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Uma introdução a la Vie Parisienne

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m dezembro de 2007, minha mãe morreu de câncer; duas semanas depois, fui diagnosticada com a mesma doença. Sempre fui uma leitora obsessiva de livros de memórias, especialmente daqueles que falam de doenças graves. Se, por um lado, observar estupefata um acidente de carro faz com que a gente se sinta envergonhada, esmiuçar um livro de memórias sobre esclerose múltipla, por exemplo, dá a sensação de virtude – como se, ao ler sobre tragédias de outras pessoas, você estivesse adquirindo conhecimento sobre seu possível futuro. Como eu tinha lido pelo menos dez livros de memórias sobre câncer antes do meu diagnóstico, eu sabia o que aconteceria em seguida. Imediatamente comecei a antever a epifania, quando eu seria tomada pela extraordinária beleza da vida. Eu veria alegria nos olhos de meus filhos (em vez de absoluta revolta), me absteria de cafeína e simplesmente seria, de preferência 13

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fazendo yoga de frente para o pôr do sol. Meu eu melhor e menos irritável afloraria, e eu não perderia mais tempo diante do computador e pararia de criticar meu marido. Eu estava com câncer... mas a boa notícia é que eu aprenderia a viver o momento. Talvez não. Quando a atitude A-Vida-É-Preciosa não apareceu prontamente, deixei a ideia de fazer da alegria o meu modus vivendi para depois, enquanto tentava encontrar um médico. Minha mãe pediu ao seu cirurgião que pelo menos lhe desse tempo para terminar o livro romântico que estava escrevendo, e ele fez sua vontade. Editores estavam a toda hora com ela na casa de repouso. Eu não conseguia relaxar enquanto estava tentando obsessivamente encontrar o especialista em câncer de mama que poderia me dar o tempo que eu queria: cerca de quarenta anos mais. Quem sabe cinquenta. Minha irmã, Bridget, que é objetiva e capaz de lidar com questões médicas desagradáveis, me auxiliou nessa busca pelo oncologista ideal. Primeiro, visitamos uma médica impetuosa na Madison Avenue, que havia decorado seu consultório com bonecas da Mulher Maravilha. Tomei isso como um sinal de uma juvenil (mas bem-vinda) alegria de viver, porém Bridget considerou isso autovangloriação exagerada. Dra. Mulher Maravilha estava pronta para enormes batalhas que poderiam aparecer pela frente; seus olhos brilhavam com o fervor de uma genuína devota na medida em que prescrevia a remoção de várias partes do meu corpo e a radioterapia em várias partes das que ficassem. Ali mesmo em seu consultório, ela me prendeu em uma pequena maca e coletou sangue 14

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para uma análise genética. “Não se preocupe com seu seguro de saúde. Depois que tomarem conhecimento do seu histórico familiar, vão pagar tudo.” Quando eu soube que eu não tinha o gene BRAC*, o qual marca a pessoa com um grande C vermelho de câncer, eu não consegui voltar ao seu consultório. Para portadores de BRAC, a Dra. Mulher Maravilha oferecia uma estratégia “militar” de destruição de qualquer coisa que pudesse ser útil ao inimigo, e zelo para Lutar a Boa Luta. Eu comecei a dormir melhor uma vez que decidi que a fase inicial do meu caso era como herpes, outra doença sobre a qual li e esperava evitar: desagradável, mas raramente terminal. Finalmente, Bridget e eu encontramos um oncologista calmo e comedido que recomendou radiação e tratamento hormonal, mas que também observou o fato evidente: meu seio era o responsável pelo meu estado. Eu parei de pensar em herpes. Essa era uma parte do meu corpo sem a qual eu poderia viver. Rapidamente, eu retirei aquele seio. Ao escapar da quimioterapia e da radiação, teria eu o direito de me considerar uma sobrevivente, especialmente quando meu seio recém-reconstruído se tornara tão volumoso e redondo? Decidi que a resposta era não, explicando a minha falta de epifania e a minha indisposição para assistir ao pôr-do-sol na postura do cachorro olhando pra baixo. Nenhum laço cor-de-rosa para mim. Obviamente, meu diagnóstico não era sério o bastante para mudar minha personalidade. * N.T. A mutação do gene BRAC tem sido associado ao câncer de mama.

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Sorte minha. Eu tinha uma silhueta melhor, mas a mesma psique de antes. Então, sem que fosse uma decisão consciente, comecei a me desfazer de meus pertences. Comecei com meus livros. Desde os meus sete anos de idade, eu colecionava compulsivamente livros românticos, catalogando-os e mantendo os meus favoritos perto da porta para o caso de incêndio. A minha caixa de As Crônicas de Nárnia ostentava um aviso enorme instruindo meus pais a não esquecê-la ao carregarem meu (presumivelmente inconsciente) corpo pela porta, pouco antes de o teto desabar. A partir de então, entretanto, comecei a desapegadamente doar livros. Meu marido, Alessandro, enfrentou minha luta contra o câncer com maior desenvoltura do que lidou com suas consequências. À medida que me desfazia de meus pertences, eu praticava o proselitismo, mas sem efeito. Alessandro estava definitivamente desinteressado, como qualquer um poderia imaginar, pelas caixas cuidadosamente etiquetadas no nosso sótão contendo todos os exames que ele tinha dado desde 1988. Algumas vezes, eu ficava preocupada, achando que o chão do sótão pudesse empenar por causa das toneladas de literatura italiana armazenadas sob seu beiral. O dia no qual ele descobriu que três de seus livros tinham sido guardados por engano em uma caixa etiquetada como Caridade não será esquecido tão cedo em nosso casamento. Foi como na nossa noite de lua-de-mel, quando ele acendeu uma fogueira ornamental em nosso quarto da pousada, e forçou os hóspedes a se retirarem por causa da fumaça. Aquela fogueira está marcada em minha memória, e aqueles três livros, na dele. 16

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Entretanto, eu não parei nos livros. Fiz a mesma coisa com minhas roupas, descartando pacotes fechados de meias pretas dos anos 1980, a camisola de seda que usei na minha ardente noite de núpcias, minissaias de tamanho 40. Eu dei nossos presentes de casamento. Meus trabalhos da época do Ensino Médio foram para a lixeira, junto com os ensaios universitários e até mesmo os desenhos das crianças, que eu um dia achei infinitamente cativantes. Por anos tínhamos falado em viver em Manhattan com a mesma nostalgia que minha mãe costumava dizer que teria sido bailarina, se ela não tivesse engravidado de mim. Alessandro tinha crescido em um apartamento no centro de Florença; ele ansiava por estar em ruas estreitas e ouvir o barulho de caminhões de reciclagem quebrando garrafas de vidro às quatro horas da manhã. Mas eu tinha crescido em uma fazenda, e, quando nos mudamos para a Costa Leste, eu insisti para que morássemos no subúrbio, apesar do fato de que eu daria aulas a cidade. Achava que a paternidade implicava na necessidade de um quintal, uma árvore e o sacrifício dos deleites urbanos. Assim, nos instalamos em uma charmosa casa em Nova Jersey, com um quintal, uma pereira ornamental, dois escritórios e quarenta estantes de livros. Mas agora, todos esses anos depois, deitada no sofá me recuperando da minha cirurgia, eu me dei conta de que não tinha amigos íntimos perto de mim que poderiam fazer uma visita e me trazer chá. As pessoas que eu amava eram nova-iorquinas que enfrentavam a ponte e o túnel para me trazer vouchers para passar dias em SPAs – na cidade. Encontramos um corretor de imóveis. Olhando para fora pela janela da sala de estar para aquela pereira ornamental, também descobri um profundo desejo 17

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de surpreender a mim mesma. Em vez de viver minha vida no momento presente, eu quis viver a vida de outra pessoa – especificamente, a vida de uma pessoa que morava em Paris. Ser professor tem inúmeros inconvenientes (tais como um salário irrisório), contudo, a falta de tempo livre não é um deles. Cada um de nós poderia tirar um ano sabático; precisaríamos apenas renovar nossos passaportes. Depois que Alessandro descobriu que havia uma escola italiana em Paris onde nossos filhos, bilíngues, poderiam estudar, dei as costas para a pereira e comprei novas cortinas para as janelas. Preenchi os espaços vazios das estantes de livros com vasos cor-de-rosa. A casa foi vendida em cinco dias, durante a pior crise do mercado imobiliário em décadas. Nossos carros foram os últimos bens dos quais nos desfizemos. Luca e Anna, os mais jovens integrantes da nossa família, eram os menos empolgados, para dizer o mínimo, com a perspectiva de transferência para a França. Eles estavam particularmente incomodados com o fato de que, entre todos nós, somente Alessandro falava francês. (Embora tivessem tido boas notas durante três anos de aulas de francês, eles estavam certos: não falavam a língua). Tentei animar minhas descrentes crianças dizendo que a inabilidade para entender nossos vizinhos faria com que sua experiência fosse mais fascinante. Intimidada com a insubordinação, eu disse que também tinha detestado meus pais quando tinha a idade deles; instigar medo e revolta na própria prole é um dever dos pais. Amigos receberam beijos de despedida, promessas foram feitas de manter contato via Facebook, brinquedos foram empacotados. Grandes quantidades de roupas com logotipos 18

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estampados foram compradas, já que um amigo mais experiente nos garantiu que uma ostentação de marcas americanas iria garantir popularidade na escola Leonardo da Vinci. Paris esperava: um ano inteiro sem dar aulas e sem as responsabilidades do departamento, somente a vida parisiense. Em agosto nos mudamos para um apartamento na rue du Conservatoire, formada por duas longas quadras, célebre pela música que ecoa nela em tardes quentes, vinda das janelas abertas do conservatório. Nos encontramos no 9º arrondissement, em um bairro onde moram diversos grupos de imigrantes, e estão o Folies Bergère* e o maior número de restaurantes japoneses que eu já vi. Fiz grandes planos para escrever quatro livros enquanto estivesse em Paris: um livro acadêmico sobre o teatro Jacobino de 1607, dois romances de ficção e um romance histórico. Mas, apesar desta enorme pretensão, eu me vi caminhando por horas. Li livros na cama enquanto a chuva batia nas janelas. Algumas vezes, eu passava duas semanas fazendo uma palavra cruzada do New York Times de domingo, me empenhando toda noite para desvendar uma pista que Will Shortz** provavelmente levou dois segundos para resolver. Logo, descobri um fato interessante: se um escritor não fica diante do computador durante horas todos os dias, nenhum texto é produzido. Eu sempre havia suspeitado que isso fosse verdade, mas tendo sido criada em uma família de escri* N.T. Folies Bergère é uma casa de apresentação de músicos, que teve seu auge entre os anos de 1890 e 1920, e que ainda hoje é palco de espetáculos. ** N.T. Will Shortz é editor de palavras cruzadas do The New York Times.

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tores (e uma família que não tinha um aparelho de televisão), nunca tive chance de testar isso. Mesmo durante um período inglório, não acadêmico, após a faculdade, eu voltava para casa depois do trabalho e me empenhava em um romance. Lembre-se, minha mãe revisou a edição de seu livro da cama de hospital . Ócio não parecia fazer parte do meu DNA. Ainda assim, praticamente a única escrita que eu produzi foi no Facebook, onde criei uma espécie de crônica online, espelhando-a na forma ainda mais concisa do Twitter. A cada dia que passava, meus thumbnails diminuíam na minha página do Facebook, ficando relegados a posts antigos. Meus tweets evaporavam, tão efêmeros e triviais, tão agradáveis e despreocupados, como nossos dias em Paris. Uma coletânea destes posts – organizados, revisados, alguns elaborados em forma de pequenos ensaios – transformou-se neste livro. Na maior parte, eu mantive o formato reduzido, a pequena explosão da experiência, como a melhor forma de oferecer o sabor dos meus dias. Aqueles dias não foram organizados com base em afazeres e em prazos de produção de livro, mas em torno de caminhadas no parque e visitas ao peixeiro. Os prazos vieram e passaram sem causar uma catástrofe na minha carreira de autora; eu relaxei em uma vida livre de alunos e de trabalhos em comitês; preguiça deixou de ser uma palavra assustadora. Eu nunca aprendi como viver o momento, mas aprendi que momentos podem ser desperdiçados e o mundo continuará a girar em seu eixo. Esta foi uma lição incrível.

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Trecho do livro "Paris apaixonada"