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Capítulo 1

Viva a abolição! Numa sexta-feira, 17 de julho de 1885, às oito e meia da noite, os jovens Adolfo Pereira Porto e João Bento Alves cruzavam o Beco do Barroso rumo à rua Barão do Amazonas – numa das áreas mais movimentadas do centro de Campos dos Goytacazes –, quando foram alvejados com tiros de garrucha por dois sujeitos vestidos de preto que vinham no sentido oposto, pela Rua da Boa Morte. Os dois disparos, feitos à meia distância na direção da cabeça de Adolfo, cuspiram estilhaços de chumbo grosso para todos os lados. Ferido no ombro esquerdo, costas, nuca, testa, pálpebra esquerda, lábio inferior, queixo e pescoço, ele se converteu numa estátua de sangue e tombou. Os agressores, julgando a questão resolvida, fugiram sob gritos de “Pega! Pega!”. Atingido nos braços e ombro, com a camisa empapada de sangue, João Bento correu atrás deles, mas não conseguiu alcançá-los nem reconhecê-los. As forças lhe faltaram. Antes de perder os sentidos, gritou com raiva: – Viva a Abolição! Assim que a poeira baixou, passantes vieram em socorro das vítimas, que foram carregadas até uma casa de conhecidos na rua Barão do Amazonas. Chamados pela vizinhança, quatro médicos se apresentaram, entre eles o abolicionista dr. Francisco Portella, presidente da Sociedade Brasileira de Beneficência nos tempos em que João Bento ali se alfabetizara. Se tivessem demorado mais alguns minutos, teriam encontrado os feridos sem uma gota de sangue nas veias. O estado de Adolfo era gravíssimo. Por fim, chegaram o promotor público, o subdelegado e o delegado. Ironicamente, a emboscada aconteceu a alguns metros da casa em que veio ao mundo José do Patrocínio, o histórico “Tigre da Abolição”. Três dias depois, a duzentos e setenta e cinco quilômetros dali, no Rio de Janeiro, capital do Império, Bezerra de Menezes lia em voz alta para a Câmara dos Deputados – um deles, Joaquim Nabuco – o seguinte telegrama: Campos, 19 de julho O gerente do Vinte e Cinco de Março recebeu dois tiros na cabeça e acha-se gravemente ferido. Dois cavalheiros, Miranda e Hermógenes, estacionam na rua a mando de Barbaça. A polícia está envolvida no fato e o escrivão da subdelegacia opõe-se ao inquérito para descoberta do crime. Peça providências ao Governo. Carlos de Lacerda

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O cearense Bezerra de Menezes – médico, deputado provincial pelo Rio de Janeiro e um dos representantes do ideário abolicionista na Câmara – expressava seu repúdio ao atentado ocorrido no município de Campos e à indiferença das autoridades, quando um colega da ala conservadora fez o aparte: – São ossos do ofício! Mais do que uma provocação aos abolicionistas presentes, o comentário foi entendido pela bancada liberal como uma escandalosa “apologia ao linchamento” e gerou réplicas que acabaram em confusão. O presidente teve que fazer soar as campainhas elétricas para restabelecer a ordem na casa. Contrariado, Bezerra de Menezes pediu providências ao governo para a punição do crime denunciado pelo telegrama de Lacerda e voltou ao seu lugar. Estudioso do Livro dos Espíritos, Bezerra chegaria, dali a alguns anos, a ser considerado o “Kardec brasileiro”, atuando também como “doutrinador de espíritos obsessores”. Naquele momento, restava-lhe constatar que a Câmara dos Deputados estava infestada de “encostos” muito piores do que os sobrenaturais. Passaram à ordem do dia. Da Baixada das Éguas à Mata dos Tabuleiros, das engenhocas paupérrimas de barro e cipó trançado às modernas usinas do Queimado e de São João, nos distritos à direita e à esquerda do rio Paraíba, nos solares e nas senzalas, Campos inteiro sabia: mais cedo ou mais tarde, o comendador Luiz Carlos de Lacerda acordaria com a boca cheia de formigas. Dos filhos abolicionistas do respeitável dr. João Baptista de Lacerda – havia também Álvaro, médico, e Cândido, advogado –, cabia a Luiz Carlos, que todos chamavam de “Lacerda”, o maior quinhão de ódio ruminado pela aristocracia rural campista, escravocrata e esnobe. Lacerda era uma versão menos brilhante e mais impetuosa de seu amigo de infância (e cidadão do mundo) José do Patrocínio. Ambos dedicaram suas vidas à causa antiescravista, mas, enquanto Patrocínio deixara Campos, ainda adolescente, para seduzir as altas esferas intelectuais com seu talento oratório – conseguindo até que Victor (Les Misérables) Hugo lhe enviasse uma cartinha de próprio punho apoiando a emancipação dos escravos no Brasil –, a luta de Lacerda era mais física, às raias do bangue-bangue. Muito por sua conta, Campos se celebrizou como o “Quartel General da Abolição” e o “Teatro da Grande Luta Abolicionista”. Havia um ano, Luiz Carlos fundara o seu Vinte e Cinco de Março: órgão abolicionista, único jornal brasileiro cem por cento dedicado à causa. Impresso em duas edições semanais (às quintas-feiras e aos domingos) e vendido a cento e sessenta réis, o Vinte e Cinco de Março tinha esse nome em tributo à província do Ceará, que extinguira a escravidão em seu território nessa mesma data – quatro anos antes de Isabel decretar oficialmente a Abolição no Brasil. Mas o que realmente afligia os donos de escravos de Campos não eram os artigos virulentos, os hinos à liberdade ou as louvações a abolicionistas famosos que Lacerda publicava nas quatro páginas de seu jornal em meio a anúncios de empadas de cama-

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rão, galinha e palmito e capítulos do folhetim A cabana do Pai Tomás. Nem os desfiles carnavalescos do Club Indiano Goytacaz – reduto de abolicionistas que tinha Lacerda entre os fundadores –, onde os foliões, vestidos de índios, cantavam marchas guerreiras entre carros alegóricos com motivos antiescravistas. Também não eram as conferências promovidas por Lacerda e sua turma no Teatro Empyreo Dramático, na rua Direita – “ajuntamentos ilícitos intoleráveis” onde plateia, galeria e trinta camarotes, sempre lotados, aplaudiam discursos inflamados e cartas de alforria recém-assinadas. Até aí, Lacerda era apenas uma pedra – muito incômoda, diga-se – no sapato dos escravocratas. A coisa pegou fogo, mesmo, alguns meses após a fundação do Vinte e Cinco de Março. Literalmente. O primeiro canavial que amanheceu em cinzas pertencia à Usina do Queimado (trocadilhos à parte). Dias depois, ardia o segundo, na Fazenda do Beco. Viscondes, barões e coronéis se sentiram provocados. O prejuízo causado pelos incêndios, da ordem de uma dezena de contos de réis, somava-se a algo pior: o terror psicológico. A simplicidade do ardil dos incendiários chamava a atenção. Uma lente de óculos, esquecida, de madrugada, num palhiço seco perto do canavial, cuidava de tudo. Bastavam os primeiros raios de sol da manhã transpassarem a lente e o fogo ateava-se por si só – com o culpado a léguas dali. Mas o grupo liderado por Lacerda não se contentou com os ataques a canaviais. Era preciso libertar os escravos já. Em março de 1885, três rapazes, entre eles Adolfo Porto – aquele que dali a três meses levaria tiros de garrucha na cabeça –, decidiram realizar um plano: fretaram um trem especial e invadiram, na calada da noite, a fazenda do tenente Orbílio Bastos, no distrito de São Gonçalo, para libertar escravos. Arrombaram a casa do tronco e ali encontraram três cativos, presos e feridos por golpes de azorrague (um chicote de oito tiras com ferros cortantes nas pontas). Quando os feitores apareceram, na manhã do dia seguinte, o local estava vazio. Até o tronco foi levado. A casa térrea no 72 da Rua dos Andradas, no centro de Campos, onde funcionava a redação e a tipografia do Vinte e Cinco de Março, se tornara uma espécie de QG abolicionista. Havia um cômodo subterrâneo, ligado ao pavimento superior por um alçapão camuflado, que servia de abrigo para os escravos “sequestrados” pelo bando de Lacerda. Ali, em meio a um pequeno arsenal de armas, munição e dinamite, os negros eram cuidados até que tivessem saúde suficiente para suportar uma viagem clandestina ao Ceará, onde a emancipação já se fizera. Ou para se refugiar num dos quilombos da região, inspirados nas façanhas do mítico líder quilombola Carukango, espécie de Zumbi dos Palmares local, morto heroicamente, em combate, havia décadas. Desde o final do ano anterior, dezenas de escravos fizeram escala pelo porão do jornal de Lacerda, com destino à liberdade. Mas o assalto à fazenda de Orbílio não foi tão bem-sucedido. Adolfo e seus cúmplices, denunciados e presos, foram levados a julgamento. Em socorro dos acusados, um nome de peso deixou a capital do Império, rumo a Campos: Sizenando Nabuco, eminente advogado e irmão mais velho de Joaquim Nabuco.

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O corpo de jurados, composto por senhores de escravos e medalhões da fidalguia, não parecia disposto a gentilezas. É possível que a verve humanitária do dr. Sizenando – praticada na amizade com cariocas da estirpe de Aluísio Azevedo e Machado de Assis – tenha amolecido um ou outro escravocrata menos carrancudo. Mas, se Adolfo e seus amigos terminaram absolvidos, foi por outro motivo: um apagão jogou a cidade nas sombras no justo momento em que o júri se reunia para decidir o veredicto. O pânico de um possível atentado, fomentado por comentários dúbios de abolicionistas presentes, levou os jurados a votarem apressadamente a favor dos acusados e a tocarem rápido para casa. No desespero, não enxergaram o óbvio: produzir um blecaute em Campos era fácil. Só era preciso cortar a fiação de um determinado lampião na Rua da Quitanda e boa parte da cidade apagava-se, em efeito dominó. Um alicate mal-intencionado e estava feito. Nos últimos dez anos, com a explosão da produção açucareira, detonada pela construção de engenhos a vapor em substituição às modestas e seculares engenhocas, Campos dos Goytacazes vivia uma era de esplendor econômico que fazia dali um dos municípios mais influentes do Império. A riqueza ostentada por sua aristocracia rural, nos solares e nas mansões, no campo e na cidade, impressionou cronistas e viajantes, que consideravam Campos uma “Geórgia brasileira” (trocando-se o algodão confederado pela cana-de-açúcar). Na verdade, a própria Scarlett O’Hara se sentiria uma caipira num sarau da elite campista oitocentista, diante de fidalgos de cabeleiras empoadas e casacas cobertas de condecorações, sinhazinhas com vestidos de veludo e toucados à última moda europeia, além dos escravos cocheiros igualmente embonecados guiando carruagens dignas de imperadores. (De fato, pelo menos um deles sacolejou ali dentro: D. Pedro II, que visitou Campos quatro vezes. Na primeira, ainda “jovem, louro e belo”, deslumbrou-se com o luxo de um baile realizado em sua homenagem, dançou onze quadrilhas e só parou porque torceu o pé.) Os bons ventos econômicos sopravam por todo o município, fazendo brotar ruas e praças, estradas de ferro, ponte sobre o Paraíba, teatros, escolas, entidades financeiras com capital próprio, clubes carnavalescos, sociedades musicais, hipódromos e uma centena de jornais. Tudo isso culminou numa façanha e tanto: ser a primeira cidade da América Latina a dispor de iluminação elétrica, em 1883. Tanta autoestima fez os campistas sonharem alto: nada mais justo que Campos, o maior e segundo mais rico município da província do Rio de Janeiro, fosse elevado à capital, no lugar de Niterói. A despeito de forte campanha, isso jamais aconteceu. Era preciso muita lenha na caldeira para manter tamanho furor. No caso de Campos, muita cana-de-açúcar – e uma horda de escravos infatigáveis. Se por um lado o município podia se orgulhar de conquistas avant la lettre dignas das mais importantes capitais do planeta, por outro não era nada lisonjeiro ser conhecido por abrigar uma das maiores populações escravas do Império. Cerca de trinta e cinco mil negros – a maioria “peças da Costa” de origem banto, de Guiné, Congo e Angola – eram submetidos ao trabalho escravo em todo

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o município, seja na zona rural (setenta e cinco por cento) ou urbana (vinte e cinco por cento). Número que superava o de províncias inteiras, como Pará (vinte e cinco mil escravos), Piauí (dezoito mil), Alagoas (vinte e nove mil), Espírito Santo (vinte mil), Paraná (sete mil) e Santa Catarina (onze mil), entre outras. O Rio de Janeiro, apesar de possuir a segunda maior população de escravos do país (duzentos e sessenta e oito mil), atrás apenas de Minas Gerais (duzentos e setenta e nove mil), tinha o maior índice relativo: trinta e dois por cento de seus habitantes viviam sob chicotes. O índice de Campos? Ainda mais infame: quarenta por cento. Viver para os escravos rurais era garantir o movimento da engrenagem açucareira em todas as suas etapas. Algumas delas implicavam derrubada de matas para limpeza e preparo do solo, plantação e corte da cana, transporte em carros de boi para as moendas, separação do bagaço, manejo da lenha que alimentava as máquinas a vapor e trabalho nas casas de purgar, onde o caldo da cana, depois de fervido e descansado em moldes de barro, ganhava a forma de pães de açúcar, escoados pelo porto de São João da Barra (na foz do rio Paraíba) para o Rio de Janeiro, e dali para a Europa. Todo esse trabalho saía quase a zero: custava alguns sacos de carne seca podre, “própria” para a alimentação de cativos, a seiscentos e quarenta réis por arroba. Para a elite rural campista, abrir mão do trabalho escravo era a ruína. Em total descompasso com o resto do mundo – havia vinte anos que os escravos nos Estados Unidos estavam libertos, por exemplo –, o governo brasileiro cedia à pressão ruralista e conduzia o processo de emancipação dos escravos a passos de cágado. Da extinção do tráfico negreiro (1850), passando às Leis do Ventre Livre (1871) e dos Sexagenários (1885), tinham se passado trinta e cinco anos. A estratégia era postergar o inevitável ao limite do impossível. Os abolicionistas contavam com a simpatia de grande parte da população urbana de Campos. Mesmo aqueles que ainda possuíam escravos domésticos não suportavam mais esbarrar com cativos fugidos do campo, arrastando grilhões nos pés ou ostentando horrendas gargalheiras com forquilhas no pescoço. A cada conferência no Teatro Empyreo, a cada carta de alforria assinada, a cada novo artigo do Vinte e Cinco de Março, o movimento ganhava força e adesões. Eram médicos, juízes, advogados, jornalistas, poetas, políticos, padres, sapateiros, marceneiros, pescadores, alfaiates – gente de todos os estratos e cores. Mignon e nada atlético, o atrevido Luiz Carlos de Lacerda valia-se de dois trunfos: a blindagem que lhe conferia até certo ponto a sua comenda de oficial da Ordem Imperial da Rosa, concedida por D. Pedro II, e a dedicação de paus-para-toda-a-obra como o gerente do Vinte e Cinco de Março, Adolfo Porto, e os irmãos funileiros Bernardo e João Bento Alves, que arriscavam suas vidas na execução dos planos arquitetados por ele. Bernardo era músico, tipógrafo do Vinte e Cinco de Março e possuía uma funilaria na Rua do Rosário, a poucos quarteirões do jornal. Sua habilidade no manejo de folhas de flandres era responsável pelo “grande sortimento de baús e latas para goiabada” de sua loja (conforme anúncios em jornal) – e rendia, nas horas vagas, bombas caseiras recheadas de estilhaços metálicos a serem usadas nos confrontos com os escravistas, cada vez mais bélicos. A exemplo da maioria dos abolicionistas

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de Campos, os Alves tinham um “pé na África” e militavam quase que em causa própria – João Bento, o irmão mais novo, era tido como “pardo”, filho de português com “crioula” (escrava nascida no Brasil). Havia motivos de sobra para Lacerda temer por sua segurança. O maior deles atendia pelo nome de Raymundo Alves Moreira. Mais conhecido como Barbaça – por causa da barba ruiva que lhe cobria parte da cabeçorra leonina –, Raymundo possuía um sítio no distrito de Guarulhos, e, se tropeçasse para dentro de algum 1 romance de Alexandre Dumas (que, aliás, tinha um irmão fazendeiro em Campos), cumpriria com louvor o papel de um vilão capaz de amedrontar D’Artagnan. Basta dizer que um de seus passatempos era passear pela cidade montado num cavalo chamado Escravocrata – treinado por ele a dar coices e dentadas em negros. Incansável na defesa da elite rural campista – ainda que estivesse muitos alqueires distante de fazer parte dela –, Barbaça publicava ameaças a Lacerda e “sua corja” nos jornais, tumultuava os encontros abolicionistas no Teatro Empyreo, infiltrando-se na plateia para gritar ofensas, e não hesitava em trocar tiros com desafetos pelas ruas da cidade. Com um histórico desses, foi nele que todos apostaram como culpado do atentado a Adolfo Porto e João Bento Alves, no Beco do Barroso, assim que a notícia se espalhou pela cidade. Era fácil imaginá-lo deslocando a mira de seu ódio de Lacerda para Adolfo, ao sabê-lo escandalosamente absolvido, na noite do apagão, da acusação de invadir a fazenda de Orbílio Bastos. Para surpresa geral, mesmo ferido gravemente na cabeça, nove dias depois do atentado Adolfo Porto já estava de pé e quase restabelecido. João Bento também não ficou com nenhuma sequela, apenas cicatrizes onde os perdigotos de chumbo grosso rasgaram sua pele. Sobre os atiradores, Adolfo lembrou que havia passado por eles minutos antes do atentado, em frente à venda de Pedro Muniz na Rua das Flores. Montados em cavalos marrons, vestidos de preto e com lenços no pescoço que lhes escondiam parte do rosto, os dois sujeitos pediam informação a um moleque – que, coincidentemente, apontara para Adolfo ao vê-lo se aproximar. Pouco depois, as garruchas cantaram no Beco do Barroso. Lacerda lutou para que o crime fosse desvendado. Por conta própria, buscou testemunhas e provas da culpa de Barbaça, que se defendeu pelo Monitor Campista: “Não há nesta cidade quem ignore o sobressalto e o pânico em que vive há mais de um ano este município, pelas tropelias, insultos e agressões de um grupo que se intitula abolicionista, composto, na sua maior parte, de indivíduos sem ofício nem benefício e comandado pelo subscritor do pasquim [o Vinte e Cinco de Março], Carlos de Lacerda. “Desses insultos e agressões não sou eu, infelizmente, quem menos tem partilhado; desde o ano passado luto na minha fazenda com a insubordinação dos escravos, que, insinuados e seduzidos por aquele grupo, faltam-me com o respeito

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Francisco Dumas, dono de uma propriedade no distrito de São Sebastião.

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devido e abandonam o serviço; por mais de uma vez tenho sido publicamente insultado e agredido nas ruas por pessoas desse grupo, e há tempos estabeleci na minha fazenda um arsenal de armas pronto para repelir o ataque de que tenho sido ameaçado diversas vezes. “[...] Se, por ventura do fato de ter eu sofrido essas agressões, insultos e ameaças do grupo abolicionista de que faz parte o ofendido Adolfo Pereira Porto, pode se tirar argumentos para se me imputar a autoria da ofensa, creio que poucos serão os senhores de escravos neste município isentos dessa calúnia.” Não se sabe se por influência de contatos que Lacerda possuía na capital do Império – como Bezerra de Menezes, José do Patrocínio e os irmãos Nabuco –, o processo caminhou, mesmo que lentamente. Além de Adolfo e João Bento terem sobrevivido, Barbaça viu dois empregados seus, Miranda e Hermógenes, serem presos como executores de um crime do qual ele seria o mandante. E acabou se entregando à prisão. Infelizmente a alegria dos abolicionistas durou pouco: levados a julgamento, Barbaça, Miranda e Hermógenes foram absolvidos. Ao longo dos dois anos seguintes, os incêndios nos canaviais e os sequestros de escravos se intensificaram. Nada parecia deter os abolicionistas. Nem mesmo a chegada do chefe de polícia da província do Rio de Janeiro, enviado com dez praças para conter os ataques. No dia em que chegaram a Campos, mais canaviais foram devorados pelas chamas. Dessa vez os da fazenda de dona Brígida Moreira, mãe do Barbaça. Diante de ousadias como essa, senhores de engenho se reuniram, em janeiro de 1887, num escritório na Rua da Quitanda, a poucos quarteirões do Vinte e Cinco de Março, para decidirem por voto o fim de Lacerda. Uma alternativa seria descobrir o seu preço e comprá-lo para o lado escravista. A outra, assassiná-lo. Como a maioria considerasse o comendador incorruptível ( já haviam falhado em suborná-lo por mais de quatro contos de réis), a segunda opção foi escolhida, apesar da indignação de um ou outro fazendeiro que não estava para tanto. A morte de Lacerda já tinha data e local para acontecer: dali a uma semana, no Teatro Empyreo. Na noite do dia 30 de janeiro, duas mil pessoas lotaram o Empyreo para mais uma Conferência Abolicionista organizada por Lacerda. O que testemunharam, no entanto, foi uma tragicomédia de erros, com tiros, pancadaria e morte. Tudo ia bem até o momento em que Lacerda, discursando no palco, foi interrompido por um aparte grosseiro. O provocador? Sempre ele – Barbaça, que entrara no teatro ninguém sabia como. O público reagiu com vaias e gritos de “Fora, Barbaça!”. O fazendeiro se retirou e voltou com o reforço de dois capangas. Na porta do teatro, foi barrado por Adolfo Porto. Houve luta, confusão e troca de tiros. Apavorados com a barulhada, os espectadores fugiram para a rua, criando o cenário ideal de tumulto para o assassinato de Lacerda. Mas o dono do Vinte e Cinco de Março não sofreu um arranhão. Quem recebeu um tiro na cabeça – fatal e por engano – foi um espectador que teve a má sorte de se parecer com ele.

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Mais uma vez, nada ficou provado. Alguns meses depois, seria a vez do próprio Vinte e Cinco de Março sucumbir. Era madrugada, quando dois policiais pararam diante da redação do jornal e começaram a cavucar o reboco da parede com a ponta de seus rifles, com o objetivo de raspar uma pichação – “Capitão Peixe-Frito” –, alusiva a um guloso e impopular capitão de polícia. Seguranças do jornal, temendo um atentado para lá de anunciado, fizeram fogo. Os policiais revidaram e, feridos, foram buscar reforço. Poucas horas depois, o Vinte e Cinco de Março foi cercado por numerosa força armada e recebeu uma descarga de fuzilaria. Os abolicionistas (Adolfo Porto e Julio Armmond entre eles) responderam com mais tiros e bombas de dinamite – até que a munição se esgotou e todos fugiram pelos fundos, para a casa de Adolfo, vizinha à redação, na Rua do Rosário. Ali, foram todos presos, espancados – principalmente Porto – e levados para a cadeia, onde ficaram incomunicáveis. Mais tarde, por falta de provas, foram postos em liberdade. Por ordem do delegado, o Vinte e Cinco de Março foi invadido e depredado (a machadadas). Nada restou de mobília, máquinas, tipos, livros, caixas, molduras, retratos, portas e vidraças. Por sorte, quando deram pelo porão secreto já não havia lá nenhum escravo – apenas armas e adereços carnavalescos do Club Indiano Goytacaz. Lacerda não se abateu. Alguns meses depois já convocava nova reunião no Empyreo. A luta dos abolicionistas estava perto do fim. No início de 1888, muitos fazendeiros de Campos se renderam e começaram a alforriar os seus escravos. Os que nada fizeram viram suas senzalas amanhecerem vazias. Somente até abril, foram nove mil libertações, além de fugas em massa. A cidade inchava, com a chegada de até quinhentos negros “forros” e fugidos por dia. Um telegrama do Rio de Janeiro, datado do dia 13 de maio, trouxe novidades. A princesa Isabel, em nome de Sua Majestade, o Imperador D. Pedro II – e tendo ao seu lado um esfuziante José do Patrocínio –, assinara uma “carta de lei” que sancionava um decreto da Assembleia Geral declarando extinta a escravidão no Brasil. Os abolicionistas haviam vencido. Na sexta-feira seguinte, dia 18, o jornal de Lacerda saiu eufórico da prensa: “Vinte e Cinco de Maio saúda jubiloso a Pátria Livre”, dizia a manchete de capa. Na página quatro, um convite: um “grande festival” comemorativo seria oferecido pelo Club Indiano Goytacaz, no dia seguinte, no Teatro Empyreo, “ornado com galhardia” para o evento. No programa, o “Hino da Liberdade”, executado pela banda musical Lyra de Apollo, declamação de poesia, discursos de Nilo Peçanha e dos irmãos Luiz Carlos e Álvaro de Lacerda, duas cenas cômicas, baile à fantasia, sorteio de prêmios e a Loteria do Diabo (“o meio rápido e barato de fazer fortuna”). Foram oito dias de comemorações na cidade – mais que nunca o “Teatro da Grande Luta Abolicionista”. Na verdade, para Campos, a Lei Áurea apenas ratificou um processo já consumado. Graças ao grupo liderado por Luiz Carlos de Lacerda, todos os habitantes do município eram livres desde março de 1888 – dois meses antes de Isabel assinar o decreto. Era apenas a vocação campista para a festa falando mais alto.

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Mal terminou de rabiscar na carta da Lei Áurea um tracinho diagonal abaixo da última letra de “Princesa Imperial Regente” (libertando, com seu autógrafo, os escravos brasileiros), Isabel ouviu do barão de Cotegipe, um notório líder escravista: – Vossa Alteza redimiu uma raça, mas perdeu o trono. De certa forma, o mau agouro do barão se cumpriu. Quando os números confirmaram a crise econômica gerada pela Abolição, a aristocracia rural brasileira, monarquista até a raiz das suíças, já havia aderido ao movimento republicano. Menos por ideologia, mais por revanchismo. Em Campos dos Goytacazes, a campanha para tornar o Brasil uma república não causou o mesmo furor da abolicionista, apesar dos esforços do recém-fundado Club Republicano e dos meetings antimonarquistas no Teatro Empyreo (ainda ele). Mas deu asas a um jovem advogado campista, mulato e filho de padeiro, chamado Nilo Peçanha – cujo tino político o conduziria, dali a vinte anos, à Presidência da República. Nos tempos de Luiz Carlos de Lacerda, Nilo era apenas mais um colaborador da causa abolicionista em Campos, entre dezenas de outros. Como republicano, destacou-se a ponto de sofrer atentados – a exemplo do amigo Lacerda. (Num deles, foi apedrejado por monarquistas em Lajes de Muriaé e fugiu disfarçado de padre.) Enquanto Nilo alçava um longo voo na direção do Palácio do Catete, na capital da República – proclamada um ano após a Abolição, em 1889, num levante militar liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca –, Lacerda mal teve tempo para descansar sobre os louros da vitória abolicionista. Barbaça cruzaria o seu caminho ainda uma última vez. Quatro meses antes do fim da Monarquia, Barbaça seguia a cavalo por uma estrada em Guarulhos quando foi brutalmente assassinado a golpes de foice e facão. Os culpados – dois ex-escravos, empregados de uma fazenda de Luiz Carlos de Lacerda – foram presos e alegaram que havia um mandante para o crime. Segundo eles, ao ler no dia anterior novas ameaças de Barbaça no Monitor Campista, Lacerda teria decidido finalmente acabar com o inimigo, encomendando-lhes a sua morte. Lacerda e os negros foram a julgamento. Mais uma vez, dr. Sizenando Nabuco veio a Campos para colaborar na defesa dos acusados. Lacerda acabou absolvido. Os assassinos confessos foram condenados “a galés perpétuas” – trabalhos públicos forçados até o fim da vida. O triste destino dos negros abalou Lacerda, que passou a sofrer de crises nervosas e faleceu em 1897, aos 43 anos. Quando o fato veio a público, uma multidão tomou a casa de Lacerda, “abraçando-lhe o cadáver e beijando-lhe as plantas”, segundo o Jornal da Tarde carioca. E ali ficou até o caixão sair, na manhã do dia seguinte. Acompanhado por três mil pessoas, o cortejo parou a cidade. Um carro luxuoso, representando um cadafalso, conduziu o corpo do falecido, ao som de marchas fúnebres executadas pelas bandas musicais Operários Campistas, Lyra Conspiradora, Lyra Guarany e Lyra de Apollo (que deve ter aproveitado para incluir no roteiro o dobrado abolicionista “Carlos de Lacerda”, de Alberto Pinto de

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Cerqueira, um dos clássicos de seu repertório). Tremularam estandartes fúnebres do Club Abolicionista e do Club Indiano Goytacaz, que tinha o morto como fundador e um dos mais animados foliões. Velhos companheiros de luta abolicionista discursaram pelas esquinas. Ex-escravos choraram por aquele que lhes rompera “os grilhões do cativeiro”. Depois de três horas de desfile, Lacerda foi enterrado. Os fins lamentáveis de Luiz Carlos de Lacerda e de José do Patrocínio – que morreu pobre e esquecido numa casa de subúrbio carioca, em 1905 –, somados à nostalgia de tempos tão cheios de ideais e adrenalina, fizeram dos remanescentes da campanha abolicionista em Campos os heróis “quase todos mulatos, meio tristes” que o menino Thiers Moreira viu zanzando pelas ruas de sua infância e que registraria no clássico campista O menino e o palacete, décadas depois. Alguns, como Álvaro de Lacerda, Francisco Portella e Nilo Peçanha, pegaram o bonde republicano e continuaram lutando, só que por outros ideais. A maioria voltou para suas vidas pacatas – o consultório, o escritório e a loja comercial – e tocou em frente. Depois de atravessar uma década como um saco de pancadas, sendo espancado, espaldeirado, torturado e alvejado com tiros de garrucha, Adolfo Porto, o outrora “invencível e ardente soldado da causa popular contra a escravidão”, teve direito a um pouco de sossego, como proprietário da Casa Campista, na rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro, especializada em melados, goiabadas, chuviscos, compotas e outros quitutes de sua terra. Ao sabor de brisas mais amenas, Bernardo e João Bento puderam fechar a funilaria mais cedo e se entregar com mais volúpia a três paixões tipicamente campistas: música, boemia e carnaval. Jamais poderiam imaginar que essas paixões encontrariam, dali a alguns anos, a sua cadência perfeita. Um novo gênero musical, em lenta maturação desde meados do século XIX, esperava o momento certo para se espalhar como um vírus pela capital da República, e dali para o Brasil, abrindo novos caminhos para a formação de uma identidade cultural brasileira. Era o samba. Qual seria a reação de Bernardo e João Bento se soubessem que um dos futuros mestres desse novo gênero traria nas veias o sangue quente, festeiro e indomável dos irmãos Alves de Campos dos Goytacazes?

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Frontispício do Vinte e Cinco de Março, jornal abolicionista que contou com a colaboração dos irmãos Alves, antepassados de Wilson Baptista

Anúncio no Vinte e Cinco de Março de quermesse promovida pelo Club Indiano Goytacaz e pela Lyra de Apollo, duas associações campistas infestadas de abolicionistas. Entre eles, o avô de Wilson Baptista.

Deu na Evolução. Adolfo Porto e João Bento Alves foram alvejados no Beco do Barroso!

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No Colyseu dos Recreios - aqui em fotografia de 1919 - Wilson brincou carnavais, assistiu a revistas musicais e vibrou com fitas em série norteamericanas

A Lyra de Apollo em dois momentos. No meio, em 1929. Abaixo, em princípios do século XX. É provável que tios e tios-avôs de Wilson, sócios da Apollo, estejam nas fotos.

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Trecho do livro "Wilson Baptista - o samba foi sua glória!"  
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