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Leo Bouรงas

Pequenos pedaรงos

M

Menfris Editora 1


Pequenos pedaรงos

M Menfris Editora 1


Leonardo Bouรงas

Pequenos pedaรงos

M Menfris Editora 3


M Menfris Editora Editor: Leo Bouças Presidente executivo: Nara Castro Diretora Editorial: Nara Castro Editores: Leo Bouças Estágiario: Nathan Lucas Coordenação administrativa: Javanillton Araújo Diretor comercial: Ivana Melo Marketing: Fabio Caparica Designer: Leo Bouças Operações e controle: Nara Castro, Alunos Barros Melo Vendas: Daniel da Hora Coordenação administrativa: Victor Brito Gerente de avulsas: Dinaura Bouças Gerente de assinaturas: Maria do Bairro Menfris Editora Titulo: Pequenos pedaços Organização e edição: Nathan Drake Mohamad Abdull Prefácio e preparação de originais: Leo Bouças Revisão: Leo Bouças Edição e texto commplementar: Leo Bouças Revisão: AESO corporation Capa, projeto gráfico e editoração eletronica: Leo Bouças Créditos de imagem: Kyle Thompson Edição original 2014 - Leonardo Bouças Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta publicação pode ser produzida, armazenada ou transmitida, total ou parcialmente, por quaisquer métodos ou processos, sem autorização do detentor do copyright.

A411d Bouças, Leo, 1981 Pequeno pedaços / Leo Bouças - Recife: Junho, 2014. 60 p. - (Pequenos pedaços v1) ISBN 978-552-2424-003-1

1.Contos e poesia 2. Conttos e poesias brasileiras I. Titulo II. Volume

CDD 850 www.menfris.com menfris@gmail.com


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Sumário Pequenos pedaços 7 Introdução

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Capítulo 1 - Contos inacabados

12 Silêncio meu 15 Manhã 17 A visita Castelo de fasa 19 Aqui do quarto marrom 21 Não quero mais o teu amor 26 Vi no meu sonho Colapso 27 Maldade minha A chave do quarto do lixo Te quero, quero e só 28 Perguntas ao perigo Sono A poesia acabou A maior de todas as dores 29 Rascunho Minha vida, n’outra vida 30 Trancado 31 Cartas a Jey Bochechas rosadas 33 Gotas de um sonho de domingo

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Capítulo 2 - Eu, você, nós dois

38 Predicados da noite 39 O espelho 40 Obsessão 43 Como dois animais 44 No silêncio da praia 48 Nudez 49 Julia e a manhã 50 Pedaços de mim 51 As árvores 52 O vinho acabou 53 Áspero Paredes 55 Primeiro, amo em silêncio 5


Introdução Faço de minha vida um conto de fadas e dessa forma, invento estórias inacabadas, mentiras para fugir da minha verdadeira realidade e nos meus sonhos acabo chorando dores que na vida real, oculto sem perceber. Dessa forma, quase sempre acordo com esta dor no peito, na alma e na consciência. Peço todos os dias sensatez para fugir dessa realidade morta, para que essa razão insensata se desfaça no ar e que me liberte desta prisão que construí ao meu redor. Sinto a certeza de distanciamento que criei entre mim e você, mas me pergunto todos os dias; -como me desligar!? Nada me é interessante, nem interessado, nem nada tem a pele, nem o rosto, nem o gosto, nem o cheiro, nem as linhas, nem o toque, nem o sorriso, nem a fala rouca, nem a cor e nem mesmo os gestos largos. Cada vez mais cansado, aceito mas não compreendo, nem sou compreendido. Tudo disseminado e completamente dissimulado, por isso me entorpeço, pra tentar fugir, correr e me esconder... Mas mesmo assim, mesmo assim... Nada se desfez, nada se desfaz(...) Leo Bouças

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Capitulo 1 Contos inacabados

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Hoje meu silêncio tem o tamanho do meu desejo...

hoje meu silêncio, falou-me tanto, que não consigo mais ouvi-lo...


Silêncio meu Meu silêncio é medo e juízo, lembrança e ao mesmo tempo um passado no meu atual presente...

Ninguém mais enxerga, ninguém mais. 13


Manhã A rua vazia, a manhã que nos entorpecia pelo brilho do sol, que ardia em nossa pele frágil e leve. A distância percorrida e nossos corpos soltos nos faziam sorrir, gritar e cantar. Um freio, dois saltos, todos juntos e um de cada vez. O entendimento de que fomos omissos, despreocupados, limitados à nossa demência induzida. Naquela manhã nada fez sentido, nem a cor, nem os sonhos, nem as alternativas, nem a raiva da negação, nem a dificuldade de conseguir concretização. Tudo se foi, tudo de ilícito passou para as mãos lícitas, nada mais era nosso e toda à alegria se desfez na manhã seguinte. E a vida segue, calma, pacata e silênciosa.

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A visita

Castelo de farsa

Naquele dia que despertei do meu sono ensurdecedor, percebi que a luz da sala pendia e balançava num abajur prateado, que esculpido com detalhes em madeira e prata, enfeitavam o canto daquela sala vazia.

Eu vi a espada da justiça cair sobre mim e de algum modo, retirei a venda que carregava nos olhos cerrados pela ilusão de felicidade. Vi a verdade das pessoas e senti medo das atitudes que eram tomadas covardemente.

Entendi que alguém esteve aqui, em meu canto de repouso e na fuga com receio de ser descoberto, acabou por esbarrar naquela peça.

Todos nós sentimos medo e receio pelas coisas que fomos levados a fazer. Nada do que foi dito era verdade e o castelo construído sobre as pedras frouxas começou a desmoronar lentamente.

A pergunta que me fazia era; -quem teria sido? E o que queria aqui dentro da minha casa? Dentro de meu casulo? Tive certo medo da invasão e pensei em sumir por um tempo, fugir na intenção de me esconder. Mas quem era ele, ou ela? Que queria? E onde está agora?

Pedra sobre pedra, nada era mais verdade. E quantas vezes choramos? Quanto tempo passamos abraçados entorpecidos de inverdades?

(...)

Estaremos juntos, mas talvez, só desta vez uma parte menor.

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Aqui do quarto marrom.

Minha alma voltou, Meus sonhos renasceram, Vi o por do sol de uma janela incomum. Antes de entender; “Meu mundo rodopiou!”

Aqui do quarto onde estou, Vejo a lâmpada vagar o vazio do teto. Penso em todas as coisas por fazer, E por um mero segundo, milésimo... Me calo.

Simplesmente, assim... Lúcidos, músicos.

Penso se todos aqueles sonhos, Se todos os gritos de felicidade, Que não tiveram nunca um só gesto de lucidez e compreensão, Poderia um dia ter sido realmente verdade.

Orquestrando a alma com uma serenata, um beijo, e um sonho bom.

Não fui eu, perdi as rédeas, Só para aprender a cavalgar. Hoje me sinto seguro, Hoje entendo o que sentia. Fechei a porta com força, Pus os travesseiros sob o rosto, Desliguei o interruptor e me mantive no escuro. Em silêncio sentindo meu pensamento e o gosto. Em silêncio e de volta ao que sou, a quem sou. Hoje consigo olhar no meu rosto. Hoje escrevo novamente no meu caderno de anotações.

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Se todos os livros estão postos sob as prateleiras, largados e

empoeirados, porque ainda

Não tivemos tempo de criar?(…)

Quais são os cansaços mais infames? E o porque de se perder ouvindo as bobagens que dizemos a nós mesmos? Apenas vimos às coisas que lentamente nos desligaram. Andei enxergando as coisas, sejam elas vivas ou simples objetos estáticos. Estamos tendo a consciência dessa atração por tudo que sugere inocência. E só por isso me pergunto; O que esqueci nas minhas gavetas? Foram às chaves? Ou será que tenha sido a lembrança?

Quero

Mais

um tempo? O relógio continua marcando horas. E tudo que me lembro, foi a visão clara de todas às mentiras.

Teu corpo mentiu(...) Fiquei aqui, corri o risco esperando o que vem, perdi a conta que fiz nos dedos. A chuva molhou os nossos papeis, pus as folhas entre os livros frios e pondo as mãos na cabeça, toquei meu cabelo, entre meus dedos, desenhei um outro jeito, um outro penteado. Que todas elas, sejam parecidas com hoje; Olhos fechados, respiração profunda, braços abertos, gotas no rosto, sorriso nos lábios e o teu

Amor(…)

Um vento, um segundo… E percebemos; -estamos vivos. 21


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Vi no meu sonho

Colapso

Estávamos correndo em um campo lindo cheio de manguezais, gramas, e flores brancas. Confesso que não sei que flores eram, mas estávamos juntos. Começamos a correr rápido e você acabou ficando para traz, gritei; “-VEM” mas você não conseguia me alcançar, voltei te peguei no colo, te pus nas minhas costas e corremos, corremos muito por entre as árvores, campos e flores.

Se pudesse descrever o que sinto agora, Descreveria; Em um colapso mental, em que corpo e pensamento não se descrevem ou compreende. Perderia-me nessas ruas medíocres, fazendo a pergunta; -estou aqui?

Você gritava; “- Mais rápido” e eu realizava seu desejo pondo mais velocidade em minhas pernas, de longe avistamos o rio, com água escura, mas limpo e cheio de vida. Apressei o passo e sentíamos o vento ainda mais forte em nossa fronte, nos nossos cabelos e em nossos sorrisos largos. Da carreira saltei alto, junto com você, como que um vôo e desse modo, mergulhamos em um rio enriquecido de energia, luz e paz.

Transitaria pelas faixas que não me indicam nada, pensando na inércia que transformei minha vida. Estou morrendo aos poucos e me suicidando às pressas. Perdi o meu caminho, perdi o meu foco. Não sei mais quem sou, nem o pra onde vou. De escolha própria, escolhi a tristeza, assim enriqueço o meu pranto. Estou com medo, sinto dores, meu medo me faz chorar e se choro, faço por dentro, assim minha dor fere apenas a mim. É dessa jeito que executo o meu papel, frio e sem sentido.


Maldade minha.

Te quero, quero e só.

Quando me faço de vítima é pra ver se chamo um pouco de atenção, nem sofro de verdade, tudo é mentira e fingimento, eu vivo é num quarto que não existe, dentro de uma caixa vazia e pequena. Apenas alguns pensamentos vagam pelas frestas, voam procurando onde pousar.

Quando mergulhei nos teus braços, não foi para que você me visse de maneira diferente, eu queria que você estivesse perto de mim naquele instante, percebi novamente como o teu cheiro é gostoso e me perguntei se isso era bom ou ruim? Você finge, ou se mostra de verdade? Não sei! Sei que fui fraco, fraco quando não tive forças pra não te tocar, fui fraco quando percebi o quanto que ainda te quero, fraco quando nos despimos com a intenção de nos querer...

A chave do quarto do lixo Porque só agora percebi que nunca foi de verdade... Minha vontade é de desistir, e ai deixar tudo caminhar como ela quer...

Deixei correr tudo em mim, deixei a água fria molhar minha face e a bebida amarga tocar meus lábios. Deixei por que te quis novamente, te quis pra mim, quis o teu corpo no meu, tua boca na minha...

Não soube descrever, voltei para casa com vergonha, de cabeça baixa e me perguntando o porque? As respostas não vinheram como a rapidez de meus pensamentos, eles são mais lentos do que qualquer um de nós pensa...

Quis e talvez ainda queira mais... Quando vi os raios da manhã tocando a relva, percebi que o meu querer era da mesma forma, sútil, leve e grandiosamente lindo, invisível pra quem é incapaz de enxergar.

Revi meus pecados, percebi que nem foram tantos assim. Poderia ter sido muito maior do que tudo isso.

Te quero, quero e só...

Penso que deveria ter evitado, trancado a porta e corrido para longe, mas fiz o contrário... Acabei voltando e me trancando também.

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Perguntas ao perigo

A poesia acabou

Viajo nos pensamentos, me perco nos rumos das estrelas... meu barco me leva por mares perigosos, o perigo me pergunta se eu vou apostar,

As vezes me vejo no meio da multidão, e me acho diferente de todos, corro em desespero contra o tempo querendo recuperar o que eu “acho” que perdi... e de nada adianta. Tem vezes que me vejo rodeado de muita gente, gente de bem, gente feliz, gente problemática, gente minha, mesmo assim me pego solitário e desperto de meu pequeno conto de fadas, montado com todos os seus personagens. Percebi que o “Feliz para sempre!” nada mais é, do que o desejo obscurecido de todo um mundo sedento de amor, carinho, atenção. Será que minha poesia acabou?

Sem medo corro, pra não me perder, mas mesmo assim enfrento o perigo, cara a cara, nú e insolente, preciso de algo perdido, talvez. Preciso de mais que isso, preciso agora.

Sono Quando me deitar, por favor me forre com um lençol branco, beije-me a face, se possível diz baixinho o quanto gostas de mim, me olha por um momento, canta uma música, me observa dormir, dá umas gargalhadas lembrando de como fomos felizes e esquece, esquece por completo do que foi ruim. Quando me deitar e sentir que você está do meu lado, rindo. Estarei num sonho bom. Num sonho maior que nós, sonharei com o céu, com os pássaros e voarei junto deles. Quando me deitar voa comigo e enche o peito com essa felicidade.

A maior de todas as dores Descobri que a maior de todas as dores, é a do silêncio, a do vazio... Não queria calar, queria ser e esquecer. Por mais que tente, é impossível tentar te entender e me colocar no teu lugar pensando que não tens a capacidade de discernir o certo e o errado, é uma burrice minha, é uma fraqueza dolorosa. É ai que descubro quem sou e a forma como lidas com as coisas e as pessoas. Descubro cada vez mais o que é você, ou em que nos transformamos, tento te


ver pelo lado bom, mais peco mais uma vez, e meu pecado é imperdoável e sem intenção.

sob a luz das estrelas e de uma lua que teimava em esconder-se nas nuvens cinzentas da noite clara, que eles se despiram de seus mundos e revelaram um ao outro os medos, desejos e sonhos que talvez jamais realizariam.

Hoje tenho a consciência da espada sob minha cabeça, de como não sei quando nem a que horas ela descerá e dirá; pronto! Por aqui basta!

Foi ali que se descobriram ainda mais fortes, ali começou a jornada para além de tudo que eles esperavam, ali começava o novo.

Preciso de mais uma chance, uma chance de acertar. Mas essa nova chance não será com você. Você perdeu, eu perdi, perdemos juntos nossa única e doce tentativa...

Minha vida, n´outra vida.

Agora vai e mostra a você mesmo o que apenas você sabe!

Andando, fiz chover no meu quintal. Da chuva veio os ventos, dos ventos meu corpo todo estremecido pelo frio caiu de joelhos. Ocorreu em mim segurar-me, mas deixei-me cair com toda força. Joelhos na areia, palmas das mãos à frente, cabeça baixa, olhos fechados, pensamento distante, respiração profunda, peito inflado...

A minha dor é minha e no meu mundo não há mais espaço, meu céu não é mais azul e minha mente agora é clara.

Rascunho

Levanto, abro os olhos, pálpebras sujas, sorriso no lábio, horizonte vazio, nuvens no céu, meu pensamento voa...

Ele subiu os muros da igreja, aventurando-se, de lá saltou e escalou a parede como o homem aranha. A vontade insana de subir sem medo até o topo do telhado. Acompanhado de seu grande amigo, inseparáveis amigos. Sentaram no telhado e por alguns segundos admirou a cidade, as luzes da noite, o vento nos cabelos e a companhia agradável e da confiança amiga de Julio.

Não sou mais eu, sou outro e como outro tenho outra pele, outros olhos, uma outra vida, um novo rosto. Nesse outro eu me perco do mundo, esqueço de cair, lembro de respirar, de continuar voando num espaço imenso, largo e infinito.

Foi naqueles minutos, naquela noite, 29


Trancado Tudo que eu mais queria era um momento de aminésia e inércia, tudo que eu mais sonho é com um segundo de isolamento e esquecimento, o vazio das vozes, o apagar das luzes, o cheiro das flores, o ruído das águas, o som apenas dos passaros, dos caminhos, dos passos solitários, dos que nada tem... a não ser a alma.


Carta a Jey

Bochechas rosadas

Caçando um beijo perdido nos lábios desalinhados e mentirosos, pontuei mais um acerto. Me afundei um pouco mais e me vi no espelho da minha inocência e de minha tamanha ignorância. Meus pontos não eram nada perto de minha invisibilidade, me julgava intêligente e me descobri idiota. Feri meus amigos, achando que um dia, talvez, não lembrassem da ofensa. Fui incapaz de me ver, de olhar e perceber o quão sozinho eu estava, era eu e a ilusão de que todas as pessoas que me cercavam, durante todas as noites não dormidas. Sempra às vi entorpecidas da bebida fulgaz e do trago de minha droga branda, elas eram tão minhas amigas, quanto a quantidade dos cifrões dépositados na carteira de cada uma.

Na realidade todas as luzes que vejo são do tamanho dos pensamentos de cada pessoa sentada nos bancos em azul, que levitam num movimento horizontal de se dirigir sempre à frente, mesmo que este movimento esteja em constante mudança. Perderam a lucidez, mas a inércia continua! Vimos às luzes estampadas nos asfaltos daquela cidade vazia... Fechemos os olhos, e que neste movimento de se encaminhar a frente, leve-nos junto aos ventos que sopram agora, em nossas bochechas rosadas.

Nunca tive nada, mas sempre fingi ter. Para mim as noites eram ilusórias e só a sensação de poder e insulto que tinha sobre as pessoas que considero; “Burras” já me satisfazia. Burrice minha, era eu o burro, o medíocre, sou eu o verdadeiro mesquinho, sou eu o mais pobre, burro e sozinho. Que sou afinal, Jey?

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Gotas de um sonho de domingo Estou indo deitar, retiro os lençois pesados, arrumo os travesseiros sobre a cama e ligo o ventilador empoeirado. Deitado recordo-me de tudo, penso em como fui tôlo e como errei mesmo estando certo. Fechei meus olhos e foi quando a calmaria chegou em minha mente lúcida, pensei na vida lá fora e percebi que tudo não passou de um passo apenas. Virei, acomodei a cabeça em meu travesseiro, e um pouco mais cansado quis não pensar em nada mais. Desejei por um segundo sumir e não ter mais pensamento algum, quis permanecer no vazio e nada mais... Olhei pro céu, perdi-me observando as estrelas e fui fechando os olhos devagar, o escuro do céu foi ficando claro. Era o dia que começava e me lembrava das horas, respirei mais ainda e num suspiro adormeci, desligado e silêncioso, como meu desejo quis.

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Capitulo 2 Eu, voc锚, n贸s dois...

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Predicados da noite

durante todo tempo.

Sonhei novamente com aquela noite, perdi todos os meus braços na tentativa de me tornar um polvo.

Estávamos por perto ou a alguns passos um do outro.

Tive o perfume do teu pescoço em meu nariz e a sensação era de que você, por algum motivo, me tinha para si. Ficamos longe em alguns momentos e no meio de todos aqueles rostos, nos achamos perdidos na distância de nossos corpos. Sorrimos de nossa noite singular, e o medo dos nossos beijos, dados com timidez, nos desprendeu de tudo e todos. Tínhamos um ao outro e agora tentamos manter essa aproximação longínqua bem perto, pelo menos dos nossos ouvidos. Minha mão na sua mão, me mostrou onde estávamos e o que tínhamos que descobrir. O som da música rápida, agitada e dançante nos levou...

Tua pele na minha, teu rosto no meu, meu sorriso e a sua risada, nossos olhares brilhantes, e nossas bocas coladas, uma n’outra nos fizeram ser um, únicos. Foi quando acordei, foi quando ri, foi quando lembrei de nós dois.


O espelho

que fosse sua atitude e de qualquer que fossem os fatos que revelariam sua outra metade.

Um dia, correndo em um lugar habitado por seres estranhos e que vinham de outro lugar, pude avistar uma casa colorida, com espelhos em seu entorno, me aproximei e percebi que os espelhos não eram qualquer pedaço de vidro e sim um revelador de verdades(...) Vi muitas pessoas chegando perto e tocando em sua transparência nua, perguntavam aos espelhos se elas haviam agido certo? ou julgado alguém de forma injusta?

Entendi que ninguém é culpado de nada, que a maior de todas as dores é pagar pelos crimes que fomos acusados sem sequer ter culpa. Talvez sõe sonso. Talvez seja honesto. Talvez nem sejamos tão inteligêntes assim! Fui embora sozinho, com medo de mim, deixei a casa colorida dos espelhos lá longe, no passado com os “INTELIGENTES” lá, chorando as amarguras dos machucados provocados e eu cá com medo de machucar alguém com meus “ACHISMOS” sem moderação, sem conteúdo e sem noção.

Vi tantos rostos desesperados, tantos choraram a dor de descobrir as suas atitudes erradas, como os julgamentos prematuros que tinham feito a outras pessoas, fizeram mau e quantos machucados fizeram(...) Muitos caiam ali mesmo e pediam desculpas pelos erros. Vendo isso pensei em tocar o espelho e fazer as mesmas perguntas, mas retrocedi, tive medo? Talvez, não sei. Pensava na possibilidade das pessoas que estiveram perto de mim, terem sido sempre honestas, não quis julgá-las mais e tentei de certo modo, ocultar o que eu julgava “inteligência” em descrever as pessoas e viver com achismos das coisas que elas faziam ou poderiam ter feito. Percebi que a verdadeira “inteligência” era em primeiro lugar não ter sempre razão, era perceber que poderia errar quando julgasse alguém, de qualquer 39


Obsessão

E essa obsessão que não passa? Esse vício desmedido de sentir os pelos ralos da tua pele no meu rosto? Em meu corpo.

Esse desejo insâno de te tocar...

Essa coisa estúpida de te querer, mesmo que a força, mesmo sem a recíproca necessária.


Estou perdido, condenado a essa

escravidão

imposta, forçado pelo

meu desejo emburrecido.

Até quando?

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Como dois animais Caminharam pela chuva lenta e pesada, Esquecidos do tempo, das horas, Esborrados de incertezas tão vivas, Que forçavam um ou dois gestos de delicadeza. Tinham um medo obscurecido de se olharem, Receio de descobrirem-se um dentro do outro, Mas se foram... Um seguiu pela rua deserta e fulgaz, O outro sentando na calçada vazia, Pensando no que tivera acontecido. Agora, cada qual guarda em si o sono em seu lugar, escondido entre seus medos,

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No silêncio da praia

Sufoquei minha garganta com um choro reprimido de gozo e arrependimento. Fiz daquela noite, minha virtude mais cruel. Me fiz sozinho, gritei o desespero de quem não era ouvido e chorei o tanto que pude com a testa sob a areia branca e o som cruel do mar.

O silêncio absoluto era meu companheiro, minha dor e meu aperto no peito era o meu amanhã. E eu, tinha me tornado um imenso nada, pequenino, vazio e sem esperança.


Supliquei a morte, mas esse seria um encontro rĂĄpido demais, por isso ela me foi negada.

Sentei e calei-me, baixei a cabeça e ouvi o mar, rasteiro, leve e repetitivo. Me tornei puro por ter chegado ao mais baixo grau de submissão e arrependimento.

Talvez fosse por isso que estaria ali, para entender-me na dor e compreender o que apertava o meu peito fortemente e me fazia chorar. 45


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Nudez Nú, me abondonei de todas as roupas e me entreguei aos desejos do sono, deliniei minha pele com os lençois da cama em felpos. O ruído dos sons lá fora no quintal, me lembrou em minhas frases insanas. Minhas mãos corriam pelo meu corpo, na tentativa de decifrar um código que ainda não entendo. Respiro profundamente e permito que minhas vias manifestem o desejo do cheiro que me completa(...) O sono se aproxima e a certeza que possuo é que tudo foi rápido demais. Bocejo, fecho os olhos, respiro profundamente e o sono chega nesse instante, completamente incapaz de me manter aqui e acordado.


Julia e a manhã

Julia percebia uma vida simples que circundava todas às pessoas e acabou entendendo que todas as suas dúvidas e aspirações, eram tão comuns quanto as de todo mundo.

Julia acordou mais cedo do que de costume, foi até o banheiro, lavou o rosto, olhou por uns dois minutos sua face molhada e perguntou a si mesma; “e agora?”.

Por um segundo, sentiu uma leve frustração por ser tão igual a todos, já por outro lado, começava a compreender o fato de que a vida simples tem muito mais capricho e tantas possibilidades, quanto a beleza das flores que morriam por falta de cuidados, em sua sacada abandonada.

Caminhou até a cozinha, fez o seu café forte, preto e puro. Sentou no sofá da sala de estar e ficou olhando a varanda e as flores murchas da sacada abandonada. Lembrou do tanto de coisas que tinha pra fazer, levantou e depois de um rápido banho, saiu. Na rua, Julia viu os carros, às pessoas que corriam apressadas e todos os lugares abarrotados de gente. Tão logo, Julia percebia que não era a única a correr, não era sua vontade, única no mundo. Julia percebeu os outros, viu olhares tristes, outros felizes, presenciou momentos apaixonados. Um jovem que se despedia da namorada com um beijo apressado e outro mais intenso, na vontade de se satisfazer. Viu um homem negro, com uns dois metros de altura aos beijos com uma mulher, branca de mais ou menos, um metro e meio. Julia sorriu, mas ficou encantada com a cena. Também pôde observar o velho que pedia esmolas, a criança que resmungava com a mãe, por ter de frequentar a escola.

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Pedaços de mim Hoje percebi uma parte de mim jogada num canto da minha gaveta, me preocupei com o fato de tê-la esquecido por muito tempo, e só hoje resolvi pega-la de volta. Pensei em como pude mantê-la por tanto tempo longe, e o porque de só agora entender que todas as coisas que julguei “serem ruins” teriam acontecido. Reflito sobre essas coisas e logo me vem o entendimento, da distância que quero dessas coisas que me fazem esquecer de quem sou. Agora, só preciso de minha segunda parte novamente em mim e a consciência lúcida pra não olhar para trás nunca mais.


As árvores

ordinariamente novo? Uma dor maior? Não às tenho, apenas permito-me estar parada. Vejo pessoas transitarem todos os dias por aqui e pouco me importa o que são, quem são... Apenas fico aqui, vendo as coisas passarem, às vezes rápida, outras lentas demais. – respondeu Mirtes. -Achei mesmo que algo maior a incomodava. -Não, meu incomodo é muito mais simples, penso todos os dias nas coisas que não pude e nem poderei fazer durante o tempo que permanecerei aqui, meus problemas maiores é o medo de ser notada um dia, assim como você fez hoje.

Parado aqui na rua deserta, pude ouvir o vento querendo dizer-me bobagens, perto das árvores, sentei e falei mentalmente com todas elas, não entendi o que as árvores com seus galhos em deformidade me diziam no inicio da conversa, eram barulhentas e a necessidade que elas tinham de falar era tanta, que não esperavam a outra terminar. Por fim, entendi o que me contavam; “reclamavam de dores nos galhos e da sujeira acumulada de anos em suas folhas verdes escuras. Brigavam por conta de espaço e xingavam umas as outras de gordas, espaçosas e reclamonas” uma delas a Mirtes, era a mais calada, só ouvia as companheiras, não esboçava reação aos “pitis” gratuitos. Às vezes me parecia cansada e desgostosa de todas as reclamações...

Depois dessa resposta, calei e a observei. Mirtes por outro lado fez cara de enjoada e nada disse, entendi seu silêncio e segui sozinho a rua vazia, foi quando percebi que as árvores voltaram novamente a ser árvores, silenciosas e quietas e eu voltei a ser eu mesmo, surdo e cego.

Intrigado esperei as vozes diminuírem e o cansaço das árvores chegar, foi quando me aproximei de Mirtes e apresentei-me; -Olá, me chamo Menfris, e você? -Mirtes... Que curioso... -O que é tão curioso? – Perguntei. -Um humano que nos ouve. -É um tanto curioso, sim. –Parando pra pensar no porque de estar ouvindo-as. -Notei que você não partilha dos mesmos pensamentos, nem das mesmas insatisfações, sempre quieta, o que te incomoda? – perguntei atento a resposta. -O que gostaria de ouvir? Algo extra51


O vinho acabou O vinho acabou, A taça secou, A sede permanece, O abraço apertado pela manhã. Nos libertamos, Sentimos nossos cheiros, Acordamos com os nossos sorrisos e as nossas brincadeiras. Mas as garrafas secaram e a sede ficou aqui. Um abraço apertado, Um beijo no pescoço e a saudade que vai ficar em nós. Nossos lençóis enrroscados, Nossa pele em atrito. Tudo ficará em nossa pele. Na lembrança e nas pontas dos nossos dedos. É o fim da jornada juntos, o ínicio dos nossos passos solitários. O vinho acabou e já é hora de partir... Até mais...


Áspero

Paredes

Mesmo tendo sido tão leve, percebi a áspereza dos meus gestos me isolando do mundo, perdi a noção do que era vago e caminhei pelas ruas vazias, com medo do que era nada e certo de que iria retornar. Bobagem minha! Paralisei por inteiro, com frio, sozinho e sem expressar nenhuma palavra. Me vi completamente isolado e sem ter por onde caminhar, covardia minha, esqueci de ter sido honesto comigo mesmo. Não tinha a noção do que não chegava a dizer e fazer. Quantas vezes era preciso voltar? Quantos momentos lúdibriados de felicidade era necessario viver?

As paredes em branco e verde, nada me fizeram pensar sobre mim. As pessoas agasalhadas e as crianças chorando me lembraram um tempo que bastava derramar uma lágrima, que minha mãe corria e me acalentava. Vi papéis que em nada lembravam meu mundo. Vi uma mulher com um casaco preto bufento, ela trazia uma tristeza no olhar, e o cansaço que tinha nos ombros a fazia aparentar muito mais idade. Vi um casal de meninos rindo da vida e das coisas em volta, tinham tanta intimidade, que por um segundo em meio a conversa, quase deixaram um beijo transparecer.

Não sabia das respostas, ou simplesmente não quis acordar?

Vi um rapaz bater o pé apressado, com um guarda-chuvas na mão e o olhar num relógio de pulso barato. Vi todas essas coisas aqui dentro e acabei não percebendo lá fora. Olhei a janela e vi a chuva cair leve, fria e branda. Era a calma de um mundo lá fora, tranquilo e pacato em contraste com o relógio aqui dentro, que marcava o tempo, nos acordando para a vida que corria apressada do lado de fora!

53


Primeiro amo em silêncio

amo em silêncio, depois grito esse aperto gostoso, por último danço na chuva, grito seu nome, bebo pensando em você. Durmo sonhando com nosso encontro Primeiro

e acordo sorrindo para a luz do sol.

55


De certo modo, nada tem um fim, em todo caso, tudo tem sua hora. Não há porque correr, te espero em silêncio, ficarei até o nosso eterno, agora.

Leo Bouças


M

Menfris Editora

Pequenos pedaços  

Livro de poesias e contos

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