Page 1


Brandon Sanderson

Elantris Tradução: Marcia Blasques

Elantris.indd 3

23/10/12 15:23


Copyright © Brandon Sanderson Todos os direitos reservados. Tradução para a língua portuguesa © 2012 by Texto Editores Ltda. Título original: Elantris Diretor editorial: Pascoal Soto Editora: Tainã Bispo Coordenação editorial externa: Taís Gasparetti Tradução: Marcia Blasques Preparação de texto: Natércia Pontes Revisão: Carla Raiter Paes Revisão da tradução: Denise R. Camargo Diagramação: A2 Capa: Rico Bacellar Ilustração de capa: Viktor Fetsch

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sanderson, Brandon Elantris / Brandon Sanderson ; tradução Marcia Blasques. -- São Paulo : Leya, 2012. Título original: Elantris. ISBN 978-85-8044-504-6 1. Ficção norte-americana I. Título. 12-12884 CDD-813.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813.5

2012 Todos os direitos desta edição reservados à TEXTO EDITORES LTDA. [Uma editora do Grupo Leya] Rua Desembargador Paulo Passaláqua, 86 01248-010 – Pacaembu – São Paulo – SP – Brasil www.leya.com.br

Elantris.indd 4

23/10/12 15:23


Dedicado à minha mãe, Que queria um médico, Terminou com um escritor, Mas o amou o suficiente para não reclamar (muito).

Elantris.indd 5

23/10/12 15:23


Prólogo

E

lantris foi bonita, no passado. Era chamada de cidade dos deuses: um lugar de poder, esplendor e magia. Os visitantes dizem que até as pedras brilhavam com uma luz interior, e que a cidade tinha extraordinárias maravilhas misteriosas. À noite, Elantris resplandecia como um grande fogo prateado, visível a grande distância. Por mais magnífica que Elantris fosse, seus habitantes eram ainda mais. Com os cabelos de um branco brilhante e a pele quase tom de prata, metálico, os elantrinos pareciam resplandecer como a própria cidade. As lendas afirmam que eram imortais ou, pelo menos, próximos disso. Seus corpos se curavam rapidamente, e eram abençoados com grande força, sabedoria e velocidade. Podiam fazer magia com o simples mover da mão; homens visitavam Elantris vindos de todo Opelon para receber cura, comida ou sabedoria. Os elantrinos eram divindades. E qualquer um podia se tornar um deles. Era chamada de Shaod. A Transformação. Chegava de repente, ao acaso – normalmente à noite, durante as misteriosas horas em que a vida desacelerava para descansar. A Shaod podia tomar um mendigo, um artesão, um nobre ou um guerreiro. Quando chegava, a vida da pessoa afortunada terminava e recomeçava; ela descartava sua antiga existência mundana e mudava-se para Elantris. Lá, podia viver em bem-aventurança, governar com sabedoria e ser venerada por toda a eternidade. A eternidade terminou há dez anos.

Elantris.indd 9

23/10/12 15:23


Elantris.indd 10

23/10/12 15:23


parte i

A sombra de Elantris

Elantris.indd 11

23/10/12 15:23


Elantris.indd 12

23/10/12 15:23


1

O

príncipe Raoden de Arelon acordou cedo naquela manhã, completamente desavisado de que havia sido condenado por toda a eternidade. Ainda sonolento, Raoden se sentou, piscando com a suave luz da manhã. Pelas janelas abertas de sua sacada, podia ver a enorme cidade de Elantris a distância, suas muralhas austeras projetando uma profunda sombra sobre Kae, a cidade menor onde o príncipe vivia. As muralhas de Elantris eram incrivelmente altas, mas Raoden podia ver o cume das torres negras, com os pináculos quebrados, erguendo-se atrás delas, uma prova da majestade decaída oculta ali. Elantris abandonada parecia mais escura do que o normal. Raoden encarou a cidade por um momento, então afastou o olhar. Suas imensas muralhas eram impossíveis de se ignorar, mas o povo de Kae tentava com todas as forças. Era doloroso recordar a beleza de lá e se perguntar como há dez anos a bênção da Shaod se transformara em uma maldição... Raoden sacudiu a cabeça e se levantou da cama. Fazia um calor incomum para aquele horário tão cedo; não sentiu nem um pouco de frio enquanto vestia sua túnica. Puxou o cordão que pendia ao lado de sua cama, para indicar aos criados que queria o desjejum. Essa era outra coisa estranha. Estava com fome – com muita fome. Sentia um apetite quase voraz. Nunca gostara de grandes desjejuns, mas naquela manhã pegou-se esperando ansiosamente pela chegada da refeição. Finalmente decidiu mandar alguém descobrir o motivo da demora. – Ien? – chamou, nos aposentos às escuras. Não houve resposta. Raoden franziu um pouco o cenho pela ausência do seon. Onde estaria Ien? O príncipe se sentou e, ao fazer isso, seus olhos voltaram a pousar em Elantris. Repousando na sombra da grande cidade, Kae parecia uma aldeia insignificante. Elantris. Um enorme bloco de ébano – já não era uma cidade, apenas um cadáver. Raoden estremeceu levemente. Alguém bateu na porta. “Finalmente”, disse Raoden, aproximando-se para abri-la. A velha Elao esperava do lado de fora com uma bandeja de frutas e pão quente. A bandeja caiu no chão com um estrondo, escorregando dos dedos aturdidos da criada, quando Raoden estendeu as mãos para pegá-la. Ele ficou Elantris   13

Elantris.indd 13

23/10/12 15:23


parado, enquanto o som metálico da bandeja ecoava pelo corredor silencioso da manhã. “Misericordioso Domi!”, Elao sussurrou, com um olhar horrorizado e a mão tremendo, quando segurou o colar korathi que usava no pescoço. Raoden estendeu a mão, mas a criada deu um passo assustado para trás, tropeçando em um pequeno melão, na ansiedade de escapar. “O quê?”, Raoden perguntou. Então viu sua mão. O que estivera oculto nas sombras do quarto escuro era agora iluminado pela lanterna pendurada no corredor. Raoden se virou, empurrando os móveis que estavam em seu caminho enquanto se aproximava do espelho alto em um canto de seus aposentos. A luz do amanhecer aumentara o suficiente para que pudesse ver o reflexo que o encarava de volta: o reflexo de um estranho. Seus olhos azuis ainda eram os mesmos, embora estivessem arregalados de terror. Seu cabelo, no entanto, mudara de castanho-claro para grisalho. A pele era o pior. O rosto no espelho estava coberto de repulsivas manchas negras, como hematomas escuros. As manchas só podiam significar uma coisa. A Shaod o alcançara. * * *

O portão de Elantris ressoou atrás dele, fechando-se com um surpreendente som. Raoden foi transportado para a entrada da cidade, aturdido com os acontecimentos do dia. Era como se suas lembranças pertencessem a outra pessoa. Seu pai, o rei Iadon, não o encarava enquanto ordenava que os sacerdotes preparassem seu filho e o atirassem em Elantris. Isso foi feito rápida e silenciosamente; Iadon não podia permitir que alguém soubesse que o príncipe herdeiro era um elantrino. Dez anos atrás, a Shaod teria transformado Raoden em um deus. Agora, em vez de transformar as pessoas em deidades de pele prateada, ela as tornava monstruosidades repulsivas. Raoden abanou a cabeça em descrença. A Shaod era uma coisa que acontecia com os outros – com pessoas distantes. Com gente que merecia ser amaldiçoada. Não com o príncipe herdeiro de Arelon. Não com Raoden. A cidade de Elantris se estendia diante dele. Suas altas muralhas eram flanqueadas com guaritas e soldados – homens que não pretendiam manter os inimigos fora da cidade, mas impedir que seus habitantes escapassem. Desde o Reod, cada pessoa tomada pela Shaod era jogada dentro de Elantris para apodrecer; a cidade caída tornara-se uma enorme tumba para aqueles cujos corpos esqueceram como morrer. 14   Brandon Sanderson

Elantris.indd 14

23/10/12 15:23


Raoden se lembrava de ter estado naquelas muralhas, olhando os temíveis habitantes de Elantris, exatamente como os guardas faziam com ele agora. A cidade parecera distante, embora estivesse apenas do outro lado. Na ocasião, se perguntara como seria caminhar naquelas ruas enegrecidas. Agora descobriria. Raoden se apoiou no portão por um momento, como se quisesse forçar o corpo a atravessá-lo e limpar sua carne dessa mácula. Abaixou a cabeça e deixou escapar um gemido. Sentia vontade de se enrolar nas pedras sujas e esperar até acordar daquele sonho. Mas sabia que jamais despertaria. Os sacerdotes disseram que aquele pesadelo nunca terminaria. Sentia que alguma coisa o instava a seguir em frente. Sabia que precisava continuar se movendo – se parasse, temia simplesmente desistir. A Shaod tomara seu corpo. Não podia deixá-la tomar sua mente também. Então, usando o orgulho como um escudo contra o desespero, a rejeição e – especialmente – a autopiedade, Raoden ergueu a cabeça para encarar a maldição nos olhos. * * *

Antes, quando Raoden estivera nas muralhas de Elantris, olhando para baixo, para seus habitantes, vira a sujeira que cobria a cidade. Agora estava nela. Cada superfície – das paredes dos edifícios às rachaduras nos calçamentos – estava coberta com uma capa de fuligem. A substância viscosa e oleosa tornava as cores de Elantris indistintas, misturando tudo em uma única tonalidade deprimente – a cor que mesclava o pessimismo do negro com os verdes e os marrons contaminados dos esgotos. Antes, Raoden fora capaz de ver alguns dos habitantes da cidade. Agora podia ouvi-los também. Uma dúzia de elantrinos jazia espalhada pelos fétidos paralelepípedos do pátio. Muitos estavam sentados de modo indiferente, ou sem se darem conta, em poças de água escura, os restos da tempestade da noite anterior. E gemiam. A maioria não dizia nada, murmurando ou lamentando alguma dor desconhecida. Uma mulher, no entanto, gritava no fundo do pátio com pura angústia. Ficou em silêncio depois de um momento, sem fôlego ou sem forças. Quase todos vestiam o que pareciam farrapos – trajes escuros e soltos que estavam tão imundos quanto as ruas. Olhando de perto, no entanto, Raoden reconheceu as roupas. Contemplou sua própria roupa fúnebre branca. Era comprida e folgada, como fitas costuradas em uma túnica solta. O linho em seus braços e pernas já estava manchado com fuligem de encostar contra os Elantris   15

Elantris.indd 15

23/10/12 15:23


portões da cidade e os pilares de pedra. Raoden suspeitava que logo estaria igual às roupas dos outros elantrinos. É nisso que me tornarei, Raoden pensou. Já começou. Em poucas semanas, não serei nada mais do que um corpo descartado, um cadáver gemendo nas esquinas. Um leve movimento do outro lado do pátio distraiu Raoden de sua autocompaixão. Alguns elantrinos estavam de cócoras em um portal coberto pelas sombras. Não conseguia distinguir muito além de suas silhuetas, mas pareciam esperar por alguma coisa. Podia sentir os olhos deles sobre si. Raoden ergueu um braço para afastar o sol dos olhos, e apenas quando fez isso se lembrou da pequena cesta que levava nas mãos. Continha a oferenda ritual korathi enviada com os mortos para a próxima vida – ou, neste caso, para Elantris. A cesta continha uma fornada de pão, alguns vegetais, um punhado de grãos e um pequeno frasco de vinho. As oferendas em caso de morte normal eram muito maiores, mas mesmo uma vítima da Shaod precisava levar alguma coisa. Raoden olhou de relance para as criaturas no portal, enquanto sua mente repassava as histórias que ouvira do lado de fora – histórias da brutalidade elantrina. As figuras na sombra não haviam se mexido, mesmo assim, a maneira como o encaravam era enervante. Respirando profundamente, Raoden deu um passo para o lado, movendo-se ao longo da muralha da cidade, em direção à face leste do pátio. As formas ainda pareciam observá-lo, mas não o seguiram. Em um momento, já não via o portal e, um segundo mais tarde, chegou em segurança até uma das ruas laterais. Raoden soltou a respiração, sentindo que escapara de algo, embora não soubesse de quê. Depois de alguns instantes, teve certeza de que ninguém o seguira e começou a se sentir tolo por ter se assustado. Até agora, não vira nada que corroborasse os rumores sobre Elantris. Raoden sacudiu a cabeça e continuou a andar. O fedor era quase insuportável. A sujeira onipresente cheirava à putrefação, como fungos mortos. Raoden estava tão incomodado com o cheiro que quase pisou na forma retorcida de um velho encolhido junto à parede de um edifício. O homem gemeu penosamente, estendendo um braço magro. Raoden olhou para baixo e sentiu um calafrio súbito. O “velho” não tinha mais do que dezesseis anos. A pele coberta de fuligem era escura e manchada, mas o rosto era de uma criança, não de um homem. Raoden deu um passo involuntário para trás. O menino, como se tivesse percebido que sua oportunidade logo passaria, esticou o braço com a força súbita do desespero. – Comida? – murmurou, com a boca meio desdentada. – Por favor? 16   Brandon Sanderson

Elantris.indd 16

23/10/12 15:23


Então o braço caiu, já sem forças, e o corpo voltou a se encolher contra a fria parede de pedra. Seus olhos, no entanto, continuaram a observar Raoden. Olhos cheios de pena e dor. Raoden vira pedintes antes, nas Cidades Exteriores, e provavelmente fora enganado por charlatães diversas vezes. Este menino, no entanto, não estava fingindo. Raoden pegou um pedaço de pão de suas oferendas e o estendeu ao garoto. O olhar de incredulidade que passou pelo rosto do menino era de algum modo mais perturbador do que o desespero que substituíra. Essa criatura desistira da esperança há muito tempo; provavelmente mendigava mais por hábito do que por acreditar que ganharia algo. Raoden deixou o menino para trás, virando-se para continuar rua abaixo. Esperava que a cidade fosse menos horrível conforme se afastasse do pátio – imaginando que, talvez, a sujeira fosse resultado do uso relativamente mais frequente da área. Enganara-se; a ruela estava tão coberta de sujeira quanto o pátio, ou ainda mais. Uma batida surda ressoou em suas costas. Raoden virou-se, surpreso. Um grupo de formas escuras estava parado perto da entrada lateral da rua, amontoado ao redor de um objeto no chão. O pedinte. Raoden observou com um calafrio enquanto cinco homens devoravam o pedaço de pão, lutando uns contra os outros e ignorando os gritos de desespero do menino. Depois de um tempo, um dos recém-chegados, provavelmente incomodado, acertou um bastão na cabeça do garoto, com um golpe que ecoou pela ruela. Os homens terminaram o pão e se viraram para olhar Raoden, que deu um passo apreensivo para trás; parecia que fora induzido a imaginar que não fora seguido. Os cinco homens avançaram lentamente, e Raoden deu meia-volta e começou a correr. Sons de perseguição vinham de trás. Raoden fugiu assustado – algo que, como príncipe, nunca tivera de fazer. Correu loucamente, esperando ficar sem fôlego e sentir pontadas do lado do corpo, como em geral acontecia quando se cansava demais. Nada disso ocorreu. Em vez disso, começou a se sentir muito cansado, fraco a ponto de imaginar que logo desabaria. Era uma sensação cruciante, como se sua vida estivesse sendo lentamente sugada. Desesperado, Raoden atirou a cesta por cima da cabeça. O movimento estranho o desequilibrou, e um desnível no chão o obrigou a um salto desastrado que não terminou até que colidisse com uma massa de madeira podre. A madeira – que um dia fora uma pilha de caixas – se espatifou, interrompendo a queda. Raoden se levantou rapidamente, e o movimento espalhou pedaços de madeira esmagada pela ruela úmida. Seus atacantes, no entanto, já não estavam Elantris   17

Elantris.indd 17

23/10/12 15:23


mais preocupados com ele. Os cinco homens estavam agachados na sujeira da rua, recolhendo vegetais e grãos espalhados pelo chão de paralelepípedos e nas poças escuras. Raoden sentiu seu estômago revirar quando um dos homens enfiou o dedo em uma fenda, tirou um punhado escuro, que era mais imundície do que grãos, e enfiou a massa toda entre os lábios ansiosos. Uma baba enegrecida escorreu pelo queixo do homem, pingando de uma boca que parecia uma panela cheia de lama fervendo sobre o fogo. Um homem viu que Raoden os observava. A criatura rosnou, estendendo a mão para agarrar a clava quase esquecida em seu lado. Raoden procurou freneticamente por uma arma e encontrou um pedaço de madeira um pouco menos podre do que o resto. Segurou a arma com mãos inseguras, tentando projetar um ar de perigo. O bandido parou. Logo em seguida, um grito de alegria chamou a sua atenção: um dos outros localizara o pequeno odre de vinho. A luta que se seguiu aparentemente tirou todos os pensamentos sobre Raoden da cabeça dos homens, e os cinco partiram em pouco tempo – quatro deles correndo atrás do que fora afortunado ou tolo o bastaste para fugir com a preciosa bebida. Raoden ficou sentado nos escombros, aturdido. É nisso em que você se transformará... – Parece que se esqueceram de você, sule – comentou uma voz. Raoden deu um pulo, olhando na direção de onde vinha o som. Um homem, cuja careca lisa refletia a luz da manhã, estava reclinado preguiçosamente em uma escadaria a pouca distância dali. Era definitivamente um elantrino, mas antes da transformação deve ter sido de outra raça – não era de Arelon, como Raoden. A pele do homem tinha as manchas negras que indicavam a Shaod, mas suas áreas não afetadas não eram claras, e sim marrom-escuras. Raoden se colocou em guarda contra o possível perigo, mas esse homem não mostrava os sinais de selvageria primitiva nem a fraqueza decrépita que Raoden vira nos demais. Alto e de porte firme, o homem tinha mãos grandes e olhos penetrantes em um rosto de pele escura. Estudava Raoden com uma atitude pensativa. Raoden suspirou aliviado. – Quem quer que seja, fico feliz em vê-lo. Estava começando a pensar que todo mundo aqui estava morrendo ou era insano. – Não podemos estar morrendo – o homem respondeu, bufando. – Já estamos mortos. Kolo? – Kolo. – A palavra estrangeira era vagamente familiar, como o forte sotaque do homem. – Você não é de Arelon? O homem negou com a cabeça. 18   Brandon Sanderson

Elantris.indd 18

23/10/12 15:23


– Sou Galladon, do reino soberano de Duladel. E, mais recentemente, de Elantris, terra da podridão, da loucura e da perdição eterna. Prazer em conhecê-lo. – Duladel? – disse Raoden. – Mas a Shaod afeta apenas pessoas de Arelon. – Levantou-se, sacudindo os pedaços de madeira em vários estados de decomposição, e fez uma careta ao sentir dor no dedo do pé. Estava coberto de sujeira, e o fedor rançoso de Elantris já emanava dele também. – Duladel é mestiça, sule. Arelish, fjordell, teoish... encontrará todos eles. Eu... Raoden praguejou em voz baixa, interrompendo o homem. Galladon levantou uma sobrancelha: – O que foi, sule? Tem uma farpa no lugar errado? Ainda que imagine que não haja muitos lugares certos para isso. – Meu dedo do pé! – Raoden disse, mancando pelos paralelepípedos escorregadios. – Há algo de errado com ele, dei uma topada quando caí, mas a dor não passa. Galladon balançou a cabeça pesarosamente. – Bem-vindo a Elantris, sule. Você está morto. Seu corpo não vai se curar como deveria. – O quê? – Raoden caiu pesadamente no chão perto da escadaria em que estava Galladon. O dedo continuava a doer com uma dor tão aguda como a que sentira no momento da topada. – Cada dor, sule – sussurrou Galladon. – Cada corte, cada raspão, cada hematoma e cada ferida ficará com você até que enlouqueça de sofrimento. Como eu dizia, bem-vindo a Elantris. – Como suportam isso? – perguntou Raoden, massageando o dedo, um gesto que não adiantou muito. Era uma coisinha de nada, mas tinha que lutar para que seus olhos não se enchessem de lágrimas. – Não suportamos. Ou temos muito cuidado, ou acabamos como esses que você viu no pátio. – No pátio... Idos Domi! – Raoden ficou em pé e foi cambaleando até o pátio. Encontrou o menino pedinte no mesmo lugar, perto da entrada da ruela. Ainda estava vivo..., de certo modo. Os olhos do menino olhavam fixamente para o ar, as pupilas trêmulas. Seus lábios se moviam silenciosamente, sem que nenhum som escapasse. O pescoço dele fora completamente esmagado, e havia um enorme talho ao lado, expondo vértebras e traqueia. Ele tentava, sem êxito, respirar através daquela maçaroca. De repente, Raoden sentiu que o dedo do pé não parecia tão mal. – Idos Domi... – sussurrou, movendo a cabeça com o estômago revirado. Estendeu a mão e segurou na parede de um edifício para permanecer em Elantris   19

Elantris.indd 19

23/10/12 15:23


pé, com a cabeça baixa, enquanto tentava não aumentar a imundície nos paralelepípedos. – Não resta muito para esse – disse Galladon, em um tom prosaico, agachado junto ao pedinte. – Quanto...? – Raoden começou a falar, mas parou quando seu estômago o ameaçou novamente. Sentou-se no lodo com tudo e, depois de respirar fundo algumas vezes, continuou. – Quanto tempo viverá assim? – Você ainda não entende, sule – disse Galladon, sua voz com sotaque e pesarosa. – Ele não está vivo... Nenhum de nós está. É por isso que estamos aqui. Kolo? O menino ficará assim para sempre. Essa é, afinal, a medida típica da maldição eterna. – Não há nada que possamos fazer? Galladon deu de ombros. – Poderíamos tentar queimá-lo, supondo que pudéssemos acender um fogo. Corpos elantrinos parecem queimar melhor do que o das pessoas normais, e alguns acham que é uma morte adequada para nossa espécie. – E... – Raoden falou, ainda incapaz de olhar para o menino. – E se fizermos isso, o que acontece com ele... com sua alma? – Ele não tem alma – Galladon respondeu. – Ou pelo menos é o que dizem os sacerdotes. Korathi, Derethi, Jesker... todos dizem o mesmo. Estamos condenados. – Isso não responde minha pergunta. A dor parará se ele for queimado? Galladon olhou o menino. E acabou por dar de ombros. – Alguns dizem que se formos queimados, se cortarem nossa cabeça ou se fizermos qualquer coisa que destrua completamente nossos corpos, simplesmente deixamos de existir. Outros dizem que a dor continua..., que nos tornamos dor. Acham que flutuaremos sem pensar, incapazes de sentir nada além da agonia. Não gosto de nenhuma das duas opções, então tento apenas me manter inteiro. Kolo?” – Sim – sussurrou Raoden. – Kolo. Virou-se, finalmente conseguindo coragem para olhar o menino ferido. O enorme talho o encarou de volta. O sangue brotava lentamente da ferida – como se o líquido estivesse retido em suas veias, como uma água estagnada em uma poça. Com um arrepio súbito, Raoden levou a mão ao peito. – Meu coração não bate – percebeu pela primeira vez. Galladon olhou para Raoden como se tivesse ouvido uma declaração completamente estúpida. – Sule, você está morto. Kolo? 20   Brandon Sanderson

Elantris.indd 20

23/10/12 15:23


* * *

Não queimaram o menino. Não só lhes faltavam os suprimentos adequados para acender o fogo, como Galladon proibiu que o fizessem. – Não podemos tomar uma decisão dessas. E se é verdade que não tem alma? E se parar de existir quando queimarmos seu corpo? Para muitos, uma existência em agonia é melhor do que nenhuma existência. Então, deixaram o menino onde estava – Galladon, sem pensar duas vezes, Raoden, o seguindo porque não podia pensar em mais nada para fazer, ainda que sentisse a dor da culpa de modo mais agudo do que a dor no dedo do pé. Galladon, obviamente, não se importava se Raoden o seguia, se ia para outra direção ou se ficava encarando alguma mancha interessante de sujeira na parede. O homenzarrão de pele escura voltou por onde eles dois vieram, passando por um corpo ocasional gemendo na sarjeta, as costas viradas para Raoden em uma postura de total indiferença. Ao ver o dula partir, Raoden tentou ordenar seus pensamentos. Havia sido treinado para uma vida na política; anos de preparação o condicionaram a tomar decisões rápidas. Tomou uma agora. Decidiu confiar em Galladon. Havia algo agradável no dula, algo que Raoden achava indefinidamente atraente, ainda que estivesse coberto por uma fuligem de pessimismo tão grossa quanto o lodo no chão. Era mais do que a lucidez de Galladon, mais do que sua atitude calma. Raoden vira os olhos do homem quando fitou o menino sofredor. Galladon afirmou aceitar o inevitável, mas sentia-se triste por ter que ser assim. O dula encontrou seu antigo posto na escadaria e sentou-se novamente. Depois de respirar de modo determinado, Raoden se aproximou e ficou parado em expectativa diante do homem. Galladon olhou para cima: – O que foi? – Preciso da sua ajuda, Galladon – Raoden disse, agachando-se no chão, diante da escadaria. Galladon bufou. – Isso é Elantris, sule. Não tem essa coisa chamada ajuda. Dor, insanidade e um monte de imundície são as únicas coisas que encontrará aqui. – Quase parece que você acredita nisso. – Está pedindo no lugar errado, sule. – Você é a única pessoa não comatosa que encontrei aqui e que não me atacou – Raoden disse. – Suas ações são muito mais convincentes do que suas palavras. Elantris   21

Elantris.indd 21

23/10/12 15:23


– Talvez eu simplesmente não tenha tentado ferir você porque sei que não tem nada que possa ser tomado. – Não acredito nisso. Galladon deu de ombros, como se dissesse “Não me importo com o que acredita”, e se virou de lado, apoiando-se contra a lateral de um edifício e fechando os olhos. – Está com fome, Galladon? – Raoden perguntou em voz baixa. O homem abriu os olhos. – Eu costumava me perguntar quando o rei Iadon alimentava os elantrinos – Raoden ponderou. – Nunca ouvi falar de nenhum suprimento entrando na cidade, mas sempre presumi que eram enviados. Afinal de contas, pensava, os elantrinos ainda estão vivos. Nunca entendi. Se as pessoas dessa cidade podem existir sem batimentos cardíacos, então provavelmente podem existir sem comida. É claro que não quer dizer que a fome se vá. Estava faminto quando acordei esta manhã, e ainda estou. Pelo olhar daqueles homens que me atacaram, acho que a fome só piora. Raoden remexeu sob sua túnica manchada, puxou um objeto fino e o ergueu para que Galladon o visse. Um pedaço de carne seca. Os olhos de Galladon se abriram completamente e seu rosto mudou de entediado para interessado. Seus olhos cintilaram – um brilho que tinha um pouco da mesma selvageria que Raoden vira nos homens mais cedo. Era mais controlado, mas estava ali. Pela primeira vez, Raoden percebeu o quanto apostara em sua primeira impressão sobre o dula. – De onde veio isso? – Galladon perguntou lentamente. – Caiu da minha cesta quando os sacerdotes estavam me trazendo para cá, então guardei sob o cinturão. Quer ou não? Galladon não respondeu imediatamente. – O que o faz pensar que não vou simplesmente atacá-lo e tomar isso de você? As palavras não eram hipotéticas; Raoden podia ver que parte de Galladon estava realmente considerando tal ação. Quão grande era essa parte ainda era uma incógnita. – Você me chamou de sule, Galladon. Poderia matar alguém a quem chamou de amigo? Galladon ficou sentado, transfigurado pelo pequeno pedaço de carne. Um fio fino de saliva correu pelo canto de sua boca sem que percebesse. Olhou para Raoden, que estava cada vez mais ansioso. Quando seus olhos se encontraram, algo acendeu em Galladon, e a tensão foi quebrada. O dula repentinamente deu uma gargalhada sonora e profunda. 22   Brandon Sanderson

Elantris.indd 22

23/10/12 15:23


– Fala duladen, sule? – Apenas algumas palavras – Raoden disse, com modéstia. – Um homem educado? Ricas oferendas para Elantris hoje! Tudo bem, cúmplice rulo, o que você quer? – Trinta dias – Raoden falou. – Por trinta dias você me mostrará tudo por aqui e me contará o que sabe. – Trinta dias? Sule, você está kayana. – Pelo que vejo – disse Raoden, fazendo gesto de guardar a carne no cinturão –, a única comida que entra neste lugar vem com os recém-chegados. Deve-se passar muita fome com tão poucas oferendas e tantas bocas para alimentar. A fome deve ser enlouquecedora. – Vinte dias – Galladon propôs, mostrando um lapso da antiga intensidade novamente. – Trinta, Galladon. Se não me ajudar, alguém vai. Galladon rangeu os dentes por um instante. – Rulo – murmurou, e estendeu a mão. – Trinta dias. Felizmente, não planejava nenhuma viagem longa para o próximo mês. Raoden lhe atirou a carne com uma risada. Galladon apanhou a carne. Então, ainda que sua mão tenha se aproximado da boca em um reflexo, parou. Com um movimento cuidadoso, guardou a carne em um bolso e se levantou. – Então, como devo chamá-lo? Raoden se deteve. Provavelmente será melhor que ninguém saiba que sou da realeza, por enquanto. – Sule está bem para mim. Galladon começou a rir. – O tipo privado, entendi. Bem, então vamos. É hora de começar o grand tour.

Elantris   23

Elantris.indd 23

23/10/12 15:23

Elantris  

Elantris era conhecida como a cidade dos deuses. Nela, uma benção chamada Shaod transformava as pessoas em semideuses. Porém, há dez anos, a...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you