Issuu on Google+

“O tamanho da democracia e da cidadania é proporcional ao tamanho da acessibilidade em um Estado” Letícia Marina Da equipe do Correio de Goiás

A vereadora Cidinha Siqueira afirma que nunca teve a intenção de se candidatar a um cargo político. Mas, após a eleição de 2004, ela tomou um impulso para conseguir o seu segundo mandato na Câmara Municipal de Goiânia. A vereadora é conhecida, principalmente, pela defesa das pessoas com deficiência. CORREIO DE GOIÁS: Como começou o seu interesse pela política? CIDINHA SIQUEIRA: Todo ser humano é político. Ele participa da vida familiar, da escolha e da vivência social. Eu tive paralisia infantil com 9 meses e deixei de andar. Meus pais e irmãos sempre ficaram preocupados em me inserir na sociedade. Primeiramente na igreja e depois na escola. Quando eu fazia o primário, a professora já fazia inclusão sem saber o que era. Eu não podia pular corda, então ela colocava a carteira no pátio, me dava a corda e os meninos pulavam. Posteriormente, eu comecei a liderar um grupo de crianças. Quando eu mudei para o Jardim América, criamos um grupo de pré-adolescentes na igreja Nossa Senhora Aparecida. Era um trabalho para comunidade. Em 1990, eu percebi que eu precisava lutar mais pela categoria da qual eu participada, as pessoas com deficiência. Representei Goiás por 4 anos na Organização Nacional de Entidades de Pessoas Portadoras de Deficiência Física (ONEDEF). Neste momento, pudemos trabalhar em cima de muitas leis para beneficiar as pessoas com alguma deficiência. Eu fico feliz que hoje nós temos a melhor legislação do mundo na área da pessoa com deficiência. Eu tive uma vida sempre muito ativa. Assim que eu formei em pedagogia, me convidaram para assumir um núcleo de pessoas com deficiência. Então, fui eu que fiz o primeiro documento deste núcleo. Goiânia não tinha nada na área da pessoa com deficiência. Foi a partir daí que comecei a batalhar para buscar a cidadania da pessoa com deficiência física de forma mais ampla. Eu assumi a responsabilidade de lutar por todos os tipos de deficiência. Não só a questão do deficiente físico, mas do auditivo, visual e intelectual. Eu nunca pensei em ser vereadora. Foram as pessoas do movimento da pessoa com deficiência e os amigos que me incentivaram a isso. Eu estava sempre brigando e denunciando para o Ministério


Público cumprir as pequenas leis que tinha. Me candidatei pela primeira vez a vereadora, com muita dificuldade. Tive a ajuda de amigos e parentes para a candidatura. Foi então que eu vi que a sociedade vê o que a gente faz. Se você faz de uma forma positiva, ela reconhece. O primeiro mandato foi um impulso para o segundo? Com certeza. Eu vejo que eu tenho o poder de ajudar a transformar a sociedade. Através das leis, a gente acaba mudando. Então eu percebi que as minhas ações na Câmara tinham uma força maior, porque transformava-se em lei. Eu fiz uma varredura no que faltava na área das pessoas com deficiência e criei várias leis. Hoje, eu estou com 41 leis sancionadas. A senhora já criou vários projetos que trouxeram inúmeros benefícios para as pessoas com deficiência. Mas, em sua opinião, qual foi o mais importante? Em todo o meu ensino fundamental e médio, eu escrevi no colo porque não existia uma cadeira inclusiva para eu colocar o meu caderno. Então, a primeira lei que eu fiz foi colocar carteira incluída nas escolas. A falta desse equipamento dificulta até mesmo o aprendizado. E outro projeto que eu ajudei até a fiscalizar foi a questão dos ônibus acessível. Esse me deixou muito feliz. As empresas resistiram inicialmente, por isso tivemos que fazer várias reuniões. Enfrentei a questão com muita garra e muita força. E atualmente, 90% da frota é acessível. Eu também fiz outra lei que seriam as rotas de calçadas acessíveis. Ela foi aprovada e, hoje, o projeto da Rua 10, na Praça Universitária, já está fazendo as rotas de calçadas acessíveis. São questões importantes, hoje você vê inúmeras pessoas com deficiência participando da vida da sociedade. Seja no cinema, no teatro, na escola e na saúde. Para a senhora, quais as principais dificuldades que portadores de deficiência física enfrentam em Goiânia? Ainda não está da forma ideal. É preciso melhorar as calçadas de Goiânia. É competência dos moradores, então cada um faz um tipo de calçada. Algumas possuem uma diferença de nivelamento muito grande, outras inclinadas ou com algum tipo de obstáculo. Esses exemplos não cumprem o estatuto do pedestre. Que também é uma lei de minha autoria que eu acho muito importante. Se ela for cumprida, a vida do cidadão pedestre vai melhorar bastante. O ano já está no fim. Qual o balanço que a senhora faz deste ano para a política goianiense? Eu tive que fazer uma intervenção cirúrgica na coluna no começo do ano e fiquei afastada por quase 6 meses. Quando eu voltei, me deparei com várias obras realizadas e vi a cidade caminhando. A parte do legislativo municipal pôde construir várias obras. E teve um cuidado, principalmente, com os barros mais afastados. Acredito que precise avançar cada vez mais. É de interesse do prefeito Paulo Garcia melhorar cada vez mais a vida do pedestre. Já conversei muito sobre isso com ele, para fazermos acontecer o estatuto. Quais os seus projetos para o próximo ano? Eu pretendo dar continuidade ao fórum de acessibilidade. Há representantes governamentais e da sociedade civil, principalmente na área da pessoa com deficiência. Nós também participamos da construção do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que foi lançado pela Dilma. E queremos trazer os benefícios deste plano para Goiânia. Conversei com o prefeito Paulo Garcia e ele está bem aberto para estar caminhando junto nesta questão. Também vamos lançar em breve a Central de Interpretes em Goiânia. Muitos deficientes auditivos precisam do atendimento no CAS, mas muitas vezes, o médico não sabe Libras. Ou então, a máscara do médico impede que o surdo faça uma leitura labial. Ou seja, não há comunicação. Por


isso a necessidade desta Central de Interpretes. É importante ressaltar que a acessibilidade não é só algo físico, ela também é de comunicação. Levei essa ideia para o prefeito e ele se comprometeu em criar esta Central. Já estamos em experiência e, em breve, iremos lançar.

Há rumores de uma possível aliança com o PMDB para o próximo ano. Isso procede? Sim. Pelo que eu tenho participado, a coligação se mantém. A senhora atuou como Representante Estadual da Organização Nacional de Entidades de Pessoas Portadoras de Deficiência Física de 1994 a 1998. Quais foram os principais avanços na elaboração e criação de leis de defesa dos direitos das pessoas com deficiência durante este período? Foram vários. Foi um trabalho que o Brasil inteiro ganhou. Podemos colocar na Constituição emendas de leis que possibilitaram a inserção das pessoas com deficiência na empregabilidade. Em uma empresa com mais de 100 funcionários, de 2 a 5% são pessoas com deficiência. Eu fico emocionada de dizer que a melhor legislação do mundo para pessoas com deficiência é a nossa. O que falta ainda é fiscalização, porque leis nós temos. Eu sempre digo que nós só portamos a deficiência, ela não impede que sejamos eficientes. E é isso que as empresas precisam perceber. A senhora atuou como membro do Conselho de Saúde do Estado de Goiás de 1999 a 2001. O que mudou na saúde do Estado após este período de 10 anos? Quais setores merecem mais atenção? Em relação à pessoa com deficiência, a criação do Centro de Reabilitação e Readaptação (Crer) foi muito importante. Eu estava no conselho e em todas as reuniões que tinha, eu solicitava este Centro de Reabilitação. Ele está ajudando muitas pessoas a se reabilitar e até inserindo as pessoas com deficiência na sociedade. Olhando outras capitais, Goiânia já avançou bastante nas ações de inclusão. A cidade participou de um ranking das cidades que mais tinham ações de acessibilidade e inclusão e ficou entre as seis primeiras. Aqui a gente avançou não apenas no transporte, mas na questão de criar uma consciência de inclusão e acessibilidade, nas escolas e no atendimento. Eu digo que a inclusão não está pronta ainda. Ela está acabando de nascer. A inclusão plena é quando a gente vê uma cidade onde todo o cidadão possa exercer o seu direito de ir e vir, ter a sua saúde, trabalho e lazer assegurados. O que foram os projetos Casa-Lar e Trabalhando com o Verde, implantados em 2002. E qual a importância de ações como estas para a sociedade? Eu tive a oportunidade de fazer um intercâmbio nos Estados Unidos. E lá, as pessoas com deficiência intelectual estavam cuidando das praças. Eles aprendem a cuidar dos locais. Eu dei os primeiros passos para que o projeto “Trabalhando com o Verde” fosse implantado em Goiânia. Mas ele não avançou de forma tão ampla. Eu também vi os modelos das Casas-Lares nos EUA. As pessoas com deficiência que estão em risco moral ou pessoal eram acolhidas por famílias. É muito bonito isso, fiquei muito sensibilizada. Em Goiânia, eu fiz esse projeto acontecer. Ele andou por 4 anos e foi modelo no Brasil. O “Nossa Casa” chegou a acolher até 12 pessoas em uma casa no Novo Mundo. Eles eram inseridos na sociedade. Aprenderam a cozinhar, braille e libras. Mas, infelizmente, teve que acabar. Eu acho que foi um retrocesso muito grande. Mas eu pretendo fazer uma fala com o prefeito para a gente reabrir o projeto. Tem muitas pessoas com deficiência que não tem onde ficar. São colocados em abrigos normais, que às vezes não possuem a estrutura física e nem de conhecimento para lidar. A senhora foi uma peça essencial para a efetivação da Comissão Permanente de Acessibilidade


de Goiânia (CPA). No entanto, o que ainda precisa ser feito para melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência? A acessibilidade ainda não está da forma ideal. É preciso melhorar as calçadas de Goiânia. É competência dos moradores, então cada um faz um tipo de calçada. Algumas possuem uma diferença de declive muito grande, outras inclinadas ou com algum tipo de obstáculo. Esses exemplos não cumprem o estatuto do pedestre. Essa questão afeta a todos. Os deficientes, idosos, grávidas, jovens e crianças. Todos correm risco nessas calçadas. Falta fazemos acontecer de fato o estatuto do pedestre, para gerar uma consciência na sociedade. E, com isso, aumentar o respeito pelo pedestre e o respeito à vida. Também é necessário termos maior fiscalização. A Guarda Municipal, a AMT e a Amma podem estar ajudando também. No último dia 10, a senhora participou da Marcha em Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos Vítimas da Ditadura Militar em Goiás e no Brasil e se declarou a favor da instalação da Comissão Nacional da Verdade. Qual a importância de resgatar essa memória? É de suma importância. A gente não pode passar por cima da história. A história de uns pode refletir na história de hoje. E eu acredito que a gente precisa relembrar isso, para que fatos como os que aconteceram nunca mais se repitam. E que a gente possa construir um mundo com mais paz. Eu cito Gandhi, “a paz do mundo começa em mim”. Então, nós precisamos construir essa paz. Como você avalia os incentivos e ações (Como o Plano Nacional de Ação Governamental para pessoas com deficiência) que o Governo Federal promove para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência? O que ainda falta? Foi um avanço muito grande. O plano trouxe avanços em todas as áreas. Ele vai proporcionar maior inclusão das pessoas com deficiência. Ele vai permitir que a pessoa com deficiência exerça mais o seu direito como cidadão. Eu percebo que está sendo uma grande revolução positiva. Agora é fazer acontecer e a presidente Dilma está muito empenhada nisto. Quando ela esteve em Goiânia, conseguimos falar sobre a importância de se ter uma política de inclusão maior no Brasil. O Governo Estadual precisa ter uma política ampla na área de inclusão da pessoa com deficiência. Como você avalia a participação das mulheres na política brasileira? Eu acredito que eles precisem se colocar a disposição. Teve uma enquete em 2007, onde perguntaram para homens e mulheres se eles gostariam de se candidatar a um cargo político. E não teve uma mulher que disse que não tinha interesse, enquanto a maioria dos homens disse que sim. Então, eu percebo que as mulheres precisam ver que o espaço do legislativo é um lugar para a mulher também. Ela pode e deve participar. Eu acredito que cada um contribui tanto homem quanto a mulher, mas eu vejo que a presença delas ainda é tímida. É um espaço para todos, cada um faz a história. O dia 3 de dezembro marca o dia das pessoas com deficiência. Qual a importância de se ter este marco para a sociedade? Este dia foi criado para lembrar que a gente ainda tem muito a fazer. Enquanto tiver data para ser lembrada é porque a gente ainda não tem uma cidadania plena. Não é um dia de festa. É um dia de colocar as necessidades, tanto no órgão governamental municipal e estadual, para que eles possam fazer ações para mudar a vida de pessoas com deficiência. Às vezes pequenos obstáculos impedem o nosso direito de ir e vir. Eu sempre digo que o tamanho da democracia e da cidadania é proporcional ao tamanho da acessibilidade em um Estado.


Correio de Goiás - Entrevista