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capítulo 1

Ash McIntyre estava parado na passarela de concreto do

Bryant Park, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça, enquanto respirava o ar da primavera. Havia ainda um vento frio, trazendo com ele lembranças do inverno que se perdeu para dar lugar à nova estação. Ao seu redor, algumas pessoas estavam sentadas nos bancos e cadeiras perto das pequenas mesas onde bebiam café, trabalhavam em seus laptops ou ouviam música em seus iPods. Era um dia espetacular, não que ele costumasse aproveitar coisas como um passeio no parque ou até mesmo estar em um parque, especialmente durante o horário comercial, quando estava entrincheirado em seu escritório, no telefone, escrevendo e-mails ou fazendo planos para viajar. Não era o tipo de cara de “parar e cheirar as rosas”. Mas hoje estava inquieto e desconfiado, com muita coisa na cabeça, e se viu aqui, sem realmente perceber que tinha planejado ir ao parque. O casamento de Mia e Gabe seria em poucos dias, e seu parceiro de negócios estava até as orelhas com os preparativos, já que ele tentava garantir que Mia tivesse as bodas dos seus sonhos. E Jace? Seu outro melhor amigo e parceiro de negócios estava em um relacionamento muito sério com sua noiva, Bethany, o que significava que seus dois amigos estavam ocupados de verdade. Quando eles não estavam trabalhando, estavam com suas mulheres, e isso significava que Ash não os encontrava a não ser no escritório e nas ocasiões em que todos se reuniam fora do trabalho. Ainda eram

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próximos, e Gabe e Jace se asseguravam de que a amizade deles permanecesse sólida, incluindo-o em suas novas vidas. Mas não era a mesma coisa. E enquanto isso era bom para seus amigos, Ash ainda não tinha exatamente aceitado a rapidez com que a vida deles tinha mudado ao longo dos últimos oito meses. Foi estranho e avassalador, mesmo que não fosse a sua vida sendo afetada. Não era como se não estivesse feliz por seus amigos. Eles estavam felizes e isso o deixava feliz. Mas, pela primeira vez desde o início de sua amizade, Ash estava do lado de fora olhando para dentro. Seus amigos contestavam isso veementemente. Eles eram sua família. Muito mais do que sua própria família louca e desvairada, que Ash passava a maior parte do tempo evitando. Gabe, Mia, Jace e Bethany, mas principalmente Gabe e Jace, negariam que Ash estava à deriva agora. Eram os seus irmãos de todas as maneiras que importam. Mais do que sangue. Seu vínculo era inquebrável. Mas isso mudou. Então, na verdade, ele estava à deriva. Ainda fazia parte do grupo, mas de uma maneira muito diferente e menor. Durante anos o lema deles fora curtir para valer e viver livres. Estar em um relacionamento transforma um homem. Suas prioridades mudam. Ash captava isso. Entendia isso. Pensaria menos de Gabe e Jace se suas mulheres não fossem suas prioridades. Mas isso o deixava de fora. Segurando vela. Não era um lugar confortável para se estar. Era especialmente difícil porque, até Bethany aparecer, Ash e Jace tinham compartilhado a maioria de suas mulheres. Mais frequentemente juntos do que sozinhos, eles fodiam as mesmas mulheres. Soava estúpido Ash não saber como agir fora de um ménage à trois, mas era verdade. Ele estava inquieto e nervoso, em busca de algo que não tinha ideia do que era. Não era como se quisesse o que Gabe e Jace tinham – ou talvez fosse isso e ele se recusasse a admitir. Só sabia que não estava sendo ele mesmo e não gostava nem um pouco disso. Era focado. Sabia exatamente o que queria o tempo todo e tinha dinheiro e poder para conseguir o que fosse. Não havia escassez de mu10


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lheres que estariam mais do que dispostas a dar para Ash o que ele precisasse ou quisesse. Mas qual era o propósito disso quando ele mesmo não tinha ideia do que queria ou precisava no momento? Examinou o parque, olhando os carrinhos de bebê sendo empurrados pelas mães e babás. Tentou se imaginar com filhos e quase estremeceu com aquele pensamento. Tinha 38 anos, quase 39, época em que a maioria dos homens já tinha se estabelecido e tido filhos. Mas passou todos os seus vinte anos e um bom pedaço dos trinta dando muito duro com os seus parceiros para tornar seu negócio o sucesso que era agora. Sem usar o dinheiro de sua família, seus contatos, e, especialmente, sem ajuda. Talvez por isso eles o odiassem tanto agora. Porque não deu a mínima para eles e basicamente disse para irem se foder. Mas o maior pecado que cometeu foi se tornar bem-sucedido sem eles. Tinha mais riqueza e poder do que os seus pais. Do que seu avô. Por falar nisso, o que o resto de sua família já fez além de viver da generosidade do velho? Seu avô tinha vendido seu próspero negócio quando Ash ainda era um menino. Ninguém na família tinha trabalhado um dia sequer em suas vidas. Ele balançou a cabeça. Sanguessugas de merda, a maior parte deles. Não precisava deles. Com certeza não os queria. E agora que os tinha superado – e ao seu avô – certamente não ia permitir que voltassem à sua vida para colherem as vantagens de estar perto dele. Virou-se para ir embora, porque tinha coisas para fazer que não incluíam ficar de pernas para o alto em um maldito parque, refletindo sobre si mesmo como se precisasse de um psiquiatra. Tinha que se ajeitar e começar a se concentrar em uma coisa que não havia mudado: os negócios. A HCM Global Resorts tinha projetos em diferentes fases de trabalho. O hotel em Paris já era uma negociação certa depois de eles terem tido que trabalhar rápido para substituir os investidores que haviam recuado. As coisas estavam fluindo e progredindo bem. Esta não era a hora de deixar a bola cair, especialmente quando Gabe e Jace não poderiam se dedicar ao trabalho da mesma forma que tinham se dedicado no passado. Ash era o único que não estava distraído com sua vida pessoal, então tinha que tomar as rédeas, deixar um pouco de 11


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folga para que seus amigos pudessem desfrutar de uma vida fora do trabalho. Quando começou a caminhar na direção em que veio, viu uma jovem sentada sozinha em uma das mesas fora da área de tráfego principal. Parou no meio do passo e deixou seu olhar pousar inteiramente sobre ela, apreciando sua beleza. Longos cabelos loiros que esvoaçavam de leve com a brisa, revelando um rosto surpreendentemente bonito, com olhos marcantes que ele podia ver até mesmo da distância em que estava. Ela estava usando uma saia longa moderninha que rodava com o vento, mostrando a longa extensão de uma perna. Sandálias brilhantes adornavam seus pés e ele podia ver o esmalte rosa, além de e um anel no dedo do pé que cintilou quando ela mexeu a perna para mudar de posição. A luz do sol brilhou em uma tornozeleira prateada, atraindo ainda mais a atenção para a perna longilínea. Estava ocupada desenhando, com a testa franzida, compenetrada, enquanto o lápis flutuava sobre a página, e ao seu lado estava uma enorme bolsa, lotada com papéis enrolados que se estendiam até o topo. O que mais chamou sua atenção foi o colar que ela usava no pescoço. Não combinava com ela. Ash fez essa avaliação instantânea. Estava apertado em volta do pescoço, descansando exatamente no recuo de sua delicada garganta. Mas não combinava com ela. Não a refletia em nada. Ficava vistoso sobre ela. Uma gargantilha de diamantes, obviamente cara e provavelmente verdadeira, mas que não condizia com o resto do conjunto. O colar se destacava, fora do lugar. Sua curiosidade foi aguçada, pois quando via uma peça de joia como aquela em uma mulher significava algo muito diferente do que para a maioria das pes­ soas, e Ash ficou interessado em saber se era de fato uma coleira ou se era apenas um ornamento escolhido por ela. Se fosse uma coleira, o homem que a havia escolhido tinha feito um trabalho horrendo. O homem não a conhecia, ou talvez não se importasse em garantir que um adorno tão importante fosse adequado para a mulher que chamava de sua. 12


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Se Ash podia fazer esse julgamento após meros momentos de observação, então como diabos o homem que estava fazendo amor com ela não enxergava a mesma coisa? Talvez a joia fosse mais um reflexo do seu dominador, que era arrogante e idiota. A coleira deve representar o seu cuidado com a sua submissa, o quanto de contato tem com ela, e deve combinar com a mulher que a está usando. Estava fazendo suposições pra caramba. Poderia ser apenas um colar que a mulher tinha escolhido para si. Mas, para um homem como Ash, significava algo mais do que um acessório. Quanto tempo ficou olhando para ela, isso não sabia, mas como se sentisse o seu olhar, o rosto dela se levantou para encontrar o seu e seus olhos se arregalaram, algo como pânico invadiu sua expressão. Então, ela fechou seu caderno rapidamente com força e o enfiou na bolsa. Levantou-se parcialmente, ainda guardando suas coisas na enorme bolsa, e Ash percebeu que ela estava indo embora. Antes mesmo de estar ciente disso, disparou em sua direção, intrigado. A adrenalina correu por suas veias. A caçada. Descoberta. Desafio. Interesse. Queria saber quem era essa mulher e o que significava o colar que estava usando. E mesmo enquanto caminhava até ela, sabia que se o colar realmente significasse o que ele pensava, estaria invadindo o território de outro homem, mas, de qualquer maneira, não estava nem aí. Abordar a submissa de outro dominante era uma dessas proibições não escritas, mas, de qualquer forma, Ash nunca tinha sido um bom seguidor de regras. Pelo menos não as que ele próprio estabelecia. E essa mulher era bonita. Intrigante. E talvez fosse exatamente o que ele estava procurando. Como saberia se não a alcançasse antes que fosse embora? Estava perto quando ela se virou com a bolsa na mão, obviamente se preparando para ir embora, e quase bateu de cabeça com ele. Sim, estava de fato invadindo seu espaço, e ficaria feliz se ela não gritasse para o parque inteiro. Provavelmente parecia um maníaco prestes a atacar. Ouviu sua rápida inspiração quando ela deu um passo para trás, batendo com a bolsa na cadeira que havia pouco tinha desocupado. A 13


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bolsa virou, soltando-se de sua mão, e todo o conteúdo caiu, lápis, pincéis e papéis voando por toda parte. –  Droga! – murmurou. Ela se inclinou imediatamente, agarrando os papéis, e Ash foi atrás de um que tinha sido apanhado pelo vento, carregado a vários metros de distância. –  Pode deixar – ela falou. – Por favor, não precisa se incomodar. Ele capturou o desenho, virando-se de volta para ela. –  Não é incômodo nenhum. Sinto muito se a assustei. Ela soltou uma risada nervosa enquanto estendia a mão para pegar o papel. – Você fez isso, com certeza. Ash olhou para baixo, observando o desenho enquanto lhe entregava e, em seguida, piscou surpreso quando se viu no papel. –  Que diabos? – murmurou, ignorando a tentativa apressada dela de agarrar o desenho. –  Por favor, apenas me devolva – disse a moça, sua voz era suave e urgente. Ela parecia assustada, como se ele estivesse prestes a surtar, mas ele estava ainda mais fascinado pela pequena extensão de pele na lateral do corpo dela que havia sido descoberta pela blusa folgada quando estendia a mão para pegar o papel. No lado direito do seu tronco ele tinha vislumbrado uma tatuagem vibrante e colorida. Como ela. O breve vislumbre que ele teve lhe disse que era alguma coisa florida, quase como uma videira, e que provavelmente se estendia um bocado para cima ou para baixo de seu corpo. Talvez os dois. Ele desejou como nunca que pudesse ver mais, mas ela deixou cair o braço e a bainha de sua camisa se acomodou ​​ ao cós da saia longa, privando-o de uma nova visão. –  Por que você estava me desenhando? – perguntou curioso. A cor invadiu o seu rosto, fazendo com que sua pele ficasse rosada. Ela tinha a pele clara, apenas levemente tocada pelo sol, mas com os cabelos e os lindos olhos azuis esverdeados, ela estava linda. Ela era linda. E, evidentemente, muito talentosa.

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Ela o havia desenhado perfeitamente. Ele não teve nenhuma dificuldade em se reconhecer no desenho a lápis. Sua expressão pensativa, o olhar distante. Ela o havia desenhado como ele estava ali parado, as mãos enfiadas nos bolsos. Esse momento de autorreflexão era evidente no desenho. Ele se sentiu estranhamente vulnerável já que uma completa estranha tinha sido capaz de captar o seu humor em poucos momentos. Ela o tinha visto naquele momento vulnerável e tinha apanhado o que ele escondia de todos os outros no mundo. –  Foi apenas um impulso – defendeu-se. – Eu desenho um monte de gente. Coisas. Qualquer coisa que chamar a minha atenção. Ele sorriu, nunca deixando seu olhar se desprender do dela. Seus olhos eram tão expressivos, capazes de engolir um homem inteiro. E aquela maldita gargantilha olhou para ele, provocando-o com as possibilidades. –  Então você está dizendo que eu chamei sua atenção. Ela corou novamente. Foi um rubor de culpa, mas também bastante significativo. Estava observando-o tanto quanto ele a estava observando. Talvez de maneira mais sutil, mas também a sutileza nunca tinha sido um de seus pontos fortes. –  Você parecia deslocado – ela desabafou. – Tem feições muito fortes. Eu estava louca para colocá-las no papel. Você tem um rosto interessante e era óbvio que tinha muita coisa em sua cabeça. Acho que as pessoas são muito mais abertas quando pensam que ninguém as está observando. Se estivesse posando, a imagem não teria sido a mesma. –  Está muito bom – disse lentamente enquanto baixava o olhar para reparar mais uma vez no desenho. – Você tem muito talento. –  Posso pegá-lo de volta agora? – perguntou. – Estou atrasada. Ele olhou para cima, levantando a sobrancelha de forma questionadora. –  Você não parecia estar indo embora até me ver vindo em sua direção. –  Isso foi há alguns minutos, e eu não estava atrasada. Agora estou. –  Está atrasada para o quê? 15


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As sobrancelhas dela se uniram em consternação e, em seguida, seus olhos brilharam aborrecidos. –  Eu não acho que seja da sua conta. –  Ash – disse ele aproveitando a pausa que ela fez no final. – Meu nome é Ash. Ela assentiu, mas não respondeu com o nome dela. Ele teria dado qualquer coisa para ouvir o seu nome de seus lábios logo em seguida. Ele estendeu a mão, roçando os dedos sobre o colar em seu pescoço. –  Isso tem alguma coisa a ver com o seu atraso? Ela deu um passo para trás, sua testa ficou ainda mais franzida. –  Seu Dom está esperando por você? Ela arregalou os olhos e os dedos foram automaticamente para a gargantilha onde os dedos dele tinham estado apenas alguns segundos antes. –  Qual é o seu nome? – Ash perguntou, quando ela permaneceu em silêncio. – Eu lhe disse o meu. A coisa educada a se fazer é retribuir o favor. –  Josie – disse ela quase em um sussurro. – Josie Carlysle. –  E quem é seu dono, Josie? Seus olhos se estreitaram em seguida e ela agarrou sua bolsa, empurrando o restante de seus lápis para dentro. –  Ninguém é meu dono. –  Então eu não compreendi bem o significado desse colar que você está usando. Seus dedos roçaram sobre ela novamente, e isso a fez se coçar. Ele queria tirar aquele colar. Não era certo para ela. Uma coleira deve ser cuidadosamente escolhida para uma submissa. Algo que combine com sua personalidade. Algo feito especialmente para ela. E não para qualquer mulher. –  Você não entendeu errado – disse ela com uma voz rouca que causou arrepios na sua espinha. Apenas sua voz seria capaz de seduzir um homem em questão de segundos. – Mas ninguém é meu dono, Ash. E lá estava ele. Seu nome naqueles lábios. Aquilo o atingiu profundamente, enchendo-o com uma satisfação inexplicável. Queria ouvi-lo novamente. Quando estivesse dando prazer para ela. Quando estivesse 16


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com as mãos e a boca em seu corpo, tirando suspiros sussurrantes de contentamento dela. Ele levantou uma sobrancelha. –  Então, você não entendeu o significado desse colar? Josie riu. –  Não, mas ele não é meu dono. Ninguém é meu dono. Foi um presente. Um que eu escolhi usar. Nada de mais. Ash se inclinou e desta vez ela não recuou. O seu olhar estava fixo no dele, a curiosidade e até mesmo a ansiedade brilhando. Ela também sentiu isso. Essa atração magnética entre eles. Teria que ser cega e estar em negação para não a sentir. –  Se você estivesse usando a minha coleira, saberia muito bem que me pertence – ele rosnou. – Além disso, não iria se arrepender nem por um segundo de ter se entregado por inteiro a mim. Se estivesse sob meu cuidado, definitivamente me pertenceria. Não haveria nenhuma dúvida. E não hesitaria quando perguntassem quem era o seu dominante. Nem diria que foi um presente, como se não fosse nada mais do que um a peça de joia escolhida sem pensar por um capricho. Isso significaria algo, Josie. Significaria a coisa toda, e você sabe disso. Seus olhos se arregalaram e então ela riu de novo, com os olhos brilhando. –  Então é uma pena que eu não pertença a você. Com isso, ela se virou e saiu correndo com a bolsa no ombro, e ele continuou lá, de pé, segurando o retrato que ela tinha desenhado. Observou enquanto ela se afastava dele, o cabelo deslizando por suas costas e levantando com o vento, um vislumbre das sandálias e da tornozeleira que tilintou suavemente quando ela se mexeu. Então olhou para o desenho na mão. –  Uma pena, de fato – murmurou.

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Trecho do livro "Fogo"