Issuu on Google+


14 DE AGOSTO A 20 DE SETEMBRO DE 2009 terça a sábado, das 9 às 21h - domingos e feriados das 10h às 21h

ENTRADA FRANCA

CAIXA Cultural São Paulo


A CAIXA foi criada em 1861, no Rio de Janeiro, por D. Pedro II, cujo conhecimento artístico e a consciência da valorização do patrimônio histórico das nações foram decisivos na consolidação de uma atuação de estadista e de visionário que abriu as portas do país para o intercâmbio com a cultura mundial na percepção de sua importância na criação de nosso patrimônio e nossa identidade. Contribuir com a melhoria na qualidade de vida, buscando sempre a excelência nos serviços prestados aos clientes é um dos aspectos que podem bem representar o compromisso desta instituição financeira nos seus 148 anos de existência. A CAIXA hoje atua intensamente no apoio, estímulo e promoção cultural do país, principalmente por meio de patrocínio a projetos nos segmentos de música, teatro, artes plásticas, fotografia e dança que circulam nos espaços da CAIXA Cultural, instalados em Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, abrindo-se a perspectiva de ampliação em outras praças, como os espaços, em fase de implantação, em Recife, Fortaleza e Porto Alegre. Além disso, fomenta produções em outros espaços, como festivais de teatro e dança. Outra vertente de sua política cultural converge para o apoio aos museus e centros culturais de todo o país, com o objetivo de restaurar, preservar e propiciar maior acesso da população a esses acervos, imprescindíveis para perpetuar a nossa história. A CAIXA apoia também o artesanato brasileiro e estabelece uma política de marketing cultural que prima pelo incentivo à diversidade de linguagens e pluralidade artística de nosso povo, consciente de sua responsabilidade em relação à valorização da potencialidade criativa dos brasileiros. Essa participação sinaliza para a compreensão da vitalidade e versatilidade de nossa produção, nas diversas regiões do país, representada pelo sincretismo cultural e de valores que delineiam a riqueza de nosso patrimônio cultural. Assim é a história da CAIXA que, desde o Império, vem contribuindo para facilitar o acesso aos diversos bens culturais e o crescimento intelectual e cultural de nossa gente. Coerente com a tradição de apoio às artes, a CAIXA promove mais esta exposição, desse grande artista carioca, Goeldi — “Luz Noturna”. Projeto selecionado por edital público, uma fórmula que possibilita uma tradução do que é este imenso Brasil, através de sua gente e de suas manifestações artísticas.

Caixa Econômica Federal


GOELDI, LUZ NOTURNA Pela primeira vez apresento Oswaldo Goeldi numa mostra itinerante, como os andarilhos acompanhando suas obras. As exposições itinerantes têm papel fundamental para o intercâmbio entre museus, galerias e outros espaços, aproximando pessoas e culturas. Destacam-se como veículos de divulgação, dinamização e legitimação para uma ampla rede de organismos culturais em nosso país que, movimentados, fomentam a cultura e o turismo. Considerei esse aspecto ao optar por produzir uma exposição que se tornasse algo próximo do público visitante, percorrendo algumas capitais brasileiras onde a obra de Goeldi já esteve, interligando seus órgãos de cultura como forma de experiência e de integração. A notoriedade deste artista, ora simples, ora poeta, ora mestre ou aluno, surge na forma mais abrangente da difusão da gravura e de desenhos, também reproduzidos em revistas, jornais e livros. Oswaldo Goeldi tinha muitos companheiros no meio intelectual e artístico, tais como: Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Lívio Abramo, Aníbal Machado, Portinari, Carlos Drummond de Andrade e muitos outros. Convivera com eles de uma forma discreta. Econômico nas palavras e nos gestos, era uma figura ímpar e especial, isolada no cenário da arte brasileira, mas ícone na forma de produzir seu trabalho, apoiado em suas convicções pessoais e retratando, em suas obras, uma comovente coerência como uma missão inatingível a ser cumprida com rigor e firmeza. Aqui, mostramos um pouco mais da vida e do cotidiano de Oswaldo Goeldi. Solitário como homem, mas com mente e coração capazes de propiciar a discussão da arte silenciosa. A história de Goeldi tem muitos protagonistas que, ao longo de suas vidas, deixaram registradas muitas fagulhas de suas passagens. Mas, o que nos envolve numa busca constante de entender seu ímpeto em produzir incansavelmente é observar os contrastes do lirismo de sua obra dramática: o dia, a noite, a vida, a morte e a luz noturna. Sentimentos calados, guardados em suas memórias. E pretendo resgatá-los, ao ler suas cartas, interpretar suas obras e conviver com seus irmãos. Uma reflexão interiorizada de sua arte mais intimista transforma esta exposição num mosaico entre o homem e o mágico. Assim, aqui atuo como uma viajante no tempo, transcendendo a morte e criando um elo entre a gravura e seu maior mestre iluminado apenas por uma pequena luz noturna.

Lani Goeldi CURADORA


Raquel de Queiroz

Sem título, s/d

nanquim sobre papel - 32 x 24 cm Coleção Paulo Leonel Gomes Vergolino

Foto: Fábio Praça

“Que estranho homem será esse que resolve as nossas emoções mais subterrâneas com figuras de pavor, de solidão e tristeza. Que sortilégio especial emana daqueles quadrados escuros saídos da madeira e que nos gritam um apelo tão profundo e dramático, despertando inesperadas ressonâncias?”


O GRANDE GRAVADOR Goeldi, expressionista, descendente (ou irmão) de Alfred Kubin. Preocupado com o mistério do mundo, com o significado do ser e do existir, ia buscando na paisagem os pequenos segredos da existência, segredos que desvendava à custa de lágrimas e suor, à custa de um trabalho árduo, mais que cotidiano, um trabalho de todas as horas, com o sol e (principalmente) com a noite. Com a goiva abria os sulcos da vida; com incisões firmes, traçava os caminhos da luz, essa luz terrivelmente forte a recortar os perfis dos homens magros, dos trabalhadores do mar e dos animais abandonados. Dava à madeira uma função nova, criava-lhe a seiva perdida, fazia-a participar de novo da vida esvaída há tempos. A madeira lisa se transformava num mundo fantástico, de peixes, homens, animais, casas; Goeldi, o artista, derramava a sua alma, como um raio e como tinta. Mesmo a Morte vem iluminada entre corvos e galhos de árvores secadas. Este mundo fantástico surrealista, que Goeldi criou, mostra, antes de tudo, a alma generosa do homem, este que soube compreender os homens, que soube misturar-se com eles, bebendo a dor e as alegrias simples; soube dar a mão aos bêbados perdidos na chuva e soube cantar ou chorar com as criancinhas, aquelas dos bairros pobres, aquelas que buscavam canal para a sua expressão própria, na Escolinha, aquelas que se perdiam no lamaçal, catando restos para matar a fome. Goeldi, transpôs, como nenhum outro o soube, todas estas experiências para os planos da arte e a purificou a um tal grau que acabou lhe garantindo a eternidade. Goeldi construiu o fantástico. Mas a essa fantasia, aliava-se uma exigência objetiva de artesão, que talhava a madeira com extremo rigor, para tornar realidade e comunicação as suas experiências profundas. A par de suas experiências humanas, foi descobrindo no trabalho artesanal, novas possibilidades de expressão dentro do gênero. Experiências que aos poucos foram dando à sua gravura maior comunicação e impacto. A técnica se enriqueceu vagarosamente não foi por acaso que começou a usar as cores. E usou-as, não para efeito decorativo, como tradicionalmente é empregada, mas como elemento expressivo, integrado à composição. Ele próprio disse: “Não fiz da gravura uma forma mecânica; ainda tenho esperanças, faço descobertas e gravo com a mesma satisfação de há 40 anos.

Ferreira Gullar Texto de apresentação de Ferreira Gullar para o livro Goeldi, de José Maria dos Reis Junior, publicação da Civilização Brasileira, Coleção Panorama das Artes Plásticas, Rio de Janeiro, 1966. [Texto publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1966.]


Perigos do mar (detalhe), 1955 xilogravura - 21 x 27 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Chuva, 1957

xilogravura - 22 x 29,5 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Tarde, 1950

xilogravura - 20,6 x 26,5 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Céu Vermelho, 1950

xilogravura - 22 x 30 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Solitário, 1950

xilogravura - 23 x 29 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Três Mulheres, 1930

xilogravura - 21,5 x 28 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Pescadores à mesa, 1950 xilogravura - 20 x 27 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Peixaria, 1950

xilogravura - 25,5 x 30 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Arraia, 1950

xilogravura - 23 x 41 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Urubus e pescadores, 1940 xilogravura - 21,5 x 29,7 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Pescador e peixe, 1950 xilogravura - 21,5 x 29,5 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Tubarão, 1945

xilogravura - 21 x 27 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Mulher na praia, s/d

xilogravura - 26 x 25 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Homem olhando o pôr do sol, s/d xilogravura - 22 x 30 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Gatos (detalhe), s/d

xilogravura póstuma - 44,5 x 49,5 cm Coleção particular


Bacia de sangue, s/d

xilogravura póstuma - 35 x 42 cm Coleção particular


Homem de chapéu, c.1960

xilogravura póstuma - 13,5 x 9,5 cm Coleção particular


Cavaleiro, s/d

xilogravura póstuma - 35 x 42 cm Coleção particular


Dois homens carregando o morto, s/d xilogravura - 17 x 17 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Urubus e casa ao fundo, 1925 xilogravura - 14,8 x 14,8 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Homens na praia, c.1950

desenho a nanquim (estudo para xilo) - 21 x 14 cm Coleção particular

Notívagos, s/d

xilogravura - 13 x 15 cm Coleção Maurício Fleury Buck

Noite, 1927

xilogravura - 13,5 x 13 cm Coleção Maurício Fleury Buck


O ladrão, 1930

xilogravura - 13,6 x 21,7 cm Coleção Maurício Fleury Buck

Mulher e homem de cartola, 1930 xilogravura - 24 x 22 cm Coleção Maurício Fleury Buck

Náufrago, 1927

xilogravura - 16 x 17 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Pescadores, 1981

xilogravura Pa (tiragem póstuma) - 29 x 25 cm Coleção particular

Nuit Paisible, 1924

xilogravura - 20 x 21 cm Coleção Maurício Fleury Buck

Pescadores, s/d

xilogravura póstuma - 50 x 34 cm Coleção particular


Pescadores de chapéu, s/d

xilogravura póstuma - 35 x 33 cm Coleção particular


Sem título, 2001

xilogravura póstuma - 24 x 18 cm Coleção particular


Portão, s/d

xilogravura póstuma - 34 x 27 cm Coleção particular


Garimpeiro, s/d

xilogravura - 26 x 19,5 cm Coleção Maurício Fleury Buck


Ventania, s/d

xilogravura póstuma - 35,5 x 33,5 cm Coleção particular


Mendigo, s/d

xilogravura póstuma - 35,5 x 33,5 cm Coleção particular


Luz noturna, c.1960

xilogravura póstuma - 25 x 35 cm Coleção particular


(...)És metade sombra ou todo sombra? Tuas relações com a luz como se tecem? Amarias talvez, preto no preto, Fixar um novo sol; noturno; e denuncias as diferentes espécies de trevas em que os objetos se elaboram: a treva do entardecer e a da manhã; a erosão do tempo no silêncio; a irrealidade do real.(...) Carlos Drummond de Andrade

Trecho da homenagem A Goeldi – a vida passada a limpo (1958) publicada no Jornal Macunaíma, n.4 Rio de Janeiro, agosto de 1961 – ano I.

Autoretrato (detalhe), 1950 xilogravura - 30 x 22 cm Coleção Maurício Fleury Buck


CRONOLOGIA GOELDI [1895- 1961] 1895 Nascido no Rio de Janeiro, parte com a família para Belém do Pará onde permanece até os seis anos. Seu pai, o eminente naturalista Emílio Goeldi desempenhou papel importante na formação dos estudos científicos sobre a fauna e a flora amazônicas. Esta infância embalada à sombra da exuberância do mundo tropical marcará sua atividade de ilustrador.

Emílio Goeldi, pai de Oswaldo Goeldi (1859-1917).

Os irmãos Oswaldo, Edgar e Arnoldo Goeldi.

Família Goeldi (Leonie Goeldi, Arnoldo Goeldi, Adelina Meyer Goeldi, Comélia Goeldi, Walter Eugenie Goeldi, Edgar Goeldi, Emílio Goeldi, Oswaldo Goeldi e Mathilde Goeldi).

1901 O período amazônico se encerra com a viagem da família para a Suíça. Goeldi realizará os estudos básicos e secundários na Europa. Ainda adolescente começa a desenhar, porém, apenas depois da morte do pai, em 1917, abandonará os estudos de engenharia na Escola Politécnica (Academiae Technicae Helvetiae), de Zurique, e passará a se dedicar integralmente à arte. 1914 Durante a Primeira Guerra Mundial, Goeldi é enviado como sentinela à fronteira da Suíça com a Áustria. Nesse período mundialmente conturbado, Goeldi ainda era um estudante de engenharia na Escola Politécnica de Zurique. Vigiando um distante posto suíço, estabelece comunicação com um soldado austríaco, Martin Wenger, que viria a se casar com sua irmã. Ao se mudar para o Brasil, a convite do próprio Goeldi, Wenger se tornaria um rival influenciando negativamente a própria família. 1916 Ingressa na Escola de Artes e Ofícios (École des Arts et Métiers de Genève), em Genebra. Decepcionado, desligase dessa escola e dedica-se ao trabalho de ateliê com dois pintores, Serge Pahnke (1875-1950) e Henri van Muyden (1860-1936). Permanece um tempo curtíssimo sob a tutela dos dois artistas e resolve continuar seu trabalho artístico isoladamente, sempre desenhando muito, seguindo sua necessidade interior.

Oswaldo Goeldi (com aproximadamente 17 anos).

Goeldi com 19 anos.

1917 Depois da morte do seu pai abandona definitivamente os estudos de engenharia. Realiza sua primeira exposição, na Galeria Wyss, em Berna, evento que lhe propiciou o primeiro e definitivo contato com a obra de Alfred Kubin


(1877-1959), que, a partir de 1911, participara com Franz Marc e Wassily Kandinsky de uma exposição que circulou pela Europa – “O Cavaleiro Azul” (Der Blaue Reiter). 1919 Goeldi retorna ao Brasil, pois, após a morte do patriarca Emílio Goeldi, a família não consegue recursos para mantêlo na Europa. Inicialmente trabalha no Banco de Londres (London and River Plate Bank), como escriturário bancário. Inicia neste ano, humildemente, os primeiros trabalhos para a revista Paratodos, além das páginas dominicais do jornal A Manhã. Dedica-se então, exclusivamente, à ilustração de periódicos e livros, fazendo desta atividade um meio de subsistência. 1920 A volta ao Brasil gerou muitos conflitos tanto na esfera familiar quanto na crítica de arte, a qual não aprovou sua linguagem despojada. Depois da primeira exposição no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, recebeu o descaso da crítica à sua obra, fato que o abalou profundamente. As raízes estéticas estavam, em definitivo, vinculadas às fantásticas obras do grupo expressionista alemão e, naquele momento, o que predominava no Rio de Janeiro eram as manifestações artísticas centradas na Academia Imperial de Belas-Artes, com influências marcadamente neoclássicas.

Alfred Kubin (1877-1959) Arquivo Kubin - Galeria Estatal de Munique a Lenbachhaus.

1922 Depois de uma dramática decisão familiar, Goeldi é enviado à Europa, sem destino, a bordo de um vapor de terceira classe, o Valdívia. No dia 25 de setembro, recebe uma mensagem transatlântica da poetisa Beatrix Reynal, amiga das rodas literárias no Rio de Janeiro. Ao chegar a Dacar, recebe o dinheiro para retornar ao Brasil e, daí em diante, passará a morar com o casal que adotará como amigos de toda uma vida. 1924 Inicia-se na arte da gravação em madeira, por influência do amigo Ricardo Bampi, gravador que o introduz no conhecimento das goivas, madeiras e técnicas de impressão da xilogravura. Paralelamente ao exercício desta antiga arte,

Jornal Correio da Manhã .


a pedido de Álvaro Moreyra (1888-1964), conhecido diretor da revista Paratodos, realiza ilustrações para o periódico O Malho. A longa trajetória de ilustrador lhe permitiu atingir um nível de comunicação mais amplo com o público. 1926 Exacerbado o conflito com o acanhado panorama artístico carioca, Goeldi, num distante 4 de agosto, sentindo-se em “pleno abandono”, resolveu enviar a Alfred Kubin um pedido de aprovação à sua obra. Caro senhor Kubin, queira ter a bondade de olhar os meus desenhos. [...] A forte influência que o senhor exerce sobre mim, sem dúvida, se nota logo. [...] Num momento crítico da minha vida foi o senhor que me deu forças.

Capa do periódico O Malho de 1902.

O artista austríaco respondeu demonstrando entusiasmo e, sentindo-se uma espécie de vizinho e parente na “estrutura primária da personalidade”, qualificou os trabalhos de tecnicamente magistrais. 1928 Em trecho do artigo “O Brasil que insiste em pintar”, do jornal paulista A Província, datado de 13 de setembro de 1928, o poeta Manuel Bandeira nos dá alguns esclarecimentos sobre a produção artística da época. Os antigos salões da Escola de Belas Artes, atual Museu Nacional de Belas Artes, se recobriam de telas selecionadas de maneira tolerante, que, apesar da participação oficial, não eram adquiridas posteriormente. O texto nos diz da má qualidade das obras, que Manuel Bandeira chama de “monótono realismo anedótico, sem emoção ou poesia”. Neste ano Goeldi recebe o convite para ilustrar Canaã, de Graça Aranha, considerada a primeira obra moderna da literatura brasileira. O romance denuncia as extorsões praticadas pelos poderosos, os preconceitos e o racismo da sociedade brasileira.

Álbum 10 Gravuras em Madeira De Oswaldo Goeldi Coleção Marilu Cunha Campos dos Santos, nº 13 (Rio de Janeiro: Officinas Graphicas de Paulo Pongetti & Cia., 1930), 35 x 26 cm.

1929 Viaja a São Paulo onde são publicados dois artigos extremamente positivos sobre sua obra, um de Mário


de Andrade e outro de Geraldo Ferraz. Goeldi trabalhou durante um ano, lixando e polindo madeiras para imprimir artesanalmente o álbum 10 xilogravuras em madeira. Consegue com a venda dinheiro suficiente para realizar o sonho de conhecer o artista austríaco. Ainda neste ano realiza algumas xilos para O Mangue, de Benjamin Costallat, livro que não chegou a ser publicado. 1930 Grandes amigos de juventude, Goeldi enviou, durante vários anos, cartas e provas de gravuras ao amigo. Esta, que era a maior coleção do artista fora do país, foi adquirida por um brasileiro que a trouxe recentemente para o seu verdadeiro lar, o Rio de Janeiro. Preparando-se para realizar uma visita a Alfred Kubin, escreve a Hermann Kümmerly, antecipando os temas do esperado encontro: “Se tudo der certo vou embarcar, no dia 15 de abril, num transatlântico enorme (Cap Ancona) que vai me deixar na sua vizinhança. Vou poder te levar várias notícias dos jornais nacionais.” 1931 A visita a Hermann Kümmerly, na propriedade de Muri, afastou-o das discussões sobre o modernismo no Rio de Janeiro, lançadas no Salão Revolucionário de 1931 por Lúcio Costa e Manuel Bandeira. No ano seguinte, Henrique Pongetti escreve uma crônica em Bazar, a 7 de outubro, a respeito do salão concebido por Lúcio Costa:

Hermann Kümmerly (1897-1964).

O Salão de 1931 foi o último clarinar das forças revolucionárias na trincheira conquistada pelo Sr. Washington Luís. [...] Como amostra da situação em que estamos em face das artes plásticas contemporâneas, o primeiro Salão revolucionário foi também o primeiro Salão digno de ser levado a sério em todo o nosso passado artístico. 1932 Este período é de grande produtividade e experimentação. Goeldi dedica-se com profundidade à construção da sua conquista técnica e continua ilustrando jornais e revistas como meio de subsistência. A gravura Bahiana é uma experiência de Goeldi, datada de 1932, aproximadamente. Através da utilização de tinta à base de água, numa impressão em duas cores e estudo das figuras em guache preto, o artista inicia aqui o que seria uma marca registrada do seu processo de gravador,

Capa do álbum André de Leão e o Demônio de Cabelo Encarnado, 1937.


a cópia trabalhada com um caráter de impressão sensível e irreprodutível. 1935 Cada vez mais é convidado a ilustrar álbuns e livros. Neste ano produziu várias xilos para o álbum de Heckel Tavares (1896-1969), que compôs sua primeira música, uma suite sinfônica em quadros. O álbum André de Leão e o Demônio de Cabelo Encarnado, poema sinfônico baseado no poema de Cassiano Ricardo (1895-1974), lançado com libreto ilustrado pelo gravador - foi editado com recursos do autor. Nessa época o músico continuava inspirando-se na música regional e produzindo no gênero erudito e editava suas obras por conta própria. Goeldi participou ativamente do projeto de Heckel Tavares, realizando as ilustrações e as vinhetas para o álbum. O gravador interessava-se mais e mais pela literatura modernista o que o levaria a produzir trabalhos voltados para os temas das lendas e mitos brasileiros.

Capa do livro Cobra Norato de Raul Bopp, 1937.

1937 O livro Cobra Norato de Raul Bopp (1898-1984), com impressão semiartesanal, é uma publicação de apenas 150 exemplares numerados com xilogravuras em cores. Raul Bopp retoma o tema do “brasilianismo” e das lendas amazônicas. O livro vem a público em 27 de agosto de 1937, em edição coordenada pelo próprio artista. O autor encontra em Goeldi um ilustrador competente, interessado em passar ao leitor a poética do texto. É nessa época, depois de várias tentativas iniciadas em 1932, que Goeldi sistematiza a utilização de cores nas gravuras. 1938 Em carta a Kubin, datada de 24 de dezembro, Goeldi escreve: “Também aqui os movimentos estão se fazendo valer, e a gente se sente forçada a tomar posição a respeito.” O clima de tensão também exigia posicionamento diante do acirramento da II Guerra Mundial. Beatrix Reynal se envolve diretamente no movimento da Resistência no Brasil, dilapidando seu patrimônio para ajudar os franceses na luta contra os nazistas.

Cláudio Correia e Castro, Anísio Medeiros, Potty Lazaroto, Livio Abramo, Fayga Ostrower, Oswaldo Goeldi, Ligia Pape, Darel Valença Lins, Iberê Camargo e Marcelo Grassmann.

Goeldi participa do II Salão de Maio, em São Paulo, e expõe, pela primeira vez, obras surrealistas e abstratas, ao lado de artistas brasileiros como Volpi, Di Cavalcanti, Guignard, Cícero Dias, Flávio de Carvalho, Tarsila do Amaral e Victor Brecheret.


1941 É chamado por José Olympio para ilustrar os livros de Dostoiévski: Recordações da casa dos mortos, O idiota e Humilhados e Ofendidos. A produção das gravuras levará mais de dois anos de trabalhos diários. Múcio Leão solicita a Goeldi as ilustrações das páginas dominicais do suplemento literário Autores e Livros de A Manhã. No mesmo período dedica-se a ilustrar uma série sobre a guerra – As luzes se apagam, agitamse os monstros. A II Guerra Mundial o obriga a buscar refúgio na Bahia, pois nesse momento ocorriam perseguições aos alemães radicados no Brasil. Entre os anos de 1941 a 1944 sua obra percorre os Estados Unidos da América, integrando uma exposição itinerante da International Business Machine Corporation. 1942 Sua gravura, nesta época, já havia incorporado definitivamente a temática dos pescadores e da natureza, no entanto, os horrores da guerra, a violência e a morte inútil ainda acompanhavam as visões recriadas por sua sensibilidade. Totalmente adaptado à vida dos trópicos, seu trabalho como ilustrador no jornal “A Manhã” participava de uma linha editorial arrojada, coordenada por Múcio Leão. Goeldi dedicava grande parte do seu tempo a ilustrar jornais, livros e revistas além da quantidade de desenhos a carvão e nanquim que produzia incansavelmente no período. O reconhecimento de seus trabalhos não parava de crescer.

JOSÉ, Ilustração para o poema de Carlos Drummond de Andrade. Jornal A Manhã, Rio de Janeiro, Suplemento Autores e Livros, de 11/01/1942, vol. II, p. 15.

Goeldi no ateliê.

1944 São deste ano a série de xilogravuras Balada da Morte, publicadas na revista Clima, editada em São Paulo. Os desenhos e as gravuras sobre a morte o tornam símbolo da consciência moderna desgarrada, afogada em angústia. Neste mesmo período, produz diversas ilustrações para o livro de Manuel Villegas Lopes, Carlitos. Realiza exposição individual no Instituto dos Arquitetos do Brasil e participa de uma coletiva em Belo Horizonte. A José Olympio publica, com ilustrações suas, Humilhados e Ofendidos de Dostoiévski. Rachel de Queiroz, num elogio emocionado, afirma que apenas Goeldi poderia dar aos textos do autor russo a sua verdadeira tessitura dramática. 1945 Ilustra o romance de Dostoiévski Recordações da casa dos mortos, com xilogravuras feitas em pau-marfim.

Goedi, com aproximadamente 50 anos, em seu ateliê no Leblon, Rio de Janeiro.


Ainda neste mesmo ano, grava as madeiras que ilustrarão Martim Cererê - O Brasil dos Meninos, dos Poetas e dos Heróis, de Cassiano Ricardo, em edição da Empresa A Noite. Goeldi continua sua colaboração como ilustrador do suplemento dominical Letras e Artes do jornal A Manhã. A escolha de Goeldi por José Olympio é coerente politicamente e reflete a vinculação do editor e do artista com o pensamento que envolve um claro posicionamento de luta contra o fascismo. Goeldi, aos 55 anos, em seu ateliê.

Carteira de identidade de Oswaldo Goeldi, expedida em 29 de junho de 1950, no Rio de Janeiro.

Oswaldo Goeldi, Aldemir Martins, Carmélio Cruz, Marcelo Grassman e Frans Krajcberg.

1949 Em 22 de junho, Goeldi redige uma rápida autobiografia, narrando de modo muito particular o seu ponto de vista sobre a arte, que para ele significava sacrifício, disciplina e dedicação constantes. Esta sua frase expressa sua visão: “Nunca sacrifiquei a qualquer modismo o meu próprio eu – caminhada dura, mas a única, que vale todos os sacrifícios.” 1950 Sua evolução artística atinge um reconhecimento cada vez maior da crítica de arte. Goeldi participa de várias exposições internacionais entre 1950 e 1960. São vários os países que recebem exposições das suas gravuras e desenhos. Itália, Paris, Suíça, Uruguai, Equador, Argentina, Alemanha e Áustria, estão entre os principais. Como confirmação da sua importância, recebe Medalha de Ouro no II Salão Baiano de Belas Artes em Salvador. 1951 O seu esforço é totalmente distinguido pelo maior prêmio de gravura na I Bienal Internacional do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Após vários anos de dedicação exclusiva à sua arte, a crítica finalmente reconhece o valor inovador dos seus trabalhos e o agracia com este importantíssimo prêmio.

Goeldi e seus alunos.

1952 Na década de 1950, participa de várias bienais i n t e r n a c i o n a i s ; e m Ve n e z a i n t e g r a a s b i e n a i s d e 1 9 5 0 , 1 9 5 2 , 1 9 5 6 e 1 9 5 8 . Neste ano de 1952, o artista é convidado a expor seus trabalhos em Paris, na Associação Artística e Literária; participa de uma Bienal Internacional de xilogravura em Tóquio e expõe em Santiago do Chile. Torna-se professor de xilogravura na Escolinha de Arte do Brasil, uma iniciativa inovadora de Augusto Rodrigues.


1953 Participa da II Bienal de São Paulo, com sala especial destinada para seus trabalhos. Nos anos seguintes, com o crescente interesse por sua obra, Goeldi passa a trabalhar em formatos maiores, encomendando madeiras tropicais de extrema resistência e dureza, como é a peroba-rosa. Suas gravuras atingem um nível expressivo e técnico inquestionável. Ele dava preferência a madeiras resistentes, de superfície uniforme extraindo delas um preto denso e aveludado. Os contrastes da impressão eram sempre conseguidos pela manipulação do uso da colher de impressão. O artista expõe seguidamente no exterior, seja individualmente ou em coletivas.

Goeldi entre Otto Maria Carpeaux, Iberê Camargo em vernissage na galeria Bonino, Rio de Janeiro.

Última foto do artista feita por Leonardo Fróes.

1960 Recebe o I Prêmio Internacional de Gravura na II Bienal Interamericana do México, no Palácio de Belas Artes da Cidade do México. Este prêmio, ainda que tardio, o deixou extremamente feliz pois chegou quando o artista já estava gravemente doente e, mais ainda, porque veio de um país onde a xilogravura tem grande importância cultural e política. A gravura mexicana é famosa por seu vínculo com o povo e suas lutas por liberdade e cidadania. Grava duas xilogravuras para o livro Poranduba amazonense, de João Barbosa Rodrigues (1842-1909), projeto que permanece inacabado. Este último grande projeto já o encontrou extremamente fragilizado, sem forças para dar continuidade ao trabalho de toda sua vida – a xilogravura.

Jornal do Brasil, 16 de fevereiro de 1961.

1961 No dia 15 de fevereiro, numa quarta-feira de cinzas, morre Goeldi, no acanhado e pequeno ateliê que alugava no Leblon, na Rua Dom Pedrito. “Como um legítimo herdeiro do romantismo alemão, Goeldi tinha o amor pelo mistério da noite, pelas ruas humildes, pelas casas velhas, pelos namorados tristes, pela tragédia da morte”. (Texto de Antônio Bento, extraído do catálogo da exposição Oswaldo Goeldi, no MAM/RJ, maio, 1961).

Diário de Notícias, 16 de fevereiro de 1961.

Correio da Manhã, 17 de fevereiro de 1961.


PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Luiz Inácio Lula da Silva MINISTRO DA FAZENDA

Guido Mantega

PRESIDENTA DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

Maria Fernanda Ramos Coelho

EXPOSIÇÃO CURADORIA

PROJETO E COORDENAÇÃO

ASSISTENTE DE CURADORIA

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO

Lani Goeldi Eduardo Fondello

PESQUISA E MUSEOLOGIA

Noemi Ribeiro

PROJETO EXPOGRÁFICO

Lani Goeldi e Anderson Eleotério PROJETO GRÁFICO

Leobug.com VÍDEO

Allan Ribeiro FOTOGRAFIA CRONOLOGIA

Leonardo Fróes, Coleção Beatrix Reynal e Jacqueline Zalka (Arquivo Noemi Ribeiro) ESTAGIÁRIA

Maria Amorim PRODUTOR LOCAL

Paulo Vergolino

Anderson Eleotério Izabel Ferreira

REVISÃO DE TEXTO

Rosalina Gouveia CENOTÉCNICA

Mário Bibiano PRODUÇÃO GRÁFICA

Raquel Silva FOTOS

Renata Gulla SEGURO

Ricardo Minc, Pro Affinite Seguros TRANSPORTE

Art Quality

PRODUÇÃO EXECUTIVA

LG Produções Culturais Ltda.

CATÁLOGO ORGANIZAÇÃO

Anderson Eleotério DESIGN/DIAGRAMAÇÃO Leobug.com PRODUÇÃO GRÁFICA Raquel Silva FOTOGRAFIA Renata Gulla

TEXTOS Ferreira Gullar, Lani Goeldi, Raquel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade REVISÃO Rosalina Gouveia AGRADECIMENTOS

Maurício Fleury Buck, Ferreira Gullar, Darel Valença Lins, Adir Botelho, Anna Letycia, Rubem Grilo, Mônica Xexéo, Gustavo O. Goeldi, Melania Goeldi, Denise Mattar, André Buck (in memoriam)


Caixa Cultural São Paulo

Galeria Vitrine da Paulista Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2083 térreo Telefone (11) 3321-4400 www.caixa.gov.br/caixacultural SAC CAIXA 0800 726 0101 Informações, reclamações, elogios Ouvidoria da CAIXA 0800 725 7474 Situações não solucionadas e denúncias 0800 726 2492 Atendimento a pessoas com deficiência auditiva DISTRIBUIÇÃO GRATUITA COMERCIALIZAÇÃO PROIBIDA

[ LG ] Produção Cultural www.lgproducoes.andersoneleoterio.net


GOELDI, LUZ NOTURNA