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um ano de

instigante, inspiradora, irreverente


Política


Perfil

dilminha Calada, mais puxada para intelectual e com frequência escalada para segurar vela, a presidente do Brasil teve adolescência de anos dourados na fina flor da sociedade belo-horizontina. Amigas da época lembram dessa vida de bailinhos com cuba libre e Ray Conniff na vitrola por_Nirlando beirão


Dilminha e uma colorida corbeille de demoiselles na festa de 15 anos da amiga IeiĂŞ


Perfil

Ah, as mulheres... Uma sessão rápida de make, especial para LOLA, pouco antes de entregar o apartamento funcional onde viveu por 16 anos

e agora, marina?

A mulher que conquistou quase 20 milhões de votos nas eleições presidenciais está em busca de novos trabalhos e diante de questões quanto a seu futuro político. "Duvido muito de quem não tem dúvidas", diz POr_BRUNO WEIS • FOTOS_ROBERT ASTlEY SPARKE


make beterraba Alérgica à maioria dos cosmésticos, Marina não usa batom. Aplica beterraba nos lábios. Corta o vegetal em pedaços e passa o suco na boca. Na pele, base francesa de dois tons, pó e blush cremoso. Só pode usar spray nos cabelos se ele for antes borrifado em um pente, bem longe dela. “Testamos várias marcas. Não podemos usar lápis e rímel de jeito algum”, conta a maquiadora Olívia Leão, da equipe responsável pelo make dela na campanha, agora adotado em sua versão pessoa física. (POR CAROL VAISMAN)

M

arina Silva, de 52 anos, está numa daquelas encruzilhadas em que volta e meia muitos de nós nos encontramos, naquele momento em que se olha para a frente e aparece a pergunta: “E agora?”. Nas últimas eleições, ela colocou pela primeira vez um partido pequeno no patamar de 20 milhões de votos em uma disputa presidencial e forçou um segundo turno. Ex-ministra, ex-senadora, laureada com um punhado de prêmios internacionais por causa de sua militância pelo desenvolvimento sustentável, é agora uma mulher diante de várias dúvidas, inclusive no que diz respeito a seu futuro político. “Como cidadã comum, vou continuar atuando politicamente. Mas não sei ainda como vou integrar minha dedicação ao PV, ao movimento social, a mim mesma, aos meus estudos e à minha família. Só sei que preciso fazer isso de uma maneira equilibrada.” É um hiato comum na carreira de políticos depois de campanhas intensas ou longos períodos em car-

gos importantes. O que deixa a coisa interessante é que Marina não se nega a falar de seu divã imaginário. Vai de frases estilo autoajuda, como “duvido muito de quem não tem dúvidas”, a sentenças francas: “Claro que temos medos comuns, tipo como pagar as contas no fim do mês. Mas vivemos modestamente, então não há de ser difícil”. A mulher de quase 20 milhões de votos (mais exatamente 19 636 359) está em busca de novos trabalhos. Tem uma poupança e um plano de previdência privada, mas não pretende mexer neles agora. Deixou o Senado em 31 de janeiro. Já tinha decidido, muito tempo antes, a não concorrer a um terceiro mandato. Em dezembro de 2010, quando paulatina e preguiçosamente o Congresso vai se esvaziando de parlamentares (sejamos justos: estavam todos na labuta na sessão que definiu o aumento dos próprios salários), caminhava devagar pelos corredores da Casa. A bolsa preta e pesada onde carrega a Bíblia parecia atrasar ainda mais seu passo. Havia um quê de enfado, também, no arrastar da senado-


Sociedade

tudo o que ela toca vira ouro Mais popular do que o marido, Michelle Obama virou uma máquina de gerar dinheiro para grifes. Imitada pelas americanas, ela rende US$ 2,7 bilhões para a indústria da moda da maior potência mundial POR_LÚCIA GUIMARÃEs, de NOVA YORK

M

ichelle Obama é hoje uma usina geradora de boa vontade e dólares. Muitos e muitos dólares. US$ 2,7 bilhões, mais precisamente. Estudo recém-publicado pelo economista David Yermack, da prestigiada Stern Business School, da New York University, crava que esta é a quantia que a popular primeira-dama americana rendeu às grifes de roupas e acessórios que escolheu para usar em suas quase sempre vistosas aparições em público — e isso só até o fim de 2009, o primeiro ano da administração de Barack Obama. Desde Jackie Kennedy, na década de 60, uma primeira-dama não tornava tão próxima a relação entre moda e poder. Mas, ao contrário da adorável diletante Jackie, Michelle sabe o efeito que causa. Exemplo de elegância segundo todos os editores de moda do país, ela é presença constante nas listas de personalidades mais bem-vestidas do mundo. Mas o “Efeito Miche-

le”, detectado no estudo de Yermack, se deve à particular capacidade de alavancar vendas como nenhuma outra. E o que, afinal de contas, explica todo esse poder fashion? Em entrevista a LOLA, o economista aponta as razões desse tsunami americano. Em primeiro lugar, explica o acadêmico, Michelle transmite uma espontaneidade valiosa em uma indústria que gasta fortunas para associar celebridades a roupas. “Como uma primeira-dama não é paga para endossar este ou aquele estilista, o consumidor dá maior valor ao que considera uma escolha sincera”, explica Yermack. Em segundo lugar: por conta de suas características físicas, Michelle gera empatia maior com as consumidoras que querem imitá-la. Musculosa, mas com os quadris largos da maioria das mortais, ela é para o público médio uma modelo mais eficiente que uma subnutrida Kate Moss. E, última e boa razão: Michelle teve a esperteza de levar para as solenidades oficiais da Casa Branca a estética hi-lo,


Vingança gostosa

Efeito Michelle: em época de desemprego recorde, ela é elegante o suficiente para usar peças acessíveis. Todas copiam...

Em 1981, a mãe de Catherine Brown, colega de quarto de Michelle Lavaughn Robinson no dormitório da universidade de Princeton, reclamou: não era de bom-tom que sua filha, entre tantos herdeiros de famílias poderosas, passasse o ano letivo convivendo justamente com uma das 94 calouras negras da instituição. Corta. Há dois meses, Michelle, agora Obama, diplomada por Princeton e Harvard, foi eleita pela revista Forbes a mulher mais influente do mundo. A publicação apontou a capacidade de "tomar conta do cargo de primeira-dama" e de "manter a popularidade ascendente" como grandes trunfos de Michelle. É uma equação que transforma a mãe de Malia e Sacha em uma mulher com carisma suficiente para empreender grandes cruzadas. Uma delas: à frente da campanha Let`s Move, contra obesidade infantil, a senhora Obama arrancou de empresas como Coca-Cola, Kellogg's e General Mills a promessa de reduzir as calorias de seus produtos até 2015.


Economia


Poder

Ela e os lobos

Um cérebro feminino chega à direção do Fundo Monetário Internacional. Christine Lagarde diz que leva sua experiência de advogada, ministra, executiva – e de mulher. O que isso quer dizer ?? Barras de ouro, moedas, papéis na bolsa, juros são objetos que a mulher maneja com mais habilidade do que os grosseirões que, apesar de dirigirem há mais de 70 anos o FMI, acumularam crises financeiras? por_Gilles lapouge

O

Fundo Monetário Internacional gosta dos homens, dos machos. Na sala das máquinas do FMI, que ronrona silenciosamente na Avenida Pensilvânia, em Washington, a dois passos da Casa Branca, todos os comandos estão nas mãos de seres vestidos de preto e engravatados, alguns calvos e outros peludos, bigodudos ou de cara lavada, mas todos pertencentes à valorosa espécie masculina, para não dizer machista. Desde 1944, o diretor-geral sempre foi um homem. Se procurarmos bem, vamos descobrir que em 2001 uma mulher foi diretora, Anne Krueger, mas ela foi apenas diretora adjunta. Relaxem. E, depois dela, o FMI logo retornou à sua rotina: somente um cérebro de homem está apto a organizar as complicadas finanças do mundo. Ora, eis que no dia 29 de junho de 2011, uma revolução explode. Um cérebro de mulher che-

ga à direção do Fundo. Esse cérebro é francês. Ele pertence a Christine Lagarde, ministra das Finanças, que antes dirigiu em Chicago o escritório de advocacia Baker & McKenzie. Ela sucede outro francês, Dominique Strauss-Kahn, cuja trajetória no comando do FMI foi brutalmente interrompida – não por causa do dólar ou do iene, mas por causa do sexo. Quer dizer: se uma mulher chega finalmente ao comando do FMI, é por causa do comportamento machista (para não dizer pior) de seu predecessor. Eis aí um lindo símbolo! Uma história situada bem no centro dessa fascinante, maravilhosa e terrível relação que, desde a Idade da Pedra, o sexo feminino e o masculino mantêm. Para que o homem transmitisse (contra sua vontade) o posto a uma mulher, foi preciso que outra atriz representasse nesse drama um papel misterioso, obscuro e decisivo, Nafissatou Diallo, mulher sobre quem ignoramos tudo – menos que foi sua feminilidade que acarretou


Alta, elegante, voz suave, atÊ mesmo engraçada, ela entendeu que sua estranha entrada na fortaleza do poder masculino tem um sentido na epopeia do feminismo. Mas Christine Ê feminista?


Poder

AS Mulheres mais ricas do mundo... ... são chinesas. Elas saíram da pobreza extrema, pegaram carona no acelerado crescimento econômico do país e hoje contam seu patrimônio aos bilhões

T

ao Huabi é uma mulher que faz valer a máxima milenar de que aparências enganam. À primeira vista, é uma senhorinha chinesa comum de 64 anos que se veste humildemente e tem a fala mansa de seu vilarejo natal. Nunca foi à escola. Não sabe ler nem escrever. Mas essa mulher acima de qualquer suspeita é dona de um império: a empresa Lao Gan Ma, gigante fabricante de molhos de pimenta que tem 2 mil empregados e conta com um patrimônio que ultrapassa 1 bilhão de dólares. Sua fortuna já chamou a atenção da revista americana Forbes, que chegou a colocar Tao entre as mulheres mais ricas do mundo. “Nem penso no dinheiro, penso no meu trabalho”, diz a empresária. O crescimento acelerado da China nos últimos anos, entretanto, já deixou Tao “para trás”. Sua fortuna é fichinha perto do patrimônio, por exemplo, de Zhang Yin, dona da empresa de reciclagem de papel Nine Dragons Paper. Self-made woman, ela guarda em seu cofrinho 5,6 bi-

lhões de dólares, cifra que lhe rendeu o título de mulher empreendedora mais rica do mundo, segundo lista da revista de negócios Hurun Report. Pela primeira vez, esse ranking é dominado por chinesas, que ocupam as três primeiras posições e 11 das 20 melhores colocações. Elas estão anos-luz à frente de ricaças ocidentais notórias, como a apresentadora americana Oprah Winfrey (2,3 bilhões de dólares) e a escritora britânica J.K. Rowling (1 bilhão de dólares), autora da saga Harry Potter. As chinesas não apenas sabem ganhar dinheiro como trabalham duro, são ambiciosas e, em sua maioria, vieram de um passado de pobreza escorchante. Em comum, elas souberam tirar vantagem de um sistema que combina economia de mercado com tutela estatal. Filiada ao Partido Comunista, Zhang Yin, a campeã, construiu seu patrimônio comprando sobras de papel nos Estados Unidos e as transformando em embalagens em suas fábricas. Nascida no noroeste da China em 1957, ela é a primogênita entre nove filhos.

fotos China Photos/Getty Images; Imaginechina/AFP; Ji guoqiang/Imaginechina

por_Mariana Sgarioni • ilustração_paulo cabral


Zhang Yin, 53 anos

US$ 5,6 bilhões

Nine Dragons Paper, reciclagem de papel

Wu Yajun, 46 anos

US$ 4,1 bilhões Longfor Property, incorporadora

Chen Lihua, 69 anos

US$ 4 bilhões

Fuhua International Group, investimentos imobiliários


Poder

NET POWER

Garotas Superpoderosas, da esquerda para a direita: Sukhinder Singh Cassidy, ex-chefona do Google e hoje na Polyvore; Sheryl Sandberg é a segunda do gigante Facebook. E Theresia Ranzetta distribui comandos na Accel

Elas tocam negócios bilionários, salvam empresas e ainda financiam novos talentos. Antes nos bastidores, as mulheres mais poderosas da internet saltaram para a linha de frente e estão virando celebridades por_Guilherme Felitti


foto Robert Maxwell / CPI

N

o Vale do Silício, região na Califórnia tradicional pela aglomeração de gigantes de tecnologia, a história oficial gira em torno de garotos imberbes que aprenderam a fazer (muito) dinheiro com a nova era digital. Steve Jobs e Bill Gates, da Apple e da Microsoft, respectivamente, são apenas os mais conhecidos de um time de geeks de incrível talento que ganhou nas últimas décadas gente como Jerry Yang, do Yahoo!, e a dupla Sergey Brin e Larry Page, do Google. Esses desbravadores, no entanto, nunca acharam que o mundo da tecnologia era assunto só de meninos. Nas principais empresas, sempre foi frequente a presença de mulheres nos altos cargos executivos, lidando com outras partes vitais do negócio: parceiros comerciais, investidores, clientes. Mas era um trabalho de bastidores. Enquanto eles viajavam nas ideias revolucionárias, elas faziam a coisa funcionar. A pioneira nessa área foi Margaret Cushing “Meg” Whitman, de 54 anos, que atualmente tenta suceder Arnold Schwarzenegger no governo da Califórnia, disputando as eleições que acontecem no mês que vem. Em 1998, ela assumiu uma pequena empresa, com 30 funcionários, chamada eBay para transformá-la no maior site de leilões do planeta, com 500 vezes mais empregados uma década depois, quando deixou o posto. Meg é fera mesmo. Fundada três anos antes por um daqueles nerds geniais, Pierre Omidyar, o eBay só escapou da quebradeira provocada pelo estouro da bolha da internet, em 2000, graças principalmente a ela. Sobreviveu. E ainda por cima cresceu. Hoje, quem está na linha de frente do mundo tecnoempresarial é Sheryl Sandberg, de 41 anos, diretora de operações do Facebook e braço direito de Mark Zucker-

berg (outro garoto...), fundador da maior rede social do mundo. É ela quem garante que as operações do Facebook, um negócio avaliado em mais de US$ 10 bilhões, estejam funcionando e se expandindo em todo o mundo. A transferência não foi aleatória. Durante seis anos, Sheryl ocupou o cargo de vice-presidente de operações e vendas do Google, responsável por administrar os canais de venda dos programas de publicidade que sustentam o sucesso financeiro do buscador. No final de 2007, Sheryl e Mark se encontraram em um jantar na casa de um amigo em comum, e três meses depois ele criava o cargo de diretora de operações na medida para ela. Desde que assumiu a posição, a responsabilidade de Sheryl aumentou no mesmo ritmo de crescimento do Facebook. Em pouco mais de dois anos, a base de usuários da rede social quintuplicou, saltando dos 100 milhões em agosto de 2008 para meio bilhão em julho deste ano. A popularização vem fazendo com que o Facebook aumente sua operação internacional, com escritórios na Irlanda, Itália, França, Austrália e Índia. No total, são mais de 1 700 funcionários espalha-

eles ainda mandam Ainda que as mulheres tenham já um bom histórico de realizações no Vale do Silício — e venham ganhando mais espaço —, elas têm uma participação muito menor que os homens no mercado de tecnologia. Levantamento divulgado pela National Center for Women & Information Technology, divulgado em abril, mostra que elas ocupam apenas 25% dos cargos de tecnologia nos Estados Unidos. Pior: o salário delas na área é, em média, 12,4% menor que o deles. Entre as 500 maiores empresas listadas pela revista Fortune, apenas 10% tinham mulheres nos cargos de presidente ou CEO.


Saúde


SaĂşde

delete seus pensamentos


Pesquisas feitas com pessoas que vivem no ritmo atribulado das grandes cidades estão mostrando: a meditação equilibra o organismo e ajuda a combater doenças. As comprovações fisiológicas tiraram o verniz religioso do tema — e a aquietação da mente agora está virando recomendação médica por_juliana mariz


Saúde

Palavra cravada no ~ coraçao Solidão não é só mágoa que cobre tudo, como já dizia Paulinho da Viola. Cientistas defendem que ela tem efeitos físicos muito concretos: perda de sono, envelhecimento precoce, obesidade, problemas circulatórios... por_Fábio Marton • fotos_Maia Flore

Amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo...


K

atie Bishop vivia no interior dos Estados Unidos, numa pequena cidade com a família estendida: primos, tios, avós. Apesar do projeto de cursar uma universidade mais prestigiosa, conseguiu apenas estudar numa local. Assim mesmo, a primeira coisa que fez, ao se formar em informática, foi picar a mula e começar sua vida própria. Em seis meses, notou que as coisas não iam tão bem quanto imaginava que seriam: vivia doente, com dores nas costas, e não dormia direito. Por passar seu tempo livre em frente à TV, tomando sorvete, havia ganhado 7 quilos. Sentiase feia, gorda e infeliz. O que tinha acontecido? Simples: Katie estava sozinha. Construída com base em vários relatos, a história é contada no livro Solidão (Record, 336 págs., 52,90 reais), em que o psicólogo evolutivo John T. Caccioppo apresenta, com a ajuda do jornalista William Patrick, os resultados de pesquisas feitas por ele e outros cientistas, ao longo de anos, com dezenas de estudantes e voluntários de meia-idade, para avaliar os efeitos da solidão no organismo (leia quadro na pág. 81). Comparando esses resultados a uma miríade de estudos de antropólogos e primatologistas, Caccioppo concluiu que contato social é uma necessidade física, da mesma forma que se alimentar, beber água e dormir, e que isso está inscrito em nossos genes. Mas o que é exatamente a solidão? Não é algo que pode ser medido pelo número de amigos no Facebook ou por quantas vezes se sai com grupinhos. Existe quem viva cercado de pessoas e assim mesmo se sente solitário, e há quem fique legitimamente satisfeito em ter um ou dois amigos íntimos que vê duas vezes por mês. “Solidão é definida como isolamento percebido. Isolamento objetivo pode certamente ter um efeito, mas as pessoas podem se sentir solitárias na multidão”, disse Caccioppo a LOLA. Em todas as suas pesquisas, ele utilizou a Escala de Solidão da Ucla, teste formulado pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (Ucla). Sintomaticamente, o questionário não pergunta seu número de amigos, mas como você se sente. Quer tentar? Responda ao teste na página seguinte. Em termos práticos, solidão causa estresse constante, similar ao sentido diante de ameaças físicas, como um carro vindo em sua direção. Isso leva a uma perda da qualidade do sono, ao enve-

lhecimento precoce e a uma série de problemas cognitivos, como maior dificuldade de autocontrole. Em uma das experiências citadas por Caccioppo, de seu colega psicólogo Roy Baumeister, dois grupos de pessoas, solitários e não solitários, tinham de avaliar criticamente biscoitos de chocolate, dando notas para sabor, textura e aroma. Eles podiam comer quantos quisessem, embora fosse apenas uma degustação. O grupo dos solitários pegou nove biscoitos para ter certeza da própria avaliação, enquanto os não solitários só precisaram de quatro. A conclusão é que os solitários não conseguiam controlar direito seu impulso por comidas engordativas — ou usavam comida como forma de conter a dor do sofrimento social. Aliás, outra conclusão importante é que dor da solidão não é apenas uma metáfora. Exames com ressonância magnética provaram que a região do cérebro que registra a dor social é a mesma que registra a dor física (o córtex cingulado dorsal anterior). Não é à toa que monges que buscam mortificar o corpo passando fome, fazendo voto de pobreza ou usando um cilício também procuram o isolamento social como castigo autoimposto. Assim como com a dor física, a sensibilidade para esse sentimento varia entre as pessoas. “A necessidade de inclusão ou a sensibilidade à exclusão de algumas pessoas é baixa o bastante para que possam tolerar sem muito sofrimento um afastamento grande em relação aos amigos e à família. Outras foram moldadas por genes e ambientes para precisar de uma imersão diária de contato físico estreito para se sentir tranquilas”, diz Caccioppo. Há pessoas que se casam para viver o tempo inteiro grudadas e há quem prefira viver em casas separadas e se ver no fim de semana — não há o certo e o errado aqui, apenas uma variação natural. Para os autores, é um fator determinante no sucesso do casamento que os dois sejam parecidos nesse ponto.

Solidão gera solidão Mesmo que alguns sejam mais “na sua”, ninguém é monge trapista por natureza. A razão por que a necessidade de estar com os outros está nos nossos genes é a evolução: éramos animais sociais mesmo antes de nos tornarmos humanos. Na sociedade atual, uma pessoa pode tranquilamente viver trancada num apartamento, trabalhando pela internet e vendo apenas o entregador de pizza. Na Idade da


Saúde

uma dor no peito

Apatia, falta de concentração, insônia... Mascarada atrás das grandes responsabilidades, a depressão demora a ser percebida entre altas executivas. Aqui, o diário de uma empresária mostra a gênese da primeira crise, a coragem de procurar tratamento — e, enfim, a superação

A

depressão será a doença mais comum do mundo nos próximos 20 anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O “mal da alma” atinge 121 milhões de pessoas ao redor do planeta — e cerca de 17 milhões de brasileiros. Ainda assim, uma bruma estranha costuma rodear o tema: no geral as pessoas demoram a perceber os sintomas e, depois, a procurar ajuda. Entre mulheres, principalmente as que assumem funções de chefia, o que os médicos chamam de “gatilhos estressores psicossociais” costumam ficar diluídos no rocambole estressante da tripla jornada, competitividade acirrada e o velho e bom sentimento de culpa pela ambiguidade entre projetos de carreira e a vida familiar. “Todos esses fatores são parte da rotina delas, mas também podem ser os principais desencadeadores dos casos clínicos de depressão”, diz o psiquiatra Joel Rennó Junior, coordenador do Programa de Saúde Mental da Mulher (ProMulher), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Aqui, o relato

da empresária Lilián Esperenza, de 53 anos, proprietária e diretora comercial de três empresas. O antes, durante e depois da tormenta de uma grande crise. E a moral da história: “passei a dar valor aos momentos felizes”. Julho de 1989

Que tal uma terapia? Há algum tempo, tenho uma constante sensação de insatisfação. Tanto faz se está um dia ensolarado ou chuvoso, para mim dá na mesma. Sei que não é tristeza porque uma revista, umas comprinhas, um passeio bacana, um bom filme não me tiram desse estado. Parece que nada tem muito poder de alterar o meu ânimo. Felizmente, não é todo dia que sinto isso. São episódios esporádicos que me deixam diferente. Minha cunhada, com quem me dou muito bem, minhas amigas, algumas delas médicas, e minha mãe recomendam que eu procure um terapeuta. Dizem que tudo isso vai passar. Meu marido não sabe muito bem o que fazer para me agradar. Então começo sessões de terapia. A psicóloga diz que o sol tem de estar dentro de mim. Não me convence muito... Conto que ando com

foto Rachel Perry Welty, Lost in my life (pigmented ink print) courtesy of Barbara Krakow Gallery

por_Luciana ackerman


Lost in My Life, foto de uma série feita pela artista plástica inglesa Rachel Perry Welty: é assim, perdidas na vida, que as mulheres acometidas pela doença se sentem


Saúde

~ nAo durmo, ~ nAo durmo A insônia está virando problema de saúde pública nas grandes cidades brasileiras — e atormenta principalmente as mulheres. Estresse, depressão e distúrbios hormonais são os principais vilões das noites em claro Por_luciana Ackermann

1, 2, 3, 4... Qualquer método capaz de afastar as preocupações é válido. Inclusive coisas chatíssimas, como contar carneirinhos


Não durmo, nem espero dormir. Nem na morte espero dormir. Espera-me uma insônia da largura dos astros, E um bocejo inútil do comprimento do mundo. Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, Não posso escrever quando acordo de noite, Não posso pensar quando acordo de noite Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

FOTO Dennis Galante/Corbis/Corbis (DC)/Latinstock

O

poema Insônia, escrito em 1929 por Fernando Pessoa, descreve a típica agonia das noites em claro, com todo aquele amontoado de horas que parecem não passar — e durante as quais não se consegue fazer mais nada, a não ser... enfrentar o horror de não conseguir dormir. Uma pesquisa que acaba de sair do forno, feita pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concluiu que nas grandes metrópoles brasileiras há um número cada vez maior de pessoas capazes de ler esses versos e pensar: “Eu sei exatamente o que é isso”. O estudo avaliou o sono de 1 042 voluntários da cidade de São Paulo, com idades entre 20 e 80 anos, de ambos os sexos, e comparou os resultados em três momentos: 1987, 1995 e 2007. Com a ajuda de avaliações físicas, exames clínicos e de polissonografia e aplicação de questionários detalhados, os especialistas concluíram: a insônia está se tornando um problema de saúde pública nas grandes cidades. E pior: há uma forte tendência de aumento dos diferentes distúrbios de sono, especialmente nas duas últimas décadas. A pesquisa avaliou principalmente três características da insônia clássica: a dificuldade de pegar no sono, a incapacidade de mantê-lo durante toda a noite e a impossibilidade de voltar a dormir depois de acordar. O resultado: houve crescimento agudo em todos esses sintomas nos dois sexos, o que manteve as mulheres entre as principais personagens das noites em claro (leia quadro na página 95). Segundo Sergio Tufik, médico e coordenador do Instituto do Sono da Unifesp, um dos responsáveis pelo estudo, a deterioração da qualidade do sono nas três últimas déca-


Comportamento


A Dois

"De cabeça ele é mais velho do que eu. ficou mais descontraído. casei três vezes, sempre com homens mais jovens" alicinha cavalcanti


Alicinha e Rodrigo, nem tchuns para os 16 anos que os separam

Meu grande garoto

As estatísticas mostram que as brasileiras estão casando mais com homens mais novos. Independentes, autoestima 100%, bem-humoradas, três dessas novas mulheres respondem: diferença de idade importa?? por_luciana ackermann e carol vaisman • edição visual_thais gouveia • fotos_ludovic CAReME


A Dois

distraídas venceremos Esta, com certeza, você já ouviu: "Encontrei um namorado quando menos esperava...". Pois saiba: a frase pode até soar meio irritante para quem está na batalha, mas tem razões psicológicas, cognitivas e químicas por_Luciana Ackermann e Carol Vaisman • FOTOS_Maleonn


A

Hã? Como? Onde? Ops, achei...

moçoila está ansiosíssima, mais especificamente desesperada, para encontrar alguém. O repertório dos novos tempos ajuda a deixar a coisa toda mais complexa. É relógio biológico fazendo tique-taque, é o coração já meio mal-ajambrado depois de um monte de separações, é a curiosidade dos outros. E nada. Aí, justamente no momento em que ela está menos montada para a dança do acasalamento para a qual a humanidade foi programada... e não é que acontece? Histórias do gênero são habituais, em detrimento de todos aqueles primeiros encontros que não dão certo por causa de um monte de motivos. Às vezes pode ser só porque o cara tinha mau hálito mesmo — mas também entra no jogo um conjunto de reações químicas, psicológicas e físicas que acometem as caçadoras de relacionamentos. Ou seja, a ciência também explica. Em linhas gerais, até que o corpo humano é programado para lidar bem com os primeiros encontros. Uma ansiedade moderada, por exemplo, libera oxitocina, conhecida como hormônio do amor porque é responsável pelo prazer de querer se aproximar de alguém. Na iminência de conhecer uma pessoa nova, são ativadas diferentes áreas do cérebro ligadas às emoções e a produção de hormônios se acentua. “O cérebro é atraído para o novo, o belo e o poderoso. Quando ocorre essa atração, há produção de uma onda de dopamina, a mesma substância química liberada pelo uso de drogas como cocaína e anfetamina. Por isso, o primeiro encontro pode ser a melhor data para muitos casais. Tudo é novo e excitante”, disse a LOLA o neurologista Paul Zak, da Universidade de Claremont e diretor do Instituto de Estudos Neuroeconômicos, que faz pesquisas relacionadas à oxitocina. Mas essa máquina bem programada e lubrificada emperra quando a ansiedade em níveis saudáveis é substituída pelo medo e pelo nervosismo. Nesse caso, os níveis de oxitocina caem. “As frequências cardíaca e respiratória ficam muito altas, as palmas das mãos suam e a pessoa fica insegura”, explica Zak. Aí, o corpo da casadoira deixa de agir naturalmente e


Comportamento

Filhos, eu??

Uma mulher não pode ser completa e realizada se não perpetuar a espécie, certo? Nem a pau! Para algumas, conseguir reconhecer que simplesmente não têm vontade de ser mães é que é a verdadeira plenitude por_luciana Ackermann IlustraçÃO_ NIK NEVES

S

er ou não ser mãe? Não faz muito tempo, essa pergunta dificilmente se colocava para as mulheres, acostumadas com a ideia de que ter filhos era o caminho para que elas fossem completas, realizadas, bem encaminhadas na missão suprema da feminilidade. Mesmo hoje, quando está bem claro que a realização pode ser encontrada trilhando outros caminhos, essa não é uma questão que se faça de maneira tão hamletiana. Na maioria dos casos, não há nem mesmo um timing exato, não existe o momento do clique em que uma mulher decide: “Ah, quer saber, não quero ter crianças”. A decisão, no geral, aparece aos poucos e de forma inconsciente, num processo em que atuam todos os complicados vetores do desejo. E, quando ela surge, costuma vir recheada de um monte de explicações, que podem passar, por exemplo, por diferentes medos – de não ser uma boa mãe, de perder a liberdade, de que a criança atrapalhe a vida amorosa e a profissional... E há quem, simplesmente, vai logo

2 | LOLAMAG.COM.BR

admitindo: nunca teve vontade. Sem dramas, sem alarde, sem teatralidade. Autora do livro Sem Filhos: A Mulher Singular no Plural, a psicanalista Luci Mansur diz que ainda estamos, culturalmente, sob o efeito da supervalorização da maternidade que explodiu no século 19, quando ela virou sinônimo de plenitude. Mas isso vai mudando. Com a revolução provocada pela pílula anticoncepcional, a procriação começou a sair da esfera de obrigatoriedade biológica para entrar no campo da liberdade de escolha. “Desfez-se o mito do instinto materno”, diz ela. “O desejo de ter filhos não é nem constante nem universal. E, já que existe escolha, existe diversidade de opiniões. Não é mais possível falar de instinto ou de desejo universal”, diz a filósofa francesa Elisabeth Badinter, autora de O Conflito, A Mulher e a Mãe. Não que seja fácil – a responsabilidade, em qualquer caso, é grande. “A partir do momento em que você decide, fica a fantasia de que tem que ser bom, e a possibilidade de frustração é muito maior”, afirma a psicóloga Lidia Aratangy.


Mila Moreira e Vanessa Lampert (ao lado). Bem no começo, a ideia de ser mãe. Mas, aí, passou


comportamento

mãe é mãe "Não é carne nem o sangue, é o coração que nos faz pais e filhos", escreveu o filósofo alemão Friedrich Schiller. A seguir, histórias de mulheres que adotaram crianças mais velhas, enfrentaram os desafios da decisão – e mostraram que mãe de verdade é a que tem amor para dar

O

desejo de formar uma família, de educar e de acompanhar o desenvolvimento de uma criança, às vezes, resulta em um processo de adoção que envolve um caleidoscópio emocional. Principalmente quando a criança já é um pouco mais velha – ou pelo menos crescida o suficiente para ter algum repertório. Na maioria das vezes, o novo filho chega moído pelas dores do abandono. Eventualmente, chega com traumas de maus-tratos. É um drama tão naturalmente cinematográfico que volta e meia o cinema recorre a ele. O filme Ensinando a Viver (2007), por exemplo, é inspirado no conto de David Gerrold, escritor americano que adotou um menino de 8 anos e narra a saga pessoal de um pai para garantir segurança ao filho. “Sean foi abandonado com 1 ano e meio. Já havia passado por oito abrigos. No dia em que fui conhecê-lo, disseram sem rodeios que ele não seria uma criança fácil de ser educada. Tinha sofrido abusos emocionais. Mas eu o vi como um menino de-

sesperado para ter um lar seguro”, disse Gerrold a LOLA, em um resumo perfeito do desafio doméstico que envolve essa decisão. E, justamente por isso, encarar a missão de adotar um filho já crescido ainda é arranjo incomum. No Brasil, a preferência pelos bebês e crianças menores é avassaladora. Dos 26 736 inscritos no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), 78% (20 775) desejam crianças de até 4 anos. Acima de 3 anos, elas são enquadradas na categoria “adoção tardia”. Alguns assistentes sociais e psicólogos defendem o fim do termo, por entender que ele reforça o preconceito em relação às crianças maiores. Mas o fato é: preconceito ou não, há um desafio pela frente. Mães e pais aprenderão a ser mães e pais, as crianças terão de se adequar a uma nova realidade. Muitas vezes não dá certo. Toda adoção, quando promulgada, é irrevogável – portanto, a lei não permite a devolução da criança após a sentença. Mas existe um período inicial, o estágio de convivência, em que é possível fazer a “restituição”.

FOTO Ian Tyss/Getty Images

Por_luciana Ackermann


QUEM ADOTA A maioria (39%) tem entre 41 e 50 anos,

está em São Paulo (26%), é casada (81%),

não tem filhos biológicos (75%) e

tem renda de 3 a 10 salários mínimos

(45%) por mês


Moda


Moda

O fantástico segredo do tal look sensual Nosso convidado, o polêmico tuiteiro Rafinha Bastos, ajuda a mostrar que uma produção sexy tem que ter uma coisinha assim... de sofisticação e bom humor, sabe? fotos_ FELIPE MOROZINI • edição_LENA CARDERARI


Vestido Diane von Furstenberg, R$ 1 500; cinto Reinaldo Lourenรงo, R$ 328; luvas Armani Exchange, R$ 329


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Marco AurĂŠlio, mĂşsico da banda Pop Fiction Bolsa Versace, R$ 6 120


bolsofrenia Quem disse que a gente não precisa de tantas bolsas???? fotos_tIM FAHLBUSCH • edição_LENA CARDERARI


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Convidadas especiais atendem ao nosso chamado para mostrar o que vale a pena pinçar dos novos lançamentos edição_Lena Carderari • fotos_Renam Christofoletti


Maria Bar贸, 45, marchande Longo com pinceladas de arte Vestido Cant茫o, R$ 1 500; colar Montage, R$ 580


Beleza


Beleza

Uma dama sabe a hora de usar Orientais, cítricos, florais, frutados, amadeirados... Fragrâncias elegantes, mas muito marcadas, podem virar invasão de espaço aéreo. Aqui, um guia de como e quando usar alguns dos perfumes mais deliciosos, entre clássicos e novidades Edição_Luara Calvi Anic • fotos_joão avila

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1. Varsha, Jafra, R$ 104 2. L’Eau Ambrée, Eau de Parfum, Prada, R$ 249,90 3. Unforgivable, Sean John, R$ 289,90 4. Essence, Narciso Rodriguez, R$ 355,90 5. Prestige, Jafra, R$ 129 6. Lily Essence, O Boticário, R$ 146 7. Coffee Woman, O Boticário, R$ 82 8. Gucci Guilty, Gucci, R$ 125


Compostos de tons como baunilha, pimenta-cumarim, musk, canela, chocolate e caramelo, estes perfumes são muito marcantes – e permanecem na pele durante todo o dia. Como o calor potencializa os aromas fortes, o ideal é que as fragrâncias desta família sejam usadas à noite ou em dias frios. Um bom jeito de usar sem exageros é borrifar o perfume para o alto e passar dentro da nuvem formada por ele. O movimento torna os fios dos cabelos perfumados, na medida certa. Se a ideia for mesmo deixar o cheiro mais em evidência, aí é bom passar uma pequena gota atrás das orelhas e na nuca.

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RÉcamier Tania Bulhões Home; Tapeçaria Passado Composto; Pulseiras Bend e Colar Discos, Antonio Bernardo

Beleza

Eu, máquina

Metabolismo: gerador central que produz e queima a energia do corpo. Hormônios: mensageiros químicos que regulam desenvolvimento, funções reprodutivas, tecidos. Saber conviver com as mudanças que essas duas geringonças provocam no nosso lindo e complexo mecanismo biológico é a chave da qualidade de vida Edição_luara calvi anic • fotos_bob wolfenson • Beleza_Theo Carias


ANOS Juliane Elting, atriz "Hoje, sinto que o corpo é algo muito careta! Se você quer que ele funcione direito, precisa dormir cedo, ser regrada, ter horários. Estou respeitando mais meu corpo, antes só levava ele junto pra lá e pra cá. Tenho enxaqueca quando não como direito e fico mal-humorada se não durmo bem!"


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CoquE in the city Despenteados, firmes, trançadinhos, cacheados... Subir um coque na cabeça é uma ótima maneira de virar diva noir, no meio da correria Edição_Luara Calvi Anic • Fotos_Renam Cristofoletti cabelo_cecília Macedo • maquiagem_Bruno Miranda styling_Maurício Mariano


Musa convidada: Silvia Lourenço, 34, atriz É um clássico de estrela de cinema. Os cabelos foram cacheados com baby liss, abertos no alto com um pente largo e presos de trás para frente, para formar um coque lateral. Depois, foram fixados com a ajuda do spray Air Fix L'Oréal Force 5 (R$ 87). Camisa Saad; colar Carla Amorim


Viagem


Viagem

Coisas de outro planeta Quatro paisagens lunares estonteantes & uma visita ao planeta ågua. É o roteiro que nem parece deste mundo, fotografado pela atriz e colunista Fernanda Torres POR_carol vaisman


“É uma paisagem lunar com gêiseres, desertos de pedra de um tom alaranjado, cordilheiras de vulcões a 5 mil metros de altitude, uma vegetação rasteira com lhamas correndo no meio de uns tufos amarelos... É demais. Aconselho um banho pra lá de gelado na laguna Miscanti. Tem que ter coragem, sair correndo, esquecer o gelo da água. Na saída, a pele queima de tanto frio, e dá para ficar de biquíni no vento do lado de fora, porque, em comparação com a água, qualquer temperatura é quente.”


ViAGeM

O MUNDO 麓 E UMA FEIRA O chef Claude Troisgros mostra as fotos tiradas em suas aventuras gastron么micas ao redor do planeta


O coloridíssimo engarrafamento de barcos no mercado flutuante da Tailândia, uma das principais atrações do país


Viagem

do polo norte ao polo sul Ainda é possível fazer uma viagem verdadeiramente exótica? Sim, aos extremos do mundo. Descendente de uma célebre dinastia de banqueiros, o ambientalista David de Rothschild mostra com quantos quilômetros se faz uma aventura à moda antiga POR_carol vaisman

No portal Adventure Ecology, David registrou o dia a dia da Expedição Invesco Perpetual Challenge, ao Polo Norte. A equipe de quatro pessoas fez uma jornada de 58 dias ao longo de 1 650 km


A expedição Missão 1 – Top of the World durou 100 dias. Eram três homens, uma mulher e dezesseis cachorros (que puxavam os trenós) atravessando o Oceano Ártico, da Rússia ao Canadá, até alcançar o Polo Norte

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m outros tempos, David de Rothschild poderia ser considerado a ovelha negra da família. Descendente da mais famosa dinastia de banqueiros da Europa, herdeiro de uma fortuna de US$ 700 milhões, esse inglês de 32 anos trocou o mundo dos negócios por uma brigada ecológica. Formado em Ciências Políticas e Sistemas de Informação pela Universidade de Oxford, David virou um ambientalista baladado. Autor do Manual Live Earth de Sobrevivência ao Aquecimento Global (Manole, 160 págs., R$ 41), sobre as mudanças climáticas, ele divulga, por meio do seu portal Adventure Ecology, suas expedições ao redor do mundo. Com essa roupagem sustentável, escapou do tradicional script do playboy — papel que seu pai, sir Evelyn Robert de Rothschild, nunca se fez de rogado para assumir: na juventude, foi uma lenda

do jet set internacional, sempre ao volante de carrões ou badalando em festonas. David rumou para o lado oposto. Numa época em que o mundo está tão devassado que parece impossível seguir os passos de Charles Darwin e se enfiar em viagens verdadeiramente exóticas, lá se foi ele mostrar que ainda é possível viver umas aventurazinhas. Se embrenhou em florestas tropicais da América do Sul e atravessou o Pacífico num catamarã feito de garrafas pet. E fez expedições para a Antártida e para o Polo Norte. Essas viagens aos extremos do mundo foram registradas pelo herdeiro e sua equipe em imagens que lembram um passeio à Lua, cedidas à LOLA. Cada quilômetro vencido virou comentário postado por David em seu portal, no melhor gênero diário de bordo.


Entrevistas


entrevista

É besteira ficar tentando ser feliz O psicanalista Contardo Calligaris diz que a ideia de felicidade total virou um produto de mercado. E que viver a complexidade de emoções e sentimentos é que faz a riqueza da experiência humana por_Erika Sallum • fotos_João Wainer

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uando Contardo Calligaris fala, nós geralmente ouvimos com atenção extra. Especialmente as mulheres. Porque, em meio a crises existenciais, neuras longevas e relacionamentos atribulados, é quase um alívio lembrar que a vida pode ser mais complicada do que pensamos — e que, por mais contraditório que pareça, só temos a ganhar com isso. Articulado sem ser pedante e de uma profundidade pop capaz de tocar multidões, o psicanalista conquistou um espaço entre todos os interessados em compreender melhor seus próprios questionamentos. Aos 62 anos, radicado há 20 no Brasil, Calligaris é dono de uma biografia cheia de episódios que renderiam um filme. A começar pela família: o pai, um resistente antifascista, e a mãe, uma moça de classe média, fugiram da guerra na Europa, exilando-se nas gélidas montanhas italianas. Intrépido, o filho caçula do casal mal esperou sair da adolescência para se jogar no mundo. Fugiu de

casa aos 15 anos para viver uma paixão em Londres, iniciando uma vida cosmopolita de peregrinações por países como França, Suíça e Estados Unidos. Cursou ciências políticas, trabalhou como fotógrafo, estudou letras e filosofia. Até que, sofrendo de uma terrível gastrite, decidiu fazer análise — e foi, garante, curado por ela. Apaixonou-se pela psicanálise a ponto de deixar Genebra, onde morava, para especializar-se no assunto em Paris. Em 1985, veio ao Brasil para uma conferência e aqui ficou. Além dos afazeres como psicanalista e colunista do jornal Folha de S.Paulo, publicou alguns livros, entre eles o romance O Conto do Amor (2008), cuja continuação deve ser lançada no primeiro semestre de 2011 com o provável título de A Versão dos Fatos. Em seu consultório, em São Paulo, Calligaris falou a LOLA, entre outros assuntos, sobre paixão, sexo, psicanálise, a ideia do sucesso e os novos papéis de homens e mulheres no mundo contemporâneo.


"O que faz a vida valer a pena ĂŠ a diversidade de coisas vistas, conhecidas e tentadas"


entrevista

quebrando tudo A filósofa Marcia Tiburi senta a pua no que identifica como males de nossos tempos: o pavor generalizado de dar opinião, a caretice moralista. "As pessoas têm medo de falar o que pensam." Sobre os tempos do Saia Justa, dispara: "A Luana Piovani era uma bobinha do mal. A Maitê Proença é a Luana vezes dois. Era de lascar"

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aúcha, a filósofa Marcia Tiburi é discreta e calma, dedicada aos amigos e à filha adolescente, Maria Luiza. Quando não está escrevendo ou pintando em casa, divide seu tempo entre palestras Brasil afora com as aulas na Universidade Mackenzie, em São Paulo, onde é professora do programa de pós-graduação em arte, educação e história da cultura. Mas favor não confundir esse perfil centrado com uma personalidade anódina, insossinha. Marcia se transformou em uma filósofa pop, capaz de atrair audiências maiores do que seu nicho de atuação, porque opina, mas opina mesmo. Já era assim em 2005, quando aceitou o convite do canal por assinatura GNT para participar do programa Saia Justa. “Foi tão maluco quanto alguém hoje me chamar para andar de skate ou aprender surfe”, conta, divertindo-se. “Não tenho nenhum prazer em ver televisão, não gosto do barulho.” Ela sacou que a empreitada podia ser importante e lá se foi. A experiência diante das câmeras – e justo num programa com um quê teste-

munhal, em que as participantes vão dando opiniões e, de lambuja, falando de suas vidas – durou cinco anos. Tempo suficiente para ela lapidar uma reflexão sobre o papel da TV na sociedade brasileira. O resultado está no livro Olho de Vidro: A Televisão e o Estado de Exceção da Imagem (Record, 352 págs., R$ 42,90), um estudo que vai da análise da experiência visual a questões como alienação e hiperexposição na mídia. Marcia afirma que o tempo de convivência com as outras participantes do programa a ajudou também a desenvolver uma concepção de feminismo “por solidariedade”, como diz. “Percebi que as próprias mulheres denigrem as mulheres”, afirma, emendando críticas às demais participantes. “Nem todo mundo ali sabia o que significava o debate. A Maitê Proença é a Luana Piovani vezes dois. Era insuportável. A Betty Lago era divertida, mas uma bobalhona”, dispara. Nesta entrevista, concedida em seu apartamento, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, Marcia fala também sobre redes sociais e a “moralina”, a droga da moral. “Estamos dopados”, diz.

beleza JÔ Castro/Capa mgt; assistente de foto Gabriel Bertoncel

POR_carol vaisman • fotos_Tim Fahlbusch


Hoje, ela se diverte. "Ir para o Saia Justa foi tão maluco quanto alguém hoje me chamar para andar de skate ou aprender surfe. Detesto televisão”


ENTREVISTA

AMAr EXIGE sAcrifício

Com novo livro na praça, Adélia Prado diz que o amor é a morte do ego. E defende: homens e mulheres precisam reencontrar os seus papéis no mundo POR_Almir de Freitas e LuÍsa Dalcin • fotos_Eder Chiodetto


Adélia Prado, em sua casa em Divinópolis. "Só pensei em sair daqui para morar num lugar menor"

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m 1976, quando os leitores abriram o primeiro livro da mineira Adélia Prado, Bagagem, depararam-se logo no primeiro poema com os versos Vai ser coxo na vida é maldição pra homem / Mulher é desdobrável. Eu sou. A brincadeira com o Poema das Sete Faces, do conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, já mostrava a marca de uma obra que teria como uma das grandes referências a condição feminina “desdobrada” em muitas outras: o desejo e o erotismo, a religiosidade, o mistério.

Hoje com 74 anos, Adélia se mantém fiel a esses elementos, retomados no seu novo livro de poesias, A Duração do Dia (Record, 112 páginas, R$ 27,90), lançado mais de dez anos depois do anterior, Oráculos de Maio. É uma fidelidade que se estende às ideias que arrepiam feministas mais renhidas. Na entrevista que se segue, Adélia fala, além da poesia, dos sacríficios do amor e dos “papéis naturais” de homens e mulheres. “Sinto que é necessário assumirmos o nosso papel para que a relação com o masculino recobre o vigor da união dos diferentes”, diz.


entrevista

quando o casal briga, o sexo melhora

A sexóloga Carmita Abdo diz que a excitação no casamento cresce com os riscos que o homem e a mulher correm. Mas que ninguém espere um sexo estalando de novinho depois de anos de convivência POR_luara calvi anic • fotos_ludovic carème

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exo apimentado, daqueles de cinema, só para solteiros, namorados e recém-casados? Para a psiquiatra e terapeuta sexual Carmita Abdo, manter o sexo excitante em casamentos de longa data é tarefa árdua, depende de uma constante repactuação da relação — que pode incluir desentendimentos seguidos de reconciliações do casal. Tudo, segundo ela, para evitar a estabilidade, fatal para a vida sexual. “A gente não vive muitos anos com uma pessoa para ter um sexo excitante. Na rotina, o sexo sempre pode ficar para depois”, diz. À frente do ProSex, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, um núcleo de estudos e tratamento de pessoas com problemas sexuais, e consultora do programa Amor & Sexo, da Rede Globo, Carmita é hoje uma das maiores especialistas no assunto do país. Mãe de duas

filhas e casada há 37 anos com um urologista, a psiquiatra também é prática quando o assunto é amor. “Não casei com o homem da minha vida porque ninguém se casa com o homem da sua vida. Ninguém veio ao mundo exatamente para fechar a laranja do outro. Seria muito triste se você tivesse uma única chance”, diz. Carmita se interessou por estudar sexualidade nos tempos da faculdade de medicina. Em meio à efervescência sexual dos anos 70, com 25 anos, já trabalhava atendendo alunos da USP. Seus pacientes eram jovens que vivenciavam o sexo livre antes mesmo de o sexo seguro dar as caras. “Não existia pílula anticoncepcional nem aids. Fui me dando conta de que o mais importante para aqueles jovens eram as suas experiências sexuais”, lembra. Hoje, aos 61 anos e autora de sete livros sobre o assunto, Carmita continua achando que sexo é uma das mais importantes questões humanas. Na entrevista a seguir, ela conta por quê.


"Não estou aconselhando ninguém a brigar para ter um sexo bom. É preciso quebrar a rotina, saber reinventar a relação"


prĂŞmios

prĂŞmio abril de jornalismo 2010 Reportagem de Beleza, 2010


Veiculos de Comunicação 2010 Lançamento do Ano


Test