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Curso de Capacitação

Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes MÓDULO 2

Modalidades Abuso Psicológico e Negligência


Módulo 2

Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes Modalidades Abuso Psicológico e Negligência

2004


Esta obra foi publicada para atender aos objetivos do Curso de Capacitação no Enfrentamento da Violência Doméstica na Infância e Adolescência e realizada através da parceria entre o Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância e o CECOVI. Sua reprodução total ou parcial requer prévia autorização. Imagens: budgetstockphoto.com

Cunha, Maria Leolina Couto Módulo II do Curso de Capacitação: Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes na Modalidade Violência Física / Maria Leolina Couto Cunha: CECOVI - Centro de Combate à Violência Infantil, Unicef, 2004. Projeto Gráfico e ilustrações: Adalberto Camargo | Studio Adalba Com. | Imagens extraídas de www.budgetstockphoto.com

Centro Administrativo do Estado Ed. Seplan (térreo) Fortaleza, CE | CEP 60839-900 Fone: (85) 488.7200

Rua Mateus Leme, 585 | Centro Cívico Curitiba, PR | CEP 80530-010 Fone: (41) 323.7739


MANUAL 2 Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes Modalidade Abuso Psicológico e Negligência


A criança que é sempre criticada, aprende a condenar. A criança que é sempre hostilizada, aprende a agredir. A criança que é sempre ridicularizada, aprende a ser tímida. A criança que é sempre envergonhada, aprende a sentir culpa. A criança tratada com tolerância, aprende a ser paciente. A criança que é encorajada, aprende a ser confiante. A criança que é elogiada, aprende a apreciar. A criança que recebe um tratamento imparcial, aprende a ser justa. A criança que vive em segurança, aprende a Ter fé. A criança que é aprovada, aprende a gostar de si mesma. A criança que vive em meio à aceitação e amizade, aprende a descobrir o amor no mundo. Doronthy Law Nolte


SUMÁRIO

Apresentação .......................................................................... 06 Objetivos do curso .................................................................. 08 Roteiro dos módulos ............................................................... 10 Organização e Redação ........................................................... 14 Lição 1 - A importância de valorizar ........................................ 16 Lição 2 - A importância de comunicar aceitação ........................ 32 Lição 3 - A importância de dar segurança ................................. 44 Lição 4 - Fases do desenvolvimento infantil ............................... 52 Lição 5 - A importância de cuidar e proteger ............................ 66 Exercício de aprendizagem ...................................................... 79 Bibliografia .............................................................................. 80

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APRESENTAÇÃO

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APRESENTAÇÃO

Queremos dar as boas vindas e parabenizar a todos os alunos que, com coragem e determinação, decidiram capacitar-se num ramo de estudo tão difícil como é o da violência doméstica contra crianças e adolescentes. O problema é gravíssimo, chegando muitas vezes a produzir cenas dantescas e inacreditáveis. Geralmente os agressores são os próprios pais e parentes da criança que, movidos por uma desumanidade incomensurável, aplicam, nos pequeninos indefesos, castigos que são verdadeiras torturas. Nossa história é repleta de registros que nos mostram quão grave é este fenômeno. São casos de crianças queimadas com brasa de cigarro; confinadas por meses dentro de espaços pequenos (tais como berços e caixotes), crianças que tiveram suas mãos mergulhadas em água fervente, que foram obrigadas a sentar-se na chapa do fogão acesso ou marcadas em suas faces, braços e pernas com ferro quente, que tiveram seus dedos quebrados a marteladas, crianças espancadas até a morte ou envenenadas criminosamente. Além dos maus-tratos físicos ocorrem também casos de crianças vítimas de abuso sexual, onde às vezes a violência é tão extrema que necessitaram fazer reconstituição da vagina e ânus. A lista não tem fim. O pesadelo dessas crianças é contínuo. Elas vivem dentro de um ambiente de constante terror. São as vítimas perfeitas para seus algozes. Não sabem se defender, não têm para onde escapar, necessitam desesperadamente de ajuda. Nosso objetivo, através do curso de capacitação à distância, é sensibilizar os profissionais que atuam no sistema de garantia de direitos para a gravidade desse fenômeno, incentivando o funcionamento de redes de proteção à criança e ao adolescente vitimizados, bem como o surgimento de políticas públicas dentro de uma ótica multidisciplinar e intersetorial. Acreditamos que, ao fortalecer o referencial teórico e prático dos profissionais que lidam com o público infantil, estamos dando um passo fundamental para que haja sucesso no enfrentamento dessa questão que angustia a todos nós. Maria Leolina Couto Cunha - Coordenadora Nacional do Centro de Combate à Violência Infantil - CECOVI Patrício Fuentes - Coordenador do Escritório do Unicef para o Ceará e Rio Grande do Norte

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OBJETIVOS DO CURSO

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OBJETIVOS DO CURSO

Sensibilização dos profissionais que fazem parte do Sistema de Garantia de Direitos para a gravidade do fenômeno da violência doméstica na infância e adolescência.

Incentivar o funcionamento de redes de proteção à criança e ao adolescente vitimizados a fim de que seja feito o atendimento de forma multidisciplinar e intersetorial

Fortalecer o referencial teórico e prático dos profissionais que lidam com o público infantil para o enfrentamento do fenômeno da violência doméstica contra crianças e adolescentes.

Socializar programas exitosos na área da prevenção e do atendimento de famílias para o enfrentamento da violência doméstica contra crianças e adolescentes.

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ROTEIRO DOS MÓDULOS

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ROTEIRO DOS MÓDULOS

MÓDULO 1 Violência doméstica contra crianças e adolescentes na modalidade violência física. Lição 1 Mitos, história e conceituação do fenômeno em geral Lição 2 Diagnóstico da violência física Lição 3 Dinâmica do atendimento multidisciplinar - Postura ética Lição 4 Por uma pedagogia não violenta Lição 5 Revendo a própria história Exercício de aprendizagem Bibliografia

MÓDULO 2 Violência doméstica contra crianças e adolescentes nas modalidades abuso psicológico e negligência Lição 1 A importância de valorizar Lição 2 A importância de dar segurança Lição 3 A importância de comunicar aceitação Lição 4 A importância de cuidar e proteger Lição 5 Fases do desenvolvimento infantil Exercício de aprendizagem Bibliografia 11 |


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MÓDULO 3 Violência doméstica contra crianças e adolescentes na modalidade abuso sexual intrafamiliar Lição 1 Marcos conceituais Lição 2 Principais características do incesto Lição 3 Padrões de comportamento da família incestogênica Lição 4 Conseqüências do incesto Lição 5 Superando a própria dor Lição 6 Dinâmica do atendimento multidisciplinar Exercício de aprendizagem Bibliografia

MÓDULO 4 Sistema de Garantia de Direitos Lição 1 Eixo de Promoção de Direitos Papel dos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente x propostas de políticas públicas para o enfrentamento da violência doméstica na infância e adolescência Lição 2 Eixo de Defesa de Direitos Funcionamento dos Conselhos Tutelares e delegacias de polícia

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ROTEIRO

na apuração de crimes de violência doméstica na infância e adolescência. Papel do Ministério Público e Poder Judiciário na apuração e julgamento dos crimes de violência doméstica na infância e adolescência. Lição 3 Eixo de Controle Social Externo Papel dos Fóruns sociais. Papel e funcionamento das comissões nos hospitais e escolas no combate aos maus tratos. Exercício de aprendizagem Bibliografia

MÓDULO 5 Legislação Brasileira Lição 1 Constituição Federal x Violência Doméstica na Infância e Adolescência Lição 2 Estatuto da Criança e do Adolescente x Violência Doméstica na Infância e Adolescência Lição 3 Código Penal x Violência Doméstica na Infância e Adolescência Lição 4 Código Processo Penal x Violência Doméstica na Infância e Adolescência Lição 5 Leis Especiais x Violência Doméstica na Infância e Adolescência Exercício de aprendizagem Bibliografia

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ORGANIZAÇÃO E REDAÇÃO

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ORGANIZAÇÃO E REDAÇÃO

Da organização O Fundo das Nações Unidas para a Infância - Unicef em parceria com o Centro de Combate à Violência Infantil - CECOVI, desenvolveu uma metodologia de aprendizagem à distância cujo objetivo é capacitar profissionais que fazem parte do Sistema de Garantia de Direitos para o enfrentamento da violência doméstica contra crianças e adolescentes. O programa aborda o fenômeno da violência intrafamiliar na infância e adolescência através de seminários sensibilizadores, módulos e vídeo conferências. O presente curso consiste num projeto piloto realizado no estado do Rio Grande do Norte e que conta com a implantação e monitoramento do Centro de Combate à Violência Infantil - CECOVI e a articulação e mobilização da Secretaria da Ação Social do Estado do RN, através da Fundação Estadual da Criança e do Adolescente (FUNDAC). O modelo aqui exposto poderá ser replicado através de parcerias com governos, iniciativa privada e sociedade civil, desde que conte com autorização expressa do Unicef.

Da Redação A autora, Maria Leolina Couto Cunha é advogada, com especialização em Direito Penal pela Universidade de Mogi das Cruzes e em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes pela Universidade de São Paulo - Instituto de Psicologia (USP/LACRI). Presidente fundadora do Centro de Combate à Violência Infantil CECOVI, onde exerce atualmente o cargo de coordenadora nacional.

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LIÇÃO 1 A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR


A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR

LIÇÃO 1

Introdução A violência psicológica é uma das formas mais graves de violência doméstica contra crianças e adolescentes. Por não deixar marcas físicas, ela geralmente é ignorada; porém as seqüelas produzidas nas vítimas que a sofrem são profundas e de difícil cicatrização. Acreditamos que a grande maioria dos pais ama seus filhos e quer que os mesmos se desenvolvam de forma sadia e feliz. Entretanto muitos não sabem como tornar isso possível. Quando os pais não possuem equilíbrio emocional os filhos acabam arcando com as conseqüências. A criança, pela sua própria condição de ser humano em desenvolvimento, ainda é muito frágil, não sabendo se proteger psicologicamente quando exposta a experiências que suscitam sentimentos de rejeição, isolamento, medo, humilhações, etc. Nessa missão de criar filhos, muitos são os erros cometidos. É necessário humildade para reconhecê-los e mudar. A felicidade de uma criança está diretamente ligada ao compromisso, responsabilidade, paciência, tolerância, tempo, maturidade e acima de tudo amor por parte de seus pais. Não pretendemos aqui ditar regras e criar um modelo perfeito de como criar filhos. Vamos, entretanto, abordar algumas das principais necessidades afetivas do ser humano e comentar o grau de importância das mesmas na formação da personalidade da criança, a fim de evitar que sofra abuso psicológico.

Todos sofrem alguma forma de violência no decorrer de suas vidas. Gostaria de desafiá-lo a ler este módulo tendo como meta três objetivos: Em primeiro lugar: busque recordar sua infância e averigüe se você sofreu violência psicológica. Em segundo lugar: procure refletir se você tem, de alguma forma, reproduzido suas experiências de infância abusando

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psicologicamente de seus próprios filhos. Em terceiro lugar: descubra maneiras de sociabilizar os conhecimentos aqui adquiridos em seus atendimentos com famílias agressoras. Existe uma necessidade universal inerente a todos os seres humanos que é o desejo de ser amado e valorizado pelos que os cercam. A criança para se desenvolver plenamente precisa sentir o amor de seus pais e perceber que é valiosa e importante. É na infância que a auto-estima deve ser mais alimentada, pois é nessa fase que a personalidade está sendo forjada, e dependendo como esse processo vai ocorrer, influenciará toda a vida adulta da criança. Ajudar uma criança a se desenvolver cheia de confiança, feliz e com uma auto-imagem positiva, não é tão complicado como a maioria das pessoas pensa. Vamos nessa lição trabalhar alguns princípios, a fim de ajudar os pais a abastecerem o tanque emocional de seus filhos para que estes venham a se tornar cada vez mais conscientes do seu valor e importância. Uma criança que sente que não é importante nem valorizada por seus pais, está sendo vítima de violência psicológica. Embora as marcas dessa violência não sejam visíveis em sua pele, as marcas emocionais podem assumir uma profundidade assustadora. São exemplos de seqüelas do abuso psicológico: 1. Falta de disposição para realizar tarefas. 2. Medo de enfrentar desafios. 3. Raiva alimentada por si próprio. 4. Tentativa de suicídio. 5. Descrença em seu desempenho pessoal em todas as áreas da vida. 6. Depressão permanente.

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A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR

LIÇÃO 1

COMO ALIMENTAR A AUTO-ESTIMA E O SENTIMENTO DE VALORIZAÇÃO DE UMA CRIANÇA?

DANDO AMOR INCONDICIONAL

As humilhações, o descaso, as variadas formas de maus-tratos sofridos por uma criança, são originados na maioria das vezes por pais despreparados, estressados e cheios de sentimentos negativos. O fato gerador de uma baixa auto-estima, quer seja em adultos ou crianças, está diretamente relacionado à ausência de amor incondicional por parte dos pais. O amor incondicional é um pré-requisito para que o ser humano ame a si mesmo. Mas o que é amor incondicional? Qual o sentido exato dessa expressão? Amar incondicionalmente é amar “apesar de”. É amar sem limites, sem condições, é gostar de alguém, não pelo que a pessoa produz ou faz, mas sim pelo que ela é. Amar incondicionalmente é transpor barreiras, é amar apesar dos defeitos e falhas. Apesar de amarem muito os filhos alguns pais se acostumam a demonstrar esse amor somente quando os mesmos conseguem se sobressair em alguma atividade ou levar a cabo alguma tarefa. A demonstração do amor fica condicionada ao que a criança é capaz de realizar e não ao que ela é em sua individualidade. Essa forma de interagir, apesar de bastante comum, é profundamente nociva para a criança, que desde cedo passa a nutrir o sentimento de que seus pais só a amarão se obtiver bons resultados nas mais variadas áreas de sua vida.

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Uma criança que recebe amor apenas de forma condicional, quando comete um fracasso ou um erro sentirá muita dificuldade de amar e apoiar a si mesma. Os sentimentos de inferioridade e a sensação de que não é amada, como um rolo compressor, acabarão sufocando seu amor próprio e auto-estima. É fundamental que os pais externem o amor que sentem pelos filhos seja qual for a situação.

Um bom exemplo disso pode ser evidenciado numa família onde existe dois filhos. Um é muito esforçado, trabalhador, bom aluno. O outro é bagunceiro, não gosta de estudar e sempre fica de recuperação. Nesse caso concreto é fundamental que os pais tenham o cuidado de demonstrar para ambos que o amor devotado a eles continua igual, pois são amados pela condição de filhos. Isso, entretanto, não deve impedir os pais de chegarem junto ao filho bagunceiro e incentivá-lo a mudar de conduta, inclusive disciplinando-o se necessário. Ao experimentar o amor incondicional de seus pais, o filho, com certeza, se sentirá encorajado e confiante para reagir e melhorar seu comportamento. Um exemplo clássico de amor incondicional está retratado nas sagradas escrituras, na história do filho pródigo.

“ Um homem tinha dois filhos. O mais novo deles disse ao pai: Pai, dá minha parte na herança. Ele repartiu os bens entre eles. Não muitos dias depois, o filho mais novo ajuntou tudo o que era seu e partiu para uma terra distante, e lá desperdiçou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter gastado tudo, houve naquele país uma grande fome; e ele começou a passar necessidade. Então ele foi e se empregou com um dos cidadãos daquela região, e este o mandou para seus campos para apascentar os porcos. Ele desejava fartar-se das bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada. Então caiu em si e disse: quantos empregados de meu pai

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A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR

LIÇÃO 1

têm pão com fartura, e eu aqui estou morrendo de fome! Eu me levantarei e irei até meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; não sou digno mais de ser chamado teu filho; trata-me como um de teus empregados. Levantou-se e foi até seu pai. Quando ele ainda estava longe, seu pai o viu e cheio de compaixão, correu, o abraçou e o beijou. O filho disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; não sou mais digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse a seus servos: Trazei depressa a melhor roupa e vesti-o, ponde um anel em seu dedo e sandálias nos pés. Trazei também e matai o novilho gordo. Comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado. E começaram a alegrar-se”. Lucas 15: 11-24

DANDO TEMPO E ATENÇÃO

Li certa vez um comentário onde um escritor dizia que nunca tinha escutado uma pessoa já idosa voltar seus olhos para o passado e lamentar por não ter gasto mais tempo trabalhando ou por não poder ter tido a oportunidade de se levantar mais cedo, para madrugar na repartição pública onde prestava serviço e se dedicar exaustivamente as atividades da empresa. Entretanto, segundo o mesmo autor, a maioria das pessoas mais velhas lamentam o tempo que deixaram de passar na companhia de seus próprios filhos. Pude presenciar uma cena que confirma o raciocínio exposto acima. Um dia eu estava participando de uma reunião em uma repartição pública e durante o discurso de boas vindas da anfitriã do evento, me surpreendi com o desabafo feito por ela quando pegou o microfone e disse: 21 |


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“ Queridos colegas, eu tenho 20 anos de trabalho dedicados ao estado. Hoje sou uma mulher sem marido, que não viu os filhos crescerem e que se encontra completamente cansada e frustrada, e o pior de tudo, é que não vejo as pessoas reconhecerem todo meu esforço. Me sinto decepcionada. Quero lhes dar um conselho: nunca sigam o meu exemplo, não vale a pena. Desperdicei oportunidades maravilhosas de estar na companhia de meus filhos, de conhecê-los melhor, de ser mãe, amiga e companheira deles. Hoje tenho a sensação de que corri atrás do vento.”

As crianças medem o amor e o tamanho da importância que têm para seus pais através do tempo e do grau de atenção que recebem deles. Muitos filhos são vítimas de abuso psicológico, quando o ativismo dos pais faz com que não haja um relacionamento de intimidade entre eles. Algumas vezes, a sobrecarga de compromissos faz com que os pais tornem-se, com o passar dos anos, figuras inatingíveis para seus filhos, que com um sentimento profundo de desamparo se sentem rejeitados e preteridos na escala de prioridade dos pais. A desculpa usada pelos pais ativistas é que não possuem tempo para ficar com os filhos. Entretanto, na verdade, se pensarmos bem, não existe o que as pessoas comumente chamam de “falta de tempo”, existe sim falta de prioridade. As prioridades das nossas vidas podem ser facilmente detectadas através da análise do tempo que dispensamos na execução de nossas tarefas diárias.

Um advogado muito bem sucedido disse: “o melhor presente que já ganhei foi num Natal, quando meu pai me deu uma caixinha. Dentro dela havia um bilhete que dizia: “ Meu filho, este ano eu lhe darei 365 horas, uma hora todos os dias após o jantar. Elas são suas. Vamos conversar sobre o que você quiser, vamos onde você quiser, brincar do que você quiser brincar. Vai ser uma hora para você! “O meu pai não só cumpriu a promessa” disse ele, “mas a renovou a cada ano, e foi o melhor

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A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR

LIÇÃO 1

presente que já ganhei na vida. Eu sou o resultado do tempo que ele dedicou a mim.”

Tão importante quanto dedicar tempo para os filhos é observar a qualidade desse tempo. De nada adianta o pai passar o final de semana em casa, se em vez de desfrutar da companhia dos filhos e da esposa, prefere se distrair diante da televisão, lavar o carro ou ler aquele livro de 400 páginas durante o dia inteiro. Não estou dizendo com isso que os pais não devam reservar um tempinho para descansar e espairecer. Devem, e isso é muito bom. Na verdade o importante não é a quantidade de tempo em si. Às vezes, disponibilizar meia hora de atenção concentrada para o filho é mais produtivo do que passar o dia todo com o mesmo dentro de casa, entretanto correndo de um lado para outro absorvido por tarefas intelectuais ou domésticas. A criança que recebe tempo e atenção da parte daqueles a quem ama, tem seu tanque emocional abastecido e goza de excelente auto-estima. O hábito de conversar com os filhos, mesmo que seja por alguns minutos diários, dando aos mesmos oportunidade para se expressarem, brincarem e se relacionarem de forma agradável, produz frutos maravilhosos. Vale a pena cultivar momentos de convívio familiar. Nessas ocasiões a televisão deve ser desligada, o jornal colocado de lado e o celular mantido na caixa eletrônica.

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RESPEITANDO SEU RITMO DE CRESCIMENTO

Nossa sociedade é profundamente competitiva. Assim que os filhos nascem os pais passam a alimentar grandes planos e realizações para eles. De acordo com DRESCHER (1997), existem três áreas em que os pais esperam que os filhos os superem: na beleza, na inteligência e no acúmulo de bens materiais. Com certeza o que faz os pais desejarem tais coisas para seus filhos é o amor e a vontade de vê-los felizes. Entretanto, é preciso ter bastante cuidado para não exigir da criança comportamentos prematuros aos quais ela ainda não está pronta para corresponder. É falsa a crença de que os filhos que realizam atividades bem mais cedo do que a maior parte das outras crianças estão ganhando vantagem. Tentar ensinar uma criança a ler e escrever com três anos de idade pode se revelar numa forma de abuso psicológico, pois quando uma criança sofre constante pressão para desempenhar tarefas que ainda não está emocionalmente preparada para exercer, sentirá ansiedade, culpa e frustração. O ritmo de desenvolvimento da criança deve ser respeitado. Os pais precisam controlar a própria ansiedade e permitir que seus filhos vivenciem com liberdade e leveza cada etapa de suas vidas. Nada de obrigar as crianças a se comportarem como adultos ou exigir uma postura impecável das mesmas em reuniões demoradas e enfadonhas. Criança gosta de correr, de ficar suada, de falar muito, de se lambuzar, de emaranhar os cabelos. É melhor ver uma criança toda despenteada com a roupa nova manchada, mas extremamente feliz, do que com os cabelos impecavelmente penteados e um vestido novo limpinho, porém magoada e ferida interiormente. O desejo dos pais é tão intenso no sentido de que seus filhos vençam na vida, que a criança moderna quase não tem tempo para curtir sua infância.

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A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR

LIÇÃO 1

Conheci uma certa senhora cujo filho de oito anos de idade só tinha permissão para brincar durante meia hora por dia. O resto do tempo era preenchido por aulas de judô, piano, natação, basquete, inglês, computação e os deveres da escola. O resultado disso foi uma sobrecarga de tarefas onde a criança ficou estressada e deprimida devido ao acúmulo de atividades impostas a ela.

DEIXANDO QUE FAÇA SUAS PRÓPRIAS ESCOLHAS

Faz parte do processo de crescimento a tomada de decisões. Devemos proporcionar às crianças o máximo de oportunidades possíveis de exercitarem seu poder de escolha e ensiná-las a conviver com as conseqüências decorrentes. É verdade que nem sempre a criança está amadurecida o suficiente para discernir o que é melhor para ela. Entretanto os pais devem sempre estimular a capacidade de escolha de seus filhos a fim de que desenvolvam auto confiança e possam no futuro tomar suas próprias decisões sem medo ou insegurança. Meus filhos, Paulo Humberto (6 anos) e Beatriz (5 anos), desde os três anos de idade já passaram a exercer tomadas de decisões em nossa rotina doméstica. Uma das formas que encontrei para estimulá-los a praticar tal exercício foi adotando a seguinte estratégia: Sempre que vamos nos arrumar para sair de casa, coloco várias roupas bonitas em cima da cama e digo: - Escolham a que vocês acharem melhor. Dessa forma eles se sentem prestigiados em

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escolher a roupa que querem usar para sair, e eu não corro o risco deles escolherem a blusa manchada de tinta usada somente para atividades dentro de casa. Pode até parecer esquisito fazer questionamentos do tipo: — Filho, você prefere que quem penteie seu cabelo, seja eu ou seu pai? Ou — Filha, você quer tomar leite frio ou morninho? Ou Vocês preferem comer o pão com queijo ou requeijão?

Para a criança, poder tomar decisões sobre sua própria vida, por menores que sejam, é extremamente importante e gratificante.

Outro exercício bem produtivo, ainda nesse processo de incentivar nossos filhos a tomarem suas próprias decisões, é levá-los junto conosco quando formos fazer compras no super mercado. Experimente dar a cada um deles R$ 5,00 para que gastem como queiram. O objetivo desse exercício é fazer com que a criança tenha noção do valor do dinheiro, da importância de se escolher bem o que se deve ou não comprar com o mesmo e de se sentir valorizada pela oportunidade que seus pais estão dando a ela de fazer suas próprias escolhas. Quando era criança, lembro que minha mãe costumava vestir eu e minha irmã com vestidos de modelos iguais. Eu detestava sair vestida igual a minha irmã mais nova, mesmo porque a nossa diferença de idade é de quase quatro anos e me sentia ridícula com aquela “farda”. Entretanto, minha mãe nos achava “lindas” e

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A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR

LIÇÃO 1

como não entendia nada de abuso psicológico fui obrigada a me vestir igual a minha irmã até os dez anos de idade. Lembro-me que até meus 30 anos de idade sempre que ia comprar uma roupa nova minha mãe ia junto. Eu simplesmente não sabia nem me sentia segura para escolher sozinha. Os anos foram passando e me casei. Agora quem me acompanhava nas compras e dava todas as diretrizes sobre os modelos das minhas roupas era meu marido. Quando completei trinta e quatro anos comecei a desconfiar que “alguma coisa estava errada”. Percebi que tinha me acostumado a deixar que os outros escolhessem os modelos das roupas que vestia. Vi que tal condicionamento não era saudável e que precisava enfrentar aquela insegurança. Finalmente com trinta e cinco anos de idade, “antes tarde do que nunca”, consegui fazer minha primeira compra de roupa sozinha. Fiquei hesitante no começo, mas logo percebi o absurdo de necessitar da aprovação dos outros para me sentir bem vestida.

Uma criança, cujo pais sempre decidem tudo por ela, crescerá um adulto inseguro e com grandes dificuldades em fazer suas próprias escolhas.

INCENTIVANDO A EXECUÇÃO DE PEQUENAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Todo ser humano gosta de ser útil e necessário no ambiente em que vive. A criança se sente importante e com a auto-estima alimentada quando é convidada a ajudar no desempenho de alguma tarefa doméstica. Ela se sente valorizada e responsável. 27 |


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Os pais, entretanto, devem buscar agir com paciência quando delegarem tarefas para seus filhos executarem. É importante deixar a criança completar em paz aquilo que foi incumbida de fazer. Quer seja lavar um prato, ou colocar os copos na mesa ou guardar seus brinquedos na caixa, a criança não deve ser repreendida ou humilhada caso demore em executar a tarefa que lhe foi confiada. São freqüentes as cenas de abuso psicológico nessa área. Às vezes o adulto age com grosseria e sem nenhum tato, tomando a frente da criança, que está se esforçando para desempenhar aquilo que lhe foi pedido. São comuns frases do tipo: “Largue logo isso, você só serve para atrapalhar. Deixe que eu faço, você não vai conseguir mesmo”. Ou “Você é lenta demais, até uma lesma faz isso mais rápido”. Atitudes como essas fazem com que a criança se sinta incompetente e fracassada em cumprir a missão a ela confiada, ficando com uma rachadura em sua auto-estima. RYZEWSKI e BERETTA relatam um caso típico acerca do que acabamos de comentar:

“O novo dever de Jenifer é por a mesa. Na primeira vez a mãe lhe dá uma mão, mostra-lhe onde colocar os talheres, os pratos, os copos e os guardanapos. No outro dia as duas põem a mesa juntas, só para certificar-se de que Jenifer tem a idéia certa do que fazer. Até agora tudo bem. Mas no terceiro dia vai por a mesa sozinha. Ela joga os talheres ao lado de cada prato a esmo. Esquece de colocar a pimenta na mesa para seu pai. Coloca os guardanapos em cima dos pratos, ao invés de ao lado de cada prato como a sua mãe lhe ensinou. A mãe reclama: “A sua memória é do tamanho de um rabo de ovelha” . Vai até a mesa, passa por cima da coitada da Jenifer e põe a mesa da maneira correta. “ Pronto”, diz a mãe, “É assim que se faz”. Jenifer olha para sua mãe com os olhos cheios de lágrimas.”

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POSTURAS ADOTADAS PELOS PAIS QUE CONTRIBUIRÃO PARA ALIMENTAR A AUTO-ESTIMA E O SENTIMENTO DE VALORIZAÇÃO DE SEUS FILHOS

Apóie seu filho quando ele fracassar. Faça-o perceber que falhar também faz parte da vida e o ensine a superar a frustração de cabeça erguida.

Seja um exemplo positivo para seu filho. Ao perceber que seus pais são pessoas dignas, honestas e de valores saudáveis, a criança terá sua auto-estima fortalecida, tendo orgulho e admiração dos que a geraram.

Busque vivenciar de forma balanceada os papéis de pai/mãe, marido/esposa, profissional, sem deixar que um se sobreponha e ofusque o outro gerando cobranças e frustrações.

Respeite seu filho como pessoa de valor. Apresente-o pelo nome. Evite apelidos pejorativos. Quando pedir alguma coisa a ele, use expressões cordiais tais como: com licença, por favor, etc.


EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

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Caso tenha filhos, assinale verdadeiro, falso ou habitualmente: V

F

QUESTIONÁRIO

H

Costumo dar tempo e atenção individualizada a meu filho quando estou em casa. Amo meu filho de forma incondicionada. Minhas demonstrações de amor ficam geralmente condicionadas ao comportamento do meu filho. Respeito o ritmo de desenvolvimento de meu filho e não costumo forçar o mesmo a assumir tarefas para as quais não esteja preparado ainda. Sempre que possível, encorajo meus filhos a tomarem suas próprias decisões. Encorajo meus filhos a ajudarem nas tarefas domésticas. Evito chamar meus filhos por apelidos pejorativos. Consigo separar os papeis de cônjuge, profissional e pai (mãe). PARA REFLETIR 1. Você lembra se existiu alguma ocasião em que os relacionamentos pai (mãe) - filho tiveram prioridade sobre os maridomulher na família em que você foi criado?

2. Cite, caso exista, um exemplo em que você recebeu amor incondicional de seus pais?

3. Na sua infância, você alguma vez foi forçado a executar uma tarefa para a qual ainda não estava amadurecido para exercer? Como se sentiu a respeito?


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LIÇÃO 2 A IMPORTÂNCIA DE COMUNICAR ACEITAÇÃO


A IMPORTÂNCIA DE COMUNICAR ACEITAÇÃO

LIÇÃO 2

“ Antes de casar eu tinha seis teorias sobre a educação dos filhos; agora, tenho seis filhos e nenhuma teoria” John Vilmont, Conde Rochester, Séc. XVIII

A criança para se desenvolver de forma sadia necessita experimentar a sensação de ser acolhida e aprovada pelas pessoas que a cercam. Ao nascer, é na família que ela terá seus primeiros referenciais e poderá ter seu anseio por aceitação suprido. Os pais ou responsáveis pela criança funcionam como uma espécie de espelho onde a mesma vê refletidas as impressões iniciais sobre si mesma e sobre o tipo de pessoa que pensa que é. O ambiente emocional do lar é percebido pela criança que logo identifica se existe à sua volta uma atmosfera de harmonia e amor ou ódio, violência e confusão. De certa forma seus cuidadores mais próximos acabam sendo uma espécie de ponte que a liga ao resto do mundo.

Uma criança tratada com amor e carinho terá muito mais chance de crescer feliz, valorizada e forte. A convivência familiar saudável, principalmente nos primeiros anos de vida, contribui para a formação de uma boa imagem de si mesma, tornando-a apta para enfrentar o mundo lá fora.

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FATOS GERADORES DE NÃO ACEITAÇÃO

CRÍTICAS PERMANENTES

A crítica faz parte do processo de amadurecimento de todo ser humano. Entretanto, quando a mesma tem por alvo uma criança, deve ser feita de forma construtiva, com amor, cuidado e moderação, sempre se ressaltando o lado positivo.

Muitos pais, desejosos em ver seus filhos bem encaminhados na vida, acabam por sobrecarregá-los com cobranças intermináveis. O fato de guardarmos com mais facilidade as experiências desagradáveis do que as bem sucedidas contribui para que muitas crianças se tornem vítimas de abuso psicológico. A criança que é muito criticada pelos pais, sendo raramente valorizada pelos seus acertos, desenvolve dentro de si a idéia de que não é aprovada pelos que mais ama, se tornando frustrada, com medo de encarar desafios, jamais confiando em seu próprio potencial para tomar decisões e enfrentar a vida.

A pior forma de motivar uma criança a mudar de comportamento é criticando seu desempenho. Quanto mais criticada ela for, menor será seu desejo em buscar melhorar.

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A IMPORTÂNCIA DE COMUNICAR ACEITAÇÃO

LIÇÃO 2

PAIS QUE SOBRECARREGAM SEUS FILHOS

Alguns pais, na tentativa de tornar seus filhos em “filhos-modelos”, acabam sendo extremamente castradores. Suas crianças são vitimizadas devido ao acúmulo de exigências que pesam sobre seus ombros. Elas acabam desenvolvendo um sentimento de que não são aceitas e muitas vezes se vêem obrigadas a se anular, abandonando seus próprios sonhos e anseios, para vivenciar os sonhos e expectativas de seus pais. São comuns: a exigência de nota máxima em todas as disciplinas na escola, a escolha dos amigos e até mesmo qual vai ser o futuro profissional das crianças. Sem perceber, alguns genitores acabam projetando para os filhos coisas que eles próprios não conseguiram realizar em suas vidas, vendo nos mesmos uma continuidade do próprio eu, como se tivessem uma segunda chance de planejar a própria existência.

Tomei conhecimento de uma tragédia familiar que retrata bem o que acabamos de comentar. Vou chamar a mãe de “Maria” e seu filho de “Carlinhos”. Maria era mãe solteira, trabalhava em uma máquina de costura o dia todo a fim de proporcionar ao filho único, Carlinhos, uma educação de qualidade. Ela era extremamente exigente com a criança. Sempre que ele chegava em casa com uma nota 9, ela dizia: - Carlinhos na próxima vez quero ver um 10. Quando ele tirava uma nota 10, ela dizia: Você não fez mais do que a sua obrigação Carlinhos, pois só vive para estudar. O tempo passou, e Carlinhos cresceu e foi prestar o vestibular de medicina, pois era sonho de sua mãe tê-lo como médico. No dia do resultado do vestibular, Carlinhos foi até a banca de revista comprar o jornal para ver o resultado do exame e verificou com grande tristeza que não tinha conseguido passar na tão sonhada faculdade de medicina. Angustiado, chegou em casa e escreveu um bilhete de despedida para a mãe, se matando logo em seguida. No bilhete estava escrito: “Mãe, sinto muitíssimo por tê-la decepcionado. Seu filho, Carlinhos”.

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Como já falamos antes, muitos pais buscam se realizar por intermédio dos filhos. Almejam para eles experiências e coisas que lhes foram negadas no decorrer de suas próprias vidas. Os filhos acabam se tornando uma projeção de seus egos.

COMPARAÇÃO DE DESEMPENHO

Estamos na era da diversidade. Nunca se falou tanto sobre a convivência harmônica das diferenças. O ser humano é, por natureza, complexo e não se desenvolve de forma igual e uniforme. Somos equipados com uma variedade imensa de dons naturais. Uns tem mais aptidão para música, já outros para trabalhar com números e outros com esporte. O leque é bem extenso. Tal constatação nos leva a pensar como é extremamente injusto comparar o desempenho de uma criança com outra, isso porque, se uma se destaca nas artes plásticas, a outra pode vir a se destacar na culinária, não havendo como aquilatar a mais dotada de talentos. Entretanto, infelizmente, os pais gostam de comparar o progresso de seus filhos ao de outras crianças. A mãe vê o filho da vizinha e já faz suas comparações. Sua “cria” precisa se nivelar ou superar as crianças que a rodeiam. Tal necessidade em estar sempre comparando a inteligência, a beleza e desenvoltura da criança gera, na mesma, ansiedade, prejudicando seriamente o desenvolvimento de sua personalidade. Na ânsia de alcançar a superioridade a criança acaba desenvolvendo sentimentos de inferioridade. Ela sente rejeição quando não consegue se sobressair nos esportes ou no curso de línguas achando que sua capacidade é defasada. Entretanto, é preciso que os pais entendam e ensinem seus filhos que cada um de nós é inferior em algumas áreas em relação a outras pessoas. Por outro lado, cada um de nós possui pontos positivos em que nos sobressaímos acima da média. | 36


A IMPORTÂNCIA DE COMUNICAR ACEITAÇÃO

LIÇÃO 2

ATITUDES QUE PRODUZEM SENTIMENTOS DE ACEITAÇÃO

EXPRESSE SEU AMOR EM PALAVRAS E AÇÕES

Alguns pais enfrentam imensa dificuldade em demonstrar amor pelos filhos usando palavras ou gestos carinhosos. É mais fácil expressar o que sentem através da casa arrumada, a roupa lavada, o pagamento da mensalidade do colégio em dia, a compra do vestido novo. Entretanto, apesar da importância de todos esses cuidados, eles sozinhos não bastam para demonstrar a uma criança o quanto ela é amada e aceita como parte da família. A criança precisa escutar o amor que seus pais sentem por ela de forma verbalizada e vivenciar o toque carinhoso daqueles a quem quer bem. É muito importante o abraço terno e quente da mãe, o ouvir o doce “eu te amo” do pai ou expressões do tipo: “filho você é valioso(a) para mim”; “ Filha(o), você está muito bonita nesse vestido”; ou “ Você é muito importante para mim”. Tudo isso me faz lembrar minha própria história de vida. Meu pai sempre foi um homem de quem me orgulhei muito. Responsável, nunca deixou que faltasse nada dentro de casa. O que eu quisesse, e estivesse dentro de suas condições financeiras, ele se esforçava para me dar. Entretanto, devido o corre-corre de sua rotina sempre agitada e cheia de compromissos, nunca tive muito tempo com ele durante minha infância e adolescência. Um dia, já casada e com 30 anos de idade, eu e ele tivemos tempo de parar e conversar um pouco. Num diálogo despretensioso ele disse algo que encheu meu coração de felicidade e que me fez pensar como eu gostaria de ter escutado essa declaração há mais tempo. Ela teria feito muita diferença em nossas vidas. Ele me olhou com muito carinho e me perguntou: “Você sabe qual foi o dia mais feliz da minha vida?” Eu respondi: “Não, qual foi?” Ele falou sorrindo meigamente: “O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que você nasceu!” 37 |


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Não espere 30 anos para abrir seu coração para seu filho(a). Fale! Expresse todo seu amor hoje mesmo, amanhã pode ser tarde demais.

BUSQUE SEMPRE ELOGIAR

A força das palavras é extraordinária. Elas podem destruir ou edificar nossa auto-estima. Uma criança que sofre constantes agressões verbais, torna-se infeliz e portadora de um grande complexo de inferioridade. Os pais desempenham um importante papel na vida dos filhos, suas palavras possuem grande peso na formação de suas personalidades e caráter. Se quisermos ter crianças confiantes e bem sucedidas, precisamos ter muito cuidado com o tipo de linguagem e mensagem que são semeadas em seu coração diariamente. Expressões do tipo: “Você só serve para atrapalhar”, “Maldita a hora que engravidei de você”, “Você é uma vagabunda igual a sua mãe” ou “Você não vai dar pra nada” podem provocar feridas no coração de uma criança que continuarão a sangrar até sua fase adulta. É de extrema importância os pais buscarem, sempre que tiverem oportunidade, reforçar o lado positivo de seus filhos, criando diariamente uma couraça de amor próprio e sentimento de auto aceitação que os ajudem a enfrentar futuramente, com maior equilíbrio e facilidade, os revezes da vida.

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LIÇÃO 2

Alguns cuidados que temos de tomar quando elogiamos crianças: 1. Busque adequar seu elogio de acordo com a idade da criança O elogio deve ser adequado à pessoa que o está recebendo. Ou seja, para uma criança de 6 anos ouvir o elogio do tipo: “Eu reparei que você escova os dentes todos os dias”, será motivo de orgulho. Já dizer a mesma coisa para um adolescente irá soar estranho. 2. Quando fizer um elogio, faça-o com honestidade, e não apenas para agradar a criança. Ela saberá distinguir a diferença e, dependendo da situação, se sentirá mais insegura ainda. 3. Não faça elogios que lembrem defeitos ou falhas Evite tecer comentários do tipo: “Até que em fim você cantou aquela música no tom certo!” “Você está tão arrumado hoje. Onde é a festa?” “Eu nunca imaginei que você conseguisse passar no vestibular, mas você passou.” Prefira sempre enfatizar o lado positivo: “É admirável a maneira como você canta e encanta.” “ Você tem muito bom gosto e sabe se vestir sempre bem.” “ Parabéns por ter passado no vestibular, valeu o esforço.” 4. Procure não exagerar na demonstração de entusiasmo a fim de não inibir a criança O entusiasmo dos pais, quando muito intenso, pode provocar na criança ansiedade, fazendo com que se sinta pressionada. Um adolescente que escuta diariamente dos pais: “Você passará tranqüilamente no vestibular de medicina. Nós confiamos em você!” , possivelmente ficará muito preocupado e aflito querendo corresponder as expectativas daqueles que nele depositaram suas esperanças. 39 |


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TRATE BEM OS AMIGOS DE SEU FILHO

Fazer amizade é uma atividade necessária para a socialização da criança. A família deve ser um espaço de conforto e segurança onde ela se sinta com liberdade para receber seus amigos. Quando a criança sente que não terá permissão dos pais para convidar seus coleguinhas a virem até sua casa ou percebe que os mesmos receberão seus amigos com “cara feia” e “má vontade”, ela poderá desenvolver um certo temor em aprofundar seus relacionamentos, por saber que possivelmente será humilhada se seus companheiros vierem a conhecer sua família.

Demonstrar respeito para com os amigos de nossos filhos faz com que se sintam aceitos e respeitados por nós.

FALE SEMPRE A VERDADE, ABANDONE AS MÁSCARAS

Todo relacionamento saudável deve ser alicerçado na verdade. Às vezes os pais relutam em reconhecer suas fraquezas e imperfeições diante dos filhos por temerem perder a autoridade para com os mesmos. Essa forma de agir é equivocada e provoca mais danos do

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LIÇÃO 2

que benefícios no relacionamento entre pais e filhos. Quando os adultos têm coragem para assumir seus próprios erros estão indiretamente ensinando as crianças a adotarem a mesma postura diante da vida. Um exemplo bem interessante acerca do assunto é uma história contada por DRESCHER (1997):

Um pai contou que o filho chegou em casa com nota baixa em álgebra. “Quando terminei minha conversa com ele, meu filho deve ter pensado que sempre tirei dez em álgebra na escola”, disse ele, “Mas, na verdade, quais são os fatos? Depois de ter completado um semestre de álgebra o professor me chamou e disse: ‘ Você é tão fraco na matéria, que vou passá-lo de ano só para me ver livre de você.’ Ao pretender ser tão superior, dei a meu filho um sentimento de desesperança. Se tivesse sido honesto e lhe dito que sabia o que estava passando, porque eu também tivera dificuldade em álgebra, teria dado esperança a meu filho.

Muitos de nós adultos e principalmente os pais temos a tendência de aparentar perfeição em nossa forma de agir. A mensagem muitas vezes passada para a criança é: “Você não sabe de nada, deixe que eu sei de tudo, sou perfeito e vou guiar você.” Tal comportamento, muitas vezes, acaba por reforçar um enorme sentimento de frustração na criança nutrindo a idéia de que não é aceita nem adequada no mundo dos adultos.

ESCUTE SEU FILHO COM ATENÇÃO

Vivemos num mundo tão agitado que muitas vezes nos falta tempo e disposição para ouvir de verdade o que nossas crianças têm a nos dizer. Entretanto uma das melhores formas de demonstrar que elas

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são amadas e aceitas por nós é dando às mesmas uma chance de se comunicarem de forma plena conosco. O diálogo entre pais e filhos, para dar certo, dependerá em grande parte do sentimento de aceitação existente entre eles. É natural do ser humano se expor apenas quando percebe que é aceito e amado. Uma criança pode aprender desde muito cedo que não deve confiar nos adultos.

Isso geralmente ocorre quando: É ridicularizada quando tenta contar algum segredo que para ela tem grande significado; Sente indiferença e pouca atenção nas vezes que busca se comunicar e dividir seus dilemas e dúvidas; Percebe quando vai se abrir e compartilhar sua intimidade que está escandalizando e que vai ser julgada com severidade. Todo ser humano, ao ser rejeitado, tende a se fechar. Entretanto, quando uma crian��a encontra em seus pais um ouvido amigo em que possa compartilhar seus bons e maus momentos, seus êxitos e fracassos, ela crescerá com uma constante sensação de acolhimento e certeza de que é aceita e que poderá sempre contar com o apoio e amor de sua família.

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V

F

QUESTIONÁRIO

H

Costumo incentivar meu filho reforçando seu lado positivo e não através de críticas constantes Não costumo comparar meu filho. Sei que ele é único. Procuro não sobrecarregar meu filho com exigências e caprichos pessoais Expresso meu amor por meu filho através de palavras e gestos carinhosos Busco sempre elogiar meu filho durante o dia Não tenho dificuldades em admitir meus erros e pedir perdão ao meu filho Meu filho tem liberdade para trazer amigos em casa PARA REFLETIR 1. Você alguma vez, quando criança, foi pressionado a realizar os sonhos de seus pais?

2. Você já sentiu a tentação de parecer “perfeito” para seu filho? Quais os efeitos que isto pode acarretar sobre sua criança?

EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

Caso tenha filhos, assinale verdadeiro, falso ou habitualmente:

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LIÇÃO 3 A IMPORTÂNCIA DE DAR SEGURANÇA


A IMPORTÂNCIA DE DAR SEGURANÇA

LIÇÃO 3

Os pais não podem mudar a cor dos olhos de seu filho, mas podem dar aos olhos a luz da compreensão, calor da simpatia. Eles não conseguem mudar muito o aspecto da criança, mas podem de muitos modos dotar a criança com o brilho da humanidade, bondade e amizade, que em longo prazo talvez lhe proporcione muito mais alegria do que a perfeição que vence nos concursos de beleza. Os pais não dão segurança cercando o filho de coisas materiais, mas envolvendo-o nos braços do amor Charles Kingsley

Todo ser humano anseia por se sentir seguro. A criança mais do que ninguém precisa de amparo e proteção. Quando ela se sente rodeada de instabilidade e sem apoio dos pais, o medo e a angústia invadem seu coração. Uma série de mazelas na área emocional começam então a ser desenvolvidas para que funcionem como mecanismos de defesa para enfrentar o mundo que a assusta.

FATOS GERADORES DE INSEGURANÇA

CONFLITO ENTRE OS PAIS

Não existe tragédia maior para os filhos do que presenciarem constantes brigas e desentendimentos entre seus pais. Afinal, os mesmos são as pessoas que eles mais amam e de que dependem diretamente para sobreviver na vida. Nada magoa mais uma criança do que ver aqueles a quem ama se digladiando como inimigos. 45 |


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Não estamos querendo dizer com isso, entretanto, que os pais devem esconder dos filhos seus desentendimentos. Existem casais que jamais brigam na frente de suas crianças, sendo todas as suas discussões travadas entre quatro paredes. Não concordamos com essa postura. Defendemos que faz parte do processo de crescimento dos filhos perceberem que seus pais têm suas diferenças, mas que o amor que os une é suficientemente maduro para resolvê-las. As desavenças, quando trabalhadas com sabedoria dentro do lar, ajudam os filhos a enxergarem a vida de forma mais realista. Ao presenciarem o amor e o perdão entre os pais após uma discussão, eles terão certamente melhor estrutura emocional para enfrentar conflitos do que uma criança que jamais vivenciou uma divergência de opinião entre seus genitores. Porém, existem casais disfuncionais que, acostumados a um ciclo vicioso, vivem brigando na frente dos filhos. Às vezes essas discussões são pautadas pela total falta de respeito mútuo, sendo geralmente empregadas palavras de baixo calão e não raramente o uso de violência física. Perdurando tais situações é melhor o casal se separar do que transformar o ambiente doméstico num verdadeiro inferno. Segundo DRESCHER (1997), um estudo sobre adolescentes disfuncionais apresentou três razões mais freqüentes para o uso indevido de drogas. Adivinhe qual a razão mais votada? Você acertou se disse o conflito entre os pais.

AUSÊNCIA DE LIMITES

Os limites são importantes na vida de uma criança. Já é sabido que as crianças mais inseguras são as oriundas de famílias permissivas, onde as regras são inexistentes e nenhum padrão de comportamento é exigido.

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A IMPORTÂNCIA DE DAR SEGURANÇA

LIÇÃO 3

Às vezes, entretanto, os pais não mantêm um padrão justo na forma de disciplinamento dos filhos, gerando mais confusão e angústia do que segurança e estabilidade. Podemos exemplificar isso quando observamos pais que quando estão de bom humor, adotam uma atitude permissiva e condescendente em relação aos filhos e quando ficam contrariados, descarregam toda sua frustração e agressividade em cima da criança, como se essa fosse um saco de pancadas. Quando isso acontece, a criança se sente sem terra firme para pisar, perdendo a noção do que é certo e do que é errado, já que em muitas ocasiões, pelo mesmo comportamento, é repreendida ou até mesmo apanha e em outras os pais simplesmente não ligam para seu comportamento anteriormente castigado.

Outro fato interessante é que, à primeira vista, as crianças e adolescentes parecem não desejar a demarcação de limites em suas vidas, entretanto, quando paramos para analisar mais detalhadamente constatamos que, tratando-se de limites justos e aplicados com coerência, eles são bem recebidos. Isso acontece porque os filhos percebem, com íntima satisfação, que seus pais impõem certas regras motivados pela preocupação que sentem pelo bem estar deles.

DRESCHER (1997), relata a história de uma adolescente de uma família permissiva:

“Uma mocinha de 17 anos achava difícil acreditar que Deus a amava, porque não podia mais confiar no amor humano. Certo dia na casa de uma amiga, ela viu a mãe beijar a filha e dizer: “Olhe, querida, espero que esteja de volta às 11 horas. Não se atrase. Vou ficar esperando você.” Como se recebesse uma facada no coração, ela ficou imaginando por que sua mãe nunca parecia se importar onde ela estava ou quando iria voltar para casa. Para descobrir se a família realmente se interessava por ela, resolveu ficar fora de casa até tarde, a ponto que eles se preocupassem

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com seu bem-estar e talvez até chamassem a polícia. A jovem foi a um espetáculo noturno. Depois foi para uma estação de ônibus e encolheu-se num banco, cansada e desejando ansiosamente estar na cama. Quase de manhã finalmente chegou em casa, fazendo bastante barulho na esperança de que alguém ouvisse. Ninguém perguntou quem era. Ninguém deu atenção. Na hora do café ninguém perguntou onde estivera a noite inteira. Ela tinha a sua resposta! Com essa mágoa profunda no coração estava se arrastando pela vida.”

Não existe dor maior do que sentir a indiferença por parte daqueles que mais amamos. Às vezes, devido o ativismo do mundo moderno, os pais fazem a opção de liberar totalmente o controle que deveriam ter sobre seus filhos. Tal postura, longe de causar alegria e bem estar às crianças, transmitirá uma sensação de desamparo e profunda insegurança, onde pensarão que não são amados, pois raciocinam: quem ama cuida.

ALGUMAS ATITUDES QUE PRODUZEM SEGURANÇA

1. Bom relacionamento conjugal dos pais 2. Desenvolver rotina regular dentro do ambiente doméstico, estabelecendo horários para dormir, tomar café, almoçar, etc. 3. Valorizar a importância do toque.

O Dr. Frederic Burke, um pediatra de Washington, D. C., ressalta a importância de o pai e a mãe ninarem o bebê. “Eu recomendo uma cadeira de balanço”, diz ele. “A maioria das mães compreende que o bebê precisa ser tocado, acariciado, abraçado e ouvir palavras carinhosas” O Dr. Burke continua:”Todas essas coisas são agradáveis, suaves e reforçam a segurança da criancinha... Acredito firmemente que o fato de

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LIÇÃO 3

sentir as mãos e os braços amorosos dos pais fica impresso na mente dela; e embora aparentemente esquecido, ele tem uma tremenda influência sobre o ego da criança e o tipo de adolescente em que vai tornar-se.”

4. Mostrar para a criança que ela é importante e que é membro integrante da família. O sentimento de pertencer é uma das nossas necessidades psicológicas mais profundas. DRESCHER (1997), conta uma história comovente a esse respeito:

“Há alguns anos o jornal New York Times publicou uma história de interesse humano sob o título ‘Ele gostaria de pertencer’. O artigo falava de um menino que viajava de ônibus na cidade. Ele estava ali sentado, perto de uma senhora de cinza. Naturalmente todo mundo pensava que ele estava com ela. Não é de admirar então que ao esfregar os sapatos sujos numa mulher sentada do outro lado dele, ela dissesse à senhora de cinza: Desculpe, mas quer fazer seu filho tirar os pés do banco? Os sapatos dele estão sujando meu vestido”.

A mulher de cinza ficou vermelha. Depois, deu um pequeno empurrão no menino e falou: ‘Ele não é meu filho. Nunca o vi antes.’ O menino se encolheu todo. Era tão pequeno, com os pés balançando por não alcançarem o chão. Baixou os olhos e tentou desesperadamente conter um soluço. ‘Sinto muito ter sujado seu vestido’, disse ele à mulher, ‘eu não queria fazer isso.’ ‘Ah, não faz mal’; respondeu ela meio embaraçada. Depois, como os olhos dele ainda estavam pregados nela, acrescentou: ‘Você vai indo a algum lugar sozinho?’ ‘Sim’, ele acenou com a cabeça. ‘Sempre ando sozinho. Não tenho ninguém. Não tenho ninguém. Não tenho mãe nem pai. Os dois morreram. Eu vivo com a tia Clara, mas ela diz que a tia Odete devia tomar conta de mim parte do tempo. Quando

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ela fica cansada de mim e quer ir a algum lugar, ela me manda ficar com a tia Odete.’ ‘Você então vai indo para a casa da tia Odete agora?’ disse a mulher. ‘Sim’, replicou o garoto, ‘mas algumas vezes a tia Odete não está em casa. Espero que esteja hoje, porque parece que vai chover e eu não quero ficar na rua na chuva.’ A mulher sentiu um nó na garganta enquanto dizia: ‘Você é ainda muito pequeno para ficar indo de cá para lá desse jeito.’ ‘Oh, não me importo’, respondeu. ‘Nunca me perco. Mas às vezes fico triste. Quando eu vejo então alguém a quem gostaria de pertencer, eu sento bem perto da pessoa e faço de conta que pertenço de verdade a ela. Eu estava fazendo de conta que pertencia a esta outra senhora quando sujei seu vestido. Esqueci-me de meus pés.’

Essa criança, através de sua triste história de carência e abandono, revela a todos nós uma necessidade básica universal de todo ser humano, que é o sentimento de pertencer.

2. Estabelecer Limites Estamos vivendo em uma época onde a democracia e a liberdade passaram a ocupar um espaço de grande destaque em nossa sociedade. Muitos pais, na ânsia de criar seus filhos livremente, acabam enveredando pelo caminho da permissividade descomprometida. Uma criança para ser feliz necessita de segurança, e ela só se sentirá segura se perceber que seus pais possuem autoridade e controle firme sobre sua vida. Segundo RYZEWSKI e BERETTA:

“ Eu acredito que é muito humano que todos de vez em quando resistamos à autoridade. A criança, em cada passo de sua vida, oferecerá alguma resistência, mas os pais que se interessam em formar retamente seu caráter devem entender que essa resistência ou rebelião não significa que ela queira ganhar nem pretenda que eles se submetam à sua vontade. Simplesmente os está pondo à prova. O que ele quer é ter certeza de que seus pais são firmes e fortes, e ao mesmo tempo amorosos.

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Necessita que lhe mostrem limites dentro dos quais possa agir, e uma autoridade amorosa a quem possa apelar com confiança de que lhe dará a orientação necessária para ter êxito na vida Caso tenha filhos, assinale verdadeiro, falso ou habitualmente: V

F

QUESTIONÁRIO

H

Acredito que meus filhos se sentem amados e seguros. Meus filhos jamais presenciaram desentendimentos em nosso casamento. Sempre gostei muito de abraçar e beijar meus filhos. Em nossa casa temos rotina para desenvolver as atividades domésticas. PARA REFLETIR 1. Em sua opinião o que pode vir a gerar sentimentos de insegurança ou segurança em uma criança?

2. Comente a declaração: “As crianças inseguras são aquelas que desconhecem seus limites de comportamento.”


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LIÇÃO 4 FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL


FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

LIÇÃO 4

Reconhecer as fases do desenvolvimento de uma criança é essencial para quem quiser ser bem sucedido na educação de seus filhos. Esse processo de descoberta e aprendizagem não necessita ser obrigatoriamente doloroso, entretanto, para se ter crianças saudáveis e felizes emocionalmente se faz necessário compreender e dominar bem as fases de seu crescimento. Uma criança normal trás dentro de si um grande potencial para aprender e se desenvolver. Ela possui personalidade individualizada e seu crescimento físico, mental e emocional se processa de forma particular e diferenciada. A maioria das crianças se destaca bem mais rápido em algumas áreas e bem mais devagar em outras, sendo isso natural. Vamos nessa lição descrever as fases do desenvolvimento infantil. Entretanto gostaríamos de ressaltar que, como cada criança tem seu próprio ritmo de crescimento, não devemos levar ao pé da letra uma cronologia rígida de idades, mas sim respeitar o compasso de evolução de cada uma delas.

FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

O material abaixo baseia-se numa abordagem desenvolvida por Márcia Danielle M Chastinet, psicóloga do CECOVI, sobre as fases do desenvolvimento infantil.

1ª Fase - Indiferenciação Chama-se período pré-objetal (3 primeiros meses). Aqui o bebê se confunde com sua mãe (ele sabe que existe e mais nada), ele e a mãe são um, ainda, como no útero. O berço, os lençóis, os braços dos que o carregam, as vozes, o leite, tudo isso faz parte dele e está misturado com ele. Ele só conhece duas sensações: o prazer (saciação, sono, etc.) e o 53 |


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desprazer (fome, frio, dor física, estar sujo, etc.). Nessa fase a criança precisa ser acolhida em suas necessidades. Quando ela chora está manifestando seu desprazer. A amamentação é a sua principal via de saciação e comunicação. É por isso que os bebês levam os objetos à boca: para conhecêlos, explorarem e assim os aceitarem ou rejeitarem. A criança que demora muito a ser saciada recebe em si a marca psicológica da falta e a sensação de desproteção. Atenção: Muitas vezes a mãe está ansiosa ao amamentar, ou a criança experimentou muito tempo de fome (a criança não identifica a fome e sim uma dor generalizada e desesperadora), então ela vomita e o desconforto vem novamente muito rápido, impedindo que ela registre a satisfação, que gera segurança na criança.

O bebê mal-tratado nessa fase chora muito ou fica em estado de apatia (ele aprende que não será satisfeito, então não chora mais).

A satisfação após o desprazer gera amadurecimento. Se, ao contrário a mãe está sempre amamentando, a criança não sente o desprazer e se torna difícil para ela discriminar que há alguém fora ela. Isso gera um outro tipo de imaturidade emocional. “Eu não preciso sentir nada, os outros sentem por mim”. 2ª Fase – Simbiose Aqui a criança começa a identificar os objetos e pessoas a sua volta e caminha para ganhar sua identidade. Mas sua ligação com a mãe (ou cuidador) ainda é muito forte; ela e a mãe são uma. É a mãe que lhe sacia e fala por ela e dela para os outros. Uma fixação aqui prejudica a formação da identidade, se ela não se desloca da mãe, a mãe vive por ela.

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LIÇÃO 4

Se a criança sofre o abandono físico e emocional nessas duas primeiras fases da vida, a sensação de desproteção pode ser tão grande que ela desista de viver ou manifeste, futuramente, um problema de ordem psicopatológica. É preciso que haja alguém para quem valha a pena existir. Às vezes, esse alguém é quem lhe recolhe do lixo.

Aqui a mãe faz o sacrifício de interromper suas atividades (sono, almoço, sexo, etc.) para atender o bebê, o que confere à mãe um grande poder sobre a criança. A falta de liberdade é compensada pelo prazer do poder. Mais tarde ela precisará fazer o sacrifício de abrir mão do poder em favor da sua própria liberdade e do desenvolvimento do seu filho. É normal o bebê ser dependente, porém uma relação prolongada, de dependência, gera um sacrifício contínuo e falta de liberdade para ambos. Todo sacrifício vem acompanhado de dor e cobrança. Ex: “Eu perdi minha vida por você”. “Eu não pedi pra nascer”

3ª Fase – Reconhecimento do Eu Fase de vivacidade, ninguém resiste a esse lindo bebê. Percebe seu corpo separado do outro (mas a mãe ainda é muito importante). Descobre suas mãos, seus pés e termina esse reconhecimento diante do espelho (ao descobrir que o bebê procurado atrás do espelho, é na verdade, ele mesmo), mais ou menos oito meses. Esse nível de amadurecimento o leva a estranhar as pessoas que não vê com freqüência. É desrespeito os pais forçarem uma criança a ir para os braços dos avós ou tios que ele não vê diariamente. A memória do bebê é muito curta, uma semana é muito tempo para recordar-se. Imagine que você entra no elevador e um estranho o beije! Como se sentirá? Com certeza invadido. A criança tem essa

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mesma sensação. Por isso na adaptação é importante que os pais toquem no estranho, sorriam para ele e esperem um tempo para que a criança se adapte. A criança deve ser tocada aos poucos pelo estranho, (do joelho para baixo) pois ainda não sente essas partes como suas. O movimento de tocar o rosto deve ser da criança para o adulto e jamais o contrário. A criança invadida continuamente pode perder seu referencial de integridade física e pudor (meu corpo não me pertence). Aqui a criança já atua sobre os objetos manipulando-os (inicia-se o processo de criação, elaboração, expressão e comunicação). É saudável se melar e amassar a comida, pois ela está transformando o objeto que vai entrar nela (elaboração) e que depois irá sair em forma de fezes, sua primeira criação. Aqui começa a ser construída a vivência da perda. Perde para o sanitário sua primeira criação e mais tarde é comum dizer: “Tchau cocô. Ah! Foi embora”, lamentando-se. É uma parte sua que se vai. Nessa fase a criança não deve ser colocada no trono pois gerará um adulto obsessivo sem criatividade e com dificuldade de dar. Terá problemas de constipação (não solta as fezes), dificuldade em lidar com dinheiro, etc. O treinamento de toalete só deve iniciar-se quando a criança corre com equilíbrio total (por volta dos dois anos) e sem pressão; jamais se deve bater ou castigar uma criança que não usou o vaso e fez no chão. O controle é fisiológico e vem naturalmente. Essa fase coincide com o surgimento da dentição, uma nova e dolorosa criação. Ela morde e coloca na boca tudo que come ou quer conhecer, e não deve apanhar por isso. Morder e bater no rosto são um ato de amor. Na verdade, com essa idade ela não sabe o que é bater, apenas gosta do som que a sua mãozinha produz (criação) no rosto amado. Note: ela não bate ou morde um estranho, mas chora e encolhe-se, evitando a aproximação. Basta não estimular tal comportamento para que, uma vez tido como não aceito, não se perpetue. O bebê não deve ser obrigado a dormir ou comer na hora marcada. | 56


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LIÇÃO 4

No início ele come, brinca e dorme de três em três horas, depois vai naturalmente construindo seu próprio relógio biológico. Crianças forçadas a dormir sem sono podem tornar-se irritadas, birrentas (quem é que vence?), com problemas de insônia, medo do escuro, o quarto não lhe dar prazer, e faz muita “cera” para dormir. Crianças forçadas a comer não querem procurar comida e não têm prazer em alimentar-se porque comer é sinônimo de tortura e podem chegar a morrer de fome (anorexia nervosa). A criança que se alimenta bem, tem reservas para a doença e pode passar vários dias quase sem comer. Emagrecerá e, quando o fastio passar, comerá tudo o que encontrar na frente, recuperando-se rapidamente. Crianças que não podem pegar em sujeiras ou colocar objetos na boca podem ter seu desenvolvimento afetivo, psicomotor e intelectual prejudicado, além de pouca defesa imunológica. Nessa fase a criança começa a escolher, rejeitar, ter vontades e expressar emoções.

Uma criança impedida de chorar, fica impedida de expressar sentimentos, emoções e, mais tarde ela poderá ser um adulto frio, sem amor, sem conseguir colocar-se no lugar dos outros e com muito ódio reprimido. Isso ocorre comumente com homens de famílias machistas que, por não conseguirem lidar com os sentimentos, são reprimidos, não conseguem ser felizes, fiéis e ter famílias saudáveis; sexo e amor confundem-se em seu ser. A criança aprende a ser gente, ser humano, humanizado e vivo, através do toque amoroso e respeitoso dos pais e das pessoas próximas a ela. A criança precisa ser acolhida quando chora, ou está com medo (seu medo não é besteira e chorar é preciso). Nessa fase o relacionamento com a mãe ainda é simbiótico, porém já se reconhece como distinto da mesma; e a falta desse relacionamento gera no futuro adulto a sensação de medo, insegurança e incompletude, na maioria das vezes muito bem encoberta. 57 |


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4ª Fase – Reconhecimento do Tu Fase em que a criança descobre que a outra pessoa (mãe ou cuidador), sente e reage em relação às suas iniciativas. Aqui a criança já consegue se relacionar com um outro separado de si, é a relação em corredor (ela numa extremidade do corredor e a mãe na outra). Nesse momento, relaciona-se com uma pessoa de cada vez (Ex.: pai e irmãos), visto que não consegue interagir, ao mesmo tempo, com várias pessoas. Ainda é extremamente egocêntrica, o mundo gira em torno dela e tudo é dela: “É meu” é a sua frase. Esconde o rosto com as mãozinhas, acha que se escondeu e o mundo desapareceu, tira as mãos do rosto e o mundo volta a existir. Hora de a mamãe deixar de se sacrificar e aceitar que seu bebê já tem uma certa independência. Por exemplo, se o bebê tropeçar e cair poderá levantar-se sozinho; a queda não machuca, a menos que seja sobre algo pontiagudo ou de lugares altos. Se ele chorar, abrace confortando e não peça para que não chore, ele está assustado ou com dor. O medo da mãe, sua ansiedade e falatório não ajudam, e sua indiferença é muito pior. Essa é a fase do “não” com um balançado de cabeça forte e categórico. Ex : — Quer comer? Não. — Quer ficar com fome? Não. Ofereça a comida e, se ele quiser, saberá como comê-la. O bebê diz “não” como resultado da diferenciação e esse é um sinal de amadurecimento. As coisas são suas posses, tudo que lhe interessa quer controlar, manipular e executar. Descobre esse prazer porque começa a controlar a urina e as fezes. O mundo de objetos e cores exerce fascínio sobre ele e, não quer parar de brincar para fazer xixi, defecar, dormir. Luta com o sono até não poder mais e tenta segurar a urina e as fezes até que não agüente, então pára quietinho e solta. Esse exercício é o início da formação do pensamento premeditado onde ele controla, sente o corpo e age sobre o ambiente. Começa o início da percepção, da atenção concentrada, das decisões e da atuação direta sobre o ambiente. Planejamentos, decisões e execuções nascem aqui, portanto, uma fixação nessa fase compromete essa capacidade no adulto. Ex: pessoas que muito | 58


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LIÇÃO 4

planejam e não conseguem executar nada; dificuldade de decidir ou agir para pensar, e organizar o pensamento etc. Essa fase também é chamada por Piaget de sensório-motor. Iniciase quando a criança começa a caminhar e estende-se até, mais ou menos, aos três (03) anos. A criança quer subir em tudo, pegar em tudo, sentir tudo com a boca e as mãos; mas só deve ser proibido o que a ponha em risco. As mamães que guardem seus cristais e batons. Quando uma criança apanha porque quebra um vaso, ela pensa: o vaso é mais importante que eu, os objetos valem mais que as pessoas. Deixe o bebê brincar com água, com terra, com você (faça caretas, cócegas, etc.). Se ele não explorar o meio ambiente com liberdade agora, provavelmente não terá êxito profissional mais tarde, pois se tornará retraído e sem espontaneidade. Antes de dois (02) anos a palmada não altera o comportamento por longo prazo. Horas depois, a criança provavelmente repetirá o comportamento, mostrando-se ineficaz. Essa é uma fase muito difícil e cansativa. Algumas mães entram num jogo de poder com a criança travando uma luta desgastante e desnecessária a fim de provar quem é mais forte. É aqui que a mãe começa a dizer que ele é danado, impossível e está acabando com ela. Ora, essa fase irá passar, principalmente se ela mantiver o controle emocional e decidir curtir com o filho. Vale banho de mangueira, dormir juntos e sem banho, casa revirada, etc. Os relacionamentos infantis nessa fase são exclusivistas e possessivos, o “Tu” é meu e de mais ninguém. Começa a discriminar que uma pessoa é diferente física e emocionalmente da outra. A fantasia e realidade começam a coexistir.

5ª Fase – Pré - Inversão Ganha esse nome porque a criança começa a se colocar no lugar dos personagens. É normal surgir o amigo imaginário (principalmente se a criança for solitária), estórias, fantasias (que não são mentiras, mas fantasias e não devem receber castigo). Aqui ele de fato acredita que pode ser o Super-homem ou o gigante, basta colocar sua capa ou empunhar uma espada de plástico. Acredita que papai Noel existe 59 |


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porque ele o vê passeando nas ruas; logo não pode ser mentira porque ele está vendo, então é verdade. Piaget chama essa fase de simbólica. Outro extremo é forçar uma criança a viver na fantasia com o pretexto de inocência. Isso choca e prejudica a criança; no futuro ela não conseguirá confiar nos pais. Quando uma criança pergunta é porque está preparada para saber. Ex: Meu filho de três (03) anos sabe que morou na barriga e como saiu de lá, mas ainda não me perguntou como entrou; portanto não está preparado para saber. Nesse período é muito importante que o pai comece a entrar no relacionamento e a mãe precisa permitir sua entrada. 6ª Fase – Triangulação É a base da socialização e corresponde na psicanálise à fase edipiana e no construtivismo (Piaget), ao período simbólico intuitivo.”Crise de triangulação”: a criança em corredor e pré-inversões de repente descobre que não é única para o seu Tu; existe um Ele (alarme!). É como se tivesse sido roubada do seu Tu (a mãe) pelo Ele (o pai). Vem uma profunda sensação de desamparo e revolta (eu não sou suficiente para ela). A resolução dessa fase está na criança aceitar o Tu-Ele e o Eu-Ele.

Para aceitar o eu-ele é importante um pai presente e amigo, mas que dê limites. É preciso acima de tudo isso uma mãe que reconheça a importância desse pai para a educação do filho e permita sua entrada com a Lei. Essa fase compreende a criança de, mais ou menos, três (03) a sete (07) anos e que já compreende bem as regras transmitidas com clareza. Aqui é importante que o casal converse e chegue a um acordo sobre essas regras a fim de que um não desautorize o outro. Só então as regras devem ser comunicadas à criança e a quem lida com ela. É importante averiguar essas regras na escola, a fim de que em casa não se adote o oposto. É importante cuidar para que as regras não virem chantagem. | 60


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LIÇÃO 4

Ex.:1) Vamos escovar os dentes para poder comer? Você sabe, se não escovar os dentes não come. Ex.: 2) Oba, chegou à hora de escovar os dentes! — Não, quero. — Tudo bem. Quando você estiver pronto pode me convidar. — Mamãe, quero comer. — Há! Que bom, você já está pronto para comer. A regra nessa casa é que todo mundo toma café de boquinha limpa. Escove os dentes e volte para comer. A regra evita discussões cansativas para ambas as partes. Dê segurança à criança, que o seu sim seja sim e o seu não seja não. Não ensine a criança a pedir 30 vezes para conseguir o que quer, é torturante para ambos. Escute, pense, responda e não fique alternando a sua opinião. Não esqueça de elogiar diariamente seu filho, mesmo pelos êxitos corriqueiros. Exs.: — Como você se senta bem na mesa. — Obrigado porque você ficou hoje em silêncio enquanto mamãe dormia, parabéns. — Meu filho, bater no seu irmão é uma bobeira que não combina com você, porque você é maravilhoso. Nessa família não vale bater em irmão, você pode pedir para ele trocar o brinquedo com você. A criança dessa fase ainda é egocêntrica e resolve suas pendências fisicamente. É preciso que o adulto lhe ensine a arte do diálogo e da negociação com o outro (as trocas, empréstimos, etc.) A criança intuitiva será egocêntrica ao nível do pensamento até mais ou menos os cinco (05) anos. Ela ainda não é capaz de realizar operações de reversibilidade; encontra-se na pré-inversão. Portanto não adianta pedir para que se coloque no lugar do outro. Se ela for questionada sobre os nomes de seus irmãos, será capaz de citá-los corretamente: - A Camila, o Artur e o Leandro são meus irmãos. Porém se lhe for perguntado, quais são os irmãos 61 |


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da Camila, ele dirá que são Artur e Leandro e não se incluirá, porque o centro de referência foi mudado dela para o outro e ela ainda não consegue percorrer o caminho inverso daquela relação. Nessa fase a criança faz seriação, onde “arruma” os objetos, enfileirando-os. Monta quebra-cabeça simples, encaixa bem figuras geométricas e consegue realizar operações, o que já observa um aspecto, isso é uma evolução, e não se pode dizer jamais a uma criança que ela está errada, pois na verdade ela “conseguiu”. Ex: Ela seria os próprios pauzinhos numa brincadeira de colocar os pauzinhos em ordem.

Ela observa o alinhamento na parte de cima, o que não era capaz de fazer aos dois (02) anos (sensório-motor) Deve-se fazer muitas perguntas à criança estimulando o pensar e trabalhando causalidade. Ex.: Se perguntarmos porque as nuvens não caem, algumas dirão que “Papai do céu as colou”. A respeito do pensamento dirão que: “A boca atrás da minha cabeça que fala com a minha boca da frente”. E: “A lua anda atrás de mim porque eu a obrigo”; Ou: “O sol nasceu quando nós nascemos... porque antes não havia necessidade dele”. É nessa fase que os porquês começam e devem ser respondidos ou, mais ainda, devolvidos à criança ajudando-a a construir as próprias hipóteses que depois serão derrubadas por ela mesma, que colocará outras mais evoluídas em seu lugar. Ex.: — Mamãe, como é que o bebê nasce? — Boa pergunta Joana, vamos pensar... Como você acha que é? — Ah! Eu acho que é a barriga que fica grande, grande e aí estoura, né? — Muito interessante sua teoria. E aí fica estourada? — Não, mãe. O doutor costura. — Ah, muito bem.

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LIÇÃO 4

É importante que a criança seja respeitada. Não se deve rir das suas teorias ou chamá-la de boba, na verdade se ela não passar bem pela fase pré-lógica poderá ter dificuldades de alfabetização, raciocínio matemático, criatividade, elaboração e seqüência de idéias para redações, etc. É muito interessante e construtivo que os pais saiam com as crianças para escolher roupas e brinquedos, pois a criança respeitada não terá dificuldades de aceitar limites e negociações. Ex.: Você pode escolher duas blusas, não mais, pois não temos dinheiro. Ou ainda: hoje à tarde vamos passear e dessa vez o Mário pode escolher aonde vamos, pois da vez passada foi o João, quem escolheu. E: pode colocar três coisas no seu carrinho de compras, não mais. A criança sente-se importante e aceita quando lhe é permitido ajudar. Mas ela não gosta de fazer essas tarefas sozinho, ela ama a companhia do adulto e quer aprender imitando. Dê-lhe tarefas que ela tenha condições de cumprir e ela ficará muito feliz em poder ajudar. Por exemplo: guardar os talheres, enquanto você enxuga a louça e bate papo com ela. Guardar as latas do mercantil, enquanto você guarda os frios no freezer e conversam. Se você quer uma criança feliz, crie um clima de harmonia, cooperação, brincadeiras e respeito. 7ª Fase – Circularização Após a fase do desenvolvimento triangular, a criança está preparada para relacionar-se com mais pessoas ou seja, socializar-se. Após vivenciar as etapas de relacionamentos bipessoais e triangulares, o indivíduo adquire a possibilidade de relacionar-se com o eles para, em seguida, sentir-se parte de um conjunto, de uma comunidade; é permissão para entrar no mundo do nós. “A possibilidade de inclusão grupal”, de deixar de sentir a frieza do EU-ELES, para sentir o cálido envolvimento do EU-NÓS, significará um passo importante para que seus futuros relacionamentos grupais e sociais sejam satisfatórios.

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A diferença em relação à fase da triangulação é que a criança não apenas permite a entrada de uma 3ª pessoa, mas conquista a capacidade de colocar-se no lugar do outro (inversão de papéis), saindo então da fase de egocentrismo. Esse é o último estágio do desenvolvimento emocional e inicia-se por volta dos sete (07) anos. Em relação à sexualidade a criança encontra-se no período de latência, ou seja, saiu da fase de auto-erotismo e ainda não descobriu o sexo oposto. Aqui o infante está aprendendo a identificar-se com outros do mesmo sexo; inicia-se a formação dos grupinhos da “Luluzinha” e do “Bolinha”. Meninas e meninos não se topam nessa fase. É a exploração do corpo do outro, da mesma idade e sexo, devendo essa questão ser trabalhada pelo adulto com cuidado e sem preconceito. O respeito pelo corpo do amigo, que é inviolável. Lembremos que a sexualidade na infância é exploratória, os órgãos não estão desenvolvidos e o prazer é localizado apenas na região estimulada. Não se pode falar de imoralidade ou homossexualismo nessa fase e sim de curiosidade pelo corpo do outro; na verdade é um avanço em relação ao auto-erotismo. O adulto deve trabalhar com a criança. A próxima fase da sexualidade inicia-se com a pré-adolescência, por volta dos onze (11) anos. É quando os meninos e meninas começam o prazer na companhia do outro, fazendo amizades e participando de grupos mistos. O corpo do amigo/amiga do sexo oposto é apreciado, mas vale ressaltar que a sexualidade ainda é de exploração, não está madura. Uma criança traumatizada nas fases anteriores não entrará nesta ou terá dificuldades para fazê-lo. Para que o adolescente chegue à fase adulta com uma sexualidade madura é fundamental que tenha um diálogo aberto e sem preconceitos com os pais. Relações sexuais prematuras causam traumas e barreiras para ambos os sexos; as atividades físicas (esportes) são indicadas, visto que os hormônios encontram-se em ebulição. A masturbação retorna com caráter exploratório, visto que o adolescente precisa conhecer seu novo corpo cheio de sensações novas e também carregado de fantasias pelo sexo oposto. A mesma cessará naturalmente com o amadurecimento e a constância da atividade sexual.

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Pense e responda: 1. Deixo meu filho falar por ele mesmo ou acabo falando por V ele, impedindo que se expresse sozinho?

F

2. Dou atenção a meu filho quando este me conta alguma coisa? V

F

3. Minha personalidade dominante inibe o desenvolvimento da personalidade em formação do meu filho, de natureza tímida V e insegura?

F

4. Costumo chamar a atenção de meu filho com calma e amor ou o repreendo duramente quando estou nervoso e V descontrolado?

F

5. Costumo refletir sobre o estado da auto-estima de meu filho? V

F

6. As críticas que faço a meu filho são contrabalançadas com V comentários e atitudes positivas que possam elevar sua auto-estima?

F

7. Meu filho se abre comigo?

V

F

8. Tenho tido interesse na educação de meu filho? Busco pesquisar e aprender como lidar melhor com ele(ela)? Já li V algum livro sobre educação?

F

9. Costumo dialogar de forma alegre e descontraída com meu V filho(a)?

F

10. Tenho desenvolvido alguma atividade de lazer (jogar, assistir V um filme, montar um quebra-cabeça) junto com meu filho?

F

11. Sei o que meu filho faz em seu dia a dia, quais seus gostos, V interesses e talentos?

F

12. Tenho autoridade sobre meus filhos? As regras que estabeleço são obedecidas? Ou acabando cedendo à vontade V e teimosia deles?

F

13. As ordens que dou a meus filhos são justas e adequadas V para a idade deles?

F

14. Cumpro as promessas que faço a meus filhos?

V

F

15. Meu exemplo está em linha com o que ensino para meus V filhos?

F

16. Tenho dividido a responsabilidade de educar meus filhos com meu cônjuge ou tenho deixado essa tarefa para minha V esposa (ou marido) cuidar sozinha(o)?

F

17. Será que estou falando com meus filhos em tom autoritário V ou paternalista demais como alguém que tem toda a sabedoria?

F

EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

EXERCÍCIO DE APRENDIZAGEM

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Enfrentamento da Violência Doméstica Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes na Infância e Adolescência nas Modalidades Abuso Psicológico e Negligência

foto: budgetstockphoto.com

LIÇÃO 5 A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR E PROTEGER

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A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR E PROTEGER

LIÇÃO 5

A negligência, enquanto modalidade de violência doméstica, se evidencia através da omissão dos pais ou dos responsáveis em atender as necessidades básicas de suas crianças, podendo resultar disso danos físicos, emocionais, psicológicos ou até mesmo na morte das mesmas. Trabalhamos nas lições anteriores com o diagnóstico e prevenção à negligência emocional (abuso psicológico) que ocorre quando a criança não recebe atenção, carinho, proteção ou outros estímulos necessários ao seu desenvolvimento. Nesta lição iremos falar sobre a negligência, que acarreta conseqüências de natureza física decorrentes da falta de cuidado com a criança no que diz respeito a seu vestuário, alimentação, cuidados higiênicos mínimos, prevenção a acidentes domésticos, etc.

DIAGNÓSTICO

A negligência, apesar de ser a modalidade de violência doméstica mais denunciada, é de difícil diagnóstico. Isso acontece devido a grande miséria em que a população de baixa renda vive, onde a ausência de recursos para moradia, de alimentação adequada e de saneamento básico torna difícil de separar o que é fruto da falta de cuidado dos pais e o que é fruto do perverso sistema sócio-econômico em que essas famílias são obrigadas a conviver. Entretanto, se faz necessário destacar que, apesar da negligência estar predominantemente nas camadas mais pobres da nossa sociedade, ela também se encontra em algumas famílias de classes média e alta a despeito de suas condições sociais satisfatórias.

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INDICADORES DA PRESENÇA DE NEGLIGÊNCIA NO AMBIENTE FAMILIAR

Família que não participa da vida em comunidade (Isolamento social); Desconhecimento e/ou não utilização da rede de apoio social existente (Rede formal e informal); Dependência química; Presença de graves problemas de saúde física e mental dos pais; Violência doméstica na infância dos pais; Pais que trocam constantemente de parceiros; Desconhecimento dos pais quanto às necessidades básicas de suas crianças e de seus estágios de desenvolvimento infantil; Problema de personalidade dos pais: apatia, impulsividade, stress; Estado de miserabilidade da família.

NÍVEIS DE NEGLIGÊNCIA NO AMBIENTE FAMILIAR NEGLIGÊNCIA SEVERA Nessas famílias existe o caos em todos os setores: econômico, social, familiar, emocional. Não há preparação de refeições, as crianças ficam abandonadas à própria sorte; vive-se apenas o presente, sem planejamento para o futuro. Essas crianças podem chegar ao serviço médico apresentando desnutrição grave ou vítimas de acidentes como queimaduras, fraturas etc.: fruto da indiferença e omissão dos seus pais. As famílias negligentes são geralmente numerosas, pois não existe

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A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR E PROTEGER

LIÇÃO 5

planejamento familiar. As conseqüências desse abuso são os danos psicológicos e emocionais (permanente em alguns casos) e também danos físicos.

NEGLIGÊNCIA SEVERA: Principais características da negligência severa: Alimentos não são providenciados. Não há roupas limpas. Lixo se espalha no chão. Há fezes e urina pela casa. Não há rotina para as crianças. Crianças são deixadas a sós por muitos dias. Geralmente ocorre o uso indevido de drogas e álcool Pode existir quadros psiquiátricos complicados e/ou retardo mental dos pais

NEGLIGÊNCIA MENOS SEVERA Essas famílias partilham de muitas características das famílias severamente negligentes, mas num grau menor. Em alguns aspectos podem apresentar maior organização, como por exemplo suas crianças freqüentarem a escola regularmente e as refeições serem preparadas.

Principais características da negligência menos severa: Existem alimentos. Casa suja, mas não da forma descrita na negligência severa. Há algumas roupas limpas. Crianças são deixadas por algumas horas sozinhas. 69 |


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Pais ignoram resfriados crônicos, mas levam os filhos ao hospital em casos de emergências médicas.

PERFIL DA FAMÍLIA ONDE OCORRE A PRÁTICA DA NEGLIGÊNCIA Nas famílias negligentes o relacionamento entre pais e filhos é muito precário. O diálogo é truncado, sendo comum uso de palavrões e gritaria. O convívio familiar é destituído de afeto, inexistindo conversas amigáveis e brincadeiras entre seus membros. Nessas famílias é comum a tentativa de esquivar-se de encarar os problemas. Existe um conformismo muito grande, onde o fracasso, a baixa auto-estima e o desânimo sempre se encontram presentes. As crianças mais velhas freqüentemente assumem os cuidados dos irmãos menores. As crianças destas famílias buscam atenção e afeição de pessoas estranhas, sem a reserva normal de uma criança mais segura. As crianças provenientes de famílias negligentes podem desenvolver hiperatividade.

ÁREAS QUE NECESSITAM DE INTERVENÇÃO Fazer o enfrentamento da negligência exigirá a tomada de medidas, principalmente no campo das políticas públicas. Não bastará lidar apenas com aspectos relacionais existentes dentro do núcleo familiar, será exigido também voltar o foco para as questões mais amplas de natureza econômica e social.

Principais áreas onde devem ser feitas as intervenções: | 70


A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR E PROTEGER

LIÇÃO 5

Situação financeira da família Qualidade de habitação Condições de saúde Relacionamento entre o casal Relacionamento família e criança Habilidades dos pais em termos de cuidados com os filhos.

MODALIDADES DE NEGLIGÊNCIA COM SEQUELAS DE NATUREZA FÍSICA NO AMBIENTE FAMILIAR Negligência na prevenção de acidentes domésticos Negligência dentária Negligência médica Negligência higiênica Negligência alimentar Negligência no vestuário

PREVENÇÃO A ACIDENTES DOMÉSTICOS Prevenindo as quedas Não deixe o bebê sozinho em cima da cama ou mesinha de trocar fraudas. Coloque grade de segurança em varandas e janelas, caso more em apartamento. Afaste os móveis de perto de janelas a fim de evitar que a criança os use como escada. Coloque tapetes antiderrapantes no banheiro.

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Prevenindo os cortes Dê preferência a móveis cujas pontas são arredondadas. Atenção - Cuidados para pequenos cortes: a. Lavar o ferimento com água e sabão. b. Examinar se o ferimento ficou totalmente limpo. c. Proteger o ferimento com gaze. Atenção - Primeiros cuidados com cortes profundos: a. Lavar o ferimento com água. b. Aplicar uma gaze sobre o ferimento. c. Mantenha a parte cortada mais alta do que o restante do corpo. d. Chame imediatamente a emergência médica.

Prevenindo afogamentos Não deixe jamais sua criança sozinha na banheira Não deixe criança que está começando a engatinhar perto de baldes ou bacias com água. Matricule desde cedo a criança numa escola de natação. Passeios aquáticos requerem obrigatoriamente um colete salva vidas na criança. Em casos de passeios onde exista piscina, praia, rio ou lagoa, a criança deve ser acompanhada sempre por um adulto. O que fazer em casos de acidentes: a. Retire a criança da água imediatamente e mantenha sua cabeça em posição um pouco mais baixa do que o resto do corpo. b. Retire as roupas molhadas e cubra seu corpo com toalhas secas a fim de manter a temperatura estabilizada. c. Verifique a pulsação e reanime a criança (respiração boca a boca ou massagem cardíaca) caso seja necessário. d) Busque serviço médico, mesmo que a criança pareça bem.

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A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR E PROTEGER

LIÇÃO 5

Cuidado com determinados tipos de objetos Os brinquedos devem ser: Grandes o bastante para que não exista perigo da criança os engolir. Arredondados e lisos, preferencialmente de plástico. Obs: Brinquedos com pontas agudas devem ser evitados. Alfinetes, botões, fósforos, tesouras, facas, etc, devem ser mantidos longe do alcance da criança. Os móveis não fixos de bordas cortantes e mesas com tampo de vidro devem ser usados longe da área destinada ao lazer das crianças. Objetos que podem causar sufocamento: Brincadeira com talco. Deixar a criança de tenra idade sozinha tomando mamadeira. Sacos plásticos, fio de telefone, travesseiros. Gravata ou Cordão de chupeta usado em torno do pescoço da criança.

Em caso de mordida de animal Em caso de mordida de animal Busque aplicar a vacina antitétano. Se for um cachorro, não o mate; isole o animal para verificar se está com “raiva”. Lave o ferimento com água e sabão. Cubra a lesão com gaze. Procure imediatamente um posto de saúde.

Prevenindo envenenamento Não deixe bebidas alcoólicas ou remédios ao alcance das crianças. Guarde os produtos de limpeza em prateleiras bem altas, nunca em baixo da pia da cozinha. 73 |


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Prevenindo passeio de carro Verifique se todas as portas do carro estão devidamente travadas. Sempre atravesse a rua de mãos dadas com a criança. Não transporte a criança no colo nem no banco da frente. Use a cadeirinha apropriada e cinto de segurança.

Cuidando de picada de inseto Lave com água e sabão. Se o ferrão permanecer ainda no local, deve ser retirado com muito cuidado, pois é nele que está presente a bolsa de veneno. Aplique compressa de água fria e pomada analgésica. Busque atendimento médico.

Em casos de convulsões febris Busque baixar a febre rapidamente com anti térmico. Busque baixar a febre rapidamente com antitérmico. Deixe a criança nua e passe uma esponja com água fresca. As convulsões param quando a temperatura do corpo esfria. Depois que a temperatura baixar, cubra a criança com um lençol e vire-a de lado. Se a febre voltar a subir repita o procedimento com a esponja e água fresca até o antitérmico fazer efeito. Busque socorro médico assim que for possível.

Queimaduras Causas mais comuns: Manuseio inapropriado de fósforos. Acidentes envolvendo aparelhos eletrônicos quentes: ferro elétrico, torradeiras, etc.

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LIÇÃO 5

Acidente com fogo de fogão a gás. Insolação provocada pelo sol. Ingerência de líquidos quentes. Choque elétrico. Manuseio de álcool. Graus de queimaduras: 1º GRAU: Comprometimento apenas da camada externa da pele. Presença de intensa coloração vermelha no local da queimadura. Possibilidade de vir a aparecer inchaço no local da queimadura. Geralmente não forma bolhas e a pele se mantém íntegra. 2 º GRAU: Alcança uma extensão mais profunda da pele. Presença de bolhas e rachaduras na pele. Intensa dor. Vermelhidão no local afetado. Pode ocorrer sangramento através dos ferimentos provocados pelas queimaduras. As bolhas podem surgir até 12h após a queimadura. 3 º GRAU: Queimaduras bem profundas atingindo todas as camadas da pele, podendo-se ver, às vezes, até músculos e ossos. Pele fica com uma cor acinzentada ou esbranquiçada. Não há sangramento nem dor. Cuidado, tratando-se de queimadura: Não use pasta de dente como remédio Não aplique manteiga em cima do ferimento Não puxe a pele

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Cuidados básicos que os pais devem ter: Muito cuidado com criança dentro da cozinha. Não deixe cabo da panela para fora do fogão. Não peça para a criança ficar tomando conta de panela com fogo aceso no fogão. Evite usar toalha de mesa comprida durante as refeições, a fim de que a criança não venha a puxar a mesma trazendo sobre si líquidos quentes. Proíba as crianças de brincar de pipa perto de fios de alta tensão. Supervisione para que as mesmas não subam em postes para resgatar as pipas que ficam presas nos fios. Com o dorso da própria mão, verifique a temperatura da água, antes de colocar a criança para tomar banho. Não deixe crianças brincarem com bombinhas. Supervisione para que a criança não mexa no forno de microondas. Ele não esquenta o prato, mas esquenta o que está dentro dele. Sempre experimente a comida antes de servir a criança. Jamais carregue a criança no colo quando estiver cozinhando.

Mais cuidados básicos que os pais devem ter Recomende, com bastante ênfase, à babá que, sob hipótese alguma (seja p/ comprar sal, óleo, etc), deixe a criança dormindo sozinha em casa, principalmente quando tiver panela acesa no fogo. Tome bastante cuidado com os armários da cozinha. Água sanitária, álcool, ácido muriático, sabão, vela e fósforos devem ser guardados em prateleiras bem altas longe do acesso das crianças. Evite deixar muitos eletrodomésticos ligados em uma única tomada. Muito cuidado com as armas de fogo. Elas devem ser mantidas | 76


A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR E PROTEGER

LIÇÃO 5

em locais escondidos das crianças e sem balas. Os pais devem sempre deixar um telefone de contato com a babá para caso ocorra algum acidente. As tomadas elétricas da casa devem ser bem altas ou ter protetores.

Algumas dicas sobre o gás de cozinha Não entupa o vazamento com sabão. Se o botijão de gás estiver com defeito a revendedora tem obrigação de efetuar a troca. Ao acender o fogão, primeiro risque o fósforo e depois ligue o gás. Caso more em apartamento fiscalize a data dos extintores de incêndio de seu prédio. Evite colocar botijão de gás dentro do apartamento. Prefira usar o encanamento interno de gás.

Primeiros socorros Choque elétrico Não tente puxar a vítima sozinho, pois pode ficar grudado também. Desligue a chave geral ou use uma toalha seca ou pedaço de pau para puxar a vítima. Pessoa inconsciente Faça uma varredura do ambiente a fim de verificar se a mesma foi mordida por cobra ou aranha. Olhe se está respirando pondo o ouvido no nariz da vítima. Observe se a caixa torácica se move e tome o pulso da vítima Olhe a boca da vítima e veja se tem algo que a está impedindo de respirar. Verifique se existe alguma lesão no crânio.

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Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes nas Modalidades Abuso Psicológico e Negligência


2. Características das família onde ocorre negligência severa: ( ) Os alimentos não são providenciados. ( ) As roupas são primorosamente lavadas e bem passadas. ( ) As condições de higiene da casa são boas. ( ) Geralmente os pais usam drogas e podem ter quadros psiquiátricos complicados. 3. Características das família onde ocorre negligência menos severa: ( ) Oferta de alimentos. ( ) As crianças são deixadas sempre sozinhas. ( ) Pais são cuidadosos no que diz respeito à saúde dos filhos. ( ) As condições de higiene são péssimas com fezes espalhadas dentro de casa. 4. Perfil da família onde ocorre negligência: ( ) Nas famílias negligentes o relacionamento entre pais e filhos é muito precário. ( ) Diálogo amoroso e brincadeiras são inexistentes dentro do núcleo familiar. ( ) Essas famílias transmitem um modelo de fracasso aos filhos, gerando baixa auto-estima nos mesmos. ( ) As crianças mais velhas freqüentemente assumem os cuidados dos irmãos menores. 5. ( ) ( ) ( ) ( )

Áreas que necessitam de intervenção: Situação financeira da família. Tipo de religião da família. Condições de saúde . Habilidades dos pais em termos de cuidados com os filhos.

EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

1. Indicadores da presença de negligência dentro do núcleo familiar: ( ) Pais ativamente participantes na comunidade. ( ) Ignorância acerca da utilização de uma rede de apoio social formal e informal. ( ) Desconhecimento dos pais acerca das fases do desenvolvimento infantil. ( ) Pais impulsivos e stressados.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Curso de Capacitação

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Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes nas Modalidades Abuso Psicológico e Negligência

DRESCHER, John M. 1997. Sete Necessidades Básicas da Criança. Editora Mundo Cristão. São Paulo – SP. RYZENWSKI, Luiz A., BERETTA, Mara Z., RYZENWSKI, Maria V. Filhos positivos – como motivar.


Modalidades Abuso Psicológico e Negligência

O Fundo das Nações Unidas para a Infância - Unicef em parceria com o Centro de Combate à Violência Infantil - CECOVI, desenvolveu uma metodologia de aprendizagem à distância cujo objetivo é capacitar profissionais que fazem parte do Sistema de Garantia de Direitos para o enfrentamento da violência doméstica contra crianças e adolescentes. O programa aborda o fenômeno da violência intrafamiliar na infância e adolescência através de seminários sensibilizadores, módulos e vídeo conferências. O presente curso consiste num projeto piloto realizado no estado do Rio Grande do Norte e que conta com a implantação e monitoramento do Centro de Combate à Violência Infantil CECOVI e a articulação e mobilização da Secretaria da Ação Social do Estado do RN, através da Fundação Estadual da Criança e do Adolescente (FUNDAC). O modelo aqui exposto poderá ser replicado através de parcerias com governos, iniciativa privada e sociedade civil, desde que conte com autorização expressa do Unicef.

A autora, Maria Leolina Couto Cunha é advogada, com especialização em Direito Penal pela Universidade de Mogi das Cruzes e em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes pela Universidade de São Paulo Instituto de Psicologia (USP/LACRI). Atualmente exerce o cargo de presidente do Centro de Combate à Violência Infantil (CECOVI).


Adolescentes na Modalidade Violência Física