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Pensar

VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

www.agazeta.com.br

Entrelinhas

O COMOVENTE RELATO DO ÚLTIMO SOBREVIVENTE GAY DO HOLOCAUSTO. Página 3

Música

O PERFIL DE CUSTÓDIO MESQUITA, O “AMANTE SOLITÁRIO DAS RUAS”. Página 5

Ensaio

O AMOR E O MITO NA POESIA DE MARIA DO CARMO MARINO SCHNEIDER. Pág. 8

Estudo

PESQUISADORA EXPLICA COMO A “ESTÉTICA DA REPETIÇÃO” DOMINA AS SÉRIES DE TV.

Págs. 10 e 11

Marx, o humanista ESPECIALISTA MOSTRA POR QUE A OBRA DO FILÓSOFO ALEMÃO SE MANTÉM ATUAL.

Páginas 6 e 7


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

quem pensa

Marcelo Pereira é repórter do Caderno 2 de A GAZETA. mvitoria@redegazeta.com.br

Lucas dos Passos émestrandoemLetras,poetaeestudiosodaobra dePauloLeminski. lucasdospassos@hotmail.com

marque na agenda prateleira Campus Inscrições abertas para MBA

A Faculdade PIO XII abriu inscrições para o Master in Business Administration (MBA) em Gestão Empresarial e Inteligência Executiva, inédito no Brasil. Site: www.faculdade.pioxii-es.com.br

Biblioteca Pública Estadual Palestra sobre marchinhas

Francisco Viana é jornalista e mestre em Filosofia (PUC-SP). viana.9000@uol.com.br

A pesquisadora mineira Marilene Guzella apresenta a palestra “Relembrando velhos carnavais” na próxima terça (13/09), às 16h, na Biblioteca Pública Estadual. O evento é organizado pela Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (AFESL).

Tavares Dias é jornalista e mestre em Estudos Literários pela Ufes. tavaresdiasjorn@gmail.com

Tatiana Brioschi é poeta, contista e cronista. tatianabrioschi@gmail.com

Lançado em 1969, este romance é tido como uma das obras-primas da literatura sobre o Holocausto e inspirou dois filmes, incluindo “Um Sinal de Esperança”, com Robin Williams no papel de Jakob, de 1999. A trama gira em torno de Jakob Heym, um homem que se tornou herói por acaso. 256 páginas. Companhia das Letras. R$ 23

O Perseguidor Tom Figueiredo O terceiro título da série Estantes Policiais Paulistanas tem como protagonista um repórter policial determinado a desvendar os detalhes de um crime bizarro. Em prosa curta e ágil, o autor descreve os bastidores de um jornal popular onde vale tudo em nome do “furo” de reportagem.

Ester Abreu Vieira de Oliveira épresidentedaAcademiaFeminina Espírito-SantensedeLetras. esteroli@terra.com.br

Caê Guimarães é jornalista, poeta e escritor. Publicou quatro livros e escreve no site www.caeguimaraes.com.br

Jakob, o Mentiroso Jurek Becker

16

160 páginas. Global Editora. R$ 29

de setembro

Conexão Vivo circul

a

pelo Estado As cantoras Érika Macha do (foto) e Roberta Camp os e o compositor Gustavo Macac o são as atrações da nova edição do projeto, dia 16/09, no Teatro do Sesi, em Vitóri a; dia 17/09, no Teatro Rubem Braga, em Cachoeiro de Itapemirim; e dia 18/09, no Centro Cu ltural Nice Avanza, em Lin hares.

Daniela Zanetti é professora adjunta do curso de Comunicação Social da Ufes. daniela.zanetti@gmail.com

Brunella França é jornalista, escritora, colunista, fic-writer. http://twitter.com//brullf

Coletivo Peixaria reúne amigos que desenham porque gostam. coletivodedesenho@googlegroups.com

14

de setembro

O canto de Natércia Lopes

A cantora lírica lança o CD “La Diva La Vita” em concerto de gala para convidados, às 20h, no Theatro Carlos Gomes, em Vitória.

Villa-Lobos in Jazz Villa-Lobos in Jazz Neste CD e DVD gravado ao vivo no Rio de Janeiro, o quarteto formado por Fernando Corona (piano), Felipe Poli (violão), Ozias Gonçalves (baixo) e Otávio Garcia (bateria) recria composições de Heitor Villa-Lobos, Bach, Tom Jobim e clássicos de domínio público, com virtuosismo e originalidade. 10 faixas. R$ 50 (leblonrecords@hotmail.com)

50 Reasons to Love... Classical Music Vários Esta coletânea elenca 50 temas de mestres eruditos interpretados por diversos regentes e orquestras. A seleção compreende Vivaldi, Haydn, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky e Prokofiev, entre outros compositores. Box com 3 CDs. Decca/Universal. R$ 54,90

PENSAMENTO CRÍTICO E ATUAL

José Roberto Santos Neves

Nascida nos anos 40 do século XIX, a monumental obra de Karl Marx (1818-1883) mantém sua atualidade e continua no centro de diversos estudos críticos, como o do jornalista Francisco Viana, autor do artigo de capa do Pensar de hoje. Mestre em Filosofia Política pela PUC (SP), Viana apresenta no livro “Marx e o Labirinto da Utopia” (Biblos Editora, São Paulo, 2011) uma leitura humanista e moderna do legado do intelectual alemão à civilização. Nas páginas 6 e 7, o leitor verá uma síntese dessa pesquisa, na qual a crítica permanente de Marx ao poder do capital se relaciona com passagens da

Pensar na web

sua vida e com a sua recusa aos dogmas, motivado pela busca da utopia de uma sociedade igualitária – “uma grande ágora grega, onde era discutida a política, sem escravos” – conforme observa Viana. A edição desta semana traz ainda um ensaio sobre a produção poética de Maria do Carmo Marino Schneider, crônicas, poesia, resenhas literárias, ficção, música e uma interessante análise de Daniela Zanetti sobre os recursos usados pela indústria do entretenimento para renovar a produção de séries de TV e remakes de cinema. Material de qualidade para ler, pensar, guardar...

é editor do Caderno Pensar, novo espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Confira faixa do CD “Junte tudo que é seu...”, de Carlos Navas, música de Custódio Mesquita, trailers de séries de TV e trechos de livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br.

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

Pensar

por MARCELO PEREIRA

SOBREVIVENTE GAY DO PESADELO DE HITLER

O

s nazistas não perseguiram apenas os judeus na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As categorias dos prisioneiros nos campos de concentração incluíam também ciganos, etnias diferentes da ariana, comunistas, militantes de esquerda, católicos contrários a Hitler e os gays. Esses últimos eram identificados no uniforme com o símbolo do triângulo rosa. As cifras indicam 10 mil gays aprisionados. Um dos alvos dessa barbárie foi Rudolf Brazda, o protagonista de “Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista”, escrito por Jean-Luc Schwab a partir de entrevistas com o próprio biografado. Considerado o último sobrevivente gay entre os prisioneiros, Brazda faleceu no último dia 3 de agosto, aos 98 anos. O lançamento da Mescla Editorial – além de nos dar o testemunho de quem se fortaleceu em meio a um pesadelo – também nos sinaliza até que ponto um Estado pode chegar com suas leis ao se alimentar de puro preconceito. Brazda nasceu de pais tchecos na Alemanha, perto da cidade de Leipzig. Tinha 20 anos quando Hitler chegou ao poder. Ele já estava convicto de suas preferências sexuais e mantinha um relacionamento com um rapaz sob conhecimento e aceitação de toda a sua família. O ambiente germânico dos anos 20 pode muito bem explicar essa tolerância. Afinal, essa década (apelidada de “Os Anos Loucos”) foi marcada por uma grande liberalidade sexual. Mas tudo ruiu com os nazistas no poder. E Brazda, um jovem com instrução primária e ainda se estabelencendo na vida, conheceu o lado perverso com essa mudança na legislação. Para os partidários de Hitler, ser gay era “antinatural pois não gerava filhos para o Estado”. O código penal do Reich no parágrafo 175 determinava multa e detenção a quem se envolvesse na prática. Assim, em 1937, Rudolf Brazda foi preso acusado de “prática sexual não natural”, incluindo “masturbação mútua” e “esfregar as partes genitais” em outros homens. Era assim que o regime nazista descrevia o comportamento homossexual. Depois de seis meses, ele foi solto, e mudou-se para a então Tchecoslováquia, terra de seus pais. Em agosto de 1942, foi preso novamente: parte do país onde havia se exilado fora anexada à Alemanha. Levado para o campo de concentração de

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

TRIÂNGULO ROSA Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda. Mescla Editorial. 184 páginas. Quanto: R$ 48,90

TRECHO Rudolf, que é telhador, exerce um trabalho braçal de manutenção dos prédios do campo. Isso o poupa de certos serviços que outros homossexuais devem suportar. Quando não são empregados em tarefas particularmente árduas ou degradantes, eles são utilizados como cobaias humanas. (...) Além disso, os homossexuais são as presas preferidas especialmente para as experiências do médico dinamarquês Carl Vaerner. No final de 1944, esse clínico geral, nazista convicto, vem testar tratamentos de “inversão de polaridade sexual” com os homossexuais. Sua especialidade? O implante de uma glândula artificial na virilha do sujeito para liberar hormônios aí. Ele tem esperança nos efeitos positivos sobre a preferência sexual de suas cobaias.

Acima (à esq.), Rudolf Brazda, o protagonista do livro “Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista” e o militante francês Fernand no campo de concentração em Buchenwald, em abril de 1945. Ao lado, Rudolf em Berlim, em 2008

Buchenwald, ficou lá até a derrota alemã, em abril de 1945. O “triângulo rosa” não suportou tudo sozinho de uma maneira estoica em Brunewald. Rudolf contou com a amizade sincera do militante francês de esquerda Fernand B. Inclusive, este o levou para a França depois de serem libertados pelos Aliados. Lá, Rudolf encontrou seu par, em 1950, o húngaro Édouard M., com quem ficou casado até a morte deste em 2003. O livro é um documento precioso no que se refere ao tratamento dado aos gays nos campos de concentração. Eram considerados os últimos dos prisioneiros. Talvez por ser um trabalhador braçal (ele era responsável por reparar os telhados das construções no campo), Brazda tenha sobrevivido. Afinal, mesmo sendo gay, para a lógica nazista ele era essencial já que havia consertos para fazer. Se fosse um intelectual ou um profissional liberal, talvez fosse eliminado em pouco tempo. Mas há outro detalhe, saído do próprio Brazda: sua simplicidade em encarar a vida e seu permanente otimismo.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

livros por LUCAS DOS PASSOS

A COMPLEXA NATUREZA HUMANA NA OBRA DE KAFKA

ESSENCIAL FRANZ KAFKA Franz Kafka Companhia das Letras. Trad.: Modesto Carone. 304 páginas Quanto: R$ 26

Antologia reúne contos, novelas e aforismos do revolucionário escritor tcheco, com notas biográficas que ajudam a desnudar os seus numerosos fantasmas pessoais

I

mportante tradutor, Modesto Carone reuniu contos, novelas e aforismos de Kafka no volume “Essencial Franz Kafka”, antecipando a cada texto comentários que ajudam a ressaltar aspectos do material literário que se segue. A própria introdução procura traçar uma breve silhueta da obra kafkiana, matizada ora por um realismo a todo tempo posto em xeque com o recurso do enigma, ora por um mundo de fisionomia “desloucada”, para usar o trocadilho de Günther Anders. Entretanto, a deformação da realidade, potência que o autor identificou nas telas de Picasso, não aparece, em Kafka, construída por meio de uma linguagem rocambolesca: pelo contrário, a perturbação sofrida pela língua literária do autor encena uma transparência cínica e alarmante que foge dos contornos meramente estetizantes e adentra o domínio das dores (do corpo, da consciência ou da crueldade burocrática). Essas pinceladas ganham contornos mais definidos com a leitura do conto que abre a antologia. “O veredicto”, ponto de virada e mapa a priori da ficção kafkiana, traz à tona algumas questões-chave, como a relação com o pai e a sentença inesperada posto que definitiva. A modernidade agindo sobre o sujeito provoca inúmeras aparições texto após texto; são símbolo disso, entre outros, os protagonistas de “Um artista da fome” e de “Um relatório para uma academia” – este, um símio que passa para a condição humana, numa variação paródica da teoria darwinista (ou lamarckista?). Noutra forma de apropriação do mundo, brotam também contos enigmáticos, muitas vezes pautados num lirismo em condição de problema ou guiados pelo tom de parábola, além da máxima condensação da literatura pensante do escritor tcheco nos 109 aforismos que se enfileiram como pérolas no volume e colaboram para adensar a obra. Em linhas gerais, a câmera do “narrador insciente” (aquele que sabe tanto quanto o protagonista) captura situações que espantam o público por seu horror, mas que são, a bem da verdade, focos bem específicos de uma realidade não tão distante. A frieza com que é apresentado, ao estrangeiro, o aparelho de “Na colônia penal” – máquina que inscreve, com o requinte da técnica, a sentença na pele do

TRECHO Franz Kafka (1883-1924) horrorizava-se com a existência burguesa a que se via condenado. Embora desde cedo se sentisse plenamente assimilado à mais alta tradição da Weltliteratur, carregava a culpa de não corresponder às comezinhas expectativas da família, típica representante da classe média judaica de Praga, então uma das capitais do Império Austro-Húngaro. Exasperado ante a necessidade de conciliar sua arte com o emprego no Instituto de Seguro contra Acidentes do Trabalho e esmagado pela autoridade do pai, o autor de “A metamorfose” jamais conseguiu libertar-se de seus numerosos fantasmas pessoais, escondendo-se atrás de uma proverbial timidez.

Volume traz textos clássicos do autor, como “A metamorfose” e “Na colônia penal”

Perfil de Kafka 1883 Nasce em 3 de julho na cidade de Praga, Boêmia (hoje República Tcheca), então pertencente ao Império Austro-Húngaro. Era o filho mais velho de Hermann Kafka, comerciante judeu, e de sua esposa Julie, nascida Löwy. 1906 Forma-se em Direito e trabalha como advogado, a princípio na companhia particular Assicurazioni Generali e depois no Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho. Duas vezes noivo da mesma mulher, Felice Bauer, não se casou. 1917 Aos 34 anos, sofre a primeira hemoptise de uma tuberculose que iria matá-lo sete anos mais tarde. Alternando temporadas em

sanatórios com o trabalho burocrático, nunca deixou de escrever, embora tenha publicado pouco e, já no fim da vida, pedido inutilmente ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos. 1924 Morre em um sanatório perto de Viena, Áustria, no dia 3 de junho, um mês antes de completar 41 anos. A maior parte de sua obra – contos, novelas, romances, cartas e diários, todos escritos em alemão – foi publicada postumamente. Quase desconhecido em vida, o autor de “O processo”, “Na colônia penal”, “A metamorfose” e outras obras-primas da prosa universal é considerado hoje um dos maiores escritores do século XX. Fonte: Companhia das Letras

condenado por doze horas até varar seu corpo – coloca o leitor no lugar daquele que, com certa passividade, apenas observa. Essa é a atitude de Pallas, que se posiciona para assistir ao assassinato descrito em “Um fratricídio”, e, nalguma medida, a do guarda de “Desista!”; sobre ela, perguntaria o narrador: “quem pode penetrar na natureza humana?”. Exposta com inconfundível translucidez, ainda no fim do livro a natureza humana não deixa de ser repensada, complexa como ela é: não à toa, com a metamorfose de Gregor Samsa num inseto monstruoso. Ponto de partida irresoluto, a transformação do caixeiro viajante sustenta a novela, mais a cada dia, entre as grandes narrativas da literatura universal, encerrando este “Essencial Franz Kafka” como não poderia deixar de ser: sem qualquer sinal de apaziguamento.


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falando de música

Pensar

por JOSÉ ROBERTO SANTOS NEVES

ELEGÂNCIA, TEU NOME É CUSTÓDIO MESQUITA

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

JUNTE TUDO QUE É SEU... Canções de Custódio Mesquita em voz e piano Carlos Navas. Tratore. 10 faixas. Quanto: R$ 19,90 www.carlosnavas.com.br

V

ira e mexe surgem testes e brincadeiras na internet sugerindo qual ano ou década gostaríamos de ter vivido. Confesso que ultimamente tenho estado cada vez mais interessado no período de 1930 a 1945, que corresponde à chamada Época de Ouro da música brasileira. Independentemente do regime totalitário de Getúlio Vargas, aquele foi um período de grandes avanços no Brasil, com o advento da gravação eletromagnética, a ascensão dos ídolos do rádio, a afirmação do samba como símbolo da identidade nacional e o florescer de um elenco estelar de intérpretes e compositores – entre eles, Noel Rosa, Wilson Batista, Ismael Silva, Geraldo Pereira, Ary Barroso, Braguinha, Assis Valente, Ataulfo Alves, Dorival Caymmi e tantos outros que esta página seria pequena para citá-los um por um. Custódio Mesquita (1910-1945) foi um desses criadores superlativos que tiveram papel fundamental na modernização da música brasileira. Compositor, pianista, regente, ator, autor teatral e porta-voz da classe musical na defesa dos direitos autorais, esse carioca de Laranjeiras foi um artista múltiplo cuja vida e obra merecem mais atenção por parte do público.

Carlos Navas (acima) regrava sambas, valsas e foxes de Custódio Mesquita no CD “Junte tudo que é seu...”

Parceria com Noel

Amante das ruas

Nascido em berço de classe média alta, Custódio é um prato cheio para roteiristas de teatro e cinema. Alto, bonito, vaidoso, só saía de casa perfeitamente vestido e penteado, rumo à boemia que tanto amava. Quem quisesse encontrá-lo que percorresse o circuito da Cinelândia à Lapa, onde ele passava de bar em bar, com parada obrigatória no Café Nice, e onde nasceu boa parte das cerca de 200 composições que criou, muitas delas com parceiros como Sadi Cabral, Mário Lago, Orestes Barbosa, Evaldo Rui, David Nasser, Paulo Roberto. Era um “amante solitário das ruas”, como o chamou Lamartine Babo. E, antes que se imagine nosso personagem como um devasso ou esnobe, lembremos que Custódio jantava todas as noites com a mãe e tocava piano de graça nos inferninhos onde chegava a alta madrugada, sendo recebido de braços – e peitos – abertos pelas damas dos cabarés que cediam aos seus caprichos. Se o perfil dele é rico, a música era esplêndida. Seu primeiro sucesso, a marcha “Se a Lua Contasse”, foi o grande sucesso do carnaval de 1934 na voz de

piano”. Acompanhado do pianista Gustavo Sarzi, o intérprete percorre 13 composições do homenageado com seus diversos parceiros. Estão lá, em tom intimista, “Velho Realejo” (com Sadi Cabral), “Valsa de um Subúrbio” (com Evaldo Rui) e o fox “Nada Além”, parceria de Mesquita com Mário Lago que se configurou como o maior sucesso da carreira do compositor, aqui regravado por Carlos Navas em dueto com Rosa Maria Collyn. A outra convidada do disco é a cantora Alzira E, na faixa “Nossa Comédia”.

A LETRA DOUTOR EM SAMBA

Sou doutor em samba Quero ter o meu anel Tenho esse direito Como qualquer bacharel. Vou cantar a vida inteira Para meu samba vencer É a causa brasileira Que eu quero defender. Sou doutor em samba Só o samba me interessa E me traz animação Quero o meu anel depressa Para seguir a profissão.... Composição de Custódio Mesquita

Aurora Miranda. Na mesma época obteve projeção com “Doutor em samba”, gravado por Mário Reis, cantor da alta sociedade carioca que antecipou em duas décadas o estilo suave de João Gilberto. Mas não parou por aí: além de sambas, compôs valsas, foxes e canções românticas, sempre valendo-se de uma percepção musical apurada nas harmonizações e na concepção de arranjos. Encontrá-lo nas lojas e mesmo na internet hoje não é tarefa fácil. Nos sebos, é possível garimpar o volume em LP da notável coleção “A História da Música Popular Brasileira”, da editora Abril, ou a extensa biografia “Custódio Mesquita – Um compositor romântico no tempo de Vargas” (2001), do historiador Orlando de Barros. Agora chega ao mercado um bonito tributo do cantor Carlos Navas, intitulado “Junte tudo que é seu – Canções de Custódio Mesquita em voz e

Essa não foi a primeira incursão de Carlos Navas no cancioneiro da Época de Ouro: em 2007, ele lançou projeto semelhante dedicado a Mário Reis, e costuma alternar em sua discografia o registro de material inédito com projetos revisionistas. Nessa segunda vertente, atua com o zelo digno de pesquisadores, como no resgate de “Prazer em conhecê-lo”, parceria de Custódio Mesquita e Noel Rosa lançada em 1932 por Mário Reis. Como tudo o que envolve o Poeta da Vila, essa canção tem uma história curiosa: Noel escreveu a letra depois de reencontrar uma ex-namorada numa festa em que a moça – talvez para evitar o ciúme do novo par – fingiu nunca tê-lo visto. Ao serem apresentados, limitou-se a dizer: “Prazer em conhecê-lo”. É uma pena que este tenha sido o único encontro musical desses dois mestres da canção popular. Muitas parcerias devem ter se perdido nas madrugadas da Lapa, como descreve o parceiro Paulo Roberto, em depoimento publicado na coleção “História da Música Popular Brasileira”. Assim o protagonista deste texto seguiu sua vida boêmia até 13 de março de 1945, quando partiu precocemente, aos 34 anos, levado por uma crise hepática. Sessenta e seis anos depois, pode-se dizer, sem medo de errar: Custódio Mesquita foi o suprassumo da elegância na música popular brasileira.


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filosofia

Pensar

por FRANCISCO VIANA

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

A obra marxiana, nascida nos anos 40 do século XIX, tende a ganhar crescente atualidade como a contribuição do revolucionário que concebeu a filosofia como caminho para transformar o mundo

MARX E O LABIRINTO DA UTOPIA

SITE DA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

A trajetória do mito, do nascimento ao apogeu do marxismo 1818: Karl Marx, o segundo dos oito filhos de Heirinch Marx e de Enriqueta Pressburg, ambos descendentes de rabinos, nasce em Trier, com 15 mil habitantes. Foi uma das primeiras cidades a conhecer e discutir a doutrina de Saint-Simon, que viria a ser conhecida por Marx ainda nos tempos de juventude. Também na cidade circulavam as ideias fourieristas. 1841: Marx doutorou-se Era um jovem culto e ardente, com sede de conhecimentos, que escrevia poesias. Seus sonhos eram limitados: casar-se e ensinar filosofia. O pêndulo da história, ao mover-se na Alemanha no rumo de um regime centralizador, barra-lhe o acesso à universidade. Marx, despojado dos sonhos originais, vai tomar as rédeas do próprio destino. A paixão pela poesia e pelo ensino acadêmico irão se metamorfosear em paixão pela práxis revolucionária. Permaneceu a paixão por sua mulher, Jenny (foto), filha de família aristocrática, mas que o acompanhou por toda a vida, enfrentando exilio, a fome e a constante falta de dinheiro só interrompida em 1868 quando Engels, que era industrial e revolucionário, anuncia que iria liquidar todas as dívidas de Marx e lhe assegurar uma pensão anual de 350 libras.

ESTUDIOSO DESTACA O LADO HUMANISTA DO INTELECTUAL QUE LEGOU À HUMANIDADE A IDEIA DE CRÍTICA PERMANENTE

M

arx buscou a verdade do homem, não o novo. Perguntava-se ainda nos tempos do ginásio: qual é o sentido da vida? Enquanto os marchands da felicidade individual, distante da coletividade e cada vez mais entrelaçada ao consumismo, invadem o cotidiano para desidratar a vida da ação política, a obra de Karl Marx, nascida nos anos 40 do século XIX, tende a ganhar crescente atualidade. O que contém de mais moderno é o Marx humanista. O filósofo que concebeu a ideia da filosofia não como interpretação do mundo, mas, sim, como caminho para transformá-lo. Essa ideia perpassa a obra de Marx. Pode ser encontrada na juventude, quando estudou as “Diferenças entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro” e escreveu sua tese de doutorado (o doutoramento correspondia ao que é hoje a graduação universitária) e sete cadernos de estudos, em grandes folhas brancas, ao todo 58, hoje guardadas em Amsterdã sob custódia do Instituto Internacional de História Social. E faz um sobrevoo filosófico-poético pelo longo percurso que se estende dos mitos platônicos à crítica de Aristóteles, da

filosofia “feliz” dos epicuristas aos estoicos e céticos até a ascensão e tragédias do Império Romano. Como podem ser encontradas nos debates em torno de Hegel e a filosofia do Direito, quando o homem emerge como o centro da vida política, não como objeto do estado. São páginas que se completam com o “Manifesto Comunista” e os escritos de maturidade, entre elas “O Capital”. O núcleo da questão é filosófico: a concretização da filosofia na construção do mundo pelo trabalho, tendo os homens como arquitetos. Esse o coração da sua utopia. Aliás, os utopistas são citados com frequência na obra marxiana. Todos eles: Tomas More, Francis Bacon, Saint-Simon, Charles Fourier, Robert Owen. Todos exercitaram e aperfeiçoaram o humanismo. More é um filósofo cristão, mas a sua Utopia era terrena. Na ilha do não lugar (do grego u-topos), a propriedade privada foi extinta, como também os luxos supérfluos e “todos têm a sua parte de tal modo que ali não existem pobres ou mendigos”. Há nele o humanismo resgatado da humanitas da tertúlia culta do imperador Augusto, de Roma, onde a cultura grega encontrou abrigo. Na “Nova Atlântida”, ficção filosófica ina-

cabada de Francis Bacon, o filósofo da técnica, a vida se identifica com o novo mundo da ciência. Bacon, nesta obra publicada em 1627, propõe uma nova filosofia para um novo mundo. Nascido em Londres, no período em que a Inglaterra se firmou como potência marítima, Bacon argumentava que a sociedade estava construindo uma nova história. O conhecimento exigia liberdade de criar, de negar e conhecer, de experimentar e tudo dizer. Saint-Simon, que lutou ao lado dos revolucionários na América e na França, foi alçado na Europa de 1830 a um plano semelhante àquele que em diferentes épocas ocuparam Hércules, Orfeu, Moisés e Jesus. A chama das suas ideias procurou criar uma nova religião científica e industrial, o Novo Cristianismo. Foi o primeiro industrialista, o primeiro a promover a aliança entre capital e trabalho, a buscar superar, pela via pacífica, o antagonismo de classes herdado da Revolução Francesa, a Revolução da Igualdade. Fourier entendia a crise do homem como sintoma da crise da filosofia. Considerava o agudo contraste entre o discurso e a prática como a doença da civilização. A sociedade não progredia porque os filósofos jamais atentaram para

1843: Marx escreve a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, que permaneceria inédita até 1927. Foi a primeira obra em que associou a emancipação humana à luta do proletariado. Parte do texto, junto com “A questão judaica”, foi publicada nos Annales franco-allemandes entre dezembro de 1843 e janeiro de 1844. As duas obras assinalam a adesão de Marx à causa do proletariado.

os verdadeiros problemas da humanidade. Esse desprezo fez com que o homem se desenvolvesse em contradição com a natureza, atacando-a perpetuamente. Os progressos da civilização lembravam o trabalho de Sísifo: quanto mais próximo se imaginasse de um ideal de progresso, mais distante ele estaria. Esse o labirinto: o mundo erguido pelo homem não era humano.

Emancipação

1848: Publicação do “Manifesto comunista”, que Marx e Engels escrevem no fim de 1847, por solicitação da Liga dos Comunistas, sociedade operária internacional que eles ajudaram a criar. Marx recorre a uma linguagem de folhetim, à televisão do século XIX, com o propósito de alcançar o imaginário das massas populares.

Reprodução fotomecânica de gravura de Karl Marx: pensador recusou dogmas

Foi o fio de saída do labirinto que Marx procurou. E o fio chamava-se emancipação, isto é, a transição do homem incompleto para o homem total, engrandecido pelo trabalho. O homem que ao exercitar a liberdade constrói a coletividade. Uma grande ágora grega, onde era discutida a política, sem escravos. Esse foi o magnetismo da teoria marxiana: a identificação de grandes massas com o seu pensamento. A sua própria vida foi um exemplo da autenticidade da sua utopia. Recusou o dogma, a verdade enfeixada na mão de alguns poucos eleitos. Na falta de justificativa para a vida parasitária, que era considerada normal e desejável, seus senhores forjaram valores, leis,

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costumes vitais, enfim, tudo o que Marx chama de ideologia e que está camuflada na economia política. Filósofo de formação, jornalista na escola da prática – do valor dos fatos desenvolveu a teoria do materialismo dialético –, semeou o ocaso do fetichismo da mercadoria e o poder do capital como mediadores das relações humanas, em escala universal. Partiu da realidade das relações de produção para a consciência. Nos corredores da história, pesquisou não o novo, mas a verdade, não se ateve somente na busca do resultado, mas considerou o caminho a seguir. Se lermos Marx à luz dos dias atuais,

é fácil constatar que ele legou à humanidade genuína ideia de crítica permanente. É essa crítica que aprimora a vida política e faz sonhar com o futuro, é o que impulsiona a prática não meramente econômica ou de consumo e faz do homem esse ser fantástico que constrói a própria existência. Entenda-se fantástico no sentido da própria existência: a criatividade, a soma do indivíduo e do coletivo, a arte de ser coerente entre o que se fala e o que se faz. Justamente a arte que nós, no Brasil, precisamos exercitar e tornar atributo inseparável, mesmo que labiríntico, da real construção democrática.

1853: Este ano é considerado o início da “longa noite de exílio” de Marx e sua família em Londres. As repercussões de processo aberto em Colônia no ano anterior contra a Liga dos Comunistas fazem com que Marx seja visto como chefe de uma organização de conspiradores, com ramificações internacionais, que tramava contra a Prússia e as coroas europeias. 1859: Marx escreve múltiplos artigos para o “The New York Times” e passa a escrever a primeira versão do capítulo de “O capital” sobre a transformação do dinheiro em capital. O primeiro volume seria publicado em 1867, na cidade de Gamburgo. Após a morte de Marx, em 14 de março de 1883, Engels publicará os livros “II” (1885) e “III” (1894). A Rússia seria a primeira nação a traduzir “O capital” (1872).

1869: Em “Cartas a Kugelmann”, Marx reclama do silêncio da imprensa burguesa sobre “O capital”. Apesar da fragilidade da saúde, começa a estudar russo para melhor compreender o movimento comunista na Rússia. Encontra-se frequentemente com revolucionários russos. 1870: O período que se prolonga até 1871 vai ser marcado pela Comuna de Paris e a guerra entre a em abril. França e a Alemanha. Marx vai analisar a Comuna como “um movimento real” para superação da experiência da revolução operária de 1848 na Europa e do movimento utópico. É quando detalha o seu conceito de transição do capitalismo para a sociedade sem classes, envolvendo quatro etapas: a fase revolucionária e violenta, para destruir o poder da burguesia, promovendo “a expropriação dos expropriadores”; a ditadura do proletariado, a comuna, para neutralizar a contrarrevolução e promover as reformas necessárias para a abolição da propriedade privada; a instauração do socialismo, para retomar a produção e acabar com o império da necessidade; a instauração do comunismo, sem classes, nem divisão do trabalho, mas como uma sociedade em permanentemente dinâmica, com igualdade real, de dimensões universais. A Comuna, segundo Marx, fracassou na passagem da ditadura do proletariado para a neutralização da revolução. 1877: Os antagonismos entre a Rússia e a Turquia levam Marx a considerar a possibilidade de a revolução socialista irromper na Rússia. No prefácio da tradução russa do “Manifesto Comunista”, em 1882, reitera sua posição: a revolução na Rússia poderia ser um símbolo para a revolução operária no Ocidente. O pensamento de Marx começa a emergir com força nos círculos intelectuais russos e se transformará na base educacional de toda uma geração de revolucionários. Lênin completará sua formação como marxista no início de 1890 durante os três anos em que viveu em São Petesburgo. 1882: Em diálogo com Engels, Marx pronuncia a célebre frase: “Eu não sou marxista”. Estava gravemente doente, sofrendo da garganta e dos pulmões. Sente-se deprimido, leva sempre as fotografias do seu pai e da sua mulher, que, numa bolsa de couro, seriam enterradas com ele. Sofre de insônia e anorexia. Seu último ano de vida seria de uma morte lenta, mas Marx não negligenciaria a política, mantendo-se atento ao que acontecia na Europa. E faz plano com Engels de futuros livros. 1883: Marx morre no dia 14 de março. O relógio marcava 14h45. Estava em sua poltrona. Dois minutos antes, sua filha Eleanor e Engels, amigo e companheiro de 40 anos, tinham se afastado do quarto. Além de gravemente doente, estava emocionalmente abalado pela morte da sua mulher, Jenny Marx, em 2 de dezembro de 1881, e da sua filha Jenny, também em 1883. Em 17 de março foi enterrado ao lado de sua mulher, no cemitério de Highgate, em Londres. Onze pessoas assistiram ao funeral, entre elas suas filhas Eleanor e Laura, seus genros Paul Lafargue e Charles Longuet e Friedrich Engels, que pronunciou a oração fúnebre. Engels, que viveria até 5 de agosto de 1895, passaria a se dedicar a completar e traduzir a obra de Marx. O pensamento de Marx, sob a denominação de “marxismo”, seria gradualmente incorporado ao pensamento socialista e comunista. Sua influência seria comparável à influência de Jesus Cristo. A Revolução Russa de 1917 promoverá impacto universal. A questão do sentido da vida permanece em aberto.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

ensaio por ESTER ABREU VIEIRA DE OLIVEIRA

A FORÇA POÉTICA DE MARIA DO CARMO Em sua obra, poetisa revela um eu apaixonado, repleto de beleza interior, que nos direciona para um criador, dono de musicalidade nas palavras e pleno de momentos de arte e poesia

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poetisa Maria do Carmo Marino Schneider, ganhadora de vários prêmios literários, é membro da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, onde ocupa a Cadeira 17, cuja Patrona é Maria Magdalena Pisa. Suas obras literárias impressas estão divididas em poéticas, biográficas e ensaios. Encontra-se, na obra poética de Maria do Carmo, um mostruário de poemas de tamanhos e formas variados, desde as formas livres às presas às quantidades: soneto, “sonata”, dísticos, quartetos e quintetos, nos quais um eu apaixonado, repleto de beleza interior, nos direciona para um criador, dono de musicalidade nas palavras e pleno de momentos de música, arte e poesia. Em muitos poemas, o cosmo se identifica com a poesia ou a autora dele se serve como apoio poético, para que o eu poético manifeste a sua emoção em um breve instante, ou questione sobre a felicidade, o amor, a morte e o ser mulher. As obras “Nós”, em que os poemas, titulados e ilustrados por Jorge Sole, se organizam com a singela forma de um bloco poético, e “Aquarelas poéticas”, onde se encontra um conjunto de haikais ilustrados por Leda Brambate Carvalhinho com a forma de um álbum, provocam duplicidade de imagem: a poética, formada por palavras, e a pictórica, construída por figuras coloridas, numa integração de artes: a das letras e a das artes plásticas. Quanto à temática, predominam os temas sobre a natureza e os seres que nela habitam, sobre os momentos de desilusão e sobre a fugacidade do tempo. Em “Só ser. Poemas”, o eu poético busca a felicidade, a despeito de “preconceitos escondidos”, almeja encontrar-se como “SER Mulher” e percebe-se o grito de uma Mulher, solitária que se sente desiludida e nada espera de um “estranho e grande amor” (p. 48). Mas ama e sofre, pois sem o amor sabe que morrerá (p. 49). Nos poemas de “Sonatas” predominam os temas de amor sofrido, eterno: “amor para além da vida”, e “amor para além da morte” (p. 48), amor erótico, de fogo que consome; como a sonata “Ágape”. Em “Fio de prumo”, os temas de amor (do-

EDSON CHAGAS

“Sonata”, no poema “A um herói da modernidade”, a escritora capixaba retoma a história do mito de Sísifo, para filosofar sobre um tempo consumidor, laborioso de um cansativo retornar. Em “Fio de prumo” o eu poético se identifica com o pássaro mitológico Fênix e sente que vão renascer os sonhos desfeitos e, com uma prosopopeia, se dirige tanto à ave mitológica grega quanto à potente dos altos cumes andinos, o condor. E é na metonímia desses dois seres (o real e o imaginário) – Fênix, pássaro que queimado renasce das cinzas, e condor, que sobrevoa sobre os altos picos andinos – que os mais íntimos anseios do eu poético se manifestam.

Ser amado

Maria do Carmo versa sobre a felicidade, o amor, a morte e o ser mulher

lorido) e canto persistem unidos a outros temas.

Livros da autora

Mito

Poesias: Fio de Prumo (1989), Só Ser (1991), Nós (1992), Sonatas (1996), Aquarelas Poéticas (1996); Parcerias: Ave-Maria. Poemas para rezar (1998), coautoria com Wanda Maria Alchimen; Mistral (1999) (bilíngue: francês/português), Canzoni d’amore (1999) (bilíngue: italiano/ português, coautoria com Marilena Vellozo Soneghet, Nerina Merina Bortoluzzi e Wanda Maria Bernardi).

O mito relata um acontecimento que tem lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso das “origens”. Dificilmente se pode conceber uma literatura, uma narrativa, um poema, um texto dramático, que não trate do mito, e das complexas relações entre os mitos e as múltiplas realizações que se estabelecem entre eles e as encarnações possíveis. E com Maria do Carmo mitos clássicos e populares, das amorosas histórias de princesas e reis, se aninham nas sonatas “Mitológicas I” (p.48) e “II” (p.49), para que o eu poético ilustre o lamento da separação de um ser amado, e para que possa mostrar que preconceitos podem provocar os mesmos acontecimentos trágicos que ocorreram na história de Édipo e Jocasta, figuras da Mitologia grega. Em “Nós”, nos remete ao mito do Minotauro e ao mito de Cromos. Em

Pesquisa: A música folclórica brasileira: das origens à modernidade (1999); Victor Hugo: a face desconhecida de um gênio (1999); A Inspiração dos Imortais (2005); Victor Hugo – a voz do exílio (2008); Em torno de Rivail (coautora - 2008); Mme de Girardin – A Musa da Pátria – com lançamento hoje, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Biografias: Maria Filina, Semeadora de Sonhos (2002), coautoria com Maria das Graças Silva Neves; e Juanita: Memorial de um coração solitário (2009).

Em “Narciso” (p. 57), o eu poético, nos seis dísticos, concretiza a sua visão entranhada do ser amado: “Por sobre o espelho das águas busquei tua face, Narciso. /Mas, para ver tua imagem, isso não era preciso./ [...] Narciso, ao debruçares tua face sobre mim/ imaginaste, algum dia, ter-me cativa assim?/ Prisioneira da tua imagem, há séculos dentro de mim,/ trago algemada minh’alma num cativeiro sem fim”. Em “Eros” (p.59), exalta a beleza do poeta a quem dedica o poema: “[...] Reencarnas de Eros o fulgor [...]”. Maria do Carmo interpreta no seu canto poético o Amor com os mais contraditórios sentimentos, vivenciados por um eu apaixonado, ansioso, insatisfeito, mas às vezes pleno, porém sempre no eterno dilema de quem ama. E para cantar o amor, contraditório como Eros ou Cupido, ela se apropria da história mítica que desvenda, com suaves e expressivos ritmos. Se é pela arte que o ser humano procura dar sentido ao mundo e à própria vida, a poeta capixaba apropria-se da arte para ridicularizar a inconcebível ordem que o mundo oferece, e quer, estilizando a vida, narrando-a ou vitalizando-a, compreender a forma como este mundo está organizado. Mas como a linguagem poética é englobante, tudo o que a poeta vê ou imagina faz com a sua linguagem poética de contradição e de conflito um só discurso que vem de seu interior, de sua intencionalidade, tornando a sua obra uma utopia poética.


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poesias PRESTO ADAGIO

crônicas A VIDA É DOCE? por CAÊ GUIMARÃES

TATIANA BRIOSCHI Ele começou a vida um violino agudo, dado a arroubos stacattos dramático da fundamental a duas oitavas suas discussões eram ataques histéricos e um infinito Da Cappo depois tornou-se violoncelo maior, mais vibratto menos tenor, mais barítono sua raiva mudou de escala com menos acidentes e mais bequadros Hoje ele é contrabaixo profundo, melancólico cada vez mais distante do spalla longos solos em uma pauta sombria sozinho pesado e grave.

TEREZINHA Na primeira vez ela xingou sua mãe maldisse sua cachaça secou seu rosto ferido Na segunda vez ela arranhou-lhe o braço puxou seu vestido chutou-lhe o baço pediu-lhe me deixe

Vivemos no fio de um pavio prestes a ser aceso à guisa de corda bamba. Em uma extremidade, a possibilidade da felicidade, como se ela existisse por si, como um fim. Do outro lado, a convicção de que tudo é uma grande bobagem e que a felicidade não existe. Mas ainda há uma terceira via, ensinada pelo ator americano Jerry Lewis, de maneira mais tocante do que todos os contorcionismos faciais que eternizou em salas de cinema e TVs nos últimos 60 anos: “Já que a felicidade não existe, sejamos felizes sem ela”. Essa parece ser a tônica dos personagens de “Doce de Coco”, longa de ficção do cineasta capixaba Penna Filho. O autor deixou a terra natal em 1959, viveu décadas em São Paulo, onde atuou como cineasta e jornalista, e se estabeleceu em Florianópolis, onde foi filmada a história.

Santinho é um artista plástico que esculpe santos encomendados para igrejas. Sua mulher, Madalena, vende roupas nos arredores de Fartura (as gravações foram feitas no Ribeirão da Ilha, bairro bucólico e um dos mais tradicionais da capital catarinense). Sua filha vive a descoberta do sexo e do amor. A caminhada na corda esticada sobre a vida do trio é abalada pela crise econômica do final dos anos 90, começo do século XXI. Ironicamente, há no filme diversas placas fazendo alusão à praga do 1,99 que nos assola desde então. Santinho é um artista, como diz a filha, mas precisa esculpir santos para colocar comida na mesa. Nem mesmo o velho fusca da família é usado por Madalena em sua peregrinação pelas casas das vizinhas invejosas que desdenham das roupas que vende. O namorado da filha

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tem uma produtora de fotografia e vídeo que trabalha essencialmente com casamentos e batizados. Gente comum. Como vemos todos os dias pelas ruas da cidade. E como somos nós também, imersos em questões cotidianas como o tamanho do orçamento, a realização pessoal em detrimento da sobrevivência, o desejo e o amor. E o passado, no caso de Santinho, marcado pela ditadura militar, ainda que ele mesmo declare que escolheu não pegar em armas para combater a repressão. Para sair das dificuldades a família aposta na loteria. Até que em um sonho fantástico Madalena intui a existência de um tesouro enterrado no cemitério da pequena vila onde vivem. Como desenterrar o tesouro prometido em sonho? Como lidar com os desafios do cotidiano? Como se equilibrar entre o feijão e o sonho? À moda de mestres italianos como Etore Scolla, Mário Monicelli e Vitório de Sica, Penna Filho imprime em “Doce de Coco” sua opinião. Com delicadeza, fina ironia e um olhar generoso sobre o dilema estendido nas primeiras linhas desta crônica.

O POETA DO BOM DIA Por TAVARES DIAS

Na terceira vez ela nada disse quando ele lhe bateu de novo foi até a cozinha e pegou a faca de peixe.

I.P. A iminência parda do poder é o medo A iminência parda da jovialidade é o desprezo A iminência parda do cliente é o dinheiro A conexão é a iminência parda da dor A iminência parda da recompensa é o olhar A luz é a iminência parda do pintor O humano é a iminência parda da fronteira O subconsciente é a iminência parda do presságio A distração é a iminência parda da falência O abandono é a iminência parda do convívio O hoje é a iminência parda do destino A iminência parda do sabão são os ossos A iminência parda da pocilga é a feijoada A iminência parda da escravidão é o ócio Da coroa a eminência é a iminência parda

Um dia, viouvi o cantor Renato Teixeira fazer uma brincadeira, num show, dizendo que tinha retornado a Taubaté, onde foi criado (nasceu em Santos), e que a moda, lá, agora, era as pessoas passarem umas pelas outras e não se cumprimentar, “só pra fingir que são da cidade grande”. Há muitos anos, quando morava no Rio, estive de férias no interior das minhas Gerais. Minha irmã morava numa fazenda. Numa daquelas tardes, arreei um cavalo, fui à vila mais próxima, e retornei, à noite. Dias depois, minha irmã me disse que uma senhora lhe perguntara se eu estava bem de saúde: – Ele passou a cavalo e nem sodou nós. No falar do povo daquela região, sodar é o mesmo que saudar. E passar por uma pessoa e não cumprimentá-la é considerado, por lá, uma grosseria e tanto. Dias depois, precisei retornar ao povoado. Fui direto à casa de Dona Julinha,

cumprimentei-a e lhe entreguei um delicioso queijo feito por minha irmã. Não houve censuras nem pedidos de desculpas. Estava claro, para todos, que eu me penitenciava pela descortesia cometida por pura tolice de um matuto afetado por 10 anos de metrópole. Atualmente, costumo entremear caminhadas e pequenas corridas, no calçadão de Camburi, quase toda manhã. E vejo, nos olhos da maioria das pessoas que ali caminham sozinhas, o mesmo alheamento que percebo em quase toda a gente que costumo encontrar durante o dia. Olhar de garoupa de geladeira, como quer um mordaz amigo meu. Com uma saudável e louvável exceção: um senhor, de presumíveis 60 anos, que sempre passa correndo, completamente suado, a camiseta colada ao corpo. De longe, reconheço-lhe a voz e ouço a sequência: bom dia, bom dia, bom dia... Pouca gente responde. Há até mesmo quem troque cúmplices olhares de deboche com o caminhante mais pró-

ximo. E fico me perguntando por quê. Timidez, medo de ceder espaço a estranhos no meio de tantos psicopatas à solta, pedantismo, falta de educação pura e simples? Sei não. Só sei que sempre respondo. E que fico feliz quando outras poucas pessoas também o fazem. Comecei a caminhar por orientação médica. No começo, era um suplício. Hoje, é um prazer. E sempre volto pra casa mais feliz, quando ouço aquela repetição quixotesca do homem que dá título a esta crônica e cujo nome desconheço. Acho uma beleza pensar que nem tudo está perdido, neste mundo tão fútil, se alguém ainda tem coragem de sair por aí lembrando aos passantes, olhos nos olhos, bem de manhã, a dose plus de endorfina que pode ser gerada por uma simples resposta: – Bom dia. Bom dia, Senhor Poeta do Bom Dia. Bom dia, cara leitora e caro leitor.


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estudo

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por DANIELA ZANETTI

“ESTÉTICA DA REPETIÇÃO”: PRODUÇÃO (E INOVAÇÃO) EM SÉRIE

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

DIVULGAÇÃO

Pesquisadora explica como seriados de TV, telenovelas, trilogias e remakes de cinema recorrem à cópia do que já existe, porém revestida de novidades, para manter o interesse do público

O

que pode haver em comum entre seriados policiais como “CSI”, “Law & Order” e “Criminal Minds”? E que elementos de distinção fazem com que telespectadores de séries médicas prefiram “ER” a “Grey’s Anatomy”, ou vice-versa? Seria possível traçar paralelos entre obras de sucessos dos anos 80 e 90, como “Dallas” e “Twin Peaks”, com produções mais recentes? Os seriados norte-americanos – hoje tão populares e globalizados quanto os filmes de Hollywood – seguem a dinâmica da repetitividade e da serialidade, elementos que possibilitam a continuidade de certos produtos através de capítulos, episódios e temporadas, e o desenvolvimento de novas obras, sempre inéditas. Originalidade e inovação são elementos essenciais para dar continuidade à dinâmica da produção em série dos produtos da indústria cultural. Esse processo de serialização segue uma lógica própria que resulta no que o semiólogo italiano Omar Calabrese chama de “estética da repetição”. Essa dinâmica também está presente nas telenovelas latino-americanas e nas soap operas britânicas e norte-americanas, bem como nas famosas trilogias e remakes de produções cinematográficas.

Entretenimento

Segundo Calabrese, as repetições, no caso de narrativas ficcionais, não são apenas relativas às continuações das aventuras, ações e dramas dos personagens, mas também aos recursos utilizados, temas e ambientações. Isso se deve muito às necessidades da própria indústria do entretenimento que, para dar conta de produzir grande quantidade de novos produtos, acaba recorrendo à “cópia” do que já existe, porém revestida de novidades. Para explicar esse processo, Calabrese, em seu livro “A idade neobarroca”, faz uma comparação com a produção automobilística: “Basta pensar nas novas fórmulas de fabrico dos automóveis: um baixo número de invariantes estruturais, denominadas “modelo-base”, um alto número de invariantes figurativas, um altíssimo número de variáveis reguladas, e, finalmente, um imenso número dos chamados ”optional” (opcionais), os peque-

+ sobre séries de TV Em tempo real – Lost, 24 horas, Sex and the City e o Impacto das novas séries de TV Autor: Cássio Starling Carlos Editora Alameda 2006 68 páginas Quanto: R$ 22, em média

Umberto Eco: serialização sempre esteve presente na produção artística

mos pormenores que dão personalidade ao automóvel”. Em torno de um “modelo-base”, de um protótipo, articulam-se elementos variantes, seja em relação às estratégias narrativas ou aos temas tratados, por exemplo. Essa diversificação é mais evidente nas estruturas de superfície, embora nem sempre seja tão perceptível. Essa “estética da repetição”, contudo, não deve ser considerada algo negativo, “pobre” ou desprezível, pois seu valor está justamente em proporcionar ao público uma vasta combinação de variáveis temáticas e narrativas que tornam os produtos diferentes entre si. Seu valor está justamente na composição de vários arranjos possíveis.

Retomada

Segundo o escritor italiano Umberto Eco, os processos de serialização sempre estiveram de certa maneira presentes na tradição da produção artística. Ao propor uma classificação dos diversos modos de conjugação entre a ordem e a novidade, o esquematismo e a inovação, Eco apresenta várias definições para certos produtos ficcio-

TRECHO É na própria origem dos seriados que se encontra, em parte, um dos segredos de sua eficácia, de sua capacidade de prender a atenção do espectador, mesmo em meio à concorrência de outras máquinas audiovisuais (como a internet, os games) e, sobretudo, da oferta rica e diversificada de outros formatos de entretenimento oferecidos pela própria TV. (página 8) Extraído do livro “Em tempo real - Lost, 24 horas, Sex and the City e o impacto das novas séries de TV”, de Cássio Starling Carlos

nais. Uma delas é a retomada, que é a própria retomada ou a continuação de um tema de sucesso. Com base nessa estrutura, temos as bem-sucedidas trilogias e “séries” do cinema, como “Star Wars”, “De volta para o futuro”, “X-Men”, “Senhor dos Anéis”, “Matrix”, “Homem Aranha”, “Harry Potter”, entre outras. Há ainda o decalque, que se configura numa reformulação ou apropriação de um arquétipo de sucesso, podendo ser ou não anunciado, declarado ao público. Os decalques assumidos, revelados ao espectador, são chamados de remakes. As séries, por sua vez, são produtos feitos para durarem mais tempo (meses e anos), e são divididas em capítulos, episódios e temporadas. Possuem um esquema narrativo constante e certo número de personagens principais e secundários. Há inúmeros exemplos, entre eles “24 Horas”, “House”, “Desperate Housewives”, “Friends”, “Two and a half men” e “Lost”. Embora cada episódio desse tipo de produto possa ser assistido separadamente, as histórias funcionam a partir de um encadeamento de ações ou da repetição de peripécias que ocorrem a um mesmo grupo de personagens principais. A saga, que pode ser entendida como uma variação do seriado, apresenta uma sucessão de eventos interligados ao processo “histórico” de um ou mais personagens, fortalecendo a ideia de passagem do tempo. “A Casa das Sete Mulheres”, minissérie de 52 capítulos exibida pela Rede Globo em 2003, tem essa característica, pois tem um tom épico e enfatiza a passagem do tempo dos personagens num determinado espaço. O “retorno ao idêntico”, portanto, é um aspecto fundamental no processo de produção – e também de fruição, de consumo – de uma obra seriada, o que resulta numa espécie de consolo, pois o espectador se sente confortável ao encontrar o já conhecido, ao saber como a trama será mais ou menos conduzida e como os conflitos serão possivelmente resolvidos. Essa é também uma forma de manter o engajamento e a fidelidade do público, uma demanda, aliás, que perpassa vários produtos do campo cultural na contemporaneidade.

Seriados de gêneros e épocas diferentes, como “Dallas” (à esq.), exibido de 1978 a 1991, e “Criminal Minds” (acima), que estreou em 2005, seguem a dinâmica da repetitividade e da serialidade, que possibilita a sua continuidade através de capítulos, episódios e temporadas, além do desenvolvimento de obras inéditas


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 10 DE SETEMBRO DE 2011

ficção por BRUNELLA FRANÇA COM ILUSTRAÇÃO DO COLETIVO PEIXARIA

ENTREGA ESPECIAL: AZUL PARA UM DIA CINZA O ônibus continuava lotado, atrasado e com seus personagens de sempre, até surgir a musa inspiradora deste conto inédito, com seus cabelos castanhos, calça jeans e óculos de sol

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vento mudou na noite anterior. Amanheceu outono muito depois do equinócio. Chuva fina, temperatura amena, era desses amanheceres em que a voz do travesseiro e o conforto do edredom falavam mais alto que o barulhento despertador insistindo em gritar a lembrança das responsabilidades. A novidade no clima não se traduzia no cotidiano. O ônibus continuava lotado, atrasado e com seus personagens de sempre, dos quais você e eu já estamos cansados. É claro que não havia lugar vazio. Saí segurando a mochila de lado e pedindo licença até o fundo do coletivo. Enquanto meus olhos se acomodavam ao novo tom outonal da paisagem, entre um piscar e outro de sono procurando um ponto fixo para me manter acordada, eu a vi. Era moça. Era de cabelos castanhos com reflexos avermelhados. Era de blusa cinza, como o dia. Era de calça jeans. Apesar da chuva, era de óculos de sol me escondendo seus olhos. Descemos no mesmo terminal. Esperei ela decidir a fila para qual se dirigir e fui atrás. Não era o

meu itinerário, mas já aprendi que viagens de Transcol com destinos incertos podem nos revelar belas surpresas femininas. De novo ela se sentou à janela. De novo eu fiquei em pé. Mais perto, porém. De todos os passageiros, ela era a única que mantinha a janela aberta, apesar das gotas. E olhava para fora. Ou pensei que fosse. Prestei mais atenção a seus movimentos. A mão direita se apoiava na base que permite movimentar o vidro e recebia a água das nuvens feito bênção. A mão esquerda estava apoiada no vidro e acompanhava os pingos acumulados na janela que escorriam feito lágrimas. Tinha as unhas pintadas de azul, talvez para se lembrar de que cor era o céu. Olhei para o rosto dela em busca de possíveis lágrimas de um provável choro na madrugada, mas não encontrei. A pele estava seca. No entanto, constatei um dançar de lábios. Rezaria? Não, cantava. A moça tinha minúsculos fones no ouvido e acompanhava sua trilha sonora particular. Concentrei-me naquele movimento e acabei admirando a boca rosada. Nua de batom ou brilho. Aparentava pequenos sulcos e parecia ma-

Concentrei-me naquele movimento e acabei admirando a boca rosada. Nua de batom ou brilho. Aparentava pequenos sulcos e parecia macia.

cia. Tentei imaginar o último beijo que recebeu e decidi que foi suave, como tudo nela era. Desceu num ponto desconhecido da cidade. Fui atrás. Ajeitou as mãos dentro do moletom. Mais dez passos e entrou numa agência dos Correios. Estava vazia. Da mochila grande, retirou uma sacola grande e pediu uma caixa azul onde coubessem um livro, uma carta e uma sacolinha a princípio misteriosa. O atendente voltou logo e quando conferiu destinatário e remetente preenchidos por ela em caneta rosa, sugeriu um parentesco entre eles. A moça duvidou daquilo, arrumou na caixa o livro, o envelope e bombons. Muitos. Todos serenata de amor. Posicionou um por um e acomodou papel de seda por cima. A cor? Azul. Sorriu para si mesma. E era mais de amor que de outro entendimento aquele contrair de músculos. Saiu dali sem sombrinha, sorrindo para a chuva. Seguiu para o seu dia e suas responsabilidades. Eu fui procurar um ponto de ônibus para retomar meu caminho de todos os dias, mas sabendo que o céu estava anil e o sol tinha saído para mim no sorriso dela.


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