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REVISTA Número 44 – MARÇO DE 2013

DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO MARANHÃO ISSN 1981-7770

EDIÇÃO ELETRONICA


REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO MARANHÃO

CONSELHO EDITORIAL Ordem de Serviço 02/2012, de 05 de dezembro Presidente - Manoel dos Santos Neto – Diretor de Divulgação Membros: Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo – Presidente IHGM Euges Silva de Lima – Vicepresidente IHGM Aldy Mello de Araújo – Sócio efetivo

Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, v.1, n.1 (ago. 1926) - São Luís: IHGM, DEZEMBRO DE 2012. n. 44, março de 2013. Edição eletrônica http://issuu.com/leovaz/docs/ ISSN: 1981-7770 1. História – Maranhão – Periódicos 2. Geografia – Maranhão - Periódicos p. 118 CDD: 918.21 CDU: 918.121 + 981.21


ISSN 1981 – 7770 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO MARANHÃO NO 44 – março – 2013 EDIÇÃO ELETRÔNICA Rua de Santa Rita, 230 – Centro Edifício Prof. Antonio Lopes – 2º. Andar CEP – 65015.430 – SÃO LUÍS – MA Fone (0xx98) 3222-8464 Fax (0xx98) 3232-4766 E.mail: ihgm_ma@hotmail.com http://ihgm1.blogspot.com.br/ http://www.facebook.com/people/IhgmMaranhao/100003343278385#!/groups/324308197653931/ https://groups.live.com/P.mvc#!/ihgm/ As ideias e opiniões emitidas em artigos ou notas assinadas são de responsabilidade dos respectivos autores. ENDEREÇO DAS EDIÇÕES ELETRÔNICAS

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http://issuu.com/leovaz/docs/revista_ihgm_43_-_dezembro_2012


Fundado em 20 de novembro de 1925, registrado no Conselho Nacional de Serviço Social sob no. 80.578/75, de 14 de setembro de 1955 Reconhecido de Utilidade Pública pela Lei Estadual no. 1.256, de 07 de abril de 1926 Reconhecido de Utilidade Pública pela Lei Municipal no. 3.508, de junho de 1996 Cartório Cantuária Azevedo – Registro Civil de Pessoas Jurídicas – reg. no. 180, registro em microfilme no. 31063, São Luís, 23 de agosto de 2007

GESTÃO 2012/2014

CHAPA: Pe. ANTONIO VIEIRA

DIRETORIA Presidente:

Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo

Vice-Presidente:

Euges Silva de Lima

1ª. Secretaria:

Clores Holanda da Silva

2º. Secretario:

Antonio José Noberto da Silva

1º. Tesoureiro:

Dilercy Aragão Adler

2º. Tesoureiro:

Aymoré Castro Alvim

Diretor de Patrimônio: Álvaro Urubatan Melo Diretor de Divulgação: Manoel Santos Neto Conselho Fiscal Titulares : Raul Eduardo de Canedo Vieira da Silva Maria Esterlina Melo Pereira José Ribamar Fernandes Suplentes: Paulo Sérgio Castro Osvaldo Pereira Rocha Iva Souza da Silva Conselho Editorial Manoel dos Santos Neto (Presidente) Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo Euges Silva de Lima Aldy Melo de Araújo


SUMÁRIO Diretoria – Gestão 2012/2014 SUMÁRIO ORDEM SE SERVIÇO 02/2012 CALENDÁRIO DE EVENTOS PARA 2013 AGENDAMENTO DO CICLO DE PALESTRAS PARA 2013

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CICLO DE ESTUDOS E PALESTRAS 2013 LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ A IGREJA SÃO JOÃO BATISTA E A VILA VELHA DE VINHAIS – UMA HISTÓRIA DE FÉ - Exibição de Documentário LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ DELZUITE DANTAS BRITO VAZ FRAN PAXECO E A EDUCAÇÃO FÍSICA NO MARANHÃO ALDY MELLO DE ARAUJO REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO MARANHÃO

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INÉDITOS ANA LUIZA ALMEIDA FERRO A SITUAÇÃO POLÍTICO-RELIGIOSA E A POLÍTICA EXTERIOR DA FRANÇA NO FIM DO SÉCULO XVI E COMEÇO DO SÉCULO XVII LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ ÍNDICE DA REVISTA DO IHGM – APRESENTAÇÃO ALDY MELLO DE ARAUJO O PODER NA ANTIGUIDADE LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ DELZUITE DANTAS BRITO VAZ NOVOS ACHADOS PARA A MEMÓRIA DA VILA VELHA DE VINHAIS

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NA MÍDIA MEMBROS DO IHGM SÃO CONDECORADOS PRESIDENTE DO IHGM PARTICIPA DE CONFRATERNIZAÇÃO DA GOVERNADORA DO ESTADO REVISTA “PODERES EM REVISTA” – POR FERNANDA SANTANA LINHA DA IMAGINAÇÃO – A POESIA DE ANA LUIZA ALMEIDA FERRO REVISTA ESTUDOS DE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, No. 40. ANÁLISE CULTURAL DO TORRÃO DOS INFERNOS: IMAGINÁRIO DO MAL NAS POÉTICAS DE DANTE MILANO E NAURO MACHADO, DE ALEXANDRE FERNANDES CORRÊA

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CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS – UFMS. 6A. EDIÇÃO EIXOS PERIFÉRICOS. 2012 FESTAS PÚBLICAS E COMEMORAÇÕES HISTÓRICAS NA PERIFERIA DO SISTEMA-MUNDO: RITANÁLISE DO IV CENTENÁRIO DE SÃO LUÍS/MA, de ALEXANDRE FERNANDES CORRÊA (CRISOL/IHGM/UFMA). TAMASO, Izabela e LIMA FILHO, Manuel Ferreira (orgs.) ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA - ABA – 2012 Antropologia e Patrimônio Cultural trajetórias e conceitos NOVOS DÉDALOS DA MODERNIDADE TARDIA: Investimentos na sociotécnica da cultura, do patrimônio e dos museus. (P. 75-110), de CORRÊA, Alexandre Fernandes (CRISOL – IHGM – UFMA) OSVALDO PEREIRA ROCHA NATAL E ANO NOVO RAIMUNDO GOMES MEIRELES O PACTO DAS CATACUMBAS OSVALDO PEREIRA ROCHA MOMENTOS DE FALAR E CALAR AYMORÉ ALVIM O PULSO E O FUTEBOL. NATALINO SALGADO FILHO TÃO PERTO, TÃO DISTANTE. LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ UM PERFIL DE ADELINO FONTOURA CHAVES MHARIO LINCOLN SOMOS TODOS NÁUFRAGOS, BARCOS E OCEANOS OSVALDO PEREIRA ROCHA CENTENÁRIO DE LUIZA PEREIRA ROCHA MHARIO LINCOLN UM PROFETA EM TERRA DE GENTE GRANDE ALVARO URUBATAN MELO SÃO BENTO: 180 ANOS DE EMANCIPAÇÃO.

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Ordem de Serviço 02/2012

A Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão no uso de suas atribuições nomeia os sócios abaixo para participar do Conselho Editorial da Revista do IHGM com vista a uma sistematização da mesma objetivando melhor qualidade de conteúdo e gráfica: Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo – Cad. 06 Manoel dos Santos Neto – Cad.11 Euges Silva de Lima – Cad. 22 Leopoldo Gil Dúlcio Vaz – Cad. 40 Aldy Melo de Araújo – Cad. 45

São Luís, 05 de dezembro de 2012

Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo Presidente


CALENDÁRIO DE EVENTOS PARA 2013 1. Reuniões de Diretoria – Hora: início 16:00 horas 2. Ciclo de Palestras – 17:00 horas 3. Assembléia Geral Ordinária - Hora: início 16:30horas

ABRIL

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MAIO

08 29

JUNHO

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MUNICÍPIOS MARANHENSES

26 10 JULHO

29

AGOSTO

SETEMBRO

14 08 a 17 28 11 25

OUTUBRO

09 30 13

NOVEMBRO

DEZEMBRO

Reuniões de Diretoria Palestra: A HISTÓRIA DO 24º BC Assembleia Geral Ordinária Reuniões de Diretoria Palestra - A MEDICINA DO MARANHÃO NO SÉCULO XIX Assembleia Geral Ordinária Reuniões de Diretoria Palestra: 1833: EMANCIPAÇÃO DE

TELMA REINALDO

AYMORÉ DE CASTRO ALVIM

ÁLVARO MELO

Assembleia Geral Ordinária Reuniões de Diretoria Palestra Assembleia Geral Ordinária - SOLENE SEMINÁRIO – ADESÃO DO MARANHÃO Á INDEPENDENCIA Reuniões de Diretoria PROJETO GONÇALVES DIAS, ANIVERSÁRIO DE 190 ANOS DO POETA Assembleia Geral Ordinária Reuniões de Diretoria Palestra: 1612 As primeiras leis fundamentais das Américas Assembleia Geral Ordinária Reuniões de Diretoria PALESTRA: ANÁLISE CULTURAL DO IMAGINÁRIO DO MAL NAS POÉTICAS DE DANTE MILANO E NAURO MACHADO Assembleia Geral Ordinária Reuniões de Diretoria Palestra – 1614 A HISTÓRIA DA BATALHA DE GUAXENDUBA

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Assembleia Geral Ordinária

02 11

Assembleia Geral Ordinária Reuniões de Diretoria

Dia todo - Palácio Cristo Rei ON-DAY-SEMINAR 16 hs – AGO solene encerramento Seminário DILERCY ADLER

MÁRCIO COUTINHO

ALEXANDRE CORREA

EUGES LIMA AGO SOLENE DATA MAGNA


CICLO DE ESTUDOS E PALESTRAS 2013


JANEIRO DE 2013

A IGREJA SÃO JOÃO BATISTA E A VILA VELHA DE VINHAIS – UMA HISTÓRIA DE FÉ Exibição de Documentário LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ

Ficha técnica: Roteiro: Leopoldo Gil Dulcio Vaz, Delzuite Dantas Brito Vaz e Murilo Santos Composição, arranjo e produção musical: Norlan Lima Trilha sonora adaptada: Hino de São João batista (domínio publico) cantado por Ubldina Ribeiro (d. Babá) Coordenação de produção: Nalda Aragão Assistente de produção e fotografia de making of: Dora Rodrigues Locução: Glauce Telles Computação gráfica: Adriana Tobias Design gráfico: Felipe S. Freire Direção: Murilo Santos Duração: 45 minutos

Este projeto teve seu inicio em 2008. Nalda Aragão, Veronica Florcely e Delzuite Vaz, membros da Comissão da Igreja de São João Batista, localizada na Vila velha de Vinhais planejavam resgatar a história daquelas pessoas que viviam ali na Vila,


contando seu relacionamento com a Igrejinha. Em reunião na casa de D. Delzuite, pediram a mim orientação de como fazer. Iniciamos, então, o que viria ser este documentário... Depois de detalhar as técnicas de coleta de informações orais, resiolveu-se que seriam filmadas, em vídeo. Elaborou-se, então, um roteiro para as perguntas básicas, que possibilitassem o rememorar dos acontecimentos e fatos relacionados às histórias de vida daquelas principais pergonagens. Nada foi feito, além doplanejado... Em 2009, aproximando-se a data dos 400 anos em que foi rezada a primeira missa, nova reunião, decidindo-se pela contratação de um profissional, para realizar o documentário que se pretendia produzir. A escolha recaiou em Murilo Santos. Reunidos, este foi inteirado do que se pretendia, e deu seu preço, pelo serviço. Aceito a proposta, passou-se à sua realização. O primeiro passo, o roteiro já idealizado, e a relação de pessoas a serem ouvidas – tomada dos depoimentos. A medida em que o projeto avançava, novos ajustes, tanto no roteiro, quanto na forma de apresentação e o conteúdo. Em 2010, foi feita uma primeira apresentação, esta com a duração de 23 minutos. Alguns eventos, no formato fotográfico. Com o passar do tempo, e a proximidade dos 400 anos, o projeto original já totalmente modificado, foram acrescidos novas tomadas, substityuindo-se as fotos por cenas, gravadas quando dos acontecimentos, como o corte e elevação do mastro, as festas das diversas santas e santos, a queima de palhinha, e novos depoimentos. Em 2011, já no final do ano, nova apresentação, agora com cerca de 35 minutos de gravação; as ameaças referentes à passagem da via Expressa pelo meio da vila, as novas descobertas, levaram-nos a apressar a conclusão. Já estávamos com um copião de cerca de 40 minutos... Resolvemos, então, finzalizar o documentário, ficando com a atual duração e formato e uma corrida contra o tempo, para lança-lo em 20 de outubro, nos 400 anos... A falta de recursos, desde aquele ano de 2008 impedia a concretização do sonho. O documentario pronto, e sem recursos para finalkiza-lo, com capa, lay-out, e gravação. Fizemos com a cara e a coragem, esperrando arrecadar o suficiente junto á comunidade para pagar as despesas. Enfim, tudo céu certo. Este é o produto final... Oficialmente, estamos fszendo o lançamwento aqui, neste Sodalíocio. Esperamos que gostem... muitos já assistiram as primeiras versões, de forma que algumas cenas não serão novidades. É a memória de uma comunidade...


FEVEREIRO DE 2013

FRAN PAXECO E A EDUCAÇÃO FÍSICA NO MARANHÃO LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão Universidade Estadual do Maranhão DELZUITE DANTAS BRITO VAZ Centro de Ensino Médio “Liceu Maranhense” Recebemos da Sra. Rosa Machado, de Portugal, uma cópia de diploma dada a seu avô, o cônsul de Portugal no Maranhão, Fran Paxeco.

Maria Rosa, João Manoel, e Maria Helena Paxeco Machado, netos de Fran Paxeco

FRAN PAXECO e sua filha ELZA PAXECO MACHADO

Fonte: VIEIRA DA LUZ, Joaquim. FRAN PAXECO E OUTRAS FIGURAS MARANHENSES. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957.

Manuel Fran Paxeco (nascido Manuel Francisco Pacheco), mais conhecido como Fran Paxeco1 (Setúbal, 9 de Março de 1874 — Lisboa, 17 de Setembro de 1952) foi um jornalista, escritor, diplomata e professor português; cônsul de Portugal no Maranhão, no Pará, em Cardiff e em Liverpool. Chegou a São Luís do Maranhão em 2 de Maio de 1900, sendo autor de diversas obras sobre temas de interesse para a região 2. Da chegada de Fran Paxeco ao Maranhão, Humberto de Campos faz referencia em sua obra “Memórias Inacabadas” 3: “Fran Paxeco, escritor português, discípulo e devoto de Teófilo Braga, chegara ao Maranhão, procedente de Manaus, onde o seu temperamento 1

http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Fran_Paxeco VIEIRA DA LUZ, Joaquim. FRAN PAXECO E OUTRAS FIGURAS MARANHENSES. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957. 3 CAMPOS, Humberto de. MEMÓRIAS E MEMNÓRIAS INACABADAS. São Luis: Instituto Geia, 2009 SAMUEL, Rogel. Fran Paxeco segundo Humberto de Campos. In ENTRE-TEXTOS, publicado em 20/11/2011, disponível em http://www.45graus.com.br/fran-paxeco-segundo-humberto-decampos,entre-textos,86963.html 2


combativo lhe havia criado grandes e aborrecidas incompatibilidades. Idólatra do seu mestre saíra a defendê-lo de Sílvio Romero, que o acusara de gravíssima desonestidade literária. [...] Aportando ao Maranhão, Fran Paxeco viveu aí como na sua terra. São Luís era, aliás, por esse tempo, uma cidade portuguesa, e em que dominava, ainda, o reinol. O diretor de uma das folhas mais vibrantes da cidade era o português Manuel de Bittencourt. À frente do diário que defendia o Governo estadual, estava o português Carvalho Branco, a que o Partido oficial, reconhecido pelos serviços relevantíssimos que ele lhe prestara nos trabalhos de alistamento eleitoral, havia dado, numa recompensa expressiva, o privilégio para fabricar caixões de defunto. O comércio era, quase todo, português. De modo que, estabelecendo-se na capital maranhense, Fran Paxeco se sentia tão à vontade como se tivesse desembarcado no Porto ou em Lisboa. As vantagens que ele trazia, com a sua vivacidade e com o seu entusiasmo, justificavam, aliás, a cordialidade do acolhimento. Habituado a olhar o português como gente de casa, a mocidade maranhense, que saía do Liceu, e se iniciava nos cursos superiores fora do Estado, saudou Fran Paxeco à chegada, e proclamou-o um dos seus guias e mestres. E o hóspede se identificou de tal maneira com ela, que olvidou a sua condição de estrangeiro, e passou a participar da atividade social da terra generosa com uma solicitude bárbara, mas que era, em tudo, de uma sinceridade intensa e profunda. Miúdo e barbado, era, todo ele, nervos e cérebro. Mais tarde, tirou as barbas. Mas conservou inalteráveis o temperamento, o espírito e o coração, até o dia em que Portugal o removeu para Cardiff, como vice-cônsul, isto é, em um posto equivalente ao que o Brasil dera, ali, anos antes, a Aluísio Azevedo”. Primeiro ocupante da Cadeira 14 do IHGM, patroneada por Antonio Bernardino Pereira do Lago, o seu amor pelo Maranhão levou-o a recusar transferências para postos da carreira diplomática muito mais prestigiosos que o consulado de São Luís do Maranhão; de Novembro de 1913 a Fevereiro de 1914 está no Rio chamado pelo primeiro Embaixador de Portugal no Brasil, Bernardino Machado para o secretariar; em 1916 publica "Angola e os Alemães" e segue para Lisboa onde chega a 27 de Maio para ocupar entre outros cargos o de secretário particular do Presidente da República, Bernardino Machado, mas continuando como cônsul de Portugal no Maranhão (tinha sido promovido a cônsul de 2ª classe em 4 de Julho de 1914); A 18 de Agosto de 1919, em reunião de professores da Faculdade de Direito do Maranhão, propõe a realização do Primeiro Congresso Pedagógico do Maranhão, o que veio a realizar-se no ano seguinte. Em 8, 28 e 31 de Janeiro de 1920, houve sessões preparatórias. A sessão inaugural teve lugar a 22 de Fevereiro. Em São Luis, no mês de agosto de 1922 recebe Sacadura Cabral, festejando a travessia aérea do Atlântico Sul; em 1923 o encontramos em Belém do Pará como cônsul, lugar que deixa em Junho de 1925, quando volta para Lisboa; em 1927 vai para Cardiff, desempenhar idênticas funções diplomáticas. Escreve "Portugal não é Ibérico". Faz parte da "South Wales Branch" da Ibero American Society, contribuindo para que o nome fosse mudado para "Hispanic and Portuguese Society". Com o cônsul do Brasil consegue abrir e manter no Technical College uma cadeira de língua portuguesa; No ano de 1933 está de volta a Lisboa ocupando a Direcção Geral dos Serviços Centrais do Ministério dos Estrangeiros. A 24 de Novembro já está em Liverpool a


cumprir mais uma missão diplomática onde se mantém até 1935, quando regressa a Portugal, de onde nunca mais saíu. É perseguido pelo Estado Novo, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros nunca mais lhe atribuíu nenhuma missão diplomática (graças ao Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Teixeira de Sampayo, monárquico convicto), o que muito o fez sofrer. 1939, um AVC com graves sequelas: fica sem fala, sem poder escrever e paralítico, as suas grandes formas de comunicação como grande orador e escritor que era. A Biblioteca do Grémio Literário Português em Belém do Pará e a Praça do Comércio em São Luís do Maranhão têm o seu nome. O seu nome encontra-se presente nas toponímias de Setúbal, de São Luís do Maranhão e de São Paulo.

Foi fundador da Academia Maranhense de Letras, da Faculdade de Direito, da Universidade Popular, do Centro Republicano Português, do Instituto de Assistência à Infância, do Casino Maranhense, da Associação Cívica Maranhense, da Câmara Portuguesa do Comércio, da Oficina dos Novos, da Legião dos Atenienses, participou do revigoramento e reorganização da Associação Comercial do Maranhão, entre outros organismos, todas as iniciativas relevantes.


Profere palestras literárias, cortejos e homenagens cívico-culturais, luta por modernos meios de transporte, pelo incentivo à agropecuária, pela criação de um parque industrial, pela melhoria dos serviços de saúde, pela urbanização da cidade. E tudo isso de par com atividades no magistério público e particular, com diuturna atuação na imprensa, com viagens e trabalhos na Amazônia, com a publicação de livros, com idas ao Rio de Janeiro e a Portugal.4

Na imprensa maranhense deixou uma colaboração tão diversificada e ao mesmo tempo copiosa, que ainda hoje aguarda e reclama a seleção temática da qual resultarão seguidos volumes de interesse para o estudo da vida maranhense. Tais volumes viriam somar-se às obras maranhenses desse autor de vasta bibliografia que compreende assuntos tão variados quanto foram os campos de interesse de seus estudos 5. 4

http://www.academiamaranhense.org.br/academicos/fundadores/05.php Algumas obras: O Uruguai, prefácio a este poema de Basílio da Gama. Rio de Janeiro, Livraria Clássica de Alves & Comp, 1895. O Guarani, proêmio ao libreto da ópera de Carlos Gomes. Belém-Pará, 1896. O Centenário Indiano, manifesto das associações portuguesas do Pará. Belém-Pará, 1897. O Sangue Latino. Lisboa, 1897. O Album Amazônico. Genova, 1898. Os escritores portuguezes: Teófilo Braga. Manaus, Tipografia do Diário de Noticias, 1899. Jubileu de João de Deus - folheto. Manaus, 1899. Os Escândalos do Amazonas. Manaus, 1900. A Questão do Acre, manifesto dos chefes acreanos. Belém-Pará, 1900. O Sr. Sílvio Romero e a literatura portugueza. São Luís do Maranhão, A. P. Ramos d'Almeida, 1900. Mensagem do Centro Caixeiral do Dr. Teófilo Braga. São Luís, 1900. Juiz sem Juízo, comédia de A. Bisson, versão com Antônio Lôbo. O Porvir Brasileiro (série de longos artigos em vários números d'A Revista do Norte). São Luís, 1901. O Maranhão e os Seus Recursos. São Luís do Maranhão, 1902. O Sonho de Tiradentes, peça num ato. São Luís do Maranhão, 1903. O Comércio maranhense, relatório da Associação Comercial do Maranhão. São Luís do Maranhão, 1903. Os interesses maranhenses. São Luís do Maranhão, A Revista do Norte, 1904, XXVIII. O Departamento do Juruá. Cruzeiro do Sul, 1906. A literatura portugueza na Idade Média: conferência. São Luís do Maranhão, Universidade Popular do Maranhão, 1909. O Maranhão: subsídios históricos e corográficos. São Luís do Maranhão, 1912. Portugal e a Renascença. São Luís do Maranhão, 1912.


Casou com Isabel Eugénia de Almeida Fernandes, natural de São Luís do Maranhão, de quem teve uma filha, Elza Paxeco, primeira senhora doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

FRAN PAXECO E SUA ESPOSA ISABEL Fonte: VIEIRA DA LUZ, Joaquim. FRAN PAXECO E OUTRAS FIGURAS MARANHENSES. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957.

Os Braganças e a restauração. São Luís do Maranhão, Tipografia da Pacotilha, 1912. O Maranhão. São Luís do Maranhão, 1913. As normas ortográficas, na Revista da Academia Maranhense. São Luís do Maranhão, 1913. A Língua portuguesa, por Filipe Franco de Sá, organização e posfácio. São Luís do Maranhão, 1915. Angola e os alemães. Maranhão, 1916. O trabalho maranhense. São Luís do Maranhão, Imprensa Oficial, 1916. A escola de Coimbra e a dissolução do romantismo . Lisboa, Ventura Abrantes, 1917. A visão dos tempos. Coimbra, 1917. Teófilo no Brasil. Lisboa, Ventura Abrantes, 1917. Visão dos tempos - epopeia da humanidade: conferência realizada em 21 de Fevereiro de 1917. Lisboa, Academia das Ciências de Portugal, 1917. Separata dos Trabalhos da Academia das Ciências de Portugal A cortiça em Portugal (resumo de informações do ministério dos estrangeiros). Lisboa, 1917. As normas ortográficas, in Revista da Academia Maranhense. São Luís do Maranhão, 1918. João Lisboa: livro comemorativo da inauguração da sua estátua contendo estudos críticos de vários autores (org. da Academia Maranhense). São Luís de Maranhão, Imprensa Oficial, 1918. Portugal e o equilíbrio europeu, conferência, na Pacotilha. São Luís do Maranhão, 1918 (I-XII). Portugal e o Maranhão, folheto. São Luís do Maranhão, 1919. O Pará e a colónia portuguesa, folheto. Belém do Pará, 1920. Geografia do Maranhão. São Luís do Maranhão, 1923. Trabalhos do congresso pedagógico do Maranhão. São Luís do Maranhão, 1923. Cartas de Teófilo Braga (com um definitivo trecho autobiográfico do mestre e duas "confissões" de Camilo) (prefácio e compilação). Lisboa, Tip. da Emp. Diário de Noticias, 1924. O Portugal primitivo, folheto. Belém do Pará, Tip. Grafarina, 1925. Sobre Teófilo Braga, genealogia, folheto. Belém do Pará, 1925. O século português (1415-1520), conferência longa, proferida na capital do Pará e publicada no País, do Rio de Janeiro. 1926. Setúbal e as suas celebridades. Lisboa, Sociedade Nacional de Tipografia, 1930/1931. Portugal não é ibérico (antelóquio de Teófilo Braga). Lisboa, Tipografia Tôrres, 1932. O poema do Amadis de Gaula, conferência lida em 10-11-1932, na Universidade de Cardiff. Coimbra, Coimbra Editora, 1934 (separata da Biblos). The intellectual relations between Portugal and Great Britain. Lisboa, Império, 1937.


Associações científicas de que foi membro Sociedade de Geografia de Lisboa; Sócio correspondente, admitido em 1 de Fevereiro de 1897. Academia Maranhense de Letras, de que foi sócio fundador; Academia Alagoana de Letras; (sócio correspondente); Academia Piauiense de Letras; (sócio correspondente); Société Académique d'Histoire Internationale; Medalha de Ouro. Paris, 27 de Junho de 1912. Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano; Sócio correspondente, eleito em 24 de Novembro de 1913. Academia de Ciências de Portugal; (sócio correspondente) eleito em 13 de Janeiro de 1915. Associação de Imprensa do Amazonas; Associação de Imprensa do Pará; Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas (São Paulo); Grémio Literário e Comercial Português, hoje, Grêmio Literário e Recreativo Português, Belém do Pará; Instituto Geográfico e Histórico da Bahia; Instituto Histórico e Geográfico do Pará; Sócio Honorário,eleito em 12 de Maio de 1920. Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão; Sócio correspondente, investido em 20 de Novembro de 1925. Liga Portuguesa de Repatriação; Belém do Pará: Sócio Benemérito, eleito em 26 de Junho de 1925. Sociedade Portuguesa Beneficente; Belém do Pará: Sócio Benfeitor, eleito em 26 de Março de 1925. Associação Dramática Recreativa e Beneficente; Belém do Pará: Sócio Beneficente, eleito em 5 de Julho de 1927. Instituto Histórico de Pernambuco; Instituto Histórico do Piauí; Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. PROPUGNADOR DA EDUCAÇÃO FÍSICA Djard MARTINS (1989) 6 registra que com o nascimento das atividades esportivas no Maranhão, o hábito de repousar nos fins de semana é substituído pelas festas, corridas de cavalo, partidas de tênis, regatas, corso nas avenidas, matinês dançantes, e pelo futebol. A “gymnástica” era praticada pelas elites, que tomavam aulas particulares, conforme se depreende de anúncios publicados nos jornais. O Euterpe, fundado em 1904, também passou a difundir atividades esportivas, como o “tiro ao alvo“, tênis, o tênis de mesa (ping-pong), etc. 7 Nessa primeira década do século XX, a juventude maranhense estava principiando a entender o quanto era importante praticar esportes e desenvolver a formação física. Miguel Hoerhan foi nosso primeiro professor de Educação Física, tendo prestado relevantes serviços à mocidade ludovicense, como professor na Escola 6

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MARTINS, Dejard. ESPORTE, um mergulho no tempo. São Luís : SIOGE, 1989 http://www.atlasesportebrasil.org.br/textos/10.pdf http://www.efdeportes.com/efd61/jogos.htm http://cev.org.br/comunidade/maranhao/debate/atlas-esporte-maranhao-2/ http://www.blogsoestado.com/leopoldovaz/2012/08/13/atlas-do-esporte-no-maranhao-ginastica/


Normal, Escola Modelo, Liceu Maranhense, Instituto Rosa Nina, nas escolas estaduais e até nas municipais, estimulando a prática da cultura física: "E para coroar de êxito esse idealismo, esteve à frente da fundação do Club Ginástico Maranhense..." (MARTINS, 1989).

Em 1911, Miguel Hoerhan ministrava “exercícios de gymnastica sueca, de esgrima, de espada e florete” no Colégio Militar – Rio de Janeiro. É listado junto com outros professores – “dirigidos pelos instructores professor Miguel Hoerhan, tenente Migrel Ayres e capitão Valério Falcão” – durante visita dos membros do Conselho Superior de Ensino. (Diário Oficial da União (DOU) de 12/08/1911), Pg. 14. Seção 1). Ao que parece, em 1911 Miguel Hoerhann já estava no Rio de Janeiro. Fran Paxeco escreve novo artigo sobre “jinastica’ (sic), ressaltando o trabalho de nosso professor de educação física:


Para Karina Cancella (2012) 8 a prática esportiva em meio militar foi intensificada na virada do século XIX para o XX sob o argumento de que para a estruturação de Forças Armadas era fundamental o desenvolvimento físico do pessoal militar. Estas atividades eram consideradas importantes para a formação não somente de militares mais preparados, mas também de potenciais “soldados-cidadãos” e “cidadãosmarinheiros” entre os praticantes civis. “As atividades físicas e esportivas foram gradativamente incorporadas aos currículos de instituições de ensino do país, iniciando este processo pelas escolas militares. A defesa pela ampliação da educação física no sistema de ensino baseava-se nos benefícios que trariam para o corpo e mente dos jovens. No meio militar, esta defesa era reforçada pelas observações dos cuidados de FFAA de outros países com os processos de preparação do corpo dos combatentes, considerando os exercícios físicos como um dos melhores instrumentos para a manutenção da forma e da disciplina das tropas. Com o crescimento da prática da ginástica nas instituições militares ao longo do oitocentos, muitos de seus membros passaram a atuar no meio civil como instrutores de ginástica nas escolas, uma vez que ainda não existiam escolas de formação em Educação Física no país naquele momento e os militares eram os principais promotores destas práticas no Brasil (SILVA e MELO, 2011)”. De acordo com Cancella (2011) 9 pelo Decreto n° 2.116, de 01 de março de 1858, foram incluídas a esgrima e a natação nos Cursos de Infantaria e Cavalaria da Escola Militar.10 O Decreto n° 4.720, de 22 de abril de 1871 11, regulamenta a Escola da Marinha mantendo a obrigatoriedade das práticas de atividades como esgrima, ginástica e natação em seus cursos. Três anos após, em 1874, o Decreto n° 5.529, de 17 de janeiro de 1874 12 , regulamenta a Escola Militar estabelecendo a obrigatoriedade da prática de ginástica, esgrima, equitação e natação. Percebe-se a aproximação dos militares não somente das atividades ginásticas, mas também de práticas que possibilitassem o desenvolvimento de habilidades fundamentais 8

CANCELLA, Karina. A defesa da prática esportiva como elemento de preparação dos militares por meio das publicações institucionais “Revista Marítima Brasileira” e “Revista Militar”. Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH-RIO, 2012. Disponível em http://www.encontro2012.rj.anpuh.org/resources/anais/15/1338498190_ARQUIVO_ANPUH2012_K arinaBarbosaCancella.pdf 9 CANCELLA, Karina Barbosa O esporte e a Marinha do Brasil: primeiras aproximações e a institucionalização da prática esportiva através da criação da Liga de Sports da Marinha. In Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011, disponível em http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1307817368_ARQUIVO_KARINABARBOSACAN CELLA_ANPUH2011_corrigido.pdf 10 BRASIL. Decreto n° 2.116, de 01 de março de 1858. Aprova o Regulamento reformando os da Escola de aplicação do exercito e do curso de infantaria e cavalaria da Província de S. Pedro do Rio Grande do Sul, e os estatutos da Escola Militar da Corte. Disponível em: http://www.camara.gov.br/Internet/InfDoc/conteudo/colecoes/ Legislacao/1858-pronto/leis1858/dec%20n%b02116-p1-01031858.pdf#page=1. 11 BRASIL. Decreto n° 4.720, de 22 de abril de 1871. Altera o Regulamento da Escola de Marinha, em virtude da autorização contida no § 18 art. 8º da Lei nº 1836 de 27 de Setembro de 1870. Disponível em: http://www.camara.gov.br/internet/infdoc/conteudo/colecoes/legislacao/legimpcd06/leis1871/pdf51.pdf#page=7. 12 BRASIL. Decreto n° 5.529, de 17 de janeiro de 1874. Aprova o Regulamento para as Escolas do Exercito. Disponível em: http://www.camara.gov.br/internet/infdoc/conteudo/colecoes/legislacao/legimpcd-06/leis1874v1e2/pdf15.pdf#pag e=10.


para o exercício militar no período, práticas que posteriormente passariam a ser realizadas também em caráter esportivo como a natação, a esgrima e a equitação (CANCELLA, 2011).

Para essa autora, as preocupações com o preparo técnico e físico dos militares brasileiros ganharam maior projeção com o advento da República. O país que se buscava formar deveria ser forte, treinado e pronto para se inserir no âmbito das maiores nações do planeta. Para isso, o projeto idealizado para este novo país passava por questões de modernização que envolviam não somente os aspectos técnicos e jurídicos, mas também os processos de formação e preparação dos cidadãos e daqueles responsáveis pela garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem: os militares (CANCELLA, 2011, 2012). A preparação do oficial alemão é destacada em artigo publicado na Revista Militar de 1901, de autoria do Major Engenheiro Dias de Oliveira, onde as preocupações com os conhecimentos táticos e técnicos da guerra destacava-se também a busca pela melhoria do físico dos militares. Destacava as principais vantagens deste exército afirmando que “o official d’estado-maior não deve somente desenvolver o espírito, completar a instrucção, já pelo útil jogo da guerra, a resolução de themas tácticos, conferencias, já pelos trabalhos d’ inverno ou de viagens d’ estado-maior. É-lhe igualmente necessário desenvolver as qualidades physicas, tonificar e robustecer o organismo, para supportar com vantagem a inclemência da vida em campanha, como convem a um homem de guerra. Por isso o official alemão, alem das grandes manobras do outomno, dedicase com paixão aos diversos gêneros de exercícios physicos, como a gymnastica, o cyclismo, a equitação, as marchas de guerra e as demais úteis e atraentes diversões creadas pelo sport moderno.”13 Os projetos de modernização para o Exército Brasileiro espelhavam-se nos modelos de organização das Forças estrangeiras. Assim, na edição de 1906 da Revista Militar, o Capitão do Estado-Maior de Artilharia Liberato Bittencourt destacava no artigo “Princípios geraes de organização dos exércitos” 12 temas que deveriam ser levados em conta neste processo de modernização. Entre os princípios elencados pelo autor, destaca-se o de número 10 “[...] Principio de educação physica, intellectual e moral: organisar os exércitos de modo a serem elles grandes escolas de educação physica, intellectual e moral da mocidade [...]”.14 Prossegue Cancella em sua análise: “O destaque para a função de ser “grandes escolas de educação physica, intellectual e moral da mocidade”, atribuídos ao EB, enfatiza os ideais sobre a necessidade de uma sociedade envolvida com as atividades 13

14

OLIVEIRA, Dias de. O Exercito Alemão. Revista Militar, ano III, 1901, p. 188-189, citado por CANCELLA, Karina. A defesa da prática esportiva como elemento de preparação dos militares por meio das publicações institucionais “Revista Marítima Brasileira” e “Revista Militar”. Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH-RIO, 2012. Disponível em http://www.encontro2012.rj.anpuh.org/resources/anais/15/1338498190_ARQUIVO_ANPUH2012_K arinaBarbosaCancella.pdf BITTENCOURT, Liberato. Princípios geraes de organização dos exércitos. Revista Militar, ano VIII, p. 341, citado por CANCELLA, Karina. A defesa da prática esportiva como elemento de preparação dos militares por meio das publicações institucionais “Revista Marítima Brasileira” e “Revista Militar”. Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH-RIO, 2012. Disponível em http://www.encontro2012.rj.anpuh.org/resources/anais/15/1338498190_ARQUIVO_ANPUH2012_K arinaBarbosaCancella.pdf


militares, com as ações de defesa da pátria. Esta perspectiva do Capitão acompanhava, em grande parte, as discussões sobre a necessidade de um novo formato para o EB, mais operativo e menos teórico, seguindo os modelos adotados por potências militares como França, Alemanha e Estados Unidos.”. (CANCELLA, 2012). Segundo Adalson de Oliveira Nascimento (2012) 15 [...] por muito tempo os exercícios físico-militares fizeram parte dos currículos das escolas civis brasileiras. Isso ocorreu na passagem do século XIX para o XX, período marcado por uma grande tensão política e militar entre as nações europeias, e que levou à Primeira Guerra Mundial (19141918). Esclarece esse autor que o processo foi iniciado no Império, quando Rui Barbosa (1849-1923) planejou uma grande reforma na educação brasileira e a inclusão desses exercícios como atividade curricular. Sua proposta foi elaborada em uma comissão da Câmara dos Deputados encarregada de avaliar a reforma do ensino implementada em 1879 pelo ministro do Império Leôncio de Carvalho (1847-1912). “A proclamação da República, em 1889, incrementou os exercícios físicomilitares nas escolas. Afinal, a filosofia republicana pregava que todo cidadão deveria estar preparado para defender a nação, ou seja, difundiu-se a ideia do cidadão-soldado. A primeira reforma educacional de cunho republicano, posta em prática por Benjamin Constant (1836-1891), em 1890, previa que as escolas primárias do Distrito Federal adotariam os exercícios militares, servindo de referência para outros estados. De acordo com essa medida, os alunos já tinham que fazer movimentos militares diversos aos sete anos, além de marchar. Aos 13, previa-se o manejo de armas de fogo adaptadas. Os exercícios também fariam parte do currículo no ensino secundário.”. (NASCIMENTO, 2012) A prática dos exercícios físico-militares nas escolas fazia parte de uma filosofia educacional geralmente desconhecida por regentes e pais. Alguns destes acreditavam que seus filhos corriam o risco de ter que entrar para a carreira militar por estarem participando dessas aulas nas escolas. Também havia aqueles que não viam nenhum sentido ou utilidade nos exercícios. Outros apontavam os riscos para a saúde de crianças e jovens, especialmente por inexistirem espaços físicos para a realização das atividades. (NASCIMENTO, 2012). Prossegue Nascimento (2012), essas atividades ensinadas por professores e militares tinham como objetivo preparar os alunos, a fim de que pudessem ser chamados para defender a nação em conflitos armados no futuro. O funcionamento dos nossos batalhões formados por estudantes e a prática desses exercícios nas escolas daqui foram bem menos intensos do que na Europa, mas ocorreram em instituições educacionais de vários estados e geraram muita polêmica.

15 NASCIMENTO, Adalson de Oliveira. Guerreiros mirins. In REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL, Outubro de 2012, disponível em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/educacao/guerreiros-mirins


. Identificado Fran Paxeco com o Maranhão, vemos que no referido diploma de mérito consta ‘aos propugnadores da educação physica’ e está assinada por Miguel Hoerhann, passado em 18 de maio de 1904. Wiese (2007) 16 trás a carta de apresentação de Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, datada de 28 de maio de 1912, escrita pelo Dr. Generino dos Santos e destinada a Manuel Tavares Miranda, Chefe da 2a Secção do Serviço de Proteção aos Índios – SPI – apresentando o jovem Eduardo, filho único do Capitão-Tenente Miguel Hoerhann: “Tenho o prazer de apresentar-lhe o meu jovem amigo Eduardo Hoerhan, filho único e extremecido do meu dedicado amigo o Capitão-Tenente Miguel Hoerhan, emerito professor de educação physica na Escola Naval e Collegio Militar.” Eduardo de Lima e Silva Hoerhann nasceu em freguesia de São Francisco Xavier do Engenho Velho em Petrópolis, Rio de Janeiro, em 1897. Seu pai: “[...] Miguel Hörhann (Miguel Hoerhann) nasceu na Áustria e faleceu no Rio de Janeiro; foi instrutor de Artilharia na Imperial e Real Marinha de Guerra da Áustria até 1884, e Capitão-Tenente da Armada Nacional. Sua mãe, Carolina de Lima e Silva Aveline, pertencia à aristocracia militar do Estado do Rio de Janeiro, neta do Duque de Caxias.” 17, 18,19. Mas é dada outra nacionalidade a Miguel Hoerhan – francesa -, como se vê em “O PACIFICADOR DE ÍNDIOS XOKLENG” IBIRAMA - SANTA CATARINA – BRASIL (MOSER/PEYERL) 20: “O pai de Eduardo, era Miguel Hoerhan, francês, oficial da alta corte da marinha francesa, casado com Dona Carolina de Lima e Silva, (esta então, 16

WIESE, Harry. Terra da fartura: história da colonização de Ibirama. Ibirama: Edigrave, 2007, p. 319320. 17 DAGNONI, Cátia. O CHOQUE ENTRE DOIS MUNDOS O CONTATO ENTRE O ÍNDIO E O BRANCO NA COLONIZAÇÃO DO VALE DO ITAJAÍ – um estudo sobre a interpretação do imigrante europeu a respeito dos Xokleng 1850 – 1914. Blumenau, 2008, Dissertação de Mestrado, Universidade Regional de Blumenau http://proxy.furb.br/tede/tde_arquivos/3/TDE-2009-0218T080906Z-442/Publico/Diss%20Catia%20Dagnoni.pdf 18 http://pagfam.geneall.net/2762/pessoas.php?id=1168057 19 GOMES, Iraci Pereira. OS XOKLENG E A COLONIZAÇÃO DO VALE DO ITAJAÍ: ANÁLISE DE UMA CARTA DE EDUARDO DE LIMA E SILVA HOERHANN - ENCARREGADO DO SERVIÇO DE PROTEÇÃO AOS ÍNDIOS (SPI) IV Congresso Internacional de História, 9 a 11 de setembro de 2009, Maringá. http://www.pph.uem.br/cih/anais/trabalhos/748.pdf 20 Reflexão. Índios. http://www.estudosabc.blogspot.com.br/


sobrinha de Luís Alves de Lima e Silva, o “o grande soldado brasileiro: Duque de Caxias”)”. Rafael Hoerhann, em outra correspondência, esclarece essas dúvidas: Miguel veio da cidade de Sankt Pölten na Baixa Áustria. Francês era seu sogro, Guilherme Plaxton Aveline 21, também oficial da Marinha22. Nasceu a 03 de abril de 1865; conforme mensagens de felicitações publicadas em 1900 (03/04) e 1901 (04/04) na Gazeta de Petrópolis:

É o próprio Migue que nos apresenta sua biografia 23, em nota publicada no jornal “O Paiz” em 21 de novembro de 1909, no Rio de Janeiro: 21

Maria Eulália de Lima e Silva (2°)29,30 nasceu em 24 julho 1841 em Rio de Janeiro (RJ). Maria casou-se com William (Guilherme) Plaxton Aveline31, filho de Thomas Aveline e Mary Isabella Pacy, em 27 agosto 1859 em Rio de Janeiro (RJ). William foi batizado em 25 outubro 1834 em Rio de Janeiro (RJ). No livro "Achegas Genealógicas à Ascendência Brasileira de Luiz Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias" do autores Cel.Carlos Sayão Dantas & Dr.Carlos G.Rheingantz, aparece com sobrenome "Avelone" ou "Aveline". http://www.genealogiabrasileira.com/cantagalo/cantagalo_piedegache-andregm.htm 22 Sr. Leopoldo, cordiais saudações. Deveras fico contente com sua alegria, é sempre uma satisfação poder ajudar. Porém a única foto que tenho do Miguel Hoerhann (com dois Ns) é a que te envio anexa. Seu filho Eduardo a tirou em 1912 conforme escrito no verso da mesma. Miguel era austríaco, de acordo com a certidão de nascimento do Eduardo, e veio da cidade de Sankt Pölten na Baixa Áustria. Tanto que a lingua alemã chegou até mim pela família. Francês, era seu sogro Guilherme Plaxton Aveline, também oficial da Marinha. Para o momento, seria isto. Um ótimo dia, Rafael. (Correspondência pessoal recebida em 27/02/2013 via correio eletrônico.) 23 Prezado Sr. Leopoldo Vaz, boa noite. Tomei a liberdade de lhe contatar quando soube de suas dúvidas, pelo pessoal do Arquivo Histórico de Ibirama - SC, acerca de Miguel Hoerhann, meu tataravô. Resido em São José, cidade vizinha de Florianópolis, capital de Santa Catarina e recém doutorei-me em História. Justamente trabalhei com a nacionalização dos Xokleng, comunidade indígena de SC, a qual o filho de Miguel, Eduardo Hoerhann dedicou toda a sua vida. Eduardo Hoerhann nasceu em Petrópolis em 1896. Filho de Miguel, (no anexo você consegue algumas informações sobre ele) e de Carolina, sobrinha-neta do Duque de Caxias. Alguns dados do Museu estão equivocados. Há uns anos, vi que os senhores disponibilizaram digitalizado, o livro Esgrima de Baioneta, de autoria do Miguel Hoerhann. Fiquei muito contente descobrir isso, e uma pena que ainda não consegui imprimi-lo em capa dura, mas parabéns pelo capricho. O sr enviou para a sra. Aparecida um diploma assinado pelo Miguel. Há possibilidade de enviar para mim numa resolução maior? Está ilegível em 9 k. No mais, espero poder ter ajudado em algo. Infelizmente, muitas informações se perderam. Cordialmente,


‘EDUCAÇÃO PHYSICA CARTÃO COMEMORATIVO DE 20 ANOS DE TRABALHO NO BRASIL Mens sana in corpore sano; vita non este vivere; sede vivere Miguel Hoerhann, capitão-tenente honorário da armada nacional, professor de educação física da Escola Naval, Colégio Militar, Externato Aquino, e professor de ginástica e esgrima do Automóvel Club do Brasil – Ex-professor dos colégios Brasileiro-Alemão, Abílio Rouanet, João de Deus, Instituto Benjamin Constant, e Instituto Nacional de Surdos Mudos, no Rio de Janeiro. Ex-professor dos colégios São Vicente de Paulo, Notre Dame de Sion, Ginásio Fluminense e Escola Normal Livre; sócio-fundador e 1º. Turnwart do Turnerein Petrópolis, em Petrópolis. Ex-professor da Escola Normal e grupos escolares Menezes Vieira e Barão de Macaúbas e do colégio Abílio, em Niterói. Ex-diretor do serviço de Educação Física; ex-professor da Escola Normal, escola modelo Benedito Leite; Instituto Rosa Nina, Liceu Maranhense, e escolas estaduais e municipais; fundador e 1º presidente e 1º diretor dos exercícios do Club Ginástico Maranhense; em S. Luis do Maranhão. Ex-professor do Ginásio São Bento e ex-secretário do I. e R. Consulado da Áustria e Hungria, em São Paulo. 20 anos de devotado trabalho no Brasil (de 24 até 44 anos de idade, desde 1889 a 1909). Ex-Instrutor da imperial e real marinha de guerra da Áustria, condecorado com a medalha militar de bronze, conferida por sua imperial e real majestade apostólica Francisco Jose I, Imperador da Áustria-Hungria (desde 15 até 23 anos de idade, 1880-1888).” No ano de 1900, em dezembro, por decreto é nomeado para a Guarda Nacional, lotado no Rio de Janeiro, no posto de capitão:

Rafael Hoerhann. Disponível em http://www.blogsoestado.com/leopoldovaz/2013/02/27/miguel-hoerhan-nossopioneiro-professor-de-educacao-fisica/


Na Gazeta de Petrópolis, edição de 15 de setembro de 1903, informa-se que Miguel Hoerhann estava em São Luis, nomeado que fora Diretor da Educação Physica, conforme a edição 204 de “A Pacotilha”, da capital do maranhão:

No dia 04 de junho de 1903 aparece anuncio n´A Pacotilha em que Miguel Hoerhann, como já fizera em Petrópolis e Niterói, oferece seus serviços como professor particular de ginástica; Logo no dia 05/06, anuncia o inicio das aulas:

A 30 de junho, outro aviso, convocando os alunos inscritos:


Miguel Hoerhann foi instrutor de artilharia do império austro-húngaro, professor de esgrima e ginástica sueca nos estados do Maranhão e Rio de Janeiro. Nesta cidade, a ginástica era voltada para o treinamento militar dos novos cadetes e oficiais da Marinha Brasileira e do Colégio Militar. Miguel tem vasta produção de artigos em periódicos e é autor do livro Esgrima de Baioneta, publicado no Maranhão em 1904 24:

24

O livro digitalizado está disponível link: http://www.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/Main.php?MagID=37&MagNo=68

no


Ao Excelentíssimo Senhor Coronel Alexandre Colares Moreira. Digníssimo Governador do Estado do Maranhão. Respeitosamente oferece o autor

A primeira referencia que se tem desse professor de educação física é de um diploma dado a diversas autoridades e intelectuais, dentre os quais a Fran Paxeco, Consul Honorário de Portugal no Maranhão; consta ‘aos propugnadores da educação physica’ e está assinada por Miguel Hoerhann, Diretor da Educação Physica, e foi passado em 18 de maio de 1904. O Diploma encontra-se na Academia Maranhense de Letras, junto aos documentos de Fran Paxeco, entregue àquela casa em 2010 por sua neta. O que nos chama atenção, são elementos icnográficos que aparecem no Diploma: na bandeira com as cores nacionais (verde e amarela) 25 onde está impresso os “4Fs”, traduzidos na parte de baixo, esquerda, do referido diploma como ‘Firme, Forte, Franco, Fiel”:

25

De acordo com Hobsbawm 25 as bandeiras, os hinos e as medalhas são tradições inventadas pelos governos para construir a nação e unificar a população em torno desta ideia. As festividades das sociedades de ginástica eram “comemorações em honra de Jahn, com várias competições atléticas, jogos olímpicos, demonstrações nos vários aparelhos, exercícios físicos, etc.”. Hobsbawm, E.; Ranger, T. (orgs.) (1984). A invenção das tradições. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.


Mazo e Gaya (2006) 26, ao estudar as associações esportivas de Porto Alegre-RS trazem que nas bandeiras adotadas por essas associações sempre havia a inscrição dos quatro “efes” posicionados no formato quadrangular: frish, fromm, frölink e frei, que significavam, respectivamente: saudável, devoto, alegre e livre.

26

MAZO, Janice e GAYA, Adroaldo. As associações desportivas em Porto Alegre, Brasil: espaço de representação da identidade cultural teuto-brasileira. Rev. Port. Cien. Desp. [online]. 2006, vol.6, n.2, pp. 205-213. ISSN 1645-0523.

http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/pdf/rpcd/v6n2/v6n2a09.pdf


No mês de agosto de 1903 nosso Diretor de Educação Física publica núncio em A Pacotilha, do dia 31, sobre a realização de um concurso poético, tendo por tema a Ginástica. Verifica-se que se referia ao Turnen, haja vista a citação dos “4 Fs”, como a divisa da ginástica:


Os “efes” também eram encontrados em todas as bandeiras desportivas da Alemanha. Em Porto Alegre a bandeira da Turnerbund reproduziu o símbolo dos “efes”, além da simbologia da insígnia com as datas históricas do turnen. Afirmam que a adoção de símbolos e exaltação dos heróis alemães aparecia nos uniformes da Turnerbund, símbolos que identificavam a pátria de origem. (MAZO e GAYA, 2006).

http://de.wikipedia.org/wiki/Turnen Em São Luis, ao convocar-se os sócios do Clube Ginástico Maranhense, da qual Miguel era fundador e diretor, pode-se ver a referencia ao símbolo dos “4 Fs” :


No diploma, traz ainda imagens de ginástica sendo executadas em diversos aparelhos, em claras referencias ao turnen – movimento criado por Friedrich Ludwig Jahn27, pedagogo alemão, além de ativista político.

A utilização de discursos esportivos para a difusão de ideias e sentimentos nacionalistas tem um significado histórico 28: Está relacionada com a identificação de um esporte com os interesses e desejos de um determinado grupo social que pode ser uma etnia, uma classe, etc., ou um conjunto mais heterogêneo representado numa nação. Compreendo a nação como sendo uma entidade que se insere no final de um processo de construção de símbolos e convenções de identificação nacional, ocorrido em diversos países da Europa e da América, iniciado a partir do final do século XVIII até fins do século XIX e início do século XX (HOBSBAWM, 1990). Nesse contexto o esporte tornou-se um dos mecanismos do nacionalismo que contribuíram para a construção da identidade nacional. Para Coertjens, Guazzdelli e Wasserman (2004) 29 a utilização dos ‘turner’ entre o discurso nacionalista e a prática esportiva remonta o final do século XVIII e início do XIX, nos pequenos estados que, anos mais tarde, formaram o Estado alemão: 27

28

http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema6/0610.pdf http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Ludwig_Jahn COERTJENS, Marcelo, GUAZZELLI, Cesar Barcellos; e WASSERMAN, Cláudia. Club de Regatas Guahyba-Porto Alegre: o nacionalismo em revistas esportivas de um clube teuto-brasileiro (1930 e 1938). In Rev. bras. Educ. Fís. Esp, São Paulo, v.18, n.3, p.249-62, jul./set. 2004, disponível em

http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rbefe/v18n3/v18n3a04.pdf


“[...] Nesse período, as noções de unidade pátria e povo foram idealizadas, entre outras coisas, através do esporte. Isso aconteceu com o objetivo de fomentar a resistência ‘alemã’ contra as invasões napoleônicas e, mais tarde, intensificar o processo de unificação do Estado alemão. Considerava-se que o exercício físico regular contribuía para o processo de disciplinalização e militarização da sociedade, principalmente, dos jovens. Esse ponto de vista ficou conhecido sob o nome de ‘Turnen’, ‘ginástica’, inserindo-se perfeitamente o esporte num contexto social e político mais complexo.” A ginástica (turnen) se transforma em uma escola de patriotismo, educação para se preparar para a guerra de libertação; seu curso visava o "despertar da identidade nacional" (construção de uma nação). No princípio do século XIX, surge um novo conceito de ginástica na Alemanha com Friedrich Ludwig Jahn30. Para além de criar aparelhos e novas formas gímnicas, fundou, em 1811, o primeiro ginásio ao ar livre de Hasenheide, Berlim. Daí nasceu o termo "Turnkunst" pelo qual ele substitui a palavra "Gymnastik". A ginástica de Jahn, com um conteúdo mais social e patriótico, rapidamente superou as ideias pedagógicas de Guts-Muths, tendo por objetivo formar homens fortes para defender a pátria 31. Embora já houvesse várias formas de ginástica, acrescentou aos exercícios já conhecidos, as barras e a barra alta. Analisando-se as alterações havidas na terminologia desportiva 32, após constatar que a antiga ginástica já não faz parte da área do esporte, Diem (1977) pergunta "o que houve? uma simples alteração terminológica?". Concluindo que: "... mais do que isso, pois os conceitos básicos mudaram. Eles mudam de conformidade com os padrões individuais e sociais de cada época e a nova terminologia geralmente reflete a mudança de pensar do homem... ‘A 'ginástica', no sentido clássico da palavra (como instrumento para o equilíbrio interno e externo do homem), constitui a forma mais primitiva da atividade desportiva e é nesse sentido geral que Guts Muths emprega o termo em sua obra metodológica 'Gymnastik fur die Jugend', publicada em 1793. Em princípio do século XIX introduziu-se na área géo-linguistica alemã, com os trabalhos de F.L. Jahn, a versão germânica do termo 29

30

COERTJENS, Marcelo, GUAZZELLI, Cesar Barcellos; e WASSERMAN, Cláudia. Club de Regatas Guahyba-Porto Alegre: o nacionalismo em revistas esportivas de um clube teuto-brasileiro (1930 e 1938). In Rev. bras. Educ. Fís. Esp, São Paulo, v.18, n.3, p.249-62, jul./set. 2004, disponível em

http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rbefe/v18n3/v18n3a04.pdf Friedrich Ludwig Christoph Jahn (Lanz, Prússia, 11 de agosto de 1778) estudou teologia e filologia na Universidade de Greifswald. No ano de 1811, sistematizou a prática da ginástica e a transformou em modalidade esportiva. Durante esse tempo, criou as associações Turnwerein – clubes de ginástica -, para jovens praticantes e interessados. Por conta disso, é considerado o pai da ginástica. Com o passar do tempo, seus centros foram considerados abrigos de discussões políticas, pois lá se cultivavam a força moral e a exaltação patriótica. Foi influente na organização do movimento de Burschenschaft, que promovia os ideais nacionalistas entre estudantes da universidade alemã. Morreu em outubro de 1852, aos 74 anos.

31 32

http://vamos_fazer_educacao_fisica.blogs.sapo.pt/10679.html VAZ, Leopoldo Gil Dulcio; VAZ Delzuite Dantas Brito. Os escolares e os jogos/esportes em Maranhão. In http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 9 - N° 61 - Junio de 2003


'ginástica' (Turnen), atividade física definida como forma de 'educação cívica através de exercícios físicos polivalentes'." (p. 11-12). Como já observou Leomar Tesche (1996, 2002) 33 não existe um vocábulo que consiga traduzir com fidelidade o sentido de Turnen para o português. Fazer ginástica seria uma tradução para Turnen, ou seja, um conjunto de exercícios corporais realizados no solo ou com auxílio de aparelhos e aplicados com objetivos educativos, competitivos, artísticos, etc. A ginástica é um conceito que engloba modalidades competitivas e não competitivas e envolve a prática de uma série de movimentos exigentes de força, flexibilidade e coordenação motora para fins únicos de aperfeiçoamento físico e mental. Tem sua origem no grego, gymnastiké - da palavra grega “gymnos” (nu) pelo fato de, na antiguidade clássica, os exercícios se praticarem com o corpo nu. É o conjunto dos exercícios corporais sistematizados, para esse fim, realizados no solo ou com auxílio de aparelhos e aplicados com objetivos educativos, competitivos, artísticos e terapêuticos, etc. A prática só voltou a ser retomada - com ênfase desportiva e militar - no final do século XVIII, na Europa, com a influência de vários pensadores que se debruçaram sobre as vantagens da prática do exercício físico, destacando-se o contributo de JeanJacques Rousseau34 na obra pedagógica "Emílio", em que o autor se refere à necessidade da pratica física como meio para atingir a razão. A partir daqui surgiram várias correntes, que encontraram eco na Alemanha35 com Johann Bernard Basedow36, pedagogo e educador, que conseguiu assimilar e transformar os princípios orientadores de Rousseau e impulsionou a ginástica, tendo para isso criado em 1775 o pentatlo de Dassau, no seu "Philanthropicum", constituído por provas de corrida, saltos, transporte, de equilíbrio e de trepar. Foi o primeiro pedagogo, desde a Antiguidade, a defender que o exercício físico deveria fazer parte dos programas das escolas primárias. Em 1784, Christian Gotthlif Saltzmann37, pedagogo e educador, abre outro "Philanthropicum", em Schneppenthal. Em 1785, Johann Christoph Friedrich Guts-

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TESCHE, Leomar. A prática do Turnen entre os imigrantes alemães e seus descendentes no Rio Grande do Sul:1867 – 1942. Ijuí: Unijuí, 1996. TESCHE, Leomar. O Turnen, a Educação e a Educação Física ns Escolas Teuto-brasileiras,no Rio

Grande do Sul: 1852 – 1940. Ijuí: Unijuí, 2002. 34

Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de Junho de 1712 — Ermenonville, 2 de Julho de 1778) foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo . 35 http://pt.wikipedia.org/wiki/Gin%C3%A1stica 36 Johann Bernard Basedow (1723-1790), estabeleceu sua escola-modelo – Philanthropinum, em Dessau, Alemanha, onde a ginástica estava incluída no currículo escolar e possuía o mesmo status que as disciplinas intelectuais. Inicialmente, nessa instituição eram praticadas atividades originárias dos tempos medievais como a equitação, o volteio, a natação, a esgrima, a dança e os jogos, posteriormente, foram acrescentados exercícios naturais como o correr, saltar, arremessar, transportar e trepar. http://www.ahistoria.com.br/esportesjogos/educacao-fisica-escolar.html 37 Christian Gotthilf Salzmann (1744-1811), pedagogo e educador alemão, criou um estabelecimento semelhante ao de Basedow, localizado, também, na Alemanha, na cidade de Schnepfenthal. Era, nele, acentuada a importância da educação sensorial para a formação física, para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da capacidade intelectual do educando, como também, desenvolvido o interesse educativo do esforço, que deveria ser executado de acordo com as possibilidades dos alunos. http://www.ahistoria.com.br/esportesjogos/educacao-fisica-escolar.html


Muths38, professor e educador, inicia sua obra com um novo conceito de ginástica. Foi um impulsionador da educação física obrigatória; utilizou o "Philanthropicum" de Schnepfenthal, incluindo a par da corrida, saltos, lançamento, luta e natação, os exercícios de trepar e de equilíbrio. As ideias filantrópicas e os conteúdos pedagógicos de Guts-Muths tiveram eco nos países da Europa, especialmente na Suécia, Dinamarca e França. O turnen visava uma relação entre Estado, escola, nacionalismo e militarismo, que vinculava corpo com disciplina, convívio social, preparação militar, nacionalismo e germanismo (TESCHE, 2002) 39. Para efeito de esclarecimento, turnen, Turn e Turner é um radical alemão que também está presente em várias línguas germânicas, tanto em línguas desaparecidas quanto em vivas, em todas elas significa torcer, virar, voltear, dirigir, mover, fazer grande movimento. Tesche40 utiliza, em seu trabalho, os vocábulos Turnen e Ginástica como sinônimos 41. Turnen, por sua vez, é constituído pela ginástica (Geräteturnen mais tarde Kunstturnen – ginástica artística), pelos jogos, pelas caminhadas, pelo teatro, pelo coral. De maneira que não existe um vocábulo que consiga traduzir com fidelidade o sentido de Turnen para o português; como dito, Tesche ao utilizar o vocábulo “ginástica”, em seus estudos, se refere ao Turnen42. INDÍCIOS DE “GYMNASTICA” NO MARANHÃO Em janeiro de 1999, o Prof. Dr. Lamartine Pereira Da Costa fez um anúncio através do CEV (Centro Esportivo Virtual www.cev.org.br): “Permitam-me iniciar o ano de 1999 fazendo um anuncio importante para o desenvolvimento da Historia do Esporte no plano nacional e internacional, como também mobilizar os amigos da Lista e fora dela para que sejam iniciadas pesquisas no tema que se segue.” Referia-se a presença de alunos de nacionalidade brasileira no Philantropinum, sediado em Schnepfenthal43; dentre esses alunos vamos encontrar: 38

Johann Christoph Guts Muths (1759-1839), educador alemão, iniciou a lecionar como professor de Ginástica no Instituto de Schnepfenthal, fundado por Salzmann, e lá permaneceu por 54 anos. A Educação Física para Guts Muths possuía, então, o objetivo de exercitar uma ação educativa destinada a harmonizar o corpo com as forças espirituais e morais e desenvolver, na criança, qualidades e capacidades que lhe permitisse superar obstáculos de caráter físico. Observa-se, também, a sua preocupação em proporcionar às mulheres atividades físicas, fundando a primeira escola de ginástica feminina onde os exercícios físicos eram adaptados ao sexo, como, também, possuía a consciência do valor que o esporte oferecia à formação física e da personalidade da juventude.. http://www.ahistoria.com.br/esportesjogos/educacao-fisica-escolar.html 39 TESCHE, L. O TURNEN, a Educação e a Educação Física. Ijui: Unijui, 2002 40 TESCHE, Leomar. A Prática do Turnen entre Imigrantes Alemães e seus descendentes no Rio Grande do Sul: 1867-1942. Ijuí: Ed. Unijuí, 1996. TESCHE, L. O TURNEN, a Educação e a Educação Física. Ijui: Unijui, 2002 TESCHE, Leomar.. O Turnen, a Educação e a Educação Física nas Escolas Teuto-brasileiras, no Rio Grande do Sul: 1852-1940. Ijuí: Ed. Unijuí, 2002. TESCH Leomar. Turnen: transformações de uma cultura corporal europeia na América. Ijuí: Ed. Unijuí, 2011 41 42

http://pt.wikipedia.org/wiki/Gin%C3%A1stica http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema6/0610.pdf

SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica. 43 Fonte: Preisinger, M. (Arquivos de Schnepfenthal – 1998)


NOME de La Roque, Jean de La Roque, Auguste de La Roque, Henri de La Roque, Guilherme De La Roque, Luiz de La Roque, Carlos

LOCAL E ANO NASCIMENTO Pará, 1850 Pará, 1851 Pará, 1849 Cametá, 1853 Pará, 1856 Pará, 1857

PERÍODO DE ESTUDOS 1861 – 1866 1861 – 1867 1861 – 1864 1863 – 1869 1865 – 1871 1865 – 1871

Naquela ocasião, informei a existência da Família LaRocque no Maranhão – do então senador Henrique de LaRocque Almeida. Os LaRocque - importante família estabelecida no Pará, procedem de dois irmãos: I - HENRIQUE de LaROCQUE (c. 1821 – Porto ?), que deixou geração do seu casamento, em 1848 – Pará -, com Matilde Isabel da Costa ( ? – 1919); e II – LUIZ de LaROCQUE (c. 1827 – Porto ?), que deixou geração de seu casamento, em 1854 (Pará) com sua cunhada Emília Ludmila da Costa. Ambos, filhos de JOÃO LUIZ de LaROCQUE (c. 1800 – a. 1854) e de Rosa Albertina de Melo. Entre os membros dessa família registra-se o senador HENRIQUE de LaROCQUE ALMEIDA, advogado diplomado pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro (hoje, UFRJ).44 No Dicionário, é dada como sobrenome de origem escocesa, o que é contestado por Henrique Artur de Sousa, para quem a família LaRocque estabelecida no Brasil é de origem portuguesa, da cidade do Porto – encontrou uma primeira referência no início da colonização do Brasil, nos anos 1500, em São Vicente ... -, o que parece ser a versão verídica, haja vista que o falecimento de dois membros dessa família – os irmãos Henrique e Luís, filhos de João Luís de LaRocque e sua mulher Rosa Albertina de Melo – se dão na cidade do Porto, no século XIX... (vide Dicionário...) Efetivamente alguns LaRocque se estabeleceram no Maranhão, a partir de 1832. Henrique Artur de Sousa - genealogista estabelecido em Brasília encontrou documentos no Arquivo Público do Estado do Maranhão “firmados de próprio punho” de três membros da família LaRocque, quando de sua chegada, “de que haviam estudado na Alemanha”, numa cidade chamada Schnepfenthal ! Filhos de Jean Francoise de LaRocque: -

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Carolina – depois Baronesa de Santos; Henrique de La Rocque; Guilherme de LaRocque; João Luís de LaRocque; Luís de LaRocque; Rosa; Amélia; Antônio de LaRocque.

in DICIONÁRIO DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS, vol. II, BARATA, Carlos Eduardo de Almeida; CUNHA BUENO, Antônio Henrique da. Arquivos da Biblioteca Pública “Benedito Leite”.


Desses irmãos, quatro estudaram na Alemanha; Henrique de LaRocque Júnior, e seus irmãos João e Augusto, também podem ter estudado na Alemanha ... Henrique de LaRocque Júnior - viria construir o Mercado de Ver-o-Peso, em Belém do Pará -, vem a ser avô do Senador LaRocque. O primeiro registro encontrado onde aparece a palavra “ginástica” data de 1841, conforme anúncio no “JORNAL MARANHENSE” 45 sob o título de: “THEATRO PUBLICO “Prepara-se para Domingo, 21 do corrente huma representação de Gimnástica que será executada por Mr. Valli Hércules Francez, mestre da mesma arte de escola do Coronel Amoroz em Paris; e primeiro modelo da academia Imperial de Bellas Artes do Rio de Janeiro, que terá a honra de apresentar se pela primeira vez diante d’este Ilustrado público, a quem também dirige agradar como já tem feito nos principais Theatros de Europa , e deste Império. “Mr. Valli há contractado o Theatro União, para dar sua função, junto com Mr. Henrique, e tem preparado para este dia um espetáculo extraordinário que será composto pela seguinte maneira: - Exercícios de forças, Agilidade e posições Acadêmicas - Exercícios no ar e muitas abelidades sobre colunnas assim como admiraveis sortes nas cordas “Nos intervalos de Mr. Valli, se apresentará Mr. Henrique, para executar alguns exercícios de fizica, em quanto Mr. Valli descansa.” Novo anúncio é publicado em 16 de novembro daquele ano de 1841 46, sob o mesmo título, em que eram anunciadas as novas atrações do programa a ser apresentado: “Theatro Publico “Domingo 21 do corrente 1841, 1ª apresentação gimnastica dirigida por Mr. Valli, Herculez Francez, que tem a distinta honra de apresentar-se diante deste ilustre publico para executar seis noites de divertimentos: 1ª noite – exercícios gimnasticos, malabares, fizica 2ª dita – grande roda gyratoria 3ª dita – jogos hydraulicos como existem em Europa 4 dita – a grande luta dos dois gladiadores”. Ainda nesse mesmo ano, aparecem anúncios 47 de aulas de esgrima: “Annuncios Diversos “Manoel Dias de Pena, se dispõe a encinar com toda a prefeição o jogo de espada, e assim roga a todos os Snrs. que quizerem aprender esta Arte, tão útil a mocidade, se diriga a esta Typographia que se dirá aonde mora o annunciante.” Desde 1844, quando foi fundado o primeiro colégio destinado exclusivamente às moças, em São Luís, as atividades físicas faziam parte do currículo:

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JORNAL MARANHENSE,, São Luís, n. 36, 12 de novembro de1841 JORNAL MARANHENSE,, São Luís, n. 37, 16 de novembro de 1841 47 JORNAL MARANHENSE, anno I, São Luís, Sexta-feira, 31 de dezembro de1841, n. 49 46


“... não somente sobre as disciplinas escolares com também sobre o preparo physico, artístico e moral das alumnas. Às quintas-feiras, as meninas internas participavam de refeições, como se fossem banquetes de cerimônia, para que se habituassem 'a estar bem á mesa e saber como se deveriam servir as pessoas de distinção'. Uma vez por semana, à noite, havia aula de dança sob a rigorosa etiqueta da época, depois de uma hora de arte, na qual ouviam bôa música e aprendiam a declamar." (ABRANCHES, 1941, p. 113-114) 48. Esse colégio - o "Collegio das Abranches", como era conhecido o Collégio N. S. das Glória -, foi fundado por D. Marta (Martinha) Alonso Veado Alvarez de Castro Abranches 49 - educadora espanhola nascida nas Astúrias provavelmente por volta de 1800 (JANOTTI, 1996) 50 –, e pela sua filha D. Amância Leonor de Castro Abranches, e tinha, ainda, como professora, D. Emília Pinto Magalhães Branco, mãe dos escritores Aluizio, Artur e Américo de Azevedo. Cabe lembrar que Antônio Francisco Gomes, em 1852, propunha além da ginástica, os exercícios de natação, esgrima, dança, jogo de malha e jogo da pella para ambos os sexos (CUNHA JÚNIOR, 1998, p. 152) 51 Em 1869, é anunciada a criação de um novo colégio - o Collégio da Imaculada Conceição -, sendo seus diretores os Padres Theodoro Antonio Pereira de Castro; Raymundo Alves de France; e Raymundo Purificação dos Santos Lemos. Internato para alunos de menor idade seria aberto em 07 de janeiro de 1870. Do anúncio constava o programa do colégio, condições de admissão dos alunos, o enxoval necessário, e era apresentado o Plano de Estudos tanto do 1º grau como do 2º grau, da instrução primária; o da instrução secundária; e da instrução religiosa. No que se referia às Bellas Artes – desenho, música vocal e instrumental, gymnástica, etc., mediante ajustes particulares com os senhores encarregados dos alunos. O novo colégio situava-se na Quinta da Olinda, no Caminho Grande, fora do centro da cidade, e possuía água corrente, tanque para banhos, árvores frutíferas, jardim, bosque e lugar de recreação. (A ACTUALIDADE n. 28, 28 de dezembro de 1869). Considerando-se sob o aspecto de quem começou a praticar exercícios com pesos, podemos afirmar que o pioneiro foi JOÃO DUNSHEE DE ABRANCHES MOURA, ainda no século passado. O autor de "O Captiveiro", de "A esfinge do Grajaú", "A setembrada”, nasceu na estreita Rua do Sol, 141, situado entre a Rua do Ribeirão e o Beco do Teatro, a 02 de setembro de 1867 (GASPAR, 1993, p.12; VAZ, 2008) 52.

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ABRANCHES, Dunshe de. O CAPTIVEIRO. Rio de Janeiro: (s.e.), 1941 A fidalga espanhola D. Martinha Alvarez de Castro, casou-se com Garcia de Abranches, o Censor, quando tinha 17 anos. Foi a fundadora do primeiro colégio destinado ao sexo feminino em Maranhão o “Colégio Nossa Senhora das Graças”, mais conhecido como o Colégio das Abranches - junto com sua filha Amância Leonor, em 1844. Foi - ela, ou uma das filhas - a primeira professora de educação física do Brasil 49. 50 JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. Três mulhes da elite maranhense. In REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA, São Paulo, v. 16, n. 31 e 31, p. 225-248, 1996 51 CUNHA JÚNIOR, Carlos Fernando Ferreira da. A produção teórica brasileira sobre educação physica/gymnastica no século XIX: questões de gênero. In CONGRESSO BRASLEIRO DE HISTÓRIA DO ESPORTE, LAZER E EDUCAÇÃO FÍSCA, VI, Rio de Janeiro, dezembro de 1998. COLETÂNEA... . Rio de Janeiro : Universidade Gama Filho, 1998, p. 146-152. 52 GASPAR, Carlos. DUNSHE DE ABRANCHES. São Luís: (s.e.), 1993. Discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, a 28 de julho de 1992. 49


Nos livros de memórias desse festejado historiador, advogado, polemista, sociólogo, crítico, romancista, poeta, jornalista, parlamentar e internacionalista maranhense, relata-nos que o "Club dos Mortos" - proposto por Raymundo Frazão Cantanhende -, reunia-se no porão da casa dos Abranches, no início da Rua dos Remédios: "E como não era assoalhado nem revestido de ladrilhos, os meus paes alli instalaram apparelhos de gymnastica e de força para exercícios physicos" (ABRANCHES, 1941, p. 187). Relata, ainda, que os membros desse clube abolicionista, juntando o útil ao agradável: "... não raras noites, esse grupo juvenil de improvisados athletas e plumitivos patriotas acabava esquecendo os seus planos de conjuração e ia dansar na casa do Commandante Travassos...". (ABRANCHES, 1941, p. 188). Anos mais tarde, Aluísio Azevedo, tanto em "O Mulato" - publicado em 1880 -, como em uma crônica publicada em 10.12.1880, propõe uma educação positivista para as mulheres maranhenses: "... é dar à mulher uma educação sólida e moderna, é dar à mulher essa bela educação positivista... é preciso educá-la física e moralmente... dar-lhe uma boa ginástica e uma alimentação conveniente..." (MÉRIEN, 1988, p. 166-167) 53. No início da década de 1910, desaparece o hábito de repousar nos fins de semana, substituído pelas festas, corridas de cavalo, partidas de tênis, regatas, corso nas avenidas, matinês dançantes, e pelo futebol. Essas atividades, divulgadas pelos jornais, começaria a apresentar seus primeiros sinais de mudança ainda nas últimas décadas do século XIX, com o surgimento e fortalecimento gradual dos esportes: "É nessa conjuntura que adquirem um efeito sinergético, que compõem uma rede interativa de experiências centrais no contexto social e cultural, como fonte de uma nova identidade e de um novo estilo de vida "Os 'Clubs' que centralizam essas atividades surgem como modelos da elite no final do século XIX, e já no final da década de 10 e início de 20, estão difundidos pelos bairros, periferia, várzeas e se tornam um desdobramento natural das próprias reuniões sociais". (KOWALSKI, 2000, p. 391) 54. O então presidente da Província - Bendito Leite (governador do Maranhão, de 1 de março de 1906 a 25 de maio de 1908) 55 - ante o espetáculo proporcionado lamentou não poder manter nas escolas públicas o ensino regular da ginástica... Desde 1901 o “Regimento para as Escolas Estadoaes da Capital” (Decreto nº16 de 04 de Maio de 1901; NASCIMENTO, 2007a, 2007b,) 56, instituía, no seio de suas

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. HOMENAGEM AO PATRONO DA CADEIRA Nº 40. REVISTA DO IHGM – No. 29 – 2008 – Edição Eletrônica, p. 157 53 MÉRIEN, Jean-Yves. ALUÍSIO AZEVEDO VIDA E OBRA (1857-1913) - O VERDADEIRO BRASIL DO SÉCULO XIX. Rio de Janeiro : Espaço e Tempo : Banco Sudameris; Brasília : INL, 1988. 54 KOWALSKI, Marizabel. Estilo de vida e futebol. IN CONGRESSO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA, ESPORTE, LAZER E DANÇA, VII, Gramado-RS, 29 de maio a 01 de junho de 2.000. COLETÂNEAS... Porto Alegre: UFRGS, 2.000, p. 390-395. 55

Benedito Pereira Leite (Rosário, 1857 — 1909) foi um político brasileiro. Foi um dos membros da Junta governativa maranhense de 1891. Foi governador do Maranhão, de 1 de março de 1906 a 25 de maio de 1908.


diretrizes gerais, questões referentes a “inspecção e asseio” normatizando desde a entrada dos alunos em que caberia às professoras proceder á uma revista do asseio dos mesmos “tomando as providencias necessarias em ordem a estarem todas as condições regulares de limpeza de mãos, unhas, rosto e penteado do cabello, no momento de serem iniciados os exercícios escolares” (REGIMENTO, 1901, p.80) conforme a classe a que pertence o estudante. Percebem-se nítidos traços de influência militar em termos de linguagem e recomendações na modelagem deste corpo escolarizado, quando instituem os exercícios abaixo descritos: “a) Os da primeira classe constarão de marchas e contramarchas com variações apropriadas a darem facilidade de movimento dos alumnos; b) Os da segunda versarão sobre movimentos em varios tempos, com e sem flexão dos membros, desacompanhados de instrumentos; c) Os da terceira se comporão dos mesmos exercicios das segunda, mas com instrumentos; d) Os da quarta de exercicios de barra de extremidades esphericas, barra fixa, apparelhos gyratorios.” (REGIMENTO, 1901, p.80, grifos nosso). A "gymnástica" era praticada pelas elites, que tomavam aulas particulares, conforme se depreende desse anúncio, publicado em 1904: "PARA OS ALUMNOS DE AULA PARTICULAR DE GYMNÁSTICA "A Chapellaria Allemã acaba de despachar: "camizas de meia com distinctivos "Distinctivos de metal com fitas de setim e franjas d'ouro "Distinctivos de material dourado para por em chapéus " Chapellaria Allemã de Bernhard Bluhnn & Comp. 23 - Rua 28 de julho - 23" (A CAMPANHA, 6ª feira, 8 de janeiro de 1904, p. 5). O sexo feminino também tinha suas aulas de ginástica, pois fazia parte do currículo da Escola Normal57, conforme resultado dos exames publicados, como era comum à época: "CURSO ANEXO "Foi este o resultado dos exames de hontem: "GYMNÁSTICA “Núbia Carvalho, Maria Varella, Neusa Lebre, Hilda Pereira, Margarida Pereira, Almerinda Parada, Leonor Rego, Rosilda Ribeiro, Fanny Albuquerque, Agrippina Souza, Cecilia Souza, Roza Martins, Esmeralda Paiva, Neusa Silva, grau 10 56

REGIMENTO PARA AS ESCOLAS ESTADOAES DA CAPITAL, a que se refere o Decreto nº16 de 04 de Maio de 1901. In: Collecção das leis e decretos do Estado do Maranhão de 1912. Republica dos Estados-Unidos do Brazil. Maranhão: Imprensa Official, 1914. NASCIMENTO, Rita de Cássia Gomes. A Educação Higiênica em São Luís nas primeiras décadas do século XX. São Luís: Universidade Federal do Maranhão, 2007b. (Graduação em Pedagogia). NASCIMENTO, Rita de Cássia Gomes. PELAS CRIANÇAS DESVALIDAS: o Instituto de Assistência à Infância do Maranhão nas primeiras décadas do século XX. São Luís: Universidade Estadual do Maranhão, 2007a. (Graduação em História). 57 “A Escola Normal do Maranhão foi criada pelo decreto nº 21 de 15 de Abril de 1890 e, logo após, dia 19 de Abril de 1890, foi criada a Secretaria de Instrução Pública. Seu criador foi o Dr. José Tomás de Porciúncula (RJ/1854-RJ/1901). Médico, nomeado Interventor pelo presidente da República, uma de suas preocupações foi reorganizar o Ensino e criar a Escola Normal”


"Faltaram 12". (O MARANHÃO, Sexta-feira, 15 de novembro de 1907). No Programma Didactico para o Curso de Pedagogia (1906; COUTINHO e NASCIMENTO, s.d.) 58, direcionado à Escola Normal do Maranhão, o professor e Dr. Almir Parga Nina59, então membro da Associazione Pedagogica, de Roma, e da Ligue pour L’Hygiene Scolaire, de Paris, foram lançadas as disposições regulamentares do curso destinados à formação pedagógica das moças da elite da capital ludovicense. Neste programa ressaltavam-se como fins da Escola Normal além da instrução geral, a “instrucção techica que instruirá e adestrará nos methodos e processos de cultura physica, mental e moral da mocidade” (NINA, 1906, s/p, grifos nossos) 53. Referente às questões sobre cultura física e higiene escolar, este programa colocava que no primeiro ano de pedagogia as alunas teriam contato com conhecimentos gerais – anatômico-fisiológico, psicológico e antropológico – sobre as crianças a fim de embasar a chamada Pedagogia Reparadora relacionada á correção das moléstias e vícios adquiridos dentro e fora da escola (NINA, 1906). No segundo ano do curso, por sua vez, teriam as normalistas acesso à organização material (estrutura física) e organização pedagógica (programa didático - roteiros, horário, recreio, promoções, exames, férias) da instituição escolar. Porém, dentro da chamada organização pedagógica, estava inserido um ponto relevante denominado “Pathologia Escolar” 60. (NINA, 1906; COUTINHO e NASCIMENTO, s.d.) 53. Em outro anúncio, publicado em 1908, o "professor de instrucção physica" avisava que pretendia realizar "os exames de seus alumnos na próxima quinta feira" (em O MARANHÃO, Segunda-feira, 02 de março de 1908, p. 2, n. 257). No dia 26 de dezembro de 1907, é registrada uma partida de futebol entre alunos da Escola de Aprendizes Marinheiros, como parte de sua preparação física. O futebol, além de outras modalidades e atividades, principiava a se utilizado como prática de educação física nas escolas: "Aprendizes Marinheiros: "Hontem, às 4 horas da tarde, os aprendizes marinheiros, fizeram exercícios de 'foot-ball' na arena do Fabril Athletic Club e um assalto simulado de florete, sob a direção do respectivo instructor da Escola. 58

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COUTINHO, Adelaide Ferreira; NASCIMENTO, Rita de Cássia Gomes. IDEÁRIO NACIONAL, DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO E CONTROLE NA PEDAGOGIA HIGIÊNICA EM SÃO LUÍS NO LIMIAR DO SÉCULO XX. Disponível em http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe5/pdf/897.pdf , acessado em 12/10/2012 NINA, Dr. Almir Parga. Programma Didactico- Roteiro para o Curso de Pedagogia em 1906. Maranhão: Typografia Frias, 1906, citado por COUTINHO e NASCIMENTO, s.d., disponível em http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe5/pdf/897.pdf , acessado em 12/10/2012. As normalistas estudariam as “molestias escolares propriamente ditas; molestias que a escola determina, mas que o meio escolar pode aggravar; molestias que a escola pode diffundir e propagar; molestias devidas á má organisacao pedagogica; Desvios e incurvações da columna vertebral; escolioses, cyphose, lordose.Myopia. Tuberculose [...] Anemias-Rachitismo [...]. Hydrocephalia em suas relações com o desenvolvimento das faculdades psychicas [...] Paralysia Infantil-Epilepsia [...] Paludismo, especialmente nas escolas ruraes [...] Molestias infecciosas agudas [...] Variola, Sarampão, escalartina, diphteria, parotidite, coqueluche, dysenteria etc moléstias da pelle e do couro cabelludo, sarna, tinhas, etc; Ophtalmias; Frequencias das otites e otorreas (escorrimento pelos ouvidos) nas creancas, sua influencia na audição, cansaço cerebral – surmenage escolar (NINA, 1906, s/p)


"Os alumnos revelaram-se disciplinados e agiram com muito garbo e desembaraço. "Domingo próximo, às 5 horas da manhã, haverá novo exercício no mesmo local". (O MARANHÃO, 26/12/1907) Em 1908, o FAC fez as reformas de seus estatutos, para incluir o manejo de armas - prática do tiro - entre suas atividades, com o fim de prestar um serviço às juventude, valendo-se da Lei do Sorteio Militar. Com a ajuda do então tenente Luso Torre foi fundada uma seção de Instrução Militar, a fim de preparar os sócios que nela quisesse tomar parte e gozar dos favores da referida lei. Talvez para se beneficiar dessa Lei, e livrar os jovens da elite maranhense da instrução militar, em 1909, o Tiro Maranhense informava que já chegava a 120 o número de pessoas inscritas naquela Sociedade. Em 10 de abril é anunciada a posse da diretoria, na Câmara Municipal. (O MARANHÃO, sábbado, 03 de abril de 1909). Em nenhum desses anúncios se faz referencia ao nome do professor de ‘gymnástica’... Na década de 1920, havia debates sobre a educação escolar higiênica, bem como do exercício da cultura física representada nas atividades lúdicas (jogos e brincadeiras) e na chamada ginástica pedagógica como meios de desenvolver a mente e corrigir possíveis desvios do corpo escolarizado. (COUTINHO e NASCIMENTO)61. Logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ocorreu no Brasil muitas mobilizações para discutir publicamente e fortalecer a identidade nacional - a republicana. O debate sobre a identidade nacional tornou-se pauta comum entre os políticos e intelectuais brasileiros, foi considerado como uma necessidade pública para estabelecer ordem e progresso à Nação. E no Estado do Maranhão não foi diferente! Iniciativas particulares e filantrópicas começaram a mobilizar a grande massa analfabeta dos centros urbanos até mesmo em cursos noturnos (OLIVEIRA, 2012) 62. Para Rosangela Silva Oliveira (2012)59, a instrução pública no Estado do Maranhão, na Primeira República, adestrou comportamentos e sentimentos aos interesses do governo liberal republicano: Discuti-la publicamente alimentava o sonho popular de sair da escuridão das trevas do espírito (o analfabetismo) e trazia o crédito eleitoral e influência política ambicionados por muitos profissionais urbanos. Sempre secundarizada em favor de outras ações governamentais, ficava em evidência somente em momentos de crise política quando suas fragilidades

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COUTINHO, Adelaide Ferreira; NASCIMENTO, Rita de Cássia Gomes. IDEÁRIO NACIONAL, DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO E CONTROLE NA PEDAGOGIA HIGIÊNICA EM SÃO LUÍS NO LIMIAR DO SÉCULO XX. Disponível em http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe5/pdf/897.pdf , acessado em 12/10/2012 62 OLIVEIRA, Rosângela Silva. FRAN PAXECO, LENTHE DA REVITALIZAÇÃO PEDAGÓGICA MODERNA NO ESTADO DO MARANHÃO, ORGANIZADOR DO 1º CONGRESSO PEDAGÓGICO EM 1920. IX Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação – Rituais, Espaços e Patrimónios Escolares, Lisboa, 12 a 15 de julho de 2012, ANAIS IX COLUBHE 2012. http://colubhe2012.ie.ul.pt/ , disponibilizado por Dra. Rosa Paxeco Machado através de correspondência eletrônica pessoal em 12/10/2012 http://sn125w.snt125.mail.live.com/default.aspx#n=1557179640&fid=1&fav=1&mid=4b2f82ba-148011e2-b36f-00215ad9df80&fv=1


eram expostas para desviar a atenção pública de outras mazelas sociais (OLIVEIRA, 2004) 63. Fran Paxeco idealiza e organiza o Primeiro Congresso Pedagógico do Estado do Maranhão entre o final de 1919 e início de 1920: Por estes dias, reunidos em sessão pedagógica da Faculdade de Direito, o diplomata português Fran Paxeco, presidente administrativo do Instituto da Assistência à Infância, diretor-geral do jornal local “A Pacotilha”, professor da Faculdade de Direito no Estado do Maranhão e lenthe da Congregação do Lyceu Maranhense, propôs aos colegas bacharéis e docentes do Instituto Superior acima mencionado a realização de um Congresso Pedagógico para apresentar teses e reflexões sobre a instrução pública maranhense, suas limitações e possibilidades. (OLIVEIRA, 2012)59. Nos Anais do 1º Congresso Pedagógico no Estado do Maranhão consta que no dia 18 de agosto de 1919, em reunião pedagógica presidida pelo vice-diretor desta Faculdade, o Dr. Henrique Couto, secretariado por Domingos de Castro Perdigão, os docentes Godofredo Viana, Manoel Jánsen Ferreira, António José Pereira Junior, António Lopes, Leôncio Rodrigues, Alcides Pereira, Costa Gomes, Lemos Viana, Abranches Moura, António Bona, Fabiano Vieira e Raimundo Lopes ouviram de Fran Paxeco o convite para realizarem um Congresso Pedagógico em fevereiro do ano vindouro (1920). A proposta foi aceita por unanimidade e imediatamente elegeram uma comissão organizadora, formada pelos drs. Godofredo Vianna, Fabiano Vieira, António Bóna, António Lopes e o próprio Fran Paxeco (MARANHÃO, 1922, citado por OLIVEIRA, 2012)64. A carta-circular datada de 12 de janeiro de 1920 expedida pela Comissão Organizadora, destinada às escolas oficiais, aos colégios particulares e demais interessados em participar e/ou inscrever trabalhos, apontou os ramos de educação adotados e abertos para o diálogo pedagógico. Foram eles: I – Educação Física: Jogos e brinquedos. Canto Coral. Despórtos. Recreios. Higiene Escolar e Doméstica. Inspècção médica. Assistência aos estudantes pobres. Caixas escolares. Cantinas. Balneários. Colónia de férias. II – Educação Intelètual: A) Música. Desenho. Lingua materna. Escrita e leitura. Aritmética e geometria. Sciéncias naturais. Geografia. História. Algebra e trigonometria. B) Astronomia. Fisica e química. Linguas estranjeiras. Psicologia. Filosofia. C) Trabalhos manuais. Agricultura. Economia. III – Educação técnica: Relações do ensino primário, secundário e superior com o ensino agrícola, veterinário, médico, jurídico, industrial e comercial.

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OLIVEIRA, R. S. Do contexto histórico às ideias pedagógicas predominantes na escola normal maranhense e no processo de formação das normalistas na Primeira República. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Maranhão, 2004

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Maranhão. Trabalhos do I Congresso Pedagógico. São Luis: Imprensa Oficial, 1922, in OLIVEIRA, 2012.


IV – Educação moral: Sentir, pensar, proceder. Culto da casa, da família, da pátria, da humanidade. Pais e professores. Deveres e direitos dos cidadãos. Consciéncia. Espirito Solidário. Toleráncia. Altruismo. V – Educação Estética: Arquitetura, mobiliário, decoração dos edifícios escolares. Conforto do lar e da aula. Simpatia pelos objetos e pelos estudos. Influxo das artes plásticas, na estrutura física, afetiva e mental dos sères humanos. Teses especiais sòbre: Faculdades, escolas de pedagogia, licèus. Educação vocacional. Atribuições pedagógicas e financeiras da União, dos estados e dos municípios. Organismos de técnicos, para superintender na escolha de horários, ortografia, livros, material, casas, etc. Estatística. Taxa escolar. Exames e promoções. Nomeação de professores. Escolas móveis ou ambulante (primárias e agrícolas). Exposições e museus. Bibliotecas infantis. Código do ensino: leis, decretos e regulamentos. Construções. Colégios particulares. Equiparações. Artes e ofícios. Colónias correcionais. Intercámbio de catedráticos das escolas superiores. (MARANHÃO, 1922 p. 4-5, citado por OLIVEIRA, 2012)59, 61. O regimento interno elaborado para o Congresso Pedagógico apresentou como objetivo geral de “obter e apreciar quaisquer estudos ou informações, preocupando-se designadamente com a instalação da escola, os métodos educativos, a escolha de compêndios e o preparo técnico dos professores” (MARANHÃO, 1922 p. 19) em oito sessões plenas: uma de abertura, uma de entrega das teses e da sua distribuição aos relatores, três para ao debate das matérias contidas nas cinco sessões, uma para as teses separadas, uma para a leitura das conclusões e de encerramento, com a obrigatoriedade de publicar os trabalhos apresentados. (OLIVEIRA, 2012)59. A terceira sessão, em 24 de fevereiro, presidida pelo prof. José Ribeiro do Amaral, presidente da Academia Maranhense, recebeu um público de treze professores, três alunas da Escola Normal, dois professores maristas, os quintanistas de medicina Domingos Perdigão e Mário Carvalho. Fran Paxeco registra a ausência de professores da rede municipal nas atividades do Congresso Pedagógico, abariu o debate sobre a primeira parte do programa Educação Física e recebeu as seguintes contribuições: duas indicações didáticas para a área temática de Jogos e Brinquedos, a indicação coletiva de sugerir oficialmente às autoridades governamentais um dia letivo específico para ensaios de hinos escolares e patrióticos, a proibição de ginástica em aparelhos para menores de dez anos, a solicitação de inspeção médica como medida de uma boa Higiene Escolar e Doméstica, também reclamaram a necessidade de um debate amiúde sobre a assistência aos estudantes pobres. (OLIVEIRA, 2012)59. A oitava sessão do Congresso Pedagógico, presidida pelo coronel Frederico Figueira, presidente da Comissão de Ensino do Congresso Legislativo, no dia 29 de fevereiro com um público de vinte e cinco professores e uma quartanista da Escola Normal, se constituiu de debates e reflexões sobre as condições estruturais das escolas primárias, a superlotação das salas de aulas, destacando as vantagens dos jogos e brincadeiras para o infante maranhense. (OLIVEIRA, 2012)59. Uma nona sessão ainda foi realizada, dia 1 de março, para a leitura dos Relatórios com as conclusões na área de Educação Física relatado por Luiz Viana, Educação Intelectual por Antonio Lopes da Cunha, Educação Moral por Rosa Castro e rápidas considerações sobre Educação Técnica, Educação Estética e Teses Especiais:


Contou com a visita-surpresa do governador do Maranhão, o dr. Urbano Santos que expressou em discurso as desvantagens do ensino clássico e livresco, incentivando os professores presentes a deixarem ridículas verbiagens e aplicarem em sala de aula, com constância, a virtude da vontade de aprender. Fugir da parolajem inútil de conteúdos abstratos, idéia pedagógica moderna de Pestalozzi e Froebel. (OLIVEIRA, 2012)59. Entre as teses apresentadas, anexadas por Fran Paxeco nos Anais deste Congresso Pedagógico estão diretrizes pedagógicas importantes à instrução pública no Estado do Maranhão. Na primeira seção do 1o Congresso Pedagógico estão as teses especiais sobre educação ou cultura física onde os principais assuntos são apresentados pelo professor maristas Paulo Domingos. Ele reflete sobre as vantagens de realizar jogos no colégio. Ele não apoia muito o esporte “football” na escola, mas aprecia jogos recreativos no pátio da escola. “Dos jogos no Colégio” do Prof. marista Paulo Domingos ‘É preciso que os alunos brinquem, se distráiam, dispendam em passatempos inocentes a exuberáncia de seiva, a vivacidade do humor, o ardor do sangue que néles corre. Faz-se indispensável o ar, o espaço, o sol, o movimento, o barulho, para o crescimento do seu sèr e o desenvolvimento de suas energias (MARANHÃO, 1922 p. 43). Em outra comunicação a Prof. Rosa Castro chega a explicar didaticamente como realizar os jogos e brincadeiras. Sobre a “Cultura Física”, da Profa. Hermindia Augusta Soares Ferreira Quando um aluno estiver inactivo, deve-se inspeccioná-lo, porque, doente o físico, enfèrmo ficará o espírito (MARANHÃO, 1922, p. 51). A aplicação dos jogos merece, entretanto, um especial cuidado dos professores ou, melhor, dos inspectores médicos, a quem incumbe a verificação da capacidade física e mental dos alunos e consequente separação, entre os normais e os anormais, calibrando, de acordo com este critério, a prática dos exercícios. Também é digna de interesse a racional classificação dos jogos, afim de se conseguir a sua gradação pedagógica ( ibid, p. 52). Luiz Viana, o relator desta seção aponta o francês Tissier (Philippe Tissiê iniciador da educação física na França) 65 como a influência pedagógica aceita pelos professores normalistas, mas não ignora a classificação de Courmont, Desfosses. A fines del siglo XIX, una importante fracción del campo intelectual europeo intuyó que sobre su época se cernía la sombra de la decadencia. Una falta de pujanza embargaba al espíritu fin-de-siècle y una palabra reflejó la situación: fatiga. Phillipe Tissié (1914), publicista francés de la gimnasia racional, anotó: "La presente generación ha nacido fatigada; es

65 (http://www.ciepre.puppin.net/considiniciais.html ).


el producto de un siglo de convulsiones" (p.45; traducción libre) (ROLDÁN, 2010).66 Em 1901, Philippe Tissié defendia que a Educação Física não deveria ser interpretada como simples exercícios musculares do corpo, mas também como um processo psicomotor, que se traduz pela constante relação entre o movimento e o pensamento (Costa, 2008) 67. Tissié foi precursor da intervenção sobre o corpo, porém ainda voltado às áreas médicas, divide o conhecimento científico com abordagem corporal em dois ramos: ginástica pedagógica, destinado ao acompanhamento do desenvolvimento das crianças e a ginástica médica, voltados à reabilitação das crianças (SILVA, 2007) 68. Precursor dos psicomotricistas atuais por ter-se oposto, na França, à ginástica, propondo que fossem consideradas as relações entre pensamento e movimento, quando então surge a disciplina que será denominada Educação Física. Opõe-se à educação física militarizada e propõe uma educação pelo movimento, posteriormente retomada por Le Boulch69. Esse pode ser considerado como o nascimento do que se denomina: Educação Psicomotora e Reeducação Psicomotora. Não há registro escrito feito por Fran Paxeco, mas o relator Luiz Viana declara que houve nesta sessão a solicitação de pedir ao governo do Maranhão a construção de um prédio (que ele chamou de pavilhão) no Parque Dr. Urbano Santos para a realização de exercícios físicos. Para Oliveira (2012) 59, internalizando princípios escolanovistas, as proposições destas diretrizes pedagógicas propõem reflexões para educar o corpo e a mente dos alunos com estímulos importantes para atrair sua atenção, curiosidade, desejo e vontade de aprender conhecimentos teóricos pela e na experiência prática, segundo orientava a Pedagogia Moderna, apoiada em estudos de Pestalozzi70 e Froebel71, entre outras contribuições teóricas. Não se pode negar a grande contribuição de Fran Paxeco (OLIVEIRA, 2012)59, seu idealizador, que, obviamente, não faria tudo sozinho, mas sem a sua obstinação e articulação política pouco seria feito. O testemunho escrito das theses organizadas nos 66

ROLDÁN, Diego P. Discursos alrededor del cuerpo, la máquina, la energía y la fatiga: hibridaciones culturales en la Argentina fin-de-siècle. Hist. Cienc. vol. 17 no.3 - Manguinhos saude Rio de Janeiro 2010. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702010000300005 67 COSTA, J. (2008). Um olhar para a criança: Psicomotricidade Relacional. Lisboa: Trilhos Editora. http://brincarecrescercomapsicomotricidade.blogspot.com.br/2011/10/historia-e-evolucao-dapsicomotricidade.html 68 SILVA, Daniel Vieira da. Educação Psicomotora, no Brasil Contemporâneo: decomo as propostas tangenciam a relação educação-trabalho. Curitiba, 2007. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal do Paraná (UFPR). Disponível em:<http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=998 66> acesso em 21 abr. 2012 69 (http://www.ciepre.puppin.net/considiniciais.html ). 70 Johann Heinrich Pestalozzi (Zurique, 12 de janeiro de 1746 — Brugg, 17 de fevereiro de 1827) foi um pedagogo suíço e educador pioneiro da reforma educacional. Em 1801 Pestalozzi concentrou suas idéias sobre educação num livro intitulado "Como Gertrudes ensina suas crianças" (Wie Gertrude Ihre Kinder Lehrt). Ali expõe seu método pedagógico, de partir do mais fácil e simples, para o mais difícil e complexo. Continuava daí, medindo, pintando, escrevendo e contando, e assim por diante. http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Heinrich_Pestalozzi. 71 Friedrich Wilhelm August Fröbel (Oberweißbach, 21 de abril de 1782 — Schweina, 21 de junho de 1852) foi um pedagogo alemão com raízes na escola Pestalozzi. Foi o fundador do primeiro jardim de infância. http://pt.wikipedia.org/wiki/Froebel; VER também http://revistaescola.abril.com.br/educacao-infantil/4-a-6-anos/formador-criancas-pequenas422947.shtml


Anais deste evento mostraram a seriedade e profundidade do conhecimento científico exibido, o que aponta sua grande contribuição à instrução pública. As palavras escritas no seu tratado de Geografia e História exprimem seu amor ao Maranhão, ao magistério e aos infantes maranhenses, com um espírito pestalozziano moderno: “Sejamos geógrafos. Prendâmo-nos ao solo. Despeguemo-nos das alturas nebulozas do abstrato, e regressemos ao campo da ação rial, da humanidade e da vida” (MARANHÃO, 1922, p. 640-41; (OLIVEIRA, 2012)59. Mas vale ressaltar que o otimismo pedagógico construído no seio da instrução pública do Estado do Maranhão não foi suficiente para resultar em reformas educacionais imediatas. Estas só ocorreram uma década depois, em 1931, e continuou alto o índice de pessoas analfabetas na classe popular.

O QUE DIZ O DIPLOMA DE FRAN PAXECO Foi impresso, provávelmente, na Alemanha, pois consta:

“Não é sem grande risco da futura humilhação e grave comprometimento da nossa raça que poderá continuar a indiferença, o abandono e desprezo da educação física da infância do Brasil”. Dr. Eduardo de Magalhães”. “Concedido ao Exmo. Sr. Fran Paxeco pela propaganda literária que tem feito a favor da Educação Física”. “Para que uma raça se assinale na história como um fator poderoso de civilização e de progresso, para que possa distinguir-se pelo seu amor enérgico e viril à liberdade e à gloria, é preciso que a educação física do homem seja objeto de serias preocupações e desvelado cuidado. “O Diretor de Educação Física “(MIGUEL HOERHANN) “Maranhão, 18 de maio de 1904”


Temos um diploma de mérito concedido a Fran Paxeco “pela propaganda literária que tem feito a favor da Educação Física”. Dos documentos que consultamos – muito rapidamente, não encontramos matéria sobre esse tema; tampouco referencias de sua participação em atividades esportivas realizadas no período, quer como atleta, quer como organizador ou homenageado. Ainda...


Quanto a Miguel Horhann, aquela referencia de Dejard Martins: “Miguel Hoerhan foi nosso primeiro professor de Educação Física, tendo prestado relevantes serviços à mocidade ludovicense, como professor na Escola Normal, Escola Modelo, Liceu Maranhense, Instituto Rosa Nina, nas escolas estaduais e até nas municipais, estimulando a prática da cultura física.”


REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO MARANHÃO ALDY MELLO DE ARAUJO 1 - Estatuto e Plano Editorial O estatuto do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão não trata do Conselho Editorial da Revista. Sobre Revista, o estatuto se refere apenas ao seu responsável, o Diretor de Serviços de Divulgação que integra a Diretoria do IHGM, art. 6º. Diz o art. 29 – “Compete ao Diretor de Serviços de Divulgação superintender as publicações, reunir os artigos para a ‘Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão’”. Fazer sua publicação... Portanto, o responsável pela publicação da Revista é o Diretor de Serviços de Divulgação do Instituto. Em 05 de outubro de 1984, o então Presidente do Instituto, José Ribamar Seguins, assinou um documento contendo o “Plano Editorial do IHGM,” o qual foi publicado na Revista do instituto, ano LIX, nº 07, dezembro de 1984, p. 83-84. Nesse plano editorial, algumas posições são tomadas: 1) O plano deve defender e velar o patrimônio histórico e cultural do Maranhão; 2) O plano deve estimular o estudo e cooperar na publicação, prioritariamente, de questões sobre Historia, Geografia e Ciências afins referentes ao Brasil e, especialmente, ao Maranhão. 3) O plano deve levar o Instituto a cooperar com os Poderes Públicos nas medidas que visem ao engrandecimento científico e cultural do Maranhão. Sobre a Revista, diz o plano: “O Plano Editorial usará o seu órgão - a REVISTA - para publicações trimestrais de trabalhos previamente selecionados”. Na minha primeira constatação, em nada a Revista contrariou o Plano Editorial do Instituto. 2 - Conselho Editorial Toda editora tem um Conselho Editorial. O IHGM não tem editora, e sim uma Revista que pode ter seu C.Editorial. Todo C. Editorial é um órgão vinculado à Diretoria da instituição, de acordo com o seu estatuto e seu regimento geral. Não havendo regimento geral e não sendo a regra regida pelo Estatuto, quem define esta questão é a Diretoria do Instituto. Em regra geral, quem preside o Conselho Editorial é um presidente escolhido pelo Conselho ou o Diretor da Editora. No caso do IHGM, o Presidente do Conselho Editorial deverá ser o Diretor de Serviços de Divulgação da entidade, a quem cabe a responsabilidade pela Revista.


O presidente do Conselho Editorial é o responsável pela política editorial da Revista - Ele exerce o poder emanado da Diretoria da Instituição ou da Assembleia Geral da Instituição, conforme a sua tradição. Nas universidades, os integrantes do Conselho Editorial são os responsáveis pelas áreas de conhecimento, escolhidos entre pessoas de destaque na área de atuação, de reconhecimento acadêmico ou cientifico na academia. (No IHGM, o Conselho Editorial deve ser composto por sócios que tenham destaque em sua área de atuação, que tenham reconhecido mérito acadêmico ou cientifico entre seus sócios). Assim, o perfil das pessoas que devem integrar o Conselho Editorial da Revista do IHGM deve ser o acima dito, além do gosto e da disponibilidade para analisar as matérias recebidas para publicação. São atribuições básicas de um Conselho Editorial, dentre outras: a) Definir a Política Editorial da Revista; b) Aprovar o Plano Anual de Editoração da Revista; c) Orientar os sócios do IHGM quanto à publicação de seus trabalhos; d) Garantir a elaboração dos conteúdos da Revista para cada número, cabendo à Diretoria do IHGM assegurar a publicação. e) Analisar e aprovar matérias dos sócios do IHGM, apreciando o seu mérito e qualidade ou rejeitando sua publicação. O Conselho Editorial deverá ter seu regulamento próprio. Nesse regulamento deve constar: a composição do Conselho; a forma de designação de sua presidência; as formas de recebimento das matérias para publicação; o período de reuniões; a forma de distribuição das matérias para analise. O Conselho Editorial poderá contar com serviços de consultores ad hoc, especialistas na área, que oferecerão pareceres sobre matérias que lhes forem solicitadas. Não haverá um conselho de pareceristas formalizado. 3 - Políticas de Publicação da Revista A política de publicação da Revista deverá expressar as formas pelas quais o IHGM pretende cumprir suas finalidades e deve estar de acordo com o seu compromisso ético com a sociedade maranhense. Existem três princípios básicos para a edição da Revista do IHGM: - Padrão - Qualidade - Periodicidade A Revista deverá estar sempre a serviços o IHGM.


A Revista deverá publicar matérias produzidas pelos sócios do IHGM. A Revista do IHGM é uma publicação impressa e eletrônica. Haverá apenas uma Revista – com a versão eletrônica e não duas Revistas. A Revista do Instituto deverá publicar ensaios, artigos, trabalhos apresentados pelos associados de acordo com as regras estabelecidas, resenhas, registrando as atividades do Instituto. A Revista publicará, preferentemente, os trabalhos dos sócios, podendo publicar outros trabalhos como, por exemplo, palestras, seminários etc. Revista Impressa: é uma Revista temática, centrando seu objetivo na publicação de estudos sobre História, Geografia e Ciências afins, resenhas de dissertações ou teses, resenhas de filmes, livros, sumários de publicações nacionais e internacionais, grupos de pesquisa sobre história, geografia e ciências afins e relatórios técnicos sobre atividades do Instituto. Revista Eletrônica: É uma versão da Revista do Instituto e destinar-se-á a publicar estudos ou informações que os sócios produzam, sem a obrigatoriedade de normas técnicas, textos de projetos institucionais, artigos genéricos, atos de gestão e outros trabalhos da mesma natureza. A periodicidade da Revista é: Impressa: semestral. Eletrônica: Trimestral. No próximo aniversário do IHGM haverá uma edição especial com os perfis dos sócios e o Índice das revistas até então publicadas. A organização da Revista e sua confecção, isto é, o recebimento das matérias, a apreciação de seus conteúdos e formas, o ordenamento de um número de edição, caberá ao Presidente do Conselho Editorial, que discutirá com todo o Conselho, enquanto sua edição ficará a cargo da Diretoria do IHGM. 4 - Normas Gerais de Publicação O Conselho Editorial da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, buscando o aprimoramento constante da Revista Oficial do IHGM, fixa as normas gerais de publicação para apresentação dos originais dos trabalhos encaminhados pelos seus sócios: 1.

O Título deve ser acompanhado do subtítulo, quando for o caso, sempre claro, objetivo e sem abreviaturas.

2.

O trabalho deve ser inédito, não sendo permitida sua publicação simultânea em outro periódico.

3.

Ser redigido em língua portuguesa.

4.

O nome do autor e colaboradores deve ser escritos por extenso, em itálico, com chamada para rodapé, onde serão indicadas não mais do que duas (2) credenciais.

5.

Resumo de, no máximo, dez (10) linhas que sintetizem os propósitos, métodos e principais conclusões do trabalho, em português e inglês, com três (3) palavras-chave em português.


6.

Ser digitado em Microsoft Word, em espaço 1,5 fonte Arial tamanho 12. Conter no mínimo oito (8) e no máximo vinte (20) laudas no formato A4, em CD-ROM, Pen Drive ou E-mail.

7.

Observar as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), no que concerne ao texto, rodapés e bibliografia., quando se tratar de matéria para a Revista Impressa.

8.

Os trabalhos para publicação na Revista impressa serão encaminhados, no prazo de sessenta (60) dias, ao Presidente do Conselho Editorial, que submeterá aos seus membros para análise e julgamento.

9.

As resenhas deverão ter, no máximo, cinco (5) laudas.

10.

Os trabalhos a serem publicados deverão ser encaminhados ao Presidente do Conselho Editorial.

É PRECISO NÃO VER NADA DE ERRADO OU ULTRAPASSADO NA ATUAL VERSÃO DA REVISTA. OS ERROS, QUE POR ACASO POSSAM EXISTIR, DEVERÃO SER CORRIGIDOS COM O CONCURSO DE TODOS. Afinal de contas somos um Sodalício – uma sociedade de pessoas que vivem juntas.


INÉDITOS


A SITUAÇÃO POLÍTICO-RELIGIOSA E A POLÍTICA EXTERIOR DA FRANÇA NO FIM DO SÉCULO XVI E COMEÇO DO SÉCULO XVII ANA LUIZA ALMEIDA FERRO72 A Reforma Protestante encontrou campo fértil na França, onde um problemático cenário socioeconômico, político e religioso, caracterizado pelo enriquecimento desmedido da burguesia, pelo empobrecimento exacerbado do povo, pelas dívidas contraídas pelos nobres, pela persistência das crises financeiras, pelo renovado choque entre ambições feudais e o poder real, pela rivalidade entre famílias nobres, pelo aumento do antissemitismo e pelos abusos de parte do clero, incluindo papais, favoreceram a formação de um clima de intolerância, radicalismo e confronto. De início, o movimento seduziu os intelectuais e, depois, os nobres e os homens das finanças, mas não angariou, em geral, a simpatia do povo. No período entre 1555 e 1560, parcela expressiva dos membros da alta nobreza gaulesa adotou a nova fé, entre os quais o Príncipe de Condé, movido por ódio ao monarca no poder, e Gaspard de Coligny, respeitado sobrinho do Condestável de Montmorency e dito almirante, título sem suporte na realidade, pois não possuía experiência prática no ofício, o mesmo que apoiou o empreendimento da França Antártica como principal ministro de Henrique II e passou de aliado a inimigo de Villegagnon, não devendo ser olvidado que teve sua filha Luísa casada com o protestante alemão Guilherme de Nassau (1533-1584), ou Guilherme I de Orange-Nassau ou, ainda, Willem van Oranje em neerlandês, Príncipe de Orange, líder maior do movimento de independência dos Países Baixos em relação à poderosa Espanha. Como consequência de todo esse caldeirão e da crescente divulgação das ideias protestantes, o número dos adeptos da doutrina de Calvino já montava a aproximadamente dois milhões em 1560, correspondendo a quase 10% da população francesa. O reformista, de sua praça-forte em Genebra, desde 1555, encarregara por volta de 200 pastores de pregarem em solo gaulês, os quais lá estabeleceriam 670 igrejas e 2.150 comunidades. 73 Tradicionalmente, são reconhecidas oito guerras de religião na França, sendo quatro durante o reinado de Carlos IX (1562-1563, 1567-1568, 1568-1570 e 1572-1573) e quatro nos governos de Henrique III e Henrique IV (1574-1576, 1576-1577, 1579-

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Promotora de Justiça-MA, Doutora e Mestre em Ciências Penais (UFMG), Professora da Universidade Ceuma e da ESMP/MA, Presidente da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, Sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (Cadeira 36), Membro efetivo da Academia Caxiense de Letras, Membro de Honra da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica e integrante da Comissão Gestora do Programa Memória Institucional do Ministério Público do Estado do Maranhão. Autora de vários livros, entre os quais O Tribunal de Nuremberg e Crime organizado e organizações criminosas mundiais. Ver, a propósito, MARIZ, Vasco; PROVENÇAL, Lucien. La Ravardière e a França Equinocial: os franceses no Maranhão (1612-1615). Rio de Janeiro: Topbooks, 2007. p. 32-33; e PROVENÇAL, Lucien. As guerras de religião da França no século XVI. In: MARIZ, Vasco (Org.). Brasil-França: relações históricas no período colonial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2006. p. 46.


1580 e 1585-1598), consistindo em um conjunto de campanhas militares interrompidas por breves suspensões das hostilidades. O partido católico, de linha intransigente, era liderado pela família Guise, 74 à qual pertenceram, entre outros, os irmãos Francisco – pai do célebre Henrique de Guise e de Luís, Cardeal de Guise –, Carlos, Cardeal de Lorena, e Cláudio, Duque de Aumale, tios de Maria Stuart, enquanto o partido huguenote, não menos extremado, era comandado pelos Bourbons, Condés e Colignys. O tio de Gaspard de Coligny, Anne de Montmorency, Condestável de França, porém, manteve-se na fé católica e fiel à Coroa. Ao regressar do Brasil à França, coerentemente, Villegagnon juntou-se ao primeiro partido, vindo a ser ferido em Rouen e bem-sucedido na defesa de Sens no ano de 1567, frustrando os interesses do Príncipe de Condé. Os principais líderes católicos e protestantes pereceriam todos violentamente, a exemplo de Francisco de Guise em 1563; Anne de Montmorency em 1567; Luís de Bourbon, fundador da Casa de Condé e primeiro Príncipe de Condé, em 1569; Gaspard de Coligny em 1572; Henrique de Guise e o Cardeal de Lorena em 1588. Durante o seu reinado, o católico Henrique II, protetor de Villegagnon, enfrentara, em meio a guerras, uma difícil situação econômica, aos poucos domada; ora tolerara, ora hostilizara os adeptos da Reforma; e tentara conter a difusão deste movimento no país, ao mesmo tempo em que, guardando um sentimento de desconfiança com respeito às posições do Sumo Pontífice, promovera, no exterior, uma política expansionista, marcada pela associação com os príncipes protestantes germânicos e com os turcos e por expedições enviadas ao Canadá, ao Brasil e à África, mais exatamente ao Marrocos. Sob influência do Condestável de Montmorency, chefe de suas forças armadas, e dos cardeais de Lorena e de Tournon, criara, logo no primeiro ano de seu governo, isto é, em outubro de 1547, no Parlamento de Paris, uma câmara especial dedicada aos processos de heresia, que seria conhecida como “Câmara Ardente”, pelo destino conferido aos condenados: a fogueira. Após a morte do soberano em 1559, a França adentrou um período de profunda instabilidade no campo dinástico e acentuação dos conflitos entre católicos e huguenotes. Evidência disso é que, no curto lapso temporal de 1559 a 1612, o país teve quatro reis, dois deles assassinados, talvez três, e duas regentes. Francisco II (1544-1560), primogênito de Henrique II com Catarina de Médicis, da dinastia dos Valois, esposo de Maria Stuart, foi o que reinou por menos tempo: apenas um ano, falecendo de uma otite purulenta, ou de tuberculose, ou, ainda, conforme uma hipótese, de envenenamento, sem descendentes. No ano de 1560, os protestantes, sob a liderança do Príncipe de Condé, promoveram uma malograda tentativa de sequestro do monarca e dos poderosos irmãos Francisco e Carlos de Guise, a chamada Conspiração de Amboise, daí decorrendo violentas represálias por parte dos católicos, como a execução dos rebeldes, as quais forçaram Condé a fugir na sequência imediata, propiciando aos Guises o aumento de sua influência.

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Sobre a família Guise, ver o artigo “The House of Guise”, extraído de Blackwood’s Magazine, em THE ECLECTIC MAGAZINE OF FOREIGN LITERATURE, SCIENCE, AND ART. New York: W. H. Bidwell, v. 21, Sept./Dec. 1850. p. 118-134.


Carlos IX (1550-1574),75 irmão de Francisco II, terceiro filho varão de Henrique II com Catarina, era apenas uma criança quando ascendeu ao trono, de maneira que a sua mãe assumiu o governo como regente por vários anos, posição que já ocupara no passado por breve período quando da campanha de seu esposo na Lorena. A florentina Catarina de Médicis sempre teve em mente a preservação dos direitos de seus filhos no tocante ao cetro gaulês. Com tal intento, sua política interna ora privilegiou os interesses dos católicos, ora favoreceu os interesses dos protestantes nos conflitos religiosos, ora optou por uma atitude tolerante em relação aos calvinistas, ora descambou para uma ação implacavelmente repressiva no respeitante a estes. Sua política externa teve ambições expansionistas. Defensora das investidas francesas no Brasil desde a época do Rei Henrique II, opôs-se à União Ibérica, em que se deu a união das coroas portuguesa e espanhola, na figura de seu primo Felipe II de Espanha (Felipe I de Portugal), após o falecimento do Cardeal D. Henrique em janeiro de 1580, o qual, por seu turno, já quase septuagenário, sucedera ao lendário D. Sebastião I, desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir ou Batalha dos Três Reis no norte do Marrocos em 1578, enquanto guerreava contra o exército de um sultão local, aliado dos otomanos. A morte do soberano lusitano desencadeou uma crise sucessória, porque ele não deixou herdeiros, permitindo que pretendentes lusos e estrangeiros disputassem o trono, a exemplo de três netos de D. Manuel I de Portugal: a Infanta Catarina, Duquesa de Bragança; António, Prior do Crato; e Felipe II de Espanha, que venceria a queda de braço pela força das armas, invadindo o território português. Catarina de Médicis igualmente se apresentou como candidata à sucessão,76 porém acabou firmando um 75

A título de curiosidade, o governo de Carlos IX está associado a uma das mais conhecidas versões do começo da tradição do dia da mentira, 1º de abril. Em 1564, foi ele quem, com a adoção do calendário gregoriano, instituiu o dia 1º de janeiro como marco inicial do ano. Anteriormente, o Ano Novo era celebrado em 25 de março, princípio da primavera, estendendo-se as comemorações por uma semana, isto é, até 1º de abril. Os franceses mais conservadores não aderiram à alteração e mantiveram a celebração na data do passado, o que lhes tornou alvo de zombarias por parte dos aderentes à mudança, que passaram a lhes enviar presentes esdrúxulos ou convites referentes a festas inexistentes, em brincadeiras chamadas de plaisanteries, gerando dúvidas e confusão na mente das pessoas sobre a veracidade da data. Nasceu então a tradição do 1º de abril como o dia da mentira, que depois ganhou a Inglaterra e o mundo. 76 “O desaparecimento do rei Sebastião no campo de batalha de El-Ksar em 1578 deixava a coroa de Portugal a um ancião, ao cardeal Henrique. Preocupado com o futuro, Henrique I convidou os seus sucessores eventuais a fazerem valer, em sua vida, as suas pretensões. Foi então que a rainha Catarina de Médicis, sempre em busca de um trono para o último de seus filhos, descobriu direitos à coroa de Portugal como herdeira em linha colateral da Casa de Boulogne e não temeu entrar em competição com o rei da Espanha, um príncipe de Bragança e o neto ilegítimo do rei Manuel. Alguns meses depois, antes que fosse designado o herdeiro presuntivo, em 15 de janeiro de 1580, a sucessão se abria pela morte do rei Henrique I. [...] ‘Perseguir meu dito direito sobre Portugal não é prejudicar ninguém’, respondia a rainha-mãe às observações do embaixador da Espanha.” LA RONCIÈRE, Charles de. Histoire de la marine française: en quète d’un empire colonial: Richelieu. Paris: Plon-Nourrit, 1910. v. 4, p. 167-168. (Tradução nossa). Este é o texto original: “La disparition du roi Sébastien sur le champ de bataille d’ElKsar, en 1578, laissait la couronne de Portugal à un vieillard, au cardinal Henri. Soucieux de l’avenir, Henri Ier convia ses successeurs éventuels à faire valoir, de son vivant, leurs prétentions. C’est alors que la reine Catherine de Médicis, toujours en quête d’un trône pour le dernier de ses fils, se découvrit des droits à la couronne de Portugal comme héritière en ligne collatérale de la Maison de Boulogne et ne craignit point d’entrer en compétition avec le roi d’Espagne, un prince de Bragance et le petit-fils illégitime du roi Emmanuel. A quelques mois de là, avant que fût désigné l’héritier présomptif, le 15 janvier 1580, la succession s’ouvrait par la mort du roi Henri I er. [...] ‘Poursuivre mondict droit de Portugal, ce n’est faire tort à personne’, répondait la reine mère aux observations de l’ambassadeur d’Espagne.” A frase da rainha é extraída de uma de suas cartas, datada de 13 de setembro de 1581.


acordo secreto com o prior, pelo qual ela o apoiaria na luta pelo poder e renunciaria ao seu alegado direito à Coroa lusitana em favor dele, ao passo que ele, uma vez à testa do governo luso, reconheceria as reivindicações francesas a respeito do Brasil, cujo ViceRei seria o primo da Rainha-Mãe, Filippo Strozzi. Charles de la Roncière revela não somente o encontro e o acerto de natureza sigilosa entre o representante de Catarina de Médicis e D. António, mas também os planos ambiciosos da rainha no atinente à ajuda militar ao aliado e ao assenhoreamento do Brasil: Don Antonio aprendeu, na sua chegada à França, como nós o queríamos: o irmão do rei, François d’Alençon, debateu com ele o preço de nossa cooperação. A renúncia de sua mãe ao trono de Portugal comportava certas compensações que foram estabelecidas entre os dois príncipes em 6 de outubro de 1581, por ocasião de um encontro secreto numa cidade de Eu. Lá somente assistiam como testemunhas Vimioso e Strozzi. De algumas confidências escapadas a este no curso de uma conversa com Brantôme, podia-se conjecturar que um grande papel lhe estava reservado nas combinações da rainha-mãe, um papel incompatível com o cargo de coronel general da infantaria. Convidado a se desfazer de seu ofício por cinquenta mil escudos, Philippe Strozzi obedeceu, não sem pesar. [...] O que ele compreendia por isso? Certas cartas de provisões misteriosas, que ele acabara de receber, estabeleciam-no como ‘tenente-general ou vice-rei, sem que fosse necessário especificá-lo mais particularmente, em certo lugar para onde o dito senhor de Strozzi se encaminhasse:’ ele devia ter, ‘ele sozinho, o total encargo, comando e intendência em nome de Sua Majestade no sítio e lugar acima referido’. Este lugar, a gente saberia por um envelope lacrado para ser aberto apenas no dia da partida. E de uma mão entorpecida pela idade, com uma ortografia demasiado fantasista para que eu a reproduza, mas com uma amplitude de visão espantosa, eis que magnífico plano de campanha traçava a velha rainha: Strozzi, após haver ocupado a Madeira, terminará de restabelecer os Açores sob o domínio português. Brissac, com suas tropas, se assegurará das ilhas do Cabo Verde. Com a chegada do mês de agosto, Strozzi, deixando nas ilhas forças suficientes para conservá-las, se encaminhará para o Brasil com o resto de seu exército. – Assim, era do Brasil que o primo da rainha fora nomeado vice-rei. António e Catarina haviam ‘ficado de acordo que, restabelecido ele nos seus Estados, ela teria para suas pretensões a região do Brasil’.77 77

Ibidem, p. 173-175. (Tradução nossa). A redação em francês é a seguinte: “Don Antonio apprit, à son arrivée en France, comment nous l’entendions: le frère du roi, François d’Alençon, débattit avec lui le prix de notre concours. La renonciation de sa mère au trône de Portugal comportait certaines compensations qui furent réglées entre les deux princes, le 6 octobre 1581, lors d’une entrevue secrète dans une ville d’Eu. N’y assistaient comme témoins que Vimioso et Strozzi. De quelques confidences échappées à celui-ci au cours d’une conversation avec Brantôme, on pouvait conjecturer qu’un grand rôle lui était réservé dans les combinaisons de la reine mère, un rôle incompatible avec la charge de colonel général de l’infanterie. Invité à se défaire de son office pour cinquante mille écus, Philippe Strozzi obéit, non sans regret. [...] Qu’entendait-il par là? Certaines lettres de provisions mystérieuses, qu’il venait de recevoir, l’établissaient ‘lieutenant-générale ou vice-roy, sans qu’il fût besoin de le


Voltando ao período de Carlos IX, no plano interno, no início de 1562, o Parlamento de Paris negou-se a permitir aos huguenotes a prática de sua fé fora das cidades. Muito pior sucedeu no dia 1º do mesmo ano, quando ocorreu o Massacre de Vassy, episódio tido como desencadeador das guerras de religião, em que os homens de Francisco de Guise, ferido no rosto com uma pedrada por um protestante, perpetraram a matança de cerca de 60 calvinistas e feriram aproximadamente 200, os quais haviam se reunido em culto no interior de um celeiro, na localidade de Vassy, que abrigava uma expressiva congregação de fiéis da Reforma, próxima aos domínios dos Guise. O triste acontecimento, aparentemente uma retaliação a excessos anteriores cometidos pelos convertidos ao protestantismo, de qualquer forma injustificável, rendeu a Francisco de Guise a alcunha de “Açougueiro de Vassy”, dada por seus inimigos. 78 A Primeira Guerra de Religião findou apenas com o Tratado de Amboise no ano subsequente. Foi também durante o reinado de Carlos IX, provavelmente por determinação da onipresente Catarina de Médicis, cuja influência sobre o filho jamais cessou, que teve lugar o chamado massacre da “Noite de São Bartolomeu”, sangrento e emblemático episódio das guerras de religião, em que houve uma sequência coordenada, patrocinada pela Coroa, de ataques e homicídios em larga escala perpetrados contra protestantes, por católicos, integrantes de todas as classes sociais, desencadeados em 24 de agosto de 1572, dia de São Bartolomeu, em Paris, quando das celebrações pelo casamento entre o nobre huguenote Henrique de Navarra e a princesa católica Margarida de Valois, irmã do monarca – união essa, ironicamente, idealizada para apaziguar as disputas de caráter religioso –, com desdobramentos em várias outras cidades gaulesas pelos dias que se sucederam, resultando no assassinato de mais de 30.000 partidários da Reforma, 3.000 destes somente em Paris, onde o Sena teria se coberto de vermelho do sangue das vítimas. Entre os mortos, estava Gaspard de Coligny, o qual foi arrastado de sua cama, em que se recuperava de um atentado anterior à sua vida, golpeado mortalmente, jogado pela janela, decapitado e lançado desnudo no famoso rio. O popular líder católico Henrique de Guise ou Henrique de Lorena (1550-1588) teria ordenado a sua eliminação e até desferido um pontapé em seu cadáver, por culpá-lo pelo assassínio de seu pai Francisco de Guise, anterior Duque de Guise, destacado chefe militar, anos antes, pela ação de um protestante, na oportunidade em que ele se preparava para tomar Orléans spécifier plus particulièrement, en certain endroit où ledit sieur de Strozzi s’acheminait:’ il devait avoir, ‘lui seul, la totale charge, commandement et intendance de par sa Magesté en l’endroit et lieu dessusdit’. Ce lieu, on l’apprendrait par un pli cacheté à n’ouvrir que le jour du départ. Et d’une main alourdie par l’âge, avec une ortographe trop fantaisiste pour que je la reproduise, mais avec une largeur de vues étonnante, voici quel magnifique plan de campagne traçait la vieille reine: Strozzi, après avoir occupé Madère, achèvera de remettre les Açores sous la domination portugaise. Brissac, avec ses troupes, s’assurera des îles du Cap Vert. Le mois d’août venu, Strozzi, laissant dans les îles des forces suffisantes pour les conserver, s’acheminera vers le Brésil avec le reste de son armée. – Ainsi, c’était du Brésil que le cousin de la reine était nommé vice-roi. Antoine et Catherine étaient ‘demeurés d’accord que, luy restabli dans ses Estats, elle auroit pour ses prétentions la région du Brésil’.” O plano em causa, informa ainda Roncière em nota de rodapé, foi submetido ao monarca da época, in casu, Henrique III, que o aprovou em 3 de maio de 1582, repousando o original em São Petersburgo, na Biblioteca do Hermitage. Ibidem, p. 175. 78

Ver, sobre o Massacre de Vassy, “The French Wars of Religion”, extraído de Blackwood’s Magazine, em THE ECLECTIC MAGAZINE OF FOREIGN LITERATURE, SCIENCE, AND ART, p. 461. O artigo tem por referência o segundo volume da obra Histoire des Ducs de Guise, de autoria de René de Bouillé, publicada em 1849.


aos seguidores de Condé, conhecido fato da Primeira Guerra de Religião. Embora Coligny jamais haja admitido o desempenho do papel de mandante, ele comemorara publicamente tal morte na época. O massacre da “Noite de São Bartolomeu”, do qual Henrique de Guise foi um dos beneficiários em termos políticos, verificou-se apenas dois anos após a formalização da Paz de Saint-Germain, que estabelecera uma trégua, encerrando a Terceira Guerra de Religião. A propósito, este Duque de Guise teve atuação marcante em várias das guerras em questão: por exemplo, na mesma Terceira Guerra de Religião, sobressaiu-se nas batalhas de Jarnac e Moncontour, ambas em 1569; e na Oitava Guerra de Religião, liderando os católicos, triunfou sobre os huguenotes nas batalhas de Vimory e d’Auneau, as duas em 1587. Ele alcançou o posto de Prefeito de Paris e chegou a ser nomeado Chefe Geral dos Exércitos do Reino. Henrique III (1551-1589), também filho de Henrique II e Catarina, tornou-se o soberano da França com a morte de Carlos IX no ano de 1574. Reinou em tempo de grande turbulência político-social, motivada, sobretudo, pela continuidade das guerras de religião, permitindo, além disso, o mergulho da França em nova crise financeira. Lutou contra o enfraquecimento do poder real e foi um dos protagonistas da Guerra dos Três Henriques, juntamente com o protestante Henrique de Navarra, posteriormente Rei Henrique IV, marido de sua irmã Margarida de Valois, e Henrique de Guise, Príncipe de Joinville e Duque de Guise, chefe da Liga Católica – apoiada pela Espanha, inclusive financeiramente –, antigo aliado, depois rival, a quem mandou assassinar em dezembro de 1588, para extirpar a ameaça que ele representava à sua autoridade e ao seu trono, pela sua popularidade, influência e aliança com o monarca hispânico Felipe II. Em consequência, Henrique III igualmente sucumbiria alguns meses adiante, mais precisamente em agosto de 1589, apunhalado pelas mãos de um fanático, o frade jacobino Jacques Clément. Assim findou a dinastia dos Valois. Foi no curso de seu governo que ocorreram as missões de Strozzi no Brasil, a partir de 1576, sob ordens de Catarina de Médicis, e a União das Coroas Ibéricas (15801640), pela qual Portugal e, consequentemente, o Brasil, passaram ao domínio da Espanha, primeiramente de Felipe II (1527-1598). Enquanto a Rainha-Mãe lutava pelos interesses franceses no Brasil, contestando oficialmente e nos bastidores com o Prior do Crato os direitos alegados pelo soberano espanhol, entre outras providências, a radical Liga Católica, dirigida por Henrique de Guise, negligenciou as possibilidades gaulesas na América lusitana, favorecendo os objetivos do também católico Felipe II, seu aliado no conflito com os calvinistas, ao deixar a terra brasileira aos hispânicos em 1584. As coisas não saíram conforme o planejado e desejado por Catarina, porque o seu primo Strozzi, no comando de uma expedição luso-francesa, a serviço sigiloso da Coroa gaulesa, em prol da causa de D. António, morreu após a derrota na Batalha naval de Vila Franca, travada em 26 de julho de 1582 nos Açores, contra uma armada lusocastelhana, chefiada pelo Marquês de Santa Cruz de Mudela, D. Álvaro de Bazán, defendendo os interesses de Felipe II. Como a expedição não tinha cunho oficial reconhecido, porquanto Catarina não a assumiu como uma iniciativa sancionada pela Coroa, os numerosos prisioneiros franceses, oitenta fidalgos e trezentos e treze soldados e marinheiros, pagaram o insucesso militar com a vida, condenados à morte que foram como piratas e perturbadores da paz pública. Tão somente foram poupados os pilotos e os jovens abaixo de dezessete anos. Os fidalgos foram supliciados por meio do garrote em um cadafalso erguido em Vila Franca, ao passo que os demais foram enforcados. Filippo


Strozzi teve seu corpo lançado ao mar de um galeão ibérico sem honras militares. 79 A sua morte e o triunfo das pretensões de Felipe II sobre as do Prior do Crato enfraqueceram os esforços reivindicatórios franceses em relação ao Brasil por um tempo. Henrique IV (1553-1610), cognominado o Grande, antes Henrique de Navarra, chefe huguenote sobrevivente do massacre da “Noite de São Bartolomeu”, inaugurou a dinastia dos Bourbons, tornando-se rei quando foi assassinado Henrique III, seu primo e cunhado, em 1589. Mas teve de conquistar o seu reino pelas armas. Venceu o Duque de Mayenne, novo líder da Liga Católica, após o assassínio de Henrique de Guise, em Arques em setembro de 1589 e, novamente, em Ivry em março do ano seguinte. Percebendo que somente seria aceito por seus súditos, majoritariamente católicos, se adotasse a religião dominante, abjurou a fé protestante em Saint-Denis no dia 25 de julho de 1593 e foi coroado em Chartres em 26 de fevereiro de 1594, entrando em Paris no mês subsequente. Obteve a absolvição do Papa Clemente VIII. É dele a espirituosa observação de que Paris bem valia uma missa, dita em 1593, para “justificar” a sua adesão ao catolicismo. Derrotou o espanhol Felipe II, católico fervoroso, que invadira o território gaulês em apoio à Liga, o mesmo personagem real da poderosa esquadra conhecida como “Invencível Armada”, peça principal da fracassada tentativa de subjugar a Inglaterra de Elizabeth I em 1588. Firmou o Tratado de Vervins com a Espanha em 2 de maio de 1598, pelo qual foram restabelecidas as cláusulas da Paz de Cateau-Cambrésis, de 1559. Monarca de notável visão política e administrativa, sábio, pragmático, preocupado com o bem-estar de seu povo e decidido a combater as paixões religiosas que haviam ensanguentado o seu país por quase meio século, não foi chamado de o Grande à toa. No plano religioso, pacificou a França, por meio do Édito de Nantes (1598), que garantiu aos huguenotes a livre manifestação de seu credo nas cidades em que o culto era anterior a 1597, o direito de reunião em assembleias particulares e o livre acesso aos empregos e instituiu 151 lugares de refúgio, dos quais 51 eram places de sûreté, espécies de praças fortificadas, sob o controle dos calvinistas. No âmbito econômico, recuperou as combalidas finanças do reino e o recolocou em um caminho de prosperidade, revertendo a difícil situação econômica causada pelos anos de instabilidade político-social e guerra civil. Para tal, contou com a valiosa atuação de seu principal ministro, o despótico, mas competente, Maximilien de Béthune, Duque de Sully. Oliveira Lima frisa exatamente esse aspecto de reconstrução nacional: Henrique IV recebia um país devastado, sem recursos e sem ordem, pilhado a um tempo pelos governadores e pelos salteadores; seu mérito foi levantálo, restabelecendo as finanças, desembaraçando a agricultura, disciplinando os grandes, protegendo as reservas do país. A França conheceu de novo dias felizes sob o seu govêrno e do seu ministro, o duque de Sully (1560-1641). O rei interessava-se diretamente pelo bem-estar dos seus súditos, querendo, na sua frase se não autêntica, pelo menos expressiva da sua personalidade, que cada francês tivesse ao domingo a sua canja de galinha.80

79 80

Ver LA RONCIÈRE. Histoire de la marine française, p. 188-190. LIMA, Oliveira. História da civilização. 10. ed. São Paulo: Melhoramentos, [1960?]. p. 284.


Sob o reinado de Henrique IV e a administração do Duque de Sully, influenciado pelas ideias mercantilistas, caracterizadas pela criação de um mercado interno, associada ao protecionismo contra a concorrência estrangeira, foram incentivados a produção agrícola, a pecuária, a indústria e o comércio, com uma estratégia de limitação da importação e fomento à exportação, ancorada em uma eficiente reforma fiscal, dedicada à persecução dos objetivos de equilíbrio e robustecimento do Tesouro Real, organização da arrecadação e formação das condições econômico-financeiras para o desenvolvimento. Isto levou a uma melhoria do padrão de vida do povo, o que valeu ao rei o respeito e a estima da maioria de seus súditos e das gerações futuras, retratado como déspota esclarecido por Voltaire, em um poema épico de 1715, intitulado “Henríada”, e como encarnação das concepções de liberdade individual e senso democrático pelo alemão Heinrich Mann, em um romance histórico sobre a sua vida, dividido em duas partes, respectivamente publicadas em 1935 e 1938. Ao mesmo tempo, o soberano fortaleceu sobremaneira o poder real frente à nobreza, sempre saudosa dos tempos feudais, utilizando-se de suborno ou da força. Edward Burns assim resume as realizações, nessa seara, de Henrique IV e de seu mais importante colaborador: Nessa tarefa teve a assistência eficiente de seu primeiro ministro o duque de Sully. Rabujento, despótico e avarento, Sully foi o perfeito predecessor de Colbert, no século XVII. Durante anos o rei e seu fiel servo trabalharam para restaurar as finanças abaladas de França; Sully dedicou seus esforços principalmente à reforma fiscal, visando eliminar a corrupção e o desperdício e trazer maiores rendas para o tesouro real. Empenhou-se também no incremento da prosperidade agrícola dragando pântanos, cultivando terras devastadas, subsidiando a criação de gado e abrindo mercados estrangeiros para os produtos da terra. O rei dedicou grande parte de sua atenção ao incremento da indústria e do comércio. Introduziu em França a manufatura da sêda, e graças aos subsídios e monopólios encorajou outras indústrias, firmando tratados comerciais favoráveis com a Inglaterra e a Espanha. Henrique, porém, não se limitou a fazer reformas econômicas. Interessou-se também profundamente pelo aniquilamento do poder renascente da nobreza e seus esforços nesse sentido foram tão bem sucedidos, que repôs a monarquia na posição superior que conhecera no fim da Guerra dos Cem Anos. Seu govêrno foi inteligente e benévolo, mas não menos despótico.81 Na política externa, o monarca procurou inserir a França em uma posição de destaque no cenário internacional, em relação, por exemplo, a uma participação significativa no disputado comércio do Mediterrâneo e das Índias Orientais, à retomada da meta de conquista do Novo Mundo, incluindo o intento de estabelecimento de colônia no Brasil setentrional, e, principalmente, à implementação de uma política de oposição aos interesses da Espanha e dos Habsburgos e de aproximação e até aliança com soberanos protestantes. Com tal propósito, revigorou as forças armadas e estimulou a muitas vezes interrompida ou adiada expansão ultramarina do país.

81

BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental. Tradução de Lourival Gomes Machado e Lourdes Santos Machado. 4. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1957. v. 2, p. 528.


Esposo da famosa Margarida de Valois, a Rainha Margot, rompeu definitivamente os seus laços matrimoniais com a irmã de Henrique III em 1599, com as bênçãos da Santa Sé, e, no ano seguinte, casou-se com Maria de Médicis, descendente dos Habsburgos, filha de Francisco I de Médicis, Grão-Duque da Toscana, e sobrinha de Catarina de Médicis. Foi um matrimônio motivado, sobretudo, por razões financeiras, ligadas a interesses políticos, posto que a noiva, apelidada de “Grande Banqueira”, pertencia a uma família credora da Coroa francesa, os influentes Médicis. Como o seu antecessor, o já bastante popular Henrique IV também conheceu morte violenta em 14 de maio de 1610 dentro de seu coche em Paris, na Rua de la Ferronnerie, pela adaga de outro fanático católico, o monge François Ravaillac. Não fora o seu desaparecimento precoce, talvez a colônia da França Equinocial, que seria fundada em 1612 no Maranhão, houvesse tido vida longa. Seu assassino, possivelmente um doente mental, que viera à cidade a pé, envenenado por panfletos louvando a figura de outro regicida, Jacques Clément, ouvira dizer que Henrique IV tencionava entrar em guerra contra o papa e planejava um massacre, ao estilo da “Noite de São Bartolomeu”, contra os católicos. Na verdade, o marido de Maria de Médicis, que escapara de atentados anteriores contra a sua vida, pretendia apoiar os príncipes protestantes em uma guerra contra a Casa d’Áustria e a Espanha de credo católico. Não teve chance. Ravaillac foi preso logo em sequência, torturado e executado, tendo o seu corpo sido esquartejado e queimado. O seu nome passou a ser vedado para designar qualquer pessoa do reino. Aproximadamente duas horas e meia após a ação criminosa, o Parlamento de Paris declarou regente a esposa florentina de Henrique IV, face à menoridade do delfim, que seria conhecido como Luís XIII (1601-1643), então com quase 9 anos de idade. A maioria dos historiadores descreve a regência de Maria de Médicis como deletéria para os esforços de reconstrução do país promovidos por Henrique IV. Pierre Deyon sentencia que a menoridade de Luís XIII deixaria o reino à mercê de “perigos temíveis”, que a rainha regente “não possuía talento algum político” e que, de 1610 a 1634, “a orientação da política exterior da França, oposta àquela que o rei imaginara, deixou o campo livre aos empreendimentos de Madri e de Viena”. 82 Para Edward Burns, os anos subsequentes à morte de Henrique IV “foram cheios de incertezas e de confusão até 1624, quando Luiz XIII [...] confiou a direção de seu reino ao cardeal Richelieu”.83 Com efeito, Maria de Médicis (1575-1642) não passou à História por suas virtudes políticas. Seu governo (1610-1617) foi marcado pela forte e danosa influência de um aventureiro italiano, Concino Concini, esposo de sua irmã de leite e camareira Leonora Galigaï, o qual chegou a ser alçado à posição de marechal. Dispensou os serviços de Sully, que tanto contribuíra para o êxito da administração anterior. Enquanto o seu marido fora habilidoso ao lidar com as ambições e maquinações dos nobres, em proveito da afirmação da autoridade real e da recuperação das finanças, Maria tentou 82

DEYON, Pierre. La France baroque, 1589-1661. In: DUBY, Georges Henrique (Org.). Histoire de la France des origines à nos jours. Paris: Larousse, 1999. p. 415. (Tradução nossa). As asserções do autor na língua original são as seguintes: “De 1610 à 1634, l’orientation de la politique extérieure de la France, opposée à celle que le roi avait imaginée, laissa le champ libre aux entreprises de Madrid et de Vienne. [...] La minorité de Louis XIII, qui avait à peine neuf ans, allait exposer la France à des dangers redoutables. Marie de Médicis ne possédait aucun talent politique, et l’influence qu’elle accorda à quelques membres de son entourage intime, en particulier à Leonora Galigaï et à son mari Concini, discrédita son gouvernement.” 83 BURNS. História da civilização ocidental, p. 528.


conquistar-lhes o apoio à custa de pensões e favores, sacrificando o Tesouro Real. “Era um resto de feudalismo anárquico que se traduzia sobretudo pelo assalto ao tesouro, ajudando a confusão a situação criada aos reformados, de um Estado dentro do Estado, a ponto tal que pensaram em separar-se e formar república”, explica Oliveira Lima. 84 Em 1614, pressionada pelos nobres, a rainha regente convocou os Estados gerais, assembleia reunida em tempos de crise como órgão político de consulta e deliberação, constituída de representantes das três ordens sociais ou estados, isto é, o Primeiro Estado (o clero), o Segundo Estado (a nobreza) e o Terceiro Estado (o povo), os quais defenderam interesses antagônicos. O Terceiro Estado se insurgiu contra as pensões concedidas aos nobres, prejudiciais às finanças do reino, e propôs o reconhecimento da autoridade do monarca gaulês como superior à autoridade papal, o que foi recusado tanto pelo clero, quanto pela nobreza. Prevaleceram as manifestações destes últimos. Mas a ideia do absolutismo logo daria vigorosos frutos no solo francês. Maria de Médicis permitiu o renascimento das tensões adormecidas entre os católicos e os huguenotes, estes temerosos de algum retrocesso quanto aos direitos políticos e de liberdade de consciência sacramentados no Édito de Nantes, em virtude da realidade do catolicismo como religião da maioria da população gaulesa e da regente, da grande influência do núncio apostólico sobre a rainha e dos planos de casamento das crianças reais Luís e Élisabeth, respectivamente com Ana de Habsburgo ou Ana d’Áustria, infanta da Espanha, e Felipe de Habsburgo, Príncipe das Astúrias, futuro Felipe IV de Espanha e Felipe III de Portugal, países integrantes da católica União Ibérica. Entretanto, não foi da Rainha-Mãe a ideia de união por casamento das casas reais da França e da Espanha, mas do Papa Clemente VIII, padrinho do delfim, a qual fora estimulada pelo próprio Henrique IV pelo menos até 1609, quando a deterioração das relações com os hispânicos e os Habsburgos o fizera abandonar o projeto e considerar outras opções matrimoniais. 85 Efetivamente, Luís XIII contraiu núpcias com Ana d’Áustria em 21 de novembro de 1615 e Élisabeth de Bourbon ou de França casou-se com Felipe, herdeiro do cetro ibérico, em 25 do mesmo mês e ano, coroando a política hispanófila de Maria de Médicis. O término oficial da regência aconteceu em 2 de outubro de 1614, com a proclamação da maioridade do rei, porém a rainha, agora na qualidade de chefe do Conselho real, ainda se conservaria no poder até 1617, quando o jovem Luís XIII assumiria de fato o trono em um “golpe de Estado”, ao ordenar a detenção e talvez a morte de Concini, tido como uma espécie de usurpador – o qual foi efetivamente morto por Vitry, capitão dos guardas do rei, aparentemente em decorrência de um gesto interpretado como de resistência à ordem de prisão –, e autorizar o afastamento de sua mãe do governo, por intermédio da ação de seu ministro, o Duque de Luynes, seu favorito desde 1614. Ela foi exilada no Castelo de Blois, mas de lá escapou em fevereiro de 1619 e promoveu guerras contra o seu filho, que acabou por perdoá-la. Maria de Médicis ainda voltou a exercer influência na Corte após 1620, sendo a principal responsável pela ascensão do célebre Richelieu na cena política francesa, o qual, graças à interferência da florentina, foi admitido no Conselho do Rei em abril de 84

LIMA. História da civilização, p. 286. Ver DUBOST, Jean-François. Marie de Médicis: la reine dévoilée. Paris: Payot & Rivages, 2009. p. 395. 85


1624 e tornou-se chefe do órgão em 13 de agosto do ano em questão. Enquanto esteve próxima ao soberano, armou intrigas contra o seu próprio filho e a esposa deste. Finalmente, no ano de 1630, descontente com o crescente antagonismo do seu antigo protegido Richelieu em relação aos Habsburgos, governantes católicos da Espanha e dos Estados austríacos, Maria esforçou-se para que Luís XIII o destituísse de suas funções como primeiro ministro, mas foi ele quem, surpreendentemente, sobrevivendo à journée des Dupes (dia dos Tolos, em 11 de novembro), conseguiu do monarca um novo – e, desta feita, definitivo – afastamento da rainha, a qual, nos anos que se seguiram, apoiou as pretensões de Gastão de Bourbon, Duque de Orléans, também seu filho, ao cetro gaulês, jamais concretizadas, e não cessou de buscar a queda de Richelieu, igualmente sem sucesso, até morrer em Colônia, Alemanha, em 1642. O Cardeal de Richelieu enfrentaria ainda outras conspirações contra si e permaneceria como o braço direito de Luís XIII, denominado o Justo, até o mesmo ano de 1642, quando faleceria, poucos meses depois de sua quase algoz. Jean-François Dubost, todavia, em alentada biografia da governante florentina, intitulada Marie de Médicis: la reine dévoilée (2009), insurge-se contra a historiografia que retrata de modo impiedosamente desfavorável a rainha. Doutor em História pela Universidade de Paris 1 (Sorbonne), o professor universitário, estribando-se em uma nova leitura de fontes tradicionais e na análise de novas fontes, e sem desconsiderar as contradições das políticas e estratégias abraçadas pela italiana, defende que ela demonstrou habilidades de inovação para buscar a superação dos problemas inerentes à sua carência de legitimidade para governar a França, que ela tinha um papel a desempenhar como católica devota nas rédeas de uma nação europeia de proa, em meio a um mundo conturbado pelas tensões político-religiosas e pelos interesses dinásticos, e, mormente, que ela procurou respeitar o legado de seu marido Henrique IV, pacificador do reino, e reforçar a visão do poder como algo de base aristocrática, acabando por concorrer para a afirmação das engrenagens do absolutismo, que viria a vitimá-la. Nessa linha, Dubost, não sem alguma razão, argumenta que a Rainha-Mãe, apesar de tal realidade ser constantemente omitida na historiografia francesa, buscou dar continuidade aos projetos marítimos e coloniais de seu esposo, tendo uma atuação significativa na meta de expansão marítima do país: Outro aspecto na ação de Maria de Médicis foi largamente ocultado pela tradição historiográfica: o encorajamento dado às expedições marítimas e coloniais. Lembramo-nos das tentativas que ela conduzira a título pessoal em 1603 e em 1609. Uma vez regente, ela se esforçou aí também para se aproveitar do ímpeto adquirido no reinado precedente, ao sustentar os empreendimentos de promoção do grande comércio marítimo e as expedições coloniais. 86 Lembra o autor, ainda, que Maria não foi responsável pelo desaparecimento de companhias gaulesas de navegação criadas sob o governo de Henrique IV, no período de 1601 a 1604, que eram inspiradas no modelo das Companhias das Índias Orientais inglesa e holandesa, esta a mais famosa, e que, inclusive, ela injetou novo ânimo no 86

Ibidem, p. 381. (Tradução nossa). Este é o texto na língua original: “Un autre aspect dans l’action de Marie de Médicis a été largement occulté par la tradition historiographique: l’encouragement donné aux expéditions maritimes et coloniales. On se souvient des essais qu’elle avait tentés à titre personnel en 1603 et en 1609. Devenue régente, elle s’est efforcée là aussi de poursuivre sur la lancée du règne précédent en soutenant des entreprises promouvant le grand commerce maritime et les expéditions coloniales.”


projeto, no ano de 1611, ao colocar sob proteção real a companhia dirigida pelo francês Godefroy e pelo flamengo Girard Le Roy, a única a sobreviver à concorrência e hostilidade dos batavos, concedendo-lhe o aumento e a confirmação de seus privilégios por dois anos. Dubost chega mesmo a especular se não foi precisamente a demissão do Duque de Sully, refratário aos planos marítimos e coloniais do monarca Henrique IV, que possibilitou o revigoramento desses planos de companhias comerciais. Ademais, o historiador enfatiza que as cartas patentes de 1611 que puseram a indigitada companhia sob salvaguarda real ostentam os traços do mercantilismo clássico 87 e que a rainha resolveu pessoalmente promover explorações gaulesas nas costas da África negra e, mais importante para o Brasil, confiou a François de Razilly a expedição da própria França Equinocial, desencadeada em 1612. 88 Charles de la Roncière atesta que o protestante Sully realmente não era um defensor do projeto colonial francês, conquanto feroz adversário da Espanha, tomando como parâmetro uma carta de 1608 redigida pelo ministro: Inimigo encarniçado do rei católico, o huguenote aconselhava atingir a Espanha no coração e nas entranhas, ‘que eu estimo, pelo presente, residirem nas Índias Ocidentais,’ escrevia ele em 26 de fevereiro de 1608 ao presidente Jeannin: nosso papel é de subverter a rude dominação espanhola, sem pretender nada edificar sobre as suas ruínas. Nós não poderíamos ‘conservar tais conquistas, por serem demasiado distanciadas de nós e, por conseguinte, desproporcionadas em relação à natureza e ao cérebro dos franceses, que eu reconheço, para meu grande desgosto, não terem nem a perseverança nem a previdência requeridas para tais coisas, mas que ordinariamente só usam o seu vigor, o seu espírito e a sua coragem para a conservação daquilo que lhes toca bem de perto. As coisas que

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“As cartas patentes de 1611 que colocam a companhia sob proteção real contêm todos os aspectos do mercantilismo francês clássico: evitar as saídas de numerário do reino construindo uma frota de comércio francesa, recrutando marujos estrangeiros de experiência comprovada, reunindo os capitais necessários graças aos associados constituintes da companhia comercial. O não-desenobrecimento, ou possibilidade de não perder a sua qualidade, é garantida aos nobres que investiriam na empresa. O projeto é sustentado pelo almirante da França, Charles de Montmorency-Damville, irmão do condestável. Que, no final das contas, estes apoios tenham sido insuficientes e que os círculos de mercadores franceses não tenham acreditado nessas iniciativas, é incontestável: retomando estes projetos em 1664, Colbert se bate contra o mesmo tipo de resistência. Mas é coisa completamente diferente que afirmar, frequentemente com base nos protestos indignados de um Montchrestien, que a rainha e o seu governo manifestaram um total desinteresse pelos negócios marítimos e coloniais... Totalmente ao contrário, o interesse da rainha por estas questões parece dos mais vivos.” Ibidem, p. 382. (Tradução nossa). Este é o comentário no original: “Les lettres patentes de 1611 qui mettent la compagnie sous protection royale contiennent tous les aspects du mercantilisme français classique: éviter les sorties de numéraire du royaume en construisant une flotte de commerce française, en recrutant des marins étrangers à l’expérience éprouvée, en réunissant les capitaux nécessaires par l’intermédiaire des associés constituant la compagnie commerciale. La non-dérogeance, ou possibilité de ne pas perdre leur qualité, est garantie aux nobles qui investiraient dans l’entreprise. Le projet est soutenu par l’amiral de France, Charles de Montmorency-Damville, frère du connétable. Qu’au bout du compte ces soutiens aient été insuffisants et que les milieux marchands français n’aient pas cru à ces initiatives, c’est incontestable: reprenant ces projets en 1664, Colbert se heurte au même type de résistances. Mais c’est tout autre chose que d’affirmer, souvent sur la foi des protestations indignées d’un Montchrestien, que la reine et son gouvernement ont manifesté un désintérêt total pour les affaires maritimes et coloniales... Tout au contraire, l’intérêt de la reine pour ces questions paraît des plus vifs.” 88 Ibidem, p. 381-383. A expedição, na verdade, também foi liderada por Daniel de la Touche.


permanecem separadas de nosso corpo por terras ou mares estrangeiros somente nos serão uma grande carga e de pouca utilidade.’89 Por outro ângulo, é irrefragável que a política da regente de aproximação e valorização dos laços com a Espanha católica, então alegada senhora do Brasil, como resultado da União Ibérica, seria fatal para as pretensões de colonização gaulesa no norte do Brasil, começando pelo Maranhão. Por sua vez, Armand-Jean du Plessis, o Cardeal de Richelieu, não obstante os seus métodos nem sempre escrupulosos e não raras vezes cruéis, conduziu a França a um novo patamar no contexto internacional. “Coube-lhe, como ministro onipotente, realizar os principais objetivos da política de Henrique IV”, ressalta Oliveira Lima.90 Conforme resume Burns, sua conduta era guiada por dois fins básicos: “primeiro, destruir tôdas as limitações à autoridade de seu senhor; e, segundo, elevar a França à posição de nação mais poderosa da Europa”.91 No plano interno, o primeiro escopo o levou a submeter os nobres franceses em geral e a eliminar qualquer perigo maior de insurreição dos protestantes, mediante o emprego de espiões, execuções em massa e ações militares. No plano externo, a segunda meta o direcionou para a luta contra o poder dos Habsburgos e da Espanha, levada a cabo em guerras onerosas. Por outro lado, fomentou reformas proveitosas nas finanças e na legislação, valorizou o exército e estimulou a educação e a literatura, sendo o fundador da Academia Francesa, modelo de nossa Academia Brasileira de Letras e de tantas outras instituições do gênero. Se os calvinistas se sentiram ameaçados em seus direitos e em sua liberdade de consciência sob a regência de Maria de Médicis, foi sob o governo de Luís XIII que eles vieram a perder, não sem muita luta, a maioria dos direitos e privilégios conquistados durante o reinado de Henrique IV, que lhes possibilitavam praticamente viver em um Estado à parte dentro do Estado gaulês, o que, em última análise, como compreenderia Richelieu, punha em perigo a própria unidade política do reino. Mesmo antes da assunção do cardeal ao posto de primeiro ministro, Luís XIII, por meio do Duque de Luynes, então seu homem forte, reimplantou a religião católica no Béarn em 1620, que foi reunido à Coroa. Os huguenotes, aliados aos ingleses, tiveram proibidas as suas assembleias e perderam as suas praças fortificadas em geral, excluindo-se duas. Por último, restou aos protestantes a cidade de La Rochelle, sua derradeira place de sûreté (praça de segurança). Mas não por muito tempo: em 1627, Richelieu, o novo ministro todo-poderoso, empreendeu o cerco de La Rochelle, isolando-a por uma linha de fortificações de vários quilômetros e pelo bloqueio de seu acesso por mar, dando-se a sua capitulação incondicional um ano depois. 89

LA RONCIÈRE. Histoire de la marine française, p. 277. (Tradução nossa). Este é o texto na língua original: “Ennemi acharné du roi catholique, le huguenot conseillait de frapper l’Espagne au cœur et dans les entrailles, ‘que j’estime, pour le présent, résider aux Indes Occidentales,’ écrivait-il le 26 février 1608 au président Jeannin: notre rôle est de bouleverser la rude domination espagnole, sans prétendre rien édifier sur ses ruines. Nous ne pourrions ‘conserver de telles conquestes, comme trop éloignées de nous et, par conséquent, disproportionnées au naturel et à la cervelle des François, que je reconnois, à mon grand regret, n’avoir ni la persévérance ni la prévoyance requises pour telles choses, mais qui ne portent ordinairement leur vigueur, leur esprit et leur courage qu’à la conservation de ce qui leur touche de proche en proche. Les choses qui demeurent séparées de notre corps par des terres ou des mers étrangères, ne nous seront jamais qu’à grande charge et à peu d’utilité.’” 90 LIMA. História da civilização, p. 286. 91 BURNS. História da civilização ocidental, p. 529.


Pela Paz d’Alès (1629), nome de uma cidade rendida em sequência pelo exército de Luís XIII, os huguenotes puderam preservar as suas garantias civis e religiosas, ou seja, a sua liberdade de credo, contudo deixaram de possuir qualquer praça forte ou fortificação, o que lhes tolheu a capacidade militar, e tiveram suprimido o privilégio das assembleias políticas. A propósito, comenta Oliveira Lima que o cardeal estadista destruiu a importância política do elemento protestante, “pôsto que lhe deixando a franquia do culto: êle próprio conquistou o baluarte de La Rochelle, após um sítio que durou um ano e custou 15.000 vidas, e dominou os huguenotes do Sul, onde era grande sua fôrça”92 Várias foram as razões que determinaram o malogro da expansão do protestantismo na França, entre as quais a não adesão dos monarcas gauleses à fé reformada, diferentemente dos soberanos ingleses e dos príncipes alemães; o posicionamento contrário do Parlamento de Paris, detentor da autoridade jurídica, ao movimento da Reforma; a firme e robusta resistência oferecida pelo partido católico; o profundo golpe na causa protestante representado pelo massacre da “Noite de São Bartolomeu”, ceifando a vida de importantes líderes e defensores, assim destruindo a força do movimento, que viu o número de adeptos cair de cinco milhões para somente um milhão no ano de 1598; a não conversão do povo francês e, em especial, do parisiense, à doutrina de Calvino; o fato de que o partido huguenote não se preocupou com a conquista da simpatia do povo às novas ideias, restringindo-se ao esforço de sedução dos nobres, dos intelectuais e dos homens de negócios; e o recurso dos protestantes ao apoio de príncipes estrangeiros, em afronta ao patriotismo do povo. 93 As guerras de religião e as suas marcas e cicatrizes na sociedade gaulesa ao longo da segunda metade do século XVI e do começo do século XVII, refletidas no duradouro antagonismo entre católicos e protestantes, prejudicaram sobremaneira as duas grandes experiências colonizadoras da França no Brasil, desde os acalorados embates teológicos e os fortes desentendimentos entre Villegagnon e os pastores calvinistas na Guanabara, que ressoariam pelos anos avante, até a situação, no mínimo desconfortável, do huguenote Daniel de la Touche como um dos líderes da expedição no Maranhão, majoritariamente, como a anterior, composta por católicos. É o que argumentam Vasco Mariz e Lucien Provençal: Por muito tempo, nas regiões leste e sul da França, uma feroz oposição sobreviveu entre as duas facções religiosas, assim como um terrível rancor pelas atrocidades cometidas. Hoje, os cristãos estão reunidos no ecumenismo e é muito difícil imaginar a volta dos perigos ocorridos, dos quais foram vítimas a França Antártica e, mais tarde, embora um pouco menos, a França Equinocial, duas tentativas de colonização que tiveram tudo para consolidar-se. Em 1555, quase todos os emigrantes que chegaram à Guanabara com Villegagnon eram católicos. O único protestante conhecido era Nicolas Barré, homem honesto e fiel secretário de Villegagnon, testemunho imparcial da vida na França Antártica. Entretanto, os poucos anabatistas que se integraram na expedição causaram distúrbios na colônia; foram os primeiros a desertar e tentaram impor a sua violência no núcleo social. 92 93

LIMA. História da civilização, p. 286. Ver MARIZ; PROVENÇAL. La Ravardière e a França Equinocial, p. 36; e PROVENÇAL. As guerras de religião da França no século XVI. In: MARIZ (Org.). Brasil-França: relações históricas no período colonial, p. 48-49.


Em 1557, desembarcou na Guanabara um grupo de protestantes, núcleo – segundo Calvino e Coligny – de uma futura emigração de perseguidos religiosos na França. Entre eles, se encontravam 14 pastores, representantes de sete facções de sua religião, cinco donzelas para fins matrimoniais e o depois famoso Jean de Léry; todos chefiados por Pierre Dupont de Corguilleray e Pierre Richer. Eles se opuseram a Villegagnon numa disputa dogmática que provocou o fracasso da França Antártica. Já a iniciativa para a implantação de uma França Equinocial no Maranhão pertenceu aos protestantes Daniel de La Touche de La Ravardière e Charles des Vaux de Sainte Maure, apoiados pelo rei Henrique IV. O financiamento foi obtido graças aos católicos, aos irmãos Razilly e ao banqueiro Harlay de Sancy, que participaram da viagem com quatro capuchinhos. No entanto, em carta particular da rainha Maria de Médicis a La Ravardière antes da partida da expedição, a viúva de Henrique IV impôs a predominância dos católicos e ordenou a volta dos protestantes. [...] La Ravardière era o único dos chefes da expedição francesa de 1612 que adotava a religião reformada e esse fato foi sempre motivo de desconfiança e hostilidade da parte dos católicos e da rainha-regente, contribuindo para o fracasso do empreendimento colonial. Como acontecera no século anterior na Guanabara, embora de uma maneira mais amena, as discussões religiosas motivaram, em parte, a volta à França de François de Razilly e o desinteresse da regente Marie de Médicis e do novo rei, Louis XIII, pelo empreendimento no Maranhão. Não houvesse tantas paixões religiosas, é provável que ambas as implantações coloniais tivessem tido sucesso.94 La Roncière, na mesma esteira, deplora, com ardor poético, os conflitos que tumultuariam a França e afetariam negativamente os seus empreendimentos coloniais: É então que a bela campanha dos armadores normandos em favor da liberdade dos mares deu seus frutos, triunfando ao mesmo tempo sobre a apatia oficial e o ostracismo português. Nossos mapas se enriqueceram com uma França Antártica, uma França Equinocial, uma Nova França, enquanto o Eldorado abria risonhas perspectivas às imaginações em busca de aventuras. Ai! as enganadoras miragens! Nós ainda não havíamos compreendido que marinha de guerra e colônia estão em função uma da outra, que uma nação sem naus é um pássaro sem asas. E nossas colônias caíam sucessivamente por falta de socorro da mãe-pátria. Que digo eu! Elas caíam vítimas de suas dissensões intestinas, que arrancavam de Dominique de Gourgues este grito de desespero: ‘A décima parte dos homens que morreram na menor de nossas guerras civis teria sido bem mais do que suficiente para conquistar a extensão de vários reinos!’95 94

MARIZ; PROVENÇAL. La Ravardière e a França Equinocial, p. 36-38. Ver também PROVENÇAL. As guerras de religião da França no século XVI. In: MARIZ (Org.). Brasil-França: relações históricas no período colonial, p. 49. 95 LA RONCIÈRE. Histoire de la marine française, p. 2. (Tradução nossa). Tal é o texto no original: “C’est alors que la belle campagne des armateurs normands en faveur de la liberté des mers porta ses fruits, en triomphant à la fois de l’apathie officielle et de l’ostracisme portugais. Nos cartes s’enrichirent d’une France Antarctique, d’une France Équinoxiale, d’une Nouvelle-France, cependant que l’Eldorado ouvrait aux imaginations en quête d’aventures, de riantes perspectives. Hélas! les décevants mirages!


REFERÊNCIAS BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental. Tradução de Lourival Gomes Machado e Lourdes Santos Machado. 4. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1957. v. 2. Título do original norte-americano: Western Civilizations. DEYON, Pierre. La France baroque, 1589-1661. In: DUBY, Georges Henrique (Org.). Histoire de la France des origines à nos jours. Paris: Larousse, 1999. 1258 p. (Collection In Extenso). DUBOST, Jean-François. Marie de Médicis: la reine dévoilée. Paris: Payot & Rivages, 2009. 1040 p. LA RONCIÈRE, Charles de. Histoire de la marine française: en quète d’un empire colonial: Richelieu. Paris: Plon-Nourrit, 1910. v. 4. LIMA, Oliveira. História da civilização. 10. ed. São Paulo: Melhoramentos, [1960?]. 542 p. MARIZ, Vasco; PROVENÇAL, Lucien. La Ravardière e a França Equinocial: os franceses no Maranhão (1612-1615). Rio de Janeiro: Topbooks, 2007. 231 p. PROVENÇAL, Lucien. As guerras de religião da França no século XVI. In: MARIZ, Vasco (Org.). Brasil-França: relações históricas no período colonial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2006. p. 45-49. (Biblioteca do Exército; Coleção General Benício, 425). THE ECLECTIC MAGAZINE OF FOREIGN LITERATURE, SCIENCE, AND ART. New York: W. H. Bidwell, v. 21, Sept./Dec. 1850. 572 p.

Nous n’avions point encore compris que marine de guerre et colonie sont fonction l’une de l’autre, qu’une nation sans vaisseaux est un oiseau sans ailes. Et nos colonies tombaient tour à tour faute d’être secourues par la mère-patrie. Que dis-je! Elles tombaient victimes de ses dissensions intestines, qui arrachaient à Dominique de Gourgues ce cri de désespoir: ‘La dixiesme partie des hommes qui sont mort en la moindre de nos guerres civiles, eust esté trop plus que suffisante pour conquester l’estendue de plusieurs royaumes!’”


ÍNDICE DA REVISTA DO IHGM – APRESENTAÇÃO LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ “a ciência da informação é um campo dedicado às questões científicas e à prática profissional voltadas para os problemas de efetiva comunicação do conhecimento e de seus registros entre os seres humanos, no contexto social, institucional ou individual do uso e das necessidades de informação”. (SARACEVIC, 1996)96

Ao termino deste ano de 2012 se encerra um ciclo da revista do IHGM. A Presidente Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo nomeou uma Comissão Editorial, que irá determinar o novo norte da publicação. Nesse período a Revista IHGM teve três fases: a do período pioneiro, em que o Secretário Perpétuo Antonio Lopes da Cunha dirigiu a Revista. Um segundo momento em que se procurou obedecer às diretrizes traçadas, não escritas; e o terceiro quando da gestão da Profa. Eneida Vieira da Silva Ostria de Cañedo – seguindo seus passos a Presidente Telma quando de sua primeira gestão -, aparece em seu formato eletrônico. Este último período sob minha responsabilidade, por delegação dos Diretores de Divulgação José Fernandes – Gestão Eneida -, e depois Manoel dos Santos Neto – Gestão Telma. Por um breve período – primeiro semestre de 2012 – foi nomeado Comissão, que não chegou a atuar. Quando de meu ingresso no IHGM foi tarefa dada pela então Presidente, Profa. Eneida: organizar a Revista e publica-la; sugeriu-se o formato eletrônico por não custar nada aos combalidos cofres do IHGM. Até que se pudesse passa-la no formato tradicional – papel!!! Sua edição é feita de maneira rudimentar, apresentada inicialmente em Word, depois em PDF, no formato eletrônico, tendo como suporte um CD-R; depois se utilizou de uma ferramenta de editoração, disponibilizando a Revista na “nuvem” - ISSUU. Tentou-se incluí-la no repertório do IBICT, quando este iniciou a sistematização das revistas cientificas acadêmicas; não se conseguiu; depois, quando do lançamento do sistema SEER novas tentativas. Daí que vem aparecendo neste formato... As diretrizes foram as do Estatuto Sociteal e Portaria da administração Seguins; seguindo-se sua apresentação de ate então, adotada desde 1926. O conteúdo, no inicio, submetido à Diretoria; depois em voto de total confiança, que colocasse a Revista no ar,

9696

p.47, citado por LIMA, Gercina Ângela Borém. Interfaces entre a ciência da informação e a ciência cognitiva. Ci. Inf., Brasília, v. 32, n. 1, p. 77-87, jan./abr. 2003


quando estivesse pronta, dentro do calendário estabelecido, sem passar por uma revisão. Estava de antemão aprovada... Agora, com o quadro social completo, muitos ‘experts’ em editoração científica adentraram ao IHGM; perde sentido a forma solitária – entendem alguns ‘ditatorial’ em que a revista é publicada. Na AGO que aprovou a constituição do Conselho Editorial sugeriu-se atualizar as normas de publicação, que haja efetivamente analise através do ‘duplo cego’. Submissão à avaliação pelos pares!97 Dizem que a revista deve assumir um caráter acadêmico, científico, adotando-se as normas de apresentação vigentes nas universidades... Concordo, em parte, pois já é feito em artigos de fundo... Será que não vai matar a Revista? Afinal a grande maioria dos sócios não são historiadores, geógrafos, cientistas sociais ‘de carteirinha’... nem passaram pela ditadura do ‘publique ou pereça’... Seus escritos podem ser classificados como ‘memórias’; utilizam de uma linguagem coloquial, algumas vezes jornalísticas – forma que se utilizam para divulgar seus estudos, dada que a Revista... Muitas das contribuições são frutos de palestras; a maioria, discursos de posse em que se faz o elogio ao Patrono e uma breve referencia aos ocupantes anteriores. Cabe ai ‘duplo cego’? Para se certificar que o ‘artigo’ (paper) é cientifico? Só o tempo dirá... Ou, ‘quem viver, verá’... Aqui trago minha contribuição de resgate do que foi publicado, por quem, quando... Um repertorio... E um ‘quem é quem’... Analise dessa contribuição foi feita em dois artigos que publiquei – “Elitismo no IHGM”, onde procurei determinar a Elite de Autores do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, através da aplicação da “Lei do Elitismo” (PRICE, 1965)98, e da “Lei de Lotka” (1926)99. A primeira se utiliza de citações e destina-se a estimar o tamanho da elite de determinada população de autores. Enuncia que “toda população de tamanho N tem uma elite efetiva tamanho √N”. Observa-se que, para as ciências em geral, o número de autores decresce mais rapidamente que o inverso do quadrado, mais aproximadamente à Lei do Inverso do Cubo 1/n3. 97

“A palavra avaliar vem do latim ‘valere’. Esta apresenta, entre outras acepções, a de ser merecedor ou digno de alguma coisa. A avaliação, dentro de um determinado ramo do conhecimento, permite dignificar o saber quando métodos confiáveis e sistemáticos são utilizados para mostrar à sociedade como tal saber vem-se desenvolvendo e de que forma tem contribuído para resolver os problemas que se apresentam dentro de sua área de abrangência.” (VANTI, Nadia Aurora Peres. Da bibliometria à webometria: uma exploração conceitual dos mecanismos utilizados para medir o registro da informação e a difusão do conhecimento. IN CI. INF., Brasília, v. 31, n. 2, p. 152-162, maio/ago. 2002, p. 152-162 98 PRICE, Derek J. De Solla. Networks of scientific papers. Science, [s.l.], v. 149, n.3683, p. 56-64, July 1965. citado por GUEDES, Vania L. S.; BORSCHIVER, Suzana. BIBLIOMETRIA: UMA FERRAMENTA ESTATÍSTICA PARA A GESTÃO DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO, EM SISTEMAS DE INFORMAÇÃO, DE COMUNICAÇÃO E DE AVALIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA 99 LOTKA, A. J. The frequency of distribuition of scientific productivity. JOURNAL OF THE WASHINGTON ACADEMY OF SCIENCES, v. 16, n.12, p. 317-323, 1926, citado por GUEDES, Vania L. S.; BORSCHIVER, Suzana. Bibliometria: uma ferramenta estatística para a gestão da informação e do conhecimento, em sistemas de informação, de comunicação e de avaliação científica e tecnológica.


Já a Lei de Lotka, relacionada à produtividade de autores e fundamentada na premissa básica de que “alguns pesquisadores publicam muito e muitos publicam pouco”, enuncia que “a relação entre o número de autores e o número de artigos publicados por esses, em qualquer área científica, segue a Lei do Inverso do Quadrado 1/n2”. Utilizei das 27 revistas publicadas pelo IHGM no período de 1926 a 2007. A Elite dos Autores se constitui daqueles que produziram acima de 11,61 artigos; 51,35% dos artigos publicados. Verificou-se que seguiu o padrão de distribuição das leis e princípios bibliométricos, condizente com a máxima conhecida como “Efeito Mateus na Ciência”, que diz: “aos que mais têm será dado em abundância e, aos que menos têm até o que têm lhes será tirado” 100. Trata-se de uma abordagem ao efeito Mateus mediante a análise de processos psicossociais, que afetam o sistema de avaliação e distribuição de recompensas científicas. Por exemplo: cientistas altamente produtivos, de universidades mais conceituadas, obtêm frequentemente mais reconhecimento que cientistas igualmente produtivos, de outras universidades. Recuperei a memória do Instituto, com seus quadros de patronos, sócios – efetivos, correspondentes, honorários, benemérito -, e relacionando os artigos publicados, com seus autores, por edição. Neste ano de 2012, nos últimos dias, dediquei-me a recuperar a memória da terceira fase da Revista, a eletrônica. Bem mais fácil, pois todos os índices e artigos já estavam organizados, guardados na memória de meu computador.101 Fez-se apenas o cotejamento, dando continuidade ao registro da produção dos sócios – e convidados – do IHGM. A partir do numero 28, a revista do IHGM começa a ser disponibilizada em formato eletrônico, sendo que este número – o 28 – foi publicado no formato tradicional – papel. Nessa nova fase, com as facilidades das ferramentas disponíveis, foi possível atingir a meta de publicação trimestral – quatro edições ao ano.

QUADRO 1 – REVISTA PUBLICADAS X NUMERO DE ARTIGOS X NUMERO DE AUTORES NUMERO

28 29 100

DATA DE PUBLICAÇÃO ANO MES 2008

DEZEMBRO

NUMERO DE ARTIGOS

NUMERO DE AUTORES

17 26

14 17

MERTON, R. K. The Mathew effect in science. SCIENCE, [s. l.], v. 159, n. 3810, p. 58, Jan. 1968, citado por GUEDES, Vania L. S.; BORSCHIVER, Suzana. Bibliometria: uma ferramenta estatística para a gestão da informação e do conhecimento, em sistemas de informação, de comunicação e de avaliação científica e tecnológica; 101 “Informetria é o estudo dos aspectos quantitativos da informação em qualquer formato, e não apenas registros catalográficos ou bibliografias, referente a qualquer grupo social, e não apenas aos cientistas. A informetria pode incorporar, utilizar e ampliar os muitos estudos de avaliação da informação que estão fora dos limites da bibliometria e cienciometria”. (VANTI, 2002).


30 31 32 33

2009

AGOSTO NOVEMBRO MARÇO JUNHO

20 34 35 20

15 13 16 17

SETEMBRO DEZEMBRO MARÇO JUNHO SETEMBRO DEZEMBRO MARÇO JUNHO SETEMBRO DEZEMBRO

22 37 57 37 55 55 33 64 87 53

12 13 23 21 57 27 24 39 43 24

2010 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43

2011

2012

QUADRO 2 – DISTRIBUIÇÃO DOS AUTORES X ARTIGOS NUMERO DE AUTORES x

1 1 1 2 1 1 1 1 1 1 1 3 1 2 1 3 3 6 3 7 10 94 141

102

NUMERO DE CONTRIBUIÇÕES POR AUTOR y

NUMERO DE ARTIGOS

% DE AUTORES

xy

%x

84 67102 60 37 32 30 27 22 21

84 67 60 37 64 30 27 22 21

15 14 12 11 10

15 14 12

9 8 7 6 5 4 3 2 1

Sob a autoria do Editor, constam 67 artigos.

33 10 18 8 21 18 30 12 21 20 94 718

0,71 0,71 0,71 1,42 0,71 0,71 0,71 0,71 0,71 0,71 0,71 2,13 0,71 1,42 0,71 2,13 2,13 4,25 2,13 4,96 7,09 66,66 100

% DE ARTIGOS % xy

11,69 8,91 8,35 5,15 8,91 4,17 3,75 3,06 2,92 1,95 1,94 1,67 4,59 1,39 2,50 1,11 2,92 2,50 4,17 1,67 2,92 2,78 13,09 100


O Editor da Revista, Prof. Leopoldo G. D. Vaz assina 84 artigos como sócio efetivo e 67 como editor, aqui se separando o total de sua contribuição, mas mantendose como único autor, com um total de 151 colaborações. A Elite de autores é constituída daqueles que publicaram mais de 26,79 artigos – SETE autores (5,68%) publicaram um total de 369 artigos (50,93%). QUADRO 5 – ELITE DE AUTORES AUTORES VAZ, Leopoldo Gil Dulcio Editor ROCHA, Osvaldo Pereira REINALDO, Telma Bonifácio dos Santos. ALVIM, AYMORÉ DE CASTRO MELO, Álvaro Urubatan. ADLER, DILERCY ARAGÃO NOBERTO DA SILVA, Antonio José.

ARTIGOS 84 67 60 37 32 30 27


O PODER NA ANTIGUIDADE ALDY MELLO DE ARAUJO Assim como em quase todas as canções populares o amor tem um lugar reservado, a história do ser humano sempre teve lugar para o poder. Diz-se que a história começou quando também começaram os encontros dos homens e a busca dos elementos necessários para suas realizações. O grande Shakespeare já dizia: Não nascemos para usar, mas para mandar. Se observarmos a lógica europeia, temos cinco longos períodos da história: a pré-história, a antiguidade, a idade média, a idade moderna e a idade contemporânea. Fala-se hoje da sociedade pós-moderna e da contemporânea atual que é a história de nosso tempo.103 Na Pré-história, já passados cerca de 3,5 milhões de anos, as realizações humanas não passavam da evolução do emprego da pedra, da produção do fogo e seu domínio, da invenção da linguagem oral, da domesticação dos animais, das primeiras práticas de sobrevivência com a agricultura e do conhecimento sobre as coisas da natureza. Dizem os estudiosos que essa fase da história dos homens foi dividida em três momentos distintos: a idade da pedra lascada, também chamado de período Paleolítico, quando o ser humano vivia nas cavernas e apenas exercitava o instinto de sobrevivência, vivendo da caça e da pesca; o segundo período chamou-se de Mesolítico, quando foi descoberto o fogo e o poder de domesticar animais e, aos poucos, iam descobrindo formas de manter a vida; o terceiro e último período foi chamado de Neolítico, quando ocorrerem importantes mudanças na vida dos seres humanos, como a exploração da agricultura, a descoberta da metalurgia e a organização de pequenas vilas habitadas que começaram a intercambiar seus produtos. O círculo da vida dos seres humanos dava início a um novo momento de sua história: a Antiguidade que, segundo os historiógrafos, cobria o período que vai do surgimento da escrita até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. Esse foi um período onde o poder já aflorava desde as primeiras ganâncias nascidas nos corações dos seres humanos, marcando todos os passos que a humanidade dava na construção de sua própria história. Logo veio a Idade Média cuja demarcação vai do século V da chamada Era cristã até o final do Império Romano do Oriente, com a queda de Constantinopla. Expandiamse, na Europa, as monarquias bárbaras, o feudalismo ocupou o lugar do que antes era escravismo. O cristianismo se expandia e com isso aumentava a perseguição aos cristãos. Nascia o islamismo. As cidades medievais lutavam pela manutenção de seu comércio de seus privilégios. Foi a época em que a Igreja Católica passou a ser a detentora do poder e das verdades divinas e o absolutismo reinava em toda a Europa. Surgia a América, o novo continente. Quando bem não se esperava, surgiu o Renascimento Cultural. A Idade Moderna veio trazer algumas soluções para coisas do passado. Chama-se idade moderna o período que vai da queda do Império Romano do Oriente até a Revolução Francesa, em 1789, com o fortalecimento dos Estados nacionais monárquica, 103

A Idade Antiga inclui o conteúdo e a história das civilizações, desde a antiguidade clássica e oriental, tratando dos diversos povos considerados bárbaros, até a democracia grega.


arrastando a expansão marítima e reforçando a expansão colonial. O capitalismo crescia vertiginosamente. Surgiam novas nações do outro lado do mundo, contrariando a vontade da Europa. A Idade Pós-Moderna cobre o período que marca o final do século XVII até o final do século XVIII. A Idade Contemporânea foi o período marcado por duas Grandes Guerras Mundiais, a Ascensão de queda do socialismo mundial, o crescimento do Ásia, o conflito Israel - Palestino, a Guerra do Vietnã, a Guerra do Iraque, A Guerra do Afeganistão. A Idade Contemporânea atual compreende os nossos dias. Antiguidade Foi na Antiguidade que tivemos conhecimento da primeira civilização humana constituída pelos Sumérios, ou os povos sumerianos, originários da Suméria que ficava localizada no norte da Mesopotâmia, hoje Cudistão. A Antiguidade pode ser vista em dois grandes períodos: Antes de Cristo, que vai de 4.000 a.C. até o nascimento de Cristo e o período depois de Cristo que começa a marcar outra era. Os sumérios, conhecidos como integrantes da primeira civilização humana, já contavam com um homem de poder, Sargão I. Aos Sumérios foi atribuída a criação da escrita cuneiforme, em 3.500 a.C. das cidades-estados e da cerveja. A escrita cuneiforme era feita sob a forma de pictogramas, cunhados em tabuletas de argila. Foi uma escrita muito usada pelos acádios, os babilônicos, os assírios, os hititas e os elamitas, povos que pertenciam a civilização dos Sumérios. Foi a escrita em que o Rei Hamurabi escreveu o primeiro código. As cidades-estados foram as cidades que começavam a ser definidas independentes, tendo como divisão de seus territórios canais ou muros de pedra. A cerveja era uma bebida que resultava da fermentação de cereais, já com álcool. O resto a humanidade sabe. Nesse período da história, quando sugiram os primeiros povos da terra, viveram também os amoritas, os assírios e os caldeus. Depois dos Sumérios vieram os egípcios com seus faraós, os fenícios e os hebreus até ser constituído o primeiro e o segundo impérios babilônicos de Hamurabi e Nabucodonozor.104 O Egito Antigo foi o berço de uma civilização humana: a civilização egípcia que se desenvolveu entre 3.200 e 44 a.C. Foi a civilização que mais influenciou na história do poder, pois tinha seus reis que eram os faraós muitos poderosos à época. O Egito tem uma história cheia de encantos, vista pelos historiadores em três momentos distintos: O início da civilização, o Alto Egito e o Baixo Egito. O Alto Egito foi quando se deu, então, a unificação. Esse momento concentrou pelo menos três grandes eras para a civilização egípcia: O Antigo Império, quando se destacou o ilimitado poder dos faraós, fazendo surgir as famosas pirâmides Quéops, Efren e Miquerinos em Gizé; o Médio Império tendo com o capital a cidade de Tebas, quando ocorreu a grande expansão territorial e as técnicas de irrigação; o Novo Império, quando o Egito começou a se tornar uma potência política. Chama-se Baixo Egito o momento em que o Egito começou a sentir o seu próprio declínio. Os faraós perdiam os seus poderes, os povos estrangeiros que eram chamados de nômades (assírios, persas, macedônios e romanos) começaram a invadir o território egípcio. A civilização egípcia contribuiu para a evolução da escrita, da matemática e da medicina.

104

O mundo antigo deixou muitos legados à humanidade: na religião, nas ciências, nas artes, na filosofia, na cidadania de modo geral.


Os fenícios formaram, também, uma importante civilização na Antiguidade. A Fenícia situava-se numa faixa litoral mediterrânea onde hoje está o Líbano. O povo fenício foi responsável pela expansão das atividades comerciais da época e do desenvolvimento dos primeiros centros urbanos como Biblos, Sidon e mais tarde Cartago. O poder dos fenícios era o poder dos mais ricos e dos mais afortunados. Os fenícios inventaram o alfabeto, aperfeiçoado mais tarde pelos gregos, a maior contribuição para o progresso da humanidade. Outra invenção extraordinária foi a moeda, instrumento que veio facilitar as transações comerciais. Os fenícios foram chamados pelo Antigo Testamento de sidônios. Eles eram ligados aos cananeus da antiga Palestina. Os fenícios foram comandados pelo Egito até 1100 a C. Os hebreus foram chamados de filhos de Deus. Foram para o Egito onde permaneceram por 400 anos, sendo escravizados pelos faraós, só saindo de lá quando Deus determinou a Moisés que salvasse seu povo. A história dos hebreus está na Bíblia. O povo hebreu formou-se a partir das doze tribos que representavam os doze filhos de Jacob, Isaac e Abraham. Foi esse povo que fez nascer o Reino de Israel. Saul foi um guerreiro e lutou contra os amonitas e os filisteus. Ele foi substituido pelo Rei David, seu genro e da tribo de Judá. Com inveja de sua juventude e do já famoso Rei David, Saul suicidou-se com sua própria espada. O reino unificado de Israel teve no Rei David uma figura bondosa, embora tenha sido um aguerrido guerreiro em defesa de seu povo, reinando no período de 1003 a 970 a.C. O Rei David foi susbtituido pelo Rei Salomão, o rei mais sábio daquele tempo. O filho de Salomão que se chamava Roboão foi seu sucesssor, mas sem a sabedoria do pai. Logo as tribos começaram a guerriar entre si até a divisão do Reino de Israel, fazendo nascer dois reinos: o Reino de Israel e o Reino de Judá. Com a separação dos dois reinos, surge a crença de um novo messias para juntar o povo de Israel, fazendo estabelecer sobre o mundo o poder de Deus. Foi nesse período que ocorreram as duas principais e grandes diásporas judaicas, até surgir o Império da Babilônia que invadiu Jerusalém pela primeira vez. O povo hebreu espalhou-se por todos os lugares do planeta, até quando, então, foi criado o Estado de Israel, em 1948. Outra civilização muito importante na época foi formada pelos babilônicos. A Babilônia foi um importante império na Antiguidade e situava-se na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje está o Iraque. Para muitos historiadores, a Babilônia foi uma das bases da civilização humana. O Rei Hamurabi projetou a Babilônia para o mundo, a partir, sobretudo, de seu rigoroso código contendo leis severas de onde se extraiu o princípio universal “dente por dente, olho por olho”. O Código de Hamurabi foi o primeiro código escrito que a história conhece. Após a morte do Rei Hamurabi, a Babilônia perdeu seu status no mundo antigo, só voltando a conquistar no Reinado de Nabucodonozor que construiu uma grande muralha em torno da cidade, castelos e monumentos que se destacaram perante o mundo, como os Jardins Suspensos que foram, na época, uma das sete maravilhas no mundo antigo. A herança que herdamos dos antigos gregos é enorme. Foram eles que nos deram os primeiros conceitos de democracia, de cidades e cidadania, de filosofia e matemática, de poder territorial, desigualdade social e classe social. Diz a história que a civilização grega passou pela Civilização Minóica, com a participação de Creta e a Civilização Micênica. Foram os gregos antigos que mais influenciaram a hoje chamada de civilização ocidental e que nos ensinaram tudo que sabemos sobre herança territorial, um poder que marcou e continua marcando a história do ser humano. Os gregos deram nome às cidades-estados dos fenícios, chamando-as de pólis. Eles tinham suas pólis como Atenas, Esparta, Corinto, Tebas e Argos. Costuma-se dizer que a civilização


grega começou no século VI a.C. indo até o século I. Foi a civilização da Ilíada e da Odisséia de Homero, o poeta cego, de Hesíodo e Tales de Mileto, da Guerra de Tróia, (entre gregos e troianos) das Acrópoles nos locais mais altos da cidade, das Ágoras e dos Astris, do início das Olimpíadas, da Guerra do Peloponeso (conflito entre Atenas e Esparta), das Guerras Médicas (conflitos entre pólis gregas e persas), dos filósofos mais importantes da história (Sócrates, Platão e Aristóteles), de Sófocles, Hipócrates, Demóstenes e outros que marcaram o ápice da cultura grega.Foi a Grécia Antiga que incluiu no alfabeto as vogais e nos deixou a cultura helenística na filosofia, nas artes plásticas e no teatro. Muito do que temos hoje nas ciências humanas e exatas veio dos gregos antigos, através da cultura helenística. A Grécia Antiga nos deixa, também, uma herança oriunda de sua mitologia. Seus mitos e seus deuses eram importantes para o povo grego antigo. No mito existem sempre deuses ou semideuses, por vezes heróis. A mitologia grega e a mitologia romana estão cheias de mitos. Dizem os estudiosos que a mitologia é uma forma que os homens têm para explicar o mundo onde vivem. Entendemos que mito é aquilo que busca estabelecer ou encontrar uma verdade, sem ter qualquer base científica. Todo mito traz em si uma carga emocional muito forte, tornando-se uma maneira de encarar o medo ou a própria insegurança. Todo mito é baseado numa crença, cuja certeza está intrinsecamente vinculada à fé de quem acredita no mito. Para os gregos antigos, a luta pelo poder estava, sobretudo, na força de seus deuses. Eles não creditavam que os deuses tinham criado o universo, muito pelo contrário, eles acreditavam que o universo criara os deuses. O céu e a terra existiam e neles estavam os mais antigos deuses como os Titãs. Basta conhecermos a história de Saturno para ver como surgiu Zeus, que passou a mandar no mundo inteiro. Sua corte era formada por seus parentes: esposa, filhos, irmãos. Na época dos deuses já existia nepotismo, mesmo que divino. Fala-se que em 753 a.C. deu-se a fundação de Roma por Rômulo e Remo. Embora diga a história que se trata de uma fundação lendária, Roma foi muito poderosa e mandou no mundo inteiro. A civilização romana como a grega foi fundamental para a civilização ocidental. Roma passou pela monarquia, pela república até alcançar o maior status que um pais pode chegar, transformar-se num império absoluto com dominação em todo o mundo. O Império Romano foi o mais ousado império que a história conheceu. O poder do império era o poder do imperador. A lendária fundação de Roma pelos irmãos Rômulo e Remo é um episódio citado por vários historiadores, tendo sido Remo assassinado por Rômulo que se tornou o primeiro rei de Roma. Dizem os historiadores que depois do reinado de Rômulo, Roma teve, ainda, sete reis, terminado a monarquia com Tarquínio, o soberbo, em 509 a.C. A partir dessa data, instalou-se a República Romana com existência até 27 a.C. O poder do rei, em Roma, era completo, pois ia até a sua competência de contrariar o povo. A ele cabiam os poderes executivo, judicial e religioso. Os poderes das leis cabiam ao legislativo ou ao Conselho dos Anciãos, garantindo ao rei o poder de veto. A sociedade romana sempre foi muito hierarquizada, como militarista era Roma, garantindo a diferença entre ricos e pobres, entre aqueles que eram privilegiados e aqueles que não eram. Existiam os plebeus, que pertenciam à plebe, que eram os homens e as mulheres livres que se dedicavam às atividades comerciais, ao trabalho agrícola e ao artesanato; os patrícios descendiam dos lendários fundadores de Roma e eram os proprietários de terras. A palavra vem de “pater” que quer dizer pai. Eles já eram os grandes latifundiários da época. Os clientes eram integrados pelos romanos sem terra e que tinham sempre a proteção dos patrícios. Eram os afilhados. Os escravos eram aqueles a quem cabia trabalhar e ser castigado


Durante a República Romana, Roma transformou-se numa grande potência, dominando toda a península ibérica e o Mediterrâneo. Essa sua pretensão expansionista foi bastante combatida pelas cidades-estados de origem etrusca, chegando a ser criada uma liga - a Liga Latina - para combater a ousadia dos romanos em suas ambições territoriais. Nesse tempo de república, houve registro de fatos marcantes na história da Roma como o tratado de paz celebrado entre Roma e a Liga que recebeu o nome de Foedus Cassiamu, as antigas tribos de Sérvio Túlio, as aventuras do Rei Pirro na região que hoje é a Armênia, as Guerras Púnicas entre Roma e Cartago que era uma cidadeestado fenícia pelo fato de que ambos pretendiam o expansionismo em direção à África. Em 146 a.C. os romanos conquistaram a Grécia que se transformou numa província romana. Também foram conquistadas a Hispania e a Macedônia. Corinto foi incendiada. Em 52 a.C. com o jovem Júlio César, foram conquistadas as Gálias. Roma foi um estado militarizado, galgando sempre importantes conquistas de forma que pudesse garantir sua hegemonia. Mas a República Romana encontrou em seu próprio senado os freios que se faziam necessários para reduzir suas aspirações de dominação. Como potência que era, já contava com uma população superior a 30 milhões de pessoas, muito para aquela época, pretendia agora partir para conquistas no Oriente. O senado romano impôs medidas que reduzissem o poder dos procôsules ou pretores provinciais. Com essas medidas, o senado atingiria a ditadura de Lucio Cornélio Sula que fez voltar o cargo de ditador romano para si próprio. Para que ocorressem essas mudanças foi importante e fundamental a atuação de Marco Túlio Cícero, um dos grandes defensores da república. Com o colapso da República Romana, em 60 a.C. surgiu, então, o Primeiro Triunvirato, formado por Júlio César que era o favorito da plebe, Pompeu que havia triunfado na Hispânia e Crassus que era o homem mais rico de Roma. César teve poderes para conquistar e governar as Gálias, mas enfrentou reação nas Guerras Gálicas. César alcançou a glória e a fortuna que lhe faltavam para se igualar a Crassus e Pompeu. No decorrer do governo dos três homens, Crassus foi nomeado governador da Síria, tendo sido assasinado. Dos três homens que formavam o Triunvirato restavam César e Pompeu que passaram a disputar a liderança e a chefia do poder. Travou-se, então, uma disputa política entre os dois. Após ter derrotado os optimates, César tornouse ditador vitalicio dos romanos. Como ditador, em 49 a 44 a C., César instaurou o seu poder no senado, regulamentou a magistratura, mudou os governantes das colônias e implantou o calendário juliano, dentre outras coisas que realizou. Foi eleito pelo senado como o Pater Patria, o pai da pátria. Em 44 a.C. César espalhou por toda a Gália um regime de escravidão e perseguição aos gauleses. Após ter derrotado os optimates, César tornou-se ditador vitalicio dos romanos. Em 53 a.C. Júlio César tornase ditador de Roma, sendo em seguida assassinado por Crassus e Brutus. Veio, então, o Segundo Triunvirato formado por o Otaviano, Lépido e Marco Antônio. O territorio romano foi dividido entre os três senadores, mas a parte correspondente a Lépido foi logo anexada por Otaviano. A Marco Antônio coube a parte oriental da república e o Oriente Médio. No entanto, Marco Antônio redigiu, no Egito, para onde se mudou, um testamento no qual deixaria as províncias a seus filhos com Cleópatra, quando morresse.Este testamento foi usado por Otaviano para acusá-lo perante o senado de ter sido manipulado por Cleópatra a deixar parte do território nas mãos do império egípcio. O senado, por sua vez, deu autorização a Otaviano para perseguir Marco Antônio, que se suicidou juntamente com Cleópatra, em 30 a.C. Desta forma, Otaviano se consolidou sozinho no poder e transformou o Egito em mais uma província romana.


Em 27 a.C. nascia o Império Romano unificado que se caracterizava como uma forma autocrática de governo na civilização romana. Em 200 d.C. começou o declínio do Império Romano. Em 337 d.C. o Imperador Constantino tentou unificar os impérios. Em 395 d.C. após a morte do Imperador Teodósio, o Império Romano que por ele teria sido dividido em dois: o Império do Oriente ou Império Bizantino com capital em Constantinopla, e Império do Ocidente com capital em Roma, foram ocupados por seus filhos. O Império do Ocidente existiu durante 80 anos, enquanto que o Império do Oriente durou até 1453. Em 476 d.C. foi deposto o último imperador Rômulo Augustus por Odoarco, líder e rei dos héculos que os romanos consideram bárbaros. Assim termina o Império Romano do Ocidente, permanecendo o Império Bizantino. E aqui termina a Antiguidade e começa a Idade Média para os europeus. Mas o mundo crescia e com ele a ganância pelo poder passou a ser prioridade nos sonhos do ser humano. A história de paises como a China, a Índia e o próprio Japão está cheia de lutas e batalhas que foram travadas não só pela ânsia de descobertas, mas pelo poder em si próprio. A história da China, segundo os historiadores especializados em assuntos chineses, remonta do século III a.C. e é uma das mais antigas civilizações do mundo. Várias foram as dinastias que mandaram na China Antiga, passando pelo Império até chegar à República Popular da China. Alguns exemplos de dinastias foram marcantes na história do povo chinês. Na China Antiga se destacaram as dinastias Xia, Shang e Zhou. No Império, as dinastias Qin, Han, Sui, Yangdi, Tang, Song e Ming. Em 214 a.C. é construída a Grande Muralha na China. Em 543 a.C. nasceu Buda, cujo papel foi importante para implantação do budismo na Ásia. Em 520 a.C. Buda teve seu apogeu na Índia. Ele morreu em 483 a.C. Em 551 a.C. nasceu Confúcio, cujo apogeu deu-se na própria China, em 510 a.C. Confúcio morreu em 479 a. C. A Índia também se inclui entre os países que tiveram representatividade desde as primeiras civilizações humanas. Essa civilização chamou-se Civilização do Indo, que é um rio chamado Indus. Assim é chamada porque foi estratégica para os primeiros centros urbanos indianos, logo seguida pela civilização védica, onde se misturaram a cultura indiana e a cultura ariana, até nascer o hinduismo. A Índia foi invadida pelos persas, pelos gregos e por Alexandre, o Grande. Foi com a dinastia Gupta que se deu a unificação da Índia. Depois vieram os Hunos Brancos, os estados-islâmicos até ser criado o Império Mongol. Em 1757 a Índia tornou-se colônia britânica. Foi também na antiguidade que ocorreram fatos como a morte de Felipe II e a ascensão de Alexandre, o Grande, que se tornou Rei da Macedônia, em 336 a.C., o nascimento de Jesus Cristo, que iniciou uma nova era, a era cristã, morrendo crucificado em 30 d.C. Embora o Japão, detentor do Monte Fuji, tenha ficado isolado durante muitos séculos, teve também sua mitologia e suas lendas como Roma. Tudo começou quando “Certa vez, Amatsugami (Deus do Céu) deu a Izanagui uma arma enfeitada, confiandolhe a tarefa de criar o Japão. Izanagui e a esposa dirigiram-se para a “Ponte do Céu” e no meio da ponte pararam para observar a terra viscosa lá em baixo. Logo, o jovem marido esticou o braço e enfiou sua arma sagrada dentro da lama, remexendo-a. Quando a retirou, caíram algumas gotas de lama da ponta, que logo se cristalizaram em sal, e por sua vez transformaram-se em ilhas. Vendo a ilha que acabaram de criar, Izanagui e a esposa atravessaram a “Ponte do Céu” e desceram para lá, onde fizeram um acordo entre si para criar novas ilhas e assim, deram origem ao arquipélago japonês.” Amaterassu Omie, que se supõe ter sido filha do casal, era chamada de “Deusa do Sol”. É a deusa mais importante na mitologia japonesa, por isso ela é da família imperial japonesa e se diz que o Japão é a terra do sol nascente. O Japão teve sua origem na Pré-


História, passando pelo Império de Nara, o feudalismo de Kyoto e o imperialismo japonês na Ásia. Mantém sua família imperial dede o século VI d.C. Conclusão Se fugirmos da lógica europeia quando divide os diversos períodos da existência humanidade, existem divergências entre historiadores sobre o início e término da Antiguidade. Não importa a concepção que se dê à Idade Antiga. O importante é que foi um período vivido pelos humanos e que muito contribuiu para o desenvolvimento da humanidade, desde a escrita e um cabedal de inventos permitindo o crescimento do homem e de seu meio. A Antiguidade não diz respeito apenas à Europa e ao Oriente. Ela desempenhou um papel em outras civilizações como a China, a Índia e o Japão. Alguns aspectos foram marcantes nesse tempo da história e vários foram os legados da Antiguidade que influenciaram o mundo contemporâneo. Dentre eles as técnicas militares, a democracia, o zelo pelo corpo. Grandes inventos, também, ainda permanecem até hoje, como a arma de fogo baseada na balística, os desenhos e suas técnicas, a medicina primitiva, o esporte e a forma de competir, a contribuição à filosofias do conhecimento e a descoberta da escrita, sobretudo.. A Antiguidade que também pode ser chamada de Idade Antiga foi importante para a história da humanidade e das civilizações porque foram muitos os marcos de desenvolvimento ocorridos, como na agricultura e na pecuária. Surgiram as cidadesestados, foram organizados os sistemas monárquicos no território europeu e na Ásia, a democracia teve lugar de destaque na Grécia antiga, Roma desenvolveu seu papel de poder junto aos romanos e ao mundo da época, a filosofia ocupou lugar na inteligência das pessoas, houve um crescimento das artes e surgiram as ciências com seus papéis distintos e definidos para o mundo do conhecimento. O homem começou a falar e escrever seus sentimentos, suas ideias e suas vontades.105 Roma desenvolveu um importante papel na separação das duas eras, pois a história diz que foi a queda do Império Romano do Ocidente que demarcou o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média. Os romanos como os gregos tiveram seus mitos como a fundação da cidade por Rômulo e Remo e outro muito conhecido na história como o Rapto das Sabinas. O legado romano deixado à civilização ocidental foi extenso e muito rico, desde as línguas neolatinas originárias do latim, como o italiano, o francês, o português, o espanhol e o romeno, passando pelo direito (direito romano), a religião e a cultura em geral. Os romanos nos deixaram, dentre outras coisas boas, Virgílio, autor de Eneida, as poesias de Horácio, o talento e o exemplo de Cícero. Foram deles os pensamentos sobre epicurismo e estoicismo, este último que tem o filósofo Sêneca como seu principal representante. Eles foram sábios e souberam assimilar aspectos importantes da cultura dos povos que venceram, sobretudo, os gregos, sem que perdessem sua cultura original.

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Diz a história que formam civilizações da antiguidade oriental, a Mesopotâmia os hebreus, o Egito Antigo, os persas e fenícios, dentre outros. Já na antiguidade clássica temos a Grécia e Roma antigas.


REFERÊNCIAS CANTELE, Bruna Renata. História Dinâmica Antiga e Medieval. São Paulo: IDEP, 1989. CARDOZO, Ciro Flamarion. Sete Olhares sobre a Antiguidade. Brasília: UNB, 1998. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992. DREIFUSS, René Armand. Política, Poder, Estado e Força: uma leitura de Weber. Petrópolis: Vozes, 1993. FINLEY, Mores I. Aspectos da Antiguidade. São Paulo: Martins Fontes, 1991. LISSNER, Ivar. Assim viviam nossos antepassados. Belo Horizonte: Itatiaia, 1968. PETIT, Paul. História Antiga. São Paulo: DIFEZ, 1976.


NOVOS ACHADOS PARA A MEMÓRIA DA VILA VELHA DE VINHAIS LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão Universidade Estadual do Maranhão DELZUITE DANTAS BRITO VAZ Centro de Ensino Médio “Liceu Maranhense”

Mudamo-nos para o Conjunto Recanto Vinhais no final de 1980. Foi quando tomamos conhecimento da existência da Vila Velha de Vinhais e de sua hoje quatro centenária Igreja de São João Batista. A partir de 1984/85 iniciou-se um movimento dos moradores para reabertura da Igreja, sua recuperação física, para que houve condições de receber um padre. Sede de paróquia desde 1757 estava sem titular com os fiéis tendo que se dirigir, à época, para a Igreja da Cohama; esta assistia quando possível aos moradores da Vila Velha; Mas a igreja já estava sem condições de uso, com o teto em ruínas. Foram quase dez anos de trabalho, para a reconstrução da Igreja, não só a física... Finalmente tínhamos padre fixo – Padre Dr. Raimundo Gomes Meireles, quando em 1997 fomos surpreendidos de que a sede da paróquia passara a ser a Igreja de Nossa Senhora aparecida da Foz do Rio Anil, localizada no bairro do Cohafuma, recém-construída... Quando Dom Belisário baixou ordem de retomada da titularidade como paróquia – suprimida em 1997 – de muitos vinha recuperando a memória e escrevendo a História daquela Comunidade e de sua Igreja. No dia 20 de outubro de 2012, ao completar 400 anos daquele dia em que foi rezada a primeira missa no local, por missionários capuchinhos franceses, aqui acompanhando Daniel de LaTouche, foi lançado documentário sobre a Vila. Continuamos buscando fatos e acontecimentos relacionados com a existência da Vila Velha de Vinhais – ou Vinhais Velho, como muitos costumam se referir àquela Comunidade – e de sua Igreja de São João Batista. Veio juntar-se a nós outra moradora, professora de História da Universidade Federal do Maranhão, Dra. Antonia Mota. As ‘notícias’ sobre a Vila de Vinhais que hoje trazemos constam de registros do Arquivo Público do Estado do Maranhão – APEM – do CATÁLOGO DOS REGISTROS GERAIS – registros de Atos e da Correspondência do Reino e do Governo do Maranhão 1754-1828, vol. 1 (2009) 106: 2872 Patente de capitão-mor da vila de Vinhais a Ricardo Henrique Leal. Rio de Janeiro, 21 de abril de 1819 Maranhão, 24 de novembro de 1819 Fls. 25v-26, do Livro 20 (1818-1828).

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MARANHÃO, Secretaria de Estado de Cultura – Arquivo Público. CATÁLOGO DOS REGISTROS GERAIS – registros de Atos e da Correspondência do Reino e do Governo do Maranhão 1754-1828. São Luis: SECMA, 2009, vol. I, p. 362


Do mesmo CATÁLOGO DOS REGISTROS GERAIS – registros de Atos e da Correspondência do Reino e do Governo do Maranhão de 1822-1885. São Luis: SECMA, vol. II (2012) 107: 3263 Confirmação de alferes da Companhia Avulsa, novamente criada na vila de Vinhais, a André Ferreira da Silva Porto. Lisboa, 7 de dezembro de 1822 Maranhão, 16 de junho de 1823. F.29v – 30 (do Livro 21 (1822-1847) Registros de confirmação de patentes, decretos, alvarás imperiais, carta de data e sesmarias, diplomas, portarias e patentes. Embora conste do Índice Toponímico (p. 507-527) sob o verbete Vinhais duas entradas, no local indicado da segunda, L-26, p.182-183 (p. 342) consta ser 5664 – titulo de recondução de conselheiro a presidente da Relação de São Luis (p. 182); 5665 – titulo de nomeação de juiz municipal e órfãos nos termos de Viana (p. 182-183); 5666 – titulo de nomeação do oficial de escrivão da Provedoria de Capelas e Resíduos da província do Maranhão (p 183). Outra obra lançada pelo APEM em 2012 dá-nos mais informações sobre a Vila Velha: REPERTÓRIO DE DOCUMENTOS PARA A HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO NO MARANHÃO 1754-1840108: 1444 Oficio do comandante geral da vila do Paço do Lumiar ao ajudante de ordem do Governo participando ter mandado dois capitães do mato, deste dsitrito, a explorar as matas dos Vinhais, por ter notícias da existência de muitos negros fugidos; foi encontrado um negro que resistiu à prisão e entrando em luta com um capitão, ambos fugiram e o negro, para não ser apanhado, matou-se. Quartel da vila do Paço do Lumiar, 29 de abril de 1827. Cx. 0174, maço 00961. 1626 Oficio do juiz de paz suplente da vila dos Vinhais informando a recepção do seu ofício, pelo qual determina aos oficiais de quarteirões, desta vila, realizarem a vigilância em sítios, fabricas, e nos desembarques, que costumam trazer os contraventores do Tratado do Comércio dos Escravos desta província. Jaguarema, 07 de junho de 1831. Cx. 0526, maço 03368 Outra obra – esta lançada durante a feira do Livro 2012 -, e de autoria de JOSEH CARLOS ARAUJO109 nos trás à página 65-71 o capitulo “O duro desabafo de Mamboré-uaçu” onde os moradores da também espaçosa aldeia de Eussauap, com a presença do honrado católico senhor de Pézieux como hospede do principal Tatuaçu pensavam ter um dos padres capuchinhos ali residindo,

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MARANHÃO, Secretaria de Estado de Cultura – Arquivo Público. CATÁLOGO DOS REGISTROS GERAIS – registros de Atos e da Correspondência do Reino e do Governo do Maranhão 1754-1828. São Luis: SECMA, 2009, vol. II, p. 14. 108 MARANHÃO, Secretaria de Estado de Cultura – Arquivo Público. REPERTÓRIO DE DOCUMENTOS PARA A HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO NO MARANHÃO 1754-1840. São Luis: SECMA, 2012, vol. I, p. 238; 272. 109109 ARAUJO, Joseh Carlos. CRONICAS DE SÃO LUIS – 1612: a fundação da cidade sob o olhar tupinambá. Imperatriz: Ética, 2012.


“ [...] era implorada a permanência de um religioso na igrejinha, construída com esse fim. A comissão pastoral, por suavez, lamentava a impossibilidade de atendê-los de imediato, pois um dos quatro missionários retornaria em breve para a França. Com a perda irreparável ocasionada pela morte recente do padre Ambrósio de Amiens110, restavam dois: um servindo Juniparã e o outro assistia a francesada, ao lado do Forte. “À tarde, após a rotineira fincada da cruz, seguida de uma concorrida missa dominguiera ainda pela manhã, se achegaram d´Razilly com o interpetre Des Vaux e d´Abeville, acompanhados pelos principais e comunitários locais e da redondeza, para uma reunião na casa Grande. [...]”(p. 65-66). Mais adiante, sob o titulo “embaixadores muito loucos’ (p. 95-106), o autor nos dá noticias do embaixador da aldeia de Uçaguaba à França: Carypyra, de idade entre 60 e 70 anos, conforme afirma d´Abeville; estava entre aquele que morreram quando da chegada: “creio ter-lhe escrito que tínhamos aqui seis tupinambás. Um morreu há dois dias, tinha 80 anos [...] todavia pode-se dizer que morreu jovem [...] há ainda dois doentes [...]. (MALHARBE, 1971, p. 558 apud PIANZOLA, 1991, p. 22)111”. “[...Tratava-se de um tabajara que fora batizado com o nome de Françoise em homenagem a de Razilly, seu padrinho. Morrera em 29 de abril, de uma catarreira acompanhada de febre e inflamação dos pulmões [...]”

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O padre faleceu a 09/10/1612 de uma paralisia com febre ardente que o devorava a partir do final do mês anterior. Foi sepultado na igrejinha junto ao Forte de São Luis, considerado o primeiro óbito notável decorrido no Maranhão. 111 PIANZOLA, Maurice. OS PAPAGAIOS AMARELOS: os franceses na conquista do Brasil (século XVII). São Luis: Alhambra, 1991.


Para Araujo (2012) os três nativos, considerados embaixadores, foram vitimas do frio boreal europeu, com infecção pulmonar: “Caririra, entre 60 e 70 anos de idade, pertencia à nação Tabajara. Respeitado guerreiro, venceu mais de 20 batalhas. Viajou a França recomendado pelos seus pares de Uçaguaba (atual Vinhais Velho). Com o nome cristão François foi o primeiro a façlecer (29/04/1613) em solo gaulês.[...] sepultado no Convento dos capuchinhos, em Paris.” (. 117). Em “A Amazonia na era pombalina”, de Marcos Carneiro de Mendonça (edições do Senado Federal, volume 49-C, Tomo III, Brasília, 2005) em correspondência de Francisco Xavier de Mendonça Furtado ao Governador da Capitania do Maranhão, do dia 15 de maio de 1757, referindo-se à atuação dos jesuítas fomentando a rebelião entre os moradores, contrários à libertação do cativeiro dos índios: “Por cujos fundamentos V. Sa. elegerá a Vila, aquela povoação chamada Doutrina, entregando aos Padres os escravos pretos e filhos das pretas somente, e todos os mais moradores devem ficar naquela povoação [...]” (p. 261). Em carta ao “Comissário Provincial ou quem suas vezes fizerem no Comissionarato de Sto. Antonio do Maranhão”, datada de 15 de maio de 1757, referindo-se ao Alvará com força de lei de 7 de junho de 1755, manda remover da administração temporal os Regulares deste Estado [do Maranhão], que se diziam proprietários das terras das aldeias indígenas: “[...] nenhuma Religião pudesse ter aldeias de índios forros de administração [...]; e devendo compreender-se nela as Doutrinas que os religiosos Cartuchos conservavam em uma e outra Capitania [...] não eram as ditas Doutrinas mais do que umas Aldeias de Índios forros, que os sobreditos Religiosos administram; me foi remetido um requerimento que fez ao Governador desta capitania o Pe. Guardião desse Convento Frei Miguel do Nascimento, tão irreverente, absoluto e escandaloso [...] pretendendo embaraçar a execução das reais leis do Soberano [...] até se esqueceu de que era Religioso, alegando a favor do seu Convento, que possuía as terras em que estava situada a referida Doutrina, por título oneroso de compra e venda, quando na Sagrada Religião de S. Francisco não há mais Patrimonio que a Santa Pobreza e a Caridade dos Fiéis.” (p. 262).


nA Mテ好IA


MEMBROS DO IHGM SÃO CONDECORADOS http://ihgm1.blogspot.com.br/

Dois dos nossos ilustres membros, foram agraciados com a Comenda do Mérito Timbiras, a mais alta honraria concedida pelo Governo do Estado do Maranhão. São eles, o professor Aymoré Alvim, diretor do IHGM e o confrade, José Jorge Leite Soares, membro efetivo, ocupante da cadeira de número 34. Ambos foram escolhidos para ingressar na Ordem dos Timbiras, no grau de Comendador.

AYMORE e sua irmã MOEMA

JOSÉ JORGE LEITE SOARES

A solenidade foi dia 21 de dezembro, no Palácio dos Leões. 507 personalidades das mais diversas áreas foram contempladas com a Medalha Ordem dos Timbiras, no Grau de Comendador do IV Centenário de São Luís. Políticos, jornalistas, intelectuais, reitores, representantes da cultura popular, de instituições, do poder público municipal e estadual, políticos, empresários, pregoeiros, artistas, pessoas ligadas ao esporte maranhense, entre outros, foram homenageados por terem se destacado na prestação de relevantes serviços prestados ao estado do Maranhão, especialmente à capital maranhense, que neste ano comemora seu quarto centenário de fundação. A Ordem dos Timbiras foi instituída pela Lei Delegada no 160, de 4 de julho de 1984, e regulamentada pelo Decreto no 10.346, de 30 de janeiro de 1987. A Medida Provisória no 136, de 13 de novembro de 2012, assinada


PRESIDENTE DO IHGM PARTICIPA DE CONFRATERNIZAÇÃO DA GOVERNADORA DO ESTADO

A Profa. Dra. Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão foi convidada para participar da Festa de Confraternização da Governadora do Estado, Roseana Sarney. O evento ocorreu 19 de dezembro, na Ponta D’Areia.


Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, No 40 (2012) http://seer.bce.unb.br/index.php/estudos/article/view/7997

ANÁLISE CULTURAL DO TORRÃO DOS INFERNOS: IMAGINÁRIO DO MAL NAS POÉTICAS DE DANTE MILANO E NAURO MACHADO Texto dedicado à psicanalista Adriana Cajado Costa (1973-2012), esposa do autor, falecida neste ano

ALEXANDRE FERNANDES CORRÊA112 Resumo O artigo faz uma introdução à anális e cultural do imaginário do mal expresso nas obras de dois poetas brasileiros de regiões diferentes do país. Trata-se de um estudo comparativo entre as poesias de Dante Milano (RJ) e Nauro Machado (MA), por meio do qual propomos uma escavação arqueológica dos vestígios da representação do mal no inconsciente social e literário

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Doutor em antropologia e professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão, São Luiz (MA), Brasil. E-mail: alexandre.correa@pq.cnpq.br .


Cadernos de Estudos Culturais – UFMS. 6a. Edição - Eixos Periféricos. 2012 Texto: FESTAS PÚBLICAS E COMEMORAÇÕES HISTÓRICAS NA PERIFERIA DO SISTEMA-MUNDO: RITANÁLISE DO IV CENTENÁRIO DE SÃO LUÍS/MA. Autor: Alexandre Fernandes Corrêa (CRISOL/IHGM/UFMA). http://necccadernos.blogspot.com.br/


ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA - ABA - 2012 TAMASO, Izabela e LIMA FILHO, Manuel Ferreira (orgs.) (2012), Antropologia e Patrimônio Cultural trajetórias e conceitos. Goiânia: ABA Publicações.

TEXTO: NOVOS DÉDALOS DA MODERNIDADE TARDIA: Investimentos na sociotécnica da cultura, do patrimônio e dos museus. (P. 75-110). Autor: CORRÊA, Alexandre Fernandes (CRISOL/IHGM/UFMA). Link ABA: http://www.abant.org.br/news/show/id/3


NATAL E ANO NOVO OSVALDO PEREIRA ROCHA Publicado no JP de 23/12/2012, página 8. “Eu sou o caminho, a verdade e vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jesus Cristo). Dezembro é o mês do aniversário de nascimento de Jesus Cristo, comemorado no dia 25, dia do Natal, data magna da Cristandade. É tempo de nos prepararmos para o recebimento do menino Jesus; de se olhar para o mundo; de se agradecer ao Grande Arquiteto do Universo, que é Deus, pela vida; de se apreciar o milagre da vida e de alimentar a chama do amor. É tempo de recebermos o Menino Jesus, Deus Filho, que veio ao mundo para sofrer até a morte, pregado em uma cruz, em perdão dos nossos pecados. É tempo de refletir sobre tudo que realizamos ou deixamos de realizar; de seguir com atenção e humildade os passos dos pastores e os daqueles e daquelas que têm coração simples e, em gestos de ternura, sintonizar mentes e aconchegar corações. Natal é tempo de pensar no irmão e na irmã próximos e distantes e de colaborar eficazmente para o renascimento do amor. Não percamos esta oportunidade ímpar de aprimorar nossos dons de fazer o bem; de dar de si antes de pensar em si, ciente de que mais se beneficia quem melhor serve. Lembremo-nos da máxima “quem não prestar para servir, não serve para viver”! É tempo de amorosamente recompor a vida, perdoar e abraçar, com ternura; da misericórdia do Coração de Deus; de nos lembrarmos de nossas infâncias e dos anos que já vivemos, graças ao Grande Arquiteto do Universo. É tempo de desejarmos aos homens e às mulheres, especialmente aos nossos familiares, aos irmãos, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas da família maçônica, aos confrades e às confreiras do IHGM, aos colegas de ambos os sexos do Ministério do Trabalho e Emprego no Maranhão, aos companheiros e companheiras rotarianas, aos diretores e servidores do grande Jornal Pequeno, aos integrantes da Marinha do Brasil e do Exército Brasileiro, aos maranhenses e às maranhenses, e aos brasileiros em geral, de boa vontade, um Natal Feliz e um Ano Novo (2013) cheio de saúde, prosperidade, alegria, amor e Paz. Boas festas, todavia sem excesso algum. E, principalmente, não deixem de convidar para a mesma o Ilustre Aniversariante, Jesus Cristo! “Não existe caminho para a Paz. A Paz é o caminho!”.


O PACTO DAS CATACUMBAS RAIMUNDO GOMES MEIRELES Poucos católicos têm conhecimento do Pacto das Catacumbas na Igreja Católica. Recentemente a 10ª Semana Teológica do IESMA -- Instituto de Ensino Superior do Maranhão, que teve como tema “Fé e Política”, trouxe a lume o assunto ora mencionado. Dom Antonio Batista Fragoso, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Luís (19571963), primeiro reitor da Universidade do Maranhão, juntamente com o arcebispo Dom José da Mota e Albuquerque, foram membros ativos signatários do Pacto das Catacumbas. Na verdade, trata-se de um documento firmado em 16 de novembro de 1965, por quarenta bispos da Igreja Católica Apostólica, nas catacumbas de Domitila, em Roma, no período da realização do Segundo Concílio Vaticano, após celebrarem juntos a Eucaristia. O papa João XXIII, “il papa buono”, como era conhecido pelo povo italiano, inaugurava a era de uma igreja “servidora e pobre”, distanciada de pompa e da identificação com os ricos avarentos, na tentativa de eliminar por completo a noção de “igreja triunfalista” deixada pelo Concílio de Trento. Compromissos. O documento firmado contém os seguintes itens de compromisso: Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção; Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa; Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, em nosso próprio nome; caso necessário, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas; Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos; Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (eminência, excelência, monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de padre; No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos); Evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como participação normal no culto, no apostolado e na ação social; Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da


diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho; Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes; Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus; Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na ascensão do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral — dois terços da humanidade, comprometemo-nos: a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres; a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria; Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim: esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles; suscitaremos colaboradores para serem mais animadores segundo o Espírito, do que uns chefes segundo o mundo; procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores; mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião; Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces. Os bispos encerraram o compromisso alhures declarando: “Ajude-nos Deus a sermos fiéis”. Dom Antônio Fragoso, um dos últimos remanescentes do Pacto das Catacumbas, foi fiel até o final de sua vida às prerrogativas do referido Pacto: sua postura foi sempre de um homem simples e humilde, morreu no sábado do dia 12 de agosto de 2006, pobre e despojado de bens materiais.


MOMENTOS DE FALAR E CALAR OSVALDO PEREIRA ROCHA Participei de uma palestra que durou menos de trinta minutos, posto que o palestrante primou pela objetividade e, por isso mesmo, agradou a todos os presentes. Mas a alegria durou pouco, ou seja, dada a palavra a quem pretendesse perguntar alguma coisa, um dos ouvintes dela fez uso, por quase vinte minutos, tecendo elogios, erguendo o dedo quando falava com voz alta e fez questão de repetir quase tudo que o palestrante dissera. Alguns dos presentes fingiam meditar sobre as palavras do impertinente, todavia, cochilavam. Eu fui um destes. Lembrei-me das palavras de Jesus Cristo que disse publicamente o seguinte: quando fores convidado por alguém para uma festa ou reunião, não te sentes no primeiro lugar do auditório, pois talvez tenha sido convidado alguém mais importante do que tu e aquele que convidou os dois venha e te diga para ceder o teu lugar para aquele. Então tu, envergonhado, irá ocupar o último lugar. Quando fores convidado, senta-te no último lugar para que, quando chegar quem te convidou te diga amigo, vem mais para perto da mesa diretora dos trabalhos. Então terás grande honra na presença de todos os convidados. Em eventos de qualquer natureza, não é bom fazermos uso da palavra sem necessidade, principalmente depois de o assunto principal ter sido abordado e com acerto por quem de direito. Se houver alguma pergunta pertinente ou observação inteligente, que represente prestígio para o palestrante, tudo bem, isto é, fale em poucas palavras, algo que tenha conteúdo. Não seja repetitivo. Eis algumas regras recomendadas para os momentos: pense bem antes de falar para não cometer tolices ou servir de chacota quando estiver ausente; se você não tem nada para dizer, fique calado, ou seja, economize a voz e poupe os ouvidos alheios; se o que você tem para dizer não é positivo, conciliador e construtivo abstenha-se de falar, pois mais valem dois marimbondos voando do que um na mão; nunca despreze a inteligência das pessoas participantes, com você, de um evento que poderão lhe fazer sombra; aprenda com as palavras suaves dos pacificadores e com suas ações. Afinal, a melhor lição está no exemplo e lembre-se sempre de que o amigo é aquele que tem coragem de lhe corrigir e de lhe dizer não. Nunca é demais lembrar que amigo é aquele que, se ouvir elogios exagerados a você, os corrige, e se ouvir alguém falar mal de você, lhe defende; que a morte virá para todos nós e cada um será lembrado apenas pelo que fez e pelo amor que soube dar e receber e que ninguém será lembrado pelos discursos que fez. Lembre-se, finalmente, que Deus fez o homem e a mulher com dois ouvidos e uma boa, por certo para que saiba ouvir muito e pouco falar. Neste ano de 2013 e nos subsequentes, seja humilde, tolerante e harmônico. (Artigo baseado em matéria do Irmão Maçom Otavio Vieira Machado, denominada Desconfiômetro).


O PULSO E O FUTEBOL. AYMORÉ ALVIM 8 DE JANEIRO DE 2013 22:55

Eu tinha 10 anos. Fazia o quarto ano do primário, no Grupo Escolar Odorico Mendes, com a profa. Maria Quitéria Cerveira ou dona Quita. À tarde, dona Inez colocou Moema e eu para estudar particular com dona Lizete Beckman, cuja escola funcionava, na casa de seus pais, Seu Joca Beckman e dona Antoninha, na Rua Odilon Soares logo após o atual prédio do Banco da Amazônia. Essas aulas à tarde eram um problema para mim, pois me impediam de jogar a pelada de quinta-feira, no campinho da Praça da República, hoje, José Sarney, ou, na quadra do Grupo Escolar Odorico Mendes. Dona Inez falou com dona Lizete para não permitir a minha saída antes das 18 horas. Isso impediria minha participação nas peladas. De vez em quando, dava o meu jeito de burlar tal vigilância. Ora pedia ao Seu Joca falar com a filha para eu ir comprar pão ou querosene para ele ou, então, pedia para Agostinho, afilhado de meu pai que morava em nossa casa, para ir dizer à dona Lizete que mamãe havia mandado que ela liberasse mais cedo eu e Moema. E, assim, ia conseguindo escapulir para bater uma bolinha com a turma: Leitinho, Erasmo, Zé Soeiro, Benedito Santos, Vavá de Zilza, Coruja, Ubirajara, Zé de Militina, Marcelino, Careca, e outros que ora não me lembro. Moema, para não ir para casa, ficava na torcida. Os técnicos eram Tinche e Levi. A bola era de meia ou de seringa. Às vezes, Tinche levava uma bola de couro que ele havia costurado. Tinha uma câmara de borracha por dentro que era enchida com uma “bomba de pito” do mestre Galho, na oficina de Seu Zé Pedro. Eu jogava de goleiro ou de “fubaque” (zagueiro) devido a minha altura. Mas essas minhas malandragens já estavam ficando manjadas e as dificuldades para escapulir eram cada vez maiores. Certo dia, uma amiga da minha mãe contou-lhe como uma senhora havia morrido. O pulso foi ficando cada vez mais fraco, foi subindo, subindo e quando chegou ao coração ela morreu. (Chama-se pulso os batimentos da artéria radial que são captados por uma leve pressão dos dedos sobre a parte lateral externa do antebraço logo acima das mãos). Fiquei impressionado com tal relato. Pegava de vez em quando o meu pulso para ver se estava subindo. Certo dia, resolvi tirar proveito disso. O relógio estava próximo de marcar 17 horas. A turma estava me esperando. Já não sabia o que inventar. Aí me lembrei do pulso. Joguei-me, em cima da mesa, tremendo. - Oh! Meu Deus, Ai! Mamãe, eu vou morrer. Dona Lizete aflita: o que foi menino? Oh! meu Deus! Foi um alvoroço danado, nessa hora. - Ai! Eu vou morrer, meu pulso tá subindo. - Oh! Menino, eu vou te levar para Seu Zé Alvim. - Não é preciso. Eu vou correndo com Moema.


- Nada disso, vamos todos levar Aymoré para o pai dele. Ele não pode morrer aqui. Eu pensei: Não prestou. Melou tudo. “Tô lascado”. Quando passamos, em frente à praça, alguém perguntou: O que “pisca moderna” tem? Um deles respondeu: tá morrendo. Aí, a turma toda nos acompanhou. Quando nos aproximamos da Farmácia, vi meu pai de pé à porta. - Seu Zé Alvim, eu trouxe o Aymoré. Ele disse que está morrendo, Que o pulso dele está subindo. Faça alguma coisa. - Pode deixar, professora, respondeu meu pai com muita calma, o que lhe era peculiar. O pulso dele vai já voltar pro lugar. E se virando pra mim: Moleque safado, vá já pra sala de operação que eu vou fazer teu pulso baixar num instante. - Não é preciso, papai, já estou sentindo ele aqui de novo. - Inez, pega a palmatória e esquenta a mão desse “moleque” para ele saber respeitar a professora. E, assim, tive que me aposentar do futebol, na Praça da República.


TÃO PERTO, TÃO DISTANTE. NATALINO SALGADO FILHO A Revista Isto é, em reportagem especial no dia 21 de dezembro passado, abordou um tema que revela uma verdadeira revolução no mundo da prática da espiritualidade: as igrejas cristãs no Brasil – católicas e protestantes – estão investindo nas várias possibilidades que a internet oferece hoje. Num mundo em que apenas uma rede social agrega mais de um bilhão de pessoas, e a educação, comércio, comunicação, serviços de toda sorte se realizam de forma virtual – ressaltando que grande parte da vida atualmente se dá neste meio –, é natural explorá-lo também no aspecto da fé. Essas possibilidades, que a internet oferece, são imensas. Basta lembrar que qualquer serviço ali estará disponível 24 horas, todos os dias do ano, a custos relativamente menores que nas versões físicas que, por natureza, exigem espaço, deslocamento e gasto muito maior com energia e pessoal. É impossível imaginar o mundo atual sem a internet. Trata-se de mais um presente da tecnologia oferecido a nós, homens e mulheres desta época, algo nunca sonhado por aqueles que nos antecederam. Segundo o sociólogo espanhol Manuel Castells, a internet é mais do que uma tecnologia, é um meio de comunicação, de interação e de organização social. O impacto dessa tecnologia é tão grande que não há uma única área da atividade humana que não tenha sofrido alguma transformação. Cito duas, ainda que incipientes no Brasil: o judiciário, principalmente após a lei 11.419/06 – que trata da informatização do processo judicial –, numa tentativa de aproximar-se do ideal de Norberto Bobbio que pregou a efetivação/concretização dos direitos humanos; e a medicina, cujos avanços permitem unir médicos em cirurgias a distância. Considerando as dimensões continentais de nosso país e a desigual distribuição de serviços de saúde de qualidade, a utilização dessas ferramentas contribui para a diminuição dos atuais entraves enfrentados pela saúde pública. Entretanto, a despeito desses feitos dignos de reconhecimento, acredito que a tecnologia associada à virtualidade do ciberespaço também tem seus limites, particularmente no que tange à espiritualidade. Em todas as eras, a fé cristã se materializa na relação com o outro, fisicamente falando. Por definição, ela sempre é comunal. Isso não quer dizer que seja errado o uso dos meios disponíveis para a divulgação da fé. Dilemas semelhantes também foram levantados em relação à telefonia, ao rádio e, posteriormente, à televisão. Porém, essas formas de comunicação são infinitamente limitadas em comparação com a internet, pois esta sugere e simula uma presença que, de fato, não supre aquilo que é a pedra de toque no cristianismo: o contato. As redes sociais, que são o exemplo mais aproximado da participação em um serviço religioso, considerando aqui o fator relacionamento (a despeito da defesa apaixonada de milhares de pessoas), são acusadas de produzir uma geração de indivíduos isolados, cujas vidas se passam na virtualidade, distantes das trocas humanas reais que não podem ser substituídas.


Ouvir/ver uma pregação ou homilia via internet, até mesmo assistir a um serviço religioso, tem o seu lugar desde que não haja a pretensão de substituir a boa e fraterna relação entre os fiéis que têm sua realização na materialidade. Nesta relação, exercitase, de fato, a tolerância, a paciência, o cuidado. Esboça-se a humildade, pratica-se o serviço no contato, na presença real ao adoecido e ao carente de afeto. São Tiago, em sua carta no Novo Testamento, defende que a fé sem obras é morta. A certa altura, desafia: “Alguém poderia dizer ainda: ‘Você tem a fé, e eu tenho as obras.’ Pois bem! Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé”. Obras aqui significam trabalho com as mãos, algo artesanal, produto do esforço mental e físico. Pode-se inferir, sem considerar a objeção de que é preciso contextualizar a afirmativa do apóstolo – com a qual é preciso concordar –, que há dois mil anos era discutida a virtualização da fé que não supõe o envolvimento com o próximo. O apóstolo exemplifica seu ponto de vista dizendo que se uma pessoa pede algo – portanto uma necessidade concreta – e apenas se diz “ vai em paz, seja abençoado”, de fato, nada foi feito. A religião cristã, à parte de sua verticalidade – que é a relação íntima com Deus –, tem, necessariamente, como fruto da primeira, a dimensão horizontal. Lembro que, entre os dez maiores avanços científicos do ano de 2012 citados pela revista Science, é fascinante verificar o quanto já alcançamos com a tecnologia: em primeiro lugar, a revista cita a descoberta do Bóson de Higgs, partícula que explica o mistério da massa, intitulada por alguns como ‘partícula de Deus’; elenca o trabalho de cientistas que, na Alemanha, conseguiram sequenciar o genoma completo de um grupo de humanos denominado denisovanos, com uma nova técnica; e, ainda, aponta a demonstração do projeto ENCODE, que constatou a possibilidade de oitenta por cento do genoma humano ser ativo e de ajudar a ligar e desligar genes, o que pode auxiliar cientistas a compreender os fatores de risco genéticos para doenças. São feitos impressionantes que atestam que a humanidade tem caminhado a passos largos para tornar o mundo cada vez menor, mais interligado e, consequentemente, menos misterioso. Essas informações, num clique de computador, estão disponíveis a todos em qualquer lugar do planeta. É fato: nunca estivemos tão próximos virtualmente e, ao mesmo tempo, tão distantes fisicamente. Todos têm algo para dizer, para exibir, para compartilhar, mas há coisas na relação entre os seres humanos que não precisam e nem podem ser substituídas por máquinas, nem bits e hiperlinks: o abraço fraterno, a mão amiga, o olhar compreensivo, o sorriso cúmplice. Defendo que se utilize o mundo virtual, que nele se divulguem notícias, informações úteis e que até se propaguem as Boas Novas como vêm fazendo os mais diversos grupos religiosos, contudo a vivência da fé, em sua essência, pede, por sua forma e conteúdo, a experiência material.


UM PERFIL DE ADELINO FONTOURA CHAVES 113 LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ114

Nasceu em 30 de março de 1855 e faleceu a 02 de maio de 1884 em Lisboa. Era poeta e militante na imprensa carioca nos jornais Folha Nova, Gazetinha, O Combate e Gazeta da tarde, sendo depois correspondente deste último vespertino em Paris. Iniciando a vida como caixeiro e soldado da polícia, conseguiu destaque na literatura e foi escolhido patrono da cadeira no. 1 dos sócios efetivos da Academia Brasileira de Letras, fundada por Luis Murat, e da de no. 38 da Academia Maranhense de Letras, fundada por Franklin de Oliveira. Suas produções poéticas, que nunca enfeixou em livro, acham-se reunidas nos números 93 e 117 da Revista da Academia Brasileira (CARDOSO, 2001)115. Fontoura era filho de Antônio Fontoura Chaves e de Francisca Dias Fontoura. É tio-avô do padre, poeta e escritor Fontoura Chaves. Ainda muito pequeno começa a trabalhar e trava contato com Artur de Azevedo – amizade que perduraria. 116 Mudando-se para o Recife, onde se alista no Exército, colaborando numa publicação chamada “Os Xênios”, de teor satírico. Inicia também a carreira de ator, voltando ao Maranhão natal para uma apresentação – cujo papel rendeu-lhe a prisão. Após este fato, decide mudar-se para o Rio de Janeiro, para onde se mudara o amigo 113

Para saber mais, acesse: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=785&sid=86 http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/AdelinoFontoura/adeli nofontoura.htm 114 in NOTAS PARA A HISTÓRIA DE AXIXÁ, de LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ e DELZUITE DANTAS BRITO VAZ 115 CARDOSO, Manoel Frazão. Axixá. in O MARANHÃO POR DENTRO. São Luís: Lithograf, 2001, p. 51-52 116 http://pt.wikipedia.org/wiki/Adelino_Fontoura, acessado em 29/08/2010


Artur de Azevedo, anos antes. Pretendia seguir carreira teatral e no jornalismo, falhando na primeira. Colaborou nos periódicos “Folha Nova” e “O Combate”, de Lopes Trovão e em “A Gazetinha”, onde Azevedo escrevia (1880). Em 1882, Artur Azevedo fundou o jornal A Gazetinha e chamou o amigo para ser redator. A Gazetinha durou pouco tempo (de 1º de janeiro a 20 de agosto), mas lá Adelino publicou várias poesias e trabalhos em prosa. Pouco antes, Ferreira de Menezes funda o jornal Gazeta da Tarde, cuja propriedade e redação era de José do Patrocínio. Adelino para este jornal foi convidado por José do Patrocínio e nele também publicou numerosos trabalhos de prosa. Informa Múcio Leão que a Gazeta da Tarde "foi um dos jornais mais azarentos que tem havido o mundo." Começou esplendidamente, e tinha como seus diretores e principais redatores Ferreira de Menezes, Augusto Ribeiro, Hugo Leal, João de Almeida e Adelino Fontoura. Três anos depois, nenhum desses rapazes existia mais. 117 Adelino Fontoura viveu nessa fase de sua vida uma paixão não correspondida e, mesmo com a saúde precária, ao ser convidado para representar a Gazeta da Tarde na Europa, decidiu viajar. No dia 1º de maio de 1883 partiu no navio Senegal, para Paris. Lá esperava encontrar melhoras para a saúde, mas deparou-se com insuportável inverno. Viajou para Lisboa, para onde seguiu José do Patrocínio, na esperança de convencê-lo a embarcar de volta para o Brasil. Seu estado de saúde era crítico e, por isso, foi internado no Real Hospital São José, onde veio a falecer aos 25 anos de idade, justamente quando poderia produzir toda uma obra poética de mérito literário. Foi sepultado no Cemitério Oriental de Lisboa. Ao fundar-se a Academia, em 1897, seu amigo Luís Murat escolheu-o como patrono da cadeira por ele criada. É o único caso de um patrono, na Academia, sem livro publicado. Em vida, ou não atribuíra muita importância a seus trabalhos para reuni-los em livro, ou confiara em não morrer tão cedo. Após a morte, várias tentativas foram feitas para reunir a obra dispersa do poeta.118 Ao tomar posse na Academia a 29 de agosto de 2003, Ana Maria Machado retratou o desconhecimento que cerca a obra desse poeta, mesmo entre os eruditos: “Mas como? Não foi Machado de Assis seu primeiro ocupante? Então ele era o patrono? Não. O patrono, escolhido por Murat, foi Adelino Fontoura. Quem? Pois é... Não encontrei quem, ao ouvir essa correção, identificasse o nome. De minha parte, confesso que também mal havia ouvido falar nele, vaga lembrança de algum poema numa antologia. Pois descobri coisas interessantes na magnífica biblioteca desta nossa Academia, aliás aberta ao público para ser utilizada e fruída.” 119 Sua obra, esparsa, constitui-se em cerca de 40 poesias, reunidas pela primeira vez na Revista da Academia (números 93 e 117). Foi depois reunida em 1943 e em 1955, por Múcio Leão. Fontoura não figura na quase totalidade das antologias e históricos da Poesia brasileira - nem a obra "Apresentação da Poesia Brasileira", de outro Acadêmico, Manuel Bandeira, faz-lhe referência. Seu soneto mais conhecido é "Celeste":

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http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=781&sid=86, acessado em 29/08/2010 http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=781&sid=86, acessado em 29/08/2010 119 http://pt.wikipedia.org/wiki/Adelino_Fontoura, acessado em 29/08/2010 118


CELESTE (domínio público) É tão divina a angélica aparência e a graça que ilumina o rosto dela, que eu concebera o tipo de inocência nessa criança imaculada e bela. Peregrina do céu, pálida estrela, exilada na etérea transparência, sua origem não pode ser aquela da nossa triste e mísera existência. Tem a celeste e ingênua formosura e a luminosa auréola sacrossanta de uma visão do céu, cândida e pura. E quando os olhos para o céu levanta, inundados de mística doçura, nem parece mulher - parece santa. Sobre a escolha de Fontoura para o patronato no silogeu por Murat, registrou Afrânio Peixoto: "Novidade de nossa academia foi, em falta de antecedentes, criarem-nos, espiritualmente, nos patronos. Machado de Assis, o primeiro da companhia, por vários títulos, quis dar a José de Alencar a primazia que tem, e deve ter, na literatura nacional. A justiça não guiou a vários dos seus companheiros. Luís Murat, por sentimento exclusivamente, entendeu honrar um amigo morto, infeliz poeta, menos poeta que infeliz, Adelino Fontoura." 120 Bibliografia - FOUTOURA, Adelino, 1859-1884. Dispersos. Rio de Janeiro (RJ): Academia Brasileira de Letras, 1955. 284 p., il., 21 cm. (Afrânio Peixoto; v. 4. IV Inédita).[ A Revista da Academia (n. 93 e n. 117) publicou quase todas as suas poesias conhecidas. No suplemento Autores e Livros, em 17 de outubro de 1943 (vol. 5o, n. 13), Múcio Leão apresentou em conjunto a obra do malogrado escritor. Conseguiu reunir perto de quarenta poesias, às quais juntou alguns trabalhos de prosa.

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Adelino_Fontoura, acessado em 29/08/2010


SOMOS TODOS NÁUFRAGOS, BARCOS E OCEANOS MHARIO LINCOLN Jornalista, advogado. Diretor-Geral do Portal Aqui Brasil SÓCIO CORRESPONDENTE DO IHGM www.portalaquibrasil.com.br Eis o ponto de aglutinação: "O Náufrago e a Linha do Horizonte", da luminar Ana Luiza Almeida Ferro, mostra a verdade. Sua verdade. Seus desejos; realizados ou não realizados ou que espera realizar.

Comentários à poesia de Ana Luiza Almeida Ferro, foto, publicada na obra "O Náufrago e a Linha do Horizonte". O que dizer de uma mulher que transcende a si mesmo? "Eu sou eu/Mais pedaços dos outros". Tudo! Menos poeta. Numa análise acíclica, tais versos podem se confundir com a biografia de uma irmã Dulce ou de uma Rigoberta Menchú, para exemplificar dois extremos geográficos. O que dizer de uma mulher que escreve: "Pétalas brancas em meio à escuridão/Perfume suave em meio à podridão / (...) "E, no entanto, eis que vejo cair/ Um pouco de ti, ao sabor da brisa/ Uma folha defesa, que um insano pisa"? Tudo. Até mesmo ser ela, seguidora incólume de Friedrich Nietzsche - "A tragédia é que não podemos acreditar na (...) metafísica quando trazemos no coração e na cabeça um rigoroso método da verdade. (...)", disse ele.


Eis o ponto de aglutinação: "O Náufrago e a Linha do Horizonte", da luminar Ana Luiza Almeida Ferro, mostra a verdade. Sua verdade. Seus desejos; realizados ou não realizados ou que espera realizar. Como diz Nietzsche, ela, no livro, deixou-se repartir e mostrou "seu rigoroso método de verdade", mesmo que íntima, subnalmática, intrínseca, inerente a seu espírito consciente, maduro, mas solitário (em alguns momentos sutis de sua vida). Isso fica muito claro. Hipoteticamente, "Um corpo minúsculo/ no oceano imenso/ a muitas milhas/ de terra/ à vista. (...)". Mas Ana, a poeta, não a Dulce ou Rigoberta, tem controle absoluto sobre suas reações físicas ou espirituais. Vive e vivencia suor e força - "Navego pelas ondas de teu corpo/Sem saber que rochedos evitar" - como se doação completa e irrestrita lhe fosse necessária para aplainar arestas intocadas no seu subconsciente adulto e escorreito, qualidades que a fazem distinguir de poetas simplesmente midiáticos. Sim, também na poesia existe hierarquia e desigualdades. Esse parece ser o fruto do Éden. Mas seriam anjos subliminares os roedores da fruta indesejada? No processo evolutivo da criação da poesia pura - fato de difícil consistência, cabendo tal criação, apenas, a quem realmente cultiva imaginação originária da historiografia pessoal, como acontece com Ana – a exigência de transmutar, sem interferência do ego, é a chave da glória. Muitos cognominados “poetas abduzidos”, abandonaram sua lírica para se afundarem em biografias poéticas egoicas no simples afã de subirem na hierarquia acadêmica, desigualando-se de “outros poetas menores”. Li recentemente, em Poesia Viva nº 44, entrevista com Igor Fagundes (poeta, professor, ensaísta, ator, jornalista) que assim se reportava sobre possível hierarquia poética: “Vejo nos dias de hoje e ontem, o ímpeto viciado da classificação a concorrer com a poesia, como se bastasse uma adjetivação, um atributo, para dar conta do que, substantivamente, segue na maioria das vezes impensado ou escamoteado por algum discurso retórico. Não basta falarmos em poesia digital, poesia oral, poesia escrita, se não houver, sempre e primeiramente, poesia. As classificações até podem importar sociológica e/ou antropologicamente; podem até conspirar em favor de alguma historiografia estética ou estilística, mas o pensamento substantivo, o pensamento do próprio da poesia, é sempre mais radical”. Ana Luiza Ferro é uma prova inconteste de, ao ato de construção da sua poesia, não inerir “adjetivações, nem discurso retórico”. Portanto, ela é uma poeta maior. Lê-se o que ela sentiu e vivenciou no seu mais profundo sentimento, quando, vez por outra, deixa emergir pérolas do abissal de sua consciência lírica. De certa forma, Ana se mostrou corajosa ao escrever coisas que lhe vieram do fundo da alma. Mutatis Mutandi, como Anne Frank em seu extraordinário “diário”. Não pela guerra infame. Muito mais – a comparação - pelo fascínio do debulhar vagaroso, mas irrequieto de sua catarse. Sim. O livro de Ana é uma catarse:


“Dois traços/enamorados/não mais são traços/são uma linha” (...) “Dois traços/separados/ são uma linha abortada/na geometria da vida”. Uma catarse romântica, menos trágica, mas purificante da alma, como delineou Aristóteles: “(...) Despeço-me de mim/ e mergulho no fim/ de teu sorriso” (...). Despeçome do mundo/ e mergulho no fundo/ do teu sorriso. (...) Despeço-me de ti/ e faço que fugi/ de teu sorriso. (...)”. Uma catarse freudiana, até, cuja definição se prende mais à simbolização poética. “Ai de ti/ que enrijecestes/ o coração de tua corte/ a folhagem de teu ninho/ e anoitecestes/ com a mente em sedição/ com a alma em desalinho/ e então me perdeste/ na última pedra longa da estrada/ da última noite órfã de pinho”. Uma poeta maior, compos sui, sem exageros, nem rodeios, porque sua poesia confunde-se com seu estado de espírito, através de grandes insights do seu cotidiano, do seu interior, do seu círculo, de seu planeta – que não o de Exupéry – muito mais o de Vinicius de Moraes. Li em ambos, (Ana e Vinicius) sentimentos parecidos quando o enfoque foi a solidão. Lá, Vinicius afirmava: “A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.”. Aqui, Ana ratifica: “Eu sou/ e jamais deixarei de ser/ pois temer ou me ter/ é próprio do ser humano”. Muito além do conceito pessoa, todavia, ela ratifica seu sólido prazer de discutir o vai e vem de suas emoções, sempre embaladas pela linha tênue que a separa do incompreensível mundo das paixões, das perdas, dos reencontros e desencontros, como nesse exuberante epitáfio de um amor esquecido na poeira do tempo: “Os barcos vão/ as pessoas passam/ só os traços não se apagam/ para que a linha se mantenha/ na eternidade do ponto”. Ou, ainda, na metafísica da verdade, como disse Nietzsche, ou do abraço sem aperto, do feminino desenhado no mastro quebrado do barco a pique, naufragado nas entrelinhas pulsantes de um mar dessalgado, cujas ondas trouxeram pétalas de receio e de dúvida: “Quantos carimbos se precisa apor/ para que a palavra possa valer?”. Carismática eclusa bombardeando a consciência mítica para se sobrepor ao hermético das inundações das marés de sizígia. Concluo, enfim: Náufrago... talvez algum sonho romântico inacabado, mas ainda em gestação pueril. Barcos... talvez o viés cotidiânico da própria vida, como roupa quente que veste o corpo frio.


Oceano... talvez o futuro imenso, o reencontro fugaz, mas iminentemente apaixonante. Somos todos assim. Náufragos... “e assim encontrar o mar/ e assim se fazer oceano”. Somos todos assim. Barcos... “sem porto/ na linha do horizonte/ e me parto/ em pedaços teus/ o primeiro lançado ao mar/ para ser digerido por tubarões (...)”. Somos todos assim. Oceano... “se o náufrago/ adivinhasse/ ou apenas suspeitasse/ quão seca/ quão árida/ pode ser a terra/ talvez tolerasse/ talvez preferisse/ a solidão/ do mar”.


CENTENÁRIO DE LUIZA PEREIRA ROCHA OSVALDO PEREIRA ROCHA121 “MÃE, não é uma pessoa simplesmente, é uma fibra do ser feminino, que acorda num momento divino; momento do milagre da vida, que acontece em hora bendita, quando uma mulher é abençoada, pelo amor materno é iluminada; amor que transforma, nunca mais será a mesma, antes de ser mulher simplesmente, será mãe eternamente; MÃE, como definir? Só sendo para sentir, não tem definição, é apenas amor e compreensão”. Nascida em 10 de agosto de 1913 no povoado Olho d’Água Grande, então município de Pedreiras, hoje município de Santo Antônio dos Lopes, Estado do Maranhão, filha de Tolentino Pereira da Silva e Alzira Rego da Silva e falecida em 09 de maio de 1988, em São Luís, capital do referido Estado, mãe de 20 filhos, dos quais 15 estão vivos, graças ao Grande Arquiteto do Universo; foi casada com Antonio da Silva Rocha, ex – Vereador por Pedreiras e ex – Prefeito de Santo Antônio dos Lopes – MA, a Senhora Luiza Pereira Rocha completa neste mês de agosto de 2013, o seu primeiro centenário de nascimento. A supracitada e saudosa Senhora, mãe deste articulista e dos seus irmãos e irmãs Salomão, Valdemir, Judite, Maria (LILI), Alzira, Zuleide, João, Antenor, Enoe, Neusa, Antonio, Osmar, Luiza e Jurandi Pereira Rocha, nascidos na Fazenda e povoado Santa Cruz, então município de Pedreiras; avó de dezenas de netos e netas acompanhou seu marido durante o seu mandato de Prefeito, residindo na cidade de Santo Antônio dos Lopes por mais de seis anos e depois veio residir em São Luís. Dona Luiza, como era conhecida, soube fazer amigos e amigas por onde passou, haja vista ter sido uma pessoa de personalidade e de comprovadas qualidades de caráter, trabalho, responsabilidade e honestidade, qualidades estas que passou para os seus filhos e as suas filhas, além de servir de exemplo para parentes em geral e para amigas e amigos. A mãe deste articulista foi, para minha honra, minha madrinha de formatura como Bacharel em Direito, em 19 de dezembro de 1972, momento inesquecível, da qual guardo uma foto, em preto e branco, de lembrança. Para concluir este artigo, peço desculpa aos leitores e às leitoras para contar três pequenas histórias diretamente relacionadas à minha querida mãe (na segunda tem uma palavra pouco ortodoxa), isto é: 1ª – soube depois de crescidinho que no meu primeiro dia de vida, minha irmã mais idosa, Judite, que na época tinha sete anos de idade, entrou no quarto onde minha mãe cumpria o resguardo do parto e me achou muito bonito e, ato contínuo, pediu que minha mãe me desse para ela e mamãe lhe disse que não, mas Judite insistiu, prometendo dar para a mamãe sua galinha gorda, para ela comer o bom pirão de parida, proposta que mamãe aceitou e, assim, fui trocado por uma galinha; 121

(São Luís - MA, 25 janeiro de 2013). Jornalista-Colaborador (Registro DRT-MA 53), Grão-Mestre “Ad Vitam” do Grande Oriente Autônomo do Maranhão – GOAM; membro das seguintes Academias: Maçônica Internacional de Letras; Maçônica de Ciências, Letras e Artes; Maçônica Maranhense de Letras e Paraibana Maçônica de Letras; e dos Institutos Histórico e Geográfico do Maranhão e Histórico da Maçonaria Maranhense. E-mail: rocha.osvaldo@uol.com.br e site www.osvaldopereirarocha.com.br


2 - quando adolescente, na década de 1950, eu gostava de pescar, de caçar, de trabalhar no engenho de cana-de-açúcar, na quitanda e até tangendo (conduzindo) animais de carga, quer do canavial para o engenho, quer levando arroz, coco babaçu e outros gêneros para Pedreiras e trazendo de volta os animais carregados de mercadorias para abastecer o comércio e levava tudo isto muito a sério, sendo pontual, assíduo e responsável a ponto de mamãe um dia dizer sobre mim textualmente o seguinte: “Osvaldo é cagado e cuspido o pai dele”! 3ª - já adulto, na década de 1960, estando eu sendo sindicado ou sondado para ingressar na Maçonaria, mamãe me viu recebendo a visita de dois Maçons que me faziam perguntas e anotavam tudo, e quando os dois se retiraram ela se aproximou de mim e perguntou enfaticamente o seguinte: “meu filho, é verdade que tu queres entrar para essa tal de maçonaria, essa coisa do cão, que seus membros para enricarem dão o seu filho primogênito para o Diabo?”. Então lhe respondi que sim, que eu querida entrar para a Maçonaria e ela então me disse que não acreditava no que ouvia, já que me dera formação cristã, etc. Aí eu lhe disse que essas estórias sobre a Maçonaria eram coisas de pessoas não instruídas e referidas estórias obviamente não são verdadeiras; que eu conhecia pessoas de bem que são Maçons e que eu iria sim ingressar, mas se no primeiro dia eu observasse coisa estranha não voltaria lá... Chegada noite do dia da minha Iniciação ela me esperou acordada para saber como tinha sido e eu lhe respondi que tudo estava certo; que eu fora recebido muito bem e que a Maçonaria trabalhava com a Bíblia Sagrada e era temente a Deus, chamado de Grande Arquiteto do Universo. E ela aí concluiu o nosso diálogo dizendo-me “confio em ti, meu filho”


UM PROFETA EM TERRA DE GENTE GRANDE MHARIO LINCOLN “Ainda que eu fale todas as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor sou como o bronze que soa ou o sino que retine... mesmo que tivesse toda a fé a ponto de, transportar montanhas, se não tiver amor, não serei nada”. Apóstolo Paulo A fé cristã, logo após Jesus subir aos Céus, foi compactada fervorosamente por um homem, o apóstolo Paulo. Atribui-se ao Apóstolo Paulo a autoria das treze cartas que estão incluídas no Novo Testamento. O que mais me impressiona nesse homem é sua solidez, seu princípio cristão, sua elegia ao Senhor Jesus. Assim são dezenas, milhares e milhões de homens neste mundo envolvido numa abóbada de cristais partidos. Esses homens seguem também o conselho de Paulo. Aderem aos conceitos, seguem as normas cristãs, respeitam a família, doam-se aos outros, amam a verdade, insistem em não agir inconscientemente. São homens fortes, sem músculos artificiais. São homens cultos, sem pertencerem à cúpula incipiente das enciclopédias, porque todos eles podem todas as coisas naquele que os fortalece. Cada um desses homens a mim me parece ter no peito gotas de probidade, misturadas à delicadeza d’alma. Uma mistura físico-química estranha aos olhos dos caudilhos, dos déspotas, dos carrascos. Há, então, uma diferença fundamental entre os que querem poder e os que podem naquele que os fortalece. Esses são os filhos de Deus. Aqueles, filho da obsessão canibal. Enquanto aqueles frutificam, os obsessivos destroem princípios, meios e fins. Não há benção sobre a vitória desses. Destarte, aquele que é abençoado, Deus lhe protege concedendo-lhe o dom da maestria das letras, ampliando os horizontes do complexo mundo ortográfico entre cores, efeitos, temas e flexões, dando forma rara aos seus textos, todos, transeuntes de imensas estradas que ligam a poesia ao texto sacro; a jurisprudência ao prelúdio; reminiscências ao ciclo vital do hoje. É assim que EDOMIR MARTINS DE OLIVEIRA se desnuda diante de uma folha simples de papel em branco, cuja caneta esferográfica lhe foi bendita, como d’antes parágrafos, pontos, vírgulas, frases também o foram, traduzindo o legado do Apóstolo Paulo em levar o mais longe o pensamento vivo de sua incumbência pessoal – no caso de Paulo – a palavra viva de Cristo. Edomir teve, também, esta incumbência. Por exemplo, de levar alegria por onde ancorou seu barco; de ensinar o pêndulo do tempo aos seus alunos com sua leveza d’alma, com sua sinfonia magnífica de benquerenças, com o discernimento alusivo aos homens-poetas. Por isso tanta desenvoltura nas obras que já publicou ou irá publicar como, por exemplo: Pétalas Caídas (livro de versos); Elementos de Direito (livro de Direito); Desquite e Divórcio; ...@Lembranças; O voto do Analfabeto e do Praça-dePré; Dois Discursos (contendo discurso de agradecimento pelo recebimento da medalha "Antenor Bogéa", pela OAB - MA.). Livros por publicar –“ A Águia e o Rouxinol" (elegia ao Prof. Ruben Almeida); “Temas Religiosos” (livros contendo mensagens bíblicas) e Sementes de Amor (livro de recordações). O conjunto da Obra (textos,


sermões, artigos, aulas etc) e 3 Prefácios à obras do Jornalista Mhário Lincoln. Coincidentemente 13 publicações, como Paulo, nos 13 livros do Novo Testamento. Um homem que consegue escrever “O amor vem quando se entrega o Coração” (Publicações AABB-SL-MA-1981), demonstra muito mais que simples pureza clássica. Demonstra inteira abdução pela crença indelével no start poderoso do motor que move os cálidos e crentes. Um homem que consegue dizer ipsis litteris: “Que a modéstia das rosas esteja presente em suas vidas...”, (“...@Lembranças”-Auditório do Fórum, 1995) em meio ao furor das saudações de praxe de novos advogados aprovados no Exame de Ordem é quebrar a barreira patética da mesmice e lançar um maior desafio – que os novos advogados se reforcem com os alicerces da pureza sem dogma, do sacrifício sem lucros, da prática justa, sem acordos febris; da defesa incólume diante da inocência do réu. Um homem que consegue transpor as barreiras da metódica infrutífera e ser sincero ao creditar: “ao voo dos gansos, em V”, sua postura diante de sua posse no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, é dar um tapa de luvas nos grosseiros de espírito, nos gananciosos do poder efêmero. É distribuir, compor, somar, agrupar tendências, egos, eloquências; é esquecer o poder enquanto poder, é ativar a consciência coletiva a pro de uma convivência moral e ética. Pois foi assim os anos em que passou na direção do IHGM. Ora, se um homem é capaz de unir, de agregar, de somar então temos um seguidor do Apóstolo Paulo, um seguidor de boas-maneiras. Um homem íntegro, desde o delicado gesto de carinho com a bisneta até uma tomada de decisão, quando há de decidir diante dos questionamentos do mundo moderno, ou de causas que abraça em sua carreira jurídica. Da mesma forma esse homem, Edomir Martins de Oliveira, consegue em poucas palavras, emocionar este amigo ao me receber em grande estilo, com belo discurso, no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, lá em meados de 1994, ao reproduzir Agripino Grieco, quando se refere aos favos das abelhas do oriente. Edomir foi ungido para levar em todas as línguas a pureza daqueles que lhe rodeiam, lhe querem bem, lhe emocionam também. O importante no final de tudo isso é que eu faço parte desse convívio adorável. Faz mais de 35 anos, com muito orgulho. Dele e de sua família (padrinhos de meu casamento em 1980) guardo inúmeras boas recordações. Até mesmo quando ainda estava na Faculdade de Direito e Edomir era, então, um de meus professores e ganhei uma nota vermelha. Até nesse episódio que para outrem seria algo que afastaria pessoas, com ele, diferenciou-se o mote e se agregou ainda mais a madura amizade que dali cresceu, frutificou e plantou raízes agrestes, algumas vezes regadas a uma gota de lágrima, como na restinga, onde alguns pingos de sabedoria fazem avivar as folhas verdes, dantes amareladas de solidão e desapreço. Edomir sempre foi um amigo, um apóstolo diante de tantos momentos em que precisei conversar sobre mim mesmo. Sobre o vazio que não me deixava. Sobre minha fraqueza de Fé. Sobre meu abandono a Jesus. Tanto que nunca esqueci um determinado dia em que, sem marcar ou combinar absolutamente nada pude ter o Edomir de surpresa em minha casa. Estava eu prestes a me deixar levar pela orla de minha cidade, me entregar ao vento-ventre insólito e à boemia da noite clara e iluminada. Era, na época, talvez a minha mais fácil saída das


perturbações ou angústias de não ter conseguido alçar vôos maiores (até então) em minha complicada vida de homem público e jornalista. Antes mesmo que eu esboçasse desconfianças ou desapreço por tão surpreendente visita ele, educadamente me pediu para ler um trecho do Apóstolo Paulo que ele “gostaria de mandar gravar com a minha voz mais radiofônica que a dele”. E eu simplesmente caí na pegadinha do bem e li, empolgado, a seguinte passagem do Apóstolo Paulo: Sabe, porém, isto, que nos últimos dias haverá tempos críticos, difíceis de manejar. 2 Pois os homens serão amantes de si mesmos, amantes do dinheiro, pretensiosos, soberbos, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, desleais, 3 sem afeição natural, não dispostos a acordos, caluniadores, sem autodomínio, ferozes, sem amor à bondade, 4 traidores, teimosos, enfunados [de orgulho], mais amantes de prazeres do que amantes de Deus, 5 tendo uma forma de devoção piedosa, mostrandose, porém, falsos para com o seu poder; e destes afasta-te. 6 Pois, dentre estes surgem aqueles homens que se introduzem ardilosamente nas famílias e levam cativas mulheres fracas, sobrecarregadas de pecados, levadas por vários desejos, 7 sempre aprendendo, contudo, nunca podendo chegar a um conhecimento exato da verdade. Li, reli, li novamente e os termos me foram entrando, me foram completando, me foram desiludindo das coisas da rua e acabei praticamente uma parte considerável da noite costurando um imenso e discursivo momento de compreensão, respeito e amizade com este sobre quem tento escrever nesta obra magnífica de resgate ao professor Rubem Almeida, ícone da intelectualidade ludovicense. E como disse lá em cima o Apóstolo Paulo, gostaria de repetir que Edomir Martins de Oliveira é o que é porque além de falar todas as línguas dos homens e dos anjos tem o privilégio de ter toda a Fé e Amor. Por isso é tudo para quem dele goza de amizade sincera, como eu.


SÃO BENTO: 180 ANOS DE EMANCIPAÇÃO. ALVARO URUBATAN MELO O atual município de São Bento teve início com a concessão da Carta Data de Sesmaria, de 07 de fevereiro de 1794, concedida ao português João Álvares Pinheiro 122, natural da freguesia de Manfort, bispado de Miranda, da Província de Trás-os-Monte. Nosso primeiro colonizador, então lavrador da vila de Alcântara, em busca de terras propícias às suas pretensões, deslumbrou-se com as benesses da região, tomou posse e no pequeno cômoro, atual Rua das Saudades, edificou sua fazenda. Para povoar essa sesmaria trouxe logo familiares, convidou amigos. Cidadão reconhecidamente austero, de larga visão, sabedor do predominante sentimento festivo e religioso das pessoas de antanho, logo erigiu um oratório para celebração de missas e orações. FREGUESIA. Diante de tal surto de desenvolvimento habitacional, impôs-se a necessidade de prover os cristãos de maior frequência espiritual, o que, por sugestão do vigário da freguesia de São Matias, o padre Roberto Martins, em 1754, ocasionou a criação da Freguesia de São Bento dos Peris, pela carta-régia de 7 de novembro de 1805, ato confirmado pela Resolução nº 27, de 15 de julho de 1813, aprovada no Rio de Janeiro pelo príncipe-regente Dom João VI, por alvará de 11 de outubro seguinte, quando por carta-régia dessa data foi nomeado o primeiro vigário encomendado, o mestre de Filosofia e pregador régio, frei Manuel Justino de Carvalho, empossado a 22 de dezembro, portanto há dois séculos. Com a construção da igreja matriz, cuja pedra fundamental foi montada em 5 de outubro de 1815, acelerou-se a afluência de novos habitantes em volta da igreja, tornando a localidade em promissor arraial, o que levou um notável número de moradores requererem ao Conselho da Província a elevação do lugarejo à categoria de vila. O presidente da Província, pela Portaria nº 185, solicitou informações à câmara de Alcântara, que em correspondência de 27 de setembro de 1822, respondeu à Junta Provisória e Administrativa do Governo Provisório, achar justo o pleito, mencionando estar distante dessa vila o melhor de catorze léguas, contar com uma população de mais 600 casais, possuir todas as condições de concorrência de seus vizinhos. A essas alturas, antes de 1823, a freguesia em franca prosperidade contava com uma aula de gramática latina e uma aula nacional. Em 1827, com a vigência da lei geral de 15 de outubro, a freguesia foi, excepcionalmente, agraciada com duas cadeiras: uma do sexo masculino e outra do feminino. É de bom alvitre destacar que essa concessão era prerrogativa exclusiva das vilas e cidades. VILA. Esse pleito de vila, presumivelmente, retardado pela luta da adesão do Maranhão à Independência, concretizou-se pela vigência do Código de Processo Criminal, de 29 de novembro de 1832, que ocasionou o decreto de 13 de dezembro de 1832, o qual determinava aos presidentes das províncias procederem à divisão delas em comarcas e termos. Em obediência o Conselho Geral da Provincial do Maranhão, sob a presidência de Joaquim Vieira da Silva, com a presença dos conselheiros Cunha 122

Conhecido por João Alves Cauacu, nasceu em 1737, casou-se com Ana Maria da Encarnação.


Duarte, Machado, Costa Barradas, Muniz e Barradas, em reunião de 19 de abril de 1833, apresentou o Plano da Divisão da Província em termos e comarcas: Dele constavam: Artigo 2º. Villa de Alcântara conserva o seu antigo Termo, menos o que se desanexa para a Villa de São Bento. Artigo 3º - Fica erecta em Villa a Povoação de São Bento dos Perizes (Peris), comprehendendo no seu Termo as Freguezias de São Bento e São Vicente Férrer. Discutida a proposta do Plano, a Divisão da Província em Comarcas, resultou: Artigo 1º - Haverá na Província do Maranhão seis comarcas. A da Ilha do Maranhão, a de Alcântara, a do Itapecuru, a do Brejo, a Aldeias Altas e a de Pastos Bons. Artigo 2º - consta: A de Alcântara comprehenderá os Termos das Vilas de Alcântara, São Bento, Viana e Guimarães. Essa resolução foi ratificada pela de nº 8, de 17 de abril de 1835, da Assembleia Legislativa Provincial, transformada na Lei nº 7, promulgada em 29 de abril desse ano. Artigo 10 - Fica confirmada a criação das Villas de Sam Bento, Mearim, Rosário, São Jozé, Urubu, Riachão e Iguará Eleita a primeira câmara, empossada em 9 de agosto de 1833, foram sufragados os candidatos a suplente de juiz de paz, promotor e delegado, apresentados ao presidente da Província em lista tríplice. Ressalta-se que, exceto o povoado de São Bento, os demais termos eram vilas. Na plenitude de seu desenvolvimento, agraciada com a criação do Juizado Municipal e de Órfãos em 1857, juizado de Direito em 1870, a vila adquiriu sua autonomia jurídica. CIDADE. Somente a 30 de março de 1905, quando era a mais florescente vila do Maranhão, foi elevada à categoria de cidade, por força da Lei nº 361, projeto do deputado Joaquim Ribeiro Gonçalves, com o apoio do beletrista são-bentuense, Dr. Domingos Barbosa, secretário de Estado, do Desembargador Pereira Júnior. Ao longo decurso desses anos o município se fez presente, para gáudio dos filhos que o amam, e dele ufanam-se, pelos feitos das maiores grandezas, nos diversos setores: EDUCAÇÃO. A primeira escola de alfabetização noturna do Brasil, o primeiro grupo escolar e o primeiro professor normalista- Dr. Luís Vila. Professores universitários: Carlos Humberto Reis, Rosa Castro, Joel Brito Barros, Sanatiel Pereira, Urbano Pinheiro, João Matos, José Fernando Dias, Sebastião Jorge. RELIGIÃO. Um arcebispo – Dom Luís de Brito; um bispo titular – Dom Felipe Conduru, mais dois interinos, mestre-escola, arcediago, cônegos e padres. JUDICIÁRIO. Juiz federal – Araújo Castro; desembargadores: Raimundo Felipe Lobato, Sarney Costa, Ivan Araujo Castro, Antônio Regino de Carvalho, Batista Lemos, Arnaldo Campos e Benedito Belo. Juízes e brilhantes advogados. SAÚDE. Ilustram a galeria são-bentuense: médicos: Moacir Penha, Clarindo Santiago, Antenor Abreu, Matos Serrão, Abreu Reis, Ibraim Almeida, Remi Trinta, Terezinha Abreu, Arquimedes Vale, Joaquim Melo.


JORNALISTAS: Domingos Barbosa, Walbert Pinheiro, Barnabé de Campos, Emilio Azevedo, Evandro Sarney, Wagner Silva. SERVIDORES PÚBLICOS. Ministros da República: Joaquim Itapary e Simão Cirineu Dias. Secretários de Estado: Jesus Itapary, Luís Raimundo Brito Passos, Cássio Reis Costa, Conceição Raposo. Governadores do Estado: Dr. Raimundo Felipe Lobato, Generais Celso Freitas e Luso Torres, Dr. Newton Bello. Desses muitos exerceram mandatos de deputados federais, estaduais; cargos de secretários de Estado, sete membros da Academia Maranhense de Letras, e outros do IHGM. Nesse rol, muitos jovens talentosos tomam assento da consagração. Orgulha-se de haver estudado em seus colégios, os dois mais importantes políticos do Maranhão: os deputados federais, governadores, senadores, vice-presidentes da República, como exercício na presidências: Urbano Santos e José Sarney. Afinal, ostenta o distinto galardão de ser a terra do melhor queijo, das melhores redes de dormir e de rica e saborosa culinária. Nossa saudação pelos teus gloriosos 180 anos de emancipação política.

REVISTA DO IHGM, No. 44, MARÇO DE 2013  

Revista do Instituto Histórico e geográfico do Maranhão, no. 44, março de 2013, 118 pg.