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SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM COMERCIAL – SENAC/RN ESPECIALIZAÇÃO EM ARTES VISUAIS: CULTURA E CRIAÇÃO

LEONARDO DOS SANTOS FEITOZA

Estética e educação: o uso do mangá como apoio ao ensino de História

Natal-RN 2011


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LEONARDO DOS SANTOS FEITOZA

ESTÉTICA E EDUCAÇÃO: O USO DO MANGÁ COMO APOIO AO ENSINO DE HISTÓRIA

Trabalho

de

Conclusão

de

Curso

apresentado ao Curso de Especialização Artes Visuais: Cultura e Criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação.

ORIENTADORA: Profª. Espª Cibele Lima de Oliveira

Natal-RN 2011


Catalogação da Publicação na Fonte SISTEMA DE BIBLIOTECAS – SENAC/RN Biblioteca SENAC Centro F311e FEITOZA, Leonardo dos Santos. Estética e educação: o uso do Mangá como apoio ao ensino de história / Leonardo dos Santos Feitoza. – Natal, 2011. 36 f.: il. Orientadora: Profª. Esp. Cibele Lima de Oliveira. Monografia (Especialização) – SENAC/RN, Curso de Especialização em Artes Visuais: cultura e criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC, 2011. 1. Mangá – Monografia. 2. História Monografia. 3. História – Monografia.

em

Quadrinhos

I. Cibele Lima de Oliveira. II. SENAC/RN. III. Título SENAC/RN

CDD 741

SENAC. RN CDD: 371


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LEONARDO DOS SANTOS FEITOZA

ESTÉTICA E EDUCAÇÃO: O USO DO MANGÁ COMO APOIO AO ENSINO DE HISTÓRIA

Trabalho

de

Conclusão

de

Curso

apresentado ao Curso de Especialização Artes Visuais: Cultura e Criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação.

Aprovado em 3 de novembro de 2011.

BANCA EXAMINADORA:

________________________ Profa. Cibele Lima de Oliveira, Especialista. Orientadora SENAC/RN

________________________ Profa. Ilka Maria Soares Campos, Mestre. SENAC/RN

________________________ Profa. Artemisa de Andrade e Santos, Mestre. Fundação José Augusto UFRN


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Para CecĂ­lia, que pĂ´s o meu universo em movimento.


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AGRADECIMENTOS

Aos meus amigos de trabalho e de especialização, Elizabeth Ferreira e Roberto Lima, os quais, ao lado dos colegas Paolo Diego e Rodrigo Ribeiro, contribuíram para formar um caldo de cultura propício à inovação e à multiplicidade na realização das artes visuais.

À orientadora Cibele Lima, que, com todas as dificuldades inerentes a um curso recém-inaugurado, procurou sempre ajudar em tantas ocasiões de dúvidas e cumprimento de prazos, além de reconhecer o talento de cada integrante da nossa turma.

À minha família, que sempre deu o suporte e o exemplo em superar os desafios do dia-a-dia.

Aos meus amigos que torceram pelo meu êxito, em especial Clécio Freitas, que me auxiliou na revisão textual e de conteúdo.

E à minha namorada, Cecília Pordeus, que me incentivou a galgar mais esse degrau rumo ao futuro.


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O mundo ĂŠ muito vasto. (Autor desconhecido)


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RESUMO

Um dos maiores desafios para o professor de História é atrair o interesse dos estudantes para a sua disciplina, a qual, não raro, costuma aparentar um aspecto de algo situado à parte da realidade deles. Para ajudar a diminuir essa sensação no aluno, este trabalho busca aproximá-lo do conteúdo histórico através da linguagem das histórias em quadrinhos ou, mais especificamente, a sua vertente japonesa, o mangá.

Primeiramente,

serão

brevemente

examinados

os

primórdios,

as

características e os códigos que tornam esse meio de comunicação tão complexo e atraente a diferentes segmentos etários e de gênero. Em seguida, justificar-se-á a união entre educação e estética – aqui representada pelo mangá – por meio de uma pequena explicação sobre a corrente filosófica do Pensamento Complexo e da citação de alguns exemplos de histórias em quadrinhos elaborados para fins educacionais. De posse dessas informações, será apresentado o processo de produção – e o seu correspondente resultado – de uma história em quadrinhos inspirada no estilo mangá e proposta como apoio ao ensino de História.

Palavras-chave: História, História em Quadrinhos, Mangá, Estética, Educação.


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ABSTRACT One of the biggest challenges of a History teacher is to attract students‟ interest to this subject which, often, looks like something that does not belong to their reality. To solve this feeling on student, this paper wants to approach History to them by the comic books language, or specifically the Japanese comic book: manga. First, will be shortly analyzed it beginning, characteristics and the codes that get this intricate and attractive medium of communication to different ages and genders. Next, will be justified the union of education and aesthetics – represented by manga – by a brief explanation about the philosophical current of the Complex Thought and the citation of some examples of comic books made with educational porosities. Owned those information, it will presented the production process – and it correspondent result – of a comic book inspired on manga style and proposal to support the teaching of History.

Keywords: History, Comic Books, Manga Aesthetics, Education.


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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 9 2. REFERENCIAL TEÓRICO.................................................................................... 11 2.1 DESENVOLVIMENTO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS .......................... 13 2.2 ORIGENS DO MANGÁ ..................................................................................... 14 2.3 ESTÉTICA DO MANGÁ .................................................................................... 17 2.4 O FENÔMENO MANGÁ ................................................................................... 22 3. MANGÁ COMO APOIO AO ENSINO ................................................................... 26 3.1 NOÇÕES DE PENSAMENTO COMPLEXO ..................................................... 26 3.2 QUADRINHOS NA EDUCAÇÃO ...................................................................... 27 4. PRODUTO ............................................................................................................ 34 5. CONCLUSÃO ....................................................................................................... 35 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 38 APÊNDICE I .............................................................................................................. 40 APÊNDICE II ............................................................................................................ 41 APÊNDICE III ........................................................................................................... 43 ANEXO I ................................................................................................................... 47 ANEXO II .................................................................................................................. 48 ANEXO III ................................................................................................................. 49 ANEXO IV................................................................................................................. 50 ANEXO V .................................................................................................................. 51 ANEXO VI................................................................................................................. 52 ANEXO VII ................................................................................................................ 53


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1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como objetivo propor a utilização de histórias em quadrinhos – também conhecidas por HQs ou simplesmente quadrinhos - como recurso paradidático de auxílio ao ensino de História, uma disciplina que tende a ser considerada entediante pelos alunos de hoje por demandar uma leitura cuidadosa e atenta. Para tentar reverter esse quadro, é necessário oferecer recursos atraentes aos estudantes para que eles se interessem mais por essa área do conhecimento ao lidar melhor com o seu conteúdo. É nesse esteio que uma HQ inspirada pelo mangá (a história em quadrinhos japonesa) vem a ser uma boa opção. Dentre várias escolas de quadrinhos mundo afora, por que recorrer ao modelo japonês? Ao longo das últimas três décadas, o mangá vem se popularizando fora do Japão a ponto de se tornar um dos ícones da cultura pop da atual geração de crianças, adolescentes e jovens adultos. Portanto, se valer desse meio de expressão em sala de aula seria de grande valia aos professores de História na medida em que ajudaria a diversificar os mecanismos de aprendizado de sua disciplina, fazendo com que ela se apresente de modo mais interessante ao corpo discente. Mas o conteúdo desse material deve ser expresso por meio de uma criação bem estruturada: quadrinhos com personagens carismáticos, cenários bem desenhados, diagramação envolvente e uma harmoniosa distribuição dos efeitos visuais, tudo para tornar o material mais atrativo.

Isso implica estabelecer uma parceria entre a Estética e a Pedagogia, uma união dentro do que os pensadores modernos denominam por Pensamento Complexo, uma vez que, segundo esse conceito, o conhecimento humano não deveria se dividir em compartimentos estanques; isolados entre si, mas, sim, constituir um todo inter-relacionado.


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Sob esse enfoque, serão explicadas as definições acerca das histórias em quadrinhos e do mangá em específico, demonstrando quais são seus elementos estéticos e narrativos, com enfoque nas suas diferenças em relação às histórias em quadrinhos estadunidenses, os tradicionais comics. Em seguida, apresentaremos um breve comentário sobre o significado do Pensamento Complexo, para que a partir dele se procure mesclar Arte Visual e Educação. Por fim, será exposta a aplicação do mangá como ferramenta educacional, especialmente no tocante ao estudo de História, para dar ensejo à elaboração de uma história em quadrinhos para tal fim. Ela terá quatro páginas e abordará um assunto de História Geral, representando assim um trecho de um hipotético livro abrangendo todo o conteúdo dessa disciplina.


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2. REFERENCIAL TEÓRICO

Por séculos os filósofos discutem a definição sobre o que vem a ser a Estética. Muito embora A. Baumgarten – ainda no século XVIII – tenha-a entendido como um conhecimento sensível do mundo formado a partir da percepção e das sensações, essa tese foi contestada por outros filósofos (CAMARGO, 2009, p. 2).

Ainda hoje, não se conseguiu chegar a um consenso, sendo, por isso mesmo, o conceito de arte um dos principais dilemas da Filosofia. Porém, o objetivo desse trabalho não é discorrer a respeito desse difícil tema, mas depreender da Estética que os quadrinhos são também uma forma de manifestação artística. […] surgiram as „teorias institucionais da arte‟, buscando definir o campo artístico por meio de aproximações extrínsecas. Dentre os mais destacados autores dessa linha está George Dickie, que classifica a arte como sendo um artefato que possui um conjunto de aspectos aos quais é conferido o estatuto de candidato à apreciação por pessoas do mundo da arte. Ou seja, a obra só é arte quando uma comunidade de especialistas lhe confere estatuto artístico. […] Assim, a teoria institucionalista, por exemplo, consegue incluir em seu conceito as obras de arte conceitual, como os ready-made de Marcel Duchamp, porque estas demandam o reconhecimento extrínseco de uma comunidade e de um lócus (o salão ou museu) para exercer seu papel de objeto estético (CAMARGO, 2009, p. 7).

Analogamente, o roteirista e desenhista estadunidense de histórias em quadrinhos Will Eisner formulou pela primeira vez o conceito de Arte Sequencial, conferindo aos quadrinhos a categoria de nona arte. Em sua obra “Quadrinhos e Arte Sequencial”, ele introduz esse conceito inovador apesar de não formular uma definição precisa do que seria.

Atualmente, a tira diária de jornal e, mais recentemente, os álbuns de quadrinhos constituem o principal veículo a arte sequencial. Durante várias décadas as tiras e as revistas de quadrinhos foram impressas de maneira rústica, sem nenhuma intenção de se tornar um produto durável [...] À medida que o potencial dessa forma de arte foi ficando mais evidente, a busca pela qualidade e o investimento na produção passaram a ser mais comuns. Isso por sua vez, resultou em publicações vistosas, em cores, que atraíam o público mais exigente, ao mesmo tempo em que as revistas de quadrinhos em preto e


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branco impressas em papel de boa qualidade também encontrava seu nicho. A história em quadrinho continua a ganhar espaço como expressão válida de leitura (EISNER, 2010, p. 1 – ver ANEXO I).

Porém, ao nome formulado por Eisner cabem algumas críticas. No momento em que estabeleceu a Arte Sequencial, deixou o conceito aberto para outras interpretações, posto que o termo “sequencial” também caberia perfeitamente aos desenhos animados, os quais também são ilustrações que obedecem ao encadeamento lógico/sequenciado de início, meio e fim (FRANCO, 2004). No livro “Desvendando Quadrinhos”, de outro autor de HQs, o também estadunidense Scott Mccloud – o qual cita exatamente Eisner – conseguimos depreender uma noção mais precisa, na qual os quadrinhos seriam imagens adjacentemente posicionadas sob uma orientação de continuidade, a fim de imprimir uma ideia em quem a lê. Ou nos dizeres do autor:

Imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada destinadas a transmitir informações e/ou produzir uma resposta no expectador (MCCLOUD, 2005, p. 9).

Portanto, temos o que talvez seja o fator mais importante da arte sequencial: a duplicidade de sua substância, uma simbiose de imagem e texto a formar uma só ideia.

Ao escrever apenas com palavras, o autor dirige a imaginação do leitor. Uma vez desenhada, a imagem torna-se um enunciado preciso, que permite pouca ou nenhuma interpretação adicional. Quando palavra e imagem se “misturam”, as palavras formam um amálgama com a imagem e já não servem para descrever, mas para fornecer som, diálogo e textos de ligação (EISNER, 2010, p.127).

Talvez a melhor definição seja justamente aquela que carrega a nomenclatura de uso corrente no Brasil: Histórias em Quadrinhos. Nesse sentido, o pesquisador e autor de HQs eletrônicas Edgar Silveira Franco comenta:


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Dentre todas essas denominações, muitos defendem que o termo brasileiro é o que melhor nomeia essa arte, pois não se refere a um gênero, como o americano comics1, nem a um termo de linguagem como o italiano fumetti2, e também é mais genérico que o termo utilizado na França e Portugal: bandas desenhadas, que se refere somente a uma das fórmulas múltiplas de formação midiática dos quadrinhos – a tira. Assim, o termo brasileiro congrega o aspecto narrativo na palavra “histórias”, a um dos principais elementos da sintaxe das HQs, os quadrinhos ou vinhetas; como o termo quadrinhos é sempre usado no plural ele se coaduna perfeitamente com as definições de que as HQs são formadas pela sequência de duas ou mais imagens e nunca um só quadrinho […] (FRANCO, 2004, p. 26)

Porém, há que se ressaltar que a definição de Eisner ainda é de suma importância porque enquadrou as HQs como arte e estabeleceu a ideia de movimento, ação.

2.1 DESENVOLVIMENTO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS Dependendo da amplitude com que cada pesquisador define seu recorte teórico e temporal, é possível constatar diferentes pontos de origem das histórias em quadrinhos. Em “Almanaque dos Quadrinhos”, os autores Carlos Patati e Flávio Braga consideram que os elementos que definem as HQs tal como são conhecidas hoje se consolidaram inicialmente nas tiras de jornais dos Estados Unidos ao final do século XIX:

Em outubro de 1896, jornais norte-americanos de William Randolph Heart (1863-1951), depositários da longa tradição europeia de narrativas humorísticas e infantis ilustradas, fizeram convergir as características finais que permitiram o surgimento da definição “padrão” do que vem a ser uma história em quadrinhos. A principal dentre ela é o surgimento dos balões e legendas integrados ao texto, tornando a leitura decididamente mais fluida (BRAGA; PATATI, 2006, p. 15).

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No caso, comic passa a noção de comédia (cômico), pois foi com histórias engraças e divertidas que os quadrinhos passaram a surgir. 2 Literalmente, “fumacinha”, palavra que alude ao balão de fala.


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Eles também chegam a citar o pioneirismo do desenhista italiano Angelo Agostini em solo brasileiro:

Em 1869, nas páginas de Vida Fluminense, o imigrante italiano Angelo Agostini publicou As aventuras de Nhô Quim - um caipira na capital, “história em quadrinhos” sem quadrinhos (sem fio de delimitação dos quadros), realizada com enquadramentos quase fixos. [...] O talento único de Agostini o tornou precursor não só das HQs como da charge política e do cartum brasileiros (Id., 2006, p. 20).

Distanciando dessa linha mais tradicional, Scott McCloud amplifica o conceito de quadrinhos ao se ater menos às definições formais dos quadrinhos atuais (balões, divisões de quadros etc.) e mais à característica sequencial e constituidora de um todo quando presente em uma obra de arte visual.

Ele não chega a definir um marco inicial em específico, mas traça paralelos das HQs com um manuscrito em imagem pré-colombiano encontrado por volta de 1519, com uma tapeçaria francesa do século XI e até mesmo com hieróglifos egípcios de mais de dois milênios de antiguidade (ANEXO II).

Ainda assim, McCloud não deixa de considerar como fundamental para o surgimento das histórias em quadrinhos a invenção da imprensa, que viria a dar origem à comunicação em massa (MCCLOUD, 2005). As duas vertentes acima procuram explicar os primórdios dos quadrinhos, mas do modo como são apresentados, não dão conta do desenvolvimento da arte sequencial além da esfera de influência mais imediata do ocidente.

2.2 ORIGENS DO MANGÁ

A criação do que viria a se tornar o mangá se relaciona de início à elaboração desse termo, creditado a um dos mais famosos pintores de ukiyo-ê (APÊNDICE I) de seu tempo, Katsushita Hokusai, de acordo com a professora Sonia Bibe Luyten em seu “Mangá – o poder dos quadrinhos japoneses”:


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Entre 1814 e 1849, Hokusai criou um conjunto de obras em 15 volumes, designadas como Hokusai Manga. Sua beleza gráfica reflete bem os momentos diversos da agitação do Período Edo. Hokusai Manga é um espelho daquele tempo e do próprio gênio singular do autor, que soube captar e ilustrar a vida como um todo. Foi um embrião, evocando sketches de imagens dos quadrinhos (LUYTEN, 2001, p. 98).

Ainda segundo Luyten, o mangá moderno vem a se principiar a partir da influência de Charles Wirgman, cartunista inglês que se estabeleceu no Japão em 1862 e fez sucesso com as suas charges de humor político (que inclusive se valiam de balões de texto) publicadas em sua revista Japan Punch, embora a composição de uma narrativa visual sequencial viesse mesmo a se compor através de Rakuten Kitazawa. [...] Rakuten Kitazawa, artista cujo desenho foi influenciado por Charles Wirgman. Kitazawa foi um dos desenhistas mais importantes do início do século XX, fundou vários jornais e esforçou-se pelo uso da palavra “mangá” para designar histórias em quadrinhos (Id., 2001, p. 107).

O desenvolvimento dos quadrinhos japoneses em meados do século XIX e início do século XX refletia o esforço japonês em absorver elementos da técnica e da cultura ocidentais nas mais diversas áreas do conhecimento para atingir a tão almejada modernização perante as grandes potências existentes nesse intervalo de tempo.

Entretanto, essa absorção se daria mediante as necessidades e particularidades da sociedade japonesa. Com o mangá não seria diferente: após décadas em que todos os quadrinhos eram destinados ao público adulto (por influência dos jornais europeus e estadunidenses), começam a surgir nos anos 1920 histórias infantis que se popularizam e aos poucos se segmentam por gênero e faixa etária, estabelecendo divisões de estilos que não são tão evidentes nas HQs ocidentais (LUYTEN, 2001).


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A ascensão do militarismo no Japão pré-Segunda Guerra Mundial refletiu-se na intervenção pesada do governo na produção cultural, de forma que aos quadrinhos dessa época só eram permitidos abordarem fantasias escapistas ou exaltações nacionalistas (LUYTEN, 2001).

No cenário do pós-guerra, o mangá se firma como opção barata de entretenimento em um país que se recuperava de uma derrota militar e de uma situação de miséria que se acentuou ainda mais no desenrolar do conflito. Não apenas pelo baixo preço, mas a capacidade de oferecer alento e inspiração para suportar as agruras cotidianas fez do mangá uma das maiores expressões culturais japonesas e gerou um ambiente propício ao aparecimento da obra de um artista que viria a se tornar a mais fundamental influência e inspiração para as gerações seguintes de autores japoneses de quadrinhos: Osamu Tezuka (LUYTEN, 2001).

Ex-estudante de medicina, Tezuka enveredou-se decididamente em um mercado pouco rentável na década de 1950. Mas foram através de suas criações, inspiradas pelos desenhos de Walt Disney e pelo cinema alemão e francês, que surgiram os elementos estéticos e narrativos que se transformariam em preceitos básicos para os mangás até os dias atuais, como a narrativa cinematográfica, as linhas de ação e os olhos grandes e expressivos, só para citar as influências de ordem estética.

Um dos exemplos mais conhecidos de como sua obra foi influenciada por autores ocidentais reside na enumeração das semelhanças entre Mickey Mouse e Astro Boy (personagem de maior destaque de Tezuka): ambos possuem pés e mãos proeminentes e arredondados, olhos ovais, usam roupas que cobrem apenas a parte inferior do corpo e, de forma curiosa, o cabelo do menino robô lembra as orelhas do camundongo (ANEXO III).


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2.3 ESTÉTICA DO MANGÁ

Scott McCloud em seu livro Desenhando Quadrinhos enumera técnicas de mangá que diferem sobremaneira das HQs que estamos acostumados (MCCLOUD, 2008): 

Faces icônicas: ao deixar o personagem menos realista e mais

estilizado, o mangá e outros tipos de quadrinhos fazem com que o leitor se coloque no lugar do personagem, é o chamado efeito máscara3 (embora uma vertente atual de mangakas4 tenha enveredado pelo caminho oposto); 

Senso de Localidade: essa diferença já foi mais visível, porém,

conforme Akira Toriyama em: “Mangaka” o autor ao conceber a história sabe onde ela se passa, mas deve deixar isso explícito para o leitor (TORIYAMA, 1984); 

Quadrinhos sem palavras/transições de aspecto a aspecto:

os japoneses têm um espaço maior para inserir cenas, fazendo com que não sejam “econômicos” na transição de uma para outra, o que torna o mangá mais próximo do cinema que os comics; 

Movimento subjetivo: esse recurso traz o leitor para dentro do

movimento, fazendo-o se sentir parte da ação; 

Maturidade genérica: existem diversos gêneros de mangás que

se destinam a fazer com que o público se identifique seja qual for seu ramo de trabalho, idade, sexo ou classe social etc. (a esse ponto se retomará adiante); 

Design de personagens: Tezuka tinha uma tradição de

desenhar vários tipos físicos diferentes. Porém, com o tempo outros artistas foram

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Enquanto o cenário é ilustrado de modo detalhado e realista, o personagem se destaca por ser simplificado o bastante a ponto de o leitor ser capaz de se projetar nele, como se “vestisse uma máscara”. 4 Nome que se dá ao quadrinista que escreve e desenha mangás.


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se distanciando dessa variedade à medida que adotaram uma linha mais homogênea e idealizada para seus personagens. 

Pequenos detalhes do mundo real: a atenção se volta para os

pequenos detalhes nos objetos e cenários, de forma a tornar a cena mais verossímil ao leitor; 

Efeitos emocionalmente expressivos: é a característica mais

forte do mangá, demonstrar sentimentos. Desenvolveram-se técnicas que buscam a identidade do leitor com os personagens por meio das emoções.

É por esse último motivo que os olhos grandes são tão característicos desse estilo de quadrinhos. Nesse caso, quanto mais avantajados os olhos, mais puros e inocentes os personagens. Por isso que crianças e mulheres (numa tradicional visão de pureza do sexo feminino e da infância) possuem globos oculares maiores que os homens. Em consequência disso, os vilões são sempre retratados com íris pequenas, não importando o gênero. Se o tamanho for “intermediário”, isso quer dizer que se trata de um personagem não maniqueísta: é dotado de algum senso de amoralidade, ou tem um passado obscuro, mesmo se ele vier a tornar-se o herói da trama (BRENNER, 2007).

Para a medição da proporção dos personagens usa-se a cabeça como unidade básica. Geralmente um ser humano médio é retratado no mangá com seis ou sete cabeças de altura, enquanto os quadrinhos ocidentais lidam com algo por volta de oito cabeças. Dependendo do teor mais ou menos cômico da história, essa proporção é frequentemente elastecida para mostrar diferentes estados de humor de um personagem, como quando este é “achatado” a proporções de bebê, uma figura de linguagem conhecida por “SD”, abreviação para Super Deformed (Id., 2007).

A anatomia também pode indicar traços da personalidade, embora esses pudessem ser mais bem identificados no passado (conforme a sexta técnica mencionada acima). Sobrancelhas grossas e corpos musculosos geralmente identificam o herói. Quanto às heroínas, seu tipo físico varia de acordo com a audiência: se magra, pequena e ingênua (olhos grandes) deve-se estar diante de um


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Shoujo (mangá para meninas); enquanto se ela possuir formas mais voluptuosas, provavelmente trata-se de um Shonen (mangá para meninos) (Id., 2007). Quando se divide os mangás de acordo com os gêneros a que se destinam (se Shoujo ou Shonen), é possível avaliar ainda grandes diferenças de estilo. O Shoujo, por ter as meninas seu público alvo, centra a narrativa em torno dos sentimentos, criando uma atmosfera mais suave e intimista que o Shonen, no qual o enfoque se dá nas cenas de ação e movimento. Embora o público seja composto por crianças e adolescentes, existem outras divisões derivadas dessas duas categorias, como o Josei e o Seinen, que atendem a mulheres e homens, respectivamente, os quais se enquadram na faixa dos 20 aos 40 anos.

O mangá Shoujo inclusive contribuiu para dinamizar a diagramação das páginas de mangá influenciando até o Shonen, pois na década de 1950, com o surgimento das primeiras televisões no Japão, os quadrinhos começaram a perder espaço em face da nova mídia (LUYTEN, 2001).

Mais adiante, nas décadas de 1960 e 1970, as mulheres começaram a galgar seu espaço no mercado editorial e levar à frente os projetos de quadrinhos para meninas (PROUGH, in JOHNSON-WOODS, 2010).

Essas artistas tinham sede de inovação e trouxeram para dentro do mangá elementos do cinema japonês (LUYTEN, 2001) e difundiram os olhos grandes. De acordo com a professora Prough (PROUGH, in JOHNSON-WOODS, 2010, p. 97):

In a medium filled with square panels all lined up and with word balloons to express speech, manga was originally driven by action and dialogue. But early women artists found this format restrictive and refashioned the page in order to better represent the more interior and emotional content of their manga. These artists experimented with a placement of panels, and use of dialogue to really capture more aesthetics of feeling than had been previously possible in the genre. A montage panel format made it easier to track back and forth among characters‟ actions, dialogue, and thoughts. While this college of panels is harder to read when first encountered, the protagonist‟s emotional state (mixed up, contemplative, angry etc.) is nonetheless elicited at a glance beyond the images or text themselves. Furthermore, the use of montage to express interiority was enhanced


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by experimentation with different shapes and textures for word bubbles to differentiate memory from speech, as well including words floating across the page and outside of frames to indicate thoughts outside the main action and dialogue. Gradually, the montage style of shoujo manga has influenced shonen manga as well, although generally speaking boys‟ manga is still primarily dialogue – or action – driven and has even come to characterize manga for international audiences.5

Por atender a diferentes faixas etárias e sociais em um mercado solidamente segmentado, o mangá é capaz de comportar gêneros plásticos e narrativos bastante diferentes entre si. Ainda assim, pode-se vislumbrar em cada um deles aspectos visuais que não são normalmente encontráveis em outras escolas de quadrinhos. Em “Elementos do Estilo Mangá”, o artista plástico João Henrique Lopes enumera alguns princípios que permeiam a estética do mangá: a espontaneidade, expressa no traço fluido proporcionado pelo bico de pena; a simplicidade, no delinear apenas o que for essencial; o nôtan, que consiste em uma composição em que os elementos claros e escuros estejam bem distribuídos (LOPES, 2010).

Além desses princípios, Lopes cita alguns de seus desdobramentos técnicos, como a balonagem manual, em que os balões de fala são desenhados de modo a intensificar a expressividade do texto. Outras técnicas mencionadas são as onomatopeias integradas à arte e desenhadas à mão para manter a fluidez e

5

Em um meio cheio de painéis quadrados alinhados e com com balões para expressar a fala, o mangá foi originalmente feito para ação e diálogo. Porém, as artistas mulheres acharam esse formato restritivo e remodelaram as páginas de forma a representar melhor o conteúdo emocional do mangá. Essas artistas inovaram na colocação dos quadrinhos e usaram o diálogo para capturar elementos estéticos do sentimento, mais do que havia sido possível anteriormenete nesse gênero. A diagramação facilitou acompanhar o vai-e-vem das ações, diálogos e pensamentos dos personagens. Embora essa forma de quadrinhos seja mais difícil de se ler quando se depara com ela, o estado emocional do protagonista (confuso, contemplativo, furioso etc) fica muito mais rico, pois transpassa texto e imagens. Ademais, o uso da montagem para expressar o âmago foi feita pela experimentação de diferentes formatos e texturas para os balões, a fim de diferenciar lembranças das falas, bem como a inclusão de palavras flutuando pelas páginas e fora das bordas para indicar pensamentos que estão fora da ação e diálogo principais. Gradualmente, a diagramação do estilo do mangá shoujo influenciou o mangá shonen, mesmo que os mangás para meninos sejam primordialmente (falando de maneira geral) diálogo – ou ação – e caracterize o mangá para o público internacional. (Tradução livre)


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espontaneidade, a pouca ou nenhuma utilização de cores em decorrência tanto de fatores econômicos quanto pela prevalência do traço puro, além de silhuetas, supressões de traço, contrastes e abreviações de elementos e vários outros efeitos (LOPES, 2010).

Corroborando o que diz Lopes, Brenner (2007, p. 40): […] Most manga characters are drown with an economy of line – compared with the dense style of traditional superhero comics, manga characters are most empty of detail. Part of this simplicity arises from expediency – if the artists need to turn out thirty pages a week, they have to be able to draw and finished their art quickly. In terms of skill, this simplicity can be deceptive. The few lines an artist works with the more the placement of each line makes a difference in the finished drawing, requiring an expert of space and line within each drawing. Shift a line too fair in one direction and a character may suddenly look ten years older, or even change into another character. A certain type of jawline the length of the face, and the size of the eyes define character‟s age […]6

Embora à primeira vista muitas dessas técnicas se distanciem de uma representação realística (senão fotográfica) de uma cena, elas permanecem verossímeis ao procurarem traduzir graficamente a transitoriedade dos movimentos e a subjetividade das sensações e sentimentos.

Lopes (2010, p. 12) também defende que o mangá não precisa se restringir apenas aos quadrinhos produzidos no Japão, pois, com o domínio de seus conceitos e técnicas, ele pode ser criado em qualquer parte do mundo:

O sentido original, e ainda o principal, da palavra mangá não tem a ver com o formato da publicação nem com a nacionalidade do autor; não contém nenhuma restrição quanto aos materiais usados ou os

6

A maioria dos mangás é desenhado com uma economia de linhas – se comparado com o estilo denso dos comics de super-heróis, personages de mangá são mais livres de detalhes. Parte dessa simplicidade surge da conveniência – se os artistas precisam entregar trinta páginas por semana, precisam terminar a arte final rapidamente. Em termos de habilidade, essa simplicidade pode ser enganosa. A despeito das poucas linhas que o artista trabalha, a colocação delas é o que faz diferença no desenho finalizado, requerendo destreza no manuseio do espaço e da linha em cada desenho. Tornar uma linha mais clara pode deixar o personagem aparentando dez anos amais, ou mesmo transformá-lo em um outro. Um certo tipo de linha da mandíbula, o comprimento do rosto e o tamanho dos olhos podem definir a idade do personagem. (Tradução livre)


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temas escolhidos. Só tem a ver com o estilo em que a obra é desenhada.

2.4 O FENÔMENO MANGÁ

Os mangás estão intimamente relacionados ao Milagre Japonês, como dito anteriormente. Durante a guerra (e mesmo antes) a população daquele país sofria de uma pobreza generalizada e encontraram no mangá uma forma de diversão eficiente, o qual chega a ser aspecto marcante de sua cultura hodierna.

Sonia Bibe Luyten estabelece três motivos para a popularização tão massificada dos mangás, as quais correspondem mesmo a 40% (quarenta por cento) de todo mercado de publicações japonesas (GRAVETT, 2004): 

BAIXO CUSTO: a pobreza extrema exigia que se criassem

meios de diversão baratos. Mesmo com a dificuldade no início do pós-guerra de se conseguir papel para a impressão, esse problema foi resolvido com utilização de papel de jornal, tradição que se mantém até hoje, proporcionando revistas com preço equivalente ao de uma passagem de ônibus (LUYTEN, 2000). 

GRANDE NÚMERO DE IDEOGRAMAS: por ser a escrita

japonesa baseada em caracteres cujo significado individual contém uma palavra distinta, ler um jornal requer o conhecimento de uma extensa quantidade de símbolos – cerca de dois mil, algo que só ocorre ao final do formação escolar equivalente ao nosso ensino médio. Em face disso, o mangá fornece uma leitura mais fácil ao associar ilustrações e texto (LUYTEN, 2000). 

VÁLVULA DE ESCAPE: é de conhecimento comum que, a

despeito da riqueza que o país alcançou nos últimos sessenta anos, os japoneses não gozam do conforto que isso poderia lhes proporcionar, pelo contrário: são inúmeras as reportagens a respeito dos workaholics, das jornadas de trabalho extenuantes, da extrema pressão sobre os estudantes para ingressarem nas melhores universidades do país e de outros problemas de ordem social no Japão, que vemos costumeiramente nos meios de comunicação.


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Essa situação, juntamente com uma cultura de internalização dos problemas, faz do mangá um recurso escapista (LUYTEN, 2000).

Os mangás se solidarizam com o leitor: os personagens, lutam, amam, brigam, aventuram-se, viajam e até exercitam-se por ele. A relação íntima entre o personagem e o leitor faz se esquecer das longas horas nos trens, dos trabalhos monótonos e mecânicos nos escritórios, do inferno do vestibular, das casas apertadas e das multidões nas ruas e dá energia para o dia seguinte (LUYTEN, 2000, p. 40).

Como é bastante óbvio, os motivos para os mangás terem caído nos gostos dos jovens brasileiros foi muito distinto. Primeiramente, os brasileiros entraram em contato com a cultura japonesa através de programas de televisão.

Foi durante o final da década de cinquenta que os primeiros títulos japoneses começaram a aparecer em terras tupiniquins. Havia uma necessidade de programas infantis para inteirar a grade das televisões, sendo que a produção nacional era (e ainda é) incipiente. Dentre o material japonês estavam títulos como Nacional Kid, A Princesa e o Cavaleiro, Ultraman, Speed Racer etc (CARVALHO, 2006).

Por outro lado, apenas durante os anos oitenta que os primeiros mangás apareceram por aqui. Antes disso, “[...] era complicado para um editora brasileira importar mangás e lançá-los no mercado nacional (afinal, o papel era caro e o negócio de quadrinhos não era estável o suficiente para se apostar em algo novo)” (CARVALHO, 2006, p. 44).

Porém, foi somente no início dos anos 2000 que a situação mudou radicalmente. Vários títulos que o público já conhecia a versão em desenho animado (animê), além de material inédito, poderiam ser consumidos com facilidade pela primeira vez.


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[…] Quando a Conrad Editora trouxe ao Brasil os títulos Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, fãs ficaram exultantes: a leitura era feita no sentido oriental7 e as onomatopéias eram mantidas em japonês, pois faziam parte do desenho, dando início a uma nova era no mercado nacional de quadrinhos (GUSMAN, In: LUYTEN, 2005, p. 79).

Ademais, esse boom foi impulsionado pela indústria de quadrinhos de super-heróis brasileira estar passando por uma crise naquela época. E enquanto as editoras tentavam apenas manter seu público fiel, esqueceu-se de angariar novos leitores (ação essencial para a manutenção de qualquer ramo) (GUSMAN, In: LUYTEN, 2005, p. 79).

Além de roupagem, estilo e roteiros novos, os mangás, afirma Sidney Gusman (autor do artigo – de nome sugestivo – Mangás: hoje o único formador de leitores do mercado brasileiro de quadrinhos) afirma que as HQs japonesas têm três grandes vantagens sobre as americanas, a saber: 

HISTÓRIAS COM COMEÇO, MEIO E FIM. Ao contrário dos

comics que possuem um cenário para várias aventuras dos personagens, os mangás geralmente contam apenas uma história, assemelhando-se aos romances de folhetim que foram populares neste país durante o século XIX ou às novelas. Por isso mesmo, os mangás tendem a ter roteiros mais criativos. 

JAPONESES FAZEM MELHOR A INTERATIVIDADE ENTRE

TELEVISÃO E CINEMA. “Por exemplo, nos Estados Unidos uma pessoa vai ao cinema porque gosta do Homem-Aranha. Isso faz com que se interesse em comprar o gibi, mas quando o faz, descobre que as histórias são totalmente diferentes” (GUSMAN, In: LUYTEN, 2005, p. 80). Ao contrário disso, as diferenças entre os animês e os mangás é quase nenhuma, podendo a pessoa “pular” entre os nichos sem maiores problemas ou se deparar com surpresas desagradáveis como a anteriormente exemplificada.

7

O mesmo autor explica que por terem sido os primeiros mangás vindos para o Brasil terem sido intermediados pelo mercado americano, alterações no formato (fotolitos) foram feitas e o público tinha que conformar com distorções.


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OS ROTEIRISTAS TRABALHAM COM COMPETÊNCIA O

ASPECTO HUMANO DO PERSONAGEM. Em comparação com os personagens dos comics, os do mangá possuem defeitos e problemas, aproximando-os do público: “isso foi esquecido pelos norte-americanos, que transformaram seus personagens em semideuses quase onipotentes […]” (GUSMAN, In: LUYTEN, 2005, p. 80). É o efeito máscara aludido por McCloud.

Essa última característica também é apreciada pelos próprios japoneses, como aludido acima, constituindo, portanto, verdadeiro ponto forte dos mangás, uma vez que perpassa culturas tão diferentes e agrada a ambas.

Talvez a maior prova de que os mangás fazem parte da cultura pop dessa geração é o estrondoso sucesso de “A Turma da Mônica Jovem”. Mauricio de Sousa, um dos maiores quadrinistas brasileiros, criou um gibi inspirado no estilo mangá com a Turminha crescida. Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e os outros agora são adolescentes e enfrentam dilemas próprios dessa idade (ANEXO IV).

Essa estratégia fez com que o autor recuperasse parte de seu público que vinha crescendo e abandonando suas revistas pelo processo natural do amadurecimento. Alavancadas as vendas, um novo “filão” acabara de nascer e surgiram assim outros materiais brasileiros inspirados no estilo mangá: Luluzinha Teen, Mangá Tropical, Mangá do Timão etc (DIAS, 2009).

Vendo esse crescente interesse pelo mangá, pode-se direcioná-lo à sala de aula. Aliar o mangá aos textos escolares tem um considerável potencial de tornar mais "palatável" o estudo de quaisquer disciplinas. Nos mesmos moldes do jargão: "aprenda brincando", um texto escolar em estilo mangá permitiria uma experiência mais completa e divertida.


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3. MANGÁ COMO APOIO AO ENSINO

3.1 NOÇÕES DE PENSAMENTO COMPLEXO

Este trabalho requer um início orientado pelo ponto de vista da integração, haja vista que, em um primeiro momento, Estética e Educação sejam esferas do conhecimento tão díspares que talvez não se considere normal que ambas sequer figurassem no mesmo trabalho ou, quanto mais, aplicada uma a outra.

Para tanto, faremos uma breve explanação acerca dos estudos de Edgar Morin e sua Teoria da Transdisciplinaridade (ou Conhecimento Complexo) que, de forma direta, afirma ser o universo do conhecimento humano algo uno e indivisível, posto que todas as suas ramificações não passariam de facetas do mesmo objeto. De início, há que se desmistificar o termo “Complexidade”: no entender de Morin, ela não significa “complicação”, pelo contrário, quer dizer que o estudioso deve olhar o todo quando estiver diante de seu problema, analisando as repercussões que um elemento ou processo gera em outro, pois em seu sentido original, essa palavra significava “reunião”, ou “abraço”, in verbis: A um primeiro olhar, a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico (MORIN, 2007, p.13).

Dessa forma, quando transformamos em arte sequencial um conteúdo como, por exemplo, o da chegada da família real ao Brasil, se estabelece entre ilustração e texto uma relação de equilíbrio e complementariedade capaz de tornar a aprendizagem mais leve e prazerosa.


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3.2 QUADRINHOS NA EDUCAÇÃO

Há algumas décadas, debater este tema na Academia seria praticamente impensável. Quando as primeiras revistas de HQs chegaram ao Brasil, foram refutadas como estrangeirismos prejudiciais ao desenvolvimento intelectual infantil, principalmente porque muitas crianças e adolescentes preferiam ler quadrinhos em detrimento dos livros (VERGUEIRO, in LUYTEN, 2005).

Esse preconceito era fruto de intrigas políticas e da luta pelo controle do mercado editorial, envolvendo figuras históricas como Adolfo Aizen 8, Carlos Lacerda, Roberto Marinho, Assis Chateaubriand, Gilberto Freyre dentre outros, e terminou se espraiando pela sociedade. Toda essa trajetória nos é contado por Gonçalo Silva Júnior em A Guerra dos Quadrinhos:

Em meados da década de 50, os pais entendiam cada vez menos por que os filhos amontoavam tantos gibis em casa. E menos ainda por que gastam suas mesadas naquelas publicações esquisitas e perdiam seu tempo com a leitura de histórias repletas de heróis fantasiados com superpoderes, ou monstros do além. Alguns garotos preocupavam mais ainda porque viviam na obsessão pela compra, venda e troca de números para completar suas coleções. Por isso, os pais quase sempre se deixavam levar pelas críticas que as revistinhas recebia. Não por acaso, os gibis voltaram a ser o tema de três das quatro colunas semanais que o escritor Gilberto Freyre publicou em O Cruzeiro durante o mês de maio de 1954. Mais uma vez ele saiu em defesa dos quadrinhos […] (SILVA JÚNIOR, 2004, p. 254)

Por causa da influência dos envolvidos (os quais tinham conexões em toda máquina estatal), foram naturalmente propostas ações governamentais no intuito de instruir pais e professores a impedir que os jovens tivessem acesso ao material. […] Em 1944 o Instituto Nacional de Educação e Pesquisa (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), apresentou um estudo preconceituoso […] no qual afirmava que as histórias em quadrinhos provocavam “lerdeza mental” (CARVALHO, 2006, p.32).

8

Considerado o pai dos quadrinhos no Brasil. Empreendeu projetos ainda na década de 30 do século passado que traziam comics para serem comercializados dentro de suplementos de jornal, nos moldes do que era feita no mercado americano.


28

Mas talvez, o fator preponderante tenha sido a publicação do livro Seduction of the Innocent (Sedução do Inocente, numa tradução livre) do psiquiatra alemão

Frederic

Wertham,

publicado

em

1954.

Nesse

livro

afirmou-se

categoricamente que os quadrinhos aumentavam a inclinação para o crime e à homossexualidade, tomada então por doença (CARVALHO, 2006).

Infelizmente, o livro influenciou sobremaneira o pensamento da época, fazendo países como Brasil e Estados Unidos editarem um “código de quadrinhos” que limitava a capacidade criativa dos artistas, uma vez que proibia cenas de cunho erótico e exigia que o bem sempre devesse triunfar sobre o mal (SILVA JÚNIOR, 2004).

Ainda hoje as histórias em quadrinhos sofrem com o preconceito de alguns por serem taxados de “subliteratura”, mas muito se mudou ao longo desses quase cem anos das HQs no Brasil. Por exemplo, várias campanhas de conscientização

nacional

se

utilizaram

da

linguagem/personagens

dos

quadrinhos, fato que evidencia seu caráter educativo. É o caso das campanhas: “Pare de Fumar Perto de Mim” e a pelo esclarecimento do autismo, promovidos por Maurício de Sousa e a “Maluquinhos contra a Dengue” de Ziraldo, dentre outras (ANEXO V).

Hoje o próprio MEC sugere algumas obras de quadrinhos como paradidáticos em seu Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) desde 2006, ainda que se possa considerar que esse avanço tenha-se dado com certo atraso, se for levado em conta que o PNBE começou a ser implantado em 1997.

Esse programa consiste no fornecimento de material literário, de pesquisa ou de referência às bibliotecas da rede de ensino pública no afã de estimular o envolvimento de professores e alunos com a leitura. A cada ano um determinado segmento de escolas é selecionado para receber as obras do PNBE: se em um ano, o programa atinge o ramo inicial das escolas de nível fundamental e


29

o EJA (Educação de Jovens e Adultos), em outro, são abrangidas a parte mais avançada da rede de nível fundamental e as escolas de ensino médio.9 Analisando o site do Ministério, encontramos a explicação do porquê terem incluído os quadrinhos no PNBE:

A leitura de obras em quadrinhos demanda um processo bastante complexo por parte do leitor: texto, imagens, balões, ordem das tiras, onomatopéias, que contribuem significativamente para a independência do leitor na interpretação dos textos lidos. Além disso, o universo dos quadrinhos faz parte das experiências cotidianas dos alunos. É uma linguagem reconhecida bem antes de a criança passar pelo processo de alfabetização.

Ainda de acordo com o órgão ministerial, no ano de 2006 foram selecionadas 14 obras; em 2008, mais 16; em 2009, 23 e em 2010, 30. Infelizmente, em 2011 esse número decresceu substancialmente para míseros sete livros, um flagrante retrocesso.

Essa decaída talvez se deva ao fato de o edital desse ano ter tratado do assunto com muito mais rigor. Em uma interpretação literal, pode-se à primeira vista pensar que apenas meras adaptações de textos literários estariam permitidas a integrar a lista desse ano. Todavia, percebe-se claramente o intuito do MEC em apenas exemplificar: 3.2.3.3. Livros de imagens e livros de histórias em quadrinhos, dentre os quais se incluem obras clássicas da literatura universal, artisticamente adaptadas ao público dos anos iniciais do ensino fundamental (BRASIL, 2010);

Desta leitura depreende-se que era obrigatória a presença de obras adaptadas, mas não somente obras adaptadas. Enquanto isso, o Edital de 2010 deixou o tema muito mais aberto, permitindo diversificado número de títulos (para a listagem das obras, ver APÊNDICE II):

9

É possível encontrar mais ttp://portal.mec.gov.br/index.php

informações

sobre

o

programa

no

site

dorespectivo

órgão:


30

No caso das histórias em quadrinhos será considerado como critério preponderante a relação entre texto e imagem e as possibilidades de leitura das narrativas visuais (BRASIL, 2009).

Todavia, mesmo que se considerem esses últimos fatos de forma positiva, há de se notar que dentre os livros não há qualquer publicação de origem asiática: todos são quadrinhos produzidos no Brasil, Estados Unidos ou Europa. Isso talvez seja reflexo de uma ojeriza que se criou em torno dos animês, principalmente em relação a Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball por serem animês considerados demasiado violentos tanto pelos pais, quanto pelos professores.

Contrariando o senso comum, o professor Djota Carvalho diz (2006, p. 56):

Também há pelo menos duas características comuns à esmagadora maioria dos mangás, que devem ser ressaltadas por pais e professores, pois podem ser trabalhadas de maneira extremamente positiva: o respeito aos mais velhos e a valorização do trabalho. Este último aspecto ganha força se comparado aos quadrinhos de superheróis, tão comuns no Ocidente: praticamente todo “super” ganha seus poderes por acidente ou simplesmente nasce com eles, ao passo que os heróis japoneses têm de treinar muito, trabalhar duro, aprender e se superar constantemente se quiserem chegar a algum lugar (uma noção que com certeza gostaríamos que nossos alunos tivessem).

Além do que, são encontrados no mercado nacional livros educacionais em mangá que poderiam tranquilamente integrar a Lista do PNBE, pois tratam com leveza temas complexos como Estatística, Cálculo, Teoria da Relatividade ou Biologia Molecular. É o caso da Coleção Guia Mangá, traduzida pela Editora Novatec (ANEXO VI).

E se ainda houver educadores que contestem a utilidade pedagógica dos quadrinhos, pode-se confrontá-los com duas pesquisas realizadas no ano de 2001, afirma Djota Carvalho que mostram tanto como os leitores de quadrinhos possuem melhor desempenho escolar quanto como adquiriram o hábito da leitura:

Uma pesquisa da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (Esmac) feita com 3 mil leitores de quadrinhos de super-herói, em 2001, por exemplo, mostrou que 8,1% dles começam a ler gibis como parte do processo de alfabetização. 61%


31

preocupam-se com português das HQs e 51% lêem histórias em outras línguas. Outro dado interessante da mesma pesquisa é que 45,1% dos entrevistados declaram ler de uma a cinco revistas por mês; 26,6% lêem de seis a dez gibis mensalmente; 5,1% de 10 a 15 revistas de HQs; e 17,7% lêem mais de 15 exemplares mensais (8,1% disseram não atentar para a frequência da leitura) […] (CARVALHO, 2006, p. 38)

A outra pesquisa comentada pelo autor é a Retratos da Escola 2, promovida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que teve por objetivo dar embasamento à discussão sobre a educação brasileira através de experiências empíricas.

Desta feita, apresentou um questionário aos alunos indagando se tinham o hábito de ler, sendo um tópico específico perguntando sobre a leitura de quadrinhos e comparavam com sua proficiência. O resultado a que chegaram foi interessante: concluiram que qualquer hábito de leitura, seja ela de livros ou quadrinhos, é válido para elevar as notas dos estudantes, seja ele da rede pública ou particular10 (CODO; VASQUES-MENEZES, 2001). Para maiores detalhes, ver ANEXO VII.

Quanto a trabalhar em sala de aula com os gibis, Lílian Gilberto Passarelli faz uma observação interessante:

Dentre as atividades linguageiras que a escola desenvolve, há uma boa receptividade dos alunos quando são usadas histórias em quadrinhos (HQs). De um modo geral e bastante simplista, os professores, para justificar essa receptividade, alegam que o estudante “gosta” do que se ensina pelo gibi, pois trabalhos com HQs raramente recebem comentários com muxoxo. Talvez, também, por fazerem parte do cotidiano comunicativo que não o exclusivamente escolar é que os gibis sejam mais bem-vindos pela comunidade escolar (PASSARELLI, in Bastos).

Porém, não basta “jogar” aos alunos as HQs, é preciso ter um planejamento cuidadoso, a fim de se extrair ao máximo de aproveitamento pedagógico. Assim, não basta comandar: “leia” ou “desenhe”, a abordagem deve ser

10

Chegou-se nessa pesquisa a mesma conclusão quanto aos professores que mantém o hábito da leitura, mesmo que essa não seja especializada (quadrinhos, romances etc).


32

outra. Sonia Bibe Luyten em seu artigo: “Quadrinhos na Sala de Aula” explicita vários passos para se trabalhar o tema em sala de aula: 

PLANEJAMENTO ANTES DO INÍCIO DO ANO LETIVO

FAMILIARIDADE

DOS

PROFESSORES

COM

OS

QUADRINHOS

A familiaridade do professor é essencial. É a ele que cabe a análise de como deve ser trabalhado o tema em sala de aula, se por meio da análise crítica do conteúdo, discussões, desenvolvimento da linguagem11, dinâmicas de identificação projetiva da personalidade12 etc (LUYTEN, p. 21).

A professora, na mesma obra, alerta ainda para os seguintes pontos: 

Quadrinhos com excesso de texto dificultam a leitura, refletindo

num parco entendimento do aluno. 

Imagens muito chamativas são objeto de distração, desviando o

foco para si e não para o que se está querendo passar. 

Não se deixar enganar por truques comerciais se fazendo

passar por uma história em quadrinho. “Por exemplo, a já conhecida estátua de D. Pedro I com o acréscimo de um balão dizendo “Independência ou Morte” (Luyten, 2011). 

Atentar para personagens esteriotipados em questões de raça,

profissão, maneira de falar, deficiência etc. Por outro lado, pode-se se aproveitar desse fato e tentar desenvolver a compreensão crítica dos estudantes.

11

Por exemplo, quando o professor organiza seus alunos em grupos para que construam uma HQ. Nesse exercício, de acordo com as habilidades de cada um, haverá a expressão tanto da linguam escrita, quanto da oral. 12 Quando o professor organiza uma brincadeira em que todos serão um personagem, sendo que os próprios alunos que escolhem “quem” deverão ser.


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Luyten (2011, p. 25) ainda conclui que: Todos estes itens devem estar dentro de um planejamento de aula. O uso de quadrinhos tem o objetivo de ajudar, motivar e estimular o aluno a desenvolver habilidades, além de ensinar de forma lúdica. Os benefícios serão muitos. As Histórias em Quadrinhos dão uma extraordinária representação visual do conhecimento, mostram o que é essencial, ajudam na organização narrativa da história, são de fácil memorização, enriquecem a leitura, a escrita e o pensamento e desenvolvem conexões entre o visual e o verbal. E o mais importante: os quadrinhos, em sua estrutura, formam uma imagem descontínua. O espaço em branco entre um quadrinho e outro tem que ser preenchido rapidamente na mente do leitor para formar uma imagem contínua, como se fosse um filme ou um desenho animado. Este espaço em branco, ao qual ninguém dá importância, tem uma função extraordinária: ajuda o cérebro a pensar.


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4. PRODUTO

O produto desta pesquisa consiste em uma HQ de quatro páginas, inspirada na narrativa do mangá e correspondente a um capítulo de um possível livro em quadrinhos, a comportar um conjunto de capítulos seriados (como nas antologias de mangá) dentre os quais cada um se deteria sobre um assunto da disciplina (para visualizar a história, ver APÊNDICE III).

A primeira providência foi elencar o recorte de tempo e espaço a ser escolhido como cenário e a definir que ramo da História seria trabalhado. Escolheuse dentro da História Geral o século XVII e o comércio triangular entre a Europa, a África e as colônias das Américas, por demonstrar bem as possibilidades de uma abordagem que mesclasse aventura e humor.

A esse cenário acrescentou-se um enredo de teor ficcional que pudesse causar uma sensação de identificação e empatia no aluno que lesse a história: os protagonistas da HQ são três estudantes alienígenas matriculados na escola intergaláctica que vieram à Terra para fazer uma pesquisa para a matéria de História Interplanetária (uma analogia ao fato de História parecer algo um tanto alienígena aos alunos menos interessados).

No entanto, houve um problema em seu disco voador de viagem no tempo e espaço, pois o computador de bordo, a exemplo do HAL 9000 do filme “2011 - Uma Odisseia no Espaço”, se rebela e transforma-se no Professor Caos, a materialização do pior tipo de professor capaz de existir, que se diverte com o sofrimento de seus alunos. No controle de toda a nave, Professor Caos joga os três estudantes em diferentes períodos e lugares da Terra guardam questões que precisam ser respondidas para que esse vilão possa ser derrotado.

Optamos por escrever e produzir o terceiro capítulo ao invés do primeiro, tendo em vista que em um roteiro de origem não haveria espaço para o conteúdo de História em razão do reduzido número de páginas. Mas foi providenciado um texto recordatório na página inicial para situar o leitor na trama.


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A criação dos personagens foi pensada levando em conta aspectos humanos e referências a obras da cultura de massa. A primeira estudante é a bela e furiosa Silve, inspirada visualmente no Sr. Spock do seriado Jornada nas Estrelas. O segundo aluno, o grandalhão e calmo Jaxon, remete à clássica representação dos filmes “B” de alienígenas marcianos verdes e com antenas, como um super-herói dos quadrinhos da DC Comics, o Caçador de Marte. O último é o baixinho, cabeçudo e medroso Ovnick, semelhante aos alienígenas cinzas ou “greys”, presentes em seriados como Arquivo X. O Professor Caos é inspirado em vilões típicos de mangás como Cavaleiros do Zodíaco, enquanto que o disco voador lembra o formato de um relógio de ponteiro, fazendo alusão à própria característica da HQ, de viagem no tempo.

Todo esse planejamento lembra o quanto a profundidade e a interação entre os protagonistas são umas das maiores características do mangá. Desta forma, é possível que o leitor se envolva com a história e até mesmo compartilhe dos mesmos dilemas que os personagens, fazendo com que ele os acompanhe em sua jornada.


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5. CONCLUSÃO

A proposta deste trabalho centrou-se em promover um aumento (ou mesmo o surgimento) do interesse dos estudantes pelo conteúdo da disciplina de História a partir da intervenção das Histórias em Quadrinhos na sala de aula.

De modo análogo à dificuldade de muitos alunos de fazerem bom proveito do conhecimento histórico ministrado em sala de aula, as HQs foram, durante muito tempo, desprezadas por vários segmentos da sociedade, inclusive aqueles pertencentes aos círculos acadêmicos. E o mangá, tendo sido largamente difundido no Brasil há pouco mais de dez anos, ainda sofre resistências da parte de muitos aficcionados por quadrinhos que, embora leitores assíduos, são pouco afeitos a obras fora de seu campo tradicional de preferência.

Para ultrapassar tantas barreiras, procurou-se aliar à História, uma disciplina tão negligenciada pelos estudantes, um meio de expressão muito discriminado tanto no passado quanto no presente, as Histórias em Quadrinhos.

Foi demonstrado, por citações de literatura especializada e exposição de exemplos, como esse tipo de arte visual e sua vertente japonesa são constituídos por todo um manancial de caracteristicas das mais diversas, capaz de ombreá-lo a quaisquer outras esferas culturais com as quais se relaciona, como literatura, pintura, cinema etc.

Outro desafio abordado foi a defesa da utilização do mangá como ferramenta de auxílio ao ensino de História, uma aliança que se embasa na união de áreas do conhecimento humano aparentemente tão distintas, a estética e a educação.


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Isso significou aderir à difícil tarefa de transpor a ideia de segmentação do conhecimento, uma vez que a divisão proposta por Descartes ainda no Iluminismo se faz muito forte ainda hoje. Não obstante, tentou-se neste trabalho alinhar dois ramos aparentemente díspares, citando primeiramente a estética e, em seguida, a sua subordinação a um projeto pedagógico.

O esforço inicial para perseguir o objetivo desse trabalho residiu na produção de um trecho do que poderá vir a ser uma futura obra em quadrinhos que faça uso de uma elaboração original de roteiro e arte aplicados a um conteúdo historiográfico, a exemplo de outras experiências de utilização de HQs para fins educacionais.

Portanto, espera-se que este trabalho tenha cumprido o seu papel de reunir âmbitos distintos do conhecimento, a estética e a educação, o mangá e a História, no afã de ajudar a promover uma reconciliação do aluno com a sua disciplina, tornando a sala de aula mais atrativa aos jovens de hoje em dia, capazes de se distraírem tão facilmente em meio a tantas opções mais “divertidas” do que ficar horas lendo um livro.


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REFERÊNCIAS

BASTOS, Neusa Barbosa. Língua Portuguesa em Caleidoscópio. São Paulo: FAPESP. BRASIL, edital de convocação para inscrição de obras de literatura no processo de avaliação e seleção para o programa nacional biblioteca da escola – pnbe 2010. 2009 BRASIL, edital de convocação para inscrição de obras de literatura no processo de avaliação e seleção para o programa nacional biblioteca da escola – pnbe 2011. 2010 BRENNER, Robin E. Understanding Manga and Anime. Westport: Libraries Unlimited Inc, 2007. CAMARGO, Marcos Henrique. As estéticas e suas definições de arte. Disponível em: http://www.fap.pr.gov.br/arquivos/File/Arquivos2009/Pesquisa/Rev_cientifica4/artigo_ Marcos_Camargo.pdf. Acesso em 25 de setembro de 2011. CARVALHO, Djota. A Educação está no Gibi. São Paulo: Papirus, 2006. CODO, Wanderley; VASQUES-MENEZES, Iône. Retratos da Escola 2:Como estão nossas escolas e nossas crianças. Disponível em: http://www.cnte.org.br/images/pdf/pesquisa_retrato_da_escola_2_complemento.pdf. Acesso em 04 de outubro de 2011. DIAS, Guilherme Schineider Moreira. Quadrinhos amarelados – De Yellow Kid à Invasão da Estética Oriental. Disponível em: https://docs.google.com/document/edit?id=1G9gXxq6lQ6eZ1BRw9BCKSU9bet42lK54n-lLNbDlQM&hl&pli=1#. Acesso em: 04 de outubro de 2011. EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Sequencial - Princípios e Práticas do Lendário Cartonista. 4ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010. FRANCO, Silveira Edgar. HQTRONICAS. 1ª Edição. São Paulo: Annablume Editora, 2004. GRAVETT, Paul. Manga: Como o Japão Reinventou os Quadrinhos. 1ª Edição. São Paulo: Conrad Editora, 2006. JOHNSON-WOODS, Tony. Manga: An Antology of Global and Cultural Perspectives. New York: The Continuum International Publishing Group Inc, 2010. LUYTEN, Sonia Bibe. Cultura Pop Japonesa. 1ª Edição. São Paulo: Hedra, 2005. LUYTEN, Sonia Bibe. Mangá: o poder dos quadrinhos Japoneses. 2ª Edição. São Paulo: Hedra, 2000.


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LUYTEN, Sonia Bibe. Quadrinhos na Sala de Aula. Disponível em Internet: http://tvbrasil.org.br/fotos/salto/series/181213historiaemquadrinhos.pdf. Acesso em: 04 de outubro de 2011 MCCLOUD, Scott. Desvendando Quadrinhos. São Paulo: M. Books Editora, 2005. MCCLOUD, Scott. Desenhando Quadrinhos. São Paulo: M. Books Editora, 2008. MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. 5ª Edição. Porto Alegre: Editora Instituto Piaget, 2010. PATATI, Carlos; BRAGA, Flávio. Almanaque dos Quadrinhos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. SILVA JÚNIOR, Gonçalo. A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-1964. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


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APÊNDICE I

O Ukio-ê é uma espécie de xilogravura em várias cores, impressa em centenas de cópias. Não era preciosista quanto as formas e a anatomia: se propunha a captar o estado de espírito dos séculos XVII e XVIII da sociedade japonesa. Retratavam cenas do dia-a-dia e tinham essência muito similar à das histórias em quadrinhos: cheias de vida, financeiramente acessíveis e destinavam-se a entreter. Artístas de destaque desse período são: Sharaku Toshuai, Kimiyoshi Utagay, Katsushita Hokusai etc.

Também são típicos do Ukio-ê o o Shunga (desenhos eróticos banidos sob a influência do cristianismo), o Toba-ê Sakokushi (considerado o primeiro livro de cartuns produzido no Japão e o mais antigo do mundo) e os Kibushi (livrinhos de tom humorístico mais tarde proibidos por satirizarem as autoridades da época).

Hokusai Manga - Katsushita Hokusai


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APÊNDICE II

Nesse tópico buscou-se fazer um apanhado das várias obras de quadrinhos (apenas), baseando-nos da lista do PNBE 2010 publicada pelo MEC.

LIVRO 25 ANOS DO MENINO MALUQUINHO A BUSCA

AUTOR

ZIRALDO ALVES PINTO LIES SCHIPPERS - ERIC HEUVEL RUUD VAN DER ROL A TOALHA VERMELHA FERNANDO VILELA DE MOURA SILVA A VOLTA DO FRADIM HENFIL AS AVENTURAS DE HUCKLEBERRY TOM RATLIFF FINN AV. PAULISTA CARLA CAFFÉ BIDU 50 ANOS MAURÍCIO ARAÚJO DE SOUSA CAUSOS DE ASSOMBRAMENTO EM MAURICIO RICARDO PEREIRA QUADRINHOS DEMOLIDOR O HOMEM SEM MEDO FRANK MILLER E JOHN ROMITA JR DIÁRIO DA JULIETA: AS HISTÓRIAS ZIRALDO ALVES PINTO MAIS SECRETAS DA MENINA MALUQUINHA FRANKENSTEIN MARY SHELLEY - MARION MOUSSE MALUQUINHO POR FUTEBOL: AS ZIRALDO ALVES PINTO HISTÓRIAS MAIS MALUCAS SOBRE A MAIOR PAIXÃO DO BRASIL MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE IVAN JOSÉ DE AZEVEDO FONTES MILÍCIAS MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA RODRIGO ROSA (RODRIGO MACHADO DA ROSA) MOBY DICK LANCE STAHLBERG - LALIT KUMAR SINGH MSP 50 MAURICIO DE SOUSA POR 50 MAURÍCIO ARAÚJO DE SOUSA ARTISTAS NECRONAUTA - VOLUNE 1: O DANILO BEYRUTH SOLDADO ASSOMBRADO E OUTRAS HISTÓRIAS NOEL NELSON ALVES DA CRUZ O ANIVERSÁRIO DE ASTERIX E RENÉ GOSCINNY GILSON OBELIX - O LIVRO DE OURO DIMENSTEIN KOATZ ALBERT UDERZO O CORTIÇO ALUÍSIO AZEVEDO RODRIGO MACHADO DA ROSA - IVAN JOSÉ DE AZEVEDO FONTES O CURIOSO CASO DE BENJAMIN F.SCOTT FITZGERALD - NUNZIO BUTTON DEFILIPPIS - CHRISTINA WEIR KEVIN CORNELL


42

O GUARANI

JOSÉ DE ALENCAR - WALTER VETILLO O GUARANI LUIZ GÊ (LUIZ GERALDO FERRARI MARTINS - JOSÉ DE ALENCAR - IVAN JOSÉ DE AZEVEDO FONTES O PAGADOR DE PROMESSAS DIAS GOMES - ELOAR GUAZELLI FILHO O TRISTE FIM DE POLICARPO LIMA BARRETO - EDGAR LUIS QUARESMA (GRAPHIC NOVEL) VASQUES DA SILVA - FLÁVIO BRAGA OS BRASILEIROS ANDRE TORAL PALMARES A LUTA PELA LIBERDADE EDUARDO VETILLO PEANUTS COMPLETO - 1950 A 1952 CHARLES M. SCHULZBRO QUILOMBO ORUM AIÊ ANDRÉ DINIZ FERNANDES RETALHOS CRAIG THOMPSON ROBIN HOOD - A LENDA DE UM ARTUR FUJITA - MARCOS ARAÚJO FORAGIDO BAGNO - TONY LEE - SAM HART ROBINSON CRUSOE NARESH KUMAR - DAN JOHNSON ROBINSON CRUSOÉ CHRISTOPHE GAULTIER - DANIEL DEFOE UMA HISTÓRIA DE AMOR SEM RUI DE OLIVEIRA (RUI GONÇALVES PALAVRAS DE OLIVEIRA) ZOO NESTABLO RAMOS NETO ZOOM ISTVAN BANYAI


43

APÊNDICE III


44


45


46


47

ANEXO I

Conceito de Arte Sequencial – MCCLOUD, 2005, p. 5


48

ANEXO II

Origem das Histórias em Quadrinhos – MCCLOUD, 2005, p. 10


49

ANEXO III

Mickey Mouse - Walt Disney

Astroboy - Osamu Tezuka

Bambi - Walt Disney

Kimba - Osamu Tezuka

Branca de Neve - Walt Disney

Safire - Osamu Tezuka


50

ANEXO IV

Turma da Mônica Jovem - Mauricio de Sousa Produções

Luluzinha Teen - Renato Fagundes, Labareda Design


51

ANEXO V

Campanha Contra a Dengue – Ziraldo

Campanha contra o cigarro - Mauricio de Sousa

Conscientização sobre o autismo - Mauricio de Sousa


52

ANEXO VI

Guia Mangá de Física Mecânica – Hideo Nitta

Guia Mangá de Biologia Molecular – Masaharu Takemura


53

ANEXO VII

RETRATOS DA ESCOLA 2 – como estão nossas escolas e nossas crianças (as relações entre a escola, a vida e a qualidade de ensino)

Pesquisa Retratos da Escola 2 p. 45

Pesquisa Retratos da Escola 2 p. 47

Estética e educação: o uso do mangá como apoio ao ensino de História  

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Especialização Artes Visuais: Cultura e Criação do Serviço Nacional de Aprendizagem C...

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