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Pensar

VITÓRIA, SÁBADO, 24 DE MARÇO DE 2012

www.agazeta.com.br

DIVULGAÇÃO

Entrelinhas MANINHO PACHECO COMENTA O ROMANCE A CASA DOS MACACOS, DE SARA GRUEN. Página 3

Letras

KARINA FLEURY ANALISA A PRODUÇÃO POÉTICA DE WILBETT OLIVEIRA. Página 4

Música

ERICO MANGARAVITE DESTACA A RIQUEZA SINFÔNICA DE DEBUSSY. Página 5

Memória

O TALENTO E AS CANÇÕES DE NEWTON MENDONÇA, POR CARIÊ LINDENBERG. Páginas 10 e 11

Florbela Espanca em acrílica sobre tela de Fabíola Menezes

Imagens poéticas MOSTRA SOBRE POETAS PORTUGUESES PROPÕE RELAÇÃO ENTRE ARTE E CRIAÇÃO LITERÁRIA

Págs. 6, 7 e 8


2 Pensar

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 24 DE MARÇO DE 2012

quem pensa

Maninho Pacheco é jornalista, designer gráfico e publicitário. maninho.pacheco@uol.com.br

Karina de Rezende Tavares Fleury é doutoranda em Letras (com ênfase em Estudos Literários) pela Ufes. karina.fleury@gmail.com

marque na agenda prateleira Palestra Escritores decifram Nelson Rodrigues

Gilbert Chaudanne e Wilson Coêlho vão falar sobre a obra do dramaturgo, dia 26 de março, a partir das 19h, na Fafi. O evento integra as comemorações do centenário do escritor.

Patrimônio histórico Redescobrindo o Parque Moscoso

Erico de Almeida Mangaravite é servidor público e frequentador de concertos e óperas. ericoalm@gmail.com

Paulo Roberto Sodré é escritor e professor do Departamento de Línguas e Letras da Ufes. paulorsodre@bol.com.br

Renata Bomfim é escritora, mestre e doutoranda em Letras pela Ufes. Autora do blog www.letraefel.com

Sonia Rita Sancio Lóra émembrodaAcademiaFemininaEspírito-Santense deLetras. soniasanciolora@gmail.com

Caê Guimarães é jornalista, poeta e escritor. Publicou quatro livros e escreve no site www.caeguimaraes.com.br

Ana Cristina Costa Siqueira é professora de Língua Portuguesa, poeta e cronista. c.siqueirahr@gmail.com

Linda Kogure, Luiz Guilherme Santos Neves, Maria Izabel Perini e Raquel Conti participam de mesa-redonda sobre o centenário do Parque Moscoso, na Biblioteca Pública Estadual. Será na próxima terça, às 19h, com mediação de Sérgio Blank.

30

de março

Nortton Dantas expõe na Ufes

O artista plástico inaugura a exposição “NORT TOWN – A construção de uma cidade imaginária”, na Galeria de Arte Espaço Universitário, no Campus de Goiabeiras.

02

de abril

Design gráfico em foco

Cariê Lindenberg é compositor amador. ccarie@redegazeta.com.br

No próximo dia 02 de abril, a Ufes receberá o designer carioca Billy Bacon, da Bold* Design, na série de Encontros da ADG – Associação dos Designers Gráficos. O encontro acontecerá em outras 17 localidades, simultaneamente, tendo como questão central a discussão do mercado de trabalho do designer brasileiro. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas no site do evento até 26 de março: http://www.adg.org.br/encontro/.

Dicionário do Folclore Brasileiro Luís da Câmara Cascudo Obra de referência sobre os costumes brasileiros, o trabalho pioneiro de Câmara Cascudo ganha reedição fiel à última revisão feita pelo autor em 1979. Lendas, mitos, superstições, indumentárias, comidas e bebidas tradicionais estão entre os temas relacionados pelo pesquisador. 776 páginas. Global Editora. R$ 98

O Diabo Leon Tolstói Publicado postumamente, em 1916, este conto trata de questões caras ao autor russo, como o papel do casamento, do sexo e das relações amorosas. Na história, jovem bacharel em Direito se envolve com uma bela camponesa da região. Integra a Coleção 64 Páginas. 64 páginas. L&PM Editores. R$ 5

Os Cariocas - Ao Vivo Os Cariocas Gravado em 2005, o CD/DVD ao vivo do seminal conjunto vocal criado por Ismael Neto, há 70 anos, traz standards do estilo bossa-novista que eles ajudaram a construir com elegância e sofisticação. No repertório, Tom, Vinicius, Baden, Menescal e Carlos Lyra, entre outros. 32 faixas. Music Brokers. R$ 49,90

Maria Creuza Ao Vivo Maria Creuza A cantora revisita clássicos da bossa nova com propriedade, especialmente as canções de Vinicius de Moraes, de quem é uma das maiores intérpretes. 24 faixas. Music Brokers. R$ 49,90 (CD e DVD)

INSPIRAÇÃO NA PALAVRA

José Roberto Santos Neves

“O que escrevem os artistas quando tocados pela ideia, pela imagem e pelo som dos poemas?” Esse é o ponto de partida do artigo do escritor Paulo Roberto Sodré sobre a exposição “Faluas do Tejo”, que será aberta na próxima terça-feira, na Ana Terra Galeria de Arte. Na mostra, 14 artistas interpretam poemas de Fernando Pessoa e Florbela Espanca por meio de pinturas e fotografias. A partir dessa coletiva, Sodré propõe uma reflexão sobre a relação entre as linguagens da poesia e da pintura, considerando que um escritor pinta com palavras e um artista escreve com plasticidade. O

Pensar na web

autor observa que os versos dos poetas são lidos e atualizados pela leitura plástica que deles é feita, com o objetivo não de explicá-los, e sim de compreendê-los e reescrevê-los à sua maneira. Completa o tema da capa de hoje o artigo de Renata Bomfim sobre a poesia apaixonada – literalmente – de Florbela Espanca. Ainda nesta edição, o leitor poderá saborear o texto de Cariê Lindenberg sobre Newton Mendonça, nome fundamental no nascedouro da Bossa Nova e que raramente recebe o devido reconhecimento por sua contribuição ao gênero musical. Boa leitura, bom sábado, bom Pensar.

é editor do Caderno Pensar, espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Galeria de fotos e pinturas da mostra “Faluas do Tejo”, poemas de Florbela Espanca, vídeo com execução da obra “La Mer”, de Claude Debussy, músicas de Newton Mendonça e trechos de livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

Pensar

por MANINHO PACHECO

O CAPITALISMO SELVAGEM DOS HOMENS PRIMATAS

O

que Ken Faulks fez não foi menos abjeto que o tratamento rotineiramente dispensado a milhares de macacos ao redor do mundo em circos, zoos, centros de pesquisas militares, laboratórios acadêmicos e das indústrias cosmética e farmacêutica. E o que fez o cidadão? Forjou um atentado que mandou pelos ares o Laboratório de Línguas dos Grandes Símios da Universidade de Kansas, onde a pesquisadora Isabel Ducan desenvolvia uma pesquisa de comunicação através de sinais entre humanos e bonobos. Faulks queria aqueles macacos e sabia bem para que. Achava que o atentado faria com que a universidade abortasse o projeto temendo novas ações violentas e abrisse mão dos animais. Não deu outra. O cara era um escroque. Com o auxílio luxuoso de um cientista não menos picareta, arrematou seis daqueles bonobos. Também conhecidos como chimpanzés pigmeus, bonobos são a espécie de símios mais próxima dos humanos. Com uma característica especial e única: o sexo. Sexo feito de forma intensa, livre, entusiasticamente, o tempo todo e com todo mundo (machos e fêmeas, bem entendido). Bonobos são as únicas espécies animais, além de nós, sátiros Homo sapiens, que não estabelecem relação direta entre sexo e reprodução. Para eles sexo é interação, prazer e vida social. Como nós, fazem mais amor do que filhos. E era nisso que Faulks estava de olho. Personagem com um sólido histórico no submundo da pornografia, foi alçado à condição de magnata da mídia e vislumbrou na peculiaridade sexual dos bonobos o pulo do gato para o mais infame dos reality shows norte-americanos: “A Casa dos Macacos”, fictícia atração que empresta o nome ao mais novo romance de Sara Gruen. Escrito na esteira do best-seller “Água para elefantes” (Sextante, 2007, 272 págs.), “A Casa dos Macacos” retrata a vida de seis bonobos confinados em um estúdio cercado por cinco dezenas de câmeras. Esse Big Brother dos bonobos eleva a audiência da Faulks Enterprises à liderança indiscutível entre as emissoras abertas dos Estados Unidos e para metade da América quando entra no ar. Todos se deliciam com a mais recente bizarrice da cultura midiática norte-americana. À exceção de Isabel e do decadente repórter John Thigpen. Juntos, eles investigarão a origem daquele circo deplorável e tentarão resgatar os animais. Para isso, terão que mergulhar

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 24 DE MARÇO DE 2012

A CASA DOS MACACOS Sara Gruen. Tradução: Paulo Cezar Castanheira. Record. 400 páginas. Quanto: R$ 32,90

no mundo das subcelebridades do show business, no mercado paralelo de roteiristas de séries televisivas de quinta categoria, no território virtual de hackers e demais clichês da pós-modernidade contemporânea. “A casa dos macacos” é produto da discussão sobre a utilização de animais, sobretudo primatas, em pesquisa de laboratórios, reacesa ano passado com o filme “Planeta dos macacos: a origem”. Desde então, a Academia Nacional de Ciência dos EUA discute o fim da pesquisa médica envolvendo primatas. EUA e Gabão são os dois únicos países do mundo a conduzir esse tipo de pesquisa. A União Europeia baniu o uso do animal no ano passado. No Brasil não se utilizam macacos para esse fim.

Tortura

Sara Gruen inspirou-se em reality show para escrever “A Casa dos Macacos”

TRECHO “Por serem chimpanzés descartados pela Força Aérea, sua mortes causaram algum interesse da mídia e ultraje público. Buddy, Ivan e Donald foram celebridades quando jovens. Queridinhos da mídia, e seus sorrisos enormes ao serem

retirados das cápsulas espaciais depois de caírem no mar foram estampados nas capas de revistas de circulação nacional. O que o público norte-americano não sabia era que aquele sorriso era uma careta de medo.”

Chimpanzés e bonobos têm 99% do DNA semelhante ao dos humanos. Vivem em sociedade e, como nós, precisam das relações interpessoais. Têm cultura própria, técnicas de comunicação complexas, laços emocionais. Lembram do passado, planejam o futuro, experimentam solidão e tristeza. Merecem nosso respeito. Sob o ponto de vista animal o que se passa nos laboratórios é tortura. Sem meias palavras. Mas o que se desenrola em seus bastidores é uma disputa acirrada por vultosas verbas científicas e resultados pífios. A utilização de animais em laboratórios médicos ou farmacêuticos alimenta uma ativa e milionária indústria das linhas de financiamento públicas e privadas. O modelo animal é largamente utilizado porque o trabalho da ciência depende dele para, mais que sobreviver, enriquecer. Nos EUA, a maior parte da pesquisa médica é financiada pelo Instituto Nacional de Saúde, com orçamento anual de US$ 30 bilhões. Metade disso é entregue a pesquisadores que utilizam animais. E são justamente esses pesquisadores que controlam os comitês que decidem para onde vai a verba pública aplicada em saúde. Deu para entender? Temos aí não mais um sistema preocupado em encontrar cura para doenças e novos remédios, mas um sistema corrupto preocupado em garantir o dinheiro aos pesquisadores que o controlam. O que “A Casa dos Macacos” nos prova é que o lucro gerado pelo sofrimento animal é muito alto para circular apenas nas mãos de cientistas. A mídia televisiva também reivindica a parte que lhe cabe nesse cruel latifúndio.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 24 DE MARÇO DE 2012

estudos literários por KARINA DE REZENDE TAVARES FLEURY

O OLHAR GRIS DE WILBETT OLIVEIRA Para especialista, poeta deixou o derramamento confessional dos seus primeiros escritos em busca do trabalho primoroso de lapidação da palavra e do enxugamento do discurso

“Quero uma poesia que pulse e que acorde o homem dessa condição de estar-no-mundo.” Wilbett Oliveira e acordo com estudiosos da crítica literária, o leitor exigente não tem conseguido mais se deparar com obras cujo espaço de construção se dê no campo do inusitado, do incômodo, do controle da técnica. Para Alcir Pécora, o que há é um esgotamento do discurso, da literatura, enfim, pois o espaço de um Dostoiévski ou de uma Jane Austen já está ocupado. Como não concordar com Pécora? No entanto, Beatriz Resende afirma que o que há é uma interessante multiplicidade de textos e de escritores de qualidade que merecem atenção. É que não se pode desconsiderar um aspecto importante da questão: um período de crise é, em geral, também um período de fertilidade. Nesse sentido, o poeta nos interessa, pois representa bem a figura da testemunha, do sujeito inquieto, descrito por Sartre e Steiner como o inoportuno, sou seja, aquele que “transforma e desestrutura o lugar comum, o que opera na franja e testa os limites do evento e da manutenção do status quo”, ensina-nos Lucia Helena, em “Literatura, intelectuais e a crise da cultura” (2007). Forçado a manter um certo distanciamento da sociedade burguesa, desde Platão, ele não se propõe apenas a ser os ouvidos, os olhos e a voz dos outros. O poeta sabe que é objeto e instrumento de sua própria arte. E se, aparentemente, não há o que falar ou não há a quem falar, pois assim como ele, muitos se encontram diluídos, “perdidos no meio do anonimato das massas”, como escreveu Abrahão Costa Andrade ao prefaciar “Gris” (2009), o poeta também não se nega a reinventar estratégias discursivas para entrar numa espécie de combate travado contra o poder que intenta posicionar-se nos espaços do saber, da consciência, da verdade, do discurso. Wilbett Oliveira, com sua dezena de livros de poesia publicados desde 1980, deixou o derramamento confessional dos seus primeiros escritos em busca do trabalho primoroso de lapidação da palavra, do enxugamento do discurso, do jogo das

juntivo que dão às ações o caráter da dúvida, da incerteza. É o simulacro do fazer poético. O processo da criação concretiza-se num pacto entre a palavra (ou a “não-palavra”), o eu e as experiências e os sentimentos dos sujeitos que se (des)fazem na inconstância da vida pós-moderna, sem que com isso a poesia se traduza num estado de espírito ou numa de tomada de decisões ou de posições. Isso fica claro em a “outra parte” (51 poemas). Aqui, a escritura de Oliveira corporifica-se em blocos ainda mais enxutos, que nos remetem à “agrafia tipográfica de Mallarmé [que] quer criar em torno das palavras rarefeitas uma zona de vácuo na qual a fala, liberta das harmonias sociais e culpadas, felizmente não ressoa mais”, lembra-nos Roland Barthes, em “O grau zero da escritura” (1971). impassível uma traça metafórica circula em meu pensamento (p. 33)

D

Oliveira trabalha o jogo das imagens e a fragmentação do eu poético

Obras do autor:

Um poema

Anjos proscritos e outros poemas (coautoria com Waldo Motta, 1980) Facho (1983) Sombras e sinais (1991) Logos (em parceria com Derli Casali, 1995) Nominal (2003) Partes (2004) Garimpo e outros poemas (2005) Sêmen ou versos entretecidos ou um só poema (2007) Gris (2009) Salignalinguagem (2011)

TEIAMOR o amor é uma teia que nos rende se nus enredamos em nós

imagens, do fazer poético que não se satisfaz com a palavra dada. Divididos em duas partes, os 66 poemas de “Gris” (2009) expõem a fragmentação do eu poético, do mundo que o envolve e do outro que também está no mundo. Não sendo a literatura uma representação “tal qual” do real, o poeta escreve em “uma parte” (15 poemas)

“como se”, o que implica estar entre a possibilidade e a impossibilidade de realizar seu ofício: em vão faço um poema como se estivesse gris e elaborasse vozes no silêncio de um instante (p. 15)

o amor é uma tenda que nus atende se nus atendamos a só

São os verbos que aparecem no sub-

Com o desaparecimento quase que por completo dos verbos, salta aos olhos do leitor uma série de substantivos, adjetivos e advérbios introduzidos pelos prefixos im, in, i, que indicam negação (ou ausência): substâncias indeléveis sangradas sobre o papel inconclusos brancos de indecifráveis olhares (p. 56, itálicos nossos) Essa escrita da ausência, que marca nas palavras do próprio Oliveira uma “signagem do nada”, insere-se no entrelugar, em meio aos “indecifráveis vultos”, “entre a gente apressada” dos tempos modernos. E mais, é nessa espécie de modo negativo de existir que a poesia wilbettiana se sustenta, se recria, se liberta. O branco das páginas denota sua intenção de poeta: silenciar-se mais e mais para que as poucas palavras ali grafadas possam construir e reconstruir sentidos com aqueles que se permitirem ler os seus poemas grises para, quem sabe assim, fazer renascer em cada um a beleza da poesia de estar no mundo. Nessa perspectiva, o poeta menos fala, o leitor mais faz, a poesia se enriquece.


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falando de música

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por ERICO DE ALMEIDA MANGARAVITE

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FOI ASSIM QUE CLAUDE DEBUSSY VIU O MAR

“Q

uem tem medo da música clássica?” Era esse o nome do programa de TV, apresentado pelo saudoso Artur da Távola, que visava aproximar o grande público àquele gênero musical. Pergunta semelhante pode ser feita em relação à música erudita composta no século XX: muita gente a evita por considerá-la de difícil compreensão. Devido ao desapego às práticas usuais em termos de tonalidade, instrumentação, uso de melodias e adoção de estruturas, boa parte das composições modernas não soa tão agradável aos ouvidos como soam, por exemplo, as obras de Mozart ou de Vivaldi. Porém, existem algumas obras do século XX que são bem acessíveis e que já em uma primeira audição despertam o interesse de muitos. Uma delas é “La Mer” (O Mar), composição orquestral do francês Claude Debussy. Não foi a primeira partitura que tratou das águas: Bach compôs a Cantata BWV 206, intitulada “Deslizai, Ondas Borbulhantes”, em que quatro rios europeus se unem para homenagear Augusto III, o Corpulento, governante da Saxônia (e patrão de Bach). Outro caso digno de nota é o poema sinfônico “Vltava”, de Smetana, que descreve o curso do rio Moldava desde seu nascimento nas florestas boêmias até a sua foz, no encontro com o rio Elba. Há outros exemplos semelhantes em Handel, Haydn, Wagner, Rimsky-Korsakov, Mendelssohn e Beethoven. No caso de Debussy, nota-se no conjunto de sua obra especial predileção pela água, mencionada em nada menos que sete composições até a época da estreia de “La Mer”. A vida marinha o deixava especialmente entusiasmado: quando jovem, cogitou seguir a carreira de marinheiro. Em “La Mer”, não há uma tentativa de se retratar diretamente, por meio da linguagem musical, os diversos aspectos do mar. Essa ressalva é importante, pois outros compositores se valeram de recursos como o uso de “pizzicatos” nas cordas, imitando pingos dágua. Villa-Lobos, em “O Trenzinho do Caipira”, retratou com perfeição a viagem de uma locomotiva Maria-Fumaça, reproduzindo o som dos apitos e da fumaça expelida pela chaminé. Debussy optou por um caminho diverso: o francês buscou expressar-se fazendo uso de atmosferas, de sensações, deixando de lado quaisquer imitações. Ainda que os três movimentos da obra,

DIVULGAÇÃO

“La Mer” é uma das peças sinfônicas mais acessíveis do compositor francês, que completaria 150 anos em 2012; no destaque, DVD com regência de Leonard Bernstein

descritos pelo autor como três esboços sinfônicos, possuam títulos descritivos (“Da Aurora ao Meio-Dia no Mar”, “Movimentos das Ondas” e “Diálogo do Vento com o Mar”), em nenhum momento será possível identificar a reprodução em notas musicais do som de uma onda, de um pássaro ou de um navio. A música não é objetiva, composta para o intelecto, e sim

subjetiva, composta para os sentidos. Uma das explicações para o êxito da obra é a hábil orquestração de Debussy, em que há o emprego dos mais diversos timbres e efeitos, como alterações de dinâmica e de ritmos, exigindo dos instrumentistas grande atenção e habilidade técnica. No primeiro dos três esboços a atmosfera é misteriosa; no segundo, há

vivacidade e movimento; no último, interagem duas forças distintas. Não é possível determinar um programa específico, vinculando cada trecho dos esboços a um evento correspondente (revoada de gaivotas, ondas quebrando na praia). Essa impossibilidade frustrou parte do público quando houve a estreia da obra, uma vez que os ouvintes estavam acostumados com o literalismo descritivo de diversos poemas sinfônicos da época. Um crítico mais conservador chegou ao ponto de chamar a obra “Mal de Mer” (enjoo marítimo), sendo as três partes “Dor de cabeça”, “Tontura” e “Náusea”. O excêntrico compositor Erik Satie, amigo de Debussy e notório piadista, não perdeu a oportunidade e ironicamente afirmou que achara particularmente sensacional um curto trecho entre 10:30h e 10:45h. Logo as opiniões positivas prevaleceram e a obra se tornou muito executada. O resultado dos esforços de Debussy deve ser conferido ao vivo, em uma sala de concertos. Na impossibilidade de fazê-lo, algumas gravações podem ser recomendadas com segurança. Indicamos o empolgante registro feito pela Orchestre National de l'ORTF, regida por Jean Martinon, um mestre em termos de equilíbrio orquestral. Essa gravação é como Guarapari: praticamente, não há quem não goste. Por sua vez, Leonard Bernstein, regendo a Accademia di Santa Cecília, navega por mares mais calmos, como se estivesse em Manguinhos. Uma bela interpretação, das últimas deixadas pelo regente, disponível em DVD. Outras versões de renome são Concertgebouw/Haitink, Cleveland/Boulez, Suisse Romande/Ansermet. Recentemente, foi lançada uma excelente versão em vídeo com o regente Claudio Abbado à frente da Orquestra do Festival de Lucerna, formada por alguns dos maiores virtuoses da atualidade. Em 2012, comemoram-se os 150 anos do nascimento de Debussy. “La Mer” estreou em 1905 e após a fria recepção inicial estabeleceu-se nos anos seguintes como um dos marcos do repertório orquestral do século XX. É música para se ouvir apreciando uma bela moqueca, com direito a pirão e casquinha de siri. Se possível, à beira-mar.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 24 DE MARÇO DE 2012

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visuais

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por PAULO ROBERTO SODRÉ

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 24 DE MARÇO DE 2012

Exposição que será aberta no próximo dia 27, na Ana Terra Galeria, reunirá desenhos, fotografias, objetos e pinturas de 14 artistas, inspirados na poesia de Florbela Espanca e Fernando Pessoa

AS IMAGENS QUE NASCEM DOS POEMAS

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mas lisboetas de Maria Teresa Horta. São, singulares, leituras. Serão verbos os gestos de cor? Serão apostos as linhas que delimitam o corpo dos objetos? Serão adjetivos as sombras a realçarem o alcance do olhar? A composição do texto pictórico ou artístico, seu teor de imagem ou iconicidade, talvez dispense esse amálgama de metáforas a tentar aproximar a linguagem da poesia e da pintura, velhas irmãs na clássica e muito citada afirmação de Simônides de Ceos: “A pintura é poesia muda, e a poesia, pintura que fala”. Bastaria pensar que a textualidade da arte – sabe-se, todo texto implica signos para além dos verbais, na grata lição de Roland Barthes –, estaria, em sua relação com a literatura e suas figuras de linguagem, na busca da metáfora, da antítese, da caricatura etc. que, a despeito de terem sido originalmente pensadas para o texto verbal, servem perfeitamente à arte e a sua “sintaxe” (os símbolos de Redon; as antíteses de Rembrandt; as caricaturas de Daumier).

Intertextualidade

ESCRITOR ANALISA AS CRIAÇÕES DA MOSTRA “FALUAS DO TEJO”, EM HOMENAGEM AO ANO DE PORTUGAL NO BRASIL

D

o ponto de vista literário, é comum pensar que os escritores pintam com palavras, imitando os artistas plásticos em sua capacidade de explorar a visualidade do mundo. Mas e o que escrevem os artistas quando tocados pela ideia, pela imagem e pelo som dos poemas? Se um advérbio arremataria a posição das mãos de uma figura de Paula Rego, como delimitariam os artistas a melancolia de um pensamento ou a imaterialidade de uma afeição, ainda que vazados em paisagens – em correlatos objetivos (uma paisagem exterior a significar um estado psíquico), de que trata T. S. Elliot –, que sugerem as palavras imersas em poesia? Que cor, linha ou textura eles usariam, para invocar substantivos e predicados em seus registros? Essas são algumas das indagações que emergem dos desenhos, da fotografia, dos objetos e das pinturas de 14 artistas inspirados na poesia portuguesa, e reunidos em “Faluas do Tejo”, exposição organizada por Attilio Colnago para Ana Terra Galeria de Arte, que tem como norte homenagear o Ano de Portugal no Brasil. Uma infinidade de opções rondaria, decerto, a escolha de temas, autores e

DIVULGAÇÃO

DIVULGAÇÃO

modalidades de textos para a realização da proposta. Colnago selecionou dois poetas portugueses, nascidos no mesmo período, mas com projeção e relevo diferentes: Florbela Espanca e Fernando Pessoa. O primeiro efeito que poderia nos ocorrer é o da ilustração dos textos poéticos; no entanto, se assim a recebêssemos, esbarraríamos em imprecisão de leitura. Desde pelo menos os anos medievais, a ilustração é, como propõe o consenso dos dicionários, uma tentativa de explicar, sintetizar ou mesmo de decorar a edição de um texto. São inúmeros os exemplos de gravuras, fotografias, desenhos e pinturas a acompanharem as publicações, em especial as literárias: os cancioneiros românicos ou góticos e os desenhos informativos sobre os trovadores; Gustave Doré e as linhas sintéticas de “Dom Quixote”. Contudo, os artistas da mostra não ilustram os versos de Espanca, a poeta dos veios passionais, em que pese serem floridos; nem os versos de Fernando, o poeta de vários óculos e nomes, em que Impressão fotográfica sobre tela “Além Deus, ode a Fernando Pessoa”, de Roberto pese serem paisagísticos. Não o fazem, Burura: artistas compreendem e reescrevem versos dos poetas com signos próprios exceto se nos lembrarmos de que uma das acepções do termo ilustração é o de interpretar, como ocorre nos desenhos de Regina Chulam para os poe-

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Sendo a arte texto, cada um dos quadros e objetos expostos em “Faluas do Tejo”, com o propósito de se deixar conduzir pelos poemas da Sóror Saudade e do heteronímico fingidor, poderia ser lido como resultado da intertextualidade, na medida em que sua produção ocorre sob a condição de ser um texto em que se imiscui e se transforma um outro, mesmo sendo de outra índole sígnica. Os versos dos poetas são lidos e atualizados pela leitura plástica que deles é feita, de que resulta, além da intertextualidade, o inverso do “ecfraseamento” que os poetas vêm fazendo ao longo dos séculos em relação às artes visuais. O termo de origem grega, écfrase (ekphrasis), significa etimologicamente evidência, descrição. Lino Machado, em “As palavras e as cores: Guernica (e mais) na caligrafia de Carlos de Oliveira”, publicado pela Edufes em 1999, examina cuidadosamente o conceito e cita a síntese de Vítor M. de Aguiar e Silva: “Como modalidade de ecfrase, além do labor da descrição [sobretudo, de objetos artísticos], também [se considera] o ‘trabalho de recriação, comentário e exaltação da obra de arte (escultura, pintura, etc.)’” (p. 315). Decerto, como se trata de um recurso de linguagem, a écfrase estaria vinculada ao texto verbal. Para as artes plásticas, portanto – e salvo melhor informação –, ela inexistiria. Contudo, com o refinamento da teoria da literatura e da arte, o conceito de écfrase pode ser transmutado, adquirindo dimensões mais complexas. Como tem sido demonstrado pelos estudos interartes, técnicas e procedimentos tradicionais de uma área (literatura) se aproximam e se adaptam a outra (pintura), e vice-versa. O escritor tradicionalmente pinta em

prosa e poema o que os artistas plásticos realizam, como o romancista português Almeida Faria, ao descrever a pintura de Cristóvão de Morais, “O retrato de Dom Sebastião”, de 1571, em “O conquistador”, de 1990. A descrição ou écfrase do quadro coloca o leitor diante do retrato do jovem rei, e o efeito é o de uma pintura, não mais apenas a do português quinhentista, mas a de Almeida Faria. Seria longa, vale ressalvar, a explicação sobre o aspecto teórico concernente à relação entre écfrase e tradução intersemiótica, levantada por Claus Clüver, e aprofundada por Lino Machado. Para já, e brevemente, interessa-me, neste comentário, apontar o efeito retórico e intertextual daquele recurso na mostra “Faluas do Tejo”. Se é lícito considerar que o escritor pinta com palavras, não pode sê-lo menos que um artista escreve com plasticidade. Eis, portanto, a natureza da escritura dos artistas da mostra: uma écfrase invertida, em que os poemas são “evidenciados” e “descritos” por meio de composições de cor e volume, textura e gestualidade, colagem e gravação. Atrelados ao visual, os artistas transpõem, do signo verbal para o pictórico, o ritmo e a imagem dos poemas de Espanca e Pessoa, agora tornados “objetos” de écfrase, para seus trabalhos plásticos. Desse modo, e em certo sentido, não ilustram os artistas, porque seu propósito não é explicar ou informar o que vai, obliquamente, nos poemas. Pretendem criar o que os textos sugerem à sua leitura, apoderando-se deles, para libertarem-se na possibilidade de compreendê-los, reescrevê-los, e, então, ilustram-nos por interpretação e ecfraseiam-nos com signos próprios. Ancorados num mesmo procedimento de citação e atualização, a intertextualidade e a écfrase fundamentam o que expõem os 14 artistas de “Faluas do Tejo”. Reunidos por Attilio Colnago e Ana Coeli, empreendem a leitura de Espanca e Pessoa, fazendo falar a pintura dos poemas, agora faluas de sentidos e ritmos a conduzir os traços dos trabalhos plásticos, no Tejo dos portugueses, no fluir dos brasileiros.

Exposição “Faluas do Tejo” Conceito: Coletiva de pinturas e fotos em homenagem aos 30 anos da Ana Terra Galeria e ao Ano de Portugal no Brasil, inspirada em poemas de Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Com os artistas Selma Weissmann (BH) e Ana Cristina Brandão (BH), Attilio Colnago, Liza Tancredi, Fabiola Menezes, Joyce Brandão, Rosindo Torres, Fernando Gomez, Romilda Patez, Maria Helena Salles, Deyse Rezende e Moema Calhau, além dos fotógrafos Roberto Burura e Paulo de Barros.

Em “O Duplo Feminino”, Deyse Resende interpreta o poema “Exaltação”, de Florbela Espanca, por meio de composições de cor, volume, textura e gestualidade

Vernissage: 27 de março, das 20h às 22h30, na Ana Terra Galeria. Rua Eugênio Neto, 106, Praia do Canto, Vitória. Visitação até 28 de abril, de segunda a sexta, das 10 às 19h; e sábado, das 9h30 às 13h.


8 Pensar

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 24 DE MARÇO DE 2012

+ artigo de capa por RENATA BOMFIM

A PAIXÃO TRANSBORDANTE DE FLORBELA ESPANCA Publicação de correspondências da poeta com o seu amante lança luz sobre uma faceta até então obscura da vida da autora portuguesa, aponta estudiosa da sua obra

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poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) publicou em vida dois livros de sonetos: “Livro de Mágoas” (1919) e “Livro de Sóror Saudade” (1923). Postumamente, vieram a lúmen: “Charneca em Flor” (1930), “Reliquiae” (1931) e “Juvenília” (1931). A morte, com a sua tentação plena, o suicídio, consagrou a tragédia florbeliana. O suicídio, ritualisticamente realizado no dia em que completaria 36 anos de idade, não passou despercebido pela sociedade patriarcal portuguesa (família católica, interdição da palavra “suicídio” na imprensa, receio de falatório), e Florbela, que em vida conheceu o silêncio da mídia, tornou-se, depois de morta, um fenômeno literário. Conhecida como a “poetisa da melancolia e da saudade”, Florbela Espanca é uma persona dramatis que ainda não teve todas as máscaras reveladas. Recentemente, a editora portuguesa Quasi publicou a correspondência amorosa de Florbela Espanca, cuja organizaç��o, fixação de textos e notas foram assinados pela pesquisadora Maria Lúcia Dal Farra. A obra “Florbela Espanca Perdidamente” reúne uma série de correspondências trocadas entre a poeta e o seu amante que, posteriormente, tornou-se o segundo marido, Antônio Guimarães. Essa epistolografia de Florbela Espanca, escrita entre os anos de 1920 e 1925, lança luz sobre uma zona até então obscura da vida da poeta, revela uma “Florbela inaugural”, “em estado de amante”, que escreve a partir de uma zona silenciosa e solitária, onde tudo é “sigiloso e dito em sussurro”, como afirmou Dal Farra. Florbela estava separada do primeiro marido, Alberto Moutinho, porém, ainda oficialmente casada com ele, e acabara de publicar o seu primeiro livro, o “Livros de Mágoas”, quando, num baile de carnaval, em Lisboa, conheceu Antônio Guimarães. Os seus olhos de pantera pousaram sobre o jovem bem apessoado, magro, de cabeleira lisa e loira, que trajava uma farda cor de avelã: “Olhos do meu amor! Infantes loiros/ Que trazem os meus presos, endoidados!”, escreveria a poeta

DIVULGAÇÃO

Florbela com seu primeiro marido, Alberto Moutinho; no destaque, o amante e segundo marido Antônio Guimarães, a quem dedicou vários poemas

no soneto “Teus olhos”, da obra “Charneca em Flor”. Florbela estava com 25 anos e atravessava uma fase difícil, experimentava a sensação de desamparo por estar afastada da família, e o fato de ela ser estudante de Direito na Universidade de Lisboa, destacava-a dentre as outras mulheres. Exposição pública que se agravou com a sua estreia no mundo das letras e deu margem a variados comentários maliciosos. Embora Florbela ainda estivesse oficialmente casada, ela se considerava a “noiva” de Antônio, que lhe acenava com promessas de amor e de um lar, “um ninho”, onde seriam felizes. O amor vivido sob o signo da clandestinidade e da ilegalidade levou os amantes a buscar estratégias para ficar juntos. A bordo do elétrico, porém sempre sobressaltados com a possibilidade de encontrar alguém conhecido, os amantes trocavam olhares e

pequenas frases, noutros momentos, Florbela ficava à janela de sua casa e Guimarães ao longe, ficavam se olhando e se desejando, porém, logo as más línguas fizeram com que Florbela escrevesse para Antônio um bilhete dizendo: “Quando por aqui passares não pares nunca. Depois te direi por quê. Passa a pé ou a cavalo, de trem, de automóvel ou de aeroplano mas vê-me de longe sempre”. Vivendo em casa alheia, Florbela ansiava legalizar a sua situação com Antônio para que pudessem viver felizes, em uma casa só deles, ela ansiava um lar. Esse desejo pode ser observado expresso no poema “A nossa casa”: “A nossa casa, Amor, a nossa casa!/ Onde está ela, amor, que não a vejo?/ Na minha doida fantasia em brasa/ Constrói-a, num instante, o meu desejo!. O casal vivenciou uma grande cumplicidade sexual: “Os nossos mimos, a

nossa intimidade, as carícias são só nossas; no nosso amor não há cansaços, meu pequenino adorado! Como o meu desequilibrado coração de artista se prendeu a ti”. Das noites solitárias vividas pela poeta chegam os relatos da falta que o amado lhe fazia: “Uma grande noite sem ti! Quantas horas terá ela, a noite que vem, a noite que desce sobre a terra e dentro de mim? Tenho saudade das carícias dos teus braços carinhosos que me apertam e que me embalam nas horas alegres, nas horas tristes. Tenho saudades dos teus beijos, dos nossos grandes beijos que me entontecem e me dão vontade de chorar. Tenho saudades das tuas mãos, tão más as vezes, como ontem à noite... Tu tens me feito feliz, como eu nunca tivera esperança de o ser”. O casamento trouxe para o casal, além da realização sexual, a rotina e uma fase de grandes dificuldades financeiras. Apenas seis meses após o casamento, Florbela já pensava em se separar de Antônio. A ascensão profissional do marido foi o início do fim do relacionamento entre ambos. Enquanto esteve apaixonada por Antônio Guimarães, Florbela produziu alguns de seus mais belos poemas, como os sonetos “Anoitecer”, “Da minha janela”, “A vida”, que, posteriormente, Florbela intitulou “Inconstância”: “Amar-te a vida inteira eu não podia/ A gente esquece sempre o bem dum dia/ Que queres, ó meu amor, se é isto a vida!”, e o soneto “O nosso mundo”, que a poeta dedicou ao seu “homem querido”: “Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos/ Como um divino vinho de Falerno!/ Poisando em ti o meu olhar eterno/ Como poisam as folhas sobre os lagos…” Em 1921, residindo com Antônio no quartel da Foz, há um silêncio entre os amantes, já não se comunicam mais como antes. Nessa época, janeiro de 1921, na casa de seu pai, Florbela compôs o poema “Caravelas”: “Eu sempre fui assim este Mar Morto:/ Mar sem marés, sem vagas e sem porto/ onde velas de sonhos se rasgaram!”. Adoentada, no dia 3 de dezembro de 1923, Florbela escreve a derradeira carta para Antônio e nela se despede assinando: “Saudades de tua mulher”. Em abril de 1924, a relação tornou-se insustentável e Antônio iniciou um processo de divórcio litigioso contra Florbela, alegando “abandono de lar”. Após a separação, Florbela Espanca se casou com o médico Mário Lage, com quem viveu até o dia de sua morte.


poesias RASTRO PRATEADO (CLAIR DE LUNE) A SÉRGIO BLANK ANA CRISTINA COSTA SIQUEIRA Daquela tarde com Allan Poe, que desfiaste ao acaso, fez-se a inquietude dos versos que batem com força, agora, contra tuas janelas, abrindo fendas – prenúncios de Bodega Bay. Oníricas imagens, sobrepostas, em meio aos lençóis desfeitos, tuas manhãs confusas e sombrias são retranca em que escondes os poemas, tece-os com fios de caracóis em céus cinzentos; essências de absinto ( e de amores?) talvez te lembrem de alguns raros aconchegos matinais. Ao som de blues, quem sabe se componham teus ais! Quem sabe se, em azuis, mergulhaste, soturno, procurando em solo anímico impensáveis sonhos? Imagino-te menino anjo comendo amendoins torrados, olhar encharcado de casuarinas até que se perca, dos tímpanos, o veraneio das aves. E, quando dormitas sobre livros, espaços há onde mergulhares, no branco, tua alma franca: escreves na pele o teu livro, em dias e noites de silenciosa urdidura. Acaso revestes tuas paredes, gastas, de sonho e incendiados dias? Talvez goste de jambos no odor das rosas que nunca são lembradas: Cá estou, urdindo os tons de um inventário, e aromas de delicados lírios, enquanto passeio em teus olhares vestidos em tons de opala; mas ao fundo, azul, a tarde é poeira em que Fauno descansa (e arde) ouves a música? Extremamente sedutora é a poesia, e agrada-me o poema transparente em que te escondes. Teu silêncio são rochas vulcânicas, seculares, mas o que te move é a voz humana, a trilha insana de vazios lares. És, nesta tarde, meu acalanto – ao amanhecer, já outro poema existe. Teus dias ímpares talvez sejam os meus pares.

crônicas SAUDADE, MEDO E MUITO HUMOR! por SÔNIA RITA SANCIO LÓRA Desenvolvemos um jeito de conversar com o papai, que nos deixou há algum tempo, muito a contragosto – dele e de nós. Visitamos seu túmulo no alto da colina, um lugar que tem mangueiras, quaresmeiras, eucaliptos e muitas flores. Mesmo na altitude de Santa Teresa, o calor tem sido intenso. Usamos o filtro solar, mamãe pegou sua sombrinha e eu o meu inseparável chapéu branco. Cumprimentamos avôs, tios e primos que estão fazendo festa no céu, honrando a nossa espalhafatosa maneira italiana de ser e seguimos até onde papai, a Nona Cecília e o Nono Ú (apelido que eu adorava – Eu chamava o Nono e ele respondia “ÚUUUU”) descansam desta vida. Com saudade, contei as novidades e lágrimas escorriam livres. – Pois é, pai, hoje é o aniversário do

Dante, seu bisneto. Ele tem olhos azuis e é brabo como um italiano que se preza! Lara está uma menina linda e o Davi, o Gabriel e a Olivia são figuras incríveis! A Ana Clara vai chegar no dia 5. Que pena, né, pai, que o senhor não vai poder estar com a gente... Sou desligada e sei que preciso mudar isso. Nesse dia, por sexto sentido talvez, resolvi olhar à minha volta, enquanto mamãe abraçava nosso pai em pensamentos. Minhas pernas tremeram quando olhei pela primeira vez. Espírito não era, pois não tinha aura! Era de carne e osso! Apenas sua cabeça aparecia, de pé, dentro de um túmulo vazio. No sopé do morro, outro homem, de bermuda cinza e blusa preta. O medo tomou conta de mim. – Estes filhos da mãe vão nos assaltar. Temos a sombrinha e as duas alianças da

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mamãe, o meu chapéu, a minha câmera fotográfica adorada e o meu velho anel de cinco aros. Não, estes filhos da mãe vão estuprar a gente, vão bater na minha mãe... Eu juro que mato estes caras! Pensando bem, vou matar só o que está dentro do túmulo. Eu vi primeiro! Ele vinha em nossa direção, quando eu, com a máxima calma, falei com a mama: – Mãe, seguinte... Tem um cara seguindo a gente. A senhora me dá a sua mão e eu seguro na barra da sua saia. Vamos sair daqui agora, bem depressa, tá? Os 84 anos de minha mãe mostram claramente a dificuldade de andar. Mesmo assim, rezamos uma Ave Maria e agradecemos ao papai por ter nos “afastado do mal”. Saímos do campo santo tremendo da cabeça aos pés! Dirigi até a parte superior do lugar, onde um rapaz alto e magro saía de lá, com as mãos nos bolsos, tranquilamente! Rindo muito, mamãe e eu começamos a imaginar o que ele teria ido fazer dentro do túmulo vazio... Rezar é que não foi, né?

POLAROIDES, ALCALOIDES E OUTRAS MANIAS por CAÊ GUIMARÃES

Impreciso, na ausência de um dos sisos, teclo aflito: preciso de você. Nada. A resposta analgésica deveria vir lépida, impressa nas telas do lap top. Mas sobreveio o silêncio. Toc, toc, toc. Tamborilo os dedos toda vez que algo surge com força real para ser dito, toda vez que lembro o palhaço sem circo que insiste em sorrir para a vida, sempre que uma verdade sobe goela acima e, gosmenta, se recusa a ser cuspida ou engolida. Preciso de você, repito como se fosse pito, quase aflito, e penso no vinco e no adereço do pensamento, no vazio absoluto do siso, no ponto que roço com a língua e na aspereza da espera. Mas nada. Hoje, parece que o serviço delivery da farmácia não vai funcionar. Alguém lembra com um poeminha bem bonitinho que o Dia Internacional da Poesia aconteceu na semana que acaba hoje. Ignoro a informação. Cancelaram o edital do fim do mun-

do. Quem era raso pode voltar a ser raso. Quem é profundo pode nadar de volta para o fundo. Quem veio ao mundo a passeio, trate de esquecer o receio. Quem é de extremos caminhe pelo meio. Ainda não se sabe o motivo da impugnação. Mas fiquem tranquilos, crianças. Vai haver nova convocação no Diário Oficial. Podem montar suas propostas, mas sem lacrar a criatividade. Não haverá, até segunda ordem, ondas descontroladas de radioatividade. Nem maremotos, terremotos e ignotos acima do normal. Continuaremos a sofrer no mesmo nível, tudo será igual. Quem é de direita que endireite a gola e limpe a sola. Quem é de esquerda que esqueça a degola alheia. Quem faz fumaça, sorria que disfarça. Quem discute, faça de maneira menos rude. Quem achava que tudo ia acabar, esqueça. O acabar acabou. E quem perdeu agradeça a quem ganhou. Cancelaram o edital do fim do mundo. Tente outra vez. Mas lembre-se: não existe nada mais antigo do que cowboy que dá cem tiros de uma vez.

De novo na tela, sem um molar para amolar, descubro uma nova palavra na flor do Lácio. Estarte. Um híbrido do português estar (permanecer) com o inglês start (começar). Tudo agora vem embalado em um tal de “vou estarte ligando”, “vou estarte chamando”, ou “vou estarte informando”. Trata-se de um devir, algo que vai de lugar nenhum a lugar nem outro. Nada permanece e começa no mesmo movimento. Somos fantasmas de todos os próximos segundos. E dos que ficaram para trás. No momento atomizado de um instante, coloco o estarte na estante. Lá no fundo. Acendo um lume no meio da madrugada insone. O lume se consome e vou dormir quase em paz. Com ele, permaneço e começo no mesmo movimento. Mas isso é uma metáfora. E elas, como os sonhos, não envelhecem. E podem ser nada demais. Chega o outono. Observe o vento. E as folhas e os ramos floridos, que bailam antes de despencar.


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isto é bossa nova

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por CARIÊ LINDENBERG

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A ALMA LÍRICA E AS CANÇÕES DE “MENDAS”, UM GÊNIO DE RESPEITO Cariê Lindenberg faz uma viagem no tempo até o final dos anos 50 e relembra sua amizade com Newton Mendonça, parceiro de Tom Jobim em “Desafinado” e “Samba de uma nota só”

REPRODUÇÃO DO LIVRO “CHEGA DE SAUDADE”, DE RUY CASTRO

À

primeira vista, a fisionomia do inspirado poeta e compositor Newton Mendonça (o “Mendas”, conforme lhe apelidara Vinicius de Moraes) aparentava (sobrancelhas cerradas) ser a de uma pessoa carrancuda e de poucos amigos. Na intimidade, contudo, ele era um tremendo sentimental, uma eterna alma de poeta lírico, um amigo em que todos confiavam, porque esbanjava segurança e bondade em seu comportamento. Espírito crítico (sempre atento ao que se passava em qualquer parte do Brasil e do mundo), era um homem de convicções políticas sólidas e definidas, atributos que absorveu do pai (militar proscrito por força de perseguições e intransponíveis divergências políticas, fato que o fez deixar a família como que órfã de pai vivo, abandonada à própria sorte). Talvez por isso mesmo tenha guardado para si, sem alardes, as suas convicções ideológicas, não as confundindo nunca com o seu trabalho, suas amizades ou, menos ainda, com suas grandes paixões: o piano e a música. Eu o conheci em uma aconchegante boate em Copacabana chamada Carroussel (a última onde ele trabalhou), local em que algumas garotas, digamos que livres e resolutas, frequentavam o recinto para se divertir à caça das alegrias que a noite oferece aos experientes e, quem sabe, visando também a capturar, numa boa, parceiro para alguma empolgante realização de seus programas prediletos, nem sempre necessariamente remunerados, convém deixar isto logo bem claro. Espero que esta sucinta apresentação que faço daquele alegre ambiente não desvirtue e confunda os desavisados, sugerindo que não se tratava de uma casa de respeito. Afinal, creiam-me, diriam os baianos, praticava-se ali um furdúncio consuetudinário, respeitadas sempre as regras da época e do estabelecimento. Pois era mesmo uma casa de respeito. Juro. E mais, poucos ficavam à deriva. O expediente ia das 21 horas até as 4 da manhã. No piano, à disposição dos visitantes, revezavam-se por 20 minutos o pianista Gaúcho, e por 40 o homem sisudo (que, sabia-se, evoluíra da gaita para o piano) e que eu não conhecia, mantendo um certo receio em abordá-lo para pedir

REPRODUÇÃO DO LIVRO “CHEGA DE SAUDADE”

dos. Precisavam de algo mais amplo, mas que coubesse no seu modestíssimo orçamento. Foi assim que deixaram para trás o bairro e os amigos de Ipanema que tanto amavam e no qual tinham seu círculo de relações desde crianças e foram para a distante Vila Isabel, do outro lado da cidade, indo como que para um verdadeiro exílio para quem não era de lá. Mantivemos a prática, Tom e eu, de irmos lá com relativa frequência, no meu fusquinha, sempre aos sábados (já que não dispúnhamos mais do apartamento de Newton).

Relíquia

O músico (terceiro de pé, a partir da direita) com Waldemar e sua orquestra: canções de plena sincronia harmônica

Newton Mendonça (1927-1960), o último à direita, foi um dos nomes fundamentais do nascedouro da bossa nova

para cantar, o que, paradoxalmente, fazia sem inibições ou constrangimentos no turno do simpático Gaúcho. Àquela altura, depois de alguns conhaques, eu, irresponsável, já me sentia, muito precipitadamente, reconheço hoje, como um cantor profissional (graças ao trabalho e ao pistolão da amiga Sylvinha Telles, a primeira e grande musa da Bossa Nova), embora nessa carreira eu não tivesse ainda ido além do exercício de um teste rudimentar de resultado positivo feito na casa dela para Aloísio de Oliveira, seu marido, dono da Elenco, a mais importante gravadora da época no Brasil. Já que éramos capixabas, estrearíamos juntos gravando um LP: Nara Leão, uma desconhecida, de um lado; e eu, mais ainda, do outro lado do disco, sentenciou Aloísio. A aprovação no teste rudimentar me inflou da coragem de que dias

REPRODUÇÃO DO LIVRO “CHEGA DE SAUDADE”

Gravação de “Desafinado”: compositor teve seu nome grafado erradamente como Milton Mendonça

antes carecia para enfrentar o pianista mal-encarado. Então, agora faceiro, enchi o peito de ar e balbuciei resoluto no ouvido do carrancudo: – Posso dar uma canjinha? – O que você vai cantar? – ele perguntou, sem qualquer expressão de simpatia, além da imagem seca do profissional. – “Você morreu pra mim” – respondi. Aí, então, ele me experimentou e complicou: – Qual é o tom? Como não soubesse aquilo que os cantores sempre devem saber na ponta da língua, para quebrar o galho comecei logo a balbuciar a música no seu ouvido. Ele, profissional competente, rapidamente encontrou o ré maior. Quando terminei ele me perguntou: – Você sabe de quem é essa música? Respondi que era de Newton

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Mendonça e Fernando Lobo. Ele me estendeu a mão e soltou uma brincadeira muito a seu gosto: – Muito prazer, eu sou Newton Mendonça, você nasceu pra mim... (foi desta forma simplória e fruto de pura coincidência que ganhei um amigo e compadre cuja morte prematura, aos trinta e poucos anos, foi duramente sentida por uma legião de parceiros e admiradores, fãs e amigos, dentre os quais, especialmente, o maior deles, Tom Jobim, seu primeiro parceiro e amigo inseparável). Não demorou nada e logo já parecíamos dois irmãos, como se nos conhecêssemos há longo tempo, desde a vida toda. Como já morava em Vitória, nossa correspondência era quase diária. No Rio, os melhores momentos gastávamos ao piano no próprio Carroussel ou, aos sábados, em seu diminuto apartamento, na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, sempre en-

riquecidos pela presença de Tom Jobim (ou na própria casa deste, na Rua Nascimento Silva, quando aproveitavam os momentos de descanso para tranquilos, sem circunstantes, comporem livres de interrupções). Ao contrário do que se supõe, eles faziam letra e música a quatro mãos. As suas produções, numa constante simbiose entre a melodia e os versos, feitas em plena e permanente sincronia harmônica, resultaram em ricas canções de beleza extraordinárias, como “Teu castigo”, “Só saudade”, “Foi a noite”, “Discussão”, “Samba de uma nota só”, “Desafinado”, “Meditação”, “Domingo azul do mar”, “Caminhos cruzados” e uma infinidade de outras canções, todas maravilhosas, ao todo 46, sendo 28 sucessos exclusivos. Com o nascimento de Fernando, ele e sua mulher, Cirene, resolveram partir para um apartamento maior. Era impossível continuar como que confina-

O ambiente era sempre de galhofa: numa tarde, os três, aborrecidos e galhofando, ameaçamos empurrar Cirene, a dona da casa, geladeira adentro, local onde ela havia escondido nosso precioso litro de Old Parr, para nos sonegar a preciosa bebida. Morando em Vitória cedo recebi uma carta muito sentimental do Mendonça, hoje guardada como uma relíquia, assim como tantas outras, me comunicando a chegada de seu filho Fernando e me convidando para ser seu padrinho. Em nossa ronda habitual, ao sair pela madrugada do Carroussel, depois de bater o ponto no popular botequim “Pinto Sujo”, ou no Ao Caldo Verde, onde a galera da música se mantinha enturmada de plantão, bebendo, conversando ou curando a ressaca, dávamos uma passada pela casa do Tom para assuntar se havia algum movimento por lá. Aí, dependendo das circunstâncias e do volume, já eventualmente convivido com o conhaque nacional Georges Aubert (o único que cabia em nossos bolsos) durante o tempo livre nos turnos do Gaúcho, o Mendonça entrava sem cerimônias na primeira farmácia aberta e gritava alto, lá para dentro, como faria em um supermercado qualquer: “Solta uma necroton aí, oh meu” e automaticamente levantava a manga comprida da camisa e esticava o braço virado para cima sobre o balcão e ficava olhando para rua, no sentido contrário ao dos acontecimentos. Ele detestava ressaca e também ver a fisgada da agulha... “Maldito Pinto Sujo”, bradava ele em um compreensível lamento.


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Pensar 24 03 2012