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Pensar

VITÓRIA, SÁBADO, 1o DE OUTUBRO DE 2011

www.agazeta.com.br

Cinema

PREMIADO EM CANNES, “A ÁRVORE DA VIDA” BUSCA O SENTIDO DA EXISTÊNCIA. Página 4

Música

O PERFIL DE MÁRIO REIS, A VOZ QUE ENSINOU O BRASIL A CANTAR. Página 5

Memória

UMA ANÁLISE DO VIGOR POÉTICO E LITERÁRIO DE MIGUEL MARVILLA. Página 8

Artigo

LITERATURA INFANTIL PRODUZIDA NO ESTADO RENDE BONS FRUTOS. Página 12

Estudos da mente COMO JUNG MERGULHOU NO INCONSCIENTE PARA PRODUZIR SUA OBRA DEFINITIVA.

Páginas 6 e 7


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 1º DE OUTUBRO DE 2011

quem pensa

Flávia Dalla Bernardina é advogada, bailarina e escritora. www.tubodeensaios.com.br

Andréia Lima é especialista em Jornalismo Cultural na Contemporaneidade. deia_limas@yahoo.com.br Oswaldo Oleari é jornalista, radialista e editor do Portal donoleari.com

Joel Fernando Brinco Nascimento épsicólogoemembrodaAssociaçãoInternacional deEstudosJunguianos. joelfbn@gmail.com Ester Abreu Vieira de Oliveira épresidentedaAcademiaFeminina Espírito-SantensedeLetras. esteroli@terra.com.br

Nayara Lima é escritora e graduanda em Psicologia pela Ufes. www.nayaralima-versoeprosa.blogspot.com

Tavares Dias é jornalista, escritor, mestre em Estudos Literários. tavaresdiasjorn@gmail.com

Aline Yasmin é gestora cultural e poeta. aline_yasmin@hotmail.com

marque na agenda prateleira Clube Capixaba do Vinil Encontro lembra a Rádio Difusora de Cariacica Amanhã, o Domingo do Vinil faz uma homenagem à emissora e aos locutores Durval Soares e Norberto Júnior. A partir das 12h30, na Praça Marechal Deodoro da Fonseca, em Cariacica-Sede.

Em fase de gravação CD destaca imigração açoriana no Estado

“Açorianidade Capixaba” reunirá 12 músicas do folclore açoriano nas vozes de artistas locais. A produção executiva é da secretária de Cultura de Viana, Fabiene Passamani, com produção musical de Amaro Lima e engenharia de áudio de Ricardo Mendes.

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de outubro

Magia com fantoche

s

Em comemoração ao mê s das crianças, a escritora Sil vana Sampaio realiza uma ses são de contação de histórias na próxima terça, às 14h, na Biblioteca Pública do Esp írito Santo. Entrada franca.

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Nardelli é artista plástico. www.nardelli.art.br

Maria Amélia Dalvi é mestre em Letras e doutora em Educação. mariaameliadalvi@gmail.com

Coletivo Peixaria reúne amigos que desenham porque gostam.

de outubro Modigliani no Palácio

O Espírito Santo será o primeiro Estado do Brasil a receber a exposição “Modigliani: Imagens de uma vida”, composta por obras do gênio italiano Amedeo Modigliani (1884-1920). A mostra, inserida nas celebrações do Ano da Itália no Brasil, estará exposta no Palácio Anchieta até 18 de dezembro, com 12 pinturas em óleo originais e 5 esculturas em bronze. No destaque, retrato da grande musa do artista, a pintora francesa Jeanne Hébuterne.

Cultura e Imperialismo Edward W. Said Um dos maiores críticos literários do século XX, Edward Said (1935-2003) mostra nesta obra como os pressupostos imperialistas influenciaram e continuam influenciando a política e a cultura do Ocidente, partindo da análise de grandes obras do século XIX até a cobertura jornalística da Guerra do Golfo. 568 páginas. Companhia das Letras. R$ 34

Sonetos Luxuriosos Pietro Aretino Primeira tradução em língua portuguesa dos versos despudoradamente eróticos escritos pelo poeta italiano Pietro Aretino por volta de 1525. Por meio de sonetos desabusados, lascivos e anárquicos, o autor satiriza os poderosos e a nobreza de seu tempo. 112 páginas. Má Companhia. R$ 19

Meu Samba, Minha Vida Cyro Monteiro Neste disco lançado em 1969, quatro anos antes de sua morte, o cantor preferido de Vinicius de Moraes deita e rola em sambas clássicos como “Tristezas não pagam dívidas”, de Ismael Silva, com a desenvoltura de quem era mestre na arte de modular e improvisar. 12 faixas. Microservice/Copacabana. R$ 16,90

Quadrafônico Alceu Valença e Geraldo Azevedo A estreia dos dois compositores, em 1972, no apagar das luzes da Era dos festivais, atesta o vigor criativo de canções como “Me dá um beijo” e “Planetário”, uma mistura explosiva de ritmos nordestinos com rock’n’roll. 12 faixas. Microservice/Copacabana. R$ 16,90

coletivodedesenho@googlegroups.com

MISTÉRIOS DO INCONSCIENTE

José Roberto Santos Neves

Há três meses, o Pensar publicou artigo de Ítalo Campos sobre a fuga de Sigmund Freud (1856-1939) dos nazistas, no final dos anos 1930. Hoje, retomamos os estudos da mente humana através do ensaio do psicólogo Joel Fernando Brinco Nascimento acerca do misterioso “O Livro Vermelho”, de Carl Gustav Jung (1875-1961). Especialista no tema, Joel descreve o contexto que levou o psiquiatra suíço a elaborar este que é um dos trabalhos mais importantes da história da psicologia, e cujo conteúdo só chegou ao conhecimento do público quase 50 anos depois da sua morte. Nesta edição, o leitor também

Pensar na web

confere uma análise da produção literária do saudoso escritor Miguel Marvilla, segundo a presidente da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, Ester Abreu. Miguel merece, os leitores merecem, a cultura do Espírito Santo merece. O Pensar agradece o prêmio concedido pelo blog literário Letra e Fel, coordenado pela poeta Renata Bomfim, membro da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras. Esse reconhecimento nos incentiva a buscar cada vez mais a excelência na produção do caderno.

é editor do Caderno Pensar, espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Confira faixa do CD “Quadrafônico”, de Alceu Valença e Geraldo Azevedo, trailers de filmes do diretor Terrence Malick, galeria de pinturas inspiradas no jazz, e trechos de “O Livro Vermelho”, de Carl Gustav Jung, e de outros livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br.

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

Pensar

por FLÁVIA DALLA BERNARDINA

OS FANTASMAS DE CADA UM DE NÓS

A

verdade é terrível, mas qual delas? Se cada ser humano carrega uma versão particular da vida, a verdade possui quantas faces? Antes de dar mais um giro em seu suspense “A outra volta do parafuso”, Henry James (1843-1916) nos oferece uma narradora sem nome – o pouco que conhecemos dela é que era a filha mais jovem de um pároco do interior, e que guardava alguma intimidade com o rapaz a quem confiou o manuscrito de sua história – que no livro é contada por esse rapaz, quarenta anos após o ocorrido. Na trama, a moça é contratada por um cavalheiro para ser a governanta de seus sobrinhos órfãos, Miles e Flora, cuja guarda lhe fora conferida após a morte de seu irmão militar na Índia. Como toda responsabilidade inesperada, as crianças haviam se tornado um ônus para o então cavalheiro. Ela aceitou a proposta de cuidar das crianças, sob a condição de nunca importuná-lo – “teria de enfrentar todos os problemas sozinha.” Bastou-lhe que o cavalheiro segurasse sua mão para que se sentisse recompensada. Henry James nos mostra que sua narradora é uma personagem extremamente comprometida, termo constantemente repetido no texto. Comprometida com a sua verdade, e por ela vai até o fim – seja lá o que isso queira dizer. Com as visões dos fantasmas que rondam a casa; com a maldade que vê nessas imagens e na crença que eles – os fantasmas – desejam seus pupilos. Ela precisava defendê-los, e para isso, “quanto mais ela visse, menos as crianças veriam.” Isso não a impedia de nutrir e invocar fantasias sobre o local, no tempo que chamava de “minha hora”, desejando intimamente, em seus passeios pelas alamedas, que alguém surgisse de repente, sorrisse e demonstrasse sua aprovação a ela. Pedia apenas que alguém soubesse. Soubesse do quê? De algo que só ela sabia, ou de algo que nem ela sabia sobre si e estava prestes a descobrir? De fato, algo estava prestes a aparecer. Como diz James, “no silêncio em que algo se agacha à espreita”. Segundo a narradora, os fantasmas – antigos funcionários da propriedade – eram “horrendos porque eram humanos, tão humanos quanto encontrar sozinha, na madrugada, numa casa adormecida, um inimigo.” A diferença é que nos encontros que teve com as

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A OUTRA VOLTA DO PARAFUSO Henry James. Tradução: Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras. 200 páginas. Quanto: R$ 23, em média

JOHN SINGER SARGENT/REPRODUÇÃO WIKIPEDIA

TRECHO “A história nos deixara, ao redor do fogo, um tanto eletrizados, mas, salvo a observação óbvia de que era horrenda, como, na noite de Natal numa casa velha, é de esperar que seja uma narrativa estranha, não me lembro de ter ouvido nenhum comentário até que alguém notou que era o único caso de seu conhecimento em que tal aflição ocorrera a uma criança. O caso, devo dizer, era o de uma aparição surgida numa casa velha semelhante àquela em que estávamos reunidos no momento — uma aparição, das mais terríveis, testemunhada por um menininho que dormia no quarto com a mãe e que a acordou apavorado; acordou-a não para que ela dissipasse seu medo e o tranquilizasse, e ele então voltasse a dormir, mas para que ela própria defrontasse, antes de conseguir fazê-lo, com a mesma visão que o abalara. Foi essa observação que provocou em Douglas — não de imediato, porém mais tarde naquela mesma noite — uma reação que teve a interessante consequência que vou relatar.”

Henry James, autor de “A outra volta do parafuso” (1898): terror psicológico

Página 7

assombrações nada se passou, a não ser um silêncio sepulcral, que se prolongou por tempo suficiente para lhe fazer questionar se estava mesmo viva. Há uma relação de reciprocidade – quase uma simbiose – da narradora com as aparições. Não só ela os via, mas também eles a viam e a reconheciam, como se já fossem velhos conhecidos. Havia uma intimidade nesses encontros. Aliás, ela já havia percebido que os fantasmas só estavam se ela os visse. Ela os constituía no mundo dos vivos. Diante dessa situação extrema, a narradora se descobre sensível e intuitiva, para descortinar-se diante do horror da verdade que descobre em Bly, no interior da Inglaterra. A verdade

enigma a ser desvendado. Henry James, ao mover a narradora, a cada página, em direção à sua própria natureza, conduz também a nós leitores a percorrer esse limbo que habita o âmago de cada ser. Em que acreditamos dentro de nós mesmos? É a provação de enxergar e agir, abrir o jogo sem rodeios. Todos hesitamos diante do abismo, mas é preciso dar o salto, como nos ensinou nossa anônima protagonista. “O caminho mais reto é seguir em frente”. Em frente e sozinhos, pois nem todos veem os detalhes da paisagem, nem os perigos de um belo sorriso – o que seria a verdade terrível ou a outra volta do parafuso da virtude humana comum.

terrível, que a encurrala, mas que também provoca seu movimento. As crianças são cândidas e condenadas, angelicais e perversas o bastante para que o leitor também duvide delas. Como diz a narradora, quando Miles e Flora não estavam sozinhos “eram velhos, bem velhos”. Tinham uma delicadeza perigosa, impessoal e incastigável. Eram calculadamente exemplares, como se começassem do início a cada dia. Ela estava enfeitiçada – e o feitiço havia começado a surtir efeito no momento em que se sentiu recompensada com tão pouco – um mero aperto de mão. O leitor, por sua vez, é arremessado à dúvida e levado além: questionamos se há


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 1º DE OUTUBRO DE 2011

cinema por ANDRÉIA LIMA

EM BUSCA DE RESPOSTAS PARA O MILAGRE DA VIDA Palma de Ouro em Cannes, “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, usa pretensão filosófica e discurso teológico para refletir sobre o sentido da existência, mas peca pelo didatismo

A

primeira imagem de “A Árvore da Vida” (2011), de Terrence Malick, é uma citação bíblica: “Onde você estava quando eu lançava os fundamentos da Terra, quando as estrelas da manhã cantaram juntas, e todos os filhos de Deus gritavam de alegria?” (Jó 38:4,7). A mensagem religiosa como prólogo desencadeia duas preocupações que serão desenvolvidas ao longo da película: em que consiste o milagre da vida? E como crer em um Deus que nos impõe também a dor? Esses questionamentos serão materializados em dois momentos do filme que se entrelaçam no tempo e no espaço: a perda de um filho em uma estereotipada família americana dos anos 1950; e o discurso imagético de criação do mundo desencadeado pelos pensamentos-prece da família. E isso, não raras vezes, resvala em pura autoajuda. O filme está em cartaz no Cine Jardins, no Cine Metrópolis e no Cine Ritz Norte Sul, em Vitória; e no Cine Ritz Beira-mar, em Guarapari. Envolto em arranha-céus, reuniões e tecnologia, Jack (Sean Penn) se recolhe em pensamentos que o levam a uma adolescência conturbada nas relações com o pai e pela trágica morte do irmão mais novo. Uma elipse temporal reconstitui esse percurso da família O’Brien apresentando um pai (Brad Pitt) extremamente austero mas que, muitas vezes, se revela carinhoso e frágil; uma mãe (Jessica Chastain) acolhedora e terna, elevada ao sublime pela luz e movimentos de câmera; e, finalmente, um Jack (Hunter McCracken) adolescente que transforma a admiração pelo pai em ódio e amargura.

Caminhos

Em “A Árvore da Vida”, Malick sugere, a cada novo enquadramento, a reflexão. Para isso, aponta – no início do filme – dois possíveis caminhos para o homem: o da glória, possibilitada pelo amor e o perdão; e o da natureza, preocupado apenas com a própria satisfação. Essas ideias se repetem incansavelmente ao longo da película e extrapolam nas divagações proferidas pelos personagens Jack (ora adolescente ora adulto) e pela Sra. O’Brien. Em um desses momentos, o discurso imagético assume a cena em uma retrospectiva esplendorosa da criação do mundo: são cerca de 20

No filme, em cartaz nas salas do Estado, Brad Pitt mantém atuação precisa como um pai extremamente austero

A filosofia vai ao cinema Com 67 anos de idade, o diretor, roteirista e produtor de cinema americano Terrence Malick já acumula mais de 40 de carreira. Nesses anos, foram apenas seis filmes no currículo, daí a grande expectativa a cada novo lançamento. O cineasta é formado em Filosofia pela Universidade de Harvard e chegou a dar aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Terra de Ninguém (1973) Neste filme Terrence Malick estreia como diretor. O roteiro é baseado na história verídica de Charles Starweather e Caril Fugate, ocorrida em 1958, e que chocou os EUA à época. Um jovem peão (Martin Sheen) desequilibrado mata o pai de sua namorada (Sissy Spacey) de apenas 15 anos, e foge com ela para Montana, onde faz novas vítimas, despertando, assim, a atenção da polícia.

conta a história de um jovem casal que decide se fingir de irmãos. Eles viajam ao sul dos EUA, e lá encontram trabalho numa fazenda no Texas. As coisas mudam quando o proprietário da fazenda se apaixona pela “irmã”. Além da Linha Vermelha (1998) A película é baseada em um livro de James Jones, e teve uma primeira versão para o cinema gravada pelo diretor Andrew Marton, sob o título “Heróis para a eternidade” (1964). No filme de Malick, um grupo de jovens soldados é enviado para o fronte da batalha contra os japoneses no Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial. Lá vivem os horrores da guerra, mas também desenvolvem grandes laços de amizade.

Cinzas do Paraíso (1978) Lançado em DVD no Brasil com o título “Dias do Paraíso”, foi todo rodado antes do amanhecer e do entardecer, já que o intuito de Malick era obter um efeito de céu claro, mas sem sinal de sol. O roteiro se passa no início do século XX e

O Novo Mundo (2005) Com or��amento de US$ 30 milhões, teve seu roteiro concluído nos anos 1970, mas foi só em 2004 que Malick deu início às filmagens. O filme se passa no século XVII, numa América do Norte já “descoberta”, mas ainda não colonizada: um continente de mata primitiva e várias tribos indígenas. É neste ambiente que aporta o navio Susan Constant, com parte de uma frota de três naus, composta de 103 homens enviados pela Inglaterra com o objetivo de fixar raízes culturais, religiosas e econômicas.

minutos de pura fruição com imagens da natureza – vulcões, florestas, montanhas, oceanos, o big bang, imagens do espaço etc. – em efeitos dirigidos por Douglas Trumbull (que trabalhou em “2001: Uma

Odisséia no Espaço”, de 1968), daí as inúmeras semelhanças com o filme de Stanley Kubrick. No elenco, Brad Pitt mantém uma atuação precisa como o pai severo, Sean

Penn dá sentido ao filho angustiado e em crise na vida adulta e Jessica Chastain está afinada como a mãe de tom angelical, mas é Hunter McCracken que rouba a cena. É incisiva sua interpretação da crueldade infantil e a transformação de um olhar inocente para um olhar cheio de rancor. Na parte técnica, o filme combina uma bela fotografia, efeitos visuais impressionantes e uma câmera contemplativa e, também, intimista. Os cortes bruscos de cena e a narrativa não-linear privilegiando as falas rogadas aos céus em vez dos diálogos entre os personagens, transformam a película em grandes recortes para uma filosofia de vida. “A Árvore da Vida” é, portanto, um filme-tese sobre o sentido de nossa existência. Com roteiro ousado, a obra desenvolve uma linguagem peculiar em que a história encontra-se diluída entre os personagens e a narrativa imagética. Porém, peca pelo didatismo e o excesso. A película se repete e torna-se arrastada ao retomar sempre os mesmos sentimentos ora no discurso proferido pelos personagens ora por imagens que parecem insistir numa representação do indizível. A trilha reforça o que já está em demasia, criando um efeito entediante. No filme de Malick, a busca por um discurso sublime a todo instante escorrega facilmente em uma propaganda de tom forçoso.


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falando de música

Pensar

por OSWALDO OLEARI

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 1º DE OUTUBRO DE 2011

MÁRIO REIS, PRECURSOR DE JOÃO GILBERTO

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indo dos cafundó de Minas Gerais, entre Aimorés e Itueta, lado Norte do Rio Doce, o rio da minha infância, aos 11 anos de idade já estava grudado num grande rádio Telefunken com olho mágico ouvindo as grandes emissoras do eixo Rio-São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Salvador. Nelas, aquele menino capiau começou a descobrir o mundo, encantado com a máquina que falava, onde ouvia gente cantando, fazendo novela, “reclames” do sabonete Eucalol, o Repórter Esso e seu islogan “testemunha ocular da história”. Época dos cantores de voizão, puxados por Francisco Alves – o “Rei da voz” –, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Gilberto Alves. Noutras vertentes, o “pau de arara” Luiz Gonzaga, Luiz Vieira, Zé do Norte, os que desceram com a riqueza musical do Norte-Nordeste para a meca do rádio, da música popular, do teatro. Fuçador, não desgrudava do butãozim de bisorá o “dial” e não custou a notar uma voz que em nada formava no pleilisti dos cantorzão, voz macia, sem dós de peito, sem agudões de estourar decibéis, esticados no final da canção, à tenores italianos. O primeiro “Gosto que me enrosco” com Mário Reis (31/12/1907-4/10/1981), num disco de 78 rotações por minuto, a gente nunca esquece. Menos de uma década depois, o capiau de subúrbio estava enfiado na discoteca da Rádio Vitória, investido na função de didjei pelo diretor Esdras Leonor e produzindo a programação musical. Logo substituiria o diretor no programa “Nossa Discoteca”. Os Cariocas, Quatro Ases e Um Coringa... e Mário Reis, Elvis Presley... cantorzão não rolava, só os “novos” – Lúcio Alves, Dóris Monteiro, Dick Farney – (lembrando que o capiau foi o primeiro didjei a tocar o primeiro de Maysa no rádio da velha sede da capitania) – e Mário Reis, que continuava soando novo.

Copacabana Palace

Neste 4 de outubro, aos 30 anos de sua viagem, rever sua história num caderno de eruditos é privilégio jamais imaginado pelo véi menino. Com origem na rica família Silveira, da célebre Fábrica Bangu, filho de próspero comerciante na Tijuca, Mário da Silveira Meireles Reis não era um sem teto: morou muitos anos no lendário Hotel Copacabana Palace,

depois de infância tranquila na Tijuca. Aos 15 anos, jogou futebol no time juvenil do América. Aos 19, a vida lhe pregou boas peças, tais como no curso de Direito – daí, o título “Bacharel do Samba” – ser colega de um certo Ary Barroso e ter aulas de violão. Com quem? Um tal de Sinhô, que conheceu na loja A Guitarra de Prata. Nessa época, a velha expressão “juntou a fome com a vontade de comer” era nova. Sinhô, do alto de sua majestade – Rei do Samba – encantou-se com a voz suave, brejeira, soprada em sussurros, breiquiando, do rapaz de 21 anos. Era 1928. Levou Mário pra gravar na Odeon dois de seus sambas: “Que vale a nota sem o carinho da mulher” e “Carinhos de vovô”, acompanhado pelos violões de Sinhô e de Donga. “Jura”, também de Sinhô, tornou-se um clássico de Mário, gravado em fins de 1928 e, depois, em 1951 e 1965. “Dorinha, meu amor” é do mesmo ano. Em 1929, Mário grava o primeiro do colega de Direito, compositor e pianista Ary Barroso, “Vou à Penha”. Nesse mesmo ano estreia na Rádio Sociedade cantando outra de Ary, “Vamos deixar de intimidade”, e grava “Gosto que me enrosco”, de Sinhô, outra das marcas da sua carreira. Cantaria em sucessivas emissoras, Rádio Clube, Rádio Philipes, no famoso programa “Casé” (avô de Regina, Ademar Casé) e na Rádio Mayrink Veiga.

Mário Reis na década de 1930, quando gravou sucessos como “Agora é cinza”, de Bide e Marçal: cantor de elegância impecável que ensinou o Brasil a cantar com a voz macia

Como um imã, atraía parceiros. Francisco Alves, safo e já tendo comprado uns sambas de Ismael Silva, forma dupla com Mário e gravam 12 discos, iniciados com "Deixa essa mulher chorar", de Brancura, e "Quá-quá-quá", de Lauro dos Santos. A dupla estoura com “Se você jurar”, em 1931, de Ismael Silva e Nilton Bastos... e Francisco Alves, um “comprositor” pioneiro. A dupla gravaria, faria turnês por Brasil e Buenos Aires com Carmen Miranda, Luperce Miranda, o exímio bandolinista, e outros. Em discos de 78 rpm gravou 98 músicas na Odeon, 47 na RCA Victor, 12 na Columbia e 8 na Continental. “Agora é cinza”, de Alcebíades Barcelos (Bide) e Armando Marçal, foi outro sucesso, que Mário Reis gravou em 1933 e em 1965. Em 1933, Mário grava um cateretê, “As cinco estações do ano” (Lamartine

Babo) com Lamartine, Carmen Miranda, Almirante e o célebre regional de Canhoto. E, em 1935, grava um “samba-rumba” chamado “Roda de Fogo”, de Lamartine Babo e Alcir Pires Vermelho. Afastou-se do rádio e do disco para voltar em 1939, a pedido de Dona Darcy Vargas, que patrocinou o espetáculo “Joujoux e Balangandãs” no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Cantou a canção-título em duo com Maria Clara Correia e “Voltei a Cantar”, feita por Lamartine Babo especialmente para ele, que a gravou no embalo, fazendo mais três discos. Apesar do sucesso, da origem e da elegância, Mário Reis sempre foi arredio a badalações, e nos anos 40 ele afasta-se novamente para trabalhar como oficial de gabinete da Prefeitura do Rio. Em 1960, ninguém menos que Aloísio de Oliveira, da Elenco, grava “Mário Reis canta suas canções em Hi-Fi”. Em 1967, grava “O Melhor do Samba” com Ciro Monteiro, Billy Blanco e Aracy de Almeida. Reúne seus eternos sucessos em 1971 num LP para a Odeon, sua primeira gravadora e último disco, lançado em xou de 3 dias no Copacabana Palace. Para pesquisadores sérios tipo Zuza Homem de Mello, o jeito novo eterno Mário Reis de cantar influenciou dois cantores brasileiros consagrados – Orlando Silva e João Gilberto.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 1º DE OUTUBRO DE 2011

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ciências humanas

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por JOEL FERNANDO BRINCO NASCIMENTO

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 1º DE OUTUBRO DE 2011

Psiquiatra levou 16 anos para escrever “O Livro Vermelho”, viagem exploratória pelo inconsciente produzida após rompimento com Freud; conteúdo só foi revelado quase 50 anos depois da sua morte

LIBER NOVUS: QUANDO JUNG TORNA-SE JUNG AO CONFRONTAR-SE CONSIGO MESMO, ESTUDIOSO SUÍÇO PRODUZIU OBRA ESSENCIAL PARA A HISTÓRIA DA PSICOLOGIA

I

magine-se ocupando a presidência da Associação Internacional de Psicanálise, o cargo de editor-chefe do “Jahrbuch” e do “Zentralblatt”, os principais jornais de psicanálise de então, presidir e organizar os principais congressos internacionais de psicanálise e ainda carregar sobre si a pecha de “Príncipe Coroado” e de principal sucessor e herdeiro de Freud. Aquele que carregará o bastão e a chama do legado da psicanálise, transmitindo-o às futuras gerações de psicanalistas, pós-Freud. Corria o ano de 1913, em pleno e tenso Congresso de Munique. Jung nomeia sua corrente de pensamento como Psicologia Analítica, diferenciando-a da Psicanálise de Freud, chamando de energia Psíquica o que Freud chama de Libido, e de Inconsciente Filogenético ou Coletivo os Resíduos Arcaicos do Inconsciente freudiano. Com o rompimento da relação Freud-Jung, matizada por um complexo paterno negativo (Freud correspondia a uma figura paterna para Jung), o suíço é brutalmente lançado em um longo período de ostracismo e de isolamento intelectual. Jung passa a contar apenas

consigo mesmo. É nesse exato momento que nasce o “Liber Novus”, um infólio em couro vermelho, subdividido em três capítulos, “Liber Primus”, “Liber Secundus” e “Escrutínios”(Investigações Internas), o inventário emocional de Jung e igualmente o momento nascedouro da clínica junguiana, e de suas principais técnicas, como a Amplificação e a Imaginação Ativa. Suas impressões iniciais a respeito de seus sonhos, visões e de outras formações do Inconsciente são registradas inicialmente em seis cadernos de couro preto, os “Livros Negros”. A partir de 1916, esses registros passam a ser caligrafados nesse infólio, “Die Rotte Buch”(“Livro Vermelho”), também chamado de o “Santo Graal” e a “Caixa Preta” da Psicologia Analítica, de grande valor para a história da psicologia em si. Em seu testamento, Jung expressou sua vontade de publicá-lo 50 anos depois de sua morte. Entretanto, após um período de 13 anos de negociações com a Sociedade de Herdeiros de C. G. Jung, na pessoa de seu bisneto Andreas Jung, o historiador da Psicologia Analítica, o indiano Sonu Shamdasani, adquire a confiança e os direitos de imprimir em fac-símile digitalizado e em tamanho original,

consulta ao “Livro Vermelho” era facultada ao círculo de discípulos imediatos de Jung e ao diretor de Estudos do Instituto C. G. Jung, fundado pelo pai da Psicologia Analítica.

O grande legado do ‘Livro “Liber Primus” Vermelho’ é a O “Liber Primus” (“O Primeiro Livro”) nos fala a respeito da morte do oportunidade de ou melhor, da morte simbólica aprendermos como Herói, de uma atitude heroica face ao InA morte da persona de Jung Jung lidava com a consciente. como analista, para que Jung se tornasse mais fundamentalmente ele. psique de seus pacientes e com “Liber Secundus” sua própria psique. O grande momento do “Liber Se—

Joel Fernando Brinco Nascimento Psicólogo e analista junguiano

o “Liber Novus”, (apelidado de “Livro Vermelho”), lançado mundialmente em outubro de 2009 (e publicado em português pela Editora Vozes). O “Livro Vermelho” original foi exposto no “Rubin Museum of Art” em Nova York durante 90 dias. Até então, a

cundus” (“O Segundo Livro”) encontra-se no capítulo intitulado “Noite da Dor”, no momento em que Jung diz: “A pedra de toque está a sós consigo mesma!” Como Jung poderia suportar o fardo de ser o que se é? Este é o problema com o qual Jung se depara. Citar Nietzsche é inevitável: “Procuraste o mais pesado dos fardos e encontraste a ti mesmo!”. Eis o ponto crucial de um processo analítico. Deparar-se e confrontar-se consigo

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REPRODUÇÃO

O LIVRO VERMELHO: LIBER NOVUS Carl Gustav Jung. Editora Vozes. 404 páginas. Edição e introdução: Sonu Shamdasani. Quanto: R$ 403,20 (www.editoravozes.com.br)

mesmo. Neste momento, chegamos ao ponto em que Jung volta-se para Jung. O ponto onde Jung torna-se Jung. É através de seu próprio confronto com o Inconsciente que Jung torna-se Jung. Seu próprio Rubicão. Antes de viver sua própria psicologia, Jung não se sentia qualificado a lecionar Psicologia. A ponto de o próprio Jung declarar, após seu confronto com o Inconsciente: “Tornei-me um servo de Psique”. De outra forma, nós não teríamos as obras que tivemos a partir de então, quando Jung passa a tomar e a assumir responsabilidade pela sua atitude diante de o Inconsciente e também pelo impacto consciente a respeito do que ele diz, sua tomada de consciência a respeito de o que significa falar de psique para psique, tornando-se um escritor mais psicológico, por assim dizer, desenvolvendo uma escrita mercurial, alquímica, que encontramos em “Relações entre o Eu e o Inconsciente”, onde constatamos uma articulação textual mais autêntica, mais original, completamente distinta do que encontrávamos até então. Daí o surgimento da mitologia junguiana: Persona, Sombra, Anima, Animus, o Velho Sábio, Self (elaborados a partir do diálogo mantido por Jung com as figuras do Inconsciente, como as noções personificadas das figuras de Salomé e de Philemon).

“Escrutínios”

As páginas que completam o “Livro Segundo” e o capítulo intitulado “Escrutínios” derivam-se de uma combinação de uma versão manuscrita e de textos datilografados dos “Livros Negros”, além das transcrições de Cary Baynes, principal secretária de Jung até então, entre 1924-1925. Em um diálogo interno registrado nesse capítulo, encontramos um exercício brutal de honestidade para consigo mesmo. O grande legado do “Livro Vermelho” é a oportunidade de aprendermos como Jung lidava com a psique de seus pacientes e com sua própria psique. Encontramos uma aula de anatomia da própria psique de Jung e de seu processo de Individuação. Esse episódio riquíssimo, da vida de Jung, nós encontramos em “Memórias, Sonhos, Reflexões”, no capítulo intitulado “Confronto com o inconsciente”. Tal confronto, que nos tornaria mais fundamentalmente nós mesmos, é uma tarefa de ordem pessoal, Dividido em três capítulos, “O Livro Vermelho” traz o inventário emocional de C. G. Jung e o nascedouro da clínica junguiana intransferível e inadiável.


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memória por ESTER ABREU VIEIRA DE OLIVEIRA

PARA LEMBRAR MIGUEL MARVILLA Em sua obra, composta por crônicas, poesias e ensaios, escritor usou a intertextualidade, a ironia e os jogos sintáticos e fônicos em busca de um diálogo mais direto com o leitor

FÁBIO VICENTINI/20/05/2005

Sou assim que sou nunca quem sabe me farão alguma elegia (?) MARVILLA, M. De amor à política, p. 26.

Academia Miguel Marvilla ocupava a Cadeira 16, na Academia Espírito-Santense de Letras. Nasceu em 29 de setembro de 1959, em Marataízes, e faleceu em 10 de outubro de 2009, em Vitória.

A

aproximação da primavera lembrou-me meu ex-aluno, compadre e afilhado Miguel Marvilla, e o seu verso: “Leve-me flores e uma valsa de Strauss”, do poema “Razão do poema imperfeito”, que ele me dedica e se encontra em “A fuga e o vento” (1980). Esta obra, como “De amor à política” (1979), contém alguns poemas eróticos, ou com dedicatórias a pessoas a quem ama, admira ou é grato, e ou com temas social/histórico, quando o poeta, sensibilizado com as dores e solidão do Outro, marginalizado socialmente, se sente impotente ante a terrível realidade que seu amor não domina.: “Caiu um homem, no Tietê./ Homem, homem,/cadê você?” (p. 38, 1979). Nessa obra, a nossa atenção se volta para o aspecto pontual do livro: política. Na pretensão de retratar os dias em que no Brasil havia um período ditatorial e de insatisfação, como no poema “Revolucionário”, o eu poético se revolta: “De boca a boca/o silêncio/prepara/ o troar dos canhões” (p. 39) e reflete e solidariza com o Outro, num jogo de palavras: “Sob/re alvorada”. Como um vanguardista, quebra as palavras numa disposição tipográfica expressiva. Deixa espaços em branco. Joga, ironicamente, com os vocábulos dando-lhes duplo sentido. Brinca, dispondo os fonemas ou cortando as palavras silabicamente para acelerar o ritmo (parindo/ rindo). No Poema “Cartilha”, p. 31, ele aponta o injustiçado politicamente e se revolta com o descalabro social e cultural dos governantes, apropriando-se do ritmo e da sonoridade das palavras: ivo viu a uva ivo tinha fome ivo pediu a uva ivo não ganhou a uva ivo então roubou a uva Miguel, poeta sincero, de linguagem despojada, anseia pela perfeição poética.

Perfil do autor

Obras De amor à política, 1979 A fuga e o vento, 1980 Exercício do corpo, 1980 Os mortos estão no living, 1988 Lição de Labirinto, 1989 Dédalo, 1996 Sonetos da despaixão, 1996 Tanto amar, Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de Vitória, 1991 Nelson Abel de Almeida: um homem e o espírito de um lugar (texto vencedor do Concurso "Nelson Abel de Almeida: o homem" Vitória), 1998 Jardins de Vitória (cadernos de meio ambiente da PMV), 1998 Luísa, Juliana, Sigmund, 2001 O Império Romano e o Reino dos Céus” (dissertação de mestrado), 2007 Estranhos companheiros (inédito) Estudo Sobre a poética de Miguel, é imprescindível a leitura de “Dédalo no centro do labirinto: Miguel Marvilla: vida e obra”, de Joana D’Arc Baptista Herkenhoff, 7º livro da Coleção Roberto Almada, Vitória: Secretaria Municipal de Cultura de Vitória, 2001.

Miguel Marvilla em 2005, com sua dissertação de mestrado “O Império Romano e o Reino dos Céus”: último registro de uma carreira prolífica

O seu conceito de poesia será eixo para várias criações. Ele torna indivisível poema e poesia e se integra nos dois: (“esses espaços preenchidos com palavras, a que chamam, respectivamente, poema e poesia, ou vice-versa, sou eu”). Ele enlaça sentimento (amor) com poesia, tornando-os uno, como no poema “Sintética”: o amor bolindo o peito: refutar. o poema é seu destino. (este calarfrio é um som que se propaga na carne e o corpo diz: ai!) Com artifícios poéticos, Miguel enriquece essas primeiras obras, adorna seus poemas com metáforas como “quero que quero ser paisagem/ na clara bóia da tua retina,”, (p. 22, 1980) ou “ [...] teu olhar floresce manhãs” (p. 43, 1980) e utiliza imagens poéticas dispondo as letras para representar a verticalidade da caída:

“barulho de estrelas caindo da n o i t e “[...](p. 42, 1980) Junto com Cláudia Brawin, Miguel lançou, numa linguagem simples, estudos de obras da literatura brasileira, portuguesa, inglesa e hispano-americana, no ensaio “Luisa, Juliana, Sigmund” (2001), cujo título se constrói com personagens de obras de Eça de Queiroz e de teorias psicanalíticas. Nesse livro os autores pretendiam “romper” com o academicismo da linguagem ensaística dando à deles tons livres pelo “uso do humor, da blague e da ironia”, localizados, principalmente, entre parênteses ou travessões. Com esses recursos, procuram dialogar mais diretamente com o leitor. O ensaio inicial é um

estudo do capítulo nono de Macunaíma, “Carta pras icamiabas”, no qual há uma mensagem de Mário de Andrade “sobre o bom estilo”. O último ensaio desse livro é “Hamlet e a razão louca”, união de estudos de Literatura e Psicologia. Para concluir, o escritor Miguel utiliza em crônica, poesia e ensaio, procedimentos de intertextualidade, de ironia e de jogos sintáticos e fônicos numa espécie de brincadeira com o leitor. Em suas obras poucas vezes há devaneios ligados à infância envolvendo um universo de felicidade. Porém a criança que permanece sob o signo da infância interdita, que impede de sonhar livremente para um além dos complexos, se apresenta no sarcasmo, no humor e no ritmo. Essa criança grande reforça a imagem idealizada, no emprego de um sentido metafórico, na ironia, na mudança de registro de expressão para inserir uma reprovação e nos jogos formais dos versos e das palavras.


poesias

crônicas

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VASTIDÃO

POR ALINE YASMIN

por NAYARA LIMA

não há amor no sangue que vaza se líquido é corpo amor – translúcido seria e não dor e histeria transplante enxerto ou anomalia ...

2 existe um rochedo fica no cume – alto donde a vista nem sempre alcança pra quem olha de baixo quem olha de cima e outros olhares diversos em ângulos retos que se perdem na distância

Quase que em carne viva, meu corpo tem sentido a arte. As estrofes todas têm me aturdido, e também o que há nas coisas que a gente só vê quando não repara. De repente vi que entre o palco e a plateia, por exemplo, existe um espaço vago que se tivesse boca diria os absurdos do vento. Diria, por exemplo, que o menino da quarta fileira, mais do que rir do palhaço, chorou por ele. Viu que o palhaço é triste, também, o que já é óbvio. Mas, para o menino, tão inédito. As paredes da casa retribuem minha mudez com a mudez delas. Tenho dito pouco, visto muito. Do excesso de mim tirei o nada necessário pra poder olhar em volta. O universo, mesmo este que não ultrapassa o bairro, é vasto. O tato das cores, a distração dos homens, o pombo que quinta-feira atravessou a

rua na faixa de pedestres me deixando atônita sorrir o imprevisível, e uma música do Tropicalismo que agora escuto em segredo. É vasto. Em paixão atordoada, guardo um livro de Hilda Hilst. Folheio suave, por fora, mas por dentro o batimento cardíaco de montanha-russa se depara com linhas sempre à beira da queda brusca e luxuosa. Guardo este livro de modo que não encontro, apenas para atravessar o tempo na busca pelo que toca. Hilda me tocou, sobretudo, quando disse aquele parágrafo agora escondido em mim, feito a música que entra. E João Gilberto entrará, com seus oitenta anos, numa nova turnê. No mês de novembro teremos em alguns palcos do Brasil o mestre da Bossa Nova, considerado dela seu precursor. Comunicar mais um tempo de João Gilberto no

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palco é sentir a alegria que na infância se sente quando voltar da escola se torna a certeza de que o lar existe. João Gilberto com seus oitenta anos cantando “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro, é o que me faz sentir casa, teto, verde, país, tarde, vida. Agora me recordo de algumas canções de Caymmi e sinto o mesmo. Infiltram-se em mim os acordes, a voz, a fragrância de cada nota. Até a do silêncio. Prestar atenção em volta é também descobrir, perplexa e conformada, o silêncio. Nem todo silêncio é mudo. Há quem já tenha me oferecido o próprio silêncio por longos dias, e eu sabia que estava assim recebendo algo de muito valor. Do palhaço triste a Pixinguinha, tenho percebido o valor inexorável do mundo. E deste instante. Este em que sei que coloco aqui a palavra nua. Palavra nua é esta que finge caber no vestido invisível de um texto que logo acabará. Mas que sabe, em tremor feliz, da impossibilidade de caber na própria forma. Palavra nua escapa na hora que ninguém imagina que chegou a hora de ela se esconder.

existe um rochedo nele uma rachadura que o cinde em dois o velho sísifo veria antes subir que entre ficar em vãos melhor rolar a pedra à chance de não erguê-la – fato

CARTA A “VOVÓ MAYRA” Por TAVARES DIAS

cada um que reconheça o próprio peso e ainda que se esforce e pese a pedra duradoura sobre as costas é melhor que a inércia – a inépcia ou qualquer forma de mumificação

3 retorno para que a criança seja mais uma vez certeza e engano e ao viver ao lado do abismo possa ver de perto a montanha repito coincidências quando tenho medo – danço não se pode ganhar uma guerra sem antes lutar deixei que me vissem fraca desarmada infeliz em vômitos e convulsões para que me vissem humana penso mesmo que os deuses não me esperam faço–me deus então na boca da quimera e como tantas bruxas que queimaram eu mesma acendo o fogo da fogueira e ardo têmporas publicamente feliz em sonhos e confissões para que me vejam humana como bruxa ou criança que aprendeu a dançar – livremente ...

Prezada “Vovó Mayra”: Tenho visto cartazes seus, pregados em postes. Peço licença, portanto, para perguntar alguns detalhes a respeito da sua especialidade. O seu material diz o seguinte: “Faz e desfaz qualquer trabalho. Traz a pessoa amada aos seus pés, em sete dias”. Omitirei seus números de telefone, para lhe poupar um súbito quadro de demanda reprimida. Acredite, não sou movido por sentimentos menores. Mas a gente vê de tudo, na TV, nos jornais, nas revistas, e mesmo nas praças públicas. Consultores prometem transformar o meu botequim de banana numa lustrosa, vistosa e rentável empresa, em dois tempos. Imagine a Vovó que um raizeiro já sacudiu diante do septo do meu cético nasal uma poção supostamente capaz de me tornar um sujeito não apenas super bem-dotado como também priápico fulltime. Aos 60 anos! Preço?

“Uma é cinco, três é 10”. Compreenda, tive de recusar. Imagine o trabalho que o meu alfaiate teria para esconder, do público, o que até hoje tem, com perdão da imodéstia, brilhado em privado. Então, me diga, por favor: A senhora faz trabalho de moralização de administrações públicas? É capaz de desentortar o caráter de um sociopata que sonhe em entrar na política só para se locupletar, delírio que traz da infância, quando roubava brinquedos e usava o talento de coleguinhas, sem pudor nem remorso, pra conseguir colar e passar de ano? Consegue fazer um racista compreender que o infeliz é ele, e não o discriminado, já que é o seu próprio seu coração analógico que não dispõe do hardware necessário para reconhecer, no outro, um irmão, e então com ele celebrar a vida? Quanto a trazer “a pessoa amada a seus pés”, como é que a senhora faz

para atender ao pedido sem deixar de respeitar a escolha do outro, o novo amor da outra pessoa? E, mesmo em caso de total harmonia, não daria para a senhora levar o (a) amado (a) ao coração do (a) contratante, em vez de aos pés? Pra que é que eu ia querer ter aos meus pés a mulher que tanto amo, respeito e por cuja presença tanto anseio? Não tinha aí um jeitinho, nem que pagasse algum por fora, de fazer com que, em vez disso, nossos corações se encantassem e nossos olhares se acasalassem feito canarinhos na primavera? Ah, em tempo: a senhora poderia dar um “Del” no toc-toc dos saltos altos nas calçadas e nos corredores de edifícios comerciais e, principalmente, residenciais? Aí, Vovó, ia ser nicho novo, um hype, sucesso total. Logo, logo, quem quisesse dispor de sua consultoria ia ter de procurar lá no seu office avançado, em Miami.


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ensaio

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por NARDELLI

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JAZZ E PINTURA: FEITOS UM PARA O OUTRO O intercâmbio entre as duas artes nascido no início do século passado proporciona a criação de obras marcadas pela abstração e pela livre improvisação

O

intercâmbio entre o jazz e a pintura tem início na década de 1910, época em que tanto os músicos norte-americanos de jazz quanto os pintores da vanguarda europeia pareciam ter encontrado no ritmo e no improviso novas perspectivas para suas respectivas artes. Isso não significa supor que haja pioneirismo ou exclusividade nessa relação entre cores e sons: a milenar música clássica chinesa, vale lembrar, sempre foi indissociável da pintura. Muitas das experiências da música clássica europeia encontraram na imagem sua inspiração ou, ao contrário, sua representação. Quem poderia esquecer, por exemplo, do sonho genial de Richard Wagner, o de construir sua utópica Gesamtkunstwerk, ou seja, a obra de arte total? Partindo do modelo adotado na tragédia grega, onde texto e música eram conceitos indissociáveis, Wagner pretendeu reunir cinco elementos que formariam, segundo ele, a obra de arte total: o tema dramático, o texto, a orquestra, a voz e a imagem que, em Wagner, deve ser entendida como um complexo formado pelos painéis, figurinos, iluminação, sombra e movimento. Embora tenha obtido êxito em quase todos os elementos que integram a ópera, Wagner nunca conseguiu em vida elaborar a imagem perfeita de sua Gesamtkunstwerk, restando-nos contudo as pinturas que Arthur Rackham, Aubrey Beardsley e Ul de Rico, entre muitos outros, produziram a partir das obras do mestre de Leipzig. No caso do jazz, é preciso entender seu contato com a pintura como um produto específico, fortemente caracterizado pelo papel do improviso, contido no interior de um momento onde a abstração tomava conta da pintura e a cultura era tomada de assalto por reclames de liberdade em todos os níveis. Se agora a pintura queria mergulhar na perigosa liberdade oferecida pela abstração, nada melhor que aproximar-se da arte considerada abstrata por definição e natureza: a música. Foi assim que Pablo Picasso pintou cenários para Erik Satie e Paul Klee pintou seu fabuloso “Trio Abstrato”. Desconsideradas as casas de ópio, nada poderia ser

mais adequado ao espírito artístico do início do século XX que a reunião da abstração com a livre improvisação. Daí, para os pintores chegarem ao jazz, bastaram uma audição e um olhar. Em 1913, após ouvir o blues em Nova York, Picabia pinta seu “Chanson Nègre”. No mesmo ano, Sonia Delaunay, mãe de Charles, que fundaria a revista “Jazz-Hot” em 1935, pinta “Le Bal Bullier”, inspirada no foxtrot. Em 1915, além de enviar partituras de ragtime para Cocteau, Albert Gleizes pinta uma série de quadros inspirados nas noites que passou com Marcel Duchamp nos primeiros clubes de jazz do Harlem, em Nova York. Em 1918, também em Nova York, Fernand Lèger expõe “Les Disques”, obra que causa forte impressão em alguns músicos de jazz, que a tomam como inspiração para improvisos. No mesmo ano, Marcel Janco pinta “Jazz 333”. Foi também em 1918 que o pintor norte-americano Gerald Murphy instalou-se na Cote d’Azur, levando consigo aquela que seria a primeira boa coleção de álbuns de jazz da Europa.

Picasso

No ano seguinte, Man Ray produz “Jazz”, uma de suas primeiras obras em aerógrafo. Pablo Picasso, que desde sua fase azul – ver, por exemplo, “O velho guitarrista”, de 1903 – já confessava em seus trabalhos sua paixão pela música, faz clara referência aos músicos de jazz em suas duas telas “Three Musicians”, ambas de 1921. Em 1923, Fernand Léger produz os cenários e os figurinos para o balé “La Création du Monde”, de Darius Milhaud, composto sob influência direta do jazz e, em 1925, Yves Tanguy faz sua primeira exposição, no Salon de L’Araignée, apresentando uma série de silhuetas de músicos de jazz. Enquanto isso, na geométrica e alemã Bauhaus, Kandinsky pintava uma série intitulada “Swinging”, ao passo que, na França, Henri Laurens faz o retrato da dançarina norte-americana Josephine Baker, grande sensação da Paris dos anos 1920 e que seria retratada por outros artistas importantes, como Paul Colin e Van Dogen. Em 1926, Frantisek Kupka pinta suas primeiras telas sobre jazz, entre elas “Le

DIVULGAÇÃO

Pintura “Trio Abstrato”, de Paul Klee: olhar lírico sobre a riqueza do jazz

Jazz Band Machiniste”. Mais tarde, na década seguinte, Kupka voltaria ao jazz, com sua série “Jazz Hot”. No ano seguinte, o jazz atinge o expressionismo alemão, como demonstram alguns trabalhos de Otto Dix e Max Beckmann, este último com nítida fixação na corneta, instrumento que permeia toda sua obra. No Novo Mundo, Stuart Davis, um notívago habitante do Greenwich Village dos anos 1930, faz do jazz sua principal fonte de inspiração, como demonstra sua série intitulada “Pads”, onde os improvisos do jazz são traduzidos através da combinação de infinitos planos coloridos. Nas horas vagas, será ele o responsável por apresentar Mondrian aos clubes de jazz de Nova York, onde o mestre dos retângulos morreria em 1944. São dessa época, e sob essa influência, as últimas obras-primas de Mondrian, como a bem conhecida “Broadway Boggie Woogie”. Três anos mais tarde, Henri Matisse publicaria “Jazz”, talvez a mais importante coletânea de estudos gráficos sobre ritmo e movimento do século XX. Ainda nos anos 1940, músicos e pintores resolvem tentar uma colaboração em tempo real: enquanto os músicos improvisavam, os pintores pintavam. Os primeiros registros oficiais

desse intercâmbio parecem ser os de Jean Berthier ao lado do contrabaixista Henri Texier, em 1966. Célebre, ainda nesse contexto, é o encontro de Georges Mathieu com o baterista Kenny Clarke. Na década seguinte, com o surgimento do long-play, as capas dos discos passariam a servir de excelente base sobre a qual muita arte seria produzida – basta lembrar a pintura de Chirico incorporada ao álbum “Misterioso”, do pianista Thelonious Monk, músico que seria retratado por vários mestres, entre eles Victor Bauner, em 1948. Outros artistas se destacaram nessa arte das capas, tornando a música quase visível e mastigável, como David Stone-Martin e Raymond Moretti para a Verve, Andy Warhol para a Blue Note e Edmond Khon para a Pacific Jazz, sem falar no símbolo do selo Pablo, cujo autor é Picasso.

Cores fortes

É também na década de 1940 que observamos o surgimento do grupo Cobra, formado por jovens artistas dispostos a compor livremente seus quadros, através de cores fortes e traços improvisados. Entre seus integrantes, vários mantiveram sólidos e explícitos laços com o jazz, como Corneille (Bebop Orchestra), Karel Appel (retratos de Count Basie, Miles Davis e Charles Mingus) e Jacques Doucet (Homenagem a Armstrong). São também dignas de nota as pinturas de Jean Dubuffet acerca das jazz bands desse período. Na mesma década, mas do outro lado do oceano, a maioria dos artistas mergulhados na abstração e na action painting mantém contato, ainda que não sistemático ou permanente, com o jazz. Entre eles, é preciso destacar Franz Kline que, desde seu “Jazz Hot” de 1940, até seu “King Oliver” de 1958, é confessadamente o pintor norte-americano mais seriamente influenciado e dedicado ao jazz, ao lado de Romare Bearden, Sam Francis, Jacob Lawrence e alguns outros, como William Henry Johnson ou Norman Lewis, um apaixonado pelo jazz que adota o método da pintura automática, improvisada e fortemente colorida. Durante essa década e a seguinte, o relacionamento entre a pintura e o

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À esquerda, obra “Jazz Hot” (1940), de Franz Kline, um dos pintores norte-americanos mais influenciados pelo jazz; no alto, capa de disco do saxofonista Illinois Jacquet desenhada por David Stone-Martin nos anos 50; e a famosa pintura “Três Músicos” (1921), de Pablo Picasso. Abaixo, capa produzida por Andy Warhol para o disco “The Congregation”, do saxofonista Johnny Griffin, lançado pelo selo Blue Note em 1957

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jazz é profuso, atingindo situações extremas na década de 1960, como é o caso da exposição “L’Age du Jazz”, ocorrida entre 29 de abril e 24 de maio de 1967 no Musée Galliera, onde foram reunidos os trabalhos de cem artistas sobre o tema. Outro aspecto pouco lembrado no que diz respeito a esse intercâmbio, mas igualmente interessante, é o fato de que vários músicos de jazz dedicaram-se à pintura, como Django Reinhardt e seus nus neo-naifs, Charlie Parker e seus retratos de família, Miles Davis e suas monstruosas figuras femininas e Pee Wee Russell. Alguns chegaram ao extremo, como o saxofonista Larry Rivers, que abandonou o jazz pela pintura. No contexto do Free Jazz, onde Jackson Pollock reinou quase absoluto, diversos personagens do jazz experimentaram o pincel, como Ornette Coleman, Don Cherry e Paul Bley. E o relacionamento entre as duas artes prossegue, desde a homenagem que Magritte prestou a Louis Armstrong em 1976, até nossos dias, com os espetaculares cartazes que Niklaus Troxler e Günther Kieser desenvolvem para festivais de jazz, os retratos de Bessie Smith, Duke Ellington e Charles Mingus pintados por Antonio Frasconi e os movimentos da nova figuração e do

graffiti, nascidos em Nova York e muito bem representados por artistas como Jean-Michel Basquiat, Pierre Alechinsky ou Keith Haring. Aos interessados em conhecer melhor as relações que ainda persistem entre o jazz e a pintura, não será fácil escolher que trabalhos recomendar, mas nada impede que se comece com artistas como o exótico Chris Ofili, o pontilhado Roy Lichtenstein, a coloridíssima Elizabeth Murray e até mesmo a inusitada “Self jazz eu”, pintura realizada pelo escultor brasileiro Ernesto Neto. Hoje, no Brasil, mais precisamente em São Paulo, existe um grupo de desenhistas, ilustradores e artistas que, reunindo-se regularmente em bares, clubes e restaurantes, tem representado em cadernos, folhas de papel ou até mesmo em guardanapos suas impressões sobre as apresentações de jazz, ao vivo. O grupo, que se autodenominou Sketch Jazz e se reúne às quintas-feiras, já chegou a contar com 15 desenhistas em certos eventos, o que vem alterando positivamente a rotina dos shows de jazz em São Paulo. É sempre muito estimulante, ao final do show, verificar como uma mesma performance musical pode ser representada de maneiras tão distintas. Pelo visto, jazz e pintura foram feitos mesmo um para o outro.


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artigo por MARIA AMÉLIA DALVI COM ILUSTRAÇÃO DO COLETIVO PEIXARIA

LEITURA PROIBIDA PARA QUEM É CHATO E BOBO Nos últimos cinco anos, a literatura infantil produzida no Espírito Santo apresentou trabalhos marcados por diálogos intertextuais, respeito às diferenças, folclore e filosofia

U

ma coisa está clara, ou claríssima, diria a espevitada marquesa Emília: a literatura infantil ainda é olhada de lado, porque há quem tome essa produção como desimportante, subserviente às práticas educativas, feita para o mercado. Atitude de quem há muito tempo não abre um livro para crianças; ou então se restringe aos caça-níqueis, que proliferam também no mundo da leitura adulta. Só nos últimos cinco anos foram publicados ou republicados como infantis trabalhos assinados por nomes de peso: Clarice Lispector, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, Lya Luft e Zélia Gattai, para ficar em alguns, apenas. Sejamos honestos: a crítica “passa batido” por um sem-fim de trabalhos que mereceriam o crivo de especialistas. Mas, na dúvida, um bom livro para crianças é aquele no qual os leitores adultos encontram o mesmo prazer de quando devoram Homero, Mallarmé, Mishima, Pepetela ou Shakespeare. Quem der chance a pelo

menos uma dúzia de nossos melhores títulos infantis concordará comigo – não à toa, o Brasil tem autores e ilustradores premiados e reverenciados no mundo inteiro. No bojo da construção da noção de infância, a partir do século XVIII, se deu também a invenção do leitor-mirim; no presente, falamos de infâncias e, portanto, sinalizamos distintos modos de se fazer, ler e pensar literatura para esse público. O adjetivo “infantil” indica o leitor virtual de certo tipo de texto literário, construído com frequência de modo híbrido, pela fusão entre linguagens (como a verbal, a visual, a sonora e a tátil). Mas infantil, convenhamos, é muito diferente de infantilóide. Adentramos, assim, numa questão importante: o que as crianças capixabas encontrariam de interessante sob o rótulo de Literatura do Espírito Santo? A nossa produção literária para crianças, alinhada à produção nacional, passou por pelo menos três grandes fases: a) do Brasil Colônia à década de 1930, marcada pela exemplaridade e pela doutrinação; b) de 1930 a 1980, marcada pelo relativismo de valores e

Sejamos honestos: a crítica “passa batido” por um sem-fim de trabalhos que mereceriam o crivo de especialistas pela expansão dos recursos editoriais; e c) de 1980 à atualidade, marcada pelo experimentalismo, pelo dialogismo, pelas questões cotidianas e pela incorporação de temas transversais. É claro que, dos anos de 1980 para cá, a literatura infantil produzida no Espírito Santo deve muito a nomes como, por exemplo, o de Francisco Aurelio Ribeiro – seus livros “Era uma vez uma chave” e “O gato xadrez” foram marcos na minha própria his-

tória de leitora. Mas, se fosse fazer uma seleção de títulos lançados nos últimos cinco anos para os miúdos, cá nessas bandas, escolheria: “Guido, a folha e o capim” (de Paulo Roberto Sodré, 2010), que, com belíssimos diálogos intertextuais e ilustrações delicadas de Icléa Santos, descortina o mundo-interior para o menino protagonista; “O gato verde” (de Ilvan Filho, 2009), que, a despeito da explicitude da moral final, constrói uma trama que prima pelo respeito às diferenças; e “O menino e a atiradeira” (de Fabiano Moraes, 2007), que, com ilustrações de Walter Lara, conta a história de um menino cachoeirense diante da dor e da responsabilidade de ter matado um bichinho inadvertidamente. Por fim, deixo ao leitor juvenil duas dicas quentes: “Crinquinim e a puxada de mastro” (de Luiz Guilherme Santos Neves, Reinaldo Santos Neves e Renato Pacheco, 2008), e “Iara e a arca da filosofia” (de Maurício Abdalla, 2008). Começando por esses títulos aí, nossos futuros leitores serão, certamente, bacanas e pra lá de espertos – no que há de melhor (e maior) em cada um desses adjetivos.


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