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TECNOLOGIA NO FEMININO SílviaGarcia,DiretoradoINCMLabImprensa NacionalCasa da Moeda

SETEMBRO DE 2020

A LIDERANÇA FEMININA NA QUINTA DA PLANSEL

LÍDERES FEMININAS PERCORREM A MÍTICA NACIONAL 2


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ÍNDICE 4 | Editorial 6 | Líderes Femininas fazem-se à estrada (N2) 16 | Liderar a mudança. Construir o futuro Quem é quem: Aida Chamiça 20 | "Somos o que lemos, viajamos e amamos". Quem é quem: Ana Paula Cecília 24 | Da Seara ao mar Quem é quem: Custódia Rebocho 30 | Um Xaile, uma guitarra portuguesa, uma voz e muito sentimento Quem é quem: Joana Pessoa 32 | Um exemplo de sucesso no feminino. Quem é quem: Patrícia de Castro Gonçalves 34 | A liderança no feminino, não se explica, sente-se Quem é quem: Rita Veloso

FICHA TÉCNICA Direção e Edição: Sandra Arouca Colaboração: Ana Catarina Gomes, Sandra Nobre e WLX-design

38 | “A vida é um mar de oportunidades que devem ser agarradas com todas as suas forças porque é essa força que faz da mulher um ser diferenciador” Quem é quem: Sofia Tavares 40 | Do fado à solidariedade Quem é quem: Katia Guerreiro 42 | A Liderança Feminina na Quinta da Plansel Contactos: geral@liderancanofeminino.org redacao@liderancanofeminino.org Registada na ERC com o n.º 126978 Propriedade de Sandra Arouca Sede e Redação - R. Nova da Junqueira, 145 4405-768 V.N.Gaia

46 | “TECNOLOGIA: Instagram com vulnerabilidade que colocaria em risco a segurança de milhões de utilizadores” 50 | Tecnologia no Feminino Silvia Garcia, responsável pelo INCMLab

Periodicidade mensal Liderança no Feminino tem o compromisso de assegurar os princípios deontológicos e ética profissional dos jornalistas, assim como pela boa fé dos leitores. O conteúdo editorial da Revista Liderança no Feminino é totalmente escrito segundo o novo Acordo Ortográfico. Todos os artigos são da responsabilidade dos seus autores e não expressam necessariamente a opinião da editora. Reservados todos os direitos, proibida a reprodução total ou parcial de todos os artigos, sem prévia autorização da editora. Quaisquer erros ou omissões nos artigos, não são da responsabilidade da editora.

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LIDERANÇA NO FEMININO | Setembro de 2020

| SETEMBRO 2020

EDITORIAL A Revista Liderança no Feminino desafiou líderes femininas nacionais a conhecer a fundo o interior de Portugal ao percorrer a rota da Estrada Nacional 2. Foi no dia 18 de Setembro que a Revista Liderança no Feminino desafiou um grupo de Líderes Empresariais Femininas para um roteiro pela Estrada Nacional 2, para dar a conhecer o estado do tecido empresarial do interior do território nacional. Em plena pandemia, estas líderes percorreram 738 km de uma forma descontraída onde puderam conhecer mais e melhor o interior do nosso País, percorrendo a EN2, e ver o que de melhor se está a fazer a nível de projetos empresariais nas mais diversas áreas e setores de atividade, onde as mulheres têm tido um papel preponderante e de liderança inegável. Esta será também uma ação que acreditamos poder vir a despertar o interesse de outras líderes para oportunidades que possam existir no interior, bem como inspirar outras a dar o salto para um empreendedorismo sustentável e responsável. Desde o Km 0, a Revista Liderança no Feminino contou com o parceiro Sociedade Comercial C. Santos e da Mercedes –Benz Portugal que levou o grupo a percorrer, desde Chaves até Faro, a famosa Estrada Nacional 2 (N2), em 3 dias de descoberta, partilha de ideias, de confraternização e reconhecimento do melhor que o interior de Portugal tem para oferecer. Mostrou também como o seu tecido empresarial se tem reinventado e criado novos projetos empresariais e de que

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forma o poder da liderança feminina é cada vez mais visível. Este primeiro grupo de líderes femininas com espírito aventureiro conta com a participação de Sandra Arouca, Diretora da Revista Liderança no Feminino; Aida Chamiça, Executive Coach; Patrícia Gonçalves, Diretora executiva do Grupo Monte; Custódia Rebocho, Ceo da Bluegrowth; Sofia Tavares, Ceo da Be Present; Rita Veloso, Vogal do conselho de administração do Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, Young Executive Leader International Hospital Federation; Ana Paula Cecília, Ceo da Ultraprint, Lda. e diretora da revista Intergráficas e de Joana Pessoa e Katia Guerreiro, fadistas. A este grupo juntaram-se, ao longo do percurso, outras mulheres empreendedoras que trouxeram uma visão muito local do empreendedorismo feminino. Aos parceiros, deixamos um agradecimento muito especial pela forma como fomos tão bem recebidas: Associação de Municípios da Rota da Nacional 2; Câmara Municipal de Chaves; Câmara Municipal de Faro; Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião; Do It On; Casas Novas Countryside Hotel Spa & Events; Hotéis M’ar de Ar Muralhas e M’ar de Ar Aqueduto; Museu Nadir Afonso; Quinta da Plansel; Solar do Vinho do Dão; Mercedes-Benz Portugal; Sociedade Comercial C. Santos; Taberna Benito; Restaurante Vinho e Noz; Restaurante Cidade Velha; Turismo do Algarve e Vinhos do Alentejo. Sandra Arouca


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LÍDERES FEMININAS FAZEM-SE À ESTRADA (N2) 6


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Pela Estrada Nacional 2 à descoberta do tecido empresarial do interior do país. Durante três dias, o desafio da revista Liderança no Feminino estava lançado às líderes femininas nacionais. De norte a sul, visitaram, conheceram, analisaram e saborearam o melhor de Portugal.

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Katia Guerreiro, Sofia Tavares e Joana Pessoa


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Foram três dias à descoberta de Portugal. Desde o Km 0, a Revista Liderança no Feminino contou com o parceiro Sociedade Comercial C. Santos e da Mercedes –Benz Portugal que levou o grupo a percorrer desde Chaves até Faro a famosa Estrada Nacional 2 (N2). Pelo caminho, houve oportunidade para a, partilha de ideias, para confraternizar e ir ao encontro do melhor que o interior de Portugal tem para oferecer, mostrando como o seu tecido empresarial se tem reinventado e criado novos projetos empresariais e onde o poder da liderança feminina é cada vez mais visível. Ao volante seguiam mulheres com espírito aventureiro: Sandra Arouca, Diretora da Revista Liderança no Feminino; Aida Chamiça, Executive Coach; Patrícia Gonçalves, Diretora Executiva do Grupo Monte; Custódia Rebocho, Ceo da Bluegrowth; Sofia Tavares, Ceo da Be Present; Rita Veloso, Vogal do conselho de administração do Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, Young Executive Leader International Hospital Federation; Ana Paula Cecília, Ceo da Ultraprint, Lda. e diretora da revista In-

tergráficas e de Joana Pessoa e Katia Guerreiro, fadistas. Outras mulheres empreendedoras juntaram-se à comitiva e trouxeram uma visão do contexto local. Sandra Arouca, Diretora da Revista Liderança no Feminino, apresenta esta expedição como “uma forma descontraída de podermos conhecer mais e melhor o País, e ver o que de melhor se está a fazer a nível de projetos empresariais nas diversas áreas e setores de atividade, onde as mulheres têm tido um papel preponderante. Esta será também uma ação que acreditamos poder vir a despertar o interesse de outras líderes para oportunidades que possam existir no interior, e inspirar outras a dar o salto para um empreendedorismo sustentável e responsável.” Foi com este espírito que se fizeram à estrada e, em cada etapa do percurso acrescentaram conhecimento, contatos e inspiração. Este roteiro de descoberta empresarial feminina começou no dia 18, com a receção das participantes no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, pelo Vice-Presidente da Câmara, Francisco Melo e pela vereadora, Paula Chaves.

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Às boas-vindas a Chaves, seguiu-se uma visita guiada às exposições do MACNA e uma degustação de alguns ícones da gastronomia flaviense, nos quais se integraram novos produtos, resultado do empreendedorismo local. A paragem seguinte foram as Termas Romanas e a Ponte Trajano. O dia terminou com um jantar na Taberna Benito. As nossas líderes ficaram alojadas no Casas Novas Countryside Hotel Spa & Events. O segundo dia de expedição, 19 de Setembro, levou as participantes em direção a sul, ao encontro da Associação de Municípios da Rota da Nacional 2, para conhecer o projeto de dinamização e divulgação desta rota turística. As participantes foram recebidas pelo presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Pena-

Ponte Trajano, Chaves

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Jantar na Taberna Benito

Casas Novas Countryside Hotel Spa & Events

Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso


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guião, Luís Reguengo Machado, no salão nobre do município, e brindaram com os vinhos da Região Demarcada do Douro. Seguiram para Viseu, para uma prova de vinhos e almoço no Solar do Vinho do Dão, onde foram recebidas pelo diretor executivo, Pedro Mendonça e pela diretora de marketing, Graça Silva. Ao almoço, saborearam pratos típicos da região, como a famosa Vitela de Lafões acompanhada dos vinhos da Região Demarcada do Dão. No final do almoço, as duas fadistas participantes presentearam todos com a sua arte.Era hora de descer a terras alentejanas, mais propriamente a Montemor-o-Novo. Era hora de jogar mãos à terra e atrever-se na vindima, e na pisa da uva, na Quinta Plansel. Esta quinta tem raízes alemãs, mas tem uma enorme paixão pelas castas e vinhos de Portugal. Dorina Lindemann é a proprie-

Joana Pessoa e Katia Guerreiro, fadistas, e Luís Reguengo Machado, presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião

Katia Guerreiro, fadista, Pedro Mendonça, diretor executivo dos Vinhos do Dão, Joana Pessoa, fadista

Almoço no Solar do Vinho Do Dão com Pedro Mendonça, diretor executivo, e Graça Silva, diretora de marketing

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Adriana Coutinho, Marketing Director da Manwinwin

Passaporte da N2

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Museu Municipal de Faro

tária da Plansel, que juntamente com as suas filhas, gere o negócio. A história da família começou na Alemanha há 800 anos, e há dois séculos que começaram a produzir vinho. Dorina, filha de Jorge Böhm, enóloga licenciada pela Universidade de Geisenheim (Hessen), veio da Alemanha para Portugal com o marido Thomas Lindemann e, aproveitando as vinhas já existentes ligadas ao programa de melhoramento técnico de seu pai, dedicou-se à produção de vinho. Hoje, Dorina e as duas filhas, Júlia e Luísa Lindemann, são apaixonadas pelo vinho das castas autóctones portuguesas e pelo Alentejo. A combinação do conhecimento enológico sobre as castas com o da existência da biodiversidade adequada é fundamental para atingirem o objectivo estratégico. Dorina é a primeira mulher a gerir o negócio de família. Também são pesquisadoras das uvas portuguesas desde que há 40 anos o pai de Dorina foi até ao Douro e descobriu que temos mais de 340 castas nativas em Portugal. Seleccionou 150 que levou para o Alentejo, onde atualmente preparam e vendem plantas para serem enxertadas para outras adegas.

Patrícia Gonçalves, diretora executiva do grupo Monte, Aida Chamiça, Executive Coach, Custódia Rebocho, ceo da Bluegrowth e Ana Paula Cecília, ceo da Ultraprint e diretora da Revista Intergráficas

Hotel M’AR de AR , Aqueduto


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O jantar de resumo do dia foi no Restaurante Vinho e Noz, onde degustaram os sabores tradicionais alentejanos, acompanhados de um fado de Katia Guerreiro. O dia terminou em excelência no grupo Mar de Ar Hotels, mais propriamente nos hotéis M'ar De Ar Muralhas e Aqueduto.

Quinta da Plansel

O jantar de resumo do dia foi no Restaurante Vinho e Noz, onde degustaram os sabores tradicionais, acompanhados de um fado de Katia Guerreiro. O dia terminou em excelência no grupo Mar de Ar Hotels, mais propriamente nos hotéis M'ar De Ar Muralhas e Aqueduto. O terceiro e último dia de expedição, dia 20 de Setembro, levou o grupo a percorrer os últimos quilómetros da famosa N2, rumo a Faro. No meio do percurso, as participantes foram conhecer as gentes do alentejo, numa casa típica, em Ferreira do Alentejo. Em Faro, vereador Carlos Baía e Daniel Queirós, responsável da Divisão de Promoção Turistica, esperavam as participantes na icónica rotunda do Km 738. Seguiu-se o almoço no Restaurante Cidade Velha, a meta final, percorridos mais de 738 quilómetros, de um mapa que se está a reinventar nos seus valores, tradições e saber fazer que são a maior riqueza nacional. Após o almoço, a autarquia acolheu as convidadas com um passeio de barco na Ria Formosa até à ilha Deserta para conhecerem uma

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Embarque para conhecer uma das jóias do Algarve, a Ilha Deserta

Para esta expedição, a Revista Liderança no Feminino conta com o apoio de um conjunto de parceiros, que acreditam no potencial das regiões em torno da N2, bem como no poder feminino para liderar atuais e futuros projetos empresariais

Sofia Tavares, ceo da Be Present e Joana Pessoa, fadista

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Aida Chamiça, excutive coach e Custódia Rebocho, ceo da Bluegrowth


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Passeio pela Ria Formosa em direção à Ilha Deserta

das principais praias do concelho. Houve tempo para conhecer o Museu Municipal de Faro e admirarem o Mosaico do Deus Oceano, Tesouro Nacional recentemente inaugurado pelo Presidente da República. Para esta expedição, a Revista Liderança no Feminino contou com o apoio de um conjunto de parceiros, que acreditam no potencial das regiões em torno da N2, bem como no poder feminino para liderar atuais e futuros projetos empresariais: • Associação de Municípios da Rota da Nacional 2 • Câmara Municipal de Chaves • Câmara Municipal de Faro •CâmaraMunicipaldeSantaMartadePenaguião • Casas Novas Countryside Hotel Spa & Events • Hotéis M’ar de Ar Muralhas e M’ar de Ar Aqueduto • Museu Nadir Afonso • Quinta Plansel • Solar do Vinho do Dão • Mercedes-Benz Portugal • Sociedade Comercial C. Santos • Turismo do Algarve • Vinhos do Alentejo • Taberna Benito • Restaurante Vinho e Noz • Restaurante Cidade Velha • Do It On • Quinta da Plansel

Daniel Queirós, Chefe da divisão de Promoção Turística e Carlos Baía, Vereador da Câmara Municipal de Faro, na Ilha Deserta

Carlos Baía, Vereador da Câmara de Faro

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QUEM É QUEM

LIDERAR A MUDANÇA. CONSTRUIR O FUTURO Aida Chamiça, coach executiva de gestores de topo há mais de 15 anos, cria agora uma nova marca vocacionada para os outros níveis de liderança. Em breve vai lançar um programa de desenvolvimento vertical de líderes.

São muitas as novidades e apesar de não podermos ainda revelar muito neste artigo, partilharemos o mais importante: a história de uma mulher que tem mantido a sua liderança no mercado do coaching de executivos de topo em Portugal. A par com outros profissionais de coaching credenciados, investe no seu desenvolvimento contínuo e está regularmente em coaching supervision, para oferecer o melhor de si e o melhor que emerge no mercado internacional. O seu caminho foi por onde a levou o coração, o sentido de propósito e também uma boa dose de sorte. Não sabia que era uma líder. Era apenas dotada de uma enorme curiosidade, determinação e elevados standards de qualidade. A maior parte do seu percurso profissional foi em consultoria de gestão, na área de gestão da mudança, tendo sido Senior Manager na Accenture até 2003. Fez em 2003 o primeiro curso de qualificação profissional em coaching, em Portugal, acreditado pela ICF, a maior e mais reputada entidade isenta de credenciação de coaches no mundo. E daí até ser a primeira coach portuguesa a obter o nível de credenciação MCC (Master Certified Coach) pela ICF e a primeira portuguesa certificada internacionalmente como Coach Supervisor, pela EMCC, nada ficou ao acaso. Sonha em grande e constrói o teu caminho com solidez. "Um passo de cada vez!", este podia ser o seu lema. O sonho era e continua a ser grande: tal como um treinador de atletas olímpicos, ajudar os líderes de topo a estar no seu melhor, usando os seus talentos e fazendo das vulnerabilidades forças, para liderarem a mudança, criarem o futuro e contribuírem para o avanço da humanidade! Inspirada pela força deste propósito, começou por definir com clareza a sua visão e objetivos e os passos que a levariam a cumprir, à sua escala, este propósito. Contratou um programa de coaching com uma reputada coach internacional, numa altura em que o coaching começava a dar os primeiros passos no nosso país. Esse programa de coaching foi o primeiro, de

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muitos. Uma vez amadurecido o pensamento estratégico, estruturados os objetivos táticos e desenhado o plano de ação, os passos seguintes foram-se sucedendo com solidez e coerência: selecionou os mercados mais maduros em coaching executivo, foi aprender com os melhores e investiu, anualmente, em formação e especializações, em mentoria e coaching supervision com coaches mais experientes, ou com metodologias diferentes. E nunca mais parou. Sempre a fazer especializações, trazendo para a prática a robustez do conhecimento e investigação mais recentes, criando o seu próprio estilo, metodologia e ferramentas de coaching, em alinhamento com os mais elevados standards internacionais. Esta pandemia, que apanhou a todos de surpresa, trouxe o pior e o melhor. O pior, no sentido em que nos pôs em contacto com a nossa vulnerabilidade coletiva. O melhor, porque nos pôs a sentir e a pensar de forma mais intensa e conectada. Confrontou-nos - se a isso nos permitimos – com reflexões sobre o sentido da vida e o propósito. Aida Chamiça revisitou o seu propósito e concluiu que era preciso sonhar mais alto! Desafiar o medo coletivo da recessão económica e levar todos os líderes a estar em seu melhor

O seu caminho foi por onde a levou o coração, o sentido de propósito e também uma boa dose de sorte. Não sabia que era uma líder. Era apenas dotada de uma enorme curiosidade, determinação e elevados standards de qualidade.


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e a superarem-se. Não apenas os gestores de topo como antes, mas todos! Os gestores de topo precisam de líderes à altura dos desafios da pandemia e pós-pandemia. Líderes com capacidade de levantar os olhos das questões táticas e operacionais e terem conversas poderosas com as suas equipas. A criar sentido de propósito, agilidade e flexibilidade para liderar a mudança que os gestores de topo desenham em conversas partilhadas. Os gestores de topo precisam de líderes que criem equipas cada vez mais autónomas e responsáveis, que possam trabalhar em modelos mistos, sem perda de coesão e propósito. As organizações precisam de líderes que operem em modelos colaborativos, usando a inteligência coletiva e com consciência da complexidade dos sistemas, movidos por um sentido de propósito galvanizador. Capazes de criar o futuro, em lugar de ser reativos. De liderar equipas que colaboram entre si, conscientes de que só assim é possível ir à frente a criar! E de perceber que só assim podem ser ágeis e chegar longe, mesmo quando o caminho é incerto, com múltiplos obstáculos e níveis de complexidade invulgares. E foi nesta vibração elevada, inspirada pela vontade de fazer parte deste movimento orgânico positivo que irá reerguer o país, que decidiu assumir a sua parte: criar uma marca que complete o puzzle. Agora, para além de prosseguir no coaching executivo de gestores de topo, forma coaches profissionais credenciados na metodologia, assegura o alinhamento com os elevados standards de qualidade a que habituou os seus clientes e expande os serviços a todos os níveis de liderança, com serviços que vão para além do coaching executivo e abrangem toda a área de desenvolvimento vertical de líderes. O primeiro programa está a ser co-construído com interlocutores de 15 grandes empresas nacionais e multinacionais. O piloto já está vendido e vai arrancar em outubro deste ano. E vai haver mais novidades em breve. Para se manter informado, siga Aida Chamiça no Linkedin. Ela promete que a sua rede será a primeira a saber! Partilhará também conteúdos e informação úteis a todos os líderes que não querem faltar à chamada: liderar a mudança. Construir o futuro!

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QUEM É QUEM

SOMOS O QUE LEMOS, VIAJAMOS E AMAMOS! Adoro conhecer pessoas, viajar, ler e escrever, paixões que me fazem feliz. Gosto de dar vida a projectos que me desafiem e me levem a inovar.

Quem me conhece sabe que vejo sempre o lado positivo de qualquer situação e passo a vida a impulsionar os meus amigos para que possam dar vida aos seus sonhos. Acredito que cada um de nós é sempre capaz de se superar na busca pelo que deseja e que, uma imensa força surge da vontade e do "querer". Tudo o que sou e me tornei teve início no dia 21 de Abril de 1971, em Santarém, onde nasci. Dizem que somos o resultado das viagens que fazemos, dos livros que lemos e das pessoas que amamos e eu concordo, mas acho que somos também a infância que vivemos e a minha foi feliz, muito feliz. Não vivi entre a cidade e as serras, mas com um pé no campo e outro na cidade, dividida entre a capital do Ribatejo e a vila de Coruche, onde moravam algumas das minhas tias e avós. Foi um tempo feliz, livre, sem pressa de viver, com as sensações únicas que só o contacto com a terra proporciona, com todas as experiências que passaram, literalmente, pelos pés na terra, pela proximidade dos animais, das culturas, das gentes simples e de sorriso fácil. Não há melhor lembrança do que os mergulhos num imenso tanque de rega que o meu imaginário de criança transformou em piscina olímpica, ou mesmo nas tardes passadas debaixo de uma ameixeira, como se fosse uma competição de gargalhadas. Se somos também a nossa infância, então parte de mim é amor e carinho. Acho que sou mesmo o resultado dos meus primeiros anos, de tudo isto e, ainda das viagens entre uma cidade e um campo que não duravam mais de uma hora num Ford Escort amarelo do meu pai e que, me faziam sorrir enquanto debruçava a cabeça na janela e absorvia o vento no rosto. O que ainda tenho bem marcado são os cheiros da terra molhada da rega da horta, dos bolos de mel acabados de fazer, do azeite por cima de uma torrada, do pão caseiro, do vinho... Fui crescendo neste equilíbrio, de quem tudo tem na cidade e tudo recebe do campo, das histórias à lareira, do colo da família, das brincadeiras com os primos, dos passeios de mota, das corridas de carrinho de mão. No intervalo

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entre os dias no campo e na cidade, a escola deu-me os amigos, a descoberta e a aprendizagem que sempre me entusiasmou. Ainda antes da escola, passava horas numa livraria lá do bairro, fascinada pelos livros, por capas e títulos e, a paixão por escrever e ler tornaram-se numa obsessão boa. Sem saber muito bem como integrar estas duas paixões na minha vida, fui eliminando áreas que poderia ter seguido, até ter concluído que a comunicação batia mais forte e fazia sentido no meu percurso. Aproveite sempre todas as oportunidades onde a comunicação fosse o tema central e, foi por isso que passei pela rádio, onde além da área jornalística fiz locução em programas da tarde numa rádio perto de Santarém, em Pernes, numa época em que cada vila e cidade tinha a sua rádio e ia formando profissionais que seriam grandes nomes da rádio e da televisão em Portugal. Com uma média final de 18,3 concorri à Universidade, escolhi a Universidade Técnica de Lisboa e, o curso do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, onde entrei na primeira opção.

Quem me conhece sabe que vejo sempre o lado positivo de qualquer situação e passo a vida a impulsionar os meus amigos para que possam dar vida aos seus sonhos. Acredito que cada um de nós é sempre capaz de se superar na busca pelo que deseja e que, uma imensa força surge da vontade e do "querer".


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Foram quatro anos inesquecíveis por todos os motivos mas, sobretudo, pelas amizades de uma vida, pelos professores que se tornaram referência e pela envolvência do ambiente universitário. Era tudo novo, a cidade, a dinâmica de uma universidade, os métodos e processos, os dias longe dos meus pais, dos amigos, da zona de conforto da minha Scalábis. Foram quatro anos que passaram a correr. Quando saímos de dentro de portas de um lugar onde nos preparam para a vida profissional na área que escolhemos trabalhar, achamos que sabemos tudo. Não sabemos nada. A licenciatura, como dizia o meu professor de Direito Económico, só nos permite uma coisa: licença para estudar sozinhos! Na verdade, é o que sentimos. Achamos que sabemos muito, que o mercado nos vai dar valor, reconhecer e acarinhar de imediato. Nada mais falso. O mercado começa por nos sugar até que estejamos preparados para reagir e impor. Foi assim comigo. Depois de um estágio de três meses, trabalhei em editoras nacionais, em revistas de banca, jornais diários, edição de suplementos, fui freelancer e assinei muitos artigos em revistas femininas, sempre mudando quando queria, sempre escolhendo os cargos, numa altura em que a economia fluía, em que o mercado oferecia emprego em cada esquina. Um dia, depois de desiludida com ideias fracas sobre o que uma revista deveria ser e farta de viver ao sabor dos ideais de cada novo director, decidi lançar um o meu próprio projecto editorial na área da impressão e comunicação, tendo criado uma empresa e um título. Foi arrojado, foi destemido, foi sem pensar. Hoje, acho que sempre que pensamos muito sobre as decisões que tomamos, acabamos por não avançar e, naquela época, decididamente, não pensei. Foi isso que me levou por diante. Sem dinheiro, mas com muita vontade. Na minha cabeça surgia esta frase: “Deve existir uma outra forma de ganhar a vida em que não tenha de me sujeitar a escrever sobre o que outros querem...” Ainda assim, estava grata aos editores da minha vida, aos homens (porque foram sempre homens) que me ensinaram a saber escrever. Ainda me lembro de um dos primeiros artigos que fiz

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para uma revista dirigida a homens de negócios, sobre vinho verde. Cheia de mim, pesquisei e entrevistei quem podia dar informações preciosas sobre esse delicioso vinho e acabei por escrever três páginas entre títulos e fotos. O resultado, foi o que aprendi como lição de uma vida, quando o editor, um senhor inglês que vivia em Portugal desde 1972 me disse que “texto cortado é texto melhorado.” Com este inglês, que surgiu em Portugal para revolucionar o mundo da edição e do marketing e publicidade, aprendi também a ser inovadora, a procurar ver o lado que os outros não procuram, a conseguir perceber que quando queremos muito algo, nada nos impede de o conseguir. James Lanham era também um criativo e isso é algo que sempre me fascinou nele, mesmo quando o império começou a enfraquecer. Com outros editores aprendi o que não fazer na edificação de novos projectos, aprendi a ser comedida nos passos maiores do que a perna, aprendi que o respeito por quem trabalha ao nosso lado é fundamental para que haja uma equipa, para que a liderança seja positiva e agregue pessoas em torno de objectivos comuns. O que aprendi por oposição de quem nada disto fazia, tem sido baliza da minha vida, sobretudo no respeito que sinto por quem está ao nosso lado na vida, seja em que dimensão for.

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Em 1997, depois de algumas desilusões e aproveitando uma oportunidade, decidi criar uma revista e dar-lhe vida. Nasceu a Intergráficas quando senti vontade de lançar um projecto inovador e diferente do que já existia no mercado e, por isso, confiei o layout e design gráfico, ao meu amigo Vasco Ferreira, que "desenhou" a famosa revista "Volta ao Mundo". O resultado acabou por ter o destaque imediato e cativou o mercado, anunciantes e leitores. Ao Vasco Ferreira disse que não tinha dinheiro para pagar de imediato e, como os amigos são isso mesmo, o Vasco nem pestanejou e acertámos que quando tivesse retorno do investimento o pagamento haveria de surgir. Foi tão inocente, tão incrível e resultou num layout que posso dizer hoje, foi na altura um dos mais bonitos do mercado. Costuma-se dizer que mais vale cair em graça do que ser engraçado e isso aconteceu. Foram vários anos em que tive o privilégio de ter ao meu lado, como director de arte, um dos homens que mais entende de design gráfico e isso não tem preço. O Vasco Ferreira ensinou-me a arte do “querer mais”, do “ainda pode ser melhor”, do “não custa experimentar e ver como fica”. Durante anos foi assim, até que ele voou para novos projectos e isso encheu-me de orgulho. Com um discípulo fantástico, seguiu-se Bernardo Ferraz, um dos melhores de-


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signers que conheço, e que é, desde há 15 anos o designer responsável pelo layout gráfico da Revista Intergráficas. Se há uma condição que permanece até hoje, é a total liberdade de inovar em cada edição, que vai já no número 213. Ao longo dos anos, esta publicação especializada, tornou-se referência a nível nacional e mesmo internacional e foram surgindo prémios, reconhecimento e outros projectos editoriais e eventos. Nos últimos anos, senti a necessidade de criar o Printalks, um evento de dois dias que reúne os maiores players da área de impressão e comunicação, para debater temas de relevo e impacto para as empresas e profissionais. São mais de 42 oradores que durante dois dias sobem ao palco para partilhar ideias, experiências, estudos, case studies e tendências. Partilham tudo isto com mais de 400 pessoas que querem saber mais, para levar para dentro das suas empresas ideias novas, que as façam avançar e estar na frente do mercado, liderando e dando aos seus clientes o melhor serviço, os melhores produtos, os processos e métodos mais inovadores. Ao portfólio de produtos e serviços oferecidos pela Ultraprint, a empresa que criei, no preciso momento em que decidi lançar a revista IG – Intergráficas, juntei muitas outras valências, escolhendo sempre manter uma relação de proximidade com os clientes e indo ao encontro das suas reais necessidades. Actualmente, a Ultraprint dá vida a projectos de realidade aumentada em catálogos, a projectos de produção de livros, realização de eventos, design gráfico, criação de sites, gestão e manutenção de redes sociais, produção gráfica, vídeos e projectos onde a comunicação faça a diferença e possa trazer valor acrescentado. Nunca fazemos nada por fazer e em cada novo projecto recusamos a “chapa 5”, abraçamos o desafio, estudamos, adaptamos e criamos de raiz, personalizando a mensagem, os meios, a forma. É mesmo assim porque temos a mania de fazer bem feito! No meio de toda esta atividade, frequentei cursos de escrita criativa, de produção gráfica, de vendas, de criação de embalagem… e, como digo muitas vezes, "fazer o que gosto trouxe-me ainda a imensa sorte de ter viajado a trabalho um pouco por todo o mundo e, de ter conhecido sítios incríveis onde nunca teria estado, não fossem as centenas de conferências de imprensa, feiras, apresentações e lançamentos de produtos em que participei. De todos os países onde estive, destaco o Japão, Israel e Turquia. Falta-me a Austrália, e não é pelos cangurus, mas porque sei que posso conhecer o mundo inteiro, mas se faltar a Austrália, então falta-me conhecer um continente inteiro e uma outra forma de

Nos últimos anos senti a necessidade de criar o Printalks, um evento de dois dias que reúne os maiores players da área de impressão e comunicação para debater temas de relevo e impacto para as empresas e profissionais.

viver! O que me falta também, é um livro. Tenho escrito livros sobre empresas, histórias de vida ou acontecimentos, mas na gaveta está o meu e em breve ganhará vida! Este ano muitos projetos ficaram adiados por causa da pandemia mas acho que tudo isto serve para que cada um de nós prepare melhor cada um desses projetos. Com a crise que estamos a viver, com as dúvidas, com a ansiedade sobre o que virá a seguir, este é também um momento de oportunidade, de lisar, de pesquisar, de ver onde e como podemos fazer melhor. Pode ser um cliché, mas só as dificuldades nos fortalecem e preparam para a vida. Vejo sempre um copo meio cheio e acredito que esta é a oportunidade de nos juntarmos, de unir forças, de trabalhar em conjunto para objetivos maiores. Em suspenso ficou também um retiro de 15 dias, na Índia, num Ashram, um desafio gigante face ao silêncio do lugar para quem, como eu, adora conversar e faz da comunicação a sua vida pessoal e profissional!

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LIDERANÇA NO FEMININO | Setembro de 2020

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QUEM É QUEM

CUSTÓDIA REBOCHO, DA SEARA AO MAR Nascida em Évora, Custódia Rebocho, rumou aos três anos para a capital e, posteriormente, para uma zona ribeirinha, a sul do Tejo, onde reside e criou família. As raízes familiares situam-se no Alentejo, mas as profissionais vão ao encontro do que mais gosta: o mar, a leitura e as pessoas.

“O mar, através da seara, mesmo no interior do Alentejo, foi sempre um elemento presente na minha vida. Parece loucura, não é? Sabe que temos uma sensação líquida se contemplarmos uma seara a ondular num final de tarde? É como se estivéssemos à beira mar… mas esta minha relação com o mar não se esgota na contemplação! Quando era adolescente via todos os documentários do Cousteau, tinha grandes preocupações com as alterações climáticas, com o buraco de ozono e com a poluição, preocupações que, no início da década de 80, me levaram a integrar um grupo de jovens estudantes em ações de limpeza das praias da Costa da Caparica.” Parte das férias de verão eram passadas entre a praia e o Alentejo, com a leitura de permeio. Das então longas viagens, pela Estrada Nacional, veio-lhe o gosto por conduzir, herdado do pai, também ele um apaixonado pela condução. Aos 5 anos, sentava-a ao colo e passava-lhe o volante para que pudesse sentir o carro e a estrada durante algum tempo. Nessas viagens, havia sempre uma paragem algures para essa brincadeira, mas sempre com o olhar ansioso da mãe… Esta oportunidade de participar no evento de Líderes Empresariais Femininas num roteiro de 3 dias pela mítica Estrada Nacional 2, a conduzir diversos modelos da Mercedes, constituiu uma experiência de condução inesquecível, diferente, e que lhe recordaram esses tempos. “Há experiências de condução que se tornam especiais. Eu adorava conduzir um camião TIR! Ainda não perdi a esperança de concretizar esse desejo. Gosto de carros grandes, potentes, adoro sentir o domínio da máquina sobre a estrada – diz. Saio ao meu pai que conduz qualquer carro sem problemas, ainda que, quando lhe falamos de marcas, ele costuma dizer «ah, então, há os Mercedes e os outros»”. Ainda assim, o primeiro carro foi um já antigo e potente Subaru, amarelo de estofos pretos, em pele, com um rádio de ondas médias: “Era fantástico, nervoso, era sempre a primeira a arrancar nos semáforos! Era o carro mais icónico no estacionamento da escola. Um dia, por brincadeira, os meus alunos pegaram nele e mudaram-no de sítio. Como sou muito distraída, nem

me apercebi que estava num sítio diferente de onde o havia deixado. Foi um desapontamento para eles, coitados, vieram ter comigo a perguntar se não tinha achado nada de estranho e contaram-me o que tinham feito. Mas o Subaru amarelo era impossível de perder de vista.”

DA PAIXÃO PELAS LETRAS AO MUNDO DOS NEGÓCIOS A leitura é outra paixão que a acompanha desde muito cedo. “O primeiro livro «grande» que li foi Coração, de Edmondo de Amicis. Andava na quarta classe tal como o protagonista do romance. Lembro-me de me sentir toda ufana por ter lido e compreendido todas as palavras. Também me lembro que a maior palavra que li, quando estava a aprender, foi a palavra «imediatamente»! Aos 13 anos li Ana Karenina, de Tolstoi e quando entrei para a Faculdade já tinha lido bastantes clássicos - esses e outros que não prestavam para nada, a não ser para refinar o gosto, quando é o caso.” Naturalmente, o percurso académico teve a ver, sobretudo, com estes dois gostos. Na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, concluiu a Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, em meados dos anos 80, a partir da qual ingressou na docência, até hoje. O mundo da docência, no qual se entrecruzam disciplinas, indivíduos e realidades sociais diferentes, despertou-lhe o interesse para o estudo da Sociologia e da Antropologia. “Sempre achei fascinante a forma como as pessoas se organizam, como seguem determinados indivíduos e não outros, como funcionam isoladas ou em grupo.” Na década de 90, decidiu fazer Mestrado em Sociologia e Antropologia, na Universidade Nova de Lisboa, que considera ter sido uma mais-valia para a sua imersão no mundo empresarial. AS INSPIRAÇÕES QUE SURGIRAM EM SALA DE AULA “A profissão de professor é para quem gosta de pessoas e de aprender. Quando ensinamos,

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aprendemos sempre. Foi esta predisposição para a aprendizagem que, apesar dos muitos receios e apreensões, me impulsionou como empreendedora, já depois dos 50 anos. As mulheres, por exemplo, e há tantas à nossa volta com histórias de superação e de concretização incríveis, são inspiradoras. É só saber olhar. Algumas das minhas alunas adultas africanas são a minha fonte de inspiração. Elas personificam os conceitos de resiliência e generosidade com tudo aquilo que conseguem fazer. Emigradas, muitas vezes sem o marido, cuidam dos filhos, trabalham horas a fio e chegam às aulas com um sorriso desarmante. Às vezes adormecem… e pedem desculpa, esfregam os olhos, concentram-se e lutam para aprender.” Sem formação em gestão e sem qualquer experiência no mundo dos negócios, foram as histórias de vidas cruzadas em sala de aula que impulsionaram Custódia Rebocho para o mundo dos negócios. “A importância da qualidade da água e a garantia de existência de alimento são pilares essenciais para o desenvolvimento da humanidade. A Bluegrowth é uma empresa empenhada na transformação digital dessa parte do Planeta que está

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Estar rodeada de mulheres que fintaram a fome, a sede, a doença e a guerra deu-me vontade de me juntar a elas, participar numa solução, numa receita que desse corpo a um projeto empresarial empenhado na qualidade de vida das pessoas. A água é vida!"


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coberta por água. Estar rodeada de mulheres que fintaram a fome, a sede, a doença e a guerra deu-me vontade de me juntar a elas, participar numa solução, numa receita que desse corpo a um projeto empresarial empenhado na qualidade de vida das pessoas. A água é vida!" Em todo o Mundo, cerca de três em cada dez pessoas (2,1 biliões de pessoas) não têm acesso a água potável. Irrigar os campos para combater a fome, purificar a água para combater as doenças, gerar rendimento para combater a pobreza, empregar mulheres para combater a desigualdade, são compromissos assumidos na carta de valores que norteiam a atividade da Bluegrowth.

A MISSÃO DA BLUEGROWTH NA GERAÇÃO DE VALOR SOCIAL Em 2018, a Bluegrowth embarcou num desafio de transferência tecnológica em parceria com o Massachusetts Institute of Technology (MIT) que consiste num sistema autónomo de dessalinização e purificação de água para consumo humano e para a satisfação das necessidades das atividades agropecuárias. “A importância do acesso a água potável, em qualquer lugar, é uma das linhas de ação da Bluegrowth que tem muito a ver com as histórias de vida que se cruzaram na minha sala de aula e com o significado e o valor social da minha ação. As OffGridBox são contentores cobertos por painéis solares, que garantem autonomia na purificação ou dessalinização de água, para irrigar os campos e hidratar os animais. Conseguem satisfazer as necessidades de consumo de água potável de mais de 1500 pessoas, quer em contexto de isolamento quer em situações de catástrofe. O acesso a água de qualidade é a principal arma para o combate à propagação de doenças como a cólera, tifo, febre amarela e outras, todas na origem da elevada mortalidade de países em desenvolvimento.” Com mais de 2000 unidades espalhadas, na maioria, pelo continente africano, as OffGridBox integram uma ação focada na geração de valor social que conta com o reconhecimento das Nações Unidas, não só pela importância que tem na disponibilização de água potável em qualquer parte do Mundo, mas também pela capacidade de gerar emprego. Cada instalação de uma OffGridBox tem a seu cargo uma cuidadora: “São mulheres bem integradas nas comunidades e predispostas a trabalhar para resolver os problemas das pessoas que as rodeiam. Cada uma destas unidades é um modelo de negócio para estas mulheres. O nosso papel é treiná-las para saberem operar as tecnologias e, sobretudo, para aprenderem a gerir o negócio do abastecimento de água à sua comunidade. É

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possível amortizar o investimento e gerar rendimento para uma mulher a vender água potável, a quem não a tem, pelo preço diário de duas bananas por pessoa. Mais barato que o custo atual do acesso a águas contaminadas nos países em que atuamos.”

A FUNÇÃO ALIMENTAR DO MAR E AS GERAÇÕES VINDOURAS Em edições anteriores da Revista Liderança no Feminino e em diversas comunicações públicas, os responsáveis da Bluegrowth têm destacado a proteção dos oceanos e o desenvolvimento da função alimentar do mar como uma das ações da empresa, alinhada com os objetivos de desenvolvimento sustentável preconizados pelas Nações Unidas. “Estes princípios nortearam a estratégia da empresa com uma forte aposta em ações de transformação digital no setor da aquicultura. É nossa responsabilidade contribuir com progressos tecnológicos que nos permitam cultivar aquilo que extraímos dos oceanos, ao invés de sermos os eternos caçadores. A alimentação das próximas gerações não pode estar assente no esgotar dos recursos marinhos. Além disso, a saúde dos oceanos é vital para o futuro da humanidade.” Sistemas avançados de monitorização por satélite, sensores inteligentes, robótica subaquática e sistemas de suporte à decisão, integram o portfólio da Bluegrowth para o sector da aquicultura, mas também para a gestão ambiental de ecossistemas naturais e outras atividades económicas que utilizam ou impactam com a qualidade do meio aquático. No entanto, apesar dos responsáveis da Bluegrowth serem fervorosos defensores do setor aquícola, não escondem os riscos e preocupações sobre esta atividade e a importância da preservação dos ecossistemas marinhos: “Toda e qualquer atividade humana tem impactos positivos e negativos sobre o meio que a rodeia. Especula-se demasiado sobre a aquicultura. Há demasiado ruído a poluir a necessidade estratégica de desenvolvimento do setor aquícola. Como é obvio, a intensificação de qualquer sistema de produção tem riscos. A ação da Bluegrowth concentra-se na mitigação desses riscos através da democratização no acesso a tecnologias de ponta. Estas tecnologias têm como função otimizar os sistemas de produção, em harmonia com o ambiente que os rodeia. Nada nos serve ter nos oceanos a garantia da segurança alimentar do mundo se não houver cuidado em garantir a sua saúde. As tecnologias em que investimos têm como função apoiar produtores responsáveis na produção sustentável de alimento em contexto aquático.”

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A alimentação das próximas gerações não pode estar assente no esgotar dos recursos marinhos. Além disso, a saúde dos oceanos é vital para o futuro da humanidade.


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SER MULHER EM DIFERENTES CONTEXTOS “Escolhi ser fotografada em fato de mergulho e de saltos altos, pois é uma dupla metáfora da Bluegrowth e de mim. A Bluegrowth é uma empresa que tem uma ação em diversos contextos. Tão depressa estamos a operar em terra, numa barragem, no deserto, num tanque de aquicultura, no mar ou num moderno e luxuoso edifício de escritórios em grandes metrópoles como Nova Iorque. A tecnologia é a nossa base, mas os locais onde operamos vão dos mais rudimentares aos mais formais. Esses cenários exigem-nos uma capacidade de adaptação, quer material, quer humana e nos quais nos assumimos como parte desse todo. Enquanto mulher, creio que esta fotografia também simboliza a multidiversidade de tarefas a que o mundo feminino tem de responder, tal como o seu empoderamento. A equidade é algo por

que temos todos de lutar, com a assunção das diferenças e tirando partido daquilo que as características comuns a cada uma pode acrescentar aos projetos que lideramos. Não podemos esquecer que a facilidade que as mulheres possuem em percecionar as necessidades do outro e as oportunidades que geram na resposta a essas necessidades são a base comum à prosperidade de qualquer negócio. A experiência destes 3 dias na estrada com diversas empresárias foi extraordinariamente enriquecedora. Se nas leis da física os opostos se atraem, neste caso acho que foi a semelhança. Três gerações diferentes com pontos em comum, a começar pelo sexo e a terminar pelos postos que ocupamos. Ser líder não é uma questão de posto, é uma questão de postura, de condição de vida, de atitudes e de valores que norteiam a nossa conduta!”

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UM XAILE, UMA GUITARRA PORTUGUESA, UMA VOZ E MUITO SENTIMENTO Joana Pessoa é fadista desde os 15 anos. Sempre se cantou fado na família, portanto não foi uma surpresa que Joana se dedicasse a essa ‘herança’. Lembra-se da primeira noite que cantou em público e quando conheceu Amália Rodrigues no Clube de Fado, e outros fadistas mais velhos, como Alcino de Carvalho, Maria de Nazaré, e Beatriz da Conceição.

Mesmo as fadistas têm de ter uma profissão e, além do fado, Joana nunca foi mulher de um ofício só. “Eu queria trabalhar com crianças em situações de crise e fui para Relações Internacionais, para depois ser colocada numa Save the Children.” Apaixonou-se, casou com 20 anos e percebeu que a sua vida não ia ser a salvar crianças no outro lado do planeta. “Especializei-me em economia internacional e estava à espera de odiar tudo, mas, curiosamente, adorei.”

QUANDO A FADISTA VESTIU PRADA Voltemos ao fim do curso, com a Joana mãe duas crianças pequenas. “Eu queria ser mãe com tempo, mas também não queria ficar totalmente parada. Fiz investigação pedagógica na Faculdade de Ciências, trabalhei na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Espírito Santo, montei a minha empresa...” Eis que a Prada entra na sua vida. “A diretora da Louis Vuitton em Portugal na altura, a Alda Salavisa, com quem já tinha trabalhado, recomendou-me à Prada. Eu já detinha o franchising, em Portugal, da Farrutx, mas coincidiu com um período em que estava em casa com o meu filho mais novo, a gozar em pleno a maternidade. Fui à entrevista, não estava nervosa, achei que nunca me iriam escolher. Depois chamaram-me para ir a Milão. E qual é o meu espanto quando me dizem que tinha sido escolhida". Revelou-se uma parceria de sucesso. Foi diretora e brand manager da Prada experiência que adorou. Chegou a gerir uma equipa com 35 pessoas. “Muitas vezes o objetivo da empresa não é o objetivo da pessoa e entram em choque. Mas isto é um problema universal e ultrapassa-se. Foram muitos anos na Prada. Entrei quando abriu a primeira loja em Portugal, saí quando precisei de mudar de vida.”

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Ser diretora da Prada em Portugal mudou a sua relação com a moda, afirma “Aprendi imenso. Tinha a responsabilidade de zelar pela imagem da marca. Mas sempre fui muito discreta, na forma como me vestia e me apresentava.” PAIXÃO POR PORTUGAL Tem muitos outros projetos: um romance, um CD de fados tradicionais e letras suas, um de mantras em sânscrito, uma página de ioga, ‘namasté’. Mas o fado continua a ser na sua essência, onde canta o sentimento, os desgostos de amor, a saudade de alguém que partiu, o quotidiano e as conquistas. Afinal, os encontros e desencontros da vida são um tema infinito de inspiração o que lhe aquece a alma. E o seu sonho é trazer o presente das vidas de hoje para o passado do fado antigo. Joana escreve letras, quer para ela quer para outros cantores, onde as suas canções transmitem invariavelmente sentimentos. "Um xaile, uma guitarra portuguesa, uma voz e muito sentimento. Símbolo reconhecido de Portugal, esta simples imagem pode descrever o Fado, uma música do mundo que é portuguesa", Joana Pessoa.

"Um xaile, uma guitarra portuguesa, uma voz e muito sentimento. Símbolo reconhecido de Portugal, esta simples imagem pode descrever o Fado, uma música do mundo que é portuguesa".


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PATRÍCIA DE CASTRO GONÇALVES, UM EXEMPLO DE SUCESSO NO FEMININO Entre Portugal e Angola, assim é a vida de Patrícia de Castro Gonçalves reconhecida pelas mais distintas entidades. Parar não é opção e pretende continuar a trilhar o seu caminho com base nos conhecimentos e experiências que somou.

O AMBIENTE É O TEMA QUE A ENVOLVE NAS MAIS DIVERSAS FRENTES. SER ENGENHEIRA DO AMBIENTE NÃO ERA, ATÉ HÁ BEM POUCO TEMPO, UMA DAS PROFISSÕES MAIS PROCURADAS PELO GÉNERO FEMININO.

ATUALMENTE ESTÁ NA LINHA DA FRENTE DO GRUPO MONTE, UM CONJUNTO DE EMPRESAS CUJO CENTRO DA CRIAÇÃO DE VALOR ESTÁ VOLTADO PARA O COLABORADOR E NÃO PARA O ACIONISTA.

A sua formação académica foi na Universidade de Aveiro, que, na altura, ainda era uma Universidade recente, em comparação com outras em Portugal. Este facto facilitou a sua integração. O 1.º ano era comum aos vários cursos, o que também lhe permitiu fazer vários contatos, novos amigos e assim ultrapassar os desafios normais de quem sai pela primeira vez da casa dos pais. Engenharia do Ambiente não estava na moda, no entanto, quando entrou na Universidade, começava-se a falar que seria um curso com futuro. Não foi a sua primeira opção, contudo, assim que começou a estudar as disciplinas da área, ganhou motivação e hoje é feliz por ter seguido este caminho. Em 2001, entrou como estagiária no Grupo Monte. O Grupo Monte era constituído por várias empresas e ingressou numa de consultadoria ambiental. A empresa era muito jovem e estava na fase de arranque, pelo que foi interessante colaborar no desenvolvimento da estratégia, angariação de clientes e desenvolver uma equipa capaz de dar resposta aos desafios que nos eram colocados. O negócio foi evoluindo e Patrícia foi progredindo na carreira profissional. Em 2007 passou a Directora Técnica-Comercial da empresa e, em 2008, foi convidada a integrar o Conselho de Administração. Entretanto, fruto de reorganizações no Grupo, em 2009, passou a fazer parte da Administração das empresas da área de Ambiente. Atualmente, integra a Comissão Executiva do Grupo e é responsável pela área de Negócio de Ambiente. Quando entrou tratava-se de um grupo empresarial formado por colaboradores do sexo masculino e o fato de ter ajudado a criar uma área de negócio de raiz foi entusiasmante. Em pouco tempo, passou a contribuir com uma forte presença feminina nos projetos do Grupo. Nos vários projetos que tem participado, tem essencialmente lidado com interlocutores masculinos, no entanto isso permitiu-lhe ganhar mais à vontade e autoconfiança para expressar opiniões.

“Estar em cargos de gestão é desafiante e exige muito foco. Estou rodeada por uma equipa fantástica, o que também nos permite crescer mais e fazer coisas espetaculares! O mundo empresarial é muito exigente e obriga-nos a estar atentos e em constante evolução. Não existem rotinas e é bom chegar ao final do dia e concluirmos que o dia foi produtivo, conseguimos avançar com os temas em curso e evoluir rumo aos objetivos que definimos. A forma de gerir as pessoas é o que faz a diferença. Há uma participação real dos colaboradores na estratégia da empresa”, afirma Patrícia Gonçalves. Apesar do Grupo Empresarial ser maioritariamente constituído por homens, teve a sorte de trabalhar em empresas do Grupo onde lhe foi dada a oportunidade de progredir. As bases para poder crescer profissionalmente foi o facto de ser empenhada e desenvolver as suas atividades de forma profissional. A partir de determinada altura o seu trabalho começou a ser visto como importante e a acrescentar valor. “Para chegar até aqui tive que estudar muito, preparar-me bem para as reuniões, fiz muito investimento pessoal em formação pós-laboral (atividade que mantenho), “saber estar” e não me sentir inferior aos homens! Um factor também importante para o nosso desenvolvimento é termos um espírito aventureiro, procurar constantemente novas oportunidades e fazermos parte da solução para os desafios que todos os dias surgem. Gosto de novos desafios, o contato com várias realidades, sectores, países e culturas diferentes. Actualmente a minha actividade profissional divide-se muito entre Portugal e Angola. Trabalho com excelentes profissionais nos dois países e tenho muitos e bons amigos. Fascina-me ter a noção que para além da vida profissional, na qual coloco à disposição as minhas competências, existe uma outra vertente humana e de profunda amizade que nos acompanha ao longo da vida. É reconfortante e bom saber que somos reconhecidos como profissionais e como pessoas, e em alguns casos sermos tratados quase como família.”

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QUEM É QUEM

A LIDERANÇA NO FEMININO, NÃO SE EXPLICA, SENTE-SE Sou Empatia e Paixão: os dois ingredientes de uma lider no feminino. Soube-o mesmo antes de o saber.

Desde que tenho memórias, que o mundo das pessoas e das organizações trouxe consigo um especial fascínio. Pela complexidade, pelo lidar de emoções, pela surpresa, pelo dinamismo, pela criatividade, pela inconstância. Pela certeza de que, nessa realidade, não há dois dias iguais. Cresci, algures, entre a força da natureza de uma mãe empreendedora e o pragmatismo de um pai informático, quando ainda o mundo à minha volta estava longe de conhecer, e compreender, o seu alcance. Ambos líderes, no trabalho e na vida. De uma ética, sentido de missão e dedicação às suas causas inabaláveis, o que, confesso, facilitou ainda que nem sempre de forma consciente, o meu futuro. Entre essas lições que me eram proporcionadas nas longas refeições e nas viagens, uma frase sempre sobressaiu e me acompanhou: “Rita, sê simpática e correta com todas as pessoas com quem te cruzares na tua subida, pois são precisamente essas pessoas que encontrarás quando estiveres a descer”. Nada mais verdadeiro. Efetivamente muitas das nossas competências não surgem da escola que frequentamos mas de toda uma experiência que nos é proporcionada e absorvida e que nos aguarda cá fora. Pela família, pelos amigos, pelas opções das mais diversas atividades que escolhemos, ao longo deste percurso. Pelos locais para os quais escolhemos simplesmente olhar. Frequentei sempre o mesmo colégio, fui mantendo o meu leque de amigos ao longo do tempo, muitos deles, meus professores e que me guiaram e deram força nas minhas opções. Entre delegada de turma ao longo de 12 anos seguidos, a organização de atividades culturais na escola, associação de estudantes, trabalho durante as férias de verão, tudo isto faz parte do meu ADN natural. Nunca soube estar quieta. Aliás, inquieta-me estar quieta e sei que nem sempre terá sido fácil ser mãe ou pai, professor, amigo ou namorado, mais tarde marido ou filho, de uma alma em constante procura de algo novo para fazer. Inspirada por diversos autores, com a leitura e o ballet como grandes conselheiros e consumidores do meu tempo e da minha energia, a obra de Fernando Pessoa despertou sempre o meu lado mais criativo e rebelde relembrando constante-

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mente que “De tudo ficam três coisas: A certeza de que estamos sempre a começar…A certeza de que é preciso continuar…A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar. (…)”. A escolha de um curso foi um desses momentos conturbados. Devido à minha elevada média no ensino secundário, a pressão da família e dos professores para que ingressasse no curso de Medicina era constante. Se não fosse essa a minha vontade, então obviamente teria de ser Engenharia. E estive prestes a ceder, não fosse o coração apertadinho da minha mãe se ter imposto a que eu fosse livre na minha escolha. E assim optei por Psicologia, fiel aos meus sentimentos, fascínio pelas pessoas e pelas organizações, e que facilmente preencheu as minhas expetativas. Na faculdade, a mesma fórmula, dedicar-me aos estudos e objetivos, mas completando com todo um outro conjunto de experiências, organização de congressos, associação de estudantes, local, nacional, voluntariado. Sem dúvida que, quando partimos verdadeiramente para o mercado de trabalho não estamos todos no mesmo ponto de partida. Escolho a Ibersol para estagiar, a restauração, outra paixão de sempre. Foi, sem dúvida, das experiências que mais me marcaram. Logo no primeiro dia, fui rececionada no serviço de recursos humanos para ser informada de que as semanas seguintes seriam a aprender e a realizar tarefas de execução em cada um dos restaurantes do grupo: Burger King, Pizza Hut, KFC, Pasta e Caffe, entre outros. Confesso que na altura não vi a relevância desta forma de integração, mas, de facto, quando se assume um dia a liderança, faz a diferença. Nada como saber fazer quando se pede para fazer. A organização destes restaurantes é brilhante, impregnados pela filosofia Kaizen, qualquer pessoa consegue em 5 minutos confecionar uma pizza com a garantia do mesmo sabor, da mesma qualidade, da mesma experiência para o cliente, seja num shopping nos subúrbios ou numa loja na zona mais luxuosa de uma grande cidade, o que resolve os problemas de rotatividade de que este tipo de negócios são alvo. Transportar esta filosofia para a área hospitalar foi um dos grandes ganhos desta experiência. Nun-

ca mais vi o mundo de forma igual. Seguiu-se uma aventura pela indústria na área da extração e transformação de rochas ornamentais onde fui responsável por toda a gestão de recursos humanos. Sempre me habituei a ser a mais nova nos vários grupos onde estou inserida, o que por vezes dificultou, pela minha aparência, as minhas funções. Assim, quando dei por mim aos 22 anos, estava a viver sozinha em Boticas, a trabalhar num contentor com temperaturas negativas em pleno inverno rigoroso num ambiente de trabalho exigente e difícil e onde as práticas de higiene e segurança eram inexistentes. Ganhar a confiança dos profissionais, homens na sua totalidade, que ali trabalhavam, não foi tarefa fácil para uma jovem que lhes vinha mostrar uma nova forma de trabalhar, incompreensível para eles. Mais uma vez, foi estando no terreno, diariamente a partir das 07:30, acompanhando as suas tarefas (aprendendo mesmo a executar algumas), partilhando as refeições e as horas difíceis, que fez a diferença. Paralelamente à vida profissional, tinha outros sonhos e um deles era, sem dúvida, o de ser mãe jovem, pela energia que podemos despender, pelo acompanhamento que podemos dar, pela carreira que podemos percorrer sem a ver comprometida por este papel que a maternidade exige. E assim, aos 25 anos e com distância de apenas 11 meses, nascia o Ricardo e a Francisca. E passaria, inevitavelmente, a trabalhar por turnos e a viver diversos papéis em simultâneo. Tantos turnos quantos os diferentes papéis que viria a escolher. E foram, e são, alguns.

"(...) muitas das nossas competências não surgem da escola que frequentamos mas de toda uma experiência que nos é proporcionada e absorvida e que nos aguarda cá fora". 35


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Após uma licença de maternidade mais prolongada devido à proximidade das duas gravidezes, era então tempo de retomar os desafios profissionais. Após uma curta passagem como consultora de gestão de projetos de sistemas de informação hospitalar, assumi aos 27 anos, a Direção de um dos maiores serviços do Instituto Português de Oncologia do Porto. Uma equipa de quase 150 profissionais, numa cultura predominantemente de “funcionalismo público” e que contrastava com tudo o que tinha experienciado até então. Como implementar uma mudança cultural profunda em pessoas que se viam como tendo idade para ser a minha mãe ou o meu pai e que uma vez mais não compreendiam a necessidade de mudar? Coerência, justiça, integridade, ética, foram a chave para formar uma grande equipa e que esteve sempre ao meu lado. Equipa que me acompanha no coração até hoje. Houve claramente um antes e um depois e no meio estivemos todos nós. Passamos juntos por momentos de incerteza, com as mudanças tecnológicas e tendo ainda bem presente casos em que a tecnologia veio efetivamente substituir postos de trabalho humanos, as resistências naturais a estas mudanças sobressaíram da parte dos profissionais. E este sentimento era totalmente legítimo. Ter a oportunidade de trabalhar com profissionais excecionais e em equipas multidisciplinares como a de integrar o Health Parliament Portugal, foi outro marco na minha experiência. Fazer propostas para melhorar sistema de saúde, trabalhando com os decisores políticos e experts nas mais diversas áreas da saúde foi mais uma bênção no meu percurso. Amigos, mentores, colegas, que ainda me acompanham nas minhas grandes decisões. Efetivamente participar e saber retirar o melhor da experiência de cada pessoa com quem nos cruzamos, é um dom. Recentemente, fui nomeada para o Conselho de Administração de um centro hospitalar no norte do país, como desígnio último de deixar a instituição melhor à minha saída do que a terei encontrado quando cheguei. Perpetuando o princípio de que, é precisamente como deixamos as pessoas depois de terem uma experiência connosco, aquela que é a nossa imagem de marca, estes lugares conferem muitas vezes uma corrida contra o tempo, em que tentamos absorver a cultura, as práticas, a essência dos colaboradores para que possamos rapidamente receber e dar, construindo um caminho conjunto, fazendo a equipa acreditar que é sempre possível fazer melhor. Simplesmente, porque é. Através de formação, através de reconhecimento, através de partilha do risco, através de valorização. Se não apostarmos nas nossas pessoas a tempo, o tempo encarregar-se-á de nos as retirar.

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"(...) ter a porta aberta para escutar as nossas pessoas, mas garantindo o encontrar de soluções conjuntas para desenvolver a autonomia e a resiliência necessárias para ultrapassar as adversidades, tem de inevitavelmente fazer parte da nossa rotina inconsciente, como o simples respirar".

Para mim o dia de trabalho sempre começou cedo, por vezes, sem distinguir o final e o início de cada jornada e se vamos pedir algum esforço aos nossos colaboradores, temos de ser os primeiros a chegar, e de preferência, com uma caixa de pequenos doces para partilhar. E assim foram muitas as noitadas, muitos os fins-de-semana e muitas as reuniões. Sempre repletos de carinho, paciência, paixão. Porque é a paixão que nos mantém ligados aos projetos, às pessoas, mesmo quando as coisas nos correm mal, sejam projetos profissionais, sejam projetos pessoais ou mesmo de vida. Este sentido de responsabilidade e de respeito para com as nossas pessoas, com os nossos doentes e, quando ocupamos cargos públicos, com os contribuintes, torna a nossa missão mais nobre, mas mais exigente se queremos que os outros reconheçam e sintam a mudança como algo positivo e de valor. Se queremos seguir e ser seguidos. Se queremos dar, sem cobrar. Uma coisa é certa, sabemos que estamos a fazer um bom trabalho não pela quantidade de coisas que pedimos aos outros para fazerem, mas pela quantidade de coisas que são feitas sem o termos de pedi. Atualmente integro os Young Executive Leaders da International Hospital Federation. Um reconhecimento que resulta de toda a experiência que tentei partilhar. Somos 17 jovens de vários países, que pertencem, segundo dizem, à gera-


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ção dos Millenials, mas por muitos rótulos que nos coloquem, procuramos acima de tudo coisas simples: sentido de missão, respeito por nós e pelos outros e procuramos um sentido de ética inquestionável. Procuramos ainda um constante propósito para as coisas e para o que fazemos. Mas não será isso o que procura a maioria de nós? Efetivamente a tecnologia e forma de trabalhar mudou, e muito, mas os valores, esses, continuam os mesmos. Quem me conhece sabe. Os afetos, os carinhos, os abraços, a partilha, contam e muito. Percorrer os corredores, reconhecer um sorriso ou lágrima, ter a porta aberta para escutar as nossas pessoas, mas garantindo soluções conjuntas para desenvolver a autonomia e a resiliência necessárias para ultrapassar as adversidades, tem de inevitavelmente fazer parte da nossa rotina inconsciente, como o simples respirar. Não pode ser forçado, não pode ser programado, tem de ser sentido. Como Scott Fitzgerald referiu: “Ser atencioso é mais importante do que se estar certo. Muitas vezes o que as nossas pessoas precisam não é de uma mente brilhante que fala, mas de um coração especial que as ouve”. Assim é também liderar, algo que não se explica, sente-se. E uma coisa é certa, não se é líder por decreto, mas sim pelo exemplo e pelo carácter. E isso não se copia.

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QUEM É QUEM

“A VIDA É UM MAR DE OPORTUNIDADES QUE DEVEM SER AGARRADAS COM TODAS AS SUAS FORÇAS PORQUE É ESSA FORÇA QUE FAZ DA MULHER UM SER DIFERENCIADOR” Mas quem é Sofia Tavares? De sorriso fácil e dotada de uma energia contagiante

Sofia Tavares nasceu num bairro degradado de Lisboa, sempre dotada de uma atitude determinada que nunca a fez desistir dos seus sonhos. A sua história de vida, inspiradora, leva muitas mulheres e homens a nunca desistir dos seus sonhos. Atualmente é a mentora da Be Present, uma empresa que atua na ativação da marca do cliente, desde a criatividade às soluções de materiais e à formação comportamental. A motivação diária para com a sua equipa e a constante presença positiva na dinamização dos projetos dos clientes fazem jus ao nome da sua empresa. Na área de consultoria e assessoria de eventos sente-se como “peixe na água”. Contorna os obstáculos transformando-os em oportunidades, com o objetivo de vencer. “Enquanto mulher, gosto de desbravar o mundo, de lutar pelos meus objetivos e acredito, acima de tudo, que com honestidade, lealdade e humildade tudo é passível de acontecer. Sou apaixonada pela vida, pelas relações humanas, adoro comunicar e aprender. Sou fiel aos meus princípios e aos meus verdadeiros amigos, sou um pouco teimosa, chata e muito persistente. Acredito que o poder das escolhas é a chave imprescindível para atingir qualquer objetivo, seja ele pessoal ou profissional. Enquanto empresária, sou uma pessoa presente e sempre disponível para fazer acontecer. Para mim, a forma como desempenho as minhas funções e faço a gestão dos projetos dos meus clientes assume, na minha vida, uma importância fundamental porque acredito que trabalhar em equipa é a matriz para almejar o sucesso. Trabalho arduamente para não defraudar expectativas dos meus clientes, para concluir os seus projetos de forma coerente, eficaz e com qualidade. Gosto que me desafiem, gosto de ajudar e acredito que tudo o que me pedem é realizável e faço o que for preciso para que sejam uma realidade! Às vezes falho, mas sei reconhecer os meus erros

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e tento corrigi-los de forma a não prejudicar o cliente. A Be Present representa-me enquanto profissional e enquanto ser humano, mas não só a mim. Representa toda uma equipa/parceiros que trabalha em prol da satisfação do cliente, por isso, posso dizer que somos o presente que os nossos parceiros e clientes precisam, ao mesmo tempo que fomos sempre o futuro que eles procuram. Em qualquer lado. Em qualquer altura. Imperfeitos seres-humanos, teimosa e humildemente à procura da perfeição das coisas. Obstinados, focados, profissionais indomáveis, cientes de que não existem valores maiores do que a lealdade, a dedicação a ética e o brio de ser feliz e fazer feliz. O nosso know-how cresce, sorri e aprende de mãos dadas com os desafios e necessidades de quem nos escolhe.”

“Enquanto mulher, gosto de desbravar o mundo, de lutar pelos meus objetivos e acredito, acima de tudo, que com honestidade, lealdade e humildade tudo é passível de acontecer.


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QUEM É QUEM

DO FADO À SOLIDARIEDADE Katia Guerreiro, em conversa com a revista Liderança no Feminino, fala do caminho que percorreu entre a medicina e o fado. Pelo meio, encontrou o sucesso e escolheu cantar.

DA MEDICINA AO FADO. Sempre assumindo a medicina como a sua vocação, Katia conta-nos que foi aquando do nascimento da sua filha, há 7 anos, que deixou de exercer. A certa altura, apesar dos esforços de conciliação, foi percetível que as duas atividades eram incompatíveis. Assumindo o fado a full time da sua agenda e espaço integral no seu coração. Apesar de dividir a sua vida entre as duas paixões, assume que o fado trocou-lhe as voltas, sendo hoje uma das mais internacionais fadistas portuguesas. Entre a grande riqueza lírica, Katia conta com uma série de álbuns publicados, como “Fado Maior” (2001), “Nas Mãos do Fado” (2003), “Tudo ou Nada” (2005), “Fado” (2008), “Os Fados do Fado” (2009), “Até ao Fim” (2014) e “Sempre” (2018), entre outras compilações e participações especiais. Graças à sua formação na área da Medicina, há sempre questões que algumas pessoas esperam que Katia ajude a esclarecer. De forma a dar a resposta mais segura e fidedigna a quem a procura, afirma que acaba por recorrer a colegas que estão atualizados e em quem tem muita confiança, pela sua qualidade clínica e humana. A estes, Katia quer transmitir-lhes a sua profunda solidariedade. No que respeita à mudança no seio familiar nestes tempos incertos que vivemos com a pandemia, reconhece, estar a viver, como todos, dias estranhos, em que de repente se viu 24 horas rodeada da família, diáriamente. Sente que estão a criar laços mais profundos entre todos e, até, a conhecer melhor os limites de cada um. O FADO À DERIVA Katia Guerreiro é, atualmente, uma intérprete consagrada e reconhecida como embaixadora da música portuguesa, tendo recebido o prémio Personalidade Feminina 2005. Uma das mais belas vozes portuguesas afirma que também sente os dias penosos do isolamen-

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to social. Neste momento, confessa que não tem qualquer estratégia para o futuro. A sua atividade profissional cessou antes de todas as outras cessarem. E será, infelizmente, a última a ser retomada. Partilha que, como tantos portugueses, a sua preocupação é tentar cumprir com todas as suas obrigações fiscais e compromissos financeiros. Não tendo qualquer rendimento, e não se enquadrando em nenhuma das medidas anunciadas pelo governo até ao momento, diz que vai gerindo, a situação da melhor forma que consegue. RESILIÊNCIA, ACEITAÇÃO E COMPAIXÃO Para Katia, este é um tempo em que somos colocados à prova a todos os níveis. A nossa resistência, aceitação e compaixão podem ditar a força do que somos realmente feitos. Não é um tempo para baixar os braços, mas sim para lutar com verticalidade, para que, ultrapassada esta primeira fase de crise, sejamos capazes de nos reinventar e recriar o nosso mundo. Para a fadista, todos temos uma força estranha que nos move, muitas vezes escondida por detrás dos medos. Mas existe!

No que respeita à mudança no seio familiar nestes tempos incertos que vivemos com a pandemia, reconhece, estar a viver, como todos, dias estranhos, em que de repente se viu 24 horas rodeada da família, diáriamente. Sente que estão a criar laços mais profundos entre todos e, até, a conhecer melhor os limites de cada um.


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UM BRINDE AO ALENTEJO O terroir alentejano ressalta no estilo dos vinhos que se produzem na Quinta da Plansel. Com uma herança familiar vitivinícola que remonta a 1828 e que trouxeram para Portugal, o negócio segue às mãos das mulheres da casa. Numa visita à quinta, em Montemor-o-Novo, o enoturismo e a galeria de arte completam a experiência.

O LEGADO DA QUINTA DA PLANSEL JÁ TEM MAIS DE UM SÉCULO. COMO ANALISA A CRESCENTE PRODUÇÃO E VALORIZAÇÃO DOS VOSSOS VINHOS?

Dorina Lindemann e as minhas duas filhas, Julia Lindemann e Luísa Lindemann.

É verdade, a Quinta da Plansel já conta algumas gerações. Foi o meu pai que começou esta aventura em Portugal, em 1975, quando veio para cá estudar as castas portuguesas. Eu vim mais tarde com o sonho de fundar a adega, corria o ano de 1997. Os nossos primeiros vinhos foram criados com castas alentejanas, como é o caso do Aragonês e da Trincadeira. No entanto, fruto da nossa tradição viveirista e investigação acerca da vinha portuguesa, depressa percebemos que as castas do norte tinham grande potencial no Alentejo. Em 5 anos mudámos o estilo dos nossos vinhos. A Touriga Nacional começou a fazer parte da família e ganhou protagonismo na nossa adega e vinha, ocupando 62% das videiras plantadas na propriedade. Deixámos de elaborar cuvées e passámos a elaborar vinhos monovarietais de castas nativas. Se tivesse que identificar o fator verdadeiramente diferenciador nos nossos vinhos diria que é, sem dúvida, o terroir que encontramos em Montemor-o-Novo. As características naturais destes 65 hectares têm um grande potencial enológico e nós temos tentado tirar partido destas condições excecionais. Fico contente por conseguir transparecer isso nos nossos vinhos!

COMO ANALISA A AFIRMAÇÃO DO SETOR VINÍCOLA PORTUGUÊS, A NÍVEL INTERNACIONAL?

QUAIS OS VINHOS “PREMIUM”? Na Quinta da Plansel trabalhamos sempre para a qualidade, pelo que encontramos vinhos bastante distintos e expressivos nas diferentes referências do nosso portefólio. Nesta pergunta, talvez destaque a gama Family Estate, com os respetivos nomes de cada membro da família:

O setor vinícola nacional tem crescido bastante nos últimos anos em qualidade, sobretudo, mas também em reconhecimento internacional. O vinho português não era muito conhecido lá fora e a exportação era muito baixa, até há poucos anos. Hoje, a aceitação internacional aos nossos vinhos é enorme e as exportações, felizmente, revelam-no. Já podemos afirmar de peito aberto que - temos bons vinhos. Num país tão pequeno encontramos uma diversidade riquíssima de terroir e os nossos profissionais são muito competentes. Nunca cansa reforçar esta última parte, porque faz a diferença!

SEDIADA NUM LUGAR SUBLIME NA REGIÃO DO ALENTEJO, A QUINTA DA PLANSEL AFIRMA-SE NO MERCADO DO ENOTURISMO. AS VISITAS LEVAM OS VISITANTES A UMA EXPERIÊNCIA ÚNICA. ESTE CONCEITO DIFERENCIADOR ELEVA AS POTENCIALIDADES NO CONHECIMENTO DE TODAS AS FASES DE PRODUÇÃO DO VINHO? Sim, na Quinta da Plansel o enoturismo tem uma grande importância. Procuramos que as nossas visitas sejam uma imersão no ciclo do vinho e, por isso, tentamos demostrar todas as etapas, desde a planta até ao copo. Os visitantes podem experienciar a nossa enxertia – onde tudo começa, caminhar pela vinha, passar pelos tanques de fermentação e pela sala das barricas, onde é dada toda a explicação sobre a execução e a história dos

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Luísa Lindemann, Dorina Lindemann e Júlia Lindemann

nossos vinhos. Por fim, para completar a experiência, não há nada melhor que provar os vinhos da casa, acompanhados por outras iguarias alentejanas.

casta que será capaz de se defender de qualquer fungo naturalmente, sem tratamentos químicos. É uma casta Piwi a quem o meu pai decidiu chamar “Defensor”, pela sua capacidade guerreira.

ATUALMENTE, QUAL O MAIOR PROJETO DA QUNTA DA PLANSEL?

GOSTARÍAMOS QUE FIZESSE UM CONVITE PARA QUE AS NOSSAS LEITORAS CONHECESSEM A QUINTA DA PLANSEL.

De momento o nosso maior projeto é a sustentabilidade. Para isso, temos feito algumas mudanças mais imediatas no dia-a-dia da quinta, mas também estudado alternativas para reduzir o uso de fitofarmacêuticos e outros materiais nocivos na produção de vinho. Este ano, implementamos painéis fotovoltaicos na quinta e já poupamos cerca de 40%. Além disso, estamos a aperfeiçoar uma nova

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Eu acredito que a Quinta da Plansel é um lugar muito especial e que mostramos, porque é que há tantos anos nos rendemos ao Alentejo. Paisagens lindas e serenas, uma adega em pleno funcionamento, uma enxertia repleta de rostos simpáticos e uma maravilhosa galeria de arte, curada pelo meu pai ao longo dos anos, reunindo diferentes estilos artísticos. Além disto, estão


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claramente as pessoas. Aqui serão recebidas como em casa, por uma equipa familiar, onde a harmonia e a amizade prevalecem.

A LIDERANÇA FEMININIA ESTÁ NA ORIGEM DO SUCESSO DA QUINTA DA PLANSEL? Embora o sucesso da Quinta da Plansel esteja em diferentes fatores, acredito que a liderança feminina possa ter dado um contributo essencial para este projeto ser como o conhecemos hoje. Começamos a família Plansel com apenas 4 mulheres, mas hoje somos bastantes mais. Em todo o caso, mais do que a quantidade, a qualidade e profissionalismo das pessoas que temos connosco é que a verdadeira origem do sucesso da Quinta da Plansel.

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INSTAGRAM COM VULNERABILIDADE QUE COLOCARIA EM RISCO A SEGURANÇA DE MILHÕES DE UTILIZADORES O aproveitamento desta vulnerabilidade por cibercriminosos transformaria os smartphones em autênticas ferramentas de espionagem, ao conceder acesso a serviços de localização, microfone, câmara, armazenamento e contactos, entre outros.

Investigadores da Check Point® Software Technologies Ltd. (NASDAQ: CHKP), fornecedor líder global de soluções de cibersegurança, analisaram a segurança da aplicação móvel do Instagram, para ambos os sistemas operativos Android e iOS, descobrindo uma vulnerabilidade crítica de Remote Code Execution (RCE), que, sendo explorada, permitiria ao ciberatacante a realização de qualquer ação que se incluísse na ampla gama de permissões de que dispõe a rede social, colocando em risco a privacidade de milhões de utilizadores. O crescente espaço e importância que os dispositivos móveis têm ganho nas nossas vidas trouxe aos seus utilizadores, essencialmente,

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aspetos positivos, como a maior facilidade em manter contato com famílias e amigos ou a possibilidade de trabalhar a partir de qualquer lado. Contudo, o número de funcionalidades que um dispositivo móvel como o smartphone oferece facilita igualmente o trabalho dos cibercriminosos que, implementando com sucesso operações maliciosas, conseguirão não só roubar dados e informações sensíveis, como recolher a localização dos utilizadores, ouvir as suas conversas e aceder às suas mensagens. A porta de entrada a que recorrem os cibercriminosos para alcançar os dispositivos passa, frequentemente, por aplicações, pela grande extensão de permissões de que estas gozam. O Instagram é exemplo de uma das aplicações que conta com


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O Instagram é exemplo de uma das aplicações que conta com maior extensão de dados pessoais a que acede: câmara, microfone, contactos, localização, entre outros.

maior extensão de dados pessoais a que acede: câmara, microfone, contactos, localização, entre outros. Sendo ainda uma plataforma amplamente utilizada a nível global – com quase mil milhões de utilizadores ativos por mês e mais de 100 milhões de fotos partilhadas todos os dias – o Instagram torna-se, assim, um meio bastante apetecível aos cibercriminosos.

AS CARACTERÍSTICAS DO POTENCIAL ATAQUE Aproveitando-se desta vulnerabilidade, o atacante poderia simplesmente enviar uma imagem à sua vítima via email, Whatsapp ou qualquer ou-

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tra plataforma que o permita. O ataque tem início quando o utilizador guarda a imagem no seu dispositivo e abre, posteriormente, o Instagram, concedendo acesso total a qualquer recurso a que a app tenha permissão para aceder. Entre estes recursos, constam contatos, armazenamento do dispositivo, serviços de localização e a câmara. O dispositivo transforma-se assim, neste cenário, na ferramenta perfeita de espionagem, uma vez que permite a realização de ações maliciosas sem o conhecimento do seu alvo. Perante esta descoberta, a Check Point informou a equipa do Facebook e Instagram, que descreveu a vulnerabilidade como uma “Integer Overflow leading to Heap Buffer Overflow”, dispondo-se prontamente a remediar o problema, através da emissão de um patch para as versões mais recentes da aplicação dirigida a todos os sistemas operativos. Sobre a operação de análise conduzida pela Check Point, uma das porta-vozes do Facebook afirmou: “Resolvemos o assunto e não denotámos qualquer

evidência de abuso. Estamos agradecidos à Check Point por contribuir para a segurança do Instagram”. O patch para esta vulnerabilidade foi disponibilizado seis meses antes das conclusões deste estudo serem divulgadas, no sentido de dar à maioria dos utilizadores a oportunidade de atualizar a aplicação do Instagram e, assim, mitigar os riscos introduzidos por esta falha de segurança. A Check Point alerta para a importância de ter as aplicações e programas móveis constantemente atualizados, reforçando a importância de contar com soluções como o SandBlast Mobile da Check Point, que oferecem uma visibilidade total para os ciberriscos, bem como capacidades avançadas de prevenção contra ameaças. Com a maior taxa de deteção de ameaças do mercado, os utilizadores do SandBlast Mobile estão protegidos de ataques mlaware, phishing, Man-in-the-Middle, exploits de sistema operativo, entre muitos outros.

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TECNOLOGIA NO FEMININO:

UM MOTOR DE DESENVOLVIMENTO E CRESCIMENTO SOCIAL E EMPRESARIAL Sílvia Garcia, Diretora do INCMLab - Imprensa Nacional Casa da Moeda

A sub-representação de género nas áreas Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) é uma realidade não só nacional, mas também mundial. Uma situação derivada da perpetuação de estereótipos, muitos dos quais não reconhecidos conscientemente, sobre capacidades e competências inatas a cada género, áreas de atuação das STEM, o que condiciona a formação académica e respetivas carreira.

crise mostram que 55% do desemprego registado atingiu as mulheres, e todos os indicadores assinalam que as mulheres e minorias étnicas poderão ser os grupos mais atingidos a longo prazo pelo desemprego. Quase 50% das mulheres com nível de escolaridade médio correm grande risco de que seus empregos sejam automatizados, em comparação com 40% dos homens. Esse risco é de 1% para as mulheres com formação superior.

Há muito que trabalhamos para ultrapassar o desequilíbrio de género. No caso da INCM - Imprensa Nacional Casa da Moeda temos exatamente uma divisão igualitária entre colaboradores homens e mulheres (50%-50%) e 65% dos cargos diretivos são detidos por mulheres. Porém, esta realidade é a excepção e não a regra no contexto empresarial português, seja no universo de empresas públicas ou privadas.

Por isso cabe à academia e investigação disruptiva ajudar o país e a Europa a ultrapassar a situação atual, saindo da crise mais fortes, mais resilientes, com menos desequilíbrios. Em momento algum podemos desperdiçar capital e conhecimento humano e, em especial, no momento que atravessamos. Se não existir uma representação feminina equilibrada, se não estiverem presentes de forma ativa e participativa nas empresas, no desenvolvimento tecnológico, no futuro da nossa economia estamos a desperdiçar capital humano fundamental para a construção da nova realidade. O não aproveitamento desse capital humano faz-nos perder competitividade internacional, capacidade de adaptação e crescimento económico e social.

O cenário atual traz desafios adicionais nesta equação da igualdade de género. Ao contrário de outras crises que o país e mundo atravessaram no passado, a crise atual reveste-se de características únicas, nas quais se vislumbra que recuperação económica e social não incluia um aumento das forças de trabalho. Os dados iniciais desta

Não recusamos o nosso papel neste desenvolvimento, queremos ser uma força motriz na construção do futuro. Uma das formas é através do Prémio IN3+, que tem como objetivo atribuir um prémio até 1 milhão de euros a ideias e projetos nas áreas das tecnologias de produção e de materiais, nanotecnologia, TIC, robótica e automação. Outra é através de um ciclo de webinars onde nos propomos debater os temas prementes da sociedade com ligação direta às nossas áreas de atuação. Assim, surgiu o webinar “Tecnologia no Feminino”, onde abordámos as questões relacionadas com a representatividade feminina nas áreas STEM (em português: Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e todos temos um papel a desempenhar para desmistificar esses estereótipo profissionais e o foco de trabalho neste campo. Deste modo, é vital promover a partilha de exemplos e testemunhos que fujam dos estereótipo e tornem essas experiências próximas das camadas mais jovem da população, para que se sintam inspiradas e incentivadas a entrarem no universo da inovação e tecnologia, de modo a minimizar as barreiras estabelecidas e destruindo ideias preconcebidas.

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Profile for Sandra Arouca

Liderança no Feminino - Setembro 2020  

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