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LIDERANÇA NO FEMININO | Julho de 2019

lorização de soft-skills. Os talentos, encontram-se; as competências, desenvolvem-se; já a paixão, vem de dentro! A nossa “Cultura de Mar” leva-nos a privilegiar o “sangue na guelra”, o resto vamos desenvolvendo com base na cumplicidade e afetos. Temos uma política de desenvolvimento pessoal e profissional que suporta os valores da inclusão no seio da nossa equipa. Preocupamo-nos com o desenvolvimento das pessoas e não as metemos em caixinhas. Não mediatizamos quantas mulheres temos nos quadros da empresa, se empregamos ou não pessoas com deficiência, emigrantes, refugiados, etc.. Estatísticas para demonstrar cumprimento de metas são exercícios de redução das pessoas a números. Preservar a economia azul significa... Reparar os problemas, criando valor para aqueles com quem partilhamos o planeta. Da literatura às engenharias… como é que conjuga a sua formação de base humanista com a liderança de uma empresa de base tecnológica? Quais os desafios? Objetivamente, com trabalho de equipa, no qual a formação académica e as características pessoais de cada um constituem partes integrantes e complementares do todo que somos. Nós, Bluegrowth, possuímos várias áreas de atuação: a tecnologia é a base, faz parte das soluções que oferecemos. No entanto, a nossa visão, os valores que nos unem, são consonânticos com a diferença que queremos fazer acontecer, com o nosso comprometimento para com a sustentabilidade. Ainda que grande parte dos desafios que se nos colocam sejam, aparentemente, especialmente vocacionados para a área das ciências naturais ou da engenharia, não nos podemos esquecer que as pessoas estão no centro daquilo que fazemos. Produzimos tecnologia com pessoas e para pessoas. O meu contributo vai nesse sentido. As questões técnicas, específicas de cada área científica, têm os seus especialistas. Eu compreendo como funciona um processo produtivo em aquacultura, por exemplo, mas sou incapaz dominar as especificidades que dizem respeito aos domínios de conhecimento da biologia marinha. Só que, em qualquer solução ou qualquer projeto, deve existir uma visão holística, aliás, é uma tendência cada vez maior a da intervenção das humanidades e das ciências sociais nos mais diversos projetos de diferentes áreas.

Ser presidente da Bluegrowth representa... Um compromisso perante a sustentabilidade. Desde que me lembro de ouvir falar sobre alterações climáticas, aí pelo início dos anos 80, que nunca mais deixei de me inquietar com esses assuntos e de tentar fazer a diferença, de dar a minha contribuição individual para minorar impactos. A humanidade foi inconsequente na exploração dos mares e da terra e estamos a pagar por isso, com a ameaça da própria extinção do planeta, tal como o conhecemos. O oceano é o verdadeiro berço da humanidade e a água é vida! Liderar um projeto que tem como foco esta premissa é um grande orgulho pessoal. As pessoas são a base de tudo, e aquilo de que as pessoas são feitas é que faz a diferença. E na base está a educação, seja a formal seja a informal. A igualdade de género, por exemplo, passa muito pela educação. Hoje é um facto que as mulheres conseguem desempenhar as mesmas funções que os homens só que, pelos motivos histórico sociais que todos conhecemos, tal tem-lhes sido vedado e tem levado o seu tempo. Sou mulher, mãe, esposa, professora, presidente executiva da Bluegrowth e par de muitas outras mulheres como eu. Considero importante termos visibilidade, porque isso comprova que somos capazes, porque pode servir para aplacar inseguranças àquelas que ambicionam mais, porque pode demonstrar que é possível. O facto de também estar ligada à educação num local em que domina a interculturalidade, num contexto complexo quer económico quer social quer de índole humana, tornou-me muito próxima de uma realidade onde o espaço é o do respeito pela diferença, da aceitação do outro, da inclusão. Os ambientes mais carenciados propiciam maiores clivagens sociais, por isso, a educação é uma parte fundamental. Há mulheres anónimas, verdadeiras heroínas que, contra ventos e marés, asseguram sozinhas o futuro dos filhos, mantêm profissões mal remuneradas e estudam à noite para melhorar as suas condições de vida. Para elas tudo é mais difícil. Mas elas são uma inspiração para mim, porque por muito difícil que me seja conciliar mundos diferentes, tenho sempre presente esse exemplo que elas representam. Para mim, a conciliação do mundo profissional com o familiar também não é fácil, como também não é fácil viver! Ntão sou especialmente disciplinada, sou mais do tipo passional… é um bocadinho como uma montanha russa, calmo numas partes e intenso noutras… Não tenho receitas, não sigo receitas, vou pelo coração. No limite, são os afetos que dominam o mundo.

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Profile for Sandra Arouca

Liderança no Feminino - Julho 2019  

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