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Pam Muñoz Ryan nasceu na Califórnia e iniciou a carreira de escritora em 1994, após incentivo de uma professora. Autora de mais de trinta livros, Ryan tem recebido inúmeros prêmios e menções honrosas em reconhecimento ao seu trabalho. Com O Sonhador ganhou, entre outros, o Booklist Editor’s Choice, Premio Letteratura Ragazzi, The Americas Award e Distinguished Lyrical Fictionalized Biography. Para mais informações, visite-a no site: www.pammunozryan.com. Peter Sís é ilustrador de renome internacional, cineasta e também autor. Possui mais de vinte livros de sua autoria. Você pode visitá-lo no site: www.petersis.com.

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Neftalí é um garoto que enxerga beleza e maravilha por toda parte. Sensível e extremamente tímido, tem o hobby de colecionar objetos e não gosta de matemática, mas ama com intensidade os livros. O sonhador Neftalí elegeu a chuva como personagem inesquecível de sua infância. Ao crescer, irá se tornar um dos poetas mais lidos do mundo, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura: será internacionalmente conhecido sob o pseudônimo de Pablo Neruda. Esta é uma obra de ficção inspirada na vida do famoso poeta. A perfeita sincronia entre os poemas de Neruda, os escritos de Pam Muñoz Ryan e a arte de Peter Sís resulta num trabalho comovente, que relata o nascimento de um artista e celebra a magia da infância e a força do espírito criativo.

Em “Infância e Poesia”, um dos capítulos do livro de memórias escrito por Pablo Neruda, há uma cena em que dois garotos, separados por uma cerca, trocam presentes entre si. De um lado, Neruda recebe uma ovelha de brinquedo com a lã já desbotada. Do outro, o menino misterioso ganha uma pinha “entreaberta, cheirosa e balsâmica” que o poeta adorava. Foi essa curiosa história, descrita em cerca de três parágrafos, que inspirou Pam Muñoz Ryan a escrever O Sonhador. Guiada pela poesia de Neruda, a autora concebeu os poemas e textos que relatam, de forma ficcional — mas muito autêntica e encantadora —, a infância do poeta sonhador.

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O Sonhador

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O Sonhador Pam Muñoz Ryan Desenhos Peter Sís

Tradução

Marcelo Barbão

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Copyright © 2010 by Pam Muñoz Ryan. Illustrations copyright © 2010 by Peter Sís. All rights reserved. Published by arrangement with Scholastic Inc., 557 Broadway, New York, NY 10012, USA. Tradução para a língua portuguesa © 2010 Texto Editores Ltda. Título original: The Dreamer Diretor editorial: Pascoal Soto Editora executiva: Tainã Bispo Editora assistente: Ana Carolina Gasonato Produção editorial: Fernanda S. Ohosaku, Maitê Zickuhr e Renata Alves Preparação de texto: Luiz Carlos Cardoso Revisão: Maria Luiza Lima Almeida Capa: Mateus Valadares Tradução: Marcelo Barbão Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Ryan, Pam Muñoz O sonhador / Pam Muñoz Ryan; ilustrações de Peter Sís; tradução de Marcelo Barbão. – São Paulo : LeYa, 2013. 224 p. : il. ISBN 978-85-8044-764-4 Título original: The dreamer 1. Literatura 2. Poesia 3. Neruda, Pablo, 1904-1973 I. Título II. Ryan, Pam Muñoz III. Sís, Peter 13-0183

CDD 813 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura americana - ficção

2013 Todos os direitos desta edição reservados a TEXTO EDITORES LTDA. [Uma editora do Grupo LeYa] Rua Desembargador Paulo Passaláqua, 86 01248-010 – Pacaembu – São Paulo - SP www.leya.com.br

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Para meu leitor, este livro é para você. Vagando naquele espaço infinito entre alma e estrela. Estou esperando por você ali. ~PMR

Para nossa casa familiar Nerudova 19 Praga. ~PS

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“Olhe ao redor – Só há um perigo Para você aqui...” ~Pablo Neruda

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Sou poesia, esperando para agarrar o poeta. Faço perguntas para as quais existem respostas. Não escolho nenhuma. Escolho todas. Aproxime-se... ...se tiver coragem.

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CHUVA

Num continente de muitas canções, num país com a forma do braço de um guitarrista alto, a chuva caía sobre a cidade de Temuco. Neftalí Reyes se sentou na sua cama cheia de travesseiros e olhou para a lição à sua frente. Seu professor dizia que eram simples somas, mas nunca eram simples para ele. Como gostaria que os números desaparecessem! Ele fechou os olhos e voltou a abri-los. Os dois e três se levantaram da página e chamaram os outros para se juntar a eles. Os cincos e setes saltaram e finalmente, depois de muitos chamados, os quatros, uns e seis se juntaram também. Mas os noves e os zeros não se moveram, então os outros os deixaram para trás. Deram as mãos numa longa procissão de pequenos números, voaram pelo quarto e escaparam pela janela. Neftalí fechou o livro e sorriu. Claro que não poderia terminar a lição só com os preguiçosos zeros e noves deitados na folha. Saiu devagar da cama e foi até a janela, encostando a testa no vidro e olhando para o quintal. Sabia que deveria des-

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cansar para se recuperar da sua doença. Sabia que, quando não estava descansando, devia estudar. Mas havia tantas distrações... Do lado de fora, o inverno era cinza e molhado. A terra tinha virado barro e um pequeno riacho passava por um buraco na cerca caída. No momento, ninguém vivia na casa ao lado. Mesmo assim, Neftalí sempre imaginava um amigo do outro lado, esperando por ele – alguém que também gostasse de ficar vendo os destroços descendo pelo rio, que colecionasse varetas tortas, gostasse de ler e não gostasse de matemática também. Ele ouviu passos. Seria seu pai? Estava fora havia uma semana, trabalhando na estrada de ferro, e devia voltar hoje. O coração de Neftalí bateu forte e seus olhos castanhos redondos se abriram em pânico. Os passos se aproximavam. Clump.

Clump.

Clump.

Clump.

Neftalí levantou a mão e arrumou seu grosso cabelo negro. Estava despenteado? Levantou as mãos e olhou para seus dedos magros. Estavam bem limpos? A ideia de enfrentar o pai fez com que seus braços se arrepiassem e sua pele parecesse encolher. Ele respirou fundo e segurou o ar. Os passos continuaram passando pelo seu quarto e seguindo pelo corredor. Neftalí suspirou.

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Deveria ser Mamadre, sua madrasta, com seus sapatos de salto de madeira. Ele ouviu até ter certeza de que não havia ninguém por perto, depois voltou para a janela. As gotas de chuva batiam no teto de zinco. A água misteriosamente vibrava acima dele, conseguindo entrar. Gotas caíam do teto, enchendo os baldes que ele tinha espalhado para agarrá-las.

plip plip

plop

bloop, bloop, bloop

oip, oip, oip, oip plip – plip plip – plip

plop tin, tin, tin, tin, tin

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plop plip – plip

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oip, oip, oip, oip tin, tin, tin, tin, tin

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Enquanto Neftalí ouvia o piano das notas molhadas, olhou para os Andes, rodando como um coro vestido com roupas brancas. Ele olhou para o rio Cautín se enroscando na floresta. Fechou os olhos e viajou pelas terras além, passando por lugares como Labranza, Boroa e Ranquilco, onde o mar se encontrava com a terra dura. A janela se abriu. Um tapete de chuva entrou e carregou Neftalí para o oceano distante que ele só tinha visto em livros. Ali, ele era capitão de um navio e sua proa cortava o azul do mar. A água salgada batia em seu rosto. Suas roupas tremulavam no corpo. Ele se agarrava ao mastro olhando para trás. Para seu país, o Chile.

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Neftalí? Quem colhe a água

da nuvem para o topo das montanhas até o rioe alimenta o faminto oceano?

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O barulho do apito de um condutor chamou a atenção de Neftalí. Ele se virou. O corpo de seu pai tomava todo o vão da porta. Neftalí tremeu. – Pare de ficar sonhando acordado! – A ponta branca da barba loira de seu pai tremia quando ele abria e fechava a boca. – E por que você está fora da cama? Neftalí evitava os olhos do pai. – Você quer ser um fracote magricela o resto da vida e não conseguir fazer nada? – N-n-n-não, papai – gaguejou Neftalí. – Sua mãe era igual, rabiscando papéis, com a mente sempre em outro mundo. Neftalí esfregou a testa. Não tinha conhecido sua mãe. Ela tinha morrido dois meses depois de seu nascimento. Seu pai estaria certo? Sonhar acordado poderia o deixar fraco? Será que isso tinha deixado sua mãe tão fraca a ponto de morrer? Mamadre correu para o quarto. Papai apontou para ela. – Você precisa cuidar melhor dele. Deve ficar na cama ou nunca vai ficar bom. O chão tremeu quando ele se afastou da porta. Mamadre pegou a mão de Neftalí, gentilmente o ajudando a voltar à cama, e arrumando o cobertor ao seu redor. – Sua mãe não morreu por causa da imaginação dela – sussurrou. – Foi uma febre. E olhe para mim. Sou pequena e muitos dizem que muito magra. Posso não parecer grande e forte por fora, mas sou perfeitamente capaz por dentro, assim como você. – Ela balançou a cabeça. – Sei que é difícil passar os dias na cama.

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– Es-es-estou... b-b-bem – disse Neftalí, levantando o braço para tocar seu cabelo negro que estava preso num coque na nuca. – Só mais um dia – disse Mamadre. – Vou ler para ajudar a passar o tempo. Com a voz macia de Mamadre, Neftalí se perdeu nas lendas de espadachins e gigantes. Ali, sua timidez dolorosa desaparecia. Ali, ele não podia ser chamado de “Canela” por causa de seu corpo magro e doente, ou escolhido por último na hora de formar os times. Por entre as páginas, ele esquecia que gaguejava quando falava. Via-se saudável e forte como seu irmão mais velho, Rodolfo; alegre como sua irmãzinha, Laurita; e confiante e inteligente como seu tio Orlando, que era o dono do jornal local. Enquanto as páginas viravam, ele até se imaginava com um amigo. Depois que Mamadre terminou de ler e saiu, Neftalí estudou as rachaduras no teto. Pareciam estradas num mapa e ele se perguntava a qual país pertenciam. Ele suspirou. Não importava nem um pouco o que seu pai falasse sobre sonhar acordado. Neftalí não conseguia parar. Todo detalhe curioso de sua vida o provocava. Sua mente viajava. Com a tempestade monstruosa caindo do lado de fora, que surpreendia o teto. Com o resmungo distante do dragão do vulcão, Monte Llaima, que fazia o chão soluçar. Com as paredes provisórias de sua tímida casa, tremendo e se curvando ao barulho dos trens que passavam. Com o desenho caótico do quarto com escadas incompletas, que poderiam levar a um castelo em outro andar, mas que há tempos tinham sido abandonadas no meio da construção.

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NeftalĂ­? Para qual terra mĂ­stica leva uma escada sem fim?

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No dia seguinte, Mamadre estava mais cuidadosa e Neftalí não conseguiu fugir da cama. Por isso, pediu para Laurita ser sua embaixadora na janela. – Me c-c-c-conta tudo que consegue v-ver. Por favor. ¿Porfa? Laurita concordou. Ela só tinha quatro anos e era muito baixinha para ver do lado de fora. Empurrou uma cadeira até a janela e subiu. Depois se inclinou para fora. Seus olhos negros redondos, pestanas grossas e cabelos macios a deixavam parecida com um passarinho no poleiro. – Estou vendo chuva... um céu escuro... folhas molhadas... uma bota que sente saudades da outra... poças de lama... un perro callejero... – C-c-conte-me sobre o vira-lata – pediu Neftalí. – É de que cor? – Está tão molhado, não consigo ver. Talvez marrom. Talvez preto – disse Laurita. – F-f-fale da bota que sente saudades da outra. – Não tem cadarço. Parece sozinha. – Amanhã, quando eu puder me levantar, vou resgatá-la e colocar na minha c-c-coleção. – Mas você já tem um monte de pedras, varetas e ninhos. E a bota vai estar tão suja – disse Laurita. – E você não sabe onde ela esteve. Ou quem a usou. – Isso é verdade – disse Neftalí. – M-m-mas eu vou limpá-la. Talvez tenha pertencido a um construtor e ao usá-la vou receber sua força. Ou talvez tenha pertencido a um p-p-padeiro e quando eu colocar as mãos no couro vou saber como fazer p-pão. Laurita riu.

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– Você é um bobo, Neftalí. Só então Mamadre apareceu na porta. – Laurita, Valéria está aqui para brincar com você. E, Neftalí, você precisa dormir um pouco ou não vai conseguir ir para a escola amanhã. – Ela entrou no quarto, beijou sua testa e puxou o cobertor até seu queixo. – Você parece bem por fora, meu filho. Como se sente por dentro? – Não estou cansado. P-p-por favor, Mamadre, posso ler um pouco? – É o que eu mereço por ensinar-lhe a ler antes mesmo de começar a ir à escola. – Mamadre assentiu e sorriu ao sair do quarto. – Uma história. Neftalí agarrou um livro do criado-mudo. Apesar de não conhecer todas as palavras, lia as que conhecia. Adorava o ritmo de certas palavras e, quando chegava a uma de suas favoritas, repetia-a muitas vezes: locomotiva, locomotiva, locomotiva. Em sua mente, ele não gaguejava. Ouvia a palavra como se a tivesse dito em voz alta – perfeitamente. Neftalí saiu da cama, pegou papel e lápis e copiou a palavra.

LOCOMOTIVA Dobrou o papel num quadrado pequeno e colocou-o numa gaveta do armário cheio de outras palavras que tinha escrito em pequenos papéis dobrados. Depois voltou para a cama.

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A pergunta que seu pai tinha feito ontem dominou outra vez seus pensamentos. Você quer ser um fracote magricela o resto da vida e não conseguir fazer nada? As palavras na gaveta se misturaram. A gaveta se abriu. Os pequenos pedaços de papel flutuaram no quarto e se organizaram e reorganizaram em padrões curiosos acima de sua cabeça.

Neftalí se sentou, esfregou os olhos e olhou pelo quarto. As palavras não estavam mais lá. Ele saiu da cama, andou com cuidado até a gaveta e a abriu. Todas as palavras estavam dormindo.

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Este livro foi composto em Adobe Caslon Pro para Texto Editores Ltda. em marรงo de 2013.

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Pam Muñoz Ryan nasceu na Califórnia e iniciou a carreira de escritora em 1994, após incentivo de uma professora. Autora de mais de trinta livros, Ryan tem recebido inúmeros prêmios e menções honrosas em reconhecimento ao seu trabalho. Com O Sonhador ganhou, entre outros, o Booklist Editor’s Choice, Premio Letteratura Ragazzi, The Americas Award e Distinguished Lyrical Fictionalized Biography. Para mais informações, visite-a no site: www.pammunozryan.com. Peter Sís é ilustrador de renome internacional, cineasta e também autor. Possui mais de vinte livros de sua autoria. Você pode visitá-lo no site: www.petersis.com.

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Neftalí é um garoto que enxerga beleza e maravilha por toda parte. Sensível e extremamente tímido, tem o hobby de colecionar objetos e não gosta de matemática, mas ama com intensidade os livros. O sonhador Neftalí elegeu a chuva como personagem inesquecível de sua infância. Ao crescer, irá se tornar um dos poetas mais lidos do mundo, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura: será internacionalmente conhecido sob o pseudônimo de Pablo Neruda. Esta é uma obra de ficção inspirada na vida do famoso poeta. A perfeita sincronia entre os poemas de Neruda, os escritos de Pam Muñoz Ryan e a arte de Peter Sís resulta num trabalho comovente, que relata o nascimento de um artista e celebra a magia da infância e a for��a do espírito criativo.

Em “Infância e Poesia”, um dos capítulos do livro de memórias escrito por Pablo Neruda, há uma cena em que dois garotos, separados por uma cerca, trocam presentes entre si. De um lado, Neruda recebe uma ovelha de brinquedo com a lã já desbotada. Do outro, o menino misterioso ganha uma pinha “entreaberta, cheirosa e balsâmica” que o poeta adorava. Foi essa curiosa história, descrita em cerca de três parágrafos, que inspirou Pam Muñoz Ryan a escrever O Sonhador. Guiada pela poesia de Neruda, a autora concebeu os poemas e textos que relatam, de forma ficcional — mas muito autêntica e encantadora —, a infância do poeta sonhador.

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