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Joe Abercrombie Megan Abbott Cecelia Holland Melinda Snodgrass Jim Butcher Carrie Vaughn Joe R. Lansdale Megan Lindholm Lawrence Block Brandon Sanderson Sharon Kay Penman Lev Grossman Nancy Kress Diana Rowland Diana Gabaldon Sherrilyn Kenyon S.M. Stirling Sam Sykes Pat Cadigan Caroline Spector George R.R. Martin

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editado por Gardner Dozois e

Tradução Alexandre Martins

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Copyright © 2013, George R.R. Martin e Gardner Dozois Publicado de acordo com os autores, aos cuidados de The Lotts Agency, Ltd. Copyright de tradução © 2016 LEYA EDITORA LTDA, Alexandre Martins Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19.2.1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Copyrights “Fora da lei”, copyright © 2013, Joe Abercrombie. “Ou meu coração está partido”, copyright © 2013, Megan Abbott. “A canção de Nora”, copyright © 2013, Cecelia Holland. “As mãos que não estão lá”, copyright © 2013, Melinda M. Snodgrass. “Explosivas”, copyright © 2013, Jim Butcher. “Raisa Stepanova”, copyright © 2013, Carrie Vaughn. “Lutando com Jesus”, copyright © 2013, Joe R. Lansdale. “Vizinhos”, copyright © 2013, Megan Lindholm. “Eu sei escolhê-las”, copyright © 2013, Lawrence Block. “Sombras nas Florestas do Inferno”, copyright © 2013, Brandon Sanderson. “Uma rainha no exílio”, copyright © 2013, Sharon Kay Penman. “A garota no espelho”, copyright © 2013, Lev Grossman. “Segundo arabesque, muito lentamente”, copyright © 2013, Nancy Kress. “Cidade Lázaro”, copyright © 2013, Diana Rowland. “Virgens”, copyright © 2013, Diana Gabaldon. “O inferno não tem fúria”, copyright © 2013, Sherilynn Kenyon. “Anunciando a pena”, copyright © 2013, S.M. Stirling. “O nome da fera”, copyright © 2013, Samuel Sykes. “Cuidadores”, copyright © 2013, Pat Cadigan. “Mentiras que minha mãe me contou”, copyright © 2013, Caroline Spector. “A Princesa e a Rainha”, copyright © 2013, George R.R. Martin. Título original Dangerous Women Produção editorial: Oliveira Editorial | Anna Beatriz Seilhe Copidesque: Beatriz Sarlo Revisão: Leonardo Alves, Luana Balthazar, Mariana Oliveira, Marília Lamas Capa: Leandro Dittz Ilustração: Ralph Damiani Diagramação: Filigrana Curadoria: Affonso Solano Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB—8/7057 Mulheres perigosas / organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois ; tradução de Alexandre Martins. – Rio de Janeiro : LeYa, 2017. 736 p.

ISBN 978-85-441-0480-4 Título original: Dangerous women 1. Ficção fantástica americana. 2. Mulheres – Ficção. I. Martin, George R. R. II. Dozois, Gardner. III. Martins, Alexandre.

CDD: 813

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção fantástica americana

Todos os direitos reservados à EDITORA CASA DA PALAVRA Avenida Calógeras, 6 | sala 701 20030-070 – Rio de Janeiro – RJ www.leya.com.br

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Para Jo Playford, minha perigosa comparsa George R.R. Martin

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Sum ário

Introdução  9 Fora da lei, de Joe Abercrombie   12 Ou meu coração está partido, de Megan Abbott   30 A canção de Nora, de Cecelia Holland   54 As mãos que não estão lá, de Melinda M. Snodgrass   80 Explosivas, de Jim Butcher   108 Raisa Stepanova, de Carrie Vaughn   156 Lutando com Jesus, de Joe R. Lansdale   182 Vizinhos, de Megan Lindholm   214 Eu sei escolhê-las, de Lawrence Block   250 Sombras nas Florestas do Inferno, de Brandon Sanderson   270 Uma rainha no exílio, de Sharon Kay Penman   316 A garota no espelho, de Lev Grossman   344

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Segundo arabesque, muito lentamente, de Nancy Kress   366 Cidade Lázaro, de Diana Rowland   396 Virgens, de Diana Gabaldon   422 O inferno não tem fúria, de Sherilynn Kenyon   492 Anunciando a pena, de S.M. Stirling   510 O nome da fera, de Samuel Sykes   542 Cuidadores, de Pat Cadigan   562 Mentiras que minha mãe me contou, de Caroline Spector   602 A princesa e a rainha, de George R.R. Martin   654

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Introdução

A ficção sempre se dividiu quando se trata do quanto as mulheres são perigosas. No mundo real, claro, a questão foi resolvida há muito tempo. Mesmo que as amazonas sejam mitológicas (e quase não teriam cortado os seios direitos para tornar mais fácil esticar a corda de um arco caso não fossem), a lenda foi inspirada pela lembrança das ferozes mulheres guerreiras citas, que definitivamente não eram mitológicas. Gladiadoras, lutavam contra outras mulheres – e algumas vezes homens – até a morte nas arenas da antiga Roma. Houve mulheres piratas como Anne Bonny e Mary Read, e até mulheres samurai. Mulheres serviram nas tropas de combate na linha de frente – e foram temidas por sua ferocidade – no exército russo durante a Segunda Guerra Mundial, e hoje servem em Israel. Até 2013 as mulheres das forças armadas dos Estados Unidos se limitavam a funções de “não combatentes”, mas de qualquer forma muitas corajosas deram suas vidas no Iraque e no Afeganistão, já que balas e minas terrestres nunca se importaram se você é um combatente ou não. As mulheres que serviram como pilotos no Serviço Feminino da Força Aérea dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial também se limitavam a funções de não combatentes (embora muitas delas ainda assim tenham morrido desempenhando seus papéis), mas as russas subiram aos céus como pilotos de caça, e algumas vezes se tornaram ases. Uma atiradora de elite russa durante a Segunda Guerra Mundial recebeu o crédito por mais de cinquenta abates. A rainha Boudicca, da tribo dos icenos, liderou uma

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Gardner Dozois

das mais assustadoras revoltas contra a autoridade romana, que quase teve sucesso em expulsar os invasores romanos da Grã-Bretanha, e uma jovem camponesa francesa inspirou e liderou as tropas contra o inimigo com tanto sucesso que depois ficou para sempre famosa como Joana d’Arc. Do lado do mal, houve salteadoras como Mary Frith, lady Caroline Ferrers e Pearl Hart (a última pessoa a assaltar uma carruagem); envenenadoras notórias como Agrippina e Catarina Médici, criminosas modernas como Ma Barker e Bonnie Parker, até mesmo assassinas em série como Aileen Wuornos. Elizabeth Báthory teria se banhado no sangue de virgens e, embora isso possa ser questionável, não há dúvida de que ela torturou e matou dezenas, talvez centenas de crianças ao longo da vida. A rainha Mary I, da Inglaterra, mandou queimar centenas de protestantes na fogueira. A rainha Elizabeth, da Inglaterra, respondeu depois executando um grande número de católicos. A rainha louca Ranavalona, de Madagascar, mandou executar tantas pessoas que eliminou um terço da população de Madagascar durante seu reinado; ela condenaria uma pessoa à morte até se esta aparecesse em seus sonhos. A ficção popular, contudo, sempre teve uma visão esquizofrênica do perigo das mulheres. Na ficção científica dos anos 1930, 1940 e 1950, as mulheres, quando apareciam, eram em grande medida relegadas ao papel da bela filha do cientista, que poderia gritar nas cenas de luta, mas afora isso tinha pouco a fazer que não se pendurar, amorosa, nos braços do herói no final. Legiões de mulheres desfaleceram, desamparadas, enquanto esperavam ser resgatadas de tudo pelo herói intrépido de maxilar forte, desde dragões até monstros com olhos de inseto, que sempre as raptavam com o improvável propósito alimentar ou romântico nas capas das revistas de ficção científica. Mulheres que lutavam inutilmente eram amarradas a trilhos de trem, sem nada a fazer a não ser guinchar em protesto e esperar que o mocinho chegasse a tempo de salvá-las. Ainda assim, ao mesmo tempo, mulheres guerreiras como Dejah Thoris e Thuvia, a Dama de Marte, de Edgar Rice Burroughs, eram tão boas com a lâmina e igualmente mortais em batalha quanto John Carter e seus outros camaradas do sexo masculino; aventureiras como Jirel of Joiry, de C.L. Moore, abriram caminho à força pelas páginas da revista Weird Tales (e deixaram uma trilha para aventureiras posteriores como a Alyx, de Joanna Russ); James H. Schmitz enviou Agentes de Vega como Granny Wanattel e adolescentes destemidas como Telzey Amberdon e Trigger Argee para combater ameaças sinistras e monstros nos caminhos do espaço; e as mulheres perigosas de Robert A. Heinlein eram capazes de ser capitãs de espaçonaves ou matar inimigos em combate corpo a corpo. A astuta e misteriosa Irene Adler, de Arthur Conan Doyle, foi uma das poucas pessoas a superar seu Sherlock

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Introdução

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Holmes, e provavelmente uma das inspirações para as legiões de femmes fatales ardilosas, perigosas, sedutoras e traiçoeiras que apareceram nas obras de Dashiell Hammett e James M. Cain, depois surgiriam em dezenas de filmes noir, e ainda aparecem nos filmes e na TV até hoje. Heroínas posteriores da TV como Buffy, a Caça-Vampiros, e Xena, a Princesa Guerreira, estabeleceram as mulheres como formidáveis e fatais o suficiente para combater hordas de assustadoras ameaças sobrenaturais e ajudaram a inspirar todo o subgênero do romance paranormal, que às vezes é informalmente conhecido como o gênero das “heroínas duronas”. Assim como nossa coletânea Warriors, Dangerous Women foi concebido como um livro de estilo híbrido, que mistura todo tipo de ficção. Para isso, pedimos a escritores de todos os gêneros – ficção científica, fantasia, mistério, romance histórico, terror, romance paranormal, tanto homens quanto mulheres – para abordar o tema das mulheres perigosas, e a convocação foi atendida por alguns dos melhores autores da área, incluindo escritores novos e gigantes em seus campos como Diana Gabaldon, Jim Butcher, Sharon Kay Penman, Joe Abercrombie, Carrie Vaughn, Joe R. Lansdale, Lawrence Block, Cecelia Holland, Brandon Sanderson, Sherilynn Kenyon, S.M. Stirling, Nancy Kress e George R.R. Martin. Aqui você não encontrará vítimas desamparadas que choramingam de medo enquanto o mocinho combate o monstro ou luta contra o vilão, e, se quiser amarrar essas mulheres a trilhos de trem, terá pela frente uma boa luta. Em vez disso, você encontrará guerreiras brandindo espadas; intrépidas pilotos de caça e espaçonautas de longo curso; assassinas em série letais; super-heroínas formidáveis; mulheres fatais maliciosas e sedutoras; senhoras da magia; meninas más criadas na dureza; bandoleiras e rebeldes; sobreviventes endurecidas em futuros pós-apocalípticos; investigadoras particulares; duras juízas de pena capital; rainhas orgulhosas que comandam nações e cujos ciúme e ambições mandam milhares para mortes horrendas; cavaleiras de dragões ousadas e muito mais. Aproveite! Gardner Dozois

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Joe Abercrombie

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omo demonstra a história acelerada e movimentada que se segue, às vezes perseguir um fugitivo pode ser tão perigoso para o perseguidor quanto para o perseguido – particularmente quando a caça não tem mais para onde correr... Joe Abercrombie é uma das estrelas que sobem mais rápido no gênero da fantasia atualmente, aclamado por leitores e críticos por sua abordagem dura, contida e objetiva. Talvez, ele seja mais conhecido por sua trilogia “A primeira lei”, cujo primeiro romance, O poder da espada, foi lançado em 2006; a ele se seguiram, em anos posteriores, Antes da forca e O duelo dos reis. Ele também escreveu os romances de fantasia Best Served Cold e The Heroes. Seu romance mais recente é Red Country. Além de escrever, Abercrombie também é editor de cinema freelance, e mora e trabalha em Londres.

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For a da lei

Shy esporeou o cavalo, cujas pernas da frente fraquejaram, e antes que percebesse o que estava acontecendo, ela e a sela deram adeus uma à outra. Ela teve um instante agitado em pleno ar para avaliar a situação. Não o suficiente para uma rápida avaliação, e a terra iminente não lhe deu tempo para mais. Ela se esforçou para rolar na queda – como tentava fazer na maioria de suas muitas situações infelizes –, mas o solo logo a desenrolou, lhe deu uma bela surra e a jogou às cambalhotas sobre um trecho de vegetação ressecada pelo sol. A poeira assentou. Ela reservou um momento apenas para respirar um pouco. Depois outro para gemer enquanto o mundo parava de girar. E mais um para se apoiar cuidadosamente sobre um braço e uma perna, esperando por aquela pontada de dor nauseante que significava que algo estava quebrado e sua infeliz sombra de vida logo se perderia no crepúsculo. Ela daria as boas-vindas a isso se assim pudesse se esticar e não ter mais de correr. Mas a dor não veio. Pelo menos não fora do padrão habitual. No que dizia respeito à sua infeliz sombra de vida, ela ainda esperava o julgamento. Shy se levantou com esforço e se espanou, coberta de poeira e cuspindo terra. Ela engolira muitos bocados de areia nos meses anteriores, mas tinha uma desalentadora premonição de que haveria mais. Seu cavalo estava a alguns passos de distância, flanco arfando, patas dianteiras pretas de sangue. A flecha de Neary cravara-se no ombro, não fundo o bastante para matá-lo ou

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mesmo desacelerá-lo imediatamente, mas fundo o bastante para fazê-lo sangrar num bom ritmo. Com sua cavalgada dura, isso o mataria tão certamente quanto uma lança no coração. Houve uma época em que Shy tivera uma ligação com cavalos. Uma época – apesar de ser dura com as pessoas e estar certa na maioria das vezes – em que ela era atipicamente mole com animais. Mas essa época passara. Não havia nada muito suave nela naqueles dias, corpo ou mente. Então deixou sua montaria dar seus últimos suspiros de espuma vermelha sem o consolo de sua mão para acalmá-la e correu rumo à cidade, cambaleando no início, mas rapidamente se aquecendo com o exercício. Ela tinha muita experiência em correr. “Cidade” talvez fosse um exagero. Seis prédios, e chamá-los de prédios era ser generoso com dois ou três. Todos de madeira grosseira e ignorando os ângulos retos, desgastados pelo sol, descascados pela chuva e açoitados pelo vento, agrupavam-se ao redor de uma praça suja e um poço em ruínas. O maior prédio tinha aparência de taverna, bordel, posto comercial ou provavelmente de todos os três. Uma placa frágil ainda se aferrava às tábuas acima da entrada, mas o nome havia sido esfregado pelo vento até não passar de alguns traços claros sobre os veios. “Nada, lugar algum” era tudo o que ela proclamava então. Subindo os degraus de dois em dois, pés descalços fazendo gemer as tábuas velhas, pensamentos fervilhando sobre como iria agir quando chegasse do lado de dentro, quais verdades iria temperar com quais mentiras para ter a receita mais provável. “Há homens me perseguindo!” Prendendo a respiração junto ao umbral e fazendo de tudo para parecer mais que desesperada – não um grande esforço de atuação naquele momento, nem, na verdade, nos doze meses anteriores. “Três desgraçados!” Depois – desde que ninguém a reconhecesse de todos os seus mandados de prisão –: “Eles tentaram me roubar!” Um fato. Não era necessário acrescentar que ela mesma roubara o dinheiro do novo banco em Hommenaw na companhia daqueles três indivíduos e um outro que fora então apanhado e enforcado pelas autoridades. “Eles mataram meu irmão! Estão embriagados de sangue!” Seu irmão estava seguro em casa, onde ela desejava estar e, se seus perseguidores estavam bêbados seria de destilados baratos como de hábito, mas ela iria guinchar isso com aquele pequeno trinado na garganta. Shy conseguia produzir um belo trinado quando precisava de um, praticara até que se tornasse algo impressionante. Ela imaginou os clientes se jogando aos seus pés na ansiedade de ajudar uma mulher em apuros. “Eles atiraram no meu cavalo!” Ela tinha de admitir que não parecia provável que qualquer um durão o bastante para viver ali se visse tomado por um surto de cavalheirismo, mas talvez o destino lhe desse uma boa mão para variar.

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Fora da lei

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Isso acontecia. Ela passou sem jeito pela porta da taverna, abrindo a boca para apresentar a história, e ficou paralisada. O lugar estava vazio. Não havia ninguém ali. Aliás, havia o nada. Nenhuma mínima peça de mobília no salão. Uma escada estreita e um balcão ao longo da parede esquerda, portas escancaradas para o vazio no segundo andar. Fachos de luz espalhados por onde o sol nascente passava pelas muitas frestras da carpintaria lascada. Talvez apenas um lagarto disparando para as sombras – algo que nunca faltava – e uma belíssima camada de poeira, acizentando todas as superfícies, soprada para todos os cantos. Shy ficou um momento de pé ali sem piscar, depois saiu apressada e seguiu pela calçada frágil até o prédio seguinte. Quando empurrou a porta, esta despencou das dobradiças enferrujadas. Aquele não tinha nem sequer teto ou um piso. Apenas vigas nuas com o despreocupado céu rosado acima, e traves nuas com uma camada de terra abaixo, tão desolada quanto os quilômetros de terreno do lado de fora. Ela agora enxergava, enquanto voltava para a rua, sem a visão bloqueada pela esperança. Nada de vidro nas janelas, nem papel encerado. Nada de corda no poço, que desmoronava. Nenhum animal à vista – quer dizer, exceto por seu próprio cavalo morto, o que só servia para confirmar a ideia. Era o cadáver ressecado de uma cidade, morta havia muito. Shy ficou naquele lugar abandonado, apoiada nas pontas dos pés descalços como se prestes a sair em disparada para algum lugar, mas sem ter destino, um braço envolvendo o corpo enquanto os dedos da outra mão se agitavam e retorciam sobre nada, mordendo o lábio e sugando o ar rapidamente e o soprando pelo pequeno espaço entre os dentes da frente. Mesmo pelos padrões recentes, era um momento ruim. Mas se ela havia aprendido algo nos meses anteriores era que as coisas sempre podem piorar. Olhando para o caminho por onde chegara, Shy viu poeira se elevando. Três pequenas trilhas no tremeluzir que se elevava da terra cinza. – Ah, inferno – sussurrou ela, e mordeu o lábio com mais força. Tirou a faca de mesa do cinto e limpou o pequeno caco de metal em sua blusa suja, como se limpá-la pudesse de algum modo melhorar as chances. Ela ouvira dizer que tinha imaginação fértil, mas mesmo assim era difícil imaginar uma arma mais pobre. Teria rido se não estivesse à beira das lágrimas. Ela passara tempo demais à beira das lágrimas nos meses anteriores, agora que pensava nisso. Como tudo chegara àquele ponto? Uma pergunta para alguma garota abandonada à própria sorte, não para uma fora da lei com uma oferta de quatro mil marcos de recompensa, mas

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ainda assim uma pergunta que nunca deixava de fazer. Bandida desesperada! Ela se tornara uma especialista no desespero, mas o resto continuava a ser um mistério. A triste verdade era que ela sabia muito bem como chegara àquele ponto – da mesma forma de sempre. Um desastre se seguindo tão violentamente ao outro, e ela só quicava entre eles, batendo como uma mariposa numa lanterna. A segunda pergunta habitual se seguiu. E agora, porra? Seu estômago se revirou – não que houvesse muito para revirar – e ela puxou a bolsa pelos cordões, as moedas dentro retinindo com aquele som especial que apenas o dinheiro produz. Dois mil marcos em prata, mais ou menos. Você acharia que um banco teria muito mais – eles diziam aos depositantes ter sempre 50 mil à disposição –, mas no final das contas não se pode confiar mais nos bancos que nos bandidos. Enfiou a mão, tirou um punhado de moedas e jogou o dinheiro na rua, deixando-o para brilhar na poeira. Fez isso do modo como fazia a maioria das coisas então – quase sem saber por quê. Talvez valorizasse a vida muito mais do que os dois mil marcos, mesmo que ninguém mais o fizesse. Talvez tivesse esperança de que eles fossem pegar a prata e deixá-la para trás, embora ela não havia pensado no que iria fazer quando fosse deixada naquela cidade cadáver – sem cavalo, sem comida, sem arma. Claramente não tinha traçado um plano completo, ou não um que passasse num teste, pelo menos. Planejamento falho sempre fora o seu problema. Ela salpicou prata como se estivesse jogando sementes na fazenda da mãe, há quilômetros, anos e uma dúzia de mortes violentas de distância. Quem diria que sentiria falta do lugar? Falta da casa miserável, do celeiro dilapidado e das cercas que sempre precisavam de remendos. A vaca teimosa que nunca dava leite, o poço teimoso que nunca dava água e o solo teimoso no qual apenas ervas daninhas cresciam. Sua irmãzinha teimosa e também seu irmão. Mesmo o grande Lamb, idiota, marcado por cicatrizes. O que Shy não teria dado naquele momento para ouvir a voz aguda da mãe a xingando mais uma vez. Ela respirou fundo, o nariz doendo, os olhos ardendo, e os limpou nas costas do punho puído. Não havia tempo para reminiscências chorosas. Ela podia ver três pontos escuros dos cavaleiros abaixo das inevitáveis trilhas de poeira. Lançou longe a bolsa vazia, correu de volta para a taverna e... – Ai! Ela passou pelo umbral saltando, a sola descalça do pé ferida por uma cabeça de prego solta. O mundo não passava de um valentão malvado, isso sim. Mesmo quando você tinha um enorme infortúnio prestes a despencar em sua cabeça, os pequenos ainda aproveitavam todas as oportunidades de beliscar seus dedos. Como ela desejava ter tido a oportunidade de pegar suas botas.

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Só para manter alguma dignidade. Mas ela tinha o que tinha, e nem botas nem dignidade estavam na lista, e cem enormes desejos não valem um pequeno fato – como Lamb costumava repetir para ela sempre que o amaldiçoava, e à sua mãe, e à vida que tinha. Então jurava que iria embora na manhã seguinte. Ela se lembrou de como tinha sido na época, e desejou ter então a chance de socar a cara de seu antigo eu. Mas poderia dar um soco na própria cara quando escapasse daquilo. Primeiro tinha de suportar uma sequência de outros punhos com a mesma disposição. Subiu as escadas rapidamente, mancando um pouco e xingando muito. Quando chegou ao alto viu que deixara marcas ensanguentadas de dedão em degraus alternados. Ela estava começando a ficar bastante deprimida com aquela trilha reluzente levando diretamente ao final de sua perna quando uma ideia surgiu em meio ao pânico. Ela caminhou pelo balcão, se preocupando em apertar firmemente o pé ensanguentado nas tábuas, e entrou num quarto abandonado no final. Depois ergueu o pé, apertando-o firmemente com uma das mãos para deter o sangramento, e voltou pulando pelo caminho que tomara, entrando na primeira passagem, perto do alto da escada, se enfiando nas sombras do lado de dentro. Um esforço lamentável, sem dúvida. Tão lamentável quanto seus pés descalços, sua faca de mesa, sua carga de dois mil marcos e seu grande sonho de voltar para casa, o buraco de merda que ela sempre sonhara em deixar para trás. Poucas as chances de que aqueles três desgraçados caíssem naquela, por mais idiotas que fossem. Mas o que mais ela podia fazer? Quando você está reduzido a pequenas apostas, tem de apostar no azarão. Sua própria respiração era sua única companhia, ecoando no vazio, forte ao sair, irregular ao entrar, descendo quase dolorosamente pela garganta. A respiração de alguém sem ideias, com medo quase a ponto de se borrar involuntariamente. Ela não conseguia ver uma saída. Se um dia voltasse para aquela fazenda, saltaria da cama toda manhã que acordasse viva e faria uma pequena dança, daria um beijo na mãe por cada xingamento, nunca seria grossa com a irmã ou zombaria novamente de Lamb por ele ser um covarde. Ela fez a promessa, e depois desejou ser do tipo que cumpria suas promessas. Ouviu cavalos do lado de fora, se esgueirou até a única janela com vista para a rua e espiou para baixo com tanta cautela quanto se estivesse olhando dentro de um balde de escorpiões. Eles estavam ali. Neary usava aquele velho cobertor sujo amarrado na cintura com corda, seus cabelos oleosos se projetando em todos os ângulos, rédeas numa das

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mãos, na outra o arco com o qual ferira o cavalo de Shy, a lâmina do machado pesado pendendo do cinto, tão cuidadosamente limpa quanto o resto de sua pessoa repugnante era desmazelado. Dodd estava com seu chapéu gasto enfiado na cabeça, sentado na sela com aquela postura encolhida de ombros caídos que sempre adotava perto do irmão, como um cachorrinho esperando um tapa. Shy teria gostado de dar um tapa naquele idiota sem fé naquele instante. Um tapa para começar. E havia Jeg, sentado como um lorde com aquele seu comprido casaco vermelho, as abas sujas de terra caídas sobre as ancas de seu grande cavalo, uma expressão de desprezo sequioso no rosto enquanto examinava os prédios; aquele chapéu alto que ele achava que o tornava um personagem se projetando de sua cabeça, levemente inclinado, como a chaminé de uma casa de fazenda queimada. Dodd apontou para as moedas espalhadas sobre a terra ao redor do poço, duas delas reluzindo ao sol. – Ela deixou o dinheiro. – Parece que sim – disse Jeg, a voz tão dura quanto a do irmão era suave. Ela os observou desmontar e prender as montarias. Sem pressa. Como se estivessem se espanando depois de uma pequena cavalgada e ansiando por uma bela noite com companhias cultas. Eles não precisavam se apressar. Sabiam que ela estava ali, sabiam que não iria a lugar algum e sabiam que não conseguiria ajuda, assim como ela sabia. – Desgraçados – sussurrou Shy, amaldiçoando o dia em que se juntou a eles. Mas você precisa se juntar a alguém, não é mesmo? E você só pode escolher entre o que está ao seu alcance. Jeg esticou as costas, fungou longamente, deu uma cusparada confortável, depois desembainhou a espada. Aquela espada curva de cavalaria com punho tramado de que ele tanto se orgulhava, que dissera ter conquistado num duelo com um oficial da União, mas que Shy sabia que era roubada, juntamente com a maior parte de todo o resto que ele já tivera. Como debochara dele por causa daquela espada idiota. Mas não se importaria de tê-la nas mãos naquele momento, ficando ele apenas com sua faca de mesa. – Fumaça! – gritou Jeg, e Shy se encolheu. Ela não tinha ideia de quem inventara aquele nome para ela. Algum palhaço tinha escrito isso nos avisos de prisão contra ela, e então todo mundo o usava. Por conta de sua tendência a desaparecer como fumaça, talvez. Embora também pudesse ter sido por conta de sua tendência a feder tanto quanto, grudar nas gargantas das pessoas e se mover com o vento. – Sai daí, Fumaça! – gritou ele de novo, a voz ecoando pelas fachadas mortas dos prédios, e Shy se encolheu um pouco mais na escuridão. – Venha para cá e não vamos te machucar demais quando a encontrarmos!

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Não bastava pegar o dinheiro e partir. Eles também queriam o prêmio por sua cabeça. Ela apertou a língua no espaço entre os dentes e fez com a boca: “Cretinos.” Há um tipo de homem que quanto mais você dá, mais ele quer. – Teremos de ir lá pegá-la – ela ouviu Neary dizer no ar parado. – É. – Eu lhe disse que teríamos de ir pegá-la. – Então você deve estar mijando nas calças de alegria pelo resultado, né? – Eu disse que teríamos de pegá-la. – Então pare de falar isso e faça. – Olhem, o dinheiro está aqui, poderíamos pegar isto e ir embora, não há necessidade de... – falou Dodd em tom de bajulação, – Você e eu saímos mesmo do meio das mesmas pernas? – perguntou Jeg ao irmão com desprezo. – Você é o desgraçado mais idiota que eu conheço. – O mais idiota – repetiu Neary. – Você acha que vamos deixar quatro mil marcos para os corvos? – perguntou Jeg. – Cata aquilo, Dodd. Nós vamos domar a égua. – Onde acha que ela está? – quis saber Neary. – Achei que você era o grande rastreador. – Em campo aberto, mas nós não estamos em campo aberto. Jeg ergueu uma sobrancelha, olhando para os barracos vazios. – Você chamaria isto de símbolo máximo da civilização? Eles se encararam por um momento, poeira sendo soprada ao redor de suas pernas e depois assentando novamente. – Ela está em algum lugar por aqui – concluiu Neary. – Acha mesmo? Que bom que eu tenho comigo o autodefinido olho mais afiado a oeste das montanhas, para que eu não perca o cavalo morto dela a uma porra de dezena de passos de distância. Sim, ela está em algum lugar por aqui. – Onde você acha que seria? – Onde você estaria? Neary examinou os prédios, e Shy saiu do caminho quando os olhos apertados dele passaram sobre a taverna. – Naquele, acho, mas não sou ela. – Claro que você não é ela, porra. Sabe como posso dizer isso? Você tem peitos maiores e menos sensatez. Se fosse ela eu não teria de procurar, não é, cacete? Outro silêncio, outra rajada de vento com poeira. – Acho que não – disse Neary. Jeg tirou o chapéu alto, esfregou os cabelos suados com as pontas dos dedos e o enfiou novamente, inclinado, na cabeça.

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Joe Abercrombie

– Você procura lá enquanto eu tento o do lado, mas não mate a vagabunda, tá? Isso só dá metade da recompensa. Shy recuou para as sombras, sentindo o suor escorrer sob a blusa. Ser apanhada naquele buraco imprestável. Por aqueles cretinos imprestáveis. Descalça. Ela não merecia aquilo. Tudo o que ela queria era ser alguém de quem valesse a pena falar. Em vez de ser nada, esquecida no dia de sua morte. Naquele momento, ela viu que há um fino equilíbrio entre muito pouca excitação e uma enorme porção de ajuda excessiva. Mas como a maioria de suas epifanias mancas, aquela lhe ocorrera um ano tarde demais. Ela sugou ar pelo pequeno espaço entre os dentes ao ouvir Neary fazendo ranger as tábuas no salão, talvez o tilintar metálico do grande machado. Ela tremia toda. De repente se sentiu tão fraca que mal conseguia erguer a faca, quanto mais dar um golpe com ela. Talvez fosse a hora de desistir. Jogar a faca pela porta e dizer: “Estou saindo! Não vou criar confusão! Vocês venceram!” Sorrir, anuir e agradecer a eles por sua traição e sua grande consideração quando lhe dessem uma surra, a chicoteassem, quebrassem suas pernas e o que mais os divertisse a caminho do enforcamento. Ela vira sua cota disso, e nunca gostara do espetáculo. Alguém amarrado ali enquanto liam seu nome e seu crime, esperando alguma suspensão que não viria enquanto o laço era apertado, pedindo misericórdia aos soluços ou lançando maldições e nada disso fazendo a menor diferença. Chutando o ar, a língua para fora enquanto você se borrava para diversão de uma ralé que não era melhor que você. Ela imaginou Jeg e Neary na frente da multidão sorridente, enquanto a observavam fazer a dança dos ladrões na ponta da corda. Provavelmente vestindo roupas ainda mais ridículas compradas com o dinheiro da recompensa. “Fodam-se eles”, fez com a boca na escuridão, os lábios se curvando num sorriso selvagem ao ouvir os pés de Neary no primeiro degrau. Ela sempre fora muito do contra. Desde bem pequena, quando alguém lhe dizia como as coisas seriam, ela começava a pensar em como poderia fazer diferente. Sua mãe sempre a chamara de mula teimosa e colocara a culpa disso no sangue ghost. “É o seu maldito sangue ghost”, como se ser um quarto selvagem tivesse sido escolha da própria Shy e não culpa de sua mãe ter escolhido dormir com um andarilho meio-ghost que se revelou – não exatamente para sua surpresa – um bêbado inútil. Shy iria lutar. Sem dúvida iria perder, mas lutaria. Faria com que aqueles desgraçados a matassem, e pelo menos isso roubaria deles metade da recompensa. Não seria de esperar que pensamentos assim firmassem a mão, mas firmaram a dela. A pequena faca ainda tremia, mas naquele momento por causa da força com que ela a agarrava.

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Mulheres perigosas  

Conheça as mulheres mais perigosas da fantasia mundial

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