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Criação do Portefólio Europeu de  Línguas da CERCLES para o Português:  Uma abordagem plurilingue Maria del Carmen Arau Ribeiro (Instituto Politécnico da Guarda, Portugal) e Dulce Sarroeira (Escola Superior de Hotelaria e Turismo de Estoril, Portugal)


Introdução… • • •

Multilinguismo/polilinguismo (Conselho da Europa, 2008) Individuos polilingues vs. multilingues, que “dominam" várias línguas diferentes (Jørgenson 2008: 161; Pfaff 2011: 3) Metrolingualismo (Otsuji & Pennycook 2010) Skutnabb‐Kangas (2010: 18) recomenda o reconhecimento do que François Grin (2004: 71 in S‐K) descreveu como o negócio sociolinguístico de reinventar a roda; sociolinguistas e psicolinguistas já descreveram a realidade na Índia como “fronteiras fluidas entre línguas, mudanças constantes de línguas e culturas, múltiplas identidades, que constroem a língua”, citando pesquisadores como Khubchandani, Pattanayak, Annamalai, Dua, Mahnty, e Dasgupta. Bakhtin (1981) apresenta também a noção de heteroglossia que “does not operate on the idea of separable languages but represents a dynamic and hybrid conglomerate of linguistic and discursive resources that afford self‐ expression, communication and identification in particular communicative situations” (Lähteenmäki et al. 2011: 3)

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…Introdução • • •

Abertura de outras perspetivas com a utilização do termo polilingue em vez de multilingue. Æ inspirado pela Engenharia Computacional: “the language interoperability problem” /problema da interoperabilidade da língua (Kaplan et al. 2001) Æ e pela música: “The polylingual approach to singing often produces many other peculiar consequences among English‐speaking vocal students. Many of them, for instance, are so concerned with the problems which the pronunciation of foreign languages present, that they fail to pay enough attention to clarity of pronunciation when they sing in their native tongue. The fact that they understand and know the sound of each word when they sing in English seems to absolve them from any responsibility for a clear and precise delivery of an English text. It is also not uncommon to hear English‐speaking students transfer some of the phonetic characteristics of Italian and German into their own language so that, after a while, they begin to sing in English with a rather pronounced foreign accent.” (Kagen 1960: 37) Æ “Translation that does not consist of a single source and the “massive life of its own taken on by the politics of translation when seen as the process of meaning construction” (Barrett in Chakravorty Spivak 1992: 369)

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Objetivo(s) • Traduzir para Português as versões do Portefólio Europeu de Línguas (PEL) já aprovadas pela CercleS em inglês, espanhol, francês e alemão. • “When you translate, you are part of the traffic” – a constante “coming and going in meaning, ideas, concepts, symbols, discourses” (Dasgupta 2005: 42; ver tb Quine 1953, 1960 in Dasgupta 2005: 63‐65) • “fluxo de significados” define o propósito do ensino da língua “diversify meanings, point to the meanings not chosen, and bring to light other possible meaning that have been forgotten by history or covered up by politics”; competência linguística significa “the ability to translate, transpose and critically reflect on social, cultural and historical meanings conveyed by the grammar and lexicon” (Kramsch 2006: 103) 4


Portefólio Europeu de Línguas  da CercleS • PEL em publicações bilingues. • Formato bilingue do PEL proposto pelo CERCLES, lado esquerdo – uma língua; lado direito – versão original em inglês, forneceu a base polilingue para este estudo. • Uma vez que nenhum dos participantes é bilingue português‐inglês, houve uma necessidade intrínseca de considerarem outras versões noutras línguas, levando‐ os a utilizar concomitantemente as suas competências linguísticas na tomada de decisões no momento da tradução.

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Metodologia Participantes: estudantes do 2º ano (sexo feminino) da Licenciatura de Secretariado e Assessoria de Direção com um mínimo de frequência de 3 semestres (total de 15 ECTS em inglês e espanhol). Idade média: 34 (ou 32 com exclusão do outlier de 55) Média de anos de estudo/língua: 5.13 francês; 0.5 espanhol; e 4.63 inglês Competência Linguística • Língua materna – português; • Em francês (3 bilingues francês‐português) + nível C1 na competência leitora em Francês Textos • As traduzões para Português encontram‐se em fase de compilação; • 1ª secção (25+ unidades‐T) já foi analisada comparativamente por alunos e professores. • Os alunos identificaram diferenças e semelhanças, bem como a multiplicidade de  expressões possíveis na língua.  Relatório Escrito de Auto‐Avaliação uma apreciação do trabalho executado e repercussão, ou não, nas suas competências linguísticas.


Resultados… Variedade de versões em Português.  Identificação de alguns aspetos pragmáticos: • Direito do Estado vs Estado de Direito. • David Little, Lazenby Barbara Simpson e Ushioda Ema

• apoiar‐se num vs candidatar‐se a um programa • antecipadamente vs previamente

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… Resultados Identificação de aspetos de léxico e ortografia, por vezes relacionadas com restrições fonéticas: • Concílio, Concelho, Conselho • Os PELs vs. os PEL • União europeia • Sociedade Europeia • Defenir metas de aprendizagem • O Portfólio Europeu de Línguas y a aprendizagem • Mayo Identificação de alguns aspetos sintáticos, na maioria das vezes relacionados com a concordância, omissão de artigos, formas verbais e pontuação. • Esta versão de Portfólio Europeu de Línguas (PEL) foi especialmente projetado para ser usado nas… • Esta versão do Portfólio Europeu de Línguas foi designado por… • Proteger os direitos humanos, [Æ+a] democracia pluralista e… • O PEL está dirigido a estudante[s] que estão [a] aprender…


Relatórios de Auto‐Avaliação B: I enjoy very much the work traduction about the self‐assessment grid and the Council of Europe. I think this was very useful for me because like this I use french and spanish to produce to portuguese version. These versions complement us because through the different sources of languages the result is more complete. First I read Spanish version and then I read also French version because the sentences have different ways to traduce and like this I choose the better traduction to Portuguese that I considered that was the best. C: In this text I am going to say what I think about the task that the English teacher asked me to do. I have been doing the translation of the European Languague Portfolio and I am working with the Spanish and English languages. At first I didn’t find this job very attractive because it has too many pages and I thought that I didn’t have time to do this task, but after all, I could do it. I am enjoying because I am helping in something that will be used for all the Portuguese people and also because I am woorking with the English languague that I love and with the Spanish languague that I am studying at this moment. 9


Relatórios de Auto‐Avaliação D: The translation given to us it was very interesting. I did the  translation in one afternoon and it was very tiring but also very  important, because I realized how much I need the French to help  me in Portuguese. Throughout the translation, my support it was  French. I really enjoyed the project and in the end I noticed that  there are many synonyms. Making the translation made me  remember many French words that I no longer remembered. It was  very interesting. NB. Não tenho a certeza se “eu reparei” em inglês é  “I noticed” e se “eu apercebi‐me” é “I realized”. E.  First of all I read with attention all portfolio and I highlighted some  words which I didn’t know your mean and before I checked the  Spanish version. I think that this work was productive because in  the future I will need how do a translate and I must practice in order  to prepared to do this task. This function is very essential so as to  learn sophisticated vocabulary and also help us to use properly  sentences which make sense. 10


Relatórios de Auto‐Avaliação G: Um dos aspetos que verifiquei ao traduzir o Portfolio Europeu de Línguas foi que consultar documentos iguais escritos em diferentes línguas ajuda a complementar o texto que se traduz. Do ponto de vista da estrutura, as frases em inglês e em francês apresentam‐se com uma ordem inversa em relação à portuguesa, sobretudo na língua inglesa. Já a espanhola é bastante semelhante à nossa. Na objetividade e concisão é a língua inglesa quem se destaca, seguida da língua francesa. Neste ponto a língua espanhola é mais uma vez parecida à portuguesa, pois por vezes alonga‐se em explicações que não acrescentam qualquer informação adicional. A expressão de cada língua também difere já que provém de uma raiz cultural distinta. Na tradução efetuada foi a língua espanhola que me permitiu fazê‐la de forma mais direta e automática, contrariamente às línguas francesa e inglesa que me exigiram uma leitura mais atenta e mais interpretativa. O trabalho de tradução exige não só o conhecimento da língua que se pretende trabalhar, mas também um conhecimento latente da própria língua. Deste modo, o texto traduzido aproxima‐se mais do texto de origem. Apesar do tempo despendido na leitura dos diferentes documentos, o trabalho resultante revelou‐se frutífero na medida em que me despertou ainda mais o interesse, não apenas para o conhecimento das línguas em questão , mas também a tradução e/ou 11 interpretação de línguas.


Relatórios de Auto‐Avaliação 1: I think the translation of the documents is important, because improve our languages capacities. I have many problems to translate big texts, but in my opinion if I have permanent contact with new vocabulary and think the structure of the texts, I know that in a long time, this contact is benfic for me. The different languages complete one each other. 2: About this document my knowledge Spanish language was very usefull. My sources were dictionary, internet and grammar. Trought this assignment I concluded that I am be able to write, to speak and to understand like it signe on document. Also I found that two languages are different in your structure so first I tried to understand in Spanish language for to write in English language. Second I know that I don’t to speak, to write same structure both language because one of them is a Latin language and other is anglo‐saxonic. For me was good to find what I can do!

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Resultados • Auto‐descoberta de competências: Eu fui capaz de…! • Cidadania: contribuição para uma causa maior. • Orgulho da realização: Eu fi‐lo! • Curiosidade: acerca da utilização prática de outras línguas; • Semelhanças/Diferenças: complementam‐se entre si. 13


Discussão •

• • • • • •

Providenciar uma estrutura que permita aos estudantes manusear/compilar estas comparações /contrastes, atitudes , auto‐estima e potenciais estereótipos (Byram 2010). Pôr os estudantes em contacto com outras línguas para reduzir os estereótipos não é suficiente. Trabalhar com a língua, ultrapassar dificuldades e tentar encontrar a melhor forma permite uma melhor adequação na recategorização das línguas; Trabalhar num projeto europeu converte o trabalho desenvolvido num suporte dessa instituição/associação; Participação é voluntária (não faz parte oficial do programa da UC); Participação num objetivo comum – o PEL da CERCLES. Porque razão é que esta responsabilidade é atribuida ao professor de língua estrangeira? Alguém tem de o fazer. Desenvolvimento da cidadania nacional e europeia. Identidade social e da língua como Consciência Linguística na psicologia social. 14


Discussão • A tradução do PEL do CERCLES possibilita aos aprendentes integrar organicamente a consciência das suas competências polilingues na experiência de aprendizagem da língua. • O envolvimento dos estudantes no que pode ser considerado trabalho estritamente profissional promove a sua auto‐ estima nos resultados atingidos e nas suas capacidades, como se pode confirmar nos relatórios de Auto‐Avaliação. • “the social organization of learning should privilege  participation in dynamic, hybrid literacy practices”; “practice  strategically draws on students’ full linguistic toolkits in order  to invite them to integrate modes and genres of  communication“ (Gutierrez 2010) 15


Ainda para fazer • Em termos de tradução: Já diz o ditado “Muitos cozinheiros estragam a sopa” A tradução demorará mais tempo do que efetivamente seria necessário se houver menos participantes. Esta fase demorou 5 semanas Æ um total de 20 semanas não sequenciais (4 x 15 pages = 60+ pages do PEL). • Devido à sobrecarga de trabalho, alguns participantes podem desistir do projeto. • O professor orienta os estudantes na discussão para encontrar a melhor combinação para uma tradução global OU recorre a outro grupo de estudantes para analisar e propor objetivamente a sua versão, em vez de o discutir com os autores da tradução. 16


Melhores práticas • Alcançar a complexidade do novo mundo,  incorporando os TIC (Bangou 2006; Demazière 2007) e o inerente linguajar. • Comunidades de Prática (CdeP) dentro e fora  da sala de aula (Wenger 1998, 2007; Levine 2011). • Tradução a partir de múltiplas fontes  enquanto atividade enriquecedora de  aprendizagem individual e coletiva de línguas. 17


Referências

Achebe, Chinua. (1964). Arrow of God. London: Heinneman. Bakhtin, M. M. (1981). The dialogic imagination: four essays by M.M. Bakhtin. Ed. by M. Holquist. Transl. by C. Emerson & M. Holquist. Austin: University of Texas Press. Bangou, F. (2006). Intégration des TIC et apprentissage de l'enseignement: une approche systémique. ALSIC  (Apprentissage des langues et systèmes d'information et de  communication) 9, 145‐160. Barrett, D. J. (1998). Polylingual Systems.  Blommaert, J (2010) The sociolinguistics of globalization. Cambridge: Cambridge University Press Byram, Michael (2010). Language Learning for a European Identity. Paper presented at Bringing Europe into the Foreign Languages Classroom. Organized by the European  Network of Language Teacher Associations (REAL) in Augsburg, September 2010. http://vimeo.com/33920960, 13 April 2012. Council of Europe. (2008). Language Education Policy.  Chakravorty Spivak, Gayatri (1992) The Politics of Translation. Reprinted in The Translation Studies Reader, 2nd ed,, 369‐388. (Ed.) Lawrence Venuti. New York: Routledge. Dasgupta, Probal (2005). ‘Trafficking in Words: Languages, Missionaries and Translators.’ In Translation: Reflections, Refractions, Transformations. Eds Paul St‐Pierre and  Prafulla C. Kar. Delhi: Pencraft International. 42 – 56. Demazière, F. (2007). Didactique des langues et TIC : les aides à l'apprentissage. ALSIC 10(1), 5‐21. Gutierrez, Kris (2006). Polylingual and Polycultural Practices and Learning Ecologies Jorgensen, J. N. (2008). Polylingual Languaging Around and Among Children and Adolescents. International Journal of Multilingualism, 5 (3), 161‐176. Kagen, Sergius. (1960). On Studying Singing. Toronto: General Publishing Company, Ltd. Kaplan, A., Riedgway, J. V. E., Schmerl, B. R., Shridhar, K., and Wileden, J. C. (2001). Toward pure polylingual persistence. Berlin: Springer, Berlin. Kramsch, C. (2006), The Multilingual Subject. International Journal of Applied Linguistics, 16, 97–110 Lähteenmäki, Mika, Piia Varis, and Sirpa Leppänen (2011). Editorial – The shifting paradigm: towards a re‐conceptualisation of multilingualism. Apples – Journal of Applied  Language Studies 5(1), 2‐11. http://apples.jyu.fi/editorial_files/Apples_5_1_2011_editorial.pdf Leppänen, Sirpa (forthcoming). Linguistic and discursive heteroglossia on the translocal Internet: The case of web writing. In M. Sebba, S. Mahootian & C. Jonsson (eds.),  Language mixing and code‐switching in writing: approaches to mixed‐language written discourse. London: Routledge. Makoni, Sinfree, and Alastair Pennycook (2007) ) Disinventing and reconstituting languages. In S Makoni and A Pennycook (Eds) Disinventing and reconstituting languages.  Clevedon: Multilingual Matters, 1‐41. Otsuji, Emi and Alastair Pennycook (2010) Metrolingualism: Fixity, fluidity and language in flux. International Journal of Multilingualism, 7(3), 240‐254. Pennycook, Alastair (2001). Critical Applied Linguistics: a critical introduction. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, Inc.  Pennycook, Alastair (2010) Language as a Local Practice. Oxford: Routledge.  Pfaff, Carol W. (2011). Multilingual Development in Germany in the Crossfire of Ideology and Politics: Monolingual and Multilingual Expectations, Polylingual Practices. Transit 7(1). http://escholarship.org/uc/item/9gp0f163# Piller, Ingrid. (2010). Multilingualism 2.0. http://www.languageonthemove.com/language‐globalization/multilingualism‐2‐0 Piller, Ingrid (2011). Intercultural Communication: A Critical Introduction. Edinburgh University Press. Rasmussen, C. E., Sottile, M. J., Shende, S. S., and Malony, A. D. (2000). Bridging the Language Gap in Scientific Computing: The CHASM approach. Concurrency and  Computation: Practice and Experience: Pract. Exper. 1–6. Skutnabb‐Kangas, Tove (2010). Crimes against humanity in education, and applied linguistics – corporate globalisation or geopolitical knowledge glocalisation? Plenary  speech delivered at BAAL (British Association for Applied Linguistics), 9‐11 September, Aberdeen, Scotland. http://www.tove‐skutnabb‐ kangas.org/pdf/Tove_Skutnabb_Kangas_Crimes_against_humanity_in_education_and_applied_linguistics_corporate_globalisation_or_geopolitical_knowledge_glocali sation.pdf Wenger, Etienne (1998) 'Communities of Practice. Learning as a social system', Systems Thinker,  http://www.co‐i‐l.com/coil/knowledge‐garden/cop/lss.shtml. 18 Wenger, Etienne (2007) 'Communities of practice. A brief introduction'. Communities of practice [http://www.ewenger.com/theory/. 

Criação do Portefólio Europeu deLínguas da CERCLES para o Português:  

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