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Pensar

VITÓRIA, SÁBADO, 17 DE DEZEMBRO DE 2011

www.agazeta.com.br PEDRO CARRILHO/FOLHAPRESS

Entrelinhas

CHINESA RELATA DRAMA DE MÃES QUE SE VIRAM OBRIGADAS A REJEITAR FILHAS RECÉM-NASCIDAS. Página 3

História

PORTUGAL PAGOU CARO PARA EXPULSAR HOLANDESES DO BRASIL, DIZ HISTORIADOR. Página 4

Música

EDIVAN FREITAS DIALOGA COM AS MAIS VARIADAS FORMAS E LINGUAGENS DA MPB. Página 5

Ensaio

ESPECIALISTA ANALISA A PROSA E POESIA REFINADAS DE BERREDO DE MENEZES. Páginas 10 e 11

As ideias da imortal LIVRO TRAZ A VISÃO DE ANA MARIA MACHADO SOBRE OS LIVROS E O HÁBITO DA LEITURA

Páginas 6 e 7


2 Pensar

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 17 DE DEZEMBRO DE 2011

quem pensa

Mária Lacerda Santos Neves é redatora publicitária e escreve no blog Todos os livros do mundo. http://todolivro.blogspot.com

Vera Márcia Soares de Toledo é professora de Literatura e História da FaculdadeSaberes. veramarciast@terra.com.br

marque na agenda prateleira Literatura Encontro com a obra de Cecília Meireles

“Ilusões do Mundo”, livro de crônicas da poeta carioca, é o tema da última Roda de Leitura de 2011 na Biblioteca Pública Estadual, com coordenação de Sérgio Blank. Na próxima quarta, às 17h.

Campus Ufes conta agora com Núcleo de Tradução

Ricardo Costa Salvalaio é membro da Academia de Letras Humberto de Campos. ricardosalvalaio@hotmail.com

Maria Amélia Dalvi é professora da Ufes, mestre em Letras e doutora em Educação. mariaameliadalvi@gmail.com

Wilberth Salgueiro é professor de Literatura Brasileira na Ufes.

O Centro de Línguas da Ufes acaba de criar o Núcleo de Tradução, cuja proposta é atender a comunidade acadêmica com serviços de tradução para pesquisas e trabalhos desenvolvidos nos diferentes departamentos da Universidade. Mais informações: 4009-2875.

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de dezembro

Palestra de Gilbert Chaudanne

O escritor e pintor fala sobre o tema “A cerveja, eu e a Garota de Ipanema”, na próxim a terça, a partir das 19h, no Wu nderbar (Av. Rio Branco, 1.305 , Praia do Canto, Vitória).

wilberthcfs@gmail.com

Caê Guimarães é jornalista, poeta e escritor. Publicou quatro livros e escreve no site www.caeguimaraes.com.br

DAVID PROTTI

Carlos Antonio Uliana é assessor político da área sindical. uliana@sindfer.com.br

Jorge Solano éteólogo,formadoemFilosofiaemestreemEstudos Literários. jorgesolano.garciademoraes@gmail.com

Jô Drumond é tradutora e escritora membro da AEL e do IHGES. jonund2@yahoo.com.br Paulo Bonates é psicanalista e jornalista. pai.vix@uol.com.br

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de dezembro

Pintura dos Reis Magos restaurada

O Núcleo de Restauração da Ufes entrega na próxima quarta-feira, às 10h30, para a Igreja dos Reis Magos, em Nova Almeida, na Serra, a obra “Adoração dos Reis Magos”, uma das mais antigas e importantes pinturas do Espírito Santo. O grupo tem a coordenação do professor Attilio Colnago.

Agonias da Noite Jorge Amado No segundo volume da trilogia “Os subterrâneos da liberdade”, Jorge Amado narra os destinos cruzados de um punhado de personagens dos mais variados estratos sociais e matizes políticos no contexto do recrudescimento da ditadura do Estado Novo, no final dos anos 1930. 312 páginas. Companhia das Letras. R$ 49,50

O que é o Abolicionismo? Joaquim Nabuco Nesta obra publicada em 1883, o escritor, jurista e diplomata realiza uma síntese do programa abolicionista e expõe os fundamentos do regime escravista com os olhos de um liberal preocupado com o futuro da economia do país. 128 páginas. Companhia das Letras. R$ 10,90

Cidades Irmãs Pomeranas – Vila Pavão (ES) e Espigão do Oeste (RO) Jorge Kuster Jacob Coletânea de artigos relaciona as duas cidades pomeranas a partir da migração de mais de 40% da população de Vila Pavão para Rondônia, no início da década de 1970. Contato do autor: (27) 9776-9579. 116 páginas. Gráfica Cricaré. R$ 10

Paixão Acesa Maria Creuza Nesta reedição do álbum lançado originalmente em 1985, a cantora que ganhou fama acompanhando Vinicius e Toquinho se destaca pela interpretação de sambas de Délcio Carvalho, Dona Ivone Lara, Luiz Carlos da Vila e Nei Lopes. 12 faixas. Selo Discobertas. R$ 19,90

OS ENSAIOS DA PRESIDENTE

José Roberto Santos Neves

Uma das escritoras mais bem-sucedidas do país, Ana Maria Machado é conhecida principalmente pela produção voltada para o público infanto-juvenil e pelos números superlativos: são mais de 100 títulos publicados e 18 milhões de livros vendidos em todo o mundo. Mas a autora – que tomou posse nesta semana como presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) para o exercício de 2012 – possui também uma relevante contribuição literária no campo ensaístico. Em “Silenciosa Algazarra”, seu mais recente lançamento nesse segmento, ela discute temas

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como a censura, o papel da crítica e a importância da leitura. Nas páginas 6 e 7, a professora do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Ufes, Maria Amélia Dalvi, conta mais detalhes sobre a trajetória da escritora e cita sua ligação afetiva com a Praia de Manguinhos, na Serra, onde Ana Maria costuma passar as férias com a família capixaba desde a infância. Ilustra o artigo uma foto da escritora no bucólico balneário que serve de cenário para o romance “O Mar Nunca Transborda” (1995). Boa leitura e até o próximo sábado!

é editor do Caderno Pensar, espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Confira vídeo de Ana Maria Machado, músicas de Edivan Freitas e trechos de livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br.

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

Pensar

por MÁRIA LACERDA SANTOS NEVES

LAÇOS ROMPIDOS NO NASCIMENTO

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ouco se sabe no Ocidente sobre a lei chinesa de planejamento familiar, em vigor desde a década de 80, cuja parte mais difundida é a política do filho único. E menos ainda sobre as consequências de tal imposição: a morte ou abandono de bebês do sexo feminino, por famílias temerosas de multas e restrições civis. Em “Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida”, publicado pela Companhia das Letras, a escritora e jornalista chinesa Xinran dá voz a 10 entre centenas de milhares de mães que foram obrigadas a abrir mão de suas menininhas, seja por razões econômicas ou culturais. O objetivo, segundo ela, é fazer com que esses relatos cheguem aos ouvidos das meninas adotadas no Ocidente, respondendo à pergunta que deve obscurecer sua existência: – Por que a minha mãe chinesa não me quis? “Há um vazio que nunca pode ser preenchido, há uma dor sentida, biológica, pela família adotiva no Ocidente e pela filha, que vai passar o resto da sua vida num abraço duplo – porque a vida que ela vive é produto de uma grande alegria, mas também de uma grande tristeza.” Autora do best-seller “As boas mulheres da China”, há anos Xinran ocupa-se em revelar para o resto do mundo o peculiar modo de vida em seu país. Além do depoimento das mães, ela recolheu o testemunho de duas oficiais de orfanatos - Mary Verde e Mary Vermelha – e uma velha parteira. Tenta, assim, traduzir o drama de mulheres que, oprimidas por um sistema que trata bebês do sexo feminino como mercadoria defeituosa, passaram pela amarga experiência de abandonar ou “resolver” suas bebezinhas. Resolver, nesse caso, um odioso eufemismo para o ato de sacrificar a criança, no momento em que nasce. Cada história é única: uma jovem mãe solteira que abandona sua bebezinha, pressionada pelos próprios pais; uma camponesa pobre que, na ânsia de dar um herdeiro homem à família segue entregando suas meninas para “estrangeiros” ; e a moça que não suportando a dor de recordar suas filhinhas perdidas, insiste em tentar sem sucesso, tirar a própria vida. Embora o governo chinês esteja promovendo mudanças na política do filho único, ainda hoje não é raro que as crianças poupadas da morte, acabem abandonadas por seus pais em estações de metrôs, orfanatos, ou mesmo nas ruas à própria sorte. Por essa tradição

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 17 DE DEZEMBRO DE 2011

MENSAGEM DE UMA MÃE CHINESA DESCONHECIDA Histórias de perdas e amores Xinran. Tradução Caroline Chang. Companhia das Letras. 272 páginas. Quanto: R$ 42, em média

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TRECHO “Meu amor pelos livros começou quando as chamas da Revolução Cultural destruíram uma infância até então feliz. Todos os dias eu era levada às lágrimas pelos valentões da escola, o que fez que um dos meus professores de língua ficasse com pena de mim e me abrigasse numa salinha dos fundos repleta de livros que ele havia salvado das fogueiras dos Guardas Vermelhos. Foi nesse cubículo (conforme descrevi em As boas mulheres da China), cuja janela era tapada por folhas de jornal, que comecei a ler, com o auxílio da luz que entrava por um pequeno buraco.”

Xinran dá voz a mães que foram obrigadas a abrir mão de suas filhas na China

controversa, a China é o país que mais entrega bebês para adoção no mundo inteiro (120 mil em 2007). Tentando (quase em vão) reatar laços rompidos, Xinran fundou a associação The Mothers’ Bridge of Love, que busca fazer um link entre as meninas adotadas e seu país de origem. Ela acredita que assim pode mostrar a essas meninas que elas não foram rejeitadas e sim, na maioria das vezes, poupadas da morte ou de uma vida miserável. Para as mães que ficaram a questão é bem mais difícil. Encontrar a filha que se entregou à adoção é praticamente impossível: nos orfanatos da China não havia registros oficiais, pois, segundo a autora, tudo que era “coisa velha” foi banido pela Revolução Cultural. Apesar da tentativa de explicar o inexplicável, “Mensagem de uma mãe chinesa” não responde à pergunta que insiste em ficar em nossa mente: – Como pode uma nação dar tão pouco valor à vida de suas meninas? Pode o instinto básico de uma mulher, que é de proteger sua cria, ser abafado pelo sentimento de respeito às regras? Ou ainda: será possível mesmo fazer essa escolha de Sofia, decidir quem vai partir para que o resto da família sobreviva?


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 17 DE DEZEMBRO DE 2011

história por VERA MÁRCIA SOARES DE TOLEDO

CRÔNICA DE UMA LONGA NEGOCIAÇÃO

O NEGÓCIO DO BRASIL – Portugal, os Países Baixos e o Nordeste, 1641-1669 Evaldo Cabral de Mello. Companhia das Letras. Edição de bolso. 331 páginas Quanto: R$ 25

Em “O Negócio do Brasil”, Evaldo Cabral de Mello descaracteriza a tese corrente de que a expulsão dos holandeses no Nordeste do século XVII foi apenas uma vitória militar

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“Seria, em todo caso, raciocínio demasiado simplista supor que uma guerra de tantos anos, envolvendo duas potências europeias pela posse de uma colônia lucrativa, pudesse concluir sem o arremate de uma negociação entre os beligerantes.” (p. 16)

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valdo Cabral de Mello nasceu na cidade do Recife em 1936. É historiador e escritor e foi também diplomata até se aposentar. Representou o Brasil nos EUA, Espanha, França, Suíça, Portugal e Trinidad e Tobago. É irmão do falecido poeta João Cabral de Mello Neto, primo do sociólogo Gilberto Freyre e do poeta Manuel Bandeira. Só por esta breve biografia, Cabral de Mello mostra-se mais que respeitável por sua folha de serviços prestados, de forma correta e memorável, na Diplomacia Brasileira, e por sua ancestralidade ilustre que sabe tão bem honrar. Mas ele vai muito além com sua farta e competente obra no domínio da historiografia. Tendo 13 livros publicados sobre a História do Nordeste Brasileiro, desde 1975 até 2010, caracteriza-se, hoje, como uma referência obrigatória e essencial para qualquer historiador ou curioso que se debruce sobre este período. A primeira edição de “O Negócio do Brasil” foi publicada pela Topbooks, em 1998. Esta reedição, pela Companhia das Letras, faz parte do esforço de publicação das obras do autor em formato mais acessível e com preço reduzido. Iniciativa, portanto, mais que louvável. “O Negócio do Brasil” descaracteriza a tese corrente de que a expulsão dos holandeses no Nordeste do século XVII foi apenas uma vitória militar e um conflito corajoso que uniu índios, negros, colonos e portugueses na defesa do território nacional. Ele mostra que, na verdade, Portugal pagou alto preço aos Países Baixos pela retomada de parte de sua colônia. Isso apesar de, naquela altura (1669), os “neerlandeses” (como Evaldo os denomina, para não se confundir a província da Holanda com o restante das Províncias Unidas) já terem sido, efetivamente, expulsos de Pernambuco e de outras capitanias que haviam ocupado. Por-

O historiador esclarece episódios que inspiraram obras de arte como “A recuperação da Bahia” (1635), de Juan Bautista Maíno, sobre a reconquista de Salvador por tropas portuguesas após a invasão holandesa

tanto, segundo o autor, o domínio batavo no Brasil não se encerrou em janeiro de 1654, com a rendição de Recife, mas através de longas e exaustivas negociações diplomáticas que se estenderam de 1661 a 1669. É a história dos bastidores das negociações diplomáticas que Evaldo Cabral de Mello nos mostra de forma clara, com erudição fluente e com referências raras e imprescindíveis. Segundo Paulo Moreira Leite, em apresentação anterior desta obra, é um livro que “pensa, compara e explica”, dando-nos uma real dimensão de um capítulo tão significativo de nossa História. Nesta crônica das relações entre Portugal e Países Baixos, Evaldo apresenta todas as etapas. Dos diversos tratados entre os dois países à forma de estabelecimento colonial de ambos no Brasil, passando pela apresentação dos interesses e intervenções da Inglaterra no “negócio”. Desta maneira, ele consegue mostrar que o “Brasil Holandês” foi mais que apenas “episódico” na História do Brasil. Estiveram envol-

O autor mostra que Portugal pagou alto preço aos Países Baixos pela retomada de parte de sua colônia vidas personalidades da época como o rei francês Luís XIV, Oliver Cromwell, protetor da Inglaterra, Felipe IV, de Espanha, além das autoridades e monarcas dos países diretamente envolvidos. Tudo tendo como palco a rica Pernambuco e como alvo a posse de seu maior bem: o açúcar.

“O sal de Setúbal e duas praças-fortes” da India foram os valores entregues aos “neerlandeses” para obtenção do reconhecimento da reconquista do Nordeste por Portugal. Preço pago para evitar as possíveis retaliações dos Países Baixos à retomada nordestina. Ou seja, uma guerra ganha, em princípio, através de um confronto direto, mas consolidada por negociações intrincadas nos bastidores políticos e diplomáticos. Negociações que contaram com a participação e atuação de diplomatas competentes e célebres como: Francisco de Souza Coutinho, Fernando Teles de Faro e Luís Álvares Ribeiro. Obra de leitura altamente recomendada, “O Negócio do Brasil” revela o historiador Evaldo Cabral na plenitude de sua capacidade intelectual, mostrando um estudioso meticuloso, erudito, conhecedor da filosofia da história, dos arquivos mais recônditos e empoeirados, da história econômica, da micro-história do cotidiano, da história social e dos bastidores políticos.


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falando de música

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por RICARDO SALVALAIO

UM “ANDANTE” ENTRE AS FACES DA CANÇÃO

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cantor e compositor Edivan Freitas lançou em junho deste ano o disco “Andante”. Este é o seu primeiro álbum, o qual certamente é um dos trabalhos mais representativos do cenário capixaba atual. Compositor consagrado em festivais nacionais, já foi gravado por nomes importantes, como Aline Pignaton, Marcela Lobbo e Turi Collura. Graduado em Letras e Música pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e em Música Popular pela Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames), Freitas realizou o CD por meio da lei municipal de incentivo à cultura João Bananeira (Cariacica). A obra conta com a participação de talentosos músicos: Andrey Junca (baixista do Tabacarana), Dori Santana (piano, Big Bat Blues Band), Anderson Xuxinha (bateria e percussões, ex-Java Roots) e Rodolfo Simor (produtor do disco e guitarrista do Solana). “Andante” é repleto de samba, balada, rock, samba-rock, toada, jazz. Por ter vários estilos, o álbum pode parecer sem unidade numa primeira audição. No entanto, depois de Marisa Monte, Zeca Baleiro, Lenine e os Chicos – César e Science (referências dos anos 90 para o autor) –, isso não tem lógica. A unidade, nesses casos, era não ter unidade. Na verdade, o álbum expõe o ecletismo estudioso e sem preconceito do autor, amante das canções (sob qualquer roupagem) e da literatura (em suas letras, não é incomum encontrar referências ao universo literário). Como toda primeira obra musical ou literária, “Andante” acaba sendo uma coletânea do que o cantor melhor produziu ao longo dos anos e um diálogo com todas as suas influências.

Canções

“Andante” é um álbum bem diverso. Destarte, como as melodias, as letras também apresentam uma variedade temática enorme. Todas as 12 faixas são compostas por Edivan Freitas, exceto a canção instrumental “Overture” (parceria com Rodolfo Simor). Em “De Zica”, um dos ótimos sambas do disco, o autor homenageia a beleza negra. Aqui, leia-se “zica” como pessoa legal, suave, que só compra briga quando suas tradições são denegridas. Já “Vira-lata”, outro

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ANDANTE Edivan Freitas. Independente. 12 faixas. Quanto: R$ 10. À venda no Bar do Pantera, Rua Coronel Olímpio Cunha, s/n, Campo Grande, Cariacica. www.myspace.com.br/ edivanfreitas

ARINY BIANCHI/DIVULGAÇÃO

Em seu primeiro disco, Edivan Freitas dialoga com as mais variadas formas da música popular brasileira

A LETRA CATRAIEIRO (EDIVAN FREITAS) “Nas águas Deste Porto Eu roo o osso Não tem voz Nem vazante Que me para Remo a remo A maré minha de novo Vou eu entre Um navio e a Cidade. Minha margem terceira Esta Baía Minha casa e raiz Esta catraia Entre um lado E o outro É onde eu moro Meus vizinhos: O Penedo e o Cais. Por meu São Benedito Eu vou lá Por meu São Benedito Eu volto cá” [...]

samba, apresenta um eu lírico que se diz um nada, mas que ao mesmo tempo enaltece a miscigenação. Desse modo, como a vida, o eu poético é finito, volátil. Já a polêmica “Samba, Suor e Samplers”, samba-rock com pegada à la Lenine, expõe que “o funk é a voz do morro”, fazendo referência a “Eu sou o samba”, de Zé Kéti, o qual um pequeno trecho é citado. Sem preconceitos, o funk é posto como algo válido e expressão de um povo. Por seu turno, “Do Riso”, que remete a Zeca Baleiro do disco “Líricas”, é uma bela toada em que há até intertexto com “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. O disco também apresenta um diálogo com as mais variadas formas e linguagens da música popular brasileira. “Andante”, música que dá nome ao álbum, é uma metacanção ao estilo José Miguel Wisnik. Num tom melancólico, o compositor cita todos os estilos musicais que lhe fazem a cabeça. O rock “Berimbau Universal” tem um tom antropófago. O compositor dialoga com Carlinhos Brown, Baden Powell, e expõe o instrumento angolano berim-

bau, elemento fundamental da nossa capoeira. Os temas sociais também são suscitados. “Ala Perdida” é balada ao estilo Beatles (“Let it be”). A guitarra de Simor lembra muito Radiohead. A letra é um poema. Com lirismo, o cantor consegue versar acerca de um drama, de um problema social, sem ser piega ou panfletário. O amor é o tema das baladas “Em Mim” e “Medida”. Puro lirismo. “Em Mim” versa sobre o fato de a musa ser algo local (em mim) e global (lugares do mundo), pois passeia pelo coração do poeta e por diversos lugares do mundo. A canção lembra muito Flávio Venturini, tanto em arranjo como em voz. “Medida” é uma canção com ares de jazz e blues, com letra e melodia perfeitas. “Catraieiro” é um clássico do cancioneiro do autor. A letra traz muitas referências (intertextos), tais como “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, e “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa. Por fim, “Vitral” é uma obra filosófica sobre a vida e a morte. Dialoga com os problemas atuais, a história e a religião. Ótima salada musical e poética.


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literatura

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por MARIA AMÉLIA DALVI

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 17 DE DEZEMBRO DE 2011

Em 40 anos de carreira, a escritora publicou mais de 100 títulos – a maioria deles infantil –, no Brasil e no exterior, chegando à impressionante marca de 18 milhões de exemplares vendidos

ANA MARIA E O PRAZER DA LEITURA

FÁBIO VICENTINI/29/06/2009

EM LIVRO DE ENSAIOS, PRESIDENTE DA ABL REFLETE SOBRE A LITERATURA E QUESTIONA NOVAS E ANTIGAS CERTEZAS

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ara Virginia Woolf, se existir céu, ali é onde se pode ler sem ser perturbado. João Ubaldo Ribeiro acredita na leitura como luta contra a própria burrice. E Ana Maria Machado, uma das mais importantes escritoras em atividade no país, detentora do prêmio Hans Christian Andersen – o Nobel da Literatura Infantil e Juvenil –, e agora presidente da Academia Brasileira de Letras (sim, essa instituição démodé, mas ainda tão auratizada), o que pensa? Ah, para ela os livros esperam ansiosos por seus leitores; no entanto, coagidas pela ignorância e pelo descaso que conservam as estantes de bibliotecas e livrarias pouco manuseadas, as mil vozes dos livros dão vez à mudez. Seu “Silenciosa Algazarra”, publicado este ano, reúne 15 ensaios, cuja origem são as inúmeras palestras que a autora ministra pelo Brasil e pelo mundo afora. De saída, recuperando por vias indiretas

as contribuições de historiadores contemporâneos que se voltam ao livro e à leitura, ela chacoalha algumas certezas: Será mesmo que hoje se lê menos que antigamente? De fato, o livro e a leitura correm risco frente às novas tecnologias? A aproximação com os textos escritos sempre foi bem vista? Por que se repetem os pontos de vista apresentados, nos congressos que tratam de leitor-leitura: seria falta de informação por parte de quem deveria conhecer o já dito? A autora nos responde com um suspeito “Não sei” e explica a gênese de suas reflexões no título recém-lançado: “Em vez de resmungar sobre a mesmice, tratei de [...] refletir sobre” – e muitas das contribuições da escritora vão-se alinhavando nos ensaios: algumas pedem que ela dê acabamento em publicações subsequentes (pelas quais ansiosamente aguardamos: o leitor esteja certo). Antes de “Silenciosa Algazarra”, Ana Maria Machado já apresentou suas ideias

em obras ensaísticas como “Contracorrente” (1999), “Texturas” (2001), “Ilhas do tempo” (2004) e “Balaio” (2007) – além de ter dado vazão ao veio de analista no excelente “O recado do nome”, em que enfoca a obra de João Guimarães Rosa. A última reedição de “O recado...” é de 2003, mas o texto foi escrito nos anos de 1970, sob orientação de Roland Barthes, durante o exílio forçado da escritora na França, em nossos anos de chumbo. Todavia, a produção acadêmica e ensaística compõe sua face menos conhecida: ao longo de 40 anos de carreira literária, no Brasil e fora dele, são mais de 100 títulos publicados – a maioria deles infantil –, totalizando impressionantes 18 milhões de exemplares vendidos: cifra digna de fazê-la figurar ao lado de outros poucos que, no país, puderam ou podem viver de vender livros. Da obra para adultos, têm que ser lembrados: “Tropical Sol da Liberdade” (romance que passa a limpo as expe-

riências da juventude brasileira pós-64); “Canteiros de Saturno” (que tematiza a viagem, o autoconhecimento e a vida interior em sua relação com os espaços e tempos do mundo); “Aos Quatro Ventos” (que dialoga com a tradição narrativa medieval e com nosso melhor legado fantástico); “O Mar Nunca Transborda” (que se passa em Manguinhos, no Espírito Santo, e cuja protagonista revisita suas experiências subjetivas e sua vida amorosa); “Para sempre” (que se entrelaça às discussões sobre eternidade e finitude, perpassando a história de amor de Nelson e Susana); “Palavra de Honra” (em que uma das protagonistas se propõe a reinventar a história de sua família, iniciada pelo patriarca José Almada); e, por fim, “Infâmia” (em que, partindo de jogos especulares, a autora dá a lume imbricações entre verdade, distorção, má fé, manipulação e calúnia). Recuperando a mesma fluência que

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Ana Maria Machado na Praia de Manguinhos: refúgio afetivo da autora, balneário inspirou o livro “O Mar Nunca Transborda”

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encontramos em sua produção literária, no primeiro ensaio de “Silenciosa Algazarra”, a nova presidente da ABL defende a importância da leitura, tangenciando o funcionamento das bibliotecas, a falta de espaço para livros nos modernos apartamentos e a formação de professores. No segundo, defende a leitura como ato cultural, enfatizando que, se ninguém ensinar as crianças a lerem habitualmente, elas não aprenderão sozinhas. Passeia também por temas como a importância do escrito, as visões de “letramento escolar” (atualmente tão em voga...), a proliferação de títulos infantis e a necessidade de julgar o que passa pelas mãos dos pequenos. No terceiro ensaio aborda a literatura infantil como possibilidade de transpor fronteiras geográficas, barreiras geracionais e travessias existenciais. No quarto, comenta experiências de leitura literária em hospitais. No quinto ensaio, fruto de uma palestra no Museu da Vale, em Vila Velha, Ana Maria Machado diz que, quando os críticos literários são acusados de “eunucos de harém” (sabem explicar como algo deve ser feito, mas são incapazes de fazê-lo), isso é fruto de uma visão ressentida e injusta, porque a crítica é fundamental para a qualidade da criação. No ensaio seguinte, o sexto, aborda a intertextualidade na literatura infantil contemporânea; no sétimo, dá um depoimento pessoal sobre livros e leitura; no oitavo, interrelaciona o “boom” da literatura para os miúdos com os anos da ditadura militar; no nono, homenageia o trabalho dos irmãos Grimm; no décimo, aborda o medo na literatura; no décimo primeiro, retoma o tema da censura; nos quatro últimos apresenta alguns equívocos consoantes à leitura e tece considerações sobre independência, cidadania, ilustrações e diferença, tendo sempre em mente a literatura infantil e juvenil. Agora o leitor desta resenha me pergunta se gostei do livro. Gostei, gostei muito. Mas me sinto na obrigação de devolver a pergunta, e de esperar pela resposta: quem é que não adoraria estar impunemente numa festa de arromba, enquanto o mundo lá fora jura que você está “apenas” lendo? A gente só precisa convencer aos demais – as crianças, os professores, os seus pais – de que ler é tomar parte numa algazarra, e das mais deliciosas: e para isso Ana Maria Machado já deu (e espero que ainda dê muitas) contribuições decisivas. Porque, decididamente, ela sabe do que está falando.

Silenciosa Algazarra – Reflexões sobre livros e práticas de leitura Ana Maria Machado. Companhia das Letras. 296 páginas. Quanto: R$ 39,50


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resenha por WILBERTH SALGUEIRO

UMA TRAMA INCRÍVEL (OU UMA TRAMA BEM CABELUDA!)

O Evangelho Segundo Satanás Luís Eustáquio Soares. Editora DLL. 300 páginas. Romance, 2011, Lei Rubem Braga. Contato com o autor: artevicio@hotmail.com

Humor, força erótica, língua pulsante e alegria endiabrada são elementos que fazem de “O Evangelho Segundo Satanás”, de Luís Eustáquio Soares, um romance surpreendente

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li, mais ou menos no meio do redemunho que é o livro “Cor vadia” (2002), Luis Eustáquio segue viagem, mais fogueiro que fagueiro, nas suas galáxias agripinianas: “(...) e do ficticídio movimento a inventar da língua a deslizar entre um lado e outro a palavra pá dessa escavação no cemitério e no túmulo do que, em mim, é eco é eco é eco eco eco eco eco eco é covardia / é cor/ vadia / é cor cor cor cor cor é coração do dia já indo nessa tarde, nessa sempre tarde nossa, a nos ludibriar, endiabrar, enganar, equivocar, evocar, ovacionar, no sol se pondo, o horizonte menstruado é aborto de um novo dia que supomos fecundado de alegria (...)” etc. Concentra-se, nesse trecho, muita lenha que alimenta “O Evangelho segundo Satanás”, romance recentemente lançado pelo escritor (e também – se denuncie – professor de Literatura Brasileira na Ufes): a língua pulsante, a coragem agindo, a utopia em marcha, a alegria endiabrada. Se não soasse retórico, ou rétro, diria que eros é o real condutor desse romance-ensaio – ou “romance-manhã”, como prefere aquela que assina a orelha, Deusterômina Áladra – que embaralha em suas veias seres e lugares díspares, mas com tanta naturalidade que o sem-sentido da situação se perde – e Joana, Sir Bucho, Vésper, Jesus Cristo, José Cemí, Osama Bin Laden, Jacques Derrida, Fidel Castro e nós mesmos avançamos, multicoloridos, por Cuba, Brasil, Londres, China – e pelos pixels que a internet traz. Saber de que trata a trama já complica a tarefa desta resenha, pois o “próprio impróprio” narrador diz, às tantas, que a “Defesa Civil apareceu e simplesmente não sabia o que fazer. E pra falar a verdade, nem eu, que estou contando esta história, já não sei, pelo menos por enquanto, o que fazer, pra prosseguir com a trama”. Tudo cascata, isto é, a tal história, feito uma queda d’água, nos toma de assalto, pois, talvez, nela nos molhemos ao ler que “escrever no diverso, como propõe este humilde capeta, é nada mais

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Luís Eustáquio é professor do Departamento de Línguas e Letras da Ufes

que aprender a errar os acertos, porque, como Satanás, aprendi, diferentemente de Deus, a escrever torto por linhas certas”. E viu que era bom. Além da força erótica (daí o “cabeluda!” lá de cima), há muito humor no Evangelho que se tem em mãos, como se as mãos tivessem se dado Mário e Oswald. Não a ironia, que se assemelha à “linguagem dos

cafajestes” que se querem “aristográficos”, mas o humor rasgado e sem dó do leitor – que a leitor que se preza não se dá dó: “J. C., já impaciente, foi até onde Lázaro estava caído, e disse: ‘Lázaro, levante, a morte é um excelente esconderijo, eu sei, mas preciso te perguntar uma coisa’.” E pergunta. Em verdade, desdigo: tem, sim,

TRECHO Aproveito a oportunidade pra dizer, como honesto capeta, que o falar das minhas vozes, já que meu nome é legião, não pode deixar de registrar que a onipresença reverberada do Deus, que tanto mal me fez a mim e aos meus exilados ecos, não está confinada às e nas religiões, pois sei que não é muito raro a dádiva e a contradádiva de presenças mais solidárias e comprometidas com a minha trágica situação entre religiosos, e a história está aí pra confirmar um Jesus Cristo, filho rebelde, meu verso e reverso, um imortal, que, como eu, caiu do céu, tornou-se mortal; um onipresente que se fez simples presença entre as demais, igualmente ainda como eu, que só fiz proliferar presenças errantes, como ele; e ainda como ele suspeito que somos um no outro e outro no um, pois ambos somos herdeiros dessa milenar cultura órfica; ambos somos Orfeu, descemos ao inferno, lutamos no inferno, fora do conforto privilegiado da corte divina, onde Deus sempre habitou.

enredo nessa malha, mas só mais ou menos ali no meio é que nós entendemos a cascata. Aí já é tarde: arredio, o romance se liquefaz nos levando linhas e gotículas adiante e, de novo, o abismo do ficticídio abre a garganta para nós que, sem salvação, rendemo-nos. Então, é a festa dos fios. Logo, leia: isto é, ateie-se, jogue, quebre a cabeça, pule.


poesias REFLEXO JORGE SOLANO Esparsas pelo morro do moreno mansões de telhados altos contemplam a baía a seus pés. Difícil acesso, penso, enquanto meus olhos olham o verde do mar refletindo no verde do morro ou o verde do morro no verde do mar refletindo. As mansões, alheias, não me olham. O mar e o morro me ignoram.

VAGAR Um navio navega devagar entre boias amarelas e alaranjadas conduzido puxado empurrado pelo rebocador baía adentro rumo ao cais de Vitória de Capuaba ou de Paul – cena tão frequente que faz parte da paisagem.

crônicas SOBRE A CONJUGAÇÃO DOS DIAS SUJOS E DOS DIAS LIMPOS Por CAÊ GUIMARÃES Há dias que nascem sujos. É quando as partículas de poeira do estar no mundo descem pela garganta com força de pedra raspada em tecido fino. Dias sujos nascem frios. Talvez o inferno seja frio, no lugar da imagem clássica de fogo, rios de lava e ranger de dentes provocados pela fervura. Nos dias sujos a vista acorda turva e a beleza incomoda no lugar de seduzir. Em dias sujos nada parece luzir, nem o lume de vela acesa em cabana aconchegante no fundo de floresta hostil. Quando nada parece gentil, suave e amistoso, quando o carinho se transforma em dolo, ou quando a alma se torna rubra e o espírito se esvai em estorvo, perceba. Um dia sujo te espera na mesa do café, ou te surpreende na cama no primeiro abrir de olhos. Um dia sujo, de verdade, está sempre pronto, à espera. Como pantera

faminta que disputa com você um naco de carne suficiente apenas para uma fome. Como furacão sem nome que tomba tudo que é construção, logo tornado ruína. Dias sujos comportam tudo que extermina. Mas há também os dias limpos. É quando a nobreza se faz presente em cada gesto. Aí, possível transformar em banquete qualquer resto. E repartir fartura de afeto e ternura. Nos dias limpos não há espaço, ainda que escasso, para a desconfiança e seu filho primogênito, o rancor. O que há é melhor definição de cor. E de som. E ainda que não haja o menor sentido em existir, a música tocará alta e afinada na janela do seu ouvido. O pássaro selvagem cantará na sua janela uma melodia de improviso, como um jazz onde nada jaz. Mesmo ilusória, haverá a sensação momentânea de paz.

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Nada disso cabe nesse quadrado diagramado que confina 2.500 toques. Nada disso habita o que determina o mundo, mesmo que seja determinante para o que somos no fundo. Dias sujos e dias limpos cabem no imenso espaço de devir que comporta uma existência. Ainda que não haja o menor sentido, há a experiência em si de estar vivo. Com os laços fortes nos nós sutis de cada trama. Com nossas tontas artérias nos pulsares meridianos da matéria. Nossas mãos no gatilho do telefone. As fissuras no vão do que nos distingue e consome. E os abismos nos quais circunstancialmente caímos, anjos violados sem asas e queixas. Sujos ou limpos, os dias nos conclamam a sair pelas ruas confusas falando línguas estranhas. Nos incitam a viver como aranhas, tecendo teias no ar. Podemos mergulhar em profundezas abissais dispensando a apneia. Podemos reescrever o que foi, chamado ido. E o que se foi, chamado sido. Podemos até inverter a ordem de pretéritos, indicativos, subjuntivos e imperativos. Perfeitos. Imperfeitos. Por tudo que seria. É. Foi ou fosse. A vida é doce.

DOUTOR SÓCRATES, UM BRASILEIRO Por CARLOS ANTONIO ULIANA

O mar – será que se incomoda ou já se acostumou?

A GRANDE VISÃO No lombo do vão central, balança o ônibus incerto ou tremula a ponte ao vento? Exatamente dali, do alto do meio da ponte, onde a visão é mais larga, donde vejo o horizonte: o céu no mar, no morro, nos prédios, no convento e na chaminé, donde vejo as ilhas boiando: do Boi, do Frade, Vitória, com shopping, hotel, Assembleia, Tribunal; donde vejo as cores brotando: branco, amarelo, cinza, rosa, preto, manchas entre o azul e o verde do mundo virgem. Somente dali – o vão e o ônibus tremendo – a grande visão geral das coisas estremecendo. Poemas extraídos do livro “Visões da ponte ao meio-dia” (Editora Cândida, 2010).

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Dr. Sócrates, o magrão, Brasileiro até no nome. Considerado pela Fifa em 2004 um dos 125 maiores jogadores da história do futebol mundial, era um doutor com a bola e sem ela. Imortalizou com o braço direito levantado e o punho cerrado um tipo de comemoração que infelizmente não existe mais no futebol das dancinhas e de outras comemorações pra lá de ridículas. O gesto do braço levantado com o punho cerrado lembrava e homenageava os Panteras Negras americanos, partido que, nos fim dos anos 60, lutava contra o racismo e por justiça nos EUA. O gesto foi marca também de Reinaldo, o Rei do Galo mineiro, que o exibiu desafiadoramente no Brasil da ditadura e na Argentina sombria de 1978. Sócrates, além do futebol maravilhoso, dos geniais passes de calcanhar e dos gols refinadíssimos, fez parte de uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos, sendo o capitão na Copa de 82, onde, juntamente com Zico, Falcão, Júnior e tantos craques, encantou o mundo.

Aquele timaço não foi campeão, mas, como diz o jornalista Fernando Calazans, azar da Copa, que não pôde ser abraçada, beijada, levantada por aqueles gênios da bola. Nascido no Pará, começou no Botafogo de Ribeirão Preto, marcou época no Corinthians, depois Fiorentina, Flamengo e Santos, encerrando a carreira no seu primeiro clube. Foi o arquiteto da Democracia Corintiana, revolucionando, junto com Vladimir, Casagrande, Zenon, Adilson Monteiro (presidente do clube) e tantos outros, a forma de decisão e participação dos jogadores em um time de futebol, com votação para qualquer decisão que envolvesse a vida dos atletas e o dia a dia do clube. Foi para a Itália, num ato de protesto, depois que a emenda das Diretas Já, que restabelecia o direito dos brasileiros votarem para presidente, foi derrotada. Questionava a Fifa e seus desmandos, tinha um olhar crítico em relação à Copa do Mundo no Brasil em 2014, por achar que ainda falta muita coisa no dia a dia do cidadão brasileiro comum – como saúde,

transporte, moradia, educação –, mais importantes do que o tão festejado evento. Participou de Caravanas do Esporte da ESPN, levando as mais diversas modalidades esportivas aos lugares mais carentes e remotos do país. Estava participando de um projeto com a mesma emissora, a Petrobras e o Ministério da Cultura, cujo enfoque era o resgate da memória do esporte olímpico brasileiro. Fazia o contraponto à mediocridade, alienação, mercenarismo e individualismo que dominam o futebol e seus atletas. Respirava alegria e era dono de um bom humor que contagiava a todos. Dizia que a vida era para ser vivida a cada minuto e que não fazia planos longos, preferia viver o presente, sempre. Batalhador por justiça social e cidadania, tinha muito a contribuir com a justiça, a democracia e a transparência num país tão desigual e cheio de corrupção. Este Brasil, cujo significado para ele, em resposta a Marília Gabriela, foi resumido na frase “é tudo”. Dr. Sócrates, vais fazer uma falta danada. Saudade eterna.


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por JÔ DRUMOND

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 17 DE DEZEMBRO DE 2011

EVARISTO BORGES/05/04/2002

BERREDO DE MENEZES, O ENCANTADOR DE PALAVRAS Na opinião de especialista, escritor trabalha meticulosamente sua tessitura verbal, criando imagens literárias a partir da busca do requinte linguístico

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erdinand Berredo de Menezes veio ao mundo predestinado à literatura. Além de ser filho de poeta, nasceu na mesma casa onde havia morado um dos escritores brasileiros mais lidos no início do século XX, seu conterrâneo Coelho Neto (1864/1934), eleito em 1928 como “Príncipe dos Prosadores Brasileiros”. Ferdinand, caçula de uma prole de onze filhos, nasceu em Caxias, no Maranhão, em 30 de abril de 1929, foi criado em Coroatá, a 100 km de São Luiz, e está radicado em Vitória, há mais de 40 anos. Foi amigo de infância do ex-presidente da República José Sarney, chamado então de Zeca, cuja mãe, Dona Kyola, foi escolhida para madrinha de fogueira de Berredo, em cerimônia de “Bumba Meu Boi”, festividade típica de sua terra. Seu pai, José Menezes Júnior, era juiz de Direito, enquanto que o pai de Sarney era promotor de Justiça. Amigos e vizinhos em Coroatá, ambos foram promovidos a desembargadores, na capital. Porém, José Menezes Júnior, que também era poeta, recusou a promoção, para não deixar sua casa em Coroatá. Quando estudante universitário, no Rio de Janeiro, Berredo hospedou, por algum tempo, em sua quitinete, um poeta iniciante que acabara de publicar seu primeiro livro de poemas. Tal debutante nas letras era nada menos que o renomado poeta Ferreira Gullar. Berredo de Menezes ganhou uma bolsa de estudos em Paris, onde fez amizade com os poetas Claude Pradère e Andréa Caffi. No velho mundo, respirou os ares existencialistas do pós-guerra, e chegou a falar de seus poemas a Sartre e a Simone do Beauvoir, no Café de Flore, frequentado pela fina flor da intelectualidade parisiense. Em Vitória, foi eleito por duas vezes como vereador, e foi prefeito da cidade, entre 1982 e 1985. Exerceu ativamente a advocacia criminal e trabalhista. Trabalhou como professor universitário durante 32 anos. Exerceu o cargo de professor catedrático de Direito Constitucional,

passando depois ao exercício da cátedra de Direito Processual Penal, na Ufes. Certa vez, em visita à região de Domingos Martins, apaixonou-se pela paisagem do Parque das Hortênsias. Acabou comprando uma quinta que denominou Estação Esperança. Escolheu o local mais elevado do Parque, com vista de um lado para a Pedra Azul, e de outro, para a Praia da Costa. Ali, deve ter concebido pelo menos a metade de seus livros. Outro lugar preferido para produções literárias é sua varanda situada na Praia de Itaparica, em Vila Velha, sobretudo ao pôr do sol, momento em que emerge o “perfume de velhas e imorredoiras saudades dos seus antigamentes”. Mesmo como prosador, Berredo nunca deixou de ser poeta. Enveredou-se por um gênero híbrido de prosa poética que ele denomina de “cônticos” ou “prosopoemas”. Não ousaria encaixá-lo em nenhuma corrente estética, pois em consonância com l’air du temps ou zeitgeist, ele “bebeu água de várias fontes”, assim como seus contemporâneos pós-modernos. Sua prosa prima pelo alto grau de literariedade, com traços neomaneiristas, neobarrocos, neoimpressionistas, neosimbolistas e, às vezes, neosurrealistas.

Marca registrada

Para evitar possíveis confusões conceituais, gostaria de esclarecer a acepção do prefixo “neo” como reafloramento do gosto pela estética de outras épocas, na contemporaneidade. A obra berrediana é um caso exemplar de emersão da plurissecular tendência anticlassicista, antinormativa e antiautoritária. Aqueles que consideram o Maneirismo como estilo predominantemente individual, original e singular, podem rotular esse escritor de neomaneirista, pois a escritura berrediana é inconfundível. Os que conhecem bem sua obra a identificam com extrema facilidade durante a leitura da primeira linha, ou do primeiro parágrafo. Ele conseguiu deixar na literatura sua “marca registrada”, assim como outros grandes literatos, que trilharam as sendas da peculiaridade. Os limites entre Maneirismo e Bar-

Obras de destaque LIVROS PUBLICADOS Catedral dos vácuos (1955) A surdez dos clarões (1993) Clarividências do nunca (1993) Vozes do meu silêncio (1996) Sobras do absoluto (1997) O Vento do Bambuzal (1997) Ladainha do exílio (1997) Além do sonho O sol das águas Usina de silêncios 1997) Flauta do azul (1997) Entre o sonho e o delírio (1998) O inventor de Assombros (2001) O velejador de abismos (2003) Pelo chão dos sonhos (2005) A flauta sonhâmbula ( 2007) O dialeto das sombras (2007) Pelos olhos da infância (2009) Sob a luz dos sonhos (2011) LIVROS INÉDITOS de poesia Sob o clarão das metáforas Vagaluminuras Onde o silêncio perde as asas Nas muralhas da China Pássaros da briga O pescador de outroras Hóspedes do silêncio

roco são muito tênues. Aqueles que, em vez de buscar a singularidade maneirista, tentam detectar o coletivo, ou seja, as características convencionalmente consideradas como barrocas, podem rotulá-lo de neobarroco. Sabe-se que na literatura barroca há duas vertentes: a conceptista e a cultista. A primeira valoriza o conteúdo, enfatiza o plano das ideias, e procura ressaltá-las, por meio de parábolas, analogias e comparações. A segunda, na qual podemos inserir o poeta em questão, refere-se ao culto da forma, ao requinte linguístico, chamado também de preciosismo. Berredo trabalha meticulosamente sua tessitura verbal. Tendo em vista o aprimoramento estético e o poder expressivo da língua, ele lança mão da potencialidade da palavra, substantivando adjetivos, adjetivando substantivos, derivando verbos de substantivos e de adjetivos ou vice-versa. Uma das características de sua prosa, sobretudo nos textos mais recentes, é a grande recorrência de neologismos, o que descondiciona o leitor, além de lhe propiciar novas experimentações linguísticas. Suas imagens literárias são, muitas vezes, criadas para ser sentidas, para provocar uma experiência estética (uma esthésis), e não para ser entendidas. Apesar do desejo natural, inerente a todo ser humano, de querer entender as coisas, muitas vezes o sensível suplanta o inteligível diante de uma obra de arte. Há quem diga que não existe propriamente uma linguagem verbal impressionista, mas na literatura chama-se de impressionista o escritor que prefere a indefinição do detalhe ou do objeto, como na pintura e na música, e estabele impressões sensoriais de um incidente ou de uma cena. O escritor passa a lidar com “estados de espírito” e, por meio da sinestesia, sensação produzida pela interpenetração dos órgãos sensoriais, ele faz, da associação de palavras ou expressões, um cruzamento de sensações diferentes numa só impressão. No escritor e poeta Berredo de Menezes essa característica é tão marcante, que ele mesmo pede que não lhe perguntem o sentido daquilo que escreve, pois não saberia explicar. Tenta expressar, da melhor maneira possível, o que sente

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Berredo de Menezes na varanda do seu apartamento, na Praia de Itaparica, em Vila Velha, tendo ao fundo o mar que inspira sua produção literária

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num determinado instante. Depois de passado o enlevo quase epifânico, não conseguiria descrever novamente a sensação daquele exato momento. Era exatamente isso que os pintores impressionistas faziam. Retratavam o instante. Monet, entre 1893 e 1894, fez uma série de 50 pinturas da Catedral de Rouen explorando a luminosidade instantânea em diferentes momentos do dia, nas quatro estações do ano. Como traço neosimbolista pode-se detectar, na obra berrediana, o caráter obscuro e emotivo da linguagem por meio de novas imagens literárias, de metáforas originais e de símbolos. O poeta não se contenta em cantar e evocar suas emoções; quer senti-las em sua plenitude.

Prosa

“Sob a luz dos sonhos”, livro lançado em 12/12/2011, na Academia Espírito-Santense de Letras, foi sua primeira incursão na prosa, ainda durante a juventude. O texto foi perdido e permaneceu inédito durante décadas. Resgatado há pouco tempo, num antigo disquete encontrado ao léu, em dia de faxina, foi publicado graças ao empenho do prof. Francisco Aurélio Ribeiro, com o patrocínio do Instituto Sincades. Nessa última publicação há um feliz entrelace de realidade e ficção. O autor “desenterra, remenda e costura lembranças” de sua infância e juventude. Como ele próprio afirma, “a memória não tem cadeados: basta um toque de luz, mesmo no escuro, e tudo aflora em cascata, inevitável

Um poema Na pressa de ouvir luz no meu silêncio, vou caminhando as minhas incertezas sob o aroma sem lume das tristezas. E se o perfume lembra algum outrora, logo descubro que ele vem de um mar que me fez bandolim de um novo luar. Como as lembranças sempre acenem n’alma as ilusões de um sonho peregrino, às vezes penso que ainda sou menino, e fico a meditar, sem dor nos olhos, que as lágrimas antigas do meu canto é que emprestam mais vida ao desencanto. Se tudo o que vivi Brasil afora, eu pudesse contar sem veleidades, hoje eu seria um hino de

saudades. A tristeza também é um vento andejo, e quando aquece em nós uma emoção, jorra deslumbre em nosso coração. Velejando esse mar que existe em mim, sempre flutuo, sem ferir lembranças, nas águas das mais velhas esperanças.

e surpreendentemente.” Os contos, todos eles eivados de dados biográficos, são urdidos numa emocionante prosa poética, que algumas vezes leva o leitor às lágrimas. Os personagens que povoam a mente do autor “pelos meandros incandescentes da saudade” são seus conterrâneos de Coroatá, cidade maranhense na qual foi criado. Todavia, poderiam habitar em qualquer tempo e em qualquer lugar, pois são seres com as mesmas alegrias, apreensões, angústias e reflexões inerentes à espécie humana. Coroatá é o mundo em geral, e, ao mesmo tempo é um mundo particular, que gira em torno da praça da igreja, cujo guia espiritual tem o sugestivo nome de Estrela.

Marinheiro de um barco já sem leme, notei que Deus chegou a ter mais pena ao me sentir um pescador do Sena. Ali, a minha vida foi um sonho, mas se pescava até ao pôr do sol, sempre vinha vazio o meu anzol. Vencidos todos esses desenganos, hoje vivo num mar de praia errada, à espera de brilhar a luz do Nada...

Sob a Luz dos Sonhos Berredo de Menezes. Gráfica e editora Formar. 132 páginas. Quanto: R$ 20. Encomendas pelo telefone (27) 9959-3555.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 17 DE DEZEMBRO DE 2011

artigo por PAULO BONATES

QUEM PARTE E REPARTE FICA COM A MELHOR PARTE Será que a população leva fé de que a luta dos parlamentares azul e rosa pelo dinheiro dos royalties implica a aplicação nas necessidades de seu povo? – questiona o articulista

S

empre que meu padrinho Edgardo iniciava uma frase, meu pai atalhava assim: – Uma coisa de cada vez, Edgardo. Aja ao estilo de Jack, o estripador, por partes. Ele costumava aconselhar as pessoas a não ultrapassarem seus limites intelectuais. Ilustrava com a história de um amigo português que decidiu morar uns tempos na Alemanha para aprender a língua deles lá. Não conseguiu aprender o saxônico alemão, esqueceu o português e, por consequência, ficou mudo. Cara senhora, tem certeza de que os seus representantes no Congresso, nas assembleias, nas câmaras municipais, no fundo, no fundo não lhe representam? Não nos pegamos nós todos pensando “pragmaticamente” no que transforma a ética em nada? A senhora, madame, como nós todos, reclama de injustiça e não faz nada, continua votando no mesmo canalha que denunciou. Alguma vez já se perguntou se, diante do sistema eleitoreiro em vigor, é possível a honestidade? Quanto gasta alguém para eleger-se qualquer coisa, incluindo síndico de condomínio? Winnicott dizia que o cidadão só se torna assim quando é responsável pelo ambiente e for responsabilizado por ele. Todo voto, na atual conjuntura, é nulo de nascença. Ninguém vota no que quer. A começar pela insólita obrigatoriedade, trata-se de um instrumento autoritário que mantém os privilégios e os privilegiados. O lema não seria difícil de traduzir: “Vote em quem quiser desde que seja nos que já estão no poder”. O resto é mentira. A epidemia contamina sindicatos – todos cooptados por centrais subordinadíssimas até o talo ao governo – e atinge a mais remota escolha de samba de enredo nas escolas de samba. Notem que a freudiana lei do pai – bem ou mal centrada na Presidência da República – determina os comportamentos de todos. Cada demissão de marginais aboletados nos ministérios promovidos pela presidente Dilma tem reflexos no peso do pão, na padaria da esquina. Nós a plebe rude transformamos em piada as coisas mais sérias – criativos e

estúpidos, eis nossa sina. Brincar, eis a nossa vocação. Mudamos de cidadania, de mulher, de homem, de nome, ignoramos os roubos institucionais ou não, a corrupção, mas a paixão lúdica permanece: ninguém deixa de dar a vida para regredir e brincar: não se abre mão de torcer por um time de futebol. Um dos escândalos que não passariam assim em branco nem no Paraguai – a fraude evidente do Enem, vazamento de questões. Milhares de estudantes foram obrigados a engolir a tese marginal segundo a qual o fenômeno – é um fenômeno – do rombo ficaria restrito à cidade de Fortaleza, onde foi detectado. Está valendo, podem crer, a ideia pré-escolar que um furo em um recipiente de 100 Kg fica restrito ao recipiente. Está aí uma boa questão de prova para o Enem que leva o aluno diretamente ao ensino superior com buraco e tudo. A velha reação faz alusão ao bandido Nem, parlamentar da Rocinha: “Só prenderam porque é o Nem, se fosse pó Enem vazava”. Todos achamos graça. De que realmente? A tristemente célebre questão do “petróleo é capixaba” não deixa de ser

A tristemente célebre questão do ‘petróleo é capixaba’ não deixa de ser fantasmática” fantasmática. A dedução deveria ser óbvia, por milhares de motivos: por que não se divide o ferro e o ouro de Minas Gerais, o café de São Paulo, o turismo do Rio, a castanha do Pará etc. e tal? Isso só para fazer uma conta de aritmética de curso primário. Já propus dividirmos o piche que vai chegando às nossas praias. Não sei se vão querer. A Petrobras – só para dar uma demonstração – criou uma barriga

na Reta de Nossa Senhora da Penha até então virgem, e um monumento histórico. Concessão feita a peso de quê? Será a que a população acostumada ao desprezo leva fé de que a luta dos parlamentares azul e rosa pelo dinheiro dos royalties implica na aplicação nas necessidades de seu povo? Fica no ar a pergunta, carece detalhar. Carece de crédito, urge a democracia, que é o estado de coisas em que cada cidadão sente-se responsável pela sua terra. Estamos todos longe disso. Pessimista que é, Tio Edgardo diz que salvo as sempre honrosas exceções, a única coisa pela qual um político profissional luta quando assume o primeiro e único dia de trabalho é para articular um esquema para manter o seu emprego. A começar pela contratação, com o nosso dinheiro, de cabos eleitorais, eufemisticamente cognominados de assessores. São raros os que falham nessa missão-reeleição. Saudade dos comícios onde figuras realmente públicas, conhecidas até pelo apelido, diferenciavam este espírito santo, o de escolher com a alma a sua própria representação.


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