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Antonia Susan Drabble Byatt nasceu em Sheffield, na Inglaterra, em 1936. Estudou literatura inglesa e norte-americana nas universidades de Cambridge e Oxford e no Bryn Mawr College. Byatt é internacionalmente conhecida como crítica e escritora de sucesso. Em 2008, o jornal The Times nomeou-a em sua lista das 50 maiores escritoras britânicas pós-1945. Dama do Império Britânico e doutora honoris causa por várias universidades inglesas, publicou mais de vinte livros, entre crítica e ficção, dentre eles, Still Life (vencedor do PEN/Macmillan Silver Pen Award 1986), Possession: A Romance (vencedor do Booker Prize em 1990 e transformado em filme em 2002) e Angels & Insects (que também virou filme de sucesso, indicado ao Oscar em 1995). O livro das crianças foi indicado para o Booker Prize 2009 e ganhou o James Tait Black Memorial Prize 2010.

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livro das crianças é muito mais que um livro de ficção. O romance, escrito de forma magistral, apresenta-nos ao mundo da consagrada escritora Olive Wellwood e de sua família, a partir da década de 1890 até o início da Primeira Guerra Mundial. Por mais de duas décadas, na transição entre a Era Vitoriana e o Modernismo, a narrativa tem como pano de fundo a infância e a juventude dos filhos de Olive, seus primos e amigos. Essas crianças, nascidas entre o crepúsculo da Era Vitoriana e a aurora da Primeira Grande Guerra, representam toda uma geração que cresceu sem saber da escuridão por vir. Uma linha tênue entre a ficção e a realidade, O livro das crianças é rico em sua temática e em seu poder descritivo, versando sobre a arte, a educação e a família. Byatt constrói um panorama abrangente de experiências do fim da era vitoriana, abordando temas que foram centrais na época, como neopaganismo, incesto, sufrágio e contos de fadas modernos. Diversos segredos são descobertos e relacionamentos evoluem em uma narrativa em que observamos, por uma perspectiva privilegiada, o passar do tempo, a agitação política e social do período e o processo de criação e evolução da arte.

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Exibindo, de maneira superlativa, tanto enorme alcance quanto tremendo controle [...] crepitando com ideias e vívida energia criativa [...] este é o romance mais emocionante que A.S. Byatt escreveu desde o seu primeiro e premiado romance. Sunday Times

Persuasivo... tenazmente abrangente e também muito enriquecedor – um conto complexo, energeticamente formado a partir de fios resistentes de material, por “uma magia propulsora no sótão”, uma contadora de histórias incansável. Irish Times

Surpreendentemente poderoso e ressonante. Sunday Telegraph

Romance trabalhado de forma detalhada e sumptuosamente incrustado [...]. Cor e sensação inundam a escrita de Byatt. Independent

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Tradução Elisa Nazarian

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Copyright © 2009 A.S. Byatt Todos os direitos reservados. Tradução para a língua portuguesa © Texto Editores Ltda., 2013 Título original: The Children’s Book Diretor editorial: Pascoal Soto Editora executiva: Tainã Bispo Produção editorial: Fernanda S. Ohosaku, Renata Alves e Maitê Zickuhr Diretor de produção gráfica: Marcos Rocha Gerente de produção gráfica: Fábio Menezes Preparação de texto: Jean Xavier e Tânia Roiphe Revisão: Juliana Caldas, Max Gimenes e Raquel Siqueira Diagramação: Deborah Takaishi Adaptação da capa: Vivian Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Byatt, A. S. O livro das crianças / A. S. Byatt; tradução de Elisa Nazarian. – São Paulo : LeYa, 2013. 672 p. ISBN 978-85-8044-866-5 Título original: The Children’s Book 1. Literatura inglesa I. Título II. Nazarian, Elisa

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CDD 823 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura inglesa

2013 TEXTO EDITORES LTDA. [Uma editora do Grupo LeYa] Rua Desembargador Paulo Passaláqua, 86 01248-010 – Pacaembu – São Paulo – SP www.leya.com.br

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ois garotos estavam na Prince Consort Gallery e olhavam com desdém um terceiro. Era 19 de junho de 1895. O príncipe falecera em 1861 e vira apenas o início de seu ambicioso projeto de uma reunião de museus, na qual os artesãos britânicos pudessem estudar os melhores exemplos de design. Seu retrato, modesto e no formato de um medalhão, estava feito em mosaico, no tímpano de um arco decorativo em uma extremidade da estreita galeria que corria acima da extensão da seção sul. Essa seção, a Kensington Valhalla, estava decorada com mais mosaicos, retratos de pintores, escultores, ceramistas. O terceiro garoto estava agachado ao lado de uma das vitrinas de vidro de um imponente conjunto que exibia tesouros de ouro e prata. Tom, o mais novo dos dois observadores, pensava na Branca de Neve em seu caixão de vidro. Pensava também, olhando para o príncipe Albert no alto, que os vasos, as colheres e os porta-joias, reluzindo sob a luz fluida atrás do vidro, eram como um ressurgido tesouro funerário (o que, de fato, alguns daqueles objetos eram). Eles não conseguiam ver o outro menino com clareza, porque ele estava no lado oposto da vitrina. Parecia que fazia um croqui do seu conteúdo. Julian Cain se sentia em casa no South Kensington Museum. Seu pai, o major Prosper Cain, era o guardião especial de metais preciosos. Julian tinha quinze anos e era aluno interno na Malowe School, mas estava em casa se recuperando de um surto desagradável de icterícia. Não era alto nem baixo, tinha compleição delgada, o rosto anguloso e a pele amarelada, mesmo sem a icterícia. Usava o cabelo negro e liso repartido no meio e vestia um uniforme escolar. Tom Wellwood, infantil em sua jaqueta Norfolk e de calças curtas, era cerca de dois anos mais novo e parecia ainda mais jovem; tinha grandes olhos escuros, a boca macia e uma cabeça graciosa com o cabelo de um loiro queimado. Os dois nunca se tinham visto. A mãe de Tom, que era uma renomada autora de contos de fadas, havia procurado o pai de Julian para pedir ajuda em sua pesquisa, e Julian fora incumbido de mostrar os tesouros a Tom. Ele parecia estar mais interessado em lhe mostrar o menino agachado. – Eu disse que lhe mostraria um mistério. – Pensei que você estivesse se referindo a um dos tesouros. – Não, eu me referia a ele. Existe algo de suspeito nele. Tenho andado de olho. Ele está preparando alguma coisa. Tom não tinha certeza se aquilo era uma espécie de fantasia que sua própria família costumava ter, seguindo pessoas que lhe eram completamente estranhas e

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inventando histórias sobre elas. Não tinha certeza se Julian estava, por assim dizer, brincando de ser responsável. – O que ele faz? – Faz o truque da corda indiana. Desaparece. Uma hora você o vê, outra hora não mais. Está aqui todos os dias. Sozinho. Mas você não consegue ver para onde, ou quando, ele vai. Seguiram furtivamente pela galeria de ferro forjado, ornada com volumosas cortinas de veludo vermelho drapejadas. O terceiro menino ficou onde estava, desenhando intensamente. Em seguida, mudou de posição, para observar de outro ângulo. Tinha o cabelo cor de feno, despenteado e imundo, e usava uma calça de operário encurtada, com suspensórios sobre uma camisa de flanela cinzenta, manchada de fuligem. Julian disse: – Poderíamos descer e segui-lo. Ele tem várias coisas estranhas e sua aparência é muito tosca. Parece que ele nunca vai a lugar nenhum, a não ser para cá. Já esperei na saída, para vê-lo indo embora e segui-lo, mas parece que ele não vai embora. Ele parece um acessório permanente. O garoto olhou brevemente para cima, seu rosto encardido com o cenho carregado. Tom disse: – Ele está concentrado. – Eu nunca o vi conversando com ninguém. De vez em quando, os estudantes de arte olham os seus desenhos, mas ele não conversa com eles. Ele apenas se arrasta pelo lugar. É sinistro. – Existem muitos roubos por aqui? – Meu pai sempre diz que os guardiões são criminosamente levianos com as chaves das vitrinas, e há pilhas e pilhas de material a esmo, esperando para ser catalogado ou mandado para Bethnal Green. Seria terrivelmente fácil surrupiar qualquer coisa, e não sei se alguém sequer repararia caso isso acontecesse, pelo menos com algumas das coisas; no entanto, se houvesse uma tentativa contra o castiçal, isso seria notado com bastante rapidez. – Castiçal? – O Castiçal de Gloucester. O que parece que ele está desenhando grande parte do tempo. Aquele volume de ouro, no centro daquela vitrina. É antigo e raro. Vou mostrá-lo a você. Poderíamos descer e provocar o menino. Tom estava em dúvida quanto a isso, pois havia algo de tenso no terceiro garoto – uma energia valente, predisposta, que ele notara sem perceber –, mas acabou concordando. Geralmente concordava com as coisas. Eles se moveram como se estivessem investigando, de tocaia em tocaia por detrás das dobras do veludo. Passaram sob o príncipe Albert, caminharam para as sinuosas escadas de pedra e desceram para a seção sul. Ao alcançarem o castiçal, o menino sujo não estava mais lá.

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– Ele não estava na escada – disse Julian, obcecado. Tom parou para observar o castiçal. Era de ouro fosco e parecia pesado. Erguia-se sobre três pés, cada um deles um dragão de longas orelhas segurando um osso nas garras espantosas, roendo com dentes afiados. A borda do cálice denteado que segurava a vela também estava guarnecida de dragões de bocas abertas, com asas e caudas de serpentes. Toda a sua espessa haste estava ornada com uma folhagem fantástica na qual homens e monstros, centauros e macacos se contorciam, sorriam, faziam caretas, agarravam-se e se apunhalavam uns aos outros. Um ser com um elmo, parecendo um gnomo, de olhos enormes, segurava o rabo sinuoso de um réptil. Havia outras figuras humanas ou duendes, uma em particular com um longo cabelo ensebado e olhar pesaroso. Tom pensou imediatamente que sua mãe precisava ver aquilo. Tentou em vão memorizar as formas. Julian explicou. Sua história era interessante, ele disse. Ninguém sabia exatamente do que era feito. Era de algum tipo de amálgama folheado. Era provável que tivesse sido feito em Canterbury – modelado em cera e gesso –, mas, além dos símbolos dos evangelistas no punho, parecia não ter sido feito para uso religioso. Surgira na catedral de Le Mans, de onde desaparecera na Revolução Francesa. Um antiquário francês o tinha vendido ao príncipe russo Soltikoff. Em 1861, o South Kensington Museum o tinha adquirido de sua coleção, e não havia nada parecido em lugar nenhum. Tom não sabia o que era um punho, nem quais eram os símbolos dos evangelistas, mas percebeu que o objeto era um mundo repleto de histórias secretas e disse que sua mãe gostaria de vê-lo. Talvez fosse exatamente o que ela estava procurando. Ele teria gostado de tocar a cabeça dos dragões. Julian observava impaciente ao seu redor. Havia uma porta disfarçada, atrás de um molde de gesso de um cavaleiro sentinela, sobre um suporte de mármore. Estava ligeiramente aberta, o que ele nunca vira antes. Já experimentara o seu trinco, e como ela dava para os depósitos e oficinas do porão estava sempre trancada, como deveria estar. – Aposto que ele foi por ali. – O que tem ali? – Quilômetros e quilômetros de passagens, armários, porões, coisas sendo moldadas, limpas ou apenas guardadas. Vamos atrás dele. Não havia luz além da que se projetava nos primeiros degraus pela porta que eles tinham aberto. Tom não gostava do escuro. Não gostava de transgressões. Disse: – Não podemos ver para onde estamos indo. – Vamos deixar a porta um tantinho aberta. – Alguém pode vir e trancá-la, e podemos nos dar mal. – Não vamos. Eu vivo aqui. ***

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Desceram lentamente os irregulares degraus de pedra, segurando-se em um fino corrimão de ferro. Aos pés da escada, viram-se impedidos por uma grade de metal, além da qual se estendia um longo corredor, agora vagamente visível, como se na outra extremidade houvesse uma fonte de luz. A passagem era coberta por uma abóbada gótica, como uma cripta de igreja, mas arrematada por esmaltados tijolos industriais brancos. Julian sacudiu a grade com irritação e ela se abriu. Ele observou que ela também deveria estar trancada. Alguém estava atrás de confusão. A passagem se abria para uma galeria empoeirada, repleta de uma infinidade de efígies brancas: homens, mulheres e crianças olhando para o infinito, com olhos vazios. Tom pensou que poderiam ser prisioneiros do submundo, ou mesmo os amaldiçoados do inferno. Estavam muito juntos, e os meninos tiveram de forçar caminho por entre eles. Além dessa câmara mortuária, bifurcavam-se dois corredores. O da esquerda tinha mais luz, o que fez que seguissem por ele. Lidaram com outra grade destrancada e se viram em uma casa-forte com uma imensidade de vasilhames de ouro e prata, cajados episcopais, leitoris com asas de águia, chafarizes, anjos alados e querubins sorridentes. – Eletrotipias – sussurrou o entendido Julian. Uma luz fraca, mas constante, ondulava sobre o metal através de pequenas rótulas de vidro encaixadas na alvenaria. Julian levou o dedo aos lábios e fez sinal para Tom ficar quieto. Tom se apoiou em um galeão de prata que tiniu. Ele espirrou. – Não faça isso. – Não consigo evitar. É o pó. Seguiram com cuidado, viraram à esquerda, depois à direita, tiveram de forçar passagem por entre um emaranhado do que Tom pensou que fossem balaustradas de tumbas, encimadas por alegres bustos de anjos femininos com asas e seios pontudos. Julian disse que eram tampas de radiador de ferro fundido, encomendadas a um artesão de ferro em Sheffield. – São caríssimas... e estão aqui porque alguém achou que eram chamativas – ele sussurrou. – Para que lado agora? Tom disse que não tinha ideia. Julian falou que eles estavam perdidos, ninguém os encontraria, os ratos catariam os seus ossos. Alguém espirrou. Julian disse: – Eu falei para você não fazer isso. – Não fui eu. Deve ter sido ele. Tom estava preocupado em ir atrás de um garoto que provavelmente era inofensivo e inocente. Também estava preocupado em encontrar um garoto selvagem e perigoso. Julian gritou: – Sabemos que você está aí. Saia e se renda!

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Ele estava atento e sorridente, e Tom notou o vitorioso pegador nos jogos de esconde-esconde. Houve um silêncio. Outro espirro. Um movimento ligeiro. Julian e Tom se viraram para olhar a outra bifurcação do corredor, obstruída por uma floresta de pilares em imitação de mármore, feitos para sustentar bustos ou vasos. Um rosto selvagem, sob uma gaforinha, apareceu na altura dos joelhos, emoldurado por basaltos e obsidianas falsos. – É melhor você sair e se explicar – disse Julian, com absoluta segurança. – Você está cometendo uma transgressão, e eu deveria chamar a polícia. O terceiro garoto saiu engatinhando, sacudiu-se como um bicho e se levantou, apoiando-se brevemente nos pilares. Tinha mais ou menos a altura de Julian e tremia, mas Tom não sabia se era de medo ou de raiva. Levou uma mão suja até o rosto, esfregando os olhos, que mesmo no escuro revelavam ter as bordas vermelhas. Abaixou a cabeça e se enrijeceu. Tom viu o pensamento percorrendo-o, o garoto poderia atacar os dois, dar uma cabeçada neles e fugir pelos corredores. Mas ele não se mexeu nem respondeu. – O que você está fazendo aqui embaixo? – insistiu Julian. – Estava me escondendo. – Por quê? De quem? – Só me escondendo. Não estava fazendo nada de mau. Eu juro que me mexo com cuidado e que não toco nas coisas. – Qual é o seu nome? Onde você mora? – Eu me chamo Philip, Philip Warren. Acho que moro aqui. Por enquanto. Tinha um vago sotaque do norte do país, que Tom reconheceu, mas não conseguia situar de onde. O garoto os olhava tanto quanto eles o olhavam, como se não conseguisse entender que eram de verdade. Piscou, e um tremor lhe percorreu o corpo. Tom disse: – Você estava desenhando o castiçal, é por isso que veio? – É. Apertava uma espécie de sacola de lona contra o peito, que provavelmente continha seu material de desenho. Tom disse: – É uma peça interessante, não é? Nunca a tinha visto antes. O outro garoto o encarou com firmeza e depois esboçou um leve sorriso. – É. Interessante ela é. Julian falou com severidade: – Você precisa vir e se explicar com o meu pai. – Ah, seu pai. Então, quem é ele? – É o guardião especial de metais preciosos. – Ah, entendo.

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– Você tem que vir conosco. – Sei que tenho, mas posso pegar minhas coisas? – Coisas? – pela primeira vez Julian demonstrou dúvida. – Você quer dizer que tem morado aqui embaixo? – Foi o que eu disse. Não tenho aonde ir e prefiro não dormir nas ruas. Venho aqui para desenhar, pois soube que o museu era para que os trabalhadores vissem coisas bem-feitas. Quero arrumar trabalho, quero mesmo, e preciso de desenhos para mostrar... Gosto dessas coisas. – Podemos ver os desenhos? – perguntou Tom. – Nesta luz, não. Mas, se estiver interessado, pode ver lá em cima. Vou buscar minhas coisas, como disse. Ele se abaixou e começou a se afastar, abrindo caminho entre os pilares, agachando-se e esquivando-se com habilidade. Tom foi levado a pensar em anões que trabalhavam em minas e, uma vez que sua educação era socialmente consciente, em crianças nas minas puxando vagões, engatinhando. Julian foi ao encalço de Philip, e Tom o seguiu. – Venham – disse o menino sujo, na entrada de um pequeno depósito, fazendo um gesto acolhedor com o braço, talvez zombando. O depósito continha o que parecia ser uma pequena cabana de pedra, entalhada e ornamentada com querubins e serafins, águias e pombas, acantos e videiras. Tinha seu próprio portão de metal, com vestígios de douração no ferro enferrujado. – Conveniente – disse Philip. – Ela tem uma bancada de pedra, e eu tomei a liberdade de pegar alguns sacos emprestados para me esquentar, mas é claro que eles vão ser devolvidos onde os encontrei. – É uma tumba ou um santuário – disse Julian. – Pela aparência, deve ser russa. Devia haver algum santo naquela laje, numa vitrina de vidro ou num relicário. Talvez ele ainda esteja lá, na parte de baixo, os ossos, quero dizer, caso ele esteja decomposto. – Não reparei nele – disse Philip, imperturbável. – Ele não me incomodou. Tom perguntou: – Você está com fome? O que você come? – Uma ou duas vezes ajudei no salão de chá, retirando e lavando pratos. Você ficaria espantado com a quantidade de coisas que as pessoas deixam nos pratos. E as moças da Escola de Arte repararam nos meus desenhos e às vezes me davam um sanduíche. Não sou de pedir. Uma vez roubei um, quando estava desesperado, um sanduíche de ovo e agrião, porque eu tinha muita certeza de que a moça não tinha intenção de comer aquilo. Fez uma pausa. – Não é muito – ele disse. – Mas estou com fome, sim.

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Estava remexendo por detrás da tumba do santuário e apareceu com outra sacola de lona, um caderno de desenho, um toco de vela e o que parecia ser um rolo de roupas amarrado com barbante. – Como você entrou? – insistiu Julian. – Segui os cavalos e as carroças. Você sabe, eles entram e descem uma rampa até esta seção subterrânea. Eles descarregam e carregam as coisas com bastante alvoroço, e acaba sendo muito fácil se misturar no meio deles, entre os carroceiros e os moleques, e entrar. – E a porta de cima? – perguntou Julian. – Aquela que deveria ficar sempre trancada? – Dei de cara com uma chavezinha. – Deu de cara? – É, dei de cara, mas vou devolvê-la. Tome, pegue-a. Tom disse: – Deve ser terrivelmente assustador aqui embaixo, sozinho, à noite. – Isso nem se compara ao medo que sinto nas ruas do East End, não chega nem perto. Julian pediu: – Por favor, venha comigo agora, você precisa vir e explicar tudo isso ao meu pai. Ele está conversando com a mãe do Tom. Este é Tom. Tom Wellwood, e eu sou Julian Cain. *** O major Prosper Cain, dos Engenheiros Reais e do Departamento de Ciências e Artes, tinha uma mansão no estilo elisabetano, a Iwade House, em Kent. Ele também vivia em uma das casinhas que haviam prosperado em torno do monstruo­ so Boilers, feito de aço e vidro, em South Kensington. (A construção de ferro fundido, desenhada por um engenheiro militar propositalmente para ser um museu, tinha três longos telhados abaulados independentes, conhecidos sarcasticamente como Brompton Boilers, ou seja, os aquecedores de Brompton.) As moradias eram, na maioria, habitadas pelos substitutos dos sapadores, que originalmente haviam construído o Boilers, após a Grande Exposição de 1851. A do major Cain, que não era exatamente uma residência oficial, era ligeiramente maior que as dos seus comandados. Havia projetos ambiciosos de ampliação dos prédios do museu e murmúrios contra a presença militar. Uma competição foi aberta. Visões meticulosas de palácios, pátios, torres, fontes e ornamentos haviam sido examinadas e comparadas. O projeto de Aston Webb fora declarado vencedor, mas nenhum trabalho teve início. E o novo diretor, J.H. Middleton, indicado em 1894, não era militar, mas um re-

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servado e ascético acadêmico vindo do King’s College, em Cambridge, e do Fitzwilliam Museum. Ele se opunha ao major-general sir John Donnelly, secretário do Departamento de Ciências e Artes. Curadores e acadêmicos haviam se mobilizado pela demolição das moradias internas, sob a alegação de riscos de incêndio e vazamento das passagens de fumaça. Foram contadas 27 fornalhas regenerativas com chaminés, e os estudantes de arte reclamavam que a fuligem e a fumaça subiam para seus estúdios. Os militares observavam que a equipe de bombeiros do museu era composta de sapadores que habitavam as construções. A discussão continuou, mas nada foi feito. A pequena e estreita casa de Prosper Cain tinha fornalhas elegantes, tanto no andar térreo quanto na sala de visitas do primeiro andar. Eram decoradas com encantadores azulejos de William De Morgan. Cain havia oferecido a Olive Wellwood uma cadeira francesa folheada a ouro, entalhada em um estilo rebuscado, detestado tanto pelo movimento Arts and Crafts1 quanto pelos curadores do museu. O olhar de Cain era eclético, e ele tinha uma queda, se é que se podia chamar aquilo de queda, pela extravagância. Sentia prazer na aparência de sua visitante, vestida com um gorgorão em tom de ardósia-escuro, enfeitado com galões, com rendas no colarinho e elegantes mangas bufantes acima do cotovelo. Seu chapéu estava adornado com plumas negras e uma profusão de papoulas de seda escarlates, dispostas ao longo da aba. O rosto era bem definido, agradável, corado, vivo, resoluto, e possuía grandes olhos escuros bem afastados, como os miolos das papoulas. Pelos cálculos dele, ela devia ter em torno de 35 anos, provavelmente mais. Deduziu que ela não devia ter o hábito de usar espartilhos assim tão apertados, sapatos e luvas de pelica. Movimentava-se com certo excesso de liberdade e de impulsividade; sua aparência era agradável, e os tornozelos, delicados. Provavelmente, em casa, ela usava roupas mais confortáveis e folgadas. Sentou-se em frente a ela, atento e com os traços bem-feitos como os de seu filho, o cabelo ainda tão escuro quanto o de Julian, seu caprichado bigodinho, prateado. Sua esposa era italiana e falecera em 1883, em Florença, cidade que ambos amavam, onde sua filha nascera e fora batizada Florence, antes que a febre irrompesse e o lugar se tornasse trágico. Olive Wellwood era casada com Humphry Wellwood, funcionário do Banco da Inglaterra e membro ativo da Fabian Society2. Era autora de inúmeras histórias, tanto para crianças quanto para adultos, e uma espécie de autoridade em contos de 1 Movimento surgido no final do século XIX, na Inglaterra, contra a produção em massa e em defesa do individualismo e da criatividade. Um de seus idealizadores mais ferrenhos foi o poeta e arquiteto inglês William Morris. (N. da T.) 2 Sociedade Fabiana: organização britânica de esquerda que refutava a luta de classes em prol da conscientização progressiva de sua ideologia. (N. da T.)

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fadas britânicos. Fora à procura do major Cain porque tinha um projeto de conto que teria como tema um antigo tesouro com propriedades mágicas. Prosper Cain afirmou galantemente que se sentia encantado por Olive ter pensado nele. Ela sorriu e comentou que o aspecto mais estimulante de seu pequeno sucesso com os livros era o de se sentir com liberdade para perturbar pessoas tão importantes e ocupadas quanto ele, algo que ela nunca havia esperado. Disse que sua sala era como uma caverna de As mil e uma noites e que mal podia resistir a se levantar e dar uma olhada em todas as coisas maravilhosas que ele tinha reunido. – Na verdade, não há muitos itens árabes – disse Prosper, pois aquela não era a especialidade dele. Ele havia servido no Oriente, mas seus interesses eram europeus. Advertiu que ela não encontraria nenhuma organização intelectual em seus pertences pessoais. Ele não acreditava que um cômodo necessitasse corresponder servilmente a um estilo – principalmente quando esse cômodo ficava, por assim dizer, em meio a variados cômodos do museu, assim como a menor das cascas de ovo poderia estar em um ninho Fabergé. Era possível colocar perfeitamente um jarro Iznik muito próximo a uma taça veneziana e a uma vasilha esmaltada feita pelo sr. De Morgan, e todas as peças se beneficiariam com isso. – Minhas paredes ostentam bordados flamengos medievais ao lado de pequenas tapeçarias que meu amigo Morris teceu para mim em Merton Abbey – pássaros ávidos e frutinhas carmesins. Repare na força bastante satisfatória da torção das folhas. Ele nunca perde a energia. – E estes? – perguntou a sra. Wellwood. Ela se levantou impulsivamente e correu o dedo enluvado de cinza sobre uma prateleira de objetos díspares, que aparentemente não tinham nenhuma relação estética ou histórica entre si. – Esses, querida senhora, são, por assim dizer, minha pedra de toque, minha coleção de falsificações; essas colheres não são medievais, embora me tivessem sido oferecidas como se fossem; esse argonauta não é um Cellini, embora William Beckford tivesse sido levado a acreditar que fosse, pagando uma pequena fortuna por ele; esses ornamentos não são as joias da Coroa, mas sim habilidosas réplicas de vidro de algumas delas, expostas no Palácio de Cristal em 1851. – E este? O dedo delicado da sra. Wellwood percorreu levemente uma travessa contendo imagens muito vívidas, em cerâmica, de um sapinho, uma cobra enrolada, alguns besouros, musgos e samambaias e de um lagostim preto. – Nunca vi nada tão fiel à realidade. Cada protuberância, cada dobra. – Não sei se a senhora sabe que o museu foi à bancarrota com a compra por demais vultosa de um prato, não este, de Bernard Palissy, que está imortalizado em mosaico no Kensington Valhalla. Para nosso constrangimento, em seguida percebeu-se que era uma réplica feita honestamente, assim como esta, por uma moderna

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olaria francesa, vendida como lembrança. Na verdade, sem as incontestáveis marcas do artista, é muito difícil distinguir um Palissy falso, ou uma cópia, eu diria, do próprio objeto do século XVII. – E, ainda, os detalhes, a precisão – disse a sra. Wellwood, compreendendo rapidamente. – Parece extraordinariamente difícil. – Dizem, e acredito que seja verdade, que as criaturas de cerâmica foram construídas em torno de animais verdadeiros, sapos, enguias, besouros, todos verdadeiros. – Mortos, eu espero. – Mumificados, é o que se deve esperar. Mas não temos certeza. Talvez surja um conto a respeito, não? – O príncipe que foi transformado em sapo e aprisionado em um prato? Como ele odiaria presenciar os banquetes. Em As mil e uma noites há um príncipe meio de pedra que sempre me incomodou. Preciso pensar. Ela deu um sorriso reservado e satisfeito. – Mas a senhora estava me consultando sobre tesouros de ouro e prata? Humphry Wellwood dissera: – Vá e pergunte ao Velho Pirata, pois ele saberá. Ele sabe tudo sobre esconderijos e transações secretas, frequenta feiras e antiquários pagando ninharias, pelo que disseram, por relíquias de família que chegam às barracas de rua depois de revoluções. – Quero algo que sempre esteve perdido, objeto de uma história, naturalmente, e a que possam ser atribuídas propriedades mágicas, um amuleto, um espelho que mostre o passado e o futuro, essa espécie de coisa. Como o senhor vê, minha imaginação é banal e preciso do seu conhecimento apurado. – Curiosamente – disse Prosper Cain – não existem muitos tesouros de ouro e prata que sejam tão antigos, e isso por uma boa razão. Se a senhora fosse um senhor viking, ou um chefe tártaro, ou mesmo o sagrado imperador romano, seus objetos de ouro e prata fariam parte do seu tesouro e estariam sempre, segundo o ponto de vista do artista e do narrador, correndo o risco de ser derretidos, para escambo, soldo dos soldados ou rapidez de transporte e esconderijo. A Igreja tinha suas urnas sagradas... – Não quero um cálice, um ostensório ou esse tipo de coisa. – Não, a senhora quer algo com uma força pessoal. Entendo de que está precisando. – Não se trata de um anel. Existe um excesso de contos sobre anéis. Prosper Cain riu alto, uma risada brusca e curta. – A senhora é exigente. E o conto sobre o tesouro estocado antecipadamente, urnas de prata enterradas em segurança durante a Guerra Civil e desenterradas nos tempos atuais por um garoto caçando coelhos? Ou existe o conto romântico do Relicário Eltenberg, comprado para o museu por J.C. Robinson em 1861. Veio da

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coleção do príncipe Soltikoff, que o adquiriu de um francês em um lote de cerca de 4 mil objetos medievais, após a Revolução de 1848. – Foi escondido em uma chaminé, depois da invasão de Napoleão, pela última cônega de Eltenberg, a princesa Salm-Reiffenstadt. E, de alguma maneira, da chaminé ele chegou até um cônego em Emmerich, que o vendeu a um comerciante em Aachen, Jacob Cohen de Anhalt, que um dia visitou o príncipe florentino de Salm-Salm e lhe ofereceu uma pequena figura feita em presa de morsa. Quando o príncipe a comprou, Cohen voltou, com mais, e mais, e mais, chegando, enfim, com o próprio relicário, negro de fuligem e recendendo a tabaco. Então o príncipe Félix, o filho do príncipe florentino, persuadiu o pai a vender as peças a um negociante em Colônia, e lá, acreditamos, algumas habilidosas falsificações modernas vieram a substituir algumas peças, por exemplo, A viagem dos Reis Magos, A virgem e o menino com São José e alguns dos Profetas. Falsificações muito talentosas. Estão conosco. Essa é uma história real, e estamos convencidos de que as peças originais estão armazenadas em algum lugar. Isso não daria uma bela história, a localização e restauração das peças? Seus personagens poderiam ir à procura do artesão que criou as falsificações... Olive Wellwood teve a mesma sensação que os escritores frequentemente têm quando escutam narrativas perfeitas para ficção, de que havia fatos demais e espaço de menos para as necessárias inserções criativas, que aqui pareceriam mentiras. – Eu teria de mudar muitas coisas. O conhecedor e especialista em falsificações pareceu ligeiramente contrariado. – Da maneira que está já é muito forte – ela explicou. – Não há necessidade da minha imaginação. – Eu pensaria que isso apela para a imaginação de todos nós, o destino desses trabalhos perdidos de arte e artesanato... – Estou intrigada com seus sapos e suas cobras. – Para uma história de bruxaria? Tão conhecidos? *** Naquele momento, a porta se abriu, e Julian fez com que Philip Warren entrasse, seguido por Tom, que a fechou. – Desculpe-me, pai. Achamos que você deveria saber. Nós o encontramos escondido nos depósitos do museu. Na cripta. Tenho ficado de olho nele, e nós o seguimos. Estava morando lá embaixo. Todos olharam para o menino sujo como se – pensou Olive – ele tivesse surgido da terra. Seus sapatos tinham deixado marcas no tapete. – O que você estava fazendo? – perguntou-lhe Prosper Cain, mas o garoto não respondeu. Tom foi até sua mãe, que lhe desmanchou o cabelo. Ele a pôs a par da história.

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– Ele desenha os objetos das vitrinas. À noite, dorme sozinho na cripta de um velho santo morto, onde os ossos costumavam estar, entre gárgulas e anjos. No escuro. – Isso é corajoso – disse Olive, desviando os olhos escuros para Philip. – Você deve ter ficado com medo. – Na verdade, não – respondeu Philip, impassível. Ele não tinha intenção de dizer o que realmente sentia. Tratava-se do fato de que, depois que se dormiu em um colchão, lado a lado com outras cinco crianças, ainda por cima em um colchão no qual morreram dois irmãos e uma irmã, mortes que não foram fáceis nem pacíficas, sem que houvesse para onde levá-los, uns poucos ossos velhos não o preocupariam. Durante toda a vida, ele havia tido um persistente anseio por solidão, que mal era especificado, mas que nunca relaxava. Não tinha ideia se outras pessoas sentiam a mesma coisa, mas, no geral, parecia que não. Na cripta do museu, no escuro e na poeira, por um curto período esse anseio tinha sido satisfeito pela primeira vez. Ele estava em um estado de espírito perigoso e explosivo. – De onde você é, meu jovem? – perguntou Prosper Cain. – Preciso saber os porquês e os comos: por que você está aqui e como entrou em um lugar trancado? – Sou de Burslem e trabalho nas olarias – uma longa pausa. – Eu fugi, é isto, fugi! Seu rosto não se alterou. – Seus pais trabalham nas olarias? – Meu pai morreu. Ele fazia muflas, e minha mãe trabalha no ateliê de pintura. De um jeito ou de outro, todos nós trabalhamos lá. Eu abasteço os fornos. – Você estava infeliz – disse Olive. Philip analisou-se intimamente. Respondeu: – Estava. – As pessoas eram duras com você. – Tinham de ser, mas não foi por isso. Eu queria... eu queria fazer alguma coisa... – Você queria fazer algo da sua vida, de você – induziu Olive. – Isso é natural. Podia ser natural, mas não era o que Philip queria dizer. Ele repetiu: – Eu queria fazer alguma coisa... Em sua mente, viu uma massa informe de lama liquidificada. Olhou ao redor, como um urso encurralado, e notou a resplandecente tigela de Morgan próxima à lareira. Abriu a boca para comentar sobre o esmaltado, mas decidiu ficar quieto. Tom perguntou: – Você não vai nos mostrar seus desenhos? – e disse à mãe: – Ele costumava mostrar às estudantes, elas gostaram, deram-lhe pão... Philip abriu sua mochila e tirou o caderno de desenhos. Havia o castiçal, com seus dragões em espiral e homenzinhos sérios de olhos arregalados. Esboço após esboço, todos os meandros de contorções, mordidas e punhaladas.

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Tom disse: – Aquele é o homenzinho de que gosto, o velho, com cabelo ralo e olhar triste. Prosper Cain virou as páginas. Anjos de pedra, ornamentos coreanos de ouro para uma coroa, um prato Palissy com toda a sua rusticidade, um dos dois espécimes comprovadamente autênticos. – E estes? – perguntou, virando mais páginas. – Esses são apenas minhas próprias ideias. – Para o quê? – Bem, pensei em cerâmica esmaltada, ou talvez louça, nessa página. Eu estava desenhando o metal para conseguir percebê-lo, pois não conheço metal, conheço argila. Entendo um pouco de argila. – Você tem um bom olho – disse Prosper Cain. – Um olho muito bom. Você estava usando a Coleção como ela foi feita para ser usada, para o estudo de design. Tom soltou um suspiro de alívio. A história teria um bom final. – Você gostaria de estudar na Escola de Arte? – Não sei. Quero fazer alguma coisa... De súbito, ele estava no final das suas reservas e começou a oscilar. Prosper Cain ainda estava estudando os desenhos e disse, sem levantar os olhos: – Você deve estar com fome. Chame a Rosie, Julian, e peça que traga chá fresco. – Estou sempre com fome – disse Philip, de repente, em voz alta, com o dobro da força de suas observações anteriores. Não tencionara fazer graça, mas, por estar realmente prestes a ser alimentado, todos consideraram aquilo uma brincadeira e riram juntos, com alegria. – Sente-se, garoto, isso não é um interrogatório. Philip olhou em dúvida para as almofadas de seda estampadas com pavões e labaredas. – Serão limpas. Você parece exausto. Sente-se. *** Rosie, a arrumadeira, subiu várias vezes a escada estreita, levando bandejas com xícaras e pires de porcelana, um suporte de bolo com um bom pedaço de torta de frutas e uma travessa com vários tipos de sanduíche delicadamente preparados, tanto para agradar a uma senhora quanto para alimentar garotos em fase de crescimento (fatias de pepino em alguns, lascas de carne de panela em outros). Depois levou um prato com tortinhas de frutas, um bule, uma chaleira e uma jarra com creme. Rosie era uma pessoa pequena e atlética, que usava touca e avental engomados, mais ou menos da idade de Philip e Julian. Arrumou tudo nas mesas, colocou a chaleira próximo à lareira, curvou-se para o major Cain e tornou a descer. Prosper

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Cain pediu à sra. Wellwood para servir. Ele estava se divertindo em ver Philip levar sua xícara até os olhos para estudar os pastores ou as planícies floridas em torno dela. – Porcelana Minton, estilo Sèvres – disse Prosper. – Uma abominação aos olhos de William Morris, mas tenho um fraco por enfeite... Philip colocou a xícara na mesa ao lado de seu cotovelo e não respondeu. A boca estava cheia de sanduíche. Tentava comer com educação e estava terrivelmente faminto, voraz. Procurou mastigar devagar. Engoliu. Todos o observavam com bondade. Mastigou e ficou corado sob a sujeira. Estava quase em lágrimas. Eles eram estrangeiros, e sua mãe pintava bordas de xícaras como aquelas, com pincéis finos, dia após dia, orgulhosa de sua repetida perfeição. Olive Wellwood, cheirando a rosas, aproximou-se dele, estendendo-lhe pedaços de torta de frutas. Ele comeu dois, embora achasse que provavelmente fosse deselegante, mas a farinha e o açúcar cumpriram seu papel. Sua tensão anormal e sua cautela foram substituídas por puro cansaço. – E agora? – perguntou Prosper Cain. – O que devemos fazer com este jovem? Onde ele dormirá esta noite e o que deverá fazer de si mesmo? Tom pensava na chegada de David Copperfield à casa de Betsey Trotwood. Um menino, chegando a uma casa de verdade, sem sujeira nem perigo. Estava prestes a chamar o sr. Dick – dê-lhe um banho – e conseguiu se refrear. Teria sido um insulto muito grande. Olive Wellwood virou-se para perguntar a Philip: – O que você quer fazer? – Trabalhar – disse Philip. Era uma resposta fácil e totalmente correta. – Não quer voltar? – Não. – Acho, caso o major Cain concorde, que você deveria vir para casa hoje, comigo e com Tom, para o fim de semana. Imagino que ele não pretenda processá-lo por contravenção. Neste fim de semana celebramos o solstício de verão e vamos dar uma festa em nossa casa no campo. Somos uma família grande e receptiva, e um a mais ou a menos não fará diferença. Ela se voltou para Prosper Cain: – E espero que o senhor também deixe Iwade e apareça em Andreden para a magia dessas comemorações, e também traga Julian e Florence para fazer parte do grupo de jovens. Prosper Cain se inclinou sobre sua mão, cancelando mentalmente um jogo de cartas, e disse que ficaria – todos ficariam – encantado. Tom olhou para o garoto que haviam capturado, para ver se parecia satisfeito, mas ele olhava para os pés. Tom não estava totalmente à vontade com o fato de Julian ir à sua festa, pois o achava intimidador. Seria bom ter Philip, se ele conseguisse se divertir. Pensou em complementar o convite de sua mãe, mas ficou embaraçado e não o fez.

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omaram o trem no Kentish Weald para Andreden e, na estação, pegaram um coche. Philip sentou-se em frente a Tom e sua mãe, que se inclinavam um contra o outro. Os olhos de Philip cismavam em se fechar, mas Olive lhe explicava coisas, às quais ele sabia que deveria prestar atenção. Andred era o antigo nome britânico para a floresta. Andreden significava uma pastagem de porcos na floresta. A casa deles se chamava Todefright. Na verdade, eles tinham mudado de Todsfrith, mas, do ponto de vista etimológico, a mudança era acertada. Fryth, na velha linguagem de Weald, designava a terra coberta de vegetação rasteira, na beira da floresta. A palavra local de Kent para isso era fright, e eles achavam que tod significava toad, sapo. Philip perguntou indiferente: – Então há sapos? – Muitos – respondeu Tom. – Grandes e gordos. Desovam no tanque dos patos. Rãs também, e salamandras, e peixinhos. Passaram por entre cercas de espinheiros e aveleiras, entre alamedas sinuosas sombreadas por ramos de faias, bétulas e teixos. Philip percebera a mudança no ar, conforme o trem se afastou do enevoado de Londres. Dava para ver as bordas da escuridão, que não era tão ruim quanto o ar escuro e denso das partículas quentes e dos produtos químicos derretidos que saíam das altas chaminés e dos fornos de Burslem. Seus pulmões ficaram agitados e superdilatados. Olive e Tom não encaravam o ar puro como algo certo, pois tinham um ritual de proclamar o quanto era bom escapar da poluição. Philip, por sua vez, sentia que a poluição lhe estava impregnada. Todefright era uma velha casa de fazenda de Kent, construída com pedra e madeira. Tinha à sua frente algumas campinas e um rio; atrás, um bosque que subia a colina e uma ampla vista da alta margem de Weald, do outro lado do rio. A casa fora cuidadosamente ampliada e modernizada por Lethaby, no estilo Arts and Crafts, respeitando (e também criando) janelas e beirais de formas singulares, escadas em espiral, ângulos, fendas e vigas de telhado expostas. A porta da entrada, de carvalho maciço, abria para uma versão moderna de saguão medieval, com bancos e nichos, uma grande mesa de jantar entalhada à mão e um comprido aparador, reluzindo com o brilho das louças. Além disso, havia uma (pequena) biblioteca revestida de madeira, que também era o escritório de Olive, e um salão de bilhar, que era de Humphry quando ele estava em casa. Havia muitas dependências anexas – cozinhas, copas, casas de hóspedes, estábulos com palheiros habitados por galinhas ciscadeiras

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e andorinhas em fase de nidificação. Uma larga escada em espiral subia do saguão para os andares superiores. Um grande número de pessoas, adultos e crianças, veio correndo e perambulando para receber Olive e Tom. Philip analisou-as. Uma mulher baixa, de cabelo escuro, em um vestido folgado cor de amora estampado com capuchinhas brilhantes, carregava um bebê, talvez com um ano de idade, que estendeu a Olive para que o beijasse e abraçasse, antes mesmo que ela tivesse tirado o casaco. Duas criadas, uma maternal e a outra infantil, ficaram a postos para pegar os casacos; duas jovens, em idênticos aventais azul-marinho, cabelos longos caindo pelos ombros, uma morena e a outra fulva, mais jovens do que Philip e do que Tom, mas não muito. Uma menininha em um avental vermelho cor de tordo espremeu-se entre os outros e se agarrou às dobras da saia de Olive. Um garotinho com cachos loiros e um colarinho de renda a la Fauntleroy segurava na saia da senhora de amora, escondendo o rosto nela. Olive enterrou o nariz no pescoço do bebê, Robin, que tentava pegar suas papoulas e o alfinete do chapéu. – Sou como uma árvore cheia de pássaros. Este é Philip, que veio para ficar um tempinho. Philip, as duas meninas grandes são Dorothy e Phyllis. Esta é minha irmã, Violet Grimwith, que faz com que tudo funcione por aqui, quer dizer, tudo o que realmente funciona. Esta capetinha é minha esperta Hedda, que não consegue ficar quieta. O que está acanhado é Florian, que tem três anos. Saia e diga olá a Philip, Florian. Florian segurou-se na saia de Violet Grimwith e disse próximo ao pano, em tom distintamente audível, que Philip cheirava mal. Violet o levantou, chacoalhou e beijou. Ele esperneava em seu colo. Olive disse: – Philip saiu de casa e fez uma longa jornada. Precisa de um banho e de algumas roupas limpas; e de uma cama no Chalé Bétula, se Cathy puder providenciar. E Ada poderia, talvez, preparar um banho para ele. Vá com Ada, Philip, em primeiro lugar as coisas importantes, e, quando você estiver refeito, trataremos do jantar e da elaboração de planos. Violet Grimwith disse que procuraria alguma coisa para Philip vestir. Achava que ele era grande demais para caber em qualquer coisa que fosse de Tom, mas poderia haver uma camisa na gaveta de fim de semana de Humphry, e talvez até mesmo uns culotes... *** Philip acompanhou Ada, a cozinheira, em silêncio, até as dependências dos empregados e depois até os fundos, na parte dos estábulos, atravessando para o chalé de hóspedes, que tinha um cômodo com uma pia e uma bomba de água no

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andar de baixo e um mezanino no andar de cima, alcançado por uma escada, onde se podia ouvir Cathy sacudindo a roupa de cama. Philip ficou parado, constrangido. Ada buscou uma tina de banho, duas jarras de água quente, uma jarra de água fria, sabão e toalha e, em seguida, ela o deixou. Ele tirou a camada externa de suas roupas e, com hesitação, misturou um pouco de água quente e de água fria na bacia. Depois, tirou a proteção que lhe restava de sua cueca e sua camiseta. Não estava acostumado a banhos, pois o que costumava fazer era dar-se uma lavada rápida sob uma bomba comunitária de água fria. Levantou uma perna para ultrapassar a borda da banheira e, naquele exato momento, Violet Grimwith entrou sem bater. Philip conseguiu alcançar a toalha para se cobrir, mas tropeçou para dentro d’água, esparramando o líquido e esfolando a canela na beirada. Deu um grito de choque e de dor. – Não precisa se preocupar comigo – disse srta. Grimwith. – Deixe-me ver esse arranhado, pois não existe nada que eu já não tenha visto. Sempre cuidei de todos os pequenos machucados deles, por isso é para mim que eles correm quando precisam, e espero que você faça o mesmo, garoto. Para seu grande susto, ela avançou para ele, pegando o sabão e uma canequinha de água morna, que despejou sem aviso sobre seu cabelo duro, de modo que jatos escorreram sobre seus olhos e ombros. – Feche os olhos – ela avisou. – Mantenha-os fechados, porque vou chegar até as raízes, ah, se vou! Colocou sabão e água no cabelo dele enquanto falava, socando, torcendo e depois massageando a pele do seu couro cabeludo, sondando com dedos finos os músculos tensos do pescoço e dos ombros. – Relaxe – disse a surpreendente mulher. – Vamos ficar com cada cantinho limpo e saudável, espere e verá. Falava com ele como se ele fosse um bebê, ou possivelmente como um simples homem já crescido e cúmplice. Philip resolveu manter os olhos fechados em todos os sentidos. Contraiu seu esfíncter, enterrou o queixo no peito e sentiu os dedos e as palmas dela batendo e malhando seu corpo. Elas vieram sob a água, por acidente ou de propósito, adejando brevemente contra o que ele se referia como seu apito. – Sujeira de anos – disse a voz cortante. – É surpreendente como ela se acumula, a sujeira. Agora você está com uma pele rosada de porco, e não com o couro de um elefante. Ficou com uma gaforinha bonita, agora que está sem poeira e todo o resto. Pode abrir os olhos. Já tirei o sabão, não vai arder. Ele não queria abrir os olhos. Foi incentivado a se enxugar, enquanto Violet Grimwith estendia várias peças de roupa contra ele, para verificar o tamanho. Ele se esforçou, ainda úmido, para dentro de uma ceroula remendada, e escolheu uma camisa de sarja azul-escura dentre as três que lhe foram apresentadas. O culote de Tom era pequeno demais.

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– Na verdade, eu sabia – disse Violet. Outro, presumivelmente pertencente ao dono da casa, em côtelé marrom, ficava um pouco folgado, mas poderia se manter no lugar com um cinto grosso, como Violet sugeriu. Ela apareceu com um conjunto de agulhas e carretéis, disse a ele que ficasse quieto e diminuiu uma prega de cada lado do quadril, costurando com rapidez e eficiência. – Sei como os jovens são; ficam envergonhados de parecer esquisitos e detestam coisas que não caem bem. Isso é só algo provisório, mas por enquanto serve. Dessa maneira, você esquecerá que está grande demais. Uma coisa a menos para você se incomodar. Colocou uma mão de cada lado do quadril dele e o girou como um manequim. Deu-lhe um par de meias novas, resistentes, mas nenhum dos sapatos que havia trazido serviu, e ele teve de calçar suas velhas botas sujas – depois de ela as ter escovado. Um paletó de tweed com acabamento de couro completou a indumentária. Ela até lhe deu um lenço limpo e um pente de bolso, feito de osso branco, com o qual desembaraçou seu cabelo antes de colocá-lo no bolso do seu paletó. Não havia espelho no Chalé Bétula, então Philip não podia contemplar a obra dela. Ele se retorceu; a roupa de baixo o incomodava. Violet passou os dedos em torno do elástico de sua cintura e o deixou em ordem. Enrolou suas roupas velhas e sujas em uma trouxa. – Não vou roubá-las, garoto, elas voltarão consertadas e limpas. – Obrigado, senhora – disse Philip. – Se precisar de qualquer coisa, eu sou a pessoa certa. Lembre-se disso. Há um camisolão na sua cama, um urinol embaixo dela e uma escova de dentes próxima à bomba de água. Quando você voltar, vou lhe dar fósforos e uma vela. Você dormirá profundamente nos bons ares de Kent. *** A refeição foi servida na sala de jantar. A mesa estava posta com lindos pratos e canecas de louça, esmaltadas de amarelo, com uma borda de margaridas de miolo preto. Robin e Florian tinham sido postos na cama, mas Hedda, que tinha cinco anos, ainda estava ali, porque jantariam cedo. Olive chamou Philip para se sentar ao seu lado e disse que ele estava elegante, ao que Humphry Wellwood lhe fez um aceno de cabeça da outra ponta da mesa. Era um homem alto, magro, com uma barba ruiva como raposa e cuidadosamente aparada, olhos azul-claros e paletó de veludo marrom-escuro. Havia sopa de couve-flor, seguida por um cozido de carneiro e torta de vegetais e abóbora para os vegetarianos (Olive, Violet, Phyllis e Hedda). Philip tomou duas tigelas de sopa. A torta de frutas de Prosper Cain já estava longe; ele tinha duas semanas de quase inanição e toda uma vida de fome perpétua para alimentar. Tinha

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imaginado que o sr. Wellwood, que trabalhava no Banco da Inglaterra, fosse como os proprietários das fábricas nas Potteries: formais, imponentes e condescendentes. Mas Humphry contou às crianças o que claramente era um capítulo de uma história em série sobre a desobediência secreta entre os caixeiros nos fundos do banco, os quais mantinham bull terriers amarrados aos pés de suas mesas e dividiam pedaços de carne de Smithfield antes de ir para casa no fim de semana. Phyllis e Hedda estremeceram dramaticamente. Humphry recontou um gracejo no qual um jovem havia amarrado os cadarços das botas de outro homem a seu banquinho alto. Dorothy disse que aquilo não era de fato engraçado, e Humphry concordou imediatamente, dizendo com uma tristeza meio fingida que as pobres jovens criaturas ficassem confinadas nas sombras, sem saída para sua energia animal. Eles são como os nibelungos, disse Humphry, vão para os cofres-fortes para observar as máquinas que pesam as moedas de ouro – como criaturas semi-humanas que engolem as boas moedas e cospem as leves em recipientes de cobre. Tom contou que eles tinham visto um castiçal incrível que, segundo o major Cain, talvez fosse feito com moedas de ouro derretidas. Tinha dragões, homenzinhos e macacos, e Philip havia feito alguns desenhos magníficos do castiçal. Todos olharam para Philip, que fixou o olhar na sopa. Humphry disse, como se estivesse sendo sincero, que gostaria de ver os desenhos, ao que Violet respondeu: – Não constranja o pobre garoto – o que o constrangeu. De tempos em tempos, durante a refeição, Olive se voltava graciosa e impulsivamente para Philip e o instava a lhe contar sobre sua vida. Aos poucos, ela extraiu a informação de que o pai dele havia morrido em um acidente com o forno e a mãe trabalhava pintando porcelana. Ele mesmo tinha trabalhado levando muflas cheias para os fornos. Sim, tinha irmãs, quatro. – Irmãos? – perguntou Phyllis. – Dois, e ambos estão mortos – disse Philip. – Como também uma das irmãs. E ele sentiu que tinha de partir? – perguntou Olive. Ele devia se sentir infeliz, o trabalho devia ser duro e talvez as pessoas não fossem gentis com ele. Philip pensou na mãe e, para seu horror, sentiu os olhos quentes e molhados. Olive então disse que não precisava lhes contar, pois eles entendiam. Todos o olharam com calor e simpatia. – Não era – ele disse. – Não era... Sua voz vacilava. – Providenciaremos um lugar para você morar e algo em que trabalhar – disse Olive, com a voz cheia de bondade. De repente, Dorothy perguntou se Philip sabia andar de bicicleta. Ele respondeu que não, mas já tinha visto uma, achava que deviam ser muito divertidas e gostaria de experimentar. Dorothy respondeu:

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– Amanhã nós lhe mostraremos, pois ganhamos bicicletas novas. Haverá tempo para mostrá-las a você antes da festa, e podemos pedalar no bosque. O rostinho de Dorothy era muito impetuoso, ela não era bonita e na maior parte do tempo parecia irritada. Ele não pensou no motivo. Estava ficando exausto. Olive lhe fez mais duas ou três perguntas investigativas sobre o mau tratamento de que estava convencida que ele recebera, ao que Philip respondeu em monossílabos, levando colheradas de manjar-branco à boca. Dessa vez, foi salvo por Violet, que disse que o garoto estava dormindo em pé e lhe propôs arrumar uma vela e levá-lo para a cama. *** – Você não deve se incomodar com a minha irmã – disse Violet. – Ela é uma contadora de histórias. Está inventando histórias para você, e não digo que sejam mentiras, mas apenas que são histórias. É o jeito dela. Está encaixando você nelas. – Ela tem sido... tão boa – disse Philip. – Todos vocês são. – Temos nossas crenças – disse Violet. – De como o mundo deveria ser, e alguns de nós têm experiências, como a sua, do que ele não deveria ser. A lua estava presa nos galhos das árvores em torno do chalé. Philip encontrou conforto em estudar as linhas da rede de galhos, que eram ao mesmo tempo aleatórias e ordenadas. Não mencionou isso a Violet, mas tornou a agradecê-la ao pegar a vela e entrar no chalé. Receou que ela tentasse lhe dar um beijo de boa-noite – não conseguia prever o que essas pessoas fariam –, mas ela simplesmente ficou parada, olhando-o subir a escada com a vela. – Durma bem! – ela exclamou. – Obrigado – ele disse mais uma vez. *** E então Philip se viu só, com uma vela valorosa em um chalé. Era isso o que ele queria, ou parte disso. Havia um camisolão estendido sobre os lençóis limpos da cama de madeira, que temporariamente lhe pertencia. Olhou para fora da janela, e lá estavam os galhos, iluminados pela lua no céu azul-escuro, sem nuvens, com suas folhas em formato de peixe sobrepostas e apenas tremulando. Traduziu as formas para um vitrificado e ficou refletindo sobre isso por algum tempo. Era demais. Queria gritar ou chorar, ou, ele se deu conta, tocar seu corpo – seu corpo limpo – como só pudera fazer furtivamente, em lugares sórdidos. Não podia deixar marcas, seria vergonhoso. Acabou por improvisar um tampão de segurança com o lenço que lhe haviam dado, ou emprestado. Ele poderia lavá-lo em seguida, sob a bomba d’água.

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Deitou-se de costas e assumiu o controle de si mesmo, trabalhando em ritmo de prazer até atingir o êxtase sublime e molhado. Depois ficou deitado quieto, ouvindo os sons no silêncio. Uma coruja chamou. Outra respondeu. Um galho grande estalou. Coisas farfalharam. A bomba abaixo pingava na pia de pedra. Como podia dormir em tal alarido de silêncio, como podia se privar de um momento em que se tinha a consciência do êxtase da solidão? Esticou os braços e as pernas em todas as direções e adormeceu quase imediatamente. Acordou e dormiu, acordou e dormiu, hora após hora, antes do amanhecer, em cada uma delas apoderando-se novamente do escuro e do silêncio. *** No dia seguinte eles prepararam a Festa do Solstício de Verão. Violet serviu a Philip um café da manhã com ovos, torradas e chá e lhe informou que estava convocado a fazer lanternas. O jardim ficaria cheio delas. Ele deveria ir até a sala de aula, onde as lanternas estavam sendo feitas. A imponente escada fazia uma quebra interessante conforme subia. Em um nicho, na virada, sobre uma banqueta de carvalho, havia um jarro. Tratava-se de um grande vasilhame de louça que se projetava em um bojo e depois ia afinando até se tornar um gargalo comprido com uma borda fina. O esmalte era de ouro e prata com veios de água-marinha, e a luz fluía em torno da superfície, como nuvens refletidas na água. Era um cântaro de água. Havia um ritmo vertical de hastes ascendentes, algas e um elegante ritmo horizontal de nuvens irregulares de sinuosas vírgulas marrom-escuras, que, em uma observação mais próxima, via-se que eram girinos com rabos translúcidos. O cântaro possuía várias alças assimétricas que pareciam nascer dele como raízes na água, mas tinham as caras ardilosas e os rabos vibrantes de cobras-d’água, de ouro salpicado de verde. Apoiava-se em quatro pés verde-escuros, que eram lagartos enrolados e com escamas, ou dragões menores, repousando com os olhos fechados e focinhos relaxados. Era isso o que Philip tinha vindo procurar. Seus dedos moveram-se por dentro dos contornos do jarro, em uma roda imaginária, e sua forma revestiu a percepção que ele tinha do formato de seu corpo. Philip ficou imóvel, com o olhar fixo. Olive Wellwood surgiu por trás dele e passou o braço sobre seu ombro. Ela cheirava a rosas, e Philip reagiu sacudindo os ombros. Ele não gostava de ser tocado, principalmente em momentos íntimos. – É uma peça interessante, não acha? Nós a escolhemos pelos lindos girinos. Combinam com nossa ideia de Todefright. Os pequenos adoram passar a mão neles. Philip não conseguia falar.

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– Foi feito por Benedict Fludd. Ele trabalha em Dungeness e foi convidado para a festa, mas provavelmente não vem. Sua esposa virá. Ela é conhecida como Seraphita, embora seu nome seja Sarah-Jane. O menino é Geraint, e as meninas são Imogen, que deve ter a sua idade, e Pomona. Pomona tem a idade de Tom e bastante sorte para ser tão bonita quanto seu nome. É muito perigoso, você não acha, dar nomes românticos para uns tiquinhos que podem crescer tão sem graça quanto um batente de porta? Pomona não lembra muito uma maçã, você verá; é mais um pálido narciso. Philip só estava interessado na cerâmica. Conseguiu murmurar que o cântaro era extraordinário. – Soube que ele tem arroubos religiosos. E precisam esconder as peças para que ele não as arrebente. Também sofre de arroubos antirreligiosos. Philip emitiu um som abafado, evasivo. Olive remexeu no seu cabelo, e ele não recuou. Ela o levou até a sala de aula. “Sala de aula”, para Philip, significava uma capela escura anexa, com bancos compridos e uma atmosfera pesada de corpos não lavados, raciocínios confusos e um arrepio de medo da vara. Aqui, em um cômodo cheio de luz, com chita florida nas janelas, cada um trabalhava em seu próprio espaço. As meninas usavam aventais de cores vivas, como borboletas coloridas. Dorothy, azul-real; Phyllis, solferino; Hedda, escarlate. Florian usava um avental amarelo-prímula. A mesa comprida e esfregada estava coberta de papéis coloridos, potes de cola, pincéis, estojos de tinta e jarras de água, e cestos de lixo transbordavam de esforços rejeitados e amassados. Violet comandava, ajudando com um cortezinho aqui, um dedo em um nó ali. Tom abriu espaço para que Philip se sentasse ao seu lado. – Não – disse Phyllis. – Do meu lado. O cabelo de Phyllis era cor de manteiga, sedoso e brilhante. Philip sentou-se ao lado dela, e Phyllis lhe deu um tapinha no braço, num gesto de criança mais nova do que aparentava ser ou numa atitude que poderia ser dirigida a um animalzinho de estimação, Philip pensou injustamente. Ele se lembrou de sua irmã, Elsie, que nunca tivera o próprio espaço em nenhum lugar e travava uma batalha constante com as lêndeas em seu cabelo descorado. Eles lhe mostraram suas lanternas. A de Tom tinha corvos curvados sobre uma cor de fogo. Phyllis colocara florzinhas simples, margaridas e jacintos sobre um verde-relva. Dorothy fizera um estampado de mãos de esqueleto (que Philip pensou não serem humanas, talvez de coelhos) sobre violeta. E Hedda cortava vagarosamente a silhueta de uma bruxa em uma vassoura. Phyllis comentou: – Nós dissemos a ela que as bruxas são para o Halloween, e não para o solstício de verão. Mas ela se saiu bem com as bruxas do Halloween, pegou o jeito do chapéu e das cerdas...

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– As bruxas não deixam de existir no solstício – disse Hedda. – Gosto delas. – Pegue uns papéis, Philip – pediu Violet Grimwith –, tesoura, cola e tinta. Estamos todos curiosos para ver o que você fará. No momento em que pôs as mãos sobre o material sólido, ele se sentiu melhor. Pegou uma grande folha de papel e a cobriu com a estampa de girinos do cântaro magistral, do qual precisou se lembrar. Depois fez outro, com a comprida cobra ardilosa vibrando em torno dele, em um dourado e verde-relva sobre azul. Violet levou-os para ser transformados em lanternas. Philip teve outra ideia. Pintou um horizonte de vermelho opaco, com formas cinza, indefinidas, elevando-se acima dele. Havia formas cilíndricas atarracadas, outras esticadas no formato de garrafas e umas que lembravam colmeias e elmos. Um festão de chamas e línguas de fumaça cor de estanho fluíam dos cumes, o horizonte de Burslem, que se tornava elegante em uma lanterna festiva. – O que é isso, o que é isso, então? – perguntou Hedda, em altos brados. – Isso é de onde eu venho. Chaminés e fornos, chamas de fornalhas e fumaça. – É lindo – disse Hedda. – É, numa lanterna – disse Philip. – Num certo sentido, é lindo ao seu modo. Mas também é horrível. Não dá para respirar direito. Dorothy pegou as lanternas e as colocou ao lado das outras já terminadas. Phyllis disse: – Conte-nos sobre esse lugar. Sobre as suas irmãs. Diga o nome delas. Ela se aconchegou mais próximo dele, fazendo-o sentir o calor e o peso de seu corpo, quase se apoiando nele, quase abraçando. – Elas se chamam Elsie, Nellie, Amélia e Hope – disse Philip com relutância. – E os que morreram? Os nossos são Peter, que morreu um pouco antes de Tom nascer, então ele tem quinze anos, e Rosy, que era um bebezinho lindo. – Fique quieta, Phyllis – disse Tom. – Ele não quer saber de tudo isso. Phyllis insistiu, chegando mais perto de Philip. – E os seus mortos? Como se chamam? – Ned – disse Philip, sem expressão. – E Robert Owen. E Rosy. Bem, Mary-Rose. – Esforçou-se bastante para não se lembrar de seus rostos nem de seus corpos. Dorothy falou: – Depois do almoço vamos levar Philip lá fora e ensiná-lo a andar de bicicleta. – E voltando-se para Philip: – Todos nós ganhamos uma. Elas têm nomes, como os pôneis. A minha se chama Mona-Bona-Grona, porque range. A de Tom se chama apenas Montaria. – E a minha é Ponta dos Pés – disse Phyllis. – Porque minhas pernas quase não alcançam.

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– É a sensação mais maravilhosa – disse Dorothy. – Principalmente descer a ladeira. Pegue mais papel, faça outra, temos de pendurá-las em todas as árvores do bosque e no pomar. – Eu implorava por tiras de papel em South Kensington – pensou Philip. – E aqui eles jogam fora folhas inteiras, com um pássaro que não deu certo, num canto. Levantou os olhos e teve a desconcertante sensação de que Dorothy estava lendo sua mente. *** Dorothy havia, de fato, acompanhado os pensamentos de Philip de maneira mais ou menos precisa. Ela não sabia como fizera isso. Era uma criança esperta e cuidadosa, que gostava de se considerar infeliz. Diante do apetite e da reserva de Philip, e tendo sido educada na atmosfera fabiana de uma justiça social racional, foi forçada a admitir que não tinha “direito” de se sentir infeliz, uma vez que era excessivamente privilegiada. Disse a si mesma que sua infelicidade provinha de motivos frívolos. Porque, sendo a filha mais velha, era tratada como uma babá substituta. Porque não era um menino e não tinha um preceptor, como Tom, que lhe ensinasse matemática e línguas. Porque Phyllis era bonita e mimada, e mais amada do que ela. Porque Tom era muito mais amado. Porque ela queria alguma coisa e não sabia o que era. Ela estava com onze anos, já que nascera em 1884, “o mesmo ano da Fabian Society”, enfatizou Violet. Naqueles tempos, eles haviam sido a Fellowship of the New Life1, e Dorothy era a nova vida, ingerindo ideais socialistas juntamente com suas primeiras mamadas. Os adultos, mais tarde, faziam brincadeiras críticas e temerárias por intermédio dela e sobre ela, o que a irritava. Não gostava que falassem dela e, da mesma maneira, não gostava que não falassem, quando assuntos de fortes princípios morais eram discutidos como se ela não estivesse ali. Na verdade, nada a satisfazia. Tinha a vantagem de saber disso mesmo aos onze anos. Pensava muito, analiticamente, nos sentimentos das outras pessoas e começava a perceber que isso não era comum nem recíproco. Estava concentrada pensando em Philip. – Ele acha que estamos sendo bondosos por condescendência, quando, na verdade, não é isso que acontece; estamos apenas sendo amigáveis, como sempre, mas isso o deixa desconfiado. Na realidade, ele não quer que saibamos sobre sua procedência. Mamãe imagina que a casa dele é triste e que sua família é cruel, e essa

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A Irmandade da Nova Vida. Organização britânica do século XIX. (N. da T.)

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é uma de suas histórias favoritas. Ela precisa ver (eu posso ver) que ele não gosta disso. Acho que Philip se sente mal porque eles não sabem onde ele está, nem como está. Philip se sente pior agora que estamos fazendo todo esse alarde em torno dele do que quando se escondia no museu. – Gostaria de saber o que ele quer – disse a si mesma, sem encontrar uma resposta, já que Philip não se manifestava a respeito, do mesmo modo que, na verdade, ele se mantinha quieto a respeito de quase tudo. *** A aula de bicicleta ocorreu à tarde, conforme prometido. Emprestaram a Philip a bicicleta de Violet Grimwith, uma máquina sólida, pintada de azul, que Violet chamava Jacinto. Os Hanger Woods estavam cheios de jacintos. Ainda assim, Tom e Dorothy achavam que era um nome sem graça. Tom, na Montaria, pedalou em torno da clareira gramada entre a porta dos fundos e o bosque, revelando equilíbrio. Dorothy ajudou Philip, segurando seu selim, enquanto ele se equilibrava precariamente. – Fica muito mais fácil quando você se movimenta – ela lhe disse. – Ninguém consegue se equilibrar parado. Philip partiu e caiu, partiu e caiu, partiu e pedalou em torno de metade da clareira e caiu, partiu e pedalou, cambaleando um pouco, em torno de toda a clareira. Pela primeira vez desde que chegara a Todefright, deu uma gargalhada. Tom fazia números oito com sua bicicleta, e Phyllis surgiu e executou alguns círculos perfeitos. Tom disse que Philip agora estava suficientemente bom para pedalar pelas alamedas, então saíram, Tom no comando, depois Philip, Dorothy e Phyllis. Pedalaram ao longo da Alameda Frenches, que era plana, entre cercas de espinheiros, depois subiram pela encosta arborizada na Alameda Scarp, entre árvores muito frondosas que produziam sombras profundas, interceptadas por fachos de uma luminosidade deslumbrante. Philip teve uma ideia para um pote muito, muito escuro, semelhante a um caldeirão, com veios brilhantes em uma superfície opaca. Quando pensou no pote imaginário, e não na estrutura de metal que o levava, seu equilíbrio melhorou e ele foi mais rápido. Atrás dele, Dorothy também acelerou. Tinha paixão por velocidade, que é mais forte em meninas de onze ou doze anos. Sonhava em cavalgar um cavalo de raça em uma praia, entre a areia e o mar. Desde que ganhara a bicicleta, sonhava frequentemente em voar bem perto do chão, roçando os canteiros, sentada como um faquir em um tapete invisível. No alto da colina, pedalaram ao longo de uma clareira, e Tom perguntou: – Vamos descer a Colina do Bosque?

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– É muito inclinada – disse Dorothy. – Será que Philip vai conseguir? – Estou indo bem – falou Philip, sorrindo. Assim, eles viraram na Alameda do Bosque, que tinha um declive puxado e curvas em cotovelo. Dorothy agora estava à frente de Philip, atrás de Tom, que ganhava velocidade, afastando-se deles. Dorothy sentiu o costumeiro e delicioso aperto dentro de si. Olhou para trás para ver se Philip estava bem. Ele estava mais próximo do que ela pensava, e Dorothy bamboleou atravessando seu caminho. Ele estremeceu, escorregou e voou pelos ares, passando mais ou menos por cima de Dorothy. Ela caiu na trilha, esfolando as canelas, os pedais e as rodas em movimento. Phyllis deslizou entre eles, agarrada ao guidão, afetadamente ereta. Dorothy levantou a Mona-Bona-Grona e foi dar uma olhada em Philip. Estava espichado de costas, sob um carvalho, afundado em uma touceira de alho-selvagem, aniquilado em sua aterrissagem, numa extraordinária pungência. Estava deitado quieto, olhando através das folhas. – Culpa minha – disse Dorothy. – Tudo culpa minha. Você se machucou? – Acho que não. Não. Apenas sem fôlego. Ele começou a rir. – O que há de engraçado? – O campo tem coisas que cheiram quase tão mal quanto as coisas da cidade. Só fedor vegetal, nada de fumaça. Nunca cheirei nada que chegasse perto disto. – É alho-selvagem. Não é muito agradável. Philip não conseguia parar de rir. – É horrível. Mas é uma novidade, sabia? Dorothy se agachou ao lado dele. – Você consegue se levantar? – Em um minuto. Espere um minuto. Estou sem ar, como dizemos. A máquina se estragou? Dorothy deu uma olhada. Estava intacta. Philip ficou deitado no cheiro desagradável e fascinante e deixou que seus músculos relaxassem um por um, de maneira que a terra suportasse seu corpo flácido e ele pudesse sentir por debaixo toda a sua rusticidade, as hastes amassadas, as raízes nodosas das árvores, os seixos, o húmus frio. Fechou os olhos e cochilou por um instante. Acordou porque Dorothy o sacudia. – Você está bem? Eu poderia ter matado você. Você teve alguma concussão ou algo assim? – Estou muito feliz – disse Philip. – Aqui. Dorothy falou, compreendendo: – Eu poderia ter matado você.

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– Mas não matou. – Se você quiser – ela continuou, dizendo em voz alta o que andara rondando sua cabeça por algumas horas – só mandar um cartão-postal para sua mãe, você sabe, apenas para dizer que está bem, e para ela não se preocupar, eu posso arrumar um e colocá-lo no correio para você. Philip ficou quieto. Sua cabeça estava um turbilhão. Franziu o cenho. – Sinto muito – disse Dorothy. – Não quis deixá-lo nervoso. Eu queria ajudar. Ela sentou-se curvada, com os braços ao redor dos joelhos. – Você não... me deixou nervoso. E tem razão. Preciso escrever para mamãe. Se me arrumar um cartão, eu escrevo. E… obrigado. *** Pedalaram de volta mais comportados. Dorothy buscou um cartão-postal e selo na escrivaninha de Olive, e Philip segurou a pena de um jeito esquisito, olhando para o retângulo em branco. Dorothy, sem supervisioná-lo, esperou perto da janela. Uma ou duas vezes ele pareceu prestes a colocar a pena sobre o cartão, mas não o fez. Dorothy decidiu que, se ela saísse, talvez ele fosse em frente. Quando sua mão estava no trinco da porta, Philip disse: – Promete que não vai ler? – Eu não leria. As cartas são pessoais. Até mesmo os cartões. Posso arrumar um envelope para que o coloque dentro e o torne privado. Você gostaria? – Gostaria – respondeu Philip. – Em parte porque não sei soletrar direito. Ele escreveu: Querida mamãe e todos, Istou bem, e logo voltu a iscrever. Ispero que istejam bem. Philip.

Dorothy trouxe um envelope, e Philip o endereçou. Estava agradecido, e ao mesmo tempo irritado, por Dorothy ter se dado conta de sua obrigação e de sua necessidade.

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Este livro foi composto em Adobe Garamond Pro para a Leya, em Novembro de 2013.

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Antonia Susan Drabble Byatt nasceu em Sheffield, na Inglaterra, em 1936. Estudou literatura inglesa e norte-americana nas universidades de Cambridge e Oxford e no Bryn Mawr College. Byatt é internacionalmente conhecida como crítica e escritora de sucesso. Em 2008, o jornal The Times nomeou-a em sua lista das 50 maiores escritoras britânicas pós-1945. Dama do Império Britânico e doutora honoris causa por várias universidades inglesas, publicou mais de vinte livros, entre crítica e ficção, dentre eles, Still Life (vencedor do PEN/Macmillan Silver Pen Award 1986), Possession: A Romance (vencedor do Booker Prize em 1990 e transformado em filme em 2002) e Angels & Insects (que também virou filme de sucesso, indicado ao Oscar em 1995). O livro das crianças foi indicado para o Booker Prize 2009 e ganhou o James Tait Black Memorial Prize 2010.

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livro das crianças é muito mais que um livro de ficção. O romance, escrito de forma magistral, apresenta-nos ao mundo da consagrada escritora Olive Wellwood e de sua família, a partir da década de 1890 até o início da Primeira Guerra Mundial. Por mais de duas décadas, na transição entre a Era Vitoriana e o Modernismo, a narrativa tem como pano de fundo a infância e a juventude dos filhos de Olive, seus primos e amigos. Essas crianças, nascidas entre o crepúsculo da Era Vitoriana e a aurora da Primeira Grande Guerra, representam toda uma geração que cresceu sem saber da escuridão por vir. Uma linha tênue entre a ficção e a realidade, O livro das crianças é rico em sua temática e em seu poder descritivo, versando sobre a arte, a educação e a família. Byatt constrói um panorama abrangente de experiências do fim da era vitoriana, abordando temas que foram centrais na época, como neopaganismo, incesto, sufrágio e contos de fadas modernos. Diversos segredos são descobertos e relacionamentos evoluem em uma narrativa em que observamos, por uma perspectiva privilegiada, o passar do tempo, a agitação política e social do período e o processo de criação e evolução da arte.

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   leya.com.br

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Exibindo, de maneira superlativa, tanto enorme alcance quanto tremendo controle [...] crepitando com ideias e vívida energia criativa [...] este é o romance mais emocionante que A.S. Byatt escreveu desde o seu primeiro e premiado romance. Sunday Times

Persuasivo... tenazmente abrangente e também muito enriquecedor – um conto complexo, energeticamente formado a partir de fios resistentes de material, por “uma magia propulsora no sótão”, uma contadora de histórias incansável. Irish Times

Surpreendentemente poderoso e ressonante. Sunday Telegraph

Romance trabalhado de forma detalhada e sumptuosamente incrustado [...]. Cor e sensação inundam a escrita de Byatt. Independent

ISBN 978-85-8044-866-5

25/09/13 09:45

O Livro das Crianças  

O livro das crianças é muito mais que um livro de ficção. O romance, escrito de forma magistral, apresenta-nos ao mundo da consagrada escrit...

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