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Cristiana Seixas

Vivências em Biblioterapia práticas do cuidado através da literatura

Niterói | Edição do Autor | 2014


Vivências em Biblioterapia: práticas do cuidado através da literatura Copyright  2014 by Cristiana Seixas Direitos reservados ao autor

Revisão: Gracinda Rosa e Luiz Antonio Barros Capa, programação visual e diagramação: Raquel Ponte

DADOS INTERNACIONAIS PARA CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) S462v Seixas, Cristiana, 1966Vivências em biblioterapia : práticas do cuidado através da literatura / Cristiana Seixas. – Niterói : C. Seixas, 2014. 232 p. ; 21 cm. Bibliografia: p. 215-231. ISBN 978-85-917774-0-2 1. Biblioterapia. 2. Psicologia da leitura. I. Título. CDD - 615.8516 Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Lioara Mandoju CRB-7 5331


Cristiana Seixas

Vivências em Biblioterapia práticas do cuidado através da literatura

Cristiana Garcez dos Santos Seixas Niterói | Edição do Autor | 2014


Mapa da sina Prefácio 9 Palavras em abertura 12 Mas o que é biblioterapia? 15 Como fui fisgada pela prática 19 Círculos para ler, acolher e escrever-se 23 Atendimento clínico: um diálogo de muitas vozes 37 Questões recorrentes e prescrições biblioterapêuticas 43 A diferença entre biblioterapia de fruição e clínica 69 Finitude: tempo do renascer com livros 85 As formas de biblioterapia 95 O método biblioterapêutico 99 Costurando com linhas psicológicas 109 Quero ser biblioterapeuta: por onde começar? 117 Sugestões para nutrir o acervo 125 Livros para todas as idades 133 Cafés-concerto literários 153 Clubes de Leitura 167 Diálogo com Dília Gouveia 185 A literatura fala por si 191 A sombra da prática: cuidados 195 Semear de desejos 197 Voz do olhar de quem viveu a biblioterapia 201 Em estado de graça 211 Bibliografia: trilha da coautoria 215


Aos grandes mestres: Nise da Silveira, Paulo Freire, Augusto Boal e tantos outros que dedicaram seu ofĂ­cio e arte para transformar e libertar pessoas.


Prefácio Aceitei, com grande prazer, escrever esta introdução, mas a verdade é que logo verifiquei que este livro dispensa apresentação. Como relato que é, muito bem documentado, de um trabalho minucioso em que a literatura, mais que um instrumento, é ela mesma a protagonista, que cria, orienta, executa e propicia sempre transformações: o texto de Cristiana Seixas é um legado. A autora nos entrega um presente precioso: seu depoimento vibrante do exercício que vem fazendo, cotidianamente, de sorver palavras escritas, faladas, recitadas, gravadas e de, deixando-se embeber por elas, devolvê-las impregnadas de sua crença inabalável no poder que têm. Cristiana tece aqui um manto bordado e rebordado com o que existe de mais precioso nos (quantos!) livros que a alcançaram. Sim, porque são eles que nos buscam e se deixam abraçar, se a gente se oferece para o encontro. Como o que começa a acontecer neste momento, quando você abre Vivências em Biblioterapia. Pois então, que posso eu dizer, à guisa de prefácio, numa composição tão ricamente combinada e emoldurada? Posso, talvez, falar de minha própria experiência, em que as histórias foram, também, as condutoras. Traçando assim um paralelo com a biblioterapeuta Cristiana, eu, que me autodenomino uma terapeuta cultural, busco, mais que atestar a qualidade de seu trabalho, enfatizar a propriedade do elemento que o origina: as histórias. Aprendi que os contos eram regeneradores, menina ainda, quando era acordada no meio da noite por uma irmã mais nova, que tinha medo da solidão que lhe surgia de um escuro Vivências em Biblioterapia | 9


habitado por fantasmas. Nessas ocasiões, ela me acordava e me pedia que lhe contasse uma história. Ficávamos, então, lado a lado e eu ia criando enredos minuciosos, que davam continuidade a um filme que víramos ou a uma historinha que já conhecíamos, fazendo-os ganhar novos coloridos, outros ritmos. Normalmente, qual nos contos de Sherazade, os relatos ficavam pela metade, porque adormecíamos, ambas, antes de haver o final almejado. Tínhamos, também, em nossa casa, disquinhos infantis coloridos, com vozes mágicas de contadores ausentes que nos acalentavam no começo da noite e as coleções de livros que muitas vezes eram eleitos como personagens, depois de serem lidos, encarnando cada qual uma personalidade distinta, de acordo com o enredo que se escondia em suas páginas. Assim, fui me acostumando, desde muito cedo, a ficar atenta aos aspectos e sentimentos diferentes que apareciam nos participantes daquelas histórias... Foi no colégio religioso, onde estudava, que tive a sorte de encontrar quem me mostrasse os evangelhos como histórias exemplares, que podiam ser interpretadas, adequando-se a qualquer tempo, a qualquer cultura, a qualquer grupo social. E, acrescendo tudo isso, havia as poesias (caprichosamente copiadas em cadernos especiais e recitadas tanto nas aulas, quanto em saraus), as letras das músicas que aprendíamos de cor e as histórias que nos eram contadas em tardes chuvosas, por uma mãe substituta amorosa e teatral. Esses foram alimentos que nutriam, em meu coração, o desejo de retribuir e zelar também, o que me tornaria mais tarde uma educadora e, em seguida, uma terapeuta. Mas foram os mitos indígenas de nossos povos ancestrais, mais recentemente descobertos, que me levaram a juntar todas essas vivências e ousar introduzi-las em meu trabalho como psicanalista. Porque seus conteúdos oferecem uma maneira outra de lidar com espaço e tempo, que acompanham 10 | Cristiana Seixas


os descaminhos do inconsciente, como os sonhos fazem tão bem! Essa nova prática me apontou a cultura (que é múltipla e infinda) como campo genuíno de meu fazer terapêutico. E esses mitos, ao se tornarem temas dos livros que passei a escrever, me trouxeram, um dia, Cristiana e me propiciaram saber de seu importante movimento como biblioterapeuta. Descobrimos desde o primeiro momento que falávamos linguagens irmãs e o respeito mútuo, que surgiu daí, só nos trouxe o fortalecimento de nossos próprios desejos. Receber, da autora, a homenagem de falar de seu trabalho como escritora é tarefa que muito me envaidece e que merece delicadeza e precisão. E eu lhes digo, pois, sem nenhum exagero: eis um livro delicioso de ler, porque interessante, totalmente despojado e sincero, que é, ao mesmo tempo, um excelente manual. Cristiana Seixas narra, aqui, todo seu percurso nesse campo; dá todas as dicas; informa generosamente sobre as fontes de onde extraiu muitas de suas inspirações; estimula quem quiser segui-la, fornecendo detalhadamente os mapas dos tesouros; e ainda agradece, ao fim, sábia que é, com a simplicidade de uma boa mestra. Vivências em Biblioterapia, um livro que agrega muitos livros importantes, fará, sem dúvida, uma bela carreira. Na academia, na preparação de profissionais, como estímulo para quem se dedica ao processo de autoconhecimento, como roteiro para educadores, aqui está um bonito presente. Repleto de riquezas do passado, aponta para um tempo que há de vir e que já se anuncia, quando os valores poderão ser resgatados, no ambiente de magia que as histórias conservam e fazem ressurgir, sempre que necessário. Maria Inez do Espírito Santo www.mariainezdoespiritosanto.com Vivências em Biblioterapia | 11


Palavras em abertura Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. Guimarães Rosa (2001, p. 31)

Três anos de experiências com biblioterapia. Muitas histórias para contar. Escrevo para partilhar estas vivências: as descobertas, as formas, os aprendizados, acervos garimpados, depoimentos, diálogos trançados, assuntos correlatos, além de uma lista de desejos para futuros desdobramentos. Inspirada por Bartolomeu Campos de Queirós, acredito que cada livro seja como uma semente: carrega em si o antes e o depois. (QUEIRÓS, 2004) Escrevo também para me permitir retornar a viver. Sim, porque este livro vem sendo escrito na mente ininterruptamente, enquanto a correria do cotidiano exige o desvio da atenção para outros universos. E quando o mundo interior vai ganhando espaço, os bens mais preciosos e raros são o silêncio e a solidão. Navegar nos rios internos para deixar fluir a expressão, ou simplesmente para libertar-se dela. E isto não é simples ou fácil. Criar espaço para o que é relevante é tarefa de uma vida inteira. A capacidade de dizer não ao outro e sim para si é uma evidência de coragem e força de criação. Este livro é um mosaico de influências. Serão mencionadas inúmeras referências, citações, fontes para permitir a navegação nas águas infinitas das palavras. E, pela minha experiência, sinto que a transformação é potencializada através da oralidade, quando o que está escrito ganha vida e é trazido para discussão. É na troca, no compartilhamento, na 12 | Cristiana Seixas


expressão que as crenças se movem, a percepção se expande e outros caminhos se apresentam. Desta forma, meu discurso é fruto de matizes de vozes de escritores, participantes dos círculos de biblioterapia, pacientes, mestres, amigos de clubes de leitura, dentre tantos outros, a quem honro e agradeço. Uma reverência especial a Dília Gouveia, portuguesa, escritora, professora de literatura e filosofia, especialista em Fernando Pessoa e Nietzsche, que se mudou para o Brasil e passou a ministrar aulas para pequenos grupos em residências. A luz do conhecimento através dela fez brilhar esperança em meu norte. Parceira em inúmeras atividades, deu-me a alegria em contribuir com um capítulo desta obra. Minha admiração e respeito a cada um que generosamente cede um pouco de si para o outro. Se, ao ler qualquer trecho, você sentir que precisa me mostrar algo essencial para potencializar a prática ou para dissipar meus enganos, ficarei sinceramente agradecida e feliz em ouvi-lo. Alimento-me do desconhecido e das desleituras e assim descortino universos, ciente e faminta do papel de semear expansão. Deixo aqui registrada minha incompletude e lembro que um dos objetivos deste livro é ser uma ponte para ressonâncias. Gratidão por todas as relações e pelo que através delas se constrói. Cristiana Seixas

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Mas o que é biblioterapia? Com o Quixote, a literatura se torna “clínica”. Passa a ser não apenas objeto de prazer intelectual, mas objeto de cuidado humano. José Castello (2012, p. 67)

A reação mais comum das pessoas ao ouvir esta palavra é surpresa. A maioria nunca ouviu falar. Apesar de não conhecer o termo, há duas perguntas que mostram que cada um já tem certa intimidade com a prática: 1. Algum livro já o impactou a ponto de mudar suas escolhas de vida? 2. Já aconteceu de, ao conversar com alguém, ter vontade de recomendar um livro para ampliar a percepção da pessoa sobre a questão? Se você respondeu sim, já foi tocado por ela. De acordo com a etimologia, biblioterapia significa terapia por meio de livros. É derivada do grego, composta dos termos Biblion e Therapein. Biblion é todo tipo de material bibliográfico ou de leitura e Therapein significa tratamento, cura ou restabelecimento. O psicólogo clínico é um terapeuta. O primeiro sentido da palavra terapeuta é: aquele que cuida. Como alertou Boff: Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro. (BOFF, 1999, p. 33)

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E Ouaknin complementa a definição, para abranger a fluidez da linguagem como exercício de liberdade: O papel do terapeuta é cuidar do ser, isto é, essencialmente, cuidar da liberdade e da abertura que provoca uma linguagem em movimento. O terapeuta deve assim “desfazer” não somente os “nós da alma”, que são um entrave à vida e à inteligência criadora, mas também os “nós da linguagem”, palavras encerradas na prisão de um sentido único. (OUAKNIN, 1996, p. 21)

Em hebraico, a palavra “doença” se diz mahalá, da raiz mahol, “fazer uma roda”, “traçar um círculo”. Para sair da doença, é preciso sair do aprisionamento, quebrar o círculo. A capacidade terapêutica do livro remonta às antigas civilizações egípcia, grega e romana, que consideravam suas bibliotecas um espaço sagrado, em que a leitura possibilitaria um alívio das enfermidades. Na Grécia antiga e na Índia recomendava-se a leitura individual como parte do tratamento médico. No século XVIII, foi criado o movimento filantrópico que levou a leitura aos hospitais. Desde o século XIX, nos Estados Unidos se utiliza leitura individual em hospitais como coadjuvante no processo de recuperação do doente. A biblioterapia é uma disciplina da biblioteconomia e pouco difundida não só no Brasil, como no mundo. Globalmente, por enquanto, não há formação, certificado, nem associação de biblioterapeutas. Como é interdisciplinar, as exigências para compor uma formação estão ainda em discussão. No Brasil, Clarice Caldin, autora do livro Biblioterapia: um cuidado do ser (CALDIN, 2010) e de inúmeros artigos científicos publicados sobre o assunto, ministra a disciplina biblioterapia 16 | Cristiana Seixas


na graduação em Biblioteconomia na Universidade Federal de Santa Catarina. Ela faz uma distinção entre biblioterapia de desenvolvimento e clínica, sendo a de desenvolvimento aquela que pode ser aplicada por bibliotecários e biblioterapia clínica, somente por psicólogos. Durante minha formação em psicologia, dentro da abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental, a biblioterapia foi apresentada como a prática de incentivar a que o próprio paciente tenha acesso a informações sobre sua patologia. Uma aplicação relevante, mas aquém da potencialidade desta prática. Minha atenção é direcionada à biblioterapia clínica, não apenas por ser pouco abordada, mas por reconhecer nela um fecundo campo de expansão da prática para benefício sistêmico.

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Como fui fisgada pela prática Hesito, logo existo. Lena Jesus Ponte (1992, p. 24-25)

Em 2009, com 43 anos, completava o estágio necessário à graduação em psicologia. Com mais de 20 anos atuando em recursos humanos em empresas, especificamente na área de educação e desenvolvimento, estava mais interessada na prática do coaching, um método utilizado para “liberar o potencial de uma pessoa para maximizar sua performance, ajudá-la a aprender em vez de ensiná-la”. (WHITMORE, 2006, p. 2) Na época, atuava como coordenadora de treinamento e desenvolvimento de uma fábrica da área de Petróleo e Gás e a graduação em psicologia permitiria ampliar o campo de atuação profissional na empresa. No passado, trilhei caminhos pela Faculdade de Letras – Português/Inglês, que não segui pelos reveses da vida. Jamais imaginei atuar como psicóloga clínica ou sequer incorporar a literatura em minha atividade profissional. Durante o estágio, iniciei os atendimentos individuais. Comecei a observar que cada pessoa é como se fosse um livro: várias histórias emaranhadas em busca de expressão, um conteúdo à espera de ser desvelado. Mas um caso, em especial, provocou uma reviravolta no meu rumo: uma paciente de 44 anos iniciou acompanhamento psicológico, em março de 2010. Sua queixa era a presença de insônia, calafrios, palpitações, pressão alta, falta de ar. Já tinha consultado um clínico geral, que descartou questões de origem fisiológica e recomendou um acompanhamento psicológico. No primeiro encontro estava muito angustiada e falou sobre a morte do seu marido, que se deu durante uma relação Vivências em Biblioterapia | 19


sexual com ela. Possuía dois filhos, uma menina de 12 anos, que estava agressiva nas relações com a família e um menino de 16. No decorrer dos encontros, foi observado que o luto era uma questão central e que não fora trabalhado. Havia dois anos que ninguém da família tinha coragem de falar sobre a morte. A paciente passava a maior parte do tempo isolada em seu quarto, nutrindo um forte sentimento de culpa. Lembrei-me do livro Mas por quê ??! A história de Elvis de Peter Schössow (2008), que trata o tema do luto de forma sutil. Eu o trouxe na semana seguinte e pedi a ela que o levasse, lesse e que deixasse em local visível para despertar a curiosidade dos filhos. No encontro posterior, ela contou que todos o leram e, motivados pelo seu conteúdo, iniciaram a relembrar histórias, a buscar fotografias, a falar do pai. Isto gerou uma oportunidade de esta família se expressar, compartilhar seus sentimentos. Permitiu que chorassem juntos, reconhecessem sua dor e processassem o luto. Este fato contribuiu para uma melhora significativa no quadro da paciente e na relação com os filhos, além da retomada de projetos de vida, como o retorno aos estudos e o início de um namoro. Uma semana após, a paciente suspendeu a terapia por sentir-se aliviada e apta para iniciar uma nova fase. Meus supervisores ficaram surpresos e não acreditaram que um livro pudesse impactar desta maneira e provocar uma transformação tão rápida num processo psíquico. Desde então, fiquei surpresa com o quanto um livro pode contribuir para descristalizar uma situação. Encantou-me presenciar a possibilidade de uma contribuição significativa na vida de alguém. A partir disto, entusiasmei-me pela atuação clínica e passei a garimpar continuamente livros que pudessem me acompanhar nos casos. Paralelamente ao trabalho na fábrica, realizava atendimentos à noite, sublocando espaço em consultório de amigos. Minha 20 | Cristiana Seixas


gratidão à Luciani Peçanha e especialmente ao Paulo Bastos, pela sincronicidade do encontro e generoso apoio nos momentos iniciais. Durante as sessões, sentia falta de ter acesso a um livro, ou poesia específica. Iniciei então o acervo que faz parte da estante de livros que chamo de “farmacinha”, pois considero que cada um tem a função de um medicamento. Após a conclusão da formação em psicologia no final de 2010, pedi demissão da fábrica, abrindo mão de um salário fixo e benefícios, para dedicar-me de forma autônoma e integral à psicologia e biblioterapia. Passei a atender em consultório próprio em Icaraí, Niterói – RJ, onde foi possível ter os livros ao meu lado. Sinto-me desde então protegida e ancorada por eles. Em julho de 2011, dei início aos círculos de biblioterapia: rodas de leitura com fins terapêuticos. Com um acervo que considerava precioso, divulguei uma programação de encontros semanais, com uma hora e meia de duração, sem necessidade de leitura prévia. A participação poderia ser eventual, por encontro ou mensal. Para minha surpresa, duas pessoas, as irmãs Wanda Grandelle e Maria da Glória de Moraes, pagaram a mensalidade. Gratidão especial a elas, e também a Adelina Magalhães, que logo se juntou ao grupo e até hoje participam dos encontros. Sua confiança e valorização foram forças cocriadoras desta história. Elas acreditaram em mim num momento repleto de incertezas. É de um valor inefável ter alguém interessado no que você pode oferecer! Inicialmente imaginei que, ao esgotar o acervo, reiniciaria com os mesmos títulos para grupos diferentes, mas o que aconteceu na prática foi um forte estímulo a conhecer continuamente novos livros e compartilhá-los através dos círculos, com o mesmo grupo, aprofundando e explorando leituras, afrouxando os nós e estreitando os laços. Vivências em Biblioterapia | 21


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Círculos de ler, acolher e escrever-se Alfabetização é leitura do mundo, leitura de si, leitura dos outros, leitura da realidade. Estar vivo é ler, reler, continuar lendo, desconstruindo palavras e sentidos e construindo novos. Somos permanentes alfabetizandos e alfabetizadores. Madalena Freire (apud MOSÉ, 2013, p. 245)

Como já mencionado, os círculos de biblioterapia são rodas de leitura com fins terapêuticos. Acontecem semanalmente, com uma hora e meia de duração, e um material é previamente selecionado para leitura coletiva. Não requer leitura prévia dos participantes, os encontros são interdependentes e há premissas que norteiam sua dinâmica: 1. O mais importante não é o que o autor quis dizer, mas o que a leitura evoca em cada participante. Desta forma, se alguém quiser fazer uma interrupção para expor um comentário ou lembrança, este é priorizado e constitui o propósito do trabalho; 2. Quando há opiniões divergentes, não há disputa para concluir quem está correto. Cada um pode expressar suas opiniões acerca do que está sendo discutido e os demais fazem um exercício de escuta, de suspensão do julgamento, para ouvir os argumentos alheios. Como escreve Paulo Freire: Escutar significa a disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro. [...] A verdadeira escuta não diminui em mim, em nada, a capacidade de exercer o direito

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de discordar, de me opor, de me posicionar. Pelo contrário, é escutando bem que me preparo para melhor me colocar ou melhor me situar do ponto de vista das ideias. (FREIRE, 1996, p. 119-120);

3. Quem participa das rodas de biblioterapia não tem compromisso com ser intelectual, literato ou possuir grande cultura. Todos são bem-vindos. Convoco novamente as sábias palavras do mestre Paulo Freire: Minha segurança se alicerça no saber confirmado pela própria experiência de que, se minha inconclusão, de que sou consciente, atesta, de um lado, minha ignorância, me abre, de outro, o caminho para conhecer. Me sinto seguro porque não há razão para me envergonhar por desconhecer algo. (FREIRE, 1996, p. 135);

4. Raramente é distribuído material para acompanhar as leituras para que se desenvolva a capacidade de atenção focada. Cada participante pode pedir releitura, até para poder processar e aprofundar o conteúdo e seus impactos; 5. Os participantes são incentivados a ler para o grupo, mas não há a obrigatoriedade. A prática contribui para melhoria na dicção, vocabulário e expressão oral. As pessoas são muito diferentes, mas possuem questões similares. Uma saída para uma pode dialogar com o histórico de outra. Pela pluralidade de leituras de um mesmo fato, uma pessoa pode flexibilizar sua interpretação e assim “descosturar” o pensamento, utilizando uma expressão de Lygia Bojunga contida no livro A Bolsa Amarela. (NUNES, 1985) 24 | Cristiana Seixas


[...] Gosto de inventar argumento só para ver até onde vai o cimento do pensamento alheio. Daniel Rolim Rocha (2012, p.63)

O que inevitavelmente acaba acontecendo é que são atraídas pessoas amantes dos livros. Desta forma, cada assunto remete a outra leitura e assim vamos fazendo empréstimos e doações entre os participantes e aumentando o acervo, as visões e ideias a respeito de qualquer assunto. Um vínculo acaba se formando e fortalecendo a autoestima para o enfrentamento das dificuldades do cotidiano. Por vezes, há trechos que podem evocar dores mais antigas, mais profundas e, através da confiança tecida pelo tempo, acontece o chamado “efeito saca-rolhas”: como se o que estancava a emoção se dissolvesse e permitisse seu fluxo. Como contornar estas situações? Em primeiro lugar, há um agradecimento pelo ocorrido, pois o propósito está sendo atingido. As dores engolidas e ignoradas formam nódulos no corpo. Expressas ou fluidas em lágrimas contribuem para uma travessia da dor e amadurecimento. Quando a questão é recorrente ou o participante começa a catalisar o tempo do grupo para si, este é convidado a um encontro individual para permitir uma atenção dedicada ao que foi despertado. Outra prática utilizada nos círculos é a de fazer perguntas para fomentar a reflexão e expressão. Um exemplo: na antologia de Hilda Hilst, Uma superfície de gelo ancorada no riso, há a seguinte frase: [...] ninguém está mais vivo dentro de mim do que o meu pai. (HILST, 2012, p. 103)

É feita então uma pergunta aos participantes: quem ou o quê está muito vivo dentro de você? Vivências em Biblioterapia | 25


Os momentos gerados por este tipo de questionamento foram, em sua grande maioria, ricos e reveladores. A sensação é de viver outro tempo e ritmo. Um espaço para quebrar a rotina, mergulhar numa leitura, se perceber através das provocações do que é lido e expandir possibilidades pelo encontro da diversidade do viver. A seguir, há uma relação de alguns dos livros trabalhados no período de 04 de julho de 2011 a 26 de novembro de 2013. Foram 110 encontros que contaram com 528 participações. Esta seleção se deu através da identificação de conteúdos que potencialmente renderiam boas discussões, sugestões dos participantes, resenhas de críticas literárias, temáticas diversas: • A arte de amar, de Erich Fromm, 1958; • A arte de restaurar histórias, de Jean Clark Juliano, 1999; • A borboleta amarela, de Rubem Braga, 1963; • A ciranda das mulheres sábias, de Clarissa Pinkola Estés, 2007; • A confissão da leoa, de Mia Couto 2012; • A disciplina do amor, de Lygia Fagundes Telles, 1980; • A escola e os desafios contemporâneos, de Viviane Mosé, 2013; • A luta corporal, de Ferreira Gullar, 2013; • A matéria do poema, de Nuno Júdice, 2008; • A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, 1998; • A passagem tensa dos corpos, de Carlos de Brito e Mello, 2009; • A poética do espaço, de Gaston Bachelard, 2008; • A psicanálise do fogo, de Gaston Bachelard, 2008; • A queda, de Albert Camus, 2012; • A terra e os devaneios da vontade, de Gaston Bachelard, 2008; 26 | Cristiana Seixas


• A velhice, de Maria Helena Martins e Simone de Beauvoir, 2008; • Água Viva, de Clarice Lispector, 1998; • Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade, 2009; • Antologia poética, de Cecília Meireles, 2002; • Antologia poética, de Cora Coralina, 2004; • Antologia poética, de Vinicius de Moraes, 2009; • Apontamentos de história sobrenatural, de Mario Quintana, 2005; • As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino, 1990; • As cores do crepúsculo, de Rubem Alves, 2001; • As feridas de um leitor, de José Castello, 2012; • Até passarinho passa, de Bartolomeu Campos de Queirós, 2003; • Baú de Espantos, de Mario Quintana, 2006; • Cada homem é uma raça, de Mia Couto, 2013; • Carência e Plenitude, de Jean-Yves Leloup, 2001; • Cérebro e crença, de Michael Shermer, 2012; • Correspondências, de Clarice Lispector, 2002; • De profundis, de Oscar Wilde, 2002; • De uma vez por todas, de Thiago de Mello, 1996; • Em busca de sentido, de Viktor Frankl, 1991; • Estórias abensonhadas, de Mia Couto, 2012; • Inventário das sombras, de José Castello, 2006; • Ler o mundo, de Affonso Romano de Sant’anna, 2011; • Lições de feitiçaria, de Rubem Alves, 2003; • Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, 2006; • Longe como o meu querer, de Marina Colasanti, 2002; • Minerações, de Bartolomeu Campos de Queirós, 1991; Vivências em Biblioterapia | 27


• Mormaço na floresta, de Thiago de Mello, 1983; • Muitas vozes, de Ferreira Gullar, 2010; • Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés, 1994; • Notas do subsolo, de Fiódor Dostoiévski, 2012; • O Aleph, de Jorge Luis Borges, 1992; • O encantador, de Lila Azam Zanganeh, 2013; • O fio das missangas, de Mia Couto, 2009; • O gato malhado e a andorinha Sinhá: uma história de amor, de Jorge Amado, 1976; • O livro dos abraços, de Eduardo Galeano, 2000; • O mal-estar da pós-modernidade, de Zygmunt Bauman, 1998; • O olho de vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós, 2004; • O retrato, de Nikolai Gogol, 2012; • O teatro de sombras de Ofélia, de Michael Ende e Friedrich Hechelmann, 1992; • Para ler em silêncio, de Bartolomeu Campos de Queirós, 2007; • Paratii entre dois polos, de Amyr Klink, 1992; • Pedagogia da autonomia, de Paulo Freire, 1996; • Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, 2005; • Perdi um jeito de sorrir que eu tinha, de João Batista Ferreira, 2009; • Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, de Cora Coralina, 1978; • Poesia completa, de Manoel de Barros, 2010; • Quero minha mãe, de Adélia Prado, 2005; • Sábados inquietos, de José Castello, 2013; • Saber Cuidar, de Leonardo Boff, 1999; 28 | Cristiana Seixas


• Solte os cachorros, de Adélia Prado, 1991; • Superação: um salto além da doença, de Ana Garcia, 2010; • Teoria geral do esquecimento, de José Eduardo Agualusa, 2012; • Toda palavra, de Viviane Mosé, 2006; • Toda poesia, de Paulo Leminski, 2013; • Trocando olhares, de Florbela Espanca, 2009; • Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, 1998; • Uma ideia toda azul, de Marina Colasanti, 1979; • Uma superfície de gelo ancorada no riso, de Hilda Hilst, 2012; • Vasos sagrados – mitos indígenas brasileiros e o encontro com o feminino, de Maria Inez do Espírito Santo, 2010; • Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós, 2011. Pode-se observar que a seleção é bem eclética, pois um dos objetivos é justamente expandir o olhar. E não há nada melhor do que a diversidade e pluralidade de narrativas. Admiro o escritor Amós Oz, que disse que entrar em contato com a literatura é como fazer uma viagem na condição de um turista observador que entra na casa das pessoas, nos cantos mais escondidos, na mente de cada morador daquela cultura. Ele afirma que a curiosidade é o antídoto para o fanatismo e que o fanático é um ponto de exclamação ambulante: não só não muda de opinião, como não muda de assunto. A entrevista está disponível no Youtube, através do link: http:// www.youtube.com/watch?v=8ROPq2Txm3w. Há ocasiões em que é possível ter a presença do autor. O encontro fica enriquecido pela possibilidade de dialogar a respeito do processo criativo, de ampliar o contexto que fomentou a escrita e de se aproximar de alguém com força Vivências em Biblioterapia | 29


e coragem de compartilhar histórias. Para o escritor, ter um contato mais próximo com seus leitores e poder presenciar os desdobramentos que suas palavras provocam são verdadeiros presentes. Todos os envolvidos saem positivamente alimentados. Foi realizado, em 2012 e 2013, um total de 20 encontros com a presença dos autores, a saber: Autor (a), data: Gracinda Rosa 19/03/12 Mike Sullivan 16/04/12 Neide Graça 15/05/12 Carlos Rosa Moreira 17/07/12 Paulo Roberto da Silva 11/09/12 Marly Barros Domingues 23/10/12

Livros abordados: Pequenos Amores (2005) e Cabine Individual (2007); No Vale dos Ossos Secos (2011); Alice e o mistério da casa verde (2008); A montanha, o mar, a cidade (2010); Consciência e abundância (2006); A dor escondida (2006);

Luiz Calheiros 16/11/12

Jogo da vida (2012);

Rita Magnago 11/12/12

Travessia do verso (2012);

Wanderlino Teixeira Leite Netto 05/03/13 Gracinda Rosa 12/03/13

Quatro cantos (2003); Movimento circulatório (1985); Andanças Andinas (1997), Retrato sem moldura (1999); Beijo de língua (2007); e Asas na pedra (2009); Olhando para trás (2012);

Renato Augusto Farias de Carvalho 19/03/13

... haja, ainda, partículas de sol (2012) e Eu ainda não disse tudo (2011);

Elenir Teixeira 09/04/13

Antologias diversas e produções inéditas (2011);

Newton Novaes Barra 14/05/13

Letras rebeldes, fluidos insensatos (2013);

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Autor (a), data: Wanderlino Teixeira Leite Netto 14/05/13 Gracinda Rosa 02/07/13 Lena Jesus Ponte 09/07/13 Henrique Chaudon 06/08/13 Dília Gouveia 20/08/13 Tiene Deccache 17/09/13 Inês Drummond Menezes 05/11/13 Tchello d’Barros 19/11/13

Livros abordados: Café Pingado (2012); Fui professora (2013); Ávida Palavra (2007) e Estações Interiores (1997); Poemas (2005); Nas malhas do devaneio (2013); Palavrador (no prelo); Des Caminhos (2014); Uma coletânea das diversas produções do artista (https://www.facebook.com/ tchellodbarros);

O círculo que teve maior quantidade de pessoas foi o de Dília Gouveia, com treze presenças. A média é de cinco participantes por encontro. Alguns aconteceram com apenas duas ou até mesmo com uma pessoa. Não defino número mínimo de participações, influenciada por um trecho do livro Soluções de palhaços, de Morgana Masetti (1998), psicóloga que dá apoio e escreve sobre a ação dos doutores da alegria nos hospitais. Ela menciona que muitas vezes a plateia é composta por uma única pessoa, mas com a intensidade de um teatro lotado. Sinto isto, pois quando o encontro é individual, abordamos as questões com mais profundidade. E não há prejuízo, pois os círculos demandam um ritmo contínuo de leitura e decantação, através do preparo dedicado para apresentá-lo ao grupo. Além de ler e reler, marcar os trechos significativos, pesquiso a biografia do autor, busco vídeos Vivências em Biblioterapia | 31


e reportagens para enriquecer as partilhas. E este processo alimenta o acervo utilizado no consultório, além do próprio conhecimento adquirido que por si só é valor agregado. Sinto-me uma viajante nas palavras e sou reinventada a cada leitura. [...] ponho primazia é na leitura proveitosa. Guimarães Rosa (2001, p. 31)

Em minha opinião, o ápice do processo biblioterapêutico é quando o leitor se torna autor. O incentivo à leitura desperta as próprias histórias. A escrita criativa é fomentada no processo e há encontros programados para partilhar produções de própria autoria. Não há o compromisso com o valor literário, estética ou qualquer outra variável. O pacto é com a expressão, em deixar fluir, colocar para fora aquilo que não quer calar, que borbulha, que busca saída. O próprio contato com a pluralidade das produções vai criando um campo de permissão criativa. [...] escrever significa mexer com funduras. Caio Fernando Abreu (2006, p. 106) Quem escreve escava o que o silêncio palavra. Viviane Mosé (2006, p. 19)

Se escreveu, a pessoa foi capaz de criar um espaço para mergulho em si mesma e provocar uma saída da expressão. E este é um ato de coragem extrema e transgressão de um grande fluxo de alienação. Muitos passam a vida fugindo e sendo vítimas do que não é olhado, reconhecido e cuidado. Quando o que incomoda sai para o papel já é um alívio. Se publicado, o sentimento é de exorcismo, como num parto das 32 | Cristiana Seixas


entranhas, um processo de deixar partir, de fazer a travessia para a cicatrização e libertar-se. Recomendo fortemente. E não sou só eu. Menciona novaes/: [...] É que gavetas que guardam textos inéditos assemelham-se a túmulos. Com uma diferença crucial e dramática: as gavetas literárias guardam (e escondem) Vida e não restos inanimados. Daí, sua condição inaceitável para os que não gostam de ver vida sem ser vivida. (NOVAES/, 2013, p. 8)

Um dos maiores prazeres que vivenciei neste trabalho foi a realização de um círculo com poesias inéditas de uma das participantes, a Inês Drummond, a caminho da publicação de seu primeiro livro: Des Caminhos. É inefável assistir à transformação de um ser que transmuta suas inquietações em expressão escrita e assiste o próprio parto, ganha força e luz. Compartilho aqui uma de suas produções: [...] se não escrevo correto, me escrevo, me amanheço. E não sou certa, sou irregular, pontiaguda. Se o receio me prende elas me soltam, desapertam. Só sei que tenho um amor muito grande que pulsa. E um quê de criança perdida que me faz querer dançar na chuva. Ou me recolher na indiferença da solidão. E me acho.

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Acredito que um grande ganho no trabalho é o fortalecimento da autoestima. Mais seguro de si, o indivíduo toma coragem de ousar e ir além. É um aprendizado a caminhar com o medo, apesar dele. Escondo o medo e avanço. Devagar. Ainda não é o fim. É bom andar, mesmo de pernas bambas. Thiago de Mello (2006, p. 156)

A expressão por si já é um caminhar, é uma atitude, uma entrega do que transbordou pelo diálogo consigo mesmo. Há um trecho do poema “Ex-voto” de Adélia Prado que bem traduz esta potencialidade: Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor. A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo. (PRADO, 1991, p. 471)

Já foi realizado um círculo com outro livro ainda não publicado: Palavrador de Tiene Decache, uma terapeuta corporal que compartilha seus aprendizados conquistados na experiência de sua profissão e nas tessituras com a arte e a espiritualidade. Um encontro memorável e recheado de sabedoria. Cito uma de suas inspiradoras frases partilhadas: ... pude vivenciar bem de perto a chance de adoecer para perder o medo de ser saudável. Tiene Decache

Estes exemplos mostram o quanto o processo, além de terapêutico, é de incentivo à leitura e à escrita. O crescimento é cultural, pessoal, coletivo, ou seja, sistêmico. 34 | Cristiana Seixas


Para um livro ser alvo de círculo, ele é lido no mínimo duas vezes. Numa primeira leitura, são identificados trechos que potencialmente serão utilizados. Há que se ter a preocupação em dar um encadeamento de questões que serão abordadas e buscar uma espécie de fechamento. Após a primeira leitura e seleção dos trechos, imagina-se o que essencialmente deverá ser abordado, considerando o tempo de uma hora e trinta minutos com intervenções dos participantes. O que costumo fazer é identificar, dentre os trechos selecionados, aqueles que são essenciais. Quando a participação é grande e reduz o tempo de leitura, limito-me a estes. Se o grupo for maior, recomenda-se um material mais conciso para permitir o espaço de expressão de cada um, com um conto, poesia ou crônica. Como todo encontro é um fenômeno, não há como prever o que acontecerá, como e o quanto as pessoas participarão. Desta forma, é prudente preparar-se para a falta ou o excesso de tempo. Costumo fazer e divulgar uma programação prévia e isto algumas vezes impediu de esmiuçarmos com mais profundidade alguns livros e suas provocações. Há conteúdos densos e ricos demais para serem abordados em apenas um encontro. Um exemplo foi A velhice, de Maria Martins e Simone de Beauvoir (MARTINS & BEAUVOIR, 2008), que rendeu excelentes reflexões e discussões, um livro clássico, com 712 páginas, que revolucionou uma época. Poderíamos perfeitamente ter trabalhado este livro durante todo um mês, ou seja, em quatro encontros. Cada aprendizado é então incorporado nos próximos círculos, num diálogo contínuo pela transformação construtiva.

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Atendimento clínico: um diálogo de muitas vozes Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma. [...] Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece. Clarice Lispector (1998, p. 53)

A pessoa que busca psicoterapia encontra-se num momento de travessia. Procura ajuda por estar diante do insustentável. Normalmente, chega como um pote muito cheio, a ponto de transbordar. Ao mesmo tempo, empenha uma força enorme para conter a emoção que o sofrimento está causando. [...] Tem gente que tem o costume de vazar pelos cantos. No começo vaza calada. Aos poucos. Aos pingos. Mas se pega gosto principia o derrame. Escorre quando fala. Escorre quando anda. Não tem mais braço nem cabelo que segure. Parece que vicia em ficar transbordada. Mas tem gente que quando transborda é pra dentro E corre o risco de ficar represada. E represa, você sabe. Se aumenta muito arrebenta. Mas se a pessoa ensaia um jeito de derramar pra fora Aí vai fazendo leito. Vai abrindo seu caminho na terra E a terra parece que se abre para ela passar. Às vezes não. Viviane Mosé (2000, p. 54)

Os livros e as palavras são como os barcos que auxiliarão nas travessias necessárias, seja em mar calmo ou no meio das tempestades. Andei por abrigos extensos. Mas não encontrei sombra senão na palavra. Mia Couto (2012, p. 243)

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No consultório, tenho estantes com livros já dissecados e preparados para fazerem parte das sessões. Isto significa que em cada um há trechos identificados com marcadores de páginas, símbolos desenhados no texto para permitir sua rápida localização. É relevante adotar um critério para permitir a fluidez da intervenção. Enquanto a pessoa conta sua história, é comum algum livro “pedir voz”. Se o conteúdo for breve, o livro é retirado da estante e o trecho, lido. Se não, o livro é mostrado e a leitura, sugerida. Se o cliente confirmar o interesse, é feito o empréstimo para permitir que faça contato com suas ideias, em uma semana. Na sessão seguinte, ele comenta como a leitura o impactou. Quando o leitor encontra muita ressonância com o autor, acaba comprando o livro, para fomentar diálogos mais duradouros. Chamo os livros de “voadores”, pois estão sempre entrando e saindo da estante. Alguns chegam a desfazer-se, pois muitos foram comprados em sebos. Quando você possui um livro com toda a força da sua mente e espírito, você se aprimora. Mas quando você passa o livro adiante, se aprimora três vezes mais. Henry Miller (apud SANKOVITCH, 2011, p. 97)

Neste processo é importante manter um registro de empréstimos, pois é muito desagradável já não haver certeza de com quem está um determinado livro, principalmente quando ele não retorna. É raro, mas já ocorreu. O extravio configura um prejuízo considerável, pois, mesmo que o cliente compre um novo, os fragmentos significativos deverão ser novamente identificados através da releitura, o que roubará o precioso tempo de explorar aqueles que aguardam na fila. Um aprendizado é criar critérios de responsabilização para conscientizar o paciente da importância de cada exemplar que compõe o acervo biblioterapêutico. 38 | Cristiana Seixas


Acontece, com certa frequência, de um livro ou trecho ser citado e não estar disponível por ter sido levado por outra pessoa. Neste caso, anoto para oferecê-lo no próximo encontro. Não há como prever quantos e quais livros serão utilizados em cada sessão. A prática requer uma atenção contínua ao que se apresenta e uma disciplina para o espaço ser predominantemente da fala do paciente e não da literatura. Há situações em que cinco livros (com pequenos trechos) são trabalhados e, em outros, nenhum. [...] só os livros que amamos guardam um poder curativo. Livros vistos como objetos de utilidade, de progresso material, de competição, não causam alívio algum. José Castello (2012, p. 68)

O acervo biblioterapêutico não é formado apenas pelo psicólogo. O paciente pode e é incentivado a trazer leituras que o afetam para discussão e investigação. Não sou especialista em literatura, nem tenho a pretensão de o ser. Sou amadora (aquela que ama), aprendiz iniciante das mensagens subliminares nos livros, nas pessoas, nos conflitos, nos medos e buscadora de caminhos possíveis pela liberdade de ser. Tenho imenso prazer na cocriação de vida e coloco-me a serviço disto. Certa vez, uma pessoa entrou em contato para marcar um encontro individual para falar do livro Em busca de sentido, de Viktor Frankl (1991). Seu interesse foi despertado após a divulgação de um círculo de biblioterapia com ele. Ela não possuía o livro, mas admirava o autor. Pediu que eu lesse os trechos identificados por mim. E assim fizemos. A cada trecho lido, muito choro o acompanhava. Fomos tecendo pontes entre a angústia da realidade e emoções descritas pelo autor no campo de concentração e seu contexto. A paciente era casada com um militar que trabalhava em missões sigilosas. Sua vida era recheada de solidão e segredo. A tristeza transbordava em sua expressão. Vivências em Biblioterapia | 39


Quem enterra um tesouro enterra-se com ele. O segredo é um túmulo. Gaston Bachelard (2008, p. 100)

Foi apenas um encontro. Na despedida, ela me deu um forte abraço, agradeceu e relatou seu alívio. Foi para mim uma das mais fortes evidências da potência das palavras em trazer à tona o que está guardado. Uma das grandes vantagens em se trabalhar com a biblioterapia é a possibilidade de revisitar continuamente trechos literários significativos e, através da interação com os pacientes, expandir interpretações e ser testemunha do impacto da arte literária no humano. É uma estante de livros vivos que são continuamente acessados, libertos, que cumprem sua missão. Veja o que diz o escritor Carlos Rosa, no livro O mar, a montanha, a cidade, na crônica “Leituras”: [...] Livro fechado é isso, um folhoso objeto cheio de letras. Estará sempre à espera, como ficava a moça solitária nos bailes de antigamente, esperando num canto do salão que a convidassem para dançar. [...] A literatura é uma arte dependente e nisso difere das outras artes. Não bastam os olhos, são necessárias as mãos. E as mãos dependem de uma vontade. Um livro não se exibirá a um simples olhar, tampouco contará histórias a ouvidos distraídos. Livro tem de ser provocado e exige ser degustado ou que o devorem. (MOREIRA, 2010, p.181-182)

É instigante observar que um determinado trecho, o mesmo, tem um impacto avassalador em uma pessoa e numa outra parece causar nenhum tipo de reação. Cada um é então recebido como um mistério, uma caixa-preta, título de um livro de Amós Oz (2007), autor israelense que escreve sobre conflitos entre o certo e o certo. Com cuidado, vamos bordando 40 | Cristiana Seixas


tranças de diálogos entre histórias contadas e trechos literários já atravessados. A satisfação é sentida quando a situação faz lembrar um verso do Drummond, do poema “Instante”: O que se desatou num só momento não cabe no infinito, e é fuga e vento. (ANDRADE, 2009, p. 226)

É como se alguma palavra, ideia ou releitura funcionasse como uma chave para resolver a questão e libertar a pessoa. Como escrito por Hillman: [...] a partir do momento em que o indivíduo cruza o limiar da terapia, toda uma nova história começa. (HILLMAN, 2010, p. 30)

Considero que a literatura potencializa e muito os processos de amadurecimento psíquico e costumo dizer que não trabalho sozinha e sim com uma “junta médica”, ou seja, inúmeros escritores que viveram em lugares e épocas diversas e possuem um olhar plural sobre o humano, além da habilidade, sensibilidade e diversidade no uso da linguagem. São mestres nisto. Nise da Silveira, médica psiquiátrica que revolucionou a forma de tratar da “loucura”, relata numa entrevista que ela encontrava, na literatura, muito material para ajudar na compreensão dos doentes. Preferia ler Machado de Assis pela décima vez a consultar um maçudo tratado de psiquiatria de fundo cartesiano. Uma simples imagem, se for nova, abre um mundo. Gaston Bachelard (2008, p. 143)

Tenho muita satisfação e gratidão pelos resultados deste trabalho mediado pela literatura. Vivências em Biblioterapia | 41


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Questões recorrentes e prescrições biblioterapêuticas Quem ocupa a cadeira do psicanalista – quem lê, interpreta e provoca é o livro. Quem se deita no divã e “sofre” do que lê é o leitor. José Castello (2012, p. 227)

Numa crítica de José Castello sobre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ele menciona que a vida é seca não apenas pela falta de condições básicas de subsistência, mas principalmente pela falta de palavras que possam conferir um sentido diante da precariedade da situação, da dor das perdas, ou que possam alçá-los acima daquele cenário. O que percebo na prática é que em determinadas circunstâncias, um autor é capaz de descrever, melhor do que a própria pessoa, os sentimentos envolvidos em seu drama pessoal. Observo que, quando um texto realmente traduz o que a pessoa sente, ela cala e o acolhe como um bálsamo ou um raio na consciência. Um silêncio profundo e um olhar de concordância pairam, a cabeça balança positivamente, algumas vezes a pessoa até coloca a mão na boca, prende a respiração, arregala os olhos e diz: é exatamente isto! Listo, a seguir, exemplos de trechos de livros que com frequência provocam estas reações: 1. Quando alguém finalmente consegue se desvencilhar de um emprego torturante ou de uma relação adoecida há tempos, mas está estranhamente desconfortável com a situação: Vivências em Biblioterapia | 43

Biblioterapia miolo  
Biblioterapia miolo  
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