contra o governo da burocracia chinesa. Em Cuba ganharam força os protestos por direitos humanos, greves de fome de agentes da CIA e até foi criada uma cópia restauracionista das madres da praça de maio argentinas, as “mães de branco”. Nos próximos dias vamos poder presenciar mais uma vez a requentada “revolução verde” no Irã e talvez algo parecido na cada vez menos esquálida e mais robusta oposição burguesa golpista venezuelana. A NOVA DIVISÃO DO SUDÃO Está em marcha por todas as formas uma clara recolonização imperialista da África. Os EUA estão correndo atrás O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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EQUADOR:“rebelião” policial ensaio golpista

HONDURAS: golpe militar bem sucedido da CIA do espaço perdido para a UE e a China no continente. Inclusive, esse é um dos temas principais das conversas entre Obama e Dilma nos próximos dias, como vem revelando a imprensa burguesa. O imperialismo acaba de dividir o maior país do continente por meio de um escandalosamente fraudulento plebiscito, sob o silêncio completo da quase totalidade dos que hoje se perfilam em favor da “resistência” libanesa. Em janeiro de 2011, o “Sudão do Sul” realizou um “referendo” convocado há seis anos pelo imperialismo, nos “acordos de paz” chancelados pela ONU entre o governo títere local e os rebeldes separatistas pró-imperialistas, para concretizar um antigo plano colonialista dos EUA, Inglaterra e Israel: a divisão do maior país africano em dois. O tal referendo aprovou por estranhos 99% dos votos em favor do “sim” à partilha imperialista, o que foi, obviamente, saudado pelos “observadores internacionais” como uma “vitória esmagadora” pela divisão do país. Escandalosamente, em algumas “seções eleitorais” houve um comparecimento de 100% às urnas (em algumas seções, o número de “votantes” excedeu em centenas o número de eleitores registrados!). O Egito e o Sudão eram um só país até 1956, quando o imperialismo inglês fabricou a “independência” deste último, fomentando como agora novamente o regionalismo baseado na propaganda de que o governo egípcio, e não a própria Inglaterra, era o principal inimigo explorador e opressor dos sudaneses e principal responsável pela agonia da população oprimida sob o tacão do colonialismo. Apesar de haver diferenças entre os processos que se multiplicam do Marrocos ao Bahrein e, em muitos lugares as manifestações surgirem de revoltas populares aparentemente espontâneas, na “primavera árabe” se verifica nitidamente a costura de um acordo “por cima” entre o imperialismo e a alta cúpula do regime odiado, primeiramente com o comando das Forças Armadas, que em quase todas as semicolônias do globo, assim como o exército cipaio indiano, foi armado, adestrado e obedecia antes de tudo ao Império Britânico, são hoje subordina-

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das ao Pentágono. O New York Times assevera que “a chave da mudança está com os militares... os militares egípcios, com seus interesses empresariais, para não falar da ajuda dos EUA, exigiram uma transição que preservasse o poder, mas permitisse a Washington proclamar uma reforma gradual e substancial” (28/02/2011) e, referindo-se aos EUA e ao Egito, para que a cúpula do exército deste último país seguisse as orientações da Casa Branca na condução da reação “democrática”, cita a importância das “profundas relações entre os militares dos dois países” (idem). Descrevendo falsamente a relação de subordinação hierárquica como se fosse um compadrio, o diário da capital do império continua: “os 30 anos de investimentos valeram a pena na hora em que generais, cabos e oficiais de inteligência discretamente ligaram ou mandaram e-mails para amigos com os quais haviam treinado.” (NYT, 28/02/2011). Referindo-se a um caso de “cooperação” semelhante ao do Egito, poderia referir-se aos processos de transição lenta e gradual orquestrados na América Latina, mas cita a Indonésia: “O general Suharto governou por 31 anos, mas perdeu forças e caiu após duas semanas e meia de distúrbios em 1998. Os militares indonésios levaram pouco mais de um ano para realizar eleições” (idem). A 30 de Setembro de 1965, Suharto orquestrou um golpe, apoiado pela CIA, que foi acompanhado pelo massacre de comunistas e democratas indonésios e que resultou num genocídio que fez entre 500 mil e dois milhões de vítimas. Além dos militares, no comando civil das frentes insurgentes estão, como no caso líbio, os magistrados e o poder Judiciário, que costumam ser a ala mais reacionária de todo o regime burguês, vide o comportamento destas castas no Brasil e, ironicamente, como outra expressão farsesca da própria era imperialista e suas “rebeliões democráticas”, os setores monarquistas da classe dominante. Para estabelecer a fachada para uma nova ordem de dominação imperial, as agências imperialistas realizam, 40 anos depois do golpe militar com apoio popular de Gadafi contra a monarquia, reinventando as tradições monárquicas, e dando um significado “libertador” aos símbolos, bandeiras e brasões da odiada monarquia pró-imperialista e pró-sionista, para consumo da opinião publica mundial. O conjunto da esquerda pequeno-burguesa e revisionista do trotskismo reproduz à sua maneira a opinião pública fabricada pela grande mídia imperialista. Chamam de “revolução” as revoltas populares e tratam de adular e fazer demagogia com estes processos que invariavelmente têm sido conduzidos à instauração de regimes mais estáveis e rentáveis à dominação imperialista, ou seja, “revoluções” que ao final fortalecem a reação. Nos países árabes e em todo o mundo semi-colonial, os problemas democráticos estão indissoluvelmente ligados à libertação do tacão de ferro imperialista. Não por acaso, a fraseologia antiamericana, pan-arabista, antissionista dos aiatolás, de Saddan, do Hezbollah, do Hammas, do Taliban, da Al Qaeda e de Gadafi historicamente seduziu as massas. Pelo mesmo motivo, boa parte dos esforços do imperialismo, e particularmente da atual administração pós-Bush, visa exatamente desarmar os sentimentos antiimperialistas. Não por acaso, a nova ofensiva se traveste de “primavera árabe”, “popular” e “democrática”. Também não por acaso, o imperialismo evita e retarda fazer por vias militares o que puder conquistar por meios “pacíficos” ou “revolucionários”, tentando desenvolver ao máximo o trabalho de seus agentes nativos. A pergunta simples de Lenin ganha maior justeza no século XXI: “que classe faz a revolução? Contra quem se fez a revolução?”


ESPECIAL ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO

Combater com um programa operário e revolucionário a ofensiva dos EUA/OTAN camuflada de “rebelião” militar-monarquista

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stranhamente, a chamada “revolução líbia” já nasceu armada. A tolerância da “comunidade internacional” também é bem menor do que com os tiranos que reprimem seus protestos desarmados no Bahrem e no Iêmen. EUA, UE, Japão e cia. confiscaram os investimentos econômicos internacionais do Estado líbio. A Liga Árabe e a ONU suspenderam o país de seus fóruns. Foi acionado o Tribunal Penal Internacional contra Gadafi e seu clã. Meios de comunicação do mundo todo, da CNN à Al Jazeera, divulgaram cataratas de informações falsas para preparar a opinião pública mundial antes da nova ofensiva a la Iugoslávia, Afeganistão e Iraque. Primeiro disseram que Gadafi haveria fugido do país e se refugiado na Venezuela. Desmentida esta informação, foi denunciado que Gadafi havia bombardeado a população de Tripoli, capital do país, matando cerca de 250 pessoas. Sobre isto, vale a pena ver a reportagem de Maurizio Matteuzzi, correspondente do Il Manifesto, um jornal de esquerda independente italiano, que foi a Tripoli constatar a veracidade das denúncias da grande mídia. Obama anuncia o abandono do multilateralismo. Não vai esperar pela ONU para agir. Já movimentou a 5ª Frota e a força aérea mais poderosa da história para articular a invasão militar “humanitária”, convidado pelo “Conselho Nacional de Transição” composto por ex-ministros, empresários, generais, juízes e chefes tribais monarquistas e islâmicos libios. “Curiosamente, os manifestantes em Bengasi teriam abolido a bandeira verde da Líbia do topo do principal Tribunal de Justiça da cidade, substituindo-a pela bandeira da antiga monarquia - deposta em setembro de 1969 pelo golpe que levou Gadafi ao poder. A maioria dos manifestantes não tem sequer memória do rei Idris, primeiro e único monarca do país - já que ele foi destronado há mais de 40 anos, e mais da metade da população do país tem menos de 25.” (BBC Brasil, 21/02/2011). Longe de ser uma inacreditável nostalgia de um tempo não vivido por parte da juventude líbia, o uso da simbologia monarquista, pela a direção made in CIA do movimento anti-gadafista, representa para a volta de um regime líbio criado e dominado pelas potências imperialistas no curto período entre o fim da segunda guerra e a tomada do poder por Gadafi. Em português claro: Os conselheiros militares dos EUA e da OTAN já estavam articulados com a oposição burguesa e com parte do staff de Gadafi à espera de uma oportunidade para desatar um golpe de Estado, como ocorreu recentemente em Honduras. A operação foi planificada então para coincidir com as revoltas árabes nos países vizinhos para induzir a opinião pública a acreditar que os protestos haviam se espalhado espontaneamente da Tunísia e do Egipto até chegar à Líbia. O que acontece hoje na Líbia é uma combinação das táticas golpistas imperialistas que vimos recentemente na Bolívia, Equador e Irã, se encaminhando com a invasão militar-humanitária a la Balcãs ou Iraque. Em 2002, uma frente insurgente “revolucionária” orquestrada diretamente pela CIA reuniu setotes do Exercito venezuelano e empresários para realizar um golpe militar contra Chavez. Em 2007, na Bolívia, uma conspiração burguesa dos departamentos do leste do país deflagaram um movimento separatista armado para negociar diretamente com o imperialismo a riqueza energética desta parte dao paísa. Em fevereiro de 2011, quatro anos depois da ofensiva armada pró-imperialista, foi confirmada a suspeita de que o movimento golpista tinha sido de fato articulado pela CIA através do boliviano croata Eduardo Rozsa Flores, patrocinado pelo milionário empresário Branko Marinkovic, ex-presidente do opositor comitê Pró Santa Cruz. Marinkovic é ligado à falange fascista croata conhecida como Ustasha, enricou com o separatismo nos Balcãs na década de 1990. A Iugoslávia era um Estado Operário burocratizado que foi despedaçado por uma guerra fratricida impulsionada pelos EUA, Alemanha e França. Em 2009, a CIA realizou um golpe militar bem sucedido em Honduras, substituindo Manuel Zelaya presidente filo-bolivariano e pondo em seu lugar um governo mais sintonizados com os interesses de Washington.

Mustafa A. Jalil, do Conselho Nacional, invoca a OTAN. Em Bengasi, militar com foto do Rei Idris Em 2010, no Equador, uma greve policial quase descamba em um golpe militar contra o presidente bolivariano Rafael Corrêa. Na Venezuela, assim com no Irã, de tempos em tempos, toma fôlego uma onda de “mobilizações de massa” encabeçada pelas respectivas oposições burguesas pró-EUA. O imperialismo aprende e desenvolve o know how da contrarrevolução. A autoproclamada “vanguarda revolucionária do proletariado”, composta por partidos que também se dizem marxistas e trotskistas, além de não aprender nada com a história, acaba apoiando as contrarrevoluções imperialistas. A RECOLONIZAÇÃO DA LÍBIA E A DESASTROSA EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO NOS EUA Após a alta do petróleo de 2008, os EUA trataram de elaborar saídas para a escassez crescente do minério a fim de poupar suas reservas. “O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, pediu hoje ao Congresso para retirar os impedimentos para aumentar a produção nacional de petróleo e acusou os democratas de parte da culpa da alta do preço do combustível por seu ‘obstrucionismo’. Bush urgiu os congressistas a suspenderem a proibição de construir instalações petrolíferas na plataforma continental americana em alto mar, vigente dos EUA desde 1982 para evitar o impacto ambiental e a possibilidade de vazamentos. O candidato republicano à Casa Branca, John McCain, apóia a proposta de Bush, mas seu adversário, Barack Obama, e as principais lideranças democratas a rejeitam.” (UOL economia, Efe, 21/06/2008). Uma vez no governo, Obama deu continuidade ao plano de Bush e o resultado foi o maior vazamento petrolífero da história, responsável por séculos de danos ambientais sobre os oceanos e o conjunto do planeta, ocasionado pela transnacional British Petroleum, uma das maiores petroleiras do mundo e membro do cartel das “4 Irmãs”, juntamente com a ESSO e Texaco e a Shell. Depois do mega vazamento, a administração Obama voltou atrás, tratou de secundarizar as metas de aumento da produção nacional e recorreu a tradicional pilhagem colonial. E é aí que entram a ofensiva recolonizadora sobre a África e o Oriente Médio e, em particular, sobre a Líbia. Segundo dados da Energy Information Administration (2009), a Líbia possui reservas de 46,5 bilhões de barris de petróleo (10 vezes mais que o Egito) e os EUA, 20,6 bilhões, ou seja, a Libia possui mais que o dobro das reservas de petróleo dos EUA. O país africano tem a maior reserva e está entre o tres maiores produtores de petróleo de seu continente, possui a 8ª maior reserva do planeta e é o 12º maior exportador mundial do cobiçado produto. Antes da chamada crise do petróleo nos anos 70, a Líbia foi um dos maiores produtores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com mais de três milhões de barris diários (bpd). Por um breve período, produziu mais que a Arábia Saudita, a âncora da Opep. Depois da estatização da indústria petrolífera, promovida por Gadafi nos anos 1970, a produção caiu muito, afetada por sanções internacionais e cotas (sabotagem) da Opep. Washington aproveitou o clima de revoltas no norte da África e Oriente Médio para recuperar o terreno perdido, primeiro para o Estado burguês líbio e, após a guinada privatista e desnacionaO Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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SOBRE A CLASSE OPERÁRIA E O PETRÓLEO LIBIO

A ofensiva do imperialismo encabeçada por carniceiros monarquistas, atende aos interesses dos EUA, que possui 7% do petróleo libio e deseja aumentar sua cota de pilhagem sobre os concorrentes europeus, como a Itália, substituindo o regime gadafista lizante de Gadafi na última década, para a União Europeia no controle do petróleo do país. Diante da determinação estratégica dos EUA em recolonizar o país, as potências europeias tratam de apoiar a ofensiva, acreditando que ao livrar-se do regime Gadafi, que do ponto de vista imperialista ainda controla em excesso a economia do país, sobrará mais “ouro negro” para todos os invasores. As revoltas populares dos países vizinhos têm possibilitado ao imperialismo diminuir as tensões políticas e promover governos gerentes dos interesses multinacioais mais baratos frente aos apetites renovados do capital imperialista saído da crise de 2007-2008. Por isto, a ofensiva golpista na Líbia se justifica ainda mais pelo anacronismo que representa ainda o atual regime de Tripoli, apesar de todo seu giro “neoliberal” na ultima década. Depois de isolar Gadafi, estrangular economicamente o regime, a OTAN prepara o bombardeamento, agora sim, de Tripoli e a entrada aberta das tropas oficiais do imperialismo sem as camuflagens “populares” na guerra. Mas, de fato, a invasão já começou, através do ingresso dos conselheiros militares para orientar a frente monarquista. Um elemento que vem sendo ocultado pela mídia e principalmente pelo movimento golpista. “Centenas de conselheiros militares estado-unidenses, britânicos e franceses chegaram à Cirenáica, a província separatista do Leste,... Os conselheiros, incluindo oficiais de inteligência, foram lançados de navios de guerra e navios de mísseis nas cidades costeiras de Bengasi e Tobruk” (DEBKAfile, US military advisers in Cyrenaica, 25/02/2011). As tropas especiais dos EUA e aliados já estão na Líbia Oriental, proporcionando apoio disfarçado aos rebeldes. Isto foi reconhecido quando comandos britânicos das Forças Especiais SAS foram presos: “‘Oito comandos de forças especiais britânicas, numa missão secreta para colocar diplomatas britânicas em contato com oponentes destacados do Cro. Muammar Gadafi na Líbia, acabaram humilhados depois de terem apoiado forças rebeldes na Líbia Oriental’, informa o Sunday Times de hoje. Os homens, armados mas à paisana, afirmaram que foram verificar as necessidades da oposição e oferecer ajuda”. (Indian Express, 06/03/2011). As forças da SAS foram presas quando escoltavam uma “missão diplomática” britânica a qual entrou ilegalmente no país para “discussões com líderes da rebelião”. O Ministério do Exterior inglês reconheceu que “uma pequena equipe diplomática britânica foi enviada à Líbia Oriental para iniciar contatos com a oposição rebelde”. (U.K. diplomatic team leaves Libya, World - CBC News, 06/03/2011). Ironicamente, as reportagens não só confirmam a intervenção militar imperialista (incluindo várias centenas de forças especiais), como também reconheceu que “Os oponentes de Gadafi temem que ele possa utilizar qualquer evidência de interferência militar ocidental para congregar apoio patriótico para o seu regime”. (Reuters, 06/03/2011). O “diplomata” inglês capturado com sete soldados das forças especiais era um membro da inteligência britânica, um agente do M16 em “missão secreta” (The Sun, 07/03/2011). UMA GUERRA PARA AUMENTAR A EXPLORAÇÃO

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Diferentemente do Egito e Tunísia, “antes da crise começar, a economia do país passava por um ‘boom’. O Fundo Monetário Internacional (FMI) acredita que a Líbia tenha crescido 10,6% ano passado, e que venha a crescer cerca de 6,2% em 2011.” (BBC Brasil, 21/02/2011). A crise social, unindo inflação alimentar com desemprego, foi o combustível das revoltas tunisianas e egípcias. A juventude desempregada foi um dos fatores determinantes na destituição de Ben Ali. O ingresso dos trabalhadores egípcios e em particular dos têxteis foi decisivo para a renúncia de Mubarak. Embora a Líbia não tenha passado imune à inflação alimentar, assim como a Venezuela o país importa grande parte do que consome, graças a um relativo embora decrescente controle do Estado sobre o petróleo. Ao contrário dos vizinhos, detentores de uma enorme massa de jovens desempregados, o país, cuja classe operária nativa é muito pequena, é uma nação que atrai os jovens dos outros com sua oferta de emprego a salários relativamente maiores do que os pagos no restante da África. Isto é notável pelo intenso processo migratório da classe operária fugindo da “guerra civil” fustigada pelo imperialismo. Dos seis milhões de habitantes, quase dois milhões são trabalhadores estrangeiros. 1,5 milhões são egípcios, 50 mil bengaleses, 15 mil indianos e um grande número de paquistaneses. 30 mil turcos constituem a maior parte dos trabalhadores da construção civil. 200 são brasileiros funcionários de empresas de construção civil como a Andrade Gutierrez e a Odebrecht como operários ou engenheiros. Ao total, a Odebrecht contratou para trabalhar no pais 3.200 funcionários. Além dos brasileiros, a empresa explora tailandeses, vietnamitas, filipinos e egípcios. A maioria esmagadora da classe operária que trabalha na Líbia está momentaneamente se repatriando em seu país de origem. GADAFI, DO PAN-ARABISMO AO NEOLIBERALISMO A era Gadafi na Líbia começou em 1969, quando um grupo de oficiais liderados por Muammar al Gadafi, derrubaram a monarquia num golpe de Estado sem derramamento de sangue, estabelecendo uma República inspirada no nacionalismo nasserista. Isolado pelo imperialismo e pelo sionismo que preferiam o servil rei Idris e sabotado pelos fantoches da OPEP, a partir de 1970, Gadafi expulsou os efetivos militares estrangeiros e decretou a nacionalização das empresas, dos bancos e dos recursos petrolíferos do país. O governo passou a controlar os preços das mercadorias, o comércio, o crédito e o câmbio, restringindo as importações. As exportações de petróleo da Líbia passaram a ser totalmente controladas pelo governo, fornecendo cerca de 95% de sua receita de exportação. A nacionalização da imensa riqueza do petróleo deu meios ao governo líbio para melhorar as condições de vida da população. De acordo com estimativas de 2004 do governo dos EUA, 82% da população adulta total é alfabetizada (92% dos homens e 72% das mulheres). A educação primária é gratuita e obrigatória. O número de médicos e dentistas aumentou sete vezes entre 1970 e 1985, resultando em um médico por cada 673 cidadãos (na rede pública da cidade de São Paulo a regiões em que a disponibilidade é de 1 médico para 20 mil habitantes). No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU a Líbia ocupa o 53º lugar no ranking do IDH (o Brasil está em 73o e o Egito 101o). Depois da Guerra do Yom Kippur, em 1973, a Líbia pressionou seus parceiros árabes a não exportar petróleo para os Estados que apoiaram Israel. Opôs-se à iniciativa do lambe-botas egípcio Sadat, de restabelecer a paz com Israel, e participou ativamente, junto com à Síria, da chamada “frente de resistência” em 1978. Seu apoio à Organização para a Libertação da Palestina (OLP) se intensificou, e a cooperação com os palestinos se estendeu a outros grupos guerrilheiros de países não árabes, que receberam ajuda econômica líbia. A rejeição a Israel, as manifestações antiamericanas e a aproximação com a União Soviética, por parte da Líbia, marcaram a conduta do governo nacionalista na década de 1980. As relações da Líbia com os Estados Unidos se deterioraram quando os ianques impuseram um embargo às importações de petróleo líbio e sanções econômicas ao país. O governo de Gadafi foi implicado no atentado terrorista de uma discoteca em Berlim Ocidental frequentada por militares americanos. A ONU impôs sanções à Líbia em 1992-93 depois do governo líbio ter sido implicado no atentado do voo Pan Am 103 em Lockerbie, Escócia, em 1988 e no bombardeio de um voo francês sobre o Níger em 1989. O presidente dos EUA, Ronald Reagan ordenou, em


abril de 1986, um bombardeio da aviação americana a vários alvos militares em Trípoli e Bengasi, causando a morte de 130 pessoas. Gadafi saiu ileso, mas perdeu uma filha quando sua casa foi atingida. A contrarrevolução na URSS fez com que os anos 1990 fossem anos de severo isolamento político e econômico e declínio para a Líbia. As sanções e embargos comerciais provocaram o aumento dos custos de importação e de inflação na economia doméstica da Líbia, resultando em um padrão de deterioração da vida da maioria dos seus cidadãos. Grupos de oposição militante islâmicos executaram vários ataques contra o governo, incluindo uma série de tentativas para assassinar Gadafi. Uma tentativa de golpe militar teve lugar em 1993, mas os líderes do golpe e os grupos de oposição islâmicos foram reprimidos. Em 1995-97 Gadafi realizou uma ofensiva militar na Cirenaica, que era o centro de grande parte da oposição. Durante o período de 1999-2003, Gadafi realiza sua guinada à direita cumpridos todos os termos das resoluções da ONU (Conselho de Segurança) necessárias ao levantamento das sanções contra a Líbia. Após o 11 de setembro, o ditador ofereceu sua colaboração aos EUA para combater o terrorismo internacional declarando em seu site “O fenômeno do terrorismo não é um motivo de preocupação para os EUA sozinhos. É uma preocupação para o mundo inteiro”. O estreitamento cada vez maior das relações entre o caudilho e o imperialismo fez com que Gadafi aplicasse planos neoliberais, privatistas, entreguistas que corroem e já destruíram várias conquistas sociais produzidas pela nacionalização dos meios de produção das décadas anteriores. “ESTAVAM COM GADAFI E GRITAVAM CONSIGNAS DEFENDENDO A VELHA REVOLUÇÃO, POR ISTO OS MATAMOS” A “rebelião” atual começou na cidade de Al-Baida, no noroeste e daí se estendeu a outras cidades. Nesta cidade se fundou no século XIX o movimento islâmico conservador criado por Mohamed al-Sanusi. Este movimento se expandiu pela região da Cirenaica e teve ao longo das ultimas décadas repetidos enfrentamentos com Gadafi, a quem consideram demasiado liberal em sua interpretação do islã. A CIA se aproximou do movimento islâmico Sanusi, que por influência da ONU ao final da II Guerra instituiu um breve reinado no país, para montar suas bases “insurgentes”. Os Sinusi controlam a cidade de Begasi, centro da rica região leste do país. Coordenados pelo ministro da justiça desertor, juízes e advogados ocuparam o escritório da Procuradoria General na cidade. Nas duas últimas décadas, isolado em meio à ofensiva imperialista pós-URSS incrementada com a guerra ao terror de Bush, o caudilho militar líbio abandona sua retórica anti-imperialista dos anos 70 e 80, quando na esteira do pan-arabismo nasserista e após o ascenso popular mundial de 1968 destronou a monarquia e nacionalizou grande parte da economia libia, e inicia a desnacionalização da economia do país. A União Europeia saiu na frente apropriando-se de 78% das exportações libias, deixando os EUA “na lanterninha” com apenas 7%. Ao baixar a guarda para as investidas comerciais do imperialismo, Gadafi estimulou os apetites de uma parte de seu staff. Os últimos discursos do caudilho, despolitizados, irresponsáveis e agressivos, reforçaram a munição da mídia de propaganda de guerra imperialista para caricaturar Gadafi como um tirano enlouquecido e favorecer a campanha militar fratricida da frente opositora. Excepcionalmente a própria imprensa burguesa revela as atrocidades do campo imperialista: “Em Shahat, também no leste, os rebeldes prenderam dezenas de mercenários de 15 a 18 anos recrutados no vizinho Chad. Outros muitos tem sido executados. ‘Estavam com Gadafi e gritavam consignas defendendo a velha revolução, por isto os matamos’, conta friamente um dos guardiães” (El país, 25/02/2011). Estranhamente os chamados “mercenários” morrem reivindicando a revolução enquanto os “libertadores” e “democratas” os executam impiedosamente como carniceiros. A campanha militar dos monarquistas da CIA, ovacionada como “revolução proletária” por não poucos revisionistas do trotskismo, choca por sua crueldade: “Numa cena violenta em Al Ugayla, a leste de Ras Lanuf, um rebelde gritava a poucos centímetros do rosto de um jovem africano detido sob a suspeita de ser mercenário: ‘Você estava portando armas, sim ou não? Você estava com as brigadas de Gaddafi, sim ou não?’. O jovem, em silêncio, foi empurrado até cair de joelhos no chão de terra. Um homem colocou uma pistola perto do rosto do rapaz, mas um jornalista protestou dizendo ao homem que os rebeldes não são juízes.” (Reuters, 3/032011).

“TRAGAM O BUSH!” Diferente das revoltas populares que provocaram até algumas deserções verdadeiras no Egito e na Tunísia, os carniceiros do campo imperialista na Líbia, iniciam sua “rebelião” já muito bem armados. “Os rebeldes estão armados com lançadores de foguetes, canhões antiaéreos e tanques” (Reuters, 3/032011). São financiados pela associação da burguesia local e chefes tribais da Cirenaica onde operam as principais transnacionais petrolíferas a eles associados. Para deixar a batalha por Trípoli ainda mais favorável aos “rebeles” da CIA, os próprios, para dar legitimidade à nova aventura militar colonialista dos EUA, “pediram na quarta-feira que a ONU autorize bombardeios aéreos estrangeiros contra supostos mercenários estrangeiros a soldo do regime.” (idem). Mas não só isto, “na quinta-feira, os rebeldes propuseram também a adoção de uma zona de exclusão aérea, ecoando o apelo feito pelo vice-embaixador líbio na ONU, que rompeu com Gadafi.” (idem). O Secretário de Defesa dos EUA se antecipou e esclareceu o que seria a tal zona de exclusão aérea tão propalada pela imprensa nos últimos dias e que causou um certo descompasso entre os EUA e a União Européia acerca dos ritmos e formas da intervenção militar. Robert Gates esclareceu: “Vamos chamar as coisas por seu devido nome. Uma zona de exclusão aérea começa por um ataque à Líbia para destruir suas defesas aéreas” (Reuters, 03/03/2011). Sendo levado adiante este plano militar, a invasão pode começar com a destruição da aviação libia e o controle de seu espaço aéreo. Enquanto os jovens que lutam ao lado do regime de Trípoli reivindicam uma revolução a qual identificam falsamente com a luta antiimperialista, os verdadeiros mercenários da CIA não ocultam seus ídolos. Para fechar com chave de ouro sem deixar dúvidas sobre a inclinação ideológica e politica dos “rebeldes” eles reivindicaram: “Tragam o Bush! Façam uma zona de exclusão aérea, bombardeiem os aviões”, gritava o soldado rebelado Nasr Ali, referindo-se à zona de exclusão aérea imposta no Iraque em 1991, quando o presidente dos EUA era George W. Bush.” (Reuters, 3/032011). Desesperado, o caudilho de Tripoli ameaça tomar uma medida excepcional, transgredindo uma regra básica da política capitalista, quebrar o monopólio da violência do Estado burguês e armar a população contra o campo imperialista. “Gadafi decidiu armar a seus fiéis para travar sua última batalha na capital. O arsenal da cidade está agora a disposição daqules que querem fazer a guerra por sua conta, contra seus próprios vizinhos, levantados em seus bairros contra Gadafi. Sua ideia de dar armas aos civis ameaça desatar uma matança na capital. (O drama líbio. El país, 26/02/2011). A medida do ditador líbio deixa mais desesperados os porta-vozes da grande burguesia. As massas líbias organizadas devem se armar com os arsenais que o governo finalmente pôs a sua disposição. Devem colocar o fuzil sobre o ombro de Gadafi e disparar contra o imperialismo e seus agentes que buscam duplicar a exploração das riquezas dos líbios a serviço dos EUA e UE, os inimigos “número 1” da população trabalhadora de todo o mundo. Ao fazer isto, não depositarão nenhuma confiança, não emprestarão nenhum apoio político ao clã Gadafi, que pavimentou o caminho da reação, a quem os trabalhadores não podem ver senão com ódio de classe e contra quem se preparam para acertar as contas. É bem provável que, no meio da luta, Gadafi, como Milosevic, Saddan Hussein e tantos outros politicos burgueses que tiveram que realizar um enfrentamento militar com seus amos imperialistas. Os verdadeiros revolucionários também não podem dissimular seu lado nesta guerra, odeiam Gadafi, mas a vitória do imperialismo seja da forma como for, sobre o ditador de Trípoli significará maior exploração dos trabalhadores libios e estrangeiros em solo libio e maior pilhagem do petróleo do país. Um programa operário e revolucionário neste conflito não pode ser outro que estabelecer uma frente única militar com Gadafi, sem depositar nenhuma confiança na autodefesa do regime decrépito. Pelo armamento de todo o povo contra a recolonização “democrática” imperialista. Pelo controle operário de Tripoli, dos campos petrolíferos, de todas as cidades do país. Os milhões de trabalhadores terceirizados que trabalham para multinacionais na Líbia devem lutar por sua efetivação no Estado líbio, pela nacionalização sem idenização e sob o controle operário das transnacionais petroliferas, da Odebrecht, Andrade Gutierrez. Pela expropriação do imperialismo e do conjunto da burguesia libia, incluindo o clã de Gadafi rumo a uma verdadeira conflagração revolucionária pela construção da Federação das Repúblicas Soviéticas da África e Oriente Médio. O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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ESPECIAL ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO

SU, CMI, L5I, LIT, PO, FT, FLTI: finalmente as “Internacionais” revisionistas se ‘reunificam’ em Bengasi

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s grandes acontecimentos históricos de impacto mundial são divisores de águas entre as concepções ideológicas da burguesia e do comunismo. A esquerda mundial é perpassada por esta regra. Foi assim, às vésperas da II Guerra Mundial, quando a própria IV Internacional se dividiu diante da defesa correta que Trotsky fez da URSS, apesar de Stalin e de seu acordo com Hitler. O mesmo se deu nas revoluções chinesa, coreana, cubana e vietnamita. Semelhante polêmica se deu diante da ocupação do Afeganistão pela URSS, na revolução política iraniana, na Guerra das Malvinas, na restauração capitalista dos Estados operários da URSS e do Leste Europeu, diante do ataques ao WTC, da crise capitalista mundial, etc. Agora estamos diante de uma nova ofensiva imperialista contra os povos, produto direto da última crise econômica mundial. Essa ofensiva vem precedida de uma onda espontânea e inconsciente de protestos de massa. Diante deste teste da luta de classes a esquerda mundial que se reivindica trotskista mostra para que serve. Depois de décadas de consecutivas rupturas e sub-rupturas as correntes que se reivindicam trotskistas chegam ao consenso sobre a “revolução libia” e se “reunificam” adotando caracterizações e programas similares em torno da frente reacionária, monárquica e pró-imperialista composta em Bengasi. Michel Pablo emergiu como o principal dirigente da IV Internacional depois do assassinato de Trotsky. A partir de 1951 Pablo rejeitou a caracterização trotskista de que o stalinismo tinha passado definitivamente para o lado da burguesia e defendeu teses de ingresso dos trotskistas nos PCs. Teses que levariam à liquidação da corrente como instrumento de luta da classe trabalhadora pela revolução socialista mundial. Seus adversários dentro do trotskismo, embora acertadamente criticando o liquidacionismo pablista, acabaram por também destruir a IV Internacional mais tarde e em ritmos distintos capitulando a outros agentes contrarrevolucionários como a social democracia, o nacionalismo burguês e o próprio imperialismo. O principal herdeiro do pablismo foi o dirigente Ernest Mandel, fundador do Secretariado Unificado da IV Internacional, o SU. Os mandelistas do “Bureau da IV Internacional” declaram por meio de seus partidos e simpatizantes, no Brasil, através da corrente Enlace do PSOL, “Apoio à revolução Líbia! Fora Gadafi!”. O “Bureau” assegura que “as revoluções em curso enfraquecem as posições dos imperialismos ocidentais” e que “todas as classes dominantes, todos os governos e todos os regimes reacionários no mundo árabe estão mais ou menos a apoiar a ditadura Líbia.” Difícil acreditar que, por exemplo, o governo da Junta Militar egípcia que vem reprimindo as tentativas dos manifestantes de se reagrupar na Praça Tahrir seja mais fraco que Mubarak. A Junta Militar vem dando todo apoio logístico ao subministro de armas do imperialismo para a oposição libia. O SU presta um grande serviço ao imperialismo atestando que a camuflagem da CIA em Bengasi exerce uma missão “revolucionária” para derrotar, pôr para “fora Gadafi”. Concordando com o imperialismo no principal, todo o resto é secundário, perfumaria. Mas, para criar um cenário que jus-

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tifique sua posição escandalosa, o mandelismo mistifica a realidade de uma forma em que nem a própria mídia burguesa faz. Enquanto o Enlace/PSOL proclama que todas as classes dominantes árabes estão a favor de Gadafi, as próprias afirmam o contrário: “A opção de decretar uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, por outro lado, começa a ganhar cada vez mais respaldo internacional. As monarquias árabes do Golfo Pérsico declararam-se a favor da ação, assim como o chefe da Organização da Conferência Islâmica (OCI), o turco Ekmeleddin Ihsanoglu. ‘Nos unimos àqueles que pedem o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea, e pedimos ao Conselho de Segurança da ONU que assuma suas responsabilidades neste sentido’, disse ele. A OCI é integrada por 57 países muçulmanos, representando uma população total de mais de um bilhão de habitantes.” (UOL noticias, 09/03/2011). O francês Pierre Lambert foi uma dos primeiros dirigentes da IV Internacional a romper com Pablo em nome do combate correto ao liquidacionismo. Os seguidores do lambertismo no Brasil se agrupam na tendência petista O Trabalho, que defende a “Solidariedade com a revolução! Nenhuma ingerência dos EUA!” (carta da corrente O Trabalho - especial – 3/03/2011). OT assegura que as “revoluções” “Desestabilizaram completamente a situação no norte da África e Oriente Médio. E já trouxeram um abalo de conjunto na ordem imperialista mundial” (idem). A Corrente Marxista Internacional, CMI, que realiza na Venezuela a mesmo papel que Pablo realizou em relação ao governo burguês da Argélia, se orgulha de ser a corrente trotskista conselheira de Chaves e sua Quinta Internacional. Trata neste momento de aconselhar o Gadafi venezuelano a se distanciar do Gadafi líbio. Sua seção petista no Brasil, uma ruptura de OT, a “Esquerda Marxista do PT” reproduz um comunicado da tendência Luta de Classes do PSUV de Chavez: “Rechaça qualquer tentativa de desviar a atenção do povo revolucionário venezuelano em relação ao caráter revolucionário da insurreição líbia!” (Caracas, 24/02/2011). De uma só vez, esta categoria de esquerda marxista de partidos da burguesia capitula ao nacionalismo burguês chavista na Venezuela e ao imperialismo na Líbia. O agrupamento internacional do grupo Workers Power, chamado de Liga pela 5ª Internacional, L5I, também reivindica “Pela vitória da revolução libia! Abaixo o carniceiro de Tripoli!” (Massacre expressa a desintegração do regime de Gadafi, 25/02/2011). Segundo esta declaração, o objetivo de uma intervenção imperialista seria “restaurar a ordem e sufocar as forças vivas da revolução” (idem). Moreno acusou a OCI (corrente de Lambert) de trair o proletariado ao capitular ao social-imperialismo francês. O Secretariado da Liga Internacional dos Trabalhadores, LIT-QI, corrente criada por Moreno e a qual é ligado o PSTU brasileiro defende: “Devemos nos mobilizar em todos os países contra os planos imperialistas de derrotar a revolução do povo líbio!’ Pelo triunfo da resistência! Viva a revolução líbia!” (01/03/2011). Qualquer observação mais atenta sobre o caráter da “resistência”, sua composição social, sua trajetória politica, qualquer declaração do Conselho Nacional provisório invocando a intervenção do imperialismo no con-


flito jogam por terra a mitologia revisionista sobre os acontecimentos da Libia, criada pelo impressionismo pequeno-burguês frente às revoltas árabes e o impacto da propaganda de guerra imperialista contra o regime de Tripoli. “Mais realista que o rei”, no caso que a rainha, o PSTU exige que o governo Dilma vá além do que o apoio que vem declarando a Obama e à ONU em sua politica de isolamento e estrangulamento do governo Gadafi. “O PSTU exige do governo Dilma a ruptura das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com o governo Líbio” (24/02/2011). Em sua “campanha de solidariedade” pela Líbia, que lembra a “Ajuda operária à Bósnia”, disfarce com que esta corrente prestou seu apoio à invasão dos Balcãs pelos capacetes azuis da ONU, agora reivindica que “para terminar com a ditadura é necessária “a mais ampla unidade de ação de todos os setores”. Há poucos dias, o PSTU proclamou uma “vitoriosa revolução democrática que derrubou o regime ditatorial no Egito” (Opinião Socialista, 418, 16/02/2011). Afirmam sobre o governo da Junta Militar mubarakista: “o regime atual é completamente distinto da ditadura de Mubarak.” (idem). A LIT vergonhosamente embeleza o regime continuísta que desata agora uma repressão maior do que em janeiro e fevereiro para estabilizar a situação politica e obrigar pela força as manifestações populares a refluírem: “O bloqueio, que teve lugar sábado, logo depois da meianoite, marcou uma das primeiras vezes que a polícia militar egípcia recorreu à violência, desde a erupção da crise neste país, promovendo debates em todo Cairo sobre as intenções dos militares. Aumentaram as tensões no Egito, com os manifestantes exigindo mais reformas democráticas e a demissão do primeiro-ministro e membros do gabinete. Os líderes da Junta Militar pediram para que os manifestantes se retirassem permitindo que o país volte ao normal. Desde que a “revolução” começou, os manifestantes gritavam muitas vezes: ‘O povo e o exército são um só’ e até mesmo colocavam seus filhos para tirar fotos com soldados e seus tanques. Mas agora que o Exército quer que eles se dispersem e está disposto a exercer a força, a relação se tornou mais sombria, disseram muitos manifestantes. ‘Eu penso que não há confiança no serviço militar. Depois do que aconteceu ontem à noite, você pode dizer que eles não são leais ao povo’, disse Saleh Gamal, 22 anos, que estava na multidão quando o cordão de isolamento organizado pelos policiais militares retirou-os da praça.(...) Logo depois da meia-noite, policiais militares apareceram de repente, com rostos cobertos por máscaras, e começaram a empurrar violentamente os manifestantes para fora da praça, dizendo que eles estavam impondo um toque de recolher. ‘De repente a polícia chegou usando máscaras como meias. Você não conseguia ver nada, exceto os olhos deles’, disse Dina Abouelsoud, 35, acrescentando que ela foi espancada, mas escapou à prisão. ‘Eles não falam nada. Eles começaram a pegar as pessoas e a empurrá-las para trás.... Eles estavam arrancando as câmeras das pessoas. Vi gente atirada no chão.’ Gamal disse que ficou atordoado após ter sido atingida com uma arma de choque, ficando temporariamente paralisada. Apenas uma semana antes, ele observou, os militares haviam se mudado para a praça e retirado pessoas das tendas na tentativa para fazê-los sair, mas naquele momento não usaram a força. ‘Eu não sei porque eles decidiram bater-nos agora’, disse ele.” (The Washington Post, 26/02/2011). Cabe aos marxistas explicar à população e ajudá-la a compreender o que se passa, para que ela possa combater melhor a reação “com forma democrática”. Cabe aos mentirosos conciliadores embelezar o que está acontecendo com frases triunfalistas que obscureçam o entendimento e embotem a consciência e tem um efeito similar ao do gás hilarian-

te disparado pelo aparato repressivo contra manifestantes. A LIT saúda a vitória da “revolução democrática” burguesa, adorna o regime ditatorial, despótico, tirano e militar saído desta “revolução” e conclama “uma ampla unidade de ação com todos os setores”, ou seja, com a oposição burguesa em uma frente popular internacional pela extensão da tal revolução “contra o imperialismo”, obviamente. Ainda que fossem as revoltas árabes “revoluções democráticas”, o que, em nosso entendimento, não são, os métodos conciliacionistas da LIT se opõem pelo vértice aos métodos do bolchevismo: “Nossa revolução é burguesa; por isto os operários devem sustentar a burguesia, dizem os políticos sem nenhum valor, procedentes do campo dos liquidadacionistas. Nossa revolução é burguesa, dizemos nós, marxistas, por isto, os operários devem abrir os olhos do povo, fazendo que ele veja os enganos dos políticos burgueses, ensinando-os a não crer nas palavras, a não confiar mais do que em suas próprias forças, em sua organização e em sua união, em seu armamento.” (Lenin, Obras completas, volume XIV, 1ª parte) O argentino Partido Obrero, PO, que rompeu há três décadas com o revisionismo lambertista aposta que “O imperialismo está obrigado a captar a oposição insurgente e as suas direções, para evitar que a revolução, como na Tunisia, se incline violentamente para a esquerda.” (A Otan ameaça a revolução libia e as revoluções árabes, PO 1166 3/3/2011). Isto é, como se a “oposição insurgente” com sua camarilha de generais, juízes, oligarcas chefes tribais já não estivesse pré-captada, não fosse agente dos interesses imperialistas e a cada dia, ao contrário de ir “violentamente à esquerda”, não se desmascarasse mais e mais, reivindicando a violência reacionária da intervenção da OTAN. Como informa o espanhol El País: “Os rebeldes imploram ajuda exterior: (...) ‘não sejam humanitários, atuem’”. (10/03/2011). Na mesma linha de todos seus outros pares, o PCO, que rompeu vergonhosamente ‘à francesa’ com o PO, despois de ter sido fundado pelo partido argentino e passado quase três décadas ligado a ele, “alerta” para o fato de estar a “revolução sob ameaça de uma intervenção imperialista” (Causa operária, 628, 06/03/2011): “O imperialismo mundial prepara uma intervenção em meio à crise para tentar conter o avanço da revolução na Líbia, a pretexto de combater a ditadura de Gadafi”. (idem). A Fração Trotskista, FT, corrente internacional que agrupa a LER brasileira e o PTS argentino, este último surgido de uma ruptura com o MAS/LIT em 1988, caracteriza que há um “processo revolucionário aberto na libia” (Líbia, entre a rebelião e a decomposição do regime, Comissão Internacional do PTS, 27/02/2011). Segundo a Comissão da FT conta, “o processo insurreicional” teve inicio quando em Bengasi no dia 18/02, os manifestantes “rapidamente tomaram o controle da cidade com a ajuda da polícia local, que se uniu rapidamente aos protestos.” (idem). Vemos então que pela primeira vez na história a polícia praticamente deu inicio a um processo revolucionário. Os marxistas há muito sabem que a policia é a instituição mais contrarrevolucionária de todas as instituições da classe dominante, mais do que o Exército. Para os marxistas “o operário que se torna policial a serviço do Estado capitalista é um policial burguês e não um operário” (A revolução alemã e a burocracia stalinista, L. Trotsky, 27/01/1932). A instituição policial está intimamente ligada aos interesses da burguesia e a ação da “polícia revolucionária” do PTS só corrobora com a ideia de que desde o O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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começo, ao contrário da Tunisia ou Egito, o “processo revolucionário” líbio nasceu da articulação de uma fração monarquista das classes dominantes do país com o imperialismo. Todavia, o PTS vislumbra “que ante a intenção de Gadafi de resistir a sangue e fogo, os acontecimentos desemboquem numa insurreição operária e popular.” (idem). Os revisionistas descobriram nas frações anti-gadafistas do aparato repressivo libio certas estranhas qualidades “revolucionárias”, do mesmo modo que o dirigente trotskista nacionalista Guillermo Lora, dirigente do POR boliviano, tornou-se famoso por suas excêntricas teses acerca da excepcionalidades antiimperialistas no aparato repressivo de seu país. Uma parte da direção do PTS rompeu em 1998 acusando o setor majoritário do partido de trair o trotskismo. Surge então a LOI-DO que proclama como sua corrente internacional a FLTI que caracteriza a contrarrevolução na URSS como “revolução”. Mais triunfalista que sua corrente de origem, a FLTI acredita que já existe uma insurreição operária na Líbia e vê mais miragens ainda. Com um ar delirante que lhe é característico proclama: “Pelo triunfo da insurreição operária e das massas exploradas da Líbia! Derrotemos a contrarrevolução de Gadafi acantonado em Tripoli! Viva as milícias operárias, os comitês populares e os comitês de soldados rasos que já controlam a maioria da Líbia! Viva a heroica greve geral insurrecional da classe operária e seus combates de barricadas em Trípoli! A revolução libia começou enquanto a politica do imperialismo de disparar e matar se prepara contra ela” (site da LOI-DO, 28/02/2011). Se os outros revisionistas cultuam o mito imperialista da “revolução líbia”, a FLTI seria um “ramo” fanático, fundamentalista do pseudotrotskismo “reagrupado” em Bengasi. Quando, depois de 40 anos, o imperialismo ianque vê uma possibilidade de retomar o completo controle do petróleo e de tudo mais na Líbia, impondo uma monarquia contrarrevolucionária, a FLTI que festejou a contrarrevolução na URSS saúda novamente uma “revolução” pró-imperialista. O POR brasileiro, herdeiro nacional do legado político do boliviano G. Lora, apresentando-se como conselheiro dos golpistas monarquistas a quem trata genericamente como “a revolução”. Os loristas tupiniquins nem sequer se dignam, como outros apoiadores da tal “revolução líbia”, a fazer uma delimitação política formal com a direção reacionária monarquista do “processo revolucionário”. Enquanto “a revolução” invoca sem meias palavras “tragam o Bush!” (ver matéria principal da LC sobre a Líbia) o POR recomenda, aparentemente desinformado acerca dos objetivos de seus aliados: “Que a revolução não aceite nenhuma ‘ajuda’ das potências e que não se apoie em nenhuma decisão do imperialismo. A revolução em marcha deve responder claramente: quem decide sobre a legitimidade ou não do governo Kadafi somos nós líbios. Não queremos suas armas! A intervenção do imperialismo não põe em risco o regime de Gadafi, mas sim à revolução. O destino de Gadafi pertence apenas ao povo líbio!” (Manifesto do POR, 01/03/2011). O POR realiza sua platônica frente única anti-imperialista com os agentes do imperialismo na Líbia. Mas, para isto, presta sua ajuda a recolonização camuflando aos agentes do imperialismo burgueses com a denominação genérica e policlassista “povo líbio”. O mesmo POR que passou anos dizendo que sua principal diferença com o PCO era a palavra de ordem sem princípios “governo dos trabalhadores” usada pelos revisionistas em detrimento da defesa principista do “governo operário e camponês”. Quem te viu quem te vê! Há ainda os que, como O Coletivo Lenin, um agrupamento de ex-militantes do PSTU e simpatizantes das posições politicas das correntes espartaquistas (LCI, TBI), que para

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dissimular seu apoio a uma “revolução” monarquista próimperialista põem um limite temporal à “fase revolucionária” da frente golpista, caracterizam que havia uma revolução em curso na Líbia até a conformação do Conselho Nacional Provisório, embelezado pelo CL como uma “Frente Popular” (FP) que “namora com uma intervenção ‘humanitária’ da ‘comunidade internacional’”. Para a Liga Comunista tal posição é “nova” no trotskismo, pois até então as frentes populares eram coalizões de partidos operários com partidos burgueses. Pode-se abrir uma exceção, como durante a Guerra Civil espanhola, em que Trotsky denominou de frente popular à composição formada pelo PC, PSOE, CNT e POUM com “a sombra da burguesia”. Agora, segundo o CL, teríamos uma nova categoria de FP composta por proeminentes representantes da burguesia libia, ministros, generais, juízes, chefes tribais reivindicando a volta da monarquia com... a sombra de nenhum partido ou organização operária, ou seja, o CL avermelha uma frente burguesa clássica. Também não é correto afirmar que a tal “frente” se restringe a “namorar” com o imperialismo quando na verdade estes setores já completam bodas de ouro de casamento com a CIA e não passam de desertores do regime burguês decrépito de Gadafi, que viram na abertura neoliberal promovida pelo mesmo uma possibilidade de enriquecerem, negociando diretamente a entrega das riquezas nacionais ao imperialismo em troca de uma porcentagem, livrando-se do caudilho. DO CONCILIACIONISMO PRÓ-IMPERIALISTA AO CONCILIACIONISMO PRÓ-NACIONALISTA Fora desta frente ampla revisionista, se encontram outras correntes que não estando no campo imperialista, também não possuem independência de classe frente ao nacionalismo burguês. Estranhamente a família espartaquista (LCI, TBI, IG) não tem expressado nenhuma posição sobre o tema em suas páginas na internet. O WRP inglês, ou o que restou do outrora poderoso WRP implodido em 1985, quando financiado por Gadafi chegou a possuir um jornal diário, o News Line. Na época, a enorme corrente de G. Healy, que tinha entre suas fileiras a principal atriz britânica, Vanessa Redgreave, era a defensora internacional do nacionalismo árabe e em particular do Gadafismo. O WRP com muito menos “disposição” que no passado continua a defender sem o menor traço de independência de classe ao caudilho burguês: “o líder líbio, o coronel Gadafi, permanece em Trípoli, lutando pela independência da Líbia... A classe dominante britânica vinha tratando a Líbia como um primo perdido. Na reunião entre Blair e Gadafi em 2004 em uma tenda no deserto, Blair sussurrou palavras doces ao ouvido de Gadafi, a fim de ganhar grandes contratos de petróleo. Agora com um levante de direita reacionária em curso, a hiena britânica está mostrando os seus dentes, tratando Gadafi em seus meios de comunicação como um “cachorro louco”, que deve ser derrubado, estimulada pela esperança de que algum estado islâmico de Bengasi se estabeleça por cima do cadáver de Gadafi, para lhe entregar o petróleo da Líbia. Foi um grande erro de Gadafi não colocar a si mesmo e a Líbia na linha da frente daqueles que apoiam a revolução que começou na Tunísia e se espalhou para o Egito. Instamos as massas da Líbia e da juventude para tomar sua posição ao lado do coronel Gadafi para defender as conquistas da revolução líbia, e desenvolvê-las.” (The News Line: Editorial, 23/02/2011). Já faz pelo menos quatro anos que as hienas vêm recebendo o petróleo do próprio Gadafi, não da forma como queriam, mas recebendo. Em 2007, British Petroleum (BP) – que juntamente com ExxonMobilESSO, a ChevronTexaco e a Shell compõe o poderoso car-


tel do petróleo mundial conhecido como “As 4 Irmãs” – assinou um contrato com a Corporação de Investimento da Líbia, em 2007, para explorar duas áreas, uma envolvendo perfuração em águas profundas na Bacia de Sirte, no Mar Mediterrâneo, e outra no deserto no oeste do país. E não foi por erro, mas por instinto de classe burguês que o caudilho não se colocou na linha de frente das revoltas populares da Tunísia e Egito. A LBI, apesar de tomar o lado correto da luta, em defesa incondicional da nação oprimida Líbia contra a ofensiva imperialista e fazer um chamado à frente única militar com as forças do regime Gadafi, limita-se a reivindicar um programa anti-imperialista não operário e não revolucionário. Subestimando um papel independente que a classe trabalhadora teria que cumprir neste processo, acaba superestimando supostos resquícios nacionalistas do gadafismo, chegando a afirmar que do país não sai uma gota de petróleo para os EUA. “Ao contrário da Venezuela, à Líbia não exporta uma gota sequer de petróleo para os EUA, uma resolução constitucional remanescente da nacionalização das reservas de petróleo.” (Jornal Luta Operária 209, 02/2011). Isto não é verdade e a LBI minimiza a capitulação pró-imperialista de Gadafi. Em setembro de 2004, Bush assinou a ordem executiva 12543, suspendendo a maioria das sanções dos EUA contra a Libia, para o reestabelecimento de vários contratos e o fim das limitações de importação entre as petrolíferas ianques com a Líbia. Já em 2005 a Líbia promoveu um leilão de suas reservas petrolíferas (como o governo Lula fez várias vezes sobre as reservas descobertas pela Petrobrás) marcando o retorno das empresas norte-americanas ao país. Foi quando a Amerada Hess Corporation em conjunto com seus parceiros do grupo Oasis ConocoPhillips e a Marathon Oil retornaram a Líbia. Agora estas empresas têm o interesse de EXPANDIR seus negócios. A Conocophillips é a terceira maior empresa petrolífera dos EUA, detém a participação de 16,3% em concessões da Líbia Waha Oil Company (WOC). A Marathon Oil Corp possui também 16% da WOC na Bacia de Sirte. O seu programa de exploração de 2009 incluiu a perfuração de quatro poços, juntamente com cinco poços em desenvolvimento. A Hess Corp produziu 22.000 bpd na Líbia em 2009. Junto com seus parceiros do grupo Oasis, Hess possui uma participação de 8 % da WOC. Hess também é dona de toda a área de 54 offshores, onde perfurou um poço exploratório em 2008. A Occidental Petroleum Corp é a 4ª maior companhia petrolífera dos EUA, ganhou US$ 243 milhões em vendas líquidas da Líbia em 2009, ou menos de 2 %de seu total. A produção aumentou em 2010, e Oxy tem planos para duplicar a sua produção a partir da Líbia em 2014. Como mostramos no gráfico, menos de 10% do petróleo da Líbia é exportado para os EUA e a imposição de uma nova repartição da rapina para suas companhias é um dos principais motivos da guerra atual promovida por Washington contra Trípoli. “O comércio de petróleo da Líbia está praticamente paralisado, enquanto os bancos se recusam a realizar pagamentos em dólar por causa das sanções americanas contra o regime do ditador Muammar Gadafi, disseram fontes à agência Reuters. As restrições, que se seguem à decisão das grandes companhias de petróleo dos EUA de suspender seus negócios com a Líbia, afetam o abastecimento de refinarias em países como França e Itália.” (Estado de São Paulo, 09/03/2011). Obviamente, esta suspensão temporária dos negócios, faz parte do plano dos EUA para estrangular financeiramente o regime de Tripoli e, após a

derrota de Gadafi, controlar uma parcela maior do petróleo do país em relação ao que já controla hoje. Diante do golpismo pró-imperialista de Kornilov os verdadeiros bolcheviques souberam se posicionar com inteira independência de classe diante do governo burguês de Kerensky: “Mesmo agora, não devemos sustentar o governo de Kerensky. Seria faltar aos princípios. Mas, então, dir-se-á, não se deve combater Kornilov? Certamente sim. Mas, entre combater Kornilov e sustentar Kerensky há uma diferença, um limite, que certos bolcheviques transpõem, caindo no “conciliacionismo”, deixando-se arrastar pela torrente dos acontecimentos” (História da Revolução Russa, Leon Trotsky) Mas, voltemos ao conciliacionismo pró-imperialista. Dissipando as ilusão alimentadas pelos revisionistas do trotskismo, os porta-vozes da “revolução” vêm fazendo várias declarações invocando a entrada em cena de seus amos imperialistas para completar o serviço que começaram. “Os rebeldes de oposição na Líbia pediram nesta quarta-feira ao Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) que lance um ataque aéreo contra os mercenários do regime do ditador Muammar Gadafi. Diante de uma ofensiva aérea das forças leais ao ditador, os rebeldes dizem que somente com ajuda internacional poderão tirar Gadafi do poder.” (Rebeldes pedem ajuda da ONU para combater forças de Gadafi, Folha de São Paulo, 02/03/2011) A reivindicação pela intervenção “humanitária” é do porta-voz do Conselho Nacional Provisório, Abdelhafed G Hoga. “Em em entrevista coletiva concedida em Bengasi, epicentro das forças de oposição. Hoga ressaltou, contudo, que a ajuda viria como um ataque aéreo estratégico” (idem). Nenhuma reação “humanitária” parecida se vê da “comunidade internacional” nem tampouco da revisionista esquerda trotskista em relação ao Barhein, sede da 5ª Frota de patrulha dos EUA do Golfo Pérsico, onde se extrai uma boa parte dos recursos energéticos consumidos no planeta, onde tem havido uma brutal repressão do trilhionário governo títere sunita contra a população xiita desarmada que corresponde a 75% dos cidadãos do país e que, se fossem bem sucedidos em sua luta democrática e anti-imperialista poderiam contagiar as duas minas de petróleo fundamentais do imperialismo, a dos Emirados Árabes e da Arábia Saudita, onde a população tem realizado mobilizações de forma crescente. A “reunificação” revisionista mundial em torno do mito que a ofensiva imperialista tem como objetivo liquidar a mítica “revolução libia” encobre uma vergonhosa capitulação do conjunto destes partidos à camuflagem do imperialismo. Este malabarismo que nada tem a ver com o trotskismo e fantasia a realidade, expressa uma busca dessas correntes a criar um terceiro campo ideal na luta de classes onde os pequeno-burgueses possam se alojar sem precisar nadar contra a corrente da opinião pública democratizante mundial e ao mesmo tempo sem parecer que a ela servem. Nós da LC dizemos claramente aos honestos militantes de base destas correntes: vossa direção lhe engana ou se auto-engana. Seja como for, não serve para ajudar ao proletariado avançar em sua consciência política, está do outro lado, faz parte do rebanho burguês e propaga as mentiras da grande mídia do capital, se deixa levar pela máscara de “revolta popular” (um disfarce nem tanto convincente assim, pois para qualquer observardor um pouco atento fica evidente que se trata de monarquistas armados invocando uma intervenção militar imperialista) de nossos piores inimigos. O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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EUA

Brutal ataque aos direitos salariais e sindicais dos trabalhadores, Minuteman, Tea Party, recolonização “democrática”... Obama choca o ovo da serpente

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o Estado de Wisconsin, o governador republicano tomou uma medida brutal contra o funcionalismo público que, se não for derrotada, servirá de exemplo para que os capitalistas e seus governos estendam este ataque aos trabalhadores de todo o mundo. O projeto de lei apresentado por Scott Walker: 1) liquida a negociação coletiva dos empregados públicos sobre a aposentadoria e outros benefícios sociais; 2) reduz a possibilidade de que haja aumentos salariais maiores que a inflação oficial, ou seja, anula a possibilidade de qualquer aumento real de salários, a menos que tal aumento seja aprovado em referendo pela maioria dos votantes; 3) autoriza que os trabalhadores deixem de pagar o imposto sindical e que a filiação aos sindicatos precise ser renovada anualmente; 4) estabelece que os empregados públicos realizem uma contribuição por seus planos de pensão e seguros de saúde. Encabeçado pelo governador de Wisconsin e patrocinado por Obama, o arrocho fiscal que toma forma nos Estados Unidos faz parte do grande ajuste de contas tendo como justificativa a crise econômica que se abateu no país desde 2007. Justificativa sim, porque a grande burguesia planetária nunca esteve tão rica como agora. Os lucros das empresas no ano passado foram os maiores da história do império desde quando começaram a ser registrados. A burguesia trilionária causadora da crise foi presenteada com mais dinheiro estatal em forma de generosos pacotes de “salvação” e mais isenções de impostos enquanto a classe trabalhadora vem sendo sacrificada através de demissões em massa, quebra de contratos e estabilidade de trabalho, perda de direitos de previdência e sindicalização e mais uma série de medidas para desvalorizar a sua força de trabalho, aumentar a mais-valia e quebrar a sua resistência sindical organizada. Obrigado a se pronunciar após duas semanas de completo silêncio, e pressionado pela opinião pública para agir de acordo com o que havia prometido durante sua campanha em 2007, quando garantiu “piquetear com os trabalhadores caso a estes fosse negado o direito de se organizar e negociar seus salários com o empregador através de sindicatos” (The Daily Caller, 28/02/11), Obama encenou uma crítica ao governo de Wisconsin ao afirmar que as medidas eram um ataque aos sindicatos. Porém, logo em seguida, fez uma outra declaração em sentido oposto, em apoio ao saque dos Estados, alegando saber que os governadores “...estão tendo que tomar decisões sobre as suas forças públicas de trabalho e sei o quanto difícil isso pode ser. Recentemente congelei os salários de empregados federais durante dois anos. Não era algo que queria fazer, mas o fiz por causa da difícil situação fiscal em que estamos. Acredito que todo mundo deve se preparar para sacrificar algo a fim de re-

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Gráfico do valor das horas trabalhadas (2001-2010) mostra a desvalorização da força de trabalho na Europa e nos EUA solver nossos problemas económicos” (Chicago Tribune, 28/02/11). A grande falácia ecoada aos quatro cantos do país acerca da falência dos Estados membros dos EUA tem sido usada para confundir a classe trabalhadora do país sobre os reais motivos dos saques gigantescos e nunca vistos às conquistas e direitos dos trabalhadores públicos em todas as categorias. Levado há dois anos à presidência da grandiosa máquina opressora mundial, o senador negro de Illinois leva a cabo a sua escalada ofensiva em uma verdadeira guerra contra a classe operária e seus direitos mais básicos, e contra os povos oprimidos do planeta, obrigados a pagar pela crise do capital. Afoita para usar a crise econômica e financeira de 20072008, a burguesia dá inicio a um gigantesco plano de resgate de capital apostando em Obama para ser, por um lado, a pedra desviadora de atenção do tabuleiro na luta de classes, e por outro, o perfeito advogado do diabo que de uma maneira mais “refinada”, porém tão nociva quanto a de seus antecessores, prepara o terreno para um novo ataque imperialista. Realizando, com uma roupagem “democrática”, uma ofensiva imperialista mais ampla que a de Bush, na Palestina, Afeganistão, Haiti, Honduras, Iraque, Irã, Coréia do Norte, Egito, Tunísia e Líbia, Obama visa a implementar em ritmos cada vez mais intensos o processo de recolonização engendrado pelos apetites vorazes do capital financeiro pós-crise econômica. Mesmo antes de entrar para o gabinete presidencial, Obama começa a reaquecer a máquina dos superlucros burgueses ao assumir os compromissos de empresas como a Lehman Brothers, que ao declarar falência livrouse de todos os seus débitos e compromissos trabalhistas, jogando os mesmos nas costas do Estado. Um exemplo ainda mais óbvio da sua necessidade de mostrar-se a altura do posto que assumiria, deu-se através do financiamento governamental de empresas como a GM no inicio de 2008, quando o dinheiro sangrado dos trabalhadores


foi usado para tornar ainda mais robusta as contas bancárias dos seus acionistas através da injeção de liquidez bilionária patrocinada por Obama. A General Motors, que ameaçou falir se não cortasse empregos, salários e conquistas trabalhistas, festejou quase U$ 5 bilhões de lucros em 2010. Ao mesmo tempo em que garantia o livre acesso da burguesia ao dinheiro estatal, ainda em 2008, Obama assinava a lei “FISA Amendments Act of 2008”, dando ao Estado norte-americano total liberdade para vigiar, interceptar, buscar e aprisionar sem necessidade de esclarecimento prévio a qualquer indivíduo ou organização dentro e fora dos Estados Unidos que sobreponha os interesses e a segurança burguesa. Com a popularidade estrategicamente baixa durante o período das eleições para o congresso norte americano, Obama garantia a manutenção de uma estratégia de revezamento muito conhecida dentro da política burguesa norte americana, em que tanto os democratas quanto os republicanos “comem” do dinheiro do Estado nas mesmas proporções. Assim, Obama perdia nas eleições passadas de novembro de 2010 o apoio do congresso então democrata, passando a cadeira para os republicanos. Porém, se analisarmos essa mudança de roupa do Congresso dentro da perspectiva da luta de classes, percebe-se que isto somente cria as circunstâncias ideais para que Obama possa não só continuar sua ofensiva contra a classe trabalhadora, mas sobretudo aperfeiçoála, usando a suposta pressão sofrida pelo congresso como pano de fundo. Um nítido exemplo dessa medida “bipartidarista” foi a prorrogação da lei “Tax Cuts” criada no governo Reagan através da lei Tax Reform Act em 1986 e reativada no governo Bush. Cheio de munição e reenergizado um mês após as eleições, Obama toma a medida até então mais ousada do seu governo em favor da burguesia, estendendo por mais dois anos o corte de impostos que diretamente beneficia os milionários do país. “A aprovação da lei (Tax Cuts) no Congresso foi a evidência mais dramática até então de que compromissos bipartidários estão inesperadamente ressuscitando semanas depois das eleições de novembro (The Independent, 18/12/10).” A classe trabalhadora não só dos Estados Unidos, mas de todas as suas semicolônias, é quem vêm pagando esse banquete que há séculos é oferecido às classes dominantes, que se tornaram mais poderosas desde a contrarrevolução nos Estados Operários da URSS e Leste Europeu. DESNORTEADOS E COAGIDOS, OS TRABALHADORES DOS EUA REAGEM PARA NÃO PAGAR A CONTA Analisando a conjuntura norte americana, o curso dos acontecimentos revela uma escalada gigantesca rumo a fascistização do país. Não por acaso, antes mesmo da saída de Bush, a grande vedete Sarah Palin entrava em cena, alimentando com seu sorriso, “porte atrativo” e linguagem típica do “Uncle Sam”, o americanismo em camadas da pequena burguesia e da classe trabalhadora. Pregando o credo dos interesses nacionais, a cativante – e muito bem paga – Palin, montava o cenário para o aparecimento do Tea Party. Como time preliminar dos republicanos, pago para pressionar o “commander and chief” norte-americano a acelerar sua ofensiva contra as massas, o Tea Party recebe milhões em doações “anô-

Cartaz na ocupação do Capitólio: Pare o ataque sobre os trabalhadores e professores de Winsconsin nimas”. Palin, “a abelha rainha, recebe de corporações como o canal de televisão Fox News nada menos que um milhão por ano” (The New York Magazine, Abril, 2010). Isso sem contar o seu programa de televisão “reality show” Alaska, o palco perfeito usado pela burguesia para a catequização do proletariado acerca dos interesses “nacionais”, como minimização do Estado, xenofobia contra dos imigrantes, discriminação racial, privatizações, etc. A estratégia é jogar setores da classe trabalhadora uns contra os outros através de um trabalho diário de propaganda. Assim, os trabalhadores norte-americanos, desarmados de qualquer instrumento que os leve ao desenvolvimento da consciência e à compreensão de que esta luta deve ser travada entre classes, se autoflagela e não avança. O desmantelamento das organizações trabalhistas dentro dos Estados Unidos se intensifica de maneira brutal nessa década, mas esse não é um processo novo. Muito bem articulada, a transferência de empresas durante o período de quebra da indústria norte americana, intensificada pelo neocolonialismo das décadas de 70 a 90, foi um dos motores dessa mudança. Esse processo, fruto da colaboração de classes entre os sindicatos da época e os patrões, desarmou as massas, atrasando em décadas sua organização e abrindo caminhos para significativas perdas de conquistas para a classe trabalhadora. “Já na década de 70, o crescimento do desemprego, da competição internacional e o movimento da indústria contra a sindicalização diminuíram a posição e o poder de barganha de muitos sindicatos americanos, deixando-os vulneráveis a uma ofensiva de controle renovado” (Economic History Association, 01/02/10). Esses desdobramentos meticulosamente preparados pelo imperialismo ianque para intensificar a pilhagem da mão de obra nos Estados Unidos garantiram à burguesia um maior poder de manipulação e opressão sobre as massas. Um dos exemplos mais nítidos da capitulação e rendição completa dos sindicatos aos interesses do empresariado se vê hoje em Nova Iorque. Numa corrida ao ajuste fiscal pós-crise econômica da casa própria, o multibilionário Bloomberg, num inédito terceiro mandato, presenteia a sua corja de cúmplices “decidindo colocar todo o grosso da crise criada pelos seus queridos amigos bilionários do Wall Street completamente nas costas da classe trabalhadora e das camadas mais pobres da população” O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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Mais de 10 mil funcionários publicos de Winsconsin ocupam a Assembléia Legislativa do Estado em protesto contra a lei que representa o fim dos direitos trabalhistas (World Socialist, 19/11/10). Em meados de 2010, Bloomberg anunciava aos quatro cantos a possível falência da cidade de Nova Iorque e a necessidade de um ajuste de U$1,6 bilhões de dólares. O mais interessante é que já no final do ano, “o contador do estado de Nova Iorque Thomas DiNapoli anunciava uma projeção em que Wall Street estava no ranque de conseguir pelo menos U$19 bilhões em lucro, sendo este o quarto melhor ano já visto por eles, e que o famoso bônus anual dado aos executivos e traders iria possivelmente alcançar um novo recorde” (ABC News, 18/11/10). Num claro ataque aos trabalhadores nova-iorquinos, em que promove o sucateamento e dos serviços públicos, o prefeito anuncia um corte drástico em setores da educação, cultura, limpeza, e transporte público, prejudicando creches, asilos, bibliotecas, instituições culturais, etc. A primeira punhalada aconteceu há poucos dias quando o multibilionário divulgou na mídia burguesa uma lista de demissões de mais de quatro mil professores até junho, caso o sindicato dos professores não aceitasse quebrar o contrato que garante segurança por tempo de trabalho aos professores que estão no sistema por mais de quatro anos. A Federação de Professores Unificados (UFT), numa covarde cooptação ao governo, se nega a seguir o exemplo dos professores de Wisconsin e chamar a categoria para uma paralisação. A orientação do sindicato é para que os professores entrem em contato com os deputados ou senadores novaiorquinos para pressionálos a ir contra Bloomberg. Tamanha peleguisse pró campanha eleitoral de 2012, não só deixa a categoria isolada e amedrontada, mas sobretudo deixa claro o que o sindicalismo se conduz a um beco sem saída rumo a sua própria liquidação. Um ataque de proporções monstruosas vem sendo lançado também contra a população imigrante dos Estados Unidos. A recessão da indústria norte-americana intensificada nas décadas de 70 e 80, deixou regiões inteiras da América do Norte completamente ociosas. Através da exploração de novos mercados no país, – como a construção civil e o entretenimento – apresentados à desiludida classe operária como mais uma possibilidade do sonho americano, a burguesia encontrou o “New Deal”. O sonho da casa própria, através de fantásticos financiamentos bancários patrocinados pela burguesia e seus comparsas políticos encantou o país. No pacote também se encontrava a transformação de cidades como

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Nova Iorque, Las Vegas, Los Angeles e Miami em verdadeiros parques de diversão para adultos. Comprando a idéia vendida pelos burgueses de que tudo era financiável, a classe trabalhadora vivia então a fantasia do poder de compra. Os supostos “tempos áureos” atraíram milhões de imigrantes do mundo inteiro. Como mão de obra barata, os imigrantes, em sua grande maioria de origem latina, passavam a liderar o trabalho da prestação de serviços manuais, domésticos e de sub-entretenimento. De repente, a classe trabalhadora despossuída de bens se via na condição de não só realizar o sonho da casa própria, mas também manter um padrão de vida pequeno-burguês. Porém, quando realidade e fantasia começam a se separar e as massas, completamente endividadas, percebem que os “bons tempos” de fato nunca existiram, a burguesia mais uma vez usa de suas artimanhas e joga a população contra a sua parte mais pobre, os imigrantes, que passam de explorados a vilões. MINUTEMAN – A NOVA KU KLUX KLAN O ataque aos imigrantes é realizado da forma mais brutal pelo fascista Minuteman, milícia da extrema direita fundada por Jim Gilchrist – um dos cães de guerra dos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã – que sequestra, tortura e mata latinos que tentam cruzar a fronteira ou que já estão vivendo no país sem documentos. “Comparado a grupos de exterminio como o Ku Klux Klan usado contra os negros do sul do pais na decada de 60” (The Tribune, 18/07/05), o Minuteman e suas vertentes agem a mando do governo federal e dos governadores dos estados do Arizona, California, Utah, Minnesota e Maine, fazendo o trabalho sujo do terrorismo paraestatal necessário à burguesia nesse momento de aperto dos cintos e contenção de gastos impostos aos trabalhadores. O Minuteman aterroriza a vida desses trabalhadores e de seus filhos, os quais diariamente temem voltar da escola e ser sequestrados, abusados sexualmente, torturados e mortos, ou até mesmo chegar em casa e não encontrar seus pais, que podem ter tido suas residências invadidas e sido deportados. Os que conseguem sobreviver à pressão, à xenofobia e ao drama de uma sobrevivência ameaçada, terminam os estudos e têm que se sujeitar aos sub-empregos que lhes estão disponíveis, uma vez que encontram-se excluídos da possibilidade de acesso à Universidade. Todo esse perverso ataque encontra respaldo na legislação norte americana, que considera crime inclusive dar água ou ajudar diretamente a um imigrante indocumentado e faz parte de uma campanha de renacionalização da “América”, a qual, por sua vez, está embasada no ódio aos imigrantes e no desespero dos radicais brancos, que jogam sobre as costas dos imigrantes a culpa pela falência do “American Way Of Life”. Diariamente centenas de corpos sao jogados no deserto. A propria Janice Brewer, governadora do Arizona, que neste mês de março está passando férias com sua amiga Palin no Alaska, para se safar dos crimes cometidos, declarou a imprensa que “as suas patrulhas haviam encontrado muitos corpos no deserto, uns queimados e outros apenas deitados com a cabeça decepada” (The Washington Post, 11/07/10). Em maio de 2009, em Pima County, no Arizona, Shawna


Forde juntamente com seus amigos do “Minuteman em Defesa da America, invadiu a casa de uma familia de imigrantes e matou a sangue frio a garota Brisenia Flores e seu pai“. Aparentemente Brisenia pediu compaixao pela sua vida antes de receber um tiro na cabeça” (Center for American Progress, 15/02/11). Não por acaso, Shawna Forde é o braço direito de “Jim Gilchrist e Chris Simcox, capatazes que oficialmente receberam apoio político em 2005, de setenta e um deputados do país, assim como outros políticos incluindo o governador da California, Arnold Schwarzenegger, que planejam a reforma imigratória Caucus, a qual explicitamente apóia o projeto Minuteman” (World Socialist, 20/05/2005). Assim como Brisenia e seu pai, muitos outros imigrantes tem sido assassinados sem nenhuma chance de defesa ou apelo, e todos se calam em reverência ao solo nacional. Todos os que se erguem na luta em defesa dos trabalhadores imigrantes com ou sem documentação, são demonizados e acusados de anti-nacionalistas, anti-mais empregos, anti-saúde gratuita para quem paga imposto, pró-terroristas! No inicio desse ano, mais uma vez, o mundo assistiu de perto o massacre de Tucson no Arizona, onde seis pessoas foram assassinadas e outras dezenove foram baleadas por tentarem pela “via democrática” reinvindicar junto a deputada local, Gabrielle Giffords, algum socorro aos imigrantes. Se analisarmos os desdobramentos políticos sob uma ótica classista, concluiremos que a perseguição aos imigrantes foi intensificada após os protestos no Primeiro de Maio de 2006, quando estes saíram às ruas das principais cidades dos Estados Unidos numa demonstração de força jamais vista no país. Os mais de cinco milhões de imigrantes, em diferentes cidades dos EUA, protestavam contra a draconiana lei de imigração CIRA proposta pelo governo Bush, que transformaria 11 milhões de imigrantes indocumentados em criminosos. Conhecido como o “grande boicote americano”, o protesto não reuniu apenas imigrantes, mas outras fileiras da classe trabalhadora que gritavam contra o desemprego, contra a invasão do Iraque e contra o sucateamento da educação. Porém, numa reação imediata e esmagadora, o rolo compressor burguês deu início a uma bilionária campanha fascista, fazendo a luta de classes retroceder para uma esfera racial e cultural. O que hoje observamos é um crescente processo de ataques às conquistas duramente obtidas pelo proletariado norte americano, que a cada dia que passa vê o resultado de antigas vitórias serem subtraídos pela burguesia do principal Estado imperialista do planeta. Diante dessa política francamente reacionária, que é aplicada com a co-gestão das mega-mafiosas direções sindicais burocráticas (AFL-CIO), e que cada vez mais incorpora elementos de caráter fascista – xenofobia, racismo, machismo, homofobia – chamamos os trabalhadores dos EUA a se organizarem para combater essas políticas anti-operarias e antisindicais, construindo organismos de luta nos locais de trabalho que impulsionem e deem continuidade às mobilizações que se iniciam e tendem a se fortalecer na luta contra a reação burguesa. Contrária às previsões do impressionismo pequeno-burguês de que o recrudescimento do fascismo ianque não se daria na própria gestão Obama, alimentando ilusões

No cartaz: Em Winsconsin nós gostamos de cerveja não de Tea parties de garantias democráticas no atual governo imperialista, o que se vê na realidade é a execução brutal da ofensiva contra os trabalhadores de todo o mundo sob a batuta de Obama. O atual mandatário da Casa Branca nada mais faz do que reeditar a política de seu antecessor Theodore Roosevelt: “Fale macio, carregue um porrete e irá longe”. Como aprendemos com Trotsky, “Na ausência de um poderoso partido revolucionário do proletariado, uma combinação de semi-reformas, de frases esquerdistas [que nos dias de hoje nem precisam ser tão esquerdistas, bastam ser frases ‘democráticas’ e dúbias, como as que Obama utilizou em defesa dos sindicatos] de gestos ainda mais à esquerda e repressões, podem ser muito mais úteis à burguesia do que o fascismo” (Está na Alemanha A Chave da Situação Internacional, 26/11/1931). É preciso sair da defensiva para a ofensiva. A derrota dos planos escravocratas do capital imperialista e principalmente de sua ala mais reacionária, a do capital financeiro nazi-sionista – onde são gestadas em sua maioria as concepções e políticas ultrarreacionárias como o racismo e a xenofobia – depende de que nossos irmãos trabalhadores da América do Norte se emancipem de sua burguesia imperialista pela construção de um verdadeiro Partido da Quarta Internacional. Ana de Souza,professora da rede pública do Estado de Nova Iorque e membro da LC O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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Por uma oposição de verdade para a APCEF!

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método de análise que utilizaremos nas próximas linhas em relação às eleições para a diretoria da Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal - APCEF/SP deve ser estendido também para os processos eleitorais da FENAE (Federação Nacional das Associações de Pessoal da Caixa Econômica Federal) e do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, a serem realizados nos próximos meses. Nós da Liga Comunista, consideramos que a APCEF/ SP não representa os interesses nem políticos nem econômicos dos trabalhadores bancários da Caixa. A sua atual diretoria não passa de uma extensão da Articulação/CUT/PT que há décadas está encastelada em nosso Sindicato e em nossa Associação. Essas instituições representam os interesses do capital financeiro e de seus governos, sejam tucanos ou petistas. “Nunca antes na história desse país” os banqueiros tiveram a seu serviço melhores testas-de-ferro do que os governos do PT apoiados na CUT e demais centrais sindicais. Hoje, os sindicatos funcionam como verdadeiras empresas capitalistas contra seus associados trabalhadores. O sindicato dos bancários, a APCEF e a FENAE converteram-se em empresas com estruturas capitalistas que se associam aos banqueiros e especuladores, participando do mercado financeiro través dos fundos de pensão. E não só isto, através de parcerias como a FENAE/PAR CORRETORA, CAIXA e grupo CAIXA SEGUROS, os dirigentes sindicais se associam ao capital financeiro para aumentar as metas de lucratividade e venda de produtos, ao assédio moral sobre os próprios bancários. Por fim, as entidades sindicais que deveriam nos representar e nos defender contra o assédio moral e a exploração, passam a nos superexplorar também. Não é a toa que estes vendidos entregam nossas campanhas salariais e apenas fingem lutar contra o assedio moral. Há muito estes pelegos são sócios de nossos patrões, recebendo gordas comissões de sua parceria empresarial pela superexploração que massacra os bancários. Nas ultimas greves, nossas fortes mobilizações não têm conseguido arrancar as mínimas reivindicações de nossa categoria, pois nos momentos decisivos as nossas lutas são vergonhosamente traídas pelos dirigentes dos organismos que deveriam representar os interesses dos bancários: as diretorias do Sindicato, da APCEF e da FENAE. A DERROTA DAS NOSSAS GREVES INTERESSA AO GOVERNO DILMA E AOS BANQUEIROS Foi o presidente da APCEF/SP quem defendeu na última assembleia da campanha salarial de 2010 o rebaixado acordo proposto pela diretoria da CEF e pelos banqueiros, iludindo a categoria, defendendo que os

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míseros 7% oferecidos eram uma “conquista histórica”, enquanto nossas “perdas históricas” nos últimas quatro governos (dois de FHC e dois de Lula) já ultrapassam 90%! Tão criminosa quanto à defesa do ínfimo reajuste é a da PLR, que leva o bancário a aceitar que o “grão de areia numa praia” que recebe diante dos lucros bilionários dos banqueiros privados e estatais são uma vitória, deixando-se explorar mais e mais. Qual a atitude da APCEF e do Sindicato em relação aos problemas que vivemos? Hoje estão presentes na maioria das agências do país as jornadas extensivas e exaustivas, coação para marcação do ponto de saída e permanência nas unidades trabalhando, marcação de uma hora de almoço e volta antes desse período, coação para se gozar apenas 20 dias de férias, falta de número suficiente de empregados, cumprimento de metas abusivas, más condições gerais de trabalho, que tem como consequência, além das constantes diferenças de caixa, doenças como a LER, a depressão, o estresse, o alcoolismo, etc. Esse “moinho satânico”, que diariamente esmaga o bancário da CEF, tem seus fins alcançados por uma prática ostensiva de assédio moral. Com a ameaça constante de perdas de função (comissão) e transferências, tudo isso dirigido pelos governos do PT, que prometiam melhores condições de trabalho e melhores salários, apenas para se diferenciar, demagogicamente, do discurso anti-operário e pró-imperialista de FHC. Essa situação de extrema violência contra os trabalhadores é apenas observada cada vez mais à distância, pelos cúmplices Sindicato dos Bancários e APCEF. Quanto aos terceirizados, setor mais explorado da empresa que é cotidianamente humilhado por chefetes e gerentes, nossas instituições sindicais os ignoram por completo, tratando-os como se fossem fantasmas. Temos observado que a disposição de luta existe, tanto é que há vários casos de revoltas espontâneas nas agências contra essa situação ultrajante, mas os companheiros acabam não encontrando nenhum respaldo nos organismos sindicais. Nossa associação, para posar que “faz alguma coisa”, resume-se a algumas vezes comparecer com faixas e tirar fotos nas agências onde os empregados reclamam, para estampar em seu site e boletins, fazendo um marketing de si mesma. É por isso que consideramos que essa atual gestão da APCEF/SP, que se mostra frontalmente contrária aos anseios do conjunto dos empregados da Caixa, deve ser destronada do cargo que ocupa há anos, constituindo-se num entrave para a organização e o avanço de nossas lutas. POR QUE NÃO APOIAR A CHAPA ENCABEÇADA PELO MNOB (CONLUTAS/PSTU), PELA ALTERNATIVA SINDICAL BANCÁRIOS NA LUTA (INTERSINDI-


CAL/PSOL E ATUAL DIRETORIA DO SINDICATO), PARA AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES DA APCEF/SP? Em primeiro lugar porque acreditamos que é necessário, para combater efetivamente as direções que acima denunciamos por seu papel traidor, construir uma chapa com uma COMPOSIÇÃO e um PROGRAMA político consequentes com as tarefas necessárias nossa categoria no combate à política do governo federal e dos banqueiros. Para nós a questão da composição da chapa neste caso precede a questão do programa, uma vez que “no papel cabe tudo” e elaborando um programa “mais a esquerda do que o da Articulação” (o que convenhamos, não é uma tarefa difícil) possamos estar camuflando em uma frente sindical pelegos e cumplices de pelegos e enganando a categoria. Deste modo, uma chapa “de oposição” com lobos em pele de cordeiro só servirá para impedir uma verdadeira reconquista da APCEF pela categoria. ATÉ COM OS PELEGOS DO PPS? Na 2ª reunião para a formação da chapa de oposição, ocorrida em 19/01, os principais organizadores (MNOB e Intersindical), que já haviam se recusado na 1ª reunião (12/01) a discutir a composição da chapa e resistiam a aprofundar a questão do programa – afirmado que o principal era, o mais rápido e possível, arrecadar finanças e conseguir apoiadores – após serem questionados, confessaram que pretendiam trazer para a chapa o arquipelego Sindicato dos bancários de Campinas, dirigido por muitos anos pelo famigerado Davi Zaia, líder do clã Zaia, que também controla a também arquipelega Federação de Bancários de São Paulo e MS, que sempre traiu explícita e vergonhosamente os bancários, sendo os primeiros a trair as greves e assinar os acordos mais espúrios. Se o PPS do pelego Zaia não compõem a chapa encabeçada pela Conlutas e Intersindical não é por nenhuma postura principista destas duas centrais, mas única e exclusivamente porque o PPS viu mai$ vantagem em apoiar a Articulação e cia. COM A DIRETORIA PSOLISTA DO SINDICATO TRAIDOR DOS BANCÁRIOS NÃO SE CONSTRÓI UMA OPOSIÇÃO DE VERDADE A discussão da composição da chapa de oposição, que consideramos fundamental, não para por aqui. Estamos nos referindo ao PSOL e sua colateral sindical, a Intersindical. Essa corrente faz parte da diretoria do pelego Sindicato dos Bancários de São Paulo. Tenta se apresentar como uma espécie de oposição, mas essa tentativa não passa de fachada, pois a Intersindical no Sindicato dos bancários nada mais é do que a pata esquerda da Articulação. Na reunião de 12/01 um membro do MNOB/Conlutas/ PSTU afirmou que no acordo para formar a chapa de oposição foi fechado que nas discussões “Não se fala em Sindicato dos Bancários” (???!!!). O conteúdo dessas decisões são óbvios. O PSTU/Conlutas não pode em hipótese nenhuma melindrar o PSOL/ Intersindical, pois estes últimos são os parceiros pre-

ferenciais do PSTU tanto no campo político como no sindical. É nos subterrâneos do Sindicato dos Bancários de São Paulo, do qual a Intersidical é diretoria, que são engendrados os desmontes das greves bancárias em todo o país, tanto nos bancos privados como nos públicos. Se queremos de fato uma chapa de oposição de verdade, não podemos trocar seis por meia dúzia, ou na menos ruim das hipóteses, o gelado pelo frio. Temos que construir um movimento que nos leve, a partir das discussões com os trabalhadores de base da CEF e a partir de seus anseios, a uma direção alternativa para nossos organismos de luta, que conduza os trabalhadores à vitória. Quanto ao PSTU (MNOB/Conlutas), dirigente majoritário da pretensa oposição à APCEF, é uma organização que tem se caracterizado essencialmente pelo oportunismo político. Em seu voraz apetite por aparatos sindicais não se poupa de utilizar todo tipo de prática para atingir seus objetivos. Na reunião de 12/01 o membro do PSTU que abriu os trabalhos fez uma exposição inicial “demonizando” as políticas da Articulação (APCEF/SP), mas se “esqueceu” de falar que na categoria dos Correios (ECT) em São Paulo, esteve de braços dados com a mesma Articulação governista para tentar tomar o importante aparato sindical que está e vai continuar nas mãos do PCdoB também governista. Resultado da manobra oportunista: além de perder as eleições sindicais, o PSTU foi menos votado que na eleição anterior. O COLETIVO BANCÁRIOS DE BASE Por fim, gostaríamos de estabelecer um debate com as posições programáticas dos companheiros do Coletivo Bancários de Base. Este agrupamento, constituído por trabalhadores honestos e combativos, tem sido, nas últimas campanhas salariais, uma força que faz um enfrentamento de oposição contra a política traidora das direções da APCEF, e do Sindicato dos Bancários. Na nossa visão os companheiros se equivocam ao relegarem a um segundo plano a questão da composição de uma chapa de oposição à atual diretoria da APCEF. Para nós é inaceitável a participação numa verdadeira frente opositora, de setores que fazem parte da direção traidora do Sindicato dos Bancários (Intersindical/PSOL). Consideramos que foi um erro, aceitar, no início do processo de discussões, um acordo em que “não será tocado na questão do Sindicato” durante as plenárias para construção da chapa de oposição. Quanto a alguns pontos do programa exposto pelos companheiros, concordamos, por exemplo, que as últimas gestões merecem uma devassa, mas não uma “auditoria externa e independente” privada ou sabe-se lá de onde, e sim a abertura de suas contas e fiscalização completa das mesmas sob controle dos bancários, a partir de um conselho fiscal de delegados eleitos em assembleia dos trabalhadores da CEF. Por tudo isto, chamamos os companheiros a romper com este engodo de chapa de oposição e a discutir a construção de uma oposição de verdade e classista para a APCEF. Ismael Costa, Bancário da CEF e membro da LC O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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A Caixa é estatal, é pública, mas não é nossa e sim da burguesia

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mbora sejam empresas estatais, a CEF e o Ban-

co do Brasil atuam como bancos auxiliares do capital financeiro. A Caixa, por exemplo, com seus serviços que demagogicamente são apresentados como favoráveis aos trabalhadores – Bolsa Família, seguro-desemprego, PIS, FGTS, etc – coloca-se numa vitrine posando de cumpridora de um papel social. O que ocorre na verdade é que os verdadeiros favorecidos são os capitalistas. O projeto “Minha Casa, Minha Vida”, por exemplo, é um facilitador de recursos públicos para as grandes empreiteiras e grande corporações imobiliárias. Outro caso: mesmo cobrando juros menores que outros bancos, os empréstimos ou financiamentos proporcionados pela CEF, são à custa do brutal endividamento da população trabalhadora. Vide o imenso trabalho que tem tido os setores de cobrança das agências da Caixa Econômica. Não é à toa que no dia em que completou 150 anos de existência, a diretoria da empresa apresentou um vídeo aos seus empregados, vangloriando-se de que a Caixa, desde os tempos do Império, cumpria um papel social e como o exemplo diz que a instituição emprestava dinheiro aos escravos para comprar sua alforria. Esta politica antiga da Caixa buscava extrair lucros, tirando proveito da falsa libertação dos escravos negros, transformando-os em assalariados “livres” explorados e já endividados com a Caixa, e enchendo os bolsos dos escravocratas com esse dinheiro sujo de sangue e exploração racista. A falsa política das chamadas ações sociais das empresas estatais está cada vez mais clara hoje, quando a Caixa favorece ao capital comprando o Banco Panamericano do bilionário Silvio Santos, quando o BB “empresta” a latifundiários dinheiro a juros próximos do zero e o BNDES, com recursos públicos, transfere bilhões de reais para a burguesia nacional e internacional. “PÚBLICO X PRIVADO” OU CONTROLADO PELA BURGUESIA X CONTROLADO PELOS TRABALHADORES? O que é chamado pelo senso comum de “público”, banco público, administração publica, educação e saúde públicos, transporte público, bem público, normalmente quer indicar algo que é estatal. Todavia sendo o Estado um administrador dos negócios da burguesia, o que é público em um estado burguês serve, em primeira instância, à classe dominante, à classe dos proprietários dos bancos, fábricas, supermercados e grandes empresas capitalistas. Em que pese a crescente terceirização e associação com outras empresas como seguradoras e etc., a Caixa Econômica e os Correios são as duas das estatais menos privatizada do país. O Banco do Brasil

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é uma sociedade de economia mista, onde a Estado possui somente 68,7% de participação em suas ações. A suculenta Petrobrás é uma empresa de capital aberto (sociedade anônima), cujo acionista majoritário é o Governo do Brasil (União). É, portanto, uma empresa estatal mas de economia mista. CEF, BB, BNDES, Banco da Amazônia e o Banco do Nordeste, são os cinco bancos estatais do governo brasileiro. Defendemos a fusão de todos os bancos, estatais e privados, incluindo o Banco Central em um Banco único estatal controlado pelos trabalhadores e que forneça crédito subsidiado com juros negativos para o conjunto da população trabalhadora. Hoje, todas estas instituições, independente do grau de privatização que se encontrem, são empresas auxiliares do conjunto das empresas da burguesia. Isto não quer dizer que deixemos barato e deixemos de lutar contra a privatização e a terceirização. Nos opomos a entregar as empresas do estado burguês à privatização porque uma vez privatizadas estas empresas serão ainda piores, enxugarão sua folha de pagamento para explorar mais trabalhadores, pagando menos e prestarão serviços ainda piores para melhor atender a ganância de seus proprietários. Nos opomos firmemente a privatização da CEF e alertamos que ela já vem se processando através da priorização dos serviços de mercado (privilegiando a abertura de contas e os empréstimos para pessoas jurídicas de atendimento diferenciado, grandes empresas capitalistas e multinacionais) sobre os serviços sociais e as contas dos pequeno correntistas trabalhadores e a chamada classe média. A direção da CEF e seus gerentes são servis aos grandes correntistas e desprezam os pequenos poupadores, submetidos a filas e longas esperas para o atendimento (causados também pela negativa em contratação de novos bancários). Os gerentes A privatização também se constata pela terceirização de vários serviços e funções. Contra isto, defendemos a incorporação dos terceirizados com todos os direitos dos trabalhadores efetivos de forma incondicional, imediata e sem concurso. Os terceirizados hoje trabalham igual ou mais que os efetivos, recebendo muito menos. A nossa organização por local de trabalho, no caso, por banco, agência, centro administrativo, etc. através de comissões de delegados trabalhadores eleitos pelo conjunto de seus companheiros de trabalho é um primeiro passo na luta pela tomada do Estado da mão da burguesia e pelo controle operário do Estado. Somente quando o Estado for controlado pelos trabalhadores é que finalmente ele servirá à maioria da população e não a um punhado de empresários. Ismael Costa, Bancário da CEF e membro da LC


BALANÇO DO 31º CONGRESSO DA CNTE

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Congresso governista desarma trabalhadores diante dos próximos ataques à educação

ntre os dias 13 e 16 de janeiro ocorreu em Brasília o 31º Congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). O evento ocorreu sob o controle burocrático das correntes governistas. Um breve olhar sobre o Congresso constatou que o plano de educação até então adotado por Lula e defendido pela direção do CNTE manteve não só o tacão burguês sobre a educação pública, como também aprofundou uma série de aspectos já nitidamente privatistas. Vale citar: manutenção da LDB, expansão da rede privada de ensino superior, manutenção do investimento na educação em torno de 5% do PIB. Lula ampliou os ataques ao ensino público e gratuito com um novo conjunto de políticas, dentre elas, o PDE, REUNI, PROUNI, ENADE, FIES e Piso Nacional do Magistério. O eixo de atuação para tal política no Congresso teve basicamente uma defesa do já rebaixado piso nacional do magistério e do próprio PNE, referendados na vitrine governista que foi a Conferência Nacional da Educação (CONAE), hegemonizada por ONGs e fundações de ensino privadas, com suas pautas enganosas para a categoria. O tão propalado novo PNE tende a transformar-se no velho obstáculo contra qualquer nova conquista da categoria que é a LDB. Enquanto isto, as direções governistas tentam cooptar e tapear os professores com delírios ilusórios de “resoluções por meio de diálogos” quando na verdade estão piorando a educação e as condições de ensino de nossa categoria. Um exemplo disto é a fantasiosa reivindicação de 10% do PIB para a educação aprovada pela CONAE que não passa de letra morta uma vez que o governo Dilma, apoiado pela direção da CNTE, a fim de realizar o seu famigerado ajuste fiscal, vai operar a redução dos já minguados 5% do PIB destinados a educação para algo miseravelmente menor. A OPOSIÇÃO UNIFICADA SE LIMITA A REIVINDICAR “DEMOCRACIA” NO CONGRESSO Sob a hegemonia da Articulação Sindical, a aprovação do PNE e das bandeiras governistas passou por disputas nítidas, ainda que estas tenham sido expressas deformadamente tanto pela burocratização do congresso, como pelo caráter frágil e fragmentário da oposição à Articulação. De modo preliminar, vale destacar que o regimento do congresso burocratizou os critérios de proporcionalidade estabelecidos no congresso anterior, elevando de 10% para 20% o percentual mínimo de votos para ingressar na direção. Este fato desencadeou uma nota de repúdio à restrição imposta pela Articulação intitulada “Maioria da CNTE golpeia democracia”. A resolução aprovada em plenário, que limita a possibilidade das chapas de oposição elegerem representantes para esta gestão da confederação, além de ser um grande retrocesso, fere inclusive os critérios de democracia da CUT em seu princípio.

Assinaram o documento “Maioria da CNTE golpeia democracia” a CSP-Conlutas (PSTU), Intersindical (PSOL), CEDS-CPERS, Unidos para Lutar (CST/PSOL-FOS)/ TLS, Unidade Classista (PCB), ASS, Corrente Proletária na Educação(POR), Sindicato é pra Lutar e ativistas independentes. Esta frente ampla formou uma chapa de oposição à Articulação Sindical. A plataforma desse frentão, apesar das críticas ao PNE e do Piso do Magistério, limitou-se a defender a independência e autonomia sindical, a democracia e a “pluralidade”. O PNE não foi rejeitado na totalidade por conta de setores que vislumbravam disputá-lo por dentro ou possuíam discordância apenas parcial com o mesmo. O piso do magistério, apesar de amplamente criticado, não ganhou uma formulação comum da chapa por não se saber se o reivindicado pelo conjunto seria o piso do DIEESE ou R$ 3.500. Desta maneira o mote do frentão limitou-se a isto: uma fraseologia democratizante sem conteúdo de oposição classista ao governismo. Não possuiu uma plataforma de reivindicações transitórias para que na próxima etapa se aglutinasse um pólo de oposição a CNTE defensora da estratégia burguesa para a educação. Resultado, o frentão não passou de uma chapinha constituída numa unidade pontual e fortuita do congresso sem grandes vislumbres posteriores e que obteve 17% dos votos. PREPARAR A RESISTÊNCIA DOS TRABALHADORES CONTRA O AJUSTE FISCAL DE DILMA O resultado final do congresso não poderia ser nenhuma surpresa. Logicamente a Articulação Sindical saiu vitoriosa com mais de 80% dos votos dos congressistas. O que se torna nítido para os observadores atentos é que desde a Conlutas e a sua malfadada tentativa de fusão com a Intersindical, assim como a fracassada frente de esquerda é a fragmentação quase completa do pólo antigovernista desde o primeiro ano de mandato do governo Lula em 2003. Esta fragmentação também se reflete nos grupos menores de uma forma ou de outra, que caminham a reboque do PSOL e do PSTU, buscando aconselhá-los ou tentando “pressioná-los à esquerda”. Em outras palavras, se depender do PSOL, do PSTU e dos seus satélites o governismo continuará muito bem obrigado, levando vantagem na CNTE e nos Sindicatos. A próxima etapa será marcada pelo “ajuste fiscal”, o que significa mais arrocho salarial e contenção dos gastos públicos que já são hoje miseráveis para a educação, não chegando a 5% do PIB. Somente a construção de um partido revolucionário da classe trabalhadora pode impulsionar um bloco anti-governista e anticapitalista capaz de canalizar forças para enfrentar as condições difíceis do duro calvário imposto aos trabalhadores em educação. Louise Silva, professora da base da APEOESP – São Paulo e delegada ao 31º Cong. da CNTE Carlos Rios, professor da base do SIMPRO - Distrito Federal O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL

Liberdade imediata e incondicional para Cesare Battisti e para todos os presos políticos do Estado burguês! “Os comunistas não ocultam suas opiniões e objetivos. Declaram abertamente que seus fins só serão alcançados com a derrubada violenta da ordem social existente. Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista. Os proletários não têm nada a perder nela a não ser seus grilhões. Tem um mundo a conquistar.” Manifesto do Partido Comunista escrito por Marx e Engels à Liga dos Comunistas, 1848

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esare Battisti é hoje o principal preso político do Estado brasileiro. Não é o único. Nas masmorras das Policias Federais e das PMs estaduais continuam sendo presos e torturados durante os governos do PT militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, da Liga dos Camponeses Pobres, dos vários movimentos sem tetos, índios, quilombolas, camelôs e o dirigente do grupo chileno Frente Patriótico Manuel Rodríguez, Maurício Norambuena, dentre tantos ativistas presos tornados reféns do Estado burguês por lutar de alguma forma contra o capitalismo. Neste momento, todo o imperialismo europeu faz um esforço concentrado para arrastar Battisti do Brasil à Itália do mafioso de extrema-direita Berlusconi, odiado pela grande maioria do povo italiano, para que lá seja condenado a DUAS prisões perpétuas com privação da luz solar. Desde 2007, quando o ex-guerrilheiro do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) foi preso pela polícia brasileira e pela Interpol, os distintos governos do PT, de Lula a Dilma, vêm fazendo um malabarismo para atender às pressões do imperialismo e ao mesmo tempo não parecerem cúmplices do crime da condenação injusta de Battisti pelas cortes fascistas imperialistas a partir da extradição, como fez o ditador Getúlio Vargas ao entregar Olga Benário ao nazismo. Por isso o governo brasileiro opõe-se a libertar Battisti e joga a “batata quente” da decisão final para a quadrilha arqui-reacionária encastelada no STF que executará o “trabalho sujo” de extraditar Battisti. Como explica Carlos Alberto Lungarzo, membro da Anistia Internacional, “este julgamento está colocando o Brasil no risco de cometer, deliberadamente, um crime de Lesa Humanidade, que seria o primeiro desde o caso de Olga Benário, há 73 anos.” (Os cenários invisíveis do Caso Battisti). A burguesia é clara e diz porque Battisti deve ser condenado. Porque deve pagar exemplarmente com sua vida pela luta que travou. Obviamente isto nada tem a ver com os assassinatos a ele imputados sob a base de confissões arrancadas sob tortura, provas falsas, procurações falsas, advogados de defesa falsos, declarações falsas, todo um monstruoso processo falso. E para quê? Com a palavra a própria justiça da “Cosa Nostra”: A sentença proferida em seu julgamento, e também pelo Primeiro Tribunal do Júri de Apelação de Milão em 1988, qualificam todos os tipos penais em que teria incorrido Battisti como integrantes de "um só projeto criminoso, instigado publicamente para a prática dos crimes de associação subversiva constituída em quadrilha armada, de insurreição

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armada contra os poderes do Estado, de guerra civil e de qualquer maneira, por terem [Battisti e seus camaradas do PAC] feito propaganda no território nacional para a subversão violenta do sistema econômico e social do próprio País”. Primeiro Tribunal do Júri de Apelação de Milão. Sentença 17/90 – nº 86/89 e 50/85 do Registro Geral, de 13/12/1988. Item 49 (antes 50). Em resumo: para o imperialismo Battisti precisa ser condenado por ter lutado pela revolução em seu país há mais de 30 anos! Apesar da política do PAC não conduzir à revolução social e ao comunismo porque a estratégia do foco guerrilheiro urbano adotada pelo PAC aparta-se da estratégia revolucionária dos comunistas de organizar a luta de massas do proletariado pela conquista do poder político, defendemos Battisti contra aqueles que o mantêm encarcerado no Brasil ou dos que querem prendê-lo na Itália. Independentemente de disconcordarmos das ideias de Battisti hoje, nós da Liga Comunista, que lutamos pela revolução social no Brasil e no mundo através da “subversão violenta do sistema econômico e social” injusto, verdadeiramente assassino, que condena à escravidão assalariada milhões de pessoas e à morte pela fome de centenas de milhares de crianças, reivindicamos a liberdade imediata e incondicional para Cesare Battisti e para todos os presos políticos do Estado capitalista!


DECLARAÇÃO POLÍTICA DA LIGA COMUNISTA CONTRA A REPRESSÃO POLICIAL SOBRE MANIFESTAÇÃO CONTRA O AUMENTO DA PASSAGEM

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“Despreparo Policial” ou Terrorismo de Estado? (UM DEBATE VITAL PARA A CONTINUIDADE DE NOSSO MOVIMENTO)

a última quinta-feira, dia 17/02, como parte de um processo de lutas e protestos contra o aumento da passagem de ônibus, ocorridos desde o início de janeiro desse ano, houve uma manifestação em frente à Prefeitura Municipal de São Paulo. No mesmo dia, houve uma tentativa de negociação com o Poder Municipal através do Secretário de Transportes, porém este não compareceu e recusou-se a abrir qualquer possibilidade de revisão do aumento da passagem, dizendo não estar nem em questão tal negociação. Diante desse quadro, a partir do meio dia, seis militantes se acorrentaram nas catracas do saguão central da Prefeitura, ficando o movimento em vigília do lado de fora do prédio, distribuindo panfletos para a população. A prefeitura acionou a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana (GCM), que chegaram ao local com dezenas de policiais sem etiqueta de identificação em suas fardas. Por volta das 18h, iniciou-se uma dura repressão policial sobre os manifestantes quando as grades colocadas em frente da prefeitura foram derrubadas. As tropas deliberadamente agrediram as pessoas com spray de pimenta e cassetetes, além de armas de balas de borracha e bombas de efeito moral. Confirma nossa impressão o relato postado no CMI "a repressão já havia sido proposta antes de qualquer ação das pessoas e foi ordenada por policiais infiltrados" (Sob bombas, balas de borracha e gás lacrimogêneo nós estamos resistindo! Por São Paulo - Contra o aumento! 20/02/2011 às 00:56) http://www.midiaindependente.org/ pt/blue/2011/02/486842.shtml. Várias pessoas foram atingidas pelos artefatos do aparato repressivo. Uma parte correu pelo Viaduto do Chá e outra ficou ajudando aos que estavam sendo atacados. Quem sofreu maiores agressões foi o assistente social e militante do PCB, Vinicius Boim, que foi intensa e covardemente espancado por oito policiais. Vinicius foi levado para o Hospital do Servidor Público sangrando e algemado. Os policiais e a guarda montaram em cima do companheiro e bateram tanto nele que lhe fraturaram o braço e as costelas e quebraram seu nariz. No dia 19/02 ele teve que realizar uma cirurgia e permanece internado. Os mandantes imediatos de tamanha truculência são o prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin, representantes maiores dos interesses dos empresários do transporte - mafiosos assassinos de sindicalistas - e de todos os capitalistas paulistas, os maiores burgueses do país. Para estes senhores a repressão é necessária a fim de que mais setores da população, vítimas do aumento da passagem, não sigam o ativismo estudantil que até agora tem protagonizado de forma crescente as manifestações. Para isto é preciso dar um basta nos protestos, amedrontar outros jovens para que não participem dos mesmos, temendo sofrerem o tratamento exemplar dado pelo Estado ao manifestante Vinícius. Esta repressão foi a mais brutal desde o dia 13 de janeiro, quando a PM atacou a manifestação contra o aumento quando esta se encontrava na altura da Praça da República com Av. São Luís, batendo e prendendo vários ativistas.

Cro. Vinícius sendo espancado pela GCM e pela PM A partir daí, ao contrário do movimento se dispersar, como queriam Alckmin e Kassab, cresceu, com manifestações semanais nas principais ruas da capital, tornando-se um exemplo para outras grandes cidades do país em que os prefeitos também concederam aumentos de passagem ao empresariado nos últimos dias. Quando as manifestações se tornaram um assédio regular à sede da prefeitura, prefeito do DEM e governador tucano resolveram testar novamente o terrorismo de Estado para fazer os protestos refluírem. A conduta geral do aparato repressivo, primeiro realizada pela GCM com sprays de pimenta e imediatamente secundada pela tropa de choque da PM, bem mais orientada para o enfrentamento físico que nos protestos das semanas anteriores, contando, além da tropa motorizada, com escudos, cassetetes, espingardas, balas de borracha, bombas de gás, etc e fechando o Viaduto do Chá, demonstra evidentemente que a orientação da ação policial do dia 17/02 não era defensiva em relação a manifestação, e que a truculência explícita contra todo e qualquer participante da manifestação, inclusive parlamentares, tinha como fundamento aterrorizar. Este é o principal objetivo de qualquer repressão desferida pelo Estado capitalista em todo o mundo, como fazem os governos burgueses da Tunísia ou Egito contra seus levantes populares. Todavia, depois do ataque inicial das tropas da GCM e PM, a multidão, agora com o apoio de vários trabalhadores do centro paulista, voltou a protestar na frente da prefeitura gritando: Se a tarifa não baixar a cidade vai parar! Depois de 11h de vigília, os militantes acorrentados saíram do prédio da prefeitura. Vale destacar que todos os jovens precisaram ser identificados e fichados, apresentndo RGs e dizendo local de moradia, para poderem passar pelo cordão policial, enquanto os policiais que perpetraram a criminosa operação foram orientados a retirar previa e premeditadamente sua identificação das fardas. EM GUARULHOS, QUEM MANDOU A GUARDA BATER FOI O PT Uma truculência similar ocorreu em Guarulhos dois dias depois, no protesto contra o aumento da passagem de ônibus naquela cidade. A Guarda Municipal, a mando da prefeitura do PT guarulhense, atacou barbaramente, prendendo dois manifestantes e ferindo gravemente outros dez. Três deles foram parar no hospital devido aos golpes O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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de cassetetes que receberam na nuca. Se em São Paulo, o PT posa de oposição a Kassab, dizendo apoiar o nosso movimento e buscando obter dividendos eleitorais e parlamentares com essa demagogia, em Guarulhos é o próprio prefeito do PT quem manda bater na população com uma selvageria de fazer inveja a Kassab e Alckmin. QUEM ESTÁ “DESPREPARADO”, ELES OU NÓS? Diante dos acontecimentos, assim como nós da LC, várias organizações soltaram notas de repúdio à agressão policial. No entanto, sempre caracterizando a agressão de uma forma completamente inconsequente acerca 1) dos fatos, 2) do comportamento do aparato repressivo municipal (democrata ou petista), apoiado na PM estadual tucana e, sobretudo, 3) do caráter do Estado que defende os interesses dos empresários. Não precisa ser Sun Tsu para saber que é vital que os ativistas dos movimentos sociais conheçam muito bem estes três elementos. Do contrário, correm o risco de não saberem contra quem estão se enfrentando e muito menos como levar nossas lutas à vitória, virando, por final, carne moída sob os cassetetes policiais. Por exemplo, o PCdoB, partido que controla a UNE, no dia seguinte à ação truculenta da polícia, fez uma matéria para o Portal Vermelho, na qual justifica a ação policial, alegando ter sido uma mera resposta às investidas violentas dos estudantes: “A tropa de choque foi acionada e houve confronto: os estudantes lançaram rojões e sacos de lixo em direção aos policiais, que usaram spray de pimenta e balas de borracha. A PM não informou quantas pessoas ficaram feridas, apenas que um policial teve ferimentos leves.” E, pior, simplesmente omite a agressão sofrida pelo companheiro Vinícius, como um fato sem importância, e termina sua nota vendendo como vitória o resultado da manifestação: “as duas grandes vitórias da ação desta quinta-feira (17) foram: garantir que nenhum estudante tenha saído preso e manter vivas as mobilizações pela redução do valor da passagem.” O MPL (Movimento Passe Livre), por sua vez, embora à esquerda do PCdoB, avalia que o único inconveniente foi o suposto despreparo e o excesso da polícia para lidar com manifestações: “O Movimento Passe Livre São Paulo considera desproporcional, violenta e despreparada à ação policial ocorrida na manifestação do dia 17/2 em frente à Prefeitura. O Comando da Operação se excedeu no uso da força”. O PCB, partido no qual milita o companheiro agredido, atribui também a brutalidade da agressão ao despreparo e desequilíbrio emocional da polícia, e cobra do governo fascista que aja no sentido de punir esse “excesso”, além de reivindicar uma polícia sóbria e profissional: “A ação selvagem e extremada da tropa de choque da PM mais uma vez demonstra o despreparo e o desequilíbrio emocional presente nos policiais militares e em seus comandantes. Sabemos que esse é o comportamento corriqueiro e tresloucado dessa corporação, cotidianamente envolvida em denúncias de violações dos mais elementares direitos do cidadão. O PCB exige do Sr. Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alkcmin, a rigorosa apuração desses atos de selvageria bestial por parte de uma autoridade policial que deveria primar pela sobriedade e pelo profissionalismo.” O PSTU, da mesma forma, emite uma nota em que informa ter havido violência policial, porém não faz qualquer

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Luiza, fala pela LC no ato da PUC-SP contra a repressão policial sobre os protestos contra o aumento das passagens análise política sobre a repressão do Estado, dando à sua declaração um caráter meramente informativo e humanista. Continua, porém, relutando a organizar a luta pela estatização dos transportes coletivos sob o controle dos trabalhadores - apesar de hoje dirigir a poderosa máquina do sindicato dos metroviários - opondo-se a ir além de uma campanha formal e inofensiva em defesa da luta contra o aumento nos boletins sindicais. Não nos estranha que o partido que dirige a UNE, o PCdoB, encastelado no governo federal e que ingressou na própria administração de Kassab, alimente tais ilusões na instituição policial. Estão apenas cumprindo seu papel de enganar a juventude, mascarando a truculência de seu aliado Kassab e, de um modo geral, das instituições do regime “democrático” burguês do qual participam lucrativamente, recebendo gorjetas milionárias no Ministério dos Esportes de Lula/Dilma (Panamericano, , Copa do Mundo de Futebol, Olimpíadas), na Agência Nacional do Petróleo,... e agora com uma boquinha na prefeitura de Kassab. O Movimento pelo Passe Livre – MPL, um movimento heterogêneo e influenciado por uma confusão de concepções reformistas e anarquistas, acredita que, conforme nota publicada em 18/02, o problema é o despreparo da Polícia. Essa orientação política é extremamente perigosa, conduzido cegamente o MPL para o beco sem saída das ilusões acerca de nosso inimigo. Mas, o que chama mais a atenção, é que o Partido de esquerda mais antigo do país, o PCB, o qual em sua história participou de centenas de manifestações e que experimentou todos os regimes políticos burgueses no Brasil e sofreu truculência em vários deles, não tenha aprendido nada da luta de classes e só aprofunde seu reformismo. Com quase um século de existência, atribui a repressão estatal à mera falta de profissionalismo e “desequilíbrio emocional” dos policiais. O que sugere, então, o histórico partidão? Mais cursos de humanismo para policiais assassinos? Ora, sabemos que o Estado foi construído para exercer a violência sistemática em favor dos interesses da classe dominante e que o aparato repressivo é a espinha dorsal desta instituição, que tem como profissão fazer o que fez dia 17/02 e sua existência demonstra o quanto os proprietários se organizam para garantir nossa exploração de todas as formas. A política que despreza esta lição fundamental da luta de classes nada tem a ver com


o comunismo. Tal política desarticula o movimento e deseduca a juventude com disposição de lutar, pois em sua análise ignora o caráter do Estado, embeleza a função da polícia e idealiza a própria conjuntura dessa luta que está sendo travada. Justamente no dia em que o prefeito Gilberto Kassab, juntamente com seu aparato repressivo, batem o martelo negando qualquer alteração no valor da passagem, e ainda espancam até quase matar um de seus militantes, o PCB alimenta ilusões de reformas das mesmas instituições burguesas criminosas. NEM A “ARMA DA CRÍTICA” E MUITO MENOS A “CRÍTICA DAS ARMAS” Em sua Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel de 1844, Marx argumenta que “a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas”. Mas, no atual retrocesso ideológico em que vivemos, o movimento não apenas está despreparado para fazer a “crítica das armas”, ou seja, de realizar a própria autodefesa contra o aparato policial armado, como sequer consegue empunhar a “arma da crítica” para entender o caráter dos seus inimigos que lhe exploram e reprimem. Sem este entendimento elementar, por mais combativo que possa ser o movimento contra o aumento de passagem, apesar de todo o potencial de nossa luta em torno de uma causa que envolve a esmagadora maioria da população, a cegueira politica nos conduz à derrota. SE A TARIFA NÃO BAIXAR A CIDADE VAI PARAR!

Campanha de assinatura dO Bolchevique

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stamos aprimorando nosso militante “número 1” e nossa ferramenta principal. Nestes curtos mas intensos 4 meses de existência da Liga Comunista editamos 3 números dO Bolchevique, mesmo sob as dificuldades intensas de construção de uma corrente de trabalhadores marxistas revolucionários em uma conjuntura tão adversa para nossa classe. Com a vitória desta campanha de assinatura daremos um salto nos organizando para fazer um jornal bimensal. Este O Bolchevique que você tem na mão, de começo de ano, é, excepcionalmente, trimensal, e todavia maior, com 32 páginas. Neste período aprofundamos nossas tarefas de formação teórica, nossa inserção no trabalho proletário, discutimos com outras organizações que se reivindicam revolucionárias do Brasil e de outros países e criamos nosso blog, a versão virtual do órgão principal de divulgação de nosso programa e o organizador coletivo da Liga Comunista. Estamos apenas engatinhando na tarefa titânica que nos empenhamos desde o primeiro dia, contribuir com nossas pequenas forças mas de forma decidida para a construção do partido mundial da revolução socialista. Em nossa primeira campanha de assinatura estamos apresentando pacotes solidários de 100 reais por 24 números do jornal.

A Liga Comunista repudia mais este ataque capitalista e compreende que nossa resposta contra o espancamento que sofreu o camarada municipário e outros mais que se encontravam na manifestação em São Paulo, Guarulhos e nas outras cidades, deve estar na convocação e organização de manifestações maiores na Prefeitura, inclusive contando com os trabalhadores do próprio município cujo patrão é o fascínora Kassab. É preciso articular a luta a partir dos próprios locais de trabalho e estudo, unindo trabalhadores e estudantes, organizando um comitê de autodefesa composto por várias entidades (sindicatos, DCEs, CAs, etc). É preciso fazer valer nosso grito: Se a tarifa não baixar a cidade vai parar! Ao fazermos isso, estaremos realizando o contrário do que quer o Estado policialesco que persegue, espanca e prende os manifestantes para nos amedrontar a fim de que não protestemos mais. Nesse momento, nossa luta precisa ser forte o suficiente para fazer baixar o preço da passagem ou conquistar o passe livre. Mas não só isto, também para fazer evoluir a própria consciência politica do movimento. É necessário e urgente comprender que o objetivo final de nossa luta é a liquidação do Estado capitalista burguês que vive da exploração dos trabalhadores de todas as formas, e que para isto reprime com sua força qualquer um que se coloque contra esse processo. Não há como reformar este monstro ou ao seu aparato repressivo, é preciso destruí-lo através da revolução social. É necessário nos prepararmos para a luta plenamente conscientes dos métodos do inimigo que enfrentamos. Assim desarticularemos a sua estratégia de nos amedrontar com seu terrorismo estatal. Luiza Freitas, funcionária pública do município de São Paulo O Bolchevique - Jan-Mar de 2011

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PASSE LIVRE

Derrotar Kassab, os empresários e a PM, unindo estudantes e trabalhadores! Passe Livre Já! Pela Estatização dos transportes coletivos sob controle dos trabalhadores!

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m 2010, Kassab deu R$ 660 milhões aos donos das empresas de ônibus. Parte da verba foi desviada da construção de corredores de ônibus. Para 2011 já foram reservados mais R$ 743 milhões do Orçamento para novamente presentear os empresários do setor. Como se esta lambança não fosse suficiente e a passagem já não fosse tão cara para os estudantes e trabalhadores, o prefeito iniciou 2011 aumentando o valor da tarifa de 2,70 para 3,00 reais. Kassab está roubando dos pobres para dar aos ricos. É para isto que serve o Estado capitalista seja ele de uma cidade, de um estado ou de todo um país. E, se por acaso, a juventude resolve protestar contra este roubo descarado, como ocorreu nos dias 13 de janeiro e 17 de fevereiro de 2011, nas ruas centrais da capital paulista, entra em cena outro departamento do Estado. A policia apresenta suas armas, utilizando os cassetetes, bombas de gás e de borracha para dissolver a manifestação. Bate, persegue e prende os manifestantes para amedrontá-los a fim de que não façam mais protestos. De forma cristalina a PM mostra para que serve: proteger os interesses da burguesia de seu Estado que amanhã aumentarão também as tarifas do trem e metrô. Por isto, a luta para reverter este aumento e conter novos precisa avançar em direção a conquista do passe livre para todos. Para isto, é preciso impulsionar uma grande mobilização das vítimas deste assalto, os trabalhadores e estudantes para derrotar Kassab, os empresários, a PM, representados politicamente pelo DEM, PSDB, PV, PPS, que compõem a prefeitura e o governo do Estado. Os partidos ligados ao governo federal (PT, PCdoB, PCR, Patria Livre, etc.) dizem fazer oposição à Kassab. Mas, apesar de dispor de um enorme aparato sindical, CUT, CTB, UNE, MST, UMES, DCEs e Grêmios dirigidos por esses partidos, comem na mão do governo Dilma, defensor dos capitalistas de todo o país e do imperialismo e, portanto, se opõem a lutar consequentemente contra o roubo de Kassab porque fazem o mesmo em nível federal. Os partidos pequeno burgueses e entidades ditas de oposição, vinculadas ao PSOL, PSTU e cia. fingem lutar contra Kassab e o capitalismo, mas o fazem de forma inofensiva porque suas ideias estão domesticadas pelo regime “democrático” burguês. Defendem, somente com palavras, o passe livre, mas, mesmo sabendo que ele só pode ser assegurado com a expropriação das empresas de transporte coletivo privado, coisa que nenhum governo capitalista vai realizar, se opõem a organizar a luta pela estatização dos transportes coletivos sem indenização e sob o controle dos trabalhadores e pela tomada do poder pelos mesmos. Dirigem sindicatos como o dos metroviários paulistas, (PSTU, PSOL e o PPS burguês e governista e tucano), mas não colocam a máquina do mesmo a serviço da luta pelo passe livre no metrô, o controle deste importante meio de transporte por seus trabalhadores, nem tampouco mobilizam os metroviários para juntarem-se a nós. Acreditam que é preciso reformar a PM ao invés de lutar para dissolvê-la. Defendem a instalação de uma unidade pacificadora de polícia, as UPPs, em todas as favelas do país, como forma de “conter a violência urbana”, ou seja, invocam a política truculenta e assassina que nos espancou mais uma vez no dia 13/01 para combater a violência. Em uma palavra, são a esquerda legalista que jamais vai fazer sequer cócegas nos capitalistas e no seu Estado. Diante destes tipos de partidos, com justa indignação muitos jovens aderem ao anarquismo de forma teórica ou prática, opondo-se por princípios aos partidos e a qualquer militância partidária, acreditando que o mundo pode ser transformado pela auto-organização dos indivíduos. Isto é um engano, porque sem uma organização formada por militantes regulares que combatam a ideologia burguesa, sem um partido que centralize e impulsione a luta direta das massas e tenha como fim a tomada do poder pelos trabalhadores e o controle da educação, transporte, saúde e de tudo mais pelos mesmos, nossa luta se dissipará e se desperdiçará. Os Kassabs que são muito mais organizados e

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disciplinados que nós continuarão levando a melhor, continuarão nos roubando. Não é por acaso que todas as muitas lutas pelo passe livre em várias cidades foram desviadas para a impotente pressão sobre as Câmaras dos Vereadores. É preciso construir um partido de novo tipo, revolucionário, dos trabalhadores e da juventude. É isto que deseja firmemente a Liga Comunista. Junte-se a nós!


O Bolchevique # 3