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Elle S.


Uma pessoa que não acredita em nada com vida além de nós, seres da Terra, acompanhada de uma amiga, a qual vive totalmente nas estrelas! E não importa o quão entediante seja, ela sempre te convence à ir nesses programas lunáticos. Perder seu querido sábado para acampar com ela à espera de um cometa. Ora, fique feliz, ele só passa uma vez em cento e cinquenta anos, só há uma chance de vê-lo na vida! Ok, parei. Mas se anime, seu sábado se torna mais surpreendente quando uma nave cai à poucos metros de onde estão. Tomar cuidado com a desculpa de "ser perigoso" não irá convencer sua amiga à sair de perto da nave. Não quando dois aliens foram jogados para fora dela. E veja pelo lado bom, eles não são tão bizarros como são nos filmes.

YepFics


Bem-Vindos Ă  nossa Jornada Estelar.

Mra T NhĂŠ.


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Prefácio Era tão difícil olhar para as estrelas e imaginar que não estávamos sozinhos no universo. Eu simplesmente não conseguia crer em vida alienígena ou qualquer baboseira ufo que essas pessoas faziam questão de gritar por aí. Como os mendigos que lotavam os parques de Nova York jurando que tinham tido contatos de sei lá quantos graus. Várias vezes os encontrei no meu caminho para o trabalho, e a cada vez que os via jurando esses “contatos” mais eu desprezava eles e os seus tão endeusados Ets. Era insano pensar que além da nossa galáxia, do nosso planeta, poderiam existir homenzinhos verdes, de antenas com bolinhas e uma cabeça três vezes maior que a minha. Se eles realmente existissem por que cada um os descrevia de uma forma? Eu realmente não conseguia acreditar que eles existissem. Era absurdo demais para uma pessoa tão racional como eu, aliás, para qualquer pessoa. Para mim, se você acreditasse que existiam milhares de planetas como o nosso e que todos estavam povoados por sociedades altamente desenvolvidas e essa balela toda, você já merecia uma camisa de força. Filmes de Ets eram o ponto alto de minha birra com alienígenas. Céus, o que Spielberg tinha na cabeça quando criou aquele E.T? As crianças poderiam ficar traumatizadas com aquela figura magrela e cabeçuda, enrugada e cor de seilá-o-quê. Eu fiquei traumatizada. Talvez Drew Barrimore também tenha ficado, isso explicaria muito do comportamento dela hoje em dia. E então, de uma hora pra outra tudo aconteceu. Minha tão estimada racionalidade se perdeu. Meu orgulho se foi e eu tive que dar o braço à torcer. Agora eu acreditava em extraterrestres. Agora eu conhecia sua forma, seu jeito, sua constituição. Eu, agora, estava como aqueles homens que eu tanto desprezara. Apenas não estava andando pela praça suja e alardeando o contato que eu tive com o ET. Porque eu realmente tivera. E o meu contato fora mais imediato que o de qualquer um. Agora eu acreditava em ETs, sim. E pior, eu estava insanamente apaixonada por um deles.

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Um Eu deveria ter aprendido depois de tanto tempo. Toda vez que um amigo vinha com um papo como “Vamos, vai ser legal” eu já deveria saber que isso era uma espécie de código pra “eu vou te colocar numa roubada”. Eu conhecia a regra, sabia como acontecia, mas sempre acabava caindo miseravelmente nessa história e acabava participando de programas entediantes e horríveis. Em sua maioria, idéia da minha melhor amiga Adelle. Na Semana anterior, eu tinha acompanhado Adelle para uma convenção de astronomia, certa de que seria legal, exatamente como ela disse que seria. E mais uma vez, eu me decepcionara. Fora maçante e eu não entendera nem a metade do que eles estavam explicando. Talvez um dos fatos que me ajudaram a não entender nada, tenha sido porque eu dormira enquanto um dos palestrantes falava. Mas minha defesa era simples: o cara falava muito baixo e muito devagar, parecia uma canção de ninar, eu simplesmente fiz o que qualquer pessoa na minha situação (arrastada pela melhor amiga para um programa de índio) faria. Dormi. Lembrando desse fato, podia me lembrar do porquê eu estava tão com tensa com as novas palavras de Adelle. Minha amiga queria me levar para mais um de seus programas de fim de semana imperdíveis. Iríamos acampar para ver um cometa raro. Tentei usar todas as minhas desculpas, e eu tinha um repertório bem cheio que sempre vinha a calhar em momentos como esse, mas ela sempre sabia que eram apenas desculpas e me arrastava para onde ela queria, mesmo assim. “Vou ficar na redação até tarde.”, dizia eu. “Não, esquenta, eu ligo avisando que vamos nos atrasar. Passo aí em meia hora.”. Tentava também: “Vou viajar ara visitar meus pais” “Ah, Eles nem estão em casa! Vamos depois, juntas. Mas hoje realmente preciso de você.”. Até mesmo a boa e velha dor de barriga fajuta foi cogitada, mas eu conhecia a amiga que eu tinha e sabia que ela sempre levava um remédio para isso na bolsa, além de um para dor de cabeça, outra de minhas desculpas esfarrapadas. Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes eu tinha me enfiado em qualquer coisa relacionada a estrelas por causa do amor de minha amiga por elas. Não sabia muito sobre elas, mas tinha visto muitas em todos aqueles anos de amizade com Adelle. - Por favor, amiga. – implorei vendo-a colocar uma ou duas peças de roupa do meu armário dentro da mochila em suas mãos, escolhendo algumas e descartando outras. – Adelle... – gemi tentando pela ultima vez, desta vez com uma leve chantagem emocional percebida claramente pelo meu tom de voz, enquanto a via pegar a barraca e a dobrar em várias partes, colocando-a na mochila e socando-a em seguida para que ela realmente coubesse ali. - O que te custa fazer esse favor para a sua amiga mais querida? Ela sabia que aquela frase sempre funcionava comigo. Ela ainda piscava seus olhos brilhantes me deixando numa situação difícil. Adelle sabia que eu nunca a deixaria na mão e era exatamente por isso que sempre me metia naquelas chatices. Ela sabia que o meu senso de lealdade para com ela sempre seria mais forte que qualquer programa chato e maçante que ela ainda insistisse

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para fazermos. - Adelle... Pensei que uma ultima tentativa de argumentação me fizesse parecer que não iria ceder, e quem sabe, convencesse Adelle. - Por favor. É a ultima coisa que eu te peço. Eu sabia que era mentira. Provavelmente a ultima coisa naquela semana, sim, já que estávamos no sábado e ela não teria oportunidade de pedir mais nada. Mas nunca se sabe com Adelle, ela bem poderia arranjar mais alguma coisa pra pedir no caminho. Desde que nos conhecemos eu nunca consegui negar nada a ela e dessa vez não era diferente. Por isso peguei a mochila e entrei contrariada no pequeno carro prateado de Adelle refletindo sobre meus possíveis programas de sábado à noite. Eu não teria nenhum lugar realmente legal para ir, talvez apenas me jogasse no sofá quentinho e assistisse a uma reprise de filmes românticos da TV aberta, que passavam todos os sábados. Era uma noite digna de perdedores, mas era bem melhor que passar frio em não sei onde, esperando para ver um cometa. - Acho que vai passar Um Amor Para Recordar na TV hoje. É um dos nossos filmes preferidos, não é. - Alugamos e assistimos amanhã. - respondeu ela de pronto. - Humm, Adelle... – chamei depois de um tempinho - E se fizer frio e não tivermos roupas quentes o suficiente? – eu estava sendo chata de propósito. - Kate! - ela gritou, ralhando comigo para depois olhar para mim por alguns instantes e voltando a atenção para a estrada em seguida. - O cometa só passa uma vez a cada cento e cinquenta anos, ou seja, você nunca mais vai ver esse espetáculo lindo das estrelas! Olha a oportunidade que eu estou te dando! Então seja um pouco mais agradecida, amiga. Fiquei tentada a responder "Grande Coisa" para irritá-la ainda mais, mas me contive a pulso, dando um sorriso falso para minha amiga que mesmo sabendo que eu estava fingindo, deu um sorriso de volta, um pouco mais contente. Eu não estava agradecida por passar frio dentro de uma barraca, mas tudo bem, eu faria aquele esforço por ela. - Vai ser legal. Prometo. Eu sabia que não seria lá tão legal quanto ela estava prometendo, na verdade, nem achava que seria legal, mas mesmo assim, contive-me novamente para não dizer nada a ela. Adelle era minha melhor amiga e a única de minhas amigas que não fazia pressão para que eu arranjasse um namorado e nem se incomodava com o fato de eu não ter um. Pensava que Adelle não ligava muito por estar sempre com a cabeça nas nuvens, ou estrelas, como preferir. Morar em Nova York não era uma tarefa muito simples, trabalhando na redação de um dos melhores jornais do mundo e enfrentando toda aquela gente sedenta de luxo e glamour. Eu não gostava da parte festiva e glamurosa, mas fazia parte do meu trabalho. O mais complicado era explicar para os montes de mulheres desesperadas por um marido, que pareciam lotar a cidade, que eu não precisava de um homem para ser feliz. Na realidade, ainda não encontrara nenhum homem que chegasse perto do homem certo para mim. Portanto duvidava que precisasse de um para ter o meu felizes para sempre. Eu era feliz solteira. E duvidava que nesse mundo inteiro existisse esse tal "homem certo". Adelle costumava brincar que seu

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homem perfeito deveria estar em uma outra galáxia para ela não conseguir achá-lo. E mesmo não acreditando em pessoas vivendo em outra galáxia, eu tinha que concordar com ela. Estava difícil encontrar um homem certo nesse mundo. Eu não havia procurado, e nem pensava nisso, mas conhecia muitas pessoas que estavam reclamando pelos cotovelos de tanto procurar e não encontrar. E eu sabia que se elas que quase arranjavam uma lupa gigante para encontrar o Senhor Principe Encantado não tinham achado, não seria eu, que nem ao menos dignava-me ao trabalho de procurar, acharia. - Sabia que esse cometa viaja por todo o espaço sideral? – Adelle falou de uma vez, me fazendo mostrar uma cara surpresa para que ela não percebesse que eu já estava entediada. Ela dissera a mesma coisa desde que o momento que me convidara para esse maldito acampamento. Me surpreendia por não ter nunca ganhado o prêmio de melhor amiga depois das milhares de coisas que eu havia feito por minha amiga. - Chegamos. A brisa do mar bagunçou meus cabelos, enquanto eu descia do carro, carregando a mochila que Adelle tinha preparado para mim. Eu odiava acampar. Eu era simplesmente uma criatura urbana, não tinha nascido para ar livre. Mosquitos, mato, vento na minha cara não faziam parte da minha visão de diversão em acampamento. Só eu sabia o quanto de repelente eu gastara com essas maluquices da minha amiga de planetas, satélites e qualquer coisa mais. Mas por Adelle, eu tinha que passar a noite ao relento pajeando um asteróide, ou o que quer que fosse. Amigas eram para isso, certo? - Eu monto o telescópio e você as barracas. Pode ser? Concordei com ela apenas porque eu não saberia montar o telescópio caro e complicado que ela simplesmente adorava, as vezes mais até do que a mim. E com grande prática dos tempos de escoteira, os tempos mais desgraçados de minha vida e os que me traumatizaram para sempre, me deixando com ódio mortal de toda e qualquer coisa que me lembrasse o ar livre (lembrete mental: agradecer mamãe por ter me colocado naquele suplicio chamado Escoteiras do Amanhã), montei as duas barracas de frente para o mar, mas a uma distância segura, afinal não queríamos acordar à deriva. Mas também não queria montar perto daquele matagal que havia ao fundo. Aquilo não me inspirava nem um pingo de confiança. Poderia ser um ninho de cobra, rato ou mosquitos. O ultimo era o que mais me causava temor, afinal, Adelle não tinha colocado repelente na minha bolsa. E quando notei isso, a minha vontade de ir embora, que já era grande, tomou níveis astronômicos. - O cometa só pode ser visto pelo telescópio. Te contei isso? Ela manipulava aquele telescópio com reverencia e o montava com uma prática que provava a quantidade de vezes que ela montara e desmontara o tal objeto. - Comentou uma ou duas vezes. Trinta. Mas não quis machucar os sentimentos de minha amiga dando o número exato para ela. Adelle sorriu para mim e sentou-se em frente ao telescópio montado com esmero, ajustando sua altura e ângulo. Como percebi que ela não se manifestaria, fui procurar por alguns gravetos para fazermos uma fogueira, assim como eu havia aprendido no odioso Escoteiras do Amanhã. - Onde você vai? - ela perguntou.

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Com certeza Adelle não tinha a menor noção do que fazer em um acampamento. Céus, por que a vida era tão injusta? Se ela gostava tanto de céu aberto e ar fresco no rosto, por que a mãe dela não a colocou para ser escoteira e eu, que nunca gostei de nem ao menos passear no jardim, tive que passar anos e anos me matando naquele maldito lugar. Sem contar os acampamentos de verão adicionais que minha mãe inventava. - Buscar gravetos para fazer uma fogueira. – respondi como se fosse obvio. O que realmente era, já que não tínhamos uma fogueira ainda e a cada segundo parecia estar mais e mais frio. - Ah! - só agora ela pareceu perceber que não tínhamos montado uma ainda. - Ok. Mas não demore, em no máximo dez minutos o cometa aparecerá. - Tudo bem, Adelle, não demorarei. E não demoraria mesmo. Apesar de querer muito não ver o tal cometa. Eu queria dormir na minha linda caminha de lençóis azuis e não dormir em uma barraca fria sob o perigo de ser atacada por um enxame de mosquitos assassinos que me comeriam viva. Ok, talvez não assim, mas bem perto disso. Mas eu tinha plena consciência de que se eu perdesse tal "espetáculo", ela ficaria no mínimo seis semanas sem falar comigo. E eu simplesmente odiava ficar sem falar com ela, porque isso significava que eu tinha que falar com Kate e... Bem, Kate era uma das maiores casamenteiras de todo o estado nova iorquino. Toda semana ela arranjava um encontro para mim com um cara que poderia ser o cara da minha vida. O que é claro que ele não era. Geralmente era apenas mais um anunciante perdedor do jornal. Saí pela praia, indo para perto de algumas vegetações, com todo o cuidado possível, achando dois ou três gravetos. O local que Adelle escolhera era grande, mas não demorei muito para achar os gravetos, havia alguns perto da pequena floresta mais acima e na entrada da floresta achei mais um monte deles. Nos pés de alguns arbustos, um pouco para cima de onde Adelle e eu armáramos nossas barracas também havia bastante deles. Fui empilhando os gravetos que eu encontrava nos braços e quando quase não conseguia mais empilhá-los, voltei para onde havia armado nossas barracas, escutando os berros de Adelle. - Corra, Kate. - ela gritou desesperada com um olho colado ao telescópio, nem ao menos se importando com o fato de eu estar correndo com todos aqueles gravetos pontiagudos em meus braços, espetando minha pele sem parar. Meu Deus, eu já o vejo! Adelle estava empolgada demais, e seu olho não se desgrudava do telescópio. Eu já esperava mesmo que ela fosse monopolizar o objeto. E eu nem ligava muito também, já que eu não queria ver, mesmo assim, olhei para o céu, esperando uma chance de vê-lo a olho nu também, mas já sabendo que seria impossível. Se Adelle dissera que não daria, então não daria. Ela era a entendida em assuntos estrelares. Eu nem ao menos sabia para onde ficava o Cruzeiro do Sul e as Três Marias. E eu achava que Três Marias era apenas uma Girl Band até Adelle me explicar o que elas realmente eram. Mas pela primeira vez na vida, minha amiga estava errada. Eu podia ver algo brilhante cortando o céu em alta velocidade, quase como uma estrela cadente, mas grande demais para ser uma delas. Mais parecendo... Não, eu não sabia

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com que aquilo se parecia. Luzes brilhavam nele, não como uma estrela, mais como um letreiro luminoso da Times Square, eu não conseguia descrever aquilo de uma forma correta ou que condissesse com ele. Era lindo, chamava a atenção de meus olhos de uma forma muito inédita. Meus olhos estavam fixos naquele objeto cadente, a fumaça que saia dele era clara e fazia desenhos estranhos pelo céu. Pela inclinação do objeto, estava prestes a cair perto de nós. Mesmo sabendo disso, eu não consegui focalizar outra coisa, como o local mais provável onde ele iria cair, ou um lugar onde eu pudesse me esconder com minha amiga. Meu coração estava disparado de medo e encanto. Aquele objeto caindo em nossa direção era brilhante demais para que eu não pudesse ficar encantada com ele. Quanto mais perto de nós ele ficava mais quente o ar parecia ficar, em contrapartida. Dei uma olhada rápida para Adelle que nem olhava mais pelo telescópio. Os olhos dela também acompanhavam a queda do objeto não identificado parecendo tão fascinada quanto eu, ou mais. Nos encolhemos quando ele passou por nós como um feixe de luz enorme e caiu nas árvores que ficavam atrás de nossas barracas, perto de onde eu fora buscar os gravetos. Aquilo não era uma estrela. Menos ainda um cometa. Pensei que fosse um meteorito, ou meteoro, seja lá como chamam aquele treco que caí na Terra de vez em quando. Mas sabia o que aquilo era. Eu já ouvira falar nelas, apesar de achá-las apenas mais uma besteira. Eu tinha medo de pensar que eu estivesse errada. Não era momento para pânico. Eu precisava ser racional. Aquilo não poderia ser o que eu estava pensando que fosse. Não poderia ser. Era uma... Nave. Mas naves espaciais não existiam, certo? Errado. Elas existiam e uma delas acabara de cair atrás das árvores acima de nós, onde agora saía uma fumaça estranha, mais escura do que quando ele estava caindo. Olhei para Adelle que olhava para o céu estática, sem saber o que dizer a mim. Claro que ela gostaria de dar uma resposta daquelas bem mirabolantes mostrando tudo o que sabia sobre o assunto. Ela nunca perdia uma chance de mostrar aquilo que sabia. E, pela primeira vez desde que eu a conhecera, ela não soltava uma palavra sequer, parecendo tão encantada que nem ao menos se lembrava de como se articulava as palavras. - Hoje é o dia mais feliz da minha vida! - Adelle soltou de uma vez, exultante, assustando-me enquanto olhava para as árvores, esquecendo-se de seu precioso cometa, seu caro telescópio e tudo o mais. Tínhamos algo maior. Na verdade, ela tinha. E como ela mesma diria, bem mais interessante. - Céus, nem posso acreditar. Eu, Adelle Dupre vi um OVNI pessoalmente. È... Surreal. Boa palavra, Adelle. Era exatamente a que eu estava procurando. Surreal descrevia bem a situação. Afinal, era realmente surreal estar com sua amiga num lugar que você nem ao menos gostaria de estar e de repente é surpreendida por um treco estranho e mais brilhante do que os anúncios da Times Square caindo perto de você.

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Olhei em volta, preocupada com ao local em que estávamos. Os animais poderiam ficar agitados com o barulho e a fumaça e poderiam querer nos atacar. E isso me deixava tensa. Tensa demais na verdade. Eu era uma medrosa. Não tinha problemas em assumir isso. Apesar de ser uma das pessoas mais racionais já conhecida, eu sabia que a covardia era um dos meus maiores defeitos. E esse defeito estava me deixando com as pernas bambas no momento. - Eu não acredito, não acredito! Cara, eu estou tão excitada! Uau! Se Adelle não falasse, eu nunca adivinharia. Ela estava prestes a pular de animação. E ela realmente fizera aquilo mesmo, pulando quase em cima de seu precioso telescópio. Fiquei assombrada quando ela pisou num dos pés do telescópio quase derrubando o equipamento. Ela estava realmente fora de si. E era uma das poucas vezes que eu via Adelle naquele estado. Ela geralmente era bem empolgada com tudo, mas era muito raro ver ela quase explodindo de contentamento. - Não vejo a hora de contar a todos. Mais uma história incrível de nossos passeios, hein, Kate? Eu sorri levemente, deixando um pouco a tensão de lado enquanto me lembrava de uma frase que dizia que os amigos conheciam todas as nossas histórias, mas apenas os melhores amigos participavam das aventuras por trás dessas histórias. Adelle e eu éramos melhores amigas há mais tempo do que eu conseguia me lembrar. E desde esse “antes que eu possa me lembrar” estive com ela em todas as suas grandes aventuras, ou às vezes nem tão grandes assim. No começo foram as montagens de barraca do lado de fora de minha casa para dormirmos sobre as estrelas. Obvio que eu era a favor de uma festa do pijama no meu quarto com chocolates e travesseiros fofos. Mas por Adelle, eu arrumava a barraca e dormíamos sobre as estrelas. No colegial as coisas não mudaram tanto, eu era do clube de astronomia por Adelle. Na verdade, nem sabia direito o nome dos outros integrantes do clube, mas freqüentava o lugar, arrastada por Adelle pelos corredores da escola. Hoje já éramos maiores de idade, já tínhamos uma vida estabilizada, ou quase isso. Mas ainda assim, eu acompanhava Adelle onde quer que ela pedisse para eu acompanhá-la. Ás vezes eu tentava escapar, claro. Mas ela e eu sabíamos que eu nunca estaria longe dela por muito tempo. - O que foi, Kate? - Estava pensando nas milhares de vezes que fizemos essas buscas às estrelas juntas. - Essa é a melhor delas, não é? Melhor não. Mas com certeza a mais memorável. Afinal, era a primeira vez que algo caia perto de nós, e com grande possibilidade de ser um... Eu não gostava nem de pensar na palavra. - Eu... - Claro que é. Fala sério, quando veríamos um OVNI pessoalmente? - Numa viagem à NASA? Possivelmente minha sugestão não era muito agradável à Adelle, que me fuzilou com os olhos, para depois esquadrinhar em volta prestando atenção

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nas arvores que formavam a pequena floresta acima de nós. - Eu acho que deveríamos ir lá. Arregalei os olhos para ela perguntando com eles se ela realmente estava falando sério. Esperava com todo o coração que ela não estivesse falando aquilo à serio. Mas pelo modo com que ela apertava as mãos contra o peito, era mais que claro que ela iria para a pequena floresta. Apesar de saber que não devia e que poderiam haver animais perigosos nas arvores. - Não acho prudente. - Pense, Kate. - É exatamente isso que eu estou fazendo, Adelle. Pensando na sua segurança. Ela riu alto, quase se contorcendo, me deixando confusa por instantes. Por que aquela maluca estava rindo? - Como assim “minha segurança”? “Nossa”, querida. Você vai comigo. - Nem pensar. Ela me olhou furiosa. Eu sabia que ela estava brava até demais comigo por negar uma aventura dela, mas eu estava sendo racional, cuidando da segurança de minha melhor amiga. Ela poderia pensar no momento que eu estava tentando arrasar sua diversão, mas eu estava pensando em algo que Adelle nunca pensava. Adelle nunca cogitava a hipótese de algo ser perigoso. Adelle nunca pensava que poderia se machucar atrás de suas estrelas e planetas. Eu sempre pensava nisso. Afinal, eu era a mais medrosa de nós, não era? - Vamos lá, Kate. Por favor, por favor, por favor. Pronto. E lá estava eu quase sendo convencida por Adelle novamente. Mas dessa vez era diferente. Não era para uma daquelas palestras chatas que ela estava me convidando. Não era para mais um daqueles acampamentos idiotas que ela planejava com animação. Era perigoso dessa vez. Iriamos atrás de uma nave ou seja lá o que fosse aquele treco cadente. Eu não estava pronta para ir atrás de uma nave espacial. Eu nem ao menos sabia o que havia dentro da nave especial. Eu estava nervosa apenas de pensar na possibilidade de Adelle dentro daquela floresta desconhecida atrás de um objeto desconhecido. Céus, minha imaginação estava voando com imagens de Adelle e a nave em chamas, além de uma nuvem de mosquitos vindo em sua direção prestes a comê-la. Eu fiquei tensa apenas de imaginar um fato como esse. - O que eu preciso fazer pra te convencer, Kate. - Você tinha dito que era a ultima coisa que iria me pedir hoje. Ela sorriu docemente, como se tivesse realmente dito aquilo só pra me convencer. Eu conhecia Adelle. Ela sempre me passava para trás com a sua conversa de “é a ultima coisa que eu te peço”. - OK... Eu... vou. - Eba! Eba! – ela pulou em círculos à minha volta já tomando o caminho para a floresta, pela areia quando a puxei pelo braço, de volta para perto de mim e olhei fixamente em seus olhos. - Prometa que tomará o máximo de cuidado possível, Adelle. – ela revirou os olhos – Sério, Adelle. Prometa. - Não preciso prometer nada. Você sabe que eu me cuido direitinho.

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Adelle tomou mais uma vez o caminho para as arvores e eu peguei o seu braço mais uma vez, brava por ela não me dar ouvidos. Ela era muito boa nisso, parar de me ouvir. Geralmente, quando eu dava esses ataques de racionalidade excessiva, Adelle fazia ouvidos moucos para mim. E eu realmente odiava quando ela fazia isso. - Adelle Dupre. - Ok, Kate Munnighan, eu prometo que tomarei todo e qualquer cuidado possível. Ok? Se quiser eu já passo repelente daqui, para não ser atacada pelos seus tão temidos pernilongos. - Estou falando sério, Adelle. – eu resmunguei. – Merda. Ela sorriu me abraçando com força de um jeito que provava o quanto éramos amigas. Sorri de volta e nos separamos enquanto Adelle tomava outra vez o caminho para as arvores, desta vez sem eu detê-la. Adelle corria com pressa para o local, como se o tal objeto fosse fugir e saí atrás dela, tendo em vista sempre a fumaça que aparecia no meio da pequena floresta. Mesmo temerosa, segui a minha amiga, até escutar um barulho estranho vindo das arvores, como o de uma porta se abrindo ou qualquer coisa desse tipo. Parei imediatamente com o coração na mão, sentindo algo estranho dentro do meu peito. Como um pressentimento, ou coisa parecida. Não sabia dizer se o pressentimento era bom ou ruim, mas o sentimento estranho ainda apertava meu peito de um jeito estranho. Aconteceria algo e conhecendo Adelle como conhecia, sabia que ela não se cuidaria como tinha me prometido. Mas, por mais estranho que parecesse, meu pressentimento não parecia ter a ver com Adelle, ou até tinha, bem no fundo, o sentimento forte e aterrorizador que estava engasgando-me dizia que minha vida tomaria um rumo diferente assim que eu entrasse naquele bosque. Parei no meio do caminho. Estávamos lidando com algo bem maior. O meu pressentimento era maior do que qualquer um que eu já tivera. A mudança seria maior que qualquer uma que eu já tivera. Que Adelle tivera. Nada nunca mais seria o mesmo depois daquilo. E isso me deixava ainda mais temerosa.

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Dois Meu primeiro pensamento foi gritar Adelle, mas ela corria mais rápido do que eu para que eu pudesse alcançá-la e trazê-la de volta para mim e entrarmos no carro para fugir. Não me orgulhava em dizer que não era nem um pouco corajosa. E naquele momento o resto dela estava findando. Eu quase desmaiara quando tinha avistado o objeto caindo em minha direção e apenas a possibilidade de me ver cara a cara com ele, tê-lo perto demais de mim, estava tornando tudo pior. Adelle notou que eu estava parada e trêmula e lançou um olhar para trás com um olhar perigoso no olhar enquanto perguntava: - Kate, você vem ou não vem? Eu preferia ter dito "Não, vai você!" e corrido desvairadamente de volta para a minha barraca, onde eu me cobriria até a cabeça e tentaria esquecer tudo o que eu havia visto, todas as luzes e a cena do objeto caindo tão perto. Quando Adelle me convidara para dormir ao ar livre, ver as estrelas, era só para ver as estrelas. Nenhum plano a mais. A hipótese de ver homenzinhos verdes estava me deixando nervosa demais. Poderia ser que não haveria nada dentro da nave, poderia ser apenas um pedaço de satélite que tinha caído. Mas satélites não eram tão brilhantes. Eu não poderia me enganar por muito tempo. E isso estava deixando Adelle impaciente, enquanto ela batia o pé contra a areia fofa esperando por mim com a cara mais furiosa que ela poderia fazer. Contrariada pela segunda vez naquela noite e sendo contrariada exatamente pela mesma pessoa, corri pela areia até Adelle e, juntas, corremos para as árvores, nos localizando pela fumaça esbranquiçada que saia por entre as arvores. Enquanto nós andávamos entre as arvores, eu observava tudo ao nosso redor. Minha amiga prestava atenção apenas no ponto fixo onde a fumaça estava saindo. Eu não. Olhava por todas as arvores esperando não encontrar nenhum animal que pudesse nos atacar. E devia confessar, que estava terrivelmente preocupada também de encontrar algum homenzinho verde que nos rendesse pelo caminho. Aquilo seria terrível. E apenas imaginar isso estava me deixando suada. Eu sabia quando estava suando por uma corrida intensa e quando eu estava suando de nervoso e no momento, era puro nervosismo que corria pelas minhas veias me deixando ainda mais aterrorizada. Não foi difícil achar o local onde o sei-lá-o-quê havia caído. Adelle o encontrou seguindo a fumaça, encontrando uma cratera gigante e redonda onde, em cima dela, jazia um objeto indescritível. Eu já vira inúmeras coisas em minha vida, mas nada daquele jeito, nada com aquele material estranho. Enquanto Adelle andava mais para frente, analisando o perímetro, eu analisava o objeto, me recusando a chamar aquilo de nave. Era enorme, prateado e cheio de botões do lado de fora, além de luzes que no momento estavam apagadas, mas que eu sabia o quanto poderiam brilhar. O material era realmente desconhecido, não era inox, menos ainda alumínio, mas parecia algo entre esses dois materiais, entretanto

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mais resistente, já que mesmo com a queda impressionante, o objeto aparentava ter a mesma forma, como se a altura da queda não fosse o suficiente para destruir tal matéria prima. Pensei em descrever aquilo como um globo de espelhos gigante, pelo seu formato e tamanho, apesar de ser mais oval que um globo, mas nem era redondo e, com toda a certeza, aquilo era bem mais interessante do que um globo de espelhos. Globos de espelhos não tinham tantas luzes, e com certeza não eram tão quentes. O calor emanava da cratera, tornando aquele dia frio de novembro quase tão quente como uma tarde de julho. - Uau! – Adelle exclamou se aproximando demais da cratera, quase como se quisesse entrar para poder investigar mais de perto. Detive-a com um braço colocando-a para trás de mim, afinal, nunca se sabia o que poderia ter ali dentro e o que o que haveria ali dentro poderia fazer com ela. E, sinceramente, apesar de desejar ir primeiro e ver se era seguro, eu não era uma pessoa corajosa o suficiente para fazer isso. - Deixe de ser mole, Kate. Não deve ter nada aí dentro. Deve ser apenas uma sonda de inspeção. - Isso não parece ser uma sonda. – respondi, ignorando o insulto e dando uma olhada melhor no objeto, o calor ainda irradiava de lá de dentro, fazendo-me afastar mais dois passos da cratera e olhar para o rosto de Adelle iluminado pelos reflexos do material espelhado da nave, ou qualquer coisa que aquele objeto fosse. Adelle parecia uma criança em uma loja de brinquedos, ela estava bem prestes a pular de emoção e entrar na cratera para agarrar um pedaço da nave para levar como recordação, como eu bem a conhecia. - Vamos embora, isso pode explodir. - Está louca? Não vou embora daqui enquanto não pegar um pedaço disso para levar para casa. – ela resmungou com um sorriso enquanto tentava entrar mais uma vez no buraco em busca de um pedaço do material. Eu não havia dito que ela faria isso? - Adelle! - ralhei - Isso não é uma loja de souvenir, ok? Ela jogou o cabelo brilhante e escuro para trás como se dissesse que não discutiria aquilo comigo mais e desafiou-me entrando dentro da cratera quente e se aproximando da nave com cuidado, virando para trás e fazendo um gesto com a cabeça como se perguntasse se eu iria segui-la. Eu era covarde demais para entrar naquele buraco. Pé no chão demais para fazer uma loucura como aquela. Olhei ao meu redor, procurando mais vestígios da queda para investigar, dando sempre algumas olhadas para Adelle de vez em quando para ter certeza de que ela não estava fazendo nenhuma loucura. Coisa que ela era bem passível de fazer. - Espere até eu postar isso no meu blog... – escutei ela ir dizendo para si mesma enquanto andava calmamente dando a volta no grande objeto, maior que ela e sendo oculta pela mesma, saindo do meu campo de vista e me deixando mais aterrorizada ainda. Será que ela não tinha noção do perigo, meu Deus? Ela se sentia bem se arriscando daquela maneira? Bom, se ela se sentia bom pra ela, para mim aquilo não era nem mesmo um pouquinho bom. Meu coração já estava na boca de tão forte que batia e eu imaginava milhões de cenas onde um serzinho verde com grandes antenas em pé, pulava de

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dentro da nave, atacando Adelle e depois correndo atrás de mim por toda a floresta. Com mais medo ainda, por causa da direção dos meus pensamentos, puxei meu celular do bolso de trás da calça jeans que eu estava vestindo, e dando uma olhada na minha agenda telefônica, me arrependendo em seguida por não ter o número da NASA em minha discagem rápida. Só a pizzaria do Rico, a polícia e Adelle, e no momento nenhum deles poderiam me ajudar. Os policiais não acreditariam em mim e Rico pensaria que eu estava querendo marcar um encontro, na sua mente estranha e cafona. Talvez Adelle ajudasse, já que me pegaria quando eu desmaiasse do mais puro medo, o que não estava tão longe de acontecer. - Kate! O grito dela foi desesperado e ecoou nos meus ouvidos, me fazendo pular dentro da cratera, esqucendo todo o medo que eu alardeava até minutos atrás e tendo todas aquelas imagens malucas desaparecendo de minha mente. A preocupação falava mais alto no momento. Eu sempre ficava desesperada com a hipótese de acontecer alguma coisa à minha melhor amiga. Adelle significava muito para mim, e apesar de eu estar furiosa por ela não escutar minhas recomendações, a preocupação tomava conta de mim de uma maneira impressionante. Corri pela cratera, margeando a nave quase fervente de tão quente que estava e fiz a mesma curva na qual vi Adelle desaparecer, tendo toda a minha atenção ao redor da nave, procurando por ela e enfim a achei. Minha amiga estava abaixada a uma distancia segura da nave, encarando algo que eu não saberia dizer o que era. Parecia ser um corpo, ou melhor, dois corpos. Eles estavam jogados no chão quase como se tivessem sido jogados de dentro dela, ou se tivessem se jogado de dentro dela em desespero. Lembrando-me por alguns segundos da tragédia do World Trade Center deixei que minha mente criasse várias imagens do que poderia ter acontecido, entre essas imagens, os dois corpos sendo atirados de dentro da nave fervente, prestes a explodir. O que era impossível, certo? Minha Nossa! Será que a nave atingira alguém? Era uma possibilidade. Aqueles dois poderiam estar acampando por perto e foram surpreendidos pela nave, afinal ela quase caira em Adelle e eu também. Sim, fazia mais sentido para mim que imaginar que eles estivessem dentro da nave. Temerosa por motivos diversos, andei até Adelle que acariciava o rosto arranhado de um rapaz, procurando por mais algum ferimento exposto. Minha atenção se prendeu no rapaz e nas mãos de Adelle, que o tocavam com cuidado à procura de mais alguma contusão ou coisa assim. - Kate, por favor, dê uma olhada naquele rapaz ali.- chamou ela, tirando minha atenção de seus movimentos e voltando-a para o rapaz ao lado do que ela estava atendendo. Corri para ele de pronto, agachando-me ao seu lado e estiquei uma das mãos com um pouco de temor, tocando o seu pescoço em busca de seus sinais vitais. Sim, ele estava vivo, apenas desacordado. Minha mão ainda estava em seu pescoço, enquanto sentia meu coração bater mais forte e a sensação que me atacara mais cedo, perto das barracas, voltara com força total. Aquele pressentimento conseguira ficar ainda mais forte quando minhas mãos tocaram o homem.

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Escorreguei meus dedos por seu pescoço, chegando à sua mandíbula, enquanto me deixava examinar o seu rosto. Minha mão livre tocou o seu rosto quente, analisando sua boca linda com seus lábios entreabertos. Nunca, em toda a minha vida, eu vira um homem tão bonito na minha frente. Seus cabelos claros eram um convite para os meus dedos e sua boca rosada, me encantara de um jeito diferente de tudo o que eu já havia sentido. Ergui os dedos para tocá-los, mas retive-me. Olhei para Adelle que ainda atendia o rapaz com ela e prestei atenção no mesmo. Tão bonito quanto o que estava ao meu lado, mas com traços mais suaves e uma aparência mais suave, apesar de parecer estar mais machucado do que o que eu atendia. Os seus cabelos também soavam convidativos às mãos, castanhos e suaves. Eles não eram apenas bonitos, eles tinham algo mais. Charme, ou algo que eu não conseguiria identificar. E eu já conhecera muitos modelos de Cuecas Calvin Klein para dizer isso com aquela certeza toda. Aqueles homens eram bonitos demais para serem simples campistas. Mas não era momento de ficar pensando em beleza de caras desacordados, por mais que ela fosse tão esplêndida. Eu tinha que prestar atenção nos ferimentos dele, e era o que eu fazia no momento seguinte, tocando todo o seu corpo, procurando fraturas e ferimentos mais profundos além dos que já estavam expostos. - Eles não são daqui. - disse Adelle baixinho para mim, enquanto eu avaliava criticamente quantos pontos seriam precisos no corte que o de cabelos claros tinha no braço, o corte parecia grave e profundo. Sua sobrancelha também exibia um corte que precisaria de pontos urgentes, o sangue que escorria dele já estava perto de seu nariz. Sangue que limpei com a manga de minha camiseta, cuidando para não machucá-lo mais com o toque. Mas, com certeza, o corte do seu braço era o mais preocupante. Ele tinha algumas queimaduras também, mas nada impossível de se tratar. Olhei para Adelle, depois de minha inspeção, como se perguntasse por que ela dizia aquilo e ela apenas apontou para as roupas que os dois vestiam. Coisa que eu não tinha parado para reparar até então. E isso porque eu havia reparado até demais! Adelle tinha razão. Eles usavam um suéter preto de gola alta, junto com calças pretas e botas da mesma cor. Até aí, nada de diferente, mas o material denunciava-os. A calça parecia ser de couro, mas quando a toquei para verificar isso com mais cuidado percebi que lembrava um jeans misturado com moletom, algo que eu nunca tinha visto antes. A linha que parecia ser lã, presente no suéter, era brilhante e ao tocá-lo, me lembrei do toque da seda, com o seu toque frio e suave. Mas colocando a mão na gola, mais uma vez me lembrei da lã, pelo jeito como o tecido aquecia a minha mão pelo lado de dentro. Nenhum desses tecidos poderia ser misturado, o que me deixou em suspense e mais curiosa ainda. Esses tecidos podiam não se misturar na Terra, mas e em qualquer outro lugar além? Talvez Adelle soubesse. - O que são eles? - perguntei em voz baixa com um pavor incrível de que o tom de minha voz mais alto pudesse acordar os dois homens, acordar quem não se conhecia era tenso demais. E se... Eles fossem perigosos? O medo pior de que eles fossem simplesmente perigosos, seria que eles fossem extraterrestres. Sentia o medo disparar como se fosse um segundo coração, e

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isso dava um gosto amargo em minha boca. A pergunta não saia de minha cabeça, ecoando sem parar me deixando mais e mais tensa. E se eles fossem extraterrestres? - Não sei, mas temos que tirá-los daqui. Eles estão feridos. Mais uma vez Adelle dizia uma coisa que nós duas já sabíamos. Realmente tínhamos que tirá-los de lá de dentro, mas eu não sabia como fazer isso e subi-los cratera acima para levá-los às nossas barracas. - Por que não chamamos uma ambulância? - minha voz agora um pouco mais alta devido ao pânico que estava aumentando. Tinha medo de que aqueles lindos caras acordassem e pudessem nos fazer mal. E se eles nos matassem enquanto tirávamos eles de dentro do buraco? Meu Deus! E se eles nos abduzissem? Sim, isso seria um pouco irracional, já que a nave deles parecia um pouco esmigalhada à nossa frente. Mas e se eles tivessem, sei lá, uma nave de bolso? Olhei para Adelle com o coração nas mãos, temendo que eles fizessem algo contra nós, mas ela parecia calma o suficiente, passando a mão pelo rosto do rapaz ao seu lado. - Adelle... – chamei tensa. – Você tem certeza? - Está com medo de quê, Kate? - E se... – minha racionalidade se esvaia com todo o medo que estava em mim. – E se eles forem perigosos? Tentei não usar a palavra extraterrestre ainda. Assustaria Adelle. Era mais provável que a fascinaria, mas não quis dar sopa ao azar. - Pare de imaginar coisas e me ajude a tirar esse cara daqui. Fiz como Adelle pediu e me obriguei a parar com aquela loucura, ajudando ela a erguer o primeiro cara, o dos cabelos escuros. Segurando as pernas dele, ajudei Adelle a levá-lo morro acima, enquanto ela o segurava pelos ombros. Foi um esforço árduo até que conseguimos chegar do lado de cima da cratera. Quando chegamos às arvores novamente, apoiamos um braço de Adelle no pescoço dele e rodeamos o braço dele à minha cintura, com o mesmo esforço ou talvez menos, conseguimos arrastá-lo por entre às arvores, para perto da areia, deixando-o perto das nossas barracas, onde daríamos a ele um pré atendimento, cuidando dos ferimentos mais expostos que ele estampava. Adelle e eu não entendíamos muito de medicina, mas de primeiros socorros tínhamos pelo menos uma grande noção. Adelle sabia até mesmo dar alguns pontos. Era útil quando nos machucávamos em nossos acampamentos. Geralmente eu que nunca fora uma que prestava muita atenção onde andava e geralmente me ralava ao entrar ou sair da barraca. Graças a Deus nossa caixa de primeiros socorros tinha remédios o suficiente para ajudar os dois rapazes. Tínhamos linha para fazer alguns pontos que eles precisavam e uma pomada para queimaduras, que com certeza o rapaz de cabelos claros precisaria dela. Talvez tivéssemos algumas ataduras e antibióticos também para os seus cortes, mas não tinha certeza da validade desses últimos. Merthiolate era certeza que tínhamos. Eu sempre precisava de um desses. - Vamos colocá-lo dentro da minha barraca, Kate. – pediu Adelle. Com um pouco mais de esforço, conseguimos colocar o cara dentro da barraca em cima do saco de dormir de Adelle. Assim que o corpo dele atingiu o saco macio e fino, ele se mostrou mostrando que logo despertaria o que também

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despertou algo. Meu pânico. De imediato. Adelle sentou-se ao lado do homem, pegando o kit de primeiros socorros debaixo de sua mochila, já separando algumas coisas para usar no momento. - Kate, você vai ter que ir buscar o outro sozinha. - disse minha amiga, enquanto lançava um olhar preocupado para dentro os ferimentos do homem. Ele possuía um corte na sobrancelha bem maior do que o do de cabelos claros e o seu suéter de gola alta estava em terríveis condições, com algumas machas de sangue na altura do peito, onde uma parte rasgada do suéter mostrava um grande corte que ainda sangrava. - Ele acordará em breve e não quero deixá-lo sozinho. Os ferimentos dele parecem mais graves que o do amigo dele. Fiquei tentada a discutir com Adelle, mas não disse nada sabendo que ela não aceitaria os meus argumentos para irmos buscar o segundo homem juntas. Eu tinha quase certeza de que não conseguiria trazer o outro rapaz, sozinha, mas Adelle já passava uma pequena gaze com merthiolate em sua sobrancelha. Enquanto virava as costas e seguia correndo novamente para a grande cratera, eu pensava em mil e uma maneiras de tirar o homem de dentro do buraco sem machucá-lo ainda mais. O meu pavor não era apenas machucá-lo. Eu tinha medo de me machucar também. E se ele fosse realmente um alien que estava apenas esperando eu voltar sozinha para me seqüestrar, me colocando na nave dele e me levando daquela galáxia para um lugar que eu nem ao menos pudesse imaginar? Mesmo com medo, corri pelas arvores ate chegar ao buraco quente, pulando nele em seguida e dando a volta na nave para chegar até o rapaz, assim que me agachei ao lado dele, percebi que ele também estava quase acordando. Com muito custo e inúmeras tentativas, consegui colocá-lo sentado, com as costas apoiada numa das paredes da cratera. Com muito mais esforço do que despendera para colocá-lo sentado, consegui colocá-lo de pé, rodeando seu pescoço com um dos braços e colocando um dos seus braços no meu pescoço e o outro na minha cintura. Tentei ignorar a sensação que parecia tomar conta de mim por sentir o corpo daquele rapaz, ou fosse lá o que ele fosse, tão perto de mim. Não era uma sensação de medo como a que eu sentia mais cedo, meu corpo parecia forte, mais quente e nada tinha a ver com o calor que irradiava da nave. Era um calor que vinha de dentro de mim. Era uma coisa que eu não conseguia nomear. Respirei fundo para pegar fôlego para subi-lo pela cratera, mas também para tentar apagar a sensação que parecia me enfraquecer. Peguei uma das mãos do rapaz para rodeá-lo mais forte para não deixá-lo cair na subida, quando a mão do homem segurou a minha com força, me fazendo encarar seus olhos. Foi uma das sensações mais intensas da minha vida. Meus olhos se fixaram nos dele me fazendo perder o rumo. Seus olhos eram castanhos, tão castanhos como chocolate. Intensos, mas não doces. Eles me deixavam sem ar, perdida, tensa. Mas não de medo. O seu olhar teve o poder de apagar todo o medo que eu sentia até então. Sua mão passava um calor pelo meu corpo que me deixava ainda mais perturbada, sem chão. Algo difícil de controlar, que tomava a minha respiração e me deixava em choque. E por mais que eu temesse o seu toque tão intenso, eu não conseguia retirar a minha mão da

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dele. Eu não tinha força o suficiente para nem ao menos pensar. Não consegui retirar minha mão da dele, nem quando ele retirou o seu braço machucado do meu pescoço, mas ainda mantendo um deles ao redor de minha cintura. Pensei que ele estivesse com tanto medo quanto eu ou estivesse esperando que eu explicasse o que eu estava fazendo, afinal, se eu fosse ele, eu também não gostaria de acordar de pé, rodeado por uma mulher que eu nem ao menos conhecia. Ou talvez, rodeado por uma terráquea que ele desprezasse. Eu nem ao menos sabia se ele ainda queria me abduzir, mas no momento, com aquele mix de sensações, eu não poderia dizer se estava com medo disso ou não. Achei certo explicar a ele o que eu estava tentando fazer, e quem eu era também. - Eu sou Kate Munnighan, eu e minha amiga achamos você e o seu amigo. – ele continuou estático, apenas olhando nos meus olhos como se esperasse mais de minha explicação. Resolvi estender minhas explicações para deixá-lo mais calmo ou qualquer coisa assim - Eu realmente preciso tirar você daqui, não sei se a nave vai explodir ou qualquer coisa que acontece quando uma nave cai. Você precisa ir a um hospital. Seus machucados não parecem letais, mas precisam ser limpos para que não aconteça nada pior, entende? Durante toda a minha explanação, o rapaz não foi capaz de tirar os seus olhos dos meus, como se procurasse uma verdade neles que pudesse dar credibilidade às minhas palavras. Ou ainda como se meus olhos estivessem prendendo os dele, tanto como seus olhos intensos e líquidos como chocolate, puxassem os meus. Depois de alguns minutos mais naquele contato visual, ele olhou em volta do perímetro da nave como que procurando por alguma coisa, no caso, alguém. - O... - O seu amigo? – perguntei de pronto, já entendendo o que ele iria perguntar. Se eu acordasse como ele acordara e não visse Adelle, seria com certeza uma de minhas primeiras perguntas. “Onde a Adelle está?” e depois viria um “Ela está bem?” que eram as perguntas mais importantes para mim. Onde eu estava e o que a pessoa pretendia fazer comigo não eram tão importantes quanto a segurança dela. Talvez aquele cara fosse humano para levar as amizades tão a sério. - O levamos para as nossas barracas. Vamos cuidar de vocês. Estão muito machucados. Mas não se preocupem, chamaremos uma ambulância para vocês assim que tivermos certeza de que não há nada mais grave. Eu disse enquanto ele parava de procurar, voltando os olhos das arvores acima de nós e da grande nave brilhante e encarando-me mais uma vez. Ocorreu a mim, então, que ele não estivesse entendendo o que eu estava falando. O que não me admirava, já que eu falo rápido demais e geralmente as pessoas têm que me perguntar duas ou mais vezes o que eu acabara de dizer. Era uma coisa corriqueira comigo, sempre que eu ficava estressada demais ou nervosa demais, as palavras simplesmente jorravam de minha boca ou se recusavam a sair. Eu já perdera a conta e quantos primeiros encontros eu já havia arruinado com essa péssima mania de falar demais em momentos

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inoportunos quando eu ficava muito insegura ou nervosa. Era normal, mas talvez o cara precisasse de mais um tempo para assimilar o que eu acabara de falar. Ele havia desmaiado e ainda estava um pouco atordoado, eu deveria repetir um pouco mais devagar para ver se o cérebro dele poderia me acompanhar dessa vez. Por isso, disse exatamente o que eu havia dito antes, mas agora pausadamente para que ele entendesse. Ele simplesmente fez um gesto positivo com a cabeça de uma maneira que até me pareceu altiva, arrogante, mas que eu desprezei de cara, deveria ser apenas invenção da minha cabeça, que estava ainda em estado de choque e graça com a mão dele que ainda não saíra de minha cintura. Olhando para o grande barranco cratera acima, pedira para que o rapaz me ajudasse a conduzi-lo morro acima. Ele simplesmente tirara a mão de minha cintura, subindo com a maior facilidade o paredão e chegando do lado de cima mais facilmente que eu, que subira logo atrás e com a respiração intacta, como se aquele não tivera sido esforço nenhum para ele. - Eu posso andar sozinho. Não estou inválido. “Filho de uma mãe!” Foi o primeiro pensamento que surgiu em minha mente depois que ele subiu toda a parede do barranco. Depois veio uma raiva intensa. Se ele podia falar minha língua também, por que me fizera repetir tudo pausadamente como uma idiota? E porque não respondera antes que estava bem o suficiente para subir sozinho, eu não precisaria estar com aquela cara de babaca quando ele subiu a cratera como um verdadeiro alpinista. Eu tinha sido tão simpática, ou pelo menos tentado ser, e ele me responde tão grosseiramente. Tão arrogantemente. Merecia um outro “Filho da mãe” apenas por erguer a sobrancelha machucada daquele jeito tão convencido. Ele lançou um olhar irônico para mim enquanto eu respirava profundamente, com uma mão no peito, pelo esforço da subida e deu uma risadinha, como se soubesse que eu o estava chamando de filho da mãe e estivesse contente com isso. O que era praticamente impossível a não ser que ele lesse pensamentos. O rapaz saiu andando na frente com toda a segurança e com ares de arrogância que me fizeram querer acertar o nariz dele com o meu punho, quis alcançá-lo para mostrar o caminho, mas eu podia ser muito vingativa quando estava com ódio e quis deixá-lo ir na frente para que um animal dos que eu temera mais cedo o atacasse. Ou, que no mínimo, ele se perdesse entre as arvores. Pena que elas não eram muitas para que isso acontecesse, seria um bom castigo para a arrogância daquele metido. - Então Harold está com vocês? - perguntou ele, sem nem ao menos me olhar para fazer isso, continuando à minha frente com seus passos seguros e rumados para o caminho certo, o das nossas barracas. - Do jeito que você diz parece que o capturamos e vamos picá-lo em centenas de pedacinhos pra estudo. Pensei em rir, enquanto imaginava aquele cara à minha frente em milhares de pedacinhos picados por eu mesma, mas não ri alto, controlando a minha raiva, como deveria ser. - Vocês da Terra sempre fazem isso, não duvido que tenham feito mal ao Harold. Não ficaria espantado com mais uma barbárie terrestre. "Prepotente" Pensara comigo mesma. Só porque ele era um alien gostosão

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agora ele achava que estava com aquela moral toda? Da estrela de onde ele viera, ele até podia ter alguma moral, mas comigo não. Assim que terminei meus pensamentos, ele olhou para mim com um sorriso típico de pessoa que se acha, de um verdadeiro convencido que até se orgulha como tal. Quase como se ele tivesse ouvido meus pensamentos mais uma vez, ele deu uma olhada em mim de cima a baixo, por inteiro e isso me empertigou ainda mais. Foi quando me dei de com que estava lidando. Aquele cara que andava em minha frente, me dando toda visão de seu traseiro sexy não era nada mais, nada menos que um dos homenzinhos verdes que eu temera a minha vida toda. Um alien. E mesmo sabendo desse fato, eu não ficara com muito medo, como estava antes de ele acordar. No momento eu estava nervosa. Quase furiosa com o julgamento estapafúrdio que ele fazia do meu planeta. Idiota. - Não sei das pessoas que conheceram por aqui, mas a julgar por você imagino que as do seu planeta não devem ser muito melhores. Seus olhos cor de chocolate faiscavam enquanto se virava para mim, me fazendo parar entre as arvores, agora um pouco mais assustada com o que ele poderia fazer, ele ergueu a sobrancelha para responder ao meu insulto com uma voz monocórdia que mostrava que ele também estava tenso, como eu: - E olha que você ainda nem me conhece, Kate. Ele riu, jogando a cabeça para trás quando viu o meu medo estampado em meus olhos e continuou andando na frente por entre as árvores, me deixando ainda mais com medo. Ele me deixara tremula de medo, de pavor apenas de pensar no que ele poderia fazer comigo. Mas mesmo apavorada, seus olhos cor de chocolate não estavam fixos em mim mais, porém eu ainda podia vê-los em meus pensamentos, sentir toda a sua intensidade e força irradiando. E conforme eu andava de volta às barracas, comecei a pensar com o medo pulsando ainda mais intensamente em mim. O que o tal Harold poderia ter feito à Adelle? Minha amiga não era uma pessoa com grande senso do que poderia ser perigoso ou não e para ela já ter sido atacada, abduzida ou qualquer coisa que aqueles aliens pudessem fazer, não custava nada. Sem tirar Adelle do pensamento, segui o alien até chegarmos às barracas, durante todo o pequeno caminho, ele seguindo com seus passos arrogantes e indiferentes a mim e eu rezando. Para que não fosse abduzida barra morta barra mutilada barra qualquer coisa que aqueles aliens pudessem fazer. E rezando para que estivesse tudo bem com minha melhor amiga. Rezando para que Adelle estivesse bem.

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Três Eu geralmente me preocupava á toa com Adelle. E dessa vez não fora diferente. Eu rezara demais para nada. Perdera as contas de quantas vezes minhas preces à Deus em prol de Adelle foram em vão. Ou Deus as atendeu, não sabia a certo. O que eu sabia, era que mais uma vez, eu me preocupara gratuitamente com minha amiga, pois quando eu e o alien arrogante chegamos às barracas, Quenny estava displicentemente sentada, com o tal Harold à sua frente, gemendo de dor enquanto ela limpava terminava os últimos pontos em sua sobrancelha e aos seus pés jazia o kit de primeiros socorros que ela sempre preparado para alguma emergência. Ela riu de algo que ele estava dizendo ou mais parecia resmungando e eu me aproximei deles com toda a tensão possível empurrando meus ombros para baixo. Não era porque eu estava vendo Adelle a salvo que isso significasse que ela realmente estava bem. Nunca se sabia com Adelle. Literalmente, eu tinha um peso em minhas costas. E, colega, o medo pesava toneladas. Mais toneladas ainda se contarmos que eu estava com medo por mim e Adelle ao mesmo tempo, pois se fossemos analisar o rosto contente de Adelle, alguém tinha que ficar com medo ali. Ela ergueu os olhos para mim, quando fiquei atrás dela e logo viu o cara comigo também, ela sorriu com aquele jeito tão Adelle e voltou os olhos para o curativo que ela colocava na sobrancelha do outro extraterrestre. - Oh! Kate que bom que trouxe o Thomas. Ele precisa de alguns pontos e limpar esses ferimentos urgentemente. Eu já terminei com o Harold, não é? O alien de cabelos escuros que se chamava Harold sorriu para Adelle de um modo delicado e levantou-se com a ajuda dela enquanto eu continuava olhando para Adelle com os olhos quase arregalados. Thomas? Ela já sabia o nome dele! Sim, Adelle era mais rápida do que eu pensava, mesmo. Eu salvara o filho da mãe e ele não me dissera o seu nome, já minha amiga que nem ao menos tinha tocado nele, já sabia até o seu nome. Sem contar as risadinhas que ela e Harold trocavam. Se aquela situação já não fosse surreal demais, eu poderia dizer que eles estavam flertando. O que, falemos sério, era impossível. Harold veio para perto de mim e me cumprimentou com um simpático meneio de cabeça enquanto mantinha uma mão na altura do peito, onde uma atadura estava por cima de seu corte. Desisti de tentar manter um contato não verbal com Adelle e me abaixei perto da fogueira, pegando os galhos que eu deixara cair quando a nave dos dois caíra e passei a separá-los para poder acender a fogueira. - Não temos tempo para isso. - Thomas ou seja lá quem aquele alien metido a besta fosse andou por perto das barracas analisando o local como se procurasse por mais alguém. - Precisamos chamar a Nave Mãe, não temos tempo para ficar brincando de médico e paciente. Precisamos da Nave Mãe. - Sim. - concordou Harold e depois olhou nos olhos de Thomas profundamente, virando o rosto para nós em seguida, como se nos apontasse e depois o olhou com firmeza novamente.

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Não entendi o que estava acontecendo e decidi não prestar muita atenção nisso também. Continuei na separação dos gravetos com todo o cuidado. Era melhor prestar atenção em coisas desimportantes como a fogueira e não nos aliens que estavam perto de mim. Fogueiras eram a minha especialidade no Escoteiras do Amanhã, era a única coisa que eu conseguia fazer sem ninguém gritar comigo. Quando eu montava as barracas sempre vinha alguém me dizer que eu estava montando do lado errado, que a estaca não estava fixa o suficiente ou qualquer coisa assim. Acender uma fogueira não era uma coisa muito difícil. Até Adelle conseguia acender, não que ela gostasse de fazer isso. Era simplesmente separar os gravetos mais secos, fazer uma pilha com eles e acender. Nivel de dificuldade: iniciante. Virei meu rosto para Adelle, certificando-me de que ela estava bem e vi que ela estava mais contente do que se eu tivesse lhe dado um passe grátis para a NASA. E isso porque visitar a NASA era o sonho de sua vida. Ela encarava Thomas e Harold fascinada, intercalando sua atenção entre o rosto de um e de outro e tentando de todas as maneiras manter o seu kit de primeiros socorros equilibrado, mesmo precariamente, em seus joelhos. A conversa silenciosa dos dois a estava deixando cada segundo mais embasbacada e eu senti muita vontade de rir da cara dela. Fiquei tentada a tirar uma foto da expressão que ela estampava, mas achei que seria maldade demais para com minha amiga. Mas sério, bem que ela poderia disfarçar, não é? Não, nem eu mesma conseguia fazer isso. Eu deveria estar prestando atenção nos gravetos menos úmidos para montar a tal fogueira, mas o modo como os olhos de Thomas brilhavam me deixavam hipnotizada. Era algo com que eu nunca havia lidado antes em toda a minha vida. Ele despertava tantas sensações em mim e ao mesmo tempo em que eu não conseguia raciocinar direito. Os gravetos estavam espetando minhas mãos, mas olhar nos olhos de Thomas me deixava anestesiada, me deixava entorpecida. Simplesmente encarar aquela piscina chocolate já trazia todas aquelas situações conflitantes para o meu corpo. Eu e Adelle ainda tínhamos os olhos fixos nos dois quando Thomas virou-se para ela num quase grunhido: - Tudo bem. Pode fazer esses... Pontos. Thomas era tão arrogante! Se ele fosse da Terra, com certeza seria um daqueles caras irritantes e metidos da Nasdaq ou Wall Street. Bem a cara dele mesmo. Com aquele suéter de gola alta, parecendo tão... Tão... Filho da Mãe. Sim, essa era a palavra que mais se encaixava àquele metido. Era obvio que ele não era da Terra. Nem as pessoas da Terra conseguiam ser tão irritantes. Elas tinham um limite. Bem baixo, sabemos. Mas Thomas não tinha esse limite. Ele era arrogante demais, metido demais, irritante demais. Entorpecente e sedutor demais. Não. Foco. Eu tinha que manter o foco. Então voltei minha atenção já bem desfocada, para o planejamento da minha fogueira. Adelle estava tão distraída quanto eu, talvez até mais, e Thomas precisou repetir o que ele havia dito para que ela finalmente pegasse um pedaço de algodão e o embebesse no antisséptico.

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- Sente-se aqui, Thomas. Ele sentou-se no pequeno tronco na frente dela e fechou os olhos já antecipando a dor que sentiria. Ela passou o algodão por cima de seu corte, com todo o cuidado e ele gemeu baixo, rangendo os dentes numa tentativa de segurar qualquer demonstração de dor. Ele era bem capaz de arrancar a mão dela a dentadas, mas não fez isso. Simplesmente ficou lá rangendo os dentes enquanto ela começava a dar alguns pontos em seu supercílio, com todo o cuidado. Thomas apertava as beiradas do tronco com força, mas não soltou mais nenhuma interjeição que pudesse ser considerada de dor. Ele não queria parecer fraco diante de nós. Mais uma mostra do quão convencido ele podia ser. - Quer ajuda com essa fogueira? - Harold me perguntou, sentando-se ao meu lado e separando alguns dos gravetos que estavam mais molhados sem nem ao menos esperar minha resposta. Ergui os olhos para ele, que me olhou intensamente com os mesmos olhos chocolates e dessa vez fora diferente. Os olhos de Harold eram mais doces, mais como chocolate mesmo. Se fossemos comparar realmente os olhos de Harold e Thomas a chocolates, os de Thomas seriam algo como chocolate amargo. Aqueles que a gente adora comer, mas que dá uma vontade absurda de beber água depois. Os de Harold seriam o chocolate ao leite. Doces, suave e que derretem facilmente. Sorri para Harold não sabendo o que falar a ele e lancei um olhar para onde Adelle e Thomas estavam. Ele já estava com um grande curativo na sobrancelha e no momento ela dava dolorosos pontos no corte que ele tinha no braço, já limpo devidamente por Adelle. Meus olhos foram atraídos pelas grandes orbes chocolates de Thomas como se estes possuíssem imas. Ele me olhou de volta tão fixamente que era como se ele pudesse ler qualquer coisa que eu estava pensando, como se ele conhecesse o que havia dentro de mim. Ou talvez, como outra coisa. Como se ele quisesse se comunicar comigo pela minha mente. Abaixei a cabeça, me virando novamente para os galhos no chão à minha frente tentando desesperadamente quebrar aquele contato. Thomas conseguia nublar minha mente sempre tão racional. Em anos ninguém nunca tivera o poder de me desarmar apenas com o olhar. E Thomas conseguia isso. Ele parecia poder ler meus pensamentos, apenas fixando os olhos dele nos meus, era como se ele soubesse exatamente o que se passava pela minha cabeça. Soubesse o que eu precisava, o que eu queria. Irritada com o mixer de sensação que vinha em minha mente quando nossos olhos se encontravam, virei para Harold que também me encarava, dessa vez de uma maneira menos intensa do que Thomas encarava normalmente. Harold sorria para mim com uma expressão divertida no rosto, virou-se para Thomas em seguida, deu uma risadinha e continuou a separar os galhos. Continuei mexendo nos galhos sem realmente vê-los até Harold rir um pouquinho mais alto. Virei-me para ele com minha raiva contida e perguntei entre os dentes: - Qual o problema com ele, hein? - Está molhado. - Harold respondeu erguendo o graveto que ele iria separar, achando que eu estava falando sobre isso. Mas logo percebeu o real assunto. Achei na verdade que ele só estava tentando ganhar tempo antes de dizer o

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que realmente pretendia. - Ah! Thomas? Bem, ele tem que ser assim. Faz parte do que ele é. - O que quer dizer com isso? - perguntei me aproximando de Harold, dessa vez sem temer que ele tirasse uma nave do bolso e me abduzisse. Eu poderia ser bem medrosa, mas meu medo era muito pequeno se comparado à minha curiosidade. Afinal, eu não seria uma boa jornalista se não fosse curiosa. E naquele momento, ela estava à toda, formando inúmeras perguntas em minha mente, perguntas que eu fazia plena questão de travar em minha língua. Eu nem me lembrava mais que estava com medo de nossos novos “amigos” ficarem verdes de repente, tirando aquela pele rosada com um zíper e nos atacarem, matando a gente no processo e deixando os corpos perto da água prontos para serem levados pelas ondas e assim encobrirem o assassinato. Céus, como minha imaginação trabalhava! Harold se aproximou de mim, olhando de canto para Thomas e depois voltouse para mim respondendo baixinho: - Ele não me deixa dizer. Talvez... - ele disse olhando para Thomas que parecia ainda mais carrancudo encarando-nos enquanto Harold abaixava-se mais, fazendo uma pausa estranha e depois levantou a cabeça para Thomas mais uma vez, rindo a plenos pulmões, dizendo em voz alta para que Thomas também pudesse escutar. - Ele queira contar para você ele mesmo. Antes que Thomas pudesse fazer algum comentário mordaz que despejasse toda a fúria que ele tinha nos olhos, Adelle deu um ponto mais repuxado, fazendo o homem dar um gemido mais alto e olhar feio para ela, que ficou vermelha e abaixou a cabeça se desculpando. Não que ela estivesse com medo, conhecendo Quenny como eu conhecia, sabia que aquilo não era medo. Na verdade, duvidava seriamente que ela estivesse com medo de qualquer um dos dois, ou de ambos, quem sabe? Ela parecia cada segundo mais encantada enquanto cuidava dos ferimentos de Thomas. Conhecer outra civilização, de preferência extraterrestre era um dos sonhos da vida de Adelle e conhecer Thomas e Harold devia estar beirando a realização dele. Conhecer ETs estava bem longe do sonho de minha vida. Mas eu não queria pensar nas coisas impossíveis com as quais eu sonhava, por isso terminei de separar os gravetos, arrumando-os em uma pilha grande para poder acender a fogueira. Harold, ao meu lado colocou uma das mãos no curativo extenso de seu ombro e sobrou o local que parecia estar ardendo e imaginando a quantidade de antiséptico que Adelle provavelmente passara no local, estava realmente ardendo. Meus olhos se fixaram no alien ao meu lado, prestando atenção em todas as características do rapaz ao meu lado. Harold era muito bonito e seu jeito simpático e agradável me fizera gostar dele, apesar de todo o temor que percorria em minhas veias. Apenas a palavra alien me deixava aterrorizada. Mas Harold não era bonito o suficiente para manter meus olhos nele por muito tempo. O corpo de Thomas era um ima para os meus olhos. Por mais que eu tentasse mantê-los fixos na fogueira que eu tentava acender, os olhos de Thomas pareciam chamar os meus e fazê-los se encontrar. Mas eu tinha um controle muito bom, fiz questão de manter meus olhos baixos para os galhos empilhados, mas altos o suficiente para ver Adelle andando disfarçadamente

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na direção de Harold, até mesmo chutando pedrinhas para disfarçar que estava indo para perto do alien com outras intenções. Mas a intenção principal ainda me era desconhecida. Harold sorriu para ela e ajudou-a a guardar o resto dos medicamentos dentro da caixa de primeiros socorros. Thomas saiu de perto de Harold e Adelle e ficou bem perto de mim, mal sabendo o quanto meu coração batia forte apenas por tê-lo tão próximo. A mão dele veio para perto de meu ombro como se ele quisesse me tocar para me fazer prestar atenção em algo que ele fosse dizer, mas com Thomas recolheu a mão com rapidez, me deixando órfã apenas de imaginar o contato que estaria por vir. - Não precisa perder tempo acendendo essa fogueira. E perdendo muito tempo, já que está aí há horas e ainda não atendeu. – antes que eu dissesse algo para rebater, ele olhou para Harold com firmeza como se comunicasse com ele pelos pensamentos e depois disse em voz alta, mais como para repetir o que já dissera na mente de Harold. - Precisamos ir. - Pra onde vão? - perguntamos Adelle e eu em uníssono. Geralmente não fazemos essa coisa tão infantil, mas como ambas somos curiosas demais, quando a curiosidade atinge níveis alarmantes, isso acontece. E no momento os níveis alarmantes já tinham sido superados e estavam atingindo o infinito e alem. Não nada a ver com infinito era seguro no momento. - Temos que chamar a nave mãe para nos resgatar da Terra, limpar nossas evidências e a mente de vocês. Ante a resposta de Harold, que fora tão suave e parecera até mesmo que era uma boa coisa, olhamos atônitas para eles e Adelle estava a ponto de chorar de desespero apenas com a possibilidade de esquecer que conhecera pessoalmente dois aliens e vira uma nave espacial quente e de perto. Era mais que óbvio que ela não queria esquecer aquela experiência. Tinha quase certeza de que quando ela chegasse em casa, ela escreveria tudo aquilo em seu caderninho estrelar, aquele que ela tinha desde os oito anos e que eu ajudara a recortar todas as estrelinhas de papel laminado e a escrever com glitter coloridos as palavras “espaço” e “amigas”, caderno esse que Adelle mantinha até hoje anotando as coisas que mais marcavam a vida dela. E com direito a todas as descrições e detalhes possíveis. E depois de conhecer Thomas e Harold e naquelas circunstancias, er a bem capaz que Adelle chegasse em casa já procurando uma caneta e tirando o caderninho estrelar debaixo da cama. Já poderia até ver o número de descrições que ela faria. Eu tinha uma memória absurda para detalhes, mas acho que não conseguiria descrever algumas coisas nem mesmo se eu quisesse. Como por exemplo os cabelos de Thomas. Aquela cor não se encaixava em nenhum padrão que eu já conhecera. Naquelas paletas de tintura que as cabeleireiras entregavam antes de decidirmos a cor exata da tintura, eu tinha certeza de que não existia a matiz dos cabelos dele. Aquela cor era única. Mas como descrevê-la? Loiro acobreado intenso? Não, muito claro. Castanho claro dourado? Também não. Olhei-os brilhando à luz da lua e descobri que perfeito era o que melhor descrevia aqueles cabelos que aparentavam maciez incrível e que pareciam chamar meus dedos para tocá-los.

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- Não podemos deixar que fiquem com memórias nossas em suas mentes, pode ser perigoso demais tanto para nós quanto para vocês mesmo. – Thomas encarou Adelle enquanto falava e sua voz ficou tremula ao perceber que a minha amiga chorava sem parar, derrubando lágrimas sentidas que eram abafadas pelas próprias mãos dela. Aproximei-me para confortá-la, mas congelei onde estava vendo Harold dar um passo à frente e colocar a mão no ombro de Adelle, que levantou o rosto para ele, com uma expressão confusa e depois abriu um sorriso lindo ao notar de quem era a mão em seu ombro. - Sinto muito, mas é necessário. - Eu... Não quero... – ela choramingou, mas as suas palavras não valiam de muita coisa, já que de toda a forma os dois tirariam as nossas memórias por colocá-los em risco. E se nos colocaria tão em risco também, eu até agradecia a eles por tirarem as nossas recordações deles. - Precisamos ir agora. A ARE não demorará a chegar quando souber que a nossa nave caiu no perímetro dela. E, sinceramente, eu não estou com paciência para os agentes da ARE. Fiquei tentada a perguntar o que era a ARE e o que os agentes dela tinham para fazer alguém perder a paciência, não que fazer alguém como Thomas perder a paciência fosse muito impossível, mas Harold também parecia não querer encontrar a ARE, o que me deixou ainda mais curiosa a respeito dela. A pergunta veio na ponta da minha língua mas o olhar repreensivo que Thomas me lançou, fez com que todas as palavras que eu estava para dizer morressem na minha boca. Thomas andou para perto da floresta mais uma vez e olhou com firmeza para Harold e este tirou a mão do ombro de Adelle e deslizou-a pelo seu braço com um sorriso tímido e sentido e segurou a mão dela por alguns minutos. Eu pensei em rir ao ver a pele de Adelle se arrepiar imediatamente ao toque de Harold, mas decidi não fazer isso. Ela já parecia envergonhada o suficiente. Com mais um olhar impaciente para Harold, Thomas demonstrou o quanto estava com pressa, Harold foi para o lado dele, e ambos andaram para as arvores, quando estavam quase entrando na floresta, Harold voltou-se para nós com as ultimas instruções antes de partir: - Não fiquem aqui. Desmontem a barraca e guardem tudo o mais rápido possível, daremos um sinal e assim que o dermos, saiam daqui com a maior velocidade que puderem. Se ficarem aqui serão investigadas pela ARE sobre nós e não sabemos quando a nave nos buscará e poderemos apagar a mente de vocês, por isso é da maior importância que corram daqui para não serem ligadas a nós e se encrencarem. Entenderam? Respondemos que sim, juntas novamente, eu com um tom de voz firme de quem entendera as instruções e as obedeceria assim que as ordens fossem dadas e Adelle com um tom de voz choroso que mostrava que ela bem poderia implorar para que eles ficassem, se Harols passasse maisalguns minutos olhando para ela. O que ele não fez, correndo para onde Thomas estava e entrando acompanhado dele no pequeno bosque. Assim que os dois saíram do nosso campo de visão, eu me preparei para o que viria a seguir. Não que eu fosse vidente ou algo do tipo, apenas conhecia Adelle tempo demais para saber, assim que me virei para ela, que ela estaria com as duas mãos no rosto e formando um “o” fofo com a boca, num indicio

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mais que claro de que ela começaria a gritar em êxtase em não mais que três segundos. Talvez sapateasse também. Era bem óbvio que ela iria fazer aquilo, já que Adelle se empolgava apenas com algumas estrelas e um cometa, eu tinha medo de pensar na verdadeira reação dela por termos sido afortunadas em conhecer dois aliens. Para mim, eu não era nada afortunada. Eu bem preferia ter passado a minha noite assistindo qualquer filme romântico, em especial um dos filmes do Patrick Swayse e aproveitar o calor da minha cama. Preferia muito mais esse programa chato que sentir aquele mixer de sensações mais uma vez. Adelle gritava na minha orelha sem nenhuma piedade de meus tímpanos extravasando toda a sua emoção por conhecer Thomas e Harold e ver uma nave espacial de perto enquanto eu não prestava atenção em nem apenas uma das loucuras que ela esguelava, minha mente estava fixa no redemoinho de pensamentos que rodeavam à minha volta. - Meu Deus! E eles são tão simpáticos. – Adelle disse empolgada quando finalmente prestei atenção em seus gritos histéricos, preocupada com as suas cordas vocais. Meus tímpanos já estavam mais que acostumados com as reações extremas de Adelle. Céus! Se ela já gritava assim pó nada, eu teria medo do momento em que ela fosse dar a luz. O hospital teria que arrumar abafadores para todos os pacientes e junta médica. E como tenho certeza de que Adelle não me deixaria de fora num desses momentos, eu precisaria de dois desses abafadores, quem sabe três. - Harold é simpático. – corrigi Adelle com os olhos fixos nas arvores esperando um sinal deles, ao mesmo tempo em que chutava os gravetos e começava a desmontar as barracas. - Thomas também é. Você só diz isso porque não conversou com ele. Tirei a ultima estaca de minha barraca olhando para ela incrédula. Como se ela tivesse conversado mais que eu. - Ah, Adelle! Fala sério! Ela terminou de amarrar as pernas do tripé do telescópio e olhou para mim com o rosto vermelho, provando que ela estava envergonhada por algum motivo. - Tudo bem, Harold é mais simpático que Thomas. E com essas palavras ela ficou ainda mais vermelha e abaixou a cabeça, cuidado de desmontar o telescópio enquanto eu terminava de desmontar as barracas e guardar tudo dentro do porta-malas. Sempre com os olhos nas arvores mais adiante, continuei desmontando e guardando os utensílios de nosso acampamento. Adelle já tinha terminado de desmontar o seu telescópio e já, inclusive, o tinha guardado, andando atrás de mim falando sem parar por pelo menos um instante enquanto eu ainda trabalhava. - Nossa, e você viu quando eu estava dando pontos nos braços dele... – ela continuou falando mas não prestei muita atenção. Esse era o segredo para lidar com Adelle, não escutar tudo na integra. Isso ajudava muito a nossa amizade a durar tanto tempo. Eu não escutava algumas coisas e ela ignorava o meu mal humor muitas delas. - Jura? - Juro? E parece que o coração deles bate mais forte que o nosso, sabe? Céus!

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Harold é tão divertido! E aquelas roupas, então?! Eu achei que eles ficaram divinos com aquelas golas altas. Não acha? É, eu também acho que preto é a cor perfeita para lês. – ela respondeu a um comentário que eu não fiz e segurei a risada com muito custo. – Kate, você viu aqueles cortes? Estou preocupada se eles saberão trocar os curativos no planeta deles. Será que eles tem um kit de primeiros socorros na nave? - Adelle, já parou para pensar que por um acaso, eles tenham uma cicatrização rápida. - É, pode ser... – ela parou cogitando a minha solução dada apenas para ela colocar uma virgula naquela oração que ela estava fazendo. Se eu não parasse as palavras dela, com certeza ela falaria por muito mais tempo, deixando a minha cabeça ainda mais zonza. - Kate... – ela chamou – Acha que eles vão fazer a gente esquecer? Sabe, eu realmente não queria esquecer que eu encontrei um homem como... Pessoas como... - Adelle. – parei de guardar as coisas no porta malas e me virei para ela pronta para ralhar com ela, mas seus olhos estavam tão brilhantes e preocupados que eu não tive coragem de dizer qualquer coisa mais ofensiva. – OK. Porque não vai ligando o carro? Precisamos ir embora, só precisamos esperar o sinal. Ela assentiu e foi na direção do carro mais contente ainda por eu não estar brava com ela por estar falando demais. Na verdade, Adelle não estava realmente falando comigo. Ela estava mais fazendo um monólogo que qualquer outra coisa. Adelle sempre fora boa com isso, mas ver minha amiga tão empolgada ligou o meu alarme de preocupação. Ela era avoada demais, sonhadora demais, e era minha obrigação como amiga dela cuidar para que ela não se deslumbrasse demais. Olhei para as arvores mais uma vez e vi uma luz verde brilhar por entre as arvores. Fiz um sinal afirmativo com a cabeça, mesmo sabendo que eles não o veriam e antes de me virar para o carro, pronta para seguirmos para longe dali, dei mais uma olhada para as arvores, me certificando de algumas palavras antes de dizer algo para Adelle. - Hey. Não adianta nada ficarmos tão empolgadas. – ela me olhou um pouco confusa, enquanto eu abria a porta do carro e me sentava ao seu lado. – Você mesma sabe que isso foi apenas um contato imediato. Eles não vão voltar, e mesmo se voltarem, até lá eles já terão limpado a nossa mente e não nos lembraremos dele, mesmo se cruzássemos com eles na 5ª Avenida e parássemos olhando. E você sabe disso. Ao contrario do que eu pensei que aconteceria, Adelle não me olhou com lágrimas nos olhos ou ficou emburrada comigo, fazendo biquinho e batendo a porta do carro. Ela simplesmente sorriu e segurou minha mão que estava apoiada no carro com um sorriso radiante que me fez sorrir também. - Pois eu, Kate, acho que vamos nos lembrar deles se olharmos para eles na Times Square, sabia? Eu sou uma pessoa intuitiva e dessa vez minhas intuições me dizem algo. Sentei-me no banco do carona ao lado da minha melhor amiga perguntando a ela o que as suas intuições tanto diziam. Adelle ajeitou-se alegremente diante o volante e ligou o radio deixando uma

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melodia desconhecida para nós soar dentro do carro antes de responder com um sorriso ainda mais radiante. - Minhas intuições me dizem que isso é apenas o começo. E você sabe que minhas intuições não falham, não sabe? Eu sabia. E era exatamente por isso que eu estava tão tensa. Pensar que aquilo era apenas o começo era aterrorizador demais para mim. Dessa vez não por pensar que Thomas e/ou Harold pudessem tirar uma nave do bolso e nos abduzir. Dessa vez porque eu tinha medo do mixer de sentimentos que sempre me invadia toda vez que aqueles olhos castanhos se prendiam nos meus e eu não conseguia ir contra a força daqueles orbes chocolates. Era como se eles me puxassem para Thomas. Exatamente como uma ima que me fazia perder o controle. E isso era o que eu mais temia. Perder o controle. - Confie em mim, Kate. Estou escutando atentamente minhas intuições. - Eu confio em você, Adelle. Ela mudou a marcha para sair da pequena trilha que dava na autoestrada e olhou para mim por alguns momentos antes de entrar na rodovia, como se me olhasse e escutasse algo ao mesmo tempo. - Dessa vez será diferente para nós duas. Minha intuição me diz isso. Conhecer Thomas e Harold foi apenas o inicio dessa diferença. Vem muito mais pela frente. Rezei baixinho para que pela primeira vez desde que eu conhecera Adelle, que ela estivesse errada. Que desta vez não fosse como quando ela dissera que iríamos ficar de recuperação de química e realmente ficamos, ou quando ela disse que eu iria conseguir passar na faculdade com a terceira melhor media e realmente passara. Céus, que dessa vez fosse diferente. Que Adelle estivesse errada. Quase postei minhas mão para Deus entender realmente minhas preces. Pois se ela estivesse certa, o mixer estava apenas começando. E por que algo dentro de mim me dizia que dessa vez não era diferente?

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Quatro Eu estava mesmerizada com a onda de sensações que ainda me assolavam mesmo estando longe de Thomas. Eu não queria sentir aquela avalanche de sensações, mas mesmo assim parecia que isso não era uma coisa que dependesse muito de mim. Eu tentava fazer minha mente voar para outros lugares, como o monte de trabalho que eu teria na redação do jornal naquele fim de ano. Minha mãe costumava dizer muito uma coisa para eu e meu irmão todas as vezes que estávamos com algum problema, ou tínhamos feito alguma coisa errada e íamos chorar na barra de sua saia. Ela sempre nos mandava tirar uma lição valiosa do que acabara de acontecer. E o que eu poderia tirar de todo esse contato imediato que eu e Adelle tivéramos? Com certeza a primeira lição que eu podia tirar com tudo aquilo era que ETs não eram verdes. Eles poderiam muito bem ser gostosos e ter um poder de atração e sensualidade maior do que esperávamos. Mais uma lição? Os olhos de ETs são perigosos, não olhe para eles por muito tempo ou ficará louca achando que uma sensação bem estranha percorra o seu corpo. Olhei para Adelle tentando saber o que ela aprendera com todo o nosso contato, mas não consegui ver nada nos olhos dela que estavam fixos na estrada enquanto Freddie Mercury gritava e gemia em nossos ouvidos, enchendo o carro com sua potente voz fazendo a minha felicidade por alguns momentos. Desde que entráramos na autoestrada, Adelle praticamente não parara de falar por um singelo minuto, enumerando vários momentos “supostamente” preferidos e sempre com um ou dois, ou cento e cinqüenta, comentários fofos e delicados a respeito de Harold. Para a minha suprema felicidade, Radio Gaga era uma das preferidas de Adelle e ela usou sua boca para um fim diferente do que falar sem parar na minha orelha, agora ela cantava a todo volume o refrão, sentindo que era verdadeiramente o próprio Freddie encarnado. No refrão, Adelle pareceu realmente se empolgar e deixei minha cabeça ir mais além, por mais uma vez. As ondas noturnas se movimentavam no mar mais adiante e a luz da luz iluminava as ondas deixando o espetáculo mais lindo que eu já tinha visto. Era um sinal. Tinha que ser. Era um sinal de que tudo estava terminando bem, não era? De que eu estava bem, depois de ter passado por aquele turbilhão de emoções e de que tudo ficaria melhor ainda quando eu pudesse ver as luzes da civilização brilhando nos meus olhos. Apesar de achar que aquele mar imenso iluminado pela lua, uma cena realmente digna de tirar o fôlego, mas no meu coração, as luzes artificiais e sempre brilhantes da cidade, sempre teriam um lugar mais especial que as vistas naturais. A lua pareceu brilhar mais intensa, mudando o rumo dos meus pensamentos, pensando agora na segurança de Thomas e Harold em sua volta para casa. Apesar de não dar razão a Adelle no momento, agora eu pensava nos curativos deles e se eles seriam capazes de trocá-los durante a viagem. E a tal ARE? Essa era o que deixava a minha cabeça em polvorosa, com pânico de que ela pegasse os meus aliens. Na verdade, não meus. Por mais que eu

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estivesse morrendo de medo de Thomas e Harold e sua nave de bolso que alucinava a minha imaginação com cenas aterrorizantes de abdução, eu tinha mais medo ainda que acontecesse algo de mal aos dois aliens bonitões. Deixei minha cabeça tumultuada cair no encosto do banco e fechei os olhos, cansada por toda aquela noite maluca que eu tinha vivido. Uma de minhas musicas favoritas tocava no radio agora, mostrando que a estação em que Adelle colocara estava tocando apenas clássicos. Aerosmith tocava alto enquanto Dream On invadia os meus pensamentos me fazendo cantar a letra que eu sabia de cor, sem muito esforço. As palavras fluíam de meus lábios enquanto os olhos de Thomas dançavam diante de meus olhos fechados. Aquelas Iris castanhas não saiam de minha cabeça e inconscientemente toquei a minha mão sentindo nela, ainda, o calor que sentira mais cedo quando a mão de Thomas a apertara com força. Não era nada. Eu repetia a mim mesma a cada dez segundos que aquilo não era nada. Quem sabe apenas uma reação psicológica e alienígena ao meu contato imediato de sei lá quantos graus. Cantei o refrão mais alto para afastar todos os outros pensamentos de minha cabeça e deixar nela apenas a letra da musica que pedia para sonharmos com tudo. Não, eu já estava sonhando demais desde que eu conhecera aqueles dois aliens. Não poderia dizer que não percebi quando a musica acabou, mas não ligara muito quando no lugar dela começou I’ll Be The One que já era terrível na voz dos Backstreet Boys e conseguira ficar ainda mais terrível com Adelle cantando-a e fazendo os backing vocals ao mesmo tempo. Eram nesses momentos que eu me orgulhava de Adelle. Mas a musica estava muito torturante, por isso resolvi fazê-la parar de cantar e falar. No momento, era mais preferível ouvi-la falar por vinte minutos ininterruptos que ouvi-la cantar Backstreet Boys. - De quantos graus você acha que foi o nosso contato? Adelle parou de prestar atenção na estrada e olhou para mim, como se quisesse se certificar de que eu estava realmente perguntando aquilo. E sim, eu realmente estava, mais para que ela parasse de falar do que para que se eu realmente quisesse saber. Não importava muito saber disso se eu não contaria a história para ninguém. - Acho que terceiro grau, não sei. Nunca estudei essas coisas de graus. – disse ela voltando a atenção para o carro, mas depois de uns segundos, virouse para mim com um sorriso enorme. – Ainda. A partir de hoje a coisa mudou de figura. Ri com ela e tentei entender porque ela parecia mais contente a cada minuto. Aquela felicidade toda me pareceria descabível. Conhecêramos aliens, e daí? Podia até mesmo soltar uma de minhas frases favoritas e dizer “Grande Coisa!”. Ninguém acreditaria na gente mesmo, de que adiantava ficar tão empolgada por ter tido um contato imediato de não importa quantos graus? Ninguém acreditaria em Adelle e eu mesmo! Eu seria muito idiota se chegasse na redação do jornal segunda feira e fizesse a mesma cara que Hannah Muller faz depois de um fim de semana de festas high society e esperar todos me rodearem esperando pela minha inacreditável história de fim de semana. E dessa vez seria inacreditável mesmo. Meu

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testemunho de como eu conhecera um alien estaria fadado a ser uma vergonha no momento em que alguém me perguntasse como ele era e eu fosse dar a minha descrição, que já teria ensaiado algumas vezes na frente do espelho no domingo. “Sabem aqueles caras da Calvin Klein que aparecem de cueca nos outdoors? Então, só que melhores. Mais bonitos, sabem? Com uns olhos cor de chocolate de matar. Vocês precisavam ver...” e eu nem precisaria continuar, porque todos ririam da minha cara e espalhariam por toda Nova York que Kate Munnighan estava ficando louca. O que não seria tão ruim se espantasse os otários que ainda achavam que eu estava louca por um marido. O problema seria só se esse boato se espalhasse além do território nova iorquino, ou eu estaria com sérios problemas com a ala masculina dos Estados Unidos. E não teria nem ao menos umas aventuras ocasionais, se achassem que eu estava louca. Adelle poderia contar o que quisesse para qualquer um que conhecera os extraterrestres sensuais. Ninguém levava Adelle muito a sério com esse papo de estrelas e ufologia, e no trabalho dela as pessoas eram exatamente como ela, em relação a astrologia e astronomia e por isso, ela poderia contar a todos os funcionários e clientela de sua loja de produtos exotéricos que havia tido um contato imediato. Por muitas vezes me perguntei por que Adelle trabalhava naquela loja há tantos anos. Era um desperdício de tempo, pelo menos para mim. Adelle era formada em Arquitetura e Design pela Cornell, assim como eu era formada em Jornalismo pela mesma faculdade. Ambas tínhamos o talento certo para o que escolhêramos para cursar. Mas ao invés de desenvolver o seu talento, como eu fizera, ela escolhera ficar buscando estrelas e juntar o dinheiro de seu salário em empregos alternativos para pagar os seus cursos de astronomia. Sorri de leve ao imaginar Adelle contando às pessoas a sua experiência dessa noite. Era algo natural, sentar-se diante de Adelle e escutar as suas histórias, por mais malucas e inacreditáveis que fossem, por alguns segundos, você até mesmo acreditava nela. Ela simplesmente fala e você se vê viajando nas palavras dela e concordando com tudo o que ela diz, mesmo que não faça sentido nenhum para você. Isso explica de uma forma clara porque eu frequentava todo e qualquer evento relacionado ao espaço sideral. Olhei no relógio que mostrava que já eram quase duas da manhã, enquanto escutava Adelle falar uma das primeiras coisas sérias da noite. - Vamos parar neste posto para abastecer, ok? Estou quase na reserva. – ela disse já estacionando e pegando a bolsa. – E digo isso do meu estômago também. Eu ri enquanto assistia ela entregar a chave de seu charmoso carro para um homem na faixa de 40 anos que se ofereceu para abastecer por ela. Ela correu para a loja de conveniência enquanto eu continuava no mesmo lugar, apenas sem coragem de levantar, enquanto assistia Adelle correr de volta para o carro, agradecendo o rapaz e guardando o cartão de crédito em sua carteira cheia de estrelinhas. Nos despedimos do frentista quando ele entregou a chave e Adelle ligou o carro ao mesmo tempo que colocava vários tubinho de cheetos dentro da boca. O cheiro de queijo encheu o carro e eu ri do jeito que ela comia. Desde

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pequenas Adelle sempre fora alucinada por Cheetos. O seu salgadinho preferido. Ela dirigia e comia ao mesmo tempo, me fazendo agradecer a Deus por só a música que saia do rádio ser o som dentro do carro e não nenhuma cantoria ou falação de Adelle. As luzes de Nova York começaram a se divisar e me arrumei no banco, contente por vislumbrar o começo de minha volta à civilização. Não via a hora de chegar ao meu apartamento, tomar um bom banho para tirar a areia de mim e deitar na minha cama, dormindo por tempo o suficiente para esquecer que eu havia encontrado ETs. Adelle já tinha terminado de comer, e como já era de se esperar, começou a falar. - Sabe, Kate. Vai ter um encontro de iniciantes a astrônomos em dezembro e eu achei que seria legal nós... Ela virou o rosto para mim, para poder fazer mais um pedido para que eu a acompanhasse para aqueles martírios idiotas, quando olhei para frente e gritei fazendo-a colocar o pé no freio com toda a força possível, olhando para o mesmo lugar que eu, ambas sem o que falar, apenas olhando para frente como duas bobas com o queixo caído. Eu estava muito tonta para falar, e consegui ficar ainda pior quando os olhos de Thomas encontraram os meus com firmeza, mesmo através do vidro parcialmente escuro do carro eu conseguia sentir o calor que apenas aquelas íris castanhas eram capazes de me fazer sentir. Meu peito subia e descia com dificuldade pela respiração lenta e pela falta de fôlego que me assolara com o susto. Harold e Thomas estavam à nossa frente. Parecia até mesmo uma cena de um dos meus pesadelos, mas ao olhar para Adelle que sorria contente ao olhar para fora, vi que não era um pesadelo. As mãos de Thomas e Harold apoiadas no capô do carro enquanto eles nos olhavam com firmeza eram reais. Muito reais. Meu coração estava prestes a sair pela boca, enquanto meus olhos voltavam a encarar os de Thomas, com medo e admiração misturados no meu olhar. Mais medo que o resto. Ele parecia perigoso com aquela expressão desgostosa que ele expressava. Parecia bravo com alguma coisa e me alegrei por saber que não era comigo. Ele era o tipo de pessoa que rezamos para que não fique bravo conosco. O tipo de pessoa perigosa demais para lidar. Céus, o meu tipo de cara. O que eu estava dizendo? Não tinha nada a ver. Thomas não era o meu tipo de homem. Era apenas mais uma reação de meu corpo à sua presença alienígena. Apenas isso. - Precisamos de uma carona, Adelle. – Harold disse olhando para ela, com nervosismo, assim como Thomas, mas de um modo mais branco. - Para... Para onde? - Para longe da nave. O mais rápido possível. Assim que Thomas respondeu, Adelle destravou as portas traseiras e os dois correram para dentro do carro, acomodando-se apressados e pedindo para Adelle acelerar o máximo que pudesse. Olhei para Adelle, duvidosa e vi ela colocar o carro em movimento e acelerar,

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aumentando a velocidade de 80 para 120 Km/h, sem pestanejar por nenhum segundo. No radio, mais uma música começava e ouvi Adelle começar a cantá-la a todo volume sem nem ao menos se importar com os dois no banco de trás, como se estivéssemos sozinhas. Bem, era isso eu pensaria se não visse as olhadas de Adelle pelo retrovisor. A música era suave e envolvente e falava sobre não deixar alguém partir, eu nunca a tinha ouvido, mas adorei-a no mesmo instante. Deitei minha cabeça no encosto e minha mão formigou exatamente onde Thomas havia tocado mais cedo, mais uma vez. Me fazendo tocar o local e fechar os olhos. Eu me conhecia. Sabia que se eu não mantivesse os olhos fechados, era muito provável que eu olhasse para Thomas pelo retrovisor, exatamente como Adelle fazia com Harold. Mas era aí que estava minha diferença com Adelle. Eu era mais controlada. Sempre fora. Tudo bem, eu não era tão controlada. Mas conseguia me controlar por mais tempo. E meu tempo terminara, pois não resistira mais a tentação e olhei pelo espelho retrovisor encarando Thomas e pegando-o encarando a mim também, com seus olhos chocolates lindamente voltados para mim e um sorriso incrível em seus lábios. O tipo de sorriso de quem paga milhares de dólares mensais em clareamento a laser. O que é impossível. Não deveria existir clareamento a laser de onde quer que ele viera. - Aonde querem que eu deixe vocês? – Adelle perguntou com atenção fixa na estrada, por alguns minutos deixando o retrovisor livre para meu jogo de olhares com Thomas. - Wyoming. O meu corpo foi arremessado para frente enquanto Adelle freava o carro de uma vez, quase me matando de susto. Ser melhor amiga de Adelle Dupre poderia ser uma tarefa perigosa muitas vezes. Deveria existir um plano de saúde específico para melhores amigas de Adelle Dupre? Não? Deveria. - Vocês realmente são de outro planeta! – ela quase gritou virando o corpo para trás de uma vez. – Como assim Wyoming? Estão loucos? Isso é quase do outro lado do país, sabia? - E isso é longe? Harold também poderia ser bem perigoso fazendo perguntas idiotas com aquele jeito fofo que impedia quem quer que fosse de rebater com uma tirada sarcástica. Adelle não teve forças para resistir a Harold, ficando calada enquanto focava seus olhos nos dele como se estivesse hipnotizada, a tensão em seus ombros sumindo lentamente até ficar invisível e sorrindo para Harold que fizera o mesmo, ambos esquecendo que até minutos antes discutiam sobre a distancia gritante entre Nova York e Wyoming. O sorriso de Adelle aumentou ainda mais e sua mão se colocou nos cabelos, empurrando-os para trás quase como... Quase como se Adelle estivesse flertando. O que era impossível. Adelle não flertaria com um ET. Pelo menos eu esperava que não, mas não se pode ter certeza de nada quando se lida com Adelle. Ela deu um sorriso radiante e eu arregalei os olhos. Sim, era possível. Ela estava flertando. - É bem longe. Não podemos levá-los até lá. Ambas temos trabalho na

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segunda feira e não conseguiríamos fazer uma viagem de carro até Wyoming em apenas um dia. Em três até conseguiríamos, sem muitas paradas. – após minha sensata explicação feita quando percebi que Adelle não responderia nada enquanto os olhos castanhos de Harold continuassem fixos nos dela. Backstreet Boys esguelavam algo sobre o sentido de ficar sozinho enquanto o silencio se instalava no carro. - E o que faremos? – Thomas perguntou perdendo por alguns segundos o seu jeito terrivelmente metido e revelando uma preocupação que me fez o meu corpo reagir estranhamente, como se a preocupação que estava nele ecoasse em mim. – Não podemos ficar com a nave e não temos como chegar a Wyoming. A ARE pode nos pegar a qualquer momento vulneráveis desta forma. Pela expressão de Harold, que voltara, finalmente, o olhar para Thomas, ele com certeza pensava a mesma coisa. Adelle também tirou o olhar deles e encarou-me com compaixão pela situação dos dois aliens que praticamente adotáramos e apreensiva. Eu estava na mesma situação. Meu coração se apertava por não ter nenhuma solução coerente para aquele dilema em que eles se encontravam. Eu queria saber o que era a ARE, mas já imaginava que era algo quase como o MIB ou parecido. Que pegavam os ETs e os estudavam exaustivamente, mutilando e esperando para ver o que acontecia em seguida. Apenas pensar nisso já arrepiou-me inteira e me fez temer ainda mais por Thomas e Harold. - Bem, eu tenho uma solução. Eu abri minha boca olhando para Adelle com o maior temor. Ela não era conhecida por ter as melhores soluções para um problema, por isso me obriguei a respirar fundo enquanto perguntava-lhe qual a genial idéia. - Podemos esconder Thomas e Harold conosco. Se ela não estivesse sorrindo tanto, eu poderia ter xingado à Adelle. Ela parecia ter achado a resposta perfeita, mas para mim isso não parecia tão perfeito. - Como assim? – perguntou Thomas interessado. Antes que eu pudesse chamar Adelle de canto para que pudéssemos conversar melhor sobre isso antes de ela sair dando soluções à torto e à direito, ela explicou aos dois: - É bem simples. Nós escondemos vocês em nossas casas, cada uma fica com um de vocês, e colocamos umas roupas terrestres em vocês, inventamos uma desculpa qualquer e vocês ficam conosco. Eu queria matar Adelle e colocar um epitáfio bem esclarecedor no tumulo dela. Algo como “Por ser uma linguaruda estrelar”. Ela tinha minhocas na cabeça no lugar de neurônios? Só podia ser isso para ela poder sequer cogitar hospedarmos dois aliens, por mais gostosos que fossem, em nossas casas. Eram aliens! - Como o feriado de ação de graças é na sexta, poderíamos aproveitar para levá-los até Wyoming. O que acham? - Por mim tudo bem. Mas devemos ser bem cautelosos para que a ARE nem desconfie que estamos ainda por aqui. Harold concordara efusivamente. Thomas dera de ombros como se não houvesse outra opção. Coisa que estava quase rachando a minha cabeça atrás

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de uma. Deveria haver uma segunda opção.Eu não teria que passar uma semana com Thomas ou Harold. E pela cara de Adelle, com certeza eu teria que passar uma semana com Thomas, agüentando a sua loucura de alien metido. Todos me encaravam no momento como se esperassem a minha resposta para aquilo. Não. Eu não queria passar uma semana com Thomas. Não tinha coragem o suficiente para tal. Passar uma semana com um alien era algo que ninguém em sã consciência diria sim. Tudo bem que Adelle estava quase pulando com a probabilidade de isso acontecer, mas Adelle não era uma pessoa que vivesse sempre em sã consciência. Muito menos nesse momento. Mas como eu rejeitaria isso sendo educada. Por isso inclinei a cabeça, pensativa, tentando pensar em um jeito elegante e educado de dizer não e acabar com aquela loucura toda. Eu pensei em dizer que não tinha quartos extras no meu apartamento. Era válido. Mas Adelle sabia que era mentira. Meu apartamento era pequeno, mas o meu sofá era um dos mais confortáveis que alguém poderia ver. Então era mais que obvio que se eu usasse essa desculpa, Adelle se lembraria do sofá. Pensei em dizer que eu ficaria de plantão no jornal durante todo aquele período, mas era bem capaz de minha melhor amiga pedir que eu levasse Thomas comigo. E essa seria a ultima coisa que eu faria. A expressão “levar bolo em festa” valeria muito bem se eu levasse Thomas para o jornal. As mulheres da redação pareciam estar sempre ovulando e se vissem um homem como Thomas, pouco se importariam se ele era ou não desse planeta. Elas atacavam sem dó. E gostoso como Thomas era, eu apostava que até mesmo as mulheres da diagramação estariam caindo matando no minuto em que Thomas atravessasse a porta do jornal. Minhas desculpas estavam muito ruins, por isso inclinei ainda mais a cabeça para tentar pensar em algo que fosse totalmente irrefutável. Mas Adelle agiu mais rápido abrindo aquela grande boca. - Se a Kate inclinou a cabeça desse jeito isso é um sim. Podem crer. Quais são mesmo as leis para assassinato no estado de Nova York? Era bom que eu me lembrasse delas enquanto esganava minha melhor amiga. Que inferno! Eu não tinha concordado. Mas quando ela ligou o carro mais uma vez, manobrando e saindo do meio as estrada, batendo palminhas toda contente, fiquei com as palavras de negação presas na garganta, vendo ela dirigir mais para o lado direito da estrada. Me joguei no banco como uma adolescente rebelde e mudei a estação do rádio, ouvindo uma banda com guitarras afinadas preencher o silencio com uma musica que me era desconhecida, mas que dizia muito para mim no momento. Por sorte Adelle também não conhecia a tal musica e parecia muito ocupada fazendo planos enquanto dirigia, mantendo o carro no silencio e apenas a voz suave e rouca do vocalista dizendo coisas sobre esquecer tudo o que se sabia e dar uma chance ao futuro. A bateria da musica acalmou as batidas revoltadas do meu coração, me fazendo levar em consideração esquecer tudo o que eu acreditava e dar uma chance aos extraterrestres no banco de trás. Eu precisava de pensamento positivo, pensar em Thomas e Harold apenas como pessoas que precisavam

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de ajuda no momento, vindos Sabe lá de onde. Talvez pensar como primos do Tenessee, quem sabe? Mas era um pouco impossível pensar em Thomas e Harold como os primos do Tenessee de dentes tortos e óculos fundo de garrafa. Recostei-me no banco, mais furiosa ainda enquanto a musica agia dentro do meu ser, me deixando leve. Teria que me lembrar de comprar um CD daquela banda assim que voltássemos para Nova York. E lembrar, também, de escutálo o dia inteiro enquanto estivesse com Thomas. Seria a única chance de me manter relaxada. Não sabia o que tinha na voz rouca daquele vocalista que me lembrava o Springsteen, meu grande ídolo, mas sabia que era ela que eu iria usar para me manter sã ao lado de Thomas. Apenas ao mentalizar o nome dele, minha mão já começou o seu formigamento estranho. Deus, por que eu tinha que reagir daquele jeito àquele homem? Ergui meus olhos para o retrovisor e mais uma vez me vi presa naquela imensidão castanha. Aqueles olhos chocolates operavam uma mágica que me mesmerizava de uma maneira estranhamente boa. Adelle parecia mais contente a cada instante e cogitei dar um soco nela para que ela ficasse quieta. Maldita Adelle que sempre tinha razão. Mil vezes malditos essas suas premonições idiotas que sempre se realizavam. Essas suas intuições babacas que já tinham dito que era só o começo. Eu mesma sentia que era apenas o começo. E era por isso que eu estava me odiando tanto por reagir daquela forma idiota à Thomas sem nem ao menos conhecê-lo. Era só o começo. Se eu conhecia apenas aquela faceta metida e arrogante de Thomas e trocaramos apenas duas ou três frases, sempre muito rascantes, imagine quando ficássemos no mesmo apartamento. Tinha medo apenas de pensar. E eu não me chamava mais Kate Munnighan se aquela história ainda não daria muito pano pra manga, como costumava dizer a minha mãe. Não apenas para mim, mas para Adelle também. Se ela achava que eu não tinha percebido suas trocas de olhares com Harold no banco de trás e seus sorrisinhos tolos quando ele comentava alguma coisa com ela, sobre coisas totalmente sem importância, ela estava muito enganada. E como jornalista, eu sabia que o começo era a parte mais difícil de qualquer história, superada apenas pelo final. E o que se pode esperar de uma historia com dois protagonistas ETs e duas terráqueas que estavam lentamente sucumbindo à atração desses tais alienígenas? Tudo bem que eu não estava tão sucumbida assim. Eu só estava reagindo daquele jeito porque fazia anos que eu não via um cara tão gostoso na minha frente. Pensava até que a ultima vez que eu vira um cara tão gostoso fora quando o jornal me enviara para cobrir um desfile de moda e eu vira de perto alguns modelos de roupa intima. E isso já acontecera há uns três anos. E esse era o estranho. Thomas nem ao menos estava de roupa intima para estar fazendo aquele estrago no meu autocontrole. Se ele continuasse com aqueles olhos chocolates fixos nos meus, eu poderia até mesmo esquecer que era uma pessoa controlada. Exatamente por isso desviei os olhos do retrovisor e os fixei nas faixas da

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estrada que passavam por mim com rapidez, me deixando tonta, mas não tão tonta como Thomas. Eu levara anos construindo aquele controle impecável e nem pensar que eu deixaria que ele se esvaísse apenas porque eu havia conhecido o cara mais sensual e atraente que eu poderia conhecer em muitos anos. Qual seria o final dessa história? Era isso que me preocupava. Eu sempre lia as duas ultimas páginas de um livro para saber o final da história. Eu nunca gostara de não saber o que eu iria encontrar no final. Quando eu e Adelle nos matriculamos na faculdade eu perguntei antes mesmo de freqüentar a primeira aula quais seriam as aulas que teria no ultimo ano e como era a formatura. Se eu não soubesse o final da historia, o final de tudo, eu não gostava de brincar. Eu odiava jogos exatamente por isso. Nunca se sabia quem ganharia ou perderia no fim. Eu poderia estar com sorte e apostar no fim de jogo certo, ou simplesmente poderia estar completamente errada e perder duas vezes. Com Thomas eu não tinha como ler as duas últimas páginas. Não tinha como perguntar que matérias teriam no último ano. Lidar com ele seria mais como um jogo, onde eu não saberia se ganharia e ficaria com ele por uma semana mantendo sempre o meu controle e depois de passada essa excitação inicial ela simplesmente passaria e ele não significaria nada mais que um extraterrestre que ficava comigo até eu ter tempo de leválo para Wyoming. Ou poderia perder. Poderia sucumbir de vez e aquela excitação não passar. Poderia me ver presa naquele mar de chocolate e nunca mais ser capaz de sair dele. Poderia perder a minha cabeça. Poderia ser corrompida por aquela arrogância e nem ao menos me importar com ela. E o que mais me preocupava não era não saber se podia ganhar ou perder. Era a maldita intuição de que se o começo já era tão estranho e tão maluco daquela forma, o final podia ser bem pior. Bem mais confuso, bem mais estranho, bem mais maluco. E mais imprevisível. E eu odiava não poder ter o controle e prever as coisas antes que elas acontecessem.

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Cinco Eu não sabia que Adelle era capaz de dirigir a mais de 120 por hora, mas ela provou isso quando, em menos de dez minutos, chegamos à Biga Aple lindda e iluminada. Eu amava a minha cidade com todo o meu coração. Adorava as luzes faiscantes, o fato de que a cidade nunca dormia, a mistura de tantas etnias onde nas ruas eu poderia ver uma lavanderia de imigrantes chineses ao lado de uma loja de esfihas de um árabe. Como eu e Adelle não éramos nada orgulhosas, nos viramos para trás estudando os aliens no banco traseiro para vermos se eles estavam impressionados com a quantidade de luzes brilhantes que a nossa cidade mostrava. Mas ao contrário do que esperávamos eles pareceram mais incomodados com as luzes que verdadeiramente impressionados. Mesmo amanhecendo, Nova York conseguia ser iluminada. As cores vinham de todos os lados deixando a cidade ainda mais bonita. Os festeiros voltavam para a casa se apoiando e segurando os sapatos nas mãos, mostrando o quanto as noites de sábado poderiam ser agitadas na cidade que nunca dorme. Os mais esportivos já começavam as suas corridas matinais, me deixando com preguiça apenas de vê-los. E para provar que Nova York era Nova York enfrentamos o nosso primeiro congestionamento minutos depois de entrarmos na cidade. Eu gostava daquilo. Gostava do cheiro da cidade, uma mistura de tantas coisas que a cada minuto algo diferente chegava ao seu olfato. O congestionamento continuava monstruoso e agora o tema de Friends tocava no rádio me animando um pouco. The Rembrants enchia o carro e eu não pude evitar cantar junto enquanto o carro continuava parado atrás de muitos outros, esperando o nosso momento para pegar a saída para Village. - Bem, - começou Adelle virando-se para trás enquanto eu ainda olhava para os carros à nossa frente cantando que estaria lá para quem quer que fosse, sem me preocupar com o quanto eu era desafinada. – Temos que nos separar agora. O de vocês que for ficar com a Kate ficará no Greenwich Village, é um bairro bem legal, não precisam temer. E o que ficará comigo ficará no Brooklyn, não se preocupem, a minha vizinhança não é tão ruim como mostravam naquele seriado do Chris Rock, ok? Adelle gostava de dizer que eu era uma tapada, mas acho que as vezes ela não se olhava no espelho. Será que ela não percebera que se os aliens nem ao menos sabiam onde ficava Wyoming, como eles saberiam da reputação do Brooklyn? Continuei cantando para não dizer nada a ela e ser mal educada na frente dos nossos convidados. Se é que eu tinha convidado alguém. - E então, como vai ser? - Eu posso ficar com Kate. – disse Thomas como se pouco se importasse. Meu coração disparou e mordi minha língua quase a arrancando a dentadas para que eu não dissesse nada sobre isso. Eu não esperava por aquilo, eu realmente achava que ele iria ir para o Brooklyn com Adelle, era mais a cara dele.

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Mais perigoso, mais misterioso e mais atraente aos desavisados. Eu conseguiria controlar a minha mente se eu olhasse nos olhos de Harold por uma semana, não nos de Thomas. - Seu pé de breque! – disse Adelle com a cabeça para fora da janela gritando com o dono de um sedã preto que não queria andar, fazendo com que o homem colocasse o dedo para fora, fazendo um gesto feio para ela. – O que houve? - Nada demais, Thomas disse que vai ficar com a Kate por esses dias. Então espero que não se importe de eu ficar com você, Adelle. Eu quis apertar Harold por falar daquele jeito tão fofo. Ele falava o nome dela do mesmo jeito que o falecido pai dela falava. O Sr. Dupre era filho de franceses e dera o nome de sua avó para a única filha e apenas ele sabia pronunciar o nome de Adelle daquela forma tão elegante, que ele dizia que era a forma certa de pronunciar. - Perfeito. O sorriso de Adelle era enorme, talvez ela tenha pensado a mesma coisa que eu, lembrando do pai e contente por mais alguém no mundo alem de sua mãe saber falar o seu nome daquele jeito tão lindo. - Isso é bom porque Ryan é do tamanho de Thomas, então acho que as roupas dele servirão nele. Não se preocupe pois Ryan sempre teve bom gosto, a prova disso é a Kate, não é Kate? Assenti com a cabeça e olhei para o corpo de Thomas, tentando desesperadamente olhar de um modo profissional como uma simples vendedora olharia para saber qual o tamanho dele e se ele vestiria o mesmo numero que Ryan, mas não consegui pensar se as roupas velhas que meu irmão Ryan deixara no meu armário eram do numero de Thomas. Seu peito amplo chamou a minha atenção, seguido dos feixes de músculos que eram simplesmente um convite para as palmas da minha mão. Foquei-me mais uma vez na tarefa de ver se as roupas serviriam. Talvez elas ficassem um pouco apertadas nos braços. Ryan não tinha todos aqueles músculos, tão deliciosamente esculpidos como Thomas o tinha. - Humm... Por que não descem aqui, Kate? – Adelle tirou-me de meu transe momentâneo, me obrigando a olhar para ela que estava apoiada no volante esperando a boa vontade do transito tão imprevisível de Nova York. – Fica mais perto para vocês pegar um trem e irem para casa do que eu conseguir manobrar e fazer o retorno para Village. Pode estar cedo, mas a MacDougal deve estar um inferno, já. Se aqui está assim, não quero nem imaginar como deve estar na MacDougal. Por isso eu... Tirei logo o meu cinto de segurança, abrindo a porta para sair o mais rápido possível e querendo fugir da fala ininterrupta de Adelle. Ela entendeu que eu já havia ouvido o suficiente e destravou o porta malas para que eu tirasse a minha mochila de lá. Não percebi que ela já destravara as portas traseitas também até que olhei para Thomas que estava ao meu lado tirando a bolsa de minhas mãos, a colocando nos ombros. Tentei puxá-la de suas mãos e disse entre os dentes que eu não precisava que ele a levasse para mim, com mais um puxão, dessa vez mais rude que quase tirou meus pés do chão para puxar a mochila de seu ombro, que estava quase quinze centímetros acima de minha cabeça.

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- Dizem que é o que homens educados fazem no seu mundo. – a voz dele era cheia de desdém, como se eu fosse uma idiota e as regras de boa educação do “meu mundo” mais idiotas ainda. - Bem dito. Mas tem dois erros na sua frase. Ele me encarou confuso enquanto eu puxava a mochila de suas mãos e a colocava no meu ombro com raiva. - Você não é um homem. Menos ainda educado. Depois que a mochila estava fora de perigo nos meus braços e ele estampava uma expressão indignada, procurando um insulto maior do que eu lhe dissera, fui até a janela da frente e beijei o rosto de Adelle prometendo que ligaria assim que chegasse em casa. Ela prometeu o mesmo, sabendo o quanto eu era preocupada com o fato de ela morar no Brooklyn. Brooklyn me dava muito medo às vezes, por isso eu tomava todo cuidado possível quando ia visitar Adelle. E assim que eu colocava os pés lá, meu medo se tornava em empolgação com as boates legais que existiam por lá. Olhei para Harold, me despedindo com um aceno, que ele respondeu rapidamente para continuar olhando fascinado para os botões do rádio morrendo de vontade de tocá-los. Ele dividia o seu olhar entre os botões coloridos do autorrádio de Adelle e para a própria Adelle, não menos fascinado. Depois das promessas de ligações futuras, eu me virei para ir embora, escutando Adelle me chamar, fazendo-me virar a cabeça para ela. - Seja legal com o Thomas. – ela disse com um sorriso radiante, depois fez um sinal para mim que me aproximar do carro, o que fiz, escutando um dos maiores absurdos de Adelle. E isso porque em nossos anos de amizade, eu escutei muita besteira vinda de Adelle. – Pode deixar que eu também serei bem legal com o Harold. Só serei má se ele pedir. Você sabe, alguns preferem quando eu sou malvada e... - Tchau, Adelle. Vá com Deus. Me despedi, dando as costas para ela e quase correndo para a calçada, escutando ao longe as gargalhadas dela. Eu não achara aquilo nada engraçado. Atravessei a rua em direção ao SoHo, pouco me importando se Thomas estava me seguindo ou não. Eu não obedeceria Adelle enquanto não tomasse um bom café. Eu não conseguia ser legal nem comigo mesma sem cafeína no sangue. Ser legal com Thomas exigiria muito mais canecas do que o usual. Café era algo que me despertava para o mundo. Sem ele eu poderia ser o que as pessoas na redação chamam de “mal comida”. Que eram simplesmente aquelas pessoas que vivem mal humoradas e xingam o mundo por estarem com a vida sexual em atraso. O medo de ser chamada de “mal comida” era o que me fazia tomar vários litros de café diário. Isso me garantia um bom humor que não os permitia se perguntar como andaria a minha vida sexual. Que era um grande problema simplesmente porque ela não andava. Parecia mais se arrastar com um daqueles andadores de idosos do que literalmente andar. Eram quase cinco e o sol já começava a despontar de um lado da cidade. Era

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melhor eu começar o meu dia como tinha que ser. Com uma grande e funda caneca de café. Café preto e quente. De preferência extraforte se eu realmente fosse bancar a babá do alien por todo o domingo. Nem em sonhos eu cuidaria dele por toda a semana. Faria com ele como um bebe. Quando eu estivesse em casa, tudo certo, eu ficaria pajeando ele, mas quando eu precisasse trabalhar, eu simplesmente iria levá-lo para ficar com Adelle. Não fora ela que tivera a brilhante idéia de cuidarmos de aliens que nunca tínhamos visto antes? Então ela que arcasse com as conseqüências. Pensei em passar numa cafeteria em estilo italiano no caminho para casa, que eu sempre freqüentava. Adoraria um bom expresso completo da Cafeteria do Ginno. Mas quando olhei para o lado e vi Thomas com aquelas roupas, decidi que era melhor não me atrever ir muito longe, já que quando chegamos ao Washington Square Park, as pessoas olhavam para nós com estranheza, e decidi que deveríamos chegar em casa o mais rápido possível para ele trocar aquelas roupas. Mas não era só para ele que as pessoas estavam olhando estranho. Eu estava toda descabelada, com as roupas desmazeladas e com uma grande mancha de fuligem no meu rosto. Quase tomei um susto quando vi meu reflexo na vitrine de uma joalheria. Thomas parou ao meu lado, ainda em silencio, desde que eu dissera que ele não era homem, e eu vi que estávamos fazendo realmente, um par assombroso. Ele com aquelas roupas estranhas e cintilantes e o enorme curativo na sobrancelha, estava quase mais assustador que eu. Graças a Deus, do Washington Park até o meu prédio não era muito longe. Apenas mais um ou dois grupos de olhadas e finalmente pude cumprimentar Jesus, o porteiro latino de meu prédio. Thomas fez um meneio de cabeça educado que serviu como cumprimento e assim como eu já sabia que ele iria fazer, Jesus perguntou o que nos tinha acontecido para estarmos daquela forma. - Foi assalto, señorita Munnighan? - Não, Jesus. Eu e Adelle fomos acampar com nossos... humm... Amigos – eu nunca tinha aprendido a mentir bem, e naquele momento estava provando isso vigorosamente. – E tivemos um acidente com a barraca, mas nada demais. - Que Bueno. Fico contente por estar bíen. - Gracias. Agradeci no idioma dele, sabendo o quanto ele ficava contente quando era respondido em espanhol e já caminhei em direção às escadas com Thomas em meu encalço. Eu já tinha desistido de acionar o elevador há muito tempo, já sabendo que ele nunca funcionava e que eu precisava de muita paciência com ele, decidira há alguns anos que as escadas seriam a minha solução. Bem, na verdade só decidi isso porque morava no segundo andar e o lance de escadas não era muito alto, se eu morasse no terceiro ou quarto, então eu realmente encararia o elevador com todo o resquício de paciência que me sobrava depois de dias de cão no trabalho. Quando vi o numero 31 na porta, respirei aliviada. Era uma sensação que eu sempre tinha quando chegava em casa. A sensação de que tudo terminava,

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mas dessa vez fora diferente. Quando eu abri a porta e deixei que Thomas entrasse primeiro senti algo estranho. Algo que eu não saberia explicar, mesmo que quisesse. Joguei a mochila no sofá, pouco me importando se ela caíra no chão como normalmente fazia ou não. Eu precisava de café. Mas não fui tão mal educada com a minha “visita” extraterrestre e murmurei um “fique à vontade” como eu sei que minha mãe mandaria eu fazer. Ou como a boa educação manda. Afinal ele poderia ser um ET mal educado, mas isso não significava que eu seria também. Assim que cheguei à cozinha, liguei a cafeteira elétrica, contente por vê-la já com a água. Fiz um barulho aliviado por ter café quente e pronto em alguns minutos e já preparei a minha caneca tamanho família para poder beber um copo digno de café. Apoiei-me no balcão enquanto escutava o barulho característico e tão familiar para mim da cafeteira trabalhando e me dei ao luxo de observar Thomas por alguns minutos. Ele olhava para a estante, com as duas mãos para trás, como se controlasse um impulso qualquer de tocar as imagens e os aparelhos que tinham em cima dela. Haviam várias fotos minhas em cima da estante, e era para elas que a atenção de Thomas estava voltada naquele momento. Fotos da infância, do colégio, da formatura, com minha família e em quase todas elas Adelle estava presente. As vezes com um dente faltando e vestida de fantasma como nas fotos de infância, as vezes com um grande sistema solar segurado em conjunto comigo. Sorri ao lembrar como Adelle estava presente em todos os momentos de minha vida, lembrei-me especialmente do colegial, quando participávamos do grupo de astronomia e pensávamos que ETs era apenas invenção do Spielberg. Minha viagem mental foi interrompida por Thomas que me chamou, fazendo um comentário qualquer sobre a minha casa. Foquei minha atenção nele e pedi que repetisse o que havia dito, o que ele fez de pronto. - Sua casa parece com você. – disse olhando para as minhas queridas cortinas arroxeadas e minhas almofadas com capa florida, escolhidas com tanto cuidado para deixarem a casa mais feliz. Pela cara que Thomas fazia, decidi que era melhor não perguntar porquê ele pensava aquilo. Era bem melhor levar aquilo como um elogio, ou como um comentário bom. Eu não discutiria com Thomas até que bebesse o meu café. Era como tomar vacina contra febre amarela antes de visitar um país infestado pela doença. Não que eu estivesse comparando Thomas com alguma doença, mas se fossemos pensar em como ele era chato, eu compararia ele mais com uma dor de dente ou uma cólica bem dada do que como uma doença como febre amarela. Mas ao que parecia, ele sim estava com vontade de discutir. - Ela é tão... Fofinha. – fazendo uma careta ao pronunciar a palavra “fofinha” ele conseguiu despertar a minha raiva, me fazendo olhar em volta reparando em todos os pontos da minha casa. Ela parecia comigo mesmo. Mas interiormente. Era uma mistura de tudo o que eu gostava, quadros com aquarelas em algumas paredes, cores sempre claras em tudo e algumas rendas e babados aqui e ali, apenas para mostrar a mim mesma o quanto eu era romântica. Para não me deixar esquecer de que apesar de controlada e

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fazer de tudo para afastar os homens, eu sempre seria uma romântica. Olhei para ele superiormente, como que provando que o insulto não me atingia e joguei o cabelo, voltando-me para a cafeteira que fizera uns ruídos avisando-me que o café já estava pronto. Servi minha caneca com bastante café e nem me preocupei em colocar açúcar, apoiei-me no balcão vendo-o sentar-se com cuidado no meu sofá como se fosse um alçapão pronto para sugá-lo. Não falamos nada. Talvez ele estivesse decepcionado pelo insulto não ter me atingido e prestei atenção na minha caneca, deixando que minha cabeça viajasse para o trabalho e calculando as horas de viagem para Wyoming. Em média dois dias, sem paradas. Mas conhecendo Adelle, ela adoraria parar em alguns lugares, então eu estimava três dias de viagem. O feriado e o fim de semana. Sim, daria tempo. O único problema era agüentar Thomas por um mês. E pelas suas palavras seguintes, não duvidava que seria uma das tarefas mais difíceis de minha vida. - Eu posso não ser um terráqueo, Kate, mas ainda preciso de comida para viver, ok? - Desculpa, não tenho ração extraterrestre em casa, nem tempo de ir à Marte comprar. Bem, te matar de fome me parece um bom plano. Sarcasmo sempre era a minha arma quando eu estava desconfortável demais, e naquele momento era exatamente o caso. Eu não poderia estar mais desconfortável com aquele alien gostosa sentado displicentemente no meu sofá enquanto me assistia beber meu café. Só para enfezá-lo mais ainda, enchi a caneca mais um pouco, quase transbordando o liquido. - Você não me conhece mesmo, Kate Munnighan. – ele disse levantando-se e aproximando-se lentamente o seu corpo do balcão e tomando minha caneca de minhas mãos, bebendo todo o conteúdo forte e quente de um só gole, me fazendo encará-lo impressionada, enquanto ele colocava a caneca em minhas mãos, de volta, apoiando-se ao balcão mais displicentemente possível. – É, até que vocês têm umas coisas bem apetitosas na Terra. Obriguei meu corpo a não pensar naquilo como uma indireta, já que ele olhava o meu corpo e não a caneca em minhas mãos. O seu olhar, mesmo desdenhoso, estava aquecendo-me internamente, me deixando quase em febre. O olhar dele subiu de meu corpo para meus olhos, fixando-se neles me deixando ainda mais perturbada. - Eu... Hum... – disse me afastando do balcão e deixando a caneca por cima dela, procurando me afastar do campo de visão de Thomas o mais rápido possível. – Vou buscar umas roupas do Ryan para você. – Er... Espere aqui. Ele deu um sorriso sarcástico, parecendo contente em me ver naquela situação tão descontrolada e fechei a porta do quarto com força desnecessária, me apoiando na mesma e colocando a cabeça encostada nela, respirando pausadamente, lentamente e com vagarosidade para ver se daquela forma conseguia ter o meu controle de volta. Quando o meu coração já voltara a bater no ritmo normal, abri uma gaveta isolada do meu guarda roupa onde deixava as roupas de Ryan. Meu irmão era um caso sério com comida. Ele era uma daquelas pessoas que não conseguem comer nada sem se sujar, nem que fosse um simples sanduíche com catchup

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ou sorvete. Certo que as manchas mais decorrentes eram as de manteiga de amendoim, mas ele sempre conseguia sujar a calça ou a camisa com o que estava comendo. Como era um guloso, Ryan sempre deixava uma peça ou duas de roupas em minha casa para os seus lanchinhos rápidos quando vinha me visitar. Escolhi uma camisa xadrez, uma camiseta branca e uma calça jeans desbotada que estavam jogadas desarrumadas na gaveta. Elas pareciam ser as maiores peças e eu estava preocupada com o tamanho de Thomas e Ryan não serem tão parecidos. Achei os tênis de Ryan que estavam no fundo de meu armário mostrando o quanto Ryan conseguia ser folgado em suas visitinhas. O estilo despojado do tênis combinava com as roupas em minhas mãos, mas mesmo que não combinassem seria o que Thomas iria vestir. Eu não tinha outra coisa e a menos que ele quisesse ficar pelado, ele teria que vestir aquilo. Não, eu não deixaria Thomas ficar pelado. Se de roupas ele já era um desafio à minha sanidade, pelado eu não seria capaz nem de respirar. Levei as roupas para a cozinha e as coloquei em cima do balcão para que ele se trocasse. Ele ergueu uma sobrancelha de um jeito irônico, me deixando impaciente. - Vou vestir isso mesmo? - Quer vestir o quê? Um traje de astronauta? Um pijama de navezinhas espaciais? – empurrei ainda mais na direção dele as peças que estavam no balcão, já sem nenhuma paciência, o que me fazia falar as coisas sem pensar. – Quer vestir, veste. Não quer, fique pelado. - E esse “fique pelado” é composto de que trajes? Ele me olhava realmente curioso, enquanto eu engolia em seco. Nas aulas de primeiro socorros eu aprendera que ataques cardíacos tinham níveis. Se Thomas ficasse nu em minha frente eu teria um ataque nível oito, no mínimo. Olhei para ele sem conter a imaginação que me fazia vê-lo nu em pêlos. Por isso me obriguei a concentrar-me em alguma parte de seu corpo que nada tivesse a ver com sexualidade. Meu olhar parou em suas orelhas, contente por ninguém ter orelhas sexies. Era algo que ninguém, nem mesmo alguém com tantos atrativos sexuais como Thomas, poderia ter. - É isso ou nada. – expliquei. - Ok. Vestirei isso. Só espero que eu não tenha nenhuma alergia com esses tecidos. Nem ao menos sei quem é esse tal de Ryan e o que ele fez com essas roupas... Entrei na frente dele com impetuosidade, saindo de trás de meu escudo, vulgo balcão de mármore, encarando-o brava demais por ter dito aquelas palavras. Não gostava nem um pouco quando mexiam com meu irmão. Eu já perdera as contas de quantas vezes eu brigara na escola por causa dele. Apesar de Ryan ser o mais velho, eu sempre entrara em brigas quando o assunto era ele. Ryan era a única pessoa que conseguia fazer com que eu perdesse o controle e mostrar a minha raiva que eu lutava para guardar. - Você vai vestir isso nem que eu tenha que eu tenha que vestir em você, entendeu? – ele ergueu a sobrancelha mais uma vez, desafiador. Mas dessa vez eu estava com raiva demais para me imaginar colocando aquelas roupas nele. – Isso é tecido, como qualquer outro. E é mais fácil você – disse

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aprontando para o peito dele – ter alguma doença que meu irmão. - Então Ryan é seu irmão? Ao contrário do olhar sarcástico que eu pensei que ele faria, Thomas apenas me olhou confuso, me deixando confusa e mais impaciente do que eu já estava. - Claro! O que pensou que ele era? Meu noivo? Ele balançou a cabeça, meio tenso, enquanto eu ria da cara dele. - Coisa parecida. Não sei como chamam seus companheiros aqui na Terra. - Companheiros? – Eu havia perdido a raiva e não conseguia entender aonde ele queria chegar. Thomas aproximava-se olhando nos meus olhos com suas Iris tão intensas e brilhantes que me lembravam chocolate. Eu ficava completamente perdida naquele olhar. Ele me sondava de uma maneira tão desavergonhada que parecia que o seu objetivo era realmente me fazer perder o controle. De uma maneira deliberada. Perder o controle não pela raiva, pelo desejo. Seus olhos ficaram em segundo plano para mim naquele momento. Sim, seus olhos eram esplendidos, mas agora sua boca de lábios tão sensuais, tão beijáveis era o que atraia os meus olhos e me fazia salivar de vontade de ter aqueles lábios nos meus. Aqueles lábios que tanto estavam me afetando se abriram e eu senti um calor maluco me percorrer de alto a baixo, quase como se uma onda de desejo estivesse me banhando. Era inexplicável. O seu nariz arrebitado que dava aquele rosto ares de ainda mais arrogância também chamaram a minha atenção. O seu rosto era marcante. Os cabelos que caiam pela testa fez meus dedos coçarem de vontade de tocá-los. Aquelas mechas não pareciam ser verdadeiras. Aquela cor diferente era tão intensa que eu não me lembrava de ter visto nada parecido antes. - Sei que não tem um companheiro, Kate, e isso é tudo o que eu precisava saber. - E você nem me conhece, Thomas. – disse a ele as palavras que ele tinha usado contra mim na floresta, fazendo questão de usar a mesma entonação e a mesma arrogância que ele usara no momento. - Aí que você se engana, Kate Munnighan. Eu te conheço melhor do que pensa, porque eu sei tudo o que passa dentro da sua cabeça. – imediatamente senti uma pressão estranha na cabeça como se uma mão tivesse sido colocada em cima dela, acariciando os meus cabelos e escorregando em direção ao meu rosto. – Sei ler as expressões de seu rosto. – A mão invisível chegou ao meu colo, fazendo a volta pelos seios e parando na cintura, trilhando um caminho de lava por onde ela passou. – Sua linguagem corporal não me é desconhecida. Eu te conheço, Kate. E pegando as roupas de cima do balcão e saiu na direção do banheiro sem eu nem ao menos precisar indicar o caminho para ele. Assim que a porta do banheiro se fechou, corri para a torneira da pia e molhei minha mão, colocando-a na nuca, para me esfriar. Eu olhei em volta tentando provar a mim mesma que aquilo não era mais que uma alucinação. Eu estava cansada, minha mente estava respondendo a presença daquele cara tão gostoso e o sono começava a enviar comandos estranhos para o meu cérebro. Era isso. Não podia ser mais que isso. Como aquela mão poderia me

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acariciar sendo eu vê-la. Thomas não era capaz de fazer aquilo com a mente, era? Não, claro que não. Os olhos dele me deixaram confusa, me deixaram quente demais. Abri a geladeira ávida por água gelada e peguei uma garrafa bebendo quase seu conteúdo todo de uma vez só. Encostei-me no balcão, nervosa demais para parar e pé sozinha. Se me pedissem para soletrar o meu nome naquele momento, eu não saberia fazer isso. Boas horas de sono, um bom banho e conseguiria tirar Thomas de minha cabeça. A não ser que a farmácia entregasse soro do esquecimento à domicilio, se não eu estava perdida. Meus olhos se fecharam, fazendo meu corpo relaxar e percebi que as horas de sono deveriam vir primeiro que tudo. Olhei na direção do banheiro, esperando Thomas sair de lá, mas não ouvi nenhum barulho que sinalizasse que ele já estava saindo de lá. Minhas pernas bambearam, mesmo eu estando escorada contra o balcão e meus olhos se fecharam. O café não fora o suficiente para me manter acordada, eu estava mesmo com sono. Andei trançando as pernas em direção ao sofá que estava mais perto que minha cama e me joguei no de dois lugares sem ter a preocupação de tirar meus tênis sujos de areia ou de me deitar no sofá maior para evitar uma dor nas costas. Conforto e limpeza eram coisas que estavam de minha mente no momento. Eu só queria dormir. Queria relaxar e entrar no mundo dos sonhos o mais rápido possível, o que, de acordo com o meu cansaço, não demoraria muito. Deitei com as costas para cima, do jeito que eu adorava me deitar, apoiando o rosto no travesseiro, ou no encosto do sofá, como era o caso no momento e senti o meu corpo relaxar por inteiro. Logo senti mão relaxantes tocarem meus ombros e minhas costas como em uma daquelas massagens nas quais eu pagava os olhos da cara e não resolviam muita coisa. - Estou vestido, Kate. – ouvi a voz de Thomas na minha orelha, me arrepiando por inteira. Era realmente bom que ele estivesse vestido, porque falando no meu ouvido naquele tom rouco e baixo e massageando as minhas costas, se ele estivesse nu, seria um prato cheio e tentador para uma moça solteira e na abstinência como eu. – Quer que eu te leve para cama? - Se você realmente soubesse o que essa expressão significa aqui na Terra não me ofereceria. Eu até riria da minha piada infame se eu não estivesse cansada e com tanto sono para fazer mais que arrepiar sob os toques dele e responder com a voz mais sonolenta possível às suas perguntas. Fechei os olhos mais uma vez e senti meu corpo ser virado e percebi que Thomas me pegava no colo, caminhando comigo para o meu quarto, deitandome em minha cama. - Não. – protestei fraca, tentando, inutilmente, não me aconchegar na cama – Estou suja, com cheiro de mar e tem areia em... - Apenas durma. - Mas você...

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- Estarei bem aqui quando você acordar. – ele disse enquanto tirava meus tênis e cobria-me com a minha colcha de fuxicos coloridos feita pela minha mãe. Sorri para ele e senti sua mão em meu rosto. – Durma. Sonhe com as estrelas. Eu realmente dormi. E sonhei. Mas não foram estrelas que apareceram em meus sonhos. Foram íris chocolates maravilhosas que dominaram os meus sonhos. Assim como o dono delas. E suas mãos, e seus lábios e... ele por inteiro.

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Seis Espreguicei-me relaxando na cama me perguntando há quantos anos eu não dormira tão gostosamente quanto dormira naquelas ultimas horas. Geralmente, mesmo quando eu me dava ao luxo de dormir bastante, sempre acordava de mau humor e com dor em um ou outro lugar, mais ou menos como a tia Sara, aquela velha maluca que sempre tinha dor nas juntas. Mas dessa vez não, eu estava com o sono em dia e relaxadamente desperta. Talvez fosse porque em muitos anos, essa fora a primeira vez que meus sonhos não foram com prazos curtos e contas a pagar ou qualquer coisa chata e aborrecida que me deixavam preocupada durante o dia. Talvez fosse porque meus sonhos foram deliciosamente divertidos e sensuais, e quando eu disse isso, eu realmente disse sensual. Sensual até demais, com direito a suor e respiração ofegante ao acordar. Ou porque eu simplesmente sabia que o personagem deles, pela primeira vez em meses, era real. Afinal, eu já perdera a conta de quantas vezes eu sonhara que Johnny Depp fazia investidas noturnas no meu quarto e me possuía loucamente. Sim, Johnny era real, mas minhas chances para com ele estavam em um em dois milhões, sendo assim ele passava imediatamente para a categoria de fantasia sexual irreal. Fazendo numero na mesma lista que já continha um bom numero de celebridades do cinema e da TV. Era o meu jeito de lidar com a minha vida amorosa inexistente, sonhando fantasias com astros de Hollywood achando que um dia eles poderiam ser meu príncipe encantado. E não mais um panaca em minha vida, como Luke, meu ultimo ex-namorado que além de ser um otário de marca maior, me fizera desacreditar no amor de vez com suas mentiras. Desde que termináramos, eu não ficara com mais ninguém. E já fazia três anos que isso acontecera. As mulheres da redação já faziam até bolão para saber quando eu "tiraria as teias de aranha" como elas mesmas diziam. Algumas semanas atrás Emma perdera feio quando dissera que eu não aguentaria muito tempo mais e acabaria dando uns amassos na sala de Xerox com Ewan, um dos repórteres do jornal que tinha um estilo bem almofadinha. Eu não estava tão desesperada assim, também. O meu orgulho próprio era maior que meus apetites sexuais. Eu não era uma maníaca também. Só digamos que depois de um tempo, a falta de sexo começa a subir à cabeça, e como todas as mulheres nova iorquinas têm esse problema, ficam falando uma da outra para ver se diminuem a sua própria "teia de aranha". Eu não corria atrás de um marido como a maioria de minhas colegas da redação faziam, e além do mais tentavam fazer por mim. Arranjavam-me milhares de encontro às escuras e grupos de encontro que além de decepcionantes, eram humilhantes. Tão ou mais que os pares que elas me arranjavam sem nem ao menos me consultar. Sonhar coisas picantes com Thomas era mais que compreensivo na minha situação. Thomas era bonito demais, e eu estava mais do que carente. Esses dois fatos juntos estavam pesando no meu inconsciente me fazendo sonhar tão nitidamente que eu estava tendo a noite da minha vida nos braços de Thomas.

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Se o desempenho de Thomas fosse metade do que eu sonhara, eu tinha até medo de imaginar como seria a realidade. Na verdade, medo não é a palavra adequada para usarmos em relação a isso. Conhecia muitas outras que se encaixariam muito melhor como desejo, ânsia e algumas mais. O que me relaxava era o fato de que fora apenas um sonho. Apenas isso. Thomas era um mal educado, arrogante e metido a besta. E eu não conseguia tolerar essas características nem mesmo nos meus amigos, quem dirá em um extraterrestre vindo sabe-se lá de onde. Meu corpo estava deliciosamente relaxado quando levantei me espreguiçando e dando uma olhada no relógio, percebendo que já eram 18h. Peguei uma troca de roupa qualquer de meu armário e segui para o banheiro de minha suíte pensando sobre os motivos que me fizeram sonhar com Thomas e porque o sonho fora tão intenso. Nem quando eu sonhara que me agarrava com John Mayer, as coisas ficaram quentes daquela forma. E olhe que o sonho com o John era um dos mais quentes da lista de sonhos picantes. Sim, eu tinha uma lista com os melhores, também. Enquanto lavava o cabelo, repetia a mim mesma a cada dez segundo que aquilo fora simplesmente mais um sonho, certo que ele era o topo da lista dos melhores, mas eu não podia me esquecer de que fora apenas minha imaginação. Eu não poderia sair de toalha para o corredor e simplesmente deixar cair na frente dele. Não. Isso era errado. Minha mente fantasiosa demais ultrapassava os limites possíveis e já me criava mais imagens de como seria se eu realmente fizesse isso e usasse o truque da toalha caída. Em minha cabeça, já se passava um filme onde Thomas vinha até mim e agarrava-me pela cintura, tomando meus lábios e... Não. Errado. Duplamente errado. Primeiro porque Thomas era um idiota, e eu já prometera a mim mesma que não me relacionaria com idiotas nunca mais. (Agradecimentos a Luke por me tornar essa megera.) E em segundo porque ele era um extraterrestre. Ele poderia ficar com aquelas indiretas, que eu nem tinha certeza se eram indiretas ou não, mas era, ainda assim, um extraterrestre. Thomas não era para mim. Para qualquer alien gostosinha sim, entretanto não para mim. Eu era uma mulher da Terra, decidida a não manter mais relacionamentos e não acreditar mais em homens, mesmo se eles tenham vindo de outra galáxia. Thomas não era para mim e ponto final. Fechei o chuveiro decidindo que era desse modo que eu levaria as coisas, vendo Thomas apenas como um alien que eu teria que tomar conta até o dia de ação de graças. Nada que eu não pudesse lidar. E eu já tinha até mesmo um plano para me ajudar. Era apenas pensar em Thomas como um ser verde que me atacaria, me assassinando. Não pensar nele como o alien que me seduziria e me faria ter o orgasmo de minha vida no sofá de três lugares enquanto eu gritava em êxtase. Não. Mente pensando errado de novo. Não era assim que deveria ser. "Seres verdes. Seres verdes. Seres verdes." Esse seria o meu novo mantra que eu repetiria cada vez que aqueles olhos chocolates fixassem-se nos meus. E repetiria também toda vez que minha mente pensasse nele como mais que um hospede indesejado, mas que ainda assim eu trataria com educação.

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Assim como em todo momento em que eu ficasse embasbacada com seu corpo, seu cabelo tão lindo ou com sua boca. Sendo assim, eu repetiria o meu mantra a cada seis minutos até sexta feira. Seria exaustivo, mas era a única maneira de me manter sã. Respirei fundo com a mão na maçaneta e quando me senti pronta, abri a porta do quarto saindo de dentro dele e encontrando Thomas com os dois pés em cima de minha mesa de centro e zapeando os canais da minha televisão sem pressa alguma. Apertando todos os botões ao mesmo tempo como se aquela fosse uma diversão muito boa. Não liguei muito para ele, apesar de estar furiosa por seus pés estarem em minha mesa de centro até que vi a jarra de suco feita de cristal que eu ganhara de minha mãe precariamente equilibrada em sua perna, onde ele pegava a jarra e dava longo s goles a cada cinco canais zapeados. - Ei. - cumprimentei me aproximando do sofá e contendo minha mão que queria dar um tapa nas pernas dele para que ele tirasse os pés da minha cara mesinha. Contatos físicos estavam proibidos em meu relacionamento com Thomas. - Ei. - cumprimentou ele de volta. - Isso é muito bom. Tive que aprender a fazer mais sozinho enquanto você dormia. - disse levantando a jarra para mim - Não está saboroso como seu, mas ainda assim está bom. Thomas empurrou a jarra na frente dos meus olhos para que eu desse um gole no café, e fiz o que ele pediu quase vomitando em seguida com o gosto horrível. Aquilo estava pavoroso. Com certeza ele usara todo o meu pó de café. Estava tão grosso que estava quase pastoso. O fato de estar sem açúcar tornava bem pior o ato de engolir o café, coisa que eu nem me atrevi a fazer. - Meu Deus! Como está conseguindo tomar isso? Céus! - Gosto de coisas fortes. Só não está saboroso. - ele deu mais um gole na jarra, estalando a língua em seguida. - Nem está tão ruim, Kate, só não está saboroso. - Isso se chama açúcar. Você coloca junto com o café. E não precisa de tanto pó. - Lembrarei-me disso em uma próxima vez, mas espero que esteja acordada para fazer o meu café. Não gosto de me desgastar nessas tarefas menores. Não seria tão difícil manter minha mente fora de assuntos sexuais, Thomas conseguia me fazer perder a paciência e querer arrancar sua cabeça mais vezes do que eu desejava me agarrar a ele. Mas mesmo com raiva mortal, eu precisava me controlar. Respirei fundo mais uma vez e disse apenas: - Eu sou humana, preciso dormir. Se quiser algo, faça você mesmo. Não sou sua empregadinha que faz tudo o que você quer na hora que você quer. Você não está em férias no meu planeta, ô ser superior. - Não, não estou mesmo em férias. Infortunadamente tendo que ser pajeado por uma terráquea enquanto tenho que esperar a vontade dela de me levar até um fim de mundo chamado Wyoming para que eu possa voltar a minha vida de sanidade. - Sanidade? Quer falar sobre sanidade? - perguntei parando em frente a televisão e tapando a visão dele, que até então só tinha tirado os olhos dela para me oferecer o café e nada mais. Nem ao menos para falar que estava me suportando no meu planeta ele tirara os olhos da TV. - Pois bem. Insano é cair

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no meu planeta e ainda querer dar uma de gostoso para cima de mim que estou tentando ser legal e educada com você, por mais que você seja arrogante e mimado. - Ah. Vocês chamam isso de "ser legal" por aqui? - ele deu de ombros cheio de arrogância, daquele jeito que me fazia querer ser uma gafanhoto fêmea e arrancar a cabeça dele depois de... Você sabe. - Não me admira vocês serem tão atrasados. Minha raiva já estava atingindo níveis alarmantes e com certeza se tivéssemos alguma daquelas tarjetas com cores, avisando o nível do perigo, a minha já estaria na metade entre o laranja e o vermelho. Mais vinte minutos com Thomas e estaria no preto. - Quer falar do meu planeta, alien? - Quero tantas coisas que você nem imagina, Kate. Consegue imaginar? - Não, não consigo. - disse me virando para a tela e ficando de costas para ele. Eu até conseguia imaginar algumas coisas, mas elas deviam ser apenas invenção de minha cabeça, assim como era invenção aquele calor em minhas costas, como se alguém estivesse me abraçando por trás. - Pessoas com ego como o seu querem muitas coisas que não podem ter. Eu tentava me enganar, dizendo a mim mesma, ou quem sabe já dando um aviso para ele também que ele não poderia me ter. Essa enganação me distrairia enquanto eu tentava me recordar das palavras do mantra que haviam se perdido em algum canto de minha mente. Senti Thomas se levantar e me virei novamente para ele, que parou à minha frente. Meus pulsos estavam fechados, prontos para o ataque, como se dizia. Thomas era o único que conseguia me fazer perder o controle de minha raiva. Geralmente eu controlava melhor e evitava respostas mal educadas e atos violentos, mas ele despertava isso em mim. Algo como os instintos mais primitivos dentro de mim, quebrando barreiras e tudo o mais. Ele se aproximou mais um passo e eu fiquei ainda mais tensa. Ele sabia o efeito que tinha sobre mim, era mais que claro que Thomas agia de propósito, sabendo exatamente como lidar comigo. Sabendo como me fazer perder o controle, derrubar minhas defesas. - Isso não tem a ver com ego, Kate. Você também quer muitas coisas, eu quero muitas coisas, tantas coisas que você nem sequer pode imaginar. E querer e ter não são nada quando se deseja ardentemente. - ele deu uma volta ao meu redor enquanto dizia aquilo em uma voz rouca que somente me acendeu mais, dessa vez não de raiva, certamente. A voz dele entrou em minha mente me fazendo prestar atenção no seu sotaque diferente, quase como russo ou qualquer língua eslava mas mais sensual, mais atraente. - E o que você quer? - Seus sonhos. - ele me fez ficar vermelha quando a minha mente enviou-me lembranças do que eu havia sonhado mais cedo. As imagens deixaram tudo ainda mais quente e me obriguei a focar o rosto dele. - Quero tudo o que você quer. Nada mais nada menos. - Eu não quero nada. - Errado. - ele parou atrás de mim, a respiração dele batia em minha nuca e senti que ele não estava nem a cinqüenta centímetros distante de mim, o que me fazia sentir o seu calor com mais intensidade, quase me inflamando. -

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Queremos a mesma coisa, Kate. Certas coisas são as mesmas em todas as galáxias, em todos os planetas, para todas as pessoas. - Mas cada planeta tem suas regras. - eu repeti o mantra quase em voz alta. Obrigando-me a me manter no lugar para que ele não pensasse que eu tinha medo dele, o que de certa forma tinha, não mais por ele se tornar verde, mas por ele ver o que realmente ia dentro de mim. -No meu planeta respeitamos o desejo do próximo, que apenas tenta ser legal e não fazer sei lá o que você imagina. - De novo essa historia de "ser legal"? - ele bufou. - Sim. Quero fazer você ver que apesar de tudo, eu ainda estou tentando ser lagal com você. - Seria mais legal se você derrubasse essas defesas. - a voz dele estava mais sensual e mais rouca do que antes. Minha pele estava arrepiada e não gostava nem de imaginar como ela ficaria quando estivesse sob o seu toque, apesar de ter uma vaga noção. - Mas, como você mesma disse, respeitar o seu desejo. Eu sei esperar. - Espere para sempre, Thomas. Céus! Como ele conseguia ser tão arrogante daquela maneira? Eu deveria socar a cara dele, mas a respiração que ainda se fazia sentir em meu pescoço me deixava sem forças, sequer para me mexer. - Nós dois sabemos que não demorará tanto tempo. - a voz dele estava bem perto de meu ouvido, me deixando louca a ponto de sentir meus membros virando gelatina. - Estamos falando de dois dias e não de dois anos-luz. Minha boca se abriu automaticamente em suspense ao ouvi´-lo falar tão facilmente que teríamos um ao outro em breve, que por pouco não escuto o telefone tocar, de tão entorpecida que eu estava. Eu ainda não conseguira me mexer e ele se afastou, percebendo que era a sua presença que me deixava tão imobilizada, e se afastou e isso foi como se um escudo invisível deixasse de me cercar, me permitindo respirar de novo e, graças a Deus, lembrar o mantra por completo. O telefone tocou mais uma vez terminando de vez com o meu torpor e me fazendo caminhar para o balcão da cozinha, onde repousava a extensão do telefone sem fio. Com os olhos fixos em Thomas do outro lado da sala, que voltara a prestar atenção na televisão, eu atendi o telefone da forma usual. - Ei, sou eu, Adelle. - disse minha amiga toda contente no telefone. - Você assistiu televisão nos últimos cinco minutos? - Não, eu estava dormindo. Ela riu do outro lado, enquanto eu continuava parada, encarando Thomas de longe e sem saber de que ela ria. - Esqueci que você é uma dorminhoca. Poxa, Kate, com um alien desses na sua casa, você ainda dorme? É, na verdade, se pensarmos bem, você está certa. Eu também pensaria em dormir. Com ele. - eu bati na testa achando a brincadeirinha dela muito impertinente pelo que eu vivera nos últimos segundos com toda aquela tensão sexual. - Você dormiu com ele? - Não! Adelle, que pergunta! Meu rosto ficou vermelho imediatamente e Thomas riu de mim como se pudesse ouvir a nossa conversa, o que é claro que não poderia. Eu não estava falando tão alto, e por mais que Adelle sempre gritasse ao telefone, não dava

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para escutá-la do outro lado da sala. Mas mesmo assim, virei-me apoiada no balcão e continuei prestando atenção nas besteiras que Adelle dizia. - Tudo bem, foi só uma pergunta. - ela riu um pouco daquele jeito tão dela e depois ficou séria. - Já descobriram a nave. Passou no noticiário. Dizem que é uma sonda que caiu na Terra e asseguraram que é da NASA, mas nós já sabemos a verdade. Fiquei tensa de imediato, apertando o telefone com mais força contra o rosto. - Existe a possibilidade de alguém investigar a gente? - Pelo visto não. Disseram que a NASA vai recolher o resto da "sonda" para verificar as causas da queda. Não deixaremos nenhum rastro que possa levar até nós, certo? Respirei fundo repassando todas as coisas que fizemos na praia e realmente não havia nada que nos ligasse a nave ou a aliens. - Certo. Eu estava preocupada por antecipação. Senti os olhos de Thomas sobre mim e imediatamente meu coração já começou a bater mais forte. - Cuide bem de Harold. Tentarei fazer o máximo possível para ocultar Thomas. Ele está com as roupas do meu irmão e o vendo como alguém de fora, não desconfiaria que ele é de outro mundo. - Ah eu desconfiaria, viu! - Adelle riu, me fazendo rir também apenas de ouvir a risada dela. - Gatos desse jeito só podem ser de outro planeta. - rimos juntas mais uma vez. - Kate, tenho que ir. Harold viu uma propaganda do McDonnalds e quer um BigMac agora. - despedi-me dela e antes que eu pudesse desligar, ela me chamou mais uma vez. - Kate, você sempre foi melhor em biologia do que eu, não é? Na verdade, essa era uma das poucas matérias em que eu conseguia ser melhor que ela. Além de literatura e redação. Nas matérias exatas, em especial em física, Adelle sempre fora mil vezes melhor que eu. - Mais ou menos. Não lembro muita coisa. - Mas, você se lembra como são bebês meio humanos e meio extraterrestres? Pronto! Ela conseguira passar dos limites. E eu que achava que Adelle não poderia fazer mais besteira. Ou falar. - Céus, Adelle! Por que está me perguntando isso? É impossível! - disse a ela pronta para uma daquelas broncas de oito minutos que eu costumava dar-lhe, mas da maneira como Thomas estava sentado tão despojado em cima do meu sofá, as pernas em cima da minha mesa de centro, mais uma vez, não tinha moral nenhuma para brigar com minha amiga. Eu também queria saber muito se o contato corporal extraterrestre era melhor que o terráqueo. - A que descobrir primeiro, conta para a outra. E depois dessa propaganda de preservativos na Tv, colega, eu te contarei em apenas algumas horas. Ri de Adelle e desliguei o telefone, voltando para a sala, sentando-me do outro lado da sala no sofá distante do que Thomas estava sentado. Não podíamos. Era errado. Errado demais. - Quer comer alguma coisa? A pergunta foi feita por mim de forma educada. Não estava com fome, mas talvez ele estivesse. Evitei de qualquer forma olhar para ele. A camisa do meu irmão ficara muito bem dele. Se eu o achara sedutor com aquela gola alta preta, com certeza mudara de idéia naquele instante. A responsável pelo setor

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de moda do jornal costumava dizer que xadrez era tendência, e eu tinha que concordar com ela. A camisa ficara um pouco apertada nos braços, por isso ele havia dobrado as mangas, mostrando o curativo, mas mais que isso. Mostrando seus braços fortes que poderiam terminar com todo o meu autocontrole se eu olhasse para eles por tempo demais. - Sim. O que quer comer? Continuei olhando para o chão e para os meus chinelos de pano. Não conseguia pensar em qualquer prato para sugerir-lhe. Minha cabeça tinha pensamentos pecaminosos demais para que eu pudesse pensar em outra coisa. Culpa de Adelle e de seu BigMac. - O que acha de uma pizza? - Adoraria se eu soubesse o que é. Ele dissera aquelas palavras com toda aquela arrogância linda e particular dele. - Eu peço e você come. Se não gostar, come outra coisa. Céus! Eu estava realmente com a mente muito deturpada para falar uma coisa daquelas. E com certeza Thomas percebeu o duplo sentido de minhas palavras, se não por elas mesmas, pela vermelhidão que tomou conta de meu rosto. - Kate, não vamos apressar isso. Ainda é domingo. Temos até sexta feira. Deixe-me preparar o caminho primeiro. Acender a fogueira. - Thomas se levantou olhando sensualmente para mim e não tive como não olhar para ele, fazendo os seus olhos chocolates prenderam toda a atenção que eu poderia ter, fazendo-me mergulhar neles mais uma vez. - Eu quero que me implore, quero que grite o que quer. E só então te darei. - Eu não quero nada. - respondi mal criada. - Mentira. - ele parou a minha frente e tocou meu rosto com uma leveza impressionante. - Sabemos que é mentira. Sabemos exatamente o que você quer, porque queremos a mesma coisa. Abri a boca para responder algo e senti os dedos de Thomas em minhas têmporas. Os seus dois dedos indicadores tocavam cada um, uma de minhas têmporas, suavizando as batidas do meu coração de uma maneira única. - Não adianta mentir quando eu sei de tudo. Afastei-me de uma vez, quase o derrubando com meu ato impetuoso. Minha cabeça girava numa orbita enlouquecida e minha pele estava prestes a derreter de tão ardente. E eu sabia que seria pior no momento em que os toques fossem para valer. Ele estava me seduzindo na cara dura e eu não conseguia fazer mais que devolver algumas respostas infantis a ele. Eu precisava ser mais determinada. Precisava estabelecer limites ali. E o primeiro deles seria a quantidade de vezes que eu repetiria meu mantra. Mil, no mínimo. - Não pode ter tanta certeza disso, Thomas. Meu planeta, minha casa, minhas regras. Vai ser do jeito que eu quiser que seja. E como eu não quero, então não será. Disse mais uma de minhas respostas dignas de uma criança de oito anos, ou menos, dando as costas para ele e pegando o telefone e ligando para a pizzaria, meu terceiro numero na discagem rápida e escutando Rico começar seus galanteios que eu cortei logo, pedindo uma pizza grande de mussarela,

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ficar brava me deixava com fome, e além do mais, eu tinha um convidado para aquela noite. Thomas riu para mim e balançou a cabeça, enquanto dava mais um grande gole na jarra de café e apoiava os pés na mesa de centro vagarosamente, como se soubesse o quanto aquele fato me irritava. Ele estava fazendo de tudo para me fazer perder a cabeça. E o pior, de todas as formas possíveis. Parecia que o importante para ele era me enlouquecer, fosse de ódio ou de prazer, o que importava era me fazer sucumbir a ele, me entregar aos sentimentos. E se até sexta feira eu não enlouquecesse, então nunca mais enlouqueceria. Por faltas de tentativas é que não seria, e Thomas deixava isso bem claro. Fiquei exatamente no mesmo lugar até escutar a campainha tocar anunciando a chegada da nossa pizza. Eu não fiquei nem ao menos fora da cozinha para não entrar no mesmo perímetro que Thomas. Minha mente estava decidida a me pregar peças todo momento e por isso mesmo que eu continuaria longe. Meu mantra não era tão eficiente quanto eu pensava, e quando a presença de Thomas se irradiava sobre mim, era muito fácil esquecê-lo. A campainha tocou, me fazendo pegar algumas notas de dentro da gaveta do armário. Eu sempre deixava ali o dinheiro do mercado e do delivery para facilitar a minha via. Corri para a porta, com o dinheiro contado nas mãos e quase bati com a cabeça na parede quando vi que Rico viera entregar a minha pizza. Como dono da pizzaria, ele nunca se dava ao trabalho de fazer o papel de entregador, mas como eu era algum tipo de musa inspiradora do tal, ele vinha entregar a minha pizza em pessoa, em mais uma tentativa de sedução, que se formos comparar à de Thomas estava mais para tentativa de decepção. - Olá, Kate. Como você está bonita hoje! Meu Deus, a cada entrega você parece mais incrível. Fechei os olhos já pensando na melhor maneira de pegar a pizza e bater a porta na cara de Rico. Ele era um dos meus mais odiados admiradores, juntamente com o cara da Starbucks que amava tocar minha mão ao me entregar os muffins do meu chefe, que eu sempre buscava todas as manhãs. Assim como o cara da gráfica do jornal que sempre arrumava um pretexto para ir até a minha sala me cumprimentar e me fazer um elogio qualquer, nem que fosse o meu cotovelo que era, como ele mesmo dizia atraente e sensual. Quando eu disse que era carente, não comentei que era carente porque queria, pois na verdade, eu tinha vários desses admiradores. Mas nenhum que me fizesse perder a cabeça. Como... Como aquele cara que estava sentado no meu sofá. Céus, por que eu sempre queria o que eu não podia ter? Por que eu não poderia desejar alguém mais acessível, sei lá, Rico, por exemplo? - Olá, Rico. - disse entregando o dinheiro a ele. Rico guardou o dinheiro na pochete, contente. Sim, pochete, ele conseguia ser tão brega assim. E seus cabelos lambidos com brilhantina, afinal eu tinha certeza de que aquilo não era gel, no maior estilo John Travolta em Grease faziam tudo ainda pior. Era exatamente por isso que eu não poderia desejar caras acessíveis, eles conseguiam fazer com que eu enojasse a espécie masculina. E o que quer que fosse que eles passavam no cabelo. - Mas conte-me, como anda tudo no trabalho?

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- Bem, obrigada. - estendi a mão para pegar a pizza, mas ele continuou apoiado nela, conversando nem ao menos parecendo perceber que eu não estava com a mínima vontade de conversar. Ou de ficar olhando para o kit "mamãe eu ainda estou nos anos 70" composto de brilhantina e pochete. - E quando vai me dar a honra de te levar para jantar? Céus! Ele definitivamente não se cansa de fazer essa pergunta. Um dia tentei pedir a pizza de sabor diferente, apesar de meu preferido ser mussarela, apenas para ver se mudaria a pergunta. Grande engano. Ele me convidara para sair, descaradamente. Minhas desculpas estavam ficando cada vez mais furadas, mas mesmo assim ele ainda se dava ao esforço de continuar convidando. Eu tinha esperança de vencê-lo pelo cansaço. Mas ao que parecia, minha estratégia não parecia estar sendo bem sucedida. Estava prestes a gemer um "De novo, Rico?", mas em voz alta desta vez quando Thomas apareceu do meu lado, sem a camisa de baixo e apenas com aquela camisa xadrez aberta para cobrir, ou tentar parcialmente fazer isso, aquele peito sedutor. Os tênis também não estavam mais em seus pés e naquele momento, ele passava um de seus braços ao meu redor, me deixando momentaneamente sem saber o que fazer. Eu não tinha nenhum fetiche por pés, mas poderia passar a ter se ficasse olhando para os de Thomas. Eles eram grandes e bonitos, por isso fiz questão de apagar da minha mente o que as mulheres do jornal costumavam dizer sobre a equivalência do pé com partes mais interessantes do corpo masculino. - Ah! O entregador? Valeu pela pizza, amigão! - disse Thomas como se fosse um terráqueo normal agradecendo ao entregador e pegando a pizza dos braços de Rico que estava sem ação e olhava para Thomas como se tivesse sido apunhalado. Qual é? Ele não estava pensando que eu iria casar com ele, não é? - Você... Você... - Eu? - Thomas perguntou apontando para o próprio peito com um sorriso que eu poderia chamar de falso. - Eu sou o companheiro da Kate. Cogitei seriamente a hipótese de chamar uma ambulância para acudir Rico que estava prestes a ter um ataque cardíaco, mas que se recuperou com dificuldade olhando para Thomas com incredulidade. - Companheiro? Companheiro como? Está dividindo o apartamento com ela? Os olhos arregalados de Rico passaram por todo o corpo de Thomas e depois olhou para si mesmo como se estivesse comparando as chances de Thomas comigo. Era obvio que entre Thomas com aquela camisa xadrez aberta e a pochete estranha de Rico, a minha escolha era clara. E não era a pochete, vamos deixar bem especificado. - Estou dividindo a cama, a casa, a vida. Em breve dividirei meu sobrenome com ela também. Rico arregalou ainda mais os olhos, me fazendo temer por alguns instantes que ele tivesse realmente um ataque cardíaco. O que não era impossível considerando a vermelhidão do rosto dele e a falha de sua respiração. Eu não estava em melhores condições, apesar de exteriormente parecer muito bem, internamente eu estava com as palavras de Thomas reverberando dentro de mim, como se ecoasse dentro do vazio. Dividir o sobrenome com ele, além da cama e da vida era difícil de lidar, mesmo sendo apenas uma mentirinha, eu

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ficara tensa demais, já que não pudera impedir minha mente de imaginar isso. - Eu não esperava por isso. - ele disse segurando o pranto com dificuldade. Céus, ele não choraria na minha frente, choraria? Seria muita breguice até para ele, o Rei da Pochete. Mas ele levantou a cabeça, parecendo mais controlado e disse com uma dor que me comoveu - Seja feliz, Kate. Para sempre. E com essas palavras ditas em um tom muito magoado, Rico se virou chorando alto pelo corredor, finalmente liberando as lágrimas. Estiquei o pescoço para fora, olhando para Rico que começara a correr até o elevador. - Por que fez isso? - quase gritei com Thomas, me sentindo furiosa. Eu podia não ceder aos avanços de Rico, achar ele ridículo e brega, mas isso não significava que gostaria de ferir os sentimentos dele. Há anos Rico tentava sair comigo e eu sempre era educada, respondia que não podia, que tinha outros compromissos e mais um milhão de desculpas muito idiotas, mas mesmo assim resolvia tudo por mim mesma. - Eu poderia ter resolvido sozinha. - Não, não poderia. - ele disse voltando ao sofá, se jogando em frente a televisão e abrindo a pizza no seu colo. - Você não tinha idéia do que ele estava pensando. - E você sabia, não é? - fui irônica batendo o pé esperando por sua resposta, apoiada na porta já fechada. - Sabia e exatamente por isso fui te salvar. Como ele conseguia ser tão presunçoso? Era alguma coisa que deveria vir de fabrica do planeta dele, já que ele não abandonava a soberba um segundo sequer. - Não preciso que me salvem! - Não é o que toda mulher da Terra quer? - ele ergueu as sobrancelhas naquele jeito arrogante. - Vocês não querem um homem forte e bonito para ser o príncipe encantado de vocês e salvá-las para o tal "felizes para sempre"? - Eu não quero um príncipe. Eu estou bem assim. - disse brava. Eu não gostava que tocassem nesse assunto de "felizes para sempre", apesar de querer passar a imagem de que não acreditava nisso nem por um segundo, não era assim que as coisas eram na realidade. Eu acreditava, esse era o maior segredo que eu guardava. O fato de que apesar de ter sido magoada e traída várias vezes, eu ainda esperava que houvesse nesse mundo um príncipe encantado para mim. Mesmo sabendo que se ele não aparecera ainda, é porque ele realmente não existia. - Que mentira! Avancei na direção dele, furiosa por estarmos tocando naquele assunto e também por ser chamada de mentirosa, e ele se ergueu pegando-me pelo pulso puxando-me para perto dele. Eu abaixei a cabeça, ficando tensa e ele ergueu meu rosto me segurando pelo queixo, me fazendo olhar nos olhos dele. - Eu não parti o coração do seu Rico. Apenas mostrei para ele que você merece e pode ter muito mais. Pode ter a mim. Eu sabia que depois de algumas palavras lindas ele voltaria com sua idiotice arrogante.

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- Mas eu não quero. Thomas me puxou ainda mais contra o seu peito e nossos narizes quase se encontraram, me deixando prever um beijo, que ficou apenas na minha imaginação. - É o que veremos. - ele respondeu voltando para o sofá em seguida. Meio tensa, saí da sala e fui para o meu quarto ligar para Adelle e saber se ela estava tão perdida quanto eu. Na verdade eu não estava perdida, ficaria perdida se aquela semana não passasse muito rápido, porque eu me conhecia. E bem o suficiente para saber que eu não conseguiria resistir por muito tempo.

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Sete Disquei os números do celular de Adelle meio desesperada e minha amiga me atendeu prontamente. Com certeza ela estava esperando por minha ligação, mesmo eu não tendo dito que ligaria. Era algo que acontecia simplesmente entre nós, sabíamos o momento certo de ligar uma para a outra. Talvez tantos anos de amizade nos permitiram que soubéssemos exatamente o que a outra precisava. - Amiga preciso de sua ajuda. Com certeza. Adelle sempre precisava de alguma coisa. E no momento ela queria a minha ajuda para algo bem sacana, e isso era notado pelo tom de sua voz. Pensando bem, Adelle precisava mesmo era de um bom psiquiatra, coisa que eu nunca pensara antes, mas que ela já devia estar necessitada há um bom tempo. - O que é? - Eu estou muito em dúvida do que vestir. Franzi a testa tentando repassar o que eu tinha ouvido e saber se realmente tinha escutado aquelas palavras. Essa não era a Adelle que eu conhecia. Geralmente era o contrário, eu ligava para ela praticamente desesperada por não saber o que vestir ou como prender o meu cabelo de um jeito legal. Adelle sempre fora desapegada no que dizia respeito a moda. Sendo confortável para ela estava ótimo. Enquanto para mim, isso sempre fizera a maior diferença, o que tornava o pedid da minha amiga ainda mais estranho. - Você vai sair? - perguntei estranhando. - Não, vou dormir. E esse é o problema. Meu quarto fica de frente para a sala, onde o Harold vai dormir, aí eu não sei o que vestir para o caso dele querer fazer uma investida noturna no meu quarto. Resisti ao impulso de bater a cabeça na porta fechada. Adelle perdera o controle de vez. Realmente. - Veste um pijama e tranca a porta. Simples e fácil. E era exatamente isso que eu faria assim que colocasse o meu pijama, pois apesar de ter dormido até poucas horas atrás, eu ainda estava com muito cansada e sabia que o dia seguinte seria dificil. Todas as segundas feiras o eram. E com o fim de ano, o jornal se tornava ainda mais difícil de lidar. E não era só pelo jornal que a minha semana seria complicada, essa semana eu teria que cuidar de um alien desconhecido também. Alien esse que estava empenhando todos os seus esforços em me tirar do sério, coisa que não demoraria muito para que ele conseguisse. - Não. Eu quero que ele faça a investida. Quero mais que uma investida, quero... - OK. Veste qualquer coisa, já que sua intenção é tirar mesmo. - cortei antes que ela falasse qualquer coisa que me fizesse voltar a pensar em sexo, pois eu não conseguia tirar Thomas da cabeça e pensar em Thomas e sexo ao mesmo tempo era perigoso demais. E me deixava ainda mais descontrolada. Quem sabe não fosse apenas Adelle quem precisaria de um psiquiatra. - Melhor uma camisola no estilo "eu sou virgenzinha" ou um baby doll no

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estilo "me joga na parede e entra com sua nave, garotão"? Meu Deus! Ela perdera de vez toda a noção. Ela estava fora de si, só podia. Ou quem sabe Harold estivesse fazendo um jogo de sedução bem mais forte do que Thomas estava fazendo para tirar Adelle do sério daquela maneira. Não que algum dia ela tenha sido séria, claro. Mas dessa vez ela estava ultrapassando os limites. - Acho melhor você tomar dois ou três comprimidos para problemas mentais. Sério. - Estou tão em dúvida. - ela disse me fazendo rir. Adelle não tinha idéia do que estava fazendo mesmo. - Mas tudo bem, vestirei o baby doll. - bati a mão na testa sem dizer nada a ela. Adelle já estava fora do controle demais para que eu pudesse dizer mais alguma coisa que piorasse a situação. - Outra coisa: chocolate ou menta? Franzi a testa mais uma vez, sabendo que essa era a conversa mais estranha que eu tinha com ela. E isso porque já faláramos sobre coisas bem estranhas antes. Como o que aconteceria se ela fosse abduzida por chocolates em forma de tartaruga gigantes e o que fazer se Ashton Kutcher fosse gay e não apenas chegado em mulheres mais velhas. - Que tipo de pergunta é essa? - A camisinha. De chocolate ou mentolada? Eu deveria desligar o telefone depressa, antes que ela ficasse ainda mais fora de controle. Eu tinha medo do que ela poderia fazer a Harold, porque estava bem claro que não era ele que estava seduzindo. Era exatamente o contrário. Quem sabe até mesmo Thomas teria que tomar umas aulas com Adelle. - Vai dormir, Adelle. Tchau. Passo na loja amanhã para deixar o Thomas antes de ir trabalhar. - disse ávida por desligar o telefone e deixar minha amiga pirada sozinha com suas loucuras. - Kate. Não se reprima. Eu estava crente que Adelle tinha bebido pelo menos uma garrafa de vinho, quem sabe cinco. Ela não citaria Menudo assim, se não estivesse bêbada. Mas como ela lembrara bem, eu era a melhor em biologia, e sabia que aquilo era apenas ansiedade e felicidade em excesso. Talvez misturada com um pouco de perturbação mental, também. - Olha, eu não vou discutir. Vá dormir, amanhã deixo Thomas aí antes de ir para a Redação e você cuida dele até as cinco, certo? - Certo. - respondeu. - Mas não sei se terei fôlego para cuidar dos dois. Pretendo cuidar muito bem do Harold essa noite e... Eu deveria desligar o telefone antes que imagens de maneiras bem convenientes de cuidar de Thomas me viessem à cabeça. Oh! Tarde demais, eu já imaginava coisas muito obscenas para fazer com um alien que eu nem ao menos conhecia. - Boa Noite, Adelle. Ela disse mais alguma coisa, mas desliguei o telefone antes que ela pudesse colocar ainda mais pensamentos pecaminosos em minha mente. Eu já tinha desses demais para pensar em camisinhas mentoladas ou com aroma e sabor de chocolate. Fazia tanto tempo que eu vira uma camisinha que nem ao menos me lembrava qual era o seu formato. Certo, mentira. Eu lembrava exatamente como era, e como era usada. Mas minha mente estava mais

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focada em como eu queria usá-la nesse instante com um certo cara que estava deitado no sofá de minha sala com os pés na minha mesinha de centro. Não, eu não deveria pensar nisso. De forma alguma. E meu mantra era mais uma vez esquecido, me impedindo de pensar no que deveria que era arrumar a cama para dormir. Arrumei a cama e ainda juntei alguns cobertores e travesseiros para levar à Thomas na sala. Quase oculta pela montanha de travesseiros e cobertores, segui para a sala e coloquei os pertences no sofá em que ele estava sentado e tentei ser o mais educada possível, decidida, mais uma vez, a ignorar toda e qualquer estratégia que ele usasse para me fazer perder o controle. Não olhei para seus pés enormes em cima da minha mesa de centro. Não olhei para o seu peito coberto apenas pelo xadrez lindo da camisa. Foquei meu olhar nos meus pés, que não eram tão interessantes quanto ele, mas pelo menos eram seguros. Não tinha como achar algo sexual nos meus próprios pés. - Trouxe algumas coisas pra você dormir. Se quiser um pijama mais confortável, fale agora. Vou trancar a porta do meu quarto e depois disso não abrirei nem para a minha mãe. - Costuma sempre trancar o seu quarto ou está apenas com medo de mim, Kate? Estava com medo dele. Pronto, estava ai a resposta. Eu não trancava meu quarto, apesar de Nova York ser uma cidade perigosa, eu sempre deixava a porta de meu quarto aberta, apesar de trancar a do apartamento. - Quer o maldito pijama ou não? – rosnei. A minha paciência e meu controle perto de Thomas eram nulos. Eu não conseguia raciocinar perto dele. Sempre respondia a meus instintos mais animais, sempre sentia fome dele, sede dele. Eu sempre queria ter Thomas. E era exatamente por isso que era errado. Eu era uma pessoa racional, não um animal. Mas parecia que ele queria me fazer ser um animal. Dos mais selvagens, para que cedêssemos aos instintos selvagens de nossos corpos. - Não preciso de roupas para ficar confortável. Céus, eu poderia ter ido dormir sem essa. Agora a imagem dele, nu em meu sofá ficaria perturbando a minha mente durante toda a noite. Tchau, sono. - Então se não quer mais nada, Boa noite. Me virei para sair da sala, ciente do que eu fora fazer na sala já havia feito e com o corpo retesado de raiva por Thomas. Aquele alien estúpido conseguia me tirar do sério sem grandes dificuldades. - Mas já vai dormir, Kate? Não quer esquentar a cama? - Vai pro inferno, Thomas. Depois que eu falei, foi que me dei conta, exatamente do que tinha dito. Eu nunca xingava. Minha educação era algo de que eu mais me orgulhava e naquele momento parecia uma menina de rua malcriada. Deus! Olhei para Thomas, pronta para pedir desculpas, mas ele ria deslavadamente, como se fosse muito engraçada toda aquela situação. Se era para ele, com certeza não o estava sendo para mim. Do que ele estava rindo? Do meu constrangimento? De ter ouvido eu falar algo tão rude quanto “vai pro inferno”? Eu podia gritar, rosnar e quase ficar a ponto de assassinar alguém,

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mas nunca, nunca, passava dos limites. Não como eu fizera agora. - Eu adoro te fazer perder o controle. Te deixa mais humana. Menos robótica. E olha que eu estive em planetas completamente robotizados e nunca conheci alguém tão automática quanto você. Abri minha boca, pensando em um insulto muito grave, equivalente a ser chamada de robótica por aquele alien infeliz. Arrogante, prepotente, infeliz. Minha cabeça formulava pelo menos cento e cinqüenta xingamentos para Thomas e toda a sua linhagem, mas me segurei. Eu não era esse tipo de pessoa. Fora apenas uma perda de controle momentâneo. Não aconteceria de novo, eu cuidaria para que não acontecesse de novo. Não perder o controle por raiva, nem por desejo. - Não sou robótica. Rebati com firmeza. Eu controlava minhas reações, apenas isso. - Sim. Você é. Não se cansa de ficar sempre guardando sentimentos, sempre pensando no que as pessoas vão pensar de você? Dê vazão aos seus instintos, Kate. - E o que eu ganharia com isso? Liberar os meus instintos não me levará a lugar nenhum. Thomas se levantou com a sobrancelha erguida, de um modo que já estava se tornando familiar a mim. Ele estava pronto para me seduzir novamente, e isso significava que eu deveria estar pronta para resistir. Se eu não resistisse estaria à mercê dele. E qual seria o mal nisso? Uma voz na minha mente me perguntou porque eu não poderia me entregar a Thomas de uma vez e acabar logo com aquela historia. Mas era ai que estava o problema. Eu não deveria me entregar porque eu prometera a mim mesma que não me submeteria a homem nenhum sem que ficasse provado que ele era a minha alma gêmea, e qualquer um tinha que concordar que Thomas não era a minha alma gêmea. Ele era um alien metido e prepotente. Como ele poderia ser a pessoa destinada para mim? - Te dará satisfação. Não quer satisfação essa noite, Kate? Querer satisfação? Claro que eu queria. Mas não com Thomas. Meu Deus, quando eu pararia de mentir para mim mesma? - Não, obrigada. Quero dormir pacientemente na minha cama, enquanto você faz o que quiser na sala. Durma com as estrelas, Thomas. Me virei de costas para ele e dei boa noite apenas quando já estava na porta do quarto, remotamente segura. Soube naquele momento que não devia ter virado a cabeça para despedir-me, fora o erro da noite. A visão que eu tivera me deixara em alerta durante toda a noite, com um calor insuportável que poderia jurar que estávamos em julho, mas era novembro. O calor vinha de dentro de mim, enquanto minha imaginação repetia como um filme, a imagem de Thomas jogando a camisa para qualquer lado da sala, revelando um peito amplo e forte, com algumas cicatrizes e desabotoando a calça com tanta vagarosidade, que meu coração acompanhou a sua demora, batendo lentamente. Eu pensei que não poderia mais respirar quando aquele corpo se revelou sobre os meus olhos. Pensei que não poderia sentir meu coração bater. Não prestei atenção nos curativos dele. Cuidaria disso na manhã seguinte. No momento eu estava prestando mais atenção naqueles braços fortes e na vagarosidade com que ele tirara as calças. Céus! Meu corpo estava

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tremulo por apenas pensar que se eu me rendesse poderia ter o corpo dele nos meu. Minha imaginação estava enlouquecida naquela noite, eu dormia sonos leves e repletos de imagens sensuais de nossos corpos enroscados na minha cama e em outros cômodos do meu apartamento. Mas em certo momento, eu realmente fui pega pelo sono mais profundo, sentindo o meu corpo ser prensado sobre o dele na cama enquanto as mãos de Thomas se deslizavam por ele, acariciando e apertando aonde ele sabia que meu corpo estava desejoso por ele. Meus sussurros eram muito reais. O calor do corpo dele era bem real. Tudo parecia ser bem real, a boca úmida dele em meu pescoço, arrancando-me suspiros cada vez mais altos parecia ser verdadeira. De repente me agarrei a ele, deixando o meu corpo se contorcer em espasmos fortes e enlouquecedores e quando o meu corpo já estava relaxado, abri os olhos para encarar os olhos de Thomas, mas não vi nada a não ser o meu quarto banhado na luz do sol que já nascera e percebi que eu estava descoberta, quente, e trancada dentro do meu quarto, com a mente perdida em pensamentos. Estava cansada demais de tanto dormir e acordar de pequenos sonhos quentes e que me deixaram desejosa. Mas aquele ultimo sonho fora tão real. Eu quase sentira as mãos de Thomas realmente me tocarem, como se ele realmente tivesse estado no meu quarto. Olhei em volta, tentando ter certeza de que ele realmente não estivera e vi que a bagunça de travesseiros e cobertores era algo que apenas uma pessoa poderia fazer. Além do mais, a porta continuava trancada. Levantei-me e tomei um banho bem gelado, para acordar de vez a minha mente. Meu corpo já estava mais que desperto, as sensações nas que eu me inundara no sonho, foram capazes de me fazer acordar saciada na realidade. Vesti uma camisa branca e meus jeans justos, acompanhados de sapatos fechados de salto alto, o meu bom e velho uniforme de trabalho. Simples e sóbrio que não permitia que os homens fizessem comentários sem graça sobre o meu corpo. Eu ousara trabalhar com um vestido verão uma vez, em uma das tardes mais quentes da história de Nova York, e depois daquela vez, nunca mais. As mulheres fofocavam sobre mim nos banheiros do andar e os homens não paravam de andar pela redação, fazendo meu chefe botar todo mundo para correr e me dar uma bronca horrível por ficar disseminando os pecados da carne pelos corredores do jornal. Respirei fundo com todo o cuidado possível de me lembrar o meu tão especial mantra, que já provara não funcionar, e abri a porta bem devagar para evitar ver Thomas nu logo de manhã. Eu ainda tinha planos de conseguir trabalhar direito para adiantar o serviço até o dia de ação de graças, mas se visse Thomas nu, eu poderia esquecer de ir trabalhar porque não conseguiria nem ao menos entrar no trem. Quem sabe até nem me lembrasse como sair de casa. Com cuidado, sai do quarto, segurando a minha pasta contra o peito como um escudo contra Thomas, meio curvada e andando nas pontas dos pés para evitar que ele me ouvisse, caso ainda estivesse dormindo. Ele não estava na sala, por isso levantei meu corpo e passei a andar direito, andando com mais segurança para a cozinha, acreditando que ele já devia estar no banheiro. Atravessei o curto caminho entre meu quarto e a cozinha e encostei-me à

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geladeira de uma vez, assustada quando Thomas saiu de baixo do balcão, apenas com as calças jeans e um pacote de café nas mãos. - Céus, quer me matar? Eu não disse do que ele poderia me matar. Podia ser de susto, raiva ou prazer. E junto com esses meus pensamento, Thomas deu uma risada, parecendo perceber as imagens que passaram na minha cabeça dele me matando de prazer lentamente, que me fizeram delirar e encostar ainda mais no metal frio da geladeira, tentando esfriar o calor de meu corpo. O olhei séria e por alguns instantes foi como se as cenas que passavam na minha mente também estivessem passando na mente dele, como se o mesmo filme estivesse passando em telas diferentes, conectados. Assim como os nossos olhos estavam conectados. Desviei o olhar e prestei atenção na cafeteira já ligada e já com café quente. Do jeito que eu precisava em manhas turbulentas. E com certeza já acordar com imagens mentais de noites loucas entre Thomas e eu, poderia escalar aquela manhã como uma manhã turbulenta. Enchi uma de minhas canecas extra grandes e a bebi com gosto. Estava muito bom e não parecia ter sido feito por Thomas, ou então aquilo estaria grosso e pastoso, digno de se comer de colher. Mais como uma sobremesa quente do que realmente café. - Já tomou café? - ele balançou a cabeça, negativamente com o pacote de pó de café nas mãos. Por isso eu coloquei café em uma caneca do mesmo tamanho que a minha e entreguei-a a ele, sentindo um calor estranho quando nossas mãos se tocaram, mesmo que por apenas alguns segundos. - Beba depressa e vá se vestir, pois temos que ir. Você passará o dia com a Adelle. Ele ergueu as sobrancelhas me encarando com firmeza para perguntar em seguida. - E por que não com você? - O emprego dela é mais liberal que o meu. Dei a resposta rápida, enquanto juntava alguns papéis de dentro da pasta e os organizava de acordo com a importância para o dia. Olhei para o lado e vi Thomas me observando ao invés de estar terminando o seu café e ir se arrumar para podermos sair logo de casa e irmos para o Brooklyn que não era assim tão perto de casa. - O que está esperando para ir se arrumar? Não temos todo o tempo do mundo. - Já pensou em ser sargento, comandante ou algo do gênero? - ele riu. Combina bem com você e esse seu jeito tão automático. - Não, não pensei. - respondi terminando de organizar os papéis e olhando nos olhos castanhos que me tiravam do sério - E você? Sempre pensa em cair em planetas estranhos e perturbar a vida de outras pessoas? Eu respondi a ele com um insulto bem raivoso e ele ergueu as sobrancelhas de modo bem ameaçador antes de responder a mim com a voz raivosa, encarando-me completamente furioso. - Não. Mas abro exceções quando caio em planetas inferiores. Seus olhos faiscavam como se ele fosse me bater. Eu conseguia ver as chamas ardendo naquela profundeza cor de chocolate, e ao invés de sentir medo, tudo o que eu consegui senti foi um tremor percorrendo todo o meu corpo, me deixando quente e desejosa de que aquelas chamas me

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consumissem bem lentamente. - Acha que eu sou inferior? Se eu sou tão inferior por que quer tanto me conquistar? - Porque... - Thomas se aproximou e eu ergui meu rosto na direção dele, sentindo toda a tensão fazer firula no pequeno espaço entre nós. Ele conseguia fazer com que a tensão nos abraçasse como se tivesse vários tentáculos, impedindo-nos de sair daquela tensão. - Por quê? Thomas continuou se aproximou ainda mais de mim e ficou com os olhos mais faiscantes ainda. Ele me agarrou pelo braço e me puxou na sua direção, me fazendo encostar meu peito no seu, sentindo o calor dele passar para o meu corpo numa transmissão de calor, tão intensa que me fez perder o fim de controle que eu tinha. Minha camisa era grossa, ideal para dias frios como o que estava fazendo, mas Thomas conseguia passar o seu calor através dela como se eu estivesse nua, sentia o calor de sua pele na minha sem precisar de muito esforço. Ele simplesmente irradiava sobre mim todas as suas chamas de calor, e não apenas por sua pele, seus olhos também enviavam ondas de calor para mim. A boca de Thomas abaixou-se, quase tocando a minha. Meu coração estava mais disparado a cada simples segundo e quando pensei que finalmente nos beijaríamos, Thomas se afastou, pegando a caneca de café de cima do balcão, onde colocara quando começara a discutir comigo e foi para a sala, colocar uma roupa para sair. Parecendo tão perturbado quanto eu, com os ombros rígidos e a testa franzida. E se eu tinha alguma esperança de trabalhar naquele dia, eu poderia esquecêla. Tentei me distrair com os papéis de minha pasta e meu café quente e delicioso. Mas de nada adiantou. Meu corpo ainda estava trêmulo, minha cabeça ainda estava sintonizada em que meu corpo necessitava e pedia desesperadamente. O calor de Thomas novamente. Era muito injusto ele me deixar provar de seu calor e depois tirá-lo tão vilmente. Era como me deixar provar do céu e me tirar de lá em seguida, tão injusto que eu não podia nem ao menos descrever. Ter os seus lábios quase nos meus fazia com que tudo parecesse tão irreal que a única prova que eu poderia ter de que aquilo era realidade era a mancha de café no chão de quando Thomas me puxara contra si e minha caneca de café entornara, derramando um pouco do liquido escuro no chão, mas nem ao menos percebemos isso no momento. Respirei fundo, pela oitava vez naquele dia e obriguei-me a ficar calma que daria tudo certo. Apenas mais alguns dias e não veria Thomas nunca mais. E eu não sabia se isso era bom ou ruim. Minutos depois, Thomas parou ao meu lado dizendo ranzinzamente que já estava pronto para irmos. Fechei o meu apartamento e saimos do prédio. Nas ruas, as pessoas nem se demoravam olhando para nós. Na verdade pareciamos pessoas normais, uma mulher de negócios acompanhada por um metido a skatista, nada que qualquer um não visse todos os dias no Village, casais estranhos não eram muito difíceis de ver no meu bairro, mas era aí que estava o problema. Não éramos um casal. Andar com Thomas pelas ruas do Village não era tão difícil, mas entrar no metrô que nos levaria até Brooklyn foi o momento mais difícil que da nossa

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jornada. Ele não conseguia parar de olhar para todos os lados, fascinado com a quantidade de pessoas andando de um lado para o outro, sem pararem para nada, continuando seus caminhos, o que era mais que comum em Nova York. O metro parecia tão normal para mim, que nasci e fui criada em Nova York, que não consegui entender o fascínio que ele despertava em Thomas, que quase babava de tão empolgado que estava com tudo o que via. Em poucos minutos, já havíamos chegado à estação do Brooklyn, sem nem ao menos nos falarmos por um segundo que fosse. Desde que saíramos do apartamento, eu e ele não havíamos dirigido a palavra um para o outro. Só vi que ele estava admirado com os trens e metrôs pelo brilho de seus olhos, e apenas divisei-os por breves momentos. Estávamos brigados e eu pensava que era melhor continuarmos dessa forma. Brigada com Thomas eu não pensava nele de uma forma sexual. Era mais fácil lidar com ele com aquele bico enorme e aquela cara contrariada do que tentando me seduzir. Porque eu sabia que não resistiria a ele por muito tempo. Sem falar comigo era impossível que ele fizesse qualquer brincadeirinha para cima de mim. Bati na porta da loja de produtos exotéricos onde Adelle trabalhava e abri a porta, sendo anunciada pelo simpático sininho de vento que fez barulho assim que eu entrei. Adelle colocou a cabeça para fora da sala de Reik e me lançou um sorriso radiante, vindo até nós. Com um abraço apertado, ela me cumprimentou e não me deixou falar ou perguntar nada dando um beijo no rosto de Thomas em seguida. Olhei ao redor procurando Harold, mas ele não pareceu estar por perto. Adelle percebeu que eu estava procurando por ele e deu uma piscadela para mim, me fazendo dar uma risada da minha amiga louca. Olhei no relógio de parede em números romanos, em cima do balcão e vi que teria de me apressar. Mas Adelle segurou a minha mão, provando que não me deixaria sair de lá tão cedo. - O Harold está lá dentro, organizando algumas coisas. - explicou ela para nós dois e fez um sinal para que Thomas fosse até lá. Ele andou todo empertigado na direção que Adelle indicou e nem ao menos se virou para trás, mostrando que ainda estávamos brigados. E como eu já dissera, era melhor assim. - Preciso ir, amiga. - me despedi quando vi Adelle vindo fazendo aquela sua familiar cara de quem iria me contar a sua noite. E não. Eu realmente não precisava saber disso. Não naquele momento. - Precisa nada. Você ainda tem oito minutos. - Sim. E isso significa que eu chegarei atrasada à redação. Estou no Brooklyn. Ela inclinou a cabeça e me fez rir da carinha de cachorro perdido que ela utilizou para me convencer a ficar mais um pouco e escutar suas histórias. Mas eu realmente não tinha tempo. Se realmente quiséssemos levar os dois para Wyoming na sexta, eu teria que adiantar todo o meu serviço para não precisar trabalhar no feriado. Que era exatamente o que eu pretendia fazer antes de dois aliens caírem, literalmente, em nossas vidas. - Por favor? - Te ligo mais tarde. - disse abrindo a porta e mandando um beijo para ela,

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correndo porta afora, e não metaforicamente. - Kate. - ela gritou. - Eu vou sintetizar para você saber, não quero guardar essa informação comigo por muito tempo. - eu parei lançando um olhar implorativo para que ela não me contasse nada. - Mentoladas arrasam, mas as de chocolate esquentam e o Harold, bem, o Harold tem uma energia que mortal nenhum poderá igualar! Corri porta afora escutando as risadas de Adelle atrás de mim. Ela era uma louca, mas eu já sabia disso há muito tempo, mas só agora notei que ela precisava de ajuda profissional. E urgente. Com quinze minutos de atraso, cheguei a minha redação escutando meu chefe rugindo atrás de mim querendo as matérias que eu prometera revisar naquele fim de semana. Fiquei tentada a dizer que eu não revisara coisa nenhuma porque eu encontrara uma nave espacial de merda e tive que me livrar de um alien que queria me seduzir. Mas eu sabia que meu chefe além de me mandar para casa, chamaria uma ambulância para me levar, de camisa de força, para uma clinica psiquiátrica. E eu não poderia culpá-lo. Eu era uma pessoa racional e por vezes achava que tudo aquilo era um sonho maluco e estava vivendo aquilo, contar para alguém parecia ainda mais maluco e irreal. - Você tem quinze minutos para fazer isso ou vou esquecer que é minha melhor redatora e te mando para o olho da rua, entendeu, Munnighan? Fiz que sim com a cabeça, abracei-me à minha pasta e corri para a minha sala. Quinze minutos depois, meu chefe estava com as matérias revisadas em seu e-mail e eu já podia revisar as matérias do dia, mais relaxadamente, grata pelo excesso de serviço impedir-me de pensar em Thomas. E começava a fazer justamente isso, quando a srta. Marcie abre a porta e avisa que tem um casal estranho me procurando. Estranho com certeza seria uma descrição muito boa para Adelle. Mandei Marcie mandá-los entrar e quando o casal adentrou a porta, pude ver que a palavra estranha não servia apenas para descrer Adelle. Uma mulher alta de cabelos tão vermelhos que pareciam cor de rosa, entrou na minha sala, vestida com um terninho preto muito elegante e justo, acompanhada de um cara igualmente alto com os cabelos escuros rebeldemente penteados e um terno também na cor preta. Levantei-me de minha cadeira e apertei a mão dos dois, perguntando em que podia lhes ser útil e quase caí para trás quando eles se apresentaram. - Somos Izzy Johhston e Noah Galwind, da ARE. - disse ela. - Agência de Relatório Extraterrestre. - explicou o homem - E queremos lhe fazer algumas perguntas. Eu estava ferrada.

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Oito Minhas mãos estavam trêmulas, mas contive-as enquanto fazia um sinal discreto para que a dupla de agentes se sentasse nas confortáveis poltronas na frente da minha mesa. Os dois se dirigiram para a mesma cadeira, tentando sentarem ambos nela ao mesmo tempo. Franzi a testa os achando paspalhos demais para dois agentes e a primeira impressão apenas se reforçou quando a mulher deu um golpe de quadris no homem que a olhou decepcionado, enquanto se sentava na cadeira que restara, cruzando os braços e parecendo emburrado, tal qual uma criança que perdeu o brinquedo para outra maior. A presença de Izzy era bem mais marcante que a de Noah, mas ambos pareciam tão sintonizados juntos que me estranhou a pequena briguinha pela cadeira. Definitivamente eles não pareciam agentes de coisa nenhuma, a não ser que ARE fosse uma grande piada. Dei uma leve inclinada na cadeira e os encarei, esperando que eles começassem as perguntas. Eles pareciam muito estranhos, e eu tinha muito pouco tempo para perder com aquele tipo de pessoas. Na verdade, com tipo de pessoa nenhuma, eu tinha que terminar o meu serviço o mais rápido possível para terminar com aquela historia de zeladora de ETs. E era exatamente por causa desses ETs que aqueles dois estranhos estavam na minha sala, sorrindo para mim, me encarando com uma expressão muito contente para uma interrogação séria como seria de se esperar de uma agencia de relatório extraterrestre. Mais alguns minutos sorrindo e me encarando e finalmente fechei o meu semblante na tentativa de fazê-los entender que já poderíamos começar com as perguntas que eles queriam tanto me fazer. Demoraram alguns minutos, mas eles finalmente se tocaram do que havia para fazer e Izzy perguntou-e se já poderíamos começar com aquilo. Eu só esperava que não precisasse mentir muito, apesar de conseguir enganar meu chefe vez ou outra, eu não era o que poderia se chamar de boa mentirosa, e sob pressão o meu talento como contadora de histórias falsas conseguia ser ainda pior. Mas naquele momento eu precisava saber mentir muito bem. Eram as vidas e seguranças de Thomas e Harold que estavam em jogo e com certeza Adelle me castraria se por algum motivo eu colocasse ambas as coisas em risco. Assenti que já poderíamos começar e a mulher cutucou o homem para que ele continuasse. Noah pigarreou e respirou fundo. - Bem, a... Senhorita... terá que nos responder algumas perguntas, ok? Encarei aqueles dois mais uma vez. Eles não eram agentes. Eram muito estranhos para isso. E atrapalhados demais também. A idiotice deles era tamanha que me fez perguntar o porquê da NASA contratar babacas daquele escalão. Respondi que sim com a cabeça mesmo e me inclinei sobre a mesa, tentando ver aonde aqueles dois iriam chegar. Estavam mais para uma dupla de qualquer novo programa de humor que pudesse estar sendo lançado que para realmente agentes da NASA ou o que quer que fosse. Quem sabe fosse isso, apenas dois comediantes contratados por algum sem o que fazer do meu

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trabalho que estava se divertindo com a minha expressão. Sim, deveria ter alguma câmera escondida no meu escritório. Estava quase me levantando dizendo que já descobrira a pegadinha quando me passou pela cabeça que ninguém no serviço mandaria uma pegadinha com o assunto de ARE e extraterrestres para mim. Ninguém no jornal sabia disso. Talvez pudesse ter sido Adelle, mas conhecia minha melhor amiga e sabia que por mais que ela adorasse brincar comigo, ela nunca brincaria com algo tão sério como a ARE. Eu sabia que ela também estava com medo de que Thomas e Harold fossem pegos, desde que eles entraram na frente do nosso carro quando estávamos voltando para Nova York. Por mais que aqueles agentes não pudessem ser levados á serio, com certeza eles estavam ali por um assunto mais sério. - Humm - foi a vez de Izzy - A senhorita foi com a sua amiga Adelle Dupre até Coney Island esse fim de semana? - Sim. Fui. Confirmei, mas não dei maiores detalhes. Eles se cutucaram com os cotovelos, como se pedissem para o outro me analisar. Eles faziam as coisas em sincronia, mas de um jeito muito atrapalhado que era ao mesmo tempo perturbador e engraçado. Eles me lembravam uma dupla de um desenho animado bem famoso que eu costumava assistir quando era mais nova. Se eu não me enganava eles se chamavam Equipe alguma coisa, não me lembrava o quê. Minha mente trabalhava rápido, indecisa se negava o fato de que eu vira ou não a nave espacial. Ou "sonda" como eu sabia que eles descreveriam. Ou se eu contava que estava com os dois aliens que estavam dentro dela e pedia para que os levassem embora. Essa hipótese era bem tentadora. Se eles levassem Thomas isso significaria que eu não precisaria mais me preocupar em me render a ele, ou perder a minha paciência. Seria perfeito. Mas eu sabia que se levassem Thomas, levariam Harold também e se levassem Harold era bem provável que desse uma grande confusão, já que a própria Adelle iria buscar o seu alien de volta, e ela já havia provado que quando estava determinada, nem toda a equipe da NASA seria capaz de detê-la. - Bem, e o que as senhoritas foram fazer lá? Ergui as sobrancelhas de um jeito que Thomas costumava fazer, provando que ele estava me influenciando mais do que eu pensava e pedi pra ver os documentos de investigação deles, como eu vira Kate Winslet fazer em um filme certa vez quando estava sendo investigada. Na mesma hora eles me mostraram uma carteira de identidade, com foto e símbolo da ARE mostrando realmente, que por mais idiotas que fossem, eles eram agentes e estavam atrás, realmente, dos nossos aliens, na verdade mais da Adelle do que meu. - Nós fomos ver o cometa, ou coisa assim, que iria passar na noite de sábado. E vimos quando a sonda caiu. Ficamos muito assustadas e fomos embora. - Sozinhas? A pergunta de Izzy me fez encará-la e assenti com a cabeça, decidindo que era melhor não responder em voz alta. Era mais seguro, já que minha voz sempre falhava miseravelmente quando eu estava mentindo. - Só as duas? Me deu vontade de responder sonora e mal educadamente. “Não, a gente

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levou os três porquinhos pra fazer companhia, afinal nunca se sabe se vamos precisar de ajuda com a barraca”. Mas pensei bem e não respondi nada, apenas perguntei aos agentes como eles haviam me achado. Afinal, me lembro de não ter deixado nenhum rastro de nossa presença lá. - A sua amiga pagou o posto de gasolina com o cartão de crédito... - ... então rastreamos a conta dele e chegamos até ela. - Noah terminou a frase de Izzy como se eles estivessem habituados a fazer isso. E para mim não existia coisa mais brega que isso. Gêmeos costumam fazer isso, mas apenas quando são crianças quando crescem até eles mesmos percebem que aquilo é brega e idiota. E aqueles dois nem gêmeos eram, era de se esperar que eles soubessem o quão constrangedor aquilo era. Eu teria que dar um basta naquilo logo. Eu não era uma boa mentirosa, e já estava prevendo que as perguntas constrangedoras começariam logo, logo. - Se chegaram até ela, porque estão na minha sala? Noah e Izzy se entreolharam e não souberam o que me responder. Ou então estavam pensando até quanto de verdade poderiam dizer-me. - Fomos à casa de Adelle... - ... e ela não estava lá, por isso voltamos ao posto de gasolina de Coney Island... - ... e pedimos informações sobre a acompanhante da senhorita Dupre... - ... chegando assim até você. - Que bom. A minha resposta estava repleta de sarcasmo e os dois agentes nem ao menos pareceram percebê-lo em minha voz. Eles eram mais lentos e perturbados do que eu pensava. Minha mente estava dividida entre a loucura daquela dupla e entre Thomas. E como sempre, o meu pensamento pendia mais para o lado de Thomas, reprisando como um filme, todas essas ultimas horas que passáramos juntos. - Temos mais uma pergunta, senhorita Munnighan. - Podem fazer. - disse tirando-me do transe onde eu sentia novamente as sensações malucas e indescritíveis que Thomas me fazia sentir com seus olhos chocolates e profundos. - A senhorita não viu ninguém perto da sonda ou pedindo carona momentos depois da queda, viu? Engoli em seco e me esforcei para não me mexer desconfortavelmente em minha cadeira. Finalmente eles me colocaram em xeque. E eu tinha que pensar bem antes de responder. Uma resposta errada e eles poderiam pegar Thomas e Harold. Por mim, eu bem que queria que Thomas fosse pego pela ARE e torturado para peder aquela maldita pose arrogante e sensual, e eu não sabia dizer ainda se era mais arrogante que sensual ou o quê. Mas havia Adelle e o tanto que seus olhos brilhavam ao ver Harold. Nunca vira minha amiga tão contente quanto naquela manhã, prestes a me contar como fora a sua noite. E eu, como a melhor amiga dela, não tinha o direito de tirar aquele sorriso de seu rosto. Devia de todas as formas possíveis me esforçar para mentir o melhor possível e enganar os agentes. Sim, eu sabia que aquilo era crime. Mas eu não dava a mínima se isso fosse para ajudar Adelle. Era o tipo de coisa

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que eu sabia que ela faria por mim se fosse o contrário. - Não. Deveria ter visto? Sim, eu estava indo bem. Olhando para algumas pilhas de papel mal organizadas, tentando colocá-las em ordem enquanto falava. - Não! Claro que não! - riram enquanto falavam em unissono. - Mas.. - Não viu nenhum carro, pessoa ou algo do tipo? - Além do frentista do posto, queremos dizer. Perguntaram Izzy e Noah respectivamente enquanto me encaravam à espera de uma resposta. - Não, não vi. Desculpem-me. Levantei-me de minha cadeira para dar a entender que gostaria que eles se fossem, mas eles continuaram no mesmo lugar. Passaram-se vários minutos em silêncio até que Izzy se levantasse puxando Noah consigo, como se soubesse que o rapaz demoraria algum tempo para se levantar por conta própria. - Agradecemos a atenção, senhorita Munnighan. - acompanhei os dois até a porta e quando ela já estava aberta, a ruiva entregou um cartão da ARE contendo o seu nome, gesto que foi prontamente repetido por Noah. - se lembrar de algo, ligue-nos. - Podem deixar. Mas acho estranho perderem tanto tempo com uma simples sonda. Parece até que procuram homenzinhos verdes. Minhas palavras mexeram com os agentes que se entreolharam tensos. Eu sabia! Eles estavam procurando por Thomas e Harold. E eu não deixaria que eles nem chegassem perto dos meus garotos. Droga, eu tinha que parar de usar o pronome possessivo ao lidar com Thomas. Com Harold poderia ser até aceitável, levando em consideração que ele seria quase meu cunhado. - Homenzinhos verdes? Céus! Que Idéia! - riram fazendo um barulho estranho que mostrou o quão assustadores e idiotas eles eram. Adelle tinha uma risada estranha, mas a deles conseguira ganhar. - Não me parece absurda. - sorri enquanto caminhava para minha mesa e eles entravam novamente, fechando a porta atrás deles com uma expressão intrigada. Minha mãe deveria ter me colocado num acampamento de manipulação de mentes, não no Escoteiras do Amanhã. Teria sido bem mais valioso. - Além do mais, caçar aliens é o que se espera de uma agência de relatório extraterrestre. A cada instante os dois pareciam mais nervosos. Noah até mesmo tropeçou no tapete de entrada, sem tirar os olhos da sua parceira, como se esperando um comando do que fazer. Izzy jogou o cabelo quase cor de rosa para trás, mostrando o quanto estava incomodada com a mudança da situação. E eu estava gostando da forma como eu estava conduzindo as coisas. - Não se preocupem. Sei ser discreta sobre o que me contarem. Meu coração batia aceleradamente enquanto eu tentava fingir que estava tudo bem. Eu tivera uma ideia. E dessa vez, uma das boas. Com meus talentos jornalísticos, tentaria sondar o possivel sobre aquela investigação. E assim que eles fossem embora, tentaria tirar Thomas e Harold de Nova York. Se estavam investigando extraterrestres, algo que assustava tanto a nós terraquos, com certeza existiam mais que dois agentes patetas. A CIA não era burra e todos tínhamos provas disso. E com certeza os outros agentes

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poderiam fazer coisas nada boazinhas com Thomas e Harold. Minha cabeça estava prestes a soltar fumaça enquanto eu pensava em um plano para tirálos de Nova York e levá-los para Wyoming o mais rápido possível. Eu queria me livrar daquela encrenca. Ou melhor dizendo, eu queria me livrar de Thomas e de seu poder estranho e avassalador sobre mim. Izzy encarou Noah como se perguntasse até que ponto era seguro confiar em mim. Noah assentiu e começaram o relato, com um pouco de receio pesando nas palavras: - Pensamos que aquilo não seja simplesmente uma sonda e sim uma nave que trouxe alguém para o nosso planeta. - Alguém? Por que não dizer "algo"? - desconversei. Se desse outras pistas falsas para eles procurarem, quem sabe eles deixassem os “meus” aliens em paz. - Porque pensamos que esses seres sejam humanóides. - disse Noah - O que facilitaria para eles se esconderem no nosso planeta. - Ou serem escondidos. - completou Izzy - Nunca se sabe se algum terráqueo o está ajudando. Reparando nas palavras dos dois, percebi que eles procuravam apenas um extraterrestre. O que poderia facilitar a tarefa que eu e Adelle tinhamos: escondê-los. Se eles estivessem procurando apenas por um extraterrestre seria bem mais fácil levá-los para Wyoming. Eles procurariam em carros com apenas dois passageiros, não quatro. Sim, meu plano poderia funcionar. - Quem poderia fazer isso? Meu Deus, como eu era cínica. - É o que tentamos descobrir. - responderam juntos. - Parece que acharam algo realmente importante sobre isso. - Sim, cínica demais. - Sim. Pegadas no local. Elas foram coletadas e levadas para análise. - Teremos as respostas amanhã. Amanhã? Deus! Teria que tirá-los de Nova York nessa mesma noite ou a ARE os encontraria. Minhas pegadas e de Adelle estavam no local, não seria difícil deduzir que eu mentira e que estávamos escondendo aliens. E assim que descobrissem-nos, descobririam Thomas e Harold, levando-os sabe-se lá para onde. Mas algum lugar muito ruim, disso eu tinha certeza. Eu já tinha assistido muitos filmes de ficção cientifica e me lembrava do quanto os humanos poderiam ser cruéis e torturadores quando em relação ao que não conheciam. - Temos que ir... - ... Já falamos demais. Eu levantei-me e estendi a mão para eles agradecendo pelas informações preciosas que eles haviam me dado. A tensão corria pelas minhas veias no lugar de sangue e eu tive vontade de pegar o telefone naquele momento e ligar para Adelle perguntando se ela e Harold estavam bem. Sim, eu até poderia perguntar se Thomas estava bem. - Certo. Obrigada por compartilhar essas informações. - Sem problemas. Mas esperamos que as mantenha em sigilo. Como jornalista pode usar isso em beneficio próprio e essas informações pertencem à CIA. - Tudo sob controle. - garanti à Izzy - Essas informações não sairão daqui. Até

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mesmo por que, quem na cidade de Nova York acreditaria nessa história, não é? - eu ri, dando uma pausa e brinquei, na verdade mais falando a verdade em tom de brincadeira. - Um ET em Nova York? Se eu digo isso para alguém, as pessoas me chamam de louca. Rimos e mais uma vez abri a porta para os agentes que saíram sorrindo e acenando para mim até desaparecerem no corredor mais a frente. Assim que tive certeza de que eles tinham partido, me encostei na mesma, respirando profundamente tentando acalmar a tensão dentro de mim e a fúria de meus pensamentos que se misturavam mas levavam todos ao mesmo fim: proteger Thomas e Harold. Por Adelle. E por mais que me doesse admitir, por mim mesma. Afinal, eu não podia deixar que ferissem Thomas. Ele podia ser um idiota, um arrogante e um metido de merda, mas mesmo assim eu me sentia bem demais quando aquelas orbes chocolates estavam sobre mim me relaxando ou tocando o fogo do inferno no meu corpo. Eu protegeria Thomas, Harold e cuidaria de Adelle. Ou eu não me chamava Kate Rachel Munnighan. Assim que pude ouvir meu coração batendo mais devagar, voltei ao meu lugar, terminando de revisar mais de cinco matérias em oito míseros minutos para poder ir para a sala do meu chefe correndo e fazer um pedido que ele com certeza não atenderia, mas era exatamente por isso que eu tinha um trunfo contra o seu tão certo “não. Bati à porta de sua sala e ele me mandou entrar, apontando uma cadeira no canto enquanto discutia com alguém no telefone. Meio com medo, cruzei minhas pernas e fiquei encarando os porta retratos e pequenos calendários de mesa que haviam em cima da mesa. Meu olhar parou no pequeno porquinho de louça que estava cheio de moedas e que eu era morta de vontade de quebrar. - Então, o que você quer, Munnighan? Eu dei o meu melhor sorriso antes de responder e vi meu chefe não desfazer nem um milímetro de sua carranca, me obrigando a começar o meu pedido. - Bem, você sabe que a minha avó mora em Wyoming, não sabe? - Não, nem estou interessado na sua velha e idosa avó. Vamos logo ao assunto, Munnighan, eu não tenho tempo. - Ok, ok. - eu ergui os braços, rendida. - Minha avó está doente, e eu preciso ir visitá-la. - Não. - Mas... - Não, Kate. É simples. Você é a nossa melhor redatora e temos apenas você e Loren trabalhando nesses dias, já que o resto do pessoal está tirando férias, então não posso simplesmente deixar você ir para o fim do mundo e me deixar na mão. - E é aí que eu conto o meu plano secreto para você me deixar ir. - Se tiver a ver com um strip tease, pode esquecer. Você está muito abaixo do peso. Ergui minhas sobrancelhas prestes a rir da resposta dele. Eu não estava abaixo do peso, mas para ele, eu realmente estava. A mulher dele tinha uns

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100 quilos, sem brincadeira. - Não, nada sexual, eu prometo. Bem, e se eu prometer voltar na sexta e trabalhar no feriado de Ação de Graças, fazer hora extra em todos os dias até o natal e dependendo do fluxo de serviço, no natal também? - Então você pode sair da minha sala e ir visitar a sua tão pobre avozinha e mandar as considerações de todo o jornal, em meu nome. Meu chefe era um grande filho da puta escravista, essa era a verdade. Não tinha palavra que ele gostava mais que dinheiro e hora extra. E quando essa palavra vinha de mim, era quase uma dádiva para ele. Dei um pulo da cadeira, abraçando-o e sai da sala, mandando beijocas para ele e no caminho para a saída já passando em minha sala, puxando a minha bolsa e meu casaco da cadeira e entrando correndo no elevador. Para o meu chefe eu iria resolver problemas pessoais, mas mal sabia ele que, na verdade, os problemas eram espaciais mesmo. Minha cabeça estava girando de preocupação com Adelle e os outros e me segurei para não pegar o trem para o Brooklyn de uma vez e socá-los dentro do pequeno carro de Adelle, indo sem dinheiro e nem nada para Wyoming. Mas graças a Deus, eu conseguia ser bem racional mesmo estando tão nervosa. Passei no banco antes de partir e apanhei dinheiro suficiente para a viagem. Não poderíamos mais nos meter com cartões de crédito sob hipótese alguma. Haviam nos descoberto pelo cartão de Adelle e eu não deixaria que isso acontecesse novamente. Apanhei um jornal em uma das bancas no caminho para o metrô e prestei atenção na previsão do tempo atenta a alertas de nevascas que pudessem atrasar a nossa viagem. Mas nada disso estava estampado nas paginas do Times, o que me fez ficar relaxada e entender aquilo como uma previsão de que daria tudo certo. Eu queria pensar positivo daquela vez. Eu conseguiria tirar Harold e Thomas do meu planeta e teria a minha vida de volta ao normal, como eu queria. Ok, eu não queria tanto assim. Eu sabia que Thomas estava mexendo demais comigo e eu queria evitar que aquilo fosse mais alem do que já estava indo. Ele era apenas um alien arrogante. Não deveria ter muito de minha atenção. E parecia que eu não estava ouvindo a mim mesma, já que estava dando toda a atenção possível à ele. Parei para pensar em Adelle e no quanto ela já estava envolvida com Harold. Adelle era do tipo que se apegava fácil às pessoas e com certeza não seria nada fácil para ela deixar Harold quando chegássemos à Wyoming. Mas dessa vez ela não teria razão. Da primeira vez ela o tivera, dissera que aquilo era só o começo, o que realmente fora apenas o começo daquela aventura desvairada. Eu estava errada daquela vez e queria estar errada dessa vez também ao pensar que o fim seria doloroso demais para que eu e minha melhor amiga pudéssemos suportar. Eu realmente desejava estar errada. Para o nosso próprio bem.

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Nove Liguei para Adelle de dentro do metrô, mais tarde quando estava indo para casa, finalmente, depois de ter resolvido todos os pormenores financeiros da viagem e ela estava alvoroçada, como sempre era, mas dessa vez com um motivo concreto. A funcionária do turno da tarde do Mundo Exotérico, loja onde Adelle trabalhava avisara-lhe que a ARE estivera na loja atrás dela. - Eles passaram aqui na redação, também. Temos que levá-la para Wyoming o mais rápido possível. – contei enquanto atravessava os montes de pessoas nas escadas rolantes. - Eu... Eu... Concordo. - O que houve, Adelle? - perguntei quando ouvi a sua voz ficar num tom estranho. Ela era conhecida por ter sempre a voz muito alegre, mas dessa vez ela estava num tom tão dolorido que me deixou tensa. - Não posso deixá-lo partir. Não posso. O choro de Adelle permaneceu na linha por alguns instantes enquanto eu não sabia o que dizer. Ela não podia estar apaixonada. Não tão rápido. Mas estava. Era tão natural para ela que sempre se apegava mais rápido às pessoas. Mas eu não queria pensar na paixão dela, eu deveria ser prática. - Onde você está? - No Village. Estamos no seu apartamento. Como eles já falaram com você, não creio que eles venham até aqui. - Certo. isso faz sentido. - disse enquanto andava até um ultimo lugar vazio no fundo do vagão. - Fiquem aí, não saiam nem se a Madonna parar no portão e fizer uma apresentação ao vivo de Like a Virgin. Pegue uma mochila no meu armário e junte roupas do Ryan e algumas minhas. Acho que podemos dividir algumas peças, não quero arriscar pedindo-lhe para passar na sua casa, ou passar eu mesma. Creio que eles estejam vigiando a sua casa. Entendeu? - Tudo bem, Kate. - Fiquem seguros. E Adelle... - O quê? - ela disse chorosa, partindo meu coração de amiga. Sempre fora difícil para mim ouvir ou ver Adelle chorar. Era como se eu não fosse forte o suficiente para protegê-la, coisa que eu fazia de tudo para fazer bem. - Vai ficar tudo bem. Acredite em mim. - Eu acredito. - respondeu. - Venha logo para casa, quero ir para Wyoming o mais rápido possível. E eu sabia o porquê. Quanto mais rápido nos despedíssemos deles, menos quebrado, nossos corações ficariam. O que eu estava falando! Sem chance! Thomas não quebraria meu coração, não existia essa possibilidade, e mesmo que ela existisse, eu não deixaria que ele fizesse isso. Eu estava blindada. Eu aprendia com meus erros e aprendera com os meus ex-namorados panacas e idiotas, e era mais que claro que Thomas era desse tipo. E eu já estava cansada de homens assim. Adelle entregara o seu coração a Harold , mas eu resistiria o máximo possível e não deixaria que ele ficasse em minha cabeça tempo o suficiente para trilhar um

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caminho direto ao meu coração. Nem mesmo buscar um atalho. Eu não entregaria meu coração e ponto final. Saí do terminal e o céu já estava quase completamente escurecido com as nuvens grandes e já carregadas de neve. Do terminal à minha casa não era um caminho muito longo, e a minha pressa para chegar logo em casa e preparar tudo para a minha viagem urgente, fez com que eu atravessasse as ruas até minha casa numa velocidade recorde que só era alcançada quando eu estava realmente atrasada para o trabalho. O que acontecia sempre uma vez por semana. Estava quase alcançando o muro do meu prédio quando fui brutalmente agarrada por trás e jogada contra o muro. Quis gritar, mas uma grande mão com um cheiro não desconhecido para mim chegou à minha boca, me fazendo querer vomitar e gritar ao mesmo tempo. O pavor estava gelando o sangue em minha veia e tornava tudo mais assustador. Minha cabeça doía por ter batido contra a parede e senti o enjôo ficar mais forte. - Não posso suportar essa traição, Kate. Você não tinha esse direito! – a voz de Rico era furiosa em minha orelha e suas mãos puxavam meus cabelos quase arrancando-os. Tentei me libertar de suas mãos iradas, mas ele jogou-me novamente contra a parede de tijolos do prédio vizinho, enquanto eu o encarava com os olhos arregalados de surpresa e medo. Rico não podia estar fazendo aquilo comigo. Ele era um bom homem. Mas a sua expressão desmentia meus pensamentos. A sua cara estava completamente vermelha e a sua pochete estava machucando a minha cintura, já que estava pressionada contra ela. Os seus olhos brilhavam de raiva e mais uma vez, ele puxou o meu cabelo quase arrancando os fios com a sua força e aproximou meu rosto do dele. - Diz que você vai ficar comigo, Kate. – ele gritou em meu rosto. – Aquele homem não é pra você. Você sabe que não é! Eu sou. Eu sou seu homem, Kate. Eu. Tentei desvencilhar-me dele, mas não consegui. Rico além de mais forte, estava motivado pela raiva e eu sabia que ele não me soltaria. Ele lambeu meu rosto da forma mais nojenta como um cachorro marcando o seu território sobre mim e eu tentei gritar novamente, mas a sua mão em minha boca ainda não me deixava fazê-lo. O pânico aumentava a cada segundo. Tentei pedir para que ele me soltasse. Tentei gritar, mas não conseguia fazer nada disso. - Diga, Kate. Diga que me quer. Eu não diria nem mesmo se pudesse dizer isso. Rico poderia ter alguma chance comigo, quem sabe, quando abandonasse a pochete, a brilhantina e o look anos 80. Mas ele demonstrara que não era nada mais nada menos do que apenas mais um dos idiotas e panacas que sempre se interessavam por mim. Eu já havia desistido de São Valentim. Não, ele só podia estar empenhando todo o seu talento em arruinar toda e qualquer possibilidade de vida amorosa que eu pudesse ter. Mas naquele momento, o medo estava mais forte que qualquer pensamento sarcástico e irônico. Eu não sabia do que Rico era capaz, mas já começava a

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ter uma idéia de que não poderia ser algo bom quando senti, mais uma vez, os tijolos ferirem minhas costas e meu cabelo ser quase arrancado novamente, enquanto eu sentia uma dos dos infernos na cabeça que já batera inúmeras vezes contra o muro. Agora, além da dor e da raiva, vinha um terceiro sentimento. O nojo. A boca de Rico beijava o meu pescoço com força, deixando marcas doloridas, externa e internamente. Ele parecia querer me fundir contra a parede, me prensando mais ainda a ela, me deixando mais machucada, a minha cabeça latejava tanto que estava tornando tudo mais irreal e estranho. Como se aquilo fosse apenas um dos piores pesadelos que eu já havia tido. Mas eu sabia que não era um pesadelo. Era real. O nojo pulsava em meu corpo, me mostrando o quanto de verdade toda aquela situação tinha. Com a boca dele sobre a minha, sua mão que até agora a tampava pode ter acesso contra o meu corpo, sem pudor algum, passando a mão por todo ele. Meus cabelos puxados com toda a força possível, faziam com que a dor nela fosse milhares de vezes pior. Eu precisava de Socorro, mas não tinha como gritar por ele, pois a mão ou a boca de Rico sempre abafavam meus gemidos e pedidos por ajuda. Estava prestes a rezar quando, de repente, o corpo de Rico saiu da minha frente de uma vez e fui puxada contra os braços de uma segunda pessoa. Dessa vez não fora como quando Rico me puxara para seus braços. Dessa vez eu me sentira protegida, acolhida por aqueles braços fortes e protetores. Eu não conhecia o dono deles, mas tinha a plena consciência de que não queria sair de lá nem por um instante. No exato momento em que aqueles braços rodearam-me, toda a dor que eu sentia ficara em um segundo plano, deixando com que uma calma e calor passassem para o meu corpo. - Ela é minha! Minha, seu idiota! Ela nunca ficará com você. Kate me ama. Ela é minha, você já deveria saber. - Saia daqui, Rico. – a voz de Thomas era tão calma quando o seu abraço, mas pude perceber o tom ameaçador de suas palavras, e garanto, pelo passo recuado que Rico deu, que ele também percebera o mesmo. – Saia ou eu não responderei pelos meus atos e darei a surra que você merece. Fique longe de Kate ou não tem idéia do que eu posso te fazer. - Não me importa o que você pode fazer ou não. Kate é minha. E de uma vez, Rico partiu para cima de Thomas que soltou-me e deu um soco mais que potente no nariz dele, derrubando-o no chão. Afastei-me da briga, ficando numa quina do muro contra uma parede e quis me fundir a ela, abraçando-me e tentando desesperadamente não começar a chorar pelo choque do que eu havia acabado de passar. Thomas chutava Rico com força, fazendo o homem se contorcer de dor e cuspir sangue na guia. Depois que achou que a surra era suficiente, Thomas veio até o meu cantinho e abraçou-me com mais força, fazendo com que as lagrimas que eu estava represando, saíssem a cântaros, derrubando-se na camisa dele. Enterrei meu rosto em seu peito amplo e fui reconfortada pelos seus braços fortes que me abraçavam com ternura e suas mãos, que faziam um cafuné suave em meus cabelos doloridos, acalmando tudo em meu interior e

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deixando que apenas as lágrimas dissessem o quanto aquele dia fora duro para mim e o quando a tensão daqueles últimos momentos fora grande. - Shh, acalme-se. Eu estou com você. As lágrimas ficaram mais fortes e enterrei bem mais profundamente meu rosto em seu peito. Eu sentia meu coração palpitar com força após as palavras dele. Thomas me salvara. Apesar de eu achá-lo o cara mais panaca e idiota da face da Terra, ou do Universo, ele provara exatamente o contrário, salvandome sabe-se lá do que poderia acontecer, caso ele não chegasse a tempo. Minhas pernas estavam como gelatina de hospital, moles e sem vida, devido ao pânico que eu sentia, por isso me debrucei ainda mais em Thomas , que entendeu o que acontecia e me amparou com delicadeza. - Vem, vamos para casa. – com um gesto acolhedor, ele se abraçou mais a mim e me conduziu ao meu prédio, não tirando seus braços do meu redor nem quando entramos no elevador, enquanto eu dava graças por Jesus, o porteiro não estar no local. Ele era um amor de pessoa, mas gostava de perguntar demais sobre a vida dos moradores e eu com certeza não estava na melhor dos meus dias para lhe dar uma resposta educada. E eu não queria ser grossa com Jesus. O meu corpo inteiro tremia enquanto o elevador parava no terceiro andar estranhamente, já que ele quase nunca funcionava. Minha cabeça ainda doía e rodava enquanto eu pensava sem parar no que poderia acontecer se Thomas não tivesse chegado e me resgatado. Eu estava tensa ainda, sentindo dores nas costas e na cabeça onde eu havia batido contra a parede e estava muito nervosa, mas graças a Deus eu não estava mais chorando que era a coisa que eu menos gostava de fazer. Ainda mais na frente de Thomas . Eu estava bem abalada. A dor não era apenas física e a interior era o que me fazia chacoalhar-me convulsivamente na direção de Thomas , que entendia e não falava nada, apenas me abraçando com mais força contra si, acalmandome como nunca ninguém conseguira antes. Ele me abraçou mais uma vez antes de abrirmos a porta. E sussurrou algo no meu ouvido que eu não entendi direito o que era. Parecia russo, mas eu não entendia russo e nem nenhuma língua além de inglês e espanhol, e já me achava uma vitoriosa por entender essas duas. “Mra T” alguma coisa, o que ele me dissera, mas eu não sabia o que era. E eu estava abalada demais para pensar em algum tradutor online para entender. E tradutor online nenhum deveria ter uma língua alienígena. Thomas abriu a porta e assim que Adelle, que estava passando em direção à cozinha, viu o meu estado, imediatamente me tomou dos braços de Thomas , de onde saí com muito esforço, tanto da parte dele, quando da minha. Parecia que nossos corpos haviam achado o encaixe magnético perfeito e nunca mais se separariam, mas Adelle cuidou disso, me levando para a cozinha, onde poderíamos conversar mais a vontade. Assim que meu corpo e o de Thomas se separaram e eu rumei para a cozinha, meu corpo começou a tremer imediatamente, como que sentindo falta do calor de Thomas que era única coisa que fazia com que o choque de toda aquela sensação não fosse tão intenso. - Kate! Meu Deus! O que aconteceu?

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Ela tentava manter a voz baixa para que eles não nos escutassem na sala, mas a preocupação não deixava que a voz dela ficasse baixa, do jeito que ela queria que ficasse. Encarei-a séria e vi seus olhos inchados de tanto choro, o que me fez esquecer todo o tormento que eu havia passado mais cedo e obrigou-me a preocupar-me com Adelle. Eu sabia exatamente o motivo de tantas lágrimas. Virei a cabeça na direção da sala e vi Thomas e Harold sentados lado a lado, se encarando seriamente como se conversassem, mas sem mexerem os lábios momento algum. Depois de alguns instantes naquela conversa silenciosa, ambos abaixaram a cabeça aparentando sentimentos novos e conflitantes. Harold aparentava um pesar estranho que fizera seu rosto se contorcer. Thomas tinha uma expressão de dor, como se algo dito naquela conversa o magoasse tão profundamente que a dor era quase física. - Kate! – Adelle chamou minha atenção, fazendo-me olhá-la com os olhos cheios de preocupação e culpa por não estar prestando atenção nela. - Desculpe-me. Eu... Eu ainda estou um pouco abalada. – mais uma vez ela perguntou o que houvera e eu respondi de pronto. – Rico tentou abusar de mim. Ele me pegou do nada e ficou gritando coisas como eu ser dele, que ele me amava e passando a mão no meu corpo e... E... Eu não conseguia gritar. – Adelle abraçou-me com força, fazendo, mais uma vez com que as lágrimas caíssem com força e rapidez pelo meu rosto, deixando com que toda a minha tensão fosse liberada através das lágrimas. – Então Thomas chegou e eu não gosto nem ao menos de pensar no que poderia ter acontecido se ele não houvesse chego. Ela afastou-se por alguns instantes, agora segurando minhas mãos nas suas, como se para que eu soubesse que ela nunca me deixaria sozinha e lançou um olhar na direção da sala, depois franziu a testa de um jeito tipicamente dela que eu costumava ver muito quando ela estava estudando para alguma prova difícil e conseguia, sempre surpreendentemente conseguindo guardar as respostas por mais tempo do que eu. - Eu estava arrumando suas mochilas, enquanto os garotos assistiam TV, quando de repente ouvi a porta bater, vim para a sala e Harold disse que Thomas tinha saído. No momento não entendi, mas agora a saída brusca dele, faz todo o sentido. Ele estava indo salvar você. Só não sei como ele sabia como você estava em perigo. Nem eu. Inconscientemente, meus olhos se fixaram em Thomas e ele levantou seus olhos chocolates para mim, me deixando instantaneamente sem respiração. - Eu sabia que aquele Rei da Cafonice não era uma boa pessoa. Alguém que usa brilhantina e pochete só pode ser um criminoso. Da moda, em especial. Por mais tensa e confusa que eu ainda estivesse, não tinha como não rir ao lado de Adelle. Ela conseguia aliviar todas as minhas emoções ruins apenas estando ao meu lado. Eu sabia que ela estava tentando apenas quebrar o clima ruim com aquela piadinha completamente sem graça, ela queria apenas me animar um pouquinho. E amei-a bem mais por isso. E eu já amava Adelle mais do que qualquer um poderia. Ainda segurando minha mão, ela pediu para que eu fosse tomar um banho quente e sabendo que eu não teria forças para me levantar sozinha, me empurrou na direção do carro de uma maneira bem engraçada, o que me fez

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dar uma risada alta quando chegamos à porta do quarto quase batendo em algumas paredes. - Por que não dorme um pouco? Vai fazer você se sentir melhor. - Não posso dormir. Temos que ir para a estrada assim que eu sair do banho. Quanto mais rápido sairmos daqui, mais rápido acabaremos com isso. - Mas, Kate... - Não, Adelle. Vamos sair ainda hoje e chegaremos com folga de tempo à Wyoming. Meu plano está bem arquitetado e não quero adiamentos. – eu disse com a voz firme, o que surpreendeu a mim mesma. Eu não estava tão firme quanto aparentava, por dentro. Adelle inclinou a cabeça, pensando se valia a pena discordar comigo, mas apenas me deu um beijo na testa e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. Caminhei para o banheiro da minha suíte, observando as mochilas preparadas por Adelle todas em cima da cama, ao todo duas. E eu tinha certeza de que ali dentro realmente teria tudo o que precisaríamos naquela viagem, até um pouco mais também. Peguei algumas roupas quentes que ela não tinha incluído nas malas, de dentro do armário, prevendo que a viagem seria fria, já que Nova York era fria, mas Wyoming naquela época do ano conseguia ser ainda pior. As estradas também deviam estar apavorantes de tão geladas. Eu estava calculando quanto de frio encararíamos em cada parada quando um barulho à porta chamou a minha atenção. Virei-me com cuidado e vi Thomas parado, encostado ao batente com uma expressão estranha, como se estivesse me analisando e não gostando do resultado de sua analise. A dor que eu pensara ver em seus olhos naquela hora, ainda estava presente. O meu coração estava batendo forte, apenas em vê-lo ali parado, dentro do meu quarto, como eu sonhara mais cedo. Ele deu um passo à frente, e este passo pareceu estar sincronizado com o meu coração que bateu mais forte ainda. - Eu vim ver se está tudo bem. A minha garganta estava seca, o meu coração que batia rápido demais não estava me ajudando a articular frases que fizessem sentido então resolvi apelar para os monossílabos até a minha voz se recuperar. - Sim. – a visão dele no meu quarto não estava ajudando em nada. – Eu... Agradeço muito por você estar lá. Eu agradecerei até o resto dos meus dias. Eu estava verdadeiramente grata, e fiquei contente ao ver ele abaixar a cabeça parecendo envergonhado. Outra reação que passou depressa, logo o seu olhar duro retornou e ele pareceu buscar um jeito de dizer o que o estava torturando daquela maneira. Thomas abriu a boca, com os olhos chocolates fixos em mim e depois deu aquele sorriso arrogante, que por mais que eu detestasse admitir, mexia comigo de uma forma sobrenatural. Tão sobrenatural quanto a nossa conexão física, aquele jeito tão dele de mexer comigo. - E no fim, eu estava certo. - ele arqueou a sobrancelha esquerda, com um sorriso de escárnio. - Você precisava de um príncipe para salvá-la. Ou seja, eu sou o seu príncipe encantado, ou seja lá como vocês terráqueas sonhadoras o chamam.

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Fuzilei-o com o olhar e quis dar um soco naquela cara tão perfeita e linda dele por ser tão presunçoso e arrogante. Para não dizer um palavrão daqueles, mordi a minha língua, controlando a pulso a raiva que eu estava daquele... Idiota. Era sempre assim com ele? Um gesto gentil e quinze demonstrações de quão filho de uma vaca ele podia ser? E daí se eu era uma terráquea que ainda desejava um príncipe encantado, apesar de saber que ele não mora em Nova York e em nenhuma das cidades do condado que eu já visitei? Provavelmente nem em todo o território americano deveria existir um homem que fosse o meu príncipe encantado. Se toda panela tinha a sua tampa, eu com certeza era algum tipo de frigideira sem tampa e cabo. - Já agradeci, certo? Já viu que eu estou bem, certo? Então pronto. Pode sair do meu quarto, grande príncipe salvador de donzelas em perigo da galáxia. Você está impregnando o meu quarto com essa sua arrogância de alien e eu não quero gastar dinheiro com desorizadores para ETs. OK, pode ir agora, príncipe. Acho que acertei o alvo, pois Thomas saiu do meu quarto batendo a porta e dizendo algo que eu não entendera, mas soara como "Príncipe não, ainda." ou qualquer coisa assim. Eu não quis dar mais atenção a ele. Eu já tinha dado o suficiente por um dia, e ele simplesmente me dera mais uma prova de que ele era apenas um alien idiota. Sim, eu não negaria que ficara toda encantada quando Thomas me salvara, mas ele mesmo fizera questão de quebrar aquele encanto. Tirei a roupa e entrei no banheiro com a cabeça fervilhando de questões sobre esses comportamentos estranhos dele e dez minutos depois eu já saia do quarto vestida e com as duas mochilas no ombro, preparada para partir. Quanto menos tempo eu demorasse, mais rápido eu me veria de Thomas , e isso era quase um presente de Natal para mim. Thomas estava jogado em um dos sofás, como sempre, com os pés na minha mesinha de centro, já bem agasalhado com um dos casacos de inverno de Ryan e parecendo lindo como um daqueles modelos da Calvin Klein. Adelle e Harold dividiam o sofá restante, bem abraçadinhos e sussurrando coisas no ouvido um do outro. Resolvi assistir o casal de longe e vi Harold sussurrar algo no ouvido dela, que sorriu contente e deitou a cabeça no peito dele enquanto ele sorria de volta com aqueles olhos chocolates brilhando de contentamento e amor. Era a primeira vez que eu via olhos chocolates transbordarem tanto amor e por segundos sem fim, invejei Adelle. Resolvi assistir o casal de longe e vi ele sussurrar algo no ouvido dela, que sorriu contente e deitou a cabeça no peito dele enquanto ele sorria de volta com aqueles olhos chocolates brilhantes. Era a primeira vez que eu via olhos chocolates transbordarem tanto amor e por segundos sem fim, invejei Adelle por ter encontrado o seu príncipe encantado. Thomas parecia ser tão diferente de Harold que as vezes duvidava que eles pudessem ter vindo do mesmo planeta. Com certeza Thomas viera de algum lugar bem escroto da galáxia, para ser filho de uma mãe daquele jeito. Se existisse alguma fossa no planeta deles, eu apostava que era de lá que ele teria saído.

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- Ei, Kate chegou, já podemos ir. - anunciou Thomas olhando para mim e se levantando, já rumando na direção da porta, como se estivesse louco para partir de volta para de onde ele viera. Adelle olhou em meus olhos, com suas íris brilhando, perigosamente à beira do choro, mostrando que a ultima coisa que ela queria, era que eles voltassem. Harold , todo gentil pegou uma das mochilas de meu ombro e levou-a para mim, enquanto uma de suas mãos apertava firmemente a mão de Adelle, que volta e meia sorria para ele, sem esconder por um segundo que estava apaixonada. Eu nunca acreditara em almas gêmeas, mas vendo Adelle e Harold , eu passara a acreditar, aqueles dois nasceram tão distantes, e mesmo assim, nasceram um para o outro. E eu achava isso fascinante. Quando ela brincava que a alma gêmea dela estava em outra galáxia, ela não estava apenas brincando com algo impossível. Ela achara a alma gêmea dela, e me partia o coração saber que agora que ela havia encontrado a sua felicidade, ela teria que deixá-lo partir. Era como um velho ditado dizia: “Se ama algo, deixa-a, se tiver de ser, ela volta para você.” Eu brincava que esse ditado era uma perca de tempo, mas ao olhar para Adelle e Harold , eu esperei que ele fosse verdadeiro. Mesmo se ele fosse embora, eu desejava ardentemente que ele voltasse para Adelle, ela merecia ser feliz ao lado dele. E eu, mais do que ninguém, prezava a felicidade da minha amiga. Depois de colocarmos as mochilas no banco de trás e eu e Thomas nos acomodarmos no banco traseiro deixando o máximo de espaço possível, considerando que o carro de Adelle era pequeno, entre nós, enquanto Adelle e Harold dividiam os assentos da frente, finalmente resolvi olhar em volta, ainda tensa com o que havia acontecido naquele local mais cedo. Meu olhar se fixou no muro onde Rico havia me jogado e meu corpo estremeceu de medo, mesmo sabendo que ele não poderia fazer nada contra mim naquele momento. O medo ainda estava lá, e eu não me lembrava de ficar tão apavorada em toda a minha vida quanto ficara quando Rico me pegara. Mas já havia passado, eu tinha que me acalmar. Respirei fundo tentando ficar completamente calma, mas isso era quase imposivel, as cenas vinham em minha mente me deixando não mais com medo, dessa vez era a amargura que vinha com as imagens. Me deixando ainda mais inquieta, senti minhas mãos soarem frias e sequei as palmas suadas de medo no assento do carro, me surpreendendo quando a mão firme e grande de Thomas ficou em cima da minha, como se quisesse me reconfortar e soubesse exatamente o que eu estava pensando. O que era muito estranho. Thomas smepre parecia saber o que eu estava pensando, como se lesse meus pensamentos e tivesse uma ligação direta com eles. - Acabou agora. - ele disse, acalmando-me apenas com a sua voz profunda e tornando a calma ainda maior com a junção entre as suas mãos e a sua voz. - Eu sei. Graças a você. Sussurrei de volta, sem olhar para seus olhos, envergonhada por ter agradecido mais uma vez, mesmo depois de tudo o que ele me dissera. Eu não podia olhar em seus olhos sabendo o tipo de reações adversas que eu tinha quando olhava para aquela profundeza cor de chocolate.

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Minha atenção se fixou em um carro parado do outro lado da rua com um casal dentro dele. De longe eu não conseguia ver quem era, mas podia divisar que eram um homem e uma mulher, pelas silhuetas, nada mais que isso, afinal eu não era alguém que enxergasse bem no escuro, nem no claro, na verdade. O tempo todo eles encaravam o nosso carro, como se estivessem nos vigiando e só depois de vários minutos, quando Adelle já alcançara a estrada foi que parei para me perguntar se estávamos sendo vigiados. Olhei para trás meio assustada e me tranqüilizei quando não vi nenhum carro nos seguindo. Mas não devia relaxar de todo, a CIA deveria saber de alguma coisa, mesmo sem os resultados das analises das pegadas, e eu já queria estar bem longe quando eles recebessem esse resultado. A Cia não era idiota, era claro que eles sabiam que havia alguém ajudando os extraterrestres, mesmo que eles fossem seres superiores, com mais inteligência, como eles proclamavam, especialmente Thomas , mas eles não conseguiriam se mover sozinhos no planeta sem conhecer tudo antes. Mesmo conhecendo. Eu mesma sabia o quanto a Terra poderia ser perigosa, o estado de Nova York mais ainda por sinal. Um ET não duraria dois dias em Nova York sem nave e sem ninguém por ele. Eu tinha receio até mesmo de pensar no que poderia acontecer quando chegassem os resultados daqueles exames. Eles saberiam que eu havia mentido, não me encontrariam e era aí que as coisas começariam a pegar fogo, como diria Adelle. Eu queria estar bem longe quando isso acontecesse. Não queria encarar Izzy e Noah de novo e por mais que eu odiasse dizer isso em voz alta, nem correr o risco de perder Harold e Thomas . E eu não precisava enganar a mim mesma o quanto eu tinha medo de perder Thomas , o quanto que eu apertei a sua mão, provou isso.

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Dez Eu não podia acreditar que iríamos até Wyoming. Eu era uma pessoa que necessitava do barulho de transito e do cheiro da poluição, assim como um peixe precisa de água para viver. E isso não era apenas uma metáfora. Era sério. Eu respirava tanta poluição que achava que meu pulmão não funcionaria sem ela. Ar puro deveria ser capaz de me matar. Céus! Wyoming tinha algo além de tratores e montanhas, coisa que eu só sabia porque além de ver um pouco sobre isso na escola, na verdade muito pouco mesmo, já que eu não era uma boa aluna quando o assunto era geografia, eu assistira O Segredo de Brokeback Mountain. Então para mim Wyoming tinha tratores, montanhas e gays. Não de um modo preconceituoso, claro. Ah, como eu pude esquecer daquele monte de lagos por todo o lugar e dos campos onde se era proibido construir casas, apenas para deixar o campo livre, leve e solto. O que para mim, sempre acostumada com casas e prédios para tudo o que era lado, era uma baita idiotice. Pode parecer preconceito contra o glorioso estado das montanhas rochosas, mas pra mim, aquele estado não era visto com bons olhos. Talvez pelo fato de ter a menor densidade populacional e por isso ser um estado impossível para encontrar minha alma gêmea. E se eu não estava achando no estado de Nova York que tinha pessoas vazando pelas casas, era mais que certo que eu não encontraria onde havia uma pessoa a cada 100.000km. Se eu tivesse uma alma gêmea, não podemos nos esquecer deste fato. Era ele quem fazia toda a diferença. Saber que eu não tinha uma alma gêmea era torturante demais. Irritada com isso, apoiei-me contra a janela, vendo a estrada enquanto mais uma música, totalmente sem noção, do Backstreet Boys começou a tocar no carro e Adelle a esgoelou ainda mais alto dessa vez e eu quase ri da expressão de felicidade por estar tocando mais uma musica daquela boyband estúpida, já estávamos dirigindo há uma hora e desde que saíramos de Nova York, ela não parava de cantar e/ou falar. Incrivelmente ela parecia conhecer todas as músicas que tocavam na rádio, e as que ela não gostava, davam a Adelle a oportunidade de falar sobre coisas desinteressantes como os problemas com o ultimo estoque de essência de sândalo que chegara na loja onde ela trabalhava. E fazia perguntas de igual importância a mim e Thomas que respondíamos apenas com monossílabos, fazendo ela reformular a pergunta ou emendar umas vinte mais até respondermos uma frase que ela julgasse satisfatória como continuação de conversa. Harold não, ele respondia com o maior prazer, as vezes até mesmo fazia perguntas sobre as musicas para ela, não que estivesse realmente interessado, mas como se quisesse que ela soubesse que poderia falar com ele o tempo que fosse que ele estaria ali para ouvi-la. O que, claro, tornou o meu mal humor ainda pior. Esse negocio todo de Adelle e Harold serem almas gêmeas era muito doloroso para mim que sabia que nunca encontraria a minha. E depois de tudo o que acontecera com Rico mais cedo, a minha vontade de encontrar qualquer alma masculina, fosse gêmea ou não, era mais que nula.

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Depois dos primeiros quinze minutos de falação sem parar de Adelle, e isso não era um eufemismo, eu já não estava mais prestando atenção. Apenas murmurrava algum "jura?" ou "nossa!" de vez em quanto para ela pensar que eu estava prestando atenção no que ela dizia, mas se me perguntasse eu não saberia dizer sobre o que ela estava falando realmente, ela emendava um assunto no outro e depois o parava para cantar alguma das canções que tocavam a todo volume no rádio. E ela estava fazendo isso de novo no momento, já que acabara de falar sobre uma antiga conhecida nossa dos tempos de colégio e do nada começara a cantar uma das músicas do extinto Five e pela olhada que ela me dera pelo retrovisor tinha certeza de que ela estava cantando aquela musica para mim, que dizia algo sobre reagir quando se estiver deprimido, olhar ao redor e seguir em frente. De repente percebi que não era somente para mim que ela estava cantando. E a altura de sua voz não tinha a ver apenas com o fato de ela amar toda e qualquer boyband que existiu ou já tenha existido. Eu sabia exatamente o que ela estava fazendo. Conhecia bem a minha amiga. Ela estava ocupando a mente para não pensar no Adeus. Eu sabia que essa era a palavra que mais machucava Adelle e não gostava nem ao menos de imaginar o que aconteceria quando chegasse a hora de ver a nave levar Thomas e Harold . Eu gostava de pensar que seria mais ou menos como no ultimo dia do colégio quando dei adeus aos velhos amigos com um tanto de pesar, mas contente por estar me livrando de mais uma etapa em minha vida e rumo à minha futura carreira de jornalista. Mas agora era diferente. Não era aos amigos de escola que eu teria de dizer adeus, e eu não tinha mais uma etapa a avançar. Harold não parecia se importar com a cantoria de Adelle que estava alta e perto de mais de sua orelha, mas eu sabia que ele estava preocupado com alguma coisa. O jeito com que ele olhava para ela provava isso muito bem. De minutos em minutos ela também olhava para ele discretamente, como se estimasse quanto tempo levaria para esquecê-lo. Boa pergunta. Quanto tempo levaria para esquecer a presença daqueles alienígenas? Semanas? Dias? Meses? Com certeza menos de alguns minutos, afinal eles já haviam prometido apagar nossas mentes assim que chegássemos onde a nave mãe estava. Eles tirariam de nossas mentes todas as lembranças que tivéssemos com eles. Eu duvidava que eles conseguiriam tirar lembranças do coração. E duvidava também que Harold fosse apagar a mente de Adelle. Virei o rosto para Thomas que estava displicentemente sentado ao meu lado, olhando fixamente para a janela como se eu não estivesse no banco de trás com ele. Ele estava pensativo e não tirava os olhos do lado de fora como se pudesse haver algo de interessante na pista lá fora, até que virou-se para mim com as sobrancelhas erguidas e os olhos chocolates fixos em mim perguntando: - Algum problema, Kate? Fiz que não com a cabeça depressa e ele virou-se para a janela de novo, como se não quisesse perder tempo comigo. Por que ele tinha que ser tão arrogante?E por que ele implicava só comigo? Ele não era exatamente um doce com Adelle, mas a tratava com um pouco mais de respeito e ainda por

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cima não ficava dando essas tiradas cheias de arrogância e pretensão para cima dela. O problema era comigo mesmo, só podia ser. Como eu não tinha uma resposta para as minhas perguntas, fiquei ainda mais impaciente e recorri a estrada sem atrativos para ocupar a minha atenção mais uma vez até a voz de Adelle chamar minha atenção. - Vamos parar em Waynesburg para abastecer, ok, Kate? Aí trocamos e você dirige até Indiana. - OK. - disse despreocupada. Graças a Deus eu dirigia um pouco mais rápido que ela e com certeza em menos de quatro horas eu já teria dirigido por toda Ohio. OK, um pouco de exagero de minha parte, mas pelo menos chegaríamos bem perto de Indiana nesse tempo. Eu garantia. Mas até que Adelle não estava indo muito devagar. O fato de ela cantar prejudicava a atenção dela e por isso ela andava bem mais devagar que eu, que apenas ouvia o rádio, não cantava com ele. Não demorou muito para chegarmos à Waynesburg. E eu dei graças a Deus a isso. Quando meus olhos focalizaram mais que aquelas tarjas amarelas e brancas da estrada e placas de sinalização, foi como se eu tivesse visto uma verdadeira aparição divina. As cores da cidade grande explodiram em meus olhos e o cheiro indescritível de empresas fabris me deixaram animada. Viajar me deixava mal humorada. Viajar para um lugar que eu não conhecia e não tinha nenhuma atratividade para mim me deixava ainda pior. Por isso eu não via a hora de entrar na cidade e sair de dentro do carro para sentir na pele que estávamos realmente em uma cidade grande e eu não estava tendo um daqueles tipos de miragem de estrada. Esticar as pernas também seria uma boa idéia, mas eu acreditava que não teríamos muito tempo para andar pela cidade. Wyoming nos esperava. Da entrada para o posto de gasolina não pude ver muitas coisas características de cidade grande, mas as poucas que eu vira ajudaram bastante a melhorar o meu estado de espírito. Ver um prédio quase me fez sair correndo e abraçá-lo. Era tão bom ver mais que estrada que eu estava quase abrindo a porta e saindo do carro com o mesmo em movimento. Adelle estacionou o carro com cuidado e apanhou a bolsa, espreguiçando-se assim que saiu de dentro de seu pequeno automóvel, fiz o mesmo e respirei profundamente me sentindo bem melhor ao sentir aquele cheiro de cidade grande. Não tão bom quanto o de Nova York, mas aceitável. Minha amiga se preparou para abastecer o carro, e eu sai esticando as pernas, em direção a loja de conveniência. Se seria eu quem dirigiria o carro por agora, eu precisaria de meu combustível para poder resistir mais tempo no volante. Chocolate. Quem sabe uma lata de refrigerante de cola entrasse no pacote. E algumas bolachas recheadas e... Ok. Eu precisava comer no volante para me sentir mais acordada. Café também seria uma boa pedida, mas eu não confiava muito nos cafés de postos de gasolina, eles conseguiam ser piores que os cafés de Thomas . Entrei na pequena loja sem nem ao menos olhar para os lados para ver quem estava ali, indo diretamente à seção de chocolates, pegando seis deles, na sua maioria ao leite e amargos, e em seguida abrindo o refrigerador em um dos cantos e agarrando um engradado de latas de refrigerante de cola. Em direção

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ao caixa achei a seção de biscoitos recheados e já coloquei vários deles na pilha que eu estava carregando em direção à saída, onde ficava o caixa. De tão contente que estava apenas notei vagamente os dois motoqueiros parados atrás de mim, notando que o eram apenas pelas roupas de couro e as chaves inconfundíveis de suas motos nas suas mãos. Não me importei com o fato de eles estarem atrás de mim com menos itens que eu, na verdade apenas dois itens, dois grandes engradados de cerveja barata. Continuei relaxadamente na fila, esperando a minha vez de pagar o que eu havia pego, o que não demorou muito a acontecer e logo eu sai da loja, contente com minhas duas sacolinhas cheias de doces e o melhor de tudo, pagos a dinheiro para não haver a possibilidade de sermos rastreados desta vez. Assim que atravessei a porta da loja de conveniência, Thomas apareceu ao meu lado e me agarrou pelo braço quase me arrastando como um velho homem das cavernas até o carro, onde ele me jogou no banco da frente quase derrubando as minhas sacolas com a sua violência. Me assustei com a sua reação mesmo sem eu ter feito nada. E dessa vez, eu realmente tinha certeza de que eu não tinha feito nada. Coloquei as sacolas no banco do carona e sai do carro e parei em frente a Thomas encarando-o nervosa pela ceninha que ele dera me meio ao posto. Eu odiava que me tratassem como uma idiota, como ele fizera a poucos minutos. - O que você pensa que... – ele me empurrou de volta ao carro e bateu a porta para que eu não saísse de lá, e quase correndo deu a volta pelo carro e entrou no lado do carona parecendo mais furioso a cada instante. E a medida que a fúria dele aumentava, a minha indignação ia na mesma proporção. - Você está no cio? Arregalei os olhos olhando em volta para ver se alguém mais escutara aquilo, mas graças à Deus, Adelle estava pagando a gasolina enquanto Harold estava parado ao seu lado de um modo protetor. Ele havia realmente perguntado aquilo e com aquele tom de voz tão alto mesmo?Eu devia estar em algum - O quê? - perguntei sem entender o que ele queria dizer. Talvez a palavra "cio" tivesse outra definição no planeta dele, quem sabe. Se tivesse a mesma definição que tivesse aqui, isso era passível de um tapa ruidoso na cara. - Você está no cio por acaso? - ele agora gritava enquanto gesticulava fazendo círculos com as mãos, me deixando nervosa por ter aqueles olhos chocolates fixos nos meus e tão faiscantes. Se eu não soubesse que ele estava nervoso, com certeza seus olhos me deixariam saber disso. Seu corpo ajudaria, já que todos os seus maravilhosos músculos estavam retesados. Mesmo assim eu não conseguia entender o que ele estava falando e se ele pensava que os seus gestos estavam me ajudando a entender, ele não poderia estar mais enganado. - Cio? - É, não escutou? Cio? - ele gesticulou as letras da palavra como se eu fosse uma retardada. O que eu deveria estar parecendo no momento. - Cio. Porque deve ser o que está acontecendo. - Cachorras de rua têm cio... - disse sem entender aonde ele queria chegar. Talvez se eu lembrasse a ele o que significasse cio, ele pudesse entender que devia estar usando as palavras erradas comigo. Eu sabia exatamente o que significava cio e não era uma palavra nada gentil para ser usada numa frase

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como “Você só pode estar...” O que ele pensava que estava falando? Ou melhor, que eu era? Olhei para onde Harold e Adelle ainda esperavam a sua vez no caixa e voltei o meu olhar para Thomas ainda sem compreender a mensagem. - Você deve estar no cio. - eu abri a boca indignada com as palavras dele, que depois de tantas tentativas só deveria significar aquilo mesmo. E suas próximas palavras mostraram que ele não estava mesmo confundindo as palavras. - Todos os homens que te vêem pensam em... Caramba, Kate! Será que eu vou ter que correr atrás de você por todos os lugares para que ninguém tente abusar de você? Como uma espécie de guarda costas ou alguma coisa assim? - Ninguém ia abusar de mim agora. Você que me tirou de dentro da loja de conveniência como um Neanderthal imbecil. - Não tenho a mínima idéia do que signifique Neanderthal, mas eu não sei como você consegue fazer isso com todos os homens à sua volta. É alguma espécie de hormônio especial que só você tem? Ou você vive constantemente no cio? Abri a boca prestes a responder qualquer coisa bem ignorante, mas eu estava tão indignada que não consegui nem ao menos pensar em um insulto que fosse bom o suficiente e equivalesse ao soco na cara que eu pretendia dar na cara dele. Como ele poderia ser tão odioso? Impaciente, saí de dentro do carro, indignada demais com as palavras dele e andei furiosamente na direção de Adelle, mas senti uma mão no meu ombro que eu nem ao menos precisei me virar para reconhecer. Menos ainda quando a mão me puxou contra um corpo quente que eu não precisava tocar para saber que era o de Thomas . O seu cheiro penetrante me informava isso, bem como as reações malucas do meu corpo. Eu sentia uma coisa estranha passando pro todo o meu corpo, uma onda que me fazia sentir quente e louca, como eu nunca havia me sentido antes. Como se ninguém nunca houvesse me acendido como Thomas acendia naquele instante. - Você não sabe o que aqueles dois atrás de você estavam pensando, por isso não tem o direito de sair batendo o pé achando que está tudo bem, que eu estou apenas querendo irritar você. Eu tenho as minhas razões para ficar furiosa, Kate Munnighan . Você não tem o menor direito de... - Assim como você – interrompi-o muito brava, enquanto colocava o dedo dem seu peito, muito furiosa e instável para continuar aquela discussão sem bater nele. Na verdade eu gostaria muito de arrancar a cabeça dele naquele momento, mas sabia que seria deselegante. Eu era uma pessoa muito controlada, não deveria nem ao menos cogitar bater em alguém. Mas era revoltante como Thomas conseguia me fazer perder o meu autocontrole tão facilmente. - não tem o menor direito de dizer que eu estou no cio. Você é só um alienígena idiota que acha que só porque está no meu mundo, sob meus cuidados, já é intimo a mim o suficiente pra cuidar da minha vida. - eu respirava profundamente sentindo a raiva pulsar em todo o meu corpo. Meu coração pulava dentro do peito de tão furiosa que eu estava. Nunca na minha vida eu ficara tão furiosa. Nem mesmo quando uma das antigas patricinhas da época do colégio espalhara para toda a escola que eu era apaixonada por Taylor McQueen. O que era uma grande e maldosa mentira. Até o momento

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aquele fora o momento em que eu ficara mais furiosa em toda a minha vida, mas agora, eu batera todas as escalas de fúria que eu pudesse ter. Thomas conseguira que eu perdesse toda a minha paciência. - Se você pensa assim, deixa eu te dar um aviso, ô Alien metido a príncipe encantado, eu cuido da minha vida e se eu estou ou não no cio, querendo transar ou qualquer coisa assim, isso não é da sua conta. Virei para voltar ao carro e não dar um soco na cara de Thomas , que era exatamente o contrário do que a minha boa educação e meu bom autocontrole pregavam, mas exatamente o que a minha mente pedia para eu fazer. Bater tanto nele que a sua cara ficasse completamente desfigurada. Céus, eu nunca sentira algo tão forte na minha vida inteira como eu sentia raiva de Thomas no momento. Abri a porta do motorista de uma vez e estava quase entrando no carro quando fui puxada novamente para aquele corpo cheiroso e que despertava sensações que se avolumaram junto com a minha raiva. Ergui a cabeça para encará-lo e perguntar se ele bateria em mim e meus olhos se perderam naquelas piscinas de chocolate que no momento estavam faiscantes de ódio, mais ou menos como os meus deveriam estar. - Eu. Já. Disse. Que. Não. Sou. Príncipe. - as palavras eram rascantes e foram ditas entre os dentes cerrados de ódio. A raiva dele passava para o meu corpo assim como o calor que emanava dele, como se nossos corpos fossem tão conectados que as reações se transmitiam com nossos toques. A raiva que eu sentia estava passando para ele assim como a fúria dele circulava dentro de mim. Aquele calor não era nada parecido com qualquer calor humano que eu já houvera conhecido, ele estava quente demais, perto demais para que eu pudesse prever qualquer ação dela, qualquer reação minha. Os olhos chocolates estavam fixos nos meus como se buscassem algo no fundo da minha alma, uma resposta ou algo que o fizesse parar de se aproximar de mim como ele estava fazendo. Meu coração estava ainda mais disparado por tê-lo tão perto daquela forma, pulando contra o meu peito sem pausas, me deixando com medo de que ele saísse de dentro do peito. Minhas costas estavam contra a porta do carro, fechada pela nossa impestuosidade quando ele me puxara de uma vez e prensada entre o metal frio do carro e o corpo quente e forte de Thomas , minha mente não teve escolha. Não quando os lábios dele desceram aos meus daquele jeito. Lento. Como se soubesse que eu não fugiria. Dominador. Como se tivesse tomando algo que era dele por direito. Certo. Porque eu mesma sentia que não havia coisa mais certa naquele momento. Meus olhos se fecharam automaticamente, enquanto as mãos de Thomas subiram de meu praço para me segurarem pelo pescoço me puxando mais ainda contra o seu corpo e deixando nossas bocas mais coladas ainda. Como se eu pensasse em fugir! Eu poderia jurar que esse era o ultimo pensamento que passava pela minha cabeça. Minhas mãos estavam caídas ao lado do corpo, eu estava estática, mas era apenas meu corpo que estava paralisado. Eu correspondia àquele beijo como nunca antes correspondera. Minha boca se mexia contra a dele enquanto nossos cheiros se enroscavam como se completassem um ao outro e o que faziam era nada mais nada menos do que o certo em se misturar formando um perfume unico. Nosso corpo tinha o encaixe perfeito, como duas pecar exatamente talhadas para se sobrepor. Meu

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corpo parecia saber que onde ele sempre deveria estar era naqueles braços fortes. E aquele barulho estranho que estava em minhas orelhas? Pareciam sinos. Mas não dei muita atenção a isso, não quando os lábios quentes de Thomas estavam sobre os meus, pressionando de uma maneira sedutora e deliciosa e sua língua suave passeava contra os meus lábios pedindo permissão para adentrar a minha boca. Permissão que eu dei sem pensar duas vezes, sentindo o calor dentro de mim se avolumar ainda mais, me deixando pasma com o quanto aquilo parecia irreal e ao mesmo tempo tão certo, tão profundo tão... Indescritível. Eu precisava daquilo também, daquela forma tão intensa, precisava sentir tudo aquilo em minhas veias. Precisava daquele contato. Imediatamente. Puxei Thomas pela gola do casaco mais contra mim, enquanto sentia-me prensar ainda mais contra a lataria do carro, sentindo o corpo musculoso e quente de Thomas prensar-se contra o meu, deixando tudo encaixado entre nós, como duas peças daquele brinquedo, lego. A sua língua em minha boca, a sua boca esmagando a minha, o seu corpo delineando o meu, enquanto suas mãos agarravam-me pela nuca, de uma maneira extremamente sensual que estava me fazendo perder a cabeça. A raiva que eu sentira mais cedo era enorme? Nem se comparava ao que eu estava sentindo agora. Se eu tivesse algum tipo de escala para medir o prazer, com certeza ele havia perdido o sinalizador do topo. Estávamos apenas nos beijando e eu já estava arfando, mentalmente pedindo por mais. Agora entendia porque Adelle queria tanto saber como era um bebê alien. Era espontâneo querer mais quando os lábios de Thomas estavam sobre os seus. Como um jogo viciante, uma droga. Algo que você sabe que faz mal, mas é bom demais para você sequer pensar em parar. Não tinha como não pensar em mais quando se estava naqueles braços quentes, sendo beijada daquela maneira tão intensa e tendo a mente invadida por aquela avalanche de sensações tão conflitantes e avultantes. Eu me esquecera porque estava tão furiosa antes, aonde estávamos, quem éramos e qualquer outra coisa que não fossem nós dois não tinha a mínima importância no momento. Tudo o que eu queria era mais. E tive medo de pedir miseravelmente por muito mais, em voz alta. Pois era exatamente o que eu queria fazer. Eu via estrelas nos braços de Thomas . Na verdade, estrelas era um eufemismo, já que vi a galáxia toda se abrindo diante dos meus olhos. A sensação de nojo que Rico me fizera sentir, praticamente desaparecera com o toque dos lábios de Thomas . A sensação nos braços de Tom era tão sublime que em alguns momentos eu até mesmo parei de raciocinar, como um animal, apenas preocupada com minha fome de Thomas , que parecia nunca ser saciada, quanto mais o beijava, mais queria. Era muito fácil esquecer de tudo naquele abraço. Mas não podíamos. Céus! O que eu estava fazendo? Ele era um ET. Eu era uma terráquea. Isso estava completamente errado. Querê-lo era errado. Beijá-lo então era piro ainda. Por mais delicioso que fosse. Por mais excitante que fosse, isso não poderia acontecer. E não apenas porque éramos diferentes, mas pelo quanto me assustava as minhas reações à Thomas , sempre tão intensas e animalescas. Eu havia prometido a mim mesma que não sentiria nada tão

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animal. Assim como prometera a mim mesma que não me envolveria com homem algum. Por isso afastei Thomas , com o coração palpitando mais que antes e com os lábios quentes e vermelhos, que tive que controlar para não tocar. Minha respiração estava falha e não tive coragem de olhar para Thomas . Era bem possível que eu me perdesse mais uma vez em seus olhos. - Eu... Eu... - Não fale comigo. – cortei-o entrando no carro e sentando no banco do motorista, colocando o cinto de segurança como se fosse uma armadura contra Thomas sem nem ao menos me importar com os meus chocolates derretendo no banco de trás e minhas guloseimas esperando por mim. Junk Food era a minha ultima preocupação no momento. As minhas reações eram bem mais importantes que refrigerante de cola. Estava perdida em pensamentos, olhando para frente, com as duas mãos no volante, sem nem ao menos me dignar a buscar Thomas com o olhar. E não precisava fazer isso para saber que ele estava há alguns metros, perto de uma das bombas. E graças a Deus, logo Adelle e Harold chegaram e Adelle se sentou atrás para descansar um pouco, enquanto eu me acomodava ao lado de Harold . Adelle não disse nada sobre o que acontecera momentos antes e conhecendoa, isso só podia significar que ela não tinha visto nada. Porque minha amiga não era nem um pouco discreta e considerando a torcida que ela fazia para eu e Thomas darmos uns amassos, com certeza, se ela tivesse visto algo, ela teria chegado ao carro quase fazendo um escândalo. Ou realmente fazendo um e com direito a gesticulações exageradas e replays de cenas que nunca aconteceram. Harold virou-se para Thomas naquele modo silencioso dos dois e pelo retrovisor vi o olhar de Tom ficar duro e Harold dar um sorriso de canto, como se zombasse de Thomas . Como se ele sim, tivesse visto algo. Eu não me sentia bem quando eles ficavam silenciosos daquela maneira. Parecia que conversavam telepaticamente ou algo assim e isso era perturbador demais. Perguntei se podia ir, e ante aos resmungos de Adelle, que tinha a boca cheia de biscoito e do aceno de cabeça de Harold , liguei o carro, saindo do posto e já me despedindo das luzes, sons e cores da cidade grande. A estrada nos aguardava mais uma vez e tínhamos que atravessar toda uma Ohio até de manhã. Ou até menos, mas eu mesma sabia que não conseguiria fazer o percurso em menos tempo, a não ser que eu virasse a mulher à jato. Depois do beijo de Thomas , eu precisava mesmo chegar o mais rápido possível em Wyoming. Eu precisava despachar aquele alien metido. Ou então eu perderia de vez a minha cabeça e o meu controle. E eu prezava muito o meu controle para perdê-lo para Thomas . Adelle inclinou-se para frente, empurrando um dos pacotes de bolacha para mim e Harold , que o aceitou e ligou o rádio, cantando a música que tocava com toda a empolgação possível e ainda brincava uma guitarra imaginária. Eu conhecia aquela música também, e apesar de não me dizer nada sobre o momento, eu pensei que era bom cantá-la para me fazer liberar minhas emoções. Harold sorriu para mim e dei uma olhada rápida para Thomas pelo retrovisor, vendo o olhar fixamente para mim e sorrindo como se planejasse a

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próxima vez de me fazer perder o controle com a avalanche irracional de emoções que ele me trazia. Sim, eu precisava mesmo liberar minhas emoções ou pararia o carro e daria um soco naquela cara tão linda e arrogante. E gritando a letra da música que dizia algo sobre sangrar ou algo assim, pisei ainda mais no acelerador. Não via a hora de ver a placa de "Bem Vindo ao Estado de Wyoming" que para mim significaria algo como "fim do pesadelo". Agora, ainda mais.

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Onze Adelle já havia dormido depois de tantas guloseimas que havia comido. Harold já estava meio que babando no vidro da janela ao meu lado, de um jeito que seria nojento se ele não fosse tão fofo. Dei mais um gole em meu refrigerante de cola, mais do que necessitada dele para continuar prestando atenção na estrada. Eu já estava cansada dela. Não aguentava mais ver estrada. Estava atravessando Ohio no máximo da velocidade permitida e estava até com os olhos doendo de só ver estrada e placas de segurança e boas vindas passarem como um borrão e ficarem para trás. O momento de pararmos estava proximo, afinal, meus chocolates estavam acabando, a gasolina estava na reserva, ou até um pouco mais além e os meus olhos já estavam se fechando. Eu estava acabada. Literalmente. E pensar no beijo de Thomas estava tornando tudo ainda pior. Minha mente insistia em me dar vários boletins de lembrança do quanto aquele beijo fora bom e entorpecente. E podia jurar que estava entorpecida apenas com as recordações. Além do restinho de chocolate que estava no painel à minha frente, o radio ligado em um volume baixo, ajudava a me distrair e continuar acordada. Ou pelo menos a ficar menos delirante. Olhei para trás para ver se Adelle estava em condições de pegar o volante para eu descansar um pouco, mas ela não estava nada confortável, dormindo toda torta. Era fato que teríamos que parar em algum hotel. Necessário, mas não algo que eu quisesse. Não tinha tempo para desperdiçar. Tinha que levar Thomas de volta para o planeta dele o mais rápido possível. Eu não poderia correr o risco de ser beijada novamente. Eu não seria capaz de resistir às emoções daquela próxima vez. E a ultima coisa que eu queria era me atracar com algum alien. Mesmo que este fosse o delicioso e maravilhoso Thomas . O rádio estava tocando várias baladas e músicas melosas para ajudar os casais a se pegarem melhor de madrugada. Ou ajudar os insones com dor de cotovelo. No meu caso, os insones. A voz de uma mulher invadiu o carro de uma maneira quase hipnótica. Sua voz era suave e o volume baixo deixava a musica ainda mais perfeita. Ela cantava sobre nunca deixar alguém e implorava para que o cara a deixasse ser sua mulher. Eu tentei não olhar pelo retrovisor quando a letra da musica entrou por meus ouvidos e reverberou em meu coração. A musica dizia tanto para mim. Esperei que Thomas estivesse dormindo, ou ao menos cochilando como estava momentos antes, mas ao contrário do que eu pensava seus olhos estavam abertos e ele olhava para o teto do carro, batendo as mãos no joelho ao ritmo da musica suave que estava envolvendo-nos. Voltei minha atenção para frente, ainda ouvindo a mulher implorar e chorar ao seu homem, quando senti uma vontade feroz de virar a cabeça para trás. Como se algo me mandasse encarar Thomas . Como não era nenhuma motorista imprudente, ergui os olhos para o retrovisor e os meus olhos se fixaram nos dele por alguns segundos que pareceram até horas. Suas orbes castanhas me deixavam em transe, um transe tão bom que por momentos, até senti meu corpo ficar mais quente, apenas com o nosso contato visual. Mas dessa vez não era como todas as

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outras vezes. Eu sentia algo estranho acontecer comigo. Os nossos olhos estavam fixos um no outro, mas tive que lutar para não fechar os meus. Afinal, naquele momento eu sentia uma coisa alucinante. Sentia lábios invisíveis em meu pescoço, beijando e sugando, enquanto mãos fortes e firmes se perdiam por todo o meu corpo, deixando-o mais quente a cada toque, assim como deixava a minha respiração mais e mais ofegante. Eu devia prestar atenção na estrada. Eu era uma motorista incrível e me orgulhava demais disso, mas no momento eu estava pouco me lixando para estrada e volante. Meus olhos não conseguiam se voltar para a pista à minha frente. Tudo o que meus olhos sabiam encarar eram os de Thomas , e eu não estava achando isso nem um pouco ruim. Volver meus olhos dos dele estava quase para uma missão impossível. Eu arfei mais profundamente quando os lábios que avançavam pelo meu corpo, viraram um pouco a direção, chegando ao meu colo, enquanto as mãos invisíveis acariciavam a minha cintura, passando rapidamente pelo meu colo, depois apertando a minha coxa com força em seguida. Sem tirar os olhos dos de Thomas , inclinei meu corpo contra o banco quente do carro e abri a boca querendo gemer ou gritar do mais puro êxtase, mas eu estava louca demais para sequer pensar em uma frase para dizer. Nem mesmo a palavra demais conseguia sair de minha boca, apenas gemidos que eu nem ao menos pensava em conter. Arqueei-me ainda mais no banco, sem perder as orbes chocolates de vista, sequer por um momento. Eu tinha certeza que era Thomas que estava fazendo aquilo comigo. Não tinha prova alguma, a não ser os seus olhos presos nos meus e o seu sorriso sedutor, como se apreciasse cada arqueio do meu corpo, cada gemido incontido. Ele estava apreciando aquele momento quase o mesmo tanto que eu apreciava aquelas mãos invisíveis que estavam me enlouquecendo tão deliciosamente. Era quase como se me deixar naquele estado fosse uma missão para Thomas . E eu tinha o maior prazer em dizer que ele estava cumprindo a sua missão com todo o afinco possível. Eu estava completamente descontrolada. Nem nos meus sonhos mais reais eu sentira aquelas sensações tão reais. E eu tivera sonhos muito quentes com Johnny Depp de vez em quando. Mas nem no dia em que eu sonhara que Johnny me agarrava no elevador me fazendo gritar horrores, eu sentira meu corpo tão misturado em sensações. Eu necessitava de mais e em caráter de urgência. Eu queria Thomas fazendo aquilo de verdade, já que eu tinha certeza de que era ele que provocava aquelas reações em mim. Não sabia como, mas tinha certeza de que era ele. A mão que apertava a minha coxa subiu lentamente, deslizando-se pelas minhas pernas até o centro delas, me fazendo gemer um pouco mais alto, enquanto a boca invisível subia para a minha orelha. Meu ponto fraco. A mão estava perigosamente perto, enquanto a que estava em minha cintura apertava com um pouco mais de firmeza, me deixando mais perdida. Meu corpo foi de encontro ao banco, querendo parar com aquelas sensações, mas parecia que isso apenas as tornavam mais fortes e enlouquecedoras. Meu corpo flamejava e eu já nem sabia mais que musica tocava no rádio, para onde o carro estava indo ou qual era o meu nome. A mão ousada estava perto demais de onde eu queria que ela estivesse, assim como a boca em minha

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orelha estava perto demais de me fazer explodir de excitação. Aquilo tinha que parar. Eu precisava parar com aquilo antes que fosse tarde demais. Tirei os meus olhos dos dele, jogando a cabeça para o lado de uma vez, quebrando definitivamente o nosso contato visual que era perturbador demais para me deixar continuar. Eu não era nenhuma cachorra de rua para ficar me roçando em um banco de couro, enquanto imaginava mãos e bocas quentes e deliciosas me tocando intimamente. Isso era errado. Espalmei as mãos contra o volante, balançando a cabeça para me obrigar a voltar toda a minha atenção para a estrada. Eu ficara minutos delirando com as caricias imaginarias, era impossível que o carro continuasse no mesmo caminho, como se alguém estivesse dirigindo por mim enquanto eu estava alucinada com as sensações imaginadas. Disfarçadamente, virei o rosto para trás, para ver o que Thomas estava fazendo e ele estava encostado à janela como se estivesse cochilando e nem ao menos tivesse presenciado o que havia acabado de acontecer. Eu estava claramente estafada daquela estrada. Isso para não dizer a verdade. Eu estava mesmo era louca. A placa da cidade de Hamilton apareceu no meu campo de visão mostrandome que faltavam apenas dois quilômetros para que a alcançássemos e eu respirei fundo quando em seguida aquelas costumeiras placas com o anuncio da aproximação de hospitais e hotéis chamaram a minha atenção. Precisávamos de uma parada, mais do que nunca. Aquilo podia ser coisa da minha cabeça, o que com certeza fora, o que significava que eu precisava mesmo parar para descansar um pouco. Ou um muito, no caso. Entrei no desvio para Hamilton e como sempre, o cheiro e as cores da cidade grande me deixaram mais calma. Sentir o cheiro da civilização me deixava muito bem, tirava meu mal humor. E eu esperava que no momento aquilo me ajudasse a ficar sã. Vaguei um pouco pelas ruas largas e sem muita gente, por estarmos bem perto do amanhecer, procurando por um hotel não muito caro, mas também nem tão pulguento para que pudéssemos descansar. Não demorou muito e achei um do jeito que eu queria perto do centro da cidade, estacionando o carro bem em frente a ele e escutando os resmungos de Adelle quando o carro parou de uma vez. Harry que limpara o lado do rosto, meio envergonhado, virou-se para mim como se perguntasse por que havíamos parado e os olhos de Adelle, que eu sentia em minha nuca, provavelmente deveriam estar indagando a mesma coisa. - Precisamos descansar um pouco. Estou exausta e quase tive alucinações. Sim, eu estava bancando mais uma vez a Rainha do Eufemismo. Eu tinha tido a alucinação da minha vida, mas nem sob tortura extrema eu contaria isso para eles naquele momento. Na verdade eu até mesmo me recusava a contar à Adelle que arranjaria mil e um motivos para eu estar tendo aquelas alucinações, e entre esses mil e um motivos estaria o certo. Eu desejava Thomas . Aquele alien maldito era o culpado por tudo. Se ele não tivesse me dado aquele beijo ultra excitante, eu com certeza não teria pensado nada daquilo. Eu estava acostumada com a solidão, o que tornava mais fácil lidar com aqueles sonhos quentes, mas Thomas e seu beijo quente tornaram tudo mais

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complicado de se lidar. Todos concordaram comigo, mais ainda quando desceram do carro e estalaram as juntas doloridas por estarem há muito tempo dentro do carro. Eu, mais do que ninguém, precisava de um bom banho e de algumas horas de sono. O dia fora cheio demais para mim. Um dos mais tumultuados de toda a minha vida. E eu dava graças a deus por o dia estar acabando. Ou começando, melhor dizendo. Apertei o botão ao lado do volante para abrir o porta malas e me encaminhei para lá para pegar as duas mochilas com nossas roupas. Não percebi que Thomas estava ao meu lado até ele perguntar, com os olhos fixos em meu colo, agora revelado, já que eu tirara o cachecol enquanto dirigia com o aquecedor ligado. - Alucinações, Kate? – a sua voz era suave e inocente, mas eu não me deixaria enganar por ele tão facilmente. Coloquei uma das mochilas no ombro, bati com mais força que o necessário a porta do porta malas e fiz um sinal de positivo para Adelle que me avisava que estava indo para o Hotel nos registrar, enquanto eu procurava o estacionamento do mesmo e pegava as bagagens. Não dei atenção alguma a Thomas , que ao contrario do que eu desejava, deu ainda mais corda para que ele continuasse a me enforcar. - Essas coisas são perigosas. Você poderia ter nos matado na estrada. Mais cuidado da próxima vez, querida. Finalmente parei encarando-o furiosa, com a porta do carro aberta e as mochilas uma em cada ombro. Nem cavalheiro para pegá-las ele era. Mais uma prova do quão idiota ele era. Céus, por que eu ainda o desejava? Ergui a mão pronta para mostrar um dedo para ele, mas abaixei a mão em seguida, temerosa. Melhor não dar ainda mais atenção para as idiotices dele. Coloquei as mochilas no teto do carro enquanto tirava o lixo de latinhas e pacotes de biscoitos e chocolates de dentro do carro. Mais uma vez não percebi o quanto Thomas estava perto até levantar os olhos e vê-lo ao meu lado, pegando as mochilas do teto do carro e colocando-as em seu ombro forte, deixando um ultimo recado para mim, finalizado com a sua risada odiosa e zombeteira. - Cuidado com o que imagina, Kate Munnighan . Porque pode conseguir. Completei o velho ditado que minha mãe costumava dizer para mim e fiquei tentada a bater com a cabeça na lataria do carro de Adelle, mas não o fiz ao ver as primeiras pessoas já saindo para as suas corridas matinais. Eu tinha que me controlar melhor. Tinha que aprender uma maneira eficaz de lidar com Thomas ou com certeza ficaria louca no processo. Isso é, se eu já não o estivesse. Eu não queria nem ao menos pensar no quanto meu corpo estava quente apenas de pensar em suas palavras. Eu devia mesmo ter cuidado com o que eu imaginava. Com o que eu desejava e com qualquer tipo de reação que eu pudesse ter perto de Thomas . Eu não podia pensar em nada que tivesse a ver com ele. Nada. Balancei a cabeça mais uma vez, jogando os cabelos para o lado, e dei a volta pelo hotel, finalmente achando o estacionamento, que mesmo eu sendo

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hospede do local, me extorquiu uma quantia bem gordinha. Minutos depois, quando entrei no hotel procurando pelos outros, tive o braço puxado de uma vez por Adelle que já lançou um olhar para os garotos avisando-os que estaríamos no quarto e que eles deveriam ir para o salão de refeições separar uma mesa para nós dois que desceríamos logo. Harold deu de ombros e puxou Thomas consigo para o local onde estava indicado ser o salão de refeições. Adelle deu uma das mochilas para mim e coloquei-a no ombro, imitando-a, e subimos para os dois quartos que ela havia reservado. - Eu quero o 546. – eu disse quando o elevador parou no quinto andar, fazendo-a olhar para mim sem entender por alguns minutos e quando balancei as chaves, ela finalmente se tocou que eu estava falando do quarto. - Ah. Tudo bem. Eu ia pedir para ficar com o 547 mesmo. Ela saiu andando na minha frente, e dessa vez fui eu quem demorou alguns instantes para entender o que estava acontecendo. - Como assim, Adelle? Não vamos dividir um quarto? Adelle deu uma gargalhada que me fez recuar um passo, confusa. - Está louca, Kate? Eu estou louca para dar uns amassos selvagens no Harold . Minhas costas doem e eu quero colocá-las no lugar do melhor jeito possível. Balancei a cabeça, sem ter o que falar para ela e quando achei que as bobagens de Adelle haviam acabado, ela me saia com mais. - Não é a toa que eu pedi os quartos com cama de casal, não é? A mulher enrolou um pouco por causa dos documentos deles e tal, mas depois que o Thomas chegou e sorriu para ela, ela entregou os documentos rapidinho. – ela olhou para a minha cara meio pálida pelo susto que ela acabara de me dar e completou. – Eu também faria tudo o que Thomas pedisse se aquele gatinho sorrisse para mim e... O monologo de Adelle não tinha muita importância para mim naquele momento. As palavras que ela dissera momentos antes ainda estavam rodando em minha cabeça como um carrossel maligno. E não era do sorriso de Thomas que eu estava falando. Como assim “cama de casal”? Eu não poderia dividir uma cama de casal com Thomas . Era demais para o meu autocontrole, já bem debilitado nos últimos dias. Eu poderia fazer muitas coisas com ele. Eu poderia matá-lo. Sim, ele me deixava furiosa a esse ponto. Ou poderia transar com ele loucamente. E se formos levar em consideração as minhas alucinações, com certeza era bem provável que acabássemos rolando feito dois selvagens naquele colchão kingsize. - Cama de casal, Adelle? - É. – disse ela como se não fosse nada. – E não sei por que essa cara assustada. Quando ele te pegou de jeito lá no posto de gasolina a sua cara não estava nada assustada. Meu queijo caiu vários centímetros, e eu encarei-a entre traída e indignada. Então aquela vaca havia visto tudo e estava apenas esperando o momento de jogar aquilo na minha cara? Isso era safadeza demais até para Adelle. - Você viu? – o meu tom era mais que acusatório. - Claro que vi. Aquele foi o beijo mais quente que eu já vi. – ela riu, e abriu a

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porta do quarto 547, entrando nele e jogando uma das mochilas em cima da cama e se jogando em seguida. – Cara, saía faísca de vocês dois. Sério. Ele... Uau! Parece ser bem quente. O jeito que ele pegava você e o jeito que ele... Sentei-me na cama pesadamente, sem nenhuma ação quando as lembranças despertadas por Adelle voltaram para mim com força total. Quente. Palavra mais que exata para descrever o nosso beijo. Na verdade, quente descreveria qualquer forma de contato entre nós. Nossas discussões eram quentes, nossos olhares eram quentes. Nossos beijos eram quase inflamáveis. E tinha certeza de que quando fizéssemos amor, o quarto estaria em chamas, que consumiriam o teto assim como a paixão nos consumiria. Mais dois ou três dias com Thomas e eu me tornaria uma piromaniaca. - Espero reproduzir pelo menos metade desse fogo depois do café. Vou comer bastante pra ter energia porque o Harold ... Aquele tem energia, amiga. Céus, ele sabe o que fazer com... Ei! Por que essa cara de quem vai rir? Olhei séria para Adelle tentando desesperadamente segurar a risada mas ela já me pegara. Então não tive outra escolha a não ser rir um monte da cara dela. Ela parecia uma adolescente boba, deitada de barriga para cima na cama, abraçada a um travesseiro e me contando os detalhes de seu relacionamento com Harold . E sendo amiga de Adelle há muitos e muitos anos, eu já vira aquela cena várias e várias vezes. Mas em nenhuma dessas outras vezes, ela pareceu tão feliz quanto agora. E a risada se tornou um sorriso terno - Eu não preciso saber dessas coisas, Adelle. – disse, brincando e jogando um travesseiro nela que ela me jogou de volta. E de repente ela se sentou na cama, com os tornozelos cruzados e pegou minhas mãos, me fazendo ficar de frente para ela. - Agora é sério, Kate. Como eu farei quando ele entrar na nave mãe? Eu me apaixonei. Eu... Não consigo imaginar minha vida sem ele. Céus, se ela me não me dissesse eu nunca teria reparado. Sim, estava mais do que na cara, mas aquele não era um momento para ficar sendo sarcástica. - Eu não... Eu não... Sei viver sem ele, Kate. Eu já esperava que ela começasse a chorar, então aproximei-me dela e deixei que as suas lágrimas banhassem meu ombro. Ela se apertou a mim, debulhando-se em lágrimas e se perguntando se conseguiria viver sem Kate. E o que eu poderia lhe responder, quando eu mesma não sabia o que seria de mim quando Thomas entrasse naquela nave mãe e apagasse de mim todas as lembranças. - Nós vamos esquecê-los. - Não se engane- ela fungou. – Você sabe que mesmo que eles apaguem toda e qualquer lembrança deles de nossas memórias, nós ainda teremos o calor em nossas memórias físicas. Eles não se apagarão de nossos corações. E eu odiei admitir que ela estava certa, na verdade mais que certa. Eu sabia que meu corpo nunca mais responderia ao calor de outra pessoa como respondia ao de Thomas . - Hey. Não vamos pensar nisso agora, certo? Vamos deixar para lidar com isso quando o momento chegar. – ela sorriu triste. – Levante-se e vamos comer alguma coisa. Estou com fome de outra coisa sem ser chocolates e refrigerante de cola. – Adelle continuou de cabeça baixa, e eu apertei a mão

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dela que ainda estava entre as minhas. – Vamos viver apenas o hoje. - Está dizendo por mim ou por você, Kate? Olhei para ela, mais uma vez me sentindo traída. Ela me conhecia melhor do que qualquer pessoa mesmo. Mas eu estava falando dela. Provavelmente dela. Ou não? Apressei-a puxando-a pelo pé, que se levantou rindo e logo estávamos fazendo brincadeirinhas uma com a outra dentro do elevador. Quando chegamos ao salão de refeições, parei na porta, tensa ao ver Thomas tão lindo à luz do sol que iluminava a mesa reservada para nós. Eu não gostaria nem de pensar no que poderia estar motivando aquela reação tão bestial em meu corpo. Não gostava de pensar que eu poderia estar... Não. Eu não poderia estar. Logo estávamos sentadas na mesa, onde eu não dirigi atenção a nada a não ser o grande bule de café ao meu lado, que eu esvaziei em questão de minutos sem maiores dificuldades. Eu havia sentido uma falta louca de café nas ultimas horas. Era capaz até mesmo de fazer alguma campanha em prol de algumas Starbucks nas paradas da estrada. Comi apenas alguns pedaços das panquecas em meu prato e finalmente lancei algumas olhadas para Thomas que tinha o seu próprio bule, me admirei realmente por ele não estar bebendo diretamente dele, e notei que ele comia com todo o apetite possível seus ovos e lingüiças, não deixando restar muita coisa dentro do prato. Não tinha nem mesmo acabado o café que estava em minha xícara, quando me levantei e avisei que subiria para o quarto, alegando cansaço. Cansaço era um dos motivos também, mas não o principal. No momento eu tinha um plano. Subiria rápido para o quarto e tomaria um banho bem depressa, para que quando Thomas subisse ao quarto, o que demoraria um pouco, levando em conta o quanto ele estava comendo e repetindo, eu já deveria estar dormindo, o que não permitiria que a minha mente me fizesse sucumbir a ele. E eu sabia que sucumbiria mais cedo ou mais tarde. E pedia a deus com todas as minhas forças para que fosse mais tarde. Mas quando cheguei ao quarto e tirei todas as minhas roupas quentes, literalmente correndo para o banheiro, em parte pelo plano e em parte pelo frio, percebi que meu banho não seria tão rápido quando eu pensava que fosse. A água quente em meus músculos fazia com que eu relaxasse e aproveitasse a massagem deliciosa que a água fazia em minhas costas. Ergui a cabeça para a água deliciosa, e a massagem fez maravilhas em meu rosto. Os meus cabelos longos não deveriam estar sendo molhados, pelo frio que fazia lá fora, era capaz de eu pegar alguma gripe se não os secasse devidamente depois, e era claro que o hotel não tinha um secador de cabelos. Mas eu não pensei muito nisso quando a água acariciou meu couro cabeludo, me deixando leve e relaxada. E me fazendo terminar o banho apenas dez minutos depois. Saí do banheiro enrolada na toalha me sentindo terrivelmente revigorada e com os dedos até enrugados de tanto tempo debaixo do chuveiro. Assim que entrei no quarto, minha mente cansada não conseguiu visualizar nada mais que a grande cama macia de lençóis brancos que estava na minha frente. Não pensei duas vezes e me joguei nela, sem nem tirar a toalha molhada. Espreguicei-me sem me importar com mais nada. Era tão raro eu passar

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alguns minutos sem preocupação, como eu estava agora. Thomas não estava na minha mente pela primeira vez desde que eu o conhecera. Espreguicei-me mais um pouco, deixando que a toalha escorregasse pelo meu corpo, sem ligar e me levantei de uma vez quando ouvi uma risada sedutora vinda do outro lado do quarto. Sentei-me na beirada da cama e puxei a toalha para cobrir melhor o meu corpo, mas não muito. Por que aquelas drogas de toalhas de hotel tinham que ser tão pequenas. Não conseguia cobrir o colo e as coxas ao mesmo tempo e isso era um prato cheio para Thomas se divertir ainda mais com os seus sorrisinhos sarcásticos. Coloquei uma mecha do cabelo úmido para trás e ergui os olhos para ele, encontrando-o parado, escorado na porta, com um sorriso tentador demais para que eu pudesse pensar em evitar. O meu corpo clamava por ele, meus olhos estavam me traindo miseravelmente, procurando os dele como se eu quisesse me perder em seus olhos, afogar-me naquela piscina de chocolate mais uma vez. - Er... O Banheiro está desocupado. – anunciei timidamente. - Não estou preocupado com isso neste momento. Thomas se aproximava da cama, me deixando em suspense. Eu desejava desesperadamente repetir aquele beijo e ir muito mais além. Ter tudo do que ele poderia me dar. E pedir mais. E mais. - Com... – limpei a garganta para tentar continuar sem minha voz falhar mais uma vez. – Com que... Você está preocupado. Eu estava me arrastando na cama, indo cada vez mais para perto da cabeceira e estava já com as costas encostada nela, tentando me afastar de Thomas , que também se sentara na cama e estava seguindo a minha trilha de lençóis desarrumados e vinha cada vez mais para perto de mim. Quanto mais ele se aproximava, mais eu dava adeus ao meu autocontrole. Não valia a pena eu ficar me controlando. Não quando eu queria desesperadamente me jogar contra Thomas e me aproveitar tanto de seus lábios. - Estou preocupado com suas alucinações. Não é nada bom ter essas coisas por aqui, não é? Ele estava perto demais. Quente demais. Sedutor demais. - Eu posso lidar com elas. - Jura? – ele inclinou-se sobre mim. – Não quer a minha ajuda. – Afastei-me mais ainda, batendo a cabeça desajeitamente contra a madeira da cabeceira, e isso pareceu chamar a sanidade de volta à minha mente. – Posso ajudá-la com o maior prazer. - Não. Obrigada. Posso lidar com elas, eu já disse. A boca dele estava a centímetros da minha e quando eu pensei que ele finalmente fosse me beijar, ele apenas sussurrou: - Se você tem certeza, então deixarei que lide com elas. E saiu para o banheiro, fechando a porta e me deixando sentada na cama, aninhada contra a cabeceira da mesma sem saber o que dizer. Estática. Ele me deixara no limiar entre o desejo e agora conseguira me deixar completamente na frustração. E não tinha coisa que me deixasse mais furiosa que estar frustrada. Thomas devia ter algum curso de provocação na escola alienígena. Era a única

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resposta que eu tinha para explicar o quanto ele era perito em me deixar tremula de desejo e ao mesmo tempo arrepiada de fúria, ou vice e versa. Levantando-me, olhei pela pequena abertura na janela do quarto, o dia amanhecer de vez e decidi que tinha que terminar com aquilo o mais rápido possível. E a única maneira de fazer isso, seria despachando ele para o planeta de onde ele viera. Longe de mim. E inacreditavelmente, apenas pensar em tê-lo longe de mim, me doeu mais do que eu podia imaginar.

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Doze Eu estava furiosa com Thomas . E assim que tive certeza de que ele estava fora de vista, trancado no banheiro e com o chuveiro ligado, corri para a minha mala e puxei o meu pijama mais grosso, feito de flanela xadrez e que não revelava mais que meus pés, pescoço e pulsos. Não queria que Thomas tivesse motivos para me provocar mais do que ele já estava fazendo. O que ele fazia com uma freqüência realmente assustadora. Coloquei meias para evitar que ele tivesse alguma tara com os meus pés também e me enrolei no edredom, encarando a porta com uma fúria que vinha do fundo do meu peito. Thomas achava muito engraçado ficar brincando comigo daquela maneira, o que eu não achava nem um pouco divertido. Eu não suportava perder o controle sobre meus pensamentos e desejos como acontecia cada vez que eu era abordada pelas egoístas pretensões de Thomas . Mas a quem eu queria enganar, eu sabia que o que estava me deixando furiosa não eram as investidas dele e sim as minhas reações tão imprudentes a ele. O beijo ainda não saia de minha mente, assim como a alucinação que eu tivera no carro e isso me deixava quente a ponto de querer tirar as meias e o pijama, mesmo estando em meio a novembro e seu frio de congelar veias. Eu me odiava por estar tão derretida por Thomas . Eu havia prometido a mim mesma que não iria, nunca mais, nem ao menos ter pensamentos românticos com outros homens que não fossem Johnny Depp, apto a me dar apenas um relacionamento platônico. Nada que não fosse platônico estava fora de minha vida. E de repente surge um alien sabe-se lá de onde e perturba todos os meus sistemas e bagunça todos os meus planos. Com os olhos ainda fixos na porta do banheiro, temendo o momento em que ela seria aberta e revelasse Thomas , o sono e o cansaço foram me vencendo. Enquanto o sono vinha vagarosamente e abatia a raiva que eu estava sentindo, eu imaginava Thomas saindo do banheiro apenas com a toalha cobrindo a parte de baixo de seu corpo e com gotas de água quente escorrendo pelo seu corpo, enquanto ele caminhava quase em câmera lenta em direção à minha cama, deitando-se ao meu lado e segurando o meu cabelo com carinho, puxando minha cabeça para mais perto da dele e beijando-me. Claro que aquilo era parte de um sonho. Um sonho que não deveria se realizar. E conforme o cansaço me vencia com mais força, o meu sono foi ficando mais pesado e cheguei àquele estágio onde não consegue sonhar com nada a não ser um negro intenso em frente aos seus olhos, apenas te descansando. Quando finalmente acordei, espreguicei-me com gosto, jamais me lembrando de ter ficado tão relaxada em minha vida. Imediatamente me lembrei de que tinha dormido na mesma cama que Thomas e virei-me depressa para o outro lado, dando de cara apenas com os lençóis amarrotados e frios. Thomas havia dormido ali, mas isto fora há um bom tempo. Sentei-me e cobri-me com o edredom até o pescoço. Afinal, nunca se sabia. Olhei ao redor e procurei por Thomas , aguçando os ouvidos para saber se ele estava no banheiro. Mas nada. Tudo o que eu pudera escutar fora a minha respiração.

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E com certeza se o meu quarto fosse ao lado do de Adelle , eu estaria escutando umas batidas suspeitas na parede. Adelle era escandalosa até mesmo quando estava... Bem, quando estava se relacionando intimamente com alguém. Céus! A que ponto eu chegara, depois de tanto tempo sem um relacionamento, eu nem ao menos conseguia pensar em outras pessoas aproveitando o que eu negara para a minha vida. Credo. Em pouco tempo eu estaria como a tia Wilhelmina. E até mesmo com teias de aranha nos locais íntimos de tão pouca utilização. Coloquei uma perna para fora da cama, ainda procurando ouvir Thomas , mas provavelmente ele não estava mesmo no quarto. Um vento frio e incomodo entrava pela porta da varanda entreaberta, e andei até ela para fechá-la e achei ali a quem eu estava procurando. Não me desencostei do batente da porta, mas eu tinha certeza de que Thomas sabia que eu estava lá. Era como se algo em meu interior respondesse a todas as reações de Thomas . Como se estivéssemos ligados. O que era, com certeza, mais uma besteira da minha mente super imaginativa. Thomas estava apoiado na barra de ferro que protegia a sacada olhando o céu nublado, onde o sol estava se pondo lentamente, tingindo o céu cinzento com matizes claras de vermelho, rosa, amarelo e laranja. O céu estava realmente lindo e um dos espetáculos mais bonitos do céu para mim era o pôr do sol. Que eu raramente via, presa na redação do jornal. Adelle gostava mais do amanhecer, por isso raramente me convidava para assistir ao crepúsculo com ela. O cheiro de cidade grande que vinha do lado de fora, junto com o vento frio, me deu uma sensação gostosa e ao mesmo tempo uma certa saudade de Nova York. Apoiei-me mais ao batente e respirei fundo sentindo o cheiro bom da cidade entrar pelo meu nariz. Thomas olhou para trás, encarando-me e sorrindo, como se me apreciasse por alguns momentos. Não, ele não estava me apreciando. Era viagem da minha cabeça como sempre. Ele fez um gesto silencioso para o seu lado, que pela primeira vez desde que eu colocara meus olhos nele, não fora arrogante. Ele apenas pedia para que eu ficasse ao seu lado, admirando a vista. O que eu fiz parando ao seu lado, olhando firmemente para o céu admirável. Não estava perto demais de Thomas , preservando o meu autocontrole. Era mais fácil se eu não sentisse aquele cheiro tão diferente e intenso que vinha dele. A mão dele estava apoiada na barra bem próxima a minha e por mais que eu soubesse que deveria tirá-la de lá, meu cérebro não repassou o comando para minhas articulações, deixando a minha mão no mesmo lugar. Pensando pelo lado positivo, era melhor tê-la ali imóvel do que se meu cérebro passasse a informação que minha mão deveria segurar a dele. - Kate ... – ele chamou, tirando a minha atenção do céu para o seu rosto. E esse foi o meu primeiro erro. Olhar em seus olhos tirava toda e qualquer controle que eu pudesse passar horas para levantar. – Como vocês, terráqueos, sabem quem serão seus companheiros futuramente? Estranhei a pergunta e me virei de costas, apoiando a parte de trás do meu corpo na barra de proteção. Parei pensando na possível resposta para a sua pergunta. Nós simplesmente não sabíamos, certo? Existiam algumas exceções que decidiam bem cedo com quem eles iriam se casar, com quem ficariam

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juntos para sempre. Bem, a maioria costumava escolher essa tal pessoa, assim como a mesma maioria se arrependia no final, ou em menos de dois meses. - Bem, eu não sei explicar. Geralmente nossos companheiros futuros são pessoas por quem nos apaixonamos. E esse companheirismo dura enquanto a paixão durar. Seja meses ou décadas. Não posso responder direito a sua pergunta, eu nunca me apaixonei e sou solteira. Thomas continuou apoiado contra a barra e agora olhava os postes de luz se acenderem um a um, em pontos isolados. Coisa que eu costumava adorar ver quando era criança. - Vocês não... Casam por que seus pais decidiram que aquele seria o seu... Companheiro? - Casamentos arranjados, você quer dizer? – ele fez que sim com a cabeça, sem olhar para mim, ainda distraído com o pôr do sol e o acender das luzes. – Algumas culturas ainda têm isso, mas na sua maioria, você mesmo quem escolhe com quem quer se casar. Seja por amor, dinheiro ou simplesmente poder. - Amor. – Thomas repetiu como se saboreasse a palavra em seus lábios. E por alguns minutos desejei que ele me chamasse de amor para que eu aproveitasse a palavra vinda daqueles lábios exclusivamente para mim. Mas isso seria besteira. - Sim. Amor. É quando você gosta demais de uma pessoa que o seu coração bate tão forte por ela que é capaz de sair pela sua garganta. Ela é tudo o que você sempre procurou em apenas uma pessoa. As vezes é a pessoa que você mais odeia no mundo, as vezes é o seu melhor amigo... Nunca se sabe para quem o amor vai aparecer. Parei por alguns segundos pensando no quão fracamente eu descrevera o amor. Mas como eu poderia descrever algo que eu não conhecia? Era como me pedir para descrever o solo de Marte. Eu não sabia nem ao menos se marte realmente tinha um solo. - Em Airamidniv as coisas são um pouco diferentes. Quando ele disse “Airamidniv” nem precisei pensar muito para saber que estávamos falando do planeta dele. Eu estava distraída pelos músculos de Thomas contra a camisa xadrez, mas nem por isso eu era burra. - Como assim, diferentes? - Lá, os nossos companheiros são definidos no nascimento. Os nossos pais decidem com quem iremos nos casar para evitar que hajam complicações no futuro. – ele sorriu para o ar ao seu redor, parecendo um cara normal, não um alien metido. – E então você passa a vida inteira conhecendo a pessoa com quem você vai se casar e criando um vinculo íntimo-romântico com essa pessoa. Para nós o respeito mútuo e companheirismo valem como um... Amor para vocês. Não poderia negar que respeito era valiosíssimo para um relacionamento, assim como companheirismo, mas não podia deixar de repudiar algo tão provinciano e feudal como casamentos arranjados. E assim, não pude reprimir uma careta ao pensar em me casar com alguém que eu não amava. - Não é tão ruim depois de um tempo. O povo todo de Airamidniv já se acostumou com isso.

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Ele falava como se casar com alguém a quem você não amava fosse tão comum como comer cachorro quente no jogo dos Giants. Comum. - Vocês não amam? - Nem todos. Amor é algo muito especial, que só pessoas especiais sentem. – aproximei-me dele e apoiei-me, assim como ele, na barra de ferro com o peito para o ar, sem me preocupar por estar de pijamas do lado de fora do quarto. – Só os fortes amam, é muito difícil amar alguém, é preciso cuidado para não magoar a quem se ama. Esses amantes são os chamados mraknis. Mraknis são as suas almas gêmeas. A pessoa por quem você sempre esperou. Mas elas são tão raras que o meu povo já desistiu de procurá-las. - Como se fala amor na sua língua? A pergunta saíra de meus lábios antes que eu pudesse contê-la. Eu nunca tinha conversado tanto tempo com Thomas sem sair pelo menos um insulto dos lábios de um ou de outro, e eu já considerava isto uma vitoria. - Nells, meu idioma se chama Nells. E amor se pronuncia “mra”. Meus olhos se fixaram na boca de Thomas enquanto ele pronunciava aquela palavra nova para mim. Movi os lábios, repetindo-a sem som e ele assentiu com a cabeça, mostrando que eu estava pronunciando do modo correto. Antes que eu pudesse me dar conta, Thomas estava a minha frente e meu corpo estava prensado contra a grade. - O quão você é forte para o amor, Kate ? Abaixei a cabeça, evitando o olhar de Thomas e procurando uma resposta para a sua pergunta. E então, o quão forte para o amor eu era? Provavelmente não o suficiente, se o fosse, já teria o amor que eu sempre esperara. Se eu fosse forte o suficiente, eu ainda acreditaria em finais felizes. Ou teria o meu príncipe encantado. Isso deveria ser um sinal, certo? Um sinal de que eu não era merecedora de um amor. - Não sou forte. Não estou pronta para amar. - Mas e se acontecer? Eu poderia mudar a pergunta. E se estivesse acontecendo? Eu não poderia negar que meu interesse por Thomas estava cada vez maior e se tornando o que eu me lembrava ser aquela atração alucinada que eu sentia pelos caras no colegial. E que eu tolamente achava que era amor. Mas agora era mais forte, mais doloroso. Mas isso deveria ter ligação com o fato de eu estar mais velha, mais experiente e por isso a sensação ser mais forte. - E se você amar alguém? Eu não estava preparada para uma pergunta como aquela. Eu nunca tinha pensado no que aconteceria se eu quebrasse a minha promessa e me apaixonasse. Com certeza eu partiria o meu coração mais uma vez. Eu nunca começava um relacionamento sem sair machucada no fim, e as vezes nem ao menos precisava começar um relacionamentos para sair ferida. - Isso não vai acontecer. Afastei-me de Thomas e andei alguns passos para perto das plantas que ficavam em um dos cantos da pequena varanda. Thomas acompanhou-me e olhou em meus olhos enquanto fazia outra pergunta que mexeu comigo. - Mas e se acontecesse, Kate ? – a voz dele era insistente e ele parecia querer realmente saber o que passava em meu coração. - Ok. Vamos falar de modo completamente hipotético. Se eu me apaixonasse,

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eu não seria correspondida. - Como pode ter tanta certeza? - Eu sou uma daquelas pessoas sem um par. Uma daquelas que não tem mraknis. Mais uma vez, dei a volta por Thomas e cheguei para o outro lado da varanda, próximo a porta agora. Não era seguro para mim mesma que eu ficasse tão perto de Thomas . - E se nesse universo enorme você achar uma? Meu Deus! Por que ele queria tanto saber? Eu não acharia uma e já estava acostumada com esse fato. Ficar remoendo ele milhares de vezes, apenas me deixaria pior por saber que não encontraria alguém por quem seus olhos brilhassem por mim, como os de Harold brilhavam por Adelle . E por alguns segundos odiei a mim mesma por invejar a minha amiga por ter um amor verdadeiro. - E se você, Thomas , encontrar sua mrakni nesse universo enorme? Ele se aproximou de mim e dessa vez eu não tive para onde fugir. Minhas costas estavam contra a porta de vidro que dava acesso ao quarto, e as mãos de Thomas , uma de cada lado de minha cabeça, estavam me atrapalhando na tentativa de fugir. Eu apoiei a cabeça contra o vidro frio e sorri enquanto Thomas deliciosamente descia a cabeça até perto da minha. - Eu vou... Eu não posso ter uma mrakni, Kate . A cabeça dele se colou à minha e nossas respirações se misturavam. Eu nem ao menos conseguia pensar em possíveis motivos para ele não poder ter uma mrakni, não consegui pensar no quanto ele estava diferente do Thomas que eu conhecia, menos ainda em tentar entender o que naquele Thomas sincero e simples tinha que me deixava tão desejosa de abraçá-lo e não soltar mais. A boca dele tocou minha testa e eu não pude evitar que meu corpo estremecesse ao sentir a sua boca quente contra o meu rosto. E enquanto a sua boca descia pela lateral de meu rosto, parando a milímetros da minha boca eu tremia de desejo, temendo que meu autocontrole se desintegrasse ainda mais e que eu o agarrasse loucamente. - E por que? Os lábios dele tocaram os meus e se afastaram em seguida, como se ele apenas quisesse me provocar. Sua boca se moveu em cima da minha pronunciando sem som uma palavra que eu não entendia, devia ser alguma coisa em nells, que eu nem ao menos imaginava o que deveria significar. - Mra T Nhé. – ele disse em voz alta. - Esse é o motivo de você não poder ter uma mrakni? Ele sorriu e puxou-me para seus braços, surpreendendo-me quando eu não tive a mínima vontade de lutar contra o corpo dele, que se moldava contra o meu de uma maneira deliciosamente linda. Eu nem ao menos me importei por ele ignorar minha pergunta sem nem ao menos se envergonhar. A boca dele estava na minha, dando leves beijos enquanto eu abria a boca permitindo que nosso beijo ficava ainda mais profundo e que nossos corpos se aquecessem, querendo mais e mais. Ele prensou meu corpo contra a porta de vidro e o contraste entre o gelado do vidro e o calor de seu corpo, me deixou enlouquecida. Mas antes que eu pudesse me agarrar mais a Thomas , sem pensar nas

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conseqüências, a porta do quarto se abriu de uma vez e nós nos separamos de uma vez ficando um em cada lado da varanda, de frente para a porta de acesso ao quarto e apoiados contra a barra de segurança. Adelle apareceu na porta da varanda dando uma olhada para os dois lados e de repente passou a rir como uma maluca. - Gente, eu juro que pensei que vocês estavam se pegando no banheiro! Eu dei uma olhada séria para ela que nós duas já conhecíamos. O olhar que significava que eu mataria ela em breve. - Não, eu não estava me pegando com o Thomas . Se aquilo que eu estava fazendo antes dela chegar não era se pegar, então eu não sabia mais o que era. E tinha certeza de que ela sabia o que havia acontecido, não apenas pelo sorriso de “Ok, eu acredito” que ela estampava, mas pelo rubor em meu rosto que me denunciava cruelmente. De repente Adelle ficou séria e me olhou com uma sobrancelha erguida. - Estamos com problemas sérios. Eu sabia que estava com problemas. Thomas estava quase me beijando e minhas pernas ainda estavam trêmulas. Meu maior problema no momento era me esborrachar no chão, já que minhas pernas não agüentariam o meu peso, tremendo daquela forma. - O que houve? – perguntou Thomas . Ele fazia uma expressão completamente ameaçadora para Adelle , que ainda fazia o seu suspense, e me dei conta de que o velho Thomas havia voltado. - Eu liguei para Jane Lynn e ela me deu uma noticia grave e preocupante. - Como assim? - Quem é Jane Lynn? – perguntei depois de Thomas . Ela coçou a cabeça olhando repreensivamente para mim. Ué? Eu não tinha a mínima idéia de quem pudesse ser essa mulher com esse nome tão “olá eu vim do Texas”. - Você com certeza não presta atenção em nada do que eu digo, Kate Munnighan – ela ralhou. – Jane Lynn é a funcionária do turno da tarde na loja. Mas o principal da história não é quem Jane Lynn é, e sim o que houve. – eu e Thomas nos focamos em Adelle esperando o resto da história. – A ARE esteve em meu apartamento e no seu. Assim como em nossos empregos mais uma vez. Ao que parece o exame ficou pronto antes do que pensávamos. Conversaram com Jane Lynn e ela foi reticente e disse que tínhamos apenas ido viajar. Não dizendo pra onde. - Ainda bem. - Não. Porque eles fizeram uma associação mental e descobriram que estávamos indo para a Capital Nacional dos ETs. Eu parei por alguns segundos tentando me dar conta de onde diabos poderia ser a capital nacional dos ETs, quando eu nem ao menos sabia que eles tinham uma. Mas antes que eu pudesse passar muito tempo pensando, Adelle me respondeu, o que alarmou-me mais do que eu poderia esperar. - Ohio? Eles sabem que estamos aqui? Meu Deus Thomas correu para dentro e jogou a mochila para mim, colocando os sapatos apressadamente. Eu entendi de primeira o que ele queria dizer. Tinhamos que sair de Ohio o mais depressa possível. Chegar em Indiana até o final da noite era a nossa principal meta naquele instante.

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Coloquei as roupas que eu havia deixado no banheiro quando fui tomar banho, dentro da mochila, pela primeira vez sem me preocupar em dobrá-las e tranquei a porta para trocar o pijama na velocidade da luz. De dentro do banheiro, eu ainda gritava recomendações para Adelle . Ela e Harold juntos deveriam fechar a conta do hotel enquanto eu e Thomas ligaríamos o carro, colocaríamos as nossas bagagens dentro do mesmo e compraríamos algumas coisas para comermos durante a viagem, já que não teríamos tempo para comer. - Você dirige agora. – Adelle gritou do lado de fora. Já vestida com minha calça jeans grossa e com um suéter creme, acompanhado de um casaco preto bem grosso que tampava com glória meu pescoço, impedindo que Thomas o visse, saí do banheiro me perguntando por que eu teria que dirigir naquele momento. Eu já havia chego ao hotel dirigindo, eu estava mais cansada da estrada do que Adelle . Sem contar que pensar em dirigir, apenas, me lembrava de minha alucinação. E se eu tivesse outra como aquela? - Por que eu? - Porque... – ela ficou vermelha e abriu a porta, pronta para sair, me deixando curiosa. – Porque você tem mais experiência e gosto para acelerações malucas e... Bem, digamos que eu não descansei muito nessas ultimas horas. Eu ri alto e ela ficou ainda mais vermelha por ver Thomas sorrindo dela, e balançando a cabeça como se não acreditasse que ela tinha dito algo como aquilo. - Bem, vejo vocês no carro. Eu ri mais alto e ela mostrou a língua para mim enquanto fechava a porta do quarto, quase correndo. Arrumei a cama, apressada e terminei de colocar o resto de coisas que estavam ali por cima, dentro da mochila. Não demorou muito e encarei Thomas para saber se ele já estava pronto para partir. - Sabia que eu prefiro quando as mulheres não pensam que estão numa competição de quem consegue colocar mais roupas? - O que tenho a ver com isso, Thomas ? – perguntei já pressentindo que Thomas sairia com alguma de suas velhas cantadas que me faziam crer que ele estava de volta ao seu normal. E que aquele momento em que eu estava com ele na varanda fora apenas um sonho. E aquilo era o real. - Que eu prefiro que você tire esse monte de roupas, fique nua, se ajoelhe diante de mim e peça o que eu sei que você quer de mim. Eu me arrepiei por inteiro com a sua insinuação e mesmo querendo me preocupar unicamente com a ARE atrás de nós como uma maluca, tudo o que eu conseguia pensar era que eu realmente queria me ajoelhar aos pés de Thomas e pedir para que ele me amasse com toda a sua força e me fizesse crer que o que eu sentia por ele era apenas uma atração sexual, que eu não estava me apaixonando por ele. - Pedirei para você morrer, não é, querido? Se liga, Thomas . Sai do quarto e bati a porta, me encaminhando para o elevador, sem nem ao menos ligar se Thomas estava ou não vindo atrás de mim. Eu tinha que me focar em fugir de Ohio logo. Chegar em Indiana o mais rápido possível. Colocar aqueles dois dentro da nave e despachá-los de uma

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vez. Mas ao contrário disso, tudo o que eu conseguia fazer era ficar mais e mais tremula imaginando o que aconteceria se eu realmente me ajoelhasse nos pés dele e pedisse para que ele me amasse. Apertei o botão do térreo com força e fúria e forcei minha mente a se focar em fugir e correr, em naves e voltas para Nova York. E então tive que bater a cabeça na parede espelhada do elevador para tentar fazer aquela sensação parar. Eu odiava senti-la por que no fim, ela sempre estava certa, provando o que eu negava a mim mesma com toda a força. E essa sensação dizia que quando Thomas entrasse naquela nave, eu choraria o meu coração fora. Porque eu já sabia, que naquele momento mesmo, enquanto os mostradores mudavam do terceiro para o segundo andar, que eu estava perdidamente apaixonada por Thomas . Mas eu faria o possível para ignorar o que a sensação me dizia. Para ignorar qualquer outra sensação. Para ignorar a Thomas e esquecer que eu mesma existia. E no momento, não tive outra coisa a fazer senão amaldiçoar aquela maldita nave por ter caído naquele momento, naquele lugar.

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Treze Não precisei esperar muito no carro, já que logo Thomas, Harold e Adelle apareceram. Os pacotes de salgadinhos e os refrigerantes de cola já estavam no banco de trás e eu tinha escondido alguns chocolates perto do meu banco para que ninguém os pegasse. Não era egoísmo, mas da outra vez, eu mal comera os chocolates. Não sabia que alienígenas gostassem tanto de doces, mas agora que eu sabia, tinha sido precavida e comprado umas barras de Hershey’s extras. Logo Thomas acomodou-se ao meu lado e sorriu para mim com o seu jeito pretensioso e arrogante que me fez perguntar se a conversa que tivéramos no hotel era um sonho meu ou não. O que provavelmente era. Os olhos de Thomas eram a prova disso. Eles me olhavam com aquele fogo de sedução certa. E exatamente por isso desviei minhas íris das dele e passei a encarar o volante e o marcador de combustível, enquanto esperava Adelle e Harold terminarem de se acomodar e colocar o cinto no banco de trás. - Estou com tanto sono! – ela comentou enquanto eu colocava o carro em movimento e já estávamos saindo do estacionamento do hotel. Dei uma olhada estranha para Adelle pelo retrovisor me perguntando por que diabos ela estaria cansada. Caramba! Eu havia dormido mais de três horas e não me sentia tão cansada assim, apesar de precisar de mais do que isso. - Não conseguiu dormir, amiga? – perguntei inocentemente tendo a resposta em seguida com Adelle se inclinando sobre o meu banco e falando perto da minha orelha. - Experimente passar uma noite com um alien e me diga se você vai conseguir ao menos respirar. Nunca fui do tipo que pede arrego, mas Harold é capaz disso. Tentei reprimir uma risada, mas foi praticamente impossível, assim como também não consegui não olhar para Harold com um sorriso vitorioso no banco de trás. Aqueles dois tinham a química exata que dava aos amantes o final feliz. E assim, não consegui nem ao menos tentar parar o meu olhar, que imediatamente partiu para encarar Thomas, que sorria com o mesmo ar vitorioso para Harold, como se parabenizasse o amigo. Era mais que obvio que eles estavam escutando a nossa conversa e nem ao menos disfarçavam que o estavam fazendo. - Se você não fosse tão lerda e agarrasse o Thomas logo, eu te garanto que ia curar de uma vez esse seu mal humor e ia te deixar bem mais relaxada. Pra quê massagista e sessões de ioga quando se pode relaxar nos braços de um cara como Thomas. E com aquela, Adelle conseguiu me deixar vermelha e me fez brecar o carro de uma vez, tendo que escutar dois ou três motoristas me xingando de barbeira, mas eu estava pouco me importando para o transito ou se eu havia feito alguém bater em minha traseira. Tudo o que passava na minha cabeça era a voz de Adelle ecoando em minha mente como a merda de um coro maldito. - Ei! Calma, Kate! Vamos pelo menos chegar a Indiana primeiro. Aí você pode fazer o que quiser, colega. – ela riu.

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Eu jurava que não tinha achado nem a mínima graça no que ela havia dito, mas o que eu estava achando ainda menos graça, era o olhar de Thomas sobre mim, com um misto de zombaria e desejo que me deixou mais atordoada do que eu já estava e me impossibilitou de conseguir ao menos trocar de marcha para colocar o carro em movimento. - O que houve, Kate? – Thomas perguntou com uma voz inocente que eu sabia que era apenas gozação. – Você está tendo alucinações de novo? Já disse que coisas assim são perigosas... - Eu estou bem. Está tudo bem. Agora , por favor, será que dá pra todo mundo calar a boca e deixar eu dirigir a merda desse carro? Imediatamente a falação parou, mas eu ainda podia escutar risadinhas vindas de todos os lados. Especialmente do direito, onde Thomas estava sentado, mas a sua risada, diferente das outras, não era de zombaria, ela de superioridade, como se ele tivesse conhecimento de todo o turbilhão de sensações que ele me fazia sentir e se alegrasse com isso. Lembrava-me de que quando eu era pequena, eu morria de medo de ETs porque eu acreditava que eles tinham poderes ocultos e que vinham para a Terra apenas para perturbar os humanos. Tudo bem que eu também jurava que eles eram verdes, estranhos e suas caras pareciam de corujas sorridentes. Eu era uma criança, tinha o direito de pensar essas coisas. Thomas tinha me provado que ETs não eram verdes, nem que tinha cara de coruja, na verdade, a sua cara era muito linda pra ser real. Mas uma coisa ainda fazia parte de minha certeza de vida: eles vinham perturbar os humanos. E essa era a diversão preferida de Thomas. Depois de me desculpar com os motoristas atrás de mim, continuei a rua que saia na autoestrada e assim que tive certeza de que estava na estrada, deixei que o meu apelido de “pé de chumbo” dissesse tudo por mim. Estávamos andando a 150 km/h e quando passávamos por algum radar, eu diminuía o suficiente para não receber uma multa, e em seguida pisava no acelerador com força novamente. Quando as placas da fronteira de Indiana apareceram, eu pressionei um pouco mais o acelerador, além do que eu já pressionava. Chegar a Wyoming deveria ser a única coisa em minha cabeça. Dei uma discreta olhada para trás e vi que Adelle já havia dormido no ombro de Harold, que simplesmente olhava para frente distraído. Thomas, com a cabeça encostada na janela fria, descansava também, o que provava que ele não havia dormido o suficiente no hotel. - Hey, Harold. – eu chamei com a voz baixa para não acordar nenhum dos dois e Harold sorriu para mim, me permitindo continuar com o que eu diria. Pela primeira vez desde que eu conhecia Adelle, o rádio estava desligado e achei isso até melhor. Na verdade, eu não estava pensando apenas em chegar em Wyoming o mais rápido possível. Eu estava repassando em minha mente toda a conversa que havia tido com Thomas mais cedo, e enquanto fazia isso, surgiram várias perguntas em minha cabeça que eu preferiria cortar meu braço fora a fazê-las a Thomas. - Você e Thomas... Bem... – eu limpei a garganta que arranhava desesperadoramente e continuei. – Ele me explicou sobre as mraknis e etc e... - Você quer saber sobre as nossas noivas, certo?

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E naquele momento, percebi que Harold tinha a mesma mania sobrenatural de Thomas de parecer ler os meus pensamentos. Assenti com a cabeça enquanto a estrada sendo engolfada pela luz pálida e fria da lua de outono atraia a minha atenção. Eu queria desesperadamente entender o que era aquele sentimento que martelava meu peito apenas de pensar que Thomas poderia ter uma noiva. Era irracional eu ao menos me preocupar com isso. Não tinha nenhum interesse nele, não deveria saber nada de sua vida, e se soubesse o mínimo possível, ele iria apagar minha mente quando chegássemos a Wyoming, mesmo. - Bem, todos em Airamidniv tem noivos ou noivas, desde os bebês até os idosos. Companheiras como chamamos. – eu assenti com os olhos fixos na estrada, evitando olhar para o meu lado direito, como eu tanto desejava. Harold suspirou frustradamente e levei meus olhos ao retrovisor onde podia vê-lo acariciando os cabelos de Adelle com todo o cuidado e eu senti algo dentro de mim se aquecer, era tão bom que minha melhor amiga finalmente encontrara alguém que a amasse e que realmente se importasse com ela. – Eu tenho uma noiva, Kate, ela é uma pessoa maravilhosa, especial, mas eu não posso voltar pra ela. Não quando eu encontrei a minha mrakni na Terra. – ele sorriu contente. – Eu pensei que não era forte o suficiente para amar, eu era simplesmente um assistente de viagens, o que eu poderia querer da vida? E de repente eu me vejo caído num planeta estranho e ao invés de encontrar minha mrakni, sou encontrado por ela. Eu ri, sentindo algumas lágrimas começarem a nublar meus olhos, me permitindo perguntar por que diabos eu iria começar a chorar. Ficamos alguns minutos em silencio, até Harold voltar a falar e secretamente desejei que ele nunca tivesse me dito aquilo. - Para mim é bem mais fácil lidar com mraknis que para Thomas. Eu deixaria Airamidniv e tudo relacionado a ela por Adelle. Eu não tenho muito o que perder por lá. Mas Thomas tem. Ele é o chefe das expedições interplanetárias e o pai de sua noiva é o naul de Airamidniv, por mais que Thomas ame sua mrakni, ele não deixaria tudo isso para trás. A sua família inteira serviu nas expedições interplanetárias e em anos, Thomas é o primeiro chefe. Estão todos muito orgulhosos dele, e ficarão ainda mais quando ele se casar e se tornar o subnaul. Antes que eu pudesse conter a minha boca enorme que eu estava desconfiada que deveria ser do tamanho de um buraco negro bem denso, eu acabei perguntando o que era um naul. Aquilo era algo que não deveria ter a mínima importância para mim, mas inexplicavelmente tinha. - Nauls são o que vocês chamam de chefes de governo aqui. Acho que a palavra que vocês usam para isso aqui é rei. Ah que legal! Thomas seria uma espécie de vice-rei de sei lá onde no meio do espaço. E mais uma vez a minha ironia era o que me ajudava a manter a racionalidade. Eu não queria entender meus sentimentos que estavam em uma confusão total dentro de mim. - Em breve chegaremos a Wyoming e tudo isso vai acabar. - Bem? – Harold perguntou me fazendo questionar a mesma coisa. Tudo acabaria bem quando chegássemos à nave mãe e eles voltassem a Airamidniv?

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- Provavelmente. Vocês vão apagar nossas memórias. – e então, para tornar o clima mais leve antes que eu tivesse que parar o carro, chorando como uma completa idiota sem nem ao menos saber o motivo, na verdade, sabendo mas não querendo admitir, completei: - E quando fizerem isso, por favor apaguem a época do colegial também. Prefiro esquecer que eu usava aquele corte de cabelo. Nós rimos, mas eu não estava com a mínima vontade de fazê-lo, tudo o que eu queria era chorar, então Harold deitou sua cabeça contra a janela, deixando bem claro para nós dois que aquela conversa estava acabada. E era melhor assim. Não queria tocar naquele assunto mais. Nem pensar nele. E enquanto Harold se acomodava para dormir, eu liguei o rádio em qualquer estação, num volume bem baixo para que não acordasse ninguém e tentei desesperadamente manter meu foco na estrada e na música que tocava e não no fluxo dos meus pensamentos e na vontade de chorar que dominava meu peito. Outra placa de sinalização ficava para trás quando identifiquei a introdução da música que começava a tocar. Céus! Até o radio estava contra mim? A música era antiga e falava exatamente o que eu sabia sobre buscar finais felizes e estar tão perto e longe ao mesmo tempo. E por mais que eu não quisesse que elas me tomassem de assalto, as lágrimas começaram a escorrer com força pelo meu rosto enquanto eu tentava desesperadamente não fungar alto demais. Deus! Por favor que eu estivesse enganada, que eu estivesse interpretando meus sentimentos erroneamente. O que eu poderia querer com Thomas? Não havia jeito de ficarmos juntos, então por que meu coração insistia em querer Thomas. Era errado, na verdade mais que errado. Era impossível. Ele era um alien, e um alien importante, fosse lá o que isso significasse, e nunca em nenhuma vida poderia ficar com uma terráquea perdedora como eu. A estrada começou a se embaçar diante dos meus olhos e decidi que era melhor que eu parar o carro antes de um acidente. Por que eu estava chorando? Era irracional desejar algo que você sabe que não pode ser seu. E ainda por cima desejar um alien. O que eu tinha na cabeça? Apoiei minha cabeça no volante enquanto os soluços vinham cada vez mais fortes e incontroláveis, sorte que baixos. Minha cabeça já começava a doer por causa da força do meu pranto e com isso não consegui ver que eu não era mais a única acordada dentro do carro. A mão de Adelle estava em meu ombro, enquanto ela estava meio encaixada no espaço entre os dois bancos da frente. Eu conhecia minha amiga, sabia que pelo menos enquanto eu não parasse de chorar ela não perguntaria nada. Mas e quando eu parasse? O que eu responderia? Que eu achava que estava apaixonada por um alien que me desprezava e amava me deixar furiosa? Que eu não sabia quando e como eu começara gostar dele, na realidade ainda tinha medo de admitir a mim mesma que gostava, mas que não poderia ficar com ele, e nem mesmo se quiséssemos? Como eu explicaria que eu estava me apaixonando por um cara que... Simplesmente não era para mim? Eu ergui os olhos pra minha melhor amiga e ela sorriu para mim com um ar pesaroso. E então Thomas estava errado, ele e toda Airamidniv estavam errados. Apenas quem era forte podia amar? Errado, errado e mil vezes

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errado. Eu era uma covarde, uma fraca e estava desesperadamente querendo me enganar, mas o que eu poderia fazer, parecia que era verdade. E se fosse? A duvida nublou meus pensamentos e aumentou meu choro. A mão de Adelle apertou o meu ombro com um pouco mais de força, para que eu finalmente a encarasse e quando o fiz, ela limpou as lágrimas do meu rosto como costumava fazer quando éramos crianças e eu suspirei quando ela me puxou para o meio entre os bancos e me abraçou meio desajeitadamente. Eu me sentia bem no abraço da minha amiga, me dava uma gostosa sensação de estar em casa, e naquele momento, senti que era tudo o que eu precisava. Ter Adelle me abraçando me dava conta de que mesmo que não houvesse um futuro bom, ela sempre estaria ali no meu presente, tomando conta de mim, assim como eu tomava dela. - Não te vejo chorar assim desde... – ela parou pensando sobre a ultima vez que ela me vira chorar daquela maneira. E era difícil lembrar. – Desde que aquele espinho entrou no seu pé num dos acampamentos do Escoteiras do Amanhã. Eu me lembrava daquele episódio. Nunca tinha sentido tanta dor em toda a minha vida. Até aquele momento. O meu coração apertava tão forte que por alguns minutos eu pensei que ele fosse se autoexplodir. O que não seria uma má idéia. Tudo o que tirasse Thomas do meu coração seria válido naquele momento. - O que houve, Kate? – ela disse um pouco mais alto, mas fiz um sinal com a mão nos lábios para que ela falasse mais baixo para que não acordasse os garotos. Eu simplesmente odiaria que Thomas acordasse e me visse chorando daquela forma. Era mais que claro que assim que ele visse minhas lágrimas, ele realizaria aquela mágica estranha e saberia no que eu estava pensando. Era estranho demais, mas parecia que Thomas sempre sabia o que estava passando em minha cabeça. E eu não queria, de jeito nenhum, que ele soubesse que eu estava apaixonada, ou pelo menos bem perto disso, por ele. - Eu estou bem, Adelle. Só estou um pouco cansada, mas isso é normal. Passamos por algumas emoções fortes nesses últimos dias e devem ser apenas meus nervos extravasando. - Você sabe exatamente que não é isso. Deus! Eu nunca, em milênios, conseguiria enganar ou mentir para Adelle, ela sabia exatamente o que ia dentro de mim, além de conhecer cada inflexão da minha voz, cada sussurro, cada sorriso. E era mais que obvio que Adelle sabia o que ia em meu coração naquele momento. Eu não precisaria me explicar. Adelle já deveria saber. Dei uma ultima fungada e decidi que se escondesse de mim mesma que estava apaixonada, se mentisse para o meu coração que eu amava Thomas, eu com certeza conseguiria com que Adelle não soubesse nada, ou pelo menos não me importasse com isso. Ou não. Adelle sempre se importava com qualquer coisa que dissesse respeito a mim, assim como eu sempre me importava com Adelle. - Pronto. Já passou, vou dirigir por mais alguns quilômetros e pode ter certeza de que vou me sentir muito melhor. – eu dei um sorriso para ela, que eu rezava para que ela não tivesse percebido que ele não se refletia em meus olhos. – Você sabe como eu fico mais contente quando eu piso firme no

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acelerador. Ela riu sabendo que eu estava tentando dobrar ela e voltou a deitar a cabeça no ombro de Harold, com um sorriso satisfeito, mas em contrapartida, os olhos preocupados voltados pra mim. Deu um sorriso pra ela e mudei a estação do rádio, que ainda tocava baladas românticas e deprimentes que provavelmente me fariam chorar ainda mais. Desta vez a rádio era country e uma música estranha e com um barulho terrivelmente irritante de bandolim enchia o carro num volume ainda baixo. Era melhor assim. Músicas irritantes atraiam a minha raiva e impediam que eu caísse no choro. De novo, eu deveria acrescentar. E eu já estava quase a cento e oitenta e cantando uma das baladas countries que eu conhecia bem até demais. Enquanto cantava e dirigia sem prestar muito atenção a placas e todo o resto, eu tinha um chocolate deliciosamente meio amargo nas mãos. O que mais eu poderia querer? Dei mais uma grande mordida na barra de chocolate e me senti melhor enquanto cantava o refrão de Cowboy Take Me Away das Dixie Chicks que era o mais perto que eu conseguia chegar dessa parte rural dos Estados Unidos. Uma música country de vez em quando, um colar de flores tipicamente havaiano em uma ou outra festa a fantasia e um cartão postal a tia Loren que morava na costa leste e era o máximo que eu conseguia de manter a igualdade entre todos os estados do país. E olha que eu já estava fazendo até demais, na minha opinião. Ri com gosto quando inverti a segunda estrofe, tampando a boca em seguida com medo de ter rido muito alto. Nunca mais duvidaria de Adelle quando ela enumerava as curas terapêuticas do chocolate. Ele realmente melhorara o meu humor, e misturado com refrigerante de cola, eu estava nas mais perfeitas condições, nem ao menos parecia que eu havia chorado minutos antes. E claro, que o meu olhar mantido sempre em frente, não sendo desviado para uma certa pessoa ao meu lado, facilitavam e muito a minha melhora de humor. Mas foi apenas lembrar de Thomas, que meu olhar imediatamente se virou na direção dele, como se apenas chamar o nome de Thomas já tivesse alguma magia que atraísse o meu olhar para o ponto onde ele estivesse, qualquer que fosse o ponto. - Ei. – a voz sonolenta dele disse e imediatamente virei meus olhos pra frente como se jamais tivesse olhado para ele. – Kate. – ele chamou novamente. Com relutância, respondi ao seu chamado com um resmungo que permitiu que ele continuasse. – Se eu te disser algo agora, você não irá esquecer? - Se você não apagar minha memória, não. Apenas de lembrar sobre apagar a minha memória, eu já sentia algo perturbando o meu peito com uma força esmagadora. Mas como eu já havia pensado mais cedo, qualquer forma de esquecer Thomas era válida, e se fosse apagando minha mente e tirando dela toda e qualquer lembrança, eu ficaria ainda mais aliviada. Mas... E se não conseguisse tirar Thomas do meu coração? Não. Nem ao menos pensaria nesta hipótese. Era pedir demais para o azar. - Mesmo que eu apague, - ele disse com um ar superior mas estranho ao

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mesmo tempo, e nem ao menos sei dizer porque aquela estranheza me intrigou tanto. – Você promete que não esquecerá minhas palavras? - Fala logo, Thomas. - Mra T Nhé, Kate. Ergui as sobrancelhas para ele, sem entender nada do que ele queria dizer. Mra T Nhé, grande coisa, eu poderia jurar que logo esqueceria daquilo, coisas que não faziam sentido pra mim logo saiam da minha cabeça. De repente me lembrei que ele comentara alguma coisa como aquilo no meu apartamento, mas segurei minha língua evitando que eu perguntasse o que aquilo significava. E antes que eu pudesse arrancar a minha língua a dentadas, pude ouvir as palavras saindo de meus lábios: - O que significa isso? - É uma palavra Nells que está quase perdida. Poucas pessoas a dizem, e muitas não entendem realmente o que ela quer dizer. Acho que Harold começou a entendê-la. E você vai entender. Assenti, decidida a não dizer mais nada. Aquelas palavras me pareciam tão familiares e o seu som, apesar de parecer tão russo, era como uma caricia suave e leve de um amante. - Kate... Você me promete que não vai esquecer? - Eu prometo, Thomas. Ele sorriu, satisfeito e aquilo me fez pensar que aquelas palavras deveriam ser parte de uma senha, que se acontecesse algo com ele, que Deus nos livrasse, eu saberia. Eu queria pedir que ele me prometesse algo de volta. Queria que ele me prometesse nunca quebrar meu coração, mas essa seria uma promessa falha. Ele já estava quebrado. E Thomas nem fizera nada. Ele apenas era quem era, alguém que nunca poderia ficar comigo, e saber deste fato, quebrava meu coração com uma força alucinante e dolorosamente angustiante. - Por que me disse isso, Thomas? Por que falou essas palavras pra mim? - Para que, quando eu for embora e você voltar a chorar, você se lembre delas. Eu virei os olhos. Grande! Deveria então ser algo como “não chore” ou “fique forte”. Mas mal sabia eu que aquelas palavras tinham algo de forte sim. Porém mais forte do que eu pensava. E quando Thomas fechou seus olhos, pronto para dormir mais uma vez, a velha canção romântica e country que tocava no rádio, trouxe aquelas estúpidas lágrimas de volta aos meus olhos e percebi que eu mais traduzia as palavras do meu coração, do que cantava, quando me perguntava como eu viveria sem ele, como eu respiraria sem ele, se ele partiria, como eu sobreviveria, eu limpei uma lágrima teimosa que escorreu por todo meu rosto. E enquanto eu olhava para o rosto de Thomas, lembrei de suas palavras e junto com Lee Ann Rimes, eu completei a música com um sussurro doloroso: - Como eu viverei?

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Catorze O dia já amanhecia atrás de mim e finalmente me dei conta do quanto eu estava cansada. Minha mente fervilhava com tantas coisas sem sentido, minhas pernas doíam de tanto pressionar aquele acelerador na pressa para sair de Indiana e afastar o máximo possível de Ohio. Além disso meu estomago estava levemente enjoado com a quantidade de doces que eu tinha comido, misturado com o refrigerante de cola, tudo ficava pior. Mas a quem eu queria enganar? Eu sabia que o meu pior problema era o homem, ou alien, ou qualquer coisa que me despertava uma mescla de raiva e paixão, ao meu lado. Eu ainda prestava atenção nas placas que avisavam um retorno para uma cidadezinha de beira de estrada quando a voz de Adelle encheu o carro com um protesto esfomeado. - Toma! – eu estiquei a mão para trás entregando uma das barras de chocolate que eu havia escondido para ela e dei uma rápida olhada para a minha amiga quando ela não aceitou. - Estou com fome de comida de verdade. Panquecas, mel e um café forte. Eu não posso viver de refrigerante e chocolate para sempre. Eu resmunguei alguma coisa que pareceu sem sentido até para mim e guardei o chocolate enquanto, contra a minha vontade, fazia o desvio para a tal cidade chamada Brazil. Como eu poderia ter me esquecido dos nomes completamente originais das cidades de Indiana, dei graças a Deus por estarmos bem longe de Santa Claus, ou conhecendo Adelle como eu conhecia, ela era bem capaz de nos fazer tirar foto com o enorme Papai Noel na estrada da cidade. - Eu te levo a algum restaurante, mas tem que ser rápido. Quero sair de Indiana antes do meio dia. – eu disse com um humor completamente ácido. Eu estava prestes a matar um a dentadas. E isso não era um exagero. Eu ficava completamente intratável quando estava sem dormir, e esse fato somado a outro de que a minha cabeça praticamente latejava por causa das milhares de coisas nela. Mas me esforcei o máximo possível para que Adelle não percebesse isso, ou ela me obrigaria a descansar em algum hotel e isso atrasaria ainda mais a nossa viagem. Estacionei o carro diante de um restaurante com aparência de rancho e assim que o carro parou, Harold e Thomas despertaram. Mas para mostrar que eu, supostamente, não dava a mínima para eles. Adelle saiu logo atrás de mim e entrou no restaurante, seguida de perto pelos outros dois enquanto eu entrava por ultimo, me certificando de ligar o alarme do carro, não que fosse muito preciso, já que aquela pequena cidade deveria ter um índice de criminalidade de menos um. E eu ainda estava sendo bondosa. Brazil era aquele tipo de cidade que com quatro passos você visita todos os cantos dela. Sentei-me em um banco de madeira, do lado de fora, que ficava seguro por cordas ao teto, formando um delicioso e romântico balanço para casais. Seria romântico se eu tivesse um par. Depois de balançar duas ou três vezes, eu já me sentia mais calma e o cansaço circulava em minhas veias, me fazendo

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apoiar a cabeça contra um dos braços do banco, ficando meio deitada. Meus olhos estavam quase se fechando quando senti o banco balançando como se alguém estivesse se sentando nele, e conhecendo Adelle, provavelmente ela não conseguira me ver sentada num balanço sozinha. Quando éramos crianças, ela tinha a péssima mania de me derrubar do balanço só para que ela pudesse se sentar, e se ela quisesse me derrubar agora, nem seria tão difícil considerando o cansaço que eu enfrentava. Foi quando me dei conta de que aquele perfume não era de Adelle. Era o perfume dele. Aquele que me intoxicava e me deixava a cada segundo mais perdidamente apaixonada por ele, por mais que eu não quisesse. O braço de Thomas veio por trás de minha cabeça e erguendo-a colocou-a em seu ombro, deixando-me numa posição mais confortável para descansar. Por mais que eu não quisesse me aproximar dele, já que eu sabia que isso não seria bom pra mim, eu não consegui resistir ao perfume dele, ao calor que emanava de seu corpo e parecia mais quente do que qualquer outro terráqueo que já tenha me segurado daquela forma. Minha cabeça achou o encaixe perfeito em seu ombro e meu corpo percebeu que sua outra metade era o de Thomas, que colou-se ao meu de um jeito que nada lembrava os modos arrogantes. Era daquele Thomas que eu gostava, o que me fazia sentir confortável, o que me deixava calma e relaxada nos seus braços. - Cansada? – ele perguntou enquanto me puxava ainda mais contra ele e eu me controlava para não suspirar, respirando fundo para sentir melhor o seu cheiro. - Só um pouco. – eu disse tentando não me render. – Mas posso dirigir até Illynois sem problema. - Nossa! Ela gosta de viver perigosamente! Pronto! O Thomas sarcástico estava de volta e a volta dele me fez arrastar meu corpo para longe dele enquanto me sentava eretamente e respirava profundamente, já longe o suficiente pra não sentir o cheiro de sua pele. - É sempre assim com você, Thomas? Não consegue conter o sarcasmo e lidar com alguém de forma simples e confortável? - Quer saber o que me deixa confortável, Kate Munnighan? – ele se sentou mais perto de mim enquanto uma mão cercava a minha cintura e me puxava para ele no banco, praticamente me arrastando até ele. Não teve como, eu ergui os olhos para ele na tentativa de desafiá-lo e foi quase instantâneo me perdendo naquelas íris tão vibrantes que pareciam chocolate inflamando, eu sentia o fogo de seus olhos passando por todo o meu corpo e o seu calor corporal me deixando ainda mais enlouquecida. Ele sabia como acender a minha alma. – Ter você me deixa confortável, Kate. – os olhos dele saíram dos meus, enquanto ele encarava todo o meu rosto e parava olhando a minha boca com desejo. – Beijar você me deixa confortável. – Thomas havia avisado o que ia fazer em seguida, mas mesmo sabendo disso eu não tive a mínima coragem de desviar o rosto ou tentar me afastar. O rosto dele se abaixando contra o meu, enquanto sua boca tocava a minha de leve, apenas para ter certeza de que eu não fugiria, era mais do que eu poderia esperar. Novamente, aquele som parecido com sinos me deixou completamente confusa e me fez grudar o meu corpo ainda mais contra o seu, ofegando e

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abrindo a boca um pouco mais, deixando espaço para que ele aprofundasse o beijo e me deixasse mais louca. As mãos dele me puxaram ainda mais contra o seu corpo e eu esqueci de todo o resto ao meu redor. Esqueci que o cheiro de panquecas estava me deixando com fome, esqueci que o banco ainda se balançava suavemente e esqueci que estava cansada a ponto de dormir em pé. Eu estava mal humorada? Bem, isso fora antes dos lábios de Thomas ficar contra os meus. Aquele beijo fazia o meu peito martelar e me tirava das minhas estruturas. Saber que eu realmente amava aquele homem fazia com que tudo fosse diferente. O toque de Thomas era sensual como sempre, mas eu sentia que tinha mais envolvido, algo como um carinho que não deveria estar ali. Carinhoso não era uma das qualidades que eu ressaltasse em Thomas normalmente, mas naquele momento eu diria que era a maior delas. O toque de suas mãos contra o meu corpo era delicado, o toque do seu beijo apesar de quente e delirante, era carinhoso, calculado para me fazer sentir bem. Confortável. Thomas tinha razão. Beijá-lo era confortável. Por alguns momentos, ele me soltou respirando contra a minha boca e roçando o seu nariz no meu de um jeito suave e delicioso. Eu estava contra ele de um jeito tão forte que por pouco eu não perdi o ar. - Confortável. – eu sussurrei contra a sua boca. - Do jeito que deve ser. – ele disse e roçou mais uma vez o seu nariz no meu, me fazendo sorrir de leve, imaginando quando o Thomas que eu conhecia voltaria. Ele estava sendo carinhoso e romântico e era um lado dele que eu não conhecia, mas que estava me cativando mais do que eu esperava. Deus! Estava tudo errado! Eu não poderia ficar com ele. Ele tinha uma noiva, ele era um alien e ele não poderia ficar comigo mesmo que eu implorasse e mostrasse que sem ele eu não conseguiria viver. Algo se partiu em meu peito enquanto eu sentia que as lágrimas logo escorreriam pelos meus olhos. Eu precisava me afastar. Mas eu não sabia aonde estava a minha vontade própria. Eu sabia que tinha que ficar longe, que eu tinha que evitá-lo. Mas eu não conseguia mover meu corpo para longe do dele, não conseguia parar de beijar seus lábios vagarosamente, sugando-os e sentindo o seu sabor delicioso e sobrenatural contra os meus. Como algo tão bom poderia estar tão destinado a dar errado? E naquele momento, eu quis esquecer tudo. E por isso puxei a cabeça dele contra mim enquanto o beijava famintamente, me deixando fluir por entre seus lábios. Aproveitar esses momentos em que ele estava comigo poderiam ser bons. Guardar memórias boas para que o momento da partida não fosse tão difícil quanto eu sabia que seria. Seria tão doloroso e perfurador que eu não conseguia respirar apenas de pensar em como poderia ser. E uma lágrima que não deveria estar ali desceu pelos meus olhos enquanto eu tentava fazer com que ele não a notasse. Mas fui falha nisso e logo Thomas se afastou de mim e com a ponta de seu dedo limpou-a com uma delicadeza que eu não imaginaria ver nele. - O que eu disse para você se lembrar quando chorasse? - Mra T Nhé. – eu disse enquanto meu rosto era erguido para encarar o dele, e a minha vontade era de abaixá-la, envergonhada por estar chorando. Ele assentiu e apenas sentou-se relaxadamente mais uma vez, enquanto

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puxava o meu corpo contra o dele, na mesma posição de antes me deixando de um jeito muito confortável para que meu corpo relaxasse a tensão que eu sentia em todos os músculos e nervos do meu corpo. Fechei meus olho enquanto ouvia em algum lugar por perto do restaurante uma música suave e convidativa começar a tocar. Uma música que falava sobre o fato de que quando você percebe que o amor é o que importa, o resto parece pequeno, tão pequeno. E mesmo não gostando daquele estilo cafona de música Country, eu entendi exatamente as palavras que a garota cantava. Naquele momento, enquanto eu sentia aquela canção bonita embalar o meu sono, enquanto o corpo de Thomas aquecia o meu e me dava uma sensação maravilhosa de segurança, eu compreendi que era ali que eu deveria estar. Nos braços de Thomas. Eu havia passado tanto tempo procurando algo como um rumo, um lar, algum lugar onde eu me sentisse confortável e segura e fora encontrar tudo aquilo justamente nos braços de Thomas, um alien que iria embora em um dia ou dois e no momento em que ele se fosse, eu me esqueceria completamente daquelas sensações boas que me inundavam. Então meu corpo relaxou ainda mais e meus pensamentos perderam completamente o nexo, mostrando que eu estava quase dormindo. E apesar de odiar que mexessem no meu cabelo, e pior ainda que me fizessem cafuné, estava adorando os carinhos que Thomas fazia nos meus cabelos penteandoos com os dedos, coçando meu couro cabeludo de um jeito completamente relaxante e delicioso. Eu já estava sonhando com Thomas e eu correndo por um campo de trigo, contentes e despreocupados, mas meu sossego não poderia durar muito tempo se eu estivesse viajando com Adelle, e justamente ela me acordara com sua voz alta enquanto ela falava, ou gritava, eu nunca sabia direito o que ela fazia com aquele tom de voz dela, e se dirigiu a mim depois, que não entendi nada do que ela dissera. - O quê? – perguntei coçando os olhos. - Entre no carro, você é idiota ou surda, Munnighan? – ela revirou os olhos enquanto desligava o alarme e praticamente arrancava a porta enquanto a abria. – Vamos sair o mais rápido possível. Olhei pra Thomas que estava com um ar preocupado no rosto, e com um sorriso me perguntei quem havia trocado as personalidades de Thomas e Adelle. Mas no momento seguinte eu percebi que ninguém havia trocado nada e tentei não me lamentar por ver o Thomas que até momentos antes era todo carinhoso comigo, se esvanecer no ar e surgir de volta aquele Thomas nojento e arrogante que merecia ser castrado. Tudo bem, talvez não castrado porque eu ainda tinha a esperança de que no final, quem sabe, eu pudesse ficar com pelo menos uma parte dele. Que fosse essa, não? - Está mais descansada? – ele perguntou e antes que eu respondesse, ele completou. – Bom, agora você pode dirigir o mais rápido possível pra me tirar desse planeta e das pessoas idiotas que habitam essa porcaria. Minha boca se abriu de indignação enquanto eu me preparava para xingá-lo e antes que eu pudesse mandá-lo para o inferno, ele foi mais rápido e completou para me deixar ainda mais enraivecida. - E é mais que obvio que eu estou falando de você, Kate. – ergui uma

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sobrancelha e ele nem ao menos se dignou a voltar a olhar para mim, andando para o carro e me deixando lá parada, tentando entender se a mudança de estado de espírito dele tinha a ver com a música que tinha parado de tocar. Logo Harold apareceu também e eu entrei no banco de trás, dividindo-o com Thomas, mesmo contra a minha vontade. Adelle pisou com vontade no acelerador quase cantando pneus e em menos de dois minutos estávamos na autoestrada novamente enquanto ela fazia questão de mostrar que sabia pisar direitinho no acelerador. Em poucos minutos comecei a ficar encanada com aquele silencio dentro do carro. Pela primeira vez Adelle estava dirigindo com o radio desligado, além de estar com a cara mais fechada do que no dia em que eu disse que ia sair do cluibe de astronomia no colegial. Harold também estava um pouco tenso, apesar de lançar sorrisos para mim no banco de trás. E Thomas estava sendo claramente ignorado por mim que fingia não notar sua presença perto demais de mim. O sono estava gritando e quase fechando meus olhos, mas antes eu precisava saber o que estava acontecendo. - O que houve no restaurante, Adelle? - Nada. – ela respondeu de má vontade e muito prestativo, Harold me estendeu um pacote que ele provavelmente deveria ter esquecido que estava segurando. Ele sorriu enquanto me entregava algumas torradas com mel embaladas para a viagem. Agradeci e comi, tentando ignorar a mão de Thomas que agarrou a maior delas e enfiou quase inteira na boca. Eu conhecia Adelle, nunca seria nada para ela ficar com aquela cara de quem comeu e não gostou. Ou eu tinha feito algo muito errado e não tinha percebido ou eu não sabia o que era. - Sério, Adelle, se foi porque eu fui rude com você mais cedo, me desculpe... Eu... Estava cansada e... – eu tentei pedir desculpas, mas ela se virou para trás com um ar preocupado. - Oh, amiga. Desculpe. Eu estou muito nervosa. Depois das ultimas noticias, não tinha nem como eu não estar. Esperei que ela lançasse um olhar raivoso na direção de Harold, esperando que ela já tivesse descoberto sobre as noivas e as mraknis de Airamidniv, mas ela simplesmente continuou olhando para a estrada enquanto o mostrador de velocidade oscilava entre 150 e 180 km/h. - O que... – tentei novamente, mas ela foi mais rápida me cortando. - Estamos sendo procuradas pela CIA. - o pedaço de torrada que estava prestes a ir para a minha boca caiu no meu colo enquanto meus olhos se arregalavam automaticamente. Como assim procurada pela CIA? – Estava na TV, as nossas fotos estavam lá e os nossos nomes e vamos ser presas e você vai ser demitida e o Harold vai embora e eu não vou poder ir com ele e sabe, ele vai tirar a minha memória e eu nem vou lembrar que eu sou apaixonada por ele. A enxurrada de palavras de Adelle não fez muito sentido para mim, mas fez para Harold que sorriu e segurou a mão dela que estava em cima do cambio. Algumas lágrimas vieram aos meus olhos me mostrando que eu estava pronta para chorar. Deus! Eu devia estar muito cansada para estar me tornando uma

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chorona daquela forma. Tudo trazia lágrimas aos meus olhos. Era melhor que eu dormisse para não passar vexame de ficar com os olhos inchados e vermelhos. - Bem, isso não pode ser tão ruim, eu não queria trabalhar no jornal mais, mesmo! – eu disse com um sorriso enorme que não expressava em nada a minha confusão interior. E se eu perdesse o emprego que eu tinha passado tanto tempo para conseguir? Coloquei uma torrada na boca para fingir que estava tudo bem enquanto Adelle caprichava na pisada de acelerador, como se pressentisse o que viria em seguida. Ela não estava mais calma que antes, mas pelo menos não estava mais nos deixando tontos com sua enxurrada de palavras. O rádio ainda estava desligado mostrando que ela ainda não estava totalmente recuperada de sua crise nervosa. Crise esta, que ficou ainda pior quando vimos todos pelo retrovisor de Harold que um carro bem conhecido de nós duas estava se aproximando. Adelle começou a respirar fundo tentando se acalmar, mas só conseguia ficar mais nervosa. E eu não estava muito diferente. O Policial dentro da viatura atrás de nós parou o carro e fez um sinal para que nós parássemos também. Adelle parou uns quatro metros a frente e olhou em pânico para todos dentro do carro antes que algo muito estranho acontecesse. O policial bateu duas vezes no vidro e com uma calma que questionava toda a crise de nervos que Adelle tinha tido minutos antes, ela abaixou o vidro e sorriu para o policial. Enquanto eu assistia Adelle conversar com o guarda, sem ao menos escutar o que eles diziam, senti uma dor lancinante passar por todo o meu corpo, que me fazia me retorcer contra o banco e lutar para ao menos tentar respirar. Tudo doía. Parecia que eu estava sofrendo algum tipo de atrofia de todos os músculos. O meu coração palpitava com força e doloridamente contra meu peito, enquanto pedaços da conversa entre o policial e Adelle. Ela dizia algo sobre estar dirigindo rápido para me levar para o hospital de Illynois, que era o mais próximo no momento, e o policial parecia estar preocupado com o meu estado. Naquele momento me dei conta de que eu estava deitada no colo de Thomas e que ele acariciava meus cabelos, cuidando para que o suor que escorria de mim não os colasse à minha testa. Eu gemia completamente dolorida e a mão dele, que sempre era tão quente, pareceu fria como a de um cadáver contra a minha testa, o que pareceu aliviar um pouco a pressão que também feria a minha cabeça. - Levem-na pela estrada principal. Eu... – o policial parecia nervoso com o meu estado. Eu estava dolorida e passando muito mal, mas estava inacreditavelmente contente por ele não estar nos perseguindo, como a CIA estava. – vou esquecer essa multa por alta velocidade, mas tomem cuidado desse trecho para frente. Ela pode estar mal, mas tem que tomar cuidado para não machucar alguém, ok? Adelle respondeu algo que eu não entendi e ouvi os passos do policial se afastando e logo o seu carro fez o retorno na autoestrada e voltou para a cidade, enquanto aquela sensação que me assolara quando ele se aproximava ia ficando mais e mais leve até de repente desaparecer.

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Levantei-me desconfiada do colo de Thomas, enquanto sentia todo o meu corpo tão normal quanto o possível e não tive nenhum vestígio da dor que eu senti segundos antes, enquanto Adelle voltava a surtar dentro do carro, já em movimento, enquanto ria e gritava como uma louca. - Não acredito! Fui tão convincente. E você, menina?! – ela olhou para mim rindo enquanto eu ficava olhando para ela sem saber o que dizer. Nem ao menos o que sentir. – Parecia que estava mesmo morrendo. - E estava... – eu disse em voz baixa olhando para a janela como se a resposta para aquela coisa mais que sobrenatural que tinha acabado de acontecer estivesse ali. - Foi tão... Legal! – ela disse praticamente pulando no seu lugar. - Desculpe por isso. – Harold disse se virando para trás. - Não se desculpe. - respondi rindo como uma maluca. – Adelle é assim bem antes de você conhecê-la, quem precisa pedir desculpas sou eu. Ela é realmente louca e depois que conheceu você, parece ter ficado pior. – ele ergueu as sobrancelhas, confuso e eu acrescentei: - Sem ofensas, Harold. Ele pareceu ainda mais confuso e eu fiquei ainda pior. Ué? Ele não estava pedindo desculpa pelo comportamento de Adelle? - E assim, Kate Munnighan aprende a sedução, o prazer e a dor de Airamidniv. - Do que estão falando? O rádio foi ligado numa das odiosas estações de música pop e agora uma mulher cantava sobre paparazzis e alguma coisa sobre amar um fã, o que quer que isso significasse, não consegui escutar o que Thomas falava, muito menos entender as palavras dele de antes. E enquanto eu terminava de comer minhas torradas com mel, eu tentava entender o que tinha acontecido comigo e a única conclusão de que eu conseguira chegar era a de que tinha dedo de Thomas naquela história. Na realidade, tudo o que acontecesse na minha vida nos últimos dias tinha o dedo dele. Era cruelmente atordoante saber que eu não conseguia nem ao menos respirar sem que o cheiro dele já começasse a me atordoar. Encostei minha cabeça na janela enquanto pedia a Deus para que colocasse mais força no pé de Adelle para chegarmos o mais rápido possível em Wyoming. Eu não agüentaria muito tempo mais toda aquela situação. E tinha certeza que meu coração muito menos.

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Quinze Depois de alguns momentos e da dor em todas as células do meu corpo, eu finalmente senti todo o cansaço e sono de mais cedo retornarem. O que me obrigou a apoiar a cabeça contra a janela, tentando arranjar uma maneira de encaixar o meu corpo entre o banco e a lataria do carro de uma maneira que lembrasse aconchegante. Lembrasse. Certo que a janela não era confortável e quentinha para eu dormir, mas era segura. Minha outra opção eram os braços firmes de Thomas, e com certeza eu não queria isso. Quando Adelle percebeu que eu queria dormir, fez o favor de abaixar o volume do rádio e cantar alguns tons mais baixo, o que eu agradeci imensamente enquanto minha voz começava a ficar estranha e rouca e meu corpo parecia flutuar. Não demorou muito e eu estava sonhando. O que eu realmente não estava gostando de fazer nos últimos dias, especialmente porque Thomas parecia ser sempre o protagonista dele em histórias românticas e/ou picantes que me deixavam atordoadas. E daquela vez não fora nem um pouquinho diferente. No meu sonho nós estávamos em uma cama estranha, com um formato meio geométrico, com lençóis prateados e de uma seda de material estranho. Ele segurava a minha mão perto de seu rosto fazendo desenhos nela e escrevendo coisas fofas em Nells nela. O mais idiota, era que eu entendia o que todas as palavras significavam, como se eu falasse Nells. Olhei pela janela atrás da cabeceira e vi a Via Láctea como se estivéssemos em algum tipo de nave ou coisa parecida. Eu me sentei na cama, de frente para a janela admirando tudo lá fora e senti o corpo quente de Thomas atrás de mim. Aquele contato era o mais confortável que eu já havia sentido em toda a minha vida e a mão dele fazendo círculos no meu ombro direito enquanto beijava o esquerdo de uma maneira erótica que era mais que um convite para eu voltar a me deitar. - Mra T Nhé, Thomas. – eu disse e as palavras tiveram um sentido tão forte de “eu te amo” que por alguns instantes eu me senti desnuda (mais do que já estava no sonho) e indefesa. Eu não queria nunca confessar isso a ele. - Então você sempre soube o que significava, minha mrakni. – ele beijou meu outro ombro e então minha nuca. – Não posso deixar você. É irracional de minha parte, deixar uma parte de mim. As palavras dele tinham claramente um “mas” explicito nelas, mas deixei que ele continuasse e dissesse o “mas” por si mesmo. O que ele não disse, continuando seus beijos pelo meu ombro e nuca, me deixando mais descompassada do que eu já estava. Quando me virei para beijar seus lábios o barulho bizarro de Britney Spears gemendo Hit Me Baby One More Time, que por uma infeliz coincidência era o toque de celular de Adelle. E de repente eu acordei com o corpo todo relaxado e uma sensação deliciosa e úmida onde os beijos de Thomas haviam estado nos meus sonhos. Percebi que o celular de Adelle realmente havia tocado e para evitar que acontecesse algum acidente enquanto dirigia, ela tomou o cuidado de colocar ele no viva voz enquanto os olhos de Harold praticamente brilhavam para o

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aparelho. Ele parecia amar a nossa tecnologia terráquea e tudo o fascinava, desde rádios automotivos até celulares de baixa tecnologia, como o de Adelle. Porque o meu tinha no mínimo trezentas funções a mais que o dela. - Adelle, colega, eu vi você na TV. Sua foto estava linda. A da Kate muito mais. Estava parecendo aquelas estelionatárias chiques que passam a perna naqueles caras que tem muito, mas muito dinheiro, sabe? Não era de se admirar que aquela cabeça de vento de Jane Lynn fosse amiga de Adelle. As duas conseguiam me surpreender com o tom alto de suas vozes. Na realidade, alto era um eufemismo. E outra grande prova de que Jane Lynn só poderia ser amiga de Adelle, era que ela tinha a mesma capacidade de Adelle de dizer mais besteiras por minuto. Estavamos sendo procuradas, sabe-se lá pelo que a policia havia inventado, quando na verdade estávamos sendo caçadas por ocultação de alienígena e a garota tinha a coragem de dizer que nossas fotos de procuradas estavam lindas. Deus tinha que me dar paciência mais que urgentemente. - Jura que estava legal? Ainda bem que não usaram a foto da identidade. Eu estou horrível nela. Paciência em dobro. Para Adelle, Jane Lynn e para agüentar chegar até Wyoming ao lado de Thomas. - Mas, bem, não é sobre vocês estarem na TV que eu liguei para falar. É que veio uma mulher até a loja e ela esteve no apartamento da Kate, também. Imediatamente Izzy veio aos meus pensamentos. A agente atrapalhada da ARE era bem capaz de estar fazendo uma espécie de investigação paralela para nos pegar e mostrar para os chefões da CIA que ela podia ser mais que uma investigadora pateta. - Quem era? – perguntou Adelle enquanto fazia uma curva suave na estrada, mais a frente. Eu estava completamente acordada agora e a voz estridente e alta de Jane Lynn estava me acordando ainda mais. Será que aquela menina não sabia falar baixo nem ao telefone. Estávamos apenas em Illynois, não no Japão para ela ficar gritando daquele jeito. - Uma moça bem bonita, Adelle. Ela á loira e alta, parece aquela mulher do Friends, sabe? - A Jennifer Aniston? – perguntei. - Essa aí é a Rachel? – ela rebateu e pensou um pouquinho antes de completar. – Se for, era ela mesma. Só que essa moça era ainda mais bonita. E tinha os olhos mais incríveis que eu já vi. Quenny riu alto, quase da mesma altura que a outra falava ao telefone e eu quis que houvesse abafadores de sons por perto. - Conhecendo você, Jane Lynn, com certeza são olhos verdes ou azuis que transmitem a pureza da garota. E depois de dizer isso começou a rir ainda mais, como se aquela fosse a piada do mês. Eu estava sem entender completamente nada. E Harold e Thomas se encaravam com expressões preocupadas no olhar, fazendo aquela coisa que eu odiava. Era simplesmente irritante como eles pareciam se comunicar através da mente, como se olhar um nos olhos do outro facilitasse a transmissão de pensamento. - Por incrível que pareça, não eram nem verdes, nem azuis dessa vez. Eram

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castanhos. Tão lindos e fluidos que pareciam chocolate derretido. E ela tinha o cabelo mais bonito que eu já vi também. Nem se usasse So Sexy da Victoria Secret todos os dias, conseguiria um cabelo tão lindo. – algo dentro de mim parecia estar alarmado. Uma espécie de sirene avisando que as coisas não estavam certas. – E as roupas? Jesus Cristinho Crucificado! Ela usava um vestido prateado longo, que misturava um tecido que parecia seda, lustroso, com outro, numa espécie de racho que parecia tule. Mas só parecia, sabe? E preto, lindo. Sem contar as botas, né? Adelle, a garota deve ser rica porque eu posso jurar que aquelas botas estavam na capa da Vogue e são Prada. - Mas como era o nome dela? – eu perguntei mais que impaciente. Estava pouco me importando se a tapada da Jane Lynn conhecia a bíblia da moda e sabia quanto custava ou como era uma bota Prada. O meu alarme de problemas graves estava soando disparado, quase tão disparado como quando encontramos Thomas e Harold. - Ai. Acho que esqueci... Era algo como A... - Allie. – Thomas disse, me surpreendendo. - Exatamente. Allie. A garota se chamava Allie. A voz de Jane Lynn era exultante por ter se recordado com a ajuda de Thomas e eu fixei meus olhos nele, que estava ainda mais tenso e encarou Harold naquela sua linguagem silenciosa, que ficou tenso também, mas bem menos que ele. - Ela disse mais alguma coisa? - Não, Adelle. Ela só disse quem era e perguntou onde vocês estavam. Eu disse que tinham ido viajar e tal. A mesma coisa que eu disse pra policia. Mas ela usou um argumento muito poderoso pra eu revelar onde vocês estão indo. - Que argumento? – perguntamos eu e Adelle ao mesmo tempo. Eu estava completamente surtada agora. Meu alarme já estava me dando dor de cabeça de tanto que apitava e tudo parecia girar. - Ela disse que era noiva do Thomas, o cara que está com vocês. – de repente Jane Lynn se calou como se tivesse dito uma besteira enorme, enquanto eu estava estática, em choque, sem acreditar no que eu havia acabado de ouvir. – Ela é noiva dele, não é? Meus olhos saíram do meu colo, onde estavam grudados nas minhas mãos suadas, frias e inquietas e foquei Thomas. Queria saber se era verdade. Precisava saber. - Sim. – ele disse com a voz rouca, como se por um acaso doesse nele admitir que era noivo de Allie ou fosse lá qual fosse o nome da garota parecida com a Jennifer Aniston. – Ela é minha noiva. Foi como um daqueles episódios de Coyote e Papa-Léguas. Exatamente daquela forma. Como se eu estivesse correndo numa rocha e de repente, a rocha despencasse. A sensação no meu estomago fora a mesma, eu poderia jurar. Tudo parecia girar e senti algo em meu peito como se estivessem fincando uma faca com toda a crueldade no meu coração. Agora eu sabia como era ter o coração partido e ao mesmo tempo ter todas as esperanças caídas no chão. Apoiei uma mão fria no banco, tensa. Jane Lynn ainda falava várias coisas, mas nenhuma delas parecia fazer sentido em meus ouvidos. A noiva de

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Thomas estava atrás dele. Ponto final. Ele iria se casar, iria ser o sei-lá-o-quê de Airamidniv e eu não poderia fazer nada. Aliás, o que eu queria fazer. Pedir para ele não ir embora, abandonar toda a sua vida extragalática e ficar comigo? Soava tão absurdo quanto pedir para a Terra parar de girar. A voz de Adelle me fez olhar para ela que devolvia o olhar completamente preocupada. Eu deveria estar péssima. Eu me sentia péssima. Toda a dor que eu sentira mais cedo, não chegava nem a um quarto da dor que eu sentia agora. Da outra vez doía o corpo todo, agora doía o coração mais do que qualquer coisa. Algo que me impedia de respirar. Tudo o que eu queria chorar. Desesperadamente, mas não podia dar aquele gosto àquele cafajeste. Como eu pudera ser tão boba a ponto de manter esperanças. Ah, sim. Aqueles olhos. Era impossível não pensar em outra coisa a não ser ficar ao lado dele quando aquelas Iris cor de chocolate se fixavam nas minhas e me tiravam de orbita. Coisa que elas faziam naquele exato momento, enquanto eu respirava com dificuldade, sentindo tudo girar ainda pior, como se eu estivesse pronta para vomitar, ou pior, desmaiar. Desde que eu me conhecia por gente, minha mãe sempre dizia que desmaiar era uma atitude que apenas mulheres fracas e madames faziam. Talvez a novela ajudasse ela a pensar tais coisas. E no momento não interessava se eu não era uma madame, eu era fraca. E estava terrivelmente prestes a desmaiar. A sensação foi ainda pior quando a mão de Thomas pousou sobre a minha que estava em cima do estofado, surpreendente perto da dele. Imediatamente meus olhos se fecharam e tudo o que eu vi foi um borrão preto. Mais tarde, eu despertei tensa e sem saber direito onde eu estava, mas a minha primeira atitude foi afastar minha mão da de Thomas, que ainda a segurava com carinho. Eu não queria tocá-lo, não queria vê-lo. A única coisa que eu queria daquele alien era distancia. E meu desejo se realizaria tão breve chegássemos a Wyoming, ele entraria naquela nave mãe e ficaríamos a muitas estrelas de distancia. Espaço o suficiente para sufocar qualquer sentimento idiota que eu fosse capaz de nutrir por ele. - Ei, ela está abrindo os olhos. Esperem... – a voz de Adelle chamou a atenção enquanto sentia o corpo de Thomas se afastar de perto do meu. Decidida, abri os olhos e encarei Adelle com um sorriso débil que ela geralmente me dava quando o contrario acontecia. Eu não era muito de desmaiar, mas Adelle conseguia fazer isso com uma freqüência quase assustadora e geralmente em shows, para que os cantores parassem as músicas, preocupados e ela se vangloriasse no dia seguinte que os músicos pararam apenas por causa dela. – Oi, Kate. - Oi. – disse fraca e me levantei de pronto, sentindo tudo ao meu redor girar um pouco, mas não deixei que ninguém percebesse. Como todos estavam olhando para mim, achei que devia uma explicação do porque eu havia desmaiado, então inventei uma às pressas e disse que eu havia comido pouco e ainda estava muito cansada, tudo isso somado ao estresse que eu estava contendo por ser procurada pela policia fora o que me fizera desmaiar. Adelle respirou mais contente e Harold fez um carinho nos meus cabelos bem

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parecido com o que Ryan, meu irmão, costumava fazer. Sorri para os dois e num gesto quase imperceptível, me encostei mais à janela, tentando ficar o mais distante possível de Thomas. Logo ela voltou ao volante, saindo do cantinho entre os bancos, por onde ela estava quase em cima de mim, e tocando de leve a mão de Harold, antes de voltar a ligar o carro e pisar de um jeito que me deu orgulho no acelerador. Por mais que eu não quisesse, não pude me conter e acabei olhando para Thomas, que estava longe de mim e olhando pela janela, totalmente tenso. Era mais que obvio que ele ficaria daquele jeito ao saber que estávamos sendo caçados pela ARE e a noivinha dele estava perdida em Nova York. Uma inveja de Allie corroeu meu peito, enquanto o frio que entrava pela janela de Harold aberta, me fez me abraçar, tentando em vão, aquecer meu corpo e meu peito quebrado. Eu queria tudo o que ela tinha. Thomas, a preocupação dele, um futuro com ele. Queria a chance de ser feliz ao lado dele e passar a vida inteira ao lado dele. Mas, mais uma vez, eu sabia que estava pedindo demais. - Ainda está cansada, Kate? – Adelle perguntou enquanto continuava olhando para frente, prestando atenção na estrada. Coisa que era raro, já que ela adorava olhar para trás, enquanto dirigia. - Um pouco. – eu disse olhando pela janela do meu lado, quando vi que a cabeça de Thomas estava virando para frente. Eu tinha medo de que se nossos olhares se encontrassem nem que fossem por dois segundos, eu ficaria hipnotizada e começaria a fazer planos novamente. Planos que nunca se concretizariam. – Mas posso dirigir um pouco, se quiser. - Não, não precisa. Estamos perto de Macomb. Falta pouco para chegarmos em Iowa. Não prestei muita atenção no que Adelle disse depois disso. Eu não me importava. O céu estava estranhamente escuro para dias antes do dia de ação de graças e achei aquilo muito estranho. A coisa mais rara de acontecer era chover naquelas épocas. - Acho que não vamos poder nos hospedar em algum hotel ou coisa parecida. – Thomas disse com a sua voz arrogante como se fosse mais que obvio para todos dentro do carro que não poderíamos ficar em um hotel. O que com certeza era, mas cansados como estávamos, não prestávamos atenção nessas coisas. – Vocês ainda estão sendo procuradas pela policia, não podemos dar sopa ao azar de vocês serem reconhecidas. Isso possibilitaria que fossemos pegos. E eu e Harold precisamos chegar o mais rápido possível em Airamidniv. Harold fez algum som e Adelle completou que Thomas tinha razão. Como se ela precisasse dizer isso para ele se sentir ainda mais convencido do que ele já era. - Bem, eu conheço uma fazenda abandonada por algum lugar aqui por perto. É onde o CAA de Illinois se junta para fazer suas observações. - O CC O quê? - CAA. Clube Astronômico Amador. – ela disse rindo. As vezes ela pensava que eu apenas brincava com ela e sabia todos os termos sobre estrelas, perguntando só para testá-la. Era que Adelle nunca perceberia que eu não dava a mínima para as estrelas, e agora, depois dos eventos recentes e de

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conhecer um alien em pessoa, menos ainda? Não demorou muito e Adelle tomou um retorno que dava em uma estrada de terra, seguindo em alta velocidade por ela e levantando uma poeira marrom. Um cheiro misturado de terra e chuva entrou pela janela aberta e eu respirei fundo. Apesar de ser apaixonada pela cidade, nada se comparava àquele cheiro. Em um minuto, Adelle puxava o freio de mão de uma vez, já abrindo a porta do carro com um sorriso contente, ao ver que ainda lembrava onde ficava a fazenda. Isso é, se aquilo ainda poderia ser chamado de fazenda. A casa principal, acho que chamada de Casa Grande, estava completamente destelhada e apenas a construção menor ao seu lado, que eu rezava para que não fosse um estábulo, estava com telhas. Esburacadas, mas ainda assim eram telhas. - Vamos logo. Vai começar a chover. - ela disse colocando a cabeça para dentro do carro e praticamente correu em direção ao que eu pensava ser o estábulo. Harold não parou para pensar, correndo atrás dela, contente como uma criança. Antes que eu pudesse me dar conta, estávamos eu e Thomas sozinhos dentro do carro, o meu coração disparado ao perceber este fato, não me deixou outra alternativa a não ser lançar um olhar constrangido para onde ele estava sentado. Por uma infeliz coincidência, ele estava me encarando e nossos olhares se cruzaram, me deixando sem ar durante os poucos segundos em que os meus olhos ficaram naquela profundeza cor de chocolate. Suave, amarga, quente demais para que eu pudesse resistir. Mas necessário. Era necessário resistir. Abri a porta do carro e sai de uma vez, andando por entre a relva enorme que ia quase até os meus joelhos, em direção ao local onde Adelle e Harold estavam. O meu coração estava batendo com toda a força possível depois daquele contato visual com Thomas, batendo como se nem ao menos tivesse sido quebrado minutos antes. Eu era uma idiota da pior marca. E pior. Eu era uma idiota da pior marca e molhada. Afinal, a chuva começara a cair ao mesmo tempo em que eu caminhava para a pequena construção, enfurecida comigo mesma e com o fato do caminho ter parecido tão mais curto para Adelle e Harold. - Eu me pergunto, Kate Munnighan, se é só você que é assim ou se todas as fêmeas do seu planeta que são tão... A voz dele vinha de trás de mim. Arrogante como sempre, mas com um toque de zombaria, o que mostrava que ele estava determinado a me tirar do sério. As nuvens negras do céu decidiram mostrar porque estavam tão escuras e despejaram toda a água da galáxia sobre nós. Mal possibilitando que nos ouvíssemos, me forçando a gritar: - Tão o que, Thomas? Tão diferentes da sua preciosa Allie? – eu disse com todo o despeito que me era de direito. - Pode ser. Em Airamidniv as mulheres não são tão teimosas, tão cegas. - Cega? Você está me chamando de cega por que, seu ser insignificante? - Porque você não vê um palmo na frente da merda do seu nariz e não entende nada do que eu te digo. Tudo bem que eu não sou famoso por me

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comunicar bem, mas apenas um idiota não entenderia o que eu quero te dizer. - E o que você quer me dizer? A chuva estava ainda mais forte, minhas roupas estavam pesadas e meu cabelo estava todo no rosto, mas eu pouco me importava. Tinha uma cena mais bonita para admirar. O céu estava negro, o dia estava quase acabando, mas não era a paisagem do céu que me deixava tão sem fôlego. Era Thomas. Ele estava completamente molhado, sua camiseta que ele usava por baixo da camisa xadrez, estava completamente grudada no corpo, deixando os músculos do seu abdômen definido deliciosamente visíveis. Seu cabelo daquela cor que eu nunca saberia dizer se era louro escuro acobreado, ou castanho claro dourado, estavam escuros pela água, ficando quase castanho escuro. Mas seus olhos chocolates fixos nos meus eram o que mais chamavam minha atenção. Deus! Como era fácil me perder neles. - Você ainda não percebeu? É pior do que eu pensava. – ele riu. O que me deixou ainda mais furiosa do que eu estava. - Você me ama, Thomas! - ergui as mãos, frustrada. – Só pode me amar pra me atormentar tanto! - E quando eu disse que não amava? E de repente, eu me vi nos braços de Thomas, com seus olhos de chocolate derretido completamente quentes, tão quentes quanto os seus lábios que se grudaram aos meus e o beijaram com desespero. Um desespero que eu espelhei, agarrando os seus ombros e o puxando mais para mim, pouco me importando se aquele beijo iria reacender a minha esperança ou se iria destruí-la de vez. Não importava mais nada. Tudo o que eu poderia saber era que eu o amava. Que aquele momento era certo e que nunca mais iria se repetir. Não havia Allie, Harold, Adelle ou qualquer outra pessoa para estragar aquilo. Não havia ARE, CIA, nada. Apenas eu e Thomas. E minha vontade cruel de me entregar a ele de vez. Se ele fosse apagar aquele momento da minha mente mais tarde, não importava. Eu queria. Puxei-o pela nuca, afastando nossas bocas apenas por alguns segundos e sussurrei: - Eu quero você. Ele riu, mas dessa vez não era nenhum daqueles risos irônicos, arrogantes que eu conhecia. Era um riso de desejo, de quem sabia o que ia acontecer e estava ansioso por aquilo. - E eu não posso adiar isso por muito mais tempo. Eu pulei em seu colo, cruzando as minhas pernas em sua cintura enquanto ele me levava para dentro do estábulo, ou fosse lá o que fosse, que estava bem a nossa frente, coisa que eu não tinha me dado conta até o momento e me jogou num daqueles montes de feno, que se eu estivesse no meu normal juízo, teria odiado. Mas no momento, tudo o que eu queria era compartilhar do prazer de Thomas ali, naquele momento, naquele lugar. - E Harold... Adelle... – minha voz perguntou, mas não a reconheci. Estava rouca, sensual e desejosa. - Não vão nos perturbar. Estão cuidando deles mesmo agora. – eu sorri me

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ajeitando no feno enquanto o corpo molhado dele se ajeitava sobre o meu vagarosamente. – E agora, Kate Munnighan, eu, finalmente, vou cuidar de você.

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Dezesseis O corpo dele. O cheiro dele. Tudo. Era tóxico, poderoso e estava me deixando em brasa. Eu já havia admitido que o queria, desesperadamente, e estava completamente alheia ao que viria depois. Eu sabia que não teria futuro, em breve eu nem lembraria que estava nos braços de quem eu estivera. Mas no momento eu me lembraria. De tudo, o corpo molhado colado ao meu, pesado de tantas roupas pelas quais eu estava ansiosa em tirar. O seu perfume me asfixiava com uma luxuria quase liquida, ele estava sobre mim, o rosto a uma distancia considerável para que ele pudesse olhar em meus olhos. Eu não me fiz de rogada, olhei no fundo de seus olhos castanhos e fiquei completamente hipnotizada, como acontecia cada vez em que eles se encontravam. Dessa vez eles não expressavam arrogância, egoísmo nem nenhuma das expressões que eu sempre via neles, e que por mais que eu odiasse, ficava cativada. Dessa vez, as profundezas cor de chocolate eram famintas, desejosas e eu tinha a mais completa certeza de que meus olhos espelhavam as mesmas coisas. Eu o queria. Completamente. Imediatamente. Inclinei-me para trás, ficando quase sentada no monte de feno, enquanto o corpo de Thomas seguia o meu como se tivéssemos um imã que nos impedia de desgrudar apenas um milímetro de nossos corpos. Minha cabeça se mexeu mais pra perto da de Thomas, e brinquei, roçando meu nariz no seu, com um gesto impaciente, ele tomou minha boca num beijo alucinado, enquanto inclinava meu corpo novamente, me deixando deitada novamente e se encaixando em minhas pernas meio abertas. Se uma palavra pudesse descrever como nossos corpos se encaixavam um sobre o outro, essa palavra seria perfeito. Era quase como se fossemos a mesma peça, quebrada e enviada uma para cada lado da galáxia para depois se reencontrar e se encaixar de novo. Como deveria ser. - Isso é um contato imediato? – ele brincou enquanto suas mãos me puxavam para si. Eu ri e acenei com a cabeça. Não queria interromper aquilo para perguntar à Adelle, mas eu suspeitava que fosse. Um dos mais altos graus de contato. Eu queria poder dizer que era amor, mas eu mesma sabia que se o fosse, seria apenas de minha parte. – Um contato imediato de todos os graus. Todos. Ele deslizou o rosto sobre o meu e parou com a sua boca em minha orelha e sussurrou em meu ouvido que ele faria com que alcançássemos todos os graus de contato possíveis. E eu sabia que ele era capaz disso. A sua voz rouca era sedutora e cheia de promessas. Promessas que mesmo sem precisar dizer nada, eu sabia que ele iria cumprir. As mãos dele estavam firmes em meus quadris, puxando-os na direção de sua pélvis, me permitindo sentir o quanto ele estava excitado com todo o nosso interlúdio. Thomas levou uma mão aos meus cabelos, puxando-os de um jeito não doloroso, mas firme e que me enlouqueceu mais do que eu já estava enlouquecida. E se já não fosse o bastante para tirar completamente a minha sanidade, Thomas aproveitou que meu pescoço estava revelado e o beijou ao seu bel-prazer. - Thomas... – gemi enquanto tentava buscar oxigênio. Os seus beijos estavam

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descendo para o meu colo e subindo novamente, o que fazia meu coração disparar e minha respiração falhar. E então, pensei que eu iria morrer quando os seus dentes perfeitos morderam delicadamente a pele do meu pescoço, lambendo em seguida o local, despertando sensações ainda mais animalescas em meu interior. - Continue gemendo o meu nome desse jeito e eu não vou me controlar. Imediatamente, a sua boca sugou o meu pescoço de um jeito mais ávido e eu quase desmaiei, tentando me lembrar de todos os sonhos com Thomas e a alucinação do carro e percebi que a realidade era milhares e centenas de vezes melhor. Sonho algum seria capaz de reproduzir tal calor, tal febre. Tal desejo. Desejo esse que aumentava de acordo com a seqüência de beijos que Thomas destribuía em meu corpo, sugando as gotas de chuva de minha pele. Minha vontade por ele estava aumentando numa escala desalentadora. Eu me sentia perdida. Mas ao mesmo tempo tão segura por estar em seus braços que desisti de entender qualquer coisa a não ser os sinais que meu corpo enviava para meu cérebro pedindo por mais. Mais e mais. Era a única coisa que passava pela minha mente no momento, e exatamente por isso, levei minhas mãos para a gola da camisa de Thomas e o puxei pra mim, já arranhando o seu pescoço, fazendo com que fosse a vez dele gemer e suspirar contra o meu pescoço, me arrepiando gostosamente. Com um gesto firme, o afastei de mim e voltei a me esticar no monte de feno, ficando sentada enquanto ele ficava apoiado em seus braços, olhando para mim com curiosidade, se perguntando o que eu iria fazer. - Thomas, vamos lá, leia a minha mente e descubra o que eu vou fazer! – eu disse sorrindo, querendo brincar um pouco. Eu estava a ponto de bala, mas mesmo assim, eu ainda queria brincar com o autocontrole dele, tanto ou mais quanto ele brincou com o meu durante todos aqueles dias. Sabia que ele não podia ler mentes, mas mesmo assim, não pude resistir à brincadeira. - Não vai fazer nada. – ele cansou de me puxar de volta para o feno e se levantou, me puxando com ele e me jogando na parede, pouco se importando se aquilo doeria ou não. Não estávamos ligando para dor. Apenas para a satisfação. – Não estou em condições de me segurar por muito tempo. Essa brincadeira já durou tempo demais. E de uma maneira sensual e masculina, ele segurou uma das minhas pernas, colocando-a na sua cintura e deslizou sua mão pela minha perna coberta pelas calças molhadas, apertando-a toda e chegando ao meu quadril, repousando-a a ali enquanto mordia meu pescoço com mais ferocidade, deslizando seus lábios mais para baixo até chegar à barra do meu suéter. Sentindo o prazer alucinado e apressado dele, imediatamente levantei os braços para que ele tirasse o meu suéter e tivesse livre acesso ao meu colo. O que ele fez rapidamente, com um pouco de dificuldade por estar molhada, mas Thomas não se importou com a dificuldade, já beijando meu peito e deslizando as mãos para as minhas costas, onde estava o fecho do meu sutiã. Eu não queria que aquilo fosse unilateral, então enfiei minha mão pela barra de sua camiseta, tocando sua barriga e subindo por dentro da camiseta até tocar o seu peito firme e quente, que me fez suar de excitação e desejo. Eu queria aquele homem em todas as partes do meu corpo, era a única maneira

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de eu me sentir completa. Ele arfou e mordeu delicadamente o meu seio por cima do tecido colante e molhado de meu sutiã, demonstrando a tensão que meu toque provocava no seu autocontrole. Ele estava claramente se segurando para não me tomar da forma brutal que ele queria, mas eu não queria pudores, controles ou qualquer coisa do gênero. Eu queria pele na pele. E essa era a única coisa que eu conseguia pensar. - Não se controle, Thomas. – eu sussurrei escorregando na parede até encontrar seu ouvido, onde eu sussurrei rouca e sedutoramente, tanto que nem me reconheci. – Mostre-me o que você pode fazer, mostre-me quem você realmente é. Ele ergueu os olhos pra mim e riu com gosto, tornando o seu rosto muito lindo e irresistível. - Tem certeza? – ele riu mais uma vez. - Absoluta. – Jesus! Aquela não era eu. Ou na verdade, finalmente aquela era eu. Finalmente eu estava me sentindo mulher, completa e satisfeita em seduzir um homem tão deliciosamente perfeito como Thomas e saber que ele me desejava também me deixou ainda mais contente. Thomas puxou meu cabelo mais uma vez e me jogou contra a parede, abrindo o zíper do meu jeans e abaixando a minha calça com uma rapidez impressionante, sem se importar com mais nada a não ser nossas necessidades. Não precisou de muito e ele abaixou o zíper da sua também, puxando-me para o seu colo, erguendo minha perna para a sua cintura mais uma vez, facilitando a entrada de seu membro em meu corpo. O que me esquentou por inteira. Eram tantas sensações juntas, me inundando que eu fiquei perdida. Eu queria rir de felicidade por finalmente ter encontrado o encaixe por qual eu procurava a minha vida inteira, se antes eu já pensara que éramos partes separadas da mesma peça, agora eu tinha certeza. Ele viera de um outro mundo, de um lugar longe demais para que eu sequer pudesse pensar que existira e me mostrara que eu era incompleta. Thomas era a parte que faltava em minha vida. A parte que eu sublimara por tempo o bastante para acreditar que não estava vazia. Mas estava. Eu precisava dele mais que tudo, e enquanto eu gritava enlouquecida com a dimensão do prazer que ele me proporcionava ao invadir meu corpo com rapidez e firmeza, enlouquecendo meus sentidos e fervendo todo o meu sangue. Balancei a cabeça, jogando os cabelos para o lado, tentando de uma maneira falha diminuir o calor que abrasava meu corpo. Deus! Eu necessitava de mais. Havia alguma maneira de ter mais? Eu não sabia, tudo o que eu sabia que bastava eu pedir por mais e seria isso que Thomas me daria. Eu não pediria amor, sabia que isso nunca seria me dado. Não poderia pedir para ficar com essa lembrança deliciosa e excitante. Mas ainda podia pedir mais. E foi o que eu fiz, gritando por mais, sendo prontamente atendida com mais investidas contra o meu corpo enquanto a sua boca se descolava de meu pescoço para o meu seio esquerdo, já que ele havia erguido o sutiã apenas o suficiente para a sua boca quente e úmida acariciar meu mamilo. Primeiro com beijos, depois com mordidas e finalmente com sugadas que elevaram o

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meu prazer a níveis irracionais. Eu não sabia o que estava fazendo. Minha mente era um misto de sensações e pensamentos que pareciam não fazer sentido nenhum entre si. Eu estava me entregando a um alien, absorvendo todo o prazer que ele me dava de uma maneira nova e gostosa que eu nunca pensei ser possível. Perplexa. Eu deveria estar perplexa de estar transando com um alien, comprometido ainda por cima, mas no momento tudo que poderia me descrever era alucinada. Minha voz rouca pedia por mais e mais, e ele atendia aos meus desejos investindo o seu corpo contra o meu numa velocidade quase sobrehumana que me fazia fechar os olhos e gemer, gemer e gemer. - Kate... – a voz dele estava arrastada e parecia sair com dificuldade de sua garganta. – Mra T Nhé, Kate. Dsu bia nokena. - O que isso significa? – perguntei com a boca em sua orelha e puxando o seu cabelo lindo e indefinido com vigor. - Significa que eu nunca vou deixar você. Ele me deixaria. Eu sabia, mas não queria pensar no futuro agora. Uma sensação da mais pura satisfação tomava conta do meu corpo com uma força grande demais para que eu pensasse em outra coisa a não ser transportar aquela mesma sensação para o corpo de Thomas, e por isso, comecei a fazer movimentos de sobe e desce contra o seu corpo, enquanto ele gemia angustiado. Eu sabia o que estava acontecendo. Ele estava quase chegando ao mesmo ápice do prazer ao qual eu estava chegando. E naquele momento, nossos movimentos entraram numa sincronia perfeita, como se fossemos um só. Uma unidade vinda de pólos distantes que se completavam numa mágica comunhão. OU algo tão estranho e meloso quanto isso. Com uma investida final e um uivo animal, Thomas chegou ao seu ponto alto, enquanto eu virei os olhos e gemi longamente, sentindo toda o meu prazer explodir como uma garrafa de champanhe. Agarrei-me a Thomas enquanto meu corpo ainda se convulsionava em espasmos e ele segurou meu rosto na frente de seus olhos, mantendo um contato visual quase inquebrável. - Essa memória não vai ser apagada. – ele disse enquanto olhava em meus olhos com firmeza e determinação, despertando mais calor em meu corpo. E antes que eu perguntasse por que ele manteria tal lembrança em mim, ele mesmo respondeu. – Sou egoísta demais para permitir que só eu me lembre do melhor momento da minha vida. - Com uma terráquea. – eu brinquei. Thomas virou a cabeça rindo enquanto me pegava no colo e se sentava no monte de feno, sem ligar de estarmos molhados pela chuva e colando de suor. Uma sonolência gostosa me abateu enquanto ele se acomodava, apoiando as costas na parede e me aconchegando contra seu peito. Eu ainda sentada em seu colo, de frente para ele, arrumei meu sutiã, pouco me importando em vestir o suéter, que estava molhado mesmo, e o abracei, encontrando uma posição confortável para descansar. O sono e o cansaço pela nossa “atividade física intensa” fizera com que a trava entre meus pensamentos e minha língua que merecia ser arrancada a

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dentadas por ser tão comprida, fosse derrubada. - Eu queria poder ser sua mrakni. – disse entre um bocejo e outro enquanto tudo ficava confortável e o sono vinha rapidamente. – mas isso não existe, não é? Eu imaginava que o que viera a seguir tenha sido parte de um sonho, afinal, só em um sonho eu poderia pensar ter ouvido Thomas dizer que suamrakni estava em seus braços. Como deveria estar. Como ele faria ser para sempre. Em algum momento do meu sono, Thomas nos deitou nos montes de feno de um jeito confortável e quente. Além de ter trocado nossas roupas molhadas evitando que ficássemos doentes e atrasássemos ainda mais a viagem. Que, pelas minhas contas já estava mais que atrasada. Não me senti desconfortável ao saber que ele me trocara. Haviamos tido uma espécie bem mais carnal de intimidade mais cedo para que eu desse falsos ataques de puritanismo sem sentido. Na realidade, eu até gostara de saber que as mãos de Thomas estiveram em meu corpo mais uma vez. E em algum momento do sono de Thomas, eu acordei, sentindo toda a realidade me acertar como um trem. Uma Maria Fumaça deprimente e desgovernada. Com uma dificuldade inesperada, me desvencilhei do abraço de Thomas e afastei-me dos montes de feno buscando ar puro, ou sem o perfume de Thomas, um tóxico muito poderoso que afetava cruelmente a minha capacidade de decidir e pensar em qualquer coisa. Pé ante pé sai do estábulo à procura de Adelle e Harold, encontrando-os enrolados a uma manta velha, numa construção menor ainda que o estábulo, mas que parecia em melhores condições. Era mais que obvio que sob aquela manta, Harold e minha melhor amiga estavam nus, depois de ter feito provavelmente a mesma coisa que eu e Thomas. Rindo da felicidade de Adelle, que agora não precisaria mais ler horóscopos do amor pra saber se teria uma alma gêmea num futuro próximo, me sentei sob o ultimo espaço na entrada da casa grande que ainda era coberto por telhas. A chuva não estava tão forte mais, porem ainda caia, escondendo o céu numa grande massa cinzenta e fria, só me fazendo saber que o amanhecer estava próximo porque tinha um relógio. Com os olhos voltados para o céu, soltei um suspiro frustrado, tentando fazer todos os pensamentos e sensações dentro de mim se organizarem de uma forma lógica, ou minimamente coerente. O que, claro, não aconteceu. E eu sabia que se acontecesse, seria apenas quando a presença de Thomas não fosse uma realidade em meus dias. Se fosse organizar meus pensamentos por prioridade, era triste admitir, mas o primeiro da lista, antes mesmo de levar Harold e Thomas para Wyoming, era encontrar uma solução para aquele amor infundado. Eu sabia que dormir com ele, depois de saber que sua noiva estava na Terra, tinha sido um dos meus maiores erros. E uma péssima maneira de tentar tirar ele da cabeça e se tudo isso não bastasse, ainda éramos procuradas pela policia. O que mais faltava acontecer? Allie aparecer naquela fazenda no meio do nada de Illinois? Respirei fundo, tentando pelo menos entender o que deveria fazer primeiro. Eu havia dormido com um alien, contrariando tudo o que eu estava determinada a fazer. Eu deveria esquecê-lo e levá-lo para encontrar sua noiva, a mulher que era escolhida para ele, mas ao contrario disso, eu gemera

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e quase morrera de prazer e êxtase em seus braços. Eu era louca? De repente fui pega por um tipo de flashback onde eu me lembrei de todos os momentos em que minhas mãos estavam no corpo de Thomas, coisa que eu não prestara a mínima atenção no momento, me preocupando muito mais com o calor que exalava dele. Aquele calor era sobrenatural e contagiante e no momento, eu estava pensando mais em não morrer em seus braços de tanto prazer, do que memorizar cada momento para me lembrar mais tarde. - Bom dia. – escutei a voz da minha melhor amiga ao meu lado. Logo Adelle sentou-se ao meu lado e mexeu seu quadril para eu ir mais pra perto da parede e dar espaço pra ela. Adelle estava novamente vestida com uma camisa masculina e dessa vez enrolada na manta, o que me fez pensar no que Harold deveria estar vestindo. Provavelmente nada. – Na verdade, pelos uivos de ontem, ou os lobos de Illinois estavam contente, ou a sua noite foi maravilhosa. Se existia uma capacidade de Adelle que ela nunca perderia, era a capacidade de me deixar completamente vermelha e sem graça. E ela parecia gostar bastante disso. - Bem... – gaguejei – Foi uma boa noite sim. – e consegui ficar ainda mais vermelha, sentindo meu rosto praticamente queimar. - Vamos falar a verdade, Kate, com esses caras nada é apenas “bom”, é sempre de esplêndido pra cima. Os orgasmos que Harold me... Limpei a garganta impedindo Adelle de continuar e ela me deu um sorriso amarelo que eu retribui com um uma risada. Ela era realmente louca. - Adelle, eu não podia ter feito isso. Eu sou uma terráquea, ele é um extraterrestre e além de tudo isso, ele é compromissado. Adelle olhou para a chuva escorrendo em seu carro enquanto pensava no que responder a mim. O que ela fez logo em seguida. - Quanto ao compromissado, eu não sei nada sobre isso. Ainda não sei como será com Harold e a sua noiva, apesar de por direito, ele poder largá-la porque eu sou a mrakni dele. – ela revirou os olhos e me encarou – É como Lois Lane e o Superman, sabe? Um amor além das estrelas, onde ele sabe que ela é terráquea, ela sabe que ele é um alien, mas isso não muda nada. Ela estava contente por ter encontrado aquela comparação tão estranha e eu olhei para o seu rosto espantado com o tanto de besteira que Adelle conseguia dizer. - Não. Thomas está longe de ser o Superman. – eu ri como uma louca – Ele não voa, tem olhos lindos, mas não queima nada com eles – a não ser o meu corpo quando ele o percorria com suas Iris chocolates, mas preferi não incluir isso – e ele nem é tão forte assim. - Mas é um alienígena gostoso como o Clark Kent e, falando sério, Kate, do jeito que ele olha pra você, ele só pode ter uma visão de Raio X muito boa. Eu quase morri de rir depois do que ela disse e logo não estávamos mais rindo sozinhas na pequena varanda coberta, Vestido com uma calça jeans apenas e acompanhado por Thomas, que nunca me parecera tão lindo com os cabelos despenteados, Harold deu um abraço em Adelle e me apertando contra a parede, buscando espaço para começar a usar suas mãos de polvo descontrolado em seu corpo. Logo uma das mãos de Thomas segurou a minha e me puxou para ele, eu

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desviei o rosto com um sorriso envergonhado, sentindo todas as minhas terminações nervosas vibrarem apenas com o calor dele. Como diabos eu queria esquecer ele, se mal conseguia lidar com as suas variações de humor? Ele foi até o meu ouvido e sussurrou algumas palavras em nells que eu não entendi, mas que me arrepiaram por inteiro. Não eram o significado das palavras, era o tom da sua voz, o seu sotaque que parecia russo ou qualquer língua escandinava. Algo sensual e masculino. Poderoso, para melhor descrever. Meu corpo inteiro tremeu e de repente Harold se levantou de uma vez, ao mesmo tempo em que Thomas se afastava de mim, quase me derrubando, já que eu estava apoiada em seu corpo. Os dois olhavam na direção do carro com um olhar estranho, e quase inconscientemente os meus olhos se fixaram numa figura que se aproximava, completamente molhada, na direção de onde estávamos. Meu coração palpitava enquanto eu esperava que ela não fosse quem eu pensava que fosse. - Thomas! – ela correu para a pequena varanda e se jogou nos braços de Thomas com um grito estridente. Logo depois olhou com um sorriso enorme nos lábios para Harold e fez um gesto com a mão no peito para ele, que a reverenciou e depois apertou sua mão. Eu olhava atônita para aquele cover orado de Jennifer Aniston, enquanto Adelle fazia o mesmo ao meu lado, com uma grande carga de curiosidade e ciúmes. Eu queria pensar que ela não era quem eu pensava que ela fosse. Mas a voz de Thomas, dura me fez voltar a realidade e senti os pedaços colados de meu coração se espatifarem mais uma vez quando ele apresentou. - Kate, Adelle, essa é Allie. Minha noiva. Allie. A vencedora de um jogo que eu nem sabia jogar e já havia perdido o premio principal: O coração de Thomas. Dezessete Jane Lynn estava completamente certa ao dizer que Allie parecia com Jennifer Aniston. Ela era linda. Seu vestido estava molhado, assim como seus cabelos, mas ainda assim, ela parecia uma deusa. Algo tão etéreo que eu não saberia como descrever. Era completa e absurdamente desleal competir contra uma mulher como ela e ainda por cima com olhos tão cativantes e sexies. Era quase como colocar uma fatia de pão ao lado de um sanduíche mega elaborado. Eu era sem graça e estava horrível com roupas amassadas e o cabelo desgrenhado. Como poderia ao menos cogitar a hipótese de haver uma escolha? E de repente passou algo em minha cabeça que fez todo o sentido possível. Thomas nunca me desejara de verdade. Ele apenas me usara para, de algum modo que eu ainda não descobrira, chegar mais rápido à nave e voltar para Allie. A noite anterior provavelmente fora um passatempo. Ele estava com tesão e eu era a fêmea disponível mais próxima. Com certeza fora isso. Fazia todo o sentido do mundo para mim. - Então vocês são as terráqueas bondosas que estão cuidando de nossos exploradores? – ela perguntou simpática enquanto eu mantinha meus olhos fixos em Thomas procurando e seus olhos uma centelha que indicasse que eu estava imaginando tudo errado. Que pudesse haver desejo, mas ele me encarava de volta num misto de raiva e tristeza, dirigidos completamente para mim que não me deixavam duvidas de que ele estava arrependido por ter

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sucumbido ao desejo e ter dormido de fato comigo. - Na verdade, Allie... – Harold se colocou entre Adelle e a extraterrestre e eu aproveitei para dar um passo para trás, tensa, me encostando à parede e abaixando a cabeça, buscando uma maneira de não deixar as lagrimas que se prendiam na minha garganta se despejarem numa torrente sem fim. –Adelle é minha mrakni. - Ora! Mas que alegria! Adelle arregalou os olhos enquanto Allie colocava a mão no peito e reverenciava Adelle, que estava mais surpresa ainda. - Como chegou aqui, Allie? – Thomas perguntou seco. - Do jeito habitual, bobinho. Descobri onde a nave caiu e cheguei à Terra para buscar vocês, segui a presença de vocês e cheguei a uma prédio bonito, mas vocês não estavam lá, do mesmo jeito aconteceu com uma loja bem legal. Ao ouvir Allie chamar a sua loja de “bem legal”, Adelle abriu um sorriso exuberante. Era mais forte que ela ficar toda orgulhosa quando qualquer pessoa elogiava a sua loja de artigos exotéricos que era a sua verdadeira paixão. - Quanto a você, Kate, é esse seu nome não é? – eu assenti ainda de cabeça baixa. Eu não queria encarar aqueles olhos chocolates e brilhantes que me mostravam com vigor o quanto eu era insignificante. – Você será recompensada por Airamidniv por sua bondade ao ajudar nossos exploradores. - Não precisa. Já fui muito agradecida, por assim dizer. – levantei a cabeça com um sorriso irônico na direção de Thomas. – Apenas por saber que eles estão recuperados dos ferimentos pela queda da nave e entretidos – disse a palavra com um nojo que todos pareceram notar, exceto Allie – já é mais do que um pagamento para mim. Adelle me encarou com um olhar curioso e eu não respondi ou fiz qualquer gesto para me explicar. - Agora que estamos todos felizes e unidos, já podemos cair na estrada de novo, certo? – eu disse completamente irônica. Todos concordaram e com os braços dados a Thomas, Allie caminhou na direção do carro, seguida por Harold, que não estava com Adelle a tiracolo porque ela estava ao meu lado com uma cara conhecida de quem queria saber o motivo das minhas atitudes recentes. - Não quero conversar, Adelle. – eu disse andando com passos duros na direção do carro, sentindo a chuva ficar mais forte enquanto eu andava, estavam de brincadeira com a minha cara, não era? Até o tempo estava contra mim? Provavelmente. - Kate, espera, o que houve? – Adelle me segurou e olhou nos meus olhos de um jeito que me provava que ela me conhecia mais do que qualquer outra pessoa que pudesse existir. – Me conta, amiga. Por favor. Eu estou preocupada e algo me diz que não é apenas uma insegurança porque você conheceu a sua “rival”. Pode ir dizendo. Eu me virei, ficando de costas para onde todos estavam e olhei para Adelle, deixando que as minhas lagrimas represadas com tanto custo, se perdessem pelo meu rosto, num pranto silencioso. Ela me olhou com os olhos úmidos de emoção e preocupação e minha voz estava falha enquanto eu explicava para

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ela a minha teoria de que Thomas estava apenas me usando. - Não creio que ele... - Ele não me ama, Adelle. E eu sou uma idiota por mesmo sabendo disso, ainda me entregar de corpo e alma pra ele. Eu queria... – O que eu queria mesmo? Nem eu mesma sabia. Ou melhor, sabia, mas o simples fato de não possuir nenhuma perspectiva de que pudesse haver um futuro para esse meu amor irracional, era o que me fazia crer que eu não deveria ficar nutrindo esperanças. Querendo o que eu não poderia ter. - Kate, eu... - Vamos logo pra esse carro maldito e pra esse estado maldito. Vou ficar muito melhor depois que ele for embora. – eu disse com um sorriso triste. Eu me arrependi de minhas palavras no mesmo momento que as proferi. As coisas ficariam melhores para mim quando eles entrassem naquela nave e levassem consigo todas as minhas lembranças. Mas não para Adelle. Ela teria de ver a sua alma gêmea ir embora depois de ter lutado tantos anos para encontrá-la. - Estou com um mau pressentimento, Kate. Já estávamos quase no carro quando ela fez o favor de me avisar que seus maus pressentimentos haviam retornado. Eu os odiava porque eles sempre provavam estar certos. Quando ela dissera que tinha certeza que as coisas não estavam acabadas quando deixamos Thomas e Harold na praia, eu queria muito que ela não estivesse certa. Mas eu já conhecia Adelle havia anos demais para saber que ela nunca estava errada. - O que vai haver dessa vez? - Não sei. Mas vai. – ela estava pálida e passou a chave do carro para mim, que imediatamente me acomodei no banco do motorista enquanto Adelle ficava ao meu lado. Não me preocupei em olhar para trás para saber se estavam todos bem acomodados. Eu pouco me preocupava. Quem sabe eu me incomodasse com Harold ficar um pouco desconfortável, quanto ao resto, por mim eu não me importaria nem um pouco se eles nem entrassem no carro. - Só falta Iowa e Nebraska e já estaremos aonde vocês tem que chegar. – eu disse com a voz seca. – E farei isso o máximo para chegarmos o mais rápido possível. - Não se apresse. – Thomas disse com a sua arrogância de sempre. E justamente por isso pisei no acelerador com toda a minha raiva e aproveitei que estávamos numa estrada de terra e deixei que a lama voasse livre para o carro de Adelle. Diminui um pouco assim que cheguei à estrada com medo dos radares e dirigi com os olhos fixos mais à frente, sentindo o mau pressentimento me acertar de uma maneira estranha. Era como se estivéssemos sendo seguidos, ou coisa parecida. Olhei pelo retrovisor mas não havia nenhum carro por perto o que provava que meu medo era meio infundado. - Vocês sentem também? – Adelle perguntou quando notou que todos no banco traseiro se mexiam incômodos. - Evite essa estrada, Kate. – disse Thomas com o olhar fixo na estrada. - Não tem nenhum retorno, Thomas. É a única estrada para Iowa. Não temos outra escolha.

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Eu fui rude e nem me preocupei em me desculpar. Todos naquele carro estavam tensos e a minha tensão também dividia espaço com insegurança e decepção. Era por isso que eu não via a hora de chegar em Wyoming. Bastava chegarmos lá e meus pensamentos seriam levados e com certeza aquelas sensações horríveis e torturantes também. - Corte caminho pelo pasto. Não atravesse a fronteira pra Iowa. - Como Thomas? – foi a vez de Adelle ficar irritadiça. Não havia outra maneira. Teriamos que atravessar a fronteira. Não havia outro jeito. As nuvens negras e acinzentadas estavam tampando a minha visão de cinco metros a frente, mas eu não era cega o bastante para não conseguir divisar que o que havia mais à frente eram carros. Vários deles, no mínimo doze. Todos parados enfileirados na fronteira onde a placa que avisava da entrada para Iowa. Olhei para Adelle que já respirava com dificuldade e percebi que minhas mãos tremiam em cima do volante, suadas e frias. Eu pensei em dar meia volta e avançar com toda a velocidade, mas não era idiota a este ponto. Fazer isso era pedir para ser seguida com fogo aberto atrás de nós. E a ultima coisa que eu queria era levar um tiro. Ou ver qualquer um dentro daquele carro levar um. Apesar de não gostar de Allie, não desejava nada de tão mal para ela. Talvez apenas ficar careca. No máximo. - Deus, Kate! O que vamos fazer? Antes que eu pudesse responder à Adelle, a voz de um policial aumentada pelo megafone que ele segurava ordenou-nos que parássemos o carro e descêssemos dele com as mãos para cima. Meu peito estava disparado e fiquei ainda mais nervosa e amedrontada quando eu vi as duas pessoas que estavam na frente do primeiro carro de policia do cerco. Nem se eu quisesse eu não conseguiria reconhecê-los. Os cabelos ruivos meio rosados de Izzy e o seu parceiro a tira colo eram únicos. A ARE estava ali. E o meu medo estava tomando proporções astronômicas. Eles pegariam Thomas. Eles levariam Thomas. Os policiais avisaram mais uma vez que deveríamos todos sair do carro com as mãos na cabeça e Adelle, temerosa de que algo pudesse acontecer ao seu precioso Harold, abriu a porta e colocou as duas mãos na cabeça, ficando de pernas abertas em frente ao carro. O que me teria feito rir como uma louca, se eu não estivesse tão nervosa. Olhei para trás e Harold não tirava os olhos de Adelle, tentando de alguma maneira prever o que aconteceria a seguir. E eu sabia que se houvesse o mínimo risco de perigo, Harold sairia daquele carro como um raio e protegeria Adelle. Com um olhar para Thomas, que encarava Allie que estava respirando com dificuldade e de uma maneira estranha por causa do medo, eu coloquei as mãos na cabeça, saindo do carro também, com um sentimento estranho que me fazia crer que se houvesse a mesma chance de perigo que houvesse para Adelle, Thomas não se daria ao trabalho de sair de dentro do carro para me salvar. - Estou com medo, Adelle. – eu disse como se o fato já não fosse obvio. - Todos os outros. – Izzy disse no megafone enquanto Noah vinha para mais perto de nós, tentando ver o quem mais havia dentro do carro. – Saiam

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imediatamente de dentro do carro com as mãos na cabeça. Vários fachos de luz vermelha passaram pela cabeça de Adelle e mostrando que também sabia o que eram aqueles fachos, ele levou as mãos à cabeça e parou em frente à Adelle fazendo com que as luzes o atingissem primeiro. - Allie está fazendo contato mental com a nave. Logo ela estará aqui. Os olhos de Izzy e Noah brilharam ao ver Harold e me fizeram notar que eles estavam a menos de dois metros de nós agora e vinham se aproximando ainda mais. Adelle abaixou suas mãos, sem ação. O seu medo havia sido redirecionado. A nave estava a caminho. Era o sinal que ela adiara o Maximo que pudera. A ultima coisa que ela queria ver, a nave era a prova real e concreta que ele partiria de sua vida. E notei que todos os sentimentos que passavam pelo rosto incrédulo de Adelle, eram espelhados no meu ao ver Thomas sair de dentro do carro com o rosto tenso e avisar-nos que a nave estava perto. Eu passara dias com medo daquela noticia e agora que a escutava, parecia que tudo o que acontecera era apenas um pesadelo bem ruim. - Com as mãos na cabeça. Todos com as mãos na cabeça. – um policial gritou e todos nós colocamos as mãos na cabeça com medo da ameaça velada na sua voz. De repente os fachos de luz pararam e percebi que estávamos envoltos em uma espécie de escudo acinzentado que não permitia que nenhum dos fachos de luz das armas nos atingisse. Eu estava nervosa por tantos motivos que nunca conseguiria listá-los e ver todos aqueles carros de policia e a possibilidade de poder ver Thomas por apenas mais alguns segundos estava deixando tudo ainda pior. Minhas pernas tremiam, minha cabeça latejava de tantos pensamentos ao mesmo tempo, meu corpo suava frio e eu não tinha a mínima idéia do que fazer a não ser ficar parada ao lado do carro com as duas mãos sobre a cabeça buscando uma solução. Céus! Até que dia eu iria tentar buscar soluções para coisas insolúveis. Um exemplo? Eu queria uma solução, um milagre naquele exato momento, cercada de carros de policia, atiradores e da noiva de Thomas e a chegada iminente de sua nave. Eu queria alguma maneira de mantê-lo junto a mim, na Terra, em Airamidniv, em qualquer lugar. Eu simplesmente queria tê-lo comigo. Adelle estava prestes a ter uma crise nervosa, olhando para todos os lados com medo de acontecer alguma coisa ao seu Harold, mas com mais medo de a nave chegar. Os olhos de minha amiga nunca estiveram tão assustados. Eu poderia dizer todos os sentimentos que a aflingiam apenas de olhar em seus olhos. E saber que eu não poderia fazer nada para acalmá-la já que eu estava praticamente estática me deixava muito mal. - Estou com medo. – ela disse virando seus olhos para mim e apenas mexendo os lábios para me dizer isso. – Não posso deixá-lo ir. Eu sabia exatamente como ela estava se sentindo e olhei para Thomas para saber como eu o deixaria ir. Fechei os olhos sentindo todos os meus sentidos abalados, sem conseguir enxergar, ouvir ou sentir qualquer coisa e temi que fosse desmaiar novamente, quando fui segura pelas mãos conhecidas de Thomas.

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- Olhe para mim, Kate. Respire. - Não se preocupe. – eu me endireitei, tonta e me afastei de suas mãos sem me dignar a olhá-lo. Eu ainda tinha consciência do que fazia bem e mal para mim. E olhar para ele se encaixava claramente na segunda opção. - Eles criaram uma barreira. Os alienígenas criaram uma barreira. Atirem agora. – escutei um policial, pela voz, o mesmo que estava com o megafone, gritar. - Cem milhas. Estão há cem milhas. – disse Allie com a mão na testa e eu nem precisei de superpoderes para saber do que ela estava falando. A nave estava há cem milhas. - Munnighan e Dupré, entreguem os extraterrestres agora mesmo. - Falar é fácil, querido! – gritou Adelle num arroubo de raiva. – Eu não quero deixar ele nem voltar pra casa, imagine colocar ele na mão de vocês. Fala sério! Harold não segurou uma risada e colocou a mão em seu rosto, num gesto carinhoso que foi emocionadamente assistido por mim, que quase fui às lagrimas quando ele mexeu os lábios prometendo que ficaria tudo bem. E eu mesma acreditei em suas palavras, embora soubesse que não deveria acreditar. - Não é uma brincadeira. Desfaçam esse campo magnético ou abriremos fogo. Olhei com medo para a barreira cinzenta que nos separava do mundo lá fora que estava cheio de policiais enfurecidos e dois agentes da ARE prestes a cortar os aliens comigo em milhares de pedaços. Não consegui evitar que meu olhar fosse atraído para cima, para ver a pequena abertura na cúpula acinzentada que nos protegia, na esperança de ver a nave. Quanto mais rápido, mais indolor. Seria como tirar um curativo da pele. Rápido para doer menos. A quem eu queria enganar? Doeria mais do que eu pudesse pensar. Partiria meu coração em mais pedaços do que eu poderia colar. - Cinquenta milhas. – Allie anunciou enquanto todos nós olhávamos para o céu, à espera da nave, com medo de que ela aparecesse, mas ao mesmo tempo ansiosa. Eu não saberia descrever o tanto de sentimentos que passavam na minha mente com tanta velocidade. Eu queria que tudo acabasse naquele momento e descobrisse que estava apenas dormindo. Seria mais fácil para todos. Adelle correu de trás de Harold para os meus braços entre lágrimas de dor e desesperança enquanto eu a afagava, sussurrando palavras que por mais baixas que fossem eram mais altas que o som dos gritos dos policiais do lado de fora da nossa bolha. - Tudo vai ficar bem, Adelle, vai ficar tudo bem. – eu disse e não pude evitar que meus olhos se focassem em Thomas que segurava Allie, que ainda mantinha as duas mãos na cabeça, mostrando que esta estava doendo e mantinha seus olhos em mim também. Os seus olhos castanhos pareciam atormentados e mais brilhantes que o normal e se eu fosse ingênua o suficiente até poderia dizer que ele estava prestes a chorar. Mas eu não era ingênua a esse ponto. Ou se estivesse chorando, era de felicidade por se ver livre de um planeta como a Terra e pessoas tolas e

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incapazes de resistir a seu charme extraterrestre como eu. Os policiais gritaram algo que eu não entendi e imediatamente o barulho de tiros contra uma chapa de aço foram ouvidos, provando que a policia havia aberto, finalmente, fogo contra nós. - Kate Munnighan e Adelle Dupré, entreguem-nos de uma vez os alienígenas. – a voz de Noah e Izzy gritaram juntas. De repente, um barulho estranho fez com que meus ouvidos se tampassem, um barulho como o que você ouve quando entra água no seu ouvido. Incomodo e que você não consegue parar. Eu sabia o que era. Não precisava ser nenhuma genia para saber o que estava acontecendo. Todos os meus pelos estavam arrepiados por causa do magnetismo que vinha da enorme nave acima de nós. Era brilhante como a que caíra com Thomas e Harold, mas bem maior. Brilhava de um jeito cegante com luzes de várias cores. Era enorme. Parecia uma enorme bola de futebol americano, prateada e brilhante. Eu podia escutar os gritos assombrados dos policiais do lado de fora da proteção, mas não conseguia deixar de tirar os olhos da nave. Como da outra vez. Era linda, me chamava como um imã e eu andei um pouco para o lado, com a cabeça erguida admirando a nave com reverencia, enquanto apenas escutava as coisas à minha volta, como se tudo parecesse tão longe. - Precisamos ir. Agora, Thomas. – Allie dizia. - Sim. Vamos, Harold. E então Adelle chorou mais alto, atraindo a minha atenção. Meus olhos saíram da nave incrível e pararam na minha amiga que havia caído de joelhos no chão e evitava que Harold a tocasse. Harold tinha lágrimas escorrendo pelo rosto, e toda a dor que os dois sentiam veio toda para mim como se eu fosse uma espécie de pararraio. Ele se ajoelhou na frente dela e tentou tocar seu rosto, mas ela o virou antes que isso acontecesse. - Rápido, temos pouco tempo. A barreira só durará mais alguns minutos. A voz de Thomas impassível chamou a atenção de todos nós e Harold levantou os olhos pra ele, falando na sua linguagem silenciosa e Thomas se afastou com uma reverencia para os dois. - Podemos aproveitar enquanto os dois conversam para resolver algo muito importante. Eu mesma não reconheci minha voz. Tudo o que eu saberia dizer naquele momento era que eu não era eu. Meus sentimentos haviam se aquietado e apenas uma tristeza profunda e uma ansiedade para que tudo acabasse do modo mais rápido dominavam meu peito. Minha voz estava firme, nem parecia que há minutos atrás eu estava prestes a ruir. - E o que é? – Thomas perguntou de seu modo arrogante e seco do qual eu odiava, mas sabia que sentiria saudades. - Apagar a minha memória. – eu respondi de cabeça erguida, pronta para que todas as minhas lembranças de Thomas e Harold fossem tiradas de mim. Pronta para esquecer que eu o amava mais que tudo na vida. E principalmente, que ele não me amava de volta.

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DEZOITO Adelle Eu estava consciente da nave acima de mim fazendo um barulho irritante. Estava ciente das mãos de Harold tentando me tocar a todo instante para que eu olhasse para ele. Mas tudo o que eu conseguia ver, ouvir e sentir eram a minha dor. Quanto tempo levaria para que parasse de doer? Eu achava que havia me preparado tanto para aquele momento e no entanto, eu não havia pensado que chegaria tão rápido. Como eu saberia que teria apenas mais alguns poucos minutos com Harold, tocando sua pele, sentindo o seu perfume que já virara o oxigênio para mim? Ele tentou me tocar meu rosto novamente com suas mãos quentes, mais uma vez e propositalmente, esquivei do seu toque. Em minha mente podia ouvir as palavras de Harold como se ele as estivesse sussurrando para mim. Eu estava fazendo questão de ignorar o contato mental que ele estava fazendo. Eu queria fazer aquilo do jeito mais fácil, mas Harold complicava tudo. Era simples, não era? Apagar a minha memória, esquecer que éramos mraknis e subir pelo raio de luz azul que desceria da nave. Eu, pelo menos, imaginava que seria azul. Em alguns encontros ufos que eu havia presenciado, eles sempre diziam que a luz era azul. - Por favor, Adelle. Não torne tudo mais difícil para mim. - Apenas vá embora, Harold. – deixei meu corpo cair sentado e apoiei as costas no pneu dianteiro esquerdo enquanto limpava as lágrimas e me encolhia, colocando os joelhos no peito. - Eu não posso ir, Adelle. Não enquanto tudo isso não estiver resolvido. – ele colocou a mão no meu joelho e eu senti que não conseguiria afastá-lo de mim por muito tempo. Eu era determinada, mas Harold era mais teimoso que eu. E nesse caso ainda tínhamos uma variável muito importante a considerar: eu não conseguia ficar sem seu toque ou sua voz rouca me dizendo “mra t nhé” apenas para me ver repetir as palavras que significavam que ele me amava na minha voz fanhosa. - Pode sim. È simples: está tudo resolvido. Eu finjo que eu não sou sua mrakni ou qualquer coisa que nos mantenha em um envolvimento, você apaga minha memória, vai embora e é feliz no seu planeta. Para mim não parece tão difícil. Sim, eu estava mentindo. Eu sabia que ele nunca esqueceria que eu seria sua mrakni. Ele havia me explicado que encontrar a sua é um fenômeno tão raro, que é impossível se afastar quando a encontra. Mas ele tinha que levar em conta que eu era uma terráquea, eu não podia ir, ele não podia ficar. Era assim. - Não é tão simples. Você sabe disso. – ele resmungou. Harold estava transtornado. Seus cabelos escuros estavam completamente bagunçados e seu rosto espelhava a sua raiva e impotência por não achar uma saída fácil para nós. Ele não poderia ficar na Terra comigo. Era perigoso demais, a ARE estava na nossa frente, era ele se rejeitar a subir na nave com os outros e ele seria imediatamente levado. E pensando dessa maneira, era

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pior. Nem Deus sabia o que aqueles agentes poderiam fazer com ele, matá-lo, torturá-lo, estudá-lo ou sabe-se lá mais o que. Se fosse para ser assim, eu preferia vê-lo longe do que sofrendo esse tipo de atrocidade por querer ficar comigo. Eu não poderia ser egoísta. Eu já fora isso por tempo demais. Eu fiz o que queria de Kate, manipulando-a no papel de melhor amiga e a arrastando para todas as minhas confusões. Não poderia fazer o mesmo com Harold e pedir para que ele ficasse comigo. Eu sabia que ele ficaria se eu pedisse. - Só pense como somos melhores juntos, Adelle. Lembre de quanto tempo nós demoramos para encontrar alguém que nos amasse de verdade até encontrarmos um ao outro. – ele segurou minha mão, e eu não fiz um só movimento para tirá-la do meio das mãos dele. O seu carinho era quente, como o seu corpo e imediatamente me fez recordar dos momentos que havíamos vivido mais cedo na estrebaria. Ele fora tão doce e apaixonado, como sempre. Mas dessa vez tinha sido mais especial. Ele me tocara por inteiro, sussurrando palavras doces na minha língua e repetindo na dele, como se o som de seus elogios soasse igualmente perfeito nos dois idiomas. Ele ondulava o seu corpo sobre o meu e me levava à loucura do êxtase, enquanto eu não tinha outra opção a não ser sussurrar seu nome. Mra T Nhé, eu havia dito e a luz de seu sorriso me deixara tão contente que pela primeira vez na minha vida eu soubera que havia dito a coisa certa no momento certo. Desde o momento em que eu o encontrara naquele buraco com os olhos fechados e ferimentos pelo corpo, eu tive a certeza de que a minha vida mudaria naquele momento. Um homem caíra das estrelas para ocupar no meu coração, o espaço enorme que havia para elas. Eu passara tanto tempo da minha vida observando as estrelas e nunca havia parado para pensar que o amor da minha vida pudesse estar entre elas. - Eu sou seu. – ele disse com a voz rouca e deixou que algumas lágrimas escorressem do seu rosto para o chão, enquanto se ajoelhava na minha frente, com o rosto ainda mais tenso, mas sem por instante nenhum, soltar a minha mão. – Distancia nenhuma, pessoa nenhuma poderá mudar isso. Não farei nada que você não queira, não deixarei de atender nenhum pedido seu. Eu serei seu defensor pelas estrelas, jurarei meu amor por você pelas galáxias. E é por isso, Adelle, que eu te peço para não me mandar embora. Ele procurou meus olhos e eu não resisti a levantar minha cabeça para encará-lo. Não havia como resistir a Harold. Eu tentei durante toda a ida de carro para a minha casa naquele dia. Nunca falei a sério com Kate que iria dormir com ele. A minha maior diversão é provocar Kate para ver se por algum acaso das estrelas ela deixaria de ser aquele robô sem coração, sem senso de humor e que desperdiçava a vida sendo realista demais e preocupada demais. Porém, naquela noite, depois de levar Harold para comer alguma coisa, cheguei em casa exausta. Não havia dormido direito e toda aquela tensão de “oi, eu encontrei um alien” estava me deixando maluca. O nosso combinado havia sido de ele dormir no sofá-cama enquanto eu dormia no meu quarto, mas estava passando Lost, e eu não resisti à ver um episodio a mais e acabei aninhada no sofá junto com ele, que não se incomodou em dividir o sofá comigo. Harold era tão quente. E mesmo a noite de Nova York estando fria, eu não

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senti nenhum frio. Ele havia falado alguma coisa sobre a tecnologia das TVs e sem querer nossos rostos ficaram pertos demais a ponto de nossos narizes se roçarem. - Você acredita no poder das estrelas, Adelle? – ele havia dito com a voz falha naquele dia. Eu não tinha voz, por isso apenas assenti. – E você poderia dizer que isso que estamos sentindo agora faz parte do poder das estrelas? Eu assenti mais uma vez enquanto fechava os olhos já prevendo o beijo que estava por vir e quase delirando quando ele finalmente veio. Calmo, romântico mas ao mesmo tempo tão arrebatador que pensei que estivesse morrendo apenas por sentir o calor de seus lábios nos meus. Naquela noite não aconteceu nem metade do que eu supus para Kate pela manhã. Eu e Harold apenas conversamos sobre o planeta dele, enquanto eu explicava sobre tecnologia terrestre. Nada demais. Além do fato de eu ter dormido no sofá naquela noite e ele ter se aconchegado atrás de mim, cobrindo a nós dois e me esquentado com o calor de seu corpo. Nada mais aconteceu. - Adelle... – ele chamou minha atenção para as suas lágrimas novamente. – Mra T Nhé. – eu funguei tentando desesperadamente ser silenciosa, mas meu choro estava inconsolável. – Você sabe o que significa essas palavras, minha mrakni, você sabe o quão raras elas são para mim, por favor não faça com que elas sejam em vão. Ele ergueu uma de suas mãos e tocou meu rosto. Eu não tinha mais forças para fugir, e por isso repousei meu rosto em sua mão, enquanto sentia ele acariciá-lo com toda a sua ternura. Como eu poderia voltar a viver depois que ele fosse embora? Sem seu toque, seu calor, seus olhos, sua voz tão diferente que era capaz de me arrepiar? Sem seu sorriso, como eu iria saber que a vida poderia ser melhor do que era? - Eu amo você, Harold. Amo muito. – eu confessei entre lágrimas. Ele abriu os braços e eu não vi outra solução a não ser me jogar neles e deixar que as lagrimas fizessem ainda mais estrago, molhando sua camisa e deixando meu rosto completamente desfigurado. - Então confie em mim. Aquelas eram as mesmas palavras que ele dissera quando nos entregáramos um ao outro pela primeira vez. Havia sido no hotel em Hamilton, e era uma das memórias que eu imploraria a Harold que me deixasse com ela. Se eu não me lembrasse de com quem eu dormira, ou se não tivesse certeza de que era um sonho ou não, isso não importava. O que importava era que eu nunca tinha sido amada daquela maneira na vida. Nós dois sabíamos que aquilo aconteceria quando havíamos sido os últimos a sair da mesa, no restaurante do hotel. No elevador, o meu coração pulsava tão rápido que por vezes pensei que ele poderia ser escutado de fora do elevador. Harold se mexia nervosamente ao meu lado, mostrando que estava tão nervoso quanto eu. Demorei muito tempo para conseguir encaixar a chave na fechadura, de tanto que tremia, e quando entramos no quarto e Harold fechou a porta, se apoiando nela, encarando a mim com seus olhos castanhos e lindos, tudo o que eu soube era que estava no meu destino me perder naqueles sentimentos. Eu me joguei em seus braços e o beijei quase com voracidade, sentindo o gosto do mel das panquecas em sua boca. De repente suas mãos

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ganharam vida própria e estavam enlouquecendo–me, enquanto passeavam por todo o meu corpo, apenas sentindo os relevos, esperando que eu tomasse a iniciativa. Mas eu estava tão cativa de seus sentimentos que não consegui pensar em nenhuma ação. Eu nunca havia sido tratada com tanto carinho e ternura por um homem e ter aquilo justamente do homem por quem eu havia me apaixonado. Eu não sabia como agir e nem o que falar, até que ele olhou em meus olhos e perguntou se eu confiava nele. Eu confiaria minha vida a Harold. Sem pestanejar. Ele sorriu como se soubesse que eu havia pensado aquilo e pegou-me no colo, me colocando na cama e me amando com toda a reverência que eu poderia esperar. Ele me tocara em todos os pontos que me excitavam e me mostrara que haviam muitos outros que eu nunca pensava existir. Ele me levara para o alto de todas as escalas de prazer e me fizera repetir de todas essas sensações quando repetimos o nosso amor, desta vez comigo experimentando o sabor daquela pele macia e beijando-o por inteiro. - Harold. – eu sussurrei em seu ouvido antes, e repeti aquilo novamente enquanto ele me abraçava entre lágrimas de ambas as partes. – Não me tire essas memórias. Não posso viver sem você, mas tenho certeza de que não conseguirei de forma alguma se não tiver essas memórias comigo. Saber que você me amou vai me fazer melhor. - Saber que eu te amo. – corrigiu Harold, passando a frase para o presente. – E nunca vou deixar de amar, Adelle. - Eu nunca quis que esse momento chegasse. Eu nunca estive preparada para dizer adeus para ninguém, especialmente para você. - Então não diga. Harold se levantou como se houvesse lhe ocorrido a idéia do século. Eu teria que dizer Adeus. Não havia outra maneira. Eu estava presa entre um adeus e um eu te amo, mas na duvida, eu teria que dizer os dois. Eu teria que aprender a viver sem ele. Assim como eu havia aprendido a viver sozinha. E, se Deus me ajudasse, aquilo passaria um dia. E toda a dor que eu sentia em meu coração seria apenas um aperto de vez em quando que me bateria quando eu me lembrasse que eu era a alma gêmea de alguém que estava do outro lado das estrelas, pensando em mim também. - Prometa que pensará em mim. – eu disse ignorando de propósito que ele queria que não disséssemos adeus. – Que mesmo em Airamidniv, o seu amor ainda será meu. Por favor. - Em qualquer canto dessa galáxia, o meu coração não será de mais ninguém, Adelle. Eu o dei a você e não quero devoluções. - Então confie em mim. Acredite que eu tenho a solução para a nossa situação. Acredite em mim. – assenti com a cabeça e deixei que ele lesse a minha mente, coisa que ele tinha confessado poder fazer na noite passada, e me lembrava de ter visto o seu rosto ficar vermelho de vergonha quando eu perguntei irada se ele realmente havia visto tudo o que eu pensava, com medo de que visse todo o meu medo de deixá-lo partir e como eu me sentia boba e sem graça perto dele às vezes. Mas Harold me garantira que respeitava meus pensamentos. Saber que ele me respeitava era incrivelmente gratificante. Respeito era uma das coisas mais importantes para se ter um amor para a vida inteira. E era o que eu tinha certeza que meu amor e de

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Harold seria: para a vida inteira. Talvez até além da vida. Ele sorriu e disse em minha cabeça que eu não deveria mais chorar. Ele estava comigo. - Allie. Precisamos conversar. – Harold chamou, enquanto se levantava, limpando as lágrimas e depois esticando a mão para mim, me ajudando a levantar, sorrindo para mim e voltando a ficar sério. – Preciso conversar com você, também, Thomas. Voltei meus olhos para Thomas e vi que as coisas entre ele e Kate estavam mais que tensas. Os ombros de Kate estavam empertigados e logo ela teria um torcicolo de tanto empinar o nariz e eu sabia exatamente o que ela estava fazendo. Conhecia Kate há muito tempo e sabia que ela queria mostrar altivez e indiferença para Thomas, quando na verdade, ela estava prestes a desmoronar. Ela era especialista em fazer isso nas aulas de debate do ensino médio. E assim que o debate terminava, ela andava toda empertigada para o vestiário feminino e lá chorava toda a sua raiva e frustração. Dessa vez eu sabia que Kate choraria todo o seu amor perdido, coração partido e tristeza assim que a nave saísse de nossas vistas. - Agora, Harold? – Thomas perguntou seco, com os olhos anda fixos em Kate, que também não tirava os seus dos dele. Ela era teimosa, mas finalmente encontrar alguém que também fosse cabeça dura o suficiente para lidar com ela. Perfeitos um para o outro. Era a melhor forma de descrever Thomas e Kate. Teimosos, chatos e protetores. Simples assim. Harold me abraçou mais forte e sorri percebendo que a premissa de “feitos um para o outro” valia para mim e Harold também. Até nossos corpos tinham o encaixe perfeito para um e outro. Éramos sim, almas gêmeas. - Agora. - Ainda não terminei com você. – com um quase rugido para Kate, Thomas se afastou, mas não antes de ouvir a voz de minha melhor amiga quase dois decibéis mais alta do que já é normalmente estridente. - Nem eu com você, Alien. Thomas planejou voltar para dizer alguma coisa para ela, mas Allie segurou em seu braço e o puxou para onde Harold e eu estávamos, enquanto eu segurava a pulso a vontade de rir da cara de Thomas e Kate. - O que é, Harold? – ele perguntou seco. - Allie, você sabe que Adelle é minha mrakni, por isso não posso deixá-la aqui, com todos esses perigos terrestres e correr o risco de não sobreviver em Airamidniv sem ela por perto. – ele engoliu em seco e sons de tiros contra a barreira que agora parecia metálica, pelo barulho, deu mais ênfase às palavras de Harold, que voltou a falar assim que os tiros terminaram. – Por isso peço permissão à você, como filha do naul de Airamidniv para que eu possa levar a minha mrakni comigo para o meu lar, onde ela também pertencerá e onde criaremos nossa família com todo o respeito por nosso planeta. Allie ergueu as duas mãos sobre a minha cabeça e sorriu. - Como sua mrakni, ela tem todo o direito de ir para Airamidniv. E como uma das sucessoras do governo planetário, concedo à sua mrakni, todos os direitos e benefícios de um ser de nosso planeta.

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- E eu lhe desejo boa sorte. – Thomas disse, tentando parecer simpático, mas seu rosto estava repleto de tensão enquanto ainda olhava furtivamente para Kate. Mas, eles estavam decidindo tudo por mim. E a minha vontade? Eu não poderia ir. Não podia deixar Kate. Ela era minha melhor amiga e poderia se meter em problemas astronômicos se eu não estivesse com ela. - Não posso ir. – olhei de um para o outro e senti o abraço de Harold se afrouxar, enquanto ele parecia decepcionado com a noticia. - Pode sim, Adelle Lombriga. – disse Kate usando o meu apelidos dos tempos de criança com um sorriso que me fez lembrar de casa e do porque eu não podia ir embora. Eu tinha que cuidar dela e ela de mim, como sempre fora. Não poderia deixar que as coisas mudassem agora. – Eu vou ficar bem, sempre fui mais forte e menos chorona que você. Sei o segredo para deixar as coisas bem. É só ficar longe das estrelas. – ela riu. – Você está indo nas melhores mãos com quem eu poderia te deixar ir. Harold vai cuidar de você melhor do que eu jamais poderia, sem contar que ele é o seu mrakni. – Ela segurou uma risada alta ao dizer as palavras. – E eu que não vou agüentar você chorando como uma viúva enquanto estiver longe dele, e também não desejo um marmanjo como Harold chorando igual a um bebê na cabeça de ninguém. - Mas, Kate, eu... - Você sempre me disse que as estrelas te trazem o que você mais deseja. – ela sorriu e seus olhos brilharam de um modo conhecido. Ah, não, eu estava vivendo para ver isso. Kate Munnighan chorando duas vezes na mesma semana. Era quase um recorde digno de Guinness Book. – Elas te trouxeram Harold. – ela sorriu mais uma vez, e de repente seu rosto ficou sério e me deu medo - Agora você vai dar as costas para suas malditas estrelas só porque acha que tem algum senso de responsabilidade comigo? Você é a irmã que eu nunca tive, Adelle Lombriga, então por isso mesmo tenho a permissão de mandar em você e a minha ordem é que você entre nessa porcaria de nave, vá para esse inferno de planeta e seja feliz. Eu sorri e me joguei nos braços da minha melhor amiga enquanto ela ainda fazia um esforço sobre humano para não chorar. - Obrigada Égua Lenta. – agradeci com o apelido que haviam dado para ela no acampamento, mesmo lugar aonde eu havia ganhado o odioso “Adelle Lombriga”. – Eu... – as palavras se travavam em minha garganta de tanta emoção. - Harold é a sua alma gêmea, não deixe ele esperando muito mais. Ele vai cuidar bem de você onde quer que seja, e estarei daqui rezando para que sua vida seja sempre iluminada... - Pelas estrelas da manhã. – ri, dizendo o fim do que costumava sempre dizer a ela. – Obrigada por ser minha irmã, Kate. - Obrigada a você, Adelle. Essa aventura vai me dar um Pulitzer fácil. Nós rimos e virei para trás sorrindo para Harold que não cabia em si de felicidade. Eu e ele éramos tão perfeito juntos que eu não conseguiria pensar em viver longe dele. Apesar de ter cogitado a hipótese, eu sabia que o meu fim sem ele estava fadado a tristeza e mais tristeza. Eu morreria de saudades de Kate, mas eu queria pensar que isso talvez não

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acontecesse. Thomas era cabeça dura, mas também era muito decidido. Ele não deixaria Kate na Terra. Era mais que certo que ela era sua mrakni e estava apaixonada por ele. Se eu merecia um final feliz, Kate merecia um final e feliz e meio. Ela cuidara de mim por muito tempo, se preocupando, ligando para ver se estava tudo bem, entrando em furadas comigo apenas para ter certeza de que daria tudo certo para mim. Ela odiava astronomia, mas estava sempre em um encontro desses comigo. Ela não suportava aliens e graças a mim e a minha curiosidade irritante, havia se apaixonado por um alien metido, cabeça dura e ainda por cima que já tinha uma companheira. - Kate, vem comigo. – pedi. - Não posso. A voz de Kate era intensa e eu podia sentir a tristeza nela. Ela estava chorando, mas como não queria que eu visse, virou o rosto para o lado enquanto eu tomava sua mão fria. Sempre me partia o coração ver Kate chorando, não era algo que ela fazia sempre e quando fazia, era sinal de que as coisas estavam indo de mal a pior. - Você pode, eu posso. - Você é uma mrakni, Adelle. E o que eu sou? Nada. Eu não posso sair da Terra, minha vida é aqui. – ela ergueu os olhos vermelhos e seu olhar não se fixou em mim. Se fixou mais além. Em uma figura alta, de cabelos de cor indefinida e uma expressão dura na face. – E além do mais, ele não me quereria por lá. É melhor assim. - Mas eu não posso ficar sem você. As palavras vieram do fundo do meu coração e pareceram ter ligação com o canal lacrimal de Kate, que chorou um pouco mais alto, mas ainda assim não alto o suficiente para atrair a atenção dos aliens mais atrás de nós. - Pode sim. Vai ficar tudo bem, para nós duas, eu juro. Ela sorriu e aquele sorriso pareceu estranho em um rosto com tantas lagrimas escorrendo. Minha vontade era apertar ela nos meus braços mais uma vez, mas os policiais do lado de fora gritavam para que destruíssem a barreira e para que nós nos entregássemos. - Temos que ir, Adelle. – Harold disse segurando a minha outra mão. E colocando uma mão no ombro de Kate, olhou profundamente nos seus olhos e disse alguma coisa para ela pela mente, o que a fez levantar a cabeça para ele e sorrir triste, balançando a cabeça em negativa em seguida. Harold suspirou e fez uma reverencia para Kate, enquanto eu corria para a minha amiga, quase amassando ela com a força esmagadora do meu abraço. - Mra T Nhé, Kate! – disse com um sorriso e a segurei pelos ombros e vi que ela exibia uma expressão confusa. – O que foi? - O que significa “Mra T Nhé”? - Eu amo você. – respondi casualmente enquanto ela continuava com aquela cara de boba. – Tenho que ir. Me deseje sorte. Não se preocupe, darei um jeito de voltar no seu aniversário. Não garanto que vou trazer nenhuma lembrancinha, sabe como é, nunca se sabe se vai ter uma loja de presentes decente em Airamidniv e você tem todo esse bom gosto e... - Vá logo, Adelle. – ela riu sabendo da minha péssima mania de falar demais quando ficava nervosa e ansiosa. – Vou sentir sua falta.

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Eu me afastei sorrindo, segura pela mão de Harold e a nave se aproximou, despejando sobre o espaço aberto da cúpula de proteção um raio de luz azulada, onde eu, Harold e Allie nos abrigamos. - Venha Thomas! – Harold chamou. - Vão primeiro. – ele disse quase rudemente. – Ainda tenho certas coisas para resolver. Cruzei os dedos desejando sorte para a minha amiga e rezando para as estrelas que ela ouvisse pela primeira vez na vida a voz do coração, não a da razão, como ela sempre fazia. Harold me abraçou e eu fechei os olhos enquanto sentia meu corpo suspender do chão, rumo ao meu final feliz. DEZENOVE - Vão primeiro. Ainda tenho certas coisas para resolver. Por Deus. Como uma pessoa conseguia ser tão indesejável como Thomas? Eu não queria mais conversar com ele. Depois de nossa discussão calorosa sobre ele apagar a minha mente, coisa que ele não queria e usava o meu cérebro pequeno como desculpa para não fazê-lo. - Não tem. Pode ir. Aliás é um favor que você faz subindo pela luz. Minha ironia havia retornado com toda a sua pujança. Eu estava com as marcas úmidas de lagrimas por toda a face e com uma imensa vontade de chorar ainda mais. Os olhos dele me davam essa vontade. Olhar neles e me ver refletida tornava tudo tão mais doloroso que eu não conseguia saber se havia alguma dor mais potente no mundo. Eu ri pensando que a dor só conseguiria ser maior se eu fosse maior. Eu a podia sentir passando por todas as células do meu corpo, doendo uma por uma até se tornar uma dor insuportável. Uma dor que só não era irreparável porque eu faria de tudo para ter a mente apagada. - Saiam de trás da barreira com as mãos para cima. – a voz esganiçada de Izzy gritou e logo outra voz a ajudou em sua intimação. - Isso mesmo. Aliens e humanos, saiam de trás da barreira. Eu fiz questão de ignorar os aparvalhados agentes e prestei atenção em Thomas que se aproximava de mim com uma expressão que me daria medo se eu não estivesse tão furiosa. - Você não quer que eu vá embora, Kate Munnighan. Eu vejo dentro de você, sei o que você quer e precisa. Arrogante dos infernos. Maldito alien. Eu teria muitas mais dessas ofensas e teria dito todas elas, se a sua mão não tivesse segurado meu braço e me puxado na direção dela. “Escute seu coração dessa vez, Kate. Não a razão.” A voz de Harold ainda reverberava em minha mente. Eu já havia desconfiado dos poderes psíquicos dos Ets, mas apenas hoje Harold havia me dado uma confirmação. - Eu não quero nada de você, seu mentiroso desprezível. - Nunca menti para você. – ele olhou em meus olhos, ainda mais enfurecido por eu tê-lo chamado de mentiroso e me fez parar no lugar, enquanto eu me retorcia para me afastar dele. O seu contato era prejudicial ao meu juízo. Seus olhos tão quentes e furiosos presos no meu também não estavam ajudando em nada a manter minha decisão irrevogável.

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Sua mão não afrouxava o aperto em meu braço e tentei me libertar mais uma vez, mas isso apenas pareceu deixá-lo ainda mais nervoso. - Sim, você é um mentiroso idiota e sujo. – eu quase cuspi as palavras, tomando força em minha decepção para lutar de igual para igual com ele. – Achou que eu nunca saberia o que Mra T Nhé significa? Achou que eu nunca iria perceber que você tentava me seduzir apenas para que eu não desistisse de te levar até a porcaria da sua nave. – ele soltou o aperto de meu braço e eu quase cai no chão, mas me recompus rapidamente para completar: - O problema da mentira, Thomas, é que ela tem perna curta. Ele se afastou e colocou as duas mãos na cabeça enquanto dava voltas perto do carro, sem se aproximar muito da barreira que nos protegia e que era bombardeada por tiros e pelos últimos sons, com certeza por bombas também. - Por que você tem que sempre entender as coisas erradas, Kate? – ele disse quase rugindo e era notável que ele arrancaria a minha cabeça no meu primeiro vacilo. – É incrível! Eu tento te dar todas as pistas do que acontece, do que se passa aqui. – ele colocou a mão no peito e meus olhos se fixaram em seus dedos pousados no coração. – Eu preciso dizer com todas as letras para você entender? Devo soletrar, Kate? - Não precisa, eu já entendi tudo. Você me usou. Não sei se em Airamidniv é assim, mas aqui isso é muito feio. – eu estava tão furiosa quanto ele e entre nós parecia vibrar um campo magnético feito da mais pura tensão. – Vamos acabar logo com isso. Apague minha mente e tudo feito. - Astranuk! Eu. Não. Vou. Apagar. Sua. Mente. – ele gritou pausadamente me fazendo tremer com a raiva de sua voz, mesmo sem ter entendido a primeira palavra. – Astranuk é um palavrão dos mais ofensivos de Airamidniv e sim, eu estou muito nervoso porque eu simplesmente não consigo fazer você entender o que acontece entre eu e você. Eu ignorei o fato de ele, mais uma vez, ter parecido ler minha mente e disse, com os braços cruzados no peito que aquilo era um abuso dos grandes. - Abuso? – ele respirou fundo, tentando desesperadamente não me esganar e se aproximou segurando minha mão. – Acho que eu vou ter que te mostrar, só assim você vai entender. Eu tentei dar um passo para trás, mas ele me puxou para os seus braços e de repente nossos corpos se transformaram em vapor e eu senti uma sensação estranha no estomago, me vendo então, na cratera quente onde eu e Adelle havíamos achado Thomas e Harold. Eu podia me ver, ajoelhada e acariciando o rosto de Thomas. - Isso tudo vai ser pelo meu ponto de vista, o que você sentir, será o que eu senti. – ele olhou em meus olhos com suas profundezas de chocolate e eu me senti perder o ar. Eu senti. Conforme minhas mãos tocavam seu rosto, eu sentia uma paz infinita, misturada com um prazer que parecia aumentar conforme os meus dedos deslizavam pelo seu pescoço. Mais uma vez senti aquela sensação no estomago e foi como se a cena avançasse e estivéssemos agora no momento em que ele segurara minha mão e nossos olhos se encontraram. O meu coração se apertou, sentindo o que ele sentira antes. Era quase como ele me olhava. Aquele aperto dolorido e ao mesmo tempo tão certo que você tem

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certeza do que sente, mesmo negando a si mesmo. - Você sentiu isso? – ele perguntou e eu apenas assenti tentando não dizer nada que estragasse o momento e despedaçasse minhas ilusões. Aquele aperto no peito era o mesmo que eu senti quando olhei em seus olhos. E que eu sentia toda vez que isso se repetia. Aquele aperto que significava que eu o amava. Mais uma vez fora como se a cena fosse adiantada e eu me vi em seus braços enquanto ele me colocava na cama, na primeira noite que ele dormira em meu apartamento. Seu coração estava disparado e eu sentia o calor que dominava a ele todo. Ele tremia e desejava abaixar a cabeça, para tocar meus lábios. Eu senti e isso fez com que eu erguesse os olhos para o Thomas que me acompanhava e ele sorriu triste, apertando a minha mão um pouco mais. - Meu desejo por você era grande demais, Kate. Mas não maior que os meus sentimentos mais contidos. Eu nunca sentira uma avalanche de sentimentos como aquela. Por isso fiz questão para que você sentisse uma parte deles. E a todo instante você dava indícios que nada poderia acontecer entre nós, deixando bem claro que eu e você nunca poderíamos ter nada. Eu seria sempre o alien, e você sempre a terráquea. - Mas foi você quem foi arrogante comigo e... - Somos tão parecidos, Kate. – ele se virou para mim e colocou a mão no meu rosto, me permitindo sentir o seu calor em mim, mais uma vez, enquanto seus cabelos tão lindos esvoaçavam, quase tirando a minha atenção de seus olhos. Quase. Eu nunca conseguiria deixar de olhar para aqueles olhos castanhos e profundos. – Você sentiu tudo o que eu senti naquele momento, e assim como eu, você fica totalmente desprotegida quando os sentimentos assumem e tiram sua razão. Eles eram forte demais, e eu não queria ser abatido por eles. Eu sabia exatamente do que ele falava. Eu era abatida por eles diariamente, especialmente quando olhava em seus olhos. Eles tinham a magia certa para tirar de mim todos os males e me fazer enlouquecer, sucumbir aos sentimentos. Senti algo como um gancho no estomago mais uma vez e me vi naquele posto de gasolina, entre os braços de Thomas, sentindo desejo e ouvindo mais uma vez aquele barulho bem parecido com sinos. As sensações assolavam-me. Eu sentia aquela sensação de que está tudo certo, como sempre deveria ser, sentia o desejo que latejava nas veias de Thomas, sentia o seu coração disparar, contente por me ter em seus braços e contente por me ver correspondendo à sua caricia. Meu corpo vibrava de desejo, eu sentia todo o prazer que Thomas sentia e de repente foi como se, mais uma vez a cena fosse adiantada e me vi sentada no carro, na direção, enquanto Thomas estava sentado no banco traseiro. Eu me recordava bem daquela vez. Fora quando eu tivera alucinação enquanto dirigia para Hamilton. - Você sabe que não foi uma alucinação. Eu estava te provocando, vendo até que ponto você desejava meu toque, queria meus beijos, ansiava por meu corpo... – a voz dele estava rouca e não pude resistir a fechar os olhos enquanto ouvia suas palavras cada vez mais próximas ao meu ouvido. O prazer da cena de nosso beijo ainda estava presente entre nós e com essa

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nova cena, eu estava ainda mais quente por dentro. Eu sabia que cena viria a seguir, por isso apenas deixei que meu estomago se revirasse, para depois abrir os olhos e ver a nós dois parados na chuva, do lado de fora da fazenda, enquanto eu o acusava de me amar. Eu ainda me recordava da resposta, e o Thomas ao meu lado as repetiu ao mesmo tempo em que o Thomas molhado de chuva, cujo coração palpitava freneticamente, em um quase desespero, me desejando como nunca desejara nada na vida. - E quando eu disse que não amava? Eu sorri, enlouquecida com o quão verdadeiras aquelas palavras soaram e adiantando a cena apenas um pouco, nos vi chegando ao ápice de nossos corpos e prazeres e senti mais do que apenas a satisfação de Thomas. Senti carinho, ternura, prazer, mas muita felicidade e aquele sentimento que eu negara a mim mesma que estivesse sentindo por muitos dias. Amor. - Enfim você percebeu, não? – ele disse enquanto eu o encarava de olhos arregalados procurando um ponto em seu rosto, em tudo a nossa volta que me dissesse que eu estava apenas imaginando coisas. – Até que enfim! - Eu... Eu... - Mra T Nhé, Kate. – ele disse com um sorriso contente. As coisas estavam se acertando. – E agora que você sabe o que isso significa e viu tudo o que eu senti ao seu lado, pode me dizer se acredita em minhas palavras. - Você me ama... Ele segurou minhas mãos, contente, com um sorriso resplandecente, esperando por minhas palavras e de repente eu vi que não havia nada que eu quisesse naquele momento mais do que beijar seus lábios com todo o meu coração. E foi o que fiz. Nossos lábios se tocaram com receio no principio. Os barulhos de tiros ainda podiam ser ouvidos do lado de fora foram rapidamente abafados quando a mão de Thomas trouxe meu corpo para mais perto dele, enquanto ele se encostava no carro e me beijava com fome. Passei minhas mãos por seu pescoço, arranhando de leve sua nuca, desejando que aquele momento não terminasse nunca. Eu era amada. Eu era amada por Thomas. Aquelas palavras ficavam dando voltas na minha cabeça tornando tudo mais lindo ainda, me deixando quente e mais desejosa de Thomas ainda. Uma de suas mãos subiu por minha cintura, entrando por dentro da camiseta e tocando minhas costas de um jeito sedutor que pareceu acender ainda mais as coisas dentro de mim. Como ele conseguia despertar tantas sensações em mim ao mesmo tempo? Minhas pernas tremiam, meu peito estava disparado e tudo o que eu sabia era que eu deveria me aproximar mais dele, coisa que fiz, quase nos fundindo em um só, enquanto ele nos trocava de lugar e me colocava em cima do capô do carro, sem parar de me beijar e inclinando-se sobre mim, deslizando seus lábios agora para meu pescoço, beijando-o e sugando logo em seguida. Sua boca tocou o lóbulo de minha orelha e sussurrou que me amava na sua língua natal, o que arrepiou ainda mais o meu corpo. Sua voz estava rouca e aquele sotaque parecia ainda mais sedutor. - Eu amo você, Thomas. Amo. Thomas me colocou sentada e me fez olhar em seus olhos para dizer:

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- Você é minha mrakni, Kate. Eu não posso te deixar aqui. Você tem que vir comigo. Vamos ser felizes juntos, seremos... Como um só. – ele sorriu e de repente foi como se toda a realidade voltasse para minha cabeça. Não podíamos. - Allie... – eu tentei, mas não consegui completar minha frase. Ela estava na nave esperando por seu noivo enquanto ele estava aos beijos comigo e me dizendo que eu era a sua mrakni. Não seria justo comigo se fosse o contrário. Se eu fosse a noiva e Allie a mrakni. - Ela terá que aceitar. – ele tentou me beijar novamente, mas eu desviei fazendo com que ele olhasse sério para mim. - Uma vez eu te perguntei o que aconteceria se você encontrasse sua mrakni e você me dissera que não poderia ficar com ela. – eu disse, enquanto descia de cima do carro com uma mão na cabeça que estava latejando de dor. A racionalidade havia voltado e junto com ela a conversa que eu havia tido com Harold. A família de Thomas esperava que ele se casasse com Allie, esperava que ele se tornasse o subnaul, assim como estava, todos orgulhosos de ele ser o primeiro chefe das expedições interplanetárias. “Eu deixaria Airamidniv e tudo relacionado a ela por Adelle. Eu não tenho muito a que perder por lá. Mas Thomas tem.” As palavras de Harold pioravam a minha dor de cabeça e me deixavam à beira das lágrimas. Eu não poderia fazer aquilo. Ficar ao lado de Thomas seria o mesmo que pedir para ele desistir de tudo o que ele sempre batalhara para conquistar apenas por que ele me amava. A família dele esperava por ele. Eu não deveria permitir que Thomas decepcionasse a todos me apresentando como o motivo para que ele desistisse de tudo. “A sua família inteira serviu nas expedições interplanetárias e em anos, Thomas é o primeiro chefe. Estão todos muito orgulhosos dele, e ficarão ainda mais quando ele se casar e se tornar o subnaul.” - Kate, não... Ele sabia o que eu estava pensando. Eu podia sentir a presença de Thomas em minha cabeça. Ele podia ler meus pensamentos. Ele sabia. - Por favor, Kate. – a voz dele era triste e eu que pensava nunca ver Thomas chorar, vi várias lágrimas escorrerem de seus olhos, tristes enquanto seu olhar implorava para que eu não fizesse aquilo conosco. - Thomas. Não posso. Não posso. – coloquei a mão na cabeça, lutando para que a dor de cabeça passasse, mas a dor em meu coração era pior. - Não faça isso conosco, Kate. Por favor. – ele verbalizou. – Eu não me importo. Eu juro que desistiria de tudo isso para que eu pudesse ficar com você. - Não posso fazer isso com eles, eles esperam por isso. Allie merece o seu amor. Dando um soco no capô do carro, ele se virou para mim, as suas lagrimas agora eram espelhadas no meu olhar. Eu estava péssima, sabia que estava partindo o coração dele, mas sabia que era para um bem maior, ele me agradeceria depois. - Mas meu amor é seu, Kate! – ele bradou. – Seu! Não entende? Eles podem entender isso depois, eles vão te aceitar, vão perceber que você é minha mrakni. - Você vai me agradecer depois, Thomas.

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Ele se ajoelhou no chão à minha frente, e a minha decisão pareceu ainda mais difícil de ser tomada. Eu não queria deixá-lo. Mas deveria. - Eu não vou agradecer. Vou padecer, entende?! – ele gritou. – Astranuk! Ele não padeceria. Não tanto quanto eu. Mas eu tinha a solução para evitar que isso acontecesse comigo. Eu não sabia se seria possível tirá-lo do meu coração, mas se eu pelo menos conseguisse pensar menos em Thomas, provavelmente os sentimentos em meu coração se apagariam aos poucos, até o dia em que eu não me lembrasse dele. Ou pelo menos não sofresse ao me lembrar. Thomas estava ajoelhado aos meus pés e eu me senti a pior da pessoas do mundo, fazendo aquilo com ele. Mas eu sabia que era o certo. Sentia que era o certo, por mais que doesse no fundo da minha alma saber que estava abrindo mão do amor da minha vida, da minha alma gêmea. - Você é minha mrakni, Kate. Eles vão entender, eles têm que entender. - Não quero que você os decepcione. – ele não entenderia agora, mas no futuro ele saberia a verdade. – Eu sou uma terráquea, Thomas. Imagine como será para eles saber que você deu as costas a tudo porque se apaixonou por uma terráquea. - Eu posso dar as costas a eles também. Eu coloquei as duas mãos na cabeça, achando aquilo um absurdo. - Tem noção das sandices que está dizendo? - Eu não me importo para o que eu digo, para o que eu faço, para nada. Eu estou fazendo de tudo para você não me deixar e parece que não está dando certo. - Vamos fazer isso mais fácil para nós dois, Thomas. Eu me abaixei até ficar com os joelhos próximos ao chão e segurei a mão dele, colocando-a na minha cabeça. Eu não precisaria dizer o que eu queria que ele fizesse. Ele se levantou e me puxou junto com ele. Eu fiquei confusa com a rapidez de seus movimentos e vi o raio de luz saindo da nave e ficando bem perto de nós, atraindo mais lagrimas para nossos olhos. Estava na hora de partir. - Apague a minha mente. - Não vou fazer isso. – ele disse colocando a testa dele na minha. – Você sempre disse que eu era um arrogante egoísta, e o serei dessa vez. Quero que você sofra tudo o que eu vou sofrer. Quero que chore o mesmo tanto que eu vou chorar quando me lembrar desse momento. Quero que você ofegue de desejo quando se lembrar de nossos toques, do quanto éramos bons juntos. Tentei chamar seu nome, mas as palavras pareciam presas pela quantidade absurda de lagrimas que eu derramava. Eu sabia que aconteceria tudo o que ele dizia. Eu já sentia tudo aquilo, mas era o certo. Ele tocou meu rosto, tentando memorizar meu rosto, e não pude resistir a fazer o mesmo, tocando seu rosto por inteiro guardando todas as linhas de seu rosto, respirando fundo para memorizar o seu cheiro e encarando bem seus cabelos para me lembrar daquela cor tão linda e indefinida que me despertara tantos sonhos que agora pareciam impossíveis. - Vou conservar sua mente, Kate, para que se lembre do quanto nos amamos e de que somos almas gêmeas. A luz atrás de nós pareceu ficar mais forte e eu tive que tampar os olhos para

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que ela não me cegasse, o que com certeza deveria estar acontecendo com todos os policiais e agentes do lado de fora da barreira. Thomas me puxou contra ele e tocou meus lábios com os seus, beijando-me de um modo delicado que me assombraria pelo resto dos meus dias. - Mra T Nhé, Kate. E sem esperar que eu dissesse mais alguma coisa, entrou sob o facho de luz, que reduziu de intensidade e o sugou para o interior da nave. Meus olhos se fixaram na enorme nave que subia suavemente e de repente tomou velocidade total, desaparecendo na frente dos meus olhos e levando com ela, as duas pessoas que eu mais amava e toda a minha esperança.

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VINTE Foi apenas uma questão de tempo para que a barreira desaparecesse e meu corpo despencasse para o chão. Antes que eu me desse conta, estava nos braços de Izzy, que me amparavam, enquanto eu escondia o rosto no peito dela, chorando toda a minha dor e desamparo. Eu havia feito o certo. Mas mesmo sabendo disso a dor não diminuía. Thomas me amava e eu simplesmente deixara ele ir. Perdera o homem da minha vida por uma boa causa, mas ainda assim o perdera. - Srta. Munnighan... – Noah chamou enquanto empurrava um copo de água na minha direção. Bebi o copo inteiro quase em um só gole, ante o olhar atento de todos os policiais por perto que tentavam entender o que havia acontecido. - Precisamos levá-la para a delegacia. Ótimo. Eles iriam me prender. Eu não me importava com isso. Eu estava abalada demais para sequer lembrar qual era o meu nome. Qual era a minha idade ou o que quer que eu fazia da minha vida. Minhas lagrimas não paravam de cair e eu estava sendo assistida por todos os agentes que me ajudaram a entrar no carro, não como uma prisioneira. Afinal, eles não me colocaram algemas, não me deram voz de prisão e pareciam aturdidos e sem saber o que fazer comigo. Para eles eu estava sofrendo de qualquer um dos males que eles consideravam um trauma por ter visto minha melhor amiga ser abduzida. Eu vira Adelle subir pela luz, sim. Mas ela não subira contra sua vontade. Minha amiga estava indo ser feliz, num lugar novo e ao lado do cara que ela mais amava. Era mais que claro que eu sentiria falta da minha melhor amiga. Eu e Adelle passáramos tempo demais juntas, vivêramos anos demais em conjunto, sempre compartilhando segredos, experiências e nos tornando mais amigas a cada dia. Eu fiquei morta de medo quando pensei que Adelle pudesse deixar tudo para poder ficar comigo. Minha amiga merecia a felicidade mais do que qualquer pessoa no mundo. E Harold era o seu amor, o único cara que eu pude me sentir confiante o suficiente para colocar minha amiga em suas mãos. Enquanto o carro sacolejava pela estrada para Iowa, eu estava com as lembranças todas alvoroçadas na minha cabeça. Lembranças de Adelle, de Harold, de Thomas. Principalmente de Thomas. E então não pude decidir se eu ficava ou não agradecida pro Adelle ter conseguido me arrastar para a praia naquele dia para ver um maldito cometa que no fim nem chegou a passar. Fiquei em dúvida se era bom ou ruim o fato de ter ajudado Thomas a sair daquela cratera, ter levado ele para o meu apartamento. Eu não sabia direito se eu fizera bem ou não em me apaixonar por ele, mas sabia que seria eternamente grata por aqueles dias ao lado dele. E então, enquanto a viatura da policia avançava pela estrada a caminho de Iowa, eu apoiei a minha cabeça contra a janela, encarando o céu nublado e pensando no que teria acontecido se eu não tivesse ido com Adelle para aquela praia. Não, eu não queria nem pensar no que seria minha vida.

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Fechei os olhos e deixei que as memórias de meus momentos com Thomas viessem aos poucos, os vários momentos em que eu estive em seus braços, os inúmeros momentos em que senti minhas pernas tremerem e minha mente virar gelatina de morango apenas por ter meus olhos fixos nos meus. Minha mente viajou até o momento em que eu finalmente me entregara de corpo e alma para Thomas, quando ele me amara como se não houvesse um amanhã. Como se fossemos apenas nós dois e nada mais. Eu odiava a mim mesma por ter deixado ele partir. Eu demorara tanto tempo para encontrar alguém que realmente fizesse meu coração partir, não só de amor, mas de raiva, de desejo, de felicidade. Thomas era o cara da minha vida, mas eu sabia que tinha feito o certo e isso me ajudaria a superar todas aquelas sensações de pesar que ameaçavam arrancar o meu coração fora. Os policiais pareceram contente quando meu choro ficou mais silencioso e um deles arriscou até a ligar o radio. Uma garota com a voz muito estridente cantava sobre ser jovem e bonita e eu simplesmente ignorei o radio ligado, continuando a mexer em meus próprios dedos e lembrando de todas as coisas que passei ao lado de Thomas nas ultimas semanas quando os primeiros acordes de uma musica bem conhecida chamou a minha atenção e de repente eu não sabia se ria ou se chorava. Adelle cantara aquela musica tantas vezes na minha cabeça que eu nem ao menos sabia contar quantas vezes foram ao todo. Os Backstreet Boys eram a verdadeira paixão de minha melhor amiga depois das estrelas, e me segurei para não rir quando comecei a cantar a letra da musica ao mesmo tempo em que qualquer um dos cantores. Mas a letra dizia tudo o que eu sentia. Sobre deixar a pessoa amada partir, se perder em pensamentos dos momentos que passaram juntos e do quanto a dor estava inconsolável. O choro aumentou ao mesmo tempo em que um sorrisinho discreto por me lembrar da voz aguda de Adelle cantando aquela musica com toda a alegria enquanto me ajudava a fazer a mudança para o meu apartamento. Como eu poderia lidar com minha vida sem a minha melhor amiga? Sem poder ligar para Adelle quando o meu chefe resolvesse bancar o carrasco e eu pensasse em me demitir, mesmo sabendo que eu nunca conseguiria um emprego tão legal quanto aquele. Como eu poderia ser assediada por Rico, sem depois ir para casa de Adelle dar risada da cara dele, enquanto fazíamos suposições da marca da brilhantina que ele passava no cabelo? Jesus! Como eu viveria sem Adelle? Eu devia me lembrar que ela estava infinitamente melhor, do lado de seu mrakni e rumo a um lugar bem mais legal do que a delegacia de uma cidadezinha qualquer de Iowa. O carro parou em frente a um prédio claro e bonito, e eu senti que meu corpo não estava com a mínima vontade de se mover. Tudo o que eu queria era deitar e dormir até sentir aquele aperto do meu peito passar. Eu me lembrava de tantas vezes ver as pessoas sofrendo de ataques nervosos na televisão, em filmes, onde elas se deitavam em lençóis limpos e se entregavam à lagrimas por dias e dias, até o homem de seus sonhos ir até elas, dizer que as amava e aquela choradeira toda terminava de uma vez. No momento eu não me importava se era numa cama, se os lençóis estavam limpos ou qualquer coisa assim. Tudo o que eu queria era me entregar as

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lagrimas por tempo indeterminado. O meu príncipe encantado não viria me salvar. De repente as palavras de Thomas, certa vez, voltaram a minha mente. Todas as mulheres da terra queriam um príncipe encantado. Eu dissera que não queria, mas mentira para ele. Era o que eu mais queria. E eu havia ganhado. Um príncipe encantado e intergalático, mas infelizmente um príncipe que não podia ser meu. - Vamos, Srta. Munnighan? Eu desci do carro, acompanhando Noah e Izzy que abriram caminho por entre os corredores, me segurando pelos ombros, enquanto eu derrubava ainda mais lagrimas. Para qualquer pessoa, eu com certeza me passaria por uma vitima de qualquer crime horrendo, pelo tanto que eu chorava, mas nunca por uma criminosa que estava levando aliens para Wyoming. Para mim, aquilo não era crime nenhum. Mas para a CIA, era um dos grandes. - A sala de interrogatório está pronta, agente Johnston. Izzy me levou para a sala e me ajudou a me sentar em uma das cadeiras e se colocou na outra, em minha frente. Noah abriu a porta e colocou um copo de café ao meu lado, sorrindo triste para mim e saindo em seguida, deixando que eu conversasse a sós com a sua parceira. Eu estava inconsolável, mas ainda assim eu podia notar a troca de olhares entre os dois agentes, o que me fez encará-la com o inicio de um sorriso compreensivo em meu rosto. - Você o ama. – eu disse entre lágrimas, dessa vez, silenciosas, mas que ainda assim não parava de cair. - O quê? – ela perguntou confusa. - Você o ama. Eu repeti e ela abaixou a cabeça, envergonhada e com o rosto completamente corado. Ela assentiu e logo em seguida ergueu a cabeça para mim, com um sorriso tímido, deixando bem claro que eu estava certa. - Sim. Eu o amo, mas não tenho coragem de me declarar. - Faça isso. – eu disse segurando a sua mão que não segurava o gravador. – Não deixe que ele se vá, a não ser que seja o melhor para ele. - Não sei se... - Eu vi o modo com que ele olha para você. – apertei ainda mais a sua mão. – Converse com ele. Ela assentiu com coragem e ligou o gravador em suas mãos, dando inicio ao interrogatório. Eu não queria responder nenhuma pergunta, eu só queria chorar, será que ela não percebia isso? Dei um gole no copo de café quente e suspirei, depois que ele desceu pela minha garganta aquecendo o meu interior, mas apenas por alguns segundos. Nunca mais nenhum calor seria bom o suficiente para me aquecer como o calor de Thomas aquecera. E eu sabia que a partir daquele momento eu não conseguiria mais viver sem comparar cada momento da minha vida com momentos que eu passara ao lado de Thomas. Nunca mais conseguiria pensar em outro cara, em outra pessoa. - Por favor, responda.

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- Não posso. – eu disse em lagrimas. – Não posso dizer nada. Ainda está tudo embaralhado em minha mente, eu ainda vejo ele naquele facho de luz, ainda vejo Adelle indo embora. Ainda... E novamente minhas lágrimas me arrebataram. Izzy segurou minha mão, apertando-a enquanto olhava para o lado de fora da sala, com certeza vendo Noah e sentindo o mesmo aperto no peito que eu costumava sentir quando via Thomas. Então eu soube que a partir daquele momento eu não conseguiria lidar com demonstrações de afeto sem me lembrar dos momentos incríveis que eu passara ao lado de Thomas, dos momentos em que eu estivera em seus braços. - Não chore mais, por favor. - Você choraria tanto ou mais quanto eu se visse o amor de sua vida ir embora para outro planeta quando você mesma deixou que ele fosse. Você deixou que ele fosse porque você sabia que ele seria muito mais feliz longe de você, você sacrificou sua felicidade para ver aqueles que ele ama mais felizes. - Você fez isso? Eu ignorei a pergunta dela e continuei desabafando sentindo que as palavras saiam doloridas do meu peito e ao invés de melhorar tudo, tornou as coisas ainda mais letárgicas. Só eu conseguiria descrever o que havia passado dentro de mim quando eu vira a nave partir e junto com ela a minha melhor amiga. - Você choraria tanto ou mais como eu quando sua melhor amiga, a pessoa que você conhece desde que nasceu ir embora na mesma nave que o homem que você amou. Consegue imaginar isso? Izzy olhou para o gravador ligado em sua mão e simplesmente tirou a fita de dentro dele, colocando-o dentro do bolso, sem nem ao menos se importar com o quanto aquilo prejudicaria a sua carreira. - Eu não conseguiria fazer nem a metade disso, Kate. Eu permaneço na ARE há tantos anos, quando poderia ir para qualquer outro lugar da CIA para não perder Noah. Eu não me permito nem imaginar como seria se eu não pudesse vê-lo todos os dias, nem que seja apenas como meu parceiro. Eu limpei as lagrimas e olhei em seus olhos sérios, enquanto ela jogava seus cabelos vermelhos quase rosados para trás, tentando não chorar, como eu estava chorando. - Me conte como é ver tudo o eu você ama ir embora num facho de luz. - É aterrorizador. – eu disse com o olhar desfocado para as paredes escuras da fria sala de interrogatório. – É... Imagine como se um coração fosse esmagado até virar pó, e esse pó fosse soprado para bem longe. É assim. – terminei com a voz falha. - É como eu me sinto quando penso que posso perder Noah. - Então converse com ele. Diga o que realmente sente, ele com certeza sente o mesmo, por isso não o perca. Eu não me arrependo de ter aberto mão de Thomas e Adelle, mas sei que para toda ação, mesmo as boas, existem conseqüências, e a minha conseqüência é sentir essa dor em meu peito que não vai passar tão cedo. Izzy colocou a mão por cima da minha e ficamos apertando as mãos uma da outra, tensas e compreensivas, como apenas mulheres que amam os seus

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homens podem se compreender. - Eu posso ir para casa? – perguntei, querendo apenas um lugar para deitar a cabeça e chorar sozinha. - Pode. Falarei que eles apagaram sua mente, como sempre acontece. – de repente ela pareceu notar que eu não estava com a mente apagada e antes que ela perguntasse o porquê de minha mente estar intacta, eu mesmo respondi. - Ele quis que eu ficasse com todas as lembranças para que eu também sofresse e chorasse tanto quanto ele quando as lembranças me atingissem, como atingiriam a ele. - Você vai ficar bem? – ela perguntou preocupada. Eu procurei sentir o meu corpo inteiro para saber se ele ficaria bom, e tentei buscar em minha cabeça qualquer sinal que dissesse que as lembranças parariam de me machucar um dia. E percebi que isso aconteceria, não tão cedo, mas aconteceria. - Quer que Noah a leve para casa? - Não. – abaixei a cabeça e me levantei sentindo meu corpo dolorido, mas incapaz de sentir mais que isso. Estava entorpecida. E todas as memórias vinham uma atrás da outra, me atacando com lembranças de seus olhos chocolates fixos nos meus e seu corpo quente que nunca deixaria de me recordar. De amar. - Não será problema te levar, você está muito abalada. Novamente eu neguei. Eu queria ir só, sentindo a minha própria dor, não queria dividi-la com ninguém. Queria ser machucada por ela, sofrer e chorá-la até que ela passasse, me lembrando do quanto eu amava Thomas e Adelle e do quanto eles estavam longe de mim. - Está liberada, senhorita Munnighan. – a voz dela era profissional, mas não escondia a compaixão. No entanto, eu não tinha forças para me ofender com a sua pena, como aconteceria antes. Eu não tinha forças sequer para respirar. Apesar de eu saber que não desmaiaria, tinha medo de que a dor se tornasse insuportável demais para conviver com ela. E se eu não agüentasse. Não, eu agüentaria. Eu superaria a dor. Um dia. - Vamos, Kate. Eu te levo até o carro. Acompanhei Izzy pelos corredores da delegacia de Iowa, até chegarmos ao estacionamento, em frente ao carro de Adelle, me deixei olhar as estrelas, notando uma mais brilhante, mas que logo se apagou. Num suspiro, disse as palavras que estavam presas em mim desde que Thomas subiu por aquele maldito facho de luz, entre lágrimas que também escorriam sem controle dos meus olhos. - Acabou. - O que disse? – Izzy perguntou confusa. Peguei as chaves do carro de suas mãos e respondi com tristeza: - Acabou. Eu disse: acabou. – repeti. Era o fim. Realmente tudo havia acabado de uma forma dolorosa e ao mesmo tempo anestesiada. Com todas as recordações intactas e as esperanças despedaçadas. E então minhas palavras estavam mais que certas. Acabara. Sem final feliz. Sem felizes para sempre. Simplesmente terminara. - Boa sorte a partir daqui, Kate. Vai dar tudo certo para você. As estrelas vão

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te proteger, e vão me dar sorte com Noah. – ela sorriu e se afastou apertando minha mão mais uma vez e saindo de perto de mim, entrando novamente na delegacia, me deixando no meio do estacionamento, apenas eu, o carro de Adelle e minha dor que parecia maior a cada segundo. Com mais um olhar triste para as estrelas que pareciam todas ter parado de brilhar como se compartilhassem a minha dor, eu sussurrei numa voz baixa o suficiente para que apenas eu e o céu entendêssemos, mas na esperança de que em algum lugar da galáxia ele pudesse me ouvir dizer o que eu havia prometido me lembrar toda vez que eu chorasse, o que estava fazendo naquele momento: - Mra T Nhé, Thomas.

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