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Entrelinhas

JORGE LUÍS BORGES INSPIRA LIVRO QUE RELACIONA ARTE E CIÊNCIA. Página 3

BREVES ANOTAÇÕES SOBRE NIETZSCHE Professor de Filosofia analisa “Assim falou Zaratustra” Páginas 10 e 11

Pensar

VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE MAIO DE 2012

www.agazeta.com.br

Artes

CURADORA DA MOSTRA “MESTRES FRANCESES” COMENTA A OBRA DE CHAGALL. Página 4

Música

“RECANTO”, DE GAL COSTA, TRAZ EMBALAGEM FINA PARA DISCO MENOR. Página 5

História

O PAPEL DE MUNIZ FREIRE NA DEFESA DA DEMOCRACIA, ANTES E DEPOIS DO GOLPE. Página 8

Delírio em rede

ESPECIALISTA APONTA A INFLUÊNCIA DOS SITES DE RELACIONAMENTO SOBRE A COMUNICAÇÃO Págs. 6 e 7


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Pensar

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE MAIO DE 2012

quem pensa Alfredo Andrade é graduado em História e chefe da Seção de Voto Informatizado do TRE-ES. alfredosantosjr@gmail.com Maria D’Ermoggine é italiana, professora de História da Arte e curadora de exposições no exterior. André Andrès é crítico de vinhos da Revista.AG e gosta de MPB. andreandres@redegazeta.com.br Marcilene Forechi é jornalista, mestre em Educação e professora da UVV. marcileneforechi@terra.com.br Nayara Lima é escritora e graduanda em Psicologia pela Ufes. www.nayaralima-versoeprosa.blogspot.com Herbert Soares Caçador é estudante do curso de História do Centro Universitário São Camilo. herinter@hotmail.com Debson Afonso é radialista, formado em Economia pela Ufes.

marque na agenda prateleira Música Projeto do Estado chega ao Açores

O CD “Açorianidade Capixaba”, em comemoração ao bicentenário da imigração açoriana no Espírito Santo, será lançado no dia 01/06 na Ilha Terceira, no Açores.

Campus Publicação recebe artigos sobre Adorno

A revista eletrônica “Literatura e Autoritarismo”, com coordenação geral da professora Rosani Ketzer Umbach (UFSM), está recebendo artigos para o Dossiê “Theodor Adorno e o estudo da poesia”, cuja coordenação editorial ficará a cargo do professor Wilberth Salgueiro (Ufes). Os artigos deverão ser enviados até 10 de agosto para o e-mail wilberthcfs@gmail.com.

31

de maio

Debate-papo com De

ny Gomes A escritora é a próxima convidada do projeto pro movido pela Biblioteca Pública Estadual, na próxima qu inta-feira, às 19h, com mediação de Sérgio Blank. Deny Gomes é autora dos livros “O de sejo aprisionado” e “Pr omessas do tempo”. Av. João Batist a Parra, 165, Praia do Su á, Vitória.

www.alvaro.frazao.zip.net

Coletivo Peixaria reúne amigos que desenham porque gostam. coletivo.peixaria@gmail.com

304 páginas. Civilização Brasileira. R$ 34,90

A Mulher Calada Janet Malcolm

Janet Malcolm se debruça sobre todas as biografias já escritas sobre Sylvia Plath para desvendar a trajetória de uma das poetas mais originais do século XX, além de reconstruir o contexto do seu suicídio, em 1963, poucos meses depois de se separar do marido, o também poeta Ted Hughes. 240 páginas. Companhia das Letras. R$ 23

Esta coletânea de contos em versão pocket oferece uma jornada pelo universo infernal e onírico de Bukowski, com seus personagens desvalidos, seus quartos imundos de hotéis baratos e perdedores que contracenam no submundo de Los Angeles.

Álvaro Francisco Frazão é escritor amador e escreve no blog

Brunella França é jornalista, escritora, colunista, fic-writer, blogueira. http://twitter.com//brullf

Ao analisar a obra de Clarice Lispector, o autor aponta que a escritora estruturou em seus livros um pensamento complexo e com uma orientação ética que se relaciona com diversos campos do conhecimento, como psicanálise, antropologia e filosofia.

A Mulher mais Linda da Cidade & Outras Histórias Charles Bukowski

debsonafonso@hotmail.com

Adolfo Oleare é professor do Ifes, mestre em Filosofia e em Letras. aldeiaverbal@hotmail.com

Clarice Lispector: uma Literatura Pensante Evando Nascimento

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de maio

Mostra sobre folclore na Ales

Vai até esta data a exposição de fotos do Folclore Capixaba, na Assembleia Legislativa, com diversos registros da cultura popular do Espírito Santo. A mostra integra o III Festival Identidade Capixaba. No destaque, o Boi Pintadinho pela lente de Gabriel Lordêllo. Mais informações: (27) 3222-2133.

64 páginas. L&PM. Trad. Milton Persson. R$ 5

A Paixão de A. Alessandro Baricco

O romancista italiano narra as experiências de quatro adolescentes de Turim, nos anos 1970, que têm suas vidas alteradas após a chegada de uma jovem rica, fascinante e desinibida. 136 páginas. Companhia das Letras. R$ 33

UMA REFLEXÃO REAL

José Roberto Santos Neves

As redes sociais libertam ou aprisionam? Essa foi a questão levantada pela professora de Comunicação Social da UVV Marcilene Forechi junto aos alunos do curso de Jornalismo da instituição, durante uma experiência realizada em setembro de 2011. A ideia era simples: os estudantes teriam de ficar uma semana sem acesso à internet e, especificamente, ao Facebook – maior rede social do mundo, com mais de 900 milhões de usuários –, para refletir sobre a influência dessas redes sobre os jovens e a sua capacidade de contribuir para a aproximação das pessoas. O resultado do desafio está nas páginais centrais

Pensar na web

desta edição, em que a professora aponta para a impossibilidade de se reduzir essa discussão a um simples exercício de prós e contras, e chama a atenção para a sensação de pertencimento proporcionada pelas comunidades virtuais aos jovens e aos grupos nos quais estão inseridos. No Pensar de hoje, o leitor confere ainda um ensaio de Adolfo Oleare sobre “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche, além de crônicas, poesias, resenhas, crítica musical, artigos e um conto inédito de Brunella França, com ilustração do Coletivo Peixaria. Saudações literárias e até o próximo sábado!

é editor do Caderno Pensar, espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Galeria de fotos da mostra “Mestres Franceses”, faixas do CD “Recanto”, de Gal Costa, e trechos de livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

Pensar

por ALFREDO ANDRADE

A ARTE E A CIÊNCIA VISTAS PELO LABIRINTO BORGEANO

A

relação entre arte e ciência constitui um campo fértil para reflexões que exploram as trocas constantes entre uma e outra. A ficção científica, por exemplo, trafega entre as duas áreas de conhecimento e baseia-se no diálogo constante entre realidade e ficção. No meio acadêmico, esse debate já esteve no centro de algumas polêmicas, ganhando às vezes contornos dramáticos, como no terreno da teoria da história, onde se deu uma recente discussão em torno da própria identidade da disciplina. O instigante livro “Borges e a mecânica quântica” é um caso mais ameno. Trata-se de uma reunião de artigos de divulgação científica publicados em sua maioria no jornal “Critica de la Argentina”. O autor, Roberto Rojo, transita com desenvoltura pela ciência, como pesquisador de física quântica do estado sólido, e pela arte, como músico que compôs e tocou nos últimos discos da cantora Mercedes Sosa, tendo gravações também como solista. Admirador inveterado de seu compatriota Jorge Luís Borges, Rojo constrói um labirinto autenticamente borgeano, enveredando pelos caminhos das duas formas de saber, especialmente quando eles se sobrepõem. Sendo uma reunião de textos escritos para o grande público, a obra tem um caráter informal, acessível aos não especialistas. O mote para o livro é o conto “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, integrante do volume de contos “Ficções”, publicado por Borges em 1941. Rojo afirma que o famoso escritor argentino é o poeta mais citado pelos cientistas, usado na maioria das vezes para ilustrar conceitos por meio de “exemplos metafóricos que dão brilho à prosa opaca das explicações técnicas”. Já “O jardim...” é diferente, pois, para Rojo, trata-se de uma literal antecipação da polêmica tese de doutorado do físico Hugh Everet III, publicada em 1957 com o título “Formulação da mecânica quântica por meio de estados relativos”. A tese de Everet III é conhecida como “A interpretação dos muitos mundos da mecânica quântica”. Tendo tal coincidência como ponto de partida, o livro brinda o leitor com muitas outras, entrelançando-as sutilmente. Quando no prólogo o autor faz uma referência ao seu artigo “Tertium Organum”, relata desdobramentos que sugerem uma dessas “fortuitas” adivinhações frequentes na literatura, da qual “O jardim...” é uma das mais inquietantes. Mais adiante, percorrendo os labi-

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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE MAIO DE 2012

BORGES E A MECÂNICA QUÂNTICA Alberto Rojo. Editora da Unicamp, 2011. 142 páginas. Quanto: R$ 30.

TRECHO “A 9 de julho de 1985, por puro acaso, troquei uma palavras com Borges. Recordo-me da data porque era um dia depois do meu casanmento e, antes de partirmos para a lua de mel, minha mulher e eu tínhamos ido saudar meus pais, que estavam alojados no Hotel Dora, na Rua Maipu, 900. Minha mãe me pegou pelo braço e me levou ao restaurante. As mesas estavam vazias, exceto uma, e ali estava Borges, sentado junto de uma mulher, que provavelmente era Estela Canto, com quem ele falava às vezes em inglês e às vezes em castelhano.”

Jorge Luís Borges inspira livro que relaciona o conhecimento científico e o artístico

rintos de Rojo, encontramos outra provocação: seria Borges um dos viajantes do futuro que Carl Sagan aventou em um de seus textos sobre viagens no tempo? Com isso, Rojo parece maliciosamente nos fazer a mesma pergunta sobre si mesmo. Não à toa, o título do último texto do livro é “Doze coincidências”.

Dicotomia

Para superar uma aparente dicotomia entre o conhecimento científico, que aborda a realidade, e o artístico, que atua no mundo da imaginação, uma constatação: “As grandes obras literárias analisam profundamente a realidade, e os grandes avanços científicos redefinem os limites da imaginação”. A partir daí,

exemplos de obras literárias que inspiraram soluções para problemas científicos servem para ilustrar o quanto as interseções entre as duas práticas são prolíficas. Outra indicação das constantes interações entre as duas formas de saber está demonstrada no papel que grandes cientistas atribuem à beleza na elaboração de teorias. Rojo cita vários exemplos, sendo muito ilustrativos os trabalhos do miraculoso ano de 1905, quando Einstein publicou os artigos que mudaram radicalmente a história da ciência. Vemos que o cientista alemão incorporou elementos estéticos em seu raciocínio, utilizando-se de conceitos que até então eram considerados ficções matemáticas. Ou seja, Einstein construiu a partir da ficção uma teoria científica que descrevia

corretamente a realidade, contra a nossa intuição e, o que é mais grave, contra uma certa teoria newtoniana até então vista como sinônimo de método científico. Um dos trabalhos desse ano de milagres, aquele que apresenta a relatividade, se origina de uma exigência estética introduzida com a seguinte frase: “A eletrodinâmica de Maxwell, aplicada aos corpos em movimento, conduz a assimetrias que não parecem ser inerentes ao fenômeno”. E aqui reside uma evidência de quão importante era a beleza para Einstein, pois uma postura foi crucial para que ele chegasse à relatividade: não aceitar a assimetria da teoria em um fenômeno no qual a natureza se apresentava simétrica. Outros assuntos relacionados aos usos e abusos da ciência estão presentes no livro, como teletransporte, viagem no tempo, acaso e probabilidade, a física no tango e na Bíblia, homeopatia e o GPS como aplicação da teoria da relatividade, sempre de forma bastante leve e clara. Sem dúvida, Rojo tem habilidade e conhecimento para visitar os dois mundos, descrevendo o que a arte tem de ciência e o que a ciência tem de arte. Para quem quiser uma mostra, a editora disponibiliza as vinte primeiras páginas no link http://issuu.com/editoraunicamp/docs/borges_e_a_mecanica_quantica.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE MAIO DE 2012

artes plásticas por MARIA D’ERMOGGINE

MARC CHAGALL: UM CONTADOR DE HISTÓRIAS AMANTE DA VIDA Curadora da mostra “Mestres Franceses”, em cartaz no Palácio Anchieta, destaca o aspecto humanista e a espiritualidade do artista que viveu e pintou por ideias, conceitos e memórias

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arc Chagall (Vitebsk, 07 de julho de 1887-Saint-Paul-deVence, 28 de março de 1985) foi um artista e poeta na história do século XX e ocupou um lugar único. Seu trabalho altamente original não é reconhecido em nenhum dos movimentos de vanguarda artística. Chagall era fascinado por seus contemporâneos, devido à intensidade da cor do racional, do cubismo sintético e do Fouvismo, mas nunca se identificou com nenhum deles, evitando generalizações e teorias de seus princípios artísticos: ele viveu e pintou por ideias, conceitos e memórias. Nascido em Vitebsk, um importante centro administrativo da Western Bielo-Rússia, Marc Chagall pertencia a uma família modesta de religião e cultura judaica. Seu país mantinha o folclore característico da região e suas histórias tradicionais. As memórias da infância estavam sempre presentes no curso de seus negócios, mas não apenas as lembranças românticas e nostálgicas; Chagall herdou uma pátria cultural e visão do mundo onde a espiritualidade tem um lugar de excelência. Ele estudou primeiro em Vitebsk, em seguida foi para São Petersburgo e, graças a um patrono, foi para Paris, onde o jovem pintor respirava a vivacidade e a versatilidade de uma cidade que deixou nele – jovem, tímido e introvertido – um intenso choque emocional, o que naturalmente pode ser visto nas obras desse período. Apesar de sofrer o encanto das tendências artísticas predominantes, ele seguiu um caminho muito pessoal para a liberdade criativa absoluta e as brincadeiras imaginativas. Após a primeira experiência parisiense, Chagall retornou ao seu país, onde permaneceu por um longo tempo, casou com sua amada Bella e passou um dos momentos mais alegres da sua vida com o nascimento de sua filha. Suas experiências de vida, seu mundo interior e exterior representaram, cada vez mais, a inspiração para suas obras. Ele viveu a experiência da revolução e foi social e politicamente comprometido em seu país, onde decidiu criar uma escola de arte que combinou todos os artistas em nome da criação de uma arte livre e espontânea. Porém, a Academia acabou por ser uma grande decepção com o

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abuso do suprematismo de Malevich, que assumiu o comando. Após a Primeira Guerra Mundial, Chagall voltou para a França, onde podia-se respirar um ar mais alegre e brincalhão, e começou a pintar o “seu” realismo poético com cores mais suaves e um estilo leve e arejado. Foi durante esse período que o artista começou a trabalhar com gráficos complexos e a capacidade de juntar o real ao fantástico: as almas mortas, Fábulas de La Fontaine, o Cirque Vollard. Todas as obras desse período foram enviadas para o editor Vollard. Com a chegada de leis antissemitas, Chagall começou um período de viagem na Europa, incluindo a Itália e a Espanha, no início da Segunda Guerra Mundial, e fugiu para a América, onde continuou a sua atividade no campo da cenografia. Retornando à Europa, agora reconhecido como artista renomado, trabalhou continuamente até sua morte em 1985. Durante esse longo período, testou sua mão em diferentes técnicas artísticas: escultura, cerâmica, mosai-

As litografias “Moisés e o Candelabro” e “Moisés e a Sarça Ardente”, produzidas por Chagall em 1966 para a série “A História do Êxodo”, estão expostas até 10 de junho no Palácio Anchieta

cos, vitrais e, especialmente, os gráficos com o uso da litografia. Os assuntos discutidos foram a natureza, com a sua luz alegre e penetrante, e a Bíblia, cujo texto o fascinava desde a infância. A Bíblia era, para Chagall, “a maior poesia da

raiz de todas as idades”. Chagall também enfatizou que “o amor para o mundo todo é a coisa mais importante, bem como a liberdade. Quando você perde a sua liberdade, você perde o amor”. Quanto ao tema bíblico, Chagall dedicou-se a um primeiro ciclo de representações, incluindo a história do Êxodo, com 105 gravuras nos anos 30 e, mais tarde, o editor Morloto o fez voltar ao mesmo tema, usando as novas técnicas de litografia. O artista, de fato, foi atraído pela possibilidade de fazer a cor, muito querida por ele. E assim criou as 24 litografias da exposição “Mestres Franceses”, expostas nas paredes do Palácio Anchieta, que incluem “O nascimento de Moisés”, a “Sarça ardente”, “Moisés e a serpente” e outras obras muito semelhantes em estilo e composição, gravadas em cobre e impressas em preto e branco. Mais uma prova do seu talento inato como um “contador de histórias” e de que Chagall permanece ancorado no progresso da arte mundial.


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falando de música

Pensar

por ANDRÉ ANDRÈS

EMBALAGEM FINA PARA A NEGAÇÃO DA MELODIA

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE MAIO DE 2012

RECANTO Gal Costa. Universal. 11 faixas. Quanto: R$ 29,90

AGNEWS

Gal Costa no show de lançamento de “Recanto”: álbum repete fórmula de “Zii e Zie”, de Caetano Veloso, que já apontava para um namoro estéril com a música eletrônica

P

oucos dias após a morte de Tom Jobim, em dezembro de 1994, Chico Buarque, com um ar um tanto aparvalhado pela perda do amigo e mestre, tentou dimensionar seu estado emocional e criativo: “Eu compunha para ele, para obter a aprovação dele. Era como se Tom estivesse o tempo todo me olhando, por cima de meu ombro, observando meu trabalho. Será assim por mais algum tempo.” Dez anos depois, com as feridas da perda já há muito cicatrizadas, Chico declarou o fim da canção, pelo menos da maneira como a conhecemos e aprendemos a admirar: “(A canção)... é um fenômeno próprio do século passado, tal a quantidade de releituras, de compilações, de gente cantando clássicos. Os meus próprios discos são relançados de diversas formas, em caixas, caixotes... Se eu lançar um disco novo, vou competir comigo mesmo. E devo perder.” Bem, ele tinha razão, pelo menos em sua conclusão: seu último CD, “Chico”, está longe de figurar entre suas melhores obras. Tem, aqui e ali, o brilho

do grande compositor que Chico é (como na deliciosa “Se Eu Soubesse”). Mas invariavelmente as melodias se perdem em andamento, harmonia, ritmo errantes (“Tipo um Baião” é uma miscelânea difícil de se definir). Se fosse vivo, Tom faria como fez com tantas e tantas músicas de Chico, Edu Lobo – dedilharia o piano, corrigiria a melodia em certos trechos, e diria: “Era assim que você queria não era, Eduzinho?” A frase de Chico, no entanto, parece ter sido incorporada de maneira radical por Caetano Veloso. Seu último disco de estúdio,“Zii e Zie” (2009), já apontava para um namoro um tanto estéril com a música eletrônica. O namoro virou casamento e rendeu um filho nada agradável: “Recanto”, último disco de Gal Costa após um tempo afastada dos estúdios. Todas as músicas do disco são de Caetano. Um desafio: ganha um “Zii e Zie” quem conseguir ouvir “Recanto” mais de uma vez seguida. Aliás, há um segundo desafio: ganha uma caixa com todos os discos de Caetano quem conseguir entoar ou assoviar três melodias

do novo disco de Gal. Não se vai entrar aqui na discussão das letras feitas por Caetano. O ponto a ser abordado é o possível enterro da canção. Quando falou sobre isso, Chico apontou o rap como um fenômeno musical novo, ascendente e, também, como a negaçãoefetiva da melodia. Caetano nada declarou nesse sentido, mas parece ter ido buscar nos sons eletrônicos algum tipo de vanguarda ou, talvez, de rejuvenescimento de sua obra.

João Gilberto

O resultado é estranho, até mesmo nas leituras feitas por ele e Gal a respeito do disco. Gal, por exemplo, aponta “Tudo Dói” como sua música preferida, “porque traz no seu DNA o traço incontestável de João Gilberto”. Bem, versos como “Viver é um desastre que sucede a alguns. Nada temos sobre os não. Nenhuns...” remetem muito mais a outros namoros e paixões estéticas de Caetano, como sua aproximação com a poesia concreta e a obra dos irmãos Campos. Aliás, é curioso notar como

essa aproximação já rendeu bons frutos. “Pulsar”, poema concreto de Augusto de Campos musicado por Caetano e gravado em “Velô” (talvez uma referência a “Velocidade”, de Ronaldo Azeredo, obra-símbolo do concretismo), funciona no disco porque está justaposta entre a balançante e memorável “Podres Poderes” e a melancólica “Homem Velho”. A ousadia estética de “Pulsar” se sobressai porque é um contraponto à melodia - e por ser contraponto, torna-se ousada. Chico, Caetano e Gal têm obras consistentes. São figuras fundamentais para o cenário de nossa música, de nossa história cultural. E justamente por isso têm o direito de errar, de produzir obras menores. Só não deveriam querer revestir com um embrulho de sofisticação um disco sofrível, como fizeram Gal e Caetano. “Recanto” é apresentado como uma obra ousada, moderna, avançada. Não é nada disso. Pode até ter seu valor poético. Como disco é ruim. E como música, é uma perda de tempo. Tom Jobim reprovaria...


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comunicação social

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por MARCILENE FORECHI

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE MAIO DE 2012

A partir de experiência realizada com estudantes, especialista observa que, para os jovens, ficar fora das redes sociais seria o mesmo que “um exílio voluntário, um isolamento, uma solidão”

A REDE SOCIAL LIBERTA OU APRISIONA? PROFESSORA DE JORNALISMO ANALISA A INFLUÊNCIA PROVOCADA PELA INTERNET NAS NOVAS GERAÇÕES

C

iro Marcondes Filho, em seu livro “Afinal, até que ponto de fato nos comunicamos?” (Editora Paulus, 2004), nos instiga a pensar sobre a impossibilidade da comunicação. O mesmo autor, que afirma ser a comunicação um enigma, fala sobre o que classifica como os equívocos dos estudiosos do Colégio Invisível (grupo de estudiosos que se reuniu em torno do pesquisador Gregory Bateson) e dos estruturalistas sobre a comunicação. Os primeiros afirmam que “tudo comunica” e que basta estar vivo para comunicar. Já os segundos estão centrados no que está sendo comunicado versus o que não está sendo comunicado. O autor questiona se, na visão daqueles dois grupos, não se estaria confundindo a simples transmissão obrigatória de sinais, um mero existir, com comunicação. E afirma que Gregório, na “Metamorfose” de Kafka, não morreu porque se transformou em uma barata; ele morreu porque perdeu a capacidade de comunicar-se com sua família e seus amigos. É natural que o ser humano precise se fazer ver para comprovar sua presença no mundo e é por meio da comunicação que essa experiência no

mundo é validada. A consciência (de que fala Hegel) só existe na medida em que é reconhecida pela outra. Na atualidade, muito se fala sobre as novas formas de comunicar, os novos meios, as quedas de fronteiras, as mudanças no estatuto da percepção do mundo e as novas possibilidades de produção de conhecimento. Tudo o que há e, principalmente, o que há no mundo virtual, é tratado como comunicação, ou pelo menos assim entendem os que acreditam ser a internet a maior e melhor possibilidade de comunicação que já se viu e de ser a web a grande seara na qual se estabelecem relações, formam-se vínculos e criam-se novos espaços e tempos. A ideia de que todos estejam conectados, de que a comunicação seja uma variável absoluta e de que não haja fronteiras no mundo é tentadora. Formam-se comunidades virtuais, as mais diversas, e é possível participar de muitas, seja por afinidade ou pela crença de que a simples participação será capaz de um transporte a outro mundo, de um reconhecimento, de uma comunicabilidade instantânea e permanente. Talvez, pudéssemos questionar se as redes sociais seriam capazes de possibilitar o reconhecimento ao qual Hegel se refere. Ou,

Todos acreditavam que estar na rede e compartilhar informações com os amigos era uma forma de liberdade” —

Marcilene Forechi Jornalista, mestre em Educação e professora da UVV

ainda, se estariam seus membros fadados à experiência, ao “estar presente” e nunca ao compartilhamento ou à comunicação. Uma experiência realizada em setembro de 2011 com alunos do curso de Jornalismo da Universidade Vila Velha (UVV) despertou para a necessidade de refletir sobre os processos comunicacio-

nais proporcionados pelas redes sociais, mais especificamente pelo Facebook, e sobre qual seria sua capacidade de contribuir para a aproximação das pessoas e para a formação de comunidades. A experiência – a que demos o nome de “A vida sem rede” – nos apontou para a impossibilidade de reduzirmos essa discussão a um simples exercício de prós e contras e nos levou ao reconhecimento da inevitabilidade da interferência das redes sociais na formação dos jovens, uma vez que elas (as redes sociais e as comunidades virtuais) fazem parte da sua estratégia de pertencimento aos grupos nos quais estão inseridos.

Pertencimento

Tudo começou quando uma aluna lançou a pergunta, que, segundo ela, circulava no Facebook: você trocaria o resto de sua vida sem acesso às redes sociais por um milhão de reais? A pergunta causou alvoroço entre os alunos e vários deles afirmaram que isso seria impossível. O motivo? Ficar fora das redes sociais seria o mesmo que um exílio voluntário, um isolamento, uma solidão. Para aquele grupo de alunos, a participação nas redes sociais representa a possibi-

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lidade de comunicação, no sentido de trocar informações, de ver e se fazer ver. Um simples existir na rede parece ser suficiente para que haja essa sensação de pertencimento. Decidimos propor o desafio de que ficassem não o resto da vida, mas uma semana sem acesso às redes sociais e à internet – o que incluiu e-mails, vídeos e portais de notícias. Posteriormente, os quatro alunos que aceitaram o desafio relataram o que fizeram naquela semana e o que sentiram diante da impossibilidade de acessar o Facebook e encontrar os amigos. A pergunta que orientou a conversa posterior ao desafio foi se a rede liberta ou aprisiona, pois todos acreditavam que estar na rede e compartilhar informações com os amigos era uma forma de liberdade, uma vez que as possibilidades são ilimitadas e não há limites físicos ou temporais. Ao final do desafio, foi surpreendente ouvir dos quatro que a rede aprisiona, pois os condiciona a uma experiência da qual não podem se libertar sob pena de ficarem isolados e excluídos do mundo ao qual pertencem e que, agora, não tem sentido existir senão mediado pelo computador. Em maior ou menor grau, os três

participantes do desafio disseram ter feito coisas que não faziam normalmente, como passar mais tempo conversando com os pais na hora do almoço, caminhar na praia, falar ao telefone com os amigos, ler, assistir ao noticiário da TV. A sensação de exclusão relatada pelos participantes do desafio e a angústia de não poderem se comunicar nos lembrou a experiência do personagem Gregório. “O computador é uma extensão de mim. Sem ele, me sinto desamparada, mutilada”, disse uma aluna ao se referir ao que sentiu na semana em que ficou longe do seu lap top. Assim como Gregório morreu ao perder sua capacidade de comunicar-se com a família, os alunos manifestaram a sensação da não-existência, do isolamento e da impossibilidade de comunicar-se com os outros. A experiência que chamamos de “Vida sem rede” não teve o caráter de uma pesquisa acadêmica. Ela se configurou em uma importante possibilidade de reflexão sobre o uso das redes sociais e os sentidos que eles despertam nos jovens estudantes de Jornalismo. Diante das afirmações dos alunos de que a rede lhes permite estarem ligados em tudo o que acontece, poderíamos supor que eles são

mais informados e estão mais preparados para desenvolver atividades pessoais e profissionais. Mas, ao contrário, parece que a experiência de estarem na rede e de fazerem parte, tendo como consequência o reconhecimento – é o que motiva passar tantas horas conectados.

Ritual

Expediente comum nos grupos é o clique no botão “curtir”, o que não significa que o conteúdo postado foi lido ou assistido. A impressão que se tem é que essa prática se assemelha a um ritual, que se faz simplesmente para que algo seja feito naquele tempo que passa muito rápido. E são necessários muitos cliques para que haja a percepção dos outros da presença. Quando questionados sobre o que buscam nas redes sociais e na internet, não houve respostas pontuais. Há, em princípio, um navegar a esmo, uma espera pelo que o outro irá dizer ou postar, uma necessidade de estar ali o tempo todo, pois alguém pode precisar ou querer falar e se não estiver on-line não haverá essa possibilidade. Para Marcondes Filho, discutir a

internet e o que virá depois dela “Torna-se uma questão que envolve não exatamente uma vitória ou derrota de posições, mas, antes, uma tomada de consciência das reais implicações do uso desse sistema técnico e o que ele nos preparará posteriormente”. Interessa-nos, então, ao levantar questões e propor esta reflexão, o que está além do uso das técnicas e dos instrumentos, uma vez que o que se processa por meio do uso das redes sociais pode ser capaz de mudar o estatuto da percepção do mundo. A sociedade contemporânea, regida pela midiatização e pela tendência à virtualização das relações, nos aponta para a desatenção de educadores e comunicadores (especialmente jornalistas) para os desdobramentos que virão dessas formas de socialização e (in)comunicação. Parece haver nas redes não uma busca por comunicar-se no sentido de compartilhar ou tornar comum, mas uma busca frenética pelo novo, por algo que seja motivador. O mesmo Ciro Marcondes nos diz que a internet materializa a lógica da nova sociedade e que já não vivemos mais o fenômeno da comunicação, mas o delírio técnico travestido de comunicação.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE MAIO DE 2012

política por HERBERT SOARES CAÇADOR

OS GRUPOS DE ONZE COMPANHEIROS Estudante de História lembra a adesão da cidade de Muniz Freire ao movimento liderado por Leonel Brizola, em 1963, pela defesa democrática e a resistência contra o golpe militar

“P

ovo desunido, povo desorganizado é povo submetido”. Assim pensava, em 1963, o então deputado federal Leonel de Moura Brizola. A frase, ainda atual, resume bem a agitação política existente no governo João Goulart, onde esquerda e direita radicalizavam a sua atuação política. Foi pregando sobre a necessidade de organização do povo para que o mesmo se libertasse da pobreza e exploração internacional, que Brizola começou a discursar na rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. Em novembro de 1963, é lançada por ele a ideia de formar os “Grupos de Onze Companheiros” ou “Comandos Nacionalistas”. Leonel Brizola desempenhava importante papel na política brasileira. Após a renúncia de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961, Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, liderou a Campanha da Legalidade para defender a posse do vice-presidente João Goulart, adiando de certa maneira o golpe que se concretizaria em 31 de março de 1964. Os discursos em defesa da Constituição fizeram dele um grande líder político, principalmente entre as esquerdas. Ao propor a criação dos grupos, Brizola se inspirou no futebol, dada a proximidade do país com esse esporte. Cada grupo seria formado por 11 pessoas e um integrante seria escolhido o capitão. No início, dois ou três começariam até chegar ao número de 11, e as reuniões seriam realizadas nas casas dos membros. Com os 11 definidos, lavrariam a ata de fundação com o nome de todos e informariam por carta ou pessoalmente a criação do grupo ao deputado Leonel Brizola, na sede da rádio Mayrink Veiga. Segundo o criador, o movimento iria lutar pela “defesa das conquistas democráticas, resistência a qualquer tentativa de golpe, instituição de uma democracia autêntica e nacionalista, imediata concretização das reformas, em especial das reformas agrária e urbana, e pela libertação da pátria da espoliação internacional”. Para atingir esses objetivos, os grupos iriam articular ações em todo o Brasil. Ressalte-se que nada

DIVULGAÇÃO

Com o golpe consolidado, esses grupos foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional e injustamente perseguidos com prisões e outras barbaridades cometidas pelo novo regime. Em Muniz Freire, também aconteceram perseguições e prisões. A pena foi cumprida no Fórum local e, diferentemente de outras cidades, aqui os presos foram bem tratados. O dossiê “Grupo dos Onze”, existente no Arquivo Público Estadual, menciona a condenação de alguns: Jonatas (um ano de reclusão), Mauro (seis meses), Nelson (seis meses), Rômulo (seis meses), Carlinho (seis meses) e Ângelo (seis meses). Vale destacar que Renato, Ilton e Jair também foram condenados. No caso de Mario e Lino, houve o indiciamento, mas o processo não foi em frente e, portanto, não houve condenação.

Preconceito

De cima para baixo, o Grupo dos Onze de Muniz Freire: Jonatas Ribeiro Soares, Ângelo Cizotto, Carlinho José de Arêas, Ilton Vieira, Jair Ribeiro Soares, Mauro Rodrigues de Oliveira, Lino Ribeiro Soares, Mario Ribeiro Soares, Renato Viana Soares, Nelson Bolzan e Rômulo Araújo

era clandestino, e sim totalmente aberto e público, visto que as instruções para a criação dos grupos eram transmitidas via rádio para todo o país.

Aceitação popular

O discurso visando à melhoria das condições de vida do povo fez com que a ideia tivesse grande aceitação popular. A oposição ao movimento também teve força, os conservadores o acusavam de terrorista, e a imprensa publicava notícias ilusórias sobre as possíveis ações dos grupos, sempre os associando ao comunismo. Interessante notar, é que a imprensa, tentando atrapalhar o movimento, acabou por supervalorizar o mesmo, chegando a causar pânico na direita civil-militar, que imaginava estar próxima uma guerra civil dentro do país. Vale lembrar que o Partido Comunista Brasileiro foi contrário à ini-

ciativa de Brizola, o que arruína a ideia de associar esse movimento ao comunismo. O número de participantes é incerto, mas cálculos do professor Cibilis Viana, que fazia parte da organização, informam que, às vésperas do golpe, já haviam se formado cerca de 100 mil grupos. O historiador Jorge Ferreira apresenta dados do ex-deputado Neiva Moreira, com cerca de 60 a 70 mil militantes organizados. No meio desses milhares de seguidores Brasil afora, a cidade de Muniz Freire foi representada. O grupo formado a partir da liderança de Jonatas Ribeiro Soares tinha os seguintes membros: Ângelo Cizotto, Carlinho José de Arêas, Ilton Vieira, Jair Ribeiro Soares, Lino Ribeiro Soares, Mario Ribeiro Soares, Mauro Rodrigues de Oliveira, Nelson Bolzan, Renato Viana Soares e Rômulo Araújo. A adesão se deu pela admiração à figura de Brizola, e por sua luta a favor dos mais pobres.

Além da perseguição oficial, eles sofreram com o preconceito de parte da sociedade que erroneamente os ligava ao comunismo. É bom frisar que o grupo de Muniz Freire também não praticou atos ilegais e, portanto, o preconceito, a perseguição e a posterior condenação foram injustas. Mesmo com toda dificuldade, esses grupos deixaram marcas e se constituíram numa inovação em estimular as massas. Em entrevista ao jornalista FC. Leite Filho, o sociólogo Herbert de Souza, um dos últimos coordenadores dos Grupos dos Onze no Brasil, dimensiona o movimento: “Era uma coisa que crescia espontaneamente. O Brizola pegava a rádio Mayrink Veiga, que todo mundo escutava, e dizia o seguinte: ‘Reúnam 11 companheiros, peguem os nomes deles e nos enviem cópias’. E começavam a surgir os comitês. E se formou Grupo dos 11 em todo lugar”. A verdade é que o movimento, até então promissor, não teve tempo de prosperar. Dias antes do golpe, as primeiras reuniões estaduais e uma nacional ainda estavam sendo organizadas. A rapidez do movimento golpista o impediu de produzir maiores resultados. Na memória dos membros muniz-freirenses entrevistados, ficaram as lembranças de uma luta justa e pacífica, mas que foi derrubada por um golpe civil-militar que maltratou não só 11 pessoas, mas a maioria de um país.


poesias SONETO ÁLVARO FRANCISCO FRAZÃO Minha vida se assemelha no arremedo da peleja do oceano com o penedo. Um recife contra as ondas solitário um rochedo invencível e abandonado. Sou o profeta do irrealizado o feitor do desejo mais frustrado no cenário das irrealizações sou o autor dos projetos abortados. A música de inaudível melodia o espectro lunar ao meio-dia um arbusto plantado contra o vento. Sou a rima da poesia inacabada a matéria que transcende ao nada um legado ao próprio esquecimento.

QUEM É? O cristal que não quebrou a aliança que derreteu o rio que não secou a estrada que não termina a lembrança que ilumina o amor que não morreu?

crônicas QUEM?

por NAYARA LIMA “Quem poderá calcular o calor e a violência de um coração de poeta quando preso no corpo de uma mulher?”, perguntou Virginia Woolf. Eu não devia escrever sobre o tema, há o que se torna perigo. Mas ocorre que não me vem outro assunto. Ocorre também que decidi que essa frase vou escrever em alguma parede próxima, talvez na cozinha ou no quarto, ainda não decidi. De todo modo, vou deixá-la escancarada. Estive em uma biblioteca recentemente e pude ver uma menina que, olhando para a gaveta da mesa, nada fazia que não fosse chorar. A cena devia ser caótica, não fosse de beleza. Eu sabia que não se tratava da perda de algum objeto engavetado e depois desaparecido, mas precisei encostar na ferida. “Perdeu alguma coisa? Posso te ajudar?” “Não, na verdade, sim, perdi. É que

acabei de ler um poema de Fernando Pessoa. Fiquei emocionada. Estou com vergonha, porque meu namorado me espera ali na outra sessão de livros, e não me entenderia”. Olhei em volta até achar um menino magro em êxtase para os livros de cálculo na prateleira. Era ele que não entenderia. Respondi de imediato que estava em extrema curiosidade para conhecer o poema e que, ao contrário dela, eu não corria nenhum risco, já que estou livre para chorar, se for o caso. O poema era o mesmo que li por tantas vezes nos jardins de Shanghai, mês passado, quando fui buscar alguma coisa do outro lado do mundo e encontrei o verso que avisa: “O segredo da busca é que não se acha”. Fujo da pergunta de Virginia Woolf? Sei que as estantes da biblioteca, tanto quanto

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os livros, comoviam. Em madeira antiga, enfileirados por ordem alfabética, os livros estavam quentes. Do lado de fora a chuva escorria pelos galhos de árvore que pouco a pouco pareciam transbordar, como acontece com frequência na nossa cidade. Tentei não me lembrar do caos no trânsito de depois, dos homens sem teto e em frio. Dentro da biblioteca, um poema transbordava imprevisto no rosto de uma mulher. Decidi que pela cena, restava-me apenas dizer a ele, que andava para lá e para cá: “Perdeu alguma coisa? Posso te ajudar?”. “Não encontro a obra intitulada ‘Cálculo com Geometria Analítica’, de Swokowski”, respondeu. O verso de Pessoa chegou pronto para ser dito friamente: é assim mesmo, porque “O segredo da busca é que não se acha”. No entanto, foi o verso de Woolf que tomou lugar para ser dito, em tom de raiva, ao rapaz matemático que não entenderia: “Quem poderá calcular o calor e a violência de um coração de poeta quando preso no corpo de uma mulher?”. Saí aliviada. Talvez eu fosse a menina que chorava as lágrimas na gaveta.

SOBRE GUARDA-CHUVA E E-MAIL por DEBSON AFONSO

A abelha que não fez mel a flor que desabrochou o sino que não tocou a lua que se escondeu o barco que naufragou o amor que não morreu? O trem que não partiu e se partiu, não chegou. O feto que não cresceu a música que não se ouviu o fogo que não queimou o amor que não morreu? A ponte que não caiu o time que não ganhou. A mulher que não pariu o filho que não nasceu o copo que entornou o amor que não morreu?

ENTROPIA Cada centímetro quadrado de teu corpo, Essas ruínas de paixões desencantadas. Cada centelha divina de tua alma, São essas rugas marcadas no meu rosto. Estereótipo de um amor perdido, Retórica que morre sem resposta. Desgaste natural quando se ama Um coração mergulhado no desgosto. Se meu amor já não quer mais sofrer Se minha dor já não quer mais passar, Se meu desejo não quer te esquecer, Meu coração,vestido de esperança Simulacro cruel de um tom perfeito Perde o calor e esfria até morrer..

Sempre fui avesso a certas coisas, principalmente, coisas que nos oferece o mundo “modernológico”. Dizem que não tenho foco, que sou desconectado da realidade, que não sou plugado às facilidades que a tecnologia nos permite. E eu sou lá tomada para viver plugado? Pode-se até achar que é brincadeira, mas às vezes sinto saudade da minha velha Remington que obrigatoriamente tive que aposentar para ficar de frente para essa tela branca. Algumas cores os meus olhos não aceitam, também a minha casa, e o meu corpo não veste roupas. Nada de superstição. Cheiros? Por favor, não deixe quem toma banho de perfume sentar-se ao meu lado. Sabores? Experimente me convidar para comer jiló. Das invenções do homem, acho, de achismo mesmo, porque não sei delas,

quais as que mais me irritam, o telefone é o meu carrasco. Quando ele toca às sete horas, e eu não dormi à noite, tenho vontade de não só jogá-lo na parede, mas também o meu interlocutor. O celular, esse que nos acompanha até o banheiro, nem se fala! Quando tenho de ficar ouvindo as brigas alheias, tenho um desejo insano de tomá-lo das mãos do meu algoz e pisá-lo, pisá-lo e pisá-lo, comprando a briga. Talvez se eu vivesse à época de Graham Bell e pensasse como penso hoje, o teria mandado conversar com São Pedro e ainda ficaria por perto pra ver se ele seria perdoado. Pois, sim, o guarda-chuva. Abençoado e desabençoado guarda-chuva. Abençoado quando está chovendo de barulhinho e a gente pode sair guardado. Desabençoado quando passa o barulhinho e eu o esqueço em um canto qualquer, e a memória não guardou onde foi esque-

cido. Abençoado, quando, por falta dele, se pega carona com Michelle. Ah, Michelle, ainda impressa no meu livro de lembranças! Percorremos o trajeto até o terminal sob a chuva de barulhinho e o que guarda a chuva. Poucas palavras no pouco que tínhamos para caminhar. Mas muito foi dito. A coincidência entrou na conversa, pegamos o mesmo ônibus e os lugares reservados lado a lado. Química, afinidades, concordâncias e discordâncias aos assuntos fluíam feito rio em busca de um mar de possibilidades. Pedi um engarrafamento com a fé que normalmente não tenho, e que o percurso fosse maior que a eternidade. Virou poeira, o que pedi em silêncio budista. Saltamos. Ela pediu o meu e-mail. Maldito pedido. Eu não tinha ainda o debsonafonso@hotmail.com amaldiçoado e-mail. Nos despedimos. Nunca mais vi Michelle.


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por ADOLFO OLEARE

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ARQUIVO AG

ZARATUSTRA: POR UMA DOUTRINA NIETZSCHEANA DOS AFETOS Para professor de Filosofia, obra escrita pelo pensador alemão entre 1883 e 1885 se constitui como exercício de pensamento afetivo acerca da indizível essência da realidade

O

s leitores brasileiros de Nietzsche têm um bom motivo para comemorar: foi lançada, pela Companhia das Letras, mais uma esmerada tradução de Paulo César de Souza, doutor em literatura alemã (USP) e coordenador das coleções de Nietzsche e de Freud publicadas pela editora. “Assim falou Zaratustra” é o 11º livro do filósofo traduzido por ele, que também se responsabiliza por um instrutivo posfácio e por 173 notas, fruto de estudos nos quais explicita elementos da intertextualidade nietzscheana, destacando o diálogo com as tradições poética, filosófica, científica e religiosa, sobretudo no que toca o cristianismo, o budismo e o zoroastrismo - cujo estudo, afirma, estava em voga na Europa do século XIX: “Nos cinquenta anos antes da publicação do Zaratustra, apareceram mais de vinte livros sobre o Zend-Avesta e seu inspirador”. Inscrito na fronteira entre literatura e filosofia, “Assim falou Zaratustra” apresenta as ideias capitais de Nietzsche: eterno retorno, super-homem, vontade de poder. O livro se inicia com a notícia da morte de Deus, termo que delineia a falência das tábuas de valor que até então garantiam coesão moral e sentido civilizatório à sociedade europeia. Diante do fenômeno, ao homem se impõe a tarefa de transvalorar todos os valores, assumindo-se como legislador autônomo de suas ações e não mais como dependente de normas heterônomas baseadas em ilusões transcendentais. Escrito entre 1883 e 1885, não é desprovido de uma trama, mas compõe-se basicamente pelos discursos de seu protagonista – na verdade, um tipo que caracteriza as vicissitudes epocais do processo de “mudança de pele” da humanidade ocidental, que se arrasta, ainda, em nossos dias. Limitarei os comentários a seguir à primeira das quatro partes da obra, que apresenta o retorno de Zaratustra à vida citadina, aos 40 anos de idade, depois de uma década de total isolamento montanhês. Trata-se de trajetória idêntica àquela vivenciada pelo Zaratustra persa (em grego, Zoroastro), líder religioso histórico (entre XII e VI a.C), do qual Nietzsche toma o mote do livro: “Zaratustra foi o primeiro a ver na luta entre o bem e o mal a roda motriz na engrenagem das

coisas – a transposição da moral para o plano metafísico, como força, causa, fim em si, é obra sua. [...] Zaratustra criou este mais fatal dos erros, a moral: em consequência, deve ser também o primeiro a reconhecê-lo”, afirma em seu Ecce homo (“Por que sou um destino”, § 3). Em uma nota de “Assim falou Zaratustra”, o tradutor destaca que também Buda e Jesus Cristo viveram, aos 30 anos, o impulso de assunção de suas tarefas messiânicas.

Metafísica

Fixando-se na operação de desconstruir um “mundo”, a primeira parte do livro confirma a morte de Deus e a gestação do super-homem (ao termo alemão Übermensch, formado pela preposição über – “acima de”, “além de” – e pelo substantivo Mensch – “ser humano” –, Rubens Rodrigues Torres Filho ofereceu a alternativa além-do-homem), apresentando-os como dois estágios históricos inerentes ao movimento de superação e transvaloração do homem niilista platônico-cristão, constituído pelo idealismo moral soteriológico, cuja efetivação se elabora tanto no registro religioso como no filosófico-científico. Trata-se, portanto, do ataque à fórmula metafísica – platônico-cristã – de binarização do real em mundo verdadeiro e mundo falso, mundo do ser e mundo do devir, mundo do bem e mundo do mal, concepção que, à luz de Nietzsche, gera a ilusão de uma panaceia da ciência e da religião, segundo a qual o conhecimento da essência da realidade pode redimir o homem do mal e do erro, estabelecendo uma existência sem contradição, sem dor, sem morte, sem conflito: solução total, paz perpétua, paz eterna. Para Nietzsche, portanto, o que caracteriza a metafísica “é a crença nas oposições de valores.” (“Além do bem e do mal”). Por isso o filósofo ficcionaliza um Zaratustra que volta a atuar, mas em sentido contrário à sua criação original, dessa vez trabalhando para desfazer a crença em tais oposições. Mostrar esse movimento transvalorador, alimentando e promovendo as condições para seu desenvolvimento, foi a tarefa empreendida por Zaratustra ao longo da movimentação do Prólogo e de toda a primeira parte: “‘Mortos estão todos os deuses: agora queremos que viva o super-homem!’ – que esta seja um dia,

no grande meio-dia, a nossa derradeira vontade! –” Ao dizer isso (“Da virtude dadivosa”), já carente do próprio silêncio, volta Zaratustra para a solidão de sua caverna, no alto da montanha. Na cidade, denominada “A vaca malhada”, ficam sem mestre os discípulos que o acompanharam em seu périplo urbano, sendo afetados pela destruição operada nos 22 primeiros discursos proferidos por ele, nos quais dinamitou o horizonte da interpretação dualista erguida pela metafísica e pela religião. É o golpe fatal em ideias capitais para a formação do Ocidente – como os conceitos de subjetividade, conhecimento, virtude, vida eterna, corpo e alma, felicidade, entre outros – que seus interlocutores devem agora se esforçar para digerir. A primeira parte do “Zaratustra” abala, portanto, o procedimento metafísico de dedução do condicionado a partir do incondicionado, deixando vazio o lugar do

fundamento do real, isto é, não nomeando a origem inominável, e, assim, buscando apontar o absurdo de uma razão que, por querer razão a qualquer custo, precisa encontrar causas primeiras das quais tudo se possa deduzir, forçando na linguagem a nomeação teológica do infinito (Heidegger indica que a metafísica se constitui onto-teologicamente, pois se destina à determinação da unidade do todo). A tarefa, por si só avassaladora, angustiante e absolutamente transformadora, na medida em que consiste na dinamitação de todos os ídolos que sustentaram o destino ocidental do ser, dirige-se à constituição de novas “raízes” para a existência humana no mundo, e de um novo solo no qual se possa fincá-las. Apresentada no Prólogo, a figura do eremita beato à procura de raízes na floresta pode funcionar como imagem de um divisor de águas: de um lado, o desespero niilista, traduzido na busca por um fundamento seguro e inabalável para o real; de outro, a locupletação desse niilismo como possibilidade da criação de metas humanas para o destino de um mundo já sem Deus, ou seja, o empenho em estabelecer um fundamento trágico capaz de abrir mão da vontade de verdade por meio da qual a tradição rangeu os dentes contra tudo que não é eterno. Para conviver, pois, com essa primeira herança de Zaratustra, seus discípulos precisam fazer valer a dimensão afetiva, a unidade fisio-psico-cosmológica do corpo, pois não obterão pela via teórica a compreensão do novo modo de pensar e sentir experimentado, expresso e construído, paulatina e incessantemente, pelo laboratório de si mesmo que é Zaratustra, tipo caracterizado por colocar em jogo a dinâmica complementaridade entre construção e destruição como origem da criação de valores humanos, demasiado humanos.

Filosofia universal

É fundamental que tenhamos sempre em conta o fato de “Assim falava Zaratustra” não ser absolutamente um livro teórico-conceitual, mas, ao contrário, um exercício de pensamento afetivo (ou um exercício afetivo de pensamento) acerca da indizível essência da realidade. Isto é, “Zaratustra” é um texto que foge do modo conceitual e lógico dos sistemas filosóficos como o diabo da cruz, ex-

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Friedrich Nietzsche em 1869: autor apresentou suas ideias capitais em texto situado na fronteira entre literatura e filosofia

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perimentando a poética do vir a ser do real em sua dimensão mais abissal, dionisíaca e silenciosa, gestada de modo pré-representacional, pré-imagético e pré-conceitual. Não se trata, pois, nos termos de Kant, de uma obra de filosofia escolar (Schulphilosophie), técnica, erudita e acadêmica, ligada ao ensino da tradição filosófica, mas da realização de uma filosofia universal (Weltphilosophie), na qual os problemas fundamentais da existência humana são retomados, de modo a se poder “assumir uma posição ético-política no debate da cidade, no espaço público comum aos cidadãos”, conforme as palavras da Profª. Jeanne Marie Gagnebin, num artigo intitulado “As formas literárias da filosofia”. A concepção de um homem além do homem do humanismo se coaduna com uma nova língua, uma nova voz, uma nova audição, uma nova sensorialidade. É contra a dessensualização do homem

moderno, decorrente de seu processo unilateral de intelectualização, que se volta a linguagem do “Zaratustra”, cuja forma de expressão manteve-se única, não tendo sido repetida por Nietzsche, mas chegou a ser destacada por ele como o prelúdio da sedimentação de suas concepções mais radicais e como o maior presente já dado à humanidade. “Zaratustra” substitui a teoria do conhecimento moderna (que, fundamentada na oposição entre sujeito e objeto, faz do homem “pedaço, enigma e apavorante acaso” – ZA, “Da redenção”) por uma doutrina dos afetos (“Os pensamentos são signos dum jogo e dum combate de afetos: sempre estão ligados às suas raízes ocultas” – Nietzsche, citado por Patrick Wotling no ensaio “As paixões repensadas: axiologia e afetividade no pensamento de Nietzsche”), apresentando uma concepção de linguagem segundo a qual os “nomes do bem e do mal” são “símbolos” de

estados fisiológicos determinados: “não enunciam, apenas acenam. É tolo quem deles espera o saber!” (ZA, “Da virtude dadivosa”). Os termos que transportam o espírito da moral – bem e mal – são vistos aí como alusões ao estado fisiológico de seus criadores, seguidores e fomentadores. Não são, pois, entes autônomos, nem fatos morais, nem significados, mas interpretações possíveis de mundo, ou seja, realizações possíveis, a partir de metáforas do corpo (Eric Blondel, “Nietzsche: a vida e a metáfora”); não são, portanto, realidades ontológicas a serem conhecidas, mas sinais genealógicos de tipos humanos, de formas de agenciamento fisiológico, seja pelo predomínio da afirmação da finitude, como postula o “Zaratustra”, seja pelo da negação da finitude, como procedeu, segundo Nietzsche, todo o conhecimento ocidental. Eles não são nenhuma realidade transcendental, mas vêm a ser,

desde uma escuta do corpo, entendido como campo de batalha de pulsões no qual se hierarquiza a multiplicidade – e não mais como na fórmula tradicional: substância extensa organizada mecanicamente em oposição à imaterialidade pensante da alma. “Novos caminhos sigo, uma nova fala me vem; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Meu espírito já não deseja caminhar com solas gastas”, afirma Zaratustra no discurso “O menino com o espelho”. Um novo corpo, portanto, demanda uma nova voz, uma nova fala, uma nova audição, uma nova língua, uma nova sensorialidade. Talvez essa seja a grande pista para o sucesso de um mergulho criativo em “Assim falou Zaratustra”, originado da transformação da capacidade auditiva de seu autor e pensado por ele como música (Ecce homo, “Assim falou Zaratustra”). Não por acaso, o filósofo afirmou, em carta a Georg Brandes (27/3/1888): “Sem música, a vida seria para mim um erro” (citado por Paulo César de Souza no “Sumário cronológico da vida de Nietzsche” que abre sua tradução do Ecce homo e encontrado, também, em Crepúsculo dos ídolos, “Máximas e flechas”, § 33: “Sem música a vida seria um erro”). Encerremos com um exercício de averiguação dos ganhos que nos pode trazer para a compreensão do projeto de Zaratustra a seguinte passagem de “O caso Wagner: um problema para músicos”, escrito por Nietzsche em 1888: “Já se percebeu que a música faz livre o espírito? Que dá asas ao pensamento? Que alguém se torna mais filósofo, quanto mais se torna músico? (...) – Acabo de definir o pathos filosófico. – E de súbito caem-me respostas no colo, uma pequena chuva de gelo e sapiência, de problemas resolvidos... Onde estou? – Bizet me faz fecundo. Tudo o que é bom me faz fecundo. Não tenho outra gratidão, nem tenho outra prova para aquilo que é bom.”

ASSIM FALOU ZARATUSTRA – Um Livro para Todos e para Ninguém Friedrich Nietzsche. Trad.: Paulo César de Souza. Companhia das Letras. 360 páginas. Quanto: R$ 42


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ficção por BRUNELLA FRANÇA; ILUSTRAÇÃO: COLETIVO PEIXARIA

DE AMOR E DE SOMBRAS “Meu sentir por ela parecia crescer dentro de meus sonhos, sob as pálpebras unidas, ao ritmo de sua respiração”, revela o eu lírico deste conto sobre paixão, encantamento e dor

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entada sobre as pernas na areia úmida da praia, de quando em vez, uma onda mais atrevida vem lamber-me as coxas. Em frente aos olhos, o mar. E tudo que o oceano me inspira. Mais distante, no horizonte, acompanho atenta o nascer de uma tempestade. Se parece com as minhas, um ajuntamento de coisas, um atrito, fagulhas e trovões. A minha cabeça em seu ombro. O passado permanece atrás de mim como uma casa onde eu morava. Construiu em meu íntimo sua morada. A porta era minha boca; as paredes, meus braços e as janelas, meus olhos. Escrevi AMOR na porta daquela casa para que jamais me perdesse de seus telhados castanhos e para que o calor do colo dela não me abandonasse. A sua boca em meus olhos. Meditava, mesmo de olhos abertos. Os lábios dela formavam as palavras. A palavra e o beijo eram um só. E beijei-lhe os lábios onde o mar estava. Ela dizia meu nome, sussurrava-o qual espuma branca se desfazendo na areia. Deixava-se admirar, amava pela vertigem do amor, mas não se deixava ver. Sabia de cor cada gesto, cada olhar, cada segredo de mulher apaixonada. Os meus cabelos nos dedos dela. O rosto dela era pensativo, imobilizado na sombra dos cabelos. Curiosidade e desejo em partes iguais eram as chamas que lhe iluminavam a face. Mas eu gostava do sossego daquele colo, o regaço onde se iniciavam todas as minhas angústias. O meu corpo tremia tanto... Minha boca junto à dela formava palavras que eu desconhecia. O que lia na clarividência de seus lábios? Era o meu futuro que ela carregava naquele espaço aberto por onde o espírito respira. Sim, ela gostava. O problema é que a perspectiva de ter um relacionamento não era das mais entusiásticas. Não que fosse contra. Mas bastava. As nuvens carregadas, outrora distantes, se aproximam da orla. Tinha medo que ela ouvisse meu coração a bater. Procurava-lhe a alma e ela esvanecia. Deitava ao seu lado, queria ver-lhe a divisão dos poros. Meu sentir por ela

parecia crescer dentro de meus sonhos, sob as pálpebras unidas, ao ritmo de sua respiração. E ela detestava a força que um “eu te amo” exercia sobre si. Não dispunha das armas para lutar contra aquele cárcere sentimental a que se obrigava. A minha boca em seus dedos. Sentia a inspiração se aproximar a cada espasmo. Novos sentidos se expandiam a partir de minhas coxas. Ela preferia ignorar palavras suaves e, em seu lugar, buscava o prazer de um libertino e pensava numa forma de se despedir sem muitos estragos. Mas romper laços é doloroso... A cabeça dela em meu colo. Dominava as sombras de toda a escala de cinzas. Mais: fazia-se de sombra para melhor ver a luz. E eu ansiava por aquela vida escondida sob sua pele. Sentia como se não houvesse sentido eu estar onde ela não estivesse também. Os olhos dela em meus olhos. Precisava do abraço e dos passos dela ao lado dos meus. E não havia nenhuma necessidade de esconder, de me esconder. Nenhuma necessidade de escuridão ou luz. Queria apenas vê-la como era. O sol do nosso tamanho pelas frestas da veneziana. Queria ser como ela, conseguir amar tudo de uma vez. Ainda não sabia, porém, que todas as paixões são uma, e os objetos dela ficção. Estendi os braços sem entender que ela não precisava do abrigo de mim. Os braços dela em minha cintura. Gostava de vê-la colher rosas no jardim e oferecê-las à Lua. Havia um brilho cósmico em seu olhar que me derretia. Jamais fui imune a estrelas... A sua boca na minha. Desde então, nunca mais houve ninguém. Aquele amor apagou o mundo, o meu e os demais, todos construídos em mim e do lado de fora. Não bastava dizer “eu te amo”. Tanta coisa se podia (e pode) ocultar em três palavras... Estava escuro. O luto do amor tornou-me apenas uma pessoa, uma concha partida. E tudo tornou-se somente mar. E ser somente mar já não é o bastante. Havia só a luz do aquário ao lado do toca-discos... Ela queria os raios e a trovoada. Fecho os olhos, deixo cair na areia um sorriso e corro de encontro às ondas.


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