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I. Tempo de vigília Chove a cântaros. Como sempre, ele acorda muito cedo. São quatro horas do dia 12 de março e ainda está escuro. Ajoelhado, de olhos fechados, concentrado, ora em silêncio como em todas as madrugadas. Pede especialmente a São José e Santa Teresinha que o iluminem. A Deus pede perdão pelos seus pecados; e a Jesus, poder servir, tornar-se um instrumento. É um dia diferente. Esta tarde tem início o conclave para escolher o sucessor de Bento XVI. Ele é um dos 115 eleitores que ficarão confinados na Capela Sistina com essa missão. Faz frio. Ele escuta a chuva cair sobre o calçamento, no seu amplo quarto da Casa Internacional do Clero, na via della Scrofa, onde costuma se hospedar quando vai a Roma. Já é conhecido por lá; nos últimos dez anos tem ficado ali várias vezes e sempre lhe reservam o mesmo cômodo, de número 203. Embora ele não goste de vir a Roma — melhor dizendo, ao Vaticano, onde, com tanta intriga, pompa e ostentação, corre-se o risco de perder a fé —, nesse quarto de pé-direito alto, no final das contas bastante austero, fora os móveis antigos e os tecidos adamascados, ele sente-se à vontade. Homem organizado, calculista, “que não dá ponto sem nó”, segundo diz quem o conhece, deixou a mala arrumada na noite anterior. Despojado de bens materiais, são muito poucas as coisas que vai levar à Casa Santa Marta, o hotel quatro estrelas do Vaticano, onde se hospedará com os outros cardeais pelo período que o conclave durar. Um conclave que, espera, não se alongará por muito tempo. Como em 2005, quando participou da eleição para escolher o sucessor de João Paulo II, está convicto de que no mundo midiático em que vivemos, de vertigem de informações, um processo longo, superior a dois dias, passaria a imagem de uma Igreja dividida. Foi por isso mesmo que naquele conclave de 2005, quando tornou-se o cardeal com

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mais votos depois de Joseph Ratzinger, ele recuou para não obstruir a eleição. Após quase 27 anos de pontificado, não era fácil substituir um gigante como João Paulo II, carismático até seus últimos dias. A “cartada” Ratzinger, ex-braço direito do Papa polonês — que teve um papel-chave, cortês, equilibrado, nas reuniões prévias ao conclave, como decano do Colégio dos Cardeais —, patrocinada por um lobby conservador, era a mais fácil de se jogar. Daquela vez o conclave tinha sido uma experiência não apenas nova — a primeira vez na sua vida que entrava na imponente Capela Sistina para escolher o sucessor de Pedro —, mas também um pouco traumática. Cardeais que tinham participado dessa eleição — secretíssima, mas da qual costumam vazar informações, emoções, dados concretos —, viram o cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, então com 68 anos, transfigurado à medida que acumulava mais e mais votos na primeira contagem. Ganhava até do cardeal Carlo Maria Martini, também jesuíta, e papável de muitas chances, candidato dos progressistas, mas fora do páreo em virtude de sua enfermidade. “Lembro que ele voltou muito impressionado do conclave de 2005 de Roma”, diz um velho amigo de Bergoglio. “Ligou para mim e disse: ‘Doutor, o senhor não imagina o que sofri’. Sentira-se usado por alguns que, ao verem que ‘iam perdendo’, propuseram o nome dele contra o de Ratzinger. Voltou muito abalado com isso”. O padre Jorge — ele prefere ser chamado assim, já que se sente um simples padre, um pastor — termina de arrumar suas coisas no quarto da via della Scrofa. Passaram-se oito anos desde aquele primeiro conclave, no qual, graças a Deus, como dizem os portenhos, zafó, quer dizer, se safou. Oito anos difíceis, sem dúvida, para Bento XVI, que em 11 de fevereiro virou o jogo, tornando-se o primeiro Papa a renunciar em mais de seiscentos anos. Um gesto que Bergoglio definiu como “valente e revolucionário”. O cardeal argentino observa através da grande janela do seu quarto romano. São seis e meia da manhã e não tem ninguém na via della Scrofa. Já tomou seu café da manhã, leve, como todo dia, na copa da Casa do Clero. Trocou escassas palavras sobre o mau tempo, quanta chuva e que frio, com esses poucos padres que encontrou na sala. Alguns até arriscaram um “in bocca al lupo” (expressão italiana de boa sorte), em referência ao conclave da tarde.

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Por causa da chuva e da mala, não poderá ir a pé até o Vaticano, como costuma fazer quando está em Roma. É uma caminhada que o relaxa: vai orando, olhando as belíssimas ruelas da cidade eterna, passando pela via dei Coronari, dos antiquários. Além disso, sempre faz uma parada mais adiante, para rezar à Madonna dell’Archetto. O archetto é uma antiga passagem que leva à via dell’Arco dei Banchi, onde há um muro com um requintado afresco da Virgem, uma imagem especial entre as milhares que há em Roma. Após sua prece ali, o padre Jorge, sempre de perfil discreto — pois não gosta tampouco de se exibir com as ostentosas roupas de cardeal, de cor púrpura, que costuma ocultar sob um casacão preto —, atravessa o rio Tibre pela ponte Vittorio Emanuele II e segue até o Vaticano. Quantas vezes já terá feito, sozinho — pois, além dos milhares de amigos, ele é um homem solitário —, em paz, essa caminhada. Sempre pensando, orando, pensando, orando, aquilo que nunca deixa de fazer, nem mesmo enquanto dorme. Essa caminhada é uma das poucas coisas que desfruta na grandiosa Roma. Está perfeitamente ciente de que por detrás de tanta beleza sagrada, de tantos monumentos, igrejas, templos antiquíssimos, muitas vezes oculta-se um ninho de cobras. Não quer pensar que nunca mais poderá fazer essa caminhada, mas sua mente o trai. Desde que soube da renúncia de Bento XVI, no dia 11 de fevereiro, quando um amigo ligou para ele às oito da manhã — era meio­ ‑dia em Roma — para contar, alguma coisa lhe diz que sua vida pode mudar abruptamente. Embora seu lado racional — essencial nele — avise que é improvável ser ele o eleito, pois já está aposentado, renunciou ao cargo de arcebispo após completar 75 anos, está velho, prestes a sair de cena, sua parte intuitiva, seu coração — mais essencial ainda — lhe diz também que isso não é impossível. Não esquece a conversa premonitória, naquela mesma manhã do dia 11 de fevereiro, com o padre Alejandro Russo, reitor da Catedral Metropolitana de Buenos Aires, a quem tinha chamado ao seu gabinete para comentar a impactante notícia. — Meu Deus! Que coisa, esse assunto da Sé Vacante — comenta o cardeal. — Você sabe que eu pensava que em março já poderia se iniciar o processo de sucessão, em Buenos Aires… Isso agora vai atrasar tudo por dois ou três meses…

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— Ou vai adiantar — supõe o reitor. — Você acha que o novo Papa vai me dar um chute no dia seguinte? — Não, não estou dizendo isso. Mas posso também conjecturar que o novo Papa seja o senhor… — Nãooo, Alejandro! Eu acabo de renunciar à Sé. Já fiz 76 anos. De jeito nenhum! Não para de chover. Ele consulta o relógio de plástico preto que leva no pulso direito: é muito preciso, não gosta da impontualidade. Pega o telefone que está na escrivaninha do quarto para pedir à recepção que chamem um táxi, “per favore”. “Subito sua eminenza” [É para já, Vossa Eminência], responde uma voz submissa, servil. Ele detesta que o chamem de “cardeal” ou “eminência” com tal subserviência, nesse tom utilizado em Roma no trato com as altas hierarquias eclesiásticas. Mas está acostumado. E sua destreza de jesuíta faz com que tal repulsa não seja percebida. Desce até a recepção e cumprimenta, com um sorriso tímido, as pessoas de plantão. São quinze para as sete da manhã. “Auguri eminenza”, dirigem-se a ele, muito cortesmente, protegendo-o sob um guarda-chuva no percurso até o táxi. “Ci vediamo presto” [Até logo], despede-se o cardeal argentino. Além das premonições e dessa intuição guardada no mais fundo de sua alma, Bergoglio está tranquilo. Diferentemente do conclave de 2005, seu nome não se encontra agora entre os papáveis citados pela grande mídia italiana. Podem-se contar nos dedos de uma só mão os vaticanistas que o colocaram na lista de candidatos para o período pré-conclave. A maioria até acha que Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais e substituto da Secretaria de Estado nos últimos dias do pontificado de João Paulo II, de 69 anos, é o único argentino papável… Será um match Itália-Brasil, alguns vaticanistas italianos escreveram, usando uma terminologia futebolística para explicar o que acham que vai acontecer na primeira votação da tarde. Eles acreditam que a maioria dos 115 votos irá para os dois grandes favoritos: o arcebispo de Milão, Angelo Scola, e o arcebispo de São Paulo, Odilo Pedro Scherer. Também são considerados grandes candidatos o cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, e o simpático capuchinho de sandálias e barba comprida, o norte-americano Sean O’Malley, arcebispo de Bos-

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ton. Os quatro são mais novos do que Bergoglio: o primeiro tem 71 anos; Ouellet e O’Malley, 68; Scherer, 63. O mantra ouvido desde a renúncia de Bento XVI até hoje, dia em que se inicia o conclave, é que a idade do futuro Papa tem que girar entre 65 e 75 anos. É por isso que Bergoglio está calmo. Embora também saiba que não é a mídia que define o conclave. Está ciente de que há muita indecisão e que a história está bem complicada, pois, na verdade, o conclave carece de um único grande favorito, como foi o caso de Joseph Ratzinger em 2005. Quando se despede, o arcebispo de Buenos Aires não imagina nem remotamente que será ele quem terá de assumir o cargo. Está crente de que ainda poderá usar a passagem da Alitalia que deixou na Casa do Clero da via della Scrofa, com retorno para o aeroporto internacional de Ezeiza, Buenos Aires, no dia 23 de março.

Seu quarto na Casa Santa Marta é o 207, conforme sorteio feito no dia anterior na congregação geral de cardeais, a última reunião prévia ao conclave. É um quarto pequeno, simples, apenas com o estritamente necessário — cama, mesa de cabeceira, escrivaninha, crucifixo na parede, banheiro —, como ele gosta. São oito da manhã. Embora ainda não tenha se iniciado o trancafiamento cum clave (com chave) propriamente dito, o confinamento em si já começou. Não mais ligações, não mais leitura de jornais, não mais contato com o mundo externo, somente com os outros 114 cardeais dos cinco continentes, que têm a enorme responsabilidade de escolher o novo Papa numa hora bastante turbulenta da história da Igreja católica. Bergoglio conhece todos os cardeais das reuniões pré-conclave. De alguns, é muito amigo; de outros, menos. Sorri quando, no micro-ônibus que o leva até a Basílica de São Pedro para a missa pro eligendo Pontifice [pela eleição do Pontífice], um cardeal norte-americano muito popular comenta que sente falta de uma coisa: foi obrigado a deixar para trás seus dispositivos inseparáveis, o celular e o tablet com os quais tuíta, manda e-mails e interage no ciberespaço. Bergoglio entende pouco ou nada do assunto. Nunca teve celular. Sempre usou seu cérebro e uma pequena caderneta preta, na qual faz anotações com letra miúda sobre tudo. Além

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do telefone fixo comum, discando ele próprio os números, sem intermediários. Continua chovendo a cântaros em Roma, quando ele participa, junto com os demais cardeais, da missa transmitida ao vivo pela TV. Como se fosse uma mensagem divina, trovões e relâmpagos seguem a homilia do decano do Colégio dos Cardeais, Angelo Sodano, que faz um forte chamado à unidade. “Todos nós temos que colaborar para edificar a unidade da Igreja, porque para realizá-la é necessária a colaboração de cada conexão, segundo a energia própria de cada membro”, diz o ex-influente secretário de Estado. “Todos nós, portanto, somos chamados a cooperar com o sucessor de Pedro, fundamento visível de tal unidade eclesiástica”, ressalta. Sodano, diplomata de destaque e protetor de um grupo conservador da cúria, que nunca se deu bem com o arcebispo de Buenos Aires, alude aos oito anos de pontificado de Bento XVI, marcados por crises evitáveis, intrigas e lutas internas. Sodano, que não entrará no conclave porque já completou 85 anos, traça ainda um perfil do próximo Papa. “A atitude fundamental de todo bom Pastor é dar a vida por suas ovelhas. Isso vale, sobretudo, para o sucessor de Pedro, Pastor da Igreja universal. Porque quanto mais alto e mais universal é o ofício pastoral, tanto maior deve ser a caridade do Pastor”, declara. Há quem interprete essas palavras como uma crítica velada a Joseph Ratzinger, que deixou sem chão todo mundo com sua surpreendente abdicação. O decano do Colégio dos Cardeais, que dirigiu as reuniões prévias do conclave, destaca também, sem saber que está sendo profético, que a misericórdia há de ser um aspecto essencial da agenda que está por vir. “A missão de misericórdia empenha todo sacerdote e bispo, mas empenha ainda mais o bispo de Roma, Pastor da Igreja universal”, diz. “A maior obra de caridade é precisamente a evangelização.” “Queremos implorar ao Senhor que, mediante a solicitude pastoral dos cardeais, queira em breve conceder outro bom Pastor à sua santa Igreja”, pede. “Rezemos a fim de que o Senhor nos conceda um Pontífice que realize com coração generoso tão nobre missão.” O cenário é imponente; a trilha sonora, com o órgão e os corais da Capela Sistina, idem. O cardeal argentino aparece concentrado. Reza no-

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vamente a São José e Santa Teresinha e continua tentando pensar que é impossível ele vir a ser o novo chefe da Igreja católica. Embora esses trovões que ecoam com potência dentro da imensa Basílica de São Pedro — sinais divinos? — pareçam pressagiar que o destino, talvez, tenha lhe reservado uma surpresa. Como já tem acontecido em sua vida, talvez Deus queira que seja ele quem segurará esse leme da barca de Pedro em plena tempestade. Duas vezes já teve que assumir a liderança em tempos de crise: a primeira, quando foi eleito provincial dos jesuítas da Argentina em 1973, com apenas 36 anos, tornando-se assim o mais novo de todos os provinciais, às vésperas da ditadura e durante o turbulento período pós-conciliar. A segunda, ao assumir o posto de arcebispo de Buenos Aires, em 1988, após a morte do cardeal Antonio Quarracino, o homem que o resgatou do exílio-castigo em Córdoba.1 Na época, explodiu em suas mãos o escândalo financeiro do colapso do Banco de Crédito Provincial (BCP), em que a arquidiocese aparecia envolvida em um suposto rombo de 10 milhões de dólares. Além disso, foi atacado por velhos inimigos que tiraram do baú antigas acusações de cumplicidade com a ditadura, todas sem fundamento… Homem profundamente religioso, que reza e escuta tudo o que Deus quer lhe dizer, e que leva à oração tudo o que vive no dia a dia, Bergoglio superou ambas as provas. O cardeal primaz, que tem muito claro quem é e o que quer, demonstrou nesses dois desafios cruciais da sua vida ser um homem de governo de mão firme. Um homem do poder, que granjeou rejeições e apoios e que, sim, pode ter cometido erros, pois todo mundo erra. Um homem com muitos amigos, mas, ao mesmo tempo, com alguns inimigos e, às vezes, até cercado de hostilidades, mas que sabe sair vitorioso das batalhas que seus adversários lhe impõem. Um homem de grande fortaleza interna, que não se desmoraliza facilmente.

Do lado de fora continua o temporal, agora até cai granizo. A cólera de Deus? Mas a música do órgão da basílica tenta amenizar o barulho da natureza, repentinamente furiosa. A missa, transmitida ao vivo para todo o mundo, mostra Bergoglio junto dos demais cardeais — que têm, em

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média, 71 anos e dez meses de idade —, avançando em procissão ao altar­ ‑mor da Basílica de São Pedro, para beijá-lo, após se inclinar. Seu rosto, como os dos outros 114 príncipes da Igreja, enquadrado em close pelas câmeras do Centro Televisivo Vaticano, denota preocupação. Finda a missa, um cardeal europeu, considerado um kingmaker porque sua opinião orientará muitos outros, e que fez campanha abertamente pelo arcebispo de Buenos Aires, tanto em 2005 quanto agora, aproxima-se de Bergoglio e nota que ele está calmo. Ele tem a impressão de que, dessa vez, o cardeal argentino aceitou no fundo do coração a possibilidade de se tornar Pontífice. Percebe que, agora, não vai recuar. “Atenção, chegou a sua vez”, lhe diz em tom sério, mas ao mesmo tempo brincalhão, para descontrair o momento. Bergoglio responde com um sorriso tímido, assentindo com o olhar. Após um primeiro almoço em grupo na Casa Santa Marta, em que o cardeal argentino evita diplomaticamente qualquer aproximação de lobistas — que existem, sim —, a tensão volta aos rostos dos cardeais eleitores que, segundo antigo ritual, marcham em procissão da Capela Paulina até a Capela Sistina. São 16h30. Com suas vestes púrpuras, em clima de grande solenidade, os cardeais avançam e cantam o Veni, Creator Spiritus, hino em latim que invoca a ajuda do Espírito Santo para a crucial eleição. Eles vão ocupando seus postos junto às compridas mesas que ficam do lado do Juízo Final de Michelangelo. E um de cada vez vão jurando, com a mão direita sobre o Evangelho no centro da sala, em cima de um pedestal, lendo uma fórmula em latim em que se comprometem a manter absoluto sigilo sobre tudo o que tenha a ver com a eleição do Papa. O cardeal italiano Angelo Scola, o grande favorito segundo a mídia italiana, mas que não obteve o apoio da maioria dos outros 27 cardeais conterrâneos, está evidentemente emocionado, nervoso. Seu suposto rival, o brasileiro Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, de origem alemã e candidato do partido dos “romanos” da cúria, os que não desejam mudanças, mostra-se concentrado. Mais tranquilo está o também favorito canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, e que muitos especialistas consideram um provável candidato figurante entre reformistas e curiais. Ouellet trabalha na cúria, mas é tido

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por alguém “limpo”, alheio às ferozes lutas internas — tipicamente italianas — que vieram à tona no ano anterior, no escândalo Vatileaks, o vazamento de documentos sigilosos do próprio escritório do Papa. Poucos prestam atenção ao cardeal arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, que surpreende com seu rosto sereno, resignado. São 17h34. O mestre de cerimônias litúrgicas pontifícias, monsenhor Guido Marini, pronuncia com uma voz quase tímida o Extra omnes —“todos fora”—, ordenando a saída da Capela Sistina de todos os que não participam da secretíssima eleição. O cardeal maltês, Prosper Grech, que tem mais de oitenta anos, profere uma última meditação para iluminar os eleitores. Na sequência, ele e Marini abandonam a Sistina. Embaixo dos afrescos e em clima de filme — por acaso, o do cineasta italiano Nanni Moretti, Habemus Papam? —, o silêncio é rasgado pelo som das penas que agora deslizam sobre o elegante papel que cada cardeal tem diante de si. Os 115 purpurados registram pela primeira vez nas cédulas o nome de quem consideram a pessoa indicada para suceder Bento XVI. Escrevem abaixo da linha com a inscrição “Escolho como Sumo Pontífice”. O suspense é imenso na Capela Sistina enquanto o cardeal escrutinador vai lendo, um a um, os nomes escritos. O auxiliar toma notas. A acústica é ruim, mas ao escutar repetidamente o seu nome e sobrenome, Jorge Mario Bergoglio, sério, olhar atento, começa a entender que aquela intuição íntima, à qual nunca quis dar ouvidos, vai virando realidade. É fato, corre perigo.

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Trecho do livro "Papa Francisco - vida e revolução"  
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