Page 1


ROCK & PIE Lilian Galdo

Rock & Pie – Sexo, Amor e Rock & Roll Lilian Galdo Copyright © Lilian Galdo, 2013 © Editora Jangada Ltda, 2013 Todos os direitos reservados. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. Versão digital — 2013 Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. ISBN 978-85-8163-159-9


Página |2

AGRADECIMENTOS Por terem lido meus rascunhos e acompanhado capítulo por capítulo, esperando eu mandar diariamente as linhas que eu escrevia, agradeço à minha amiga de sempre Rita, à minha prima, amiga e “mini-me” Amannda e à minha amiga Flavia, que deixava de prestar atenção no que o professor falava durante as aulas na faculdade, para ler R & P. Muito obrigada a todas vocês pela paciência, pelas dicas, pelas broncas, pela ansiedade demonstrada diariamente e por terem amado esse livro tanto quanto eu amei. Sem vocês não existiriam Vivi, Tim, Brian, Ric, Cadú e Gabbe. Dani e Paula R, vocês também foram de grande valia. Obrigada pelo carinho e pelo incentivo. Agradeço imensamente à minha família, que tanto me apoiou. Ao meu pai que também é viciado em leitura e aos meus tios, primos e primas que me incentivaram, sintam-se abraçados (tia Claudia em especial, pelo interesse contínuo sobre minha rotina na editora). Danillo, sem saber você foi a inspiração do meu personagem caçula. Obrigada por ser tão lindo! Vó, se não fossem os gibis do Tio Patinhas que você comprava para mim eu provavelmente não teria adquirido o gosto pela leitura e, como consequência, pela escrita. Obrigada também por perguntar diariamente quantas páginas eu havia escrito e se eu havia tido boas idéias. Isso me incentivou a querer melhorar minhas metas diárias. Luany, minha irmã amada, obrigada por ter sido a primeira pessoa a ler meus rascunhos e por me forçar a imprimir capítulo por capítulo para você ler quando eu chegasse em casa, por ter preguiça de ler no computador. Isso me dava a sensação de estar levando para casa um pedaço da minha mente e do meu coração. Obrigada também por não reclamar do barulho do teclado nas madrugadas adentro, quando a


Vivi insistia em me fazer perder o sono para escrever um pouco mais sobre ela e seus companheiros de banda. Mãe, não me falta motivos para agradecer. Obrigada por me incentivar a escrever desde que eu era criança. Eu não me tornei uma bailarina, mas trabalho com algo que realmente me faz feliz, e isso graças a você. Obrigada por me comprar tantos livrinhos e por não me bater quando percebia que eu estava lendo escondida de madrugada, mesmo contra sua vontade (sim, você estava certa, esse hábito arruinou minha visão). Obrigada por estar sempre ao meu lado e por ser meu exemplo de vida. Não há melhor mãe nesse mundo. Agradeço aos meus editores Ricardo e Fabio e a toda equipe da Editora Jangada pela confiança. Por último, mas não menos importante, agradeço à minha metade, meu amor, meu amigo, meu companheiro: Fernando. Foi brincando com o presente que você me deu de Natal que tudo começou. Você não sabe, mas seu amor é o combustível da minha inspiração. Te amo!


Página |4

Capítulos:

01- Bem Vindo à Selva 02- Bomba de Cereja 03- Eu tive um Sonho, Vou te Contar 04- Estou tão doente 05- Se você gosta de Piña Coladas 06- De um Jeito ou de Outro 07- Me Acerte com Seu Melhor Tiro 08- Aprendendo a Voar 09- Chama da Glória 10- Toda Rosa Tem o Seu Espinho 11- Segredo 12- O Imperdoável 13- Minha Doce Criança 14- Dançando Comigo Mesma 15- Nada Mais Importa 16- É isso que você Ganha 17- Estou Afundando 18- Abra Seus Olhos 19- Sinfonia Agridoce


1 – BEM VINDO À SELVA “Bem Vindo À Selva! Nós temos diversões e jogos. Nós temos tudo o que você quiser. Querido, nós sabemos os nomes. Nós somos as pessoas que podem encontrar tudo o que você precisar. ” Welcome to The Jungle, Guns N’ Roses

O avião estava pousando e meu estômago doía mais que nunca. Só por garantia, segurei o saquinho que o avião disponibiliza para emergências nojentas. Melhor prevenir do que remediar, certo? Fechei os olhos e desejei que minha mãe estivesse ao meu lado. Ela é a única que consegue me acalmar nas horas de pânico. O problema é que agora eu estou pousando em outro país, e aqui eu passarei meses longe da minha família, da minha melhor amiga, da minha querida cidade que tanto amo: São Paulo. Olhei ao redor e avistei os únicos rostos que seriam capazes de trazer alguma sensação familiar à minha vida durante os próximos meses. O Cadú estava tirando um cochilo com a boca aberta, seu cabelo castanho todo emaranhado e suas longas pernas dobradas de forma que seus pés estão em cima do banco. O Tim estava batucando sua bateria imaginária com seus braços fortes reforçados pela camiseta azul royal justa que abraçava seus músculos e deixava parte da tatuagem tribal à mostra. Ele também fazia seus estranhos e famosos barulhos


Página |6

com a boca. Por um milagre de Deus ele devia estar de bom humor, pois só fazia esses movimentos esquisitos quando se sentia de bem com a vida. Já o Ric, eu nem precisava olhar para saber que devia estar xavecando alguma aeromoça. Por falta do que fazer, resolvi olhar só para ver se ele era tão óbvio quanto eu achava. Yep! Acertei! Não sei por que ainda perco meu tempo... A verdade é que desde que entrei na Rock & Pie (nossa banda de rock) há 10 meses atrás, tenho tido muito tempo para observar a personalidade destes “meninos”, como os chamo (o que pode ser ridículo aos olhos de terceiros, pois com exceção do Cadú, que possui apenas vinte aninhos, os outros já são homens barbados e estão próximos do final da casa dos “vinte”). Cada um possui jeitos e trejeitos totalmente diferentes do outro, mas todos eles possuem em comum a capacidade de me fazer rir por horas a fio. Sei que você deve estar se perguntando se não é estranho para mim o fato de eu ser a única garota da banda. Sendo bem sincera, eu hesitei bastante antes de aceitar a proposta do Ric, pois sei que toda pessoa de mente poluída pensaria que eu seria uma espécie de garota fácil, e que a imprensa viveria inventando histórias de supostos romances entre eu e os outros integrantes. Mas no final eu acabei seguindo minha intuição e mergulhei de cabeça. Se eu tive alguma experiência ruim por ser uma espécie de Eva no Paraíso? Apenas os comentários grotescos que eles fazem sobre as bundas femininas

alheias

e

a

inalação

constante

de

gases


malcheirosos nos ônibus das turnês. Fora isso, posso dizer que o convívio é bem harmonioso. Eles me tratam como se eu eu

fosse

uma

espécie

de

irmã

mais

nova,

sendo

superprotetores e ciumentos (barram todos os fãs boa pinta que aparecem no camarim). Claro que eu sinto falta de uma companhia feminina para partilhar comentários banais do tipo: “Nossa, você viu a calça legging vermelha de onçinha daquela garota? É super transparente e fora de moda. Fuja das calças que marquem toda celulite, mulher!”. Não que eu não faça esses tipos de comentários com os garotos. O problema é que eu gostaria de uma resposta espontânea, engraçada e totalmente maldosa, do tipo: “Né? Faltou senso! Só não é pior que o batom roxo que ela usou para combinar, e nem se deu ao trabalho de limpá-lo dos dentes.” Claro que ao invés disso, tudo que ouço é “Éééé”, ou “Pódecrê. Também achei ela super gostosa”. Mas, enfim... nem tenho muito do que reclamar. O avião pousou e o Tim deu um tapa na cabeça do Cadú, que acordou num pulo e olhou ao seu redor, com olhos super arregalados, tentando se situar. Quando viu a cara de culpado do Tim, o palavrão que soltou foi dos feios. Eu estava tão distraída que me assustei quando senti uma mão em meu ombro. - Viv’s, quer ajuda com sua mala de mão? – perguntou Ric. - Não, pode deixar que eu levo. Está super leve.


Página |8

- Ah, não custa nada. – ele respondeu. Na verdade, eu já sabia que isso aconteceria. Há meses que eu não precisava segurar nenhuma mala, pois os meninos não deixavam. Não que eu realmente me importasse, muito pelo contrário, mas eu não queria que eles se sentissem na obrigação. - Obrigada, Ric! Ao sair do avião, olhei para o céu. Estava um tempo bem bonito, por ser um dia de março. Nem quente, nem frio, com várias nuvens brancas que pareciam travesseiros. - Meu Deus! Que fome! Vamos parar para comer, né? - Não, Cadú! Só vamos comer quando voltarmos para São Paulo. Ninguém te falou que viveríamos de líquidos por alguns meses, para mantermos a forma? – debochou Tim, enquanto colocava seu óculos de sol e passava mão pelos seus cabelos cheios e escuros. Pelo visto o bom humor do dia teve um curto prazo de validade, como sempre. Bem, outra coisa a explicar para vocês: eu amo os meninos como se fossem minha própria família, mas o Tim não facilita muito as coisas. Sério, sempre que ele está perto de mim ele fica com esse mau humor insuportável. Ele vive me dando patadas, me ignorando, tentando me ridicularizar, mas eu propositalmente o trato cada dia melhor, com mais carinho, para ele ver que não vou me entregar facilmente ao seu jogo. Ele definitivamente não vai com a minha cara, e tenho certeza que me trata dessa forma na esperança de que eu me renda e desista da banda. Sem dúvida é o que ele mais quer.


Mal sabe ele que eu sou uma garota dura na queda. E é por causa dessa antipatia que ele sente por mim que quando estamos próximos ele acaba maltratando os outros, também. Sem querer ouvi o Ric e o Cadú falando sobre ele, e comentando sobre a atitude bad boy que o Tim vinha adotando. Eles até mencionaram que iriam sugerir a ele um tratamento de bipolaridade, mas isso seria uma perda de tempo. O Tim não é bipolar, não. Ele é um idiota arrogante e cretino, mesmo. Simples assim! - Cara, você já provou seu ponto. Todo mundo já sabe que você é a versão alta do anão “Zangado”, agora dá um tempo, vai? Ninguém mais tem saco para você, Tim! – eu disse enquanto dava um cutucão em seu braço. Eu mal o toquei e ele deu um pulo para longe, como se eu tivesse uma doença contagiosa. Eu revirei meus olhos, olhei para o Cadú e disse: - É óbvio que nós vamos comer, mas primeiro vamos para o hotel, pois a Mansini disse que teria um carro nos esperando na entrada do aeroporto. - Após pegarmos nossas malas, fomos em busca da nossa carona e então... voilá! Uma super, mega Limusine estava esperando por nós. “Muito obrigada, Rita Mansini”, eu pensei. A Rita é a nossa empresária, e tudo que tenho vivido hoje em dia, na minha vida profissional, devo a ela. A banda Rock & Pie já existe há três anos, era composta apenas por homens e eles até faziam um sucesso relativo. Tudo mudou quando Bruno, o baixista, saiu da banda. Quando eles começaram a


P á g i n a | 10

procurar um substituto, a Rita sugeriu que eles mudassem a cara da banda, contratando uma vocalista para dividir o vocal com o Ric. Claro que ele não gostou muito da idéia, mas como a Rita insistiu, ele cedeu. E certo dia a Júlia, uma amiga nossa em comum, deu uma festa e nos apresentou. Quando ele resolveu pegar seu violão e tocar umas músicas pra animar, eu o ajudei no vocal e então ele se calou, me deixando cantar sozinha. A verdade é que normalmente eu morro de vergonha de cantar em público, principalmente sozinha, mas naquele dia todos estavam tão descontraídos que eu nem me importei. Quando a música acabou, o Ric olhou para mim, pensativo, e do nada começou a rir. No dia seguinte a Rita me ligou. Sim, o Ric pegou o número do meu telefone com a Júlia e me indicou à banda como nova integrante. Demorei uns dias para aceitar, mas de quando topei, a Rita se empenhou ao máximo para que eu começasse em grande estilo: fomos abrir o show dos Hackerboys, uma das nossas bandas favoritas de rock e que está bombando nas paradas há algum tempo. No dia do show, quando a nossa banda começou a tocar e deu a deixa para eu cantar, eu cometi o erro de olhar para aquela multidão que estava presente e perdi o rumo. A platéia fez um silêncio mortal e eu olhei para os meninos. Eles estavam suando, me olhando com cara de choque. Aquele era o maior show que eles fariam, e eu não poderia decepcioná-los. Juntei toda coragem possível e entrei na música, pulando a primeira frase que eu havia perdido. Não sei como, mas no refrão da música eu já


estava tão à vontade que consegui liberar minha voz ao máximo, dançar, interagir com os meninos e no final da música ainda alcançei a nota aguda que tanto me dava medo. E então esperei mais silêncio por parte da platéia, mas nem deu tempo de respirar antes dos gritos histéricos de “Uhuuuulll”, ou de “Mais um”, ou até mesmo os de “Gostosaaaa”. Olhei novamente para os meninos e o Ric passou a mão na testa, sinalizando um “foi por pouco”, enquanto o Tim apontava as baquetas na minha direção e soltava um “Você é demais”. Quanto a mim, me senti no Guitar Hero ou no Rock Band, sabe, na hora que a música acaba e aparece na tela: “YOU ROCK”. Na semana seguinte, já tínhamos mais cinco shows agendados, e na outra, mais nove. No mês seguinte gravamos nosso novo cd, e três meses depois, estávamos estourando na Europa. Os ingressos dos shows se esgotavam em questão de horas. A Rita disse que nunca viu uma banda se dar bem em tão pouco tempo, e os meninos começaram a me chamar de amuleto da sorte. A verdade é que penso que não teve nada de sorte, mas sim que tudo foi fruto do bom trabalho da Rita e do empenho dos meninos. Sei que fui a que menos contribuí com esse sucesso, e por isso sou tão grata a eles. E aqui estamos, na badalada cidade de Las Vegas, apenas 10 meses depois que entrei na banda, com um contrato de comercial para a marca de chocolates “ChocoRocker” e seis shows pelos EUA, além de duas participações em programas televisivos. Aproveitaremos a estadia, ainda, para filmar nosso novo videoclipe, e,


P á g i n a | 12

principalmente, concorremos a um dos maiores prêmios da música: o VMA, na categoria de Melhor banda revelação. Tem como reclamar de tudo isso? - Viiii, to falando com você! – reclamou Ric. - Oi? - Você está bem? – ele perguntou, preocupado. - Isso que dá não se alimentar direito. Na próxima vez, vamos trazer uns sanduíches na mala. – insistiu Cadú. - Você tá de sacanagem comigo! Cara, vai pensar em sexo ao invés de ser fixado em comida! - Tim, faz um favor? Vai pra p... – tentou responder Cadú, mas prontamente cortei. - Ah, pelo amor de Deus! Que criancisse! Não pedi para vocês dois pararem com isso? Carlos Eduardo, ignore o Timóteo Azevedo e pronto! Que saco! – esbravejei, enquanto observava Tim revirar os olhos e acender um cigarro. – Ah, pronto! Agora você fuma! - Isso não é da sua conta! A não ser que você tenha comprado meus pulmões e eu não esteja sabendo. – ele soltou a fumaça na direção do meu rosto e deu um sorriso torto, satisfeito por ter me irritado. Aquele sorriso sempre queimava alguma coisa dentro de mim, me incomodando profundamente. Claro que não era pelo fato de ele ter covinhas, e de seus lábios serem fartos e rosados. Não, isso não tinha nada a ver. Todos eram


como se fossem meus irmãos. Claro que o Tim era o irmão pentelho, mas não deixava de ser uma espécie de irmão. Eu contei até cem, respirando fundo, e me mantive quieta. Se eu dissesse mais alguma coisa, o cara entraria em êxtase. Ele adora me provocar. - Estava perguntando se você está cansada, porque eu e os rapazes estávamos pensando em ir ao Cassino. E nem me olhe assim! Nossa agenda está super apertada e teremos pouco tempo para nos divertir. - o Ric falou enquanto segurava minha mão direita e a massageava. - Eu não estava olhando de jeito nenhum, seu bobo! Concordo com vocês! Vocês têm mesmo que sair, ir a Cassinos e outros lugares. Estamos trabalhando demais! Merecemos uma folga, de vez em quando. – eu respondi prontamente, com segundas intenções. - Pois é! Isso quer dizer que você vai fazer uma sauna, massagens, e coisas desse tipo? Não se importa de sairmos só os garotos? - Coisas desse tipo. – menti. – E é claro que não me importo! Certas coisas devem ser feitas longe de mim, obviamente. – eu disse, rindo mentalmente e agradecendo por eles não terem percebido a pequena ruga que fica na minha testa, quando minto. - Uhuul! Night of Boys, rapazes! – Cadú gritou.


P á g i n a | 14

- “Who Let de Dogs Out, puts, puts, puts, puts, puts” – Tim entoou, e logo os três estavam cantando, dançando e fazendo gestos machistas. - Era só o que me faltava! Vocês ficam aí comemorando esse programa de companheirismo masculino enquanto eu vou passar o resto do dia sozinha! Esqueceram que eu não tenho uma amiga para farrear comigo? Isso que eu ainda tenho que trabalhar, ou vocês também esqueceram que alguém tem que explicar

para

nossa

nova

assistente

como

as

coisas

funcionam? – eu disse fazendo biquinho no estilo “magoou”, na maior cara de pau, utilizando todo meu talento de artista. - Ah, foi mal! Bem, Vivi, valeu mesmo por estar sendo tão compreensiva. – o Ric disse enquanto me dava dois tapinhas no ombro. Durante todo restante do trajeto até o hotel, eles ficaram em silêncio. Mas então achei que tinha visto uma coisa que não poderia ser. Ou poderia? - O quê? Alguém disse que nos hospedaríamos no Four Seasons? É isso mesmo que estou vendo ou minha lente está estragada? – perguntei, embasbacada. - Uau!

É mesmo o Four Seasons! Meu Deus, isso não vai

prestar, garotos! – se empolgou Ric. - Nossa! Não é um luxo desnecessário para nossas despesas, gente? – questionou o sempre mão de vaca Tim. - Você esqueceu que a hospedagem está por conta da ChocoRocker, seu trouxa? – cutucou Cadú.


- Nem preciso falar nada, preciso? – eu disse, olhando para os dois, em tom de reprovação.


P á g i n a | 16

2 – BOMBA DE CEREJA “...Seus sonhos sem futuro não te fazem sorrir. Vou te dar algo pelo que viver. Possuir você, agarrar você, até machucar. Olá papai, olá mamãe! Eu sou sua ch ch ch ch ch Cherry Bomb. Olá mundo, sou sua garota selvagem. Eu sou sua ch ch ch ch ch Cherry Bomb. ” – Cherry Bomb, The Runaways.

Nós fizemos check in naquele hotel paradisíaco e a recepcionista

nos

avisou

que

tinha

uma

garota

nos

aguardando na recepção. Eu já sabia que se tratava da Bia, nossa nova assistente. Fiquei feliz da vida por ela já ter chegado. Ela ainda não sabia, mas seria responsável por me levar a um tour pela cidade, e eu alegarei que isso é para nos conhecermos melhor. Hááá! Essa foi uma idéia genial! Eu realmente estava precisando de uma garota no nosso meio. Mas então me preocupei. E se ela fosse daquelas garotas super certinhas, nerds, que nunca saem de casa? Ou então daquelas garotas chatas que só sabem falar de moda e de rapazes, anoréxicas, que se acham a última bolacha do pacote? Bom, aí minha noite iria por água abaixo. Antes só do que mal acompanhada, esse definitivamente era o meu lema. Enquanto os rapazes me deram um “Hasta la vista”, me dirigi até a recepção e procurei pela Bia. Avistei uma garota de cabelos castanhos compridos, mais ou menos do tamanho do meu, com calça jeans e uma blusinha preta muito bonita, de alças finas. Ela estava lendo uma revista. Decidi que ela parecia legal, mas minha opinião sobre sua personalidade seria decidida pela revista que ela estava


lendo. “Que não seja a Vogue, que não seja a Vogue, que não seja a Vogue” – eu desejava em pensamentos. - Beatriz Saraiva? – perguntei. A garota olhou para mim, fechou a revista e deu um pulo para fora do sofá. Merda! Era a Vogue. Não que seja uma revista ruim, mas não era o tipo de revista que eu queria que minha assistente lesse. Precisava de uma garota meio punk rock, meio porra louca, que me fizesse rir, e não uma seguidora de moda que quisesse interferir no meu guarda roupa. Mas fazer o quê, né? Não seria por isso que eu demitiria a garota. Mas seria por isso que eu passaria a noite enfurnada no quarto comendo porcaria. - Minha nossa, Vivianne Santinni! Você é ainda mais linda pessoalmente. Nem tenho palavras para... quer dizer, não quero parecer puxa saco, nem nada, mas sou sua grande fã. - Obrigada! Faz tempo que está aqui nos esperando? - Não muito. Não é nenhum problema esperar por alguém em um hotel como esse, cá entre nós. Até achei uma revista aqui no sofá! Não que seja uma Rolling Stone, mas para passar o tempo foi de grande ajuda. - Graças ao bom Deus! Nossa, eu já estava nervosa, achando que você seria uma daquelas esnobes que só querem saber de roupa, sapatos e maquiagens! Não que eu não ame essas coisas, mas sabe... tem muitas coisas mais interessantes


P á g i n a | 18

para se apaixonar. E aí, pelo sotaque notei que você é mineira. Há quanto tempo está aqui em Vegas? - Eu moro aqui há dez anos. O meu pai mora aqui há vinte e dois anos, desde que ele e minha mãe se separaram. Ele é produtor musical e resolveu vir para cá tentar ganhar a vida. Hoje ele trabalha com figurões do cowntry. Quando minha mãe faleceu, vim para cá morar com ele. - Nossa! Você passou por uns bocados! Bem, que tal subirmos e continuar nossa conversa no meu quarto? Meu reino por um copo d’água e um sofá confortável. - Sem problemas! Mas... o resto da banda não veio com você? - Você tem quantos anos, Bia? Com certeza já passou dos vinte, e já tem certa experiência sobre a natureza masculina. Achou mesmo que eles iam chegar em Las Vegas e passar mais de cinco segundos no hotel antes de se mandarem para o primeiro Cassino que encontrarem? - Hahaha! Homens! – ela disse. Mas posso jurar que passou por seus olhos uma sombra de decepção. Bem, talvez ela realmente seja fã da banda e estivesse totalmente ansiosa para conhecer todos os meninos – eu pensei. Mas qualquer outro pensamento desapareceu quando abri a porta do meu quarto e encontrei aquela casa em formato de suíte. Colossal! Fiquei de boca aberta. - Nossa! Simplesmente maravilhoso! – ela disse, abismada.


Coloquei minhas malas nos armários e me joguei em cima da cama, dando pulinhos para ver se a cama era macia. Me senti uma garota de cinco anos. Fui até o frigobar e tomei dois copinhos de água. Decidi resolver as coisas com a Bia o mais rápido possível, para que eu pudesse aproveitar bem minha primeira noite em... deixe eu me lembrar onde estou mesmo...Hááá! Como se eu pudesse realmente esquecer! Vegas, baby! Vegas! - Agora é o momento “falando sério”. – eu disse, assim que endireitei minha coluna, levantei o queixo e me senti uma pessoa mais séria. Hora de ser profissional. – Bem, para começar, saiba que vou te chamar de Bia, e você me chame de Vivi! Não estou aberta a negociações quanto a isso. Vou resumir em poucas palavras o que cada um de nós espera de você, além do suporte direto que você dará à Rita, intermediando nosso contato com ela para não precisarmos nos falar toda hora. Vamos começar pelo Ric. Ele é extremamente mulherengo e sempre dá seu número de celular para as garotas com quem dorme. A pegadinha é: ele tem dois celulares. Um que ele usa para falar com a família, com o pessoal da banda e com os amigos e outro que ele tem apenas para dar o número para as garotas com quem ele dorme, mas não quer ver nunca mais. Resumindo: todas. Ou seja, esse celular ficará com você, e sempre que tocar, você atenderá e dirá que o Ric está ocupado, fingirá anotar o recado, e pronto. Só isso! Não se esqueça de jamais repassar


P á g i n a | 20

o recado pra ele. O Cadú, por sua vez, pedirá frequentemente para você para comprar algumas coisas que

ele

considera

como básico para sua sobrevivência: guloseimas e revistas. Por guloseimas, digo qualquer coisa que se coma e não seja saudável. Nem me pergunte como é possível que ele seja magro, porque esse é um dos mistérios do universo. Quanto às revistas, eu as dividirei em duas categorias: quadrinhos e pornôs. - Ecaa! – ela resmungou. - Pois é! Mas esse é o Cadú, o nosso menino de vinte aninhos! Continuando, vamos falar sobre o Tim. -

Sim!

ela

disse

em

um

tom

nervoso.

Suspeitei

profundamente de que ela mantém um interesse peculiar sobre ele. - Bem, o Tim é mais exigente. Ele pedirá para você procurar todas as coisas que ele perdeu durante o dia, e acredite, são muitas. Ele é tão desligado... além disso, ele é viciado em shakes, café e energético. O que é compreensível, já que ele não para nem por um segundo sequer. Ah! Não sei se você sabe, mas ele vive fazendo uns sons estranhos com a boca, e fica fingindo que está batucando em qualquer objeto que esteja ao seu alcance. E não se espante: ele pode ser um pouco grosseiro, às vezes. De todos, ele é o mais genioso. Na verdade, estou tentando maquiar a verdadeira personalidade dele, mas como você conviverá conosco diariamente, isso pode ser um erro. Então lá vai: ele é um cretino! Agora vamos


falar sobre mim. Eu sou mais exigente, pedirei mais coisas, sendo uma delas em especial. - E o que seria? - Bem, sempre tenha uma agenda em mãos. Anote todos os recados e classifique com a prioridade de retorno. Não dá pra ligarmos de volta para todo mundo, senão passaríamos a vida inteira no telefone, então a triagem tem que ser perfeita. Nossa família é prioridade máxima, assim como as ligações da Rita e dos patrocinadores. As ligações dos repórteres e da mídia em geral você deverá classificar conforme a importância do veículo. Os canais televisivos de maior ibope merecem atenção, assim como as revistas mais importantes. Eu tenho algumas regras, também. Por enquanto, vamos de regra número um: sempre venha para cá com uma mala contendo roupas, sapatos, pijamas e maquiagens. Você será minha acompanhante em todas as noites de tédio, como hoje. Hoje, porém, te emprestarei algumas coisas minhas. Vamos nos trocar e você me levará a algum restaurante divino e depois a alguma balada das boas. Tudo por minha conta, é claro. Quanto às outras regras, elas são formas de manter uma distância segura em nosso relacionamento. Espero não ter que mencioná-las a você. Se isso acontecer é porque você está falhando comigo ou com a banda em geral. Bem, vamos lá! Não vejo a hora de sair! - Espere, Vivi! Você disse acompanhante? Do tipo, uma colega? – ela perguntou, um tanto entusiasmada.


P á g i n a | 22

- Ah, não vamos rotular, certo? - Mas você não se importa que eu use algo seu? Quero dizer, não é qualquer pessoa que gosta de emprestar coisas pessoais. Além do mais, nem sei que número de sapato você usa. - Eu uso 37, e pelo que reparei você usa 36. Não vai ficar tão gigante, assim. E se eu me importasse, não tinha oferecido. Só não se acostume. Como eu disse antes, é só hoje! Agora, você prefere calça e blusinha ou vestido? Uma hora e meia mais tarde, eu e Bia estávamos jantando no próprio restaurante do hotel, porque como ela insistiu em dizer, lá é super badalado pelos artistas, e eu não deveria ser uma exceção. Claro que eu não comentei que o que eu queria mesmo era ir a um dos restaurantes comandados por algum dos ex-participantes do programa Top Chef. Mal sabia ela quantas horas eu já tinha passado em frente à tevê assistindo a preparação de vários menus que até hoje visitam meus sonhos, em especial os do chef Harold Dieterle, vencedor da primeira temporada. Claro que a maioria das garotas que conheço e que são fãs do programa sonham com pratos preparados pelo chef Sam Talbot, o galã da segunda temporada. Mas apesar dele ser um excelente chef, elas pensam estritamente em sua beleza, e não em suas obras primas, diferentemente de mim. Afinal, o Harold nem é tão bonito assim, e tem aquele jeito tímido e todo esquisito de ser, além de falar muito pouco, como se as pessoas não


merecessem que ele desperdiçasse sua saliva falando com elas. Ele parece guardar seus pensamentos como se fossem segredos valiosíssimos. Nada disso é considerado sexy, não é mesmo? Claro! Não pela maioria das pessoas. Mas eu realmente não faço parte dessa maioria. - Vivi, sabe a diferença entre um paparazzi e qualquer outra pessoa presente nesse restaurante? - Não – respondi totalmente confusa, tentando entender o raciocínio da Bia. - A diferença é apenas uma: a discrição. As pessoas daqui sabem muito bem como tirar uma foto sem fazer algazarra. Já devem estar correndo pela internet um zilhão de fotos suas enquanto está comendo, bebendo e falando, através das redes sociais. - Sinceramente, Bia! Você até que é bem engraçada, além de criativa! Até parece que qualquer uma dessas pessoas chiques sabe que eu existo. - Ahãn! Você que é engraçada, Vivi, além de ingênua! Dificilmente existe, hoje em dia, alguém que não conheça a Rock & Pie, algum garoto que não copie o estilo de roupa do Cadú, ou os gestos inocentes e sensuais do Tim, ou as famosas cantadas do Ric. E não deve existir uma garota sequer que não tenha comprado um sapato no estilo dos que você usa, ou tenha comprado alguns dos perfumes que você disse ter preferência, ou copiado seu corte de cabelo. – ela


P á g i n a | 24

completou a frase apontando para seu próprio cabelo, que era bem semelhante ao meu. Olhando bem, notei que estava errada. Não estava semelhante, mas sim idêntico ao meu, com exceção da cor. Os meus são loiros. E mais brilhantes, também. - Uau! Não sabia que você era tão fã, assim. – eu disse, enquanto sentia minhas bochechas corando. - E quem hoje em dia não é? – ela respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo a se falar. Seria verdade, tudo isso? Olhei ao meu redor e notei certos olhares furtivos em direção à nossa mesa. E então eu o vi. Ele, o cantor mais sexy, lindo e estiloso do mundo. Aquele que faz todas as garotas suspirarem a cada novo clipe lançado, a cada programa em que ele aparece, a cada vez que é clicado sem camiseta... e então ele olhou para mim. A princípio ele não pareceu ter me reconhecido, e voltou sua atenção às duas modelos que lhe faziam companhia (como sempre. O cara é vi-ci-a-do em magrelas altas e ossudas que desfilam pelas passarelas do mundo com suas pernas de garça). É óbvio, não é, Vivianne Santinni? Quem é você, comparada ao deus da beleza e da sensualidade, Brian Levicce? Mas então ele chacoalhou a cabeça e voltou a me olhar. Seus olhos me queimaram e eu imediatamente olhei para o meu prato e me apressei a rir de um comentário qualquer que a Bia fez, mas que eu não tinha prestado atenção. Eu jamais daria a ele o gostinho de me pegar secando-o. Never! Nunquinha!


- Você ri porque não foi com você. Aposto que nunca passou por isso, não é mesmo? – Bia perguntou, mas eu não fazia idéia do que ela estava falando. - Hãn? - Ah, deixa para lá. Já vi que você não prestou atenção em uma palavra sequer do que eu disse. Mas para quem você está olhando? – ela perguntou e fez menção de se virar para olhar em direção ao Brian, mas eu imediatamente segurei seu braço e implorei. - Ah, não olha pra lá, por favor! – eu praticamente sussurrei. - Mas o que... - ela começou a perguntar, antes de eu interrompê-la. - É o Brian Levicce! Ele está logo atrás de você, em uma mesa à sua esquerda. Meu Deus, ele é lindo demais! Mas não quero que ele me veja olhando. Mas ao terminar de pronunciar aquela frase, não resisti ao impulso de olhá-lo e esqueci o que eu havia dito sobre o “Never, nunquinha”. Ele ainda estava olhando para mim, e suas “acompanhantes” viraram em minha direção para saber o que estava prendendo sua atenção. Ele deu um sorrisinho torto, daqueles que quando ele faz, qualquer garota do mundo perde os sentidos da perna. Ah, sua babaca! Pare de olhar para ele como uma gordinha olha para um Milk Shake! Mas quem disse que eu consegui parar de olhar? Engraçado


P á g i n a | 26

que eu estava tão emocionada por estar tão perto dele que até comecei a ouvir uma trilha sonora, na minha cabeça. “Can’t stay at home, can’t stay at school...” Notei uma veia protuberante em seu pescoço musculoso, aquela mesma veia que me fazia pausar os seus videoclipes para admirar melhor, de tão perfeita que é. “...old folks say ya poor little fool...”. Nossa, a música está tão real. Ele molhou os lábios com a língua e pendeu a cabeça pro meu lado. “I’m the Fox you’ve been waiting for...”. Pelos poderes de Greyscow, esse aí tem a força. Jamais imaginei que pessoalmente ele seria ainda mais forte do que na televisão. Pena que não dá para ver suas coxas, que estão tampadas pela mesa à minha frente e pela posição desfavorecida em que eu estava sentada. Imaginei-me sendo uma das moçinhas dos seus videoclipes, numa cena do tipo... hmmm... já sei! Um banho sensual! “Hello daddy! Hello mom! I’m your ch-ch-ch-ch-ch cherry bomb.” E então eu despejaria um pote inteiro de sabonete líquido por toda sua barriga musculosa e... nossa, que calor absurdo! Não tem ar condicionado nesse restaurante, não? “Hello world, i’m your wild girl, i’m a ...”. - Ai! O que é isso? Por quê você me chutou? – gritei para a Bia! - Shiuuu! Você está dando muita pinta. Parece que ele te hipnotizou, nem o celular você ouviu tocar. - ela disse em tom de advertência. Nossa, será que ela percebeu que eu estava tarando ele? Ai! Eu nunca consigo disfarçar quando estou a fim de alguém. Minha cara não nega. Eu faço aquele olhar


Tribalista, do tipo “to te querendo como ninguém, to te querendo, como Deus quiser, to te querendo, como te quero...”. E então caiu a minha ficha! - Celular? Cherry Bomb! Aiiii, é verdade! Pensei que... bem, deixa pra lá. – enquanto abria minha bolsa para procurar meu celular, ele voltou a tocar. - Fala, Cadú! O quê? Eu vou matar o Ric! Mas que ca... tá, tá! Vou dar um jeito, não se preocupe. Fique perto do Tim! Quando estivermos chegando, te ligo. - O que houve, Vivi? - Bia, você veio de carro? - Não, meu irmão me trouxe. Por quê? - Irmão? Nem sabia que você tinha um irmão. Será que ele estaria disponível para fazer a gentileza de chegar aqui em... sei lá... dez minutos? Cinco minutos depois, já tínhamos pedido para mandar a conta para meu quarto e já estávamos na recepção do hotel aguardando o Gabriel, irmão da Bia. Ele estava em um barzinho nas redondezas, e faria o imenso favor de me ajudar a resgatar os INCAPACITADOS dos meninos. Tudo porque durante uma partida de Black Jack no Cassino Excalibur o INTELIGENTE (para não dizer outra coisa) do Ricardo Gusmão de Oliveira resolveu tirar uma foto e postar no twitter com a seguinte legenda (em inglês, mas que traduzirei,


P á g i n a | 28

assim como tudo que for falado nessa língua): “Invicto no Black Jack do Cassino Excalibur. Alguém se habilita a me desafiar? Garanto que o prêmio será muuuuito bom! Hahaha!”. Que lindo, né? Um componente de uma famosa banda de rock chamando os(as) fãs para um desafio, garantindo que o prêmio será muuuito bom. E a risadinha inocente no final... que amável! Mas que grandessíssimo burro! Burro, burro, burro! Preciso dizer que nesse exato momento estava tendo um arrastão dentro e fora do Cassino e que eles estavam há mais de uma hora se escondendo, após terem sido molestados, arranhados, beijados e lambidos pelas dezenas de fãs enlouquecidas e sedentas pelo prêmio que o Ric garantiu que seria muuuuito bom? Ah, vá! Ele nem imaginou que isso aconteceria! E sobra pra quem resolver o pepino? Pra fofinha, aqui, que nem estava nas nuvens por estar olhando para um dos vocalistas mais deliciosos do mundo, mesmo... - Ele chegou, Vivi! Vamos! – disse Bia. Notei que o carro do irmão da Bia era um Jaguar XFR, modelo de 2010, preto. Babei! - Com licença! – eu disse ao entrar no carro que cheirava a eucalipto e terra. - É um prazer! – ele respondeu, virando para mim e dando um sorriso com seus dentes que são tão brancos e perfeitos que aposto que valeriam um milhão de dólares em qualquer leilão. Poxa, nada mal esse irmão da Bia! Notei que ele era


alto. Se eu tivesse que adivinhar, chutaria que ele tem cerca de 1,85 m. Seus cabelos são cheios e volumosos, a cor de chocolate dos fios reluzia, e pequenos cachos nas pontas davam um toque de charme a mais. Notei que ele estava me examinando pelo retrovisor. – E então, qual o nosso destino? Assim que entrei no Cassino, dois seguranças estavam à minha espera. Eu estava disfarçada, com um chapéu que cobria até a altura dos meus olhos e um sobretudo que infelizmente não combinava com o clima ameno, então não fui

reconhecida

na

multidão.

Aparentemente

os

dois

seguranças tinham acomodado os três imbecís em uma sala privada, enquanto aguardavam que a princesa aqui viesse com a armadura brilhante derrotar os dragões (fêmeas). - Graça a Deus você chegou! – soltou Cadú em um tom meio choroso. - Eu-Vou-Matar-Vocês! Vocês arruinaram minha noite! Eu deveria estar lá, dando banho no Brian Levicce, esfregando sabonete líquido naquela barriga nhaminhami, e não estar aqui amparando um bando de marmanjos com medo de mulher. - Você o quê? – os três gritaram em uníssono. - Ah, qual é! Vocês não possuem direito algum de me criticarem em nada. Olha a situação em que vocês se encontram! E uma garota pode muito bem sonhar com o que quiser.


P á g i n a | 30

- Corta essa! Tudo que menos precisamos é de nossa vocalista principal se enroscando com um astro narcisista que implique com seus companheiros de banda, com medo de tomar uns chifres. - Como é que é, Tim? Está insinuando que minha felicidade pouco importa, em detrimento da banda? - Tanto quanto você está insinuando que o bem estar da nossa banda não importa em detrimento da sua felicidade. - Isso é tão típico de você... Você é um completo egoísta! Sabe o que é que EU menos preciso nesse momento? É perder todos os poucos momentos de folga que tenho resolvendo problemas de vocês. Quer saber? Fui! Vocês que se virem! - Ah, não! Você não vai me deixar aqui nesse hospício, Vivi! Poxa, tenha piedade de nós. Ou pelo menos de mim. – implorou Cadú, com o rosto branco de preocupação. - Tim, seu imbecil, se ela me deixar aqui vou quebrar seu nariz! - Sabe de uma coisa? O Ricardo e o Timóteo merecem resolver essa situação por conta própria, mas você não teve culpa nenhuma, Cadú! Venha! Você vai comigo! - E por acaso você se esqueceu de que é nossa companheira? Não se abandona os parceiros assim do nada! – implorou Ric. Olhei para os três e refleti. Eu tinha duas saídas: levá-los embora, resolvendo mais uma vez um problema criado por esses irresponsáveis, e deixá-los achando que sou a mulher maravilha e que sempre estarei ali para limpar a sujeira que


eles deixam por aí, ou virar as costas e criar um desconforto que poderia prejudicar a harmonia da banda. Eu confesso que estava inclinada a seguir a segunda opção, mas então me lembrei da imensidão de

compromissos que tínhamos

agendado e que começariam na tarde seguinte, e por medo de estragar essa fase boa pela qual estávamos passando, eu disse: - Ouçam bem os três, para não dizerem depois que não avisei. Essa é a última vez que abandono minhas coisas pessoais para resolver as cagadas de vocês, ainda que vocês me

liguem

dizendo

que

estão

passando

mal

porque

resolveram tomar chá de cogumelos da Malásia, ou que acordaram de ressaca e descobriram que estão na cama de um traveco (ok, chutei o pau da barraca, mesmo), ou qualquer outra coisa semelhante. Não vou querer saber! Ouviram bem? Eu não sou a mãe de nenhum de vocês. Nem sua, Cadú, e não adianta me olhar com essa cara de cachorrinho

abandonado!

Vocês

estão

entendendo?

aguardei qualquer sinal de compreensão do que eu havia acabado de dizer, mas naquela sala nem um mosquito resolveu se pronunciar. Eles estavam fazendo curso para me irritar. - E então? Ouviram ou não? – gritei – Porque se não ouviram ou não entenderam, serei obrigada a repetir até que vocês confirmem, e só então sairemos desse circo que vocês aprontaram.


P á g i n a | 32

- Ouvimos – responderam Ric e Cadú. - Por mim, que se dane! Não tenho culpa alguma do que aconteceu e não estou com a mínima vontade de ouvir discurso nenhum. Não sou criança! - resmungou Tim. - Não, não é! É só um filho da puta, mesmo! – alfinetei, e quando ele me olhou com a intenção de responder, me lançou um olhar que parecia um misto de desaprovação e de tristeza e decidiu fechar a boca. Não entendi isso... - Bom, agora que estamos resolvidos, vamos embora! Os seguranças nos levarão até a saída de funcionários, e nossa carona estará lá. - Só uma pergunta: quem é ela? – Ric apontava para Bia. - Ela? Minha testemunha dessa nossa conversa! Saiam dos trilhos para ver se não deixo vocês na mão!


3 – EU TIVE UM SONHO, VOU TE CONTAR...

“Eu tive um sonho, vou te contar: eu me atirava do oitavo andar. E era preciso fechar os olhos pra não morrer e não me machucar. É o que devemos fazer, não temos que ter medo. É o que devemos fazer.” Eu Tive um Sonho, Kid Abelha

Já no carro, a salvos graças a uma intervenção da polícia, a Bia não se aguentou e disse: - Puxa, jamais imaginei que conheceria meus ídolos dessa forma, tendo que segurar outras fãs como eu pelo colarinho, enquanto vocês corriam para o carro. - Sem contar a hora que elas começaram a chacoalhar o carro e ele quase virou em cima de várias delas. Não iam sair muitas pessoas inteiras, se isso ocorresse. – complementou Gabriel. - Nossa, essa história toda me esgotou. Vou fechar meus olhos um pouco e brincar de fingir que estou cochilando. – disse Cadú, que não convenceu ninguém com esse papo de fingir de cochilar. - Ei, vocês já se deram ao trabalho de se apresentarem à Bia e agradecerem ao irmão dela por tirá-los dessa enrascada?


P á g i n a | 34

- Oi, Bia! Obrigada, irmão da Bia! – isso foi a única coisa que cada um deles se deu ao trabalho de dizer, com exceção do Cadú, cujo

fingimento

de

cochilo

se

transformou em

realidade. Coitada da Bia. Parecia tão empolgada com a nossa chegada e nem um “seja bem vinda” recebeu deles. Olhei para ela e disse: - Belos ídolos você tem, hãn?! O dia em si foi tão cansativo, entre a viagem e a confusão no Cassino, que assim que deitei naquela cama macia da minha suíte, apaguei. Só acordei no fim da madrugada, sentindo a presença de mais uma pessoa na cama. Eu ainda estava tão cansada que parecia que meus cílios estavam colados com Super Bonder, e como provavelmente seria um dos meninos que me chacoalharia pedindo ajuda para alguma coisa que ele pode fazer por si próprio - mas não quer – ou a Bia me trazendo um Café Duplo com Leite, resolvi ficar do jeito que eu estava. Do nada, meu pé direito virou alvo de uma massagem deliciosa. – Que delícia – eu sussurrei. A massagem estava tão boa que deveria até ser um crime parar de fazer em menos de cinco minutos. Mas esse crime não foi cometido, com certeza. Após outros incontáveis minutos, as mãos se dirigiram para meu outro pé. – Nossa, seja quem for, você está me fazendo uma pessoa

muito

feliz,

nesse

momento

eu

disse

preguiçosamente, mas acabei me arrependendo de ter dito, pois ao ouvir aquilo, o dono (eu realmente queria que fosse o


dono, e não a dona) do mágico par de mãos largou meu pé esquerdo e se desvencilhou. Quase chorei de frustração, mas seria uma cena totalmente patética. Eu realmente deveria fazer as contas na minha tabela periódica para checar se estava de TPM, pois tudo estava tão... intenso. E então senti as mãos mágicas nas minhas costas. Eu estava usando uma camisola bem curta, que tem um decote gigantesco nas costas, de forma que elas ficavam inteiramente expostas. O carinho estava sendo feito exatamente do jeito que eu gosto, com as pontas dos dedos, amaciando o contato e me arrepiando toda. Nossa, eu estava no céu e não sabia. Os dedos começaram a percorrer a minha nuca, e então, do nada, desapareceram novamente. – Ah, não! – eu reclamei chorosamente, mas as mãos mágicas ganharam vida novamente. Na minha panturrilha. E um pouco mais pra cima. E um pouco mais. E mais. E então eu gelei. E se fosse um bandido, ou algum funcionário tarado do hotel, ou, o pior de tudo: uma mulher? Não que eu seja preconceituosa ou algo do tipo, pelo contrário, no mundo do rock isso até que é comum, mas como já devo ter deixado claro antes, eu não sou uma garota comum. Em trê segundos eu saí da posição de bruços e fiquei de barriga pra cima, puxando meu edredom até o queixo. Mas por mais que eu me esforçasse, meus olhos não se descolavam. Eu simplesmente não conseguia enxergar. Tentei abri-los com minhas mãos, mas então ele me disse:


P á g i n a | 36

- Calma! Pode ficar com os olhos fechados. Ainda não é hora de abri-los. Nós temos todo o tempo do mundo. Eu só podia estar louca, essa seria a única explicação possível! Qualquer pessoa que estivesse no meu lugar já teria saído correndo de camisolinha pelo corredor afora, gritando descontroladamente em busca de socorro, batendo nos quartos

vizinhos,

implorando

por

ajuda

e

alertando

histericamente a todos sobre o tarado do Super Bonder que estava à solta. Mas não eu! Não tinha como eu ter qualquer resquício de medo após ouvir aquela voz tão quente, tão sexy, tão irreconhecível e ao mesmo tempo tão familiar. Eu simplesmente deitei novamente, me rendendo às carícias, deixando o desconhecido deslizar vagarosamente o edredom até o chão, até sentir o friozinho do ar condicionado me arrepiar toda. Ok, admito que não foi só o ar condicionado que

me

arrepiou,

mas

sim

a

situação

toda,

que

estranhamente estava me deixando enlouquecida. E então as mãos mágicas foram substituídas pelos lábios mágicos. Os beijos foram direcionados à minha barriga, começando delicadamente, subindo em direção aos meus seios. Ele beijou cada um deles, inalou fortemente meu perfume natural, como se quisesse guardar meu cheiro para sempre em sua memória, e voltou a me beijar até alcançar meu pescoço. E então outra inalada. E mais beijos, só que desta vez mais agressivos. Agarrei seus cabelos e o puxei para cima de mim, pra que eu pudesse retribuir as carícias. Ele apenas se permitiu a chegar mais perto, mas não me deixou puxá-lo


até onde eu queria. Quando eu gemi em protesto, ele riu deliciosamente e sussurrou em meu ouvido: - Você é muito apressada! – e então passou a língua por todo contorno da minha orelha, me deixando totalmente sem ar. Eu já estava angustiada, querendo mais, mas não tinha força nem para pedir. E então ele lambeu meus lábios, gemeu de aprovação e beijou vorazmente a minha boca. Sua língua se entrelaçou à minha em uma cadência eufórica, e quando eu tinha certeza que ele estava perdendo todo seu auto controle, ele começou a vibrar. Me afastei, completamente assustada. Como assim ele começou a vibrar? Mas como toda desgraça é pouca, ele começou a cantar, também. “Hello Daddy, Hello Mom, I’m your ch-ch-ch-ch-ch cherry bomb”. Abri os olhos. Foi quando percebi que, infelizmente, eu estava acordada. - Celular do inferno – resmunguei, enquanto tateava tentando alcançá-lo. E alcancei. – Alô! - Vivi, minha querida! Como estão as coisas aí em Las Vegas? – a Rita Mansini perguntou com uma empolgação que me irritou ao extremo. Como estão as coisas? Vejamos: ontem à noite eu estava jantando a poucos metros de distância do gostosão do Blue4Us, e quando ele finalmente me olhou eu tive que ir embora para bancar a Menina Super Poderosa (a Lindinha, que é a minha favorita. Não que eu assista esse tipo de coisa), tendo que ir resgatar “Os Três Patetas”, porque a anta do Ric fez com que uma multidão de fãs (que nem sabíamos que tínhamos aqui nesse país) aparecesse de uma


P á g i n a | 38

vez, colocando a vida deles em perigo. E não estou exagerando, pois se você visse o empurra-empurra que elas fizeram com o carro do Gabriel, morreria de medo. Mas então eu ganho um presente do Universo, que foi o único que se deu conta que mereço ter o mínimo de prazer nessa vida: o sonho mais quente do mundo. Foi sensual, pervertido, e de certa forma engraçado. Pena que foi em estilo curta metragem, porque bem no ápice, alguém transformou o namorado dos meus sonhos em um celular que canta e vibra (isso estranhamente me lembrou do hino do Palmeiras). E esse alguém foi você! - Normais – foi a única reposta que considerei ser prudente. – E aí, como estão as coisas? Quando você vem, e a que horas? - Vou na semana que vem, um dia antes da premiação. Aqui as coisas estão normais, com exceção de um puxa saquismo acentuado por parte de uns e outros, só porque vocês estão em turnê nos EUA. Foi só vocês fazerem uma apariçãozinha em público, causando um furor na porta de um certo Cassino, que as manhãs brasileiras foram regadas de muita fofoca. Vocês já viram as fotos? - Não! E nem sei se quero! Eu quero? - Acho que não. Na maioria você está com uma cara de maluca, tentando desesperadamente resgatar os três das garras das fãs. Confesso que há muito tempo não vejo fotos tão engraçadas. Só de olhar novamente para elas eu... háháhá... er... desculpe, mas... háhá... eu estou tentando não


rir, mas.... pfffffff... kakakakaka. Vocês acabam comigo... rárárárá... - Ah, não! Quando você começa com essa crise de riso, é melhor desligar. Não estou com vontade de ficar por horas ouvindo você gargalhar descontroladamente. Tchau! – e encerrei a ligação. Definitivamente ninguém merece! Olhei as horas e dei um pulo, assustada. Tínhamos apenas uma hora e meia para nos arrumarmos e tomarmos café, antes de começarmos a gravar o comercial da ChocoRocker. Liguei no quarto do Larry, do Moe e no do Curly (Os Três Patetas) e disse para eles tomarem um banho, se trocarem e descerem para tomar café. E foi isso que todos fizeram, inclusive eu. Quando chegamos aos estúdios de gravação, nos sentimos praticamente em casa. O set de filmagens foi decorado em forma de réplica da garagem da casa do Ric, no Brasil, que é onde realizamos a maioria dos nossos ensaios. Até a poltrona preta de couro, que ele deixa em um canto à frente de onde tocamos, para que nossos convidados possam assistir aos nossos ensaios confortavelmente, foi replicada fielmente. O diretor de filmagens, Brian Kazinski, nos posicionou sobre as idéias que ele tinha e nos disse qual seria a parte que caberia a cada um. A propaganda seria simples, sem necessidade de atuarmos dramaticamente, o que voltaria todas as atenções à nossa performance e à mensagem da música. Nós ensaiamos um pouco e então fomos olhar o figurino. Quando vi a roupa que eu teria que usar, já respirei


P á g i n a | 40

fundo e contei 1, 2, 3 antes de mandar todo mundo para o inferno. Impressionante como todo mundo sempre pensa que uma vocalista de banda deve se vestir como uma prostituta. Nunca me davam uma roupa para vestir que estivesse mais de três dedos abaixo das nádegas, de comprimento. Por mais que eu goste de shortinhos de couro, jamais os combinaria com apenas um top da mesma cor e botas de cano alto e salto agulha. Eu me sentiria praticamente pelada, enquanto aos garotos foram dadas roupas no estilo que eles usavam no dia a dia. O Cadú usaria uma calça jeans lavada, com pequenos rasgos nos joelhos e camiseta da Levis em um tom de verde escuro. O Tim usaria uma calça jeans escura, com uma regata vermelha, que combina com seus olhos que possuem a cor da jabuticaba. O Ric, por sua vez, usaria uma calça de couro agarrada e regata branca, o que o deixou em um ótimo humor, alegando que a mulherada não pararia de olhar para suas coxas (que realmente são bem definidaz, já que ele malha cerca de 4 horas por dia). Eu reclamei da minha roupa com a assistente de figurino, mas decidir aceitar usar aquela mesmo, depois que vi as outras três opções que eles tinham separado para mim. Socorro, o bom gosto daquela ali parou bem longe do senso. Quando acabei de me trocar, me juntei aos garotos e notei que eles ficaram espantados ao notarem que eu estava quase nua. Eles ficaram alguns segundos em silêncio, até que o Ric resolveu dizer:


- Bom, não dá pra dizer que é estranho te ver assim. Quer dizer, já te vimos de roupa curta, e tal, até de biquíni, mas essa roupa, vou te contar! Você ficou super gost... er... gata. - Está lindona, Vivi! Só que se algum espertinho quiser chegar perto, será um homem morto. – anunciou Cadú. - Vamos parar de lero, lero! Temos muito trabalho a fazer! – reclamou Tim, se esforçando para não olhar para mim. Sério, o que eu poderia ter feito a ele para causar tanta repulsa? - Ric, Cadú, obrigada pelos elogios. Vamos trabalhar, mesmo, porque não estou no humor de ficar muito tempo sob o mesmo teto que o Tim, senão ele corre o risco de ser estrangulado. Uma hora e meia depois, já tínhamos gravado a música do comercial. A letra era a seguinte:

“ESTAVA ENTENDIADO ATÉ QUE O PORTEIRO LIGOU DIZENDO: VENHA ATÉ AQUI! SUA ENCOMENDA CHEGOU. ENTÃO EU DISSE: TUDO BEM! E ELE DESLIGOU ACHEI

MELHOR

ME

APRESSAR,

ME

ENROLEI

COBERTOR COLOQUEI O SAPATO, E PELA ESCADA EU DESCI

NUM


P á g i n a | 42

CHEGUEI LÁ EMBAIXO SUADO, E COMEÇEI A SORRIR E ELE ME DISSE: “OLHA, MEU FILHO – E ALGUMA COISA ENGOLIU - EU DEI MANCADA, EU SEI. MAS É QUE EU NÃO AGUENTEI OLHEI A CAIXA JÁ ABERTA, E UM MEDO ME PEGOU O QUE SERÁ QUE HOUVE? E VI QUE DOIS ELE ROUBOU CHOCO, CHOCO, CHOCO, CHOCOROCKER O CHOCOLATE QUE É MANIA! TEM COM MORANGO, UVA E BAUNILHA CHOCO, CHOCO, CHOCO, CHOCOROCKER UM SÓ NÃO DÁ, UM SÓ NÃO VIRA! QUERO DE NOITE E DE DIA É CHOCOROCKER!” E então chegou a hora de tirarmos as fotos da campanha. Nós trocamos o figurino e os meninos colocaram roupas parecidas com a primeira, enquanto recebi um vestido branco que, apesar de ser curtíssimo, não era tão justo e tinha um certo ar angelical. Claro que os sapatos e os acessórios eram pretos, senão meus fãs estranhariam, pois não talento para ser nenhum tipo de anjo. As primeiras fotos foram tiradas de forma espontânea, enquanto conversávamos ou tocávamos. Depois, as fotos foram individuais, cada um com seu


instrumento. Eu realmente amei tirar fotos com a Lua (meu baixo. Eu o chamo assim porque aprendi a tocá-lo em minhas noites de tédio). E então o Johnny (fotógrafo) resolveu tirar algumas fotos que mostrassem a sensualidade da banda. O Cadú arregaçou as mangas e mostrou seus músculos definidos, o Ric se insinuou com a guitarra e amarrou o microfone na sua coxa enquanto fazia movimentos sensuais, o Tim fez caras e bocas com seu estilo próprio de ser e recebeu inúmeros elogios do fotógrafo, e finalmente chegou minha vez. O fotógrafo deve ter ido ao set achando que eu faria fotos sensuais facilmente, afinal, todos dizem que exalo sensualidade mesmo sem querer. Entretanto, quando ele começou a me fotografar, ele viu que estava totalmente enganado. Acontece que quando eu tento parecer sexy, acabo parecendo estrela de filmes pornográficos (palavras ditas pelo próprio fotógrafo). Foram fotos e fotos que eu dei o máximo de mim tentando não ser sexy em demasia, mas aparentemente quando eu tentava não ser sexy, eu aparecia na foto como se estivesse de cara amarrada ou até mesmo entediada. O coitado fez tantas tentativas que até começou a suar. De repente ele teve uma “grande idéia”: pediu para o Tim me ajudar com as fotos (era só o que me faltava! Como se ele fosse a pessoa mais entendida em ser sexy...). Então o Tim veio para perto de mim e pediu para que eu relaxasse e considerasse a câmera uma amiga, e não uma inimiga. Eu não sabia se naquele momento eu estava mais brava com o Johnny por ter tido a idéia maluca de que o Tim pudesse me


P á g i n a | 44

ajudar ou se estava com mais raiva do Tim por estar se achando “a inspiração” pro Tom Jones cantar Sex Bomb. Meu sangue já tinha subido até o couro cabeludo, e então lancei ao Tim meu olhar mortal, daqueles que só solto quando não consigo mais segurá-lo por um segundo sequer. O Johnny imediatamente soltou um grito de felicidade e disse: - Perfeito! Seja qual for o conselho que tenha dado a ela, foi perfeito. – ele disse. Na verdade, ele disse em inglês, mas minha mente já traduz autimaticamente para o português. Será que eu estava tendo um pesadelo? Só podia ser isso! Olhei para o Tim e vi que ele estava segurando o riso. Então ele chegou mais perto (perto até demais. Quase o empurrei para o outro lado da sala, pelo atrevimento) e sussurrou no meu ouvido: - Está vendo? Você não é tão perfeita quanto pensa que é! – e se afastou com o mais sínico dos sorrisos. Nesse momento o Johnny pirou, ele disse que eu o estava matando de amor, com aquele olhar. Em menos de cinco minutos ele já tinha fotografado o suficiente e nos informou que a sessão estava encerrada. Quase pulei de alegria por poder sair daquela situação. Fui correndo para o camarim, com a cabeça explodindo de tanta raiva. Arranquei meu vestido com dois movimentos e me enfiei em outro, que era verde escuro, calçei minhas Uncle Boots e saí pisoteando o mais duro possível. Desde quando o Tim estava sendo um canalha comigo? Logo que entrei na banda ele me tratava muito bem, mas depois do show que abrimos para os Hackerboys, ele parou de brincar comigo. Na verdade, ele


passou

uns

vários

meses

falando

comigo

somente

o

necessário, literalmente me ignorando em noventa por cento do tempo. E de uns dois meses para cá ele voltou a falar mais, só que cada palavra dita é praticamente um soco na minha cara. O que será que fiz pra ele? Eu já pensei sobre isso por dezenas de vezes e nunca achei uma resposta pertinente. Mas decidi não deixar barato. Chega de dar moleza! Se ele não gosta de mim, o problema é dele. Eu não vou largar a banda por nada nesse mundo. Ele que se acostume a ter de me ver todos os dias ou então que peça para sair! Quando saí do set, liguei meu celular e vi 12 ligações perdidas, todas da Bia. Imediatamente eu retornei, e ela atendeu dizendo que Bruce Hudgens (empresário da banda Empty Bottle) tinha pedido para agendarmos um jantar naquela noite, para discutirmos assuntos profissionais. Ele gostaria de conversar com a banda toda, então eu disse a ela que falaria com os meninos e já daria uma posição. Fui até o camarim deles e bati duas vezes. - Entre! – disse o Cadú. - Ei, meninos! A Bia ligou e... aiiii, pelo amor de Deus! Coloquem uma roupa agora mesmo! – gritei horrorizada, ao notar que todos eles estavam só de cueca. Tapei meus olhos com as minhas mãos e continuei. – Depois dizem que são as mulheres que demoram para se arrumar!


P á g i n a | 46

- Vivi, qual o problema de você nos ver de cueca? Mesmo se estivéssemos pelados não teria problema nenhum! Você é da família! Como se fosse um de nós! – desatou o despudorado Ric. - Ah, mas isso não é certo! Eu não gostaria que vocês me vissem só de calçinha e sutiã. - Por quê? Você já nos viu diversas vezes de sunga e nós já te vimos diversas vezes de biquíni. E podemos dizer de boca cheia que você não precisa ter vergonha nenhuma em exibir sua nudez. Seu corpo é simplesmente... uau! Sem malícia nenhuma, foi apenas uma constatação. – ele se apressou em dizer. - É exatamente por isso que não quero que me vejam de roupa íntima, Ric. Vai saber se vocês não começam a ter idéias esquisitas sobre isso... - Falou a garota por quem todo homem no mundo olha e suspira! – debochou Tim. - Você não sabe que já vimos centenas de mulheres nuas? Por que, então, iríamos querer justo você? – Autch! Ele realmente sabia como acabar com a vaidade de uma garota. - Não foi isso que eu quis dizer. Eu não me acho a melhor do mundo, e você sabe muito bem disso! Só que atrações acontecem! Pode ser comigo ou com qualquer um de vocês. Vocês não são tão ruins para se olhar. – eu dei uma checada instintiva em cada um deles, só para confirmar o que eu já


sabia: corpos rígidos, musculosos e tonificados. O Cadú com seu quadril que possui o “V” da alegria, salientando os ossos laterais, o Ric que encarna literalmente o bordão “Poxa, que coxa”, e o Tim com sua estrutura corporal de deus grego. Ele já nasceu com o corpo perfeito, nem precisava se matar muito na academia para manter seu peitoral musculoso naquele estilo não exagerado. Sua barriga me chamou a atenção e quase babei ao notar os poucos pelos escuros e salientes que iam do umbigo até algum lugar sobre o qual eu não deveria pensar muito para não perder o juízo e tornar as coisas estranhas. Fechei meus olhos e só os abri novamente quando voltei a me concentrar no assunto no qual estávamos falando. - Por isso não quero ver vocês seminus e espero que nem vice-versa. - Vi, respeito sua opinião. No fundo você está certa. Você só tem que fazer o que te deixa à vontade. – disse Cadú, enquanto terminava de se vestir. – Vamos, meninos! Roupa! Agora! - Mas fale, Vivi! O que você queria dizer? – questionou Ric enquanto seguia as ordens de Cadú. - Acabei de falar com a Bia e ela me disse que o Bruce Hudgens quer marcar uma reunião hoje à noite. Vocês estão disponíveis para jantar? - Nossa! Claro que sim. Se alguém tiver compromisso, remarcará para outro dia ou então perderá os dentes. – se


P á g i n a | 48

empolgou Cadú, que sempre ameaçava quebrar a cara, o nariz ou os dentes de alguém, mas no fundo não é capaz de machucar nem uma mosca. Os outros concordaram em seguida, então liguei para a Bia e pedi para ela confirmar a reunião. Quando chegamos ao hotel, ela estava esperando por nós no hall com um saco cheio de tranqueiras comestíveis, uma garrafa de energéticos, um bilhete com um número de telefone anotado e uma revista Vogue. O Cadú e o Tim pegaram seus pertences e agradeceram, enquanto eu e o Ric ficamos parados, olhando para ela com uma interrogação gigante na testa. - Não precisam me olhar assim! O bilhete foi deixado para você por uma das hóspedes. – ela disse para o Ric - Achei que faria você se animar um pouco. E a Vogue é para você, Vivi! Mas antes que você me mate, olhe a matéria principal: Tudo sobre o estilo de Mr. Levicce! - Aaaahhh! Agora eu entendi! – eu disse. - Você está se saindo muito bem! - Fui contratada para isso, não fui? Bem, eu falei com o Sr. Hudgens, e ele marcou às 21:00 horas no Cili Restaurante e Bar, que fica no Clube Bali Hai, aqui pertinho. A Rita também me ligou e disse para vocês não esquecerem que a Limusine os pegará amanhã às 07:00 horas, pois as gravações do Midnight Talk Show serão feitas em Burbank, e vocês irão de carro para aproveitarem mais a viagem.


- Ah! São quantas horas daqui até Burbank? – perguntei à Bia. - Em torno de seis horas! - Nossa! Mil vezes mais ir de avião! – exclamou Tim, olhando para Bia, que o fitava sem piscar. Posso jurar que ela corou. - Galera, já são sete e quinze da noite! Vamos indo nos arrumar porque não podemos nos atrasar. - Você está certo, Ric! Bia, pode ir pra casa, mas amanhã você irá conosco para Burbank. Não vou agüentar uma viagem de seis horas trancada em uma Limusine com três caras, sendo que um deles vive querendo me nocautear. - Está com medo de mim, Vivi? - Morrendo, Tim! Tanto que nem vou dormir essa noite! Ou comer qualquer coisa no jantar! Ou até mesmo comparecer à reunião de hoje à noite. É isso que você quer, não é? Mas pode sentar esse bumbunzinho redondinho numa cadeirinha e esperar pelo dia de São Nunca! – então me virei e fui em direção ao elevador, e assim que ele chegou eu entrei, mas antes dele fechar eu ouvi uma voz distante: - Seu bumbum pode ser redondinho, Tim, mas o meu é bem mais definido! Pergunte pra qualquer garota! – e eu acabei rindo sozinha. Esse Ric tem sérias tendências narcisistas.


P á g i n a | 50

4 – ESTOU TÃO DOENTE...

“Eu invadirei seus pensamentos com o que está escrito em meu coração. Eu invadirei, invadirei. Eu estou tão doente, infectada.” – I’m So Sick - Flyleaf

O HaliBai é um clube maravilhoso e gigantesco de golfe, onde também são realizadas festas de casamentos e eventos em geral. Assim que entramos no Cili, já me animei. O restaurante além de ser bonito, transmite uma sensação acolhedora. As únicas luzes acesas eram as de velas, e tinha um piano no canto direito com um garoto tocando Your Song, do Elton John. Só então notei que deveríamos estar em um evento

privado, pois

muitas

pessoas estavam em pé,

conversando e rindo em alto e bom som. O Cadú me cutucou e quando olhei ele apontou um dos grupos. Lá estavam Jason Mcginty e Euller Mctravis, o baterista e o vocalista da banda Empty Bottle. A recepcionista apareceu e quando notou quem eramos, não conseguiu conter sua felicidade. - Nossa, que emoção estar perto de vocês! Eu já estava esperando-os, mas confesso estar surpresa com a felicidade que estou sentindo. Sou uma das maiores fãs que vocês têm! – ela exclamou, enquanto piscava para Ric. Em seguida, ela nos acomodou em uma mesa que estava reservada para nós, e

disse

que

buscaria

o

Sr.

Hudgens.

Enquanto


aguardávamos, o pianista começou a tocar November Rain, da banda Gun’s and Roses. Essa música sempre mexe comigo,

então

meus

olhos

ficaram

marejados,

e

imediatamente tentei disfarçar. - Eu estou falando com você, Vivianne! Vai continuar me ignorando por infantilidade, mesmo? - Do que você está falando, Timóteo? Não estou ignorando você! Deus sabe como eu queria que isso fosse possível, mas sei bem que isso só iria nos atrapalhar ainda mais. - Sei! Er... eu só estava perguntando se está bem. Está quase chorando. - Ah, você viu! – Que legal – Estou bem, sim. Só que... eu... bem, tem alguma coisa no meu olho. - Tem? Deixe-me ver! – e então ele se inclinou para olhar melhor. – Tem alguma coisa em cada um deles? Porque os dois estão cheios d’água. – ele disse em um tom desconfiado, beirando à irônia. - É, isso, isso! – Senhor Jesus, arranque de mim essa vontade de bater a cabeça dele na parede. - Acho que estou vendo algo! – ele disse enquanto se inclinava para ainda mais perto de mim. Se ele se movesse mais um centímetro, acabaríamos nos beijando. Tentei me afastar, mas ele segurou minha cabeça.


P á g i n a | 52

- Ei, quer que eu ajude ou não? “Não!” – pensei - Sim! – eu disse. Então seu dedo indicador se moveu em direção ao meu olho direito, mas quando tocou meus cílios, ele fez uma espécie de cócega e baixou o dedo. Nesse mesmo instante a música acabou. - Tirou o que estava me incomodando? - Na verdade, não precisei. O que estava te EMOCIONANDO acabou nesse instante. – e seus lábios se curvaram em um sorriso largo e debochado. - É impressionante como te odeio cada dia mais – eu disse ao mesmo tempo em que o Sr. Hudgens e todos os integrantes da banda se juntaram a nós. - Por enquanto! – ele sussurrou, antes de voltar sua atenção aos recém-chegados. - Boa noite a todos! – o Sr. Hudgens disse, enquanto se sentava. E quando me olhou, sorriu. – E boa noite a você, Viviane Santinni! Pelo jeito, a revista Everyone sabia do que estava falando quando te elegeu como uma das 10 mulheres mais lindas do mundo. - Sabiam até certo ponto, porque erraram feio em uma coisa: ela não merecia a sexta posição. Deveria estar, no mínimo, disputando pau a pau o topo da lista. É um prazer conhecêla! Meu nome é Euller, e esses são Jason, Chad, Carl e Teddy.


- É um prazer conhecê-los! – eu disse, me sentindo febril de tanta vergonha. Sabe aquele momento em que você inveja a ema por poder esconder a cabeça em um buraco? - Ela é maravilhosa, mesmo, mas tem três fortes seguranças que sempre quebram a cara de quem tenta encostar nela um dedo que seja. – disse Cadú em tom de ameaça. No começo, um silêncio constrangedor pairou sobre nós, mas logo em seguida todos começamos a rir. Quando o clima amenixou, eram apenas elogios pra lá e elogios pra cá, até que o Sr. Hudgens finalmente resolveu dizer o propósito da reunião. - Bom, vamos diretamente ao ponto. Os rapazes estão em uma turnê, e ficamos sabendo que semana que vem vocês estarão em Nova York. Pois justamente na próxima sextafeira eles farão um show no Madison Square Garden, e fariam muito gosto se vocês fizessem uma participação especial nesse show. O que vocês me dizem? Topariam fazer essa participação especial? - Claro! – respondemos os quatro em uníssono.

Quando cheguei ao meu quarto, eu estava dividida em dois sentimentos: o cansaço e a felicidade. Sempre sonhei em cantar uma música ao lado do Euller McTravis, e só de pensar que estava tudo acertado para que isso acontecesse na próxima semana, meu estômago dava voltas. Claro que a Rita ainda tinha que aprovar. Nós os deixamos cientes disso,


P á g i n a | 54

mas a possibilidade de ela vetar essa parceria eu avaliava em 0,001%. E eu estava certa. Quando liguei para a Rita contando a novidade, ela deu um grito que fez com que eu perdesse temporariamente cerca de 80% da minha audição. Ela disse que fazia questão de ligar para o Sr. Hudgens e acertar tudo. Por fim, decidi encerrar a noite com um mergulho na hidro enquanto bebericava uma taça de vinho, para relaxar. Liguei o som e, enquanto ouvia uma seleção de músicas do Queen, me enchi de espuma, joguei a cabeça para trás e fechei os olhos.

E então ele voltou. Eu não

precisava abrir os olhos para saber que ele estava lá. Na verdade, eu não poderia abrir os olhos nem se eu tentasse. Ele nunca me deixa dar uma espiadinha que fosse. Como sou mais teimosa que uma mula, forçei meus olhos com toda força que foi possível, mas obviamente que minhas pestanas nem se moveram. Ele começou a rir, e era uma risada gostosa, daquelas que você quer rir junto, sabe? - Você é, sem dúvida alguma, a pessoa mais teimosa da face da terra. - E você o sonho mais irritante que qualquer pessoa possa ter. -Você tem certeza disso? – ele passou a ponta dos dedos no meu joelho esquerdo, que bandeou para o lado dele. Aquele joelho traidor! – Além do mais, quem disse que eu sou fruto de um sonho? Pois te garanto que sou mais real do que você pensa.


- Ah, é? Então me explique o motivo de você só aparecer quando eu estou dormindo, e o fato de você sumir quando acordo. - Eu não preciso te explicar nada. No fundo você sabe todas as respostas. - Ah, e você possui o dom de enxergar o que nem eu mesma enxergo? -

Adoro

quando

você

fica

brava,

sabia?

Você

fica

extremamente sexy. - Então você me acha sexy... - Eu tenho olhos, ouvidos e nariz. São esses três órgãos que vivem me confirmando que você é, sem dúvida alguma, extremamente sexy. – E é por essas e outras que tenho certeza de que ele é um sonho. Qual outro homem na face da terra que tem o dom de falar todas as coisas que podem me deixar de quatro? - Ok, então você me acha extremamente sexy. E o que você fará sobre isso? - Mais coisas do que você pode imaginar! Você ainda não sabe, mas eu vou realizar todos os seus desejos, todas as suas fantasias... é só você me aceitar – ele disse enquanto acariciava meu pescoço.


P á g i n a | 56

- Você vai realizar todos meus sonhos? Eu já estou realizando todos meus sonhos por mim mesma. Estou mais interessada em saber como é que você vai realizar todas as minhas fantasias. Pode me dar uma demonstração? – provoquei. - Você quer me deixar louco, não é? – e então ele entrou na hidro, ficando em cima de mim. Seu quadril se juntou ao meu, e pude perceber que seu desejo era bem real. Real até demais. - Você existe! - Claro que existo! Como alguém que não existe é capaz de te fazer isso? – ele disse, enquanto apertava minhas nádegas de encontro ao seu quadril. - Por que não posso te ver? Eu quero ver você! Eu preciso ver você! - Ainda não, gatinha! Mas prometo que não vai demorar muito para você conseguir abrir os seus lindos olhinhos. - Isso não explica nada. Por que você tem que ser tão misterioso? Fale de uma vez o que preciso fazer para te ver! - Ts, ts, ts! Não vou falar, você tem que perceber sozinha! Além do mais, se eu deixar de ser misterioso, você vai deixar de me querer. E definitivamente eu não quero que isso aconteça. - Eu não vou deixar de te querer! Prometo! Só queria saber como que você faz pra colar meus olhos desse jeito. Não


consigo abrir de forma alguma. Nunca vi nenhuma cola desse tipo, antes. - Psiu, gatinha! Deixa essas dúvidas pra lá! Vem cá, vem! - ele me puxou pra perto e traçou meu pescoço todo com beijos suaves, enquanto acariciava minhas costas. Quando beijou meu queixo, eu fiquei com medo. No último sonho, quando ele quis me beijar na boca, eu acabei acordando. E se acontecesse isso de novo? Me afastei bruscamente. - O que foi? Te machuquei? - Não, é que cófff, cóff... gáspp – o que eu estava falando? Agora eu era fluente na língua do cacarejo, também? - Gatinha, o que foi? Você está ficando roxa! – Cóóóf, cóóófeee... – não, não, não era um cacarejo, era uma espécie de tosse, mas não era tosse... era como se eu estivesse.... estivesse... ENGASGADA! Abri os olhos e tossi ininterruptamente, até que acabei vomitando. Eu tinha engolido muita espuma! Às seis horas da manhã eu levantei, tomei banho, sequei meus cabelos, coloquei um shorts jeans branco e uma blusinha preta de um ombro só. Fiz uma pequena mala e desci para tomar café. Os meninos ainda não tinham chegado, então coloquei minhas coisas em uma mesa e fui me servir. Como sempre, peguei uma fatia de mamão, um mini pão francês, duas fatias de queijo branco, um copo de


P á g i n a | 58

café com leite e um copo de suco de laranja sem açúcar e com três pedras de gelo. Sentei e comecei a devorar as fatias de queijo quando uma mochila é arremessada ao meu lado, quase levando minha cabeça junto. - Tenha mais cuidado, Cadú! Quase me machucou, poxa! - Ah, desculpe, Vivi! Estou meio dormindo, ainda. Detesto acordar cedo, você sabe! E para piorar, não consegui dormir direito, porque o Ric chegou super bêbado e não calava a boca, e o Tim teve um pesadelo e ficava se mexendo e choramingando sem parar. Ele deve ter sonhado com os finados pais dele, só pode. - E cadê eles? A Limusine chega em 15 minutos. - O Ric está chegando aí, olhe – ele disse, apontando para a porta. O Ric estava com uma bermuda jeans escura, uma regata branca e uma camisa xadrez por cima. Estava usando chinelos Havaianas e óculos escuros tão grandes que faziam seu

rosto

parecer

pequeno.

Seu

cabelo

estava

todo

desgrenhado, e não pude deixar de rir daquela cena. - Bom dia! – ele disse, com voz rouca de quem tinha acabado de acordar. - Bom dia! Você ao menos tomou banho? – perguntei. - Pode me chamar de tudo, menos de porco! – ele disse, irritado. – Cadú, o Tim pediu para você pedir um café e um lanche de queijo para viagem.


- Por que ele pediria para mim e não para você, já que você que pegou o recado? - Sei lá, pode ser que eu tenha entendido mal... ou apenas te disse que ele pediu para você porque estou incapacitado de fazer qualquer outra coisa além de dormir. - Sabia! Te conheço, malandrão! Mudando de assunto, ele ainda está no telefone com ela? - Yep! E parece que a conversa vai longe. E aí, vamos pegar uma gororoba, ou você está de regime? - Tá me tirando? Só farei regime no dia que você parar de sair com uma garota por dia. - e então os dois foram se servir. Nisso, a Bia chegou e avisou que a Limusine já estava na porta do hotel. Avisei os meninos, eles logo sentaram e começaram a comer. Liguei no quarto do Tim. Ele demorou uma eternidade para atender, mas enfim disse: - Fala, porra! - Ei, olha a boca suja! A Limu chegou. Não me faça ir até aí e te pegar na marra. – e então ele desligou na minha cara. Que doce de pessoa que ele é. Cinco minutos mais tarde eu já tinha perdido a paciência, então resolvi ir buscar o Tim e arrastá-lo até a Limusine pelo colarinho, mas quando o elevador abriu, ele saiu com sua cara de sínico que só ele sabe fazer. Para ajudar ainda mais, ele ainda estava no celular.


P á g i n a | 60

- Entra logo antes que eu quebre essa merda de celular! – esbravejou Ric, que estava com um humor do cão. Dez, quinze, vinte minutos mais tarde e o Tim ainda estava no celular. Eu estava com a minha cabeça explodindo, então tomei dois analgésicos e deitei no colo do Cadú, que ficou fazendo cafuné. A Bia estava lendo um livro de romance sobrenatural e o Ric estava tentando cochilar. Mais dez minutos se passaram e um urro masculino me pegou tão de surpresa que dei um pulo. - Aaaaiii, que caralho, Tim! Ou você desliga agora essa porra de celular ou vou fazer você engoli-lo. - Dá pra ter um pouco mais de respeito pelas conversas dos outros, Ric? Eu estou resolvendo uma coisa importante. – replicou Tim. - Sei bem a importância desse assunto! – ironizou, já que estávamos cansados do rolo em que o Tim e a Letícia tinham. Ela era uma ridícula ciumenta que nem ao menos olhava na cara de alguém da banda, com exceção do Tim. Quando ele se encheu do comportamento dela e terminou tudo, ela foi para Nova York fazer intercâmbio, mas vivia ligando para ele e implorando para voltar. - Você está pendurado no celular desde as seis e quinze da manhã. Já deu tempo suficiente até para recitar a Bíblia toda. A Letícia já entendeu que você terminou com ela porque ela te sufocava, e você sabe muito bem que ela ainda é louca por você. Então marquem logo a próxima sessão de amassos e desligue essa merda.


- Le, eu tenho que desligar. Fica combinado um jantar na segunda, então? Fechado! Então até lá! Um beijo! - e então ele finalmente desligou o celular e calou a boca. Fechei os olhos e senti que finalmente conseguiria me entregar ao sono. O remédio havia me deixado muito sonolenta. Mas então a Limusine fez uma curva mais fechada e senti meu estômago ir até a boca. - Sai, sai, sai! – gritei para o Cadú, que estava na janela. Como não daria tempo para ele trocar de lugar comigo, sentei no colo dele e abri o vidro. Esvaziei meu estômago inteiro. Alguém estava segurando meu cabelo para que eu não o sujasse, e eu seria eternamente grata por isso. - Vi, o que você está sentindo? – perguntou Bia. - Quer que eu peça para o motorista parar o carro? – perguntou Tim. Nisso, eu já conseguia falar. A Bia me deu um lenço e limpei minha boca e meu queixo. - Eu estou muito enjoada e com dor de cabeça. Se pedir para parar o carro, não vamos conseguir chegar à WKG (emissora responsável pelo Midnight Talk Show) a tempo. - Nossa prioridade é sua saúde, Vivi! - Ah, Cadú! Você é o melhor, meninão. – ao dizer isso, meu estômago voltou a revirar e enfiei a cabeça para fora da janela para vomitar novamente.


P á g i n a | 62

- Toma, Vivi! Eu trouxe por precaução. Você não é alérgica ao Dramin, é? - Não! Obrigada, Bia! Era disso mesmo que eu estava precisando – eu disse com toda sinceridade do mundo. Eu não estava me sentindo nada bem. Cerca de meia hora depois, o Dramin começou a fazer efeito, mas não o que eu queria. Se você já tomou Dramin, sabe que ele realmente melhora a ânsia, mas também dá um sono danado. O problema era que especificamente naquele dia a ânsia não melhorou, mas o sono bateu pesado, e eu não sabia a que eu atendia: se ao sono ou se à ânsia. Definitivamente estes dois sintomas não combinam nem um tiquinho sequer. - Eu não estou me sentindo nada bem. Por favor, vocês podem abrir os vidros? - Claro, Vi. – disse Bia, que para abrir o vidro da porta que estava ao seu lado teve que passar os braços por cima do Ric, que dormia encostado na porta. Em um determinado momento, eu consegui dormir. Daquela vez eu não sonhei com o Sr. Superbonder, nem com qualquer outra pessoa. Eu simplesmente apaguei. Acordei já em Burbank, e resolvi me sentar para ver a cidade, mas o movimento foi brusco demais para o meu estado, e comecei a me sentir mais mole do que eu já estava. - Cadú, eu acho que vou d.... - e então eu desmaiei.


O resto das minhas lembranças desse dia são apenas curtos flashbacks. Eu acordei em um determinado momento com o Ric, o Cadú, o Tim e a Bia em pé à minha frente discutindo sobre “compromissos agendados”. Então apaguei. Depois acordei e senti uma mão na minha, mas eu estava tão cansada que fiquei com preguiça de abrir os olhos. Nem tentei. Apaguei de novo. Abri os olhos e vi o Brian Levicce com o rosto a centímetros do meu. E então eu sorri, mas foi o suficiente para queimar qualquer energia que eu tivesse no meu corpo, porque de repente “Bammm”, apaguei de novo. E então meus olhos estavam grudados, e o Sr. Superbonder dizia que tudo ia ficar bem, que ele estaria sempre ao meu lado, que ele tinha me achado e nunca mais me deixaria ir. Bammm! O Tim estava deitado na cama ao lado da minha, olhando para mim com um olhar preocupado. Eu queria dizer alguma coisa para provocá-lo, mas apaguei novamente. E então acordei de vez. - Ric, ela abriu novamente os olhos. Vamos ver se desta vez ela consegue ficar consciente por mais de três segundos. - Pode ter certeza de que eu vou tentar. – eu disse, num fio de voz. - Ei, amuletinho! Que bom ouvir sua voz. Como você se sente?


P á g i n a | 64

- Um pouco melhor, Ric! Eu queria pedir desculpa para vocês por ter estragado nossa primeira participação em um programa americano. - Calma, você não estragou nada. Depois que te trouxemos pra cá, o médico disse que te sedaria e que você dormiria por várias horas. Nós conversamos um pouco e decidimos que não faríamos falta se nos ausentássemos um pouco daqui e fôssemos dar a entrevista. Claro que deixamos a Bia aqui, olhando você. – explicou Cadú. - Então vocês foram? Que bom! É um alívio saber que não estraguei tudo. - Pode parar! Você não está em condições de se preocupar com nada. É melhor descansar mais um pouco. - Não,, Ric! Já dormi muito. Aliás, por quanto tempo fiquei inconsciente? - Vejamos... cerca de 26 horas. - O quê? Nossa, isso é tempo demais! Quero ir embora! Vocês podem me ajudar a me levantar? - Você só sai daqui quando o médico te der alta, Vi! - Vocês ainda não me disseram o que aconteceu comigo. - Você está com uma séria anemia. - Nossa! Mas eu não como tão mal, assim... Ei, cadê a Bia?


- No hotel, dormindo. Nós pedimos para ela ir porque o hospital só permite dois acompanhantes por vez, e já estão fazendo uma exceção pra nós deixando um a mais. - Um a mais? - Sim, o Tim só foi tomar um café e comer alguma coisa, porque ele passou a noite toda acordado vendo se você ficaria bem. A verdade é que nós sugerimos revezar, mas eu tinha passado a noite anterior em claro e com certeza iria dormir, mesmo que eu me esforçasse para ficar acordado, e o Cadu estava

visivelmente

esgotado,

então

ele

decidiu

que

poderíamos cochilar, enquanto ele ficava de plantão. Agora ele está destruído, coitado. E por falar nele, olhe quem está vindo. - ele estava chegando com três cafés da Starbucks. Quando me olhou, respirou aliviado. - Ei! – ele disse. - Ei! – respondi. – Você está com uma cara péssima. Precisa urgentemente tirar um cochilo. - Não, eu estou bem. Pelo visto, você está bem melhor. O médico já soube que você está acordada? - Acho que não. - Não, nós ainda não avisamos. – complementou Ric.


P á g i n a | 66

- Vivi, depois que te sedaram houve alguns momentos em que você abriu os olhos. Você estava consciente, por acaso? – perguntou Cadú. - Em alguns momentos sim, mas tive alguns delírios, também. Minha imaginação estava muito fértil. – eu disse, pensando nas visitas do Brian e do Sr. Superbonder. – Mas com certeza eu vi vocês quatro discutindo e depois vi o Tim deitado na maca ao lado, me olhando. Valeu por isso, Tim! Enquanto Tim enrubescia e olhava para os próprios pés, o Ric e o Cadú se entreolharam. Senti que estava rolando algo que eles ainda não tinham me dito, e então Ric resolveu falar: - Sem querer ser intrometido, mas você poderia nos dizer quais foram seus delírios, Viv’s? - Claro que não! - gritei. – Delírios são coisas pessoais – disse em um tom mais baixo, desta vez. - E envolvem, por acaso, o vocalista do Blue4us? - Meu Deus! Eu não estava delirando só em pensamento, mas sim em voz alta, né? – eu disse quase desabando em lágrimas de vergonha. E então os dois caíram na gargalhada. - Ah, muito legal vocês dois! Quando estiverem de saída, não me esquecerei de cobrar o ingresso. E olha que o cachê da palhaça aqui está em alta, viu? - Desculpe, Vi! Acontece que ele realmente veio te visitar.


- Ele quem? - Oras, de quem estamos falando? Brian Levicce, claro.


P á g i n a | 68

5 – SE VOCÊ GOSTA DE PIÑA COLADAS

“Se você gosta de Piña Colada e de tomar banho de chuva. Se você não curte yoga e tem apenas meio cérebro. Se você gosta de fazer amor à meia noite nas dunas de Cabo. Então eu sou quem você procura, escreva para mim e fuja.” – Escape (The Pina Colada Song) – Holmes Rupert

Naquela mesma noite tudo já estava voltando ao normal. O Cadú estava reclamando de fome, o Ric queria ir para alguma danceteria da cidade, o Tim já nem olhava na minha cara e o médico tinha acabado de me dar alta. Eu tomei um banho e coloquei uma calça legging preta com uma camiseta da mesma cor e jaqueta e botas da cor marrom. Peguei minhas coisas e agradeci ao médico e às enfermeiras e fomos em direção à Limusine, quando um batalhão de flashes caiu sobre nós, quase nos cegando. - Xi, esquecemos de te avisar, Vivi! Eles estão aqui desde que anunciamos no Midnight Talk Show que você estava no hospital

com

problemas

de

saúde.

Eles

passaram

a

madrugada toda acampados aqui. – explicou Ric. E foi só então que notei quantas pessoas estavam de pé, na rua, segurando faixas com mensagens de apoio e desejos de melhora. Aquilo era inacreditável. Todas aquelas pessoas


estavam lá por mim, se preocupavam comigo, sofreram por mim. E então os repórteres se aproximaram. - Vivianne, como você está se sentindo? Você vai conseguir cantar durante a turnê? – essa era uma repórter baixinha, usando um casaco vermelho e botas pretas. - Vivi, você acha que terá condições para participar do show dos Empty Botlles, na próxima semana? – desta vez era um repórter bonitão, que deveria ser poucos anos mais velho do que eu. Supergato! Mas como eu ainda estava chocada com todo aquele alvoroço, a repórter de casaco vermelho voltou a falar: - Vivi, o que você tem a dizer para tranquilizar aos seus inúmeros fãs? – Hum! Essa daí é esperta. Apelou para o lado sentimental. Peguei o microfone do repórter bonitão só para não dar moral para a baixinha e disse, olhando para todas as câmeras: - Em primeiro lugar eu queria agradecer a todos vocês que se preocuparam comigo, que torceram pela minha melhora. Eu estou melhor, só vou gravar um comercial amanhã e depois descansarei por uns dois dias. Com certeza estarei bem para o show dos “E.B.” na Time Square, e prometo arrebentar na nossa turnê. Quando eu estava internada, não tinha a menor idéia da multidão que estava aqui fora, esperando por notícias, e agora que saí e vi todos vocês aqui, estou super emocionada. É nesses momentos que percebemos o quanto


P á g i n a | 70

vocês são importantes para nós. Espero poder retribuir esse carinho através do meu trabalho. Obrigada mesmo, de coração! – e então entrei na Limusine. - Belo discurso! – elogiou Ric, com o Cadú concordando em seguida. - Sim, sim! Quase chorei! – debochou Tim. - Ah, cala a boca!

Nós fomos em direção ao Tangerine Hotel, onde tivemos que nos hospedar graças à minha anemia surpresa. O hotel era muito bem localizado: ficava perto da Universal Studios, de Hollywood e da praia. Uma pena que teríamos que voltar para Las Vegas na manhã seguinte. Ainda tínhamos que gravar mais um dos comerciais da ChocoRocker, e desta vez seria filmado em um dos Cassinos. Assim que chegamos, fui fazer o Check In quando alguém parou ao meu lado. Nem precisei olhar para saber que essa pessoa queria falar comigo. Olhei para ver quem era e travei. - Pelo visto você está bem melhor! Que bom te ver assim, já que você realmente me preocupou. - Como posso ter te preocupado se nem ao menos nos conhecemos? – eu disse com meu sorriso Mona Lisa, que faz a pessoa ter dúvida se estou falando sério ou se estou brincando.


- Bem, essa é nova! Nem lembro a última vez que alguém disse

que

não

me

conhecia.

Mas

eu

conheço

você.

Acompanho sua carreira há um bom tempo. Sou até do tipo fã maníaco, te curti no facebook, te segui no twitter, te adicionei no myspace, etc. Mas tudo bem, para que seja recíproco, deixe eu me apresentar: meu nome é Brian Levicce e sou vocalista da banda de pop rock Blue4all. Nasci aqui na Califórnia, mais especificamente em uma cidadezinha que não sei se você conhece... se chama Burbank. Ouvi até dizer que tem uma banda de rock famosa hospedada por lá. Talvez eu até dê sorte e acabe cruzando com um deles por aí. - Seu bobo! Eu quis dizer que não nos conhecíamos pessoalmente, e não que nunca tínhamos ouvido falar um do outro. - Mas é como eu disse. Eu sinto como se nos conhecêssemos há anos. Como se fossemos... íntimos! – Será que ele não sabe que ainda estou fraca e não aguento fortes emoções? Ele quer o quê, que eu tenha um piripaque aqui mesmo? - Sei! Sabe, Brian, eu também sou uma grande fã, e tudo mais, mas definitivamente não sou do tipo de garota com quem você flerta. - Do que você está falando? - Ah, você entendeu! Mudando de assunto, queria agradecer por ter ido me visitar no hospital. Foi muito gentil da sua


P á g i n a | 72

parte. Bom, eu estou muito cansada. Vou indo, outro dia nos falamos. Foi um prazer te conhecer! - Ah, você não vai a lugar nenhum. O que você quis dizer com “não sou do tipo de garota com quem você flerta”? - Para você realmente meia palavra não basta, não é mesmo? Mas tudo bem, eu explico o que eu quis dizer. O mundo todo sabe que você só namora topmodels. Eu não sou desse tipo de garota, super feminina, viciada em eventos onde eu possa promover a minha beleza. Eu não faço parte desse mundo. Eu como tudo que tenho vontade, adoro videogame, ensaio todos os dias e não faço minha agenda baseada na de nenhum namoradinho. Trabalho todos os dias com três super gatos... - às vezes insuportáveis, mas inegavelmente gatos, eu pensei - ... toco guitarra, baixo, canto, e pago minhas contas. Ou seja, não sou nenhuma super princesa que vive de concursos de beleza ou desfilando lingeries por aí, brincando de anjo. – destilei. Ele me olhava como se eu tivesse jogando um copo de suco na cara dele. - Você não acha que está sendo preconceituosa com o trabalho de modelos, não? - Um pouco, sim. Realmente conheço algumas modelos que são muito mais que corpos bonitos, algumas até brilhantes, mas não as estou julgando, não se engane. Estou julgando você. Sua quedinha pelo estereótipo. Agora que estamos esclarecidos, vou indo. Tenha uma boa noite! - e fui em direção ao meu quarto. Assim que entrei no elevador, percebi


que eu tinha sido a maior das idiotas. Como que eu, Vivianne, tinha esnobado o Brian? Eu devia estar fora de mim. Devem ter me feito um transplante de cérebro no hospital. Ou sugaram meus neurônios. Ou eu os vomitei para fora da Limusine, na estrada. - Sua besta! Sua anta! Sua burra! Sua imbecil! Sua incompetente! Depois de tantos anos babando por ele, sonhando com ele, depois de tantas música compradas no Itunes, de tantas revistas...- a porta do elevador abriu e o Cadú e o Tim entraram. - Vi, você está bem? - Não Cadú! Quer saber por quê? Porque sou uma besta, uma anta, uma burra, uma imbecil, uma incompetente.... Ah, quer saber? Deixa pra lá! Repetir o dicionário de xingamentos não vai mudar o fato de eu ser uma... - Tá, ta! Já entendemos! Mas o que houve? - Nada! – resmunguei. – Só meu atestado de solteirice eterna. E posso saber para onde vocês estão indo? O quarto de vocês não é no quarto andar? – quando acabei de perguntar, o elevador parou no meu andar. - Nós? Pra lugar nenhum! – respondeu Cadú rápido demais. - Tim? – insisti com meu olhar “CONTE AGORA OU EU TE MATO”.


P á g i n a | 74

- Desde quando você me coage a fazer o que você quer? E solte a porta do elevador. Devem ter outras pessoas esperando. - Ok! O problema é de vocês! Não preciso saber, desde que não me incomodem com nada. Bye!

Eu acordei e senti meus olhos colados, mas não tinha qualquer outro vestígio de que o Sr. Superbonder estivesse ao meu lado. Ele não apareceu, então voltei a ter um sonho comum. Sonhei com um palco montado em cima de um mar, e as pessoas assistiam em uma passarela que foi construída para ser intermediária entre o palco e a terra. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Eu passava pela multidão com um vestido verde água de um ombro só, com meus cabelos soltos, lisos e ao mesmo tempo ondulados. Quando pisei no palco, percebi que estava descalça, então eu comecei a rir. Todo mundo ria comigo e aplaudia e eu procurei os meninos. Eles estavam em suas posições, logo atrás de mim, mas estavam amarrados em algas marinhas que tentavam puxá-los para dentro da água. Eu comecei a me desesperar, mas então o Ric disse: “Vivi, só você pode nos ajudar. Só confiamos em você, sempre foi você”. Mas eu não conseguia libertá-lo das algas, e o Cadú e o Tim começaram a gritar. E então ela chegou. Ela estava com uma faca simples de serra, mas conseguiu facilmente libertar o Cadú, depois o Ric, e finalmente o Tim. Em forma de agradecimento, ele a beijou.


Foi um beijo que durou uma eternidade, e eu estava enojada só de olhar. Quando o beijo acabou, o Ric e o Cadú foram até essa mulher e levantaram suas mãos, como se ela tivesse acabado de ganhar um campeonato. Então o Tim veio para perto de mim, arrancou meu baixo da minha mão e o deu à mulher que os salvou. - Não! – eu pedi em tom de súplica. - Você não é digna da Rock & Pie! Nunca foi! – ele disse. - Vivianne Santinni,l Você é uma besta! Uma anta! – disse Cadú. - Uma burra! - xingouRic. - Uma imbecil! – completou Tim. E então eu acordei Olhei no relógio e eram quatro da manhã. Eu estava com uma sensação ruim, e fiquei preocupada com os meninos. Resolvi ligar no quarto deles. Que se dane se eles acharem ruim! - Alô! - Ric, é a Vivi! Vocês estão bem? - Que saco! A Bia jurou que não ia nos dedurar! - A Bia o quê? Mecontetudoagora! – gritei tão alto e tão rápido que ouvi um Tuiiiimmmm vindo da minha cabeça.


P á g i n a | 76

- Ei! Grita no ouvido da sua mãe! Se você não sabe o que aconteceu, por que ligou, porra? - Tic, tac, tic, tac! – eu disse! - Tá bom! Você sabe ser bem chata quando quer. Bem, logo que chegamos do hospital eu conheci uma garota chamada Lisa que está hospedada na cobertura. Ela disse que é super fã da banda e... - Dá pra resumir, cáspita? - Resumindo, eu avisei os meninos e fui para a festa, e os dois foram em seguida. Eu logo me atraquei com a Lisa e fomos para o quarto dela. Do nada, ouço o Tim gritar por mim. Como eu estava no bembom, confesso que no começo decidi ignorar, mas como ele continuou me chamando, imaginei que fosse alguma coisa séria e fui correndo até eles. Foi então que eu vi o Cadú passando mal. Ele estava totalmente fora do ar, com os olhos vidrados, e vomitando por tudo quanto era canto. Nós não sabíamos o que era, e decidimos pedir ajuda, mas como sabíamos que você não iria, como você deixou bem claro da última vez, nós acabamos ligando para a Bia. Quando ela chegou lá, interrogou todas meninas e descobriu que o Cadú tinha bebido uma Piña Colada batizada com “Boa Noite Cinderella”. Ela enfiou o dedo na garganta dele e o fez vomitar tudo, e então viemos para o quarto.


- Vocês... como é que... ah, que se dane! Prometi para mim mesma que não iria mais tratar vocês como crianças. Mas me diz uma coisa: como está o Cadú? - Sei lá, parece que bem! -Sei lá, parece que bem! Uau, que responsáveis vocês são. E diga se eu adivinho: agora vocês estão tirando a roupa e vão dormir até amanhã, né? - Claro! Olha a hora! - Claro, eu olho a hora! Olho a hora que vocês deviam estar no quinto sono ao invés de estar deixando nosso parceiro mais novo tomar Piña Colada batizada. Quer saber? Pula pra cama do Tim ou vá dormir no sofá, sei lá, mas deixe sua cama livre pra mim que estou indo para aí em dois minutos. - Ah, você não vai dormir aqui nem em um milhão de an...mas ele se calou quando ouviu o tu, tu, tu do telefone. Eu coloquei um robe por cima da minha camisola, porque ela era curta demais pra ficar me exibindo pelo hotel, e fui correndo pro quarto deles. Bati na porta, mas ninguém abriu. Bati de novo e já disse em alto e bom som: - Enquanto vocês estavam na farra, eu estava dormindo. Então eu estou descansada o suficiente para ter energia de ficar batendo a manhã inteira nessa porta. E vocês, estão com energia para desperdiçar essa noite de sono ouvindo eu ficar reclamando aqui no corredor?


P á g i n a | 78

- Ok, eu me rendo. – disse Ric ao abrir a porta. - Dormirei no sofá. – eu entrei e fui direto pra cama do Cadú. Eu o cutuquei e perguntei se ele estava bem. Ele disse que sim, mas me chamou de mãe. O Ric riu da cena e então o Tim saiu do banheiro.

de

cueca.

Quando

me

viu,

seus

olhos

arregalaram, e em seguida ele perguntou: - Que diabos você está fazendo aqui esta hora da madrugada? - O Ric me disse que vocês estavam indo pra cama dormir, e como eu já dormi o suficiente, resolvi fazer pelo Cadú o que você fez por mim. Vou passar anoite acordada, vendo se ele precisa de alguma coisa. Como você já está há um tempo sem ter uma boa noite de sono graças a mim, resolvi deixar vocês dormirem sossegados. - Não seria mais fácil você levá-lo para o seu quarto? - Você está disposto a carregá-lo até lá? Além do mais, aqui eu sei que se acontecer alguma coisa eu posso contar com a ajuda de vocês. Ou será que minha presença aqui te incomoda tanto a ponto de você preferir fazer as coisas de outra forma? - Não, você está certa. Mas não se esqueça de que você também não está nada bem. Se o Cadú passar mal me chame, ok? Não faça nenhum tipo de esforço. - Ok! Combinado! – e sem querer acabei olhando para seu peito nú. Era bem definido, mas sem excesso de gominhos, de forma que parece mais natural do que aqueles malhados


exageradamente. Ele tinha o peito liso, com exceção de uns poucos pelos que somados não dariam uma dúzia. Desci os olhos e olhei para sua barriga. Até prendi o ar. Nossa, o corpo dele era incrível! Não era malhado ao extremo, mas ele tinha aquela marquinha dos ossos do quadril que sempre adorei, parecidas com a do Cadú. Olhando bem, percebi pela primeira vez o quanto ele era lindo, no conjunto total. A pele dele parecia firme, mas ao mesmo tempo eu tinha a certeza de que se eu a tocasse, seria macia como seda. Quando desci os olhos mais um pouco, até esqueci onde eu estava, quem ele era, quem eu era, e em que mundo vivíamos, porque as coxas dele beiravam a perfeição. Eram largas, roliças e firmes, como as de um jogador de futebol. Não tão definidas nem tão grossas quanto as do Ric, mas o suficiente para me fazer babar um pouco. Ah, Vivi! Pare de olhar! Olhe para o chão, ou para a parede, para qualquer lugar, menos para o corpo dele. E então meus olhos responderam ao meu pedido, mas não olhei para o chão, nem para a parede, mas sim para os olhos dele. Aquele foi o momento mais constrangedor pelo qual já passei, porque percebi que ele tinha notado meus olhos passeando por seu corpo e mesmo assim ele continuava lá, parado na minha frente, com o Cadú dormindo e o Ric tentando copiá-lo. Ele estava com uma expressão estranha, e nossos olhos ficaram presos por pouco mais de um minuto, quando ele deu um passo na minha direção. Meus joelhos tremeram e eu senti um frio imenso na barriga. Ele ia dar o segundo passo quando Ric resmungou:


P á g i n a | 80

- Dá para apagar a luz ou está difícil? O Tim pareceu frustrado, e acabou dando as costas para mim. Eu me encantei com a tatuagem que ele tem nas costas, logo embaixo do ombro. Era um dragão chinês imponente, e não pude deixar de compará-lo ao dono. O Tim era uma espécie de dragão: vive soltando fogo, tentando me queimar. O pior é que eu estava mesmo me sentindo queimada, mas de tão quente que ele havia me deixado. Se eu estivesse no meu quarto, sem dúvida alguma de que eu játeria tomaria um banho gelado. Eu passei as horas seguintes tentando seriamente me concentrar no Cadú, mesmo estando com aquela vontade esquisita de olhar o Tim dormir. Eu devia estar alucinando um pouco, ainda. Afinal, tinha tomado vários remédios nos últimos dias. O Ric foi o primeiro deles a acordar, e já eram nove horas da manhã. Eu o deixei de olho no Cadú e fui ao meu quarto me trocar, e quinze minutos depois voltei para acordarmos o Tim e o Cadú, porque ainda tínhamos que tomar café, arrumar as malas e pegar o vôo do meio dia e vinte para Vegas. O Cadú acordou um pouco mal, mas conseguiu levantar e se vestir para tomar o café, mesmo insistindo que não estava com um pingo de fome. Eu o convenci de que comer o faria se sentir melhor. Nós pegamos o elevador e paramos no térreo. Mal o elevador abriu e uma das funcionárias do hotel já veio até mim para me entregar um ramalhete de flores gigantesco. Eram rosas de várias cores, e algumas ainda estavam fechadas. As flores eram


lindas, mesmo não sendo as minhas favoritas. Fiquei parada, tentando entender a procedência daquele ramalhete, quando localizei um cartão no meio de alguns botões. O bilhete foi escrito à mão e a letra era muito bonita. Estava escrito em inglês e dizia o seguinte: “Você estava certa sobre meu padrão anterior. Mas o mundo é feito de mudanças, e o que eu quero HOJE é totalmente diferente do que eu já quis em qualquer outro dia. Você não tem a mínima idéia do quanto é especial. B L.” Eu mal tive tempo para pensar sobre isso quando o Ric puxou o bilhete da minha mão e os três leram cada linha escrita. Nenhum deles falou uma palavra sequer, mas pude ver no rosto deles que eles não gostaram nadinha. Quando chegamos ao salão onde estava sendo servido o café da manhã, avistamos a Bia sentada em uma das mesas. Fomos até lá e ela me abraçou, dizendo que estava feliz por eu estar melhor, e então falou no meu ouvido: - Eu estou aqui há mais de uma hora e ele já estava aqui. E ele não comeu nada, nem para disfarçar. Tenho certeza que estava esperando você descer. - Ele quem? – eu perguntei, mas logo em seguida o avistei.


P á g i n a | 82

- Não olhe agora, mas ele está vindo pra cá! – e meu coração disparou. Fingi que não sabia de nada e sentei à mesa, ao lado do Cadú, que estava sem apetite. Meu coração se apertou de pena. Ele devia estar muito mal para não ter a mínima fome. O Ric e o Tim estavam em pé ao lado do Cadú, como se estivessem indo buscar o que iriam comer, mas algo os tivesse parado no caminho. Lógico que percebi que eles tinham notado que o Brian Levicce estava vindo até a nossa mesa e que ficariam parados lá, com pose de macho, apenas para espantá-lo como eles sempre faziam com qualquer bonitão que se aproximasse de mim. Na verdade, eu não beijava ninguém desde que entrei na banda. - Bom dia, pessoal! Bom dia, Vivi! Posso falar com você? – Meu Deus, ele estava mais lindo do que nunca. Estava usando uma calça jeans skinny preta com uma camiseta branca de gola v que marcava deu abdômen sarado e seus braços musculosos. - Bom dia pra você também! Claro que podemos conversar! - Sem querer me intrometer, mas será que não seria melhor conversarem em uma outra hora? Porque ainda temos várias coisas pra fazer antes de pegar o vôo. – interrompeu Ric, ignorando o olhar feio que lancei pra ele. - Ela tem que se alimentar bem, acabou de sair do hospital. Concordo que vocês deveriam conversar em uma outra hora. – disse Tim em um tom nada agradável. O que há de errado com esses dois?


- Eu concordo plenamente, ela tem que se alimentar. Por isso vim até aqui, para ver se ela me faria companhia. Eu ainda não comi nada e a fome está começando a bater. Você me daria essa honra? – ele disse no jeito mais cavalheiresco do mundo. -Bia, por favor, faça com que o Cadú tome pelo menos um suco e coma uma fruta. Eu vou tomar café com o Brian! – finalizei a frase lançando um olhar de triunfo para os dois patetas que queriam me atrapalhar. Quando sentei à mesa com o Brian, eu estava sem fala. Eu quase me belisquei para ver se aquilo não era um sonho. Ele estava meio inseguro, pelo que pude perceber, e só ficava me olhando, com aqueles olhos castanhos esverdeados. - Acho melhor nos servirmos antes que eu acabe me atrasando. Eu ainda tenho que arrumar minhas coisas antes de pegar o vôo. - A que horas é o seu vôo? - Meio dia e vinte. - Então vamos! Eu me servi com as mesmas coisas de sempre: o suco de laranja com três pedras de gelo, o copo de café com leite, o mini pão francês, duas fatias de queijo branco e uma fatia de mamão. Ele pegou duas fatias de pão de forma integral, um


P á g i n a | 84

pouco de ovos mexidos, duas fatias de queijo branco e uma xícara de café preto. - Vou ficar de olho para ver se você vai comer tudo, senão seus rapazes virão até aqui me socar. – ele brincou. - Não se preocupe. Eu como bem, nunca tive problemas quanto a isso. Só acho que não estava balanceando bem as vitaminas necessárias. Vou procurar uma nutricionista assim que voltar para o Brasil. - Ah, não estrague esse momento! Vamos fingir que você mora por aqui, ok? - Ok! – eu disse rindo. – A propósito, obrigada pelas flores. São lindas. - Obrigado! Que bom que gostou! Toda mulher é louca por rosas. – Todas menos eu! Mas eu não disse nada para não estragar o clima. - Fiquei sabendo que vocês vão para Nova York, amanhã. - Sim! Nós alugamos uma casa em Manhattan, vamos descansar por dois dias e então terá o VMA. Faremos a apresentação da nossa nova música de trabalho. - Eu confesso que já ouvi! É excelente. Todas são, na verdade. - Como você ouviu? Gravamos na semana passada! - Tenho meus contatos! Já disse que sou um grande fã, e como qualquer outro grande fã, faço o que posso para saber tudo sobre meus ídolos.


- Nós somos seus ídolos? - Um dos principais. Você, em especial. - Por que eu? Por que você está me dando toda essa atenção? Existem várias atrizes famosas e outras dezenas de cantoras que afirmaram publicamente terem uma queda por você. - E eu conheço uma dezena de atores, outra dezena de cantores, e outras centenas de caras que são fissurados por você. - Ah, por favor! É totalmente diferente. - Eu nunca imaginei que você fosse tão cega em relação à sua beleza. Você é maravilhosa, Vivianne! Seu sorriso, seus olhos, seu cabelo e até mesmo seu perfume, formam uma arma de destruição em massa de corações. – Nossa, isso soou um pouco brega ou foi impressão minha? - Também não vamos exagerar. - Digamos que eu esteja exagerando! Seus fãs também estão? Nunca viu os vídeos com declaração de amor que seus eles gravam e postam no Youtube? E o que me diz dos críticos da revista Everyone, que te elegeram como a sexta mais sexy do mundo? - Ah, Brian! Mas... - Mas nada – ele me interrompeu. – Olhe para mim! – e eu olhei. Os olhos dele brilhavam. Eu senti em arrepio na


P á g i n a | 86

espinha. – Eu sou louco por você desde que vi seu vídeo pela primeira vez, em uma língua que eu nem conhecia. Pedi para um colega meu que é brasileiro traduzir o cd inteiro. Fiquei horas e mais horas lendo as legendas e tentando decorá-las. Até aprendi algumas palavras em português, com isso. - Você está falando sério? Fez tudo isso para entender a letra das músicas? - Sim, fiz. E faria tudo de novo, e muito mais. – então ele se aproximou um pouco para pegar na minha mão. Eu permiti. Será que eu poderia te pedir uma coisa? - Diga! - Você jantaria comigo na terça à noite? - Combinado! - Você prefere qual tipo de comida? - Apenas me surpreenda! – eu preferi responder. Uma hora depois eu já tinha tomado banho e vestido um shorts jeans claro, decorado com pequenos rasgos no bolso e strass preto no bolso de trás escrito Rock & Pie (que eu mesmo mandei bordar), uma camiseta preta justinha com um decote generoso, e uma sandália de salto alto preta, que comprei na loja Santa Lolla. Peguei minhas malas e fui encontrar os meninos e a Bia na recepção. O Ric fez nosso check out e fomos até a Limusine. Todo mundo estava estranhamente calado, com exceção do Cadú, que perguntou


se podia deitar no meu colo até o aeroporto. Foi a Bia que resolveu quebrar o gelo: - E então, Vivi? Estamos todos morrendo de curiosidade. Como foi o café da manhã com o Sr. Gostosão? -

Nossa,

estamos

todos

realmente

morreeeeeendo

de

curiosidade! Estou quase borrando as calças de tanta curiosidade. – alfinetou Tim. - Sabe, Tim, algumas pessoas realmente se interessam pela minha vida e torcem pela minha felicidade. Dói tanto assim ficar pelo menos um pouco feliz por mim? – desabafei a mágoa que eu nem sabia que tinha. Os olhos dele se apertaram e ele ficou em silêncio por alguns segundos, e então disse em uma voz fraca e distante: - Eu não sabia que ele era tão importante para você a ponto de ser razão para sua felicidade. Eu preferi encerrar o assunto. Quando chegamos ao aeroporto, os flashes caíram sobre nós. Eram paparazzis aos montes, e uma repórter perguntou: - Vivi, há quanto tempo você e o Brian estão namorando? - Nós o quê? - Estão circulando pela internet várias fotos que indicam um romance entre vocês dois. Tem fotos de vocês jantando no


P á g i n a | 88

Four Seasons, tem vocês tomando café juntos nessa manhã, tem fotos dele entrando e saindo do hospital no qual você estava internada, tem fotos de vocês conversando no saguão do hotel. Então conte para seus fãs: vocês estão apenas ficando ou estão iniciando um namoro sério? - Não, nossos encontros foram ocasionais. Não rolou nada. E hoje foi só um café da manhã. Mais nada! - Mas Vivianne... - Não tenho mais nada a declarar!


06 – DE UM JEITO OU DE OUTRO

“De um jeito ou de outro, eu vou te achar, eu vou te pegar, te pegar, te pegar, te pegar. De um jeito ou de outro, vou te vencer, irei te pegar, irei te pegar. De um jeito ou de outro, eu vou te vencer. Vou te pegar, te pegar.” – One Way or Another - Blondie

Naquele mesmo dia, mal chegamos ao Four Seasons e já tivemos que voltar ao Cassino Excalibur para mais uma sessão de fotos. Eles haviam contratado figurantes que interpretariam fãs nos perseguindo, nas fotos, como uma espécie de encenação do incidente do começo da semana. A idéia dessa encenação para o ensaio fotográfico foi de um dos diretores da ChocoRocker, e nós não os decepcionaríamos. Afinal, foi o primeiro contrato milionário da nossa carreira. Por ter sido uma sessão mais ensaiada, nosso trabalho acabou antes do que pensávamos, então saímos para jantar e depois voltamos para o hotel. Aquela noite estava mais fria do que o comum, então me cobri com um edredom e me entreguei ao sono. - Você tem passado por maus bocados, hein!? – ele falou com aquela voz acetinada. Eu sabia que era o Sr. Superbonder, mas desta vez ele não iria me dobrar.


P á g i n a | 90

- Como se você se importasse. - Você sabe que me importo! - Eu sei? Quer saber a única coisa que sei? Sei que sempre que mais preciso de você, como num passe de mágica você desaparece! - Eu não desapareci em momento algum. Eu estive aqui o tempo todo, mas às vezes você não consegue me ver. - Isso não é verdade. Eu consegui chegar até aqui, mas você não estava. Quero dizer, eu senti meus olhos colados, mas você não estava. - Ei, escute o que tenho para te dizer: tudo que faço é por você. Aonde quer que eu vá, vou pensando em você. Há um bom tempo você vem sendo a minha razão de existir. - É tão bonito quando você fala, mas é tão difícil de acreditar! - Vivi, o que você quer que eu faça para provar? - Várias coisas! Para começar, me beije! - Um beijo? Esse é o imenso sacrifício que devo fazer? – ele disse rindo. - Quero muito um beijo seu. Quero sua boca na minha. – mal terminei de falar e ele já tinha me puxado, me colocando sentada no colo dele. Eu achei que ele nunca fosse me beijar, como se o beijo fosse uma espécie de maldição, para que toda vez que ele me beijasse, eu acabasse acordando. Mas nada


disso era verdade. Ele não começou de forma carinhosa, como a maioria dos homens fazem. Ele sugou minha boca de uma vez, deixando meus lábios inchados de tanta pressão. E então invadiu minha boca com sua língua, enrolando-a na minha como em uma brincadeira sem fim. Ele se afastou um pouco e senti seus olhos sobre mim, antes de ele dizer: - Te quero tanto! - Então me tenha! – e ele juntou seus lábios nos meus, novamente. Sua língua passeou vagarosamente por cada canto dos meus lábios, e ele começou a me dar beijinhos leves intercalados com lambidinhas. E então ele passou para um beijo avassalador. Eu nem sabia há quanto tempo estávamos nos beijando, eu só conseguia sentir, me entregar ao toque dele, ao gosto dele. - Eu quero você agora! – eu disse. - Ainda não, Vivi! – ele disse, praticamente sem fôlego. - Se eu não posso te ter, então por que você está me beijando desse jeito? Me deixando desse jeito? Quer saber, estou cansada dos seus joguinhos! Vá embora, não apareça mais aqui, não quero sentir você! E eu não estou brincando. – e então acordei. Tomei banho, depois encontrei os meninos e tomamos café. Em seguida, fomos para o aeroporto com destino a Nova York, mas minha mente ainda estava em um certo sonho que tive com um homem cola.


P á g i n a | 92

As ruas do Upper East Side são exatamente do jeito que eu sempre imaginei. É tudo tão arrumadinho, tão limpo! O clima de Nova York me lembra muito de São Paulo, e por um instante pude jurar que estava em casa. Eu estava louca para fazer compras na quinta avenida, mas naquele dia eu só queria chegar à nossa casa (não necessariamente nossa, mas como se fosse, já que havíamos alugado), tomar um banho e dormir a noite toda. Meu celular começou a tocar Cherry Bomb, e eu atendi. Minha mãe estava gritando tanto e tão alto que tive que afastar o celular do ouvido. - Você quer me matar do coração? Não sabe retornar as ligações, não? Esqueceu que eu existo? Eu não tenho notícias suas desde que falei com o Ricardo quando você estava no hospital. Já consegui falar com o Cadú, com a sua assistente, que não me lembro do nome, mas com você... ah, mais fácil eu falar com o presidente dos Estados Unidos! Agora eu tenho que ter notícias suas através das fofocas da internet? É isso? Eu ainda sou a sua mãe! – ela berrava. Dez minutos de xingamento se passaram, e após minha mãe se certificar de que eu estava bem, ela se acalmou e perguntou: - E então, as fofocas sobre você e o Brian são verdadeiras? Sei mais do que ninguém o quanto você é louca por ele. - A maioria das coisas foram baseadas em fofocas, mas eu confesso que terei um encontro com ele, na terça feira.


- Só me faltava essa! – disse Ric, enquanto Cadú revirava os olhos e Tim olhava para o outro lado. A Bia foi a única que soltou um “Boa, garota!”. Aparentemente eles não tinham nada melhor pra fazer a não ser prestar atenção na conversa dos outros. - Filha, sei que você está super empolgada, mas prometa que tomará cuidado. Não quero que você se magoe, e o Brian é super assediado. Concorrer com uma mulher já é ruim, com milhões, então... e você sabe que a maioria dos homens são uns safados. Bem, você entendeu o que eu quis dizer. Mas olha, filha: aproveita! Beije muito e curta sua juventude! Te amo! – e então ela desligou. Eu tenho a melhor mãe do mundo! A casa que a Rita tinha alugado para nós ficava na Columbus Avenue e parecia uma espécie de mansão. Deu certinho um quarto para cada um, sendo três deles suítes. Os meninos concordaram em ceder uma suíte para mim e uma para a Bia e sortearam a que restou, de forma que o Tim ganhou a terceira. O Ric e o Cadú teriam que dividir um banheiro que ficava perto do quarto deles. A cozinha era imensa, e tinha duas geladeiras com freezers generosos. Tinha uma sala de jantar, a sala de tv e duas salas de música, sendo uma delas acústica. A casa não tinha jardim. Na verdade, quem olhasse de fora não imaginaria de forma alguma o tamanho que ela tinha. Ficamos todos deliciados com o conforto que teríamos naquela casa. Eu conversei com o Ric e decidimos fazer compras

para

lotar

aquelas

geladeiras

de

gostosuras.


P á g i n a | 94

Pegamos vários pacotes de macarrões do qual eu nunca tinha nem ouvido falar, molhos, xarope de bordo para comer com panquecas, cereais, carnes, chocolates, biscoitos, balas, chicletes, o sorvete preferido de cada um e outras coisas mais. Eu teria que voltar a assistir meus vídeos de ginástica e malhar dia e noite para queimar todas as calorias que eu planejava ingerir. Quando chegamos em casa, o Cadú já tinha acordado e estava louco de fome. Ele começou a devorar um pacote de biscoito Oreo, mas como eu tinha decidido que faria uma janta especial para nós, confisquei o pacote parcialmente vazio e pedi que ele esperasse mais um pouco. Eu precisava de alguém para me ajudar na cozinha, mas hesitei em pedir para a Bia, porque quando eu e o Ric voltamos do mercado, encontramos ela e o Tim sentados no sofá, e os dois estavam conversando no maior clima (pelo menos era o que parecia). Por fim, nem precisei pedir a ajuda dela, pois o Ric e o Cadú se ofereceram para me ajudar (apesar de eu ter certeza que só fizeram isso para beliscarem tudo que vissem pela frente). Eram oito e meia da noite quando a comida ficou pronta. Demos as graças e comecei a servir. Eu havia preparado um risoto de mussarela de búfala com cebolinha e tomate cereja, além de um lombo suíno assado ao molho de ervas finas. Tomamos o mesmo vinho que sempre tomávamos quando nos reuníamos, o Periquita.

O jantar foi muito

agradável, e assim como todas as outras noites em que eu cozinhava, os meninos me cobriam de elogios, até mesmo o


implicante do Tim. A Bia ficou maravilhada e disse que invejava esse meu talento, pois ela não sabia nem fritar um ovo. Quando todos acabaram de comer, recolhi os pratos e os juntei na pilha para que a diarista que a Rita contratou os limpasse na manhã seguinte. Eu fui até o freezer e peguei um pote de sorvete de morango, que era o favorito do Ric, um de doce de leite, que era o favorito do Cadú e um de Chocochips, que é o favorito da Bia. Eu, como sou a pessoa mais indecisa do mundo, tenho dois favoritos: o de pistache e o de Cookies n’cream da HaggenDazs. O preferido do Tim também é pistache, então comprei apenas um pote e pedi para ele me dar um pouco do dele. Passamos horas conversando e jogando

conversa

madrugada

fora,

assistindo

e

então

filmes

de

decidimos terror.

passar Todos

a nos

aconchegamos no sofá e compramos pela tv a cabo o filme “O Grito”. Eu já tinha assistido esse filme um zilhão de vezes, então, como eu estava com frio, fui buscar um cobertor. Quando voltei a me aconchegar no sofá, o Tim se espremeu entre eu e o Cadú e perguntou se eu poderia dividir o cobertor com ele. Eu estava quase mandando ele ir buscar um cobertor só pra ele, quando percebi que ele jogaria na minha cara a divisão do sorvete de pistache, então não me importei. Como estávamos todos no sofá, não havia espaço sobrando, de forma que estávamos todos praticamente grudados um no outro. Senti a coxa musculosa do Tim encostar na minha e enrijeci, assustada com a malícia do pensamento que me tomou. Não era possível que eu


P á g i n a | 96

começaria com aquelas idéias ridículas novamente! Tentei me concentrar no filme, e fiz tanta força para isso que apaguei. Quando voltei a abrir os olhos, percebi que havia tirado um pequeno cochilo, e minha cabeça estava encostada no ombro do Tim. Ele estava com a mão ao meu redor, praticamente me abraçando. Olhei para ele e ele sorriu. - O que foi, acha que vou te morder? - Não! É que ... é estranho! - Por quê é estranho? Você não vive dizendo que nos vê como irmãos? Aposto que se você tivesse cochilado nos ombros do Ric ou do Cadú, você nem ligaria. Aliás, pelo que te conheço, até pediria um cafuné para qualquer um deles. - Não é verdade! Não faço diferença entre vocês. – menti. A verdade é que eu nunca tinha prestado atenção na diferença de tratamento que eu fazia entre eles. Eu realmente me sentia muito mais à vontade com o Ric e com o Cadú. - Não? Então você aceita um cafuné, Vivi? – ele quer que eu dê o braço a torcer, mas isso não vai acontecer! - N... er.... Sim, claro! Mas deixe eu mudar de posição, meu pescoço está doendo. - Fica mais fácil se você encostar a cabeça no meu peito. - Você não se importa? – Diga que sim, diga que sim! - Não! - Droga!


Eu apoiei minha cabeça em seu peito e ele começou a passar a mão pelos meus cabelos. Seus dedos passeavam lentamente entre meus fios, e ele começava a acariciá-los desde a raíz até as pontas, e então partia para outra mecha. Eu estava me sentindo no paraíso. Os dedos dele eram perfeitos. Tive uma estranha sensação familiar, mas não fazia idéia do por quê. E então um dos dedos encostou na minha orelha. Senti meu corpo ferver, mas era uma sensação tão gostosa... Eu não sabia se queria que ele continuasse a fazer cafuné ou se queria que ele acariciasse minhas orelhas do jeito que ele tinha feito. E então tive a impressão de que ele havia lido meus pensamentos. Ele continuou a fazer cafuné com uma das mãos e usou a outra para acariciar minhas orelhas... e meu rosto... e meu pescoço. Nossa, isso é tão bom! Eu estava até com medo de me mexer e ele resolver parar. Ele passou os dedos pelas minhas bochechas, pela minha testa, desceu pelo nariz e encostou os dedos nos meus lábios. Ele me acariciava de um jeito tão suave, tão gentil que eu nem conseguia pensar em mais nada a não ser naquele toque. E então os dedos dele desceram da minha boca para meu queixo, e do meu queixo para meu pescoço, indo para cima e para baixo. Eu fiquei toda arrepiada, e fiquei com medo de que ele percebesse. Ele não disse uma palavra sequer, mas como eu estava com a cabeça encostada no seu peito, ouvi seu coração disparar. Até sua respiração ficou mais pesada. Ele se mexeu, um pouco incomodado, e eu virei a cabeça para cima, para olhar para ele, com a intenção de


P á g i n a | 98

perguntar se eu o estava incomodando, mas quando olhei para ele aconteceu a mesma coisa que na noite anterior: as palavras morreram e nossos olhos se prenderam, mas ele ainda estava com uma das mãos no meu cabelo e a outra no meu pescoço, e então ele me puxou para perto dele eu vi nossos rostos se aproximarem. Ele vai me beijar! Confesso que a princípio eu estava ansiosa, mas então a realidade chegou como em um raio. Eu estava prestes a beijar o Tim. Justo o Tim! E ainda por cima na frente de todo mundo. O Cadú estava ao lado dele e eles estavam praticamente grudados, então ele devia estar vendo tudo que estava acontecendo. Não estou acreditando nisso! Soltei as mãos dele do meu corpo e me endireitei. Me levantei e olhei para o Cadú, mas tanto ele quanto o Ric e a Bia estavam cochilando. - Tim, eu... é... bem, boa noite! – Foi tudo que consegui dizer antes de sair correndo em direção ao meu quarto. Eu acordei com um delicioso cheiro de café e alguma coisa frita. Pulei da cama, lavei o rosto, escovei os dentes, coloquei um vestido estampado de alcinhas e chinelos e saí correndo em direção à cozinha. Quando parei na porta, o Ric estava cozinhando, todo mundo já estava acordado e babando em cima dos ovos mexidos que o Ric preparava. Eu dei um bom dia geral e todos responderam, mas o Tim não estava olhando para mim. Parecia que ele começaria novamente a me evitar. Antes ele me evitar do que ficar me olhando daquele jeito que me deixava com uma sensação esquisita, certo? Só que não era o que eu realmente estava


pensando. “She’s my cherry pie, cool drink of water such a sweet surprise. Tastes so good, make a grow man cry, sweet cherry pie”. - Mudou o toque do seu celular, Vi? - Não, Bia! Esse é o toque de recebimento de sms. – e então eu vi o destinatário. Brian Levicce. Meu sorriso foi de orelha a orelha. - Pelo sorriso, só pode ser do Brian. – ela disse. - É dele, sim. Ele disse que não para de pensar em mim e pediu para eu não me esquecer do nosso jantar. - Então vocês vão mesmo sair, hoje à noite? Só espero que a gente não se cruze por aí. Não estou a fim de ver você no maior amasso com o Brian. – disse Ric. - Nos cruzar por ai, como? Vocês estão pensando em badalar, hoje à noite? - Claro! Eu e os meninos vamos pra um lugar bem especial, hoje à noite. - Você e os meninos, não. Você e “o” menino, porque só o Cadú vai. Esqueceu que vou jantar com a Lelinha, hoje? – o Tim dizia e eu tentava entender o que ele via naquela garota nojenta. - Mas o jantar não era ontem à noite? Pensei que você tivesse furado com ela. – disse Cadú.


P á g i n a | 100

- Eu... eu não furei, eu... – ele dizia, pensativo – eu só remarquei. Após o café, os meninos saíram para conhecer melhor NY e eu a Bia resolvemos fazer compras na Quinta Avenida. Compramos perfumes, vestidos, calças, blusinhas, casacos e lingeries. Chegamos em casa no final da tarde, e enquanto eu estava

guardando

minhas

compras,

ouvi

os

rapazes

chegando. Fui para o chuveiro e tomei um banho caprichado, depois vesti uma lingerie azul royal com rendas, que eu nunca tinha usado, e coloquei um vestido na mesma cor. Calcei um par de sandálias pretas, conferi se meu esmalte vermelho sangue ainda estava intacto, me borrifei quatro vezes com Touch of Spring, que é meu perfume favorito, passei sombra da cor grafite em meus olhos e preenchi meus lábios com batom vermelho. Quando conferi meu look no espelho, fiquei insegura. O Brian estava acostumado a sair com garotas maravilhosas, e isso era realmente intimidante. O vestido que eu estava usando era de um ombro só, mas sustentava meu busto cheio, além de realçar a finura da minha cintura. Ele era um pouco colado, então marcava tanto meu quadril quanto meu bumbum. Por não ser cumprido, exibia minhas pernas bem torneadas, mas ao mesmo tempo não era vulgar. A campainha tocou, e senti o nervosismo tomando conta de mim. Eu estava prestes a sair com o homem dos meus sonhos!Não literalmente dos meus sonhos, afinal, este título era do Sr. Superbonder. Nossa, como minha vida estava esquisita! Peguei minha bolsa e


comecei a descer as escadas, mas logo vi que não havia sido o Brian quem tinha tocado a campainha. O Ric havia aberto a porta para a Letícia, mas ela permaneceu parada na entrada, como se a nossa casa tivesse alguma espécie de vírus contaminador. E então o Tim saiu da cozinha. De onde eu estava eu conseguia sentir o perfume que ele usava: Chanel Egoiste Platinum,que eu havia dado de presente para ele em seu aniversário. Eu amo esse perfume! Ele cumprimentou a Letícia com um selinho e se virou para dar tchau quando ele me notou. Ele piscou algumas vezes e me olhou dos pés à cabeça. Meu coração fez um “Tum, Tum” mais rápido que o normal. - E então? Vamos indo? – interrompeu Letícia. - Oi pra você também, Letícia! – eu provoquei. - Ah, oi, Vivianne! - ela disse secamente. Mas então a atenção dela se voltou à pessoa recém chegada que estava encostada na porta. – Nossa, você não é o... - Ei, Brian! Pode entrar! – eu disse, interrompendo Letícia antes que ela começasse a babar em cima dele. - Uau! Você está tão... uau! – ele disse de queixo caído, enquanto me examinava. - Vamos, Letícia? – perguntou Tim, parecendo irritado com a fascinação da sua acompanhante. Então os dois saíram, mas não antes de a Letícia secar o Brian por mais alguns


P á g i n a | 102

segundos. Aquela garota era muito cara de pau. Desde que a conheci, nem por um segundo sequer eu consegui simpatizar com ela. O

Brian

me

levou

a

um

restaurante

italiano

chiquérrimo, chamado Remi. Ele é decorado com um mural veneziano fantástico. Nós mal nos acomodamos e os flashes dos paparazzis (que não tenho idéia de como descobriram sobre o nosso encontro tão rapidamente) começaram. O maître nos indicou uma mesa, e o Brian pediu duas saladas Barbabietole e Dois Spaghettis alle Vongole Veraci. Ele pulou o Antipasti, pois não estávamos com muita fome. Ao sommelier, ele pediu que nos servisse um vinho robusto com um aroma delicioso de frutas, porém caríssimo: Masseto di Tenute dell’Ornellaia. - Espero que goste daqui. É meu restaurante favorito! - Tenho certeza de que vou gostar. Brian, por acaso você já se acostumou a ter sua privacidade invadida pelos paparazzis? - Esse é um assunto bem complexo. Eu estaria mentindo se dissesse que já me acostumei, mas confesso que já me irritei muito mais, com isso. - Eu acho que nunca vou me acostumar. Sei que eles só estão fazendo o trabalho deles, por isso que não os destrato, mas há tempos que não saio em público e me sinto confortável. É muito desgastante o fato de estar sendo sempre vigiada.


- Com o tempo isso melhora. Você verá!- ele deu uma pausa e olhou para mim como se quisesse me perguntar algo. - Pode perguntar! – eu disse, como se estivesse lendo os pensamentos dele. – Só que não prometo responder! - O pessoal da sua banda não vai muito com a minha cara ou eles são assim com todo cara que se aproxima de você? - Não é nada pessoal, eles apenas têm medo de que eu conheça algum babaca machista que me impeça de continuar na banda. - Se eles pensam assim, acho que não conhecem você bem o suficiente. - O que você quis dizer? - Que você tem personalidade forte. Não é do tipo de garota que é facilmente influenciada. Você tem opinião própria! – e então ele deu um sorriso largo, exibindo seus lindos dentes branquíssimos. Como alguém pode ser tão lindo? - É a segunda conversa séria que já tivemos e parece que você me conhece há tempos. - Eu já disse que te conheço! Eu sei mais coisas sobre você do que você imagina. - Jura? Cite alguns exemplos. - Bom, eu sei que você é super profissional, pois fez um show no mês passado mesmo ardendo em febre. Sei que você e sua


P á g i n a | 104

mãe são muito próximas e tenho certeza de que você está morrendo de saudades dela. Sei que você adora ler, pois curte no facebook a página de vários autores. Sei que seus olhos castanhos são tão hipnotizantes que às vezes, quando as pessoas falam com você, até perdem o rumo da conversa. E... sobre o que estávamos falando, mesmo? – ele deu um meio sorriso, e meu rosto avermelhou no mesmo instante. - Aqui está! – disse o garçom, trazendo nossa salada Barbabietole. O jantar foi perfeito! Tanto a salada quanto a massa foram feitos com primor, e o vinho era coisa de outro mundo. Simplesmente divino! Após o jantar, nós fomos tomar café em uma cafeteria fofíssima chamada Java Girl, e ele disse que tinha me levado lá porque toda garota deveria conhecer aquela cafeteria. Nós conversamos sobre assuntos diversos, como cinema, música e costumes brasileiros. A cada olhar que ele me dava eu me sentia a pessoa mais sortuda do mundo. Ele realmente era muito agradável. Além de lindo, claro! Quando chegamos à porta de casa, olhei para ele e percebi que não sabia como me despedir. Eu queria beijá-lo, mas não queria que ele me considerasse fácil demais. Ao mesmo tempo, se eu simplesmente agradecesse e fosse embora, ele poderia pensar que eu não estava interessada o suficiente, e esse realmente não era o caso. - É a primeira vez que isso acontece comigo. – ele disse. - Isso o que?


- O fato de não ter a mínima idéia de como agir. É que você é tão... - Tão? - Tão diferente de todas as outras garotas que já conheci. - E isso é uma coisa boa ou uma coisa ruim? - Definitivamente boa! – ele disse rapidamente. – Tão boa que eu me sinto pequeno, perto de você. – ele confessou. - Isso parece uma cantada antiga. – eu menti. Se fosse qualquer outro homem que estivesse me dizendo aquilo, eu suspeitaria, mas ele estava totalmente diferente de como ele era

normalmente.

Não

havia

nenhum

traço

de

auto

confiança. E isso, vindo dele, dizia muita coisa. - Quisera eu que fosse. Você me deixa desconcertado. – ele me olhou por alguns instantes, e eu percebi que eu não respirava

alguns

minutos.

Ele

se

aproximou

vagarosamente e parou no meio do caminho, como se estivesse esperando minha aprovação. E em questão de segundos eu estava com o rosto quase colado ao dele, mas eu deixei uma pequena distância para que ele pudesse tomar a atitude. E ele me beijou! O beijo dele era bom, mas notei que estava um pouco controlado.

Parecia que ele estava

planejando cada movimento, e isso transformou o beijo em algo quase mecânico. Isso fez com que eu acabasse me lembrando de um certo beijo que eu tinha dado poucos dias


P á g i n a | 106

atrás: o beijo do Sr.Superbonder. O único problema era que eu não poderia nunca comparar aquele beijo a qualquer outro, já que havia sido dado por um personagem que meu subconsciente havia criado. Quando os lábios dele se afastaram do meu, eu olhei para baixo para não demonstrar meu desapontamento. Ele pegou minha mão e disse: - Me desculpe! Você me deixa extremamente nervoso, e parece que eu saio de mim quando estou perto de você. - Não se preocupe! Você não fez nada que eu não tivesse consentido. - Eu não estava falando do fato de te beijar, mas sim disso aqui... - e então ele me puxou com força para perto dele e me beijou avassaladoramente. Um fogo inflamou dentro de mim, e nesse momento eu percebi que de ruim o beijo dele não tinha nada. Muito pelo contrário! Quando eu entrei em casa, o Ric, o Cadú e a Bia estavam na sala assistindo um documentário sobre a vida do Axl Rose, mas imediatamente olharam para mim: - E aí, como foi seu grande encontro com seu ídolo pop metrossexual? – perguntou Ric. - Ele não é meu ídolo pop. A banda dele é de rock, se você não sabe. - Rock? Hahaha! Você está de brincadeira comigo!


- Ei, a base da banda é o rock, mas eles misturam alguns elementos pop. - E é exatamente isso que faz com que a banda dele seja de pop, e não de rock. - Pop Rock, no máximo! – eu disse, já quase sem paciência. - Se é o que você quer acreditar... - Ei, dá para vocês paparem de pegar no pé do Brian? Ele já percebeu que vocês estão tratando ele de forma hostil. - Ótimo! Significa que ele tem mais de um neurônio. - O que eu faço com vocês dois, hein!? Vocês só me ferram! - Vocês três, nada! Eu estou bem quietinho, aqui. – disse Cadú - Está, mas também não me defende quando preciso! - Mas conte como foi, Vivi! Ele te beijou? – perguntou Bia. - Bem, não vou entrar em detalhes. Só posso dizer que foi muito bom. - Ei, Bia! Eu estou indo pra uma danceteria aqui perto. Você não está a fim de curtir uma balada? - Não, Ric! Prefiro ficar aqui, esperando o... er... esperando para ver se alguém precisa de mim.


P á g i n a | 108

- Ah, que é isso, Bia! Já está tarde para precisarmos de qualquer coisa de você. Você está mais do que liberada para curtir uma noitada. – eu disse. - Ah, não! Hoje eu não estou no clima. Mas agradeço o convite, Ric! Aproveite por mim! – ela disse determinada. O Ric pareceu um pouco desapontado, mas não pensou duas vezes antes de sair. - Por acaso o Tim ainda não chegou? – perguntei aos dois. - Não, Vivi! Acho que ele nem vem passar a noite em casa. – respondeu Cadú. A Bia pareceu decepcionada, e eu me senti um pouco ressentida com ele. Afinal, eu não gostava de ver a Bia decepcionada desse jeito. E esse era motivo suficiente para eu ter vontade de dar um soco na cara dele.


07 – ME ACERTE COM O SEU MELHOR TIRO

“Você começa, você não luta justo. Está tudo bem, veja se eu me importo! Nocautea-me, é tudo em vão. Eu volto a ficar em pé novamente!” – Hit Me With Your Best Shot – Pat Benatar

Naquela noite eu dormi ininterruptamente. O Sr. Superbonder respeitou meu pedido e não apareceu. Eu sinceramente não sabia se estava feliz, pois eu não queria me apaixonar por um personagem surreal, ou se estava triste, pois ele era uma das partes mais felizes do meu dia (no caso, da minha noite). Na manhã seguinte eu acordei as oito e dez, tomei um banho rápido, vesti um shorts branco e uma regata rosa (acredite ou não, havia dias em que eu me sentia uma menininha e precisava desesperadamente usar cor de rosa. Eu sou mulher, afinal de contas). Eu desci e reparei que ninguém havia acordado. Resolvi buscar no meu quarto meu rádio portátil e liguei nele o meu Ipod. Eu comecei a ouvir a bateria no começo da música Slow Ride e comecei a preparar o café da manhã. Fiz a massa de panqueca, fiz também uma omelete com pedaços de queijo branco e cebolinha e comecei a passar um café bem forte, pois passaríamos o dia inteiro ensaiando

e

precisaríamos

estar

bem

acordados.

A


P á g i n a | 110

campainha tocou. Um rapaz gordinho que estava usando um boné vermelho me entregou um ramalhete de rosas e uma caixinha preta. Eu dei gorjeta a ele, peguei meus presentes e entrei. Eu sabia que eram presentes enviados pelo Brian. Li o bilhete: “Só para deixar claro que a noite de ontem foi perfeita! Você é tão sincera, engraçada e natural que faz com que eu me sinta um adolescente tímido e inexperiente. Eu não me sinto assim há anos. Espero que esteja se sentindo assim, também. Obs: O presente é uma espécie de egoísmo meu, para que sempre que você olhar para ele se lembre do quanto eu te admiro. Seu, BL.” Eu abri a caixinha preta e encontrei uma pulseira de ouro branco com três pingentes: um baixo, um microfone e um coração. Era perfeito, uma vez que o coração simbolizava meu amor pela música e pelos instrumentos que uso. Fiquei parada com um sorriso no rosto por vários minutos, até que ouvi uma chave girar na porta de entrada. O Tim entrou com a mesma roupa que estava usando no dia anterior, mas ela estava

bem

mais

amassada

naquele

momento.

Olhei

disfarçadamente no relógio e notei que eram nove horas e quinze minutos. A noite deve ter sido muito boa! - O cheiro está maravilhoso! Meu estômago está roncando. - E por que não tomou café com a Lelinha? – perguntei, usando o apelido pelo qual ele chamava a ex, futura, atual (?) namorada.


- Lelinha? Não sabia que vocês eram íntimas. – ele disse. Ao fundo eu ouvia a música I’m so sick, da banda Flyleaf. - Nunca! Aquela garota é um nojo. Não dá para entender o que você viu nela. - Isso é fácil de explicar. Ela é gostosa e tem um bom papo. – ele disse, enquanto roubava uma das panquecas que eu havia acabado de fritar. - E? - E o que? Precisa de mais alguma coisa? - Sinceramente, Tim, você merece muito mais. Está certo que você sabe como ser um pé no saco, mas você é inteligente, é um excelente baterista, é leal, honesto e...- interrompi o que eu estava dizendo para dar um tapa na mão dele, que estava tentando roubar mais uma panqueca. – ei, que tal se você esperar o pessoal para tomarmos café juntos? - Termine o que estava dizendo. – disse ele ignorando o que eu disse sobre esperar os outros, ao roubar um pedacinho da omelete. - O que eu estava dizendo antes? Nem me lembro mais. - Que eu sou isso, aquilo, honesto e... e o que?- nisso ele passou vagarosamente a língua no lábio inferior. Que lábios são esses? - E que também é bem bonito.


P á g i n a | 112

- Bem bonito? - Tá, tá bom! Você é meio que... lindo. Mas não vá ficar por aí se achando. – e então ele sorriu, aparentemente surpreso. - Então quer dizer que você me acha lindo... - Quer saber, Tim? Esquece o que eu disse. Eu só queria te dar um conselho. – mas então ele deu um passo na minha direção. Ele estava começando a ficar próximo demais. - Me tire uma dúvida, Vivi. Se você não fosse famosa e não nos conhecêssemos, eu seria lindo o suficiente para fazer você me considerar um símbolo sexual? – ele disse a palavra “sexual” em um tom mais rouco. - Por que a pergunta? – ele estava me deixando nervosa. Agora estava tocando Do You Wanna Touch Me, da Joan Jett. Aquela música não era apropriada para aquele momento! Não mesmo! - Para saber como as garotas se sentem em relação a mim. Se eu sou digno de ser o sonho de consumo de algumas delas. Quero saber como estou sendo cotado no mercado feminino. - Você nem precisa me perguntar isso. Está cansado de saber que existem centenas de garotas por aí louquinhas por você. Quer saber um segredo? – eu disse, sinalizando com o dedo para ele se aproximar mais, porque eu contaria em um tom bem baixinho, para ninguém mais ouvir. Ele fez que sim, com a cabeça, e se aproximou. Então eu disse em seu ouvido:


- Eu tenho quase certeza de que a Bia é uma dessas louquinhas por você. Mas por favor, não vá contar a ela que eu disse isso. – comecei a me afastar, uma vez que já havia contado o segredo da Bia. Nossa, eu estava sendo uma fofoqueira de mão cheia! Mas então ele segurou meus braços e não deixou que eu me movesse. - Você enrolou e não respondeu minha pergunta. - Qual era a pergunta, mesmo? - Você sabe, não se faça de idiota! - Ok! Eu penso que é bem provável. Acho que sim! -Acha que sim ou sim? - Sim, Timóteo! Cara, você fez cursinho pra saber como me deixar louca! - Ah, eu ainda não te mostrei como posso te deixar louca. – ele disse tão baixinho que parecia que estava falando com ele mesmo. - Hãn? – eu ouvi mesmo o que ele disse ou eu tinha imaginado ele passar uma cantada barata em mim? - Tá, então existiria a possibilidade de você me considerar um símbolo sexual. Mas qual tipo de símbolo? Daqueles que você olha e fala “Uau, que delícia”, ou daquele tipo que você sente uma atração tão grande que passa anos sonhando em encontrar? Assim como você sonhou com o Brian Levicce. –


P á g i n a | 114

Mentira que ele queria mesmo que eu respondesse aquilo. Para ajudar, ele ainda não tinha soltado meu braço. - Tim, você está muito esquisito, ultimamente. – desabafei. - Esquisito como? - Sei lá! Me trata mal em um minuto e no outro quer fazer cafuné em mim, depois vem com esse papo estranho. - Então posso dizer o mesmo de você. - Como assim? - De uns dias pra cá, você também está agindo de forma estranha. Você começou a me afastar de você, tratando os outros como melhores amigos e eu como seu inimigo. Além do mais, você está me olhando diferente. Acha que não vi você percorrendo os olhos pelo meu corpo, quando me viu de cueca? – então ele soltou meus braços. Mas eu não me afastei, eu estava brava o suficiente para querer estapeá-lo. Como ele ousava dizer tudo aquilo para mim? - Ah, é? Pois saiba que eu só te olhei porque fiquei surpresa de te ver de cueca. E quer saber? Pelo que me lembro, ontem você quase tentou me beijar. - Pelo que eu me lembro, você estava lá, deitada no meu colo com os lábios abertos, praticamente implorando para eu te beijar. - Você está louco! Você que sugeriu que eu deitasse no seu colo, pra provar que eu não estava te tratando diferente dos


outros. E eu não fiquei com os lábios abertos, pedindo para você me beijar, não! Eu nem quero que você me beije! Eu nunca quis! - Ah, claro! Porque o único que é digno de provar seus lábios de ouro é o Brian, né? - Eu nunca disse isso! - Então você deixaria outro homem te beijar? - Claro que sim! - Um homem que você considere atraente o suficiente, logicamente. - Sim! – e então ele me puxou para perto dele e encostou seus lábios no meu com força, como se quisesse extravasar todo ódio que sentia por mim. Ele abriu a boca para aprofundar o beijo e eu o empurrei para trás. - Seu... seu... Seu nojento! Você beijou uma garota agora pouco e agora vem querer passar a saliva dela pra mim? Achou o que, que eu ia ficar tão enfeitiçada pelos seus encantos que eu nem me importaria com o fato de você ser um porco? Nunca mais encoste em mim, ouviu? – e saí pisando duro em direção ao meu quarto. Quando entrei no meu quarto, eu me encostei na porta e passei os dedos pelos meus lábios. Eu estava muito irritada, e por vários motivos. Como que ele ousou me beijar


P á g i n a | 116

sem a minha autorização? E ele ainda tinha dado a entender que eu ficava me oferecendo pra ele. Fala sério! E por que meus joelhos perderam a força, mesmo eu sentindo tanta repulsa? O Tim realmente havia virado um grande problema na minha vida. Cerca de meia hora depois, alguém bateu na minha porta. Era a Bia, me avisando que o pessoal estava acordado e que o Ric estava terminando de fritar a massa de panqueca que eu havia deixado em cima. Eu desci e encontrei todo mundo sentado à mesa. O Tim tinha tomado banho e colocado uma bermuda de sarja preta e uma camiseta azul marinho. - Bom dia, meninos! Bom dia, Bia! – eu disse. Todos responderam, com exceção do Tim, que sabia que eu não tinha incluído ele nos cumprimentos. - Vi, pelo jeito você deixou o Brian de quatro, não é mesmo? - Por que você está dizendo isso, Bia? – perguntou Cadú. - Não me digam que só eu que notei o ramalhete de flores em cima da mesa da sala, e uma caixinha preta ao lado dele? – ela respondeu. - Caixinha preta? – perguntou Ric. - É, eu estava fazendo café quando o entregador chegou e me trouxe as flores e a pulseira. – e então fui buscar para mostrar para eles.


- Nossa, Vi! É linda! Ele conseguiu te presentear com um acessório que resume toda paixão que você sente pela música. – disse Bia, toda romântica. - É, o presente não é nada mau, mesmo. – Ric disse, dando o braço a torcer. - Você recebeu esse presente minutos antes de eu chegar? – perguntou Tim, esperando que eu dirigisse a ele uma palavra sequer, para responder. Coitado!Como eu não respondi, ele me lançou um olhar furioso, e todos perceberam que o clima estava tenso. - A Bia estava certa, Vivi. Você deve ter deixado ele de quatro, para que ele te presenteasse tão cedo na manhã seguinte ao encontro de vocês. – disse Ric. - Ih, gente! Nem adianta insistir no assunto porque ela já deixou claro que não vai contar uma palavra sequer. – avisou Bia. Então notei que o rádio ainda estava ligado, e meu Ipod estava tocando Tempo Perdido, do Legião Urbana. - Então agora você resolveu ter segredos, é? – insistiu Ric. - Querem saber mesmo? Nós fomos a um restaurante delicioso, tomamos uma garrafa de um dos vinhos mais caros que existe, depois fomos a uma cafeteria. E então, quando ele me trouxe pra casa, ele me beijou


P á g i n a | 118

- E o beijo foi bom? Do jeito que você sempre sonhou? – perguntou

Bia.

Todos

me

olharam

com

curiosidade,

principalmente o Tim. - Foi muito bom! É tudo que tenho a dizer. Já

fazia

mais

de

uma

semana

que

não

ensaiávamos, então quando pegamos nossos instrumentos e começamos a tocar as primeiras notas da música “O tempo não parou”, foi uma bagunça geral. Essa música era do nosso cd novo e tínhamos pensado em lançá-la como primeiro single. O problema é que teríamos que fazer a apresentação de uma de nossas músicas durante a cerimônia do VMA, e eu achava que deveria ser uma música mais alegre, que grudasse na cabeça das pessoas. - Ei, parem, por favor! Eu tive uma idéia! – eu gritei. Como por um milagre, todos eles pararam e prestaram atenção. A coisa devia estar muito feia para eles quererem me ouvir. – Bom, eu estava pensando e acho que “O tempo não parou” não é a música ideal para apresentarmos amanhã. Ela é linda, e tal, mas por ser em português, acho melhor cantarmos uma música mais curta e mais pegajosa, no estilo chiclete. Pensei que poderíamos cantar “Ei, menina”. O que vocês acham? - Eu concordo plenamente. E dá até para eu cantar em seguida um trecho de You Shook me all night long, do ACDC. Vai combinar demais! – disse Ric.


- Yeahhh! Demais! – exclamou Cadú. Foram quatro horas e meia de ensaio, e então finalizamos, pois como eu cantaria no dia seguinte “Ei, menina” e o Ric “You shook me all night long”, não poderíamos correr o risco de perder a voz. Nós fomos descansar um pouco, pois a Rita chegaria naquela noite e tínhamos combinado de jantarmos juntos. Aproveitei o sossego para ligar para o Brian. Disquei seu número e após duas chamadas ele atendeu. - Oi, Vivi! - Oi, Brian! Me desculpe por ter demorado tanto para ligar, mas é que passamos o dia todo ensaiando. - Ah, relaxa. Eu também estou com a galera da banda. Estávamos ensaiando até vinte minutos atrás. - Nós também encerramos o ensaio agora pouco. Bem, eu queria te agradecer pelas flores e pela pulseira. Nossa, ela é maravilhosa! É simplesmente a minha cara! - Eu sei! Eu passei algumas horas procurando um presente para você, e confesso que não estava sendo uma missão nada fácil, até que eu vi a pulseira e os pingentes, então não hesitei por um segundo sequer antes de comprá-la. - Você é demais, sabia? - Sou?


P á g i n a | 120

- É, sim! Nem sei como te agradecer! - Bem, nesse exato momento estou pensando em inúmeras maneiras de agradecimento que eu gostaria que fizesse por mim. - Hum... aposto que são bem sugestivas. - A maioria! – e caímos na risada. Alguns segundos depois, ele parou de rir e sua voz ficou séria. – Eu não consigo parar de pensar em você. Eu fico lembrando do gosto da sua boca, da textura dos seus lábios, do jeito que sua língua dança ao redor da minha... - Ah, Brian! – suspirei. - Vivi, diga que também pensa em mim o dia inteiro. Diga que sente falta da minha boca na sua. Diga que me quer tanto quanto eu te quero! - Eu te quero, Brian! Te quero há muito tempo! - Estou indo te buscar agora mesmo! - Não posso sair hoje. Lembra que eu te disse que a Rita, minha empresária, está chegando hoje de São Paulo? Prometemos levá-la para jantar. - Ah! Eu tinha me esquecido! – ele disse em um tom de voz que demonstrava que estava completamente frustrado.


- E o pior é que amanhã só vamos nos ver na cerimônia de premiação. Por falar nisso, nós mudamos a música da nossa apresentação. Tenho certeza de que você vai aprovar! - Você que vai cantar? - Apresentaremos duas músicas, já que a primeira é curtinha, então eu cantarei a primeira e o Ric a segunda, fazendo um cover de uma das nossas músicas favoritas. - Que seria qual? - Surpresa! - Ah, Vivi! Hoje você tirou o dia para me frustrar! - Hahaha! Prometo te compensar direitinho, depois. - Ah, então espera que vou anotar o que você disse para eu te cobrar depois! - Seu bobo! Ei, tenho que desligar. Se der, mais tarde te ligo. - Ok, senhorita ocupada. Vou ficar aguardando. Um beijo... daqueles! - Outro... daqueles! – e desliguei. Eu resolvi deixar a preguiça de lado e coloquei um shortinho branco com listras laterais roxas e um top da mesma cor, ambos de lycra. Baixei um vídeo na internet onde uma personaltrainer ensinava exercícios para a coxa que podiam ser feitos em casa, sem equipamentos. Estava


P á g i n a | 122

malhando há cerca de uma hora e meia quando a Bia bateu na porta e entrou. - Vivi, acabei de fazer um suco de melancia. Quer descer e tomar comigo? - Boa idéia. Vamos! – descemos até a cozinha e ela encheu um copo com suco para cada uma de nós. - E então, será que agora pode me contar mais um pouco sobre seu romance com o Sr. Bonitão? - Bia, você é bastante curiosa, sabia? Mas a verdade é que não tenho muitas coisas para contar. Nós saímos, ele foi super cavalheiro, gentil... ele é mais romântico do que eu imaginava. Mas não rolou nenhum fato importantíssimo, para te contar. - Nem uma mão boba? - Não! Ei, eu só saí com ele uma vez! – eu disse em tom indignado. - E daí? Qualquer outra garota faria um tour pelo corpo dele com as mãos e com a língua. Te garanto! – e então a campainha tocou. A Bia abriu a porta e então uma cabeleira ruiva apareceu. Rita! - Que bom que você chegou! Acredita que eu estava com saudades de você? Difícil de imaginar, hãn? – eu disse, enquanto corria para dar um abraço apertado nela.


- E não é que eu também estava com saudades? Na verdade, de todos vocês. E não é que essa casa não é nada mal? Você é a Bia, certo? – a Rita era assim. Falava sobre trinta coisas ao mesmo tempo. - Sim. É um prazer conhecê-la. - Não precisa de formalidades, comigo! E os meninos? Onde estão? - Acho que estão tirando um cochilo. - Ah, não se preocupe que acordo eles em um grito só. RIC, CADÚ E TIM! LEVANTEM DESSA CAMA E VENHAM ME DAR UM ABRAÇO! AGORA! – ela disse em um grito estrondoso. É um fato que a Rita nunca teve o comportamento de uma lady. Não demorou nem dois minutos até eles descerem para cumprimentá-la. – Nossa, Cadú! É impressão minha ou você cresceu ainda mais? E você está um pouco mais forte, Tim. Ah, você não mudou nada, Ric! Nem você, Vivi. Com exceção, talvez, dessa roupa brega de ginástica. Todos riram, e a Bia partiu para minha defesa. - Ela realmente estava malhando, mas eu fiz um suco e a chamei para tomar um pouco comigo. - Mas branca? – Rita disse em tom jocoso. - Sim, branca. Eu gosto dessa cor. Por quê? Não combina comigo?


P á g i n a | 124

- Ah, Vi! Você é tão linda que qualquer coisa fica bem em você. - Ah, Cadú! Eu já disse que te amo, seu lindo? – eu disse enquanto o abraçava. Como a Rita só ficaria em nova York por quatro dias, o Tim cedeu a ela a sua suíte e se instalou no quarto do Ric. Decidimos nos arrumar para irmos jantar, e quarenta minutos depois estávamos todos prontos. Decidimos ir a um restaurante bom, mas um pouco mais casual, e optamos pelo Bar Boulud. Quando estávamos para sair, o Tim disse: - Ei, pessoal! Esperem só mais cinco minutos, por favor, que a Letícia já está chegando. – ele está de gozação, só pode ser! Nem ferrando que vou passar a noite toda vendo esses dois no maior grude! - Eu pensei que só nós iríamos. – eu disse. - Pelo que eu saiba, ninguém disse isso. – ele replicou em tom de desafio. Ah, essa ele não iria ganhar. - Ah, então melhor ainda, porque o Brian queria vir me ver e eu cancelei porque pensei que fossemos somente nós. Vou ligar para ele e convidá-lo para se juntar a nós. – a cara dele fez a noite valer a pena. - Isso, Vivi! Não vejo a hora de conhecer pessoalmente aquele gostosão. – disse Rita. A cor do rosto do Tim estava semelhante à de uma berinjela. Yes! Toma, seu babaca!


- Então calma aí que ligo para ele é agora! – então peguei meu celular e disquei o número do Brian.- Eiii! Tudo bem? - Tudo! Que bom que você me ligou. Eu estava pensando que você já tinha me esquecido. – Brian dizia, do outro lado da linha. - Muito difícil de isso acontecer, né? Brian, nós estamos indo para o Bar Boulud. Você não quer se encontrar com a gente lá? - Querer eu quero demais, mas tem certeza de que ninguém vai se importar? - Não, imagine! – Ah, eles vão se importar! Mas não tô nem aí. – A Rita está louca pra te conhecer! Já estamos indo. Te encontro lá, então, ok? - Perfeito! Até daqui a pouco! - Até! – e desliguei. – Vamos indo? Já no restaurante, enquanto o Ric e o Cadú discutiam sobre qual a melhor banda de rock de todos os tempos, a Bia falava ao telefone com seu irmão Gabriel, o Tim e a Letícia discutiam (grande novidade!) porque ela estava irritada com as fãs que tinham nos interceptado na porta do restaurante e eu e a Rita falávamos do meu encontro anterior com o Brian. - Nossa, garota! Além de ele te tratar como uma princesa, ele está nos colocando na página dos jornais. Todo dia sai uma


P á g i n a | 126

foto sua com ele, e até os famosos estão comentando no twitter que vocês formam um casal quentís... Minha nossa! O que é isso, Viviane Santorinni? – ela disse de boca aberta. O burburinho que tinha se instalado no restaurante quando chegamos tinha acabado de recomeçar. Eu sabia que ele tinha chegado, mas quando olhei em sua direção, a pressão até subiu. Ele estava com uma calça jeans escura da Diesel, uma camiseta preta em gola V e jaqueta de couro preta. Seus cabelos estavam arrepiados com gel, mas não em exagero. - Vivi, definitivamente ele parece um deus grego! – sussurrou Rita. - Eu sei! Também acho! – eu disse, antes de levantar para dar um abraço bem apertado nele. Eu o cheirei tão fortemente que o perfume deve ter se alojado permanentemente na minha pele. Eu sou um tipo de expert em perfumes masculinos, então nem precisei perguntar qual era o perfume que ele estava usando. L’eau D’issey, da marca IsseyMiyaki.. Ele realmente tinha estilo próprio. Assim que desfizemos nosso abraço, ele me beijou (no rosto) e agradeci a ele mentalmente pela barba por fazer, porque ela o tinha deixado ainda mais sexy. É incrível o tanto que a barba de alguns homens cresce de um dia para o outro! - Eu não via a hora de te ver! Você está linda, como sempre. – ele disse, me olhando com aparente aprovação. Eu estava vestindo uma calça jeans preta e uma camisa branca que ia até o umbigo, deixando o resto da minha barriga à mostra.


Eu usava um sapato branco e preto de salto alto e ainda assim eu estava cerca de oito centímetros mais baixa que ele. - Eu também não via a hora de te ver! Deixa eu te apresentar a Rita. – eu disse, enquanto a Rita levantava de sua cadeira sem nem ao menos piscar. - Deus do céu, você é um gato, mesmo! – ela exclamou, e eu e a Bia, que já tinha encerrado a ligação com o irmão, rimos alto. Achei que ele ficaria sem graça, mas não foi o que aconteceu. - E você á mais danadinha do que eu pensava. – e então ele se sentou ao meu lado. Depois de fazermos os pedidos, a Rita já estava engajada em uma conversa séria com o Brian e eu olhei para os meninos. O Ric estava paquerando as garotas de uma mesa que estava próxima à entrada do restaurante, o Cadú estava reclamando que a comida estava demorando e o Tim estava encarando o Brian. Quando ele viu que eu olhei para ele, ele puxou a Letícia para perto e lhe deu um beijo no pescoço, mas ela não tirava os olhos do Brian. Aquela garota era mesmo patética! Ela estava namorando um dos rockstars mais gatos do mundo e ainda assim ficava paquerando o acompanhante de outra garota. Simplesmente não dava para entender. - Então, Ric! Antes eu não tive oportunidade de dizer, mas gosto muito do seu trabalho, cara! Na verdade, há tempos


P á g i n a | 128

que curto o som da banda toda! – disse Brian, e eu simplesmente

adorei essa

tentativa

dele

de

tentar se

aproximar dos meninos. Mas então, antes que o Ric pudesse responder, o Tim disse: - Fã da banda inteira ou ficava babando pela Viviane? Até porque só começamos a fazer sucesso aqui nos EUA há poucas semanas. Então como você curte nosso som há tempos? – e eu quase esmurrei a cara dele. O pior era que eu sabia que o Brian estava querendo fazer a mesma coisa. Mas ele apenas disse: - Babar pela Viviane é um hobby à parte, e por esse crime eu com certeza me declaro culpado, assim como qualquer outro cara desse planeta! Mas não era disso que eu estava falando, não. Eu comecei a curtir o som de vocês quando um amigo me mostrou o clipe da música “Compulsões”. Inclusive, se não me engano, você tem um belo solo na metade da música, não é? Mas foi com a música “De frente com o passado” que eu realmente me liguei no som de vocês. – disse Brian, enciclopediando nossas músicas e deixando a cara do Tim no chão.

Ele até disse o nome das nossas músicas em

português. Quase caí pra trás. Ele tem um sotaque tão bonitinho! Mas o Tim não desistiu facilmente. - Ah, eu curto o som de vocês também, Brian! De vez em quando eu ouço um pouco de pop para treinar uns movimentos de dança. Aliás, você podia me indicar seu professor, né? O cara deve ser muito bom, porque você


requebra pra caramba, em cima do palco. – ele disse, fazendo o Ric e o Cadú engasgarem, tentando segurar o riso. Notei que o Brian prendeu o maxilar, tentando conter a raiva. - Poxa, Brian! É verdade, você podia emprestar mesmo pro Tim! Eu não queria falar nada, mas já que ele tocou no assunto, eu acho muito estranho quando ele tenta dançar. Parece que está tendo um ataque epilético, ou coisa do tipo. Sei lá, ele fica meio descontrolado. Ele precisa treinar urgentemente, porque você sabe bem o que as garotas dizem sobre homens que não sabem dançar. – eu disse, defendendo o meu namorado. Ou ficante. Ou rolo. Ah, não rotule! - Eu não sei o que as garotas dizem, Vi! Estou por fora! O que seria? – cutucou Ric, que sabia muito bem qual seria minha resposta. - Que homens que não possuem coordenação para dançar são ruins de cama, ué! Todo mundo sabe disso! – eu disse, realizada. - Nossa! Então você deve ser muito bom de cama, Brian, porque você dança pra caramba! – disse inesperadamente Letícia, tentando flertar com o Brian e deixando o Tim fazer papel de trouxa. O jantar foi delicioso! Nós comemos, rimos das tiradas da Rita e das histórias engraçadas da Blue4us, a banda do Brian. O Tim permaneceu o resto da noite em silêncio, como se estivesse de mal até da comida. Então, após


P á g i n a | 130

a sobremesa, (eu dividi com o Brian um delicioso mousse de iogurte com compota de morango e biscoito de baunilha, chamado Fraisier au Yaourt), pedimos a conta, pagamos e saímos

do

restaurante.

Acontece

que

a

calçada

do

restaurante estava completamente tomada por fãs, repórteres e paparazzis. Os fãs estavam enlouquecidos, e começaram a gritar aleatoriamente o nome de cada um de nós. Então um rapaz que deveria ter cerca de vinte anos me puxou e tentou passar a mão no meu bumbum. Imediatamente todos os meninos, inclusive o Brian, foram para cima do cara, que tremeu na base e se afastou. O mais engraçado foi que, na hora do nervoso, o Brian berrou para o cara algo semelhante a “Tira a mão da minha garota ou eu arrebento sua cara!”. Claro que isso era tudo que os repórteres, os fãs e os paparazzis queriam ouvir, pois imediatamente começaram a nos

cercar,

perguntando

desde

quando

estávamos

namorando, e outras perguntas desse tipo. Eu e o Brian nos esquivamos dos repórteres e nos separamos do resto do pessoal, pois ele me daria carona pra casa. Antes de sairmos, porém, esperamos todos os outros entrarem no carro, para nos certificarmos de que estavam a salvo. Durante todo o percurso, o Brian não abriu a boca para dizer nem uma palavra, nem quando eu o agradeci por ter, junto dos outros meninos, me livrado daquele fã maluco. Foi só quando o carro parou que resolvi dizer: - Eu fiz alguma coisa que não tenha te agradado?


- Não, princesa! Eu só fiquei nervoso com a situação. Lembra quando você me perguntou se eu ainda me incomodava com o assédio dos paparazzis e eu disse que estava me acostumando? Retiro tudo que eu disse! – ele estava visivelmente irritado, então eu resolvi ajudá-lo a relaxar. Eu colei ao lado dele e comecei a fazer uma massagem em seu ombro. - Nossa, que delícia! Vi, você definitivamente não existe! - Não gosto de te ver irritado, principalmente com coisas que, infelizmente, não podemos evitar. - Vi, você e o Tim já ficaram, alguma vez? – Aimeodeos! - Claro que não! – A palavra “claro” definitivamente era inadequada, já que naquele mesmo dia, pela manhã, o Tim tentou me beijar. – De onde você tirou essa idéia? - Vivianne, de burro não tenho nada! Ele é louco por você! - Que nada, ele só está acostumado a ser o centro das atenções, e quando elas se voltam à outra pessoa, ele faz birra. É uma criança! - Não, você está enganada! Mas não se preocupe que não vou tocar mais no assunto, a não ser que seja necessário. Agora vem cá! – ele colocou a mão na minha nuca e me puxou até que meus lábios fossem sugados pelo dele. O beijo dele era lento e sexy, e quando os dedos dele começaram a passear pelo meu corpo, eu estava em êxtase. Nosso beijo começou a


P á g i n a | 132

ser cada vez mais sensual, e estávamos tão grudados, tão apertados um no outro, que eu sentia cada movimento dos seus músculos. Então, quando estávamos no auge da paixão, ele me puxou para cima dele. Ele estava sentado no banco do motorista e eu estava em seu colo, de frente para ele. Ele passava as mãos largadamente pelas minhas costas, e então ele interrompeu o beijo, olhou em meus olhos e começou a passar lentamente a mão na minha barriga. Eu suspirei e joguei a cabeça para o lado, mas sem deixar de olhar em seus olhos. Então ele subiu suas mãos e tocou meus seios. Estava muito bom, mas eu não queria fazer aquilo dentro de um carro, na porta de casa, com um batalhão de paparazzis nos seguindo. - Brian, eu... - Não precisa falar, Vi! Sei que aqui não é o lugar certo pra isso. Pelo menos não hoje, com esses paparazzis nos seguindo para cima e para baixo. Mas é que nessas horas eu perco um pouco do controle, e você é tão linda... - Será que dá para você dizer alguma coisa errada? Por que você é tão perfeito que dá medo. Quando entrei em casa, ouvi a televisão da sala ligada e fui até lá para ver se alguém estava acordado, mas encontrei o Tim dormindo no sofá, deitado de um jeito totalmente torto que faria com que ele acordasse no dia seguinte com uma baita de uma dor. Então eu fui até meu quarto e peguei um dos meus travesseiros, um cobertor e os


levei até a sala. Eu estiquei suas pernas, o empurrei um pouco mais para dentro do sofá porque ele estava quase caindo,

joguei

o

cobertor

por

cima

dele

e

levantei

delicadamente sua cabeça para ajeitar o travesseiro, mas então ele acordou. Ele olhou para mim, depois para o cobertor e para o travesseiro, e para mim novamente. E tudo que ele disse, antes de voltar a dormir, foi: - Sinto muito por hoje. – e então voltou a dormir. Eu estava dormindo, quando acordei. Sim, poderia ser um pleonasmo, mas no meu caso é diferente. Ou pelo menos assim eu achava, até tentar abrir meus olhos e perceber que eles estavam colados. Eu senti uma alegria inexplicável em saber que ele não tinha ido embora, mesmo sabendo que não deveria me sentir daquele jeito. Ele estava ali, bem ao meu lado. Eu podia sentir. Mas ele estava estranhamente quieto. Ficou assim por minutos e minutos até que não aguentou e disse: - Você acha que está feliz? - Como? - Você acha que está feliz? - Isso eu ouvi, mas não entendi o sentido da pergunta. - Com tudo que anda fazendo! Você sabe muito bem sobre o que estou falando.


P á g i n a | 134

- Sim, estou feliz. - Então por que eu ainda estou aqui? - E como que eu vou saber disso? - Vi, você já deveria saber que estou aqui por ser capaz de te proporcionar felicidade. Se você estivesse totalmente feliz, eu não estaria mais aqui. - Ah, me desculpe por estar te prendendo aqui, Sr. Felicidade! - Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Eu disse que se você estivesse feliz eu não estaria mais aqui, mas não disse que eu não queria estar. Mas ao mesmo tempo, eu também não quero te ver infeliz. Mas que droga, Vivi! Você é mais tapada que uma mula! - Refresque a minha memória, por favor! Eu já não disse que não quero mais te ver, que não preciso de você? - Mulheres vivem dizendo uma coisa enquanto querem dizer outra. - Não é o caso! – menti. - Não? Então por que as suas ações dizem o contrário? Você pede para eu ir embora, mas vive me procurando. - Te procurando? Eu não ando tendo tempo nem para procurar a calcinha que vou vestir, quanto mais pra procurar por aí o personagem mais mala que minha imaginação foi capaz de criar.


- Ei, eu sei que não sou perfeito, mas você não me deixa muita escolha, sabia? - Hoje você não está falando coisa com coisa. Por acaso você está chapado? - Quanto mais tempo você demorar pra enxergar, mais tempo você continuará infeliz. - Nossa, quanta ladainha! Por que será que eu só consigo acordar quando não quero? Acorda, Vivi, acorda, Vivi! – eu dizia em voz alta, tentando acordar daquele sonho estranho. - Não faça isso, gatinha! Fique mais um pouco comigo. Precisamos conversar direito. - Ficar mais? Com você por perto? Eu não quero ficar perto de você, você não percebe? Você me faz mal! - Mal? Não, Vivi! Eu jamais te faria mal. Eu te quero tão bem... se você soubesse... - Mas você faz. Você me tortura, e eu não posso me prender a você, porque a vida é curta demais e eu preciso viver! Viver a realidade, não esse sonho que, por mais que seja lindo, não existe. Acorda, Vivi! Acorda,Viv... - Não faça isso comigo, Vivi. Você ainda não entendeu nada! Você não entendeu quem eu s...


P á g i n a | 136

- Acorda, Vivi! – continuei, e então deu certo. Eu não acordei, mas meus olhos não estavam mais colados e eu estava sozinha. Mergulhei em um sono profundo.


08 – APRENDENDO A VOAR

“Acho que estou farto de ter paciência. Eu posso esperar uma noite. Eu jogaria tudo isso fora se você me desse uma ultima chance. Nós viveremos felizes e pra sempre presos, se você apenas salvar minha vida. Corra e diga aos anjos que tudo está bem.” – Learn To Fly – Foo Fighters

- Vivi? Acorda, Vivi! - Eu já não mandei você ir embora, saco? – eu murmurei. - Vivi! Acorda! Eu tô com fome! - Que merda, Sr. Superbonder! E o que eu tenho a ver com isso? – mas ele me chacoalhou e eu abri os olhos, encontrando o Cadú sentado na beirada da minha cama. – Cadú, o que você está fazendo aqui? E se eu estivesse dormindo pelada? - Ah, aí eu tampava os olhos, mas continuaria pedindo para você acordar. É que estamos todos com fome, mas a Rita disse que só vamos comer quando você se juntar a nós. Você estava

sonhando

com

cola,

sabia?

Me

chamou

de

Superbonder e tudo. – e então ele começou a rir, como se só agora tivesse achado graça.


P á g i n a | 138

- Cadú, eu desço em menos de cinco minutos se você não contar isso pra ninguém. - Ei, não precisa me chantagear. É só pedir que eu não conto. Mas eu agradeceria se você descesse em menos de cinco minutos. Minha barriga está roncando! – ele disse, antes de voltar para a cozinha. Eu estava escovando os dentes quando me dei conta de que era o dia da premiação. O frio na barriga apareceu imediatamente, e eu comecei a me arrumar ainda mais rápido que antes para dividir essa ansiedade com os meninos. Quando eu desci, todos respiraram aliviados. Eles deviam estar me esperando há muito tempo, a julgar pela cara de felicidade que fizeram quando me viram. - Bom dia, pessoal! E aí, preparados para nosso grande dia? - Sim, mas estamos mais preparados ainda para essa panqueca e para os ovos mexidos com bacon. Você queria dormir até a hora do show, é? – perguntou Ric. - Que horas são, afinal? - Meio dia e quinze! – quase todos eles disseram ao mesmo tempo. - Nossa, eu nunca durmo até essa hora! Não sei o que me deu. Por que não me acordaram antes? - Exatamente porque você nunca dorme até essa hora. – respondeu a Bia.


- Bom, vamos comer! – disse Rita, deixando todo mundo com cara de quem havia acabado de ganhar na mega sena. - Tim, ela parou de ligar? – o Cadú perguntou. - Ela não vai mais ligar. Dessa vez não tem volta! - Nossa! O que aconteceu, Tim? – a Bia se apressou a perguntar. - Nada! Só cansei do jeito dela. Ela é muito infantil. - Não me diga que só agora percebeu! – ironizei, mas ele me deu um olhar que me fez calar imediatamente. Ele parecia triste, e isso acabou me entristecendo, também. Eu não suportava ver nenhum dos meus meninos triste. – Ei, não se preocupe que hoje à noite você vai se dar bem. Nós vamos arrebentar naquele palco! Certo, meninos? - Ahãm! – disse Cadú com a boca cheia. - Yép! – respondeu Ric. Mas o Tim deu de ombros e voltou a comer. A Rita, vendo a reação do Tim, disse: - Eu já disse que vocês ganharam mais 19 fã-clubes, sendo 6 deles brasileiros. 9 norte americanos, 3 europeus e 1 japonês? - Jura? – eu perguntei em um tom super animado, tentando empolgar o pessoal. - Rita, esses ovos mexidos estão deliciosos! – disse Ric, demonstrando que não estava prestando nem um pingo de


P á g i n a | 140

atenção na nossa conversa. Fracassamos ao tentar animar o Tim. Uma hora depois, nós fomos até o local onde ocorreria a o VMA e passamos o som. Até que ficou bom, mas sabe quando a banda não transmite aquela energia contagiante, que faz a pessoa se jogar de cabeça? Pois é! Era isso que estava acontecendo. - Meninos, eu estou me esforçando, mas não acho que esteja dando certo. - Claro que está! Nosso som está ótimo! – disse Cadú. - Sim, eu sei. Mas não está com o astral certo. Sei lá, está menos animada que nos ensaios. - Ah, Vivi! Não seja implicante! Estamos todos dando o nosso melhor, aqui. Será que não é você que está um pouco pra baixo, não? – perguntou Ric. - Não sei. – eu disse, ao perceber que poderia ser exatamente esse o problema. Logo que voltamos para casa, para descansarmos um pouco e nos arrumarmos, meu celular começou a tocar “i’m a ch-ch-ch-ch-ch cherry bomb”. - Alô! - Oi, princesa! Estamos passando o som para a premiação e nos informaram que vocês acabaram de sair daqui. Que desencontro infeliz!


- Nossa, que chato! Pensei que vocês já tivessem passado, antes de nós. - Não! Sempre ficamos pro final. É uma coisa nossa. E então, o que você vai vestir, hoje à noite? - Depende! Para a premiação ou para a apresentação? - Vejamos... para a apresentação. - Surpresa! - E para a premiação? - Surpresa, também! - Ah, você quer me deixar curioso, né? Vou até o camarim para te agarrar! Depois de falar com o Brian, eu passei as próximas horas trancada no meu quarto com o som no último volume. Eu precisava estar bem animada, melhorar meu estado de espírito. Dancei, pulei, fiz algumas abdominais e, para melhorar minha “maratona da alegria”, comi um donut recheado de doce de leite. Pronto! Não dava mais tempo para continuar minha maratona, pois o cabeleireiro que eu tinha contratado para ir até em casa me arrumar já deveria estar chegando, e eu ainda tinha que tomar banho. Eu tomei um banho demorado, coloquei um vestido simples e então o Julian (o cabelereiro) começou a ajeitar minhas madeixas. Ele me fez um rabo de cavalo bem puxado, daqueles que deixam


P á g i n a | 142

qualquer garota se sentindo uma linda japonesa. Ele me deu um casquete vermelho de renda para que eu pudesse colocar em cima do rabo de cavalo, quando nós fossemos nos apresentar. Depois que ele se foi, eu coloquei a roupa com a qual eu assistiria a premiação: um vestido que, na parte de cima era feito de couro preto com o decote em formato de coração, mas na parte de baixo a saia é feita de tule preto e em estilo godê. O vestido é bem curto, mas extremamente sexy. Calçei minhas sandálias de salto alto feitas de couro com detalhes em tule, me maquiei, passei meu perfume favorito, Omnia, da Bulgari e desci. Fui até a cozinha para fazer um lanchinho e encontrei os meninos lá, de costas para mim. O Ric e o Cadú estavam montando sanduíches e o Tim estava colocando água no microondas para ferver, distraído, fazendo os estranhos barulhos com a boca. Eu já estava com saudades desse seu jeito molecão. - Já estão prontos para arrasarmos, hoje? – perguntei. E então eles se viraram para mim e eu fiquei de boca aberta. Cada um deles parecia um grande rockstar e eu comecei a me sentir feia e desajeitada. O Ric estava usando calça skinny preta com rasgos, camiseta listrada preta e branca e uma jaqueta jeans preta por cima e um chapéu preto que era a cara dele. O Cadú estava usando uma calça jeans escura com uma camisa social roxa que tinha o desenho de uma caveira no lado direito. Seu cabelo estava todo bagunçado pelo gel, e ele parecia adorável. O Tim, por sua vez, estava usando calça skinny preta, camisa social branca de manga


curta, gravata preta e um colete preto por cima. Seu cabelo também estava ajeitado para cima com gel com seu pequeno topete jogado para o lado direito. E eu devia estar quase roxa, porque parei de respirar assim que olhei para ele. Foi nesse momento que percebi que todos eles estavam tão nervosos quanto eu, porque com exceção dos barulhos que o Tim havia emitido com a boca, o silêncio predominava. Ficamos os quatro olhando um para o outro, e esse olhar demonstrava o que o espírito de cada um de nós estava sentindo. Aquele momento íntimo só acabou quando a Rita e a Bia desceram e disseram que estávamos maravilhosos. - Vamos dominar Nova York, galera! Chegou a nossa hora! – gritou a Rita, e todos gritamos em concordância. A premiação ocorreu no Teatro Beacon, do Hotel Plaza. A Limusine nos levou até a entrada do teatro, nós respiramos fundo e então descemos para atravessar o tapete vermelho. Os flashes eram tantos que quase nos cegaram. Demos a paradinha básica para facilitar as fotos e então o Bryce Seacrestag, um dos maiores apresentadores de televisão do mundo veio nos entrevistar. Gato, gato, gato! - Boa noite, galera do Rock & Pie! É um prazer conhecê-los pessoalmente e tenho certeza que o pessoal de casa que está nos assistindo pelo canal C Television está em êxtase por vêlos. Eu queria fazer algumas perguntas para vocês. Pode ser? – e então todos nós concordamos.


P á g i n a | 144

- Ric, eu gostaria de começar com você. Você mesmo já declarou em outras entrevistas que é o mais mulherengo da banda. Você leva essa vida errante por escolha ou porque ainda não conheceu a garota certa? - Sem dúvida eu não conheci a garota certa. Ou – e então ele fez uma pausa dramática – talvez eu já a tenha conhecido, mas ainda não tivemos a oportunidade de nos entrosarmos. – e então as fãs começaram a gritar histericamente coisas como “Ric, eu to aqui. Vem me conhecer!”, ou “Ric, eu te amo! Casa comigo que eu finjo que nem sei das outras”, e coisas desse tipo. - Cadú, você é o mais novo da banda e o favorito das adolescentes. Quais qualidades uma garota deve ter para chamar sua atenção? - Ah, Bryce! Não vou mentir que o corpo não me chama atenção. Afinal, sou homem, né? Mas confesso que uma garota me chama atenção quando está sendo natural. Gosto de

garotas

mais

simples,

sem

frescuras,

que

sejam

companheiras, que usem tanto um vestido de festa quanto um moletom, e apreciem um bom e velho tênis tanto quanto um salto alto. – e as fãs gritavam “Cadú, deixa eu ser o seu teclado por um dia”, e coisas desse tipo. - Tim, frequentemente você tem sido visto em companhia de uma ex namorada. Nós recebemos milhares de cartas de suas fãs perguntando se sabíamos se vocês tinham voltado a


namorar sério. Você pode nos ajudar a responder isso? – notei que o Tim não curtiu muito a pergunta. - Não, não voltamos a namorar e nem vamos. Ela é um assunto encerrado na minha vida. – e as fãs gritavam “Tim, vem usar sua baqueta na minha casa”, e coisas desse tipo. E eu quase quis gritar junto! Quase! - E você já deve ter uma noção do que vou te perguntar, né, Vivi? E então, você vai oficializar o romance com o Brian ou não? - Bryce, a verdade é que saímos algumas vezes, mas ainda não estamos namorando. Nós ainda temos que conversar sobre isso, mas por enquanto estamos bem, assim. – ele não ficou satisfeito com a resposta, mas sabia que desse limão não sairia mais suco. Então ele voltou sua atenção aos meninos. - Bem, confesso que o fato de vocês três estarem solteiros não é uma surpresa muito grande para ninguém. Afinal de contas, deve ser muito difícil para uma garota aceitar o fato de que vocês trabalham e convivem quase 24 horas por dia com a Vivianne Santinni, a sexta mulher mais linda do mundo. – Ah, lá vem ele me lembrando desse título. Que vergonha! - Vocês acham que isso já prejudicou vocês com alguma garota ou que pode vir a prejudicar, em algum momento? – perguntou Bryce, e os três se olharam por alguns segundos antes de o Ric responder.


P á g i n a | 146

- É totalmente compreensível que qualquer garota fique insegura perto da Vivi, mas a partir do momento em que ela veja o tipo de relacionamento que temos, essa insegurança passará. A Vivi é como se fosse uma irmã, e qualquer mulher que esteja disposta a se relacionar com qualquer um de nós terá que aceitar esse relacionamento que temos com ela. E isso é indiscutível e inegociável! – e eu fiquei com os olhos cheios d’água. O Ric e o Cadú me abraçaram, e o Tim ficou de lado, olhando, se sentindo um pouco desconfortável. E o Bryce deve ter percebido, porque em seguida ele disparou: - Tim, você concorda com o comentário feito pelo Ric? – e pude ver que esta pergunta o pegou de surpresa. Realmente o Bryce estava partindo com tudo pra cima do coitado. E o Tim pensou, pensou, e pensou... - Tim? – perguntou Cadú. - Não! – ele por fim respondeu. - Não? – perguntou Bryce, confuso. - Quero dizer, concordo que o relacionamento que a Vivi tem com o Ric e com o Cadú seja de irmão e irmã, mas comigo não é assim. - O Ric e o Cadú enrugaram a testa, confusos, o Bryce estava com cara de quem havia acabado de ganhar um presente de aniversário e eu estava quase vomitando de nervoso. - Você pode nos explicar melhor o que isso quer dizer?


- Não há o que explicar. Eu não a vejo com olhos de irmão. Só isso. Não há mais a dizer. – e então ele saiu. Eu olhei para o Bryce, agradeci pela entrevista e saí, antes que ele achasse que eu sabia explicar o que o Tim quis dizer. E se ele pensasse assim estaria certo, mas eu definitivamente não queria pensar nem falar sobre isso. Nem admitir a mim mesma o que já estava na cara. O teatro estava lotado, e eu fui em direção ao assento que estava reservado a banda. Pelo caminho, me senti no céu, porque vários integrantes das minhas bandas favoritas passavam por mim. Houve momentos em que a emoção foi tanta que eu tive vontade de gritar e pular como uma louca, como quando encontrei a Joan Jett, o Axl Rose e o Mick Jagger. Nem acreditei quando encontrei meus ídolos do American Idol: Adam Lambert, Allison Iraheta, o lindo do Phillip Phillips e o David Cook, que tanto me fez suspirar com suas versões mais que maravilhosas de músicas que eu nem curtia. Eu nem acredito que estou aqui no meio de tanta gente que eu admiro! Eu estava ainda na metade do teatro quando a Rita me alcançou. - Vivi, pode ir parando aí. Me explique o que está acontecendo entre você e o Tim! - Eu... nada! - Como nada? Todo mundo ouviu muito bem o que ele disse. Por acaso vocês andam brigando? É isso? – Yes! Ela está


P á g i n a | 148

achando que o que ele disse sobre não me ver com olhos de irmão é porque não nos damos bem. Ufa! - Não mais do que brigávamos no Brasil. Ele que anda meio surtado, achando errado tudo que faço. Mas vamos resolver isso, prometo! - Acho bom! Mas de qualquer jeito, vou falar com ele. – E se ele disser alguma coisa pra ela? - Não, por favor. Deixa eu me resolver sozinha com ele, senão ele vai achar que falei mal dele pra você. Fique tranquila que vai dar certo! - Por enquanto eu vou ficar quieta, mas se demorarem muito para resolver essa birrinha boba, terei que me intrometer. E espero que isso não comprometa a apresentação de vocês. – e encerramos o assunto. Quando entrei na fileira onde nossos assentos estavam reservados, tive uma grande surpresa: a banda Blue4us estava sentada bem ao lado dos assentos que nos eram destinados.

Lógico que o Brian estava bem na

cadeira que delimitava território, esperando que eu sentasse ao lado dele. Quando eu o vi, sorri, satisfeita. Ele se levantou, me olhou e sacudiu a cabeça. - Você está tão linda que parece o personagem de um sonho. - Não dava pra ele falar algo mais apropriado? Era a mesma coisa que dizer: o Sr. Superbonder passou e te deixou um oi! Quando espantei aquele pensamento infeliz, notei que ele estava lindo de viver, como sempre. Ele usava calça jeans


skinny (essa moda pegou, né?) preta, uma camisa pink e uma jaqueta de couro preta com toca de moletom. Fiu, fiu! - Obrigada! É tão bom quando podemos elogiar de volta... você está lindo! Muito lindo! – ele sorriu e me abraçou. Quando me soltou, se aproximou para me beijar. Ele ia me beijar na boca na frente de todo mundo! Eu confesso que tive vontade de desviar e deixar ele beijar minha bochecha, mas tive medo de magoá-lo. E os lábios dele tocaram os meus. E os flashes começaram. E algum engraçadinho gritou de uma fileira lá de trás: “Não encosta na minha garota!”. O comentário foi feito em alusão ao dia que o Brian tentou me defender de um fã e disse para ele não encostar em mim que eu era sua garota. E aparentemente era isso que todos pensavam. Era isso que eu pensava? O Brian riu do comentário, e então passou as mãos ao redor da minha cintura, como um gesto de posse. Como se eu fosse um troféu. Olhei ao redor, para ver se todo mundo da minha banda já estava na fileira e encontrei todos eles sentados. O Tim estava sentado no extremo oposto, possivelmente para ficar bem longe de mim. Mas ele me olhou, e seus olhos pousaram nos braços do Brian ao redor da minha cintura. E depois os olhos dele encontraram os meus. O seus olhos eram da cor dos seus cabelos, bem escuros. Naquele momeno estavam ainda mais que o normal. - Vivi, melhor nos sentarmos porque a apresentação já vai começar. – disse o Ric.


P á g i n a | 150

Foi o comediante Gary Tridckson que apresentou a premiação. E então ele anunciou a primeira categoria: melhor videoclipe do ano. Quatro categorias e um show se passaram e era nossa deixa para irmos até o camarim nos arrumarmos, pois

tinha

apenas

duas

categorias

antes

da

nossa

apresentação. A Bia já estava lá, com a roupa que eu usaria. Ela estava mais quieta que o normal, e passou pela minha cabeça que talvez ela tenha ouvido o que o Tim havia dito ao Bryce. Resolvi deixar aquele pensamento para depois e me concentrei na minha roupa. Eu coloquei um vestido vermelho que era tão minúsculo que nem parecia que era meu, mas ele era apropriado para a música que eu cantaria. A parte de trás do vestido deixava minhas costas de fora até perto do bumbum. Calçei um par de sapatos estilo Pip Toes vermelho sangue, que era da cor do vestido, da cor da minha unha e da cor do meu batom. E coloquei o casquete vermelho em cima do elástico transparente que prendia meu rabo. Eu estava uma mulher fatal! Tão fatal que nem me reconheci no espelho. Eu estava linda, mas não me sentia como eu mesma. Mas isso fazia parte do show business, então retoquei meu batom e fui em direção da entrada do palco. Pelo caminho, todos os homens ficavam me secando, inclusive os famosos. Vestir essa roupa sexy estava definitivamente valendo a pena! Ou era isso que eu pensava, até eu encontrar os meninos. Eles me mediram dos pés à cabeça e perguntaram: - Quem é você e o que fez com a Vivianne? - Eu só quis entrar no clima da música.


- Eu não sei quanto a eles, mas eu definitivamente entrei no clima. E que clima! – disse Tim com um olhar malicioso que me deixou morrendo de vergonha e com as pernas moles. Vestir essa roupa sexy definitivamente não valeu a pena! Então o Gary anunciou: - O show a seguir é de uma banda que está em todas as paradas musicais. Minha esposa até me obrigou a pedir autógrafo aos integrantes masculinos e eu disse que tudo bem, contanto que eu pudesse pedir à vocalista para autografar meu peito e assinar com um beijo. Lógico que ela desistiu dos autógrafos, né? – ele brincou. – Com vocês, Rock & Pie. – e eu senti como se estivesse caindo de uma torre de 20 andares. - Vai, Vivi! Anda! – disse Ric. Eu subi ao palco, olhei toda aquela multidão e pensei que fosse desmaiar. Olhei pra trás e os meninos estavam tocando os primeiros acordes da música. Olhei para o Tim e ele percebeu meu nervosismo. Então ele gesticulou com a boca: “Vai dar tudo certo” e assentiu com a cabeça. E um pingo de coragem surgiu dentro de mim. Minha deixa chegou e comecei a cantar: “JÁ PASSA DA MEIA NOITE E EU ESTOU PARADO AQUI. DESDE QUE NOTEI VOCÊ EU NÃO PARO DE SORRIR. GAROTA, CHEGA MAIS! É O QUE EU QUERIA DIZER.


P á g i n a | 152

MAS

EU

FICO

TE

OLHANDO,

AINDA

VOU

ENLOUQUECER. VOCÊ TEM ESSE JEITO SEXY, TODO ESPECIAL. POR ESSE SORRISO DANADO É QUE EU ANDO PASSANDO MAL. E QUANDO VOCÊ ANDA, REBOLA E JOGA OS CABELOS. VOCÊ

DANÇA,

REMEXE

E

REQUEBRA

O

QUADRIL

INTEIRO. HEY, GAROTA! QUAL É O SEU NOME? POR FAVOR, ME DIGA E TAMBÉM DÊ SEU TELEFONE. HEY, MENINA! QUERO PROVAR DO SEU BEIJO. ESSE SEU CORPO É UM VENENO, EU TE TERIA O DIA INTEIRO.” Quando minha parte acabou, o Ric não esperou um segundo e já entrou com “You shook me all night long”. Eu olhei para a multidão e eles estavam dançando, dando gritinhos incentivadores, e eu me empolguei. Enquanto eu tocava a Lua (meu baixo), eu comecei a dançar. Aquela música era muito contagiante, sexy, vibrante. E meus movimentos corporais foram assim, sexy e vibrantes. Aquela era a minha noite, e eu era uma rockstar. E eu me sentia assim pela primeira vez na vida: uma diva do rock! E então o Ric cantou:


“Yeah, you shook me, yeah, you shook me all night looooooong”- e eu dei sete batidas no baixo e acabou. Então o teatro

veio

abaixo,

gritando,

berrando,

aplaudindo,

assoviando. Eu olhei para o Ric e ele estava sorrindo de orelha a orelha. Olhei para o Cadú e ele levantou os braços, como se tivesse ganhado um campeonato de MMA. Olhei para o Tim e meu coração se apertou: ele apontou as baquetas para mim e disse “Você é demais”, assim como ele fez no nosso primeiro show. Meu coração se apertou. O Gary agradeceu e nos retiramos do palco. Os meninos entraram no camarim deles e eu entrei no meu. Assim que entrei, ouvi duas batidas na porta. Corri para abrir, mas mal vi quem entrava e já fui prensada na parede por um peito musculoso cheirando a Chanel. Ele me prendia à parede com as duas mãos e me olhava nos olhos. -Eu só queria pedir desculpa pela forma que te beijei, ontem. - J-j-j-já está desc-c-culpado, Tim. – eu disse gaguejando e em um fio de voz, rezando para que ele me soltasse o quanto antes. – Foi um erro e te perdoo. Nem toco mais no assunto. - Acho que você não entendeu. Eu estou pedindo desculpa pela forma que te beijei, porque você não merecia que fosse daquele jeito. Eu já tinha beijado a Letícia, e tal. Mas eu vou compensar você por isso. - Ótimo! É só falar pra Rita que nos acertamos em...- e então ele encostou vagarosamente seu rosto no meu e sussurrou:


P á g i n a | 154

- Não é assim que eu vou compensar, mas sim desse jeito... e seus lábios colaram nos meus. Quando eu era criança eu sonhava em ser astronauta. Eu vivia sonhando que eu entrava em um foguete e me perguntava como era a sensação de estar no espaço sem nenhuma gravidade. Eu acho que a sensação deve ser exatamente como eu me senti com a união dos nossos lábios. E os lábios dele se moveram de forma lenta e sensual, e um calor me atingiu em certas áreas do meu corpo. Eu juro que pensei em empurrá-lo, em chutá-lo, tapeá-lo ou socá-lo, mas fui fraca. Tão fraca que passei a mão pelos cabelos dele (coisa há tempos eu vinha tendo vontade de fazer), sentindo a viscosidade dos fios, e abaixei as mãos para suas costas largas e firmes. Seus lábios se abriram e ele invadiu minha boca com a sua língua. Ele tinha um sabor único e indescritível, e era tão bom que eu nem protestei quando ele me prensou ainda mais contra a parede. O corpo dele estava tão colado no meu e nosso beijo estava tão íntimo que senti como se fossemos um. Mas então os lábios dele soltaram os meus e ele deu um passo pra trás. Eu queria puxá-lo de volta para mim, mas não o fiz. - Esse era o beijo que você merecia. – e então ele saiu porta a fora. Minha cabeça estava a mil. Não era certo eu sentir o que eu sentia quando eu estava perto dele, e pior ainda era saber como era estar nos braços dele. Eu não tinha a menor idéia do que fazer, de como agir. E então bateram novamente na porta, mas antes que eu pudesse me empolgar, o Cadú


disse: -Vivi, se troca logo que daqui a pouco é a nossa categoria. Temos que estar lá embaixo pelo menos duas categorias antes. Eu coloquei a mesma roupa que eu estava antes da premiação e vi os meninos me esperando no corredor do camarim. Olhei para o Tim, tentando decifrar algo do rosto dele e notei que ele estava com um sorriso bobo no rosto. Quando saímos do backstage passamos por algumas fileiras para chegar aos nossos assentos, e várias pessoas nos elogiaram.

Quando

eu

avistei

meu

assento,

fiquei

imediatamente com uma leve dor de cabeça. Eu tinha me esquecido do Brian! O que faço com o Brian agora, meu Deus? Aliás, o que faço com o Tim? Ou melhor, o que faço com os dois? - Vivi, preciso te dizer que nunca fiquei tão excitado como você me deixou, enquanto cantava, dançava e rebolava em cima do palco. – ele disse de um jeito tão empolgado e tão apaixonado

que

senti

um

remorso

imenso

por

ter

correspondido ao beijo do Tim. - Então você gostou da apresentação? – perguntei. - Você está brincando? Aposto que amanhã só se falará sobre o show de vocês e sobre o quanto você estava divina em sua performance.


P á g i n a | 156

Alguns

minutos

depois,

chegou

o

momento

tão

esperado: a premiação da categoria de Melhor Banda Revelação. Então o Gary anunciou os candidatos: -E os candidatos à Melhor Banda Revelação são: Lolli& Pops, Greyskye, Rock & Pie e Dinner42. E a banda vencedora é: .............................................................................................. .............................................................................................. .............................................................................– olhei para os meninos e eles me olharam de volta. Nosso nervosismo era nítido.

Ah,

fala

logo,

saco!-

................................................................... Dinner42! - Não acredito! Acho que estou tendo um ataque de depressão! Alguém aí tem um Valium pra me emprestar? Mas sorria, Vivi, porque eles sempre filmam a cara dos perdedores. O Brian pegou minha mão e sussurrou em meu ouvido: - Foi marmelada, princesa! Todo mundo sabe que vocês mereciam o prêmio. Mas não fique triste, vocês ainda vão encher um armário, de tantos prêmios. Você é ótima, Vivi! – ele era tão fofo que fazia meu coração derreter. – Me desculpe por sair justo agora, mas minha banda vai tocar daqui a pouco. Já volto! – e então ele se foi. A Rita ficou inconsolável. O bico que ela fez não podia ser medido nem por uma trena, pois era bem maior. O Cadú estava sacudindo a cabeça até agora e o Ric estava de braços cruzados e com um bico semelhante ao da Rita. Eles devem estar disputando! O Tim estava olhando para o relógio


e bufando, possivelmente desejando ir pra casa. Pensei na Bia, e me toquei que se ela soubesse sobre o beijo que ele me deu era possível até que se demitisse. Não que ela tenha dito alguma vez sobre sua atração por ele, mas era tão visível que qualquer um poderia ver. - Ainda não acredito que perdemos. – disse o Ric em um volume tão alto que mesmo com todo barulho da cerimônia eu ouvi (ainda que ele estivesse três cadeiras ao lado da minha). - Calma, Ric! Não se preocupe que isso não nos desprestigia. Nós começamos a fazer sucesso aqui há apenas alguns meses, enquanto a maioria dos outros candidatos batalham por aqui há anos para tentar ser reconhecido. – disse Tim em um tom tão tranquilo, tão calmo que era um tanto quanto contagiante. Cerca de dois minutos depois, o Gary anunciou a banda Blue4us, e eles entraram no palco. Quando eles começaram a tocar, eu me lembrei da razão pela qual fui apaixonada pelo Brian desde que conheci sua banda: ele era um cantor incrível, além de dançar muito e ser extremamente sexy... e agora era meu. Meu! Lembrei de um comercial que eu assistia quando eu era criança, onde uma menina passava a propaganda toda dizendo “Eu tenho, você não te-em”. E olhando para ele, eu me sentia assim. A voz dele era sexy, a roupa dele era sexy, e então a falta de roupa dele se tornou mais sexy ainda, porque ele arrancou a camiseta e ficou com


P á g i n a | 158

o peito nu, andando pelo palco todo com suas tatuagens nos ombros e na barriga à mostra. E que barriga! A mulherada estava enlouquecida, e todas deviam estar sentindo a temperatura subir pelo menos uns dez graus, assim como eu estava sentindo. A Rita até desfez o bico e estava pulando e cantando comigo. E então, o Brian pulou do palco e encerrou a música olhando para mim. Quando todos começaram a aplaudir, ele me agarrou e me lascou um beijo. Chegamos em casa em menos de uma hora após o encerramento da cerimônia e fomos à cozinha para fazermos um sanduíche, e todos nós nos fartamos até nossas barrigas começarem a doer. Quando eu acabei, me despedi e comecei a subir as escadas em direção ao meu quarto, quando meu braço é puxado e sou obrigada a olhar pra trás. Era o Tim, me olhando com uma certa curiosidade. - O que foi agora, Tim? - Nada demais! Só queria perguntar o quão nojenta você se sentiu quando beijou o Brian após termos acabado de nos beijar. Mas quer saber? A curiosidade já passou. Boa noite! – e então ele desceu, me deixando com cara de trouxa. Julgue mesmo os outros, Vivi!É tão bom pagar a língua, depois, né? Eu passei quase a noite toda acordada, pensando no beijo do Tim, e depois no beijo do Brian, e tentando descobrir como me coloquei naquela situação. E ainda por cima eu estava com medo de dormir e sonhar com “a cola que não deve

ser

nomeada”.

O

meu

maior

problema

era

a


impossibilidade de evitar o Tim, uma vez que, além de trabalharmos juntos, ainda morávamos na mesma casa. Pensei na minha casa em São Paulo e a saudade apertou. Pela manhã, a moça que fazia faxina, a Dulce, havia acabado de limpar acozinha quando entrei. Ela havia feito uma torta caseira e nos levado, então eu a agradeci e cortei um pedaço para mim, porque eu imaginei que todos fossem acordar bem mais tarde. Mas então o Ric entra na cozinha e senta ao meu lado. -Também não conseguiu dormir? – ele perguntou. - Não! Devo ter cochilado por no máximo uma hora. - É, eu também. Não engoli o fato de termos perdido para o Dinner42. - Não sabia que isso era tão importante para você. - Ah, é importante, sim. Mas também não vou parar minha vida por causa disso. - Então tem mais alguma coisa te preocupando? - Várias coisas! E com você também, não é? - Sim! – e então eu o servi de uma fatia de torta. – Nossa vida está muito diferente, né? - Sim! Mudou completamente. Aonde quer que a gente vá, sempre haverá alguma pessoa que nos reconheça, e logo uma multidão se forma. Nossa família está longe, e eu meio que


P á g i n a | 160

estou me sentindo solitário. - Eu sinto isso, também! Se não fosse por vocês, com certeza eu estaria na maior deprê. - E então, como vão as coisas entre você e o Tim? – e quase engasguei com a torta. - Ah, você sabe. As mesmas briguinhas de sempre. – e me senti mal por estar mentindo para ele. - Vivi, nós passamos quase as vinte e quatro horas do dia juntos, todos os dias. Acha que não sei o que está acontecendo? – ele sabe? Não, por favor, não saiba!Então ele me olhou e perguntou: - Você sabe, não sabe? - Sei o que? – Por favor, que você esteja falando de outra coisa!Olhei

para

ele

e

tentei

fazer

minha

cara

de

desentendida, mas ele sacou que eu sabia. - Você não me engana, Vivi! Quando foi que você descobriu que ele é completamente apaixonado por você? - Ah, não! Ele não é apaixonado por mim. Ele só tem uma pequena atração. - Hahaha! Você está brincando, né? Mas me conte, quando foi que você descobriu sobre essa pequena atração! - Bem, acho que foi no dia que ...não, foi no outro, quando ele... sabe que não sei? Eu meio que desconfiava, mas só tive certeza no dia em que ele me beijou.


- Ele o quê? Como assim ele te beijou? Você deixou? - Não! Eu o empurrei. Ele tinha acabado de voltar da casa da Letícia e veio me beijar. Eu senti o maior nojo! - Nossa não acredito que ele fez isso! Cara, como ele é burro! E que falta de respeito com você. Eu vou fal... - Ei, calma aí. Ele não fez por mal. Eu entendo a situação. - Como assim você entende? - Porque ontem eu fiz a mesma coisa com o Brian. - Você beijou alguém e depois deu um beijo forçado no Brian? - Não, eu não dei nenhum beijo forçado, mas... mas eu beijei alguém antes dele. – pude ver pela expressão em seu rosto que ele ficou surpreso, e então parecia que ele tinha entendido a situação. - Não me diga que antes de beijar o Brian você beijou o.. - Sim – eu o interrompi. - Depois do show ele foi até o meu camarim e me beijou. - Bem que eu e o Cadú estávamos nos perguntando para onde ele tinha ido. Mas me responde uma coisa: quando ele te beijou dessa vez, você consentiu? – E agora, o que eu respondo? - Ele me pegou de surpresa, e eu fiquei tão confusa... e então eu não sabia mais o que eu estava fazendo, e então ele me


P á g i n a | 162

soltou e... - Tá bom, já entendi. Você consentiu, Vivi! Já parou para pensar que talvez você esteja nutrindo sentimentos amorosos por ele? - Não – eu quase gritei. – Não, eu não estou. Eu não posso, isso seria...errado. - Errado por que? - Porque somos uma família. - Meu pai e minha mãe fazem parte da minha família e eles amam um ao outro. – ele disse em um tom brincalhão, meio que zombando da minha cara. - Engraçadinho! Não foi isso que eu quis dizer. - Foi, sim. Só não se esqueça de uma coisa: essa história de irmãos entre você e ele não rola. Irmãos não se beijam na boca. Por que você não tenta dar uma chance pra ele? - Ric, eu estou meio que namorando o Brian. E eu gosto dele. Além do mais, o Tim não é apaixonado por mim. E tenho certeza de que ele não quer nada sério comigo. - Posso fazer uma pergunta? - Claro! - O que você sentiu quando o Tim te beijou ontem? – lembrei da sensação do foguete, mas nem morta que eu diria aquilo. - Medo! E adrenalina, como se eu estivesse numa montanha


russa, sabe? Ah! E frio no estômago. E... - Tá! – ele disse, me interrompendo. – E o que você sente quando o Brian te beija? - Conforto. E calor! - Ric, esse assunto está começando a me incomodar. Não estou no clima de ficar pensando nessas coisas. Ei, temos que ensaiar antes do show do EmptyBottles, hoje a noite. Que tal se você fosse acordar os meninos pra tomarem café enquanto eu vou tomar um banho e me trocar, hãn? - Ok! Você que manda. – e ele foi levar o prato até a pia enquanto eu saía da cozinha e cruzava com o Tim na escada. Nós demos bom dia um ao outro e seguimos nosso caminho. A tarde passou como num piscar de olhos, e então decidimos encerrar o ensaio. O Euller McTravis havia nos informado que a música que tocaríamos juntos seria um cover do “WholeLotta Love”, do Led Zepellin, e depois cantaríamos “Hey, menina”. Quando o ensaio acabou, almoçamos um macarrão com queijo que a Rita fez, tiramos um cochilo, nos arrumamos e fomos ao Time Square Garden. A

estrutura

do

impressionados contratado.

show

com

Fomos

a até

era

gigantesca,

iluminação o

que

camarim

e

ficamos

eles

tinham

deles

e

os

cumprimentamos, e então eles nos indicaram um camarim onde poderíamos nos trocar. Só que tinha um pequeno detalhe: era apenas um camarim para nós quatro, de forma que eu teria que me trocar na frente deles.


P á g i n a | 164

-Não é possível que não tenha um banheiro disponível para eu me trocar sossegada. – eu reclamei. - Deve ter um banheiro disponível, mas duvido que você vá ficar

sossegada.

Com

certeza

você

encontrará

algum

funcionário que seja seu fã e resolva te assediar, no meio do caminho. – disse Ric. Mas vamos fazer o seguinte, quando você for se trocar, nós viramos de costa. Não é, parceiros? – o Cadú soltou um lógico e o Tim disse “Ahãn”. No nosso camarim tinha algumas torradas e pedaços de queijo, além de frutas, sucos, água, refrigerantes e whisky e energéticos. - Ei, galera! Faz um tempo que não bebemos um pouco pra aquecer, né? Que tal uma dose de whisky? – sugeriu Cadú. - Eu topo! – eu disse. Afinal, eu bem que precisava de uma bebida relaxante. E todos eles também toparam. Cada um de nós se serviu de uma dose, cada um a seu modo. O meu é sempre dois dedos de whisky e o resto com energético. - Ao nosso sucesso! – Tim propôs, ao erguer o copo. E todos levantamos em seguida, brindando. E então a dose acabou e tomamos outra. Depois da segunda, nós paramos, mas o Ric quis uma terceira. Eu o avisei de que não seria uma boa idéia, mas ele nem me deu ouvidos. O show do Empty Bottles estava muito empolgante, mas já estava na hora de nos arrumarmos. Eu deixei que eles se trocassem primeiro, e quando estavam prontos eu pedi que virassem de costas para que eu pudesse colocar minha roupa. Eu fiquei de calçinha e sutiã e peguei minha calça preta de couro. Eu entrei com


meu pé direito na calça e a levantei um pouco, pronta para colocar o segundo pé, mas eu estava com a coordenação motora um pouco afetada por causa da bebida, então acabei tropeçando. - Aaaaii! – eu gritei antes de atingir o chão. Então os três correram na minha direção para se certificarem de que eu estava bem. Meu tornozelo doía demais. - Você está bem? – os três perguntaram. - Eu acho que estraguei meu tornozelo. Está doendo muito! – eu disse, ao tentar levantar e sentir uma dor agonizante no tornozelo. Então eu cambaleei e quase caí novamente, mas eles me seguraram. - Ai, Vivi! E agora? – se desesperou Cadú. - Calma, deixa eu tentar novamente. – eu disse. - Deixa eu te ajudar. – disse Tim, passando a mão pelas minhas costas e deixando que eu jogasse meu peso sobre ele. Então eu me ergui, coloquei a outra perna na calça, já que eu ainda estava praticamente pelada, puxei a calça pra cima e fechei o zíper. Quando eu acreditei que não precisava mais do amparo do Tim, tentei dar um passo. Meu tornozelo doía tanto que lágrimas caíam dos meus olhos. - Calma, Vi! Vai dar tudo certo! - Será, Tim? Ric, me ajude aqui. – eu pedi. Quando ele


P á g i n a | 166

ofereceu o braço e eu me apoiei, ele tropeçou e caiu, quase me

levando

junto.

E

então

ele

começou

a

rir

descontroladamente. - E agora mais essa. – bufou Tim, ao perceber que Ric estava embriagado. Cinco minutos depois, saímos do Camarim e ficamos atrás do palco assistindo o show e esperando nossa deixa. O Ric fazia umas piadas que aparentemente só ele e as garotas que estavam por perto achavam graça. Notei que ele estava muito perto de uma garota que deveria ter uns vinte e quatro anos, mais ou menos. Ela era morena, tinha cabelos compridos e era muito bonita. Do nada ele avançou pra cima dela e eles se engalfinharam em um beijo que estava pra lá de cômico, tendo em vista que ele não conseguia ficar parado no mesmo lugar por mais de dez segundos, já que estava com a coordenação motora afetada. A garota o empurrou (depois de ter aproveitado o amasso por mais de um minuto), e então eu a vi indo na direção de um homem alto e forte, que tinha acabado de aparecer por lá, mas não pude ver mais nada porque o Euller estava anunciando nossa entrada. E lá vamos nós! A parceria foi perfeita. O duelo de solos de cada instrumento foi a parte mais divertida, e quando tocamos sozinhos nossa música e o pessoal pediu bis foi uma surpresa muito satisfatória. Estávamos saindo do palco quando o cara fortão apareceu, empunhando uma arma. Então ele disse para o


Ric: -Isso é para você aprender a respeitar a garota dos outros. – e ouvimos o “buuum” do disparo. E meu coração se partiu, naquele momento.


P á g i n a | 168

09 – CHAMA DA GLÓRIA

“Baleado numa chama de glória, leve-me agora mas saiba a verdade. Estou caindo numa chama de glória. Senhor, nunca saquei primeiro, mas já feri primeiro.” Blaze of Glory – Jon Bon Jovi

Havia mais de treze horas que estávamos sem notícias sobre o estado de saúde do Ric, e estávamos necessitando urgentemente

que

algum

funcionário

se

solidarizasse

conosco. Nós estávamos no hospital desde que ele foi baleado no estômago e perdeu a consciência, e a única vez que o médico se pronunciou foi para nos informar que a bala havia perfurado seu pulmão e estava alojada em sua coluna vertebral. Quando perguntamos se ele ficaria bem, o médico disse que havia apenas uma pequena chance de que ele se recuperasse. Nós nos abraçamos e choramos, e até agora estávamos esperando notícias. Eu estada encostada no ombro do Cadú e o Tim estava ao meu lado oposto, segurando minha mão. Nenhum de nós tinha vontade de comer, beber, ir ao banheiro e nem falar. Meu celular vibrava constantemente, mas eu não queria ver quem era, porque me sentiria na obrigação de falar com a pessoa que ligava ou responder cada sms que recebi, e eu não queria fazer nenhuma dessas coisas. Eu só queria ficar ali, aguardando


notícias do Ric, esperando ele sair da UTI rindo, dizendo que foi só um susto e que já estava bem. Então o médico apontou no começo do corredor onde estávamos esperando. Ele andava vagarosamente, empurrando um pé pra frente do outro como se estivesse com preguiça de andar. Ele colocou a mão na nuca e tirou sua toca, e pelo olhar dele eu soube. Eu não queria olhar para eles quando eles ouvissem as notícias. Eu tentei me levantar, mas o Tim me puxou de volta. E então o médico disse: - Ele está estável. – Meu Deus, eu ouvi direito? Ele está estável! Es-tá-vel!– Só que há um porém: ele precisará ficar uns dias em observação, pois a bala danificou sua coluna e provavelmente ele não voltará mais a andar. - Me desculpe, mas pode repetir? – eu disse, me recusando a entender. - Infelizmente a bala atingiu uma parte crítica da coluna, e existe uma grande probabilidade de ele não voltar mais a andar. – ele disse, paciente. Mas essa paciência dele estava me irritando. - Como assim ele não voltará a andar? Deve ter algum tratamento

que

ele

possa

fazer.

Não

tem

nenhuma

alternativa, nenhum estudo em andamento? - Infelizmente esse é um dos poucos casos de paralisia irreversível. – E minhas lágrimas começaram a rolar. Imagens do dia em que eu conheci o Ric passaram na minha cabeça,


P á g i n a | 170

então vi cenas dele cantando, dele pulando pra cima e pra baixo com sua guitarra, dele correndo pelo palco, dele andando até uma garota para paquerá-la, dele correndo atrás de mim segurando algum inseto para me assustar, dele correndo das fãs que sempre o perseguiam... e uma tristeza profunda

me

visitou.

Eu

comecei

a

soluçar

desesperadamente, enquanto uma chuva de lágrimas corria pelo meu rosto. O Cadú me abraçou e desmoronou em choro, também. O Tim levantou e começou a esmurrar as paredes, e depois as atingiu com pontapés. O doutor deu meia volta e começou a se distanciar, mas eu perguntei: - Doutor, ele está consciente? - Não, ele não ficará consciente por um bom tempo. Pelo menos hoje é garantido que ele não acorde. - Mas podemos ficar com ele, doutor? - Quando ele for transferido para o quarto, sim. Mas isso só será feito amanhã. Eu os aconselho a irem para casa. Não há nada que possam fazer aqui. Quando chegamos em casa, eu fui até o quarto do Ric, sentei em sua cama e recomecei a chorar, inconformada com aquela situação. Eu estava morrendo de pena dele, com meu coração doendo por saber o quanto ele sofreria. Eu olhei a bagunça dele ao redor e decidi arrumá-la, pois os pais dele estavam vindo para Nova York e nós fazíamos questão de que eles se hospedassem conosco. Depois de arrumar tudo, fui


até o meu quarto tomar banho e passei mais uma hora chorando compulsivamente. Quando eu saí, fui até a cozinha para comer alguma coisa, pois nem lembrava qual tinha sido minha última refeição. Encontrei a Bia e o Tim sentados um ao lado do outro, tomando chá. - Oi! – ele disse. - A Bia acabou de fazer um bule inteiro de chá. Você quer? –olhei para ela e notei que ela estava desconfortável, como se desejando que eu não tivesse aparecido. Quase que eu a mandei pro inferno, alegando que aquele não era o momento apropriado para paqueras banais. - Não, obrigada! Vou tomar um leite quente. - Você quer que eu esquente para você, Vivi? – ela perguntou em um tom que demonstrava que ela havia perguntado apenas por educação. - Não, eu esquento! Obrigada! – e então eu esquentei, peguei uma banana e dei uma mordida. Um nó se formou na minha garganta e novamente desatei a chorar. Cuspi a banana e deixei o copo com leite em cima da mesa. - Você está bem, Vivi? – perguntou a Bia. - Claro que não, não está vendo? Ela não para de chorar desde a hora do acidente. Pegue um calmante para ela! – e ela foi buscar, mas com ódio no olhar, devido ao jeito que ele a tratou. - Vivi, tome pelo menos esse copo de leite.


P á g i n a | 172

- N-nãoconsig-g-g-o – eu tentava dizer, aos soluços. - Mas tente, por favor. Você não come nada há quase um dia. – e então ele segurou o copo na minha boca e o virou. Eu tomei tudo, então ele colocou o copo na pia e encheu outro com água e me deu. A Bia trouxe dois calmantes e disse que seria melhor se o Tim também tomasse (ela deve ter ficado assustada com o tom de voz que ele fez pra ela, quando a mandou buscar o calmante). Nós dois tomamos, e então ele disse: - Vivi, vá se deitar. Você precisa dormir, porque sei que quer ir ao hospital amanhã cedo. - Mas eu não consigo dormir, Tim. – eu disse em tom choroso. - Eu estou me sentindo muito mal, muito triste. - Todos nós estamos. Mas vamos fazer o seguinte: eu posso ir deitar com você, e ficamos conversando até você se sentir confortável o suficiente para dormir. Prometo que não tento nenhuma gracinha! – ele propôs. Eu o olhei desconfiada, por alguns segundos, mas percebi que não queria dormir sozinha. - Ok! – eu disse, então subimos. Eu tinha certeza de que a Bia deveria estar querendo me matar, mas devido as circunstâncias eu realmente não me importava. O Tim foi até o quarto do Ric para pegar o shorts que usava para dormir e logo depois se juntou a mim. Eu já tinha colocado uma camisola rosa e deitamos. Ele havia dito que


poderíamos conversar até pegarmos no sono, mas a verdade era que nenhum de nós queria conversar. Única coisa que eu precisava

naquele

momento

era

de

um

abraço,

e

aparentemente ele precisava da mesma coisa, porque me virou de frente para ele e me aconchegou em seus braços. Dormi em menos de um minuto, mas então tentei abrir os olhos e não consegui. - Vivi, só queria dizer que estou aqui para tudo que precisar de mim. – disse o Sr. Superbonder. - Obrigada! – eu disse, mas então ele me abraçou e eu senti os braços dele me esquentar. Ele passou as mãos pelo meu cabelo e pela minha nuca. E então ele beijou meu pescoço, não de forma sexual, mas sim como uma forma de carinho. Eu me aconcheguei para ainda mais perto dele e ouvi seu coração bater. Então abri os olhos e me deparei com o Tim, ainda deitado na mesma posição, mas dormindo como um bebê. Eu sorri e voltei a dormir. Eu acordei e notei que estava com a cabeça em cima do peito do Tim. Eu o apertei bem forte, mas então notei que ele estava acordado e que tinha visto esse meu gesto. Ele sorriu, mas não disse nada, apenas começou a fazer cafuné. O sono voltou a bater, mas eu não poderia voltar a dormir antes de ter uma informação: - Você sabe que horas são?


P á g i n a | 174

- Sim, acabei de olhar no relógio. São cinco e meia da manhã. – Eu suspirei aliviada e feliz por ter mais algumas horas antes de ter que levantar, e então voltei a dormir. Algumas horas depois meu celular começou a tocar a música Cherry Bomb e eu acordei assustada. Eu e o Tim dormíamos em conchinha. - Bom dia! – ele disse em uma voz tão rouca e tão sensual que me fez literalmente tremer. – Você está com frio? - Não, só senti um calafrio. Bom dia pra você, também. - e então soltei seus braços. – Preciso atender o celular. - Não, você não precisa. – ele disse, em um resmungo, mas eu o ignorei e levantei, em busca do meu celular. Era o Brian quem estava ligando, e eu atendi. - Oi! Tudo bem? – eu disse. - Vivi, pelo amor de Deus! Você quer me matar de preocupação? Como você está? Como o Ric está? – percebi que ele estava muito preocupado, e me senti culpada por tê-lo mantido afastado desde a hora do tiro. - Me desculpe por não ter atendido antes. Eu só não estava ... legal. Na verdade, ainda não estou. – olhei para o Tim e ele estava me observando. – Na verdade, acho que não vamos conseguir nos ver por alguns dias. Vou passar a maior parte do tempo no hospital. O Ric está sob observação, e parece que houve algumas complicações com ele, então não terei tempo para nada. A Rita está até remarcando o primeiro


show da nossa turnê. - Mas ele está melhor? - Sim! –disse, mas escondendo o fato de que ele não voltaria a andar. Admitir aquilo era muito difícil para mim. - Ok! – ele disse, resignado. – Então até daqui a uns dias. Certo? – e eu soube que ele disse essa última palavra como uma forma de saber se eu continuaria saindo com ele. - Claro! – e eu o ouvi respirando, aliviado. – Então até mais! - Até, princesa! Só não se esqueça de que se vocês precisarem de qualquer coisa estarei à disposição. Tchau! - Ok! Obrigada! Tchau! - Era o Brian, né? – perguntou Tim. - Sim, era! - Você vai continuar saindo com ele? – Ah, não! Ele não vai querer discutir sobre o Brian, vai? - Tim, eu realmente não estou pensando sobre isso, agora. Minha vida está muito confusa e sei que tenho que resolver algumas coisa, mas não nesse momento. Agora eu estou focada no problema do Ric, e não preciso de nenhum outro aborrecimento. - Vou tomar um banho. – ele me notificou, sem olhar para mim.


P á g i n a | 176

Quando chegamos ao hospital, o médico nos informou que o Ric tinha acabado de acordar. Estávamos apenas eu, o Cadú e o Tim, pois a Bia estava ajudando a Rita a resolver o problema da nossa turnê e também iriam buscar os pais dele no aeroporto, assim que chegassem. Entramos no quarto onde ele estava e eu senti as lágrimas querendo escorrer pelos meus olhos, mas eu as travei. Ele parecia tão frágil naquela cama, com o rosto pálido. - Oi, meninão! – eu disse. Ele me olhou com um olhar de profunda tristeza. Não chore, Vivi! Se controle! - Fala, Ricardones! – disse Cadú em um tom mais alegre do que o convinha, mas eu entendi que ele estava tentando animá-lo. - E aí, parceirão? Como está se sentindo? Você nos deu um baita de um susto. – disse Tim. Todos estávamos sentados em um sofá ao lado da maca dele. - Como eu estou? Eu estou um lixo. Eu estou... eu estou com muito medo. – e então os olhos dele se encheram de lágrima. - Eu não consigo me mexer direito. Eu estou com muita dor, mas o que me incomoda mais é que eu não sinto minhas pernas. – então lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. – Vivi, eu não sinto minhas pernas! – ele repetiu enquanto segurava minhas mãos e olhava nos meus olhos, como um apelo para que eu dissesse a verdade.- O que está acontecendo comigo? Por favor, me fale! O que os médicos disseram? – ele segurava minha mão e chorava como uma


criança. Eu olhei para ele e não consegui mais me segurar. Comecei a soluçar. Então ele entendeu o que estava acontecendo, e deu um soluço tão alto, tão assustado, que eu me lembraria desse momento pelo resto da minha vida. Olhei para o Tim e para o Cadú, desejando que eles dissessem alguma coisa que melhorasse a situação, mas ambos estavam com a cabeça baixa, derramando lágrimas de tristeza. Aquele era o pior dia da minha vida, e eu me sentia uma inútil por não conseguir fazer nada para consolar o meu amigo. - Ric, eu... nós... nós sentimos muito. - Eu não estou acreditando! – ele disse, aos prantos. – Minha vida acabou! Por que eu não morri? Eu queria ter morrido! Eu quero morrer! – ele estava praticamente berrando. Uma enfermeira entrou no quarto mas nós dissemos que ele só estava nervoso e que já iria se acalmar, então ela partiu. - Não, Ric! Sua vida não acabou! É só uma questão de se adaptar. – disse Cadú, tentando confortá-lo. - Adaptar o caramba! Você diz isso porque não é você que está inválido pelo resto da vida. - Calma, Ric! – disse Tim. – O Cadú não está errado. Quantas pessoas já passaram por essa situação e hoje levam uma vida normal? É realmente uma questão de se adaptar. - Justo agora que eu estava no auge da minha carreira. Agora está tudo acabado!


P á g i n a | 178

- Acabado por que, Ric? Não está nada acabado. Você vai continuar tocando e cantando, como sempre fez. - Quem vai querer ir a ao show de um aleijado, Vivianne? Você é tão burra que não vê que minha carreira acabou? - Em primeiro lugar, eu não sou burra, Ricardo! – eu estava nervosa, mas me dei conta de que a situação estava sendo muito difícil para ele. Então abaixei o tom de voz e continuei. – Em segundo lugar, as pessoas vão querer te ver, sim. Você canta muito, é lindo e toca muito. E pare de se chamar de inválido. – Nisso, o médico entrou e pediu para falar a sós com ele. Nós fomos para o corredor e ficamos esperando por vários minutos, até que ouvi alguém me chamar. Olhei para o corredor e vi o Brian. Ele se aproximou e disse: - Eu não consegui esperar, Vivi! Que tipo de homem eu seria se te deixasse atravessar por essa barra sozinha? – e então ele me abraçou. E aquele abraço era tão amoroso, tão cheio de carinho, que ficamos lá, parados, abraçados por minutos, até que o Tim passou por nós, dizendo ao Cadú que ia buscar um café. Não demorou muito até os pais do Ric chegarem, e eles foram direto para o quarto dele, preocupados com o filho. Não deu três minutos antes de a Sra. Lídia Azevedo começar a chorar desconsoladamente. Eu já havia passado a situação ao Brian, e ele também havia ficado muito chateado.

As

horas se passaram e então o pai do Ric foi até o corredor e disse que ele estava nos chamando. Pedi licença ao Brian e


entrei no quarto com os meninos. - Eu queria pedir desculpas pela forma que eu tratei vocês. - Ah, não, Ric! Não precisa se desculpar. Entendemos o inferno pelo qual você está passando.

– eu disse, e os

meninos concordaram. - Eu chamei vocês porque quero fazer um comunicado. - Pode fazer! - Eu não quero mais fazer parte da banda. Estou me desligando da Rock & Pie. - Mas só passando por cima do meu cadáver! – eu disse em tom firme. - Ric, não tem como você sair da banda. A banda é você. Você é o elo que nos une. Foi você quem nos apresentou. Foi você que enxergou a banda antes de cada um de nós. – disse Tim - Isso não está sob cogitação. A resposta é não! Nem pensar! – disse Cadú em tom de voz alterado. - Sinto muito, galera, mas não vou voltar atrás. - Mas Ric, isso não tem cabimento! - O que não tem cabimento é eu continuar na banda do jeito que estou. Eu não sou mais um rockstar. Eu não vou entrar no palco com cadeira de rodas. - Ric, te garanto que as pessoas iriam te admirar ainda mais


P á g i n a | 180

se você detonasse no palco mesmo nessas condições. - A questão é que eu não me aceito nessas condições. E se eu não me aceito, como os outros vão me aceitar? Acham que estou feliz de tomar essa decisão? Eu estou é acabado. Detonado. Minha vida acabou. - Ric, por favor, não fale assim! – eu implorei aos prantos. Mas a mãe dele interviu. - Crianças, o Ric realmente precisa de um tempo para se recuperar tanto fisicamente quanto mentalmente. Ele vai voltar para casa conosco, e se daqui a um tempo ele decidir voltar para a banda e vocês estiverem de acordo, ficarei muito feliz. Mas agora não é o momento. – eu, o Tim e o Cadú nos olhamos e assentimos tristemente com a cabeça. E agora, o que será do meu amigo? E o que será da Rock & Pie? Quando o horário de visitas encerrou, me despedi do Brian e fui para casa com os meninos, mas a verdade é que eu estava totalmente distante, como se minha alma tivesse saído para dar uma volta. Afinal, além de toda confusão na minha vida amorosa, eu ainda tinha que aceitar o estado do Ric, e estava sem a mínima ideia do que faríamos com a banda. Porque além de perdermos nosso guitarrista e um dos vocalistas, perdemos também a alma da nossa banda, e isso eu não sabia se seria possível recuperarmos. Quando entramos em casa, a Rita e a Bia perguntaram como havia sido com o Ric, pois elas não puderam ficar no hospital devido ao problema da turnê. Então eu contei sobre as conversas que tivemos


com o Ric, sobre a decisão dele sobre sair da banda, e o que a mãe dele disse sobre ele precisar de um tempo, ao menos. A Rita e a Bia estavam com os olhos cheios d’agua, e ficamos todos em silêncio por vários minutos, até que o Tim veio até a sala de televisão e nos disse: - O Cadú acabou de sair. Disse que queria ficar um pouco sozinho. - Mas ele nunca faz isso! Ele detesta andar sozinho! – eu disse. - É, mas vocês estão passando por um momento difícil, então é normal fazerem coisas anormais. – disse Bia. - É, talvez você tenha razão. Bia, você pode me dar mais dois daquele calmante de ontem? - Você acha uma boa ideia, Vivi? Você já tomou ontem, e sabe que essas coisas viciam. – perguntou Rita, preocupada. - Não se preocupem comigo! Pegue pra mim, Bia! –eu ordenei. Após tomar os calmantes, fui ao meu quarto, coloquei um pijama, fui para a cama e fechei os olhos, desejando dormir. E consegui, até o momento em que tentei abrir os olhos, mas não consegui. - Oi! – ele me disse. - Ah, não! Eu não vou conseguir me livrar de você nunca mais?


P á g i n a | 182

- Ah, claro! Porque eu te maltrato tanto, né? - Ironias não combinam com você. Não me leve a mal, mas eu preciso de paz. - Eu sei, mas esse não é um bom momento para você se entregar à tristeza. Eu preciso me certificar de que você esteja bem. - E se eu não estiver? O que você poderia fazer por mim? Às vezes acho que você esquece que não é real. – eu não precisava olhar para ele para saber que isso o tinha ferido. - Muitas vezes o que mais precisamos é de uma palavra amiga, de um pouco de atenção, e isso eu sei que posso te dar. Mas Vivi, eu não estou brincando quando digo que este não é o momento certo para você se afastar dos outros. Todos estão passando pelas mesmas dificuldades que você, e eles precisam do seu apoio. - Eu agradeço a preocupação, mas tudo que quero é ficar sozinha. Por favor, vá embora! – e ele se foi, me deixando mergulhar em um sono profundo. Eu não saí do meu quarto no dia seguinte, mesmo com as frustradas tentativas do Tim, da Bia e da Rita. Na manhã seguinte, eu fiquei no meu quarto o máximo que pude. Só levantei da cama porque eu percebi que não comia nada há mais de dois dias. Assim que saí do meu quarto, o Tim me pegou no caminho. - Você não está nada legal! Vou marcar uma consulta para


você com algum psicólogo ainda pra essa semana. - Que psicólogo o que! Eu só quero ficar sozinha por um tempo. Eu mereço ter um tempo só para mim. - Eu concordaria com você se esse tempo ao qual você citou estivesse sendo usado para você se cuidar, ou fazer algo que lhe dê prazer, mas não para você se enfiar em uma cama e dormir por mais de um dia. Quando foi a última vez que você comeu algo? - Tim, por que você não cuida da sua vida e me deixa em paz? - Vivi, não adianta você se responsabilizar pelo problema do Ric. Infelizmente não há nada que nenhum de nós possa fazer. - Eu entendo! Mas saber disso não alivia essa tristeza que toma conta de mim. Tim, você ainda não pensou sobre o que será de nós? O que faremos com a nossa banda? O que faremos sem o Ric?– eu finalmente abri meus sentimentos, e ele se aproximou vagarosamente, até me envolver em seus braços. - Calma, gatinha!Nós vamos dar um jeito. Não se entregue facilmente às dificuldades. Cadê a Vivianne guerreira que eu conheço? - Acho que ela está de férias, Tim. - Então é bom ela voltar logo, porque nós temos várias coisas


P á g i n a | 184

para discutir. - Como o que? - Só falo depois que você comer alguma coisa. Quando chegamos à cozinha, a Bia estava mexendo a colher em uma panela, e quando nos viu, disse: - Oi, Vivi! Que bom que você está melhor! Ah, deixa eu te contar! Ontem a Rita me ensinou a fazer um pudim de chocolate que é delicioso! Estou tentando fazer sozinha, mas como é a primeira vez eu espero que me perdoem se não ficar muito bom. – e então ela encheu uma colher de pudim ainda quente e colocou na boca do Tim. Ele engoliu e deu um sorriso, e eu notei uma cumplicidade entre eles que eu não sabia que existia. Meu estômago começou a queimar e minha cabeça latejou. Eu queria sair da cozinha, mas eu precisava urgentemente comer alguma coisa. Lavei algumas folhas de alface, cortei algumas rodelas de tomate, abri uma lata de atum e montei uma salada em um prato. Peguei um bolinho de chocolate no armário para a sobremesa e uma caixinha de suco na geladeira e estava indo em direção ao meu quarto quando o Tim segurou meu braço. - Aonde você pensa que está indo? - Eu ér....lembrei que está passando uma série muito boa e resolvi assistir, enquanto como. - Posso assistir com você?


- Não precisa. Parece que a Bia está precisando da sua companhia, aqui na cozinha. Eu comerei sozinha. – eu disse enquanto ajeitava o suco, o prato e o bolinho em meus braços. Ele me olhou com um brilho debochado nos olhos, mas não disse nada, e eu saí da cozinha. Quando eu subi a escada, notei que ainda não tinha encontrado o Cadú, e que ele não tinha tentado me acordar no dia anterior, o que não era uma atitude típica dele. Resolvi deixar minha comida no meu quarto e ir atrás dele. Bati em sua porta e esperei ele responder. Ele não respondeu. Bati novamente. Nada. Então eu abri a porta (que para meu azar estava destrancada) e entrei. Assim que abri senti um cheiro insuportável entrando em minhas narinas. Ascendi a luz e vi o quarto lavado de vômito. As roupas estavam todas reviradas, um abajur estava quebrado

no

canto de uma das paredes e uma garrafa vazia de Whisky estava ao lado de sua cama. Meu Deus! O que aconteceu com o meu menino?Sentei na beirada da cama e levantei o edredom que estava tampando sua cabeça. Ele abriu os olhos e pude ver que a luz o incomodou. - Vivi, apague essa luz! Minha cabeça está explodindo! - Não vou apagar merda nenhuma de luz se você não me disser o que está acontecendo aqui. -

A

única

coisa

que

está

acontecendo

atrapalhando meu sono. Cai fora!

aqui

é

você


P á g i n a | 186

- Ei, olha como fala comigo. Cadú, você bebeu essa garrafa inteira de whisky sozinho? - Garota, entenda uma coisa – ele disse gritando em um tom tão grosso e com os olhos tão vermelhos que achei que ele fosse me bater. Me encolhi e continuei ouvindo o que ele dizia. – Você não é a minha mãe! E se eu bebi ou não, não é da sua conta! Eu paguei a garrafa com o meu dinheiro, e não com o seu. Agora cai fora do meu quarto! Sai! – Eu não podia acreditar no que eu estava ouvindo. O Cadú sempre foi, entre os três, o mais gentil comigo. Para falar a verdade, ele sempre foi o meu queridinho, e eu sempre o tratei como se fosse o irmão mais novo que eu nunca tive. E esse cara deitado nessa cama não era parecido em nada com o Cadú que eu conhecia. Eu me levantei, trêmula de nervoso, e fui silenciosamente para o quarto da Bia. Eu sabia que ela estava na cozinha com o Tim, então fui direto ao armário do seu banheiro, onde era mais provável que ela guardasse os remédio. E então encontrei o frasco de calmante. Peguei três e engoli. Fui para o meu quarto e me enfiei embaixo do cobertor. Entrei no mundo do sono. - Vivi! Acorda, Vivi! Rita, ela está suando. Isso é normal? - Não sei, Tim. Estou deixando de ficar preocupada e começando a ficar desesperada. – ela respondeu. Eu os ouvia, mas como se estivessem a quilômetros de distância. - Vivi, por favor, acorda! – dessa vez a voz era do Brian. Que sonho estranho. Então um terremoto invadiu meu sonho.


Sentia meu corpo sacudir. - Vivi, não me faça te pegar no colo e te levar para o hospital. Por favor, acorda! Não faça isso comigo! – e eu percebi que não era um sonho. Abri os olhos lentamente e percebi que o suposto terremoto era o Tim me chacoalhando. -O que aconteceu? – perguntei, confusa.Porque será que eles estavam falando em inglês se nessa casa só moram brasileiros? - Vivi, você está dormindo desde a hora do almoço! O Brian veio te visitar e tentei te acordar de várias maneiras, mas você não acordava de jeito nenhum. Aí eu fiquei desesperada, e todos eles vieram me ajudar. – a Rita explicou. Olhei para o Tim e para o Brian e os vi olhando fixamente para mim, preocupados.Ah, agora está explicado o porquê de estarem falando em inglês. - Me desculpem! Acho que exagerei na dose do calmante. – eu disse, enquanto a Bia me olhava com olhos desconfiados. - Mas eu não te dei nenhum calmante, hoje. – ela disse. - Você não me deu, mas eu descobri onde você guarda. – eu confessei. - Você quer nos matar do coração? Poderia ter acontecido algo mais grave. Quantos comprimidos você tomou? – Tim perguntou.


P á g i n a | 188

- Por acaso vocês sabiam que ela estava tomando calmantes? Desde quando isso está acontecendo? – perguntou Brian de forma furiosa. - Calma, por favor! – eu pedi em uma voz tão fraca que fiquei em dúvida se eles tinham ouvido. – Não precisam se exaltar. Eu não sou viciada, só tomei alguns nos últimos dias. - Quantos calmantes você tomou hoje, Vivi? – insistiu Tim. - Três! – então ele bufou e pediu para a Bia mostrar onde ela guardava os remédios. Ele voltou com o frasco, foi até o meu banheiro e os jogou pela privada. - Pronto! Acabou essa história de calmante. Se alguém aqui nessa casa der qualquer tipo de remédio para ela, ainda que seja para gripe, terá que se ver comigo. – ele ameaçou. - Princesa, você está se sentindo bem? – perguntou Brian, já sem vestígio de raiva e com ternura no olhar. - Sim, vocês estão fazendo uma tempestade em copo d’agua. Eu só queria dormir mais um pouco. - Acho que já você já dormiu o suficiente por uma semana, não? – disse Rita. E então me lembrei da confusão com o Cadú. - Onde está o Cadú? – perguntei. - Ah, Vi! Ele está muito estranho! Mais cedo eu te disse que precisava falar com você, e era sobre isso que eu queria conversar. Você tem que falar com ele, porque já tentamos e


ele nem sequer nos ouve. Você é a única que ele respeita o suficiente a ponto de ouvir. – disse Tim. E então meus olhos se encheram d’agua e não consegui conter as lágrimas. - Ei, o que houve? – perguntou Brian, sentando ao meu lado e passando a mão em meus cabelos. Eu olhei para ele e tentei sorrir, mas depois olhei para o Tim e disse: - Ele não me respeita mais, Tim. Ele me expulsou do quarto dele aos berros, dizendo para eu tomar conta da minha vida. Ele disse coisas horríveis! Acho que ele me culpa pelo que aconteceu com o Ric. - Ele fez isso com você? – e pude ver que ele estava com raiva, pois seus olhos negros escureceram ainda mais. - Não adianta ficar com raiva dele! Ele não está agindo normalmente. Aconteceu alguma coisa que não estamos sabendo, tenho certeza disso. – eu disse. - Ei, não importa qual seja o motivo, eu não admito que ninguém te destrate, princesa. Vou falar com ele. – se intrometeu Brian. - Cara, fica na sua que esse é um assunto nosso. Não se meta! – esbravejou Tim. Então os dois levantaram e ficaram se encarando, até que o Brian disse: - Não é da minha conta até o momento em que machuquem a Vivi. E tenho certeza de que foi essa briga que a fez tomar esses malditos comprimidos. Estou errado, Vivianne? – ele


P á g i n a | 190

disse sem olhar para mim, ainda encarando o Tim. - Pelo amor de Deus, tudo que menos precisamos nesse momento é de mais confusão. Ninguém vai brigar com o Cadú, eu não deixarei. Só preciso pensar melhor no que fazer a respeito desse assunto. – eu disse em tom firme. Os dois se olharam por mais alguns segundos, antes de acabarem com aquela cena ridícula. - Acho que devemos aproveitar que estamos quase todos reunidos para discutirmos uma coisa. – disse Rita. - Discutirmos o que? – perguntou Tim. - Discutirmos sobre a contratação de um guitarrista. Ainda que seja temporariamente. – eu engoli em seco, e quando olhei para o Tim, notei que ele perdeu a cor. Mas ele logo se recompôs e disse: - O que for melhor para nossa banda. - eu o admirei por essa atitude, e resolvi aceitar o fato de que apesar das desgraças, tínhamos que seguir em frente. - Eu concordo, mas não acho que seja legal contratar um guitarrista que cante, para que os fãs não se deslumbrem e acabem esquecendo o Ric. – eu disse. - Eu também pensei nisso, por isso resgatei uma lembrança antiga. Esperem um momento que vou buscar algo em meu quarto. – e então ela foi e logo voltou, com um CD em sua mão.


- De quem é esse CD, Rita? – perguntou Bia. - Sejam pacientes, já vou colocar pra tocar. – e ela ligou meu rádio e colocou o CD. Um rock lento começou a tocar. A letra não era das melhores, mas o ritmo era muito gostoso. Quando o vocalista começou a cantar, senti um frio no estômago e fechei os olhos, sorrindo. Não era possível que a voz fosse de quem eu achava que fosse. Ou era? - Ah, isso não tem nada a ver, Rita! Cantar não é a minha área. – Disse Tim. Então era possível! - Preciso urgentemente saber o motivo de ninguém nunca ter contado para mim que você canta tão bem assim. – eu disse. Olhei para o Brian e ele estava começando a ficar um pouco vermelho. - Ah, não precisa exagerar. – ele disse, modesto. - Não, Tim, não é exagero. Sua voz é uma delícia! - eu elogiei. Ele sorriu e olhou para o Brian, que estava explicitamente incomodado com os elogios feitos ao Tim. – Por que você nunca quis dividir os vocais com o Ric, antes de eu entrar na banda? - Porque minha paixão é a bateria, e não o vocal. - Mas isso é um desperdício de talento, Tim. Sua voz é perfeita! – se derreteu Bia, e ele lançou seu sorriso encabulado para ela. Que cena patética!


P á g i n a | 192

- Bem, preferindo a bateria ou não, não temos outra opção a não ser colocar você no vocal, nas partes do Ric. Mas você pode cantar enquanto toca. Tudo pelo bem do Ric, claro! – disse Rita. Todos nós olhamos para ele, esperando sua reação. Principalmente o Brian, que parecia estar rezando para que ele recusasse a ideia. Mas foi exatamente essa reação do Brian que fez com que ele assentisse com a cabeça. - Boa, garoto! – disse Rita. – Agora só nos resta conseguir o guitarrista. - O problema de fazer testes é o bafafá que vai rolar na mídia. Aliás, eles já ficaram sabendo sobre a situação do Ric? – perguntei. - Sim, a informação vazou nesta manhã. Parece que todos os canais do mundo só sabem especular sobre o que acontecerá com a Rock& Pie. – informou Brian. - E como faremos para contratar um guitarrista sem alarmar a mídia? – questionou Tim. - Bem, eu conheço vários guitarristas excelentes. – sugeriu Brian. - Mas eles são de confiança? Porque precisamos de discrição. – disse Rita. Ele ia abrir a boca para responder, quando a Bia se pronunciou. - Por acaso vocês já ouviram falar da banda The Rising? Eles fizeram um considerável sucesso, cerca de sete anos atrás, antes de a banda se separar.


- Já! – todos respondemos, com exceção da Rita, que sacudiu a cabeça. - Bem, o guitarrista é alguém que eu conheço muito bem. - Pelo que eu me lembro, o som deles era muito bom. Vocês são amigos próximos? Quero dizer, a ponto de confiar nele? - Claro! Confio demais no meu irmão. – ela respondeu. - Seu irmão Gabriel? Que nos ajudou no rolo do Cassino? – perguntei. - Sim! Ele mesmo. O único problema seria convencê-lo a voltar a tocar. - Não se preocupe quanto a isso. Eu resolvo qualquer parada. – disse Rita.


P á g i n a | 194

10 – TODA ROSA TEM SEU ESPINHO

“Agora eu ouvi que você achou uma pessoa nova, e que eu nunca signifiquei tanto pra você. Ouvir aquilo me destrói, e te ver me corta como uma faca.” Every Rose Has It’s Thorn - Poison

Dois dias se passaram e várias coisas aconteceram. Os pais do Ric recolheram suas coisas na nossa casa e ele foi transferido para um hospital brasileiro, o Cadú passou a virar capa de revista de fofoca, mostrando seu lado rebelde nas noites nova iorquinas, sempre bebendo e andando com outras celebridades de má fama, a Rita, que havia remarcado o primeiro show da nossa turnê para a próxima semana, voltou para o Brasil, e o Gabriel havia topado em participar da nossa turnê e estaria chegando à nossa casa naquela mesma noite. A permanência dele na banda após a turnê não havia sido discutida, pois precisávamos saber como o Ric se adaptaria à sua nova vida. Quanto a mim, eu ainda precisava de um tempo sozinha, então saí todos os dias para fazer compras. Até fui a uma das lojas das irmãs Kardashians, para matar a curiosidade sobre o estilo de roupa que elas confeccionam (já que eu nunca havia entendido o porquê de tanta exposição na mídia). Eu bati cartão em diversos cafés da cidade, e decidi que naquela noite eu iria a uma danceteria, para me divertir. Eu já estava cansada de ficar na


fossa por assuntos que eu não seria capaz de resolver. Em contrapartida, o Tim parecia cada vez mais próximo da Bia. Ele a tratava muito bem, de um modo totalmente diferente do que sempre me tratou. Que bom pra eles. Eram cinco horas da tarde quando eu me senti entediada e liguei a televisão. Estava passando um programa que faz fofocas de celebridades, e resolvi assistir para ficar antenada quanto ao que eles dizem sobre nós. Após assistir quinze minutos de fofocas sobre astros adolescentes, eu estava começando a ficar com sono, quando a repórter disse: - Não percam após o intervalo o flagra que demos na banda Blue4us durante a gravação do novo videoclipe. Fiquem ligados! – Hum, até que valeu a pena assistir até agora esse programinha péssimo. Quando o programa voltou dos comerciais, a repórter começou: - Nesta tarde, nosso repórter Jaimes Kazintter capturou algumas cenas do novo videoclipe da banda Blue4us e ele descobriu um fato intrigante: a garota que faz par romântico com o vocalista Brian Levicce é ninguém mais, ninguém menos que a top model Alicia Hershell, uma de suas ex namoradas, com a qual teve um relacionamento de um ano e meio. – Eu quase caí pra trás quando vi uma cena que parecia ser nos bastidores, onde o Brian e a Alicia comiam um sanduíche um em frente ao outro, rindo de alguma coisa que estavam conversando. Então a repórter voltou a dizer: Agora todos estamos intrigados. Afinal, o Brian e a Vivianne


P á g i n a | 196

Santinni estão tendo um relacionamento sério ou foi tudo fogo de palha? – Eu também gostaria de saber! Eu passei o resto da tarde remoendo o que a repórter havia dito sobre o Brian, e aquilo havia azedado o meu dia. Então a campainha tocou e a Bia saiu correndo para atender. - Oi, Gabbe! - Fala, Bee! – e então o Gabriel entrou carregando suas malas. Ele estava tão lindo quanto no dia em que eu o conheci. – Oi, Vivi! Oi, Tim. – ele nos cumprimentou, uma vez que fomos até ele para recebê-lo. - Oi, Gabriel! Seja bem vindo o nosso mundo. – eu disse. - Fala, Gabriel! Seja bem vindo, cara! – disse Tim, que logo se apressou em levá-lo até o quarto que era do Ric e que passaria a ser dele. Eu estava entediada em casa, então resolvi ir mesmo para uma balada, como eu havia planejado naquela manhã. Tomei um banho e coloquei um vestido violeta, com detalhes pretos. Calcei um salto preto e me maquiei. Ainda eram onze horas, e eu não sairia de casa antes da meia noite, então desci e fui em direção à cozinha, pois havia me dado vontade de chupar sorvete. Assim que entrei, encontrei a Bia e o Tim sentados na mesa, e eles haviam tido a mesma ideia que eu. Cada um deles estava segurando seu pote de sorvete, mas então a Bia disse: - Vivi, você realmente estava certa. O sorvete de pistache é


muito bom. O Tim me fez experimentar e eu quase tomei metade do pote sozinha. – Ah, jura? E quem perguntou? – Nossa, você está linda. Vai sair com o Brian? - Não, vou sair sozinha. Fui convidada para a inauguração de uma danceteria na Broadway, e decidi ir. – eu disse enquanto abria meu pote de sorvete Cookies n’cream. O Tim abriu a boca para falar algo, mas a voz que eu ouvi não era dele. - Será que você se importaria de me incluir nesse convite? Eu não estou muito a fim de ficar em casa, e uma inauguração de balada seria uma boa pedida. – era o Gabriel quem falava, enquanto estava parado na entrada da cozinha. Eu olhei para ele e pensei que talvez fosse bom sair com ele para conhecê-lo melhor. - Claro, Gabriel. Consegue se arrumar em quarenta e cinco minutos? - Vivi, eu sou homem! Me arrumo em no máximo vinte, e olhe lá. – então ele foi se arrumar. Eu sentei para tomar meu sorvete sossegada, quando o Tim disse: - Será que posso ir, também? – Não percebeu que não quero olhar para sua cara? - Sinto muito, mas o convite era mesmo para duas pessoas. Levar mais alguém seria falta de etiqueta. Além do mais, vocês

dois

parecem

estar

se

divertindo

bastante,

ultimamente, não é, Bia? – perguntei no meu melhor tom


P á g i n a | 198

irônico. - É verdade, Vivi! O Tim é uma excelente companhia. Nós nos divertimos muito juntos. – ela disse com um sorriso de orelha a

orelha, enquanto

o

olhava. Ele

parecia um pouco

desconfortável. - Tudo bem, não tem problema nenhum. Fica para a próxima, então, Vivi! Mas se precisar de mim, estarei com o celular ao meu lado pela noite toda. - Espero não precisar, mas agradeço o gesto. - Vivi, me dê seu pote para eu colocar um pouco do meu sorvete. – ele continuou. - Ah, sabe de uma coisa? Acebei de perceber que estou totalmente enjoada do sorvete de pistache. Vou eliminá-lo da minha lista de favoritos. Mas não se preocupe, vou continuar comprando sempre. Afinal, agora a Bia também gosta. Super legal! – e então guardei meu sorvete e fui para a sala. Eu estava sentada quando o Cadú passou, em direção à porta. Quando me viu, ele parou, respirou e abriu a boca como se fosse para falar alguma coisa, mas então ele desistiu e saiu. - É difícil ver ele saindo desse jeito e não poder falar com ele, né? – disse Tim, que chegou tão de mansinho que me fez pular de susto. - Não faz isso comigo, Tim! Sabe que me assusto facilmente.


Mas é verdade, é muito difícil, mesmo. Eu estou dando um tempo para ele, mas se ele não voltar para nós por conta própria, vai voltar na marra. – eu mal havia terminado de falar, quando o Gabriel entrou na sala, vestindo uma calça escura e uma camiseta polo preta super justa. - E então? Vamos? - Vamos! – eu disse, e então ofereci meu braço para ele e fomos juntos até a porta. – Tchau, Tim! A danceteria que estava inaugurando se chamava Fallen Skyes, e assim que entramos levamos uma chuva de flashes. Como estávamos na lista VIP, fomos para o camarote, e de lá assistimos ao show do badalado DJ Armand Renée. O tratamento que tivemos era digno de VIP, mesmo. Poderíamos beber qualquer bebida da casa sem pagar nada e eles nos serviam petiscos, se pedíssemos. A casa noturna estava lotada de celebridades, e algumas vieram falar comigo, perguntando vez ou outra sobre o estado de saúde do Ric ou sobre meu relacionamento com o Brian, e é claro que para essa

última

pergunta

eu

dava

uma

resposta

bem

inconclusiva. Quando um ator que eu sempre achei super fofo, Joshua Kleinter, veio me cumprimentar e disse que era meu fã, o Gabriel logo se apresentou pra ele e eles começaram a bater o maior papo. Nós três dançamos por um bom tempo, bebemos um drink, depois outro, depois outro e após várias risadas, fomos embora. Me surpreendi em como a companhia do Gabriel era agradável. Há dias que eu não me


P á g i n a | 200

sentia tão leve, e naquela noite eu nem me lembrei do problema do Ric, nem do fato de o Brian estar se esfregando em uma ex namorada supermodel. Fui para casa me sentindo bem comigo mesma, e isso já era mais que um avanço em relação aos dias anteriores. Quando chegamos à nossa casa, eu e o Gabriel entramos em silêncio, mas como ele acabou tropeçando na escada, eu não consegui conter o riso. Eu entrei no meu quarto e tirei os brincos, as pulseiras e os sapatos quando alguém bateu à minha porta. Eu abri e dei de cara com o Tim. - Nossa, vocês estavam acordados até agora? A noite rendeu, hein!? - Eu estava dormindo até ouvir as risadinhas que você e o Gabriel estavam dando. - E veio até aqui para que? Para cobrar o aluguel, senhor barriga? – eu brinquei, em alusão ao programa Chaves. - Há-há-há! Que graça! Só queria saber se você estava bem. - Estou bem, sim. - E como foi sua noite? - Bem melhor do que as últimas! - Então você gostou bastante da companhia do Gabriel, né? ele perguntou em um tom sarcástico. Ah, querido, quem entra na chuva é para se molhar!


- Gostei mesmo! Ah, sabe o que é? Esse gene legal deve ser de família. Afinal, você também gosta bastante da companhia da Bia, né? Agora, se você me der licença, eu estou um tanto quanto cansada. E você não deve acordar tarde para o café da manhã. Afinal, a Bia está aprendendo a cozinhar só pra te agradar. Boa noite! – e então fechei a porta na cara dele. No dia seguinte eu acordei e percebi que há dias que o Sr. Superbonder não aparecia. Fiquei me perguntando se era possível que ele tivesse ido embora de vez. Eu levantei, tomei banho, coloquei uma saia jeans, uma regata preta e fui para a cozinha. Como sempre, o Tim e a Bia estavam lá, tomando café. Só não voltei para o meu quarto porque o Gabriel estava lá, de samba canção, regata branca e meias. Inevitavelmente eu ri daquela cena, então todos viraram para me olhar. - Bom dia a todos! – eu disse. - Bom dia, Vi! Acordou de bom humor, hoje... que bom! – disse Bia. - Não chega a tanto, mas também não estou pra baixo. Gabriel, esse modelito te deixa adorável. – eu brinquei, então ele me olhou e caímos na gargalhada. - Ah, sempre acordo com preguiça. Demora um tempo até eu criar coragem pra tomar banho e me trocar. - Mas poderia ao menos colocar uma calça, né? Ninguém é


P á g i n a | 202

obrigado a ficar te vendo de cueca, pra cima e pra baixo. – reclamou Tim para o Gabriel, que continuou comendo seu misto quente, ignorando a crítica. - Ah, Tim! Larga a mão de ser implicante. Samba canção está mais pra shorts do que pra cueca. – eu disse. - Eu concordo com você, Vivi! – disse Bia. O Tim deu de ombros e ficamos todos em silêncio, comendo. Então o Cadú entra na cozinha. Aleluia, Senhor! Ele lembrou que tem estômago! Ele permaneceu calado, como se não enxergasse mais ninguém alí. Notei que ele estava muito magro, com os ossos sobressalentes. Mas então ele notou o Gabriel, e seus olhos se apertaram. - O que ele está fazendo aqui? – ele perguntou. - Você sabe o que ele está fazendo aqui. Ele vai trabalhar conosco na turnê. – respondeu Tim. - Mas eu deixei bem claro que não queria ninguém no lugar do Ric. – ele falou, elevando o tom de voz. - E nós deixamos bem claro que se ninguém entrasse no lugar do Ric, nós teríamos que cancelar a turnê, e isso seria a morte da nossa banda. - Você está querendo dizer que minha opinião não importa? - Não, eu só estou querendo dizer que essa era a nossa única saída. – disse Tim, frente a frente com o Cadú. Mas então o Gabriel se levantou e disse:


- Relaxa, cara! Eu não estou aqui para roubar o lugar de ninguém. Só vou acompanhar vocês na turnê, e então vocês ficam livres de mim. – então o Gabriel deu um passo na direção dele. - Espero que seja assim mesmo, porque senão, depois de arrebentar a sua cara, eu também estou fora! – então ele pegou pães, salgadinhos, biscoitos e refrigerante, os enfiou em uma sacola e fez menção de voltar ao seu quarto, mas eu o impedi de passar. - Cadú, você pode fazer o que quiser com a sua vida pessoal. Ninguém aqui vai te impedir de continuar enchendo a cara, de transar com toda piriguete que aparece, nem nada disso, contanto que você cumpra seus compromissos com a banda. Depois do almoço nós vamos ensaiar. Acho bom você estar lá! Depois do café, voltei para o meu quarto e ouvi “Sweet My Cherrie Pie” tocando. Peguei meu celular para ler a mensagem do Brian: “O que está acontecendo para você não atender mais as minhas ligações? E você parece estar bem melhor, já que saiu ontem a noite com outro cara. Me liga!”. Mas que cara de pau! Será que ele não sabe que todo mundo já descobriu do casinho dele com a ex?Mas e se eu estiver errada? E se ele apenas trabalhou com ela, mesmo? Ah, eu vou tirar essa história a limpo.Eu liguei meu notebook e naveguei pela internet em busca de fotos, vídeos ou qualquer matéria relacionada ao Brian e à Alicia. E encontrei. Por falta de uma prova, achei várias. Ele e ela abraçados, ele e ela


P á g i n a | 204

lanchando, ele e ela dançando. Várias fotos! Peguei meu celular e respondi o sms: “Não atendi nem vou atender. É quando mais precisamos que descobrimos quem são as pessoas que estão ao nosso lado. Não perca mais seu tempo me ligando, nem tente me ver. Não quero mais saber de você. Só para constar, eu não sou igual a você. O cara com quem saí ontem é o novo guitarrista, e não um ex namorado que é top model. Pelo jeito, o que você queria ontem não é mais que quer hoje.” E voilá! Falei o que eu queria sem ter que ouvir a voz dele. O sms é uma das maiores invenções da humanidade!Eu aproveitei a minha onda de coragem e já bloqueei o número do Brian, de forma que eu não recebia mais nenhuma ligação, nem sms. Aproveitei mais ainda e liguei para a Carly Anne Huppert, uma socialite que tinha me convidado para sua festa de aniversário, e confirmei minha presença. Ela comemoraria no dia seguinte, em um clube privado, e sua festa seria à fantasia. Bati na porta do Gabriel e ele abriu, só de toalha. - Me desculpe pelos trajes, mas acabei de sair do banho. – Uau! Ele é muito, muito, muito lindo! Mas por algum motivo que eu não sabia identificar, ele não me atraía. Que coisa estranha! - Por acaso você não estaria interessado em me acompanhar amanhã na festa à fantasia da Carly Anne, ou estaria? – eu brinquei. Seus olhos se arregalaram e ele riu. - Bem, se você está precisando de companhia, acho que


consigo achar um tempo na minha agenda. – e então o Tim saiu de seu quarto (que recuperou após a partida da Rita) e nos viu. Quando notou a semi nudez do Gabriel, ele travou a mandíbula. – Mas vamos hoje atrás das fantasias, né? - Poxa, pra que arranjar fantasia? Use seu traje favorito, o de Adão. É só colocar uma folhinha. – disse Tim. - Boa idéia, cara! E ainda economizo uns trocados. – disse Gabriel, na esportiva. - Vocês vão a uma festa a fantasia, por acaso? - Sim! Nós vamos! – eu disse. Ele estava ao meu lado, e tão perto que senti meu estômago congelar. Ele olhou em meus olhos e por um instante achei ter visto uma certa mágoa passar por eles, mas provavelmente era mais uma peça da minha imaginação.Ele sorriu, mas seus olhos não. - Legal! A Carly acabou de me mandar uma mensagem no facebook via inbox, agradecendo a presença de todos na banda e perguntando se não podemos dar uma palinha de “Hey, menina”. Pelo jeito você já tinha confirmado presença por nós, né, Vivi? Muito gentil da sua parte. – Carly, sua dedo duro filha da mãe! Estragou minha história do convite individual. Eu dei um sorriso amarelo em resposta. - Ei, vou colocar uma bermuda e uma regata e já vou pra sala de música, ok? Vocês já estão prontos? - Sim! – eu e Tim respondemos ao mesmo tempo.


P á g i n a | 206

Meia hora se passou até que desistíssemos de esperar pelo Cadú. O Tim se enfezou e foi bater no quarto dele. Como ninguém respondeu, ele abriu a porta, mas o Cadú não estava. - Filho da mãe! - eu xinguei. - Eu vou dar uma prensa, nele. Quem ele está pensando que é? – disse Tim. Eram cinco e meia da tarde quando encerramos o ensaio. A Bia não tinha exagerado quando disse que o Gabriel era um excelente guitarrista. Ele pegou rapidamente a melodia das músicas, e o ensaio do dia tinha girado em torno dele. O Tim ensaiaria seus vocais somente após o Gabriel decorar as músicas. Eu e o Gabriel resolvemos ir juntos até uma loja de fantasia, já que o Tim saído assim que o ensaio acabou. Nós fomos a uma loja de fantasias muito legal, chamada Ricky’s NYC, e experimentamos dezenas delas só por diversão, antes de eu optar por ir fantasiada de Cher, usando um macacão feito de lycra, preto, porém totalmente transparente erepleto de lantejoulas. Porbaixo eu usaria um tipo de maiô preto bem cavado, que seria a única coisa que tamparia as partes mais íntimas do meu corpo. A fantasia ainda era composta por uma jaqueta preta de couro, uma bota preta de cano alto e uma peruca de cabelos pretos cacheados e volumosos. A palavra sexy não era suficiente para descrever aquela fantasia, e era exatamente desse jeito que eu gostaria de me sentir naquela festa: sexy. O Gabriel decidiu usar uma


fantasia de Clark Kent/Superman. A fantasia consiste em uma roupa normal de Clark, mas que quando a camisa é desabotoada, aparece a fantasia do Superman. E então nosso passeio pelo maravilhoso mundo da loja a fantasia acabou. Aquela noite passou rapidamente, e logo fomos para cama dormir. No dia seguinte, após o café, voltamos a ensaiar. O Gabriel já estava ficando craque em nossas músicas, então decidimos que o próximo ensaio seria voltado para o Tim e seus vocais. No final da tarde, eu fui para o chuveiro e tomei um banho bem demorado, com direito a vários sabonetes líquidos e óleos corporais. Eu saí me sentindo super macia, então me vesti, me maquiei e me perfumei. Pronto, eu já estava completamente irreconhecível. Eu só saí do meu quarto quando o Gabriel bateu à minha porta querendo saber se eu já estava pronta para irmos. Quando ele me viu, quase caiu pra trás. - Garota, hoje você está incorporando a palavra luxúria! Minha nossa! - Que bom! Era pensamentos iguais a esse que eu queria arrancar dos outros, quando decidi me fantasiar assim.


P á g i n a | 208

11 – SEGREDO

“Tenho um segredo, Você pode guardá-lo? Jura que esse você vai guardar! É melhor trancá-lo em seu bolso e levá-lo para a sepultura.” Secret – The Pierces

O Tim não estava mais em casa quando saímos, e a Bia não havia sido convidada, então eu e Gabbe (que era o apelido do Gabriel) fomos sozinhos à festa. Como sempre, a saraivada de flashes nos saudou quando estávamos na entrada da festa, mas percebi que os paparazzis estavam fotografando todo mundo que entrava e que estavam demorando mais tempo que o normal para me reconhecer. Quando por fim me identificaram, me aplaudiram e me clicaram dez vezes mais do que já tinham clicado antes. Teve fotógrafo até se jogando no chão, tentando pegar meu melhor ângulo. Eles fotografaram o Gabriel, também, e perguntaram se ele era meu novo namorado, já que o Brian estava com a Alicia Hershel. É mole? Eu bem que gostaria de dizer que sim, que o Gabriel é o meu namorado, só para esquecerem minha

imagem

de

chifruda,

mas

não

consigo

mentir

facilmente, então disse que não, que era um amigo. Nós ainda não tínhamos apresentado o Gabriel para a imprensa porque

o

faríamos

na

próxima

semana

,

quando

participaríamos do programa TalkingwithSheila, mas por


enquanto

eu

aproveitaria

o

benefício

de

ter

um

acompanhante misterioso. Assim que entramos, não teve como não ficarmos de boca aberta. O clube estava todo decorado em uma mistura de teatro antigo (daqueles com cortinas gigantescas de veludo vermelho) com circo, porque haviam vários trapezistas balançando para cima e para baixo, pirofagistas

cuspiam

fogo

no meio da multidão, e

a

recepcionistas estava todas caracterizadas como “senhoras barbadas”. As luzes eram todas escuras, misturando azul, roxo, vermelho e verde. Haviam ainda algumas garotas vestidas de cupido sexy e entregavam correio elegante. Nós logo encontramos nosso novo amigo, o Joshua Kleinter, que começamos a chamar de Josh. Ele estava fantasiado de ObiWan, do Star Wars. Ele elogiou minha fantasia por minutos a fio, e então ficamos um tempão apreciando a criatividade alheia. Tinham vários super heróis, várias dançarinas do ventre e vários policiais de ambos os gêneros. Eram tantas Lady Gaga e tantas Katy Perry que se elas se unissem, poderiam fazer um musical chamado DIVAS. Após dois drinks e várias risadas, encontramos a Carly Anne, que estava vestida de Maria Antonieta, a excêntrica

rainha

francesa

que

teve

sua

cabeça

guilhotinada.Eu resolvi contar que o Cadú não pode vir, pois se sentia indisposto e que só oficializaríamos o Gabriel como o novo guitarrista na próxima semana, de forma que não poderíamos nos apresentar em sua festa. Ela disse que o Tim


P á g i n a | 210

já havia conversado com ela há alguns minutos atrás e que ele já havia explicado tudo. Ela pediu para não nos preocuparmos, pois ela sabia que estávamos passando por um momento delicado. Nós ficamos conversando por um bom tempo, até que ela me afastou um pouco dos meninos e disse: - Vivi, espero que não pense que eu tive a intenção de causar uma saia justa, mas o Brian está aqui. Eu o encontrei há cerca de meia hora atrás. Eu o convidei quando vocês ainda estavam saindo, então espero que não fique chateada. - Nem precisa se justificar, Carly. A festa é sua e você tem todo direito de convidar quem você quiser. Além do mais, eu e ele inevitavelmente acabaremos nos cruzando em inúmeros eventos. – só espero que não nos encontremos nesse, senão é capaz que eu acabe enfiando a mão na cara dele. Começou a tocar “Born This Way”, e todas as réplicas da Lady Gaga se juntaram no centro do salão, dançando convulsionamente. O Gabbe e o Josh ficaram me atiçando para dançar junto a eles, então resolvi ceder. Começamos a pular, nos sacudir, e quando a música acabou e começou a tocar Madonna, nossa energia pareceu redobrar. Então uma garota cupido me entregou um correio elegante. Mensagem dizia: “Minha Cher, você pode se esconder o quanto quiser, mas eu sempre te encontrarei. Estarei sempre aqui por você. Assinado, seu admirador secreto.” - Nossa, Vivi! Já está com um admirador secreto? Essa Cher é uma arma de sedução em massa, mesmo. – brincou Gabbe


fazendo todos nós cairmos na risada. As horas foram se passando e eu já estava surpresa por ainda não ter cruzado nem com o Brian nem com o Tim. O Gabbe e o Josh foram até o banheiro e me deixaram conversando com uma atriz chamada Julie Alconverg. De repente, começou a tocar Secret, da banda The Pierces, e eu senti uma imensa vontade de curtir a música. Eu encerrei a conversa com a Julie e fui atrás do garçom que havia acabado de passar ao meu lado com uma garrafa de champagne. Quando eu o alcancei, ele me serviu uma taça, a encheu, e eu fiquei dançando sozinha, segurando a taça de champagne, até que o vi. Se existe um personagem que me deixe completamente louca é ele: Ciclope, dos X-Man. Ele além de ser lindo, é forte e só de te olhar consegue te enxergar por dentro e por fora. Sem contar que aquele óculos tamanho tiranossauro rex é um charme. Eu estava tão compenetrada, olhando para ele, que nem percebi que ele estava se aproximando. E então tudo aconteceu como num piscar de olhos: ele me puxou para perto dele, me jogou para baixo em um passo de dança (daqueles que normalmente encerram uma música lenta), agarrou suas mãos em meus cabelos e os puxou até que nossos rostos estivessem praticamente colados um no outro, e então ele me beijou. E não foi um beijo comum. Foi um beijo tão forte, tão preciso, com tanta língua, que me deixou atrapalhada. Enquanto ele deslizava sua língua pela minha boca, eu abri os olhos e


P á g i n a | 212

tentei captar algum detalhe que me mostrasse quem eu estava beijando, mas aquela fantasia cobria tanto seu corpo quanto boa parte do seu rosto. As luzes escuras e o gelo seco também não colaboraram, pois nem a cor do seu cabelo eu consegui decifrar. Quando ele parou de roçar sua língua na minha, eu achei que ele fosse parar de me beijar e tentei me soltar dele, mas ele me prendeu ainda mais firme e sugou meus lábios, como se eles fossem um pirulito. Quando meus lábios já estavam inchados e doloridos eu resmunguei, ele parou e começou a dar vários beijinhos neles, e então me soltou. Só deu tempo de vê-lo curvando os lábios em um sorriso, antes de ele e camuflar na multidão e sumir de vez. Eu me senti tão entorpecida com aquele beijo que tive vontade de sair correndo pelo mundo e contando aos gritos que eu havia acabado de ter o melhor beijo da minha vida e que o dono dos lábios mais poderosos que eu já experimentei era o Ciclope. Antes de realmente cometer essa loucura, decidi ir atrás do Gabbe e do Josh para contar para eles. Eu os procurei por mais de vinte minutos, e como a Lei de Murphy é uma presença constante na minha vida, foi só quando eu desisti de encontra-los que os avistei. Vi a silhueta dos dois em um dos cantos próximo à grossa cortina vermelha, que fazia sombra e deixava o ambiente ainda mais escuro. Enquanto eu me aproximava, percebi que eu precisava urgentemente passar em um oculista, pois só quando eu estava praticamente em frente a eles que consegui entender o que estava acontecendo: um belo de um amasso


entre dois caras super gatos. Imediatamente eu me virei e comecei a me afastar, mas então o Gabbe disse, surpreso: - Vivi? – e quando me virei, notei que os dois estavam completamente sem graça. Mas o desconforto deles não era nada comparado ao meu. - Vivi? Quem é Vivi? Eu nunca ouvi falar dessa pessoa, e também não faço a mínima ideia de quem são vocês dois. Nunca os vi antes e nem os verei. Aliás, não estou nem aqui. – e apertei meus passos em direção à saída da festa. Quando eu cheguei em casa, nem o Tim, nem o Cadú nem o Gabriel haviam chegado. Eu tirei a fantasia, tomei um banho rápido e fui direto para a cama. Demorei um bocado para dormir. Afinal, a festa havia sido um tanto quanto agitada e cheia de surpresas. Quando finalmente caí no sono, logo fiquei consciente. - Oi, Vivi! Eu sabia que você estava com saudades. - Ah, Sr. Superbonder! Você é o maior dos descarados. Você invade meus sonhos e vem insinuar que eu que te procurei? - Exatamente isso! Sabe por quê? Por que eu sempre estou aqui, mas você só me vê quando quer. E depois da noite de hoje, eu bem que tinha certeza de que você estaria louca para me ver novamente. - O que a noite que eu tive tem a ver com você?


P á g i n a | 214

- Você tem certeza de que não sabe? Pense bem e me diga você. – e eu comecei a pensar em tudo que tinha acontecido, no beijo que eu tinha ganhado e no jeito que aqueles lábios se moldaram aos meus. - Você está querendo dizer que aquele beijo... - Sim! Eu te beijei! Que bom que você finalmente começou a entender como as coisas funcionam. - Mas isso quer dizer que você não é só fruto da minha imaginação? - Não, gatinha! Eu sou fruto da sua imaginação, mas ela me baseou em uma pessoa que faz parte da sua vida. - Então você existe! É isso? - Eu sempre te disse isso. - Então não preciso mais temer que você me visite em sonhos? Eu sempre tentei te afastar porque eu não queria me apaixonar por alguém que nem sequer existe de verdade. – eu disse, tateando até encontrar sua mão e enlaça-la na minha. - Não precisa ter medo, mas não é certo você se apaixonar pelo meu eu surreal sem aceitar sua paixão pelo meu eu real. - Então me diga quem é você! Será muito mais fácil para nos dois. - O caminho mais fácil nem sempre é o certo. Agora volte a dormir, gatinha. – ele me disse, enquanto me dava um beijo


na testa. - Na testa? Para onde se foram aqueles beijos e aquelas massagens quentes que você me dava? – mas ele não respondeu, e logo tudo escureceu. Na manhã seguinte, eu acordei com duas terríveis dúvidas: qual seria a identidade secreta do Sr. Superbonder e como eu deveria chamá-lo, daquele dia em diante? De Sr. Superbonder ou de Ciclope? Quando fui tomar café, não havia mais ninguém acordado. A diarista Dulce estava limpando a sala, então fiquei sozinha na cozinha. Resolvi preparar uma torta de frango com requeijão, que eu sabia que o Cadú tanto gostava. Ainda que ele não quisesse falar comigo, pelo menos eu sabia que ele estaria com o estômago cheio, pois ele nunca resistia à essa minha iguaria. A Bia foi a primeira a levantar, mas ela estava com cara de poucos amigos e nada disposta a conversar (Graças a Deus), então tomou uma xícara de café puro e voltou para o seu quarto. Logo em seguida o Gabriel entrou na cozinha. Ele disse um bom dia tímido, e percebi que ele queria falar comigo, mas estava sem graça. Resolvi tocar no assunto: - Gabbe, eu queria dizer que o que eu NÃO vi ontem, eu não vou contar para ninguém.

Te dou minha palavra. – então

olhei seriamente para ele, para ele ver que eu não estava mentindo. Então a expressão dele relaxou. - O que você não viu? – então ele riu. – Ah, Vivi! Você é


P á g i n a | 216

maravilhosa, sabia? Quer saber? Eu acredito em você! - Que bom! - Sabe, essa situação é muito difícil. Meu pai é extremamente rigoroso e conservador. E não posso nem me abrir com a Bia, porque ela sempre foi uma grande cagueta. Tenho medo de que as pessoas me olhem de forma diferente só por conta da minha opção sexual, como se isso me tornasse menos homem do que sou. - O pior é que tem muitas pessoas que realmente fariam isso, mas eu não sou uma delas. Eu jamais te trataria de forma diferente só pelo fato de você ter uma opção sexual diferenciada. – então ele me deu aquele sorriso lindo, mostrando seus dentes branquíssimos, e me deu um abraço bem apertado. Mais tarde, eu estava sentada no sofá, jogando angrybirds, quando tive uma idéia: eu entraria nos sites de fofoca e procuraria uma foto do Ciclope, para ver se algum paparazzi o tinha identificado na entrada ou até mesmo se eu conseguiria

encontrar

algum

detalhe

que

tivesse

me

escapado. Após vários minutos de procura, encontrei uma foto do Ciclope: ele estava no meio de um grupo que estava entrando, o que tornava minha “missão reconhecimento” praticamente impossível. Droga! Deve ter alguma outra forma. Mas então minha mente clareou: as únicas pessoas que estavam em minha mente nas últimas semanas eram o Brian e o Tim, e se o Sr. Superbonder/Ciclope era uma


projeção da minha mente baseada em alguém que eu conhecia, só poderia ser um desses dois. E eu me senti eufórica por estar começando a desvendar um grande segredo do meu coração. Naquela

noite,

eu

fui

com

o

Gabriel

até

um

restaurante japonês e comprei várias porções de sushi, sashimi, hot rolls e temakis de diversos sabores, além de uma garrafa de saquê, e levei para casa. Eu resolvi promover a noite da comida japonesa, então decorei a cozinha com artefatos japoneses, arrumei a mesa com copinhos para o saquê e hashis no lugar de talheres. Eu chamei o Tim e a Bia, e então tomei coragem e bati na porta do quarto do Cadú. Passaram alguns minutos sem que ele atendesse, então acabei desistindo. Quando me virei em direção à escada, a Lei de Murphy prevaleceu e ele apareceu na porta. - Fala! - Eu só queria dizer que hoje é a noite da comida japonesa. Comprei um monte de coisas que eu sei que você vai adorar. Por que você não desce e janta hoje conosco? - Nem estou a fim de comida japonesa.- ele disse, então fez menção de fechar a porta, mas eu disse rapidamente: - Você viu que eu fiz sua torta favorita? Guardei um pedaço gigante pra você, no microondas. Se não está a fim de comida japonesa, pode...


P á g i n a | 218

- Você está se fazendo de burra ou perdeu alguns neurônios nos últimos tempos? É tão difícil para vocês aceitarem o fato de que eu não quero mais conviver com vocês? Você fez a torta para mim? Então vou te dar uma dica: pega essa torta e enfia no seu....- Póffff! Foi esse barulho que ouvi, antes de o Cadú cambalear e cair pra trás. Demorou alguns segundos para eu entender que o Tim havia dado um soco em seu rosto. Eu comecei a chorar. - Isso é para você aprender a ter respeito pelas pessoas que só te querem bem.

A Vivi não sabe o que fazer para te

agradar, ela sempre te tratou melhor do que tratou a mim ou ao Ric ou tratará o Gabriel. Tudo que ela soube fazer por você até hoje foi te tratar com amor. E o que você tem feito por ela? Tratou ela tão mal no outro dia que fez ela engolir três calmantes e quase não acordar, e hoje você manda ela enfiar a torta que ela fez com tanto carinho no ... - Já chega, por favor, Tim! – eu pedi, encarecidamente. Ele ainda estava com o queixo levantado e os punhos fechados, provavelmente pronto para desferir outro soco no Cadú. – Resolver as coisas com violência não leva a lugar nenhum. Por favor, não o machuque mais! - Está vendo, Cadú? Mesmo com você a tratando com um cachorro, ao invés de se ressentir com você, ela briga comigo por defendê-la. E isso só me faz ter mais vontade ainda de quebrar a sua cara. Vê se cresce, moleque! - e então ele desceu a escada pisando fundo. Eu fui para o meu quarto


para chorar mais um pouco, já que este tinha virado um dos meus passatempos. De toda desgraça que havia acontecido nos últimos tempos, a que era mais difícil de aceitar era a mudança de comportamento do meu menino. Porque a situação do Ric não havia sido voluntária, mas sim uma conseqüência de um crime cometido por um covarde, mas a mudança do Cadú, não. Ele havia escolhido ficar assim. Ele havia escolhido nos tratar daquela forma. E aquilo me magoava mais do que tudo. Eu me encolhi na minha cama, e chorei até quase pegar no sono, quando ouvi alguém bater na minha porta. Eu não respondi, na esperança de que a pessoa desistisse, mas então ele disse: - Vivi? Sou eu. Abre a porta. – e então dei um pulo da cama e corri para abrir a porta. Ele estava parado, com o olho inchado e cheirando a esgoto. Deus, ele não deve tomar banho há dias. Ele me olhou nos olhos pela primeira vez em dias, e então ele perguntou, em voz baixa: - o que o Tim contou é verdade? Sobre o calmante? – Como eu olhei para os meus pés, ao invés de responder, ele olhou para baixo e seu corpo começou a sacudir lentamente. Ele estava chorando! - Não, Cadú, não chore! Por favor! – eu pedi, com um imenso nó na garganta.Então ele levantou a cabeça e se jogou em meus braços. - Eu sinto muito, Vivi! Eu sinto muito! - Não, Cadú! Não se culpe! Eu decidi tomar por conta própria.


P á g i n a | 220

A culpa não é sua. - A única coisa que tenho feito nos últimos meses é acabar com a vida dos outros. Eu acabei com a do Ric e quase acabei com a sua. - Acabou com a vida do Ric? Como assim, Cadú? Não foi você quem atirou nele, foi um monstro que já está preso. - Mas se eu não tivesse sugerido que tomássemos umas doses de Whisky antes do show, ele estaria bem. E agora eu destruí a carreira dele, e... - Pare com isso agora! – eu disse em voz alta. – Cadú, a bebida não teve nada a ver com o incidente do Ric. Eu garanto que mesmo se ele não tivesse bebido, ele teria dado uns amassos naquela garota patética, de qualquer jeito. Ela estava quase o comendo com os olhos, e ele não é de deixar esse tipo de coisa passar em branco. Isso é uma certeza, Cadú! – e então ele parou de soluçar. - Você realmente acha isso, Vivi? - Não, não acho! Tenho certeza! Cadú, por acaso você está agindo dessa forma estranha por sentir culpa pelo acidente do Ric? - Eu só queria afastar vocês, pois não me sentia digno da amizade de nada. Eu achava que deveria estar no lugar do Ric, então eu bebia todas as noites esperando que Deus percebesse que tinha errado ao castigar o Ric, e não a mim, e que ele finalmente me punisse. – e eu senti uma tristeza


profunda ao pensar no quanto ele deveria ter sofrido todo esse tempo. Eu o abracei, e ficamos assim por muito tempo.


P á g i n a | 222

12 – O IMPERDOÁVEL

“O que eu senti, o que eu soube. Vire as páginas, vire as pedras. Atrás da porta, eu devo abrí-la pra você?” The Unforgiven II - Metallica

Mais tarde, após o Cadú voltar para seu quarto, eu pensei no Tim e no jeito que ele havia me defendido. Senti meu coração se derreter, e finalmente percebi que eu estava nutrindo sentimentos fortes por ele há um bom tempo. Senti uma vontade imensa de abraçá-lo, e então resolvi ir até o seu quarto para termos uma conversa. Eu estava abrindo a porta do meu quarto quando ouvi um barulho no corredor. Senti um instinto de me esconder e espiar, e assim o fiz. E então senti como se tivesse levado uma facada no peito: a Bia estava saindo do quarto do Tim, com os cabelos bagunçados e de camisola curta. Eu queria chorar, mas eu já tinha derramado tantas lágrimas naquele dia que só me restou deitar na posição fetal e ficar me chacoalhando até eu finalmente conseguir dormir. No dia seguinte, quando acordei eu estava descendo para o café da manhã, encontrei o Cadú no corredor, e ele entrou comigo na cozinha. Todo mundo ja tinha levantado, então todos ficaram de boca aberta.


- Bom dia! – ele disse, envergonhado. – Eu queria pedir... eu queria pedir desculpas a todos pela forma que tenho me comportado, nos últimos dias. – olhei para o Tim e quando vi um brilho se ascender em seus olhos, lágrimas rolaram pela minha face. - Seja bem vindo de volta, parceiro! – disse Tim. E então a Bia colocou a mão em seu ombro, em um gesto íntimo, como forma de comemorar a novidade. Meu estômago revirou e eu estava saindo correndo da cozinha, quando a campainha tocou. Abri a porta. E fechei na cara da pessoa. A campainha tocou novamente. Abri de novo e disse: - Eu já disse que não queria mais te ver, não disse? - Mas Vivi, eu preciso muito falar com você. Você está sendo... - CAI FORA! – gritei, interrompendo-o. E fechei novamente a porta. E a campainha não voltou a tocar novamente. Todo mundo apareceu na entrada, perguntando quem era, e eu respondi. - Era o Brian, mas ele já se foi. E não vai voltar novamente. - Ah, vai! Nenhum cara que tenha mais de um neurônio no cérebro desistiria facilmente de você, Vivi. – disse Gabriel. E o Tim olhou para ele com um brilho quase vermelho nos olhos. Ah, vá ter ciúmes da sua namorada que você ganha mais! Naquela tarde, nós faríamos o primeiro ensaio com


P á g i n a | 224

todos nós reunidos, além de ser o primeiro ensaio do Tim como vocalista. Eu decidi colocar bolas de algodão no ouvido, para ouvir menos e sofrer menos ao ouvir aquela voz que me derretia

toda.

O

Cadú

logo

notou

meus

tampões

improvisados. - Vivi, por quê você está com algodão nos ouvidos? - Dor de ouvido! – menti. Até que nos últimos meses eu havia aprendido a mentir melhor. O ensaio ocorreu normalmente, e eu confesso que minha mágoa pelo Tim foi maior que minha atração física, então descontei toda minha frustração no baixo e no vocal. Todos elogiaram a minha performance, então eu me senti pronta para arrasar na nossa turnê. E o tempo passou tão rápido, que já chegou o dia da nossa entrevista no programa Talking With Sheila, da emissora VXZ. Quando a entrevista começou, a apresentadora Sheila nos bombardeou com perguntas a respeito do episódio ocorrido com o Ric.

Nós

contamos tudo que ocorreu, e deixamos uma mensagem para ele dizendo que ele é vital para a banda e que sentíamos muito sua falta. Aproveitando a deixa, nós deixamos claro que enquanto o Ric se recuperava, outro guitarrista o substituiria, e então o Gabriel entrou no palco e as fãs ficaram à beira da loucura, gritando histericamente até perderem a voz. Até a apresentadora pareceu se afetar com sua beleza, e quando ele abriu seu sorriso branquíssimo, as fãs quase desmaiaram. Após respondermos várias perguntas


sobre a turnê que faríamos, a apresentadora pareceu se focar em mim. Lá vem! - Mudando o foco das perguntas, eu queria conversar um pouco com a Vivi. Como você deve saber, todos nós acompanhamos na mídia o início de um romance entre você e o vocalista da banda Blue4us, Brian Levicce. Obviamente que todos nós estranhamos quando vazou na imprensa fotos dele com uma de suas ex namoradas, a top model Alicia Hershel. Você poderia nos esclarecer o que realmente aconteceu entre vocês? – eu me senti extremamente incomodada com a pergunta, mas sabia que meu silêncio perante a mídia só estava instigando ainda mais fofocas sobre o assunto. - Para falar a verdade, Sheila, eu também não sei até agora o que realmente ocorreu. Nós dois estávamos saindo e de repente houve o problema do Ric, e eu fiquei muito abalada. Eu acabei me afastando dele por uns dias, pois eu precisava de um tempo sozinha, para afastar a tristeza e para pensar no futuro da banda, porque para mim perder um membro da banda é o mesmo que me afastar de alguém da família, mas eu tinha conversado com ele e ele disse que entendia a dificuldade pela qual eu estava passando. Então em um certo dia eu ligo a televisão e vejo as fotos dele com aquela garota e o vídeo que filmaram dos bastidores do clipe. – e o auditório fazia “ooohs” e “aaahs”, surpresos com a minha declaração. - E como você se sentiu com essa situação? – eu quase respondi com outra pergunta, do tipo “Como você se sentiria


P á g i n a | 226

se estivesse no meu lugar?”, mas a educação falou mais alto. - No começo eu me senti muito mal, porque estar com o Brian havia sido um sonho que cultivei por anos, desde minha adolescência, e quando começamos a sair eu acreditei que ele era

exatamente

demonstrou

ser

do

jeito

que

romântico,

eu

havia

atencioso,

sonhado. além

de

Ele ser

extremamente lindo. – e o auditório pareceu concordar com essa última declaração. – Por isso que quando eu descobri que ele estava me traindo, foi como se todos os sonhos que cultivei a respeito dele durante anos fossem por água abaixo. Eu resolvi me focar na banda e fiz de tudo para não me ressentir, e hoje posso dizer que estou bem melhor. - Então o conceito que você tinha sobre a pessoa que ele é mudou completamente? Você considera o que ele fez como algo imperdoável? - Antes que vocês me interpretem de forma errada, quero deixar claro que eu não acho que ele seja nenhum tipo de monstro, e não cultivo ressentimento por ele. Apenas errei ao criar muitas expectativas sobre uma pessoa que não correspondia aos meus ideais. O que ele fez eu considero, sim, algo imperdoável, pois ele traiu a minha confiança. Eu não penso que ele seja uma pessoa má, apenas que não é alguém merecedor do meu amor.– e então a platéia me ovacionou. A apresentadora até se levantou para aplaudir minha declaração, e então disse: - Se todas as garotas que foram traídas pensassem como você


e se recuperassem como você, o mundo seria muito melhor. Algumas

horas

depois,

estávamos

na

cozinha

fazendo a noite da “comida mexicana”, quando o Gabriel disse: - Sabe, Vivi, você é uma mulher excepcional. Para falar a verdade, nunca conheci outra como você. Você é espontânea, inteligente, amorosa e linda por dentro e por fora. Não tem como não te admirar por tudo isso. – olhei para ele e sorri, com o coração transbordando de carinho. A Bia lançou a ele um olhar magoado. - Quem vê pensa que você a conhece há anos. – cutucou Tim. - Não preciso passar meses nem anos ao lado de uma pessoa para saber como me sinto em relação a ela. – Gabbe respondeu, mas eu me questionei a respeito daquele comentário. Aparentemente eu era daquele tipo de pessoa que precisava de meses ou anos para saber como se sente em relação a determinadas pessoas. Pessoas como Tim. Após o jantar, o Cadú sugeriu que assistíssemos a um filme de terror. Fomos todos para a sala e sentamos no sofá, completamente espremidos. Mas como fazia um dia mais frio, ninguém pareceu se importar. Eu me lembrei de quando chegamos em Nova York e passamos uma noite parecida com aquela. A noite em que dormi no ombro do Tim e ele quase me beijou. Não pude evitar desejar que aquilo ocorresse novamente, mas a Bia o puxou para seu lado, e o


P á g i n a | 228

Cadú sentou do seu outro lado, de forma que ficamos separados. Assistimos Sexta Feira 13, e então fomos todos para a cama. Quando me deitei, fiquei pensando em todos os momentos que passei ao lado do Tim, e então tomei uma decisão: eu não deixaria ele escapar tão facilmente de mim. Se ele pôde tentar me seduzir, então eu também poderia usar a mesma arma. Imediatamente levantei e coloquei um conjunto de calçinha e sutiã de renda na cor vermelha, coloquei um robe branco quase totalmente transparente, de forma que dava para ver muito bem através dele. Joguei meu cabelo para o lado e mordisquei meus lábios para deixá-los mais rosados. Fui até a porta do quarto dele e bati. Prendi a respiração quando vi que ele estava usando uma cueca boxer preta, que deixava suas coxas grossas bem torneadas. Ele pareceu prender a respiração ao me ver naqueles trajes, também, e eu demorei alguns segundos antes de lembrar do meu plano. - Tim, corre para o meu quarto, por favor, pois tem um barulho esquisito na janela. Por favor, dê uma olhada para mim, parece que tem me espiando. Pode ser até que enquanto eu esteja aqui, alguém tenha invadido. – eu disse na maior cara de pau. Em breve eu estarei atuando tão bem que a Globo ou o SBT irão querer me contratar. Ele demorou alguns segundos para se controlar e correr ao meu quarto. - Vivi, não tem nada aqui no quarto. – ele disse logo após ter checado embaixo da minha cama e espiado pela janela. Eu preciso pensar em algo, eu preciso pensar em algo.


- Será que a pessoa não se escondeu no banheiro? - Você tem noção do quanto parece lunática com essa história? Foi só um barulho, Vivi. - Não custa checar, né? Quando ele entrou no banheiro, eu entrei atrás dele e encostei a porta. O banheiro não era muito grande, de forma que ficamos torturosamente perto um do outro. Ele estava examinando o box e eu aproveitei para abrir meu roupão. Quando ele se voltou para mim, ficamos frente a frente, com apenas alguns centímetros de distância um do outro. E então ele notou minha lingerie. Ele me olhou de um jeito faminto, e os olhos dele se apertaram de desejo. Notei que o formato de sua cueca estava se alterando, e ele disse roucamente: - Vivi, seu roupão abriu. – eu olhei para o meu roupão e fingi surpresa. Eu pensei em arrancá-lo de uma vez, mas isso ia contra o meu plano anterior. Então eu o fechei bruscamente e disse: - Me desculpe, acabou abrindo na correria. – e molhei os lábios com a língua. Ele estava dando um passo na minha direção e eu queria muito poder ficar e tê-lo em meus braços, mas então eu dei um passo para trás e disse: - Bom, se realmente tinha alguém na minha janela, já foi embora. Provavelmente não era nada, só fui consumida pelo


P á g i n a | 230

pânico. Pode voltar para o seu quarto. – Ai, que dificuldade em deixá-lo ir embora! E então ele foi até a porta, mas não saiu antes de se virar mais uma vez para me dar mais uma boa secada. Yes! “Operação Pega Tim” venceu o primeiro round! No dia seguinte, acordei disposta a ir à luta. Eu havia vencido a primeira batalha, mas não aquela guerra. Após tomar meu banho matinal, coloquei uma mini-minimini saia branca, e vesti uma mini blusa rosa queimado. Passei meu perfume Touchof Spring, e desci com um sorriso imenso no rosto. Eu fui a última a levantar, então estavam todos na cozinha, á minha espera. - Bom dia, galera! – eu disse. O Tim ficou alguns segundos me olhando, e percebi que ele estava fantasiando com a noite anterior. - Uau, Vivi! Acordou de bom humor, hoje, né? Sem contar que está gostosona com essa saia. - Obrigada, Gabbe! Acordei bem disposta, mesmo. Afinal, hoje á noite iremos para Austin e em dois dias faremos o primeiro show da nossa turnê americana. - Esse é o espírito, Vivi! – disse Cadú, engolindo uma panqueca e já pegando outras duas no prato. Aparentemente seu apetite tinha voltado ao normal. Eu fui até a geladeira e peguei uma maçã, e então a derrubei. Sensualmente,

eu

agachei

para

pegá-la.

Enquanto

eu


agachava, eu empinei meu bumbum e joguei meus cabelos para o lado. Quando eu a peguei, levantei apenas um pouco, ficando com as costas ainda arqueadas e o bumbum ainda empinado, e então olhei para trás, e o Tim estava exatamente como eu queria: com a boca aberta e os olhos completamente colados no meu bumbum. Ele até estava tentando enfiar o garfo com um pedaço de panqueca em seu queixo. Então eu continuei subindo, e quando estava completamente na posição vertical, me sentei. Foi então que ouvi: - Você não acha que usa roupas muito curtas estando em uma casa repleta de homens, não? – disse Bia, com um olhar raivoso. Ah, aquela lacraia mal sabia onde estava se enfiando. E foi me baseando no famoso ditado “quem fala o que quer ouve o que não quer” que eu respondi: - Pelo que me lembro, Bia, eu te contratei com assistente para fazer as coisas que não tenho vontade nem tempo de fazer, e não como conselheira de moda. Por falar nisso, assim que acabar de tomar café, preciso que separe um dia da beleza para mim em Austin. Dizem que no Texas existem cremes milagrosos para a pele. – O Gabriel não conteve uma risada, e o Cadú se segurou para não explodir em risos. Essa garota anda muito folgada. Está na hora de coloca-la em seu devido lugar. Fizemos mais um ensaio naquela tarde, e quando o Tim estava

fazendo

um

cover

de

Walking

After

You,

do

FooFighters, eu tive uma outra idéia para o meu plano.


P á g i n a | 232

Esperei ele acabar aquela música e então eu disse: - Meninos, que tal se eu fizesse um cover de It is a man’s world? – e todos eles concordaram. Mais um ponto para mim. Afinal, eu sei fazer uma versão super sexy daquela música. -Vivi, e a nossa música Dueto dos ossos? Você e o Tim já ensaiaram? – Como eu pude esquecer da música em que eu e o Ric cantávamos em dueto? Então o Tim me olhou fixamente, antes de dizer: - Se você topar, eu acho uma boa interpretá-la, mesmo. – ele disse, enquanto eu quase pulava de alegria por fazer um dueto com o Tim em uma música romântica que fala sobre sexo? - Eu topo, sim. Então vamos ensaiar agora. Vamos deixar a música com a mesma divisão que eu e o Ric fizemos? Você com a primeira parte, eu com a segunda e os dois juntos no refrão? – perguntei. Então o Gabriel riu e disse: - Ih, essa história de o Tim ficar com a primeira parte, a Vivi com a segunda e os dois juntos no refrão não está parecendo divisão de música, mas sim de uma cena pornô. – e então o Cadú caiu na gargalhada. Eu ri um pouco, mas como aquela não era uma ideia muito diferente das que eu tinha na minha cabeça, olhei de um jeito bem intenso para o Tim, e ele retribuiu meu olhar. Senti o clima esquentar, mas então o Cadú disse: - E aí, começamos a tocar no quatro? Então lá vai. 1, 2, 3,4!!!


-e os arranjos começaram. Então o Tim cantou a primeira parte: “UM QUARTO ESCURO VAZIO SEM O ENTRELAÇO DAS MÃOS UMA TEVÊ APAGADA SEM PODER VER SEU SORRISO UMA CERVEJA BEM QUENTE UMA BOCA SEM O SEU GOSTO SÃO COISAS TÃO RUINS”. Na parte que diz “uma boca sem o seu gosto”, ele olhou para meus lábios, e então era a minha vez: “UMA CAMA TÃO GELADA OS PÉS BEM FRIOS NO INVERNO UMA CONDUÇÃO BEM LOTADA SEM SEUS OMBROS RELAXANTES UM ESTRESSE QUALQUER NO TRABALHO SEM RECEBER O SEU COLO SÃO COISAS QUE DEIXAM MAL”. E então nos viramos instintivamente um para o outro, uma vez que resolvemos que não usaríamos a bateria nessa


P á g i n a | 234

música. Ele olhou dentro dos meus olhos, e eu quase esqueci a letra da música. E chegou a parte do nosso dueto: “MAS QUANDO O SEU CORPO ENCOSTA NO MEU TODO NERVO EM MEU CORPO PARECE SALTAR E QUANDO VOCÊ ME PRENSA, SORRI E ME USA ESSE DUETO DOS OSSOS ME FAZ RELAXAR”. Nós esquecemos que estávamos em um ensaio com a banda e ficamos nos olhando, de um jeito sexy e voraz. O Gabriel fez um “Hãm, hãm!” e então eu desviei o olhar. Nós todos fomos para nossos respectivos quartos e fizemos nossas malas. Percebi que eu sentiria saudades daquela casa, e desejei poder voltar para lá em breve. Foram tempos difíceis, mas aquela casa tinha quase se transformado em nosso lar. Nosso voo estava marcado para as sete horas da noite, então nós fomos para o aeroporto quando faltavam quinze minutos para as seis horas, e embarcamos em um avião com destino à Austin. O Tim e o Cadú sentaram em poltronas vizinhas, e eu sentei ao lado do Gabriel. A Bia sentou sozinha, o que era mais do que cabível, já que ela estava com um bico tão grande que precisaria ocupar duas poltronas só para ela.


13 – MINHA DOCE CRIANÇA

“Às vezes quando olho o rosto dela, ela me leva embora para aquele lugar especial. E se eu fixasse meu olhar por muito tempo, provavelmente perderia o controle e começaria a chorar.” Sweet Child O’ Mine - Guns N’ Roses

Três horas e quarenta e cinco minutos mais tarde o avião pousou, e então fomos direto para o Hampton Inn. O Hotel é magnífico e cada um de nós pegou uma suíte. Nós chegamos ao Texas do mesmo jeito que chegamos em Las Vegas: morrendo de fome. Nós decidimos jantar em qualquer lanchonete, para experimentar o tão famoso hambúrguer texano, e de lá iríamos a uma danceteria local, apenas para nos divertirmos, mas iríamos à paisana. Decidi usar um vestido vinho estilo “fatal”, o cabelo preso em um rabo de cavalo bem alto, brincos de argolas, sandálias pretas e batom vermelho. Quando nos encontramos na recepção do hotel, recebi olhares luxuriosos até de um senhorzinho que deveria ter mais 75 anos. Eu ri da cara que ele fez para mim, e então ele acabou rindo. O Cadú fez um “fiu-fiu”, o Gabbe me girou para ver meu vestido por inteiro, o Tim piscou várias vezes e ficou olhando para a minha nuca, já que eu quase nunca prendia o cabelo. A Bia estava usando um vestido preto com


P á g i n a | 236

um grande decote, e seus cabelos estavam repartidos ao meio e postos atrás das orelhas. Que coisa mais cafona! Acessório que ela usava e que mais se destacava era o bom e velho bico. E então percebi o quanto eu fui preconceituosa: eu preferia mil vezes uma assistente estilo Vogue. Austin é uma cidade grande, com pessoas de estilo bem variados, e parece abrigar um grande número de artistas de diversos gêneros. O lanche que comemos era bem gostoso, mas confesso que não é muito diferente de alguns que encontro em São Paulo. Então nós fomos até a Diskville, uma danceteria que toca música de vários gêneros. Ao chegarmos, nós resolvemos tomar uma dose de tequila. O Cadú ficou meio tenso, com medo da última vez que nos reunimos para beber, mas eu pedi que relaxasse e curtisse a noite, pois ninguém beberia a ponto de passar mal ou esquecer onde estava. Nós bebemos uma dose para esquentar, e então fomos para a pista de dança. Eu e o Gabbe dançamos muito quando tocou Crazy in Love, mas todos nós piramos mesmo quando tocou (I can’t get no) Satisfaction. O Cadú e o Tim faziam caras e bocas, e o Tim até soltou seus sons esquisitos feitos pela boca. A Bia não gostava muito de dançar, mas estava lá para não deixar o Tim sozinho. Algumas músicas depois, eu já estava despenteada e suada. Estava tocando Sweet Child of Mine, quando o Tim encostou os lábios no meu ouvido (porque o som era muito alto) e disse:


- Eu nunca te vi mais bonita do que você está agora. É uma cena linda para se ver: você toda descontraída, descabelada e com as bochechas rosadas. Você está com cara de menina sapeca. Parece que essa música foi feita para você. – e eu não pude deixar de rir. - Você também não está tão diferente. Seu topete já nem está mais para o alto. – eu disse para provocá-lo, uma vez que ele era obcecado pelo seu cabelo. Ele colocou a mão em seu topete e quando percebeu que era brincadeira, riu. - Você adora me provocar, não é? - Eu? Imagine! – e então a Bia se aproximou de nós. - Eu vou até o bar buscar uma água, alguém quer alguma coisa?– O que demorar mais para ficar pronto. - Sim, uma batida de morango com champagne. – pedi. - Eu não quero nada, obrigado. – disse Tim, sem dar muita

atenção

a

ela,

deixando-a

completamente

frustrada. Ela se foi e logo depois começou a tocar Don’t you want me, do grupo The Human League. - Eu adoro essa música. – ele disse, gesticulando as frases da música enquanto fazia passinhos engraçados, no estilo anos 80, daqueles que sempre faço quando vou à danceteria Trash 80’s, em sampa. Quando a garota entra na música e começa a cantar, ele apontou para mim. Então eu o imitei, e comecei a dançar os mesmos passinhos engraçados. No refrão cantamos juntos e fizemos caretas um para o outro. O Cadú e o Gabbe


P á g i n a | 238

chegaram mais perto para ver a cena, e começaram a tirar fotos para registrar aquele mico, mas eu estava me divertindo tanto que nem me importei. Em seguida, começou a tocar Can’t stop lovin’ you, do Wham, e o Tim automaticamente ficou mais sério. Ele me lançou um olhar estranho, de um tipo que eu nunca tinha visto nele. A Bia então chegou com minha batida de morango, e o Gabbe me tirou para dançar. Mais tarde, quando eu tinha acabado de tomar banho e vestir uma camisola branca de cetim, senti uma vontade quase incontrolável de ir até o quarto do Tim e beijá-lo loucamente. Eu me peguei pensando se o beijo do Tim seria tão bom quanto o beijo do Sr. Superbonder/Ciclope, mas a verdade é que eu já estava cansada dessa história toda de mistério. Além disso, eu já havia beijado o Tim e podia afirmar que seu beijo era de tirar o fôlego, mas é realmente difícil comparar dois beijos fenomenais que me fizeram sentir a verdadeira felicidade de se estar viva. Eu fechei meus olhos e estava quase entrando no mundo dos sonos, quando ouço: “Can’t stay at home, can’t stay at school...”. Quem estaria me ligando às 04:00 horas da manhã? Peguei meu celular e vi que o número era restrito. Pensei se deveria atender ou não, mas a curiosidade falou mais alto. - Alô! – eu disse. - Oi! - Mentira que é ele! - Tim?


- Conhece alguém que tenha a voz idêntica à minha, gatinha? - Por que está me ligando a essa hora? Não deveria estar dormindo, não? - Não consegui pegar no sono. E pela sua voz, você também não, né? - Não! – respondi.- Mas por que você não consegue dormir? Aconteceu alguma coisa? - O problema é exatamente esse, Vivi. Não aconteceu! - Não entendi. - A verdade é que tem uma garota que não sai da minha cabeça, e ela está me fazendo perder o sono há dias. – senti uma nevasca no meu estômago. Afinal, eu estava no Texas ou no Alasca? - E ela sabe disso? - Acho que sim, mas não tenho certeza. - E será você também a faz perder o sono, ou o sentimento é unilateral? – ele hesitou por alguns momentos, mas finalmente disse: - É exatamente por isso que eu estou ligando. Eu estou indo atrás dela. Espero que você não se importe, mas preciso urgentemente resolver isso. – e então meu estômago revirou tanto que o Alasca se despedaçou em mil, assim como meu coração. - Eu... é... ok. - Valeu, Vivi! Eu sabia que você entenderia. – e então ele desligou. Eu nem sabia o que fazer: se eu chorava ou ria


P á g i n a | 240

do papel ridículo de sedutora que eu havia adotado. Eu nunca conseguiria ser o tipo “mulher fatal”, e comecei a pensar seriamente em processar a revista Everyone por sua ridícula lista de “Os mais bonitos do mundo”. Agora ele iria atrás daquela babaca da Letícia, só pode ser, já que ele está saindo para ir atrás de uma garota que mora aqui. Aquilo era uma fraude, uma piada. Fui até o Sneak bar que tinha na minha suíte e abri um chocolate Sneakers. Quando eu estava muito estressada, ou muito decepcionada, eu sempre apelava para o bom e velho chocolate. Devorei os dois que tinham em menos de um minuto, e só tinha mais um para eu devorar em seguida, mas aquilo não seria o suficiente. Eu queria entrar em “coma chocólatro”, então resolvi ir à recepção e pegar mais algumas barras. Coloquei o primeiro vestido que vi (um branco meio curto com saia rodada, que não era muito meu estilo, mas eu me sentia inexplicavelmente bem com ele) e fui chamar o elevador. Eu

fiquei

alguns

minutos

parada

no

corredor,

segurando a terceira barrinha de chocolate já quase acabada, quando o elevador finalmente chegou. Eu dei um

passo

para

entrar,

mas

algo

me

empurrou

gentilmente para trás. Olhei para a frente, e meu coração se apertou. - O que você está fazendo aqui? – eu disse. - Nesses cinco minutos desde que eu desliguei, quantas barrinhas iguais à essa você já devorou?


- E quem é você é, agora? Meu personal trainner, para controlar as calorias que ingiro? - Vivi, eu te conheço bem demais para saber que você só entra em compulsão por chocolates quando algo te estressa ou te chateia. – ele disse, tentando conter um sorriso. – Me diz, o que está te chateando? - Nada! Não posso comer uma barrinha de chocolate em paz sem vocês acharem que estou surtando? – eu gritei, e então ele colocou as mãos em seus lábios e fez um “shiiiuuu”. - Onde você estava indo? - À recepção para pegar mais... sabonetes! - Sabonetes é uma nova marca de chocolate que eu ainda não conheço? - Quer saber? Vou voltar para o meu quarto que ganho mais. – e começei a girar o corpo, mas ele me puxou e eu perdi o equilíbrio. Ele me segurou, então caí em seus braços. - Não quer saber o que vim fazer aqui? - Não! - Quero, quero, quero, quero, quero, quero, quero! - Eu vim dizer a uma garota que não consigo parar de pensar nela, e que ela me faz perder o sono há dias. – e eu senti lágrimas tentando escorrer pelos meus olhos. Nossa, ele tinha conseguido me deixar irritada. Mas peraí! Ele disse que veio dizer a uma garota que... ei, sou eu? – ele percebeu a confusão em meus olhos. – Você não é a mestre em jogos de provocação? Eu só quis


P á g i n a | 242

experimentar um pouco do seu jogo. E não é que é bem legal? – então ele sorriu e foi para cima de mim, com seus lábios perfeitos e seu perfume intoxicante. Ele me beijava e me empurrava para dentro da minha suíte. Ele me pegou no colo e me jogou em cima da minha cama, e então se deitou em cima de mim. Eu estava tão zonza, tão feliz e com tanto desejo, que não conseguia nem raciocinar. Então ele parou de me beijar e olhou para mim: -

Diz pra mim, Vivi!

- O que você quer que eu diga, Tim? - Que você é louca por mim. – e então ele beijou minha nuca. – Que você me quer tanto quanto eu te quero. – e então ele desceu do meu pescoço até o decote do meu vestido, com a língua. – e o principal: quero que você diga o meu nome. Do mesmo jeito que eu vou dizer o seu, agora. – então ele encostou seus lábios no meu ouvido e sussurrou com a voz mais rouca e mais deliciosa do mundo: Vivianne. – Nossa, ele sabe como me deixar completamente louca. Então o puxei e troquei de lugar com ele, ficando por cima. - Eu quero você! Quero demais. – eu disse, dando vários beijinhos em seu pescoço e em seu peito. Me aproximei do seu ouvido e sussurrei, bem baixinho: - Timóteo! – e então eu passei minha língua pela sua orelha e a mordisquei bem lentamente. O Tim ficou impaciente, então eu resolvi ficar de pé e


arrancar a sua roupa. Puxei seu tênis, sua calça, sua camisa e suas meias. Ele tentou me ajudar, mas eu o empurrei para trás, o impedindo. E então eu puxei uma das alças do meu vestido para baixo, e depois a outra. O vestido começou a escorrer pelo meu corpo, e eu fiz alguns movimentos com meu quadril para facilitar, tudo isso sem desgrudar meu olhar do dele. Seus olhos ficaram mais escuro que piche, e eu pude ver a intensidade de seu desejo através do seu corpo. - Você é a mulher mais linda do mundo! Você não sabe o quanto esperei por esse momento, Vivi. Você não sabe o quanto sonhei com seu corpo, em fazer amor com você, em provar o seu gosto, sentir o cheiro do seu corpo, sentir a textura da sua pele. – eu estava hipnotizada por ele, pelas palavras doces que ele dizia. Aquele nem parecia o Tim de um mês atrás. Ele também se levantou, me olhando de cima a baixo, como se estivesse tentando decorar cada pedacinho do meu corpo. E então ele me tocou. Senti minha pele arder em reação ao seu toque, e olhei para baixo, envergonhada pelo tamanho do meu desejo por ele. - Olhe para mim, Vivi! Por favor, olhe para mim! Eu quero ver cada brilho em seu olhar, quero ler em seus olhos cada reação que você tiver. Eu consigo te ler todinha através dos seus olhos, assim como estou lendo que você me quer. Que me quer agora! – e então ele me jogou na cama e subiu em cima de mim, encostando sua


P á g i n a | 244

rigizes no meu centro úmido. Eu ergui meu quadril, tentando

urgentemente

aumentar

nosso

contato,

querendo que nossos corpos se tornassem apenas um. Ele soltou um gemido rouco e se afastou o suficiente para colocar a proteção, ainda mantendo contato visual. Quando seu membro generoso escorregou para dentro de mim, nós dois suspiramos e gememos ao mesmo tempo. Foi o momento mais íntimo e mais erótico que eu já tinha vivenciado. Eu sabia que agora eu estava perdida, que a partir daquele momento seria muito difícil tirar o Tim da minha cabeça e do meu coração. Nós chegamos ao êxtase quase no mesmo momento, e em seguida ele me aninhou em seu peito, enquanto acariciava minhas costas em movimentos circulares. Nós ficamos em silêncio por vários minutos e em um determinado momento eu estava prestes a dormir, mas ele voltou a me beijar como se dependesse disso para viver. Nós fizemos amor até o sol brilhar no céu, e depois caimos no sono até a hora do almoço. Quando meu estômago roncou, eu abri os olhos e me deparei com o Tim me observando. - Bom dia, Vivi! - ele disse, enquanto me dava um abraço de urso. - Nossa, que belo jeito de começar o dia. – eu disse, enroscando meu rosto em seu pescoço e dando vários beijinhos. Meu estômago roncou. - Está com fome, gatinha?


- Muita! Só acordei por isso, senão não iria querer sair dessa cama por nada! - Então somos dois! Vamos pedir para mandarem algo pra cá ou você prefere descer e comer alguma coisa no restaurante do hotel? - Eu preferia pedir alguma coisa e comer aqui mesmo, mas aí eu não teria coragem de sair hoje dessa cama, e nós temos que passar o som para o show de amanhã, ou você esqueceu? - Acho que estamos precisando de férias, isso sim. – ele disse, e então me deu um beijo lento e bem intenso, daqueles que fazem nossas pernas derreterem como margarina, e depois se levantou. Quando estávamos quase terminando nosso almoço no restaurante do hotel, a Bia nos encontrou. -Olá! Eu, Gabbe e o Cadú ficamos esperando vocês por um tempão, no café da manhã. – ela disse. -Eu estava sem fome! – ele disse, e eu me senti imediatamente incomodada. Ele usou a palavra eu, e não a palavra nós. Legal, agora ele quer esconder da Bia a noite que passamos juntos. Se é isso que ele quer, é isso que terá. Esse jogo é para dois! -Eu também! – eu disse curtamente. Ela se sentou à nossa mesa, e eu estava com tanta raiva que nem terminei e deixei metade da comida em meu prato, me despedi e voltei


P á g i n a | 246

para o meu quarto. Eu tomei um banho, coloquei uma calça jeans, uma regata preta e uma camiseta xadrez por cima, calcei meu All Star branco, desci, me juntei aos meninos e fomos passar o som para o show do dia seguinte. A Rita havia contratado uma equipe de suporte, chamada Staff. Eles nos ajudariam montando as luzes, afinando decorando o palco, etc. O pessoal era bem dedicado, e todos pareciam muito contentes em trabalhar conosco. Alguns até pediram autógrafos. Descobri até que um deles tinha uma paixão platônica por mim. Quando ele me viu, seus olhos se encheram de lágrima. E eu me senti extremamente grata por ter esse carinho por parte de tantas pessoas que nunca nem vi na vida... - Vi, a noite foi boa, não é mesmo? – Gabriel disse, interrompendo meus pensamentos. - O que? Como assim? - Ah, Vi! Eu não sou bobo. Qualquer um sente o clima que rola entre você e o Tim, e ontem á noite, na Diskville, foi tão óbvio... ele sussurrando em seu ouvido, depois te tirando pra dançar, te olhando como se fosse a última garrafa de água no deserto do Saara. E ficou bem claro que vocês estavam juntos quando nenhum de vocês desceu para tomar café. - Ah, Gabbe! Eu não consigo mentir pra você. Realmente ficamos juntos, essa noite, mas foi só isso. Mas não comente com ninguém! Ele fez com que eu me arrependesse.


- Como assim? -

Atitudes

valem

mais

que

mil

palavras,

e

ele

me

decepcionou, nesse quesito. Mas prefiro nem entrar em detalhes. - Vivi, ele parece gostar muito de você. Só te dou um conselho: cuidado com a minha irmã. Ela não é uma má pessoa, mas faz tudo que pode para ter o que quer. E você sabe o que ela quer, não sabe? - Sim, eu sei. Nós acabamos de ensaiar às nove e meia da noite. Estávamos exaustos e famintos, então paramos em uma pizzaria, antes de irmos para o hotel. O Tim ficava me olhando, tentando me examinar, uma vez que eu não estava dando a mínima bola pra ele. A Bia estava muito quieta, perdida em pensamentos. - Nossa, galera! Por que está todo mundo tão quieto? - Deve ser o cansaço. Ensaiamos por muitas horas. – disse Gabbe. - Pois vamos nos animando, senão amanhã vamos acabar tocando a Marcha Fúnebre. - Credo, Cadú! Da onde você tira essas coisas? – eu disse. - Quando estou de barriga cheia, minha imaginação fica bem fértil. – ele disse, com a boca cheia. Pelas minhas contas, ele


P á g i n a | 248

já tinha comido nove pedaços de pizza. - Nossa, você é um saco sem fundo! Parece que andou do Ceará até Curitiba a pé, fala sério! – disse Tim. Todo mundo riu do comentário, menos eu, claro. Quando chegamos ao hotel, eu me despedi de todos e fui para o meu quarto. Tomei uma banho e me joguei na cama. Fiquei um tempo pensando em tudo pelo qual eu havia passado desde que cheguei aos EUA, como o meu romance com o Brian, o acidente do Ric, a traição do Brian, a entrada do Gabbe na banda, a revolta do Cadú, meus sentimentos pelo Tim. Nossa, em tão pouco tempo, tanta coisa havia mudado... e lembrei do Sr. Superbonder e me dei conta de que ele não havia mais aparecido desde quando ele também se tornou o Ciclope. Fechei os olhos e tentei dormir, quase rezando para que ele aparecesse no meu sonho. “Can’t stay at home, can’t stay at school, old folks say...” Porcaria de celular! Tinha que tocar justo agora? - Alô! - Oi, gatinha! - Oi! – respondi secamente. - Que tal se hoje você passasse a noite comigo aqui no meu quarto? - Não, Tim. Vou passar a noite aqui, mesmo. Eu estou muito cansada, só quero ficar quietinha. – E sonhar com o Superbonder. Aquele sim é o único que me quer de verdade.


- Ok! Pode ficar quietinha, então. Boa noite! - Boa noite! – e então desligamos. Eu fechei meus olhos e peguei no sono. Eu estava com os olhos colados, então percebi que minhas preces foram atendidas. Então ele começou a rir. - Qual a graça? - Você é uma figura, Vivi! Em um dia, se derrete toda por mim. No outro, me expulsa do seu sono. E agora fica me chamando de volta! Dá para se decidir? - Mulheres são inconstantes por natureza! Você deveria saber disso! - Vivi, não use as outras mulheres do mundo como desculpa para essa sua característica. Até que acho isso engraçadinho, sabia? Tóc, tóc, tóc! - Tóc o que? – perguntei confusa. - Tóc, tóc! – ele respondeu, e então acordei. Alguém estava realmente batendo na porta do meu quarto. Levantei com toda preguiça do mundo, e abri. Era o Tim, e ele só estava usando uma samba canção. - Tim, eu não disse que queria ficar quietinha? - Sim. E eu vou te deixar quietinha, mas o que te impede de ficar quietinha em meus braços? - Não sei se estou no clima.


P á g i n a | 250

- No clima de que? Eu não vou tentar nada demais. Só quero dormir abraçadinho com você. – e toda raiva que eu estava sentindo se dissipou. - Está bem. - Até vim de samba canção, viu? Só uso isso para dormir, mesmo. – eu olhei e vi que a samba canção dele era decorada por várias notas musicais. Achei adorável. Aquela noite eu dormi aninhada nos braços do Tim, e o Sr. Superbonder/Ciclope não deve ter gostado muito, pois ele não tornou a aparecer. Na manhã seguinte nós acordamos cedo. Ele voltou para seu quarto para tomar banho, e eu me arrumei e desci, antes dele. Eu desci para tomar café e encontrei somente a Bia. Eu a cumprimentei, peguei as mesmas coisas que eu sempre pegava, para comer, e tomei minhas vitaminas. Então ela disse: - Vivi, preciso te contar uma coisa. - Pode falar! - Ontem à noite eu falei com o Brian. Ele disse que você não entendeu nada do que aconteceu, que a mídia tinha aumentado as coisas e que ele precisa falar urgentemente com você, para se explicar. - Bia, eu já não deixei bem claro que não quero nem ouvir falar do nome do Brian? - Sim. Mas eu ignorei, porque acho que vocês formam um


casal lindo! Vocês dois são perfeitos, juntos. E nenhum outro cara combina tanto com você quanto o Brian. – ela disse, sinicamente. Meu sangue subiu tão rápido que tive a impressão de estar com os olhos vermelhos. - Escute aqui, Bia! Você lembra de quando te contratamos e eu disse que da minha parte você só precisaria aprender algumas regras? Lembra da regra número 01? - Aquela sobre estar sempre com uma mala pronta, para eventualidades. – ela disse, tentando entender aonde eu queria chegar. - Isso mesmo. Pois bem, acho que já passou da hora de te explicar sobre a regra número 02: Nunca fique no meu caminho, senão passo por cima de você. – ela fingiu uma cara de surpresa, e disse: - Não entendi, Vivi! - Bia, essa sua máscara de garota sonsa não cola mais comigo. Sei muito bem o que você quer, e já te aviso que não vai rolar. Eu não quero o Brian, e você sabe disso. Não tente manipular a minha vida, você vai acabar se dando mal. Eu posso ser boa, posso parecer frágil. Mas a verdade é que sou uma leoa, e você não passa de um antílope. Você vai querer ficar na minha frente? Já aviso que vou te abocanhar! – e então o Cadú apareceu, passando a mão na barriga como se estivesse cheio de fome. Eu estava quase terminando de comer quando o Tim chegou.


P á g i n a | 252

- Bom dia! – ele disse, todo animado. Todo mundo respondeu, e então ele me olhou. Eu retribuí seu olhar com um sorriso, e a Bia ficou com o rosto roxo de raiva. - Você dormiu com o periquito verde, Tim? Não para de sorrir. – perguntou Cadú. - Periquito verde? Talvez algo parecido. – disse Gabbe, e o Tim olhou para ele, surpreso. Eles acabaram rindo, já que homens adoram essas piadinhas bobas de duplo sentido. O dia passou rapidamente. Eu estava no camarim, vestindo minha calça de couro preta e meu top preto, também de couro, quando alguém bate à minha porta. Era o Cadú. - Oi, Cadú! Aconteceu alguma coisa? - Não, eu só estava pensando no Ric. É o primeiro show que fazemos sem ele. Não me leve a mal, eu até que gosto do Gabriel, ele é um cara bacana. Mas o Ric formou a banda, ele escalou cada um de nós e é nosso brother. É muito estranho tocar sem ele. – ele disse, com tristeza no olhar. - Ei, olhe pra mim: o Ric vai voltar para a banda, ele só este precisando de um tempo para entender como se virar em suas atuais condições. Ele pode não andar mais, mas ele vai descobrir que é capaz de continuar fazendo muitas das coisas que tanto ama. - E como você sabe disso? Como você tem tanta certeza de que ele vai voltar?


- É simples, Cadú: eu tenho fé, e minha fé é das grandes. – então ele sorriu, e me deu um abraço bem apertado. Eu estava quase pronta, quando o Tim entrou em meu camarim. - Só queria desejar boa sorte. – ele disse, antes de me dar um beijo apaixonado. Eu tinha até esquecido o que eu estava fazendo

ali,

quando

ele

me

soltou.

Ele

passou

carinhosamente uma mão pelo meu rosto, e disse: - Arrase como sempre faz. – e então ele saiu. Nós subimos no palco e cantamos “Hey, menina”. O povo foi á loucura, e então começamos a tocar Walking After You, mas eu estava longe do microfone, e como não tinha ninguém perto, percebemos que a platéia ficou apreensiva. Mas então o Tim começou a cantar, com seu microfone portátil,

ainda

tocando

sua

bateria.

Nós

tínhamos

apresentado o Gabbe como novo guitarrista, mas não havíamos nos pronunciado sobre quem assumiria o vocal no lugar do Ric, de forma que quando o público percebeu que era o Tim quem estava cantando, a euforia dos fãs foi tão grande que sentimos literalmente a terra tremer. Foi uma reação tão bonita que acabamos ficando emocionados. O Tim até soltou uma risadinha, não conseguindo conter sua emoção. E quando a música acabou, eu fui até o microfone e disse: - Galera, enquanto o Ric se recupera, eu gostaria de


P á g i n a | 254

apresentar nosso novo vocalista: o incrível Tim! -e foram gritos, aplausos e pulos, por parte da platéia. Eu comecei a cantar It is a man’s world, e o ritmo foi tão empolgante, eu dei tantos gritos propositalmente roucos e sexys, que o público ficou encantado. Então eu fui até o Tim e passei as mãos em seus cabelos, e rodopiei, em uma determinada parte da música. O Tim sorriu e a platéia vibrou, e quando a música acabou, ouvi os tradicionais gritos dos fãs, como “Vivi, sua gostosa! Eu te amo”, ou “Vivi, casa comigo?”, e coisas desse tipo. E então chegou a vez do “Dueto dos ossos”, e o Tim desceu da bateria e disse: - Galera, vocês vão me desculpar, mas essa música vai ter que ficar sem bateria. Afinal, não existe como eu cantar um dueto com a garota mais linda do mundo estando a metros de distância dela, não é? Bom, vamos lá! – eu estava mais vermelha que nunca, e para me distrair, me foquei na Lua. O Tim começou a cantar sua parte de olhos fechados, mas então ele os abriu e os focou diretamente em mim, e então era a minha vez. Eu não conseguia desfocar meus olhos dos dele, e quando chegou o refrão e começamos a cantar juntos, eu senti vários arrepios percorrendo o meu corpo.A música acabou, mas nós continuamos nos olhando, assim como fizemos na primeira vez que ensaiamos. E foi a maior das surpresas quando ele me puxou para ele e me deu o maior beijo em cima do palco, na frente de todos. Meus ouvidos começaram a zumbir e meu coração foi à boca, e quando


nossos lábios se separaram, mal pude ouvi-lo dizendo no microfone: - Chupa, Brian Levicce! Quando saímos do palco, o Cadú nos interceptou. - É séria essa coisa que está rolando entre vocês? – e eu e o Tim nos entreolhamos, até ele responder: - É, sim. Você faz alguma objeção? - Claro que não, cara! Cansei de te ver olhando para ela como um cachorro querendo um biscoito. Eu estava terminando de me trocar, quando a Bia entrou no camarim. - Parabéns pelo lance com o Tim. Eu queria que soubesse que eu não tive nenhuma intenção de ficar no seu caminho. De verdade. – e eu olhei para ela e estranhei por ver sua feição tão calma. Mas então ela voltou a dizer: - Mas sabe de uma coisa? Eu não sou nenhum antílope. Na verdade, acho que sou mais parecida com um tubarão. Engraçado, você já parou para imaginar como seria uma luta entre um leão e um tubarão? Tá aí uma coisa estimulante para se pensar. E quanto a estar no seu caminho, acho que você se confundiu. Eu o queria antes de você, então quem está no meu caminho é você. – e então ela se foi, me deixando com a certeza de que eu teria que falar urgentemente com os meninos sobre mandar essa cobra insolente para o olho da rua.


P á g i n a | 256

Assim que chegamos no hotel, liguei para o Cadú e para o Tim e pedi que eles fossem ao meu quarto, pois eu precisava ter uma conversa séria com eles. Alguns minutos mais tarde, os dois chegaram e eu comecei a reunião. - Bom, meninos, eu ando com um problema sério e preciso compartilhar com vocês. - Pode falar, Vivi! – disse Cadú. Eu olhei para o rosto dos dois e tentei uma forma de contar meus problemas com a Bia, sem os dois acharem que eu tinha virado uma daquelas mulheres super ciumentas e encrenqueiras. - Bem, eu e a Bia andamos tendo alguns problemas. Ela fala comigo com desdém e vive questionando as coisas que eu digo. – eu disse, propositalmente escondendo a última conversa que tivemos, para que eles não me interpretassem erroneamente. - Continue! – o Cadú pediu. Eu pensei no que mais eu poderia dizer. - Bem, ela fica me encarando, e disse algumas coisas pra mim que eu não quero e nem vou repetir. Simplesmente não gostei. - E o objetivo dessa reunião é qual? Por acaso você está pensando em demiti-la? – perguntou Tim. - Bem... sim, é isso mesmo.- eu disse. Os dois se entreolharam e ficaram em silêncio por alguns minutos. Então o Cadú disse:


- Mas Vivi, será que esse comportamento que você alega que ela está tendo não é uma impressão que você criou? - Não, não é! 1. - Com todo respeito, Vivi, mas a Bia é uma excelente assistente. Ela faz de tudo por nós e não acho que ela mereça ser demitida por olhar torto para você. Duas mulheres juntas sempre acabam se bicando, isso é normal, mas daí a chegar a demiti-la, penso que isso é um baita de um extremismo. – defendeu-a Tim, e eu fiquei com vontade de socá-lo, por isso. - Eu concordo com o Tim, Vivi! Acho que vocês duas devem conversar. – disse Cadú. Eu não estava acreditando que aquela lacraia havia feito a cabeça dos dois. Ela é uma víbora, isso sim. – Você não vai ficar chateada, não é? - Não. Bom, a reunião acabou, podem voltar para os seus respectivos quartos. - Ok! Boa noite, Vivi! – disse Cadú, antes de sair. O Tim continuou sentado, olhando para mim. - Eu disse que você já poderia voltar para o seu quarto. - Disse, mas eu não quero voltar. - Mas você vai. Boa noite, Tim! - Ah, Vivi, depois de um dia lindo como o que tivemos, você não pode...


P á g i n a | 258

- Eu disse boa noite, Tim! – e ele saiu, batendo com força a porta atrás dele. Eu passei um bom tempo pensando qual seria a melhor saída para eu desmoralizar a Bia, e acabei me dando conta de que eu não deveria temê-la. Eu tenho uma carreira que está sendo consagrada, eu tenho muito dinheiro, e tudo que ela tinha foi construído na barra da calça do pai. E eu ainda tinha o que ela mais queria: o Tim. Percebi que se eu continuasse com raiva dele, ela estaria à minha frente, pois isso era o que ela mais queria. Coloquei um vestido e fui até o quarto do Tim. Bati. Alguns segundos depois, ele atendeu. Aparentemente ele tinha acabado de sair do banho, pois ele estava apenas de toalha. Quando ele me viu, seus olhos se arregalaram. Notei que ele estava quase em pânico, então eu disse: - Ei, eu disse que era para você ir para o seu quarto, mas eu não disse que você passaria a noite sozinho. – eu disse, tentando animá-lo. Mas ele ficou ainda mais branco do que estava. Que diabos está acontecendo aqui? - Vivi, essa não é a melhor hora. Pode voltar para o seu quarto que eu vou em seguida, ok? – ele sugeriu, quase implorando. Não, tem alguma coisa errada acontecendo mesmo, e não é coisa da minha imaginação. Eu tentei entrar no quarto dele, mas ele me prensou contra a porta. - Não, Vivi! Você vai ter a ideia errada. Não é nada... – mas eu o empurrei com toda força que eu tinha e descobri o que o


estava apavorando. Ela estava sentada na cama dele. No quarto dele. E ele estava seminu. Só. De. Cueca. Então eu entendi o porque de ele resistir tanto quanto a ideia de demiti-la, e eu me senti tonta. Ele estava brincando comigo o tempo todo. Ele me usou. Eu olhei para ele, e ele abriu a boca para tentar dizer mais uma de suas mentiras, mas eu não hesitei nem um segundo. Meu punho acertou perfeitamente o seu olho direito. Eu fui para o meu quarto, arrumei minhas coisas e fiz check out no hotel. Chamei um taxi e me hospedei em um hotel que ficava do outro lado da cidade. Deixei bem claro na recepção que se alguém perguntasse se eu estava lá, elas deveriam negar até a morte. Eu liguei para a Rita e disse que eu havia tido uns problemas pessoais, mas que ela poderia ficar despreocupada, pois eu iria para o Arizona a tempo de fazer o show. Ela começou a me bombardear de perguntas, inclusive sobre o beijo que o Tim me deu durante o show, mas eu disse que foi encenação e me esquivei das outras perguntas, antes de desligar o celular. E lá estava eu, sozinha, trancada em um quarto desconhecido. Fiquei me perguntando o que mais poderia acontecer de ruim. Parecia que a vida estava me testando de todas as formas, ou então cobrando um preço alto por todas bênçãos que eu tinha recebido. Se o preço do sucesso é esse, prefiro voltar a ter minha vida normal. Pensei em ligar para a minha mãe e desabafar com ela, mas percebi que só a deixaria mais preocupada, e eu não queria que ela


P á g i n a | 260

ficasse triste por mim. Além do mais, eu não poderia regredir, eu deveria agir como uma adulta, e adultos passam por quedas como as que eu estava levando, mas devem sempre se recompor e tornar a se erguer. E seria exatamente isso que eu faria. Eu não vou deixar eles me derrubarem. Talvez o Tim tenha se envolvido comigo apenas para me magoar, e fazer com que eu abandonasse a banda, já que aparentemente ele nunca foi muito com a minha cara. Ou talvez ele estivesse querendo ocupar o vocal principal. Bem, seja qual for o motivo, eles não vão vencer. Aquela noite eu passei em claro, mas no dia seguinte eu estava bem melhor. Eu percebi que era muito mais forte do que eu imaginava, e isso surpreenderia não apenas a mim, mas também aos meus adversários. Imediatamente eu levantei, coloquei um dos meus vestidos favoritos, sandália de salto alto, joguei meu cabelo para trás, peguei minha bolsa e fui até o restaurante Uchiko. Finalmente eu iria até um restaurante comandado por um dos ex participantes do programa Top Chef, e minha estreia seria em alto nível: o restaurante era comandado pelo chefe Paul Qui, o vencedor da

nona

temporada.

O

restaurante

é

de

comida

contemporânea japonesa, e os pratos são decorados com primor. Eu havia acabado de pedir um Hama Chili quando notei quem estava sentado em uma mesa próxima a minha: o escritor e produtor de televisão Ralph Melbourn. Quando um casal de namorados me reconheceu e pediram autógrafos, o Ralph virou a cabeça em minha direção. Eu quase pulei da


cadeira quando ele sorriu e fez um gesto com a mĂŁo, me convidando a me juntar a ele.


P á g i n a | 262

14 – DANÇANDO COMIGO MESMA

“Quando não tem mais ninguém à vista, na solitária noite cheia de pessoas. Bem, eu esperei tanto tempo por minha vibração de amor. E estou dançando comigo mesmo.” Dancing With Myself - Billy Idol

O Ralph é um dos escritores mais privilegiados. Seus programas são sempre excêntricos, e não há sequer um deles que eu não tenha assistido do primeiro ao último episódio. Quando ele disse que era fã da Rock & Pie, me senti tão emocionada quanto uma pessoa que recebe o maior dos prêmios de reconhecimento. Nós conversamos sobre várias coisas, desde costumes brasileiros até novos projetos profissionais. Nós almoçamos e passamos uma tarde bem divertida. Por fim, ele disse que estava escrevendo uma série nova que retrata o cair da noite como um portal para a entrada de mágica em nosso mundo. A série retrata várias criaturas da noite, e ele disse que precisava de uma trilha sonora que fosse taciturna, mas que fosse ao mesmo tempo doce. Ele sempre disse que me encontrar parecia coisa do destino, pois eu tinha a voz perfeita para interpretar a música que ele havia escrito. Ele pediu para o garçom uma folha de papel e uma caneta e escreveu a letra da música. Então ele cantarolou a melodia


e pediu para eu interpretá-la. Eu olhei ao redor e enrubesci, mas ele nem se abalou. Ele gesticulou em forma de encorajamento, e então eu cantei, baixinho. A música era totalmente a minha cara, e eu fiquei extremamente emocionada por estar interpretando uma música para ninguém mais que Sr. Melbourne, o criador genial das melhores séries que já assisti. Quando terminei o último verso, ele sacudiu a cabeça. Eu confesso que me senti um lixo, pois ele sacudiu a cabeça de forma tão segura que eu pensei que ele tivesse odiado. E ele finalmente disse: - Vivi, você toparia interpretar a música de abertura da minha nova série “Sombras do passado”? – seria possível que eu estivesse sonhando? Mas então pensei na banda, e me senti como se estivesse deixando-os para trás. - Não precisa ficar preocupada, nem se sentir culpada. Você é capaz de conciliar a banda com uma carreira solo. Tenho certeza disso! – ele disse, e quando pensei na R&P e lembrei do Tim, eu também tive essa mesma certeza. Eu só me importei com o que o Cadú iria pensar, mas resolvi acreditar que ele ficaria feliz por mim. Eu combinei com o Ralph que gravaríamos a música assim que encerrássemos nossa turnê, na cidade de Nova York. Só de pensar que teríamos que fazer um show no mesmo local onde aquele louco atirou no Ric, meu peito apertou. Quando eu cheguei ao hotel, eu cochilei por algumas horas antes de arrumar minhas malas e pegar um voo


P á g i n a | 264

para o Phoenix, no Arizona, onde faríamos o segundo show da nossa turnê. Eu sabia em qual hotel eles estariam hospedados, então propositalmente me hospedei em outro. Assim que cheguei, mandei um sms para a Rita avisando que ela poderia ficar tranquila, pois eu já estava em Phoenix. Decidi mandar o mesmo sms para o Cadú, pois ele deveria estar preocupado. Não demorou nem um minuto para ele me ligar de volta. - Fala, Cadú! - Será que dá para você me explicar o que está acontecendo com você? Onde você está? – ele disse, praticamente gritando. - O que está acontecendo, Vivi? – O Tim não prestou nem para explicar o que aconteceu, pelo jeito! Aquele filho de uma mãe! Eu pensei em contar, mas queria evitar qualquer desentendimento entre os dois porque estávamos no meio de uma turnê e isso poderia prejudicar nossa banda. - Eu tive que resolver alguns problemas, Cadú! Depois conversamos melhor. - Quais problemas, Vivi? Você nunca escondeu nada de nós. O que aconteceu? - Todo mundo tem segredos, Cadú, inclusive eu. Sinto muito, mas prefiro não envolvê-lo nisso. - Não estou gostando disso, Vivi, mas vou respeitar sua privacidade. Bem, nossa passagem de som é amanhã às


onze horas. Te espero lá! - Ok! Obrigada, Cadú! Te adoro! - Eu também! Tchau! – e desligou. Na manhã seguinte, eu acordei as oito e meia e fiquei enrolando um tempo na cama, pensando sobre o quanto seria sacrificante ter que encontrar o Tim e a Bia sem poder dar um murro na cara daqueles dois mau caráter. “Hello daddy, hello mom, i’m your ch-ch-ch-ch-ch-ch cherry bomb...”. - Alô! - Olá! Por acaso estou falando com Vivianne Santinni? – Ué, de quem é essa voz? - Quem está falando? - Aqui quem fala é Kevin Jackson, gerente de propaganda e marketing da “ShiningHair”. - Ah, olá, Kevin! Eu sou a Vivianne, sim. - É um prazer conversar com você, Vivianne! Eu gostaria de marcar uma reunião com você. Nós estamos muito interessados em contratá-la como nossa nova garota propaganda. - Garota propaganda? E qual o cachê que vocês pensaram em me oferecer? - Bem, nós estamos abertos a discussão, mas a princípio estamos oferecendo cinco milhões de dólares. – e eu quase caí pra trás.


P á g i n a | 266

- Para quando vocês querem marcar essa reunião? - Para amanhã. Eu sei que vocês da Rock& Pie estão em Phoenix, e eu estou disposto a encontra-la aí. Qual o melhor horário para você? – Uau! Cinco milhões de oferta inicial, e ele ainda viajaria até aqui para me encontrar? - Às duas da tarde. Pode ser? - Claro! Minha agenda está à disposição da sua. - Só mais uma coisa: vocês terão que melhorar esse preço. Melhorar muito! – eu disse antes de desligar. Está mais do que na hora de eu começar a pensar em mim como Vivianne, e não apenas como mais uma integrante da Rock& Pie.

Eles estavam a poucos metros de distância. Quando me viram, o Cadú veio em minha direção, com os braços estendidos, pronto para me dar um abraço. O Tim olhou para os pés e coçou a nuca, e a Bia deu um sorriso satisfeito. Aquela cobra! - Oi, Vivi! Como que você me deixa sozinho com esse bocó do Tim? – ele disse, brincando. - Se eu disser que senti sua falta você me perdoa? – e dei uma piscadinha para ele. Ele sorriu. - Claro que sim, né? Sempre. – e eu lembrei dos meus novos compromissos profissionais. Senti remorso. - Cadú, eu precisava falar com você, mais tarde. Antes do


show você teria um tempinho para mim? - Sim, só que agora fiquei curioso. – eu olhei para o Tim e para a Bia, que estavam tão próximos de mim, e disse: - Mais tarde te conto. – e ele assentiu com a cabeça. Foi ele se afastar um pouco para o Tim se aproximar. - Viv... - Cara, se você disser mais meia palavra que seja, eu quebro sua cara! Não fale comigo, não me olhe e não toque no meu nome. – e fui em direção ao Gabbe. - Poxa, Vivi! Sentimos sua falta. Chegamos a pensar que você abandonaria a turnê. O Tim ficou um caco. - Gabbe, por favor, não toque no nome desse canalha na minha frente. Outra hora te conto o que aconteceu, mas por enquanto, você e o Cadú são as únicas pessoas aqui que me interessam. Nós fizemos a passagem de som, cada um voltou para o seu hotel e então o Cadú me ligou. Eu acabei conversando com ele por telefone, mesmo. Contei sobre a trilha sonora de “Sombras do Passado”, e sobre a reunião que eu teria no dia seguinte com o Kevin Jackson. Ele ponderou tudo, e finalmente disse: - Vi, você está pensando em sair da banda? – e eu juro que queria muito responder que não, mas fiquei travada. Ele


P á g i n a | 268

percebeu. – Ah, Vi! Por favor, não faça isso conosco. Nós somos uma família! - Cadú, eu não sairei hoje, mas é algo que eu futuramente acabarei fazendo. Acontece que nossa banda não é uma família desde que o Ric saiu. Eu e você somos como irmãos, mas só. - Vivi, o que aconteceu entre você e o Tim? - Cadú, não queira saber. Não quero falar sobre isso, por favor. Mas olha, não se preocupe. Eu não corri atrás de nenhuma

dessas

oportunidades,

elas

simplesmente

apareceram. Eu não irei largar a banda pra ontem, se é o que você está pensando. É algo que eu tenho que pensar para daqui a um tempo. Talvez daqui há anos. - Ah, então tudo bem. Espero que sejam anos, mesmo. Ainda precisamos ganhar muito dinheiro. Mas Vivi, quero que você aproveite cada oportunidade que apareça. Só te desejo o melhor, e tenho certeza de que você jamais faria algo para prejudicar a banda. - Obrigada por ser tão compreensivo, Cadú! Realmente, eu jamais faria nada para prejudicar a banda. - Eu sei! Bom, vamos voltar a nos arrumar que temos um show para fazer. Até! - Até! Nós fizemos o show normalmente, até a hora que o


Gabbe começou a tocar Dueto dos Ossos. Eu tinha me esquecido daquela música, e comecei a ficar enjoada só de pensar em interpretar uma música romântica com o verme do Tim. O Tim começou a cantar sua parte e eu olhei para o público. Tive uma ideia! Deixa eu escolher um homem bem bonito na plateia e lá vamos nós!Eu me aproximei de um homem alto, loiro e de olhos verdes. Ele estava na primeira fileira, então quando começou a minha parte da música, eu cantei olhando para ele. No refrão, onde o Tim e eu cantamos juntos, eu me aproximei ainda mais do bonitão, dei uma piscadinha e sorrisinhos, e quando acabou a música, eu dei um beijo na bochecha dele e agradeci. O bonitão ficou se achando, pois levantou as mãos e ficou apontando para ele mesmo, como se ele fosse “o cara”. No final das contas, eu havia superado mais um problema, e fiquei contente por isso. Após o fim do show, eu voltei para meu camarim e tomei um copo d’agua, quando alguém bateu à minha porta. Se for o desgraçado do Tim, eu juro que jogo esse copo na cabeça dele. O mesmo vale para a lacraia da Bia! E então eu abri, mas não era o Tim, nem a Bia, muito menos qualquer outra pessoa que eu esperasse voltar a encontrar. - Oi, Vivi! Precisamos conversar, e dessa vez você não me escapa. – disse Brian Levicce. Ah, mais essa, agora! Como se eu não tivesse mais nada com que me preocupar. - Eu não quero falar com você! Não me faça chamar os seguranças.


P á g i n a | 270

- Por favor, eu mereço uma chance de me explicar. - Merece uma chance? Ah, essa é boa! Some daqui, Brian. Eu vou contar até cinco e se até lá você não tiver sumido, eu vou expulsar você daqui na marra. - Pois então tire, porque eu não vou arredar o pé daqui. Eu preciso e vou explicar o que aconteceu. – e então ele abriu a porta e fez um sinal para uma terceira pessoa entrar. Uma terceira pessoa alta, de longos cabelos ruivos e olhos da cor de esmeraldas. Alicia Hershel! - Vocês só podem estar de brincadeira! – eu disse, desacreditando da palhaçada que aquela situação estava virando. - Por favor, Vivianne! Ouça o Brian, há dias que ele está super angustiado. Eu nunca o vi tão mal como ele está. – suplicou Alicia, e percebi que aquela situação estava começando a me intrigar. Olhei para os dois por algum tempo e resolvi ouvi-lo ao menos uma última vez. - Vou cronometrar três minutos! Ouviu? Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. – eu disse. - Vivi, as fotos exibidas na mídia não querem dizer nada. Eu e a Alicia realmente namoramos há alguns anos atrás, mas nós terminamos justamente por percebermos que o que tínhamos em comum era apenas uma forte amizade. Nós nunca perdemos contato, e a Alicia namora há quase um ano um empresário do ramo automobilístico, que por sinal, eu que os


apresentei. Ele é um grande amigo meu, e se você quiser falar com ele, ele disse que poderíamos marcar um jantar para que tudo fosse esclarecido. Eu e a Alicia somos amigos, apenas. – ele disse em um tom defensivo. - É verdade, Vivianne! Eu e ele somos muito amigos, tanto que há meses que eu si que ele é louco por você. Foram inúmeras as vezes que eu ia até o apartamento dele e o encontrava assistindo o DVD Rock & Pie Ao Vivo no Maracanã, eu sempre encontrava várias fotos suas no computador dele. Eu até presenciei quando ele indicou sua banda ao Bruce Hudgens, para que ele os convidasse a fazer uma colaboração no show dos EmptyBottles, na Times Square. – Meu Deus! Será que cometi uma injustiça tremenda com o Brian? - Vivi, desde a primeira vez que vi você cantando, eu senti que você era a garota certa, que seria a minha escolhida. Por você eu mudei meus hábitos, você é a primeira pessoa em quem eu penso quando acordo e pra quem desejo boa noite em pensamentos, antes de dormir. – Ai, meus sais! Ele me ama de verdade! E eu estava apaixonada pela pessoa errada.Eu me aproximei dele e peguei suas mãos na minha. - Brian, me desculpe! Eu vi aquelas fotos e... eu... então todos disseram que vocês... Ah, me desculpe! – e ele me abraçou. Olhei para a Alicia e vi que ela parecia feliz. Ele passou uma das mãos pelos meus cabelos e deu um beijo no meu pescoço. Eu me afastei. Ele piscou, surpreso, e então disse:


P á g i n a | 272

- Agora que você sabe a verdade, você vai voltar a ser minha, não é? - A verdade é que agora eu não consigo, Brian. Eu preciso de um tempo. Com todo esse mal entendido, muita coisa aconteceu. Meus sentimentos estão muito confusos. - Eu entendo, Vivi, mas preciso saber de uma coisa. - O que? - Você está namorando o Tim? - Não! Nem pensar. - E o que significou aquele beijo? – O que significou? Significou uma peça que ele me pregou, significou meu coração sendo despedaçado. - Não significou nada! Foi mais uma das peças dele. Não se preocupe com isso. – e pude ver nos olhos dele o quanto aquele beijo o tinha machucado. Então eu percebi que a Alicia estava andando em direção a porta. – Ei, Alicia! Obrigada pela ajuda. E me desculpe por todos xingamentos que proferi a você, ainda que você não tenha conhecimento deles. – ela riu e deu de ombros. - Você é uma boa garota, Vivi! Só não vá machucar meu amigo novamente. Dessa vez eu deixei passar porque sei que você deve ter sofrido ainda mais que ele. Mas na próxima você vai se ver comigo! – ela disse, antes de sair. Então ele deu um passo na minha direção.


- Bom, pelas minhas contas, ainda faltam cinco shows para o final da sua turnê. - Sim, e o próximo é em Washington. - Bem, então é para lá que vamos! - Vamos? Como assim? - Eu tirei umas férias da banda. Vou te acompanhar pela turnê. Afinal, uma rockstar de verdade sempre leva groupies em suas turnês. – ele disse e eu ri. Ele sorriu. – A princípio vou como amigo, prometo! Posso te dar a honra da minha companhia? - Ah, Brian! Você nem imagina o quanto estou precisando de uma boa companhia! Quando estávamos saindo do Camarim, ele disse para irmos até onde ele havia estacionado seu carro, um maravilhoso PaganiHuayra, modelo 2012.Quando passamos pela frente do Camarim dos meninos, eu resolvi apressar o passo, mas a porta abriu e o Cadú saiu. Ele olhou para o Brian e fechou o punho. Segundos antes de ele conseguir golpear o Brian, eu segurei seus braços e disse: - Calma, Cadú! Eu e ele conversamos e tudo não passou de um mal entendido. Até a garota veio até aqui para desmentir o boato. – ele olhou o Brian com suspeita. - Eu juro que jamais faria qualquer coisa para magoar a Vivi!


P á g i n a | 274

Eu sou completamente louco por ela! – e ele disse de uma forma tão natural que o Cadú acabou relaxando. - Só te digo uma coisa: pense três vezes antes de fazer qualquer coisa com ela, se não estiver a fim de usar dentadura pelo resto da vida. Nós chegamos ao estacionamento e, como sempre, haviam diversos paparazzis por lá. Quando me viram com o Brian, eles desataram a perguntar o que tinha acontecido. Então o Brian deu um passo a frente e disse: - É melhor deixarmos claro de uma vez que eu nunca traí a Vivi. Foi por culpa de insinuações maldosas por parte da mídia que a Vivi acabou magoada sem motivo algum. A Alicia namora um dos meus melhores amigos e os dois são pessoas que considero como parte da família, até. Eu não tenho e nem voltarei a ter nenhum relacionamento romântico com ela. A garota que eu quero e que lutarei para ter pela vida toda é a Vivi. E não, ela não está namorando o Tim, foi apenas uma brincadeira de mal gosto da parte dele. - Vocês voltaram a ficar juntos, então? - Ela ainda está um pouco confusa, mas eu vou lutar por ela com todas as minhas forças.

Nós fomos para o hotel no qual eu estava hospedada, e ele se hospedou por lá, também. Após nos despedirmos e irmos cada um para o seu quarto, refleti sobre as ironias da


vida. A pessoa que mais me quer bem é quem eu menos esperava. E quem eu mais queria que me quisesse bem, só quis me derrubar. Lembrei da música “Coração”, que o Fagner canta com o Forróçacana e minha mãe tanto gosta. A letra dizia tudo que eu sentia naquele momento, então abri meu notebook, entrei no Youtube e coloquei aquela música para tocar. Eu me despi e estava prendendo meu cabelo, quando meu celular toca. Era o Tim. Eu taquei o celular na parede e tomei meu banho sossegada. No dia seguinte eu tomei café da manhã com o Brian e enquanto comíamos eu contei para ele sobre meus novos projetos e o convidei a ir comigo até a reunião que eu teria naquela tarde, antes de voarmos para Washington. E ás duas da tarde, em ponto, o Kevin Jackson me encontrou no saguão do hotel. - Olá, Srta. Santinni! É um imenso prazer conhecê-la. Olá, Sr. Levicce! – Kevin disse. - Espero que não se importe de eu tê-lo convidado. É que ele é um amigo próximo e tem mais experiência nesses assuntos do que eu. - De forma alguma, Srta. Santinni. – ele respondeu, e então começamos

a

negociação.

Ele

explicou

que

a

garota

propaganda deveria gravar um comercial de um minuto e meio, além de fazer uma sessão fotográfica. Eu me interessei em representá-los,uma vez que eu realmente achava os


P á g i n a | 276

produtos da ShiningHair de boa qualidade. Quando chegou a hora de negocia o preço, o Brian interviu. - A Vivi terá o maior prazer em aceitar a oferta, mas somente se esse cachê aumentar para oito milhões. – o Kevin considerou a oferta por um tempo, então disse: - Seis milhões e meio! - Oito milhões ou nada feito! – insistiu Brian. Caiu uma gota de suor da testa do Kevin, mas ele disse: - Fechado! Eu li todas as cláusulas contratuais e então assinei o contrato. À noite, nós pegamos um vôo para Chicago e nos hospedamos no Hotel Rouge, que é um dos hotéis mais coloridos, modernos e divertidos que conheci. Eu estava cansada para sair para jantar, então disse ao Brian que comeria no meu quarto, mesmo. Ele pareceu um pouco decepcionado, mas soube entender. Após jantar um creme de cebola, eu peguei no sono, e para meu desespero, senti meus olhos colados. - Oi! – ele disse, e eu queria sair correndo. - Por que você está aqui? Eu não queria te ver. - Relaxa. Eu já estou indo embora. - Então para que veio? -Para ver se você estava bem, é claro.


- Ah, sim, Sr. Preocupação! Eu tinha me esquecido de como você é prestativo! – eu disse em tom de ironia, mas ele já tinha ido embora. Engraçado como ele só aparecia quando eu já não estava mais na pior. É cada uma que me aparece! Na manhã seguinte, eu e o Brian tomamos um café da manhã reforçado. Foram momentos bem animados, uma vez que ele contou sobre várias situações engraçadas pelas quais ele e a banda haviam passado, como o dia que uma fã subiu ao palco e arrancou a roupa, alegando que o Brian era o amor da vida dela e que ele precisava ver que ela tinha o corpo tão bonito quanto o das modelos que ele costumava namorar. Nós rimos bastante, até ele dizer: - O que aconteceu com você, Vivi? - O que você quer dizer, Brian? - Quando você me olhava, seus olhos brilhavam como estrelas. Hoje eu não vejo mais esse brilho. – ele fez uma afirmação, mas entendi que era, na verdade, uma pergunta. - Quando eu assisti aquele programa de fofocas e vi você com a Alicia, eu confesso que boa parte de tudo que eu já havia sentido por você morreu dentro de mim. Agora eu preciso recuperar aquele sentimento, entende? Mas do jeito que você é, e com isso eu quero dizer totalmente incrível, não vai ser uma tarefa muito difícil. – eu disse com toda verdade do meu coração. Ele apenas me olhou, considerando o que eu havia dito, e eu fiquei observando-o. Lembrei da primeira vez que o


P á g i n a | 278

vi, no restaurante do Four Seasons, quando meu coração quase saiu pela boca. Eu havia ficado hipnotizada por sua beleza, e com toda confusão que havia acontecido em minha vida, eu confesso que havia esquecido o quanto ele era atraente. Naquele momento, mesmo, ele usava uma camiseta polo de gola V que alongava seu pescoço vistoso, e reparei novamente naquela veia protuberante que já havia feito eu perder noites e noites de sono. - O que foi? – ele perguntou, e eu me senti ridícula por estar encarando-o. - Nada! - Ah, não venha com essa história de “nada”. Desembucha! - Eu só estava olhando para você. Eu tinha esquecido o quão bonito você é. - E eu tinha esquecido o quanto é bom saber que você pensa assim. – e reparei o quanto eu gostava quando ele sorria com os olhos, como estava fazendo naquele minuto. Naquela tarde eu marquei com o Gabbe e com o Cadú um passeio pelos museus de Washington. Os museus eram mais divertidos e menos antiquados do que eu achava, e o dia passou rapidamente. Assim que a noite caiu, o Brian, que estava nos acompanhando, sugeriu que fossemos ao Ben’s Chili Bowl para provar o cachorro quente mais tradicional da cidade. Nós fomos, e ao chegarmos percebemos que aquele lugar mais parecia com uma balada do que com


uma lanchonete, pois era super lotado e frequentado por pessoas bonitas. Nós estávamos procurando uma mesa para nos acomodarmos, quando vi algo que fez com que a raiva me dominasse: o Tim estava sentado em uma das mesas, olhando o cardápio. Para piorar, o Cadú acenou para ele e o convidou a se juntar a nós. E não é que aquele canalha aceitou? O Brian sentou ao meu lado e passou o braço pelos meus ombros, em um gesto de posse, tendo em vista que o Tim estava sentado bem à nossa frente. Cada um de nós pediu o cachorro quente ao seu gosto, e o Tim, como sempre, pediu o mesmo que eu. Nosso gosto para comida sempre foi bem semelhante. Enquanto o cachorro quente não ficava pronto, todos começamos a comentar sobre um vídeo que tinha virado febre no youtube, de um grupo de comédia que parodiavam os hits do momento, e eles haviam feito uma paródia da música “Hey Menina”, ainda que nem tivéssemos gravado o videoclipe, o que só aconteceria no final de semana que estava por vir. Mas confesso que a paródia ficou bem engraçada, com direito a um cara cheio dos rebolados e com uma peruca de cabelos longos e loiros. O Tim conversava com o Gabbe e com o Cadú, mas estava tendo o bom senso de não puxar assunto comigo nem com o Brian, ainda que ele nos encarasse por vários minutos além do normal. Quando o garçom trouxe nossos lanches, todo mundo começou a


P á g i n a | 280

devorá-los, pois estávamos com muita fome. O Cadú então disse: - Nossa, Brian! Valeu por indicar esse lugar, o cachorro quente realmente é espetacular. - Ah, imagine, cara! Aqui é parada obrigatória para todo mundo que visita Washington. - Não precisa ser nenhum gênio para indicar esse lugar. É tão tradicional que qualquer pessoa da cidade o indicaria. Tanto que, como podem ver, eu o descobri por mim mesmo – disse Tim, desmerecendo a idéia que o Brian teve de ir até lá. - Eu discordo, aposto que existem muitos outros lugares gastronômicos que são tradicionais, por aqui. Ele poderia ter indicado qualquer outro, mas analisou nosso perfil ao indicar aqui. Sabe que gostamos de comida simples. – eu disse. - Nossa, como pode babar tanto ovo pra esse cara. – ele resmungou como se estivesse falando para ele mesmo, mas todos nós ouvimos. - Ei, tenha mais respeito pela Vivi. Pelo que tenho percebido, ela já está farta de você e de seus comentários depreciativos. – se exaltou Brian. - Farta de mim? Não me lembro de ela estar farta de mim nas vezes que eu a beijei, nas noites que passamos juntos, enquanto você estava brincando de amiguinho com aquela


modelo magricela. – ele disse e eu fiquei roxa de vergonha e de ódio. Como ele ousava mencionar as noites que passamos juntos? Olhei para o Brian e ele estava praticamente da mesma cor que eu. - Eu sei que você está louco para causar intrigas entre eu e a Vivi, e se quer saber, eu não me importo com o que aconteceu entre vocês. E sabe por quê? Em primeiro lugar, eu sei que ela ficou arrasada com a história que inventaram sobre Alicia e eu, e seria totalmente compreensível que ela tenha buscado consolo nos braços de alguém, ainda que pensar nisso me mate por dentro. E em segundo, porque se as noites que você diz ter passado junto à Vivi tivessem algum significado, agora ela

estaria

com

você,

e

não

tentando

resgatar

um

relacionamento comigo. – Brian respondeu, enquanto o Gabbe e o Cadú prestavam atenção a tudo que dizíamos, e o Tim ficava mais vermelho que uma tomate. Quanto a mim, eu me senti completamente infeliz, e uma mágoa cresceu dentro do meu peito, e quando estava quase me sufocando, eu disse; - Durante muito tempo eu me perguntei o que fiz para você me odiar tanto a ponto de fazer de tudo para me deixar sempre infeliz, Tim. Mas hoje em dia eu já nem me importo em querer saber, porque seja qual for o motivo, ele perdeu o significado em meio a tantas maldades que você já fez para mim. Se você ainda não percebeu, quantas vezes eu cair será o número de vezes que eu vou me reerguer, e cada uma destas vezes eu estarei mais forte. – eu desabafei, enquanto


P á g i n a | 282

todos me olhavam assustados com a intensidade das minhas palavras. O Tim ficou surpreso com o que eu disse, foi como se ele tivesse levado uma bofetada na cara, e seus olhos se encheram de lágrimas, provavelmente de raiva por ver que eu não estava na pior. Mas mesmo dizendo todas aquelas coisas para ele, eu continuava me sentindo infeliz. - Tim, que tal se você voltasse para o hotel? – sugeriu Cadú, ao ver a profundidade do ressentimento que estava no ar. Então o Tim pegou sua carteira, puxou uma nota de cinquenta dólares, jogou em cima da mesa, limpou a boca com um guardanapo e foi embora. Quando chegamos ao hotel, o Brian voltou para o seu quarto e eu fui para o meu. Em seguida, ele me ligou. - Brian, o que houve? - Vivi, preciso te perguntar uma coisa. É verdade o que o Tim disse sobre você e ele terem tido um caso? – Ai, meu Deus! O que eu digo? - Não sei se pode ser chamado de caso, já que durou uns três ou quatro dias. Mas sim, eu e ele ...é... se é que me entende. – o silêncio predominou por quase um minuto. - E vocês chegaram a ...é... vocês chegaram aos finalmente? – Eu não respondi, e esse silêncio confirmou a pergunta. – E-ee como foi? Como você estava se sentindo em relação ao que aconteceu? – ele perguntou gaguejando de nervoso.


- Não entendi a sua pergunta. Você está querendo saber se foi bom, é isso? - Sim. Isso e... e se você chegou a ter sentimentos mais profundos por ele. – O que eu digo? - Sim, foi bom. E eu cheguei a achar que estava apaixonada, mas eu estava enganada. - Ok, acho que já ouvi o suficiente por hoje. - Brian, você vai desistir de mim? - Vivi, nem que você me pedisse isso. Eu nunca vou desistir de você! Nunca! – e então ele desligou.

15 – NADA MAIS IMPORTA


P á g i n a | 284

“Nunca me importei com o que eles dizem. Nunca me importei com os jogos que eles jogam. Nunca me importei com o que eles fazem. Nunca me importei com o que eles sabem.” Nothing Else Matters Metallica

No dia seguinte, o dia pareceu voar. Quando eu menos esperei, já estava no palco, cantando, dançando e evitando olhar para o Tim no dueto constrangedor. O Brian ficou o tempo todo nos bastidores, me apoiando. A Bia também estava o tempo todo nos bastidores, me olhando com um ar de superioridade que me fazia querer arrancar cada fio de cabelo daquela cabeleira sem graça. Quando saímos do palco, ela se jogou nos braços do Tim para cumprimentá-lo pelo sucesso do show. Eu juro que passou pela minha cabeça pegar o extintor que estava atrás de mim e jogar naqueles dois ridículos. Após o show, nós demos uma entrevista para um jornal local, agradecemos aos fãs por terem comparecido ao show, e voltamos para o hotel. Os dias passaram rapidamente, e já tínhamos feito um show em Dakota do Sul e no Mississipi, quando chegou o dia de eu fazer as fotos para a ShiningHair. Nós voamos para a Florida, onde faríamos o próximo show e onde eu faria a sessão fotográfica e gravaria o comercial.

O Brian me

acompanhou até a mansão “Olivetti”, em Orlando,e lá tinha uma piscina olímpica maravilhosa que seria o palco do meu comercial. O dia estava tão quente que nem me importei


quando me disseram que eu usaria um biquíni preto como vestimenta. Como eu estaria na piscina na maior parte do comercial, o biquíni realmente era a melhor das opções. Fiquei contente quando notei que no final de cada ponta que amarrava meu biquíni, tinha uma caveirinha. Aquilo sim era a minha cara. Eu decorei as falas, gravei minhas falas rapidamente e não tive problema algum durante as filmagens. O diretor disse que eu havia nascido para isso, pois era raro alguém não errar nenhuma tomada. O Brian ficou sentado ao lado do diretor o tempo todo, e mesmo com várias mulheres passeando pelo estúdio e se jogando em cima dele, ele nem sequer percebia, pois só tinha olhos para mim. Após a gravação dos comerciais, fizemos a sessão fotográfica dentro da mansão, mas dessa vez eu usava um vestido vermelho transparente eles frisaram meu cabelo, dando a impressão de ondas, quando eu me movia. No meio da sessão, eles alisaram meu cabelo e ligaram um ventilador que fazia com que meu cabelo ficasse esvoaçante. Confesso que amei aquele dia, amei ser a garota propaganda de uma marca de shampoo. Aquela tarde havia sido extremamente prazerosa. À noite, nós nos hospedamos no mesmo hotel onde os outros estavam hospedados, o The Peabody Orlando. Eu havia decidido que não havia mais motivo de fugir de coisas que não deveriam me importar. Se o Tim e a Bia estavam juntos, era um problema deles, e eu não tinha nada a ver com aquilo. Além do mais, o Brian estava aqui, e isso deveria


P á g i n a | 286

ser o suficiente para me deixar mais que feliz. Eu estava me arrumando para sair para jantar quando o Cadú me liga. - Oie! – eu disse. - Vivi, preciso conversar com você. - Quer vir para o meu quarto? Já estou terminando de me arrumar. - Não, prefiro falar pelo telefone, mesmo, porque sei que você não vai gostar do assunto e temo pela minha saúde física se eu for até aí. - E qual seria esse assunto que me irritaria a ponto de atentar contra sua saúde física? - Calma. Deixa eu contar a história do início. Depois do dia que fomos comer cachorro quente, em Washington, eu estranhei o mal estar que estava rolando entre você e o Tim. Quando eu voltei para o hotel, eu fui até o quarto dele. Eu pedi para ele me contar tudo que estava acontecendo, e após hesitar por um tempo, ele finalmente confessou a verdade. - Ótimo! Agora eu não preciso mais esconder mais nada de você. - Calma, Vivi! Ele me contou tudo o que houve, inclusive o que você acha que aconteceu. - O que eu ACHO que aconteceu? Eu não acho nada. Eu SEI o que eu vi.


- Mas Vivi, ele me disse que tudo não passou de um mal entendido. Ele parecia estar sendo sincero. Deixa eu te contar o que ele me disse, foi assim... - Você acredita nele e não em mim, é isso que você está dizendo, Cadú? - Vivi, eu acredito no que você pensa que viu. Mas a verdade é outra, ele... - Não precisa dizer mais nada, Cadú! Mesmo depois de tudo que ele me fez, você resolveu acreditar nele. Eu estou decepcionada com você! - Se for por essa linha de pensamento, você também achou que o Brian tinha te enganado, mas decidiu ouvir o que ele tinha a dizer e deu uma segunda chance a ele, isso que você o conhece há quanto tempo? Dois meses? Então porque eu não deveria ouvir o meu amigo de anos, hãn? E porque você também não dá a ele a chance de se explicar? - Você não sabe do que está falando, Cadú! Eu só decidi ouvir o Brian porque a própria Alicia foi até mim e disse que eu tinha entendido tudo errado, que ele era louco por mim e que eles não tiveram nada, que tudo não passou de um mal entendido.

eu

disse,

e

o

Cadú

pareceu

levar

em

consideração, pois demorou alguns segundos antes de dizer: - Então me diga uma coisa: se a Bia se explicar dizendo que tudo não passou de um mal entendido, você acreditaria nele?


P á g i n a | 288

-e eu pensei. Pensei. E pensei. Eu realmente duvidava que a Bia dissesse qualquer coisa que pudesse fazer com que eu voltasse com o Tim. E quando ela assumisse a verdade, o Cadú finalmente veria que eu estava com a razão, e entenderia minha aversão por aquele filho da mãe. - Sim, Cadú! Se a Bia viesse me dizer a versão dela, eu levaria em consideração. Mas não prometo que o perdoaria, eu só posso garantir que os ouviria. Aquela noite eu dormi como um anjo, sem interrupção de nenhum homem-cola, nem nenhum peso na consciência. Na manhã seguinte todos acordamos ás cinco horas da manhã, pois deveríamos ir para Miami Beach para gravarmos nosso novo vídeo clipe, então acordei, tomei um banho e me troquei, arrumei as minhas coisas e desci para tomar café. Com exceção do Brian, todos já estavam na mesa, inclusive a vadia da Bia. Eu disse um bom dia geral e liguei no celular do Brian. Ele atendeu e disse que não estava se sentindo bem, e que ficaria aquele dia pelo hotel, mesmo. Eu desejei melhoras e fui em busca do meu suco de laranja com três pedras de gelo e de todas as outras coisas que fazem rotina do meu café da manhã e voltei para a mesa. Estavam todos muito quietos, e o Cadú parecia muito pensativo. Resolvi quebrar o gelo: - E aí, será que os “Coveréticos” já chegaram? Tenho a impressão de que por causa deles, esse será o nosso melhor videoclipe. - Nossa, com certeza! Eles são muito engraçados. Foi uma


excelente idéia, Cadú, mudar o conceito do videoclipe e contratá-los para contracenar conosco. Mas confesso que estou com medo de que a versão cover que eles fizeram da nossa música seja insuperável. – disse Gabbe. - Que nada! Quando foi que você viu o cover e o original em uma mesma música? Nós seremos os pioneiros em parodia a própria música. – eu disse, e todos rimos. O Tim levantou os olhos do seu sanduíche para olhar para mim, e senti uma fisgada no peito. Eu tinha tanta raiva dele que até meu peito doía. A viagem de carro de Orlando até Miami Beach tem quatro horas de duração. Nós fomos de Limusine, e como eu estava com muito sono, fui dormindo no ombro do Gabbe. Quando chegamos até o local da praia onde gravaríamos nosso videoclipe, nossa produção já tinha deixado tudo pronto. Nós ensaiaríamos com o pessoal do Coveréticos (que eram formados por quatro homens), o nosso coreógrafo ZierManckolvitz e o produtor de filmagem Ronny Willard nos auxiliariam quanto ao que eles esperavam que fizéssemos. Nós tivemos um dia inteiro para ensaiarmos, demos uma pausa comermos um lanche e então começamos a gravação do clipe. Como cada um dos Coveréticos já tinha se adaptado a representar cada um de nós da Rock & Pie, eles já tinham estudado nossos trejeitos. O cara de peruca loira se chamava Julio (sim, eles eram brasileiros), e ele estava usando um


P á g i n a | 290

vestido azul marinho igualzinho ao meu. Eu usava meus cabelos meio presos e meio soltos, e nosso cabeleireiro fez o mesmo penteado na perucona dele. A história do videoclipe era a seguinte: estava tendo uma festa na praia e um cara, que era representado por cada um dos componentes da banda

em

diversos

momentos,

avistava

uma

garota,

representada por mim, e ficava pirado por ela. Então eu teria que contracenar com cada um deles. Começou pelo Gabbe, que fez algumas caras de safado que me lembraram do Ric. Eu passava por ele, e então ele me seguia por toda festa, até que eu sumia na multidão. A pegadinha era que ao nosso lado, aconteceria a mesma coisa com nossos covers, e eles fariam caras engraçadas e ficariam parodiando as nossas cenas. Então foi a vez do Cadú. Ele me encontrava sentada com umas garotas (figurantes), e ficava me encarando e dando piscadinhas. Eu olhava para ele, cochichava com as meninas e ríamos dele. Então ele escreveu um bilhetinho e me deu. No bilhete ele perguntava qual era o meu nome, então eu levantava, ia até ele, mas um arrastão de pessoas passava por nós e eu sumia. A cena em que os Coveréticos parodiavam a parte do bilhetinho foi demais. O Cadú cover tinha acabado de assoar o nariz, depois pegou uma caneta e escreveu o bilhetinho em cima das caquinhas. Foi nojento, mas engraçadíssimo, principalmente pela cara que a Vivi cover fez quando abriu o bilhetinho e viu que sua mão estava melada. E então era a vez do Tim. Sem dúvida alguma eu estava tão ansiosa por contracenar com ele quanto eu estava


por raspar meu cabelo careca. Nossa cena seria a seguinte: ele me encontraria dançando, no meio da multidão, e eu estaria dançando de uma forma super sexy. Nós nos olharíamos por alguns instantes, e eu viraria de costas pare ele, ignorando-o, mas ele não se contentaria e me abraçaria por trás. Ele perguntaria no meu ouvido qual era o meu nome, eu viraria meu pescoço para seu outro ouvido e insinuaria sussurrar, mas então o Cadú e o Gabbe me achariam

e

me

puxariam

para

eles,

e

quando

eles

começassem a brigar por mim, eles acordariam, e os três estariam deitados na areia da praia, como se fossem amigos, e eles diriam um ao outro que tiveram um sonho esquisito. Então eu passaria por eles com um shortinho de ginástica e uma regata preta de alçinhas por cima de um biquíni, como se estivesse fazendo uma corrida matinal. Os três se entreolhariam e começariam a correr atrás de mim, e então a cena pularia para os Coveréticos, que acordariam na areia e encontrariam a Vivi cover correndo na areia, com um shortinho de ginástica, uma regata preta e a barrigona de fora, pulando a cada passo que dava. As gravações acabaram às 02:00 da manhã, e apesar de ser bem puxada, foi super divertida. A única parte ruim foi ter que contracenar uma cena romântica com o Tim, ter que olhar nos olhos dele e fingir desejo, ter que sentir ele me abraçar por trás, me acariciando e sussurrando no meu ouvido. Aquela parte foi mais uma sessão de tortura do que


P á g i n a | 292

qualquer outra coisa. Como

estava

muito

tarde

para

pegarmos estrada, resolvemos nos hospedar em um hotel lá perto. Nós chegamos ao hotel e fomos direto para a cama. Pois estávamos extremamente cansados. Eu estava no terceiro sono quando a porta bateu. Eu ignorei e continuei em busca do sono perdido, quando ouço outra batida. Eu estava tão cansada que parecia que estava bêbada de sono, até minha coordenação motora estava afetada, pois no caminho da cama até a porta eu tropecei duas vezes. Nem olhei no olho mágico, pois poderia ser o presidente dos EUA que eu o mandaria embora, alegando que eu estava sem condições físicas para conversar. Eu abri a porta e nem percebi que havia sido prensada na parede até a hora que senti algumas partes do meu corpo começarem a fazer cócegas, devido ao contato físico. - Mas o que que é isso? Vai embora, Tim! Eu não quero te ver fora de ambientes profissionais, e estou com muito sono para discutir qualquer coisa. - Eu sei! Você fica mole quando está com muito sono, por isso que eu estou aqui a esta hora. – e ele se apertou ainda mais contra mim. - Tim, vá embora! Eu estou avisando! - Vivi, eu falei com o Cadú! Eu vou te explicar tudo, você vai ver! Eu não fiz nada, eu juro. Eu nem poderia... você é a única coisa que quero, Vivi! A única que preciso de verdade. E dói ficar sem você. Dói mais ainda saber que você não


acredita em mim, mas acredita em um cara que tem a maior fama de mulherengo. - Ele gosta de mim de verdade. Mais que isso, até! E eu não vou te ouvir, Tim! Eu não acredito mais em você! Você pensa que é quem? O cara mais irresistível do mundo, para eu não conseguir me conter quando estou nos seus braços? Me solte! Agora! - Eu não me sinto irresistível, Vivi! A não ser quando você me olha dessa jeito. - Desse jeito como? Com ódio? Com nojo? - Como se eu fosse o homem mais lindo do mundo. - Não sonha, vai, Tim! O Brian é um zilhão de vezes mais bonito que você! Ele tem aquele pescoço lindo, – e olhei para o pescoço dele, que é tão grosso e longo – aqueles braços musculosos – e olhei para os braços que me prendiam, que eram tão fortes quanto os do Brian, mas de forma natural, sem excesso de malhação. Minha boca ficou seca, e minha voz ficou mais rouca – enfim, ele é todo perfeito. – ele ficou com o olhar sombrio por um tempo, mas então sua feição relaxou e ele disse: - Ah, é? E a boca dele? É tão gostosa quanto a minha? - eu olhei para aqueles lábios cheios e vermelhos e minha visão até ficou turva. – Mãe, socorro! Me tira daqui! Eu bem que queria ser resgatada, mas minha mãe estava a milhares de


P á g i n a | 294

quilômetros de distância, e qualquer outra pessoa que eu conheço e que estava perto de mim estava dormindo, então eu tentei empurrá-lo, mas ele me apertou ainda mais. – E o beijo dele, é tão bom quanto meu? – isso ele disse sussurrando com sua voz rouca no meu ouvido. Eu quase caí, porque perdi o controle das pernas, mas ele me segurou e me carregou até a minha cama e me jogou lá. Eu tentei chutá-lo, estapeá-lo, mas ele era mais forte, parecia saber cada movimento que eu faria e se defendia, sem ser golpeado. Ele engatinhou pela cama até ficar em cima de mim, então ele segurou meu pescoço e mergulhou seus lábios nos meus. Eu empurrei seu peito, o esmurrei com toda força que tinha, mas ele nem se moveu. Então eu fui perdendo as forças e sentindo cada vez mais o gosto dele, sentindo o coração dele pulsar contra o meu peito, senti sua língua dançando contra a minha, e relaxei em seus braços. Ele passou a ponta dos dedos pelo contorno do meu pescoço, e depois usou sua boca para trilhar caminhos pelo meu corpo, me fazendo me sentir febril. Ele voltou a me beijar, mas se encaixou contra o meu corpo de forma que eu sentisse toda sua virilidade. Eu suspirei vagarosamente, e ele levantou minha camiseta e passeou com seus dedos pela minha barriga, subindo para meus seios, e então ele se afastou um pouco para tirar a camiseta, e aquela imagem veio na minha mente de forma implacável, me levando às lágrimas: ele só de toalha em seu quarto com a Bia em cima de sua cama. Eu aproveitei que ele tinha se afastado para empurrá-lo para trás e fugir dele.


- Nunca mais faça isso comigo! Não se aproveite mais do meu cansaço para abusar de mim. Agora vá embora! – eu disse em uma voz tão gélida que nem parecia a minha. Ele demorou uns segundos para se recuperar, mas então se levantou e foi em direção à porta. Antes de sair, porém, ele se virou para me olhar e disse: - Feliz Aniversário, Vivi! – e se foi. Eu não consegui voltar a dormir, só ficava lembrando do seu toque, do seu gosto, do seu beijo. Então bloqueei minha mente. Eu não pensaria mais nele e pronto! Não havia espaço para confusões amorosas em minha vida, naquele momento. Se foque em sua carreira, Vivi! Só na sua carreira! Nada mais importa! Na manhã seguinte, enquanto voltávamos para Orlando, liguei para o Brian para saber se ele tinha melhorado. Ele disse que estava melhor, mas logo desligou o celular. Que estranho, ele nem puxou assunto comigo. Olhei para os meninos,

ao

meu

lado,

e

percebi

que

eles

estavam

estranhamente quietos. E o mais estranho de tudo: com exceção do Tim, ninguém havia se lembrado do meu aniversário. Eu passei a viagem inteira deprimida, com saudades de casa, do abraço gostoso que minha mãe sempre me dava nos meus aniversários. Quando chegamos ao Peabody Orlando, levei minhas coisas para meu quarto e fui até o quarto do Brian, mas ele não estava lá. Eu voltei para o meu quarto, tomei um banho gelado e liguei para o Brian, mas ele não me atendeu. Meu estômago roncou e percebi que


P á g i n a | 296

já era hora do almoço. Liguei para o Gabbe para ver se ele gostaria de me acompanhar até um restaurante, mas ele também não atendeu. Que diabos está acontecendo com todo mundo? Eu decidi que com fome que eu não ficaria, então desci, decidida a ir almoçar em um restaurante que eu já havia ouvido falar que era muito bom e que era perto do hotel, o Miller’s Ale House, mas quando estava próxima a porta do hotel, a recepcionista me chamou. Ela disse que o Cadú havia deixado um recado avisando que ele e os rapazes iam fazer compras e só voltariam a noite. Ótimo! Vou passar meu aniversário sozinha. Perguntei se o Sr. Levicce estava incluso nessa ida às compras, e ela assentiu. Eu não entedia como podia ser, já que assim que chegamos eu fui ao quarto dele e ele já não estava lá. Eu estava perplexa. Todos eles saíram e me deixaram no hotel, completamente sozinha. Que aniversário mais patético! Querendo ou não, o único que se lembrou foi o cachorro do Tim. Imediatamente veio à minha cabeça a sensação do toque dele em minha pele, dos seus lábios nos meus... Minha mente berrava: Não, Vivi! Você não pode desejá-lo. Ele te traiu, não antes de fazer você se apaixonar por ele, para te deixar mais pra baixo que piso de subsolo. Ei, eu disse apaixonar? Eu tinha me apaixonado por ele? Fechei meus olhos e imaginei seu rosto. Seus olhos negros e sua boca perfeita fazem meu coração altar, ainda que eu esteja olhando para ele em pensamento. Droga, Vivianne! Pare de pensar nisso! Você não se apaixonou por ele! Você jamais teria feito uma burrada dessa. E mentir para mim


mesma me conforta mais do que pensei. Eu decidi retomar meus planos sobre almoçar no Miller’sAlleHouse, então saí do hotel pensando em ir atrás de um táxi, mas mal coloquei o pé para fora e já fui engolida por uma saraivada de flashes. Haviam diversos paparazzis, mas o que me impressionou foi a quantidade de fãs que carregavam embrulhos. Eu pisquei algumas vezes, surpresa, e então eles começaram a cantar “HappyBirthdaytoyou”. Meu coração amoleceu instantaneamente e não pude conter minhas lágrimas. Uma menininha que deveria ter no máximo seis anos de idade se aproximou de mim e me entregou um pequeno embrulho. Eu a abracei e agradeci pelo presente, e ela pegou ficou hipnotizada pelos meus cabelos. Ela agarrou uma macha e ficou brincando com ela, até que sua mãe se aproximou e se desculpou. Eu disse que não me importava, então a menina disse com uma voz doce: “Abre o presente, Vivi”.Imediatamente eu rasguei o embrulho e vi um colar de prata com um crucifixo vazio. Eu tinha um desses, até meu último show no Brasil, que havia sido em Copacabana, no Rio de Janeiro, quando eu acabei perdendo no palco. Nunca mais eu havia achado, e acho que meus fãs tinham notado. “Mamãe disse que é pra dar sorte, porque o papai do céu vai ficar perto do seu coração.” Todo mundo que estava presente suspirou

de

emoção.

Aquela

menininha

ruivinha

de

bochechas rosadas era uma coisa de louco. Imediatamente eu coloquei minha mão dentro da minha bolsa e puxei dois


P á g i n a | 298

tickets. Eu olhei para a menina, que tinha uma de suas mãos presas á de sua mãe, agachei e disse: - Sabe de uma coisa? Foi o presente mais legal que ganhei esse ano. Que tal se eu der um presente para você, também? – a menina olhou para sua mãe, como se estivesse pedindo autorização. A mãe assentiu com a cabeça. - Eu adoro presentes, Vivi! – ela disse, colocando um dedinho gordinho na boca. - Bem, que tal se você fosse assistir ao meu show, amanhã? Eu tenho dois ingressos para o camarote. Você gostaria de me assistir, amanhã a noite? – eu disse, preocupada de que a mãe não fosse concordar, mas ela abriu um largo sorriso. - Viu, filha? Você vai assistir o show! - Eu posso mamãe? Você me leva? – ela perguntou, quase pulando de alegria. Quando a mãe confirmou que a levaria, a menina deu vários pulinhos. – Vivi, você é a minha cantora favorita! – e eu percebi que tinha me enganado. Aquele sim tinha sido o melhor presente do dia. Vários fãs se aproximaram e me entregaram diversos presentes. Eu ganhei ursinhos de pelúcia, caixas de bombom, porta jóias, livros e bijuterias. Após tirar várias fotos com cada um dos fãs que foram me cumprimentar, eu comecei a me sentir fraca de fome, então me despedi e fui até o restaurante almoçar. No caminho, porém, eu olhei para meu celular e vi que não tinha nenhuma ligação perdida.


Caramba, nem a minha mãe tinha lembrado, ainda. Decidi colocar o celular no mudo, porque quando estou ansiosa por uma ligação, qualquer som que escuto penso que é meu toque de celular. Mas Cherry Bomb não tinha tocado, naquele dia. Claro, só toca quando não deve, essa porcaria! O restaurante

estava

quase

lotado,

e

imediatamente

me

arrependi de tê-lo escolhido. Eu mal havia me acomodado na mesa quando a garçonete foi até mim e ficou parada, de queixo caído. - Você está bem? – perguntei. - Eu não acredito que estou te vendo. É um sonho se realizando. – ela disse, com lágrimas rolando pelo seu rosto. - Ah, não precisa chorar, moça. Por favor, não chore! – eu quase implorei, pois se vissem não queria que ela chamasse muita atenção para mim. Um casal de namorados que estavam sentados na mesa ao lado ficaram me encarando, e então eu vi que estava perdida. No final da tarde eu estava segurando uma taça de vinho branco que deveria ser a nona ou a décima desde que cheguei ao restaurante, enquanto eu segurava um violão no colo e tocava para dezenas de pessoas. Após eu ter sido reconhecida pelos clientes do restaurante, alguém dedurou que era meu aniversário e todos se aproximaram para me cumprimentar, e após uma conversa e outra ( e uma taça de vinho e outra), acabei fazendo amizade com o casal que se


P á g i n a | 300

sentava ao meu lado, com duas amigas argentinas que estavam em orlando a passeio, um casal de idosos, duas garotas que deveriam ter a minha idade, e três rapazes adolescentes. Eu havia convidado todo mundo para se juntar a mim, e um dos adolescentes me emprestou seu violão, e após todos insistirem para eu cantar, eu peguei seu violão e engatei um showzinho particular. Eu cantei algumas das nossas músicas, mas após algumas garrafas de vinho eu percebi que tinha sofrido um apagão de memória, pois eu não me lembrava do que eu havia feito nos últimos minutos, mas sabia que não tinha dormido, pois voltei à consciência enquanto eu cantarolava La Cucaracha (sim, foi isso mesmo que eu disse. La Cucaracha. Como cheguei a isso, meu Deus?). Sem querer olhei para o relógio da Martina, uma das argentinas, e vi que já eram cinco horas da tarde. Eu tentei me despedir do pessoal, mas eles pediram mais uma garrafa de vinho e pediram para eu tocar mais. Eu toquei Tudo que Vai, do capital Inicial, e a galera adorou. Eles de interessaram pela música e eu disse que era um cover de uma banda que eu amava, então toquei Natasha e o pessoal começou a dançar. O gerente do restaurante tentou ficar bravo com a bagunça. Isso mesmo, ele tentou, mas ele acabava sorrindo a cada música que eu tocava, e percebi que ele devia ser um rockepienático! Quando acabei de tocar Natasha, o casal de idosos me questionaram o significado do nome da banda, e eu decidi contar a história da banda. - Quando a banda começou, ela se chamava Rock & Paz. Os


meninos ensaiavam todos os dias e por tantas horas que ficavam famintos. Eles ensaiavam na garagem do Ric, e ao lado da casa dele tem uma lanchonete, cuja dona é uma senhora mineira chamada Josefina, que é uma cozinheira de mão cheia. Ela faz diversos quitutes, mas o carro chefe da sua lanchonete são suas tortas de frango com requeijão. Como todos os dias os meninos ensaiavam e ficavam com fome, todos os dias eles iam até a lanchonete da dona Josefina e comiam um ou dois pedaços de torta. Certo dia, na lanchonete, os meninos estavam conversando sobre a banda, e o Cadú, que é super criativo, disse que o nome Rock & Pie seria mais a cara da banda do que Rock & Paz, então eles acabaram mudando o nome. Eu contei também que para na acabar com a tradição da torta eu havia aprendido a fazer uma bem similar à da dona Josefina, e que procurava fazer sempre para relembrar os meninos das nossas raízes. Todos acharam a história bem interessante, mas como já estava escurecendo, resolvi aproveitar o gancho para me despedir. Eu pedi a conta, mas ninguém deixou que eu pagasse nada. Eles fizeram uma vaquinha e disseram que aquela tarde seria meu presente de aniversário. Pensando na quantidade de presentes que eu havia ganhado, fiquei até com peso na consciência de ter dito que meu aniversário seria patético. Eu me levantei com minha coordenação motora afetada devido ao excesso de álcool que eu havia consumido e o gerente me ajudou a conseguir um taxi. Ele me deu os parabéns e eu fui embora, em direção ao hotel.


P á g i n a | 302

Eu estava dentro do táxi quando decidi checar meu celular. Carambolas! 23 ligações perdidas! Sete delas eram da minha mãe. Imediatamente retornei a ligação. - Oi, mãe! - Vivianne, onde você se meteu, oras bolas? – ela esbravejou. - calma, mãe! Eu estava comemorando meu aniversário com meus fãs. Ganhei um crucifixo igual ao que o papai me deu quando eu era criança, antes de ele falecer. Lembra que eu o tinha perdido em Copacabana? E depois eu fui almoçar em um restaurante de loucos. Todo mundo era engraçado, e então eu cantei La Cucaracha e... - Vivianne, você bebeu, por acaso? - Ah, mãe... só um pouquinho. Foi de presente, como eu devo negar algumas taças de vinho oferecidas com tanta gentileza? - Filha, quando você entrou na banda, eu deixei bem claro que te apoiaria, desde que não entrasse no mundo de sexo, drogas e rock and roll. A única coisa que permito é o rock androll. Quer dizer, o sexo também, mas em moderação. Não quero saber de você bêbada ou usando drogas, ouviu bem? – minha mãe falava e eu ouvia a voz dela tãããããooo distante. Soltei um soluço bem alto. - Você ouviu o que eu disse? - Ouviiiiii, mããããeee! Ai, que chateação. Eu não uso drogas (com exceção dos calmantes que usei quando o Ric ficou paralítico, pensei) e nem bebo com frequência. Mas hoje é meu aniversário, e mesmo que todos meus amigos tenham


esquecido, meus fãs lembraram, então resolvi comemorar com eles. Isso é tão grave assim? – eu terminei a frase com um arroto dos fortes. - Ai que nojo, Vivi! Como assim seus amigos esqueceram? Ninguém da banda lembrou? – pensei na noite anterior, quando o Tim disse com aqueles lábios carnudos e rosados “Feliz Aniversário, Vivi”. - Só o Tim, mãe! Mas hoje todos eles passaram o dia fora, fazendo compras, então não o vi mais. - Ah, querida! Você passou seu aniversário sozinha? - Não, mãe! Eu não acabei de te dizer que passei com meus fãs? E é só isso que me importa. Meus fãs. Minha carreira. Nada mais. - Sei que está falando isso da boca pra fora, meu moranguinho! A vida é muito mais que isso, e tenho certeza de que você sabe disso. Bem, eu falei, falei, falei e não disse o principal. - O que, mãe? - Parabéns, né, filha? Eu desejo que seus sonhos continuem se realizando e que você continue sendo a filha mais linda, mais responsável e com o maior coração do mundo. Você é a coisa mais importante da minha vida! Quando eu cheguei ao hotel, eu ainda estava com o


P á g i n a | 304

coração apertado de saudades da minha mãe. Ela tinha o dom de me fazer chorar a cada aniversário. Ela é a melhor mãe do mundo! Assim que passei pela porta a gerente do hotel se aproximou e me parabenizou em nome do hotel, dizendo que naquela noite o hotel me presentearia com um jantar grátis para mim e mais um acompanhante. Ela me entregou um ramalhete de flores e aproveitou para dizer que o hotel tinha recebido várias cestas e ramalhetes em meu nome, e que eles tomariam as providências de levar meus presentes ao meu quarto. Eu perguntei sobre os meninos, e ela disse que não os tinha visto. Caramba, que passeio foi esse? Eles foram visitar o que? A muralha da China, para demorarem tanto? Fui para o meu quarto, descalcei minhas sandálias e as joguei longe. Dei uma cambaleadinha até o banheiro, mas antes que eu pudesse me vestir, alguém bate à porta. Finalmente! Espero que eles tenham pique para o jantar.Assim que abri a porta, a decepção me pegou desprevenida. Era um funcionário do hotel guiando um carrinho lotado de cestas, mais bichinhos de pelúcia, mais chocolates e mais flores. Eu agradeci, deu uma gorjeta e entrei, contemplando meus presentes. Fiquei encantada com uma

cesta

de

café

da

tarde

que

tinha

chocolates,

biscoitos,capuccinos solúveis, cream cheese em miniatura, um arranjo de flores, um porquinho cor de rosa de pelúcia entre várias outras guloseimas. Abri o cartão e li: “Que você, estrelinha, brilhe por muitos outros anos de vida, nos alegrando e nos presenteando com seu magnífico dom.


Ansioso por nossa parceria. Ralph Melbourn”. Eu dei o maior sorriso do mundo, quase não acreditando que aquele gênio tivesse lembrado do meu aniversário e que ainda estivesse ansioso pelo trabalho que faremos juntos quando eu interpretarei uma de suas músicas. O maior dos ramalhetes de flores foi enviado pela ShiningHair, e eles mandaram um cartão agradecendo pelo meu impecável trabalho, alegando que planejam outras futuras parcerias comigo. Isso também massageia meu ego. Feliz, eu ligo meu IPod na caixa de som e coloco para tocar a música “Bichos Escrotos”, dos Titãs. Eu me dispo e entro embaixo do chuveiro. Lavo meu cabelo animadamente, ensabôo meu corpo inteiro com um delicioso sabonete líquido com aroma de morangos (em homenagem ao apelido que minha mãe me deu desde criança : moranguinho) e finjo que o chuveirinho é um microfone. Eu danço e remexo, canto e a música acaba, sendo substituída por Love in the Elevator, da banda Aeorsmith, uma das minhas preferidas. Eu saio do banho, ainda cantando e dançando, me enxugo e enrolo a toalha na minha cabeça, enquanto desfilo pelo quarto em busca do vestido perfeito para a ocasião. E não demora muito para meus olhos brilharem de satisfação quando o encontro: meu novo tubinho preto, com um decote generoso e que deixa meu bumbum arrebitado. Eu seco meu cabelo e após seco, o jogo para o lado. Passo rímel, um pouco de blush, lápis preto ao redor dos olhos e arremato com um batom vermelho. Uso uma sandália preta com tiras de couro e salto alto. Ligo para o Brian, mas chama até cair na caixa


P á g i n a | 306

postal. Ligo pára o Cadú. Idem! Ligo para o Gabbe e tudo que penso é: Que merda! Aonde esses garotos foram parar? Saco! Em dúvida quanto ao que fazer naquela noite, eu ligo para o serviço de quarto e peço uma garrafa de champagne em um balde com gelo. Quando chega, eu o abro e brindo comigo

mesma.

Bebo

uma

taça,

enquanto

abro

meu

notebook. Vários sites publicaram fotos minhas tiradas na porta do hotel, e outros postaram vídeos meus cantando no restaurante, inclusive minha versão nada legal de La Cucaracha. A boa notícia é que todos eles elogiaram minha simpatia com os fãs. A menininha ruiva e sua mãe deram uma entrevista, dizendo que eu as havia presenteado com um par de

ingressos. Embaixo da reportagem, vários

fãs

comentaram, me desejando parabéns, ou dizendo que eram meus fãs, ou dizendo que gostariam muito de me conhecer, frisando o quanto a menininha e sua mãe foram sortudas por terem conseguido se aproximar de mim. Eu me senti muito querida, com aquela reportagem. Então ouço uma música familiar. “ Can’t stay at home, can’t stay at school, olds folks say ya poor little fool...”. - Alô! – após alguns segundos de silêncio, uma voz fraca tenta se animar para dizer: - Se não é a minha melhor amiga no mundo todo! – meus olhos automaticamente se encheram de lágrimas e meu peito se aperta de saudades. Meu Deus, é o Ric! - Ric! – eu suspiro.


- Parabéns, minha linda! Te desejo tudo que há de melhor nesse mundo. Você sabe o quanto é especial para mim. – e eu mal acredito que estou falando com ele, após tanto tempo. Desabo a chorar. – Ei, por que está chorando? O que houve? - Ah, Ric! Que saudades, meu irmão! É muita, mesmo, daquelas que sufocam. Poxa, você não poderia ser mais chato para facilitar a situação? – eu brinco e ele ri. - Ah, Vivi! Não há nada que possa facilitar a situação. Eu...hãhãm – ele limpa a garganta – eu também estou com muita saudades! Mais do que você possa imaginar! Mas por que está com essa voz tão triste? - Ah, não estou triste. Não tenho do que reclamar, meu dia foi bom, e agora acabaou de ser promovido a excelente. - Então por que será que não acredito em você? Onde você está? O que está fazendo? - Bem, eu estou no meu quarto, aqui no Peabody Orlando, bebendo uma taça de champagne. - E quem está aí com você? – Oh, oh! Eu estou em perigo! Se eu disser que estou sozinha ele vai sacar tudo e vai me bombardear de perguntas. Eu penso em alguma história que possa ser convincente, mas todas caem por terra, pois jamais consegui mentir para ele. - Eu estou sozinha. Isto é, cheguei agora a pouco, acabei de sair do banho e resolvi tomar uma taça de champagne para


P á g i n a | 308

relaxar. -Desde quando beber sozinha é sinônimo de relaxamento, para você? A última vez que vi você bebendo sozinha foi quando sua amiga Tatiana faleceu. – bem apontado, eu pensei. – Vivi’s, cadê os meninos? - Eu... eu não sei. Quando acordei, pela manhã, eles já tinham saído, e até agora não voltaram. - Você está me dizendo que eles se esqueceram do seu aniversário? Você passou o dia sozinha? - Bem, não necessariamente. Passei com alguns fãs. - O que está acontecendo com esses caras, hãn? É só eu me ausentar para eles começarem a fazer várias burradas. Não pensem que não acompanho vocês por aqui. Se eu voltar, pode ter certeza que... - Se você voltar? Você está cogitando voltar, Ric? Repete, por favor, porque acho que estou sonhando! - Ei, pode ir indo com calma. Eu só disse SE! Não é nenhuma certeza, apenas algo pelo qual estou tentando me preparar. - Ai, como eu sou uma péssima amiga, Ric! Me desculpe! Como você está? A cirurgia correu bem, que eu sei, pelo que conversei com sua mãe, mas e a fisioterapia? - Eu estou bem, na medida do possível. A fisioterapia é pesada. Tem dias que penso que não vou agüentar mais, mas quando tenho uma melhora, sempre me animo e me esforço


ainda mais. Eu estou tendo um bom progresso. Eu não vou voltar a andar, Vivi, mas estou fazendo o possível para ser capaz de levar o resto da minha vida com a maior naturalidade possível. Até sexo eu poderei fazer, acredite ou não! Eu estou treinando com a guitarra. Espero ficar tão bom quanto eu era. - Era, não! Você é ótimo! É só uma questão de adaptação. Quanto ao sexo, nada me deixa mais feliz do que ouvir isso. Sei o quanto é importante para você. - Vivi, preciso desligar! É bom saber que tudo está indo bem, e garanto que vou dar umas porradas nos dois por terem deixado você sozinha bem em seu aniversário! Em breve nos falaremos novamente! Um grande beijo! Tchau! - Tchau, Ric! Volte logo para nós! – ele suspirou e desligou. Eu fiquei tão feliz, mas tão feliz que decidi tomar mais uma taça de champagne. E outra. E então resolvi descer e jantar sozinha, mesmo. - Que se fodam todos eles! A Bia com seu veneno de cascavel, o Gabbe e seu sorriso de pasta de dente, o Cadú e sua puxação de saco pela cobra sucuri e pelo vira latas da vida, o Brian e seus discursos de “eu te quero, eu não vou te deixar nunca”, mas cá estou eu sozinha em meu aniversário e cadê ele?, E principalmente o...

aquele cach.. não, aquele

pulguento... não... aquele... aquele lá chamado Tim! – eu soluço e cambaleio pelo quarto.


P á g i n a | 310

O interfone do quarto toca. - Fala! – eu digo em uma forma mais grosseira do que pretendia. - Me desculpe por atrapalhá-la, senhorita Santinni, mas o hotel tem uma supresa para você. Você poderia fazer a gentileza de descer até a recepção? – Nossa, até o hotel tem outra surpresa para mim, mas meus amigos sabe o que me darão? Neneca de pitibiribas! Ao pensar no sumiço deles, começo a ter uma crise de riso ao estilo da Rita (que por sinal, também não me parabenizou), e percebo que a moça do outro lado da linha está sem graça. Eu tento dizer qualquer coisa, mas só o que sai da minha boca são ruídos indecifráveis misturados à minha risada histérica. Após alguns segundos, consigo finalmente me acalmar e digo: - Sinto muito por isso. Pode deixar que desço em dez minutos, ok? – a moça agradece e desliga. Após deixar minha taça na mesa, ao lado do balde de gelo que contém a garrafa de champagne, eu me olho no espelho e inevitavelmente sinto pena de mim mesma. Eu poderia negar para mim mesma o quanto eu quisesse, mas o fato de ter sido esquecida pelos meninos me magoou mais do que

eu

pensava.

Eu

penteei

meu

cabelo,

jogando-o

novamente de lado, e chamo o elevador. O elevador está vazio e fico feliz por isso. Na verdade, seja qual for a surpresa que o hotel tenha feito para mim, eu espero que seja rápida, pois já perdi a vontade de sair, jantar ou fazer qualquer tipo de


aparição pública. Eu só queria voltar para o meu quarto e me entregar ao sono que estava começando a me consumir. O elevador para no quarto andar e uma mulher de cabelos acobreados e brilhosos entra. Eu continuei com meus pensamentos, quando ela diz: - Olá, Vivi! Teve um bom dia, hoje? – eu a espiei por cima, pois eu sou vários centímetros mais alta que ela, e a reconheço. O que ela fez com seus cabelos sem vida? Na verdade, ela está... ela está... muito bonita! Sinto uma dor no estômago e me curvo um pouco. - Meu dia estava ótimo até agora! - Que bom! O meu também! Eu e o Tim passeamos pela cidade, hoje. Ele até me acompanhou ao salão de beleza, acredita? – e meu estômago dói ainda mais, como se tivesse levado um murro. Me curvo ainda mais. - Que bom para vocês, mas o que vocês fazem ou deixam de fazer não me interessa. – eu digo em uma voz fraca, evitando que as lágrimas que querem fugir de mim rolem pelo meu rosto. - Que bom que você pensa assim. Significa que estamos superando qualquer mal estar entre nós duas. - Você está muito enganada, Beatriz! Eu não quero saber de nada sobre você ou ele fora do âmbito profissional, o que significa que te desprezo, que você não passa de uma mosca


P á g i n a | 312

morta, para mim. Me dar bem com você? Se olha no espelho! Quem é você para merecer qualquer tipo de afeição da minha parte? – seus olhos se apertaram, assim como sua boca. Ela queria responder, mas o elevador tinha acabado de chegar ao térreo, e eu passei por ela, empurrando-a. Eu quase me abracei de felicidade ao perceber que, independentemente do meu estado atual, eu tinha conseguido pensar em uma forma de rebaixá-la ao zero, e só o olhar de raiva que ela me deu fez dessa noite melhor do que eu imaginava. A gerente do hotel se aproximou e disse: - Vivi, você pode me acompanhar? - Desde que você não me leve para uma câmera de gás. – eu brinquei, com meu senso de humor ainda deturpado pela bebida. Ela forçou um sorriso. Ela me guiou através do corredor onde ficava a entrada da sala de reuniões, a entrada da academia, e chegamos a uma porta que eu não conhecia. Notei que o corredor estava mais silencioso do que o normal, e quando ela empurrou a porta e vi um feixe de total escuridão, confesso que passou pela minha cabeça que eles poderiam estar tentando me seqüestrar. Será que há um bando de brutamontes musculosos à espreita, esperando eu entrar no salão para me amarrarem e pedir uma recompensa milionária? Ela abriu totalmente a porta, eu olhei ao redor e não enxerguei nada.


16 – É ISSO QUE VOCÊ GANHA

“Se eu nunca começar a pensar direitos, esse coração vai se rebelar


P á g i n a | 314

em mim. Vamos começar, começar, hey! Por que nós gostamos tanto de nos machucar?”That’s What You Get - Paramore

- Você primeiro, senhorita Santinni. – ela disse enquanto apontava o salão com a mão, me incitando a entrar. Eu engoli em seco e olhei para o corredor, em busca de uma alma viva que pudesse testemunhar como a última pessoa que me viu antes do meu seqüestro. - Algum problema, senhorita Santinni? – ela perguntou, impaciente, e eu me senti ridícula por estar com medo de ser seqüestrada. Ela estava apenas tentando fazer uma gentileza. Ou não? Respirei fundo e tomei coragem de dar um passo adentro. E outro. E então ela fechou a porta atrás de mim. Ai, meu Deus! É aqui que eu vou morrer! Por que não segui meu instinto?Me virei em direção à porta e tentei abri-la, mas a porta já estava trancada. O medo me consumiu e me paralisou, e eu fiquei ali, parada, sentindo alguns poucos pingos molhados descerem para minha calçinha. Não, não, não! Não é possível que eu faça xixi nas calças!Percebi que os pingos que saíram eram apenas precedentes de uma cachoeira que ameaçava jorrar, uma vez que minha bexiga estava cheia de tanto álcool que bebi.Trancei minhas pernas e soltei um gemido de frustração. A irritação começou a superar meu medo.


- Alguém pode me dizer o que está acontecendo aqui? – eu gritei, ainda olhando para a porta. Então uma voz familiar ressoou pelo salão. - Podemos sim. – e então as luzes se acenderam e uma multidão de rostos conhecidos e desconhecidos misturados entre si gritou em uníssono. - Surpresaaaaa! – aqueles filhos de uma égua! Eu permaneci paralisada, tentando processar o acontecido, quando os meninos se aproximaram, rindo. O Brian tomou a frente e me abraçou. Eu ainda estava dura como uma pedra, sem abraçálo de volta e me sentindo nojenta por estar com a calçinha ensopada de xixi. - Parabéns, Vivi. Desculpe por tê-la abandonado o dia todo, mas foi por uma justa causa. Você merecia uma festona. – ele disse, mais empolgado que nunca, antes de me dar um selinho. Eu parecia um dos pilares do hotel, pregada em frente a porta, sem saber o que pensar. Ele se afastou um pouco e me olhou. Ele ia perguntar algo, mas então o Cadú o empurrou para o lado e disse. - Sai que agora é minha vez! Feliz aniversário, Vivi! Você deve ter ficado puta comigo, né? – ele me olhou e seu sorriso exagerado foi diminuindo, ao perceber que eu não expressava nenhuma emoção em meu rosto. – Ei, foi a única forma que achamos para surpreender! - Pois é! E bota surpresa nisso! – eu disse, entre os dentes. O


P á g i n a | 316

Gabbe me puxou para ele, me fazendo tropeçar, e disse: - Parabéns, Vivi! – e ao observar minha reação, ele sussurrou em meu ouvido: - De um a dez, qual seu grau de desconforto, nesse momento? - Dez é um número muito baixo. – eu disse, antes de virar para olhar pelo salão e dar de cara com o Tim. Ele estava com cara de deboche. - Parabéns, novamente. Pela sua reação, vejo que essa festa foi a melhor idéia que o Brian já teve. Afinal, ele te conhece tão bem, né? Sabe que você AMA surpresas. – ele ironizou, enquanto olhava para o Brian. Pude ver que o tom de pele do Brian começou a arroxear, e ele fechou os punhos. Após respirar por alguns segundos, ele relaxou e se aproximou de mim. - Poxa, Vivi! Eu pensei que fosse te agradar. Se eu soubesse que você ia ficar tão chateada, juro que não teria feito nada disso. – e ele disse em um tom tão desgostoso que senti pena por ele. - Ah, me desculpe pela minha reação, Brian! É que eu não sou a pessoa mais fã de surpresas, mas o gesto de vocês conta muito. Obrigada! – eu dei um sorriso amarelo, mas ela suspirou de alívio. - Prometo que você vai gostar, Vivi! Várias pessoas me cumprimentaram, como alguns técnicos de som que eu havia conhecido, o diretor de


filmagens da Chocorocker e o fotógrafo Johnny, todos companheiros

da

banda

do

Brian

(Blue4us),

todos

integrantes da banda EmptyBottle, várias pessoas que conheci em diversos estados por onde nossa turnê passou, e várias pessoas que nunca tinha visto antes, mais gordas ou mais magras. Eu estava conversando com o Euller Mctravis quando as luzes diminuíram e o palco iluminou. Uma banda de rock famosa por seus covers, chamada The Echo, estava no palco, e eles começaram a tocar That’sWhat You Get, da banda Paramore. O clima da festa mudou automaticamente, ficando mais descontraído. O Gabbe se aproximou de mim e disse: - Vivi, preciso falar com você. - Tudo bem, Gabbe, mas primeiro preciso ir ao banheiro para tirar minha calcinha mijada. – eu disse e me afastei, enquanto ele ficou parado no mesmo lugar, rindo sem parar. Alguns minutos depois, eu voltei a encontrar o Gabriel no salão. - Pronto, agora você pode falar. - Calma aí, você realmente fez xixi nas calças? - Você esperava o que? Vocês me trancaram aqui no escuro, eu pensei que estivesse sendo seqüestrada. – e mal terminei de falar e ele se dobrou de tanto rir. - Ah, qual é, Gabriel! Para a palhaçada. O que você queria


P á g i n a | 318

falar? - Ai, Vivi! Espere um pouco! – ele riu mais um pouco, soltou um pouco de ar e voltou a se concentrar. – Pronto! – ele disse, antes de soltar um “Ufa!”. – É sobre a minha irmã. Ela está aprontando algo, tenho certeza! - E por que você diz isso? - Por que meu pai deixou escapar que a Bia andou pedindo alguns favores, mas ele não me contou quais eram. Sem contar que ela anda estranha. E parece psicótica sobre o Tim. Aonde quer que ele vá, ela vai atrás. Não sei como ele não se irritou, ainda. - Ah, ele não se irritou porque ele gosta dela. Só por isso. Ela deve ser muito boa de cama! Aquela... – e parei de falar, ao lembrar que o Gabbe é irmão da jararaca. Ao olhar para o lado, fui pega desprevenida. O Ralph Melbourn estava vindo em minha direção. Nossa, até ele! - Vivi, minha querida! Meus parabéns! Espero que tenha recebido meu presente. - Ralph, que bom te ver! Recebi sim, fiquei muito lisonjeada por você ter se lembrado, e agora estou exultante por você estar aqui. Venha cá, deixe-me te apresentar o Gabriel, nosso guitarrista. Gabbe, esse é Ralph Melbourn. – eu disse, antes de ser envolvida por um choque de corrente elétrica alheia. Os olhares que eles deram um para o outro eram tão palpáveis e óbvios que me senti até constrangida. O Gabbe


estava

petrificado,

olhando

para

o

Ralph

de

jeito

embasbacado. Após alguns segundos, ele sorriu para o Ralph, que ficou de queixo caído por aquele sorriso perfeito. Resolvi deixar os dois a sós. - Ralph, se você me der licença, acabei de encontrar uma amiga que não cumprimentei, ainda. - Claro, fique à vontade. – ele disse, sem desviar os olhos do Gabbe. E eu fui ao encontro da Alicia. - Bela festa, hein, Vivi! - Obrigada por ter vindo, Alicia! - Pelo visto, o Brian está muito feliz. – ela disse, olhando para ele enquanto ele conversava com seus companheiros do Blue4us. - É, parece que sim. - E por que você não está tão feliz quanto ele? - O que? - Ah, você sabe do que estou falando. Vocês dois se acertaram? – eu fiquei surpresa com a pergunta. - Devido às circunstâncias, estamos indo devagar. - Você não gosta dele? – Como assim? Claro que gosto dele. Ele é lindo, ele é companheiro, ele é fiel. Diferentemente do Tim. Olho para ele e o pego olhando para mim. Desvio meu


P á g i n a | 320

olhar. - Como não posso gostar? Ele é perfeito! - Entendo. – ela diz, sem parecer muito convencida. A banda começou

sua

versão

cover

de

Animal,

originalmente

interpretado pela banda Neon Trees. – Ei, vou dar um olá para o Brian, fique a vontade para receber seus convidados. – e então foi na direção dele. Eu olhei para a pista de dança e ela parecia estar me chamando. O ritmo da música Animal sempre me contagiou, e pelo visto fazia o mesmo com o cadú, pois ele se juntou a mim,

e

começamos

intercalando

nossos

a

nos

movimentos

sacudir

freneticamente,

esquisitos

com

vários

pulinhos. Quando a música acabou, o vocalista disse: - Boa noite, galera! É um prazer imenso para nós da banda The Echo podermos tocar na festa de comemoração do aniversário de uma das nossas rockstars favoritas. Vivianne, somos todos seus fãs. Sabemos que hoje é seu dia e que nós que deveríamos te dar presentes, e não o contrário, mas como essa é uma oportunidade de ouro, será que você poderia se juntar a nós em um cover? – ele pediu com tanta ansiedade que eu nem cogitei negar seu pedido. Eu subi ao palco e eles começaram a tocar What Doesn’t Kill You (Stronger), da Kelly Clarkson. Ah, mentira que eles querem que eu faça um cover de uma música tão bem interpretado pela diva Kellyzinha! Até porque eu canto rock e não pop. Será puro mico!


- Vocês não acham que essa música é fora demais do meu contexto, não? - Não, achamos que é perfeita para você! – respondeu o baterista, que me dava sorrisinhos, tentando flertar. Ah, vá! Justo o baterista! Ninguém merece! – a banda começou a tocar e eu soltei minha voz. Eu comecei os primeiros versos e então caí na real. Aquela música parecia ter sido escrita por mim. Dizia exatamente tudo que eu queria falar para o Tim. Eu o procurei na multidão e o encontrei encostado em um canto, ao lado do bar. Ele me assistia atentamente, e eu cantei a música toda olhando para ele. Minha voz se fortaleceu, eu ergui minha cabeça e cantei com todo meu fôlego. Ele não se moveu, e eu cantava todas as frases de forma enfática, principalmente quando chegou na minha parte favorita, cuja tradução é mais ou menos essa: “Graças a você eu comecei algo novo Graças a você eu não sou a do coração partido Graças a você finalmente penso em mim Sabe que no fim esse dia foi apenas o meu começo No fim... O que não te mata, te faz mais forte Te faz sentir maior Não significa que estou solitária quando estou sozinha O que não te mata, te faz um lutador


P á g i n a | 322

Dar passos mais leves Não significa que estou acabada só porque não estás”. Depois dessa parte, cantei o resto da música de olhos fechados. Quando a música acabou, eu continuei lá, parada, e então abri os olhos. Todos estavam me olhando, boquiabertos, e então começaram lentamente a bater palmas, até que o salão foi abaixo, de tantas palmas e elogios. O pessoal da banda The Echo me agradeceu, e eles pareciam emocionados. Bem, Vivi, você pode não ser uma Kelly Clarkson da vida, mas foi muito bem! Muito bem mesmo. Enquanto eu descia do palco, percebi que eu me sentia uns dez

quilos

mais

magra,

após

despejar

todos

meus

sentimentos na letra da música. Quando eu voltei para a pista de dança, o Cadú me parabenizou e disse que como sempre eu interpretei perfeitamente. Eu agradeci e então a banda trocou o vocalista. A tecladista assumiu o vocal e eles começaram a tocar That’s Not My Name, da banda The Thing Things. Eu dei um gritinho de “Uhuul” e voltei a fazer meus movimentos malucos. Eu amo essa música! O garçom passou e eu me servi de uma taça de champagne, pois minha boca estava seca e eu não vi ninguém servindo água. Eu virei a taça, ainda dançando, quando o Brian se aproximou de mim. - Vivi, se você soubesse o quanto eu fico fascinado quando ouço você cantar. - e então ele me puxou até que ficássemos colados, peito a peito. Ele começou a dançar sensualmente,


me levando junto naquela sensação gostosa. Eu coloquei minhas mãos em seu peito e o acariciei. Uau, que peitoral é esse? Ele passou as mãos pelos meus cabelos e segurou meu rosto delicadamente, me puxando para um beijo. Seus lábios se juntaram aos meus e se moveram delicadamente. Aquilo era bom. Mas ele se afastou e disse: - Vivi, por que você está se torcendo toda? – e meus pensamentos voltaram a funcionar. - É porque estou com a bexiga apertada, mas estou com preguiça de ir até o banheiro. - Ah, Vivi! Isso não faz bem. Vai lá, eu te espero! – ele disse, me dando um gentil empurrãozinho em direção ao banheiro. O banheiro estava vazio, então eu entrei e já consegui me

aliviar imediatamente. Eu estava

lavando

a mão,

distraída, quando vejo um vulto encostado na porta atrás de mim. Forcei meus olhos a reconhecer a figura, já que eu estava alcoolizada a ponto de ter meus sentidos deturpados. Ah, não! - Você chama aquilo de beijo? - Você sabe que está em um banheiro feminino, né? - Sabe, por ser um rockstar com fama de mulherengo, achei que ele tivesse uma pegada melhor. - Ele tem uma boa pegada! Só que estava em um momento carinhoso.

Ás vezes é gostoso receber um beijo mais

delicado. - Ah, concordo plenamente. O único problema é que você não pareceu reagir bem ao “beijo delicado” que ele te deu.


P á g i n a | 324

- Por que você diz isso? – eu disse, olhando minha própria imagem no espelho, para evitar encará-lo. - Porque você não se arrepiou, nem suspirou vagarosamente, nem deu a ele seu olhar voraz. - Impressão sua! Além do mais, você não me conhece tão bem, assim. Eu tenho várias formas de demonstrar meu desejo. Não menospreze o beijo do Brian, ele é muito melhor nisso que você. – menti. Eu não precisei olhá-lo para ver que seus olhos de apertaram e que por eles passou uma nuvem de raiva. - Agora vá embora, Tim! - Sim, eu vou. – e ele foi em direção à porta. Eu nem esperei para vê-lo saindo antes de me virar em busca de papel para enxugar minha mão, que eu tinha acabado de lavar. Percebi que a banda estava tocando Kiss me, da banda Sixpence Non Rich. Eu joguei o papel no lixo e me virei, tropeçando em oitenta quilos de músculo e gostosura. Olhei para cima e petrifiquei. - Eu estou com um problema. Não aceito perder, então vou ter que beijá-la para comparar sua reação à que teve quando ele te beijou. - Você não vai me beijar coisa nenhuma! - Não? – e então ele me levantou do chão e me jogou em cima da pia. Ele me cobriu com seus braços e bruscamente uniu seus lábios aos meus, com força, raiva e muito desejo. Eu dei alguns socos em seu peito e não movi meus lábios, me recusando a ceder ao seu encanto. Ele se afastou apenas o


suficiente para me olhar e dizer em um tom tão baixo e tão rouco que quase não pude escutar. - Se você não me beijar de volta, eu vou beijar ainda mais forte, e vou deixar seus lábios inchados e doloridos. - E se você não me soltar, vou gritar. Vou contar até três. Um, do....- ele tapou minha boca com suas mãos e aquela chama de raiva voltou a passar por seus olhos. - Ok, você não quer retribuir meu beijo. Entendi! Tudo bem, eu aceito. Mas vai ter que permanecer indiferente a isso... – ele começou a beijar meu pescoço, para cima e para baixo, e então desceu até meus ombros. Uma de suas mãos ainda tapava minha boca, e a outra ele colocou nos meus cabelos, me puxando até que minha cabeça se inclinasse. Seus beijos foram em direção ao meu colo, então ele afastou minhas pernas e soltou meus cabelos, para usar sua mão livre em um passeio pelas minhas coxas. Droga, eu estou sem calçinha! E quando suas mãos chegaram até minha virilha, ele suspirou, surpreso. Eu olhei para ele, mortificada de vergonha, e então pressionei minhas coxas para se fecharem, com toda força que tinha. - Ts, ts, ts, ts! Quanto mais você resiste, mais tempo ficará presa a mim. Não entendeu ainda que quero ter certeza de como você responde? – e então ele separou minhas pernas com força. Vagarosamente, ele subiu sua mão em direção ao meu centro úmido. Eu tentei protestar, fazendo barulhos abafados. Ele começou a me acariciar lentamente, e apesar da minha mente estar gritando “Corra, Vivi!”, meu corpo


P á g i n a | 326

dizia: “ Minha nossa, como é bom!”. Seus dedos aumentaram a velocidade dos movimentos, girando circularmente e eu arqueei minhas costas para trás e projetei meu quadril para a frente, soltando um gemido abafado. E então ele parou. Suas mãos me soltaram e ele sorriu. - Na próxima vez que eu te tocar, não vai ser forçando a barra. Isso só serviu para provar meu ponto de vista. Você ainda me quer. – e novamente eu me senti humilhada. Ele estava me rejeitando, poderia ter me tido ali mesmo, mas como sempre, preferiu virar as costas. Eu não deixaria barato, dessa vez. - Você tem razão, Tim. Meu corpo reage ao seu toque, mas é porque ele tem memória, e infelizmente já tivemos alguns momentos íntimos, antes. Com o Brian é diferente porque eu e ele não chegamos a ter relações sexuais, então ainda me sinto tímida em expressar meu desejo por ele. Bem, até hoje, pelo menos. - Até hoje? – ele perguntou em tom azedo. - Sim! Essa será nossa primeira noite juntos. Se é que me entende. E pode ter certeza de que será muito boa. Afinal, você sabe o quanto ele me atrai. Há anos que sou louca por ele. – a boca dele abriu e fechou. E voltou a abrir novamente, mas então eu passei por ele e atravessei a porta. Andei em direção ao Brian e quando o alcancei, ele sorriu e disse: - Nossa, você demorou. Está tudo bem? - Sim! Está tudo perfeito. – e ele me beijou, e eu me entreguei de cabeça àquele beijo.


- Vivi, você me deixa louco. – ele disse em meu ouvido. - Seria muito deselegante se deixássemos os convidados aqui e fossemos para seu quarto? – eu disse, com um olhar insinuante. Ele prendeu a respiração e passou a mão pelos cabelos. - Definitivamente não ligo a mínima se é deselegante ou não. – ele me segurou pelos pulsos e me puxou em direção à porta do salão. Estávamos quase atravessando quando um familiar “Ei” faz meu estômago queimar. O Brian se virou para olhar e então era tarde demais. O Tim acertou em cheio sua mira, deixando o Brian com grandes possibilidades de acordar com o olho arroxeado. O soco foi forte, e o Brian foi pego desprevenido, mas isso não o impediu de se erguer e partir pra cima do Tim. - O que foi isso, seu imbecil? - Ela é minha, cara! – o Tim disse em um rosnado. - Se ela é sua, então por que ela está comigo? Vê se te enxerga! – e ele tentou se virar e me levar para a saída, mas o Tim agarou meu braço. - Me solte, Tim! - Vivi, pare com isso! Por favor, precisamos conversar seriamente. - Tim, se você não a soltar imediatamente, não me responsabilizo pelas minhas ações. – então o Cadú se materializou entre nós. - O que está acontecendo aqui? - Cadú, diz pra ela a verdade.


P á g i n a | 328

- Cala a boca, Tim! Você pode tê-lo enganado com sua lábia, mas eu sei o que vi. Você não me merece, e eu não sou sua. Me deixe ir! - Não! – ele respondeu, e eu perdi a paciência. Olhei ao meu redor e vi a Bia parada, sem cor nenhuma em seu rosto. O Cadú também a viu, então a chamou e disse: - Bia, explique para a Vivi o que aconteceu naquela noite. – e ela ficou ainda mais pálida. - Largue ela, Tim! – o Brian voltou a gritar, mas o Cadú disse: - Calma, primeiro deixe a Bia falar. Ela pensou por alguns instantes e então disse: - O que vocês querem saber? O beijo foi rápido, mas foi bom. – ela disse, com um sorriso tímido no rosto. - Que beijo, Bia? – perguntou Cadú. - Você está perguntando o que aconteceu na noite que a Vivi me encontrou no quarto do Tim, não é? Então, nós nos beijamos. Não chegou a ser um beijo longo, mas foi muito bom. – o Cadú ficou surpreso, e olhou para o Tim de forma acusadora. - Ei, eu não a beijei. Ela partiu pra cima de mim, mas eu disse que amava a Vivi, e ela disse que entendia. Eu não retribuí o beijo. - Você mentiu para mim, Tim! Não acredito nisso! – acusou Cadú, magoado. Eu olhei para o Tim e balancei a cabeça, incrédula sobre a profundidade de suas mentiras. Ele parecia estar em choque, então soltou meu braço e disse:


- Eu não estou mentindo. Diga a eles, Bia! – mas ela ficou em silêncio, e ele pareceu ter ficado chocado com sua atitude. Ele suspirou e passou correndo por nós, em direção a porta. O Brian me olhou e disse: - Vamos, princesa! Esse circo já deu o que tinha que dar. Eu olhei para o Cadú e ele disse, tristemente: - Me desculpe, Vivi! – e então o Brian me tirou daquela loucura. O quarto do Brian era estranhamente organizado, e cheirava limpeza. - Vivi, você está bem? - Sim, estou! - Posso te fazer uma pergunta? - Claro, Brian! - Se a Bia tivesse dito que não tinha acontecido nada entre eles, você ainda assim estaria aqui, agora? – Meu Deus do céu! Como posso responder aquilo? - Que pergunta estúpida, Brian. Vem cá, deixe-me dar uma olhada no seu olho. - Responda primeiro, Vivi! - Claro que sim! – Diga com mais firmeza que talvez até você acredite, Vivi. – Agora venha até aqui! - eu o chamei, mas ele permaneceu parado atrás da porta, me olhando. – Ei, por favor, venha até aqui! – eu pedi docemente, fazendo com que ele desse um sorriso fraco e se aproximasse de mim. - E tem como dizer não para você? – ele disse, sentando ao meu lado, em sua cama. Eu olhei seu olho inchado e notei


P á g i n a | 330

seu olhar triste, que fez meu coração se apertar. Sem pensar, eu passei carinhosamente a ponta do meu dedo indicador ao redor do seu olho agredido, e ele soltou um gemido abafado. - Ai, me desculpe! - Não, não machucou. Pelo contrário. Seu toque é tão suave... ah, Vivi! – ele suspirou e então quem tocou meu rosto com a ponta dos dedos foi ele. – Eu não suporto ver aquele idiota encostando em você. Só de pensar que vocês dois... nossa, isso não é nada agradável. - Brian, por favor, não vamos falar sobre isso agora, ok? Espere um minuto, eu vou ligar para o serviço de quarto e pedir um pouco de gelo. Eu liguei para o serviço de quarto e após fazer o pedido, fiquei conversando com o Brian por algum tempo. Minha cabeça começou a latejar e eu comecei a me sentir nauseada. - Engraçado, não te vi beber quase nada. Pelo visto, tem o organismo fraco para bebidas. – e o comentário dele foi tão ingênuo que eu ri. - Vocês me deixaram sozinha o dia inteiro bem no dia do meu aniversário. Acha que fiquei fazendo o que? – e então contei para ele dos meus encontros com alguns fãs, do almoço no Miller’s Ale House e do champagne na minha suíte. - Ah, então a bebedeira está explicada. Aliás, chega a ser impressionante o fato de você estar tão consciente. - Apesar de eu ter bebido muito, eu não fiquei em momento algum de estômago vazio, e bebi muita água mineral para


rebater. Mas pode ter certeza que ficarei um bom tempo sem beber nada. Só bebi muito hoje por ser um dia especial para mim. - Não só para você. – e então ele se aproximou e me deu um beijo terno, mas logo se afastou – E por falar nisso, eu ainda nçao te dei meu presente. - Outro presente? Vocês já me deram um festão, não precisavam me dar mais nada. - Confesso que deu trabalho organizar a festa. Fiquei dois dias inteiros atrás da decoração perfeita, da banda perfeita, da comida perfeita... nada menos que perfeito para você, Vivi, porque você é assim. – E o troféu de homem mais fofo do mundo vai para... Sr. Brian Levicce! – Mas existe outra coisa que quero te dar. Espere um minuto. – ele disse, e então foi até o guarda roupa e tirou de lá algo enfeitado com uma fita cor de rosa gigantesca. Ele voltou a se sentar ao meu lado. – Isso é seu. Espero que goste. Eu abri o embrulho eencontrei um par de sandálias da marca Mying Xung Lee, de couro com algumas partes revestida de veludo, todo na cor preta. A sandália tinha duas letras penduradas no feixo: VS. Meu Deus, não era apenas uma sandália Mying Xung Lee, mas sim um par feito especialmente para mim. Eu abri um imenso sorriso, e soltei uma risadinha espirituosa. - Nossa, Brian! Elas são maravilhosas! - As letras são feitas de ouro. Eu pedi para ela desenhá-lo e confecioná-lo exclusivamente para você. – eu prendi o ar, e observei novamente o deslumbrante par de sandálias.


P á g i n a | 332

- São perfeitas, Brian! Eu amei! – e então o abracei, e assim ficamos por um bom tempo, até baterem á porta. – Deve ser o gelo. Eu passei vários minutos segurando uma camiseta do Brian recheada com várias pedras de gelo, apertando-a em seu olho. Após alguns minutos, meus olhos começaram a querer fechar. O sono estava batendo fortemente, e eu devo ter dado uma pescada, porque o Brian disse: - Vivi, sei que planejamos passar essa noite de outra maneira, mas você está com muito sono, e eu com esse olho machucado. Que tal se deixarmos nossa noite romântica para amanhã? – Ufa! Graças a Deus! - Você está certo, Brian! Após todos acontecimentos, acho que não estamos no clima, não é mesmo? - Eu sempre estarei no clima para você, mas não quero que nossa primeira vez seja com você quase dormindo e eu com essas coisas em meu olho. Pode deixar que eu seguro o gelo, princesa! Pode ir para o seu quarto descansar. - Ok! Eu vou, mesmo. Estou muito cansada. – eu entreguei a camiseta com os gelos para ele e aproveitei para abraçá-lo fortemente e dizer: - Eu não sei como agradecer tudo que fez por mim. Foi uma festa maravilhosa, e eu amei meu presente. Você é lindo, Brian, por dentro e por fora. - Eu faria qualquer coisa por você. Qualquer coisa! – e então ele me puxou para seu colo e me beijou de uma forma nada gentil. Seus lábios se juntaram aos meus, que foram separados por sua língua gentil. Ele se movia rapidamente,


de forma apaixonada. Quando nossos lábios se separaram, ele disse: - Melhor você ir logo, senão vou mudar de idéia e te trancar aqui por pelo menos três dias. - Eu não preciso ir. Quero dizer, por mais que não seja o clima perfeito para nossa primeira noite... er...para nossa primeira vez, mas eu não queria te deixar aqui assim. Posso dormir com você essa noite? E com dormir eu quero realmente dizer dormir, literalmente. – a cara que ele fez foi a mais feliz que já o vi fazer desde que o conheci. - Não precisa perguntar duas vezes. Você sabe que quero muito, isso. - Então vamos fazer o seguinte: eu vou até meu quarto para tomar um banho rapidinho e buscar um baby doll e já volto, ok? - Como você decidir, Vivi! – eu dei um selinho nele e saí do seu quarto. Peguei o elevador e desci no meu andar. Na porta da minha suíte tinha uma caixa pequena, embrulhada com fitas vermelhas. Eu agachei e a recolhi, entrei no meu quarto, tirei minhas sandálias que eu calçava, e coloquei em cima da minha cama as duas caixas que eu segurava: a caixa que guardava o presente que o Brian havia me dado, e a caixa vermelha que estava na minha porta. A curiosidade estava gritando, então abri a caixa, e encontrei o que aparentava ser um álbum de fotografias e um pen drive. Eu abri o álbum de fotografias e meu sangue subiu. Tim! Eu folheei o álbum e as primeiras fotos eram da banda. Tinha o Cadú concentrado em seu piano, o Tim fazendo suas caretas tradicionais,


P á g i n a | 334

enquanto segurava a baqueta, o Ric dando um sorriso charmoso para uma fã e eu, com os braços erguidos, no final de um dos shows. Em várias, nós estávamos no meio de show, em outras esávamos em algum programa de televisão, ou em alguma lanchonete, ou em alguma festa. A partir da metade do álbum só tinha fotos minhas. Eu sorrindo, eu séria, eu fazendo careta, eu, eu, eu... Meu Deus, o que ele pretendia, ao me dar esse álbum? Eu fiquei muito confusa, então liguei meu notebook e pluguei o pen drive. Só tinha dois arquivos salvos, um texto de Word e uma música. Eu abri a música, e o arcode de First Time Ever I Saw Your Face, na versão do Josh Krajcik, começou a ressoar pelo quarto. Essa música acaba comigo! É uma das mais lindas do mundo! Eu comecei a tremer quando o Josh começou a cantar: “A primeira vez que eu vi seu rosto Eu pensei que o sol nascia em seus olhos E a lua e as estrelas foram os presentes que você deu Para os céus escuros e vazios. A primeira vez que eu beijei sua boca Eu senti a Terra girar em minha mão Como o coração tremulo de um pássaro capturado Isso deve ficar sob meu comando, meu amor. E a primeira vez que eu fiz amor com você Eu senti seu coração tão perto do meu E eu sabia que nossa alegria iria encher a Terra


E durar e durar até o fim dos tempos, meu amor. A primeira vez que eu vi seu rosto, seu rosto, Seu rosto, seu rosto.” Foi só quando a música acabou que percebi que eu estava chorando compulsivamente. As lágrimas rolavam tão rapidamente que não dava nem tempo de secá-las. Eu abri o arquivo de texto e li: “Minha pequena, me desculpe pela simplicidade do presente, mas sei que se eu te desse qualquer outra coisa você me devolveria ou jogaria no lixo. Você está tão brava comigo que nem percebe que eu não sou nem sombra do que eu já fui. Sem você, eu sou apenas um rapaz vagando pelo mundo, com um buraco no peito. Eu espero que um dia você descubra que tudo não passou de um imenso mal entendido, e eu não descansarei até que isso aconteça. A música que te mandei é aquela que você sempre cantarola, seja nos ensaios da banda, nos restaurantes ou até mesmo no chuveiro, como já ouvi. Eu lembro perfeitamente da primeira vez que percebi sua fascinação por ela: estávamos comendo um cachorro quente perto da sua casa, e tocou essa música. Você ficou com

ela

na

cabeça

e

cantarolou

dezenas

de

vezes,

repetidamente. Quando eu cheguei na minha casa, procurei essa música no Google e desde então eu a ouço praticamente todos os dias, porque dizia tudo que eu senti quando te vi pela primeira vez. Você viu a última foto do álbum? Lembra


P á g i n a | 336

quando foi tirada? Por diversas vezes você me perguntou o por que de eu te tratar tão friamente, e percebi que até hoje eu não tinha te dado nenhuma explicação. Quando você entrou na banda, eu namorava a Letícia. Quando eu te vi, um sentimento tão estranho passou por mim que fiquei confuso. Eu só o entendi depois do primeiro show que fizemos, aquele em que abrimos para os Hackerboys. Você estava ali, tão linda e tão segura de si, que aquela imagem ficou dias e dias na minha cabeça. Eu perdi completamente o interesse pela Letícia (que nunca tinha sido tão grande, para falar a verdade). Eu terminei com ela e estava louco para dizer para você como eu me sentia, mas então ouvi você dizer para a Rita que mesmo nos conhecendo a tão pouco tempo, já sentia como se cada um de nós fossemos alguém da família, como se fossemos os irmãos que você nunca teve. A imagem de você dizendo “IRMÃO” foi tão repulsiva que decidi parar de te tratar bem, para você deixar de me enxergar daquela forma. Mas você é tão boa, tão maravilhosa, que ainda assim continuou a me tratar bem e garantir para mim um espaço em seu coração na vaga de IRMÃO. O dia que o Cadú tomou a Piña Colada batizada e que você dormiu no nosso quarto e me olhou daquela forma tão faminta, foi como se você estivesse me vendo pela primeira vez, e confesso que foi um dos dias mais felizes da minha vida, perdendo apenas para a nossa primeira noite de amor. Estar dentro de você e depois dormir com você nos meus braços foi a melhor sensação que eu poderia ter nessa vida, e ainda que você nunca mais seja


minha, eu posso dizer que um dia eu tive o prazer de encontrar a verdadeira felicidade. Eu vou te dar o espaço que você precisar, até que você entenda a verdade que está diante dos seus olhos, mas não vou deixar de lutar para que isso aconteça. Seu, Tim.” Eu fiquei quase uma hora sentada, lendo e relendo e relendo aquela carta e ouvindo a música do Josh Krajcik, enquanto derrubava lágrimas que saíam torrencialmente dos meus olhos. Eu não estava entendendo nada. Aquela carta era maravilhosa, e parecia ter sido escrita por um Tim que eu não conhecia. Ou melhor, por qualquer pessoa do mundo, exceto pelo Tim. Eu abri novamente o álbum de fotografias e passei para a última foto. Era verdade, a última foto do álbum era, na verdade, a primeira que tirei como membro da banda. Eu conheci o Cadú e o Ric naquele dia, e lembro que fiquei super emocionada ao ser fotografada a lado deles. Dava para ver a emoção estampada na minha face... assim como dava para ver o Tim paralisado, olhando para mim. Meu Deus! Será que tudo que ele disse na carta é verdade? Eu preciso saber, preciso mesmo! Mas se ele sente tudo isso que ele diz sentir por você, por que ele a traiu com a insípida da Beatriz? E minha esperança se afundou. O telefone do meu quarto tocou. - Alô! - Oi, princesa! – Ai, meu pai! Eu tinha esquecido do Brian. Como posso passar a noite com ele desse jeito, tão repleta d sentimentos confusos como estou? Acho melhor dizer para ele


P á g i n a | 338

que não vou passar a noite com ele. Isso, vou dizer. Apesar de que ele ficou tão feliz quando eu sugeri passar a noite lá... Não posso fazer isso, ele está tão bom para mim... - Oi, Brian! Eu recebi mais alguns presentes de fãs e acabei me distraindo, aqui. Eu chego aí em quinze minutos. - Está bem, Vivi! Estarei te esperando. Até mais! - Até! Eu juntei todas as forças que eu tinha para me levantar, tomar um banho rápido sem chorar, para meu olho desinchar, e me arrumar para ir dormir com o Brian. Quando eu cheguei até seu quarto, ele estava de banho tomado, com uma cueca samba canção azul marinho. - Espero que não se importe por eu dormir dessa forma. - Claro que não! - eu respondi. Então ele me puxou para a cama. Eu virei na direção oposta ao seu rosto, para que eu pudesse enfim liberar as lágrimas que tanto estavam ameaçando

rolar.

- Nem acredito que você está aqui ao meu lado. Eu sempre quis dormir ao seu lado, poder te abraçar até o amanhecer. Essa será uma das melhores noites da minha vida. - ele disse e me fez lembrar que o Tim havia escrito algo semelhante no texto que me mandou. As lágrimas estavam me sufocando tanto

que

nem

respondi

o

comentário

do

Brian.

- Princesa, sei que você está cansada, então vou te deixar dormir sossegada. Boa noite, minha querida! - e então ele deu um

beijo

delicado

em

um

dos

meus

ombros.

- Boa noite, Brian! - foi tudo que consegui responder, antes


de

fechar

meus

olhos

e

buscar

meu

sono.

Eu estava no cume de uma pequena montanha que ficava localizada em um vale tão lindo e tão verde que parecia uma montagem. O vento soprava e trazia alguns fios do meu cabelo até o meu rosto. Eu levei meus dedos até os fios rebeldes, mas outros dedos os alcançaram antes dos meus. Virei para olhar a quem pertencia aquela mão, mas imediatamente o dia escureceu e uma penumbra caiu sobre nós, como se estivéssemos em um palco e cortassem a luz que nos dava o destaque em nossas falas. Eu vi sua sombra, e

uma

sensação

familiar

me

invadiu.

- Você não sabe o alívio que estou sentindo por você estar finalmente

progredindo.

-

e

o

ar

me

faltou.

- Você! Pensei que eu já tinha me curado disso. Por que você voltou?

E

porque

meus

olhos

não

estão

colados?

- Eu voltei porque você precisa de mim, e seus olhos não estão colados porque meu papel em sua vida está finalmente se

esgotando.

- Isso significa que você vai embora de vez? Que eu nunca mais

voltarei

a

te

ver?

- Eu disse que está se esgotando, e não que já se esgotou. E digo isso porque a verdade está na sua frente, basta você dar um passo e estender a mão para alcançá-la. - então ele pegou minha mão direita e a entrelaçou na sua, e eu senti uma paz inesperada. -

Existem

tantas

coisas

que

não

entendo...

- É exatamente esse o x da questão, Vivi! Eu acho que você


P á g i n a | 340

tem medo de saber. Porque não foi atrás da minha identidade? - e eu percebi que ele estava dizendo a mais pura verdade. Eu parei de tentar descobrir quem é o Sr. Superbonder/Ciclope, pois estava com medo de me frustrar com a descoberta. Se fosse o Brian, eu sei que me ressentiria por não ser o Tim, e se fosse o Tim, sei que me ressentiria ainda mais, por ser tão perfeito e tão canalha ao mesmo tempo. E se fosse outra pessoa....bem, se fosse outra pessoa eu

teria

a

maior

das

decepções.

- Eu não quero saber quem é você. Ainda que eu descobrisse agora, as coisas não mudariam. Eu continuaria com os mesmos

problemas.

- O que posso dizer quanto a isso? Acho que nada, né? Tenho que respeitar seu tempo, sua opinião. Mas é horrível te ver assim tão infeliz. – eu encostei minha cabeça nos meus joelhos e deixei as lágrimas rolarem. Ele me abraçou e apoiou seu rosto em minhas costas, enquanto mexia em meus cabelos, com uma das mãos. Então ele beijou minha nuca e senti um arrepio eletrizante. Eu virei para ele, mas ele me olhou de um jeito estranho, antes de começar a desaparecer. O engraçado era que mesmo sem enxergá-lo, eu ainda podia sentir os beijos em minha nuca. Então eu acordei e percebi que os beijos não foram dados em sonho, mas sim pelo Brian, enquanto eu dormia. Eu me virei para encará-lo. - Bom dia, dorminhoca! Você fica tão inda quando dorme...- e olhando para ele percebi que a situação era a contrária. Ele estava mais lindo que nunca, com seu cabelo despenteado e


seu peitoral musculoso nu. Se fosse em qualquer outro dia, eu com certeza passaria a manhã inteira fazendo amor com ele,

deslizando a mão pela sua pele, descobrindo o

significado das tatuagens espalhadas em seu corpo, fazendoo chegar ao limite do seu condicionamento físico, mas eu estava com meu coração tão pesado que parecia que era feito de chumbo. - Bom dia, Brian! Dormiu bem? - Maravilhosamente bem. Tem como não dormir bem ao seu lado? - Ah, eu sei que me mexo muito. - E eu não me importo em acompanhar seu ritmo. – e então ele me puxou para ele e me beijou ardentemente. Quando ele me puxou para mais perto dele, percebi que ele havia acordado animado demais para o meu gosto. Enquanto ele me beijava, eu tentava falar: -Brian....eu... - Brian nada. Eu quero você, Vivi! E quero agora! – ele me quer agora! O que eu faço? Eu fechei meus olhos e lembrei da carta do Tim, do álbum de fotografia, da música que ele mandou, e então surgiu em minha mente a imagem da Bia mencionando o beijo que eles deram enquanto eu estava indo ao quarto dele, planejando uma noite romântica. A simples lembrança dele só de toalha enquanto ela estava em sua cama fez meu coração parar. Outra lembrança desagradável surgiu em minha memória: a Bia saindo do quarto dele em Nova York, com os cabelos desgrenhados e camisola curta. Se


P á g i n a | 342

ele me amava, como alegou na carta, como pôde dormir com a Letícia, com a Bia, entre outras diversas fãs que apareciam aleatoriamente em sua cama?Não, ele nunca me amou de verdade! - Vivi, se você não quiser fazer isso, tudo bem. Eu vou esperar o quanto for preciso. Eu sei bem o que eu quero, e o que eu quero está bem aqui, nos meus braços – e então ele me beijou minha testa. – Eu te amo! – ele me ama! Ele me ama! Brian Levicce me ama. Ele, por quem suspirei durante anos. O Brian me ama, não o Tim! Ele, que largou seu vício em supermodelos para ficar somente comigo.E então eu decidi: - Eu quero fazer amor com você, sim, Brian! – e ele deu um suspiro aliviado, seguido por um sorriso de orelha a orelha. - Você tem certeza disso? - Sim, certeza absoluta! – e então ele me tomou em seus braços e fez amor comigo apaixonadamente. Eu estava cochilando, com a cabeça apoiada no abdome do Brian, quando ouço: “can’t stay at home, can’t stay at school, old folks say...”. - Alô! - Vivi, onde você está? Esqueceu que temos que passar o som para o show de hoje à noite? - Putz, Cadú! Esqueci mesmo! Me encontre em meia hora no saguão do hotel. Tchau! - Ok! Tchau! – e desligou. - Ah, me diga que você não tem que ir agora!


- Bem que eu poderia poder dizer, mas se eu dissesse, estaria mentindo. – então ele me abraçou fortemente e sussurrou: - Mas eu ainda tenho fome de você! - Mas isso vai ter que esperar até a noite – eu dei um beijo rápido nele antes de pular na cama e me vestir. – Tenho que voltar para o meu quarto para tomar um banho rápido e me arrumar. Estou super atrasada! Você vai conosco para a passagem do som? - Depois de descobrir seus talentos ocultos, acho que não consigo ficar nem mais uma hora longe de você. Te sigo para onde for! Confesso que você me surpreendeu muito. - Positivamente ou negativamente? - Não se faça de desentendida! Positivamente, é claro! Agora eu sei o porquê da fixação masculina em relação às mulheres brasileiras. - Você ainda não viu nada! – eu disse, antes de deixa-lo e voltar para meu quarto. Quando terminei de me arrumar e cheguei ao saguão do hotel, todos os meninos já estavam lá. O Tim me olhou fixamente, provavelmente esperando que eu demonstrasse alguma reação em relação ao presente que ele havia me dado. Espere sentado! Fui até o Brian e o beijei apaixonadamente. Só separei meus lábios dos dele quando ouvi o Cadú falar para alguém: - O que você está fazendo aqui? – e ao me virar, me deparei com uma Beatriz surpresa e aparentemente irritada.


P á g i n a | 344

- Como assim, o que estou fazendo aqui? Estou trabalhando, é claro! - Eu deveria ter imaginado, mesmo, que você é do tipo de garota que se faz de desentendida. Bem, já que é necessário deixar mais claro que isso, então lá vai: pegue suas coisas e se manda daqui! – Cadú, meu herói! Eu esperei tanto por esse momento... - Tudo isso porque eu e o Tim nos relacionamos? - Não, Beatriz! Tudo isso porque agora acredito na Vivi! Sei que você a desafiou, a destratou e usou o Tim como se fosse um troféu, tudo para elevar seu ego. - Não, eu realmente sou apaixonada por ele! - Não tanto quanto é apaixonada por si mesma, sister! Está mais do que claro que você fez de tudo para apagar o brilho da Vivi. Mas o que você não entende é que a Vivi é uma estrela, Bia, enquanto você não passa de um mero vagalume. - Sua máscara caiu, antílope – eu complementei. Então ela desfez sua feição de mocinha ingênua e desentendida, passando para uma feição debochada e até maldosa. - Isso é o que você pensa, Vivianne! Nossa história mal começou. Aguarde e verá! – e então ela foi embora, com o rosto em chamas. Eu olhei para o Tim, que havia assistido tudo em silêncio. Ele deve ter ficado muito ressentido por perder seu lanchinho.


17 – ESTOU AFUNDANDO “Obscurecendo e confundindo a verdade e as mentiras. Assim, eu não sei o que é real e o que não é. Sempre confundindo os


P á g i n a | 346

pensamentos na minha cabeça. Desse modo, não posso confiar em mim mesma.” Going Under - Evacescence

Eu estava tomando um energético no meu camarim quando a assistente de iluminação entra abruptamente. - Srta. Santinni, me desculpe pela invasão, mas preciso falar urgentemente com você! – ela disse, tão pálida que eu quase enxerguei através dela. - Aconteceu alguma coisa? - Infelizmente sim! Preciso que você venha ver com seus próprios olhos. - e ela me conduziu até a cabine de operação da

iluminação.

Nenhum

dos

aparelhos

respondia

ao

comando. Comecei a suar de nervoso. - Como pode ter acontecido isso? O que vocês fizeram de errado? - Eu chequei todos aparelhos pela manhã. Isso só pode ter acontecido na hora que todos fomos almoçar. - Eu não quero saber como aconteceu, eu só quero saber como vão consertar em vinte minutos. - É isso que tenho para dizer, Srta. Santinni! Não sabemos o que houve com eles. Não temos como consertar sem mandar um técnico avaliar, e infelizmente é certo que nenhum técnico chegará aqui em vinte minutos, muito menos teria tempo para consertar. - Era só o que me faltava!


Após

conversar

com

os

meninos,

chegamos

à

conclusão de que ainda faríamos o show. Subimos ao palco e explicamos tudo ao público, e eles pareceram concordar em assistí-lo

da

mesma

forma.

Nós

estávamos

tocando

normalmente, e faltavam três músicas para encerrarmos o show. Nós começamos os acordes de “Dueto dos ossos” e o Tim entrou na música. Eu me esforcei em não olhar para ele, como sempre, e então chegou minha parte. Eu comecei a cantar e o som não soou pelos alto falantes. Meu microfone parecia desligado ou desconectado, então a platéia começou a vaiar. Olhei para o Tim, sem saída, e ele cantou minha parte da música. No final, mais uma vez pedimos desculpas para o público, e então ele me cedeu o microfone dele para eu cantar as últimas duas músicas: It’s a man’s, man’s, man’s world e “O tempo não parou”. No final do show, percebi que, apesar dos gritos dos fãs, eles estavam um pouco decepcionados, pois a euforia de sempre não estava tão marcante. Assim que saímos do palco, virei para os meninos e disse: - Que diabos aconteceu aqui hoje? Tudo deu errado! A iluminação, o som... esse show foi um fracasso. - A hora que seu microfone pifou, eu suei mais que um maratonista nas Olimpíadas. – disse Cadú. - Isso tudo foi muito estranho. Deu tudo errado no mesmo dia, quase como se nosso fracasso tivesse sido planejado. – Gabbe disse inocentemente, mas me fez ter um pensamento


P á g i n a | 348

recorrente: poderia toda essa confusão ter sido planejada, mesmo? Se fosse, eu já tinha minha suspeita definida. - Eu vou dar uma olhada nos aparelhos danificados. – disse Tim, saindo mais rápido que o “The Flash”. - Brian, você viu algo estranho, pelos bastidores? - Não, Vivi! Todos pareciam estar trabalhando seriamente. – e então resolvi deixar meus pensamentos de acusação de lado. Aquela noite eu passei com o Brian, em seu quarto. Ele conversou comigo e tentou me acalmar, dizendo que já havia acontecido coisas semelhantes com ele, nas turnês do Blue4us. Na manhã seguinte, eu acordei com o humor um pouco melhor. Eu e o Brian nos arrumamos e descemos para tomar café, quando vejo uma coisa que me fez perder o apetite: a Bia estava no saguão do hotel, com toda cara de pau do mundo, em um papo engatado com o Tim. Eu parei por um segundo para observá-los, e foi o suficiente para vêlos dando um aperto demãos, daqueles que damos quando fechamos um acordo. - Você está vendo o que estou vendo? – perguntou Brian. - Infelizmente sim, e nem preciso saber o que é para decifrar que daí não vem coisa boa. Nós estávamos tomando nosso café quando o Cadú desce. Eu contei o que eu tinha visto para ele, e ele ficou puto. - Cara, a cada dia que passa parece que conheço menos o Tim. E esse novo Tim é um otário! - Concordo cem por cento! – eu respondo.


- Nem preciso expressar minha opinião, né? – ironizou Brian. Nisso o Gabbe chega com vários jornais na mão. - Vocês precisam ver isso. – e então ele espalhou os jornais pela mesa. Eu li as matérias principais e fiquei horrorizada. - Todas falam sobre nós! - Olha só essa matéria: “Prometeram e não cumpriram. O fracasso do show de Rock & Pie”. Olha essa outra: “Caos no rock: a torta desandou”. E o pior: “O fenômeno Rock & Pie destinado ao extermínio. Vejam os 5 principais motivos.” – apontou Cadú. - Leia essa matéria inteira, Cadú! – sugeriu Gabbe. - “O maior fenômeno do rock atual vem apresentando indícios de um eventual fracasso desde o incidente com o guitarrista e um

dos

vocalistas

da

banda,

Ricardo

Gusmão.

Aparentemente, ele era a elo entre os outros integrantes. Desde que ele tirou férias “indefinidas”, com o intuito de cuidar da própria saúde, várias calamidades ocorreram com a banda. Vejamos: 1 – Deu a louca no tecladista – o tecladista da banda, mais conhecido

como

Cadú,

teve

um

sério

desvio

de

comportamento. Ele começou a andar com celebridades conhecidas por dar escândalos em festas, usar substâncias tóxicas ou ter passagem pela polícia por vandalismo. Além disso, ele foi flagrado diversas vezes já alcoolizado pela manhã e acompanhado de prostitutas nova iorquinas. Apesar de aparentemente ter cessado com esse hábito adquirido, suas ações são suficientes para escandalizar várias de suas


P á g i n a | 350

fãs, que o admiravam por sua aparente inocência e fama de bom menino. 2 – Cai a máscara da “grande família” –Com o mau comportamento do Cadú, dizem as más línguas que

a

vocalista e baixista da banda, Vivianne Santinni, entrou em um profundo estado depressivo, chegando, inclusive, a se dopar com calmantes, a ponto de quase não conseguir acordar mais, revelou uma fonte confiável. Com toda essa confusão, o baterista da banda, Tim, tomou as dores da Vivi e partiu para a porrada com o Cadú. Tudo isso demonstra que a “grande família” está prestes a “se divorciar”. 3 – Três não é par – O relacionamento ioiô entre celebridades é comum, mas chega a ser prejudicial quando envolve uma terceira pessoa, principalmente quando essa terceira pessoa é um dos integrantes da própria banda. Quando houve uma especulação por parte da mídia sobre uma suposta traição do vocalista da banda Blue4us, Brian Levicce, a Vivianne Santinni não demorou muito para cair nos braços de um outro rockstar: Timóteo Azevedo , o baterista (e atual vocalista) de sua própria banda. Nossa fonte informou que o caso deles foi curto e acabou porque mais uma vez a Vivianne Santinni (considerada pela revista Everyone como a sexta mulher mais bonita do mundo, vejam a ironia!) foi traída. Aparentemente o Tim foi visto com a assistente pessoal da banda, a senhorita Beatriz Saraiva, que já não trabalha mais para eles. Logo em seguida, Vivi reatou seu namoro com o Brian Levicce, mas conforme nossa fonte


confidencial, seus sentimentos ainda estão divididos entre os dois rockstars. Outras fontes confirmaram, também, que Tim e Brian se agrediram fisicamente na festa de aniversário da Vivi, onde aparentemente os dois disputavam a moçinha da história. 4 – Indícios de carreira solo – outro motivo para uma futura separação da banda seria o brilho da vocalista Vivi, que está tão em alta que anda recebendo inúmeros convites para participações especiais em shows, para estrelar campanhas de cosméticos e de acessórios da moda. A última fofoca sobre a senhorita Santinni é a probabilidade de ela gravar uma música solo que será a bertura da nova série do aclamado produtor e redator Ralph Melbourne, que teria como título “Sombras do passado”. Lembrando que a senhorita Santinni acabou de estrelar uma campanha para a marca de cosméticos ShiningHair.” - e quando o Cadú acabou de ler, estávamos todos em estado catatônico. - Essa revista merece ser processada. – disse Brian. - sabe de uma coisa? Você está certo! Cansei de deixar esses jornalistas fracassados tentarem alavancar a carreira à custa de fofocas sobre a minha vida. Vou falar com meu advogado e verei o que podemos fazer. – eu disse. - Vivi, você só está se esquecendo de uma coisa. - Do que, Cadú? - Dessa fonte mistérios que a revista alegou ter. Qual a única pessoa que poderia ter vazado a história dos calmantes?


P á g i n a | 352

- Filha de uma puta! Aquela cobra venenosa! – eu xinguei com todas as minhas forças. - Às vezes tenho vergonha de ser da mesma família que ela. – confessou Gabriel. Então o Tim se juntou a nós. - Preciso falar com todos vocês. - É sobre as notícias dos jornais? Porque se for, já estamos todos a par dessa sujeirada. -

Não!

É

outra

coisa.

Bom,

conforme

os

últimos

acontecimentos, sei que não sou mais bem vindo na banda, e sinceramente não quero mais me sentir como um fardo para vocês. Sendo assim, eu estou me demitindo e farei parte de uma nova banda que está sendo formada. - Repete tudo que você disse, Tim, porque acho que escutei mal. - Não, você escutou bem. Eu estou trocando de banda. - E que banda nova é essa? – perguntei, inconformada com o que tinha acabado de ouvir. - A banda se chama Bobt’s. É formada pelo Bruno, nosso antigo baixista, Orlando, o antigo tecladista dos Hackerboys, pela Bia e por mim. – silêncio total. E mais silêncio. E o silêncio continuou, até que a tampa da minha panela de pressão explodiu. - Você é um traidor! Seu covarde, agora que estamos passando por uma fase difícil, você nos vira as costas e corre para o lado oposto. Como posso ter me enganado tanto ao seu respeito? E como você teve tanta cara de pau de me dizer


tudo aquilo....que.... – e então não vi mais nada, apaguei totalmente. Quando acordei, eu estava deitada na minha cama com o Gabbe, o Brian e o Cadú sentados ao meu lado. - Como você está? – perguntou Brian. - Com ódio! É assim que estou! Gabriel, desde quando sua irmã é cantora? - Ela chegou a gravar um cd, há uns seis anos atrás, mas achei que aquela fase de cantora tivesse passado. Claro que me enganei, né? - Então o tempo todo o que ela queria era roubar o lugar da Vivi, como vocalista da banda. Como não conseguiu, se coçou para montar uma nova banda que tivesse o mesmo frescor que a nossa. – concluiu Cadú. - Pois é, acho que é isso mesmo, Cadú! – eu concordei. - Então o Orlando saiu dos Hackerboys... - Disso eu já sabia, já tinha visto uma matéria na internet. Aparentemente ele brigou com todos outros integrantes. – comentou Gabbe. - Meninos, nós não temos mais o Ric, não temos mais o Tim. Como podemos encerrar nossa turnê na Madison Square Garden? Nossos fãs já estão decepcionados, e não temos condição de continuarmos sem outra voz masculina. Acho que esse é o fim da linha. - Não me diga que você desistirá, Vivi! Não vou suportar mais essa. Eu tenho uma idéia meio louca, mas não sei se vai dar certo. Mais tarde nos falamos, preciso ir, agora! – e eu estava


P á g i n a | 354

tão desnorteada com as últimas bombas que virei para o Gabbe e para o Brian e disse: - Sem querer ser grossa nem nada, mas preciso ficar um pouco sozinha. – o Gabbe saiu na mesma hora, mas o Brian pareceu relutante. - Você tem certeza de que quer ficar sozinha? - Sim, Brian! Eu tenho! Não é nada com você, só estou muito irritada. Preciso pensar um pouco. - Ok, eu entendo. Se precisar de mim, me ligue. Eu passei todas a as horas seguintes deitada na cama, pensando na minha carreia, pensando nas coisas que o jornal publicou sobre os motivos para nossa banda fracassar, pensando sobre a facada que levamos nas costas. Já tinha passado das dez horas da noite quando resolvi levantar daquela cama. Afinal, eu não estava doente para me entregar daquela forma. Eu levantei e liguei o meu IPod no rádio. A primeira música da minha tracklist não poderia ser mais apropriada: Going Under, da banda Evanescence. Prestei atenção na letra, e o ar faltou em meus pulmões. “Obscurecendo e confundindo a verdade e as mentiras Então eu não sei o que é real e o que não é Sempre confundindo os pensamentos na minha cabeça Então não posso mais confiar em mim mesmo Eu estou morrendo novamente Eu estou afundando Me afogando em você


Estou caindo para sempre Eu tenho que me libertar” Os versos iam acabando e eu percebendo que se eu tivesse escrito uma música naquele momento, seria exatamente essa. Ah, Amy Lee, é como se você cantasse o que se passa em meu coração.O meu celular toca. - Alô! - Vivi, não se preocupe. Amanhã à noite nós vamos para Nova Yorque e no sábado faremos o nosso maior show. - Como assim, Cadú? Nós não temos nem um baterista nem um segundo vocalista. - Nós temos um baterista, sim. O Gabbe. – e eu me lembrei de uma vez que ele comentou que tocava guitarra, baixo, bateria e violino. - Mas isso é o mesmo que tapar um buraco e destapar outro. Se ele for nosso baterista, ficaremos novamente sem um guitarrista. - Aí é que você se engana. Acabei de encomendar um guitarrista para nós. - Encomendar? Como assim encomendar, Cadú? Você enlouqueceu? Além do mais, iria faltar um segundo vocalista, de qualquer jeito. - Vivi, você confia em mim? - Ah, Cadú, não é questão de confiar ou não, mas sim... -

Confia

ou

não,

aparentemente irritado.

caramba?

ele

disse

gritando,


P á g i n a | 356

- Sim, confio! - Então boa noite! Nos vemos pela manhã. Na manhã seguinte eu acordei sem a mínima fome, mas o Cadú e o Brian me obrigaram a comer, me relembrando da minha recente crise de anemia. Eu tentei sondar o Cadú a respeito do que ele estava aprontando, mas ele disse que não poderia contar. O gabbe logo se juntou a nós, e meu estômago doeu ao ver que mais uma vez ele vinha com um punhado de jornal. - Vocês precisam ver isso! – e então o Brian arrancou o jornal da sua mão, ávido por descobrir sobre o que o Brian estava se referindo. - “O fim de Rock & Pie?”, “O Fenômeno de R & P morre tão rápido quanto nasce?”, “Surge uma nova promessa: Bobt’s, a salvação do rock brasileiro”. Quer saber, acho melhor nem ler o restante. - e então ele amassou os jornais e os jogou fora. - O Brian está certo. Não vamos nos importar com essas matérias sensacionalistas. E querem saber por quê? Porque agora nós temos o maior guitarrista que poderíamos ter. Eu escolhi bem, podem ter certeza. - Que é... – eu arrisquei. - Que é uma incógnita até amanhã de manhã. - Ah, qual é! Vamos fazer um jogo: eu chuto três nomes, e se eu acertar você me avisa. – ele refletiu, então respondeu:


- Ok, mas com uma condição: se você errar, não toca mais no assunto. - Fechado! Vejamos....como você deu a entender que tinha contratado um guitarrista e um vocalista, penso que pode ser uma só penso que dará conta de tudo. Então....sei lá... Marcelo Camelo, do Los Hermanos? - Não! Próximo! - Edgard Scandurra, do Ira! - Nops! Última chance! - Ai, que coisa chata! Deixe-me ver... Digão, do Raimundos! - Nossa! Você acertou! Só que não! - Ah, Cadú... - nem termina o que ia dizer. Você prometeu que não tocaria mais no assunto. Ponto final! - e eu fiz um bico do tamanho do mundo. Naquela noite nós pegamos um vôo para Nova Yorque. O Brian voltou para seu apartamento, alegando que tinha muitas coisas para resolver, e eu, o cadú e o Gabbe voltamos

para

a

mesma

casa

que

tínhamos

alugado

anteriormente. Assim que entramos, o clima ficou tão pesado, tão tenso, que ninguém pronunciou um palavra sequer. Eram tantas lembranças que eu não pude me conter, simplesmente saí correndo para o meu quarto e desabei a chorar, e eu devo ter chorado um bocado, porque no meio da madrugada eu acordei e quando passei a mão nos meus olhos, percebi que estavam úmidos. Eu devo ter dormido chorando!


P á g i n a | 358

Na manhã seguinte, eu levantei cedo, ansiosa por conhecer nosso novo guitarrista. Como o Cadú disse que ele chegaria pela manhã, mas não deu um horário exato, eu decidi que dava tempo de fazer nossa tradicional torta de frango com requeijão. Eu preparei o recheio, fiz a massa, coloquei para assar e e resolvi entrar na internet, em busca de notícias sobre “o traidor”. E desta vez eu achei o que queria. Tinham várias matérias feitas sobre a banda, reportagens feitas com todos reunidos, e uma informação crucial: eles fariam um show em Nova Yorque, em seguida do nosso. Mas é muita cara de pau, mesmo! Claro que o show deles seria menor, mas grande o suficiente para uma banda que tinha dois dias de formação. Só então me dei conta da verdade: pela excelência da divulgação e pela rapidez da agenda de show, estava mais que claro que eles já estavam tramando tudo pelas nossas costas. É a única explicação! Esses dois queriam desestabilizar a banda e aproveitar o escândalo para se promoverem. Será que o Tim foi o responsável pela sabotagem do nosso show em Orlando? E então a campainha me distraiu daqueles pensamentos. Eu corri para abrir a porta e então tive uma ótima surpresa: a Rita estava ali, parada, me olhando com um sorriso gigante estampado na cara. - Oi, Rita! Que surpresa boa! Você não sabe como é bom ver um rosto familiar em um momento como esse. - Você parece surpresa em me ver. – ela disse, sem sair do lugar.


- O Cadú não avisou que você viria, ele apenas disse que hoje pela manhã chegaria nosso novo guitarrista. - E ele não mentiu – disse uma voz atrás da Rita, que me fez pular para trás, com o coração batendo a mil por hora. A Rita deu dois passos á frente e então ele apareceu, me fazendo derramar um rio de lágrimas de felicidade. - Ric! Não acredito que é você! – e então me lancei em seus braços. Ele me apertou tanto que quase pude ouvir o som de “crack” das minhas costelas. Quando o soltei, olhei para ele e vi que ele estava tão emocionado quanto eu, com os olhos até inchados de tanto chorar. Ele praticamente soluçou, tentando dizer: - Eu cheguei a acreditar que isso não voltaria a acontecer. - Eu não! Eu sempre soube que você seria capaz! Mas me expolique isso, porque nos falamos a pouco dias atrás, e você disse que ainda estava se recuperando. - Eu estava, mas meu maior obstáculo é o psicológico. Eu não perdi minha habilidade com a guitarra, apenas a minha auto estima. Eu coloquei na minha cabeça que para eu ser digno de ser um rockstar, um aleijado como eu deveria se superar em tudo, mas eu estava errado. Eu sou bom no que faço, e não preciso que me digam que sou o melhor do mundo para eu me afirmar como músico. A verdade é que eu já sou tudo isso. A música corre pelo meu sangue, a música é o componente do ar que respiro. Sem a música, eu sou um container vazio. E eu não sou um aleijado, porque eu consigo fazer muito mais coisas que muitas pessoas que conseguem


P á g i n a | 360

andar. Eu sou ativo, e não vou deixar esse par de pernas me impedirem de cumprir meu destino nesse mundo. - Eu juro que nunca na minha vida senti tanto orgulho de alguém como estou sentindo de você nesse minuto. E eu não tenho palavras para agradecer o que está fazendo por nós. - Vivi, quando o Cadú me ligou e contou tudo que aquele filho de uma mãe fez, eu percebi que não havia outro lugar no mundo onde eu deveria estar a não ser ao lado de vocês. Vocês são meus irmãos, me apoiaram nas horas mais difíceis que passei, e eu faria qualquer coisa para poder retribuir tudo que fizeram por mim. – e então percebi que eu faria aquele jornalista sensacionalista engolir palavra por palavra, tudo que ele havia profetizado sobre a nossa carreira. Não somos uma família uma ova! E então o cadú desceu as escadas. Quando ele e o Ric se olharam e deram um abraço de irmão, tudo que vi foi a face de dois meninos. E todos nos abraçamos

e

agradecemos

a

Deus

por

essa

benção

maravilhosa. Após

devorarmos

nossa

tradicional

torta,

fomos

ensaiar. Nós encerraríamos a turnê com o repertório um pouco diferente: o Ric queria cantar I Believe in Miracles, dos Ramones, e eu queria cantar Piece Of My Heart, da Janis Joplin. Nós eliminamos o “Dueto dos Ossos” do repertório, mas incluímos outro dueto: cantaríamos juntos “Tainted Love”, em um cover da versão do Marilyn Manson. Cortamos também “It’s a man’s, man’s, man’s world”. O Ric continuava tocando tão bem quanto antes, senão melhor, tendo em vista


o quanto tinha ensaiado. O Gabbe e o Ric mal se conheceram e já pareciam amigos de infância, e engaratarm uma conversa entusiasmada sobre futebol e sobre a paixão pelo Red Hot Chilli Peppers. Quando encerramos o ensaio, a Rita nos encontou e disse que tinha conseguido agendar para aquela noite uma entrevista no programa Intothe Night, apresentado pelo sério apresentador Boris Clark. Aquela seria nossa chance de esclarecer os recentes acontecimentos e de alfinetar o jornal Orlando News. Para descansar da exaustão que o ensaio nos causou, nós nos jogamos no sofá e ligamos a televisão, então tive a idéia de colocar naquele canal de fofocas para saber o que estavam falando sobre nós e o que falavam sobre a Bobt’s. Não demorou nem quinze minutos para passarem um vídeo amador dos integrantes do Bobt’s em um restaurante italiano. A Bia parecia estar nas nuvens, e o Time tava mais sério que nunca, quase como se estivesse lá por obrigação. Senti um enjôo passageiro, mas respirei fundo e me senti melhor. - Fico doente só de olhar para a cara desse panaca! – disse Ric. - Eu também! – concordei. De repente, ouço tocar Light myFire, na voz do Jim Morrison. Imediatamente olhei para a televisão e me vi. - Olha, é meu comercial, meninos! Quer dizer, o comecial da ShiningHair! - Nossa, Vivi! Você parece uma deusa, de biquíni.


P á g i n a | 362

- Aposto que existem milhares de homens assistindo a esse comercial e pensando: Come on, Vivi, light myfire! – comentou Cadú. - Que nada, só de olhar para ela o fogo deles já acendeu. – brincou Ric, então peguei as almofadas do sofá e joguei uma em cada um deles. - Engraçadinhos! - Você pode achar ruim o quanto quiser, mas que olhando para você de biquini nesse comercial, a última coisa que prestarão atenção é em seu cabelo. – disse Gabbe. - Não é não. A intenção é mostrar que mesmo após o cloro da piscina, os cabelos continuam bonitos, porque eu uso os produtos da ShiningHair. - Ah, ta! Blá,blá,blá! – brincou Cadú, então tornei a jogar almofadas neles, até que virou uma guerra de almofadas tão séria que tive que me esconder para não ter a cabeça arrancada ao ser atingida com força. E então percebi que havia muito tempo que eu não me sentia tão feliz. Enquanto eu me arrumava para ir ao Into the Night, eu liguei para o Brian. - Oi! - Oi, minha rockstar favorita! Como você está? - Estou bem. Na verdade, estou mais que bem. Estou ótima! - Ah, é? E o que aconteceu para você se sentir assim? - O nosso novo guitarrista chegou. - Ah, é verdade! Nossa, meu dia foi tão corrido que acabei esquecendo de perguntar quem é a nova estrela da guitarra.


E pela sua felicidade, dever ser algum cara muito bom. É bonito, também? Devo sentir ciúmes? - Se é bonito? Ah, ele é lindo! Mas exagerei quando disse “o novo guitarrista”, porque de novo ele não tem nada, a não ser a idade. É o Ric, Brian! Você pode acreditar nisso? Ele voltou! - Mas que ótimo, Vivi! Nossa, vocês devem estar super felizes. A essência da banda voltou. Que massa! - Felicidade parece uma palavra pobre, em comparação ao que sentimos. - Estou muito contente por você, Vivi! Aliás, tão contente que estou indo até aí para te seqüestrar. Quero que passe essa noite aqui comigo, no meu apartamento. - Brian, hoje não vai dar. Nós seremos entrevistados pelo Boris Clark às 23:00 horas. Chegaremos aqui muito tarde. -Ah, que pena! Já estou morrendo de saudades de você. - Eu já te disse que você é maravilhoso? - Não! - Pois você é! - Não escutei direito. Pode repetir? - Seu bobo! - Sabe qual o único problema de você não vir até aqui é que não vou poder cantar agora para você uma música que não sai da minha cabeça. - E que música chiclete é essa? - Come on, baby, Light my fire! – e eu caí no riso. O Boris Clark era tão sério pessoalmente quanto víamos na televisão, mas nem por isso ele deixava de ser um


P á g i n a | 364

entrevistador formidável. Assim que chegamos aos estúdios do seu programa, ele nos recebeu muito bem e nos acomodou em um camarim bem servido e confortável. E então chegou a hora da entrevista. - Quero receber aqui os integrantes da banda Rock & Pie. – anunciou o Boris,e entramos eu, o Cadú e o Gabbe. - Boa noite, Vivianne, Cadú e Gabriel! - Boa noite, Boris! – nós três dissemos. - Bem, vocês tem sido constante alvo de críticas nos últimos meses, sejam elas negativas ou positivas, e acredito que já tenham se acostumado um pouco com isso. Entretanto, nos últimos dias houveram alguns fatos que instigaram o número de rumores sobre o fim da banda. Vocês tem algo a comentar sobre esses fatos recentes? - Com fatos recentes você quer dizer a saída do Tim e a sabotagem do nosso show em Orlando? – questionou Cadú. - Sabotagem? - Nós temos uma teoria, mas não podemos afirmar devido a falta de provas, mas se você pensarem bem, como que um sistema inteiro de iluminação que já tinha sido checado pela assistente de iluminação pode estragar por inteiro em apenas uma hora? Sem contar que meu microfone misteriosamente pifou bem na minha parte principal do dueto. É muita coincidência para um dia só, não concorda? – eu disse. - Vendo por esse lado, concordo, sim. Mas e quanto à saída do Tim, quais foram as principais razões? – eu e o Cadú nos


olhamos, aborrecidos por termos que falar de um assunto tão desagradável e tão doloroso para nós. - Bem, o Tim saiu inesperadamente. Em um dia aconteceram os fiascos do show, e no outro ele anunciou que estaria entrando em outra banda, sem nenhuma justifica plausível. – o gabbe fez o favor de explicar. - E a saída dele não teve nada a ver com o confronto que estava acontecendo entre ele e seu namorado, Vivianne? – Ai, meus sais! Quando essas perguntas vão cessar? - O Brian e o Tim se desentenderam por motivos alheios à banda. Além do mais, os conflitos sempre foram causados pelo Tim. - E como vocês se sentiram com essa saída inesperada de um integrante original da banda? – eu percebi o cadú ficando com o rosto afogueado, de raiva. Ele nem hesitou ao dizer: - Se coloquem no nosso lugar: há anos você faz parte de uma banda, e os integrantes se tornam seus melhores amigos. Mais do que isso, até, se tornam seus irmãos. Em um determinado momento vocês acabam tendo um mau dia, como tivemos devido aos problemas no show em Orlando, e então um dos seus irmãos simplesmente chegaem você e diz “Estou trocando de banda. Até mais”. Como vocês se sentiriam? -É, realmente... – Boris tentou dizer, mas o desabafo do Cadú não tinha acabado. - Eu posso dizer como eu me senti, sim! Eu me senti como se tivesse alimentado um porco com filé mignon. E senti


P á g i n a | 366

também uma imensa vontade de quebrar a cara dele, para falar a verdade. E essa vontade ainda não passou. - Dá para ver que vocês ainda estão bem abalados com a decisão que o antigo parceiro de vocês, o Timóteo Azevedo, tomou. E me digam, esse choque inicial que vocês tomaram desestruturou os planos da banda, em algum momento? – Boris se apressou a dizer, com medo de que o Cadú começasse a destribuir socos em todos que visse pela frente. - Para falar a verdade, sim. Mas foi apenas por uma questão de horas, pois em pouco tempo reestruturamos nossos componentes. – eu disse. - Então vocês já possuem um baterista novo? – ele perguntou o que combinamos, uma vez que ele já tinha visto o Ric nos bastidores e tinha ficado completamente feliz por sua recuperação. - Sim, Eu! – respondeu Gabbe. - Mas se você for o baterista, quem será o guitarrista? -

Ele!

nós

três

dissemos

em

uníssono,

enquanto

apontávamos para a porta. E então o Ric entrou, visivelmente tímido. O auditório ficou tão surpreso que o silêncio predominou por alguns segundos, mas então o clima do ambiente mudou. As meninas da platéira se emocionaram tanto

que

começaram

a

chorar,

os

garotos

gritavam

incentivos, e o Ric mais uma vez ficou com os olhos cheios de lágrima, mas conseguiu se conter. A reação da platéia foi tão linda que até o Boris se emocionou. Sua voz estava embargada, quando ele disse:


- Ricardo Gusmão! Você não imagina o prazer imenso que temos em te receber aqui. - Boa noite, Boris! Agradeço muito pelo carinho! E boa noite, platéia maravilhosa! – e os gritos histéricos que as meninas sempre deram para o Ric recomeçaram, demonstrando quenada havia mudado, quanto a isso. - Ric, por favor, nos conte como é a sensação de ter sobrevivido a um ataque bárbaro e como foi que conseguiu se recuperar tão rapidamente. - Boris, durante um bom tempo eu reprimi a lembrança daquela noite, pela mágoa que eu tinha guardado. Ainda hoje eu não gosto de lembrar, pois é um atestado da maldade que alguns seres humanos são capazes de fazer. O que importa é que eu consegui superar minha depressão devido ao carinho da minha família e dos meus amigos, que estão aqui comigo, além do amor que tenho pela música. Hoje pela manhã, quando cheguei e fui recebido pela Vivi, pelo Cadú e pelo Gabriel, que diga-se de passagem, até então eu não o conhecia pessoalmente, e eles comentaram sobre uma reportagem infeliz que o jornal Orlando News fez, onde eles insinuavam que nossa “grande família” estava desmoronando e chegaria ao divórcio. Essa pessoa desinformada não deve saber o quanto cada um de nós apóia o outro, o quanto gostamos e cuidamos um do outro. E sim, nossa relação é de irmãos. Claro que tem a exceção da relação Vivi-Tim, mas isso é passado, e agora só o que nos importa é continuar


P á g i n a | 368

tocando e alcançar momentos da vida de cada um de vocês através da noss música. - Realmente, mesmo entre altos e baixos, a Rock & Pie é uma banda inspiradora. Muito obrigada a todos vocês por terem exposto seus sentimentos. E vocês, telespectadores, não saiam daí, pois voltamos logo, logo, após os comerciais.

18 – ABRA SEUS OLHOS


“Cada minuto a partir deste agora podemos fazer o que gostamos em qualquer lugar. Eu quero tanto abrir seus olhos porque eu preciso que você olhe dentro dos meus.” Open Your Eyes - Snow Patrol

Assim que chegamos à nossa temporária casa, fomos cada um para o seu próprio quarto. Eu estava tão cansada que só me despi e me enfiei embaixo das cobertas, sem nem ao menos vestir uma camisola. Não demorou muito para que eu pegasse no sono. Eu estava sonhando comigo mesma, quando eu era bebezinha. Eu era realmente uma menininha adorável, com bochechas gordinhas e uma risada deliciosa. Eu estava ouvindo essa risada quando o meu eu bebê sumiu. Eu abri meus olhos e estava novamente no cume da pequena montanha, e ele estava alí ao meu lado. - É muito bom ver você! - É muito bom ver você, também! - Então o Ric voltou... fiquei muito feliz quando eu soube. - Como você soube? Aliás, como você sabe tanto sobre a minha vida? - Eu já te expliquei isso. - Tá, a baboseira de você ser alguém que conheço reprojetado pela minha mente em meus sonhos.


P á g i n a | 370

- Isso não é uma baboseira, é a mais pura verdade. Mas não vamos discutir, por favor. Eu vim em paz, apenas para te olhar uma última vez antes de... - Antes de... - Digamos apenas que será uma última vez antes do grand finale. - Grand finale? Nossa, é cada uma que você inventa, Sr. Superbonder! Você me faz rir demais! - Tudo bem, eu adoro seu sorriso, mesmo... - Adora, é? - Sim! Na verdade, eu adoro esses pequenos detalhes que você tem ou faz, como o jeito que inclina levemente o pescoço de lado, quando acha que estou contando alguma mentira, ou como você espreme os olhos quando alguém está te contando algo importante, ou como seu sorriso chega aos seus olhos antes de chegar aos lábios. – e o que ele me disse me fez me sentir tão especial que me joguei em seus braços cobertos pela sombra. - Eu vou sentir sua falta. - Talvez sim, talvez não. - Como assim? - Você tem mais de um caminho a seguir. Eu estou em um deles, gatinha! - Então um dos meus caminhos eu estou destinada a viver com um ser imaginário, é isso? - Foi isso que eu disse, por acaso?


- Não, mas... ah, então você está novamente mencionando o seu “eu verdadeiro”. - Sim! - Sinto te decepcionar, mas eu estou com o Brian. Ele me faz feliz. - Faz? - Sim! - Então não é só a mim que você está decepcionando. – e ele se foi. Acordei em pânico, e após refletir um tempão, tentando entender o significado das coisas que ele havia me dito, acabei voltando a pegar no sono e só acordei na manhã seguinte, com o cheiro de pão quentinho. Eu logo desci e encontrei a Rita e todos na cozinha. A Rita estava terminando de preparar os ovos mexidos quando o Gabbe ligou o rádio em uma estação americana que eu não conhecia. A Rita começou a nos servir uma porção de ovos mexidos e a fatiar o pão que ela havia comprado na padaria, quando ouço a primeira música que rádio toca: Only When i Sleep, da banda The Corrs. Juro que literalmente engasguei quando ouvi o seguinte trecho: “Mas é somente quando eu durmo Vejo você em meus sonhos Me rondando em círculos Me virando de cabeça pra baixo Mas eu somente ouço você respirar Em algum lugar do meu sono Me rondando em círculos


P á g i n a | 372

Me virando de cabeça pra baixo Apenas quando eu durmo E quando eu acordo Suas sombras desaparecem”. - Vivi, quer ajuda para desengasgar? Quer que eu dê um tapa nas suas costas? – perguntou Cadú, todo solícito, ao que eu respondi apenas com um sinal negativo, uma vez que mal conseguia respirar direito, quanto mais falar. - E então? Ansiosos para o grande show de hoje a noite? - E se estamos, Rita! – respondeu Gabbe. - Desculpe tocar no assunto, Gabbe, mas você teve alguma notícia da “coisa ruim”? – o Cadú deu umas risadinhas exageradas ao ouvir o novo apelido da Bia. - Graças a Deus, não! Aquela lá só me arranjou confusão, durante minha vida toda. Vocês pensam que ela é ruim hoje? Isso é porque vocês não a viram no formato de pestinha. Era a criança mais insuportável e mais maldosa que já vi. Porque você acha que sou gay... linha? – ele bem que tentou corrigir, quando percebeu que havia acabado de desabafar seu maior segredo, mas eu não achei que a desculpa colou. Está certa que sou suspeita para opinar, uma vez que já sabia do fato, mas é que a emenda pareceu tão artificial... entretanto, ninguém pareceu esboçar reação nenhuma quanto ao comentário feito. Após o café da manhã, nós nos arrumamos e fomos, como sempre, passar o som, só que desta vez não seria em


um local qualquer, mas sim no Madison Square Garden. Eu confesso que achei que quando o Ric voltasse a pisar naquele lugar ele teria uma crise de choro ou de raiva, ao lembrar do louco que atirou nele, mas quando chegamos lá ele apenas ficou pensativo por alguns minutos, mas depois olhou para cada um de nós e disse: - Eu sobrevivi! E aqui estou eu, novamente, e pronto para detonar nesse palco! Nós voltamos para casa no final da tarde e fomos tirar um cochilo, pois tínhamos uma hora e meia para descansar, meia hora para tomar banho e colocar uma roupa qualquer, já que no nosso camarim teriam maquiadores e cabelereiros nos aguardando, e meia hora para comermos. O tempo voou, e no que pareceru um piscar de olhos, eu já estava no meu camarim, com o cabelo feito, maquiada, faltando apenas me vestir. Naquela noite eu usaria um shorts preto de couro, um corpete vermelho e botas pretas de salto agulha e cano alto, que chegam a bater no meu joelho. Três batidas soaram à minha porta. - Pode entrar! - Uau, princesa! Você está maravilhosa! - Obrigada, Mr. Levicce! - De nada, Miss Santinni! – nisso, alguém bateu á minha porta e disse: - Vivianne, o show deve começar em cinco minutos.


P á g i n a | 374

- Eu tenho que ir, Brian! – eu disse, antes de tentar lhe dar um beijo rápido, mas ele me segurou e acabou tornando o beijo um tanto quanto caliente. - Só não se esqueça disso, ok? – ele disse, quando eu estava atravessando

a

porta.

Eu

parei,

instantaneamente,

e

perguntei: - Disso o que? - Que eu te amo! – e meu coração começou a bater freneticamente. Eu abri a boca para tentar responder, mas era como se algo puxasse minha voz para dentro de mim. Eu apenas sorri docemente e disse: - Você é perfeito, sabia? – e então fui em direção ao palco, deixando para trás um Brian desapontado. Quando subimos no palco e as luzes se acenderam, a multidão de fãs começou a entoar: “Ric! Ric! Ric! Ric! Ric!”. Olhei para ele e ele parecia uma criança quando ganha um presente de Natal. Nunca nós tínhamos feito um show daquele tamanho, e me senti emocionada, honrada e inacreditavelmente triste. Olhei para o Gabbe e ele estava eufórico. Olhei para o Cadú e seus olhos encontraram os meus, e então eu soube que ele estava pensando a mesma coisa que eu: era surreal o fato de olharmos para a bateria e não encontrarmos o Tim fazendo suas caretas e seus barulho com a boca, agitando suas baquetas pelo ar. O Gabbe era uma pessoa super querida, mas ele não havia participado desse sonho desde o começo, ao contrário do Tim, que era integrante da banda desde que ela tinha sido fundada, anos


antes de eu mesma entrar. Eles já tinham tocado em restaurante, em barzinhos, em festas de quinze anos e em formaturas, tudo em busca do sonho de espalhar sua música pelo mundo e ser reconhecido pelo seu talento. E ele era talentoso, disso eu não tinha dúvida alguma. Eu apenas não contava com a falsidade e com a ambição que ele demonstrou ter. Olhando para o público e para os meninos, percebi que inesperadamente eu não tinha ódio do Tim. Não, eu não tinha ódio, nem raiva. Eu só tinha uma grande mágoa por ele não ser o homem que eu havia acreditado que ele fosse, e isso fazia com que eu sentisse raiva de mim mesma. Nós tocamos De frente com o passado, depois tocamos Compulsões, seguida por O tempo não parou, e então o Ric cantou I Believe in Miracles. A melodia da música é bem animada, mas a letra tinha tanto a ver com a história do Ric e com a forma que ele havia superado toda desgraça pela qual havia passado, que todo mundo ficou emocionado. Os fãs choravam e gritavam “Eu te amo, Ric”, os técnicos de som e de iluminação choravam nos bastidores, até onde eu conseguia enxergar, o Gabbe e o Cadú choraram e eu estava com um nó na garganta, segurando o choro, até que olhei para

o

camarim

personalidades

da

VIP, música

onde e

vários do

atores,

cinema

atrizes,

estavam

nos

assistindo, e o encontrei alí, em um canto, praticamente se escondendo. Eu reconheceria aquele cabelo em qualquer lugar, ainda que estivesse comprido, sem o tradicional topete, e todo desgrenhado. Sua barba estava comprida, e me


P á g i n a | 376

lembrei que no dia que ele partiu ela já estava por fazer. O que fez com que eu não conseguisse conter minhas lágrimas foi ver que ele mesmo estava derramando as dele, enquanto ele assistia a performance do Ric. Então o Ric acabou de cantar e a plateia foi ao delírio. Foi uma mistura de empolgação, porque a música era animada, e emoção, por causa da história do Ric, que eu tive a certeza de que aquele show seria lembrado pelo público durante muitos anos, assim como nós jamais esqueceríamos aquele momento. A próxima música era Piece of my heart, e eu a interpretaria. Tomei fôlego por alguns minutos e senti aquele congelamento que eu me afetava quando eu estava me sentindo assustada pela multidão. Eu tive que conversar mentalmente comigo mesma e dizer o quanto eu estava orgulhosa por ter chegado até alí e por ter conseguido enfrentar meu pânico de cantar em público durante tanto tempo. Eu disse a mim mesma que não havia o que temer, então fechei meus olhos e comecei a tocar os acordes, com a minha Lua. Então expus toda minha coragem ao cantar:

“Eu não te fiz sentir como se você fosse o único homem? Sim! Eu não te dei quase tudo que uma mulher possivelmente possa dar? Doçura, você sabe que sim!


E a cada vez digo a mim mesma que eu, bem, acho que tive o bastante. Mas eu vou te mostrar, baby, que uma mulher pode ser durona. Eu quero que você venha, venha, venha, venha e leve-o, Leve-o! Leve outro pedacinho do meu coração agora, baby! Oh, oh, quebre-o! Quebre outro pedacinho do meu coração agora, querido, sim, sim Oh, oh, possua um! Possua outro pedacinho do meu coração agora, baby, Você sabe que pode, se isso te faz sentir-se bem, Oh, sim, realmente. Você está fora, nas ruas, parecendo bem, E baby, bem dentro do seu coração, eu acho que você sabe que isso não é correto. Nunca, nunca, nunca, nunca, nunca me ouve quando eu choro à noite,


P á g i n a | 378

Babe, eu choro o tempo todo! E a cada vez digo a mim mesma que eu, bem, não consigo suportar a dor. Mas quando você me segurar em seus braços, vou cantar mais uma vez.” Eu estava cantando e não consegui conter o impulso de olhar para o Tim, mas só vi o topo de sua cabeça desaparecendo em direção à saída do camarote. Quando eu terminei Piece of My Heart, nós cantamos Hey Menina e encerramos o show. Estávamos indo cada um para seu próprio camarim quando o Ric disse: - Vocês viram quem eu vi? – mas aparentemente o Cadú e o Gabbe não o tinham visto. - Eu o vi, Ric! Infelizmente eu o vi. - Ele parecia tão infeliz... – o Ric disse. - Cada um tem o que procura!

Na manhã seguinte, eu relutei em levantar. Eu pensei em levantar cedo e aproveitar meu penúltimo dia nos EUA fazendo compras, visitando o Central Park, indo até a The Cheesecake Factory, mas só de lembrar que eu teria que enfrentar o Brian sem saber se eu seria capaz de retribuir o


“Eu te amo”, minha cabeça explodia. Sem contar que hoje seria o show de estréia da banda Bobt’s, o que fazia meu humor piorar mais ainda. Eu estava lembrando que naquela noite eu gravaria a música de abertura da série Sombras do Passado, quando os meninos e a Rita começaram a me chamar incessavelmente, inconformados que já passava do meio dia e eu ainda estava na cama. Eu finalmente resolvi levantar e tomar um banho longo e relaxante, me arrumar e ir às compras. Fazer compras com os meninos é pior que fazer compras com mulheres, pois eles não conseguem se conter quando encontram um aparelho eletrônico qualquer que nunca tenham visto antes, ainda que seja um aparelho de cortar pelo do ouvido. Isso sem contar que a cada parada que eles davam os paparazzis faziam a festa, tirando milhares de fotos iguais que não pareciam fazer o mínimo sentido. “Can’t stay at home, can’t stay at schoo, old folk...”. - Alô! - Oi, Vivi! Tudo bem com você? - Tudo bem, sim! E você? - Mal, e piora cada vez que lembro que amanhã você volta para o Brasil.


P á g i n a | 380

- Nossa, eu vou sentir muita saudades daqui! – ele ficou um tempo em silêncio, mas então disse, em uma voz bem fraca: - Não vá! Fique aqui comigo! – e eu percebi que a maior parte da saudades que eu sentiria seria por causa dele. - Eu não posso, agora. Tenho muitos compromissos no Brasil. - Mas e para um futuro próximo? - Eu tenho que pensar, Brian. Essas coisas não se resolvem assim, de uma hora para a outra. - Tudo bem, eu entendo. Bom, que tal tomarmos um café e namorarmos um pouco? - É uma boa idéia, onde você está? - Aqui na sua frente! – e quando olhei adiante, eu o encontrei, parado na calçada, olhando para mim com o celular na mão. – Sabia que a cada vez que olho para você é como se eu te visse pela primeira vez? – e então ele desligou e veio na minha direção. Eu e o Brian passamos a tarde toda passeando pelas ruas de Nova Yorque, e sim, ele me levou ao Central Park. Enquanto ele me contava as novidades da banda e eu olhava para ele e só conseguia pensar que quando eu voltasse


para São Paulo eu sentiria uma falta imensurável do Brian e de toda sua paixão cristalina. - Você está bem? Parece tão longe... -Eu só estava pensando que quando eu voltar para minha cidade vou morrer de saudades de momentos como esse. Eu vou sentir muito a sua falta. - Você tem uma escolha, Vivi. Eu te dei uma outra opção. – e percebi que o Sr. Superbonder disse a mesma coisa. Que incrível coincidência! Então sentamos em um banco, no Central Parque, e ficamos lá, abraçados, até o final da tarde. À noite eu me arrumei e fui ao encontro do Ralph Melbourne. O Gabbe foi comigo, uma vez que o Ralph o tinha convidado, e após nos encontrarmos ele nos levou até o estúdio de gravação. Eu li a música por algumas vezes e percebi que com exceção de alguns sinônimos, o Ralph não tinha mexido na letra. Aquilo me deixou contente, pois eu a achava perfeita do jeito que estava. Enquanto eu gravava a música, o Ralph e o Gabbe me assistiam, enquanto a equipe de gravação me orientava. A letra era muito boa, e um tanto quanto sombria, mas eu a acolhi como parte do que eu estava sentindo, ultimamente.

Quando finalmente encerramos a

gravação, o Gabbe e o Ralph decidirm sair pra tomar um drinque. Eles me chamaram, mas como eu percebi o clima romântico que estava rolando, decidi voltar para casa. Além do mais, desde que olhei no relógio eu só conseguia pensar no show dos Bobt’s, que já deveria estar na metade, pelas minhas contas.


P á g i n a | 382

Quando cheguei em casa, o Ric, a Rita e o Cadú já estavam dormindo, mas eu estava completamente sem sono. Eu fui para o meu quarto e liguei meu notebook, em busca de jogos divertidos que pudessem me distrair até eu pegar no sono. Joguei um jogo de docinhos voadores por mais de uma hora, até que o sono começou a me pegar de jeito. Antes de desligar o notebook, porém, eu não resisti ao impulso de ler a carta que o Tim havia escrito e que eu havia salvado nos meus documentos. Após ler e reler e reler novamente, finalmente o fechei e tentei me entregar ao sono, mas a melodia da música First Time Ever I Saw Your Face não saia da minha cabeça. Eu simplesmente não conseguia entender como uma pessoa que foi tão sensível ao escrever uma carta tão linda como aquela poderia ser a mesma pessoa que tinha apunhalado seus amigos e companheiros de banda pelas costas, além de ter me traído com uma víbora manipuladora como a Bia. Isto tudo está muito errado! Nós estávamos prestes a voltar para o Brasil e o Tim continuaria ali, fazendo parte de uma banda com a qual não tinha nenhuma história, que não tinha dividido nenhuma conquista e cujo nome era apenas a letra inicial de cada integrante. Eu quase ri com a breguice daquilo, mas se eu tivesse rido, seria uma risada amarga, de despeito. Eu fechei meus olhos e fiquei lembrando das musiquinhas que ele inventava com o som de sua boca, lembrando do jeito que ele me olhava e me fazia sentir como a mulher mais linda do mundo, da forma que ele me beijava e fazia com que eu me esquecesse de todos os problemas do


mundo, de como eu sentia minha pele febril quando ele simplesmente me tocava, da força que ele me deu todas as vezes que eu subi ao palco e percebi que não tinha coragem suficiente para cantar sozinha. Então minha mente me mandou esquecer tudo aquilo, pois não passaram de mentiras cruéis criadas por um homem sem coração. E o sono me envolveu e me levou a um mundo onde tudo era lindo e ninguém sofria por um coração partido. Na manhã seguinte eu desci para tomar café e encontrei queijos, presunto, patês e pães esplhados pela mesa, assim como uma jarra com suco de laranja e um bule com café, mas ninguém estava na cozinha. Eu fui até a sala e os

encontrei

cochichando,

enquanto

olhavam

para

a

televisão. - Bom dia! O que estão fazendo? – eu perguntei e os fiz pular de susto. - Bom dia, Vivi! – eles disseram, sem responder minha pergunta. - E então? - Não estamos fazendo nada, só estávamos assistindo televisão. – eu olhei para a televisão e os encontrei assistindo um canal rural. - Estão pensando em comprar cavalos, é?


P á g i n a | 384

- Não, só estávamos admirando os animais – O Ric disse mais rápido do que o normal, e eu percebi que eles estavam mentindo. - Eu não vou cair nessa, podem abrir o jogo! – eu disse e eles pareceram aflitos, mas foram salvos pela campainha. Eu dei a eles um olhar que dizia “Isso não acabou por aqui”, e então fui atender a porta. Era o Brian! - Bom dia! Que surpresa gostosa! – eu disse. - Bom dia, meu amor! – ele respondeu e me deixou corada. Eu fiz sinal para que ele entrasse e fomos até a sala. Quando os meninos e a Rita viram o Brian, eles pareceram incomodados. - Bom dia, Brian! Por que você não leva a Vivi para tomr café da manhã em algum lugar bem chique e diferente, antes de partirmos? - Não há necessidade! Tem uma bela mesa posta na cozinha, repleta de coisas gostosas. Você já comeu? - Na verdade, já. Eu acordei muito cedo... estou um tanto quando ansioso, então não dormi direito, essa noite. Vivi, será

que

poderíamos

conv....-

mas

a

campainha

o

interrompeu. Eu novamente fui atendê-la, mas quando abri a porta, meus joelhos tremeram de nervoso e eu quase caí. - O que você pensa que está fazendo aqui? - Voltando para casa. – ele disse, e eu percebi que ele estava


carregando suas malas. Será posssível que ele tenha perdido todo juízo? - Nem nos seus melhores sonhos! Cai fora daqui antes que eu chame a polícia. - Mas eu quero que você chame a polícia. Você vai precisar. - O que... – eu disse, confusa, e então o Brian foi até a porta, com um bico do tamanho do mundo, e gritou: - Saia daqui antes que eu quebre todos os seus dentes! - mas a Rita e os meninos se juntaram a nós, disseram para ele se acalmar e em seguida pediram para o Tim entrar. – Como assim, entrar? Vocês estão malucos? Esqueceram tudo que ele nos fez? – eu perguntei, indignada. - Vivi, o Tim tem algo para te contar. Você precisa se acalmar e ouvi-lo. – O Ric me disse. Me acalmar e ouví-lo? Jesus, será que estou tendo um pesadelo? - Não há nada que saia da boca desse traidor que possa me interessar. – eu cuspi minhas palavras com ódio, mas então o Tim se proximou de mim e segurou uma de minhas mãos. - Por favor, Vivi! É algo sério e de seu interesse. - Solte ela agora mesmo! – esbravejou Brian, e o Tim se virou para encará-lo nos olhos. - Não estou aqui para discutir com você. Podemos deixar isso para depois!


P á g i n a | 386

- Mas é muita cara de pau sua, mesmo! - Cara, numa boa... cala a boca e me deixe falar, porque estou começando a ficar irritado. - Cala a boca o car... - mas eu o abracei e disse: - Calma, Brian! Todos estão pedindo para ouvi-lo, então o assunto deve ser realmente sério. Vamos ouvir o que ele tem a dizer, e depois o colocamos daqui pra fora. – o Brian não pareceu gostar muito do que eu disse, mas também não retrucou, então eu continuei a dizer: - Fale logo o quem tem a dizer, Tim. - Eu preciso do seu notebook e de um cabo USB, Vivi! Pode buscar para mim? - Mas que folgado, ora essa! – eu reclamei, enquanto subia para buscar o que ele pediu. Quando desci e entreguei o note ao Tim, ele o abriu e eu prendi o ar, de vergonha: eu tinha esquecido de fechar a carta que ele havia me mandado, então quando ele ligou o notebook, as primeiras coisas que apareceram foram as frases românticas que ele tinha escrito para mim. Ele me olhou e notei, pela primeira vez em muito tempo, um brilho de satisfação passar por seus olhos. Ele logo minimizou a carta, então não deu tempo de as outras pessoas lerem o que estava escrito, de forma que somente eu e ele compartilhamos aquele momento embaraçoso. Então ele plugou o cabo USB em um aparelho que parecia um gravador digital.


- Agora peço que vocês façam silêncio, por favor. – e então ele deu play no aparelho e a voz da Bia ressoou pela sala. - Tim, cansou de ensaiar? - Não, vim para o meu quarto para relaxar. Estou um pouco estressado.

Você

conhece

alguma

técnica

boa

de

relaxamento? – ele disse com a voz insinuante, e eu comecei a ficar mais irritada do que já estava. - Na verdade, conheço várias. Podemos começar com uma massagem. Tire a camiseta! – e então houve pouco mais de um minuto de silêncio, porque aparentemente ele estava se despindo e ela estava se preparando para dar o bote. - Nossa, sua pele é tão macia! – ela disse, e só de pensar naquela jararaca colocando as mãos nele, senti meus punhos se fechando de raiva. Se a Bia estivesse ao meu alcance, com certeza ela levaria dois jebs diretos na cara. - Suas mãos também são muito boas! Assim como você toda! – Ai, que ódio! - Ah, é? Pensei que você só tivesse olhos para a putinha da Vivianne! - Não, não é verdade! Ela tem suas qualidades, mas o que mais admiro em uma mulher é a sagacidade, e a Vivi é muito ingênua para o meu gosto. – Até quando eu terei que ouvir essa tortura? Olhei para o Cadú, angustiada, mas ele fez um sinal para que eu continuasse a ouvir a gravação.


P á g i n a | 388

- Vire! Quero olhar em seus olhos, agora! – ela mandou, antes de prosseguir. – Por que você diz que ela é ingênua? - Porque todo mundo a faz de tonta. Ela sempre foi a coitadinha

para

quem

empurramos

nossos

problemas,

esperando que ela os resolvesse. Sem contar que ela sempre tenta ser amiga de todo mundo, e isso não é um bom sinal para uma pessoa: significa que ela é fraca, que depende muito da opinião alheia. - Tim, estou gostando muito de conhecer esse seu lado. Sabe que concordo com tudo que você está dizendo? - Sei, sim! Você, por outro lado, é totalmente o oposto da Vivi. Você é esperta, sagaz, faz as coisas hoje pensando longe, planejando o dia de amanhã. - Nossa, você está me deixando muito excitada. – e então todos ouvimos um barulho que parecia ser de um beijo. Eu olhei para o Tim e ele estava me olhando atentamente. Eu senti meu estômago ir até a boca, de tanto nojo, mas me controlei para não dar a ele o gostinho de me ver mal. Após longos minutos que pareciam horas, o beijo acabou. - Você é incrível! Sabe quando fiquei caidinho por você? - Quando tentei te agarrar no seu quarto que não foi, porque você me dispensou bruscamente. Você bem que merece uns tapinhas por isso. – ele a dispensou? De verdade? - Você pode fazer comigo o que quiser. Eu aceito uns tapinhas de bom grado.


- Bom menino! Mas me diga, quando foi que ficou caidinho por mim? - Quando descobri sua genialidade. Eu nunca achei que você fosse mulher suficiente para sabotar nosso show em Orlando, mas quando percebi que foi você, tirei meu chapéu e aqui estou eu, totalmente aos seus pés. – e ela ficou em silêncio, aparentemente incomodada por ele ter tocado no assunto. – Ah, por que ficou assim tão retraída? Não vai me dizer que não foi você! Porque se não foi, vou ficar muito despontado! Eu sempre gostei de mulheres de atitude, e foi só por isso que te segui até a Bobt’s. – mais alguns segundos de silêncio se passaram, até que finalmente ela disse: - Claro que fui eu! Quem mais seria engenhosa o suficiente para “comprar” alguns técnicos de iluminação e os persuadir a destruir todos equipamentos do show? - Mas e quanto ao som do microfone da Vivi? Como foi que você o cortou na metade do show? - Tim, não há nada que o dinheiro não compre, e a lealdade de uma equipe não é uma exceção. Você mesmo é o maior dos exemplos. Eu não precisei te comprar, mas como você mesmo disse, bastou eu dar o meu golpe de gênio em cima da Rock & Pie para você vir correndo para os meus braços. Não existe nada incorruptível nesse mundo, meu querido. - Aí é que você se engana. Sai de cima de mim, sua piranha! – e então a gravação acabou, e eu fiquei ali, parada, tentando


P á g i n a | 390

assimilar tudo que eu tinha acbdo de ouvir. Então o Tim não me traiu, como eu havia pensdo. Ele não beijou a Bia enquanto estávamos juntos. - Então você saiu da banda para... - Para conseguir provar que a Bia não vale um centavo. Para tentar obter a prova da minha inocência, além de uma prova concreta contra ela para que pudéssemos entregá-la às autoridades. Lembra o que eu te disse na carta? – e de repente tudo ficou claro. - Que você não ia descansar até que eu entendesse que tudo não passou de um mal entendido. - Sim, mas depois acabei descobrindo que não houve um mal entendido, mas sim uma armação. Quando tudo deu errado no show em Orlando, eu tive certeza de que a Bia tinha armado para nós, e quando ela me procurou, no dia seguinte, para me convidar a me juntar a ela na Bobt’s, eu enxerguei aquele convite como uma oportunidade de ouro. Eu só tinha um trunfo contra ela, pois só conhecia uma de suas fraquezas: eu mesmo. E só conquistando a confiança dela eu conseguiria obter sua confissão. – ele disse com uma empolgação de menino, e então o Cadú foi até ele e o abraçou, dando alguns tapinhas em suas costas. - Me desculpe por ter duvidado de você, irmão! Nem temos como te agradecer pelo sacrifício que fez por nós. – em seguida

o

Ric

se

aproximou

dele,

e

o

Tim

ficou


completamente emocionado. - Ric, você não sabe como foi um prazer para mim poder te ver tão bem, tão seguro de si, no show na Times Square. – os dois se olharam como dois cúmplices e o Ric deu alguns tapinhas em suas costas. - Senti sua falta, parceiro! – ele disse ao Tim em uma voz embardaga.

A Rita foi a próxima a abraça-lo, e disse o

quanto ela ficava feliz por ele não ter ido para o “lado negro da força”. - Gabbe, eu sei que ela é sua irmã, mas ela não pode sair impune. Tem que responder por seus atos, de uma forma ou de outra. – o Tim disse ao Gabbe, que ergueu os ombros. - Não esquenta, Tim! Você fez a coisa certa! – e então todos eles olharam para mim, e eu olhei para o Tim, e depois para o Brian, que estava ao meu lado, angustiado. Meu coração disparou, o ar faltou e eu me senti em queda livre, então eu saí correndo, porta a fora, pelas ruas que não sei o nome, em direção a lugar nenhum, apenas tentando organizar meus pensamentos. Se desde o começo eu tivesse acreditado que o Tim não tinha me traído, eu sinto em meu coração que até hoje estaríamos juntos, mas então eu não estaria com o Brian, e ele era tão fofo, tão lindo, tão apaixonado... E eu o amava. Sim, eu amava o Brian! Mas eu era apaixonda por ele como eu era pelo Tim? Não, eu não era. Era só o Tim chegar perto de mim que o ar me faltava, que eu me derretia toda, que meu coração


P á g i n a | 392

disparava, que minhas mãos suavam... e eu o amava, também!

Ai, o que eu faço da minha vida? Como posso

escolher entre dois homens que são tão maravilhosos que acho que eu nem esteja à altura deles? Eu deveria ter ficado só com o Sr. Superbonder, isso sim. Ele não me deixa nem em meus sonhos, ele faz minha pele arder como fogo ao seu mínimo toque, ele... ei, espere aí, Vivi! Use o Sr. Superbonder como critério de desempate! Ele sim é merecedor de uma digna escolha, e seja qual dois dois ele for, será ele quem eu escolherei. Eu voltei até nossa casa em Nova Yorque e encontrei todo mundo na sala, o Brian em estado catatônico, parado no mesmo lugar, e o Tim sentado no sofá, olhando para as próprias mãos, que carregavam o gravador. Eu entrei na sala e todos eles me olharam. - Eu sinto muito por ter saído daquela forma,mas eu estava tendo um ataque de pânico. – eu me expliquei, mas ninguém disse nada, provavelmente ansiosos pelo rumo que a conversa tomaria. - Tim, eu não sei como me desculpar com você. Eu estou envergonhada por tudo que fiz e que disse, mas por outro lado, se tudo isso não tivesse acontecido, eu não estaria com o Brian. – eu olhei para o Brian e ele deu um sorriso to meigo, tão lindo... - Eu entendo, Vivi! Bem, a vida é assim, né? Nem sempre podemos ter tudo que desejamos. – disse um Tim apático. - E não terminei de falar, Tim. Eu tenho uma simples


pergunta para vocês dois, e ela é essencial para eu tomar qualquer tipo de decisão. - Decisão, Vivi? Nós não estamos juntos? – resmungou Brian. - Estamos, Brian, mas você sabe tanto quanto eu que o fantasma do Tim esteve nos rondando por tempo demais. Eu cansei de ficar presa ao pensamento do que poderia ter acontecido e às lembranças do que aconteceu. Preciso fazer uma escolha definitiva. - E qual é a pergunta, Vivi? – perguntou Tim, ansiosamente. - Qual a fantasia que vocês usaram na festa da Carly Anne? E não adianta negarem porque sei que os dois foram até lá. – os dois se entreolharam desafiadoramente, até que o Brian disse: - Eu fui vestido de mágico. – e senti um misto de sentimento: o desapontamento e a ansiedade. - Brian, eu...- eu precisava dizer a ele o que eu tanto temia, mas ele percebeu e se apressou a dizer. - O que aconteceu naquela festa que possa ser usado como critério de desempate no dia de hoje, Vivi? O que importa não são as nossas ações, a forma que te tratamos? - Você está certo em partes, Brian, mas a verdade é que eu nunca me senti com você da mesma forma que me senti com o Ciclope!


P á g i n a | 394

- Com o Ciclope, não, Vivi! Comigo! Quando eu te vi, tão linda, tão sexy e aparentemente tão vulnerável, dançando sozinha no meio das sombras, eu não consegui me conter, eu sabia que precisava te beijar naquele mesmo segundo! - Então é isso? Você está escolhendo ele ao invés de mim? - Eu sinto muito, Brian! De verdade! Se tivéssemos nos conhecido em outro momento... – e eu comecei a chorar, descontroladamente. – Me desculpe, Brian! Eu te amo, de um certo modo. Hoje eu percebi. Mas eu amo o Tim, também, e ele me escolheu antes de você. Ele me escolheu antes mesmo de eu saber que ele tinha escolhido, e eu devo a ele essa chance. - Se você me ama, como está dizendo, então significa que está confusa. Não tome nenhuma decisão precipitada. - Eu estou confusa, mesmo. Mas eu sei que estou tomando a escolha certa. Eu estou ouvindo meu coração. - Ok, eu vou tentar aceitar sua decisão. – ele disse, com os olhos marejados. – Mas só por um tempo, Vivi. Só por um tempo! – ele frisou. – Sabe por que? Por que eu sei que você será minha. Você só precisa de um tempo para entender. É como eu disse anteriormente: eu nunca vou desistir de você. – e então ele se foi, deixando metade do meu coração em frangalhos. O Tim imediatamente foi até mim e me abraçou. - Calma, minha gatinha! Não fique assim tão angustiada! - Gatinha? Nossa, como é que eu não percebi antes?


- Não estou entendendo! - Só você me chama assim, mais ninguém. Como é que não percebi que você era o Sr. Superbonder? – e ele me olhou intensamente, antes de se afastar e passar as mãos pelo cabelo. - Como assim, Sr. Superbonder? O Cadú te falou alguma coisa? - O Cadú... hãn? - O Cadú é a única pessoa que sabe sobre esses sonhos estranhos que eu tive. Eu passei noites sonhando com você, mas você não podia me ver, então me chamav de ... calma aí... você também sonhou com isso? Quero dizer, todas as vezes? - Sim, Tim! Todas as vezes. – e começamos a rir, totalmente intrigados pela surpresa que nossas mentes tinham nos pregado. Como foi que sonhamos as mesmas coisas, com total sincronismo, nós jamais poderíamos explicar, mas eu sabia que era coisa do destino. Ou do amor. - Vivi, preciso muito fazer isso... – e então ele me abraçou com muita paixão e me beijou avassaladoramente, com uma fome insaciável que fez com que o ambiente da sala subisse uns dez graus. Suas mãos passeavam pelos meus cabelos, pelas minhas costas, pelos meus quadris, e quando eu estava completamente sem fôlego, ele parou de me beijar e prendeu


P á g i n a | 396

seus olhos nos meus. Eu achei que ele fosse dizer alguma coisa, mas ele simplesmente me olhava, com os olhos refletindo suas emoções. Aquele silêncio valia mais que mil palavras.


19 – SINFONIA AGRIDOCE.

“Porque é uma sinfonia agridoce, esta vida. Tente fazer finais encaixarem.” Bitter sweet Symphony - The Verve

Eu nem podia acreditar que estava em um avião com destino a São Paulo. Só de pensar que eu dormiria na minha cama, que eu veria a minha família, que eu poderia falar

livremente

a

minha

língua,

eu

ficava

toda

emocionada. Ok, não era só por isso que eu estava emocionada. Eu e o Tim estávamos lado a lado, abraçados, ouvindo Equalize, da Pitt. Sim, eu também já enjoei um pouco, mas quando ouvimos abraçadinhos com a pessoa que amamos, essa música parece outra. O Tim traçou vários beijos do meu ombro até meu pescoço, e começei a sentir um calor inexplicável. -

Tim,

não

me

provoque.

Estamos

em

público!

- Ah, Vivi! Qual o problema de brincarmos só um pouquinho? - ele disse com uma voz deliciosa de menino danado, e o calor cresceu ainda mais. Equalize acabou e começou a tocar Saber amar, dos Paralamas do Sucesso. - Nossa, eu... - Eu sei, você ama essa música! Na verdade, você ama todas


P á g i n a | 398

as músicas deles! - eu ri, mas ele me olhou fixamente por vários segundos, sério.

- Oi que foi? - ele me olhou daquele jeito sério por mais alguns segundos, antes de apertar meu nariz e dizer: - Que tal se formos até o banheiro do avião?- e seu rosto voltou

a

parecer

com

o

de

um

menino

pimentinha.

- Tim, nós somos famosos. As pessoas nos vigiam a cada segundo. Acha que ninguém vai pereceber que entramos juntos em um banheiro e que demoramos uma eternidade para

sair

de

lá?

- Bem, você está certa. Mas só não entendi uma coisa. -

O

que?

- Qual o problema de descobrirem? Você não quer que te vejam

comigo,

é

isso?

- Não é isso, Tim. Aposto que os sites já noticiaram que você foi visto no aeroporto comigo, e sem dúvida devem ter centenas de fotos daquele beijo delicioso que você me deu na fila

de

embarque.

- Você achou aquele beijo delicioso? É porque ainda não provou desse aqui. - e ele me beijou lentamente, mas com uma certa força e movimentos sensuais. Começou a tocar Senhor do Tempo, do Charlie Brown Jr. Ele começou a apertar minhas costas em movimentos aleatórios, então colocou a mão dentro da minha blusa e acariciou minha camisa, me dando arrepios até que eu desse um gemido rouco.


-

Ok,

você

venceu!

Vamos

até

o

banheiro!

- Boa menina! - e eu fui vagarosamente até o toilete, torcendo para ninguém prestar atenção em mim, mas no fundo eu sabia que isso estava fora de cogitação. Logo em seguida o Tim bateu na porta e entrou. Ele mal entrou e já me suspendeu, em um dos cantos da parede. Ele beijou minhas coxas e subiu até o meu triângulo do prazer. Eu mal pude me conter, tive que tampar minha boca para que não me ouvissem. Quando ele parou de me beijar intimamente, ele levantou minha blusa e se afastou um pouco para me observar. - Você está ainda mais bonita, se é que é póssível! E impressionantemente eu te quero mais ainda, se é que é possível! - E eu digo que é possível, sim, porque estava pensando exatamente a mesma coisa em relação a você. - eu disse, enquanto tirava sua camiseta e abria o zíper de sua calça jeans. E nos amamos alí de pé, no banheiro, mais ardentemente

que

nunca.

Quando estávamos voltando para nossas poltronas, senti aquela tontura habitual dos dias que não me alimento direito. -

O

O

Cadú que

notou foi?

e

foi

Está

em se

minha

direção.

sentindo

mal?

- Com toda confusão que rolou nesta manhã, eu acabei nem comendo aeromoça.

nada.

Vou

pedir

Não

umas

bolachinhas se

para

a

preocupe.

- Vivi, se você não se cuidar terá outra crise de anemia.


P á g i n a | 400

- Eu sei, não se preocupe. - e então o Tim parou ao lado do Cadú. -

O

que

foi?

- A Vivi quase desmaiou no corredor. Ela acabou de me dizer que

ainda

não

comeu

nada.

- Pode deixar que eu cuido disso. Tenho alguns bolinhos na minha mochila. - e então ele pegou um de chocolate com baunilha e me deu. Eu devorei em duas bocadas e quase imediatamente

me

senti

melhor.

Após o avião pousar e pegarmos nossas malas, eu e os meninos nos olhamos e nos abraçamos. Com exceção do Tim, que era órfão, os pais de todos estavam nos esperando no corredor a seguir, e assim que o atravessássemos, iríamos cada

um

para

seu

canto.

Claro

que

nos

veríamos

praticamente todos os dias, mas era totalmentediferente da rotina que criamos nos últimos meses, onde acordávamos e dormíamos praticamente juntos. Eu sentiria falta dessa rotina, mas eu também sentia falta da minha mãe, e passar alguns dias ao lado dela era minha prioridade, naquele momento.

O

Cadú

foi

o

primeiro

a

dizer:

- Vou sentir saudades de vocês. Eu sei que vamos continuar nos -

É,

vendo, eu

estava

mas pensando

será a

mesma

diferente. coisa,

Cadú!

- Não se preocupem que em breve faremos outra turnê e aí vocês matarão a saudades dos meus roncos. - o Tim brincou. - Eu tenho é pena da Vivi! - disse Ric.. - E vocês acham que fizemos a coisa certa ao incluir o Gabbe na banda como


nosso -

segundo Com

certeza!

guitarrista? -

eu

disse.

- Claro! - disseram o Cadú e o Tim. - Por que, Ric? Acha que nos precipitamos? - perguntou Rita, que também havia voltado conosco. - Não, eu confesso que me senti aliviado. Afinal, se acontecer algum imprevisto com algum de nós, ele pode nos substituir em qualquer instrumento. - Fato! - eu disse. - Bem, galera... então é isso. Nos vemos depois de amanhã, no ensaio geral. - Ok! Até! - eu disse para todos, antes de me virar para o Tim e dizer - Mas você eu quero ver amanhã. - Por que não hoje? - Porque preciso de um tempo para ficar com a minha mãe. - Então eu vou dormir sozinho? - Acho bom, porque se eu descobrir que dormiu com outra pessoa, corto-lhe a cabeça! Quando cruzamos o corredor, minha mãe abriu um sorriso lindo e eu corri para seus braços. Olhei ao meu redor e vi o Ric com seus pais e o Cadú com sua mãe. O Tim estava indo embora sozinho, e me senti mal por ele. Devia ser muito triste não ter uma família para te receber na volta de uma


P á g i n a | 402

longa viagem. Assim que cheguei em casa fui direto para meu quarto. Joguei minhas malas no meio do caminho e pulei em cima

da

cama.

Ai,

como

minha

cama

é

deliciosa!

- Vivi, é impressionante como as vezes você ainda parece uma garotinha. - Ah, mãe, é que eu estava morrendo de saudades do meu quarto,

da

minha

casa,

das

minhas

coisas...

- Eu imagino que sim, filha! Bom, agora que você está aqui, precisamos ter uma conversa séria. - Aconteceu alguma coisa? - Eu que te pergunto, Vivi! O que é que realmente aconteceu entre você, o Brian e o Tim? Nós passamos a tarde toda conversando, e minha mãe ouviu tudo que eu tinha a dizer, mas ela não abriu a boca para dar sua opinião, e eu achei isso muito estranho. -

Você

acha

que

eu

tomei

a

decisão

errada,

né?

- Não, filha, só estou com medo de que tenha se antecipado, como o Brian mesmo disse. - Mãe, não foi uma decisão fácil, mas eu fiz a escolha que meu coração mandou eu fazer. - Aí é que está o erro, filha. Às vezes o coração nos trai. Mas vamos torcer para que não seja o caso, né? Não pense que eu não goste do Tim, ao contrário, eu o acho uma graça de menino, mas com a vida aprendo que fofura não é tudo. Naquele dia eu passei a tarde e parte da noite


passeando pelos shoppings de sampa, e depois fomos a um restaurante para comer um rodízio de comida japonesa. O cheiro de fritura embrulhou um pouco meu estômago, então resolvi marcar uma consulta com um nutricionista, mas só consegui agendar para a outra semana. Na manhã seguinte a Rita me ligou logo cedo. - Vivi, bom dia! Está aproveitando bem a volta pra casa? - Bom dia, Rita! Estou, sim. Estava precisando de um colo de mãe. - Bem, então aproveite bem, mesmo, porque daqui a duas semanas

vocês

viajarão

novamente.

- Como assim? Viajaremos para onde? - Farão uma turnê pela Europa. Começarão em Portugal, seguirão

para

Espanha,

França,

Alemanha,

Itália

e

encerrarão na Rússia. - Nossa, isso é incrível! - E tem mais: vocês já possuem um novo patrocinador: Frost and Pie, uma nova marca de tortas congeladas. De onde será que eles tiraram a inspiração de colocar esse nome, né? - É, né? De onde será? - Bem, vou ligar para o Gabbe e vou pedir para ele agendar um vôo de forma que vocês cheguem praticamente juntos no aeroporto de Portugal. - Ok! Obrigada pela força, Rita!


P á g i n a | 404

Naquele final de tarde, eu e o Tim fomos passear no parque do Ibirapuera. Confesso que não pude deixar de lembrar do passeio que eu e o Brian demos pelo Central Park, e meu estômago se apertou de tristeza, mas foi só eu olhar para o sorriso do Tim para toda tristeza ir embora. Nós andamos de mãos dadas, demos vários autógrafos, tiramos fotos com alguns fãs e depois fomos para o apartamento do Tim. Nós fizemos amor até a metade da madrugada, e depois dormimos aninhados um no outro. Na manhã seguinte eu estava voltando para a minha casa, quando me dei conta de que o Tim não havia mais dito que me amava. Quer dizer, ele só disse na carta que me deu no meu aniversário, mas pessoalmente, olhando nos meus olhos, ele nunca havia me dito. Mas após refletir melhor sobre o assunto, percebi que eu também não havia dito. Eu só tinha mencionado no dia que terminei com o Brian, mas nem sei se contava, já que eu tinha dito ao Brian que o amava, também. Nossa, que confusão de sentimentos! Assim que entrei em casa, senti o cheiro de pão quentinho que minha mãe devia ter acabado de comprar, e aquele enjôo novamente me pegou desprevenida, mas desta vez foi tão forte que nem deu tempo de correr para o banheiro, acabei vomitando no corredo, mesmo. Minha mãe me viu alí agachada e se apressou na minha direção, mas eu não queria a deixar preocupada, então rapidamente me levantei, mas acho que o "rapidamente" foi um tanto quanto exagerado, porque começei a ver tudo dobrado, e então


desfocado, até que tudo desaparaceesse da minha visão. Quando abri os olhos, encontrei minha mãe sentada na beirada da minha cama, onde eu repousava. - Filha, você se sente melhor? - Um pouco. Ainda estou com um pouco de tontura. - Querida, preciso te perguntar uma coisa: é possível que você esteja grávida? - O quê? – eu praticamente gritei – Mas é claro que não! - Você tem certeza, filha? Porque esses enjôos e esses desmaios me lembram o que eu sentia quando estava grávida de você. – e então Vivi começou a lembrar das vezes que transou

com

Tim.

Nós

tínhamos

usado

camisinha,

definitivamente! E com o Brian... bem, com o Brian também! - Mãe, eu tenho, sim. Usei camisinha em todas relações sexuais que tive. - Então você faz parte do 1% de chance de falha que ela oferece. - Não, mãe! Não pode ser! - Vamos fazer o seguinte: eu vou até a farmácia e compro um teste. - Mas mãe.. eu... não é possível, deve ser algum sintoma da minha anemia.


P á g i n a | 406

- Pode ser, filha. Pode mesmo! Mas sexto sentido de mãe é difícil de se enganar. Meia hora mais tarde, eu estava aguardando os cinco minutos que a bula do teste recomenda para que o resultado fosse preciso, e esses minutos pareceram horas. Fiquei lembrando das vezes que Tim disse que não queria ser pai antes dos quarenta anos, e de como ele é desajeitado com crianças.

Ele

vai

me

odiar!

E

então

ela

pensou

na

possibilidade de o filho ser do Brian. Ela sabia que ele gostava de crianças, porque uma vez ele tinha mencionado que um dia iria querer ter uma dúzia de filhos, e ela riu pelo exagero do comentário. Mas ela não sabia se ele estava preparado para isso, naquele momento. Talvez ele não estivesse, e quando descobrisse, começasse a odiá-la, se é que já não estava odiando. E então ela se deu conta de que em qualquer uma das hipóteses, o Tim acabaria a odiando. Ela sentiu o estômago doer quando o cronômetro do seu celular apitou, anunciando que os cinco minutos de tortura havia acabado. Sua mãe entrou no banheiro onde ela estava, e colocou a mãe em seu ombro: - Coragem, filha! – e então Vivi respirou fundo e conferiu o teste. - Droga! Droga, droga, droga, droga! Droga! - Ai, meu Deus! Não acredito! Eu vou ser avó! Eu sabia! Eu vou ser avó! Uhuuul!


- Mãe, com todo respeito: fica quieta! Como eu não me conformei com o resultado daquele teste, pedi para minha mãe buscar uma dúzia de testes de marcas diversas, mas todas elas davam o mesmo resultado que tanto martelava na minha cabeça: POSITIVO! Eu passei os dois dias seguintes trancada no meu quarto, praticamente em choque. Nas primeiras vezes que o Tim ligou, eu disse a ele que tinha pegado uma espécie de virose e que precisava dedescanso. Minha mãe confirmou minha versão, me dando a oporunidade de refletir melhor sobre o que fazer. O que mais me assustava era o fato de não saber exatamente quem era o pai do bebê que eu carregava dentro de mim. Como você pôde ser tão estúpida, Vivianne? O que deu em você para transar com os dois em um período tão curto de tempo? Esse havia sido um comportamento atípico, e eu estava me sentindo como uma mulher promíscua. No terceiro dia em que eu estava trancada no meu quarto, minha mãe saiu para fazer compras quando a campainha tocou. Ah, não! Só faltava ser o Tim! Eu olhei pelo olho mágico e vi a cabeça do Ric. Respirei alivida e abri a porta. - Meu Deus, você está um caco! Nossa, quase me assustou! - Obrigada pela parte que me toca! Vem, entre logo! Quem foi que te trouxe? - Minha mãe. Ela aproveitou para ir ao mercado que tem aqui perto da sua casa.


P á g i n a | 408

- Ah, ela vai esbarrar com a minha mãe! E então, a que devo o motivo da visita? - Eu vim ver como você estava, ué! Você não apareceu nos dois últimos ensaios da banda, e eu sei que só falta quando está quase morrendo. - Pois é, eu estou com essa... er...virose! - Vivi, você é a pessoa mais preocupada com os outros que eu conheço! Lembra da última vez que pegou virose? - Claro que lembro! Eu fiquei péssima! - Isso mesmo! Tão pésima que nem nos deixou entrar na sua casa, quando fomos te visitar. – e então ele me deu um olhar sagaz, do tipo “Touché!”, ou “Te peguei!”. - Ah, é verdade! Eu não deveria ter te deixado entrar, mas é que estou tão sozinha e estava com tantas saudades... – eu tentei consertar, mas pela cara que ele fez eu logo percebi que não deu certo. - Qual o problema, Vivi? É por causa do Brian? - Não! Quer dizer, talvez... – e ele me olhou no fundo dos olhos, como sempre faz quando quer arrancar a verdade de mim, e eu acabo nunca resistindo e sempre entrego o jogo pra ele. Mas dessa vez, ao invés de ir logo contando, eu comecei a chorar descontroladamente. - Ei, Vivi’s...calma, não fique assim! Shhhhhiiiu, vai passar, seja lá o que for!


- Não, Ric! Dessa vez não vai passar! Eu... eu estou grávida! - O... o que? – ele perguntou, confuso. - Sim, é verdade! Eu estou grávida! E quer saber da maior? Não sei quem é o pai! - Uau! Agora dá para entender o por quê dese cabelo bagunçado e dessas olheiras profundas. Não é a toa que você está um caco – ele brincou, tentando me fazer rir. - Ric, isso não é hora para brincadeiras! - Por que não, Vivi? Eu entendo que não é a melhor hora para isso, já que temos vários compromissos agendados, e entendo também que você e o Tim acabaram de se acertar, mas pense bem... qualquer um deles será um pai maravilhoso, e tenho certeza de que... ops, pensando bem, talvez você tenha um problema mais sério, mesmo. - Um que eu ainda não saiba? - Não sei... bem, é que o Tim não se dá muito bem com crianças. Na verdade, acho que elas o deixam aterrorizado. - Ah, Ric! E se ele foi o pai e não quiser assumir nosso filho? Ou pior, e se o Brian for o pai e não quiser assumir o filho e o Tim também não quiser mais nada comigo? O que será dessa criança? - Não se preocupe, Vivi! Isso provavelmente não acontecerá, mas se serve para te deixar sossegada, eu prometo que nesse


P á g i n a | 410

caso eu assumirei a paternidade! Ok? Ficou mais tranqüila, agora? – e ele me deu um sorriso tão sereno, tão confiante, que eu tive certeza de que ele estava falando sério. E me senti ridícula por estar tão perturbada quanto a criação do meu filho ou da minha filha. Eu seria uma mãe maravilhosa, e isso bastava. Se o pai quisesse assumir, ótimo, senão ele teria “tios” que o fariam se sentir muito amado e muito especial. -

Sim,

fiquei.

E

sabe

por

quê?

Porque

sei

que,

independentemente de quem seja o pai verdadeiro, meu filho terá sempre três presenças masculinas maravilhosas para se espelhar: você, o Cadú e o Gabbe. - Ah, sim! Isso é um fato! - Vocês são os melhores amigos que uma garota poderia ter. - Ah, deixe de ser exagerada! - Ric, quanto a turnê, como estou nas primeiras semanas de gestação, dá para eu viajar tranquilamente. Serão apenas três meses, não é? - Sim, até onde eu saiba, é isso. Mas será que todo agito dos palcos e a pressão dos ensaios não comprometerá a saúde do bebê? - Ah, duvido! De qualquer forma, assim que chegarmos em Lisboa marcarei uma consulta com um obstetra. - Ah, assim que se fala! Nossa prioridade agora é esse pequenino ou essa pequenina que está dentro da sua barriga.


Mas quer saber de uma coisa? Você tem cara de mãe de menino!

- e Vivi se sentiu estranhamente feliz com aquele

comentário. - Sabe, essa é a primeira vez que me imagino como mãe. E seja menino ou menina, eu o amarei demais. - Vivi, quando você contará para o Tim? - Não sei, Ric! O que você acha que devo fazer? - Contar tudo para ele o mais rápido possível.

Naquela noite eu fiqui refletindo sobre tudo que o Ric havia me dito, e percebi que ele estava certo. No dia seguinte eu contaria tudo para o Tim. Senti uma mistura de alívio com apreensão, e decidi descansar e deixar para me preocupar sobre tudo apenas no dia seguinte. Eu me aconcheguei em minha cama e fechei meus olhos, bucando um sono que não vinha de forma alguma. Passaram-se duas horas e alguns minutos desde que havia decidido dormir, mas eu ainda estava acordada, então percebi que eu não irira conseguir dormir enquanto não jogasse limpo com meu namorado. Liguei para ele. - Oi, gatinha! – ele disse com a voz rouca de quem havia acabado de ser acordado - Que bom que me ligou. Eu estou louco de saudades.


P á g i n a | 412

- Tim, eu preciso te ver! - Nem fale assim que fico todo arrepiado! Estou louco de vontade de você. Só de pensar... - Não, Tim! Preciso conversar com você. - É algum assunto sério? - Sim! Posso ir até seu apartamento? - Claro! - Então até daqui a pouco.

Em vinte minutos eu já estava na porta do seu prédio, mas me faltava coragem para descer do carro e encará-lo. A verdade é que eu não sabia como começar a conversa. Na minha cabeça, eu fantasiei que eu chegaria lá e diria na lata “eu estou grávida” e ele me pegaria no colo e me giraria, os dois em êxtase de tanta felicidade, mas a realidade seria, sem dúvida, bem diferente. Até porque eu e ele não éramos, por enquanto, os únicos personagens dessa história. Após enrolar por cerca de quinze minutos, resolvi deixar de ser covarde e fui até seu prédio. Assim que o elevador parou no seu andar, ele abriu a porta e encostou no batente, largadamente.Ele estava lindo como sempre, só de cueca e com os cabelos desgrenhados. Sua barba estava por fazer, do jeito que eu tanto gosto. Meu coração bateu mais forte. Bem mais forte!


- Oi! – eu disse. - Oi! – ele respondeu com um olhar preocupado, enquanto ele dava um passo para dentro de seu apartamento para que eu pudesse entrar. Quando eu passava por ele, ele me puxou e me deu um selinho. Ah, se ele soubesse como eu amava sentir sua boca na minha... - Me desculpe por ter vindo a essa hora, mas eu não conseguiria dormir enquanto não conversasse com você. – ele franziu as sobrancelhas, curioso. - Pois então vamos conversar! O que aconteceu, gatinha? - Não é algo fácil de se contar! – e inalei um bocado de ar, tentando aliviar a tensão que eu sentia dentro de mim. - Você está me deixando nervoso! Fale logo! - Tim, eu... eu... - Vivi, não me torture mais. - É que não sei como dizer. Eu...- e uma onde de náusea me atingiu. Corri para o banheiro e vomitei. - Vivi, você não devia ter saído de casa. Você ainda está doente. – aquilo me ofendeu, ainda que houvesse inocência em suas palavras. O que eu tinha dentro de mim, não era uma doença, mas sim um bebezinho. - Tim, eu não estou doente!


P á g i n a | 414

- Como você é teimosa! - Tim, eu não estou doente! – eu repeti, e então me aproximei dele , peguei suas mãos e as segurei nas minhas. Olhei dentro de seus olhos e o encarei por alguns instantes, tentando buscar minhas forças. – Eu estou grávida! – e ele soltou minhas mãos. Ele chacoalhou a cabeça e passou a mão por seus cabelos. - Isso não tem graça, Vivi! - Não, não tem! Eu jamais brincaria com isso! - Não,não pode ser! Nós usamos camisinha! - Usamos! - Então como você está grávida? - Tim, eu não sei te explicar... simplesmente aconteceu! - Não, não posso ser pai! - Tim... – eu disse, me aproximando dele e tentando tocar nele para confortá-lo. - Não! – ele esbravejou, se afastando de mim. – Eu não sei lidar com crianças. - Nem eu, mas isso aprenderemos com o tempo. - Não, não, não! Eu não sou o tipo de cara que é um modelo de super pai. Eu sou desligado, desatento, confuso... - Tim, não existem pré-requisitos para ser pai.


- Mas eu não quero ser um! – ele finalmente confessou, aos berros. Uma dor inexplicável me atingiu, mas não pude identificar onde era. Fiquei um tempo sem palavras, e uma inexplicável mágoa se apoderou de mim. - Talvez você não seja! - Hãn? - Eu disse que talvez você não seja. Afinal, eu... er... eu transei com o Brian, também. – e o que eu vi me deixou ainda mais confusa. Parecia que uma espécie de alívio passou por seus olhos. - Só pode ser dele. Nós usamos camisinha! – ele disse em um tom fraco, cansado. Não pude deixar de pensar que ele estava feliz com aquela possibilidade. - Eu e ele também usamos! – eu disse em meu tom mais desagradável. O fato de ele querer que o filho fosse de outra pessoa só serviu para me deixar mais infeliz. - Vivi, você precisa contar para ele. - Vou contar! – eu disse, reprimindo lágrimas de desgosto. - É o melhor que você tem a fazer. - Bom, era só isso que eu tinha para te falar. – e olhei para ele, com um último rastro de esperança de que ele se arrependesse de ter sido tão imbecil e que pedisse desculpas, alegando estar morrendo de raiva pela possibilidade de que o


P á g i n a | 416

Brian fosse o pai, mas ele simplesmente assentiu com a cabeça e olhou para a porta, desejando que eu fosse embora. Eu andei até a porta, mas ele não veio atrás de mim. Decidi tirar a última dúvida que me assombrava. – Você vai continuar na banda, né? - Sim, irei! - Ok! – e então eu fui embora. Alguns dias depois, eu estava no aeroporto de Guarulhos aguardando o horário do meu vôo. Nem parecia que há tão pouco tempo atrás eu estava embarcando para Las Vegas, sonhando com o sucesso da turnê, reclamando das safadezas do Ric, das traquinagens do Cadú e do mau humor do Tim. Era impressionante o fato de que naquela época eu não tinha nenhum motivo real de preocupação. O Ric estava andando, eu estava solteira (não que eu não esteja comprimissada agora. Nem sei mais qual é o meu status de relacionamento. Ainda bem que mal uso o facebook) e não tinha nenhum bebê crescendo dentro de mim. - Vivi, aqui está a àgua que você pediu. - Obrigada, Ric! Os meninos estavam sentados próximo a mim, mas eu não tinha vontade de conversar. Para minha sorte, eles também não estavam afim de muito papo. O Cadú, apesar de ter delirado de felicidade quando descobriu que eu estava grávida, tinha se ressentido do Tim por sua atitude tão


covarde, e o Ric compartilhava da mesma frustração. Os dois estavam sem jeito de conversar comigo, pois sabiam o quanto eu estava magoada, e que não havia nada que eles fizessem que pudesse me fazer sentir melhor. O Tim, por sua vez, só me dirigia palavras monossilábicas, como “Oi, tchau, sim e não”. Ele não havia tocado novamente no assunto da gravidez. Naquela mesma manhã eu havia ligado para o Brian, que atendeu a ligação meio ressabido. Quando eu disse a ele para me encontrar em Lisboa daqui a dois dias porque eu precisava falar com ele, seu tom de voz ficou um tanto quanto mais animado. Na verdade, o quíntuplo do ânimo inicial, e ele disse que remarcaria uma entrevista para que pudéssemos nos encontrar. Eu não tinha a mínima idéia de como ele regiria quando soubesse da minha gravidez, mas já estava preparada para o pior. Afinal, pior que a reação do Tim não poderia ser. Três crianças passaram correndo por nós, e eu não pude deixar de sorrir e colocar a mão em meu ventre. A menina era um tanto quanto gorduchinha, e quando ela viu que eu estava olhando, ela deu um tchauzinho com suas mãos pequeninas. Me senti derretendo toda. Olhei para o Ric e percebi que ele tinha visto a cena, e ele também estava sorrindo. Olhei para o Cadú e ele estava quase cochilando. Novidade! Olhei para o Tim e ele estava me olhando de uma forma estranha, um tanto quanto sombria, para falar a


P á g i n a | 418

verdade. Mas dessa vez eu não me importei, porque eu sabia que em poucos dias eu saberia a verdade, já que a Rita tinha feito questão de agendar um obstetra para mim para daqui a três dias. Eu faria todos os exames necessários e logo descobriria quem é o verdadeiro pai, e independentemente do pai querer assumir a paternidade ou não, aquela criança seria amada e teria tudo que eu pudesse dar a ela. Corrigindo: ela não seria amada. Ela já era! Eu a amava mais do que tudo!

FINAL DO LIVRO 01

Rock & pie  
Rock & pie  
Advertisement