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Entrelinhas

A VIDA REVELADA COM AMOR, HUMOR, HORROR E TÉDIO, NAS CRÔNICAS DE LOBO ANTUNES.

A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA PELO SAMBA

Página 3

Antropóloga analisa documentário sobre a história da Unidos da Piedade Páginas 10 e 11

Pensar

VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

www.agazeta.com.br

Música

“2112”: O DISCO EM QUE O RUSH RETRATOU A VITÓRIA DA ARTE CONTRA A OPRESSÃO. Página 5

Letras

A RIQUEZA POÉTICA DE SANTIAGO MONTOBBIO, MEMBRO ESPANHOL DA AEL. Página 8

Conto

ENCONTROS E DESENCONTROS EM FICÇÃO INÉDITA DE DEL ESTRELA. Página 12

Antes e depois de Jobs ESPECIALISTA PROJETA O FUTURO DA TECNOLOGIA SEM O FUNDADOR DA APPLE

Páginas 6 e 7


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

quem pensa

Aline Prúcoli de Souza é mestre em Estudos Literários pela Ufes. leeprucoli@hotmail.com

Vera Márcia Soares de Toledo é professora de Literatura e História da Faculdade Saberes. veramarciast@terra.com.br

marque na agenda prateleira Campus Centro de Línguas inicia aulas em fevereiro

As matrículas para os cursos no Centro de Línguas da Ufes estarão abertas a partir de 24 de janeiro. As aulas terão início mais cedo este ano, no dia 3 de fevereiro. Mais informações no site www.clinguas.com.br ou pelo telefone 4009-2880.

Ciência Sem Fronteiras Graduação-sanduíche no exterior

Antonio Emílio é baixista da banda Passageiros Clandestinos. antonio_emilio@hotmail.com

Gilberto Sudré é consultor em novas tecnologias. gilberto@sudre.com.br

Ester Abreu Vieira de Oliveira é presidente da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras. esteroli@terra.com.br

Está aberta a seleção para os alunos da Ufes interessados em participar do programa de graduação-sanduíche na Alemanha, França, Estados Unidos, Itália ou Reino Unido, dentro das chamadas públicas do Programa Ciência Sem Fronteiras. Mais informações pelo e-mail internacional.ufes@gmail.com.

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Juca Magalhães é blogueiro decrônicas, professor de música e produtor cultural. aletraelektronica@gmail.com

Geovana Tabachi Silva é antropóloga e professora do curso de Ciências Sociais da UFF. tabachi@uol.com.br Del Estrela é empresária, amante das artes e do pensamento livre. dedel.estrela@gmail.com

Andra Valladares lança CD autoral

A cantora e compositora faz o show de lançamento do seu primeiro CD no próxim o dia 26, às 20h30, no Trindade restaurante e bar, na Praia da Costa, Vila Velha. Ingresso: R$ 20 (com direito a um CD). No repertório, músicas próprias e a releitura de “Três apitos”, de Noel Rosa.

Caê Guimarães é jornalista, poeta e escritor. Publicou quatro livros e escreve no site www.caeguimaraes.com.br

Lucas dos Passos é mestrando em Letras, poeta e estudioso da obra de Paulo Leminski. lucasdospassos@hotmail.com

de janeiro

02

de março

Incentivo à cultura em Cachoeiro

As inscrições de projetos culturais na Lei Rubem Braga de Cachoeiro de Itapemirim começam na próxima segunda-feira (16) e vão até 2 de março. O edital e a ficha de inscrição estarão disponíveis a partir do dia 16, no portal da prefeitura: www.cachoeiro.es.gov.br.

Corrupção e Sistema Político no Brasil Fernando Filgueiras e Leonardo Avritzer (org.) Seleção de artigos que observam minuciosamente a relação entre instituições e cultura política, propondo o enfrentamento da corrupção no Brasil e suas consequências nocivas ao desenvolvimento do país. 256 páginas. Civilização Brasileira. R$ 37,90

O Último Suspiro do Mouro Salman Rushdie Narrado por um herói picaresco em cujas veias corre sangue português, judeu, árabe e indiano, este romance foi a resposta do escritor a sua condenação à morte pelo aiatolá Khomeini, em 1988, por causa de seu livro “Versos satânicos”. 504 páginas. Companhia das Letras. R$ 29

Tio Tungstênio – Memórias de uma Infância Química Oliver Sacks O autor relembra sua infância, impregnada de recordações sobre o comportamento misterioso dos materiais, por meio de uma narrativa envolvente que mistura investigações intelectuais e amadurecimento afetivo. 336 páginas. Companhia das Letras. R$ 25

Crítica da Razão Punitiva Manoel B. da Motta O estudo das raízes do controle e da punição instaurados na sociedade brasileira, no século XIX, traz subsídios para o melhor entendimento da realidade prisional do país. 380 páginas. Forense Universitária. R$ 75

PÓS-MODERNIDADE E TRADIÇÃO

José Roberto Santos Neves

O que esperar do mundo sem Steve Jobs? Essa é a pergunta que o consultor em novas tecnologias Gilberto Sudré lança em seu artigo sobre o fundador da Apple, que morreu em 5 de outubro do ano passado. Uma das mais notáveis personalidades do nosso tempo, o empresário foi responsável por revolucionar pelo menos três segmentos da indústria: informática, música e telefonia. Da série Apple II, uma das primeiras linhas de computadores pessoais de sucesso, lançada em 1977, às invenções de iPods, iPads e iPhones, nos anos 2000, os produtos criados pelo magnata

Pensar na web

mudaram a relação do homem com a tecnologia. Sudré leu a biografia de Jobs, escrita por Walter Isaacson, e relata a trajetória do jovem fã de Bob Dylan que construiu o futuro movido por intensidade e paixão. No campo da cultura popular, a antropóloga Geovana Tabachi escreve sobre a construção da memória e da identidade dos moradores da Piedade e da Fonte Grande, a partir da relação afetiva com a Unidos da Piedade, a mais antiga escola de samba do Estado, e que comemora amanhã 57 anos de fundação. Pós-modernidade e tradição, juntos, para ler e Pensar.

é editor do Caderno Pensar, espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Vídeos de Steve Jobs, trechos do documentário sobre a Unidos da Piedade, músicas do Rush e trechos de livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

Pensar

por ALINE PRÚCOLI E VERA MÁRCIA SOARES DE TOLEDO

INSTANTÂNEOS DE UMA VIDA

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

As Coisas da Vida: 60 Crônicas António Lobo Antunes. Alfaguara. 232 páginas. Quanto: R$ 27,90

DIVULGAÇÃO

“Aquilo a que costumamos chamar circunstâncias e não passa, muito simplesmente, do que consentimos que a vida e as pessoas nos façam, obrigaram-no cada vez mais a refletir sobre si mesmo. Aos vinte anos julgava que o tempo lhe resolvia os problemas: aos cinquenta dava-se conta de que o tempo se tornara o problema. Jogara tudo no acto de escrever, servindo-se de cada romance para corrigir o anterior em busca do livro que não corrigiria nunca, com tanta intensidade que não lograva recordar-se dos acontecimentos que haviam tido lugar enquanto os produzia.” (“António 56 1/2”, p. 59)

A

ntónio Lobo Antunes diz em sua crônica, “Receita para me lerem”: “Sempre que alguém afirma ter lido um livro meu fico decepcionado com o erro. É que meus livros não são para ser lidos no sentido em que usualmente se chama ler: a única forma parece-me de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença.” (p. 51). Longe de afastar as pessoas com depoimento tão direto e cru sobre seu trabalho, Lobo Antunes só faz aumentar seu plantel de leitores. E eles são fiéis. Como os de Virginia Woolf, Clarice Lispector, V.S. Naipaul ou Enrique Vila-Matas. Escritores estranhos, controversos, intensos, talentosos e inquestionáveis tradutores da alma moderna e pós-moderna. Lobo Antunes, nascido em 1942, em Lisboa, foi médico psiquiatra até 1985. A partir desta data, passou a se dedicar integralmente à antiga profissão a qual abraçou “por volta dos oito anos de idade”: a literatura. Em “Retrato do artista quando jovem”, ele diz: “E apenas por falta de vocação para reformado, mártir ou refém, acabei romancista.” (p. 41). Atualmente, é um dos escritores portugueses mais traduzidos e premiados, com vasta obra de ficção (romances, contos e crônicas). Sua voz narrativa vai além de uma realização meramente portuguesa. Ela alcança um terreno mais amplo na tentativa de explicitar a natureza do europeu pós-moderno. Impõe-se também por meio de linguagem inusitada que, não obstante a singularidade, traduz uma notável consciência crítica da situação histórico-cultural contemporânea. Faz-se ainda grande crítico da

As crônicas de Lobo Antunes traduzem uma notável consciência crítica da situação histórico-cultural contemporânea

memória cultural portuguesa como expressa e delineada, no século XX, debaixo da ditadura salazarista. Nestas crônicas, a vida se apresenta através da memória, do humor, do cotidiano, do horror, do tédio, das atrocidades, do amor, da mesquinhez e da poesia silenciosa da passagem do tempo. São 60 crônicas/episódios que misturam realidade e ficção, revolvendo nostalgicamente e autobiograficamente os anos de vida de Lobo Antunes. São, como o título sugere, um álbum de linguagem fotográfica que guarda instantes. Que simplesmente registra “As coisas da vida”. São, ainda, trampolins que nos fazem saltar de um sorriso displicente e, por vezes, involuntário, para o choro manso e pesado da solidão a cada virada de página. São mentiras e confissões sinceras de um adulto ainda criança que recria, com invejável facilidade, os episódios e personagens de

sua vida, escancarando minúcias conjugais de seus familiares (reais ou imaginários?) como um pirralho, nada parvo e muito curioso, que não se cansa de olhar pelo buraco da fechadura alheia. Este é, enfim, um livro de ensinamentos pueris e, por isso mesmo, precioso que não deve ser atravessado com pressa. Afinal, é um espaço em que “as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície” (p. 51) que nos conduzem ao fundo avesso da alma humana para

logo nos fazer renascer. “Imensamente.” (p. 83) Ao fim das 231 páginas, a surpresa nos vem do fato de “não existir narrativa no sentido comum do termo, mas apenas largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos.” (p. 52) Paradoxalmente, terminamos a leitura com duas certezas: a de que não há como definir certeza alguma sobre as coisas da vida e a de que estas coisas são feitas de lágrimas, gargalhadas, brigas, sonhos, Vergílios e Verlaines, cicatrizes, rugas, Almanaques do Tio Patinhas, bichos da seda, guarda-chuvas de chocolate e daquilo que está guardado no mais recôndito espaço de nossa memória, em um entre lugar escorregadio, etéreo e atemporal que, como num passe de mágicas mandrakeano – Hop aparece e desaparece.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

livros por LUIZ SÉRGIO QUARTO

EXALTAÇÃO À CIDADE NATAL EM PROSA E MEMÓRIAS

BRUMAS DA MANTIQUEIRA Vinícius Bertoletti Thesaurus Editora 160 páginas Quanto: R$ 30. À venda pelo site www.thesaurus.com.br

Em “Brumas da Mantiqueira”, Vinícius Bertoletti reativa passagens de sua juventude em Barbacena (MG), incluindo os personagens da política local e os tipos populares da região

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eliz do homem que se faz escritor, reativando as memórias de sua juventude bem vivida e historicamente situada em sua cidade natal. Essa cidade envolvida pelas “Brumas da Mantiqueira” é Barbacena, descortinada pela ótica poética e pelo senso de humor de Luiz Vinícius Guimarães Bertoletti. Luiz Vinícius é até hoje um devorador de livros – sendo que, em sua juventude, saboreou com gosto e prazer as obras de Érico Veríssimo, Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Graciliano Ramos – como ele sofreu com a morte da cachorrinha Baleia! Leu, ainda jovem, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz – e não poderia deixar de se encantar com as poesias de Casemiro de Abreu, Olegário Mariano, João de Deus, Guerra Junqueiro, Antero de Quental... Não poderia faltar a leitura dos clássicos estrangeiros para a juventude; e de Lobato para adultos. Pode-se assim dizer que se deixou levar pelo famoso lema de Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. Com todo esse vasto conhecimento e aprendizado literário, Vinícius Bertoletti vem impulsionando sua veia poética, tornando-se o nosso grande poeta e um excelente memorialista. Em “Brumas da Mantiqueira” (Editora Thesaurus, Brasília) faz a sua exaltação à Barbacena, criando um dobrado, que ele ainda define como “samba-enredo”.

Fascínio por JK

O seu livro é isso: um samba-enredo, trazendo alas, adereços, conjunto, fantasias e muita história, com personagens formados por amigos, por familiares, por grupos sociais, culturais e esportivos, por colegas e gente do meio político, que fez com que ficasse famosa a sua Barbacena e os seus eloquentes políticos de uma Minas – boa de oratória – que por lá alguns viveram e de outros que por lá passaram, como o JK. Não poderia deixar de mencionar, dentre outros, Benedito Valadares, e a rivalidade histórica entre os doutores Bias Fortes e José

agora, é lógico que ele está a favor de nossa pátria. Ele é brasileiro, gente! Tem filhos brasileiros! Ama o Brasil!”. Esse homem-poeta com toda essa vivência, e por ser filho de uma mãe-coragem pelo seu discurso convincente, e por ter vindo da “cidade das rosas”, só poderíamos nomeá-lo como um de seus mais nobres jardineiros – sempre preocupado com a ecologia: louvando o canto do sabiá; descrevendo suas árvores frutíferas e ornamentais; lutando pelas castanheiras em sua querida Guarapari. Seu livro é recomendado por trazer tanta prosa, tão saborosa, flanando pela Rua Silva Jardim, Rua 15 de Novembro, Rua do Campo, pelo Grande Hotel, Confeitaria Colonial, Largo da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, Avenida Bias Fortes, Beco Treze, Rua José Bonifácio, Rua Baronesa Maria Rosa, Escola Normal Municipal, Colégio Imaculada Conceição, Escola Agrícola, Colégio Estadual, Clube Barbacenense, Praça do Globo, Cinema Apolo... Ah, Hotel Aliança, em seu ambiente agradável e de alto astral!

Bertoletti é vice-presidente da Guaracultura, associação de escritores de Guarapari

Bonifácio, chamando-os de caudilhos, que se digladiavam a cada eleição. Fascinado por JK, o nosso Luiz Vinícius profetizou: “Ele tem um carisma indiscutível. Creio que não será apenas governador. É bem provável que chegue à presidente da República”. Disse mais: “Juscelino tem sinos na voz”. E JK chegou. O nosso escritor, com a sua Berenice, da Belacap para Brasília se mudou; e lá por bom tempo trabalhou; e pela nova Capital Federal se encantou; e seus livros na Novacap publicou. Já a marcante presença do pai italiano em sua vida não foi abalada. Foi sim, fortalecida pela mãe, que mudou de nome – de Senhorinha para o sonoro Graciema, cujo significado indígena é Manhã de Sol, nome que foi escolhido por seu pai. Exaltada foi Graciema na crônica “Viva seu Abraão”! Crônica a que toda Barbacena de ontem e de hoje deveria ter tido acesso. Era o ano de 1942. O mundo estava

em guerra e Vinícius coloca Barbacena nesse cenário de hostilidade urbana, pelos defensores da pátria contra os alemães – os chamados nazistas – e outros descendentes de europeus (italianos) que habitavam a cidade, dando-lhe progresso e cultura. Sobrou até para seu pai, descendente de italianos, que, segundo nosso autor, amava mais Barbacena do que a maioria dos barbacenenses. Aí entra a defesa heroica da mãe – professora da Escola Normal. Apesar da pequena estatura, ela não temeu, e sim se agigantou lá de uma das janelas do sobrado, de onde falou à multidão furiosa que se aglomerou na Praça João Pessoa. O seu brado é patriótico e bem retratado por seu filho Vinícius. Ei-lo (pág. 72): “Meu marido é tão brasileiro como qualquer um de vocês, nascido aqui mesmo em Barbacena. É reservista do Exército, tendo servido em São João Del Rei. Enquanto o Brasil era neutro, ele torcia pela terra de seus pais, mas

Fatos e casos

A riqueza desse seu livro está em fatos e casos como: “O Burro e as Rosas”, “A Onça Pintada”, “Pessegada Verde Esmeralda”, “Laranja de Nova Iguaçu”, dentre outros, sob o “Toque de Silêncio” para seu primo Expedito, que preenchem as 158 páginas de “Brumas da Mantiqueira”. Soube, no entanto, recolher tantas lembranças que certamente encantarão o leitor, em especial o leitor que mora ou já morou no interior, e conviveu de alguma forma com tipos populares que fazem o folclore da cidade. Concluo esse meu discurso – de caráter crítico-literário – com esses versos de Vinícius Bertoletti, exaltando, com paixão, a sua Barbacena: “Minha terra tão querida, Barbacena, Para ti eu trago aqui este poema, Linda serra das Gerais; Dominando tão altiva e sobranceira, És princesa da formosa Mantiqueira, Perfumada pelos grandes roseirais”.


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falando de música

Pensar

por ANTONIO EMÍLIO

FALTAM CEM ANOS PARA 2112

2112 Rush. 6 faixas. Ano: 1976. Mercury. Quanto: R$ 51,90 (importado e remasterizado).

“E

os humildes devem herdar a terra...” (Salmos, 37; 11). Com essa citação bíblica, o Rush abre seu quarto álbum, lançado em 1976, que iria consolidar a carreira do trio canadense e elevá-lo ao patamar das maiores bandas do rock de todos os tempos: o épico “2112”. Breve história da banda até então: em 1974, Geddy Lee (baixo e vocal), Alex Lifeson (guitarra) e John Rutsey (bateria), adolescentes de Toronto, lançam seu primeiro disco, o homônimo “Rush”. Ainda nesse ano, Rutsey deixa a banda para a entrada de Neil Peart, formação esta que, após 38 anos, se mantem inalterada. Com a entrada de Peart, o Rush ganha não apenas um exímio baterista, mas também um culto e profundo letrista. Juntos lançam “Fly by Night” em 1975 e entram de vez no cenário do rock norte-americano. Ainda em 1975, colocam outro álbum no mercado, “Caress of Steel”, cuja marca são letras bem elaboradas, inspiradas em obras de ficção científica, de J.R.R. Tolkien inclusive, e longas suítes musicais. “Caress” ainda hoje não é bem compreendido e, na época, quase afundou o grupo, que estava em franca ascensão. A gravadora dos caras exigia uma guinada na carreira e na filosofia do grupo. Responderam com “2112”. “2112” é um álbum clássico. Sem saber de sua história, ainda assim, é imprescindível ouvi-lo. Conhecendo as circunstâncias em que foi gerado, o disco ganha um significado muito maior. Pois bem. O Rush tinha então dois caminhos a seguir: ou os músicos mudavam sua forma de compor, deixando de lado tudo aquilo em que acreditavam, se rendendo à indústria, ou se aprofundavam ainda mais nos temas conceituais e complexos e nas músicas longas. O que fizeram? Um álbum de ficção científica, cuja faixa-título, de 20:33 minutos, é dividida em sete partes, e ocupa um lado inteiro do vinil, inspirada na obra da escritora americana Ayn Rand e que retrata a luta e a vitória da arte contra a opressão. Interessante e familiar, não? A ficção é contada no ano de 2112, na “Federação Solar”, união de planetas onde os sacerdotes, dentro das muralhas das cidades, censuram a coletividade. Como diz a letra de Peart: “Nós temos tomado conta de tudo; as palavras que vocês ouvem, as canções que cantam; as imagens que dão satisfação aos seus olhos;... todas as dádivas da vida são mantidas dentro de nossas muralhas”. A coisa começa a mudar quando um dos habitantes da “Federação Solar”

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

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Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee, do Rush, em 1976, ano do lançamento do álbum “2112”: vitória da arte contra a opressão

ultrapassa os muros e encontra numa gruta um antigo instrumento musical. Empolgado com seu achado, ele vai mostrar a novidade aos sacerdotes que não a recebem de bom grado. Um trecho do diálogo diz assim: “– Eu sei que isto é muito incomum; vir perante vocês assim; mas eu encontrei uma maravilha antiga; pensei que vocês deveriam conhecer; ouçam minha música; e escutem o que ela pode fazer; há algo aqui tão forte com a vida; eu sei que ela tocará vocês. – Sim, nós a conhecemos, não é nada

novo; é só perda de tempo; nós não precisamos de coisas antigas; nosso mundo está indo bem.” A música gera libertação. Transforma as coisas. Tem um poder imensurável na vida das pessoas. O álbum retrata bem isso. Além da faixa-título, outras cinco completam o disco. O simbolismo da arte gráfica também é genial: um homem nu, que representa a pureza do espírito, lutando contra a estrela vermelha da “Federação Solar”. Para os fãs do Rush, “2112” não é apenas um disco. É uma hora apreciada

a cada vez que o relógio marca nove e doze da noite. É uma data comemorada como aniversário a cada 21 de dezembro. Infelizmente, não estarei vivo para presenciar o 21 de dezembro de 2112. Mas, como o rock não é modista, não é descartável, pelo contrário, é perene, eterno, tenho certeza que nesse dia, o supremo #rushday, as canções do álbum vão ecoar solenemente. Da mesma maneira solene que esse trio de sessentões se mantém tocando e compondo impecavelmente desde 1974 até 2012.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

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artigo

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por GILBERTO SUDRÉ

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

Para consultor em novas tecnologias, empresário foi um contrarrevolucionário que conseguiu captar as necessidades da sociedade e traduzi-las em produtos que mudaram a vida das pessoas

COMO SERÁ O MUNDO SEM STEVE JOBS?

AP

o que ele fez, o melhor deles. É inegável que Jobs conseguiu captar as necessidades da sociedade e traduzi-la em produtos, afastando os detalhes técnicos ou de configuração. Tudo isso, aliado a uma excelente estrutura de marketing, resultou na conquista de uma legião de fãs. O design agradável de seus produtos e a facilidade de uso tem um preço a ser pago: o controle quase que completo sobre tudo que entra ou sai de seus aparelhos e o consumo exclusivo de aplicativos e conteúdo vindos de uma única fonte. Para alguns, é um preço alto demais. Sua busca pela excelência é famosa. Steve nunca permitiu que a Apple fizesse produtos apenas razoáveis ou bons. Ele só aceitava os excelentes e levava isso aos seus colaboradores. Foi considerado um chefe que possuía carisma para liderar e motivar sua equipe, porém implacável, pressionando por melhores resultados e podendo demitir funcionários que não estivessem de acordo com o esperado. Toda essa exigência era reconhecida pelos concorrentes e forçou o mercado a elevar o nível de produtos e serviços para manter a competição. Com certeza, isso ajudou a mudar a maneira como vemos a tecnologia atualmente.

ESPECIALISTA ANALISA BIOGRAFIA DO FUNDADOR DA APPLE E PROJETA O FUTURO SEM O GÊNIO DA TECNOLOGIA

A

tecnologia está em praticamente todos os aspectos da vida moderna e o que influencia a tecnologia afeta diretamente a forma como vivemos e nos relacionamos. Uma das pessoas que alteraram profundamente nossa relação com as inovações foi Steve Jobs, um americano com uma história bastante peculiar desde o seu nascimento. História esta retratada ao longo das 624 páginas da biografia escrita por Walter Isaacson. Trata-se de um belo trabalho jornalístico que cobre a sua vida pessoal e profissional através de entrevistas com mais de cem pessoas, entre familiares, amigos, colegas de trabalho e até desafetos. Lançada em outubro do ano passado, a obra se tornou a mais vendida pela Amazon em 2011. Colocado para adoção, Jobs foi acolhido por uma família simples, com a condição imposta pela mãe biológica de que ele pudesse cursar a universidade. Foi um adolescente mimado, fã de Bob Dylan e que por vezes se parecia mais com um hippie pé-sujo. Ainda adolescente, acostumou-se a passar algumas horas por dia fazendo meditação zen. No ensino médio, encontra um de seus melhores amigos e

Questões

A pergunta que fica é: “O que esperar do mundo em 2012 sem Jobs?” Não teríamos a Apple sem Jobs e é improvável que outro profissional reúna os mesmos talentos dele. Será que continuaremos a ter produtos com design e uso inovadores, e com alto grau de qualidade, mesmo sem a presença de Jobs no comando? É sabido que ele deixou muitos projetos encaminhados e prontos para serem lançados; por alguns anos, ainda teremos sua presença em novos lançamentos, mas e depois? Desde seu primeiro afastamento por motivo de saúde ele trabalhou para criar uma equipe e processos que mantivessem seu DNA na empresa. Será que ele conseguiu? Só o tempo e o mercado dirão. Uma coisa é certa: tudo o que Steve Jobs fez foi com intensidade e paixão. Como ele mesmo disse: “Para se ter sucesso, é necessário amar de verdade o que se faz. Caso contrário, levando em conta apenas o lado racional, você simplesmente desiste. É o que acontece com a maioria das pessoas.”

PAUL SAKUMA/AP

futuro sócio, Stephen “Steve” Wozniak, cujo irmão mais novo era colega de Jobs na equipe de natação. A graduação promissora, tão desejada por sua mãe, foi abandonada em troca de um duvidoso curso de caligrafia, que posteriormente também foi deixado de lado por uma viagem mística pela Índia. Aos 20 anos, de volta aos Estados Unidos e em dupla com seu amigo Steve Wozniak, funda a Apple e cria o que viria a ser o primeiro computador pessoal do mundo. Dez anos depois, é expulso da empresa que ele mesmo criou por divergências com o conselho de administração. Fora da Apple, fundou a NEXT, uma outra empresa de computadores, e comprou do cineasta George Lucas, por 10 milhões de dólares, a produtora de animações Pixar. Depois de 11 anos e com filmes como a série “Toy Story”, “Os incríveis”, “Carros” ou “Monstros” no currículo, a Pixar foi vendida por 7 bilhões de dólares. Depois de muitos erros estratégicos e de quase falir, a Apple finalmente chama Steve Jobs de volta, agora com 42 anos, para tentar salvar a empresa. Nos anos seguintes vieram muitos sucessos,

como o iMac (marca de seu retorno à empresa), o iPod/iTunes (que revolucionou o mercado de venda de músicas), o iPhone (que inaugurou o sucesso dos smartphones) e o iPad (que mudou a forma como consumimos informações e o mercado editorial). A última década de vida de Steve Jobs foi provavelmente a mais produtiva e de maior impacto na sociedade, mas também foi marcada pela batalha contra o câncer no pâncreas. Uma trajetória e tanto.

Mercado

O executivo apresenta o computador Macintosh, em 24 de janeiro de 1984

Além dos aspectos tecnológicos e de inovação, existem outras questões a serem avaliadas na relação de Steve Jobs com o mercado. O sucesso da internet é, em grande parte, fruto da liberdade e democracia encontrada pelos usuários. Aparentemente, este modelo não está exatamente alinhado com o defendido por Jobs. A liberdade do usuário em fazer o que desejasse com seus produtos não era e nunca foi uma atitude aceita pela Apple. Nesse sentido, Jobs não era um revolucionário, mas um contrarrevolucionário, e considerando

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O jovem mago da informática no lançamento do computador Apple II, nos Estados Unidos, em 1977: a excelência como meta

Steve Jobs – A Biografia Walter Isaacson. Trad. Denise Bottmann, Pedro Maia Soares e Berilo Vargas. Companhia das Letras. 624 páginas. Quanto: R$ 49,90 (livro) e R$ 32,50 (e-book)


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 14 DE JANEIRO DE 2012

estudos literários por ESTER ABREU VIEIRA DE OLIVEIRA

O CORRESPONDENTE ESPANHOL DA AEL: SANTIAGO MONTOBBIO Colaborador da Academia Espírito-Santense de Letras fundamenta sua poesia no equilíbrio entre a tradição e a ruptura, com ecos de poetas anteriores ao Modernismo

DIVULGAÇÃO

Montobbio dialoga com a poesia contemporânea, prestando uma original contribuição para a poética de nossos dias, a partir de poemas baseados na metáfora

N

a Academia Espírito-Santense de Letras, além de seus membros, escritores capixabas e/ou já designados cidadãos de nosso Estado, que ocupam as quarentas cadeiras, encabeçadas por patronos, ilustres representantes da história cultural capixaba, há membros correspondentes e entre eles se encontra o escritor espanhol Santiago Montobbio. Na obra deste escritor, observa-se um equilíbrio entre a tradição e a ruptura. Ele dialoga com a poesia contemporânea, prestando uma original contribuição para a poética de nossos dias, na apresentação de poemas fundamentados na metáfora. Seus poemas refletem uma espécie de purgação de questões transitórias como a vida, a morte, a solidão, a marginalização, a consciência do tempo, uma reflexão melancólica sobre o amor, uma preocupação em apresentar o tema da tessitura e do conteúdo de um poema e o momento angustiante do ato de debruçar-se no papel: “Papel que a noite atira,/ papel com a luz às vezes,/papel ou fogo ou melhor/ a salvação triste”. Apesar de recriar o mundo poético com uma maneira peculiar, encontram-se nele ecos de poetas do século XX,

principalmente de escritores espanhóis, e de poetas anteriores ao Modernismo, como Ramón de Campoamor. Há temas ou expressões que nos recordam Juan Ramón Jiménez e alguns poetas da Geração de 27. Em “Absurdos principios verdaderos”, no poema “Para vivir no quiero islas palacios y qué alegria”, está claro o eco com o poema “Para vivir no quiero...“ de Pedro Salinas. Porém o que mais vincula Montobbio a Salinas é a apresentação de um amor distante, fora da realidade cotidiana, à margem do tempo e do espaço. A mulher do seu “eu poético”, com quem dialoga, se reflete em Outras, como no poema “Outra vida”, da obra “Absurdos principios verdaderos”: “ [...] Portas por onde tivesse mulheres/ que devorassem os olhos/ os invisíveis exércitos do medo,/ mulheres que soubessem do formigueiro oxidado/ que dão os vermes do dia,/ portas, mulheres, simplesmente mulheres/ na beira de um viver ou de um abismo,/ mulheres somente e que você pudesse salvá-las,/ resgatar seu nome do esquecimento em que você caiu/ e que lábios e palavras/ por um momento não cheirassem tanto a despedida.[...]. Com Luis Cernuda, os ecos poéticos montobbianos se relacionam na temá-

Perfil do autor Livros traduzidos para vários idiomas Santiago Montobbio (1966), residente em Barcelona (Espanha), formado em Direito, poeta e professor universitário, é membro correspondente da Academia Espírito-Santense de Letras. Suas obras já estão traduzidas do espanhol para o inglês, francês, alemão, italiano, romeno, dinamarquês, albanês e português. Algumas obras do autor: “Hospital de Inocentes” (1989), “Ética confirmada” (1990), “Tierras” (1996), “Los versos fantasma” (2003), “El anarquista de bengala” (2005), “Le théologien dissiden” (2008), “La poésie est um fond d’eau marine” (2011), “Donde tirita el nombre” (2010), “Absurdos principio verdaderos” (2011).

tica da solidão, da melancolia e de um amor frustrado, ou, em uma expressão poética como aparece em “Adiós último”, ”escura do amor ou do esquecimento”: “Na tenacidade escura do amor ou do esquecimento/ pensava ter do viver despedido”. O fundo e a forma dos poemas montobbianos são variados. Existem os longos poemas narrativos, alguns sombrios e com

imagens surrealistas, teatrais, cinematográficas, em decorrência de uma filosofia existencial; os poemas em prosa poética e os que contêm um humor amargo ou fina ironia (“A manhã estremece na esquina/ quando você fica mais menina”, em “Lo mejor del dia”, poema de dois versos, e “Obscuro mendigo e esperança”, em “Al final del Camino”, poema de um verso) Na poética, Montobbio relaciona o homem com o mundo, consagra suas experiências e sua relação entre ele e o mundo, entre o homem e a mulher, entre o homem e a sua própria consciência, mas não pretende embelezar, santificar ou idealizar o mundo que retrata. Por essa razão a sua representação não é falsa e nem é verdadeira, mas poética e, assim, como no poema “El mar está al final de algunos niños”, o “eu poético” encontra no signo do mar elementos para querer identificar-se com ele e integrar-se com o ser amado: “Habita seu coração e é talvez sua bússola,/ seu ritmo, seu pulsar. O mar está no final/ de tudo o que resplandece nesta vida./O mar é uma infância. O mar é a liberdade, a música./ Eu quero ser o mar que te encontre e te adivinhe/ quando a manhã acorde e em tua alma/ seu ritmo seguir, como uma criança/ que no final ou em seu coração o condense.)


poesias PARA QUE SERVE UM EGO LUCAS DOS PASSOS Para que serve um ego, eu te pergunto, e me perturba a ânsia da resposta. Sou quieto, seco, ou falo muito, diz, resolve se sou claro ou insensato. Eu sou grosso e sensível, veja bem: acima da razão a rima – ainda que, imodesta, se guarde, meio tímida, entre as estranhas margens do soneto. Ninguém me nota no ônibus lotado; me deixam tropeçar de porta a porta, e o ombro dói com a bolsa bem pesada. (Como pode uma dor ser elegante?) Erro dos meus óculos ao chinelo, sempre assusta o perigo da verdade.

crônicas SINCRONICIDADES por CAÊ GUIMARÃES Do que é composta a matéria dos sonhos? Agosto de 2011. Centro da França. O carro cortava a estrada desconhecida como faca quente corta um naco de manteiga. Movido a diesel, o motor ratificava a reconfortante sensação de abandono quando se está em solo estrangeiro. Uma igreja solitária, sem placa a lhe dar nome, sem santo a lhe dar asas, surgiu após uma curva. E um imenso vazio ao redor. Apenas a sonolência que acompanhava os três viajantes e nada mais. Uma construção medieval, toda de pedras, e um silêncio granítico na alma. Orleans ainda era a expectativa de vinho e pouso. Do que é composta a matéria da realidade? Outra estrada, semanas depois. Entre as curvas, tristes putas que poderiam ser russas, brasileiras, peruanas, tchecas. Entregues à própria sorte. Ventalló ficava para trás, um povoado de pedra no coração da Catalunha. Em outro carro, o diesel cantava a mesma triste

canção. Os dois ocupantes silenciaram diante das meninas que são jogadas nas estradas pela manhã por cafetões violentos, e recolhidas no fim do dia, com o soldo, o sal e o ódio da humanidade vertido em sexo sem tesão, porrada e seringas largadas no caminho. Semanas depois, na Barceloneta, um tapa em uma taça de cava, uns mariscos, um café. No restaurante, outras tristes putas, recém-chegadas da Rússia, cujos olhos brilhavam diante de um sorvete, enquanto sua cafetina – brasileira? Peruana? Tcheca? – comia uma salada saudável e atendia a insistentes telefonemas no celular. Just business baby, just business. Do que é composta a matéria da tristeza? Outubro de 1997, Palos de la Frontera, Andaluzia. Após receber um elogio pela fluência na língua de Cervantes, o jovem divide uma garrafa pequena de xerez e os bacadillos que tinha na mochila com um senhor que se disse plantador de

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morangos. O ônibus para Huelva surgiria em poucos momentos na curva da estrada, tantas percorridas até então, tantas por vir no porvir. O senhor reclama da vida dura, da falta de perspectivas, de ter que trabalhar como braçal até quase 60 anos. Ao saber que o mochileiro tem antepassados nascidos na pequena cidade, sorri com os dentes amarelados pelo tabaco e a pele curtida pelo sol. “Então você é um de nós”, afirma com os olhos perdidos nas oliveiras. Do que é composta a matéria da alegria? Algum mês perdido do ano distante de 1985. Estrada da Cascata do Galo, Domingos Martins. Na carroceria da caminhonete, meia dúzia de moleques sacolejam felizes. O ruído das águas caindo do alto da montanha acelera o coração do mais despenteado deles. Ao descer e se deparar com o véu de noiva, ele se pergunta como será o mundo em 12 ou 26 anos. Quantas estradas percorrerá? Como seguirá este trajeto? O que o destino lhe reserva? Após o mergulho nas águas geladas, esquece as divagações e pensa nas jabuticabas que estavam esperando para ser colhidas na última curva.

CAE Embatucado diante da paisagem – luz na capa do disco, rai das cores –, te vejo dor e céu, jabuticaba e lágrima (negra tinta) pelos podres desejos desta vila em berço eterno retumbando – antes riso largo, físico, agora encarcerado, curto gesto (matéria fina da melancolia). Tem alguma loucura nesse método, bem sei, temendo ser aceita – ou não; perdida na neblina, da fé ao ferro, a pupila preta vacila. E eu, a presa pretendida na canção, suspendo o tempo e deito: isso é normal.

DESCONSTRUINDO TOM ZÉ por JUCA MAGALHÃES

O NOVELO DE UM RIO o novelo de um rio gota a gota deliberadamente claudicante conluio erigido entre duros ossos protege seu leito de incauta dama categoricamente enovelado encolhido em previsível destino solitário torna-se leite amargo

AJOELHADO A TEUS PÉS Ajoelhado a teus pés como um gato, olhando teu corpo de baixo, eu nunca via a lâmpada lamber-te os cabelos.

Eu nunca soube dizer direito onde e quando nasceu a minha implicância com Tom Zé, que, coitado, nem deve saber da minha gloriosa existência, aliás, melhor assim, porque não gosto da música do cara e pronto. Quando convidado por Elaine Rowena para participar novamente do projeto Canto Solidário – homenageando a Tropicália –, aceitei com natural satisfação os artistas revisitados, sem imaginar que o destino irônico ia justamente me brindar com a missão ingrata de interpretar em pleno Carlos Gomes uma música do “gênio de Irará”. O título era “São, São Paulo”. Comecei a ouvir e parei pela metade, ruim da vida! O refrão – mezzo baladinha, mezzo canção de festival – era praticamente idêntico ao da principal música da “Noviça Rebelde” (!) e logo descambava para um sacode nordestino cuja (cuja?) letra se embrenhava em três longas estrofes intencional-

mente intrincadas, um porre de se decorar. Joguei a toalha e comuniquei que não ia cantar “aquela porcaria”, mas Elaine e Aguilar me convenceram, alegando que as outras músicas eram tão difíceis quanto (ruins?) e que eu poderia transformar em hardcore (?). A sugestão era até engraçada, mas não ia funcionar, entre outras razões, porque a banda de acompanhamento não era a Silence Means Death e eu não sou da família Cavalera. Resolvi aprender a música para, pelo menos, me preparar psicologicamente pros ensaios e – numa curiosa Síndrome de Estocolmo – acabei até quase gostando. Chegou a hora do show e eu naquela adrenalina típica. O cantor Marcos William me sacaneou, dizendo que eu não precisava ficar tão tenso, mas também não era ele quem ia cantar Tom Zé, enquanto Jace Theodoro, no espírito do canto solidário, disse que quando ele não fica

nervoso as coisas não rolam direito. Vinguei a galera do mal invertendo o refrão do Zé Irará para o da “Noviça Rebelde”, mas suspeito que o público nem percebeu. Então, só pra complementar o tanque, após os educados aplausos, saí do palco marchando e cantando: “dó é pena de alguém, ré quem anda para trás...” Ah, sim: e isso tudo fantasiado de Tropicália, tá? Peguei uma camisa estampada com o Grilo Falante e completei o “visual” com um velho chapéu de praia e enormes óculos de plástico azul que as crianças usam pra cantar “O Bom” nas apresentações do coral. Só fiquei mais tranquilo depois do espetáculo, quando encontrei um amigo que ficou surpreso ao saber que eu tinha feito parte da apresentação. Resumindo, meu povo: quem viu, viu e quem não viu vai poder ver no dia 19 de janeiro, quando o espetáculo será repetido. Chora, Fender Stratocaster!


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cultura popular

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por GEOVANA TABACHI SILVA

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ENTRE MEMÓRIA E HISTÓRIA: UNIDOS DA PIEDADE, BERÇO DO SAMBA CAPIXABA Documentário registra a construção da identidade dos moradores da Fonte Grande e da Piedade, a partir de sua relação afetiva com a agremiação, fundada em 1955 A passista Kelly Reis e o ritmista Lucas Reis, entrevistados no vídeo

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FOTOGRAFIA CEDIDA POR ALOÍZIO ABREU

de essa memória coletiva se expressa). “Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais.” Com o processo de mundialização a história passa a ser mais veloz, onde o novo dá as cartas forjando a sensação de hegemonia do efêmero, provocando a aceleração da história. Neste caso, segurar traços e vestígios é a maneira de se opor ao efeito devastador e desintegrador da rapidez contemporânea. O DVD ilustra na capa os morros da Piedade e Fonte Grande, tendo em vista evidenciar o samba como elemento de socialização local. O roteiro, a produção e a direção são de Geovana Tabachi, Jocelino Júnior e Marta Caretta (coordenação executiva do Grupo Raízes da Piedade), com coprodução do Olho de Vidro e apoio do Programa Rede Cultura Jovem da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).

Raízes da Piedade Batucada Chapéu do Lado, nos anos 40: origem da Unidos da Piedade

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memória social pode ser considerada a possibilidade de renovação das lembranças, a história vivida, física ou afetivamente, compondo a teia de significados resultantes da associação entre lembrança e esquecimento, tradição e modernidade. A compreensão da categoria memória não deve ser associada a algo do passado, porém um fenômeno que traz em si um sentimento de continuidade e de coerência, seja este processado individualmente ou em grupo, tornando-se o fator preponderante para o entendimento do pertencimento, não obstante sujeito a to-

dos os tipos de usos e manipulações. O documentário “Piedade Berço do Samba, Terra de Bamba” teve como foco a memória social dos moradores da Fonte Grande e da Piedade, onde foram enfatizados em suas lembranças fatos, acontecimentos e práticas relativos ao universo sociocultural do samba. São festas, comemorações e atividades rituais que indicam a existência de complementariedade entre o mundo festivo e o mundo cotidiano, a natureza pública e coletiva dos festejos. Estes se davam no improviso e aconteciam em qualquer ocasião, seja no carnaval ou aos domingos. Um tempo

em que o carnaval não era visto como espetáculo, mas considerado uma brincadeira, uma festa popular! Os episódios trazem registros de jovens e adultos, sobretudo, indicam percepções de saberes construídos a partir das formas de viver e compreender o mundo. Memórias dos hábitos, costumes, afetividades, ritos, encontros que formam o patrimônio cultural do Berço do Samba e delimitam sua identidade étnica e territorial. São algumas lembranças registradas nos vídeos, fruto de escolhas dos moradores em “dar vida” a algumas situações transmitidas por gerações anteriores. A continuidade das relações interge-

racionais mantém latentes os “lugares de memória”, exaltando o pertencimento através das lembranças de canções, batucadas, blocos, rodas de samba, confecção de fantasias, desfiles de carnaval, compositores, amizades e integração das comunidades, como parte das origens, das raízes e das transformações de cultura e história. A expressão “lugares de memória” é atribuída ao historiador francês Pierre Nora. Para ele, os lugares têm uma tríplice acepção: material (onde a memória social pode ser apreendida pelos sentidos), funcional (porque tem a função de alicerçar memórias coletivas) e simbólica (on-

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O grupo Raízes da Piedade foi criado em 2008 por jovens das comunidades circunscritas à Escola de Samba, com atividades socioeducativas e culturais voltadas principalmente para o público infantil. Em 2011, o grupo ganhou a participação de cientistas sociais e de um número maior de moradores. Contemplado por 7 editais públicos, o projeto inicial foi ampliado, tornando a Escola de Samba um Ponto de Cultura, em trabalho conjunto com a diretora social Marta Caretta. Os objetivos do Raízes da Piedade são constituir o Centro de Memória da Piedade a partir da valorização identitária; preservar da memória social e a cidadania, ameaçadas por situações características das cidades que vivenciam intenso crescimento urbano; e proporcionar olhares outros sobre a trajetória juvenil, numa comunidade caracterizada por grupos sociais de maioria de etnia negra. Fundada em 15 de janeiro de 1955, a Unidos da Piedade comemora amanhã seu 57º aniversário. É a primeira Escola de Samba nascida em terras capixabas, a

Samba de 1987 NOSSAS MATAS, NOSSAS FONTES, NOSSO SAMBA Grupo Raízes da Piedade: atividades socioeducativas e culturais na região

Eu sou como aquela folha Que o vento vai soprando, pairando no ar Sou obra da mãe natureza Sou guardião das matas e desta fonte a cantar Oh! Minha Fonte Grande És a rainha da minha inspiração Quisera rejuvenescer, voltar a ser criança E em suas matas me embrenhar Brincar com a passarada Colher lírios e rosas pra minha amada ofertar Se recordar é viver, viverei Minha Fonte em suas águas banharei

Aloízio Abreu, primeiro mestre de bateria da Piedade e do Espírito Santo

Capa do DVD “Piedade Berço do Samba, Terra de Bamba”

Vou me banhar com meu amor, vou me banhar Na fonte dos inocentes, corpo nu, pleno luar Como é belo relembrar, as lavadeiras nas fontes a cantar As pastinhas e o chuveiro de prata Na avenida em forma de cascata O toque da alvorada, que transformava o morro em alegria As festas de Lapinha e Congada Que só findavam ao romper do dia Vem, lua airosa, iluminar meu coração Piedade vem bonita e orgulhosa Emocionando toda multidão Mostrando que tem muitas histórias pra contar Vejam a euforia destes bambas Reluzindo a avenida com as coisas Deste morro onde mora o samba Amarra o Burro, bota o Chapéu de Lado Deixa Cair que o samba hoje é coroado

pioneira do samba no Espírito Santo. Sua sede é no Centro da Capital, no Chapéu do Lado (entre Fonte Grande e Piedade). Conforme narraram alguns de seus precursores, a escola foi criada em Piedade por um grupo de jovens sambistas, em 1954, e fundada em 1955, em Fonte Grande. Estes moradores viveram no Rio de Janeiro servindo o Exército ou trabalhando, conheceram o ritmo dos surdos e o trouxeram para Vitória, aprenderam a construir e tocar instrumentos, bem como compor letras de sambas. Fundaram batucadas e, posteriormente, blocos, como o Amarra o Burro. A Piedade surge da integração das batucadas, dos congos e das folias de reis. As Batucadas, Chapéu do Lado e Mocidade foram vizinhas, ainda que concorrentes, e se caracterizavam por grupos de foliões que saíam às ruas no carnaval. Estes eram em sua maioria trabalhadores informais. Nesse tempo o samba e o congo não tinham valor e ser sambista era sinônimo de malandragem. As mulheres que participavam da brincadeira eram chamadas de graxeiras, consideradas vagabundas, já que exerciam funções desprivilegiadas, como babás e empregadas domésticas. Além do mais, as representações relacionadas à cultura afro eram rechaçadas, vistas como atrasadas ao olhar das elites e muitas vezes proibidas pela polícia. A Piedade acumula 14 títulos de campeã, sendo o último em 1986, com o enredo “Sua majestade o café”, do compositor Edmilson Nascimento, o Caroço. É madrinha das demais escolas de samba capixabas e foi batizada pela Portela, quando esta veio a Vitória a convite do prefeito Mário Gurgel (1957-1958). Em 1987, conquistou o vice-campeonato, com “Nossas matas, Nossas fontes, Nosso samba”, de Edilson (Mosquito), Clay e Choroca, como uma maneira de homenagear e imortalizar a memória social local, exaltando as atividades das lavadeiras, do congo, das batucadas e do samba. Algumas informações contidas neste artigo são fruto da pesquisa realizada através do convênio entre Instituto Elimu Cleber Maciel e da Secult, intitulada “História e Memória nos Morros da Fonte Grande e Piedade”. Coordenada pelos antropólogos Osvaldo Martins e Geovana Tabachi, a pesquisa resultará em livro que aguarda publicação.


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conto por DEL ESTRELA

O DIA DEPOIS DE VOCÊ “Impressionante esse músculo chamado coração, que solta o grito abafado e se acalma novamente porque não terá a chance de lhe encontrar” – diz a narradora desta ficção inédita

T

inha nada para fazer... assim nada não era, era espera mesmo! Me encostei no canto da cozinha e abri um livro bem pelos meios... não gostei do que li, eu li algo sobre “memória poética”, uma memória onde a garota do tapete não entrava, apesar de bater na porta avidamente com um sorriso de quem viveu algo bonito, e ele com cara de pasmo, sei lá, por não ter vivido o mesmo sentimento com ela, apesar de ter partilhado da mesma coisa, não que aquilo deixasse de ser poesia para momento. Atualmente acho que estou enlouquecendo. Entrando na entressafra, naquele estado de quase obsessão, achando que tudo tem uma seta voltada para Você. Penso, repenso, e nada me faz focar. Nem mesmo os olhos desnudos de ti.

Tenho saudades, vontades, e não posso. Me calo. Me cego. Me finjo. Outra pessoa, aquela que não se importa... mas a essa altura eu poderia ser qualquer pessoa. Qualquer pessoa que não fosse eu mesma vivendo essa agonia que vem de dentro de mim diretamente disparada para você, chamada amor, desejo... Te vi ontem, no trânsito parado dos caminhos cortados. Impressionante mesmo esse tal músculo chamado coração, que vem na garganta, que solta o grito abafado, por

um momento rápido, e que se acalma novamente porque não vai ter a oportunidade de lhe encontrar novamente, não naquele instante. Dou uma conferida no retrovisor, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Pois bem, eu estava fora do lugar, fora de mim. Me esqueci onde nossos carros se cruzaram. Inclusive passei lá hoje de manhã, na tentativa em vão de me encontrar. Porque eu me perdi em outros lugares. Me perdi dentro do pensamento da lei que atrai a mim todas as coisas e agora, mais do que nunca,

pessoas relacionadas a você. Tentei me encontrar na porta de casa, onde te deixei, nas cores das paredes, nas fotografias... nas músicas habituais. Mas acho sempre que vou me encontrar no dia depois de amanhã, esperando sempre. Que absurdo! Tudo isso é minha “memória poética”. Síndrome que eu preferia não viver... nem essa, nem síndrome alguma. Vivo, como se fosse te encontrar no meio do caminho! Mas eu estou no meio do caminho, as coisas, os pensamentos, os desejos, as mãos atadas, as palavras, o tempo. Você anda por aí, dentro das casas, sem “memória poética” (eu espero que não, intimamente). Volto para cá, o mesmo lugar, as mesmas músicas, talvez a mesma bebida... mas sem o mesmo bom momento.


PensarCompleto1401