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MEDUSA: filme retrata uma gangue de evangélicas que agride mulheres consideradas promíscuas para expor conservadorismo religioso, violência e intolerância Imagine um mundo tomado pelo fundamentalismo religioso, com pastores obcecados pela carreira política e uma milícia machista determinada a ditar a moral e os bons costumes. Na verdade, se o Brasil não retomar o espírito progressista que tem sido golpeado nos últimos cinco anos, nem será preciso imaginar, pois lamentavelmente esse cenário está cada vez mais próximo da realidade, por isso o segundo longa da diretora Anita Rocha da Silveira, Medusa, é um filme extremamente relevante. A trama se concentra na trajetória de Mariana e suas amigas, todas evangélicas, que seguem radicalmente o que prega sua religião. À noite, esse grupo de amigas sai às ruas atrás de mulheres consideradas “promíscuas” para agredi-las e convertê-las à sua igreja. Só que Mari se depara com eventos que a levarão a questionar seus valores e mudar sua percepção

do mundo. Curiosamente, a diretora Anita Rocha iniciou o roteiro do filme em 2015, antes que o Brasil fosse arrebatado pelo conservadorismo tosco que ganhou força com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Em entrevista ao portal Senta Aí, Anita explicou como surgiu a inspiração para o filme: “Houve um momento em 2015 que me deparei com notícias muito semelhantes, que eram de garotas que se juntavam para bater em outras garotas, e esse processo passava muito pelas redes sociais, de mostrar a vítima feia nas fotos”. Ela então lembrou da história de Medusa, uma mulher bela que, após a maldição de Atena, adquire uma feiura assustadora, e decidiu explorar também a questão do machismo estrutural, que acaba fazendo com que mulheres queiram controlar outras mulheres.

“As personagens Mariana e a Michele estão o tempo todo se controlando, então, no início do filme, era importante que elas agissem de modo muito estruturado, pensado, com certa artificialidade”, explica a cineasta. Quando a protagonista sofre um corte no rosto, passa a sofrer por conta dos padrões de beleza que ela seguia e seu comportamento se transforma. “Ela não tem mais paciência de tentar se encaixar naquela caixinha da igreja, passa a adotar um aspecto mais natural, deixar a chapinha de lado, etc”, diz Anita, que optou por destacar o verde nas cores do filme, não só por ser a cor de Medusa, mas também porque o verde simboliza algo mais orgânico, que não pode ser controlado. • Medusa será exibido na sessão de gala que encerra o Raindance Film Festival em Londres no dia 6 de novembro, sábado, 19:45h, no Genesis: 95 Mile End Road, E1 4UJ. Ingressos: £25.00. Reservas e informações: www.raindance.org/festival Leros OUTUBRO 2021

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