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A menina planejara dormir apenas uma hora. Devia ter dormido por pelo menos quatro. Abraxos não se moveu atrás dela, a asa da serpente alada ainda a protegia. Desde o encontro com Asterin e Manon, cada hora, acordada ou dormindo, era como um pesadelo. E, mesmo dias depois, Elide se via prendendo o fôlego em momentos bizarros, quando a sombra do medo a segurava pelo pescoço. As bruxas não se preocuparam com ela, embora tivesse alegado que seu sangue era azul. Mas Vernon também não. Contudo, naquela noite... Elide mancava de volta para o quarto, seguindo pela escada escura e quieta... quieta demais, mesmo com o arranhar de suas correntes no chão. E diante de sua porta, havia um recanto de silêncio completo, como se até mesmo os cupins tivessem prendido a respiração. Alguém ocupava o quarto. Esperando por ela. Então a menina tinha continuado andando, até o ninho iluminado pela lua, onde o tio não ousaria ir. As serpentes aladas das Treze estavam aninhadas no chão, como gatos, ou empoleiradas nos mastros que beiravam a queda. À esquerda de Elide, Abraxos a observava de onde estava deitado sobre a barriga, os olhos infinitos arregalados, sem piscar. Ao chegar perto o bastante para sentir o cheiro de carniça no hálito do animal, ela falara: — Preciso de um lugar para dormir. Apenas esta noite. A cauda dele se movera levemente, os espinhos de ferro raspando as pedras. Animada. Como um cão: sonolento, mas feliz ao ver Elide. Não houvera grunhido, nenhum lampejo de dentes de ferro prontos para engoli-la em duas mordidas. A menina preferiria ser devorada a enfrentar o que estava em seu quarto. Elide se abaixara contra a parede, cruzando os braços com as mãos sob as axilas e puxando os joelhos até o peito. Começara a bater os dentes de frio, então se enroscara mais. Estava tão frio ali que o hálito se condensava no ar. Feno estalou, e Abraxos se aproximou. A criada ficara tensa; poderia ter saltado de pé e disparado. A serpente alada estendera uma asa em sua direção, como um convite. Para que se sentasse ao lado dele. — Por favor, não me devore — sussurrara Elide. Abraxos bufara, como se dissesse: Você não daria muita carne. Estremecendo, a jovem ficou de pé. Ele parecia maior a cada passo. Mas aquela asa permaneceu estendida, como se fosse ela o animal que precisasse ser acalmado. Quando chegou ao lado de Abraxos, Elide mal conseguiu respirar ao estender a

Profile for Letícia Lopes dos Santos Pereira da Silva

Trono de Vidro: Rainha das Sombras - Parte1  

Parte um do volume 4 da série Trono de Vidro de Sarah J. Maas

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