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“Flores de Plástico” Cena 0 INT: Sala da Casa Abandonada – Noite. A tela está preta até ouvirmos uma VOZ. VOZ (em off) 1, 2, 3... gravando! Nesse momento, surge em nossa frente uma GAROTA. Ela está um pouco tímida, mas tenta não parecer. Ela é ANA. Seu olhar é seguro e ao mesmo tempo frágil. Ela se veste de maneira peculiar como se quisesse ser diferente de todos. A vemos por trás da lente de uma câmera portátil caseira. A VOZ vem de alguém que segura essa câmera, filmando ANA. VOZ (em off) Então? É a sua vez. Se você tivesse uma oportunidade de ser completamente honesta consigo mesma uma vez na vida e ser fiel a todos os seus instintos e vontades, o que você faria? O que você diria? ANA nos olha com uma expressão assustada e depois sorri. Corta para “FLORES DE PLÁSTICO” Créditos Iniciais. (música: Flores – Titãs) Cena 1 EXT: Escola – Dia. Vemos o panorama de uma escola normal. A câmera caminha entre os ALUNOS que conversam e se divertem preocupados com suas vidas até chegar em um GRUPO deles. São 5 adolescentes, entre os 16 e 18. PAULO tenta fazer cara de inteligente, VÍTOR tem uma aparência desleixada, LIA é notoriamente uma patricinha, MARIANA tem um rosto de anjo e tem um brilho nos olhos. E BERNARDO, o único deles que não sorri, está deitado. À medida que falam, vemos o close-up de cada um. (close de PAULO) PAULO E vocês acham que a mãe dela ia deixar ela fazer uma festa dessas? (close de LIA) LIA Mas até quer seria legal. Tipo aquelas festas americanas quando os pais viajam e tudo pode acontecer, sabe? (close de VÍTOR) É… Ia ser o máximo. (close de MARIANA) Vocês estão loucos, né. Minha mãe quase teve um treco quando eu disse que ia convidar umas 20 pessoas pra festa. (plano geral de todos. BERNARDO está alheio à conversa) PAULO Eu acho melhor assim mesmo. Todo mundo junto, se divertindo junto, é mais fácil. LIA Se bem que você poderia ter convidado aqueles caras da outra sala né… VÍTOR Com tanto homem por perto vocês vão caçar eles por que? LIA Homens? Quem? Vocês? PAULO Bernardo, melhor a gente sair daqui, esse papo…


BERNARDO está apático. VÍTOR Bernardo! BERNARDO olha para eles mas não diz nada. VÍTOR Bom, a gente ta indo ali. VÍTOR e PAULO saem fazendo sinal de loucura. LIA Bom, gente, eu vou ver as meninas ali. Tchauzinho… MARIANA olha para BERNARDO, que está inexpressivo. MARIANA O que foi? Você tem estado estranho. BERNARDO Você percebeu? MARIANA Acho que todo mundo já percebeu? Foi alguma coisa que a gente fez? BERNARDO Não. Deixa pra lá, não é nada. É que às vezes eu gosto de ouvir mais do que de falar. Me faz bem. MARIANA Tem certeza de que está tudo bem? Se você quiser eu posso… BERNARDO Não, não se preocupa. Vai pra sala que a aula vai começar. MARIANA Você não vem? BERNARDO Vou, claro, mas é que eu vou beber água antes. Já chego lá. MARIANA Então ta… MARIANA sai. BERNARDO fica pensativo novamente. Ele se levanta e começa a andar. Passamos a ver tudo pelo seu Ponto de Vista, enquanto ele caminha pelo pátio que vai se esvaziando aos poucos. BERNARDO (em off) Meu nome é Bernardo. Tenho 16 anos, quase 17. Essa é a minha escola. Este sou eu. Aqueles são meus amigos. E esses são os 300 outros estudantes com quem eu convivo. Alguns nem sabem que eu existo. Outros sabem, mas não se importam muito. Já gostei de alguma dessas garotas, já conquistei o ódio de alguns desses garotos. Agora, passamos a ver BERNARDO em plano geral alternado com americano. BENARDO (Cont. em off) Passei grande parte da minha vida aqui. Talvez por isso eu tenha me cansado. Mas eu nunca consegui mudar. Nunca tive coragem pra isso. Então eu aprendo a continuar. E cada dia o aprendizado é mais difícil. Acho que ainda sou o mesmo, apesar de tudo. Bernardo Vieira Ferraz, o cara que quer se encontrar. O cara que não é o mais bonito nem o mais inteligente mas tem tudo pra ser o mais feliz. Mas por alguma força misteriosa, não é. Cena 2 INT: Sala de Aula – Dia.


Alguns ALUNOS estão entrando e sentando em seus lugares. O PROFESSOR está a espera deles, com um olhar de impaciência. Ele vai fechar a porta, quando BERNARDO entra. PROFESSOR Olha a hora, mocinho. BERNARDO (em off) Foda-se. BERNARDO Desculpe, professor. Todos os alunos estão sentados. BERNARDO se senta em sua carteira e enquanto o professor fala, ele começa a rabiscar uma folha. MARIANA, que senta atrás dele, olha para ele preocupada. PROFESSOR Bom, vamos fazer uma revisãozinha rápida pra prova de amanhã. Aliás, não faltem à aula amanhã porque é uma prova muito importante. Uma ótima oportunidade pra alguns de vocês que precisam de pontos. A gente estava terminando o capítulo sobre Corrente Elétrica. Nós vimos que corrente é o movimento ordenado de cargas elétricas livres, devido a uma diferença de potencial… A voz do PROFESSOR vai baixando aos poucos. BERNARDO está concentrado em seu rabisco. BERNARDO (em off) Eu ainda não sei o que está acontecendo comigo. De repente é como se nada valesse pena ser vivido. É como se tudo isso fosse dispensável. Eu nunca fui o melhor em nada mas sempre bom em tudo. Nunca perdi uma nota, sempre prestei atenção e mesmo sem estudar consegui boas notas a vida toda. Mas a escola está tão desinteressante que cada dia é mais difícil levantar. Mas aí tem o vestibular, a faculdade, a vida e tal. E você esquece, um pouco, o sono. O sono… O desenho de BERNARDO já ocupa a folha toda e não faz mais sentido nenhum. PROFESSOR Condutores Ôhmicos? BERNARDO acorda com a mão de MARIANA em seu ombro. Todos estão olhando para ele. PROFESSOR Você conseguiria responder à pergunta ou o seu desenho está mais interessante? BERNARDO Qual era mesmo a pergunta? PROFESSOR (um pouco alterado) Olha só, eu já avisei a vocês que se não estiverem dispostos a prestar atenção, que não venham a aula ou que fiquem na biblioteca ou que não faça nada. Depois se virem com a matéria. Agora, se está na minha sala de aula sua obrigação é prestar atenção. Sua obrigação é estudar e sua obrigação é passar no vestibular. Bernardo, se você não estiver a fim de responder à minha pergunta acho melhor você terminar o seu desenho lá fora. BERNARDO se levanta, caminha até a porta e sai da sala. Corte rápido. BERNARDO está na sua carteira ainda, foi imaginação. BERNARDO Você poderia repetir a pergunta, eu não entendi bem. PROFESSOR Defina condutores ôhmicos para a sala, por favor. BERNARDO São resistores que possuem resistência elétrica constante para qualquer valor de diferença de potencial aplicada.


O sinal do término da aula toca. O PROFESSOR olha, vencido. EXT. Escola – Dia BERNARDO caminha sozinho entre os alunos. MARIANA o alcança. MARIANA Você vai continuar dizendo que não está diferente? O que foi aquilo na sala? Você sempre gostou de Física. BERNARDO É. Acho que estou mudando mesmo. Mas não se preocupa. Isso passa. Desculpa. MARIANA Se algo estiver te incomodando muito, é só você fechar os olhos assim… (ela fecha os olhos apertando) que esquece tudo. É bom, às vezes. BERNARDO sorri. MARIANA devolve o sorriso. MARIANA A gente podia ter dado certo. BERNARDO Talvez ainda possa dar. MARIANA É. Talvez. Cena 3 EXT. Cidade – Tarde. BERNARDO anda sozinho pela cidade. pessoas brincam e praticam esportes.

Está

numa

espécie

de

praça

onde

várias

BERNARDO (em off) Eu queria que tivesse dado certo com a Mariana. Nem sei por que acabou. De repente ficamos distantes. Não sei se estava feliz. Não sei se estou feliz. Nem sei o que é felicidade. Olho pra eles (a câmera mostra algumas pessoas jogando vôlei). Parecem felizes. Mas chegam em casa e tudo muda. Tem problemas com as mães, pais alcoólatras, irmãos criminosos, talvez eles mesmos sejam os problemas. E estão felizes. Mas a felicidade não deveria ser eterna? Cena 4 INT. Casa de Bernardo – Tarde. É uma casa não muito luxuosa mas nem tão simples. É uma casa de classe média com móveis de bom gosto e não muito caros. MAGALI, 40 anos, está com óculos, fazendo contas e analisando papéis em uma mesa bagunçada – a única coisa desorganizada, exceto os pensamentos dela – dentro da sala. BERNARDO entra, cansado. MAGALI Oi, filho, que bom que você chegou, eu estava quase ligando pra polícia. Onde você esteve? BERNARDO Por aí. MAGALI Por aí? Bernardo, isso é jeito de falar comigo? Eu estava aqui ganhando cabelo branco, preocupada com você e você me fala isso? Eu deveria ser mais enérgica. BERNARDO Eu passei na biblioteca depois da aula pra pegar uns livros. Eu tenho que estudar. MAGALI E cadê eles? BERNARDO Eles quem? MAGALI


Os livros. BERNARDO Eu não peguei ainda porque ainda não devolvi os que peguei semana passada. MAGALI Ah. BERNARDO passa pela sala e desaparece do quadro. INT: Quarto de Bernardo – Tarde BERNARDO entra, joga a mochila no canto, liga o som (Música) e se joga na cama. BERNARDO (em off) Às vezes você perde tempo demais procurando um sentido pras coisas. Só pra descobrir no final que muito pouca coisa no mundo faz sentido e sua vida é tão pequena e insignificante em relação ao universo inteiro que não faz parte dessas coisas. Às vezes você pensa nisso… Alguém bate na porta. Bernardo abaixa o som. MAGALI (por trás da porta) A Mariana está aqui. BERNARDO abre a porta e MARIANA entra. MAGALI fica lá. BERNARDO olha pra ela, que percebe e vai embora. BERNARDO fecha a porta. MARIANA Desculpa aparecer assim. É que tenho que te entregar sua redação. Tava comigo de manhã mas eu esqueci. É daquele dia que você passou mal e saiu mais cedo. BERNARDO (em off) Daquele dia que eu fingi que estava com febre para vir pra casa. BERNARDO (olhando para a prova) Ótimo… MARIANA Dá pra recuperar, não estressa. Além do mais você sempre foi o melhor escritor da sala, da escola. Você estava passando mal, lembra? Nem vai fazer diferença. BERNARDO É. MARIANA Na verdade… Eu vim mesmo pra te dizer que é muito importante pra mim que você vá na minha festa. Eu vim te convidar. BERNARDO Você já me convidou. MARIANA Mas eu não disse que não tem festa sem você. Na verdade tudo o que eu tenho feito nos últimos tempos não tem sentido sem você. BERNARDO Mariana, a gente já falou disso. MARIANA Eu sei. Esquece. Só me diz que você vai estar lá. BERNARDO Claro. MARIANA Bom, eu já vou, minha mãe ta esperando no carro lá em baixo. MARIANA sai. Vemos a prova de BERNARDO. A nota é 3,5. BERNARDO aumenta de novo o volume do som e se joga na cama de novo. Adormece rapidamente. Cena 5 INT: Sala da Jantar – Noite. A Família de BERNARDO está reunida em volta de uma mesa. Estão todos comendo silenciosamente. MAGALI finge deixar de lado seus problemas e exibe uma expressão quase feliz. BERNARDO está apático como sempre. RUBENS, o pai, está


sério, olhando para todos sem entender o que está acontecendo. LÍVIA, a irmã, parece estar bem distante dali. RUBENS Lívia, como foi lá na sua excursão? LÍVIA Foi legal. RUBENS Legal? Só? LÍVIA É. Foi legal. A gente foi e depois a gente voltou. Silêncio. RUBENS (seu tom NÃO é agressivo) Alguém pode me explicar o que está acontecendo? A gente era tão unido, a gente sempre conversou de tudo, a gente sempre foi uma família. O que houve? MAGALI Rubens, você pode me passar o suco, por favor? RUBENS (passando o suco) Eu não estou entendendo mais nada. Bernardo, sua mãe disse que você está estudando muito. Está com dificuldades? BERNARDO Não. RUBENS Não é o que suas notas estão dizendo. BERNARDO levanta os olhos. BERNARDO Como você sabe? Mexeu nas minhas coisas? RUBENS (agora é um pouquinho agressivo) Bom, alguém tem que fazer alguma coisa para estabelecer uma comunicação dentro dessa casa, não acha não? Eu não mexi nas suas coisas. Uma prova sua estava lá jogada no chão pra qualquer um ver. Agora eu estou te perguntando se você está indo bem na escola, estou preocupado com você e você acha que eu estou invadindo sua privacidade? LÍVIA Calma, pai. RUBENS (bem agressivo) Calma nada. Tem um mês que ninguém diz nada pra mim. Não sei o que se passa com meus filhos nem com minha mulher. Não sei de nada, é claro, sou só o cara que paga todas as contas da casa. E inclusive, Bernardo, as maiores são suas. Sua escola, seus cursos, sua conta de telefone… Sabe quanto você custa? BERNARDO pega o copo de suco e joga o líquido em RUBENS. Corte rápido. BERNARDO está paralisado, foi imaginação. BERNARDO se levanta e sai da sala de jantar. MAGALI reprovação.

olha para RUBENS com

RUBENS Lívia, você pode me passar o suco, por favor? Cena 6 EXT: Escola – Manhã. Hora da entrada. BERNARDO observa os alunos entrarem na escola. Ele vê VÍTOR e PAULO vindo em sua direção e se esconde. VÍTOR Eu tou te falando, cara, essa prova vai ser a pior da minha vida. Eu não sei nada.


PAULO Você é doido… Eu estudei a noite inteira… BERNARDO (em off) É a hora da verdade. É agora que eu vou saber se sou capaz de matar aula. Se eu não for capaz de me recusar a assistir a essa grande perda de tempo eu não sou capaz de nada. Eles se afastam. BERNARDO olha mais uma vez e se afasta da escola. EXT: Praça – Manhã. BERNARDO se senta, cansado em um banco. Uma folha de papel voa em sua direção. BERNARDO (lendo em off) Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. BERNARDO olha em volta. Ponto de Vista de BERNARDO: ele vê uma GAROTA desenhando, provavelmente de onde veio o papel. BERNARDO pensa um pouco, caminha até ela. Ela é ANA, uma garota com o olhar seguro mas a mente perturbada. Ela parece estar sozinha no mundo, preocupando-se apenas com o seu desenho e com um pacote de pimentinhas que come calmamente. ANA olha para BERNARDO. BERNARDO Você escreve bem. ANA Como você sabe? BERNARDO (devolvendo-lhe o papel) Voou. É seu, né? ANA Não. Quer dizer… o papel é meu. O poema não, é de Pessoa. BERNARDO Então essa pessoa escreve bem. ANA Não. Não a pessoa, o Pessoa. Fernando Pessoa. BERNARDO Ah. Mas é um pouco dramático, um pouco pessimista. ANA É bonito. Me faz chorar. BERNARDO Então se eu não tivesse te devolvido talvez você não choraria mais. ANA (sorrindo) O papel e a tinta não valem nada. Mas sempre vai ficar na cabeça o que eles diziam. BERNARDO Você que desenhou? Vemos o que ele vê: Um desenho de algumas flores. Era o que ANA estava fazendo. ANA É. Herdei o dom da minha mãe, mas não chego nem perto. BERNARDO Então sua mãe é muito boa nisso… ANA E você, não deveria estar na escola? Está de mochila. BERNARDO Não tenho aula hoje. ANA Nem eu. BERNARDO Não. Quer dizer, tenho, mas eu não queria ficar, não sei, se eu estivesse lá não ia conseguir prestar atenção mesmo.


ANA Claro. BERNARDO E você? Nessa praça a essa hora da manhã? ANA Eu venho aqui pra me distrair, pra ler um pouco. Quando ta tudo errado na minha vida eu fico aqui e esqueço do resto do mundo. Foi bem debaixo daquela árvore ali que eu li esse poema pela primeira vez. Eu tinha uns 10 anos eu acho. Geralmente venho mais tarde, mas… não tenho aula hoje… BERNARDO Bom, então eu vou indo, vou te deixar em paz aqui pra esquecer do resto do mundo. ANA Acho que você é que precisa esquecer do resto do mundo. BERNARDO Eu não sei mais o que eu preciso. ANA Não importa muito o que você precisa. Importa o que você quer. BERNARDO olha para ela. ANA E então? O que você quer? Não precisa dizer não, mas… Se você tivesse uma oportunidade de ser completamente honesto com você mesmo uma vez na vida e ser fiel a todos os seus instintos e vontades, o que você faria? O que você diria? Pra quem você diria? BERNARDO pensa. ANA Quando você fala tudo o que tem que falar, tudo o que está entalado na garganta, você se sente mais leve. É ainda melhor quando você não fala nada, quando você faz, sem pensar no depois. BERNARDO Talvez… ANA É difícil, desculpa… estou me intrometendo. Tenho essa mania de instigar as pessoas a pensar nelas mesmas. É o que eu faço. Mas eu nem te conheço. Olha, desculpa mesmo… BERNARDO Eu que tenho que ir mesmo. ANA Mas se você sabe o que você quer, fica, eu te empresto o lugar. BERNARDO Então tudo bem, eu não posso voltar pra casa agora mesmo. ANA Mas me diz o seu nome. BERNARDO (em off) Não diga. Ou então diga outro nome. Paulo, José, Tiago, Alfredo, Felipe. BERNARDO André. ANA Vanessa. Prazer, André. Quer? (ela oferece pimentinha a ele) BERNARDO e ANA se cumprimentam. BERNARDO olha bem para os olhos da garota. Cena 7 INT: Casa de Bernardo – Manhã. Vemos um close do telefone. Ao fundo, em segundo plano, MAGALI faz contas em uma mesa. O telefone toca. MAGALI se levanta e vem em nossa direção. MAGALI


Oi. Sei. Não é possível, ele saiu daqui de manhã no horário norm… Não… Não, é um equívoco, só pode ser… não, eu compreendo, eu sei… Ta bom. Obrigada. Tchau. MAGALI põe o telefone no gancho e olha para BERNARDO, que acabou de entrar na sala. MAGALI (em tom sério) Como foi de aula? BERNARDO Bem. MAGALI E as provas? Fiquei sabendo que iam ser três. E todas importantes. BERNARDO Fáceis. MAGALI Mais fáceis ainda porque você não estava lá, né? Ligaram da escola, estão preocupados com você. Sabe por que? Porque suas notas estão caindo, você não presta mais atenção nas aulas, não faz os exercícios, não estuda, não faz nada. BERNARDO olha pela janela. BERNARDO (em off) Nessas hora qualquer coisa que a gente diz piora as coisas. É melhor ouvir tudo até o fim. Não dá pra fingir que concorda pra ela não se sentir vitoriosa. Mas também não demonstre que discorda porque aí ela se sente fracassada. MAGALI Você não vai falar nada? BERNARDO Não. O que eu posso dizer? BERNARDO (em off) Tééé! Frase errada... MAGALI Você pode dizer que está arrependido e que vai melhorar antes que seja tarde demais, vai estudar e passar no vestibular. Bernardo, eu estou profundamente decepcionada e eu acho que está acontecendo alguma coisa. Você não era assim. Mas já que você não quer me dizer eu vou ser obrigada a jogar o seu jogo. Eu vou te levar pra escola amanhã. BERNARDO Mãe… que mico! MAGALI É o jeito. Eu vou entrar lá e te deixar na porta da sala. BERNARDO Eu não sou mais criança. MAGALI Ah, mas está se comportando como uma. Então vou te tratar como uma. BERNARDO passa direto, raivoso. MAGALI pega um cigarro na gaveta e acende. INT: Quarto de Bernardo – Tarde. BERNARDO está sentado, infeliz, em frente ao computador. Uma tela branca em sua frente. BERNARDO (em off) Tenho que escrever. Preciso escrever. Por que não consigo pensar em nada? A única coisa em que eu era realmente bom. E agora uma tela branca… BERNARDO escuta algumas coisas e abre a porta. É a voz de MAGALI e RUBENS. RUBENS (em off) A culpa sempre foi sua. Eles não sabem o que é limite e tudo por causa de você. MAGALI (em off)


Eu? Eu sempre fui a mãe que foi obrigada a trabalhar em casa e se dobrar em duas para cuidar dos filhos e ajudar nas contas. E você, sempre longe. RUBENS (em off) Longe, trabalhando, pra te bancar e bancar esses ingratos. Minha filha nem me reconhece e meu filho agora deu pra matar aula. MAGALI (em off) Rubens, você nem se aproxima deles… BERNARDO fecha a porta e volta para o computador. BERNARDO (em off) Achei que essas coisas só acontecessem nas novelas. Um jogando a culpa no outro e sempre se desviando do assunto principal. Quase nunca eles brigam. Discussões assim sempre acontecem. Mas briga mesmo eu nunca vi. A última foi daquela vez que se separaram e eu nem tinha nascido ainda. Até hoje não sei o motivo. Eu descobri que minha mãe voltou a fumar. Ela começou nessa época, logo que eu nasci. E voltou agora. Será que está acontecendo alguma coisa séria? Ou será que a culpa é minha? (pausa) Às vezes você sente. Cena 8 EXT: Porta da escola – Manhã. MAGALI desce do carro e abre a porta para BERNARDO. Ele desce também. BERNARDO Você não precisar ir lá. Eu sei o caminho. MAGALI Eu sei que você sabe. BERNARDO É sério. Eu estou bem, eu não vou matar aula. MAGALI Bernardo, eu estou confiando em você. BERNARDO Tudo bem. MAGALI entra no carro. BERNARDO espera ela ir embora. BERNARDO (andando para dentro da escola com os outros) (em off) Não faz sentido eu fugir agora só pra contrariar e desperdiçar a confiança dela. INT: Escola – Manhã VÍTOR e PAULO se aproximam. VÍTOR Cara, você perdeu a prova de Física de ontem. Tava um monstro! PAULO Ninguém sabia fazer nada. VÍTOR E isso vindo do Paulo é grande coisa, hem. Mas diz aí? O que houve? Não estudou? BERNARDO Não. Tava sem saco. PAULO Você só falta quando está doente. E depois vem dar uma de malandro, mas eu te conheço. BERNARDO Conhece nada. Se eu não quiser vir à aula eu simplesmente não venho. VÍTOR Calma. A gente ta só brincando. BERNARDO Então cresçam e parem de brincar. Isso é idiota. PAULO Quem é idiota? BERNARDO


Vocês dois. Vocês são ridículos. Você (para Paulo) só estuda, não faz nada, não tem vida social, e tudo pra que? Pra fazer um curso que você nem quer fazer. Você vive a vida do seu pai. E você (Vítor) é o oposto. Não está nem aí pra nada e no fim do ano se apoia nas costas dos outros para passar. Vocês não são vocês mesmos. Aliás ninguém nessa escola maldita se assume. PAULO Muito menos você. BERNARDO (pensando) Muito menos eu. BERNARDO sai. MARIANA e LIA chegam. LIA O que foi com ele? Por que ele faltou ontem, vocês descobriram? PAULO Ele ta um pouco estressado? VÍTOR Um pouco? Veio logo insultando a gente como se ele fosse muito superior. Logo ele. O Bernardo é um escroto. MARIANA Olha o que você está dizendo, você é amigo dele. VÍTOR É, mas será que ele é meu amigo? VÍTOR sai. Close em MARIANA, que está pensando. Cena 9 INT: Sala de Aula – Manhã. BERNARDO está na última carteira, MARIANA olha para BERNARDO.

isolado.

O

PROFESSOR

fala

alguma

coisa.

PROFESSOR Então, gente? Conseguiram resolver os exercícios? Bernardo? BERNARDO (em off) (olhando para o professor) Não agora… PROFESSOR Conseguiu? Pelo que estou vendo você não está fazendo nada. Não veio à prova de ontem… Pode ter certeza que os seus pontos estão perdidos. Eu avisei, não há segunda chance. Principalmente pra você. Você dorme em todas as aulas, não faz nada que eu mando. Cuidado, tem gente aí que só porque é bom em umas coisas acha que pode ser bom em todas. A vida não é assim. BERNARDO (em off) Impressão minha ou ele está me ofendendo? PROFESSOR Tomem cuidado todos vocês, se vocês afrouxarem agora não vai ter tempo depois. Principalmente aqueles que se acham muito inteligentes. Esses são os piores. Acabam se dando mal. Bernardo, você pode vir ao quadro resolver pra gente essas questões? BERNARDO (em off) Foda-se. PROFESSOR E então? Estamos todos esperando. Que tal isso… se você conseguir eu te dou uma nova chance de fazer a prova. Se não conseguir, vocês farão uma prova amanhã valendo o dobro do que a de ontem. (vaias na sala) BERNARDO (em off) Foda-se… Flashback EXT: Praça – Manhã.


Se você tivesse uma oportunidade de ser completamente honesto com você mesmo uma vez na vida e ser fiel a todos os seus instintos e vontades, o que você faria? O que você diria? Pra quem você diria? PROFESSOR Parece que vocês vão ter uma provinha amanhã graças ao seu colega. VOZ DE ANA (em off) Completamente honesto.. fiel a todos os seus instintos e vontades… O PROFESSOR se vira. BERNARDO (sussurrando) Foda-se. O PROFESSOR se vira para ele. PROFESSOR O que você disse? BERNARDO Eu disse foda-se. Foda-se, foda-se, foda-se, foda-se. Eu não quero saber de prova hoje, nem amanhã, nem nunca. EU não quero saber de você, eu sempre te odiei. Aliás todo mundo aqui te odeia. Eu não quero saber de nada. Foda-se. PROFESSOR Você quer sair da sala por favor e se dirigir à direção da escola? BERNARDO Com prazer. BERNARDO sai da sala. INT: Corredor da Escola – Manhã. BERNARDO caminha com um sorriso no rosto, sentindo-se leve. ANA (em off) Quando você fala tudo o que tem que falar, tudo o que está entalado na garganta, você se sente mais leve. Close-up no sorriso de BERNARDO. Corte rápido para Cena 10 INT: Sala da direção – Tarde. A DIRETORA está atrás de uma mesa. Parece um grande porco suado. Na sua frente estão MAGALI e RUBENS. DIRETORA Talvez o problema seja dentro de casa. Aconselho que conversem com seu filho para saber o que o incomoda. Perguntem-lhe o que ele quer. MAGALI Claro, nós sabemos disso, mas… DIRETORA E, infelizmente, como eu já disse, ele está suspenso das aulas por três dias por insultar um professor e desafiar sua autoridade. MAGALI Eu vou falar com ele… MAGALI se levanta e sai da sala. INT: Sala de espera – Tarde. BERNARDO está sentado solitário num banco. MAGALI se aproxima. Eles não se olham nos olhos.


MAGALI Eu acho que não adianta perguntar o que está acontecendo. Sei que essa idade é difícil, também já tive dezesseis anos, por incrível que pareça. A gente pensa em casa coisa… BERNARDO Eu quero mudar. MAGALI Eu sei que você quer mudar. Mas não precisa mudar sua essência, quem você é. Você não precisa agradar os outros, mas também não precisa agredir… BERNARDO Não… eu cansei dessa escola. Quero sair daqui, quero mudar pra outra escola. BERNARDO (em off) Cansei também dessa vida, desse corpo, desses amigos e dessa família. Quero mudar tudo isso… MAGALI No meio do semestre assim vai ser difícil, Bernardo. BERNARDO Não importa. Me coloque em uma escola pública qualquer. EU estudo à noite, não me importo. Ou não me coloque em lugar nenhum. MAGALI Escola pública não. Paguei anos de escola particular pra te dar o melhor e agora na reta final você desiste? BERNARDO Sei lá. Aqui eu não continuo. MAGALI (após pausa) Tudo bem, vamos ver o que dá pra fazer. BERNARDO Sério? MAGALI É, seu pai tem uns amigos. A gente pode tentar uma vaga em outros colégios. BERNARDO (em off) Obrigado, mãe. BERNARDO Ta legal. Cena 11 EXT: Praça – Tarde. BERNARDO está sentado num banco. Vemos ANA chegar. Seu estilo de roupa é completamente diferente de sua última aparição mas ainda sim é bem peculiar. Ela vai até ele. ANA Precisando esquecer do resto do mundo de novo? Achei que nunca mais ia te ver. BERNARDO Por que? ANA Sei lá. Tem gente por aí que tem uma crise qualquer de identidade e acha que é o fim do mundo e se isola e no outro dia está tudo bem. BERNARDO Eu fiquei com seu livro. ANA Ah… nem tinha visto… ANA abre em uma página e lê. ANA Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. BERNARDO Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,


Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. ANA Você decorou? BERNARDO Só as melhore partes. ANA E qual é a sua preferida? BERNARDO Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. ANA É a minha também. Você está triste. BERNARDO O que? ANA Você está triste. Seus olhos estão tristes. Ou então infelizes. É diferente. Você é infeliz quando simplesmente não é feliz. Não precisa estar triste. BERNARDO Estou infeliz, então. ANA Não vou perguntar por que. BERNARDO Mas estou feliz por outro lado. Segui o seu conselho. Falei o que estava entalado. ANA E a reação não foi das melhores… BERNARDO Fui expulso da escola. ANA E o que você vai fazer agora? BERNARDO Nada. Vou mudar de escola. Não dá pra abandonar agora, apesar de eu querer. Seria um pouco injusto. ANA Injusto com quem? BERNARDO Com meus pais, com quem espera algo de mim. ANA O que você espera de você? BERNARDO Não dá pra ser assim. Você não pode fazer o que bem entender. Seus atos influenciam a vida de muita gente. Eles têm conseqüências. Você tem que pensar nisso antes de agir. ANA Desculpa. É que eu sempre fui muito independente. Ninguém nunca se preocupou comigo. Então eu não me preocupo muito com ninguém. Eu só faço pensando em mim. BERNARDO Ninguém se preocupa com você? ANA Não. Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos. Foi ela que me trouxe aqui pela primeira vez. Foi ela que me ensinou tudo o que eu sei. E continua ensinando. Eu moro com uma tia e com a família dela. Mas são todos estranhos pra mim. Nem ligam muito pra mim. Eu também não preciso deles. BERNARDO E seu pai? ANA Meu pai mora na Itália. Era namorado da minha mãe, coisa de adolescente. Ela ficou grávida, mas ele já tinha ido estudar na Itália. Tinha ganhado uma bolsa


em uma escola de Arte. Eles faziam arte juntos, pintavam juntos. Ele ganhou a bolsa e ela achou injusto pedir para ele ficar. Então nem contou da gravidez. E você? BERNARDO Eu? Minha família é o tipo família perfeita. Pai, mãe e irmã, casa grande, espaçosa, nunca faltou nada, sempre tive quase tudo o que quis. ANA Então de onde vem essa sua mágoa do mundo? Escola? Namorada? BERNARDO Já fui o melhor aluno da sala. Mas cansei de estudar, não me preocupo muito com as notas mais. E namorada? Acho que ninguém me agüenta muito por mais de 1 semana. Você mesmo vai se cansar fácil. E nem é minha namorada, hem… ANA O que você espera da vida? O que vai ser quando crescer? BERNARDO Eu quero fazer jornalismo. Não sei. Dizem que escrevo bem. Eu sei que eu escrevo bem. Mas, tem aquela parte no poema que você me passou que diz o seguinte… Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? ANA QUando eu era criança e achava que ninguém me amava, eu sonhava em ir para a Itália. Eu encontrava o meu pai e dizia a ele que era a sua filha, a gente se abraçava e eu vivia para sempre com ele. Mas aí eu cresci e vi que isso não ia dar certo nunca. BERNARDO Você é incrível, eu nunca achei que pudesse encontrar alguém assim. ANA Alguém como? BERNARDO Alguém como você. Você está sozinha no mundo e não tem medo de viver. Eu estou rodeado de gente e sou um covarde. Não consigo nem olhar no espelho. ANA Você está rodeado das pessoas erradas. Antes só do que mal acompanhado, lembra, André? BERNARDO Meu nome é Bernardo. ANA Prazer, o meu é Ana. BERNARDO e ANA se cumprimentam novamente. Cena 11 EXT: Outra Praça, Gramado – Tarde. ANA e BERNARDO caminham. Eles tomam sorvetes e andam por um gramado até se se sentarem. BERNARDO Mas você não tem vontade de fugir de tudo isso às vezes? ANA Eu não gosto mais de sonhar. Se eu quero alguma coisa, faço tudo pra ser realizar, entende? BERNARDO E o seu pai? Você faz alguma coisa para realizar isso? ANA (depois de uma pausa, olhando para o infinito) Sei lá. Quando eu cansar daqui eu me mudo, fujo. BERNARDO Eu não tenho nem um parente em um lugar distante pra eu fugir quando eu quiser. ANA Não é tão bom assim… Por eles passam alguns ADOLESCENTES. Eles se vestem de preto e agem como se fossem os únicos no mundo. Riem alto, se divertem. Um deles olha para ANA e continua andando. Ela sorri.


BERNARDO Queria ser feliz assim. ANA corre em direção a um CACHORRO, deixando suas coisas perto de BERNARDO. Ele vê um papel. Nós vemos também, agora. É um desenho. Um cavalo. ANA continua brincando com o CACHORRO. BERNARDO se aproxima com o papel na mão. BERNARDO Você que fez? ANA Não… a minha mãe. Ela é ótima, não é? BERNARDO Bonito. É… é tocante. ANA Minha mãe dizia que cada vez que você faz um mesmo desenho ele sai diferente. Depende do vento, do momento, da seu estado de espírito e até da sua mão. Nenhum desenho é igual ao outro. Ela falava que eu era como um desenho que ela tinha feito. Era o seu desenho mais perfeito. Único. E que se ela tentasse de novo não ia sair igual. BERNARDO Nem se ela tentasse mil vezes ia ser igual. ANA Ah! Tenho uma coisa para te dar. Ela abre uma pasta e tira um papel com um desenho de algumas flores, o mesmo que ele vira anteriormente. Está terminado e colorido. BERNARDO É lindo. ANA É triste. BERNARDO É triste mesmo. Por que? ANA São flores de plástico. Vê aqui? Não têm o brilho da vida. BERNARDO Mas é bonito mesmo assim. O mais bonito de todos. ANA Você ficou triste de repente. Agora não só os seus olhos. BERNARDO Acabei de me lembrar que vou ter que passar de novo por toda aquela história de mudar de escola. Gente nova, que não vai com a sua cara. É horrível. ANA Você se acostuma. BERNARDO e ANA se entreolham. Fica claro que ela não estava falando sério. Eles riem e continuam brincando com o CACHORRO. Close final nos olhos de BERNARDO que, apesar de tudo mais, estão felizes. BERNARDO (em off) Às vezes você sabe que está no lugar certo. Corte rápido para Cena 12 INT. Sala de Aula – Manhã. Close nos olhos de BERNARDO, quase em pânico, contrastando bastante com o olhar da cena anterior. O enfoque da câmera sobre o seu rosto é o mesmo. A cena se abre e ele está sozinho em uma sala de aula. Vários ALUNOS estão chegando. Alguns conversam entre si, são todos figuras típicas de uma escola. BERNARDO (em off) E agora aqui estou eu. Eu que sempre tive tanto medo da mudança acabei arrumando essa na minha vida só pra piorar. Se não fosse a Ana…


Um PROFESSOR entra na sala. PROFESSOR (enquanto todos se sentam) Bom dia, vamos começar de onde paramos. (ele observa Bernardo) Parece que temos um aluno novo na sala. Ponto de Vista de BERNARDO: todos os alunos da sala se viram para ele. Ele está assustado. PROFESSOR E então? Qual o seu nome? De que escola veio? BERNARDO Eu sou Bernardo Vieira, vim do Colégio Opinião. PROFESSOR E saiu de lá por que? BERNARDO Opção. PROFESSOR Seja bem vindo, depois pega o caderno com alguém para ver se está em dia com a matéria. As regras por aqui não são muito diferentes. Você vai se acostumar. BERNARDO ri internamente e agradece com um aceno com a cabeça. Do seu ponto de vista, vemos um GAROTO, justamente aquele que olhou para ANA na cena anterior. PROFESSOR Agora, vamos todos juntos continuar. Na última aula a gente estava definindo o conceito de Força Eletromotriz. EXT. Pátio do Colégio – Manhã. O ambiente não é muito diferente do da antiga escola. O que muda são os rostos, mas as pessoas fazem as mesmas coisas, essencialmente. BERNARDO está sozinho, em um canto. BERNARDO (em off) Não sei se foi bom. Talvez não seja assim tão bom obedecer a todos os impulsos revolucionários. Vou me lembrar disso. Mas me sinto bem. Pessoas desconhecidas. Não vai dar nem tempo de descobrir os defeitos de todas e nem elas vão ter oportunidade de ver os meus. BERNARDO se estudantes.

levanta

e

anda

por

um

corredor.

Enquanto

fala,

flashes

dos

BERNARDO (em off) Esses são os 300 outros estudantes com quem eu vou conviver daqui pra frente. Nenhum deles sabe que eu existo. Os que souberem nem vão se importar muito. Acho que não vou gostar dessas garotas e nem conquistar o ódio desses garotos. Eu vou me acostumar… BERNARDO vê o GAROTO sozinho. Se aproxima. O GAROTO vê que ele o segue e se esquiva. BERNARDO (em off) Esse é o cara que estava na pracinha ontem. Estranho. Parecia tão feliz. Provavelmente está longe dos seus amigos de verdade. E simplesmente se sente deslocado aqui. Familiar, não? Temos algo em comum! A diferença é que ele pareceu feliz algum dia na vida. BERNARDO olha em volta. O GAROTO parece ter sumido. BERNARDO (em off) Onde será que ele se meteu? Não importa. Ainda temos tempo.


Cena 13 EXT. Rua – Tarde. BERNARDO caminha em uma rua comum de volta pra casa. BERNARDO (em off) Aqui estou eu perdido mais uma vez em pensamentos… Sozinho… BERNARDO vê o GAROTO virar uma esquina e vir ao seu encontro. Quando o GAROTO percebe, desiste de fugir. GAROTO O que foi? Você me seguiu o dia inteiro! O que quer? BERNARDO Você não tem muitos amigos né? GAROTO O que? Quem é você?.. BERNARDO Não, é que você estava sozinho na escola. GAROTO Meus amigos não estão lá. BERNARDO Eu sei. Eu vi você na pracinha ontem. GAROTO É. Acho que eu te vi também. BERNARDO Mas do mesmo jeito você está sozinho. Eu posso te fazer companhia. Você sabe, na escola. É ruim ficar sozinho. GAROTO Eu prefiro ficar sozinho do que com você. BERNARDO Por que? O que pensa de mim? GAROTO (ri) Você? Cansado da vida de riquinho, resolve se envolver com os excluídos para se sentir um pouco melhor sobre si mesmo. Acertei? BERNARDO Não. Eu sou um desses excluídos, na verdade. GAROTO Olha, eu estou com pressa, você quer sair do meu caminho? BERNARDO Você está implorando por um amigo. GAROTO Sai, cara, nem te conheço! BERNARDO Você precisa de um amigo. GAROTO Sai da minha frente! BERNARDO Você precisa… O GAROTO dá um soco no rosto de BERNARDO. GAROTO Eu avisei. BERNARDO parte para cima do GAROTO e lhe devolve o soco. O GAROTO cambaleia um pouco depois olha para ele. GAROTO Quem é você, hem? BERNARDO (estendendo a mão) Bernardo. GAROTO (apertando sua mão) Eric.


BERNARDO Tem um trabalho de Física em dupla, eu vi que você está sozinho… ERIC Para de falar que eu estou sozinho. BERNARDO Tudo bem, eu só… ERIC Tudo bem. Sua casa às 3. Você é bem chato, hem. BERNARDO sorri. Cena 14 INT. Sala da casa de Bernardo – Tarde. BERNARDO está na sala, lendo uma revista. MAGALI chega com algumas compras. MAGALI Filho, como foi de aula hoje? Gostou da escola? BERNARDO Legal. MAGALI Já fez algum amigo BERNARDO olha para ela com desinteresse. A campainha toca. MAGALI vai atender. Ela volta para dentro um pouco surpresa. ERIC aparece atrás dela. ERIC e BERNARDO se cumprimentam. ERIC E aí, cara! BERNARDO Beleza? MAGALI fica boquiaberta. BERNARDO Mãe, a tia Laís ligou, pediu para você ir lá na casa dela agora. MAGALI Mas eu acabei de chegar… BERNARDO Pois é… MAGALI pega as chaves do carro e vai saindo. ERIC olha para BERNARDO. INT. Quarto de Bernardo – Tarde. O quarto está mais escuro que o normal. Uma música toca. BERNARDO está sentado na cama, vendo um CD. ERIC mexe nas coisas do quarto. BERNARDO Bem legal esse cd. ERIC Ah… às ordens. E então, o que você faz da vida? BERNARDO Eu? ERIC É? você não faz mais nada além de estudar? BERNARDO Não. Não tenho paciência. ERIC Eu também não. E seus amigos? Que tipo de gente é? ERIC fala isso observando uma foto em que estão BERNARDO, LIA, MARIANA, PAULO e VÍTOR.


BERNARDO Eles não são meus amigos mais. Nem conheço eles direito. BERNARDO pega o porta-retratos e coloca em uma gaveta. ERIC Ei, sabe por que eu vim pra cá hoje? BERNARDO Não. ERIC Por causa daquele soco que você me deu. Você tem muita energia guardada. Não faz nada, só vai à escola e dorme o dia inteiro, aposto. Eu vou te mostrar o mundo. BERNARDO Que mundo? ERIC Tenho uma coisa pra te dar. ERIC pega, em sua mochila, uma seringa e oferece a BERNARDO. Ele pega e observa. BERNARDO Pra que eu vou precisar disso? ERIC Você é que vai dizer. Talvez não precise, mas se um dia precisar, você vai ter. BERNARDO Foi a coisa mais… sem sentido… que eu já ganhei. ERIC Obrigado. ERIC vê o desenho das Flores e lê a assinatura: “Ana Garcia” ERIC Você desenha. BERNARDO É de uma amiga minha. Lindo, né? ERIC É aquela que estava com você ontem? Bonita ela. BERNARDO Muito. ERIC (lendo) Ana Garcia… e vocês são só amigos? BERNARDO É… quer dizer… não… Não sei, por enquanto, eu acho. ERIC Nossa, quanta coisa indefinida numa mesma frase. Vocês já beijaram? BERNARDO Não, mas… ERIC Então são só amigos. BERNARDO Mas ela é importante pra mim. Conheci esses dias mesmo mas acho que ela está mudando a minha vida mesmo. É sério, eu acho que o que ela diz me toca. E a parte mais feliz da semana é quando eu estou com ela. Na verdade é a única parte feliz nessa vida. Uma das poucas coisas que está valendo a pena ser vivida. Me parece uma flor. Mas é uma flor de plástico, não tem vida. Na verdade acho que sua vida foi roubada. Sua beleza, seu brilho, entende? Só precisa regar um pouco e ela vive outra vez. Antes seja tarde demais e ela se transforme em plástico pra sempre. ERIC (olhando para o relógio) Bom, eu tenho que ir, já ta tarde. Cara, a gente não fez nada do trabalho. BERNARDO Pode deixar, eu já estudei isso, eu termino. ERIC Você quebra essa? Valeu, cara. Fico te devendo. BERNARDO


Vou cobrar. ERIC Olha, vai ter uma festa amanhã na casa de uns conhecidos meus. Aparece lá. BERNARDO (em off) Não mesmo. BERNARDO Claro! Não, espera… marquei com um pessoal de ir assistir a um filme. Não tou muito a fim de ir mas… ERIC Não se preocupa, também não conheço o pessoal direito. Seremos eu e você, ta legal? BERNARDO Tudo bem. Eu te levo até a porta. INT: Sala da Casa de Bernardo – Noite. MAGALI e RUBENS estão na sala assistindo TV. BERNARDO e ERIC passam por eles. MAGALI Viu isso? Eles nem olharam pra gente. RUBENS Calma, Magali. É só um amigo. MAGALI Amigo? Viu como ele se veste? Viu? Ele é muito estranho, esse garoto. O Bernardo nem me falou o nome dele, nem sei de onde ele apareceu. RUBENS Ele apareceu da escola. e se foi da escola é porque é de boa família. É um colégio caro, apesar de tudo. MAGALI Não sei… Não gostei muito dele. BERNARDO volta a passar por eles, voltando. Nem fala nada. MAGALI e RUBENS se olham. RUBENS Não faça nada. Deixa. Cena 15 INT: Casa de Lia – Noite. LIA, PAULO, VÍTOR, BERNARDO e MARIANA estão em volta de uma TV assistindo a um filme brasileiro qualquer. LIA abraça VÍTOR, PAULO está deitado no colo de MARIANA. BERNARDO está mais isolado, de lado, atrás de todos, tendo uma visão maior do quadro. BERNARDO (em off) Esse é um daqueles momentos em que você está sozinho no meio da multidão. O que aconteceu? Eles eram os meus melhores amigos, as pessoas em quem eu mais confiava. Será que fui eu que me afastei ou eles que se afastaram? Não sei. Só sei que eu daria tudo para estar bem longe daqui agora. BERNARDO sai do campo de visão dos outros. Tira a seringa de dentro do bolso e a analisa. MARIANA se aproxima e se espanta. MARIANA O que é isso? BERNARDO (tentando esconder a seringa) Não, nada. MARIANA O que você vai fazer com isso? BERNARDO Nada. Ainda está lacrada. Não me pergunta mais. MARIANA Tudo bem. O que está acontecendo? Você está tão distante da gente. A gente é


amigo, diz o que foi? Você está feliz num dia e no outro está com ódio do mundo e muda de escola… Estou preocupada. BERNARDO Não é nada, não se preocupa. Eu vou embora, está tarde, minha mãe pediu para eu ir mais cedo hoje. MARIANA O que? Mas o filme nem começou direito. E foi você que trouxe? BERNARDO Eu já vi. Amanhã eu passo aqui e pego. Volta lá, senão você vai perder a melhor parte. MARIANA sai. BERNARDO pega o celular e disca um número. INT: Casa Abandonada – Noite. Alguns ADOLESCENTES, os mesmos da cena da praça e mais alguns, bebem e fumam enquanto riem e se divertem. O ambiente é um caos. ERIC está entre eles. O seu celular toca. ERIC atende. ERIC Oi, cara! INT: Casa de Lia – Noite. BERNARDO Eu estou passando aí. A festa já acabou? INT: Casa Abandonada – Noite. ERIC O pessoal já foi embora, amanhã tem aula. Mas ainda tem gente aqui. Pode vir se quiser. INT: Casa de Lia – Noite. BERNARDO Me passa o endereço. BERNARDO anota em um papel. BERNARDO Legal. Daqui a uns dez minutos eu chego. BERNARDO sai da casa, mas o papel com o endereço fica. MARIANA se aproxima do papel, lê e guarda no bolso. Cena 16 INT: Casa Abandonada – Noite. A mesma composição da cena do lugar em que Eric falava na cena anterior. A música é a mesma. A campainha toca. PATRÍCIA, 18 anos, pra lá de bêbada, do tipo falsa garota recatada, vai atender. PATRÍCIA abre a porta. Vemos BERNARDO. PATRÍCIA Pois não? BERNARDO O Eric ta aí? PATRÍCIA O quê? (ela começa a gargalhar) ERIC passa por trás dela e puxa BERNARDO para dentro. PATRÍCIA fecha a porta. Quando todos saem do quadro vemos um relógio. O tempo passa diante de nós (uma hora mais ou menos). Agora vemos BERNARDO bebendo e PATRÍCIA na sua frente.


BERNARDO E então eu disse foda-se pra todos da sala e saí. Fui expulso na hora. PATRÍCIA Legal, cara. Você é bem corajoso! BERNARDO Eu acho que tava meio chapado aquele dia… PATRÍCIA É? o que você usa? BERNARDO Eu… ah! Não, não uso nada… PATRÍCIA Você é demais… Está se divertindo? BERNARDO Muito! Vocês são muito animados. PATRÍCIA Vamos ficar ainda mais, espera um pouco, vou buscar uma coisa… ERIC se aproxima. ERIC E aí, cara? Gostou do pessoal? BERNARDO Legal. Vocês sempre fazem essas festas em dias de semana? ERIC Acho que ninguém aqui tem muito a noção do tempo mesmo… BERNARDO Eu tou um pouco tonto… ERIC Um pouco? Sorte sua. Ei, a Patrícia gostou de você hem… o que você acha… BERNARDO Hoje não, Eric, eu acho que vou embora. ERIC Não ta gostando? BERNARDO Tou, claro! Vocês são demais mesmo. Sua turma é show. ERIC Nossa turma agora. PATRÍCIA chega com uma bebida rosa em um copo. Está animada. PATRÍCIA E aí, Bernardo! Olha o que eu trouxe pra você? BERNARDO O que é isso? PATRÍCIA Segredo, querido! Receita de família. Mas não preocupa não, nada com menos de 30 por cento de álcool. ERIC e PATRÍCIA riem. BERNARDO bebe um pouco. BERNARDO Obrigado, eu tenho que ir embora agora. PATRÍCIA Que desfeita, gato… Termina a bebida. BERNARDO Ok então. BERNARDO vê que ERIC acende um cigarro. PATRÍCIA também. Todos estão fumando maconha. BERNARDO olha em volta. ERIC Você quer Bernardo? BERNARDO Eu não sei. ERIC


Não preocupa. A gente consegue de graça. Pega aí (ele estende o cigarro a BERNARDO) BERNARDO bebe rápido o conteúdo do copo. Vemos o que ele vê: ele está tonto. ERIC está a sua frente oferecendo-lhe o cigarro. ERIC Pega aí, cara! BERNARDO fecha os olhos e a tontura passa. BERNARDO (em off) Nunca vi uma bebida tão forte. Subiu em segundos… Acho que não estou bem. BERNARDO Não, desculpa mesmo. É que ta tarde. Eric, amanhã a gente se vê né? ERIC É, cara. ERIC coloca um papelote de maconha no bolso de BERNARDO. BERNARDO estranha. BERNARDO Valeu, caras. Não tou muito bem hoje, foi mal. PATRÍCIA Tchau! PATRÍCIA dá um beijo rápido na boca de BERNARDO e sai bebendo e cambaleando. EXT: Rua – Noite BERNARDO anda sozinho, com as mãos no bolso. BERNARDO (em off) É tão difícil mudar. Mais do que eu pensava. Não sei se posso jogar tudo pro alto de uma vez agora. Acho que não agüentaria, seria pior. Mas acho que já estou conseguindo seguir mais os meus impulsos. Só falta agora ver o meu limite. BERNARDO chuta uma pedra. Ouvimos uma vidraça se quebrando. Cena 17 EXT: Rua – Tarde ERIC e BERNARDO andam na rua. BERNARDO se veste de maneira diferente. Suas roupas estão escuras, não claras como de costume. [lembrar de ir escurecendo o figurino de BERNARDO à medida que as coisas vão acontecendo] BERNARDO Você vai adorar ela. ERIC É, mas ela vai me odiar, eu tenho certeza. ANA aparece, está com um visual bem mais ousado, embora ainda muito incomum. BERNARDO está de costas para ela. ERIC está de frente. Ele abre a boca em admiração. BERNARDO se vira e contempla ANA vindo em direção a eles. BERNARDO Aquela é Ana, mas de certa forma, é como se fosse a primeira vez que eu a vejo. Eu me esforço tanto para mudar, pra perceber um só traço diferente na minha personalidade…. E ela muda com tanta facilidade. É como uma camaleoa. Cada dia um capítulo novo tão diferente e tão igual ao anterior… ANA Oi. BERNARDO


Esse é o Eric, que eu falei. ANA Oi, Eric. ANA e ERIC se cumprimentam sorrindo, como cúmplices de um crime. ANA E então, o que vamos fazer hoje? BERNARDO Não sei, vamos tomar um sorvete, andar por aí… INT: Sorveteria – Tarde. ERIC, ANA e BERNARDO estão dentro de uma sorveteria simples, mas aconchegante. Uma BALCONISTA olha desconfiada para eles. BERNARDO Bom, vamos comprar então. ERIC Tenho uma idéia melhor… Ana, vai ali conversar com a moça, pergunta se tem aquilo que a gente veio comprar. BERNARDO O que? ANA se aproxima da BALCONISTA e começa a falar. ANA A gente queria, sabe como chama aquela coisa doce, dura… BALCONISTA Não sei, bala? ANA Não, não é isso. É maior, é comprido, tem de vários sabores… ERIC sorrateiramente pega um monte de balas e coloca na mochila assim como várias outras coisas dispostas sobre o balcão. ANA Tem um palito que você segura e… BALCONISTA Picolé? ANA Isso! BALCONISTA Ah, claro que tem. De que sabor você quer? ANA Ah! Acho que não quero mais. Você demorou. ANA, ERIC e BERNARDO saem. EXT: Rua – Tarde. BERNARDO está chocado. ANA e ERIC riem e saem correndo. BERNARDO vai atrás. A BALCONISTA sai exasperada da sorveteria, mas eles não estão em lugar nenhum. Vemos os três escondidos e rindo. ANA está entre ERIC e BERNARDO. Os dois olham pra ela. Ela sai e eles se olham depois vão atrás dela. Montagem de Cenas (música bem animada). Os três se divertem pela cidade. ANA desenha ERIC e BERNARDO, que posam. Quando eles vão ver, é um desenho idiota infantil. Várias outras cenas. BERNARDO (em off) Nesse momento eu me sinto de repente tão feliz. Nem me lembro qual foi a última vez que eu me senti completo assim. Com eles eu simplesmente sou eu, descobri um


jeito de ser eu, um eu que eu nunca tinha sido antes. Mas se eu nunca tinha sido antes, como saber se isso é realmente eu? Final da música. ERIC, BERNARDO e ANA caem, deitados na grama. Por trás deles, passam alguns garotos, três. Um deles é ÍGOR. ÍGOR E aí, Eric? ERIC Oi. ÍGOR Cadê o seu agente da condicional? ERIC Está ocupado na cama da sua mãe. IGOR e os OUTROS DOIS GAROTOS riem. ÍGOR Você me faz rir! ÍGOR e os outros saem. BERNARDO Esses caras são da escola, né? Eu já vi eles. ERIC É, uns idiotas. E aí? Vocês vão à festa, né? Hoje à noite, sem falta. ANA Não sei. BERNARDO Nós vamos. Não temos mesmo nada pra fazer… Cena 18 INT: Quarto de Bernardo – Noite. BERNARDO está terminando de se arrumar para sair em seu quarto. MAGALI entra. BERNARDO Bate na porta da próxima vez. MAGALI Desculpa, achei que você já tinha ido dormir. Você vai sair? Ah! Claro, hoje é o aniversário da Mariana. Você comprou presente? BERNARDO Não vou ao aniversário da Mariana. MAGALI Não? Então aonde você vai? BERNARDO Tem uma festa. Você não disse que eu tinha que conhecer gente nova? Que ia fazer bem? MAGALI Calma, não tou te proibindo. Onde é? BERNARDO Não sei, vou encontrar o pessoal em outro lugar e vamos de lá. MAGALI Bernardo, já percebeu que você só responde às minhas perguntas? Você nunca mais chegou para contar como foi o dia, nem pra dizer bom dia. Você só responde e pronto. E quando não é pra responder é pra avisar, repreender, maldizer a vida. BERNARDO Eu não faço isso. MAGALI Seus olhos dizem. E eles dizem que não estão satisfeitos. Eles dizem que a culpa de tudo isso é de todo mundo menos sua. Eles dizem que você quer sair dessa casa. BERNARDO Eu quero sair desse corpo, dessa vida.


MAGALI Mas e esse Eric, você não se diverte com ele? BERNARDO Quase. A felicidade não é momentânea, senão não seria felicidade. Isso são momentos. São coisas boas que acontecem. Sabe aquelas plantas que nascem no meio de uma estrada deserta de asfalto? É mais ou menos por aí. MAGALI Você está mudando. BERNARDO Pelo menos alguém percebeu, hem! MAGALI Bom, eu já desisti de perguntar. Pelo menos você está saindo de casa e tendo esses momentos de planta no meio do asfalto, né. Então, eu só te peço juízo. Pense duas vezes. Eu confio em você. Quer que alguém te busque de madrugada? BERNARDO Não. MAGALI Como você vai voltar? BERNARDO Me viro. Dá pra sair, tenho que terminar aqui… MAGALI Bernardo, a Mariana disse que fazia questão da sua presença. Ela até veio aqui te convidar. Por que você não vai? BERNARDO Não quero ir. Dá pra… MAGALI Claro, eu já tou saindo… MAGALI sai do quarto. BERNARDO se olha no espelho. BERNARDO (em off) Acho que estou mesmo mudando. BERNARDO pega a maconha em seu bolso. Guarda o papelote debaixo do travesseiro e sai. Cena 19 INT: Casa abandonada – Noite. Isso sim é uma festa. Há MUITAS PESSOAS, cada uma em sua própria diversão. A música está bem alta e todos parecem curtir. BERNARDO anda em meio às pessoas desconhecidas. Vemos o que ele vê: ANA e ERIC conversando bem próximos. BERNARDO se aproxima. ERIC O máximo!! Ah! Oi, Bernardo, a gente tava falando de você. ANA É, contei de como a gente se conheceu. ERIC Bom, gente, vou ali ver como ta o resto do pessoal. ERIC se levanta e sai. BERNARDO toma o seu lugar. Ele vê uma rosa no canto da sala. BERNARDO Aquilo ali não estava ali. ANA Eu trouxe. É minha. BERNARDO Você já veio a uma festa desse tipo? ANA Desse tipo? BERNARDO Pessoas bebendo sem noção do tempo, espaço… Rola de tudo por aqui…


ANA É? Tudo? Até que ponto? BERNARDO Não sei. É minha primeira vez também. ANA A gente se protege. BERNARDO Eu pensei muito no que você me falou no primeiro dia. A história de obedecer aos impulsos e tal. Tem dado muito certo. ANA Eu sempre fiz isso. Mas a gente não pode sair por aí fazendo de tudo, não é assim. O que eu falei é que você tem que assumir o que você quer, você tem que ter certeza de qual é a sua vontade, sabe? Você não pode mentir pra si mesmo. BERNARDO Eu não minto pra mim. BERNARDO (em off) Nesse momento eu estou começando a suar frio. BERNARDO Eu sei bem o que eu quero. BERNARDO (em off) Eu quero… ANA Você me toca. BERNARDO Você que começou. ANA Você quer me dizer alguma coisa? BERNARDO Por que? ANA Sua sobrancelha… BERNARDO O que tem ela? ANA Quando a gente está entalado com alguma coisa na garganta a sobrancelha faz isso (ela aponta para a própria sobrancelha arqueada). BERNARDO Tem alguma coisa que você não saiba? ANA Eu não sei o que você quer me dizer. BERNARDO Eu também não sei… ANA Então quando você descobrir eu quero ser a primeira a saber. ANA se aproxima de BERNARDO e deita em seu peito. BERNARDO (em off) Apesar de ela estar bem diferente… é o momento perfeito. Não pode ser estragado com uma má escolha de palavras. O sentimento já ta aqui falando tudo. Eu ouvi uma vez: “there’s no loudest sound than love unspoken”. Não existe som mais alto do que o som do amor não-dito. É o momento perfeito. E um instante é o máximo que se pode esperar da perfeição. Às vezes você se apaixona. ERIC se aproxima, estragando o clima ERIC Bernardo, você pode vir aqui um minuto? BERNARDO se levanta e se junta a ERIC, num canto. ERIC lhe entrega droga. BERNARDO Olha, cara, eu não sei o que é isso…


ERIC Não tudo bem. É muito legal, é coisa nova. Exclusividade nossa. O efeito é rápido, passa logo. BERNARDO E onde você consegue isso? ERIC Cada um se vira como pode. Mas a gente não vicia. Só experimenta pra relaxar um pouco e aproveitar os momentos que ainda valem a pena nessa vida né. Esse mundo é uma droga, ta tudo no lugar errado. Aí a gente esquece um pouco do resto do mundo pra aproveitar o momento. BERNARDO É… esse mundo é uma droga mesmo. ERIC Olha, a Ana tomou também. Viu como ela ta? Tranqüila… BERNARDO olha para ANA. Ela está viajando na música que está tocando ao fundo, acariciando sua rosa. BERNARDO olha melancólico. BERNARDO (em off) Talvez ela nem se lembre do que me disse antes. Talvez seja o efeito da droga. Ou talvez a droga só tenha ajudado a soltar o que tava preso. BERNARDO (para ERIC) Legal, acho que não mata né. ERIC Lembra, a gente não é viciado. BERNARDO A gente não é viciado. BERNARDO ingere a droga e fecha os olhos. O som das pessoas desaparece e só resta a música de fundo, mais alta. BERNARDO (em off) E agora nada mais importa. É aí que eu deixo de ser eu. Mas acho que nunca tinha sido eu nesse corpo mesmo. Agora só é um eu diferente. BERNARDO abre os olhos. Vemos o que ele vê: só ANA está na sala, sozinha, dançando. Flashes de cenas em negativo: alucinação de BERNARDO. ANA se aproxima e está prestes a beija-lo. BERNARDO acorda da alucinação. Passaram-se poucos segundos. Tudo em volta está do mesmo jeito de antes. ERIC E aí? Já? BERNARDO Só isso? ERIC Depende da pessoa. Às vezes dura horas. BERNARDO Eu já vou. Vou chamar a Ana. BERNARDO vê ANA com um GAROTO baixo. Eles estão dançando juntos. ERIC Não, espera. Ela ta se divertindo. BERNARDO Então cuida dela você. Acho que ela não precisa muito de mim agora. ERIC Ok, chefe. Você manda. Algum problema? BERNARDO Não. Os meus pais idiotas saíram. Eu não avisei que eu vinha. Tenho que chegar antes.


ERIC Da próxima vez venha com mais tempo. Isso aqui vai até amanhã, meu filho. BERNARDO Beleza… Cena 20 EXT. Rua deserta – noite. BERNARDO anda sozinho. Está transtornado. BERNARDO (em off) Não sei por que é assim. Tudo está perfeito e de repente o mundo é uma coisa sem sentido outra vez. Eu odeio essa vida. Eu odeio tudo. Eu odeio a Ana. BERNARDO pára em frente a uma casa bonita, de onde vem uma música alta e as luzes acesas. INT. Casa de Mariana – noite. O lugar está decorado. VÁRIOS JOVENS, cerca de 20, estão conversando, ouvindo música, se divertindo. Uma música lenta toca no fundo. MARIANA está inquieta, olhando o relógio. LUÍS, um garoto com cara de intelectual, se aproxima. LUÍS Tem certeza que falou o horário certo com ele? MARIANA Falei, claro. LUÍS Calma. Ele vem. Liga pra casa dele. MARIANA Ele não ta em casa. LUÍS Então ta no caminho, sei lá. MARIANA Ele ta em outro lugar. Com outras pessoas. Acho que nem é ele. LUÍS O que? MARIANA Nada, deixa pra lá. LUÍS e MARIANA se abraçam perto da janela. BERNARDO vê tudo do lado de fora. EXT: Rua – Noite BERNARDO (em off) A gente demora a perceber quem são aquelas pessoas em que se deve realmente confessar. O “tarde demais” às vezes chega tão cedo. Ou será que somos nós que demoramos a perceber que ainda é tempo? Enquanto ouvimos a música e a voz de BERNARDO, vemos uma colagem de cenas. EXT: Bar – Noite BERNARDO entra no bar e compra uma garrafa de vodca. EXT: Praça – Noite BERNARDO está sentado em um banco de uma praça onde há um pequeno lago. Seus olhos miram o lago mas sua cabeça está bem distante dali. Ele bebe alguns goles. Lágrimas caem de seus olhos mas sua expressão é apática. BERNARDO (em off) É um poço. Ainda não seu sua profundidade mas acho que estou bem perto do fundo. Se ainda não estiver é porque ainda vai piorar. Sempre procurei ser o bom


garoto, sempre fiz o possível para agradar todo mundo. Cheguei até a me anular por causa dos outros. E em troca nunca recebi nada. Nada. Ninguém se anulando por mim. Não sei o que houve, não consigo me lembrar do momento exato em que deixei de ser aquele cara. Cena 21 INT: Casa Abandonada – Noite. ANA está dançando. ERIC a observa. Vemos como ele olha pra ela. ERIC se aproxima e coloca mais uma droga na boca dela. Depois de alguns segundos ela desmaia de repente. TODOS se agitam e se aglomeram em volta deles. ERIC Ana, fala comigo! Ana! PATRÍCIA O que foi, Eric? O que deu nela? OD? ERIC (transtornado) Não. Não sei, acho que não. PATRÍCIA Ah bom porque se ela tiver tido uma overdose… ERIC Não. Ta tudo bem, gente, ela só tava cansada demais. Todos voltam para os lugares e continuam a dançar. PATRÍCIA A gente pode chamar alguém. ERIC Ta louca? Tem uma tonelada de droga dentro dessa casa. PATRÍCIA Mas… você vai deixar ela aí? ERIC (começa a se desesperar) Não. Sei lá, que droga! Ana (ele a sacode) PATRÍCIA Para com isso, Eric. Pode ser sério. ERIC Melhor eu levar ela embora daqui. PATRÍCIA Você não pode me deixar sozinha aqui com esse tanto de gente desconhecida. ERIC Talvez eu volte. Não sei, vou ver o que ela tem. Me ajuda aqui. PATRÍCIA e ERIC tentam remover o corpo desfalecido de ANA. Cena 22 EXT: Céu – Manhã. Amanhece. EXT: Cidade – Manhã. As pessoas caminham pela rua. EXT: Praça – Manhã. Acompanhamos uma delas, uma MULHER distinta, que se veste discretamente. Ela anda alguns passos até passar por um banco em frente ao lago. Ela continua andando, indiferente, mas a câmera focaliza o banco. ALGUÉM dorme lá. Vemos que é BERNARDO. Ele desperta, cheio de dores no corpo. Ele levanta e sente muita tontura e dor de cabeça. BERNARDO se dá conta do que aconteceu, lembrando-se. Ouve uma voz vinda de trás. VOZ Bernardo??


BERNARDO se vira, é uma MULHER distinta, bonita para a sua idade (cerca de 35 a 45), dentro de um carro de luxo. No banco de trás, THIAGUINHO, um garoto de ums 9 anos. BERNARDO Tia Laís?? LAÍS observa as garrafas vazias no chão e o estafo físico de BERNARDO. Está boquiaberta. Cena 23 EXT: Casa de Ana – Manhã. Panorama de uma casa bonita, relativamente rica. INT: Quarto de Ana – Manhã. Vemos agora onde ANA vive. É um quarto que destoa completamente do resto da casa que vimos anteriormente. Há desenhos e pinturas espalhadas por todos os cantos. É um quarto pequeno, com janela, mesa de cabeceira, uma pequena cômoda, uma cadeira e uma cama. ANA acorda. Ela está muito mal, os olhos vermelhos e o rosto inchado. ERIC aparece. ERIC Ei, tudo bem? ANA O que aconteceu? ERIC Você desmaiou e eu te trouxe pra casa. Foi bem difícil pular essa janela com você nas costas. ANA sorri. ANA Sério mesmo. O que houve? Tive uma overdose? ERIC Hahaha.. Não. Não mesmo. Bem longe disso. Acho que você tava, sei lá, cansada demais. ANA Todos nós estamos cansados da vida. A minha rosa? ERIC Calma, ela ta lá, tranqüila. Te garanto que não vai sair do lugar. ANA E o Bernardo? ERIC Ele foi embora logo que você desmaiou. Estava muito estranho. ANA É? Eu preciso conversar com ele. Acho que falei demais ontem. Mas o Bernardo… ERIC (interrompendo) Ana, eu também preciso te dizer… Você é importante pra mim, você sabe. E está mudando a minha vida de novo. O que você diz me toca. A parte mais feliz da semana é quando eu te vejo, na verdade é a única coisa feliz nessa vida. ANA Eric, você está falando sério? Sua vida é ótima, pra você pelo menos vale a pena viver. ERIC Você é a única coisa que vale a pena ser vivida, Ana, eu falo sério. Sabe o que você parece? Uma flor. Uma flor de plástico, sem vida. Parece que sua vida foi roubada, seu brilho, sua beleza. Mas acho que se regar um pouco você pode viver outra vez. Antes que seja tarde demais e a flor se transforma em plástico pra sempre. ANA Eric… eu não sei…


ERIC Não, tudo bem. Eu sou um idiota mesmo. Você sempre soube que eu gostava Se a gente fosse ficar junto já teria ficado. ANA Eric, não fala assim. Aconteceu muita coisa. Eu ainda nem falei para o que a gente já se conhecia antes. ERIC Não, não fala com ele. ANA Por que? ERIC Não sei, acho que ele não vai gostar, ele está obcecado por você. ANA Ele não está. Você não entende ele? Ele só quer… ERIC Ele só quer você. Ele não é assim. Ele só fica desse jeito bobo perto Não sei se o que ele sente é verdade. ANA Mas mesmo assim eu preciso conversar com ele antes. Eu fiquei confusa. dele. ERIC Olha só o que eu guardei.

de você. Bernardo

de você. Eu gosto

ERIC lhe mostra uma foto. Podemos ver o que há nela: ERIC e ANA em uma outra época, com visuais diferentes. ERIC Eu sonho com esse dia todas as noites. Eu estava morrendo de vergonha, olha só. Eu estava morrendo de vontade de te dar um beijo. ANA olha para ERIC. ERIC Me desculpa. ERIC pega a foto e sai pela janela. ANA fica sozinha. Cena 24 INT: Sala da Casa de Bernardo – Tarde. LAÍS está sentada no sofá, bebendo uma xícara de café tranqüilamente. Ao seu lado está RUBENS, visivelmente tenso. E atrás, andando de um lado para o outro, muito nervosa está MAGALI. THIAGUINHO está tranqüilo, mexendo em tudo. Ele faz barulho batendo um boneco em um vidro. Enquanto a cena se desenrola, aumenta a altura, a intensidade e a força de suas batidas. LAÍS Magali, não adianta você ficar assim. Se fosse com o meu Thiaguinho eu saberia na hora o que fazer. MAGALI Mas não aconteceu nada com o Thiaguinho. O problema é com o Bernardo. E eu não vou levantar a mão para ele. LAÍS (levantando-se) Francamente, irmã. Você é muito emocional. O seu filho saiu sem dar uma notícia, passou a noite fora sabe-se lá com quem e me aparece as 10 da manhã do outro dia dormindo num banco de praça no centro da cidade rodeado de garrafas vazias… Você vai ficar parada? RUBENS Ele está passando por um momento difícil. LAÍS Que momento? Ele ao menos se dignou a dizer qual o momento difícil? MAGALI


Ele não precisa dizer pra gente perceber. Dá pra ver. Ele mudou de uma hora pra outra. Deve ter acontecido alguma coisa. Mudar de escola assim, depois mudar de atitude também. Eu não sei mais o que eu faço, Rubens! RUBENS A culpa é nossa. Era nossa obrigação ter notado o primeiro sinal. Mas a gente deixou passar. MAGALI A gente não. Eu sempre dei toda a atenção do mundo pra essas crianças. Eu trabalho 12 horas por dia em casa mas nunca tirei os olhos dos meus filhos. É você que finge ser um pai exemplar o tempo todo. Até parece que você se interessa de verdade. RUBENS Eu faço o melhor que eu posso. Nunca deixei faltar nada dentro de casa. MAGALI Deixou sim. Mas não foi nem dinheiro nem comida. Você deixou faltar outra coisa. RUBENS Você está dizendo que eu deixei de amar os meus filhos? LAÍS Gente, me desculpa, mas acho que vocês estão se desviando. O filho de vocês está lá no quarto esperando que vocês façam alguma coisa pra puni-lo. RUBENS Laís, não se mete. LAÍS Rubens, eu estou dizendo que o Bernardo precisa de um castigo! MAGALI Ele precisa é de atenção. (gritando alto e rispidamente) Thiago, para com isso agora! THIAGUINHO quebra o vidro em que estava batendo com o boneco. INT: Quarto de Bernardo – Tarde. BERNARDO está apático, deitado na cama. BERNARDO (em off) As pessoas procuram por um culpado e tudo o que você faz se torna pequeno diante da grande busca pelo motivo. Como se o motivo importasse. As pessoas culpam os amigos, a família desestruturada, as notas baixas, um amor não correspondido. A culpa é minha. Eu sempre soube disso. RUBENS bate à porta. Ela se abre, mas BERNARDO nem liga. RUBENS Filho, eu tenho uma coisa pra você. BERNARDO levanta os olhos e RUBENS se senta na cama. RUBENS Lembra que quando você era pequeno e pediu de presente de aniversário por três anos seguidos aquela minha câmera antiga de vídeo? (Pausa) Pois é. Eu dizia que você ainda não tinha responsabilidade pra cuidar de uma coisa tão cara e tão grande… Agora acho que você tem. BERNARDO Você vai me dar uma câmera velha que nem funciona mais? RUBENS Não. Eu tava guardando para o seu aniversário, mas acho que não tem problema você ganhar antes. RUBENS coloca uma câmera de indiferente. RUBENS se levanta.

vídeo

digital

perto

de

BERNARDO.

Ele

RUBENS Pega quando você quiser. É sua. Tem uma fita aí dentro e uma bateria nova.

fica


RUBENS sai do quarto. Quando ele fecha a porta, BERNARDO pega a câmera e a examina. INT: Quarto de Bernardo – Noite. BERNARDO filma o seu quarto cuidadosamente e depois se filma. Alguém bate na porta. ERIC entra. ERIC E aí, cara? BERNARDO Oi. BERNARDO continua filmando cada canto do quarto, indiferente a Eric. ERIC Seu pai me deixou entrar, tudo bem? BERNARDO Faz o que quiser. ERIC Ele me pediu pra conversar contigo. Falou que você dormiu na rua, que bebeu demais, e tal. O que é que houve, cara? BERNARDO Nada. Só tava mal demais pra voltar pra casa. Peguei no sono. ERIC O pessoal vai sair hoje. Ta afim? BERNARDO Minha mãe não vai deixar eu ir nem na esquina. ERIC Você nunca faz o que te dá na cabeça? BERNARDO Eu tenho bom senso. ERIC Qual foi a coisa mais ousada que você já fez? Você não pode ser perfeito assim o tempo todo… BERNARDO Eu minto. ERIC Isso não conta. Todo mundo mente. Todo mundo mente pros outros, pra si mesmo, é normal. Não é ousado. Você já matou passarinho? Bateu em alguém mais fraco? Você já roubou? BERNARDO (agora com a câmera focada em ERIC) Você não acreditaria. ERIC Experimenta. BERNARDO (desligando a câmera e guardando-a) A minha turma na escola antiga pagava 45 reais por mês pra fazer a festa de formatura no final do ano. Eu era o tesoureiro da comissão de formatura. ERIC E daí? BERNARDO E daí que isso soma mais de 10 mil reais até o início de setembro. ERIC Você roubou o dinheiro da festa de formatura? BERNARDO Roubei. ERIC Mentira. Você não teria coragem. BERNARDO Ta bom, não roubei mas é claro que teria coragem. Ninguém sabe a quantia certa de dinheiro que entra e sai. Qualquer um poderia roubar o dinheiro. ERIC E onde fica essa grana? BERNARDO


No cofre da escola. ERIC Você tem acesso? BERNARDO Eu sei a combinação. ERIC Não acredito que você não teve coragem. BERNARDO Eu não tive vontade. ERIC Mas se tivesse um bom motivo. BERNARDO Roubaria. Roubaria tudo, não deixaria nem um centavo. ERIC Você me surpreende, cara. E quem tem coragem de roubar 10 mil reais de um cofre não tem coragem de pular a janela e ir pra uma farra escondido? BERNARDO (em off) Sabe quando você quer que o mundo se exploda e que nada mais importa a não ser essa noite que você sabe que não pode perder por motivo nenhum no mundo? Às vezes você ousa. INT: Boate – Noite. JOVENS de várias idades e estilos de se vestir e agir se concentram em um lugar. A música está muito alta. BERNARDO entra, animado, seguido de ERIC, que procura alguém desesperadamente na multidão. Eles encontram PATRÍCIA e ANA. BERNARDO ignora ANA e puxa PATRÍCIA para dançar. ANA fica chocada e sai. ANA chega em um lugar onde a música está mais baixa. ERIC se aproxima. ERIC E aí? O que foi? ANA Nada. ERIC Legal o Bernardo e a Patrícia, né? Combinam. ANA olha para BERNARDO e PATRÍCIA dançando. ANA Eles ficaram? ERIC Ficaram. Logo que ele percebeu que não dava pra te enganar ele procurou a Patrícia. Você sabe como ela é, né? Fica com todos. ANA Eu não sabia. ERIC Ele não quer nem olhar na sua cara, viu? Acho que deve estar com vergonha do que fez. Mas ele é gente boa. ANA Eric, pega alguma coisa pra eu beber? ERIC O que você quer? ANA Qualquer coisa forte. Bem forte. INT: Boate – Noite. BERNARDO e PATRÍCIA estão em um lugar afastado. Ela tenta beija-lo, ele se esquiva. PATRÍCIA Que foi? BERNARDO


Nada. Vamos devagar. PATRÍCIA Bê, a gente vai só se beijar. Isso é ir devagar. BERNARDO Eu sei. PATRÍCIA Você não ta afim? Então por que deu em cima de mim a noite inteira. Achei que você queria ficar comigo. BERNARDO Eu queria… eu quero. PATRÍCIA Você é muito estranho. É por isso que eu gosto de você. PATRÍCIA se vira e se agarra a BERNARDO, de costas para ele. PATRÍCIA E você é muito bonitinho também, sabia? Você tem quantos anos mesmo? BERNARDO 17. PATRÍCIA Dá pra eu te ensinar muita coisa, sabia? BERNARDO Não sei se quero aprender agora. PATRÍCIA desiste. Ela se vira novamente. PATRÍCIA Você não ta afim mesmo né. Olha, quer saber, um dia você me procura. Agora vai resolver esse seu problema com a Ana porque, vou te contar, ninguém merece isso. BERNARDO Isso o que? PATRÍCIA Ah, esquece. PATRÍCIA sai. BERNARDO acende um cigarro e começa a fumar. ERIC se aproxima. ERIC Bernardo, a gente ta indo pra casa. A Ana ta cansada. BERNARDO (soprando fumaça na cara de Eric) Legal. Cena 26 INT: Casa Abandonada – Noite. ERIC, BERNARDO e ANA entram na casa. ANA Eric, cadê o pessoal? ERIC Não sei. Eles devem ter ido comprar bebida. Mas é bom que eu tenho que mostrar uma coisa pra vocês dois. ERIC sai. ANA e BERNARDO se olham. BERNARDO pega sua câmera de vídeo na sua mochila e começa a mexer nela. ANA E a Patrícia? BERNARDO Que tem ela? ANA Ela não quis vir? BERNARDO Sei lá, ela sumiu. ANA


Bernardo, eu não consigo entender você. BERNARDO Calma aí… Você era a garota traumatizada e incompreensível aqui. ANA Deixa de ser grosso. Estou tentando chegar na boa, te perguntar o que aconteceu. A gente tava indo tão bem. BERNARDO Como eu vou saber se você não estava dopada quando a gente conversou. Sinceramente, eu não te conheço Ana. Foi tudo rápido demais. Não sabia que você era como esse pessoal. ANA Eu sou uma humana como você. BERNARDO Eu achei que você era superior. Você é superior. Você não precisa dessa droga toda. ANA Você também não. BERNARDO Eu preciso. É a única coisa que me resta. Esse lixo de casa, esses amigos desconhecidos. E você. ANA Eu não sei mais se acredito ou não em você. BERNARDO Eu nunca menti pra você. Só pra mim mesmo. Eu achava que queria mudar de vida mas acho que no fundo tudo o que eu quero é chamar atenção, é fazer a diferença na vida de alguém. Sabe quando você me perguntou o que eu queria da vida? Eu pensei que queria ser você. Porque você tinha sido a coisa mais perfeita que eu já tinha encontrado. Madura, independente, decidida. ANA Eu não sou perfeita. Ninguém é. Ninguém precisa ser. O que é a perfeição? É o que os outros acham de você. Foda-se. Ninguém precisa ser perfeito. Você só precisa ser inteiro. BERNARDO liga a câmera. BERNARDO 1, 2, 3… gravando! BERNARDO Então? É a sua vez. Se você tivesse uma oportunidade de ser completamente honesta consigo mesma uma vez na vida e ser fiel a todos os seus instintos e vontades, o que você faria? O que você diria? ANA Eu quero ser feliz. Eu fui feliz com a minha mãe. Acho que vou ser feliz quando eu conseguir sair dessa porra de país. Mas eu quero ser feliz agora. Porque a felicidade não passa de um minuto. BERNARDO aproxima-se de ANA com a câmera. Até que a deixa de lado e seu rosto se aproxima para um beijo. ERIC chega, interrompendo. ERIC (empolgado) Gente (desanima-se ao ver a cena). BERNARDO pega constrangida.

a

câmera

e

a

desliga,

colocando-a

num

canto.

ANA

fica

ERIC Eu peguei com um dos caras uma coisa. Bernardo, aquela seringa que eu te dei está aí com você? BERNARDO pega uma seringa na sua mochila e a entrega a ERIC. BERNARDO e ANA observam apreensivos o que ERIC faz. Ele tem uma colher na mão, a outra acende um isqueiro e esquenta a colher, fazendo ferver a solução em alguns segundos. Logo depois ele pega a seringa e puxa o líquido.


ERIC Pronto. Quem é o primeiro? BERNARDO Eric, você ta doido? ERIC Doido? Não. A gente quer se divertir, não é? Então vamos fazer direito. Ana, primeiro as damas. BERNARDO Não, espera, você não sabe se ela quer. ERIC Ela quer. Não quer, Ana? Você já fez isso antes. BERNARDO se assusta. Vemos um close de sua expressão. ERIC Não é, Ana? Diga como foi usar heroína pela primeira vez? BERNARDO Cale a boca, Eric. ERIC Vamos parar com isso. Então você, Bernardo. Vamos. BERNARDO está em dúvida. BERNARDO e ANA se entreolham. BERNARDO (em off) Tem momentos na vida que a gente só queria estar em qualquer outro lugar, ser qualquer outra pessoa só para não ter que escolher. Eu estou com medo do que pode acontecer. Temo por mim, temo por Ana. ANA Não, eu vou primeiro. ANA caminha em direção a ERIC arregaçando as mangas. Cena 27 INT: Quarto de Bernardo – Noite. MAGALI está do outro lado da porta, não a vemos, mas a ouvimos bater na porta e falar. MAGALI Bernardo, filho. Você está bem? Dormiu a tarde toda. O que foi? Bernardo? MAGALI entra no quarto. Ela vê que ele não está lá. INT: Sala da casa de Bernardo – Noite. MAGALI entra exasperada, RUBENS está lendo o jornal e LÍVIA ouvindo música num fone de ouvido. MAGALI Rubens, o Bernardo desapareceu. RUBENS O que? Não é possível. Ele fugiu? LÍVIA Ele fugiu de vocês. MAGALI Lívia, cale a boca, não vê o que está acontecendo? Estamos perdendo ele. Estamos perdendo o Bernardo (ela começa a chorar). RUBENS Vamos pensar com calma. Que horas ele saiu? MAGALI (desesperada) Sei lá. RUBENS


Eu vou procurar pelo bairro, ele pode estar perto. No caminho eu ligo para o celular dele. RUBENS sai pela porta. LÍVIA Liga pros amigos dele. Aquele Eric, ou então a Mariana. Ela sempre sabe onde o Bernardo está. MAGALI Boa idéia. (ela pega o telefone e disca um número, espera chamar e atender) Alô, Mariana? INT: Casa de Mariana – Noite. MARIANA (com cara de sono) Oi, dona Magali. Não, o Bernardo não passou por aqui hoje, tem dias que eu nem sei nada dele. INT: Casa de Bernardo – Noite. MAGALI Mariana (chorando) você precisa me ajudar. Você sempre foi a melhor amiga do Bernardo. O que eu faço? Eu estou ficando louca… INT: Casa de Mariana – Noite. MARIANA (pausa) Eu acho que eu sei onde a senhora pode encontrar ele. (ela pega o papel com o endereço da casa abandonada no bolso). INT: Casa de Bernardo – Noite. MAGALI (pegando papel e caneta) Sei. Ta bom, eu vou direto pra lá. INT: Casa de Mariana – Noite. MARIANA A senhora quer que eu vá junto? Não precisa… Então ta. De nada. Se encontrar me liga ta? MARIANA desliga o telefone. Se senta e olha para uma foto antiga da turma: Mariana, Bernardo, Paulo, Vítor e Laís. Cena 28 Colagem de cenas, sem áudio, só a música de fundo. EXT: Rua – Noite. MAGALI está dirigindo o carro, tentando não se desesperar. INT: Carro – Noite. MAGALI chora, ouvindo uma música no rádio. INT: Casa Abandonada – Noite. BERNARDO observa o buraco feito pela agulha em seu braço e olha para ANA, que está chorando. ERIC está viajando, bebendo. BERNARDO chora também. MAGALI entra na casa, todos se assustam. Ela arrasta BERNARDO pelo braço, ele se debate. Close na câmera de BERNARDO, esquecida por ele no canto. ERIC a vê. INT: Carro – Noite.


BERNARDO e MAGALI não dizem nada, estão voltando pra casa. Cena 29 INT: Quarto de Bernardo – Noite. BERNARDO está deitado, extremamente chateado. BERNARDO (em off) Não tenho mais controle sobre nada. As coisas simplesmente acontecem. Tudo o que faço só serve pra aumentar ainda mais o meu buraco. Eu não estou nem aí para a minha mãe, esse não é o drama da minha mãe. Não é o pesadelo dela. Eu não quero que ela sofra porque esse é o meu fundo do poço. Só meu RUBENS entra no quarto, violentamente. BENRARDO se assusta. RUBENS O que você pensa que está fazendo com sua vida, garoto? Você acha que tem o direito de desistir de tudo o que nós nos matamos pra construir pra você? Acha? BERNARDO fica em silêncio. RUBENS lhe dá um tapa na cara. RUBENS Me responda! Olhe nos meus olhos quando eu converso com você. MAGALI entra no quarto também. MAGALI Rubens, para com isso! RUBENS bate no rosto de BERNARDO mais uma vez. RUBENS O que é? Não vai responder? Não é homem para assumir seus erros? MAGALI Rubens! Pára! RUBENS Você só traz desgosto pra essa família! Você sempre foi o desgosto. Você nunca foi um bom filho. Nunca! BERNARDO Será que você sempre foi um bom pai? RUBENS O que? BERNARDO Você sempre esteve por perto, mas só pra dizer que estava. Você nunca se importou. Nunca esteve realmente presente na minha vida nem na de ninguém. RUBENS E você? Você não tem coragem de encarar os seus problemas. Não tem coragem nem de assumir. Eu na sua idade já era um homem de verdade. E você é um idiota! Um burro! Um otário. BERNARDO Vai se foder! RUBENS Você se acha muito responsável, não é? Então por que você não sai de uma vez daqui? BERNARDO Só estava esperando você me pedir. BERNARDO se levanta e vai saindo do quarto. RUBENS


Nunca mais volte nessa casa. Nunca mais se dirija a mim como pai. Você não é nada. Você está sozinho no mundo. Nunca mais volte aqui. Ouvimos a porta bater. RUBENS olha para MAGALI. MAGALI (chorando) Eu nunca mais vou te perdoar. MAGALI sai do quarto. Cena 30 EXT: Rua – Noite. BERNARDO anda. BERNARDO (em off) Às vezes você fica sozinho. E mesmo que você grite muito alto, tão alto que estoure seus pulmões, ninguém vai te ouvir. Por que ninguém está nem aí. E mesmo que alguém ouvisse, quem se importaria? EXT: Rua iluminada – Noite. BERNARDO bate a campainha em uma casa. diferente, mais arrumada e perfumada.

PATRÍCIA

abre

a

porta.

Ela

está

PATRÍCIA Bernardo? PATRÍCIA vai até ele. PATRÍCIA Oi. O que faz aqui essa hora? BERNARDO Eu não tenho pra onde ir. PATRÍCIA E a casa? O que aconteceu? BERNARDO Não dá, não quero voltar pra lá. PATRÍCIA Cara, não dá pra você ficar aqui. Você entende, né? Meus pais estão aqui e… Um GAROTO chega por trás de PATRÍCIA e a abraça. Ele é ÍGOR, o mesmo cara que importunou ERIC na praça. ÍGOR E aí? O que aconteceu? PATRÍCIA Nada, o Bernardo ta indo embora, né, Bernardo? ÍGOR Tchau, cara (ele estende a mão) BERNARDO vira as costas, ignorando. Ele anda. EXT: Praça – Amanhecer. Estamos na mesma praça em que BERNARDO viu ANA pela primeira vez. Ele vê o nascer do sol, sozinho e com frio. EXT: Rua – Dia. BERNARDO anda, fumando. Parece atordoado.


Cena 31 EXT: Casa Abandonada – Dia. BERNARDO entra. INT: Casa Abandonada – Dia. BERNARDO estranha. A música é diferente, as pessoas são diferentes. Ele não conhece nenhum rosto. BERNARDO caminha até achar ERIC, que também está perdido. BERNARDO O que está acontecendo aqui? ERIC E aí, Bernardo. Como foi ontem? BERNARDO Eric, me diz o que está acontecendo! ERIC Sei lá, um dos caras deve ter chamado esse pessoal. Eu não conheço muito bem, mas ouvi dizer que é coisa pesada. BERNARDO Como assim? ERIC De crack pra cima, coisa que fode com o seu cérebro. BERNARDO Crack? ERIC E coisa pior. Coisa que eu nem conheço. Ácido, heroína, tem de tudo. BERNARDO E por que você ta aqui? ERIC Bernardo, sabe aquela heroína de ontem? Eu consegui com eles. Não posso sair daqui. Eu preciso pagar. BERNARDO Quanto é? ERIC Muito. Não foi só a heroína, eu devo muito dinheiro pra eles. O líder é o Cachorro. Ele me mata se souber que eu tou sem dinheiro. O que a gente faz? Vemos o que BERNARDO e ERIC vêem: o CACHORRO, uma espécie de líder de todos. BERNARDO O que você faz, né? Estou fora disso. Eu não devo nada. ERIC Você consumiu, Bernardo. BERNARDO Você ofereceu. Quanto você deve, cara? ERIC Uns 5 mil, sei lá. BERNARDO 5 mil? É muito dinheiro, cara! ERIC Eu sei. Eu consegui arrumar, mas eu não posso dar pra ele agora. Ainda não ta comigo. BERNARDO Eu acho que esqueci minha câmera por aqui. Você viu ela? ERIC Eu vi. Ta no quarto. Eu coloquei lá pro pessoal não mexer. CACHORRO se aproxima deles. Junto com ele, seus CAPANGAS, fortes e grandes. Uma mulher entra na casa, estranhando tudo e se livrando da fumaça. Ela é LEONORA, muito fina, se veste de maneira elegante e rica. ERIC a vê e se desespera.


BERNARDO Quem é? ERIC Minha mãe. LEONORA vê ERIC e vai até ele. LEONORA Eric, vamos embora agora! ERIC Não posso! LEONORA Não quero nem saber. Tem dias que você não aparece em casa. Ta todo mundo comentando. Vamos agora! ERIC Mãe, para! LEONORA Eric! Você vai vir comigo agora, você não tem vergonha? ERIC Não quero ir. LEONORA Não tem que querer! Você vai! ERIC olha para BERNARDO. LEONORA Lá fora em 1 minuto ou então pode se considerar morto. LEONORA sai. Todos da casa ZOMBAM de ERIC. ERIC Me ajuda, cara! ERIC sai. CACHORRO olha para BERNARDO. Todos se aproximam dele. CACHORRO O seu namorado deixou o dinheiro com você? BERNARDO Que dinheiro, cara? CACHORRO Ele me deve. Mas você mesmo pode pagar. BERNARDO Não, vamo conversar primeiro. CACHORRO levanta a mão para bater em BERNARDO. ANA entra e grita. Ela se joga na frente de BERNARDO. CACHORRO E aí? Vai brigar como homem ou vai deixar a sua namorada te defender? ANA Cala a boca, André! CACHORRO (pegando no pescoço dela) Ninguém fala assim comigo… Aninha. ANA O Bernardo paga mas ele não ta com o dinheiro agora. CACHORRO Quem me garante que ele não vai dar o calote? ANA Eu garanto. Ele paga. CACHORRO Só porque você me pediu, Aninha. BERNARDO Alguém me explica o que está havendo. De onde saíram esses caras?


ANA Devendo dinheiro pra ele? Você ficou doido, Bernardo? BERNARDO Não fui eu, foi… ANA Não se mete com ele. Você não era pra nem ter conhecido ele. Esse cara é perigoso. Vamos, vai pra casa. BERNARDO Quem é ele? Você conhece, né? ANA Vai pra casa agora. BERNARDO Eu fui expulso. Ou fugi, sei lá o que aconteceu. Eu sei que não dá pra voltar pra lá. ANA E onde você espera ficar? BERNARDO Eu não tenho idéia. Cena 32 INT: Casa Abandonada – Noite. As coisas estão as mesmas. ANA e BERNARDO num canto, bebendo e fumando. CACHORRO se aproxima. CACHORRO Aí, a gente vai nessa. Mas eu sei onde vocês moram. Se vocês sumirem eu acho. CACHORRO e os outros vão saindo da casa. BERNARDO Acho que dá pra ficar aqui por hoje. ANA Que droga, por que você está assim? Você era diferente. Você tinha sonhos. Você ia ser alguém. BERNARDO Não. Eu nunca ia ser ninguém. Eu nunca fui ninguém. Eu nunca fiz o que eu tinha vontade e agora que eu comecei, veja no que deu. Eu sou um idiota. Tinha uma vida perfeita e fiz questão de estragar. ANA A gente não sabe que é bom até perder, não é o que dizem? Começa uma música. BERNARDO olha para os restos de bebida e de comida que bagunçam a casa. Ele tenta arrumar um lugar para se deitar. ANA pega uma bebida e vai tomando durante a conversa. BERNARDO Sabe aquele desenho que você me deu? ANA As flores de plástico? BERNARDO São você, né? ANA É o meu auto-retrato. BERNARDO Ana, o que vai ser das nossas vidas? Imagina, daqui a dez anos? O que vai acontecer? ANA Eu já te disse. Qualquer coisa eu fujo daqui. BERNARDO Você tem o seu pai, né? ANA Não. Eu só tenho um dinheiro guardado. Não é muito mas aos poucos eu consigo ir juntando pra ir para a Itália. Eu sei que talvez ele nem me conheça, talvez não


acredite em mim, talvez até me odeie, talvez tenha outra família. Mas eu quero vê-lo. Sabe, seria uma grande realização. Queria estudar artes por lá também, começar tudo de novo. BERNARDO Por que começar de novo? Já acabou tudo aqui? ANA (ela muda de expressão) (está um pouco bêbada) Que droga! Eu sei lá. Eu não sou nada. Itália? Eu? Acho que é uma coisa que não vai acontecer nem em mil anos. BERNARDO Quem sou eu pra te dizer pra acreditar nos sonhos? ANA (chorando, mas tentando sorrir) A gente não é nada. A gente foi esquecido pelo resto do mundo. BERNARDO Nada! ANA tropeça e cai nos braços de BERNARDO. Close no rosto dos dois, muito próximos. ANA E aí? Se você pudesse fazer, agora, tudo o que te desse vontade, qualquer coisa no mundo inteiro, se você tivesse o poder de não pensar nas conseqüências… o que você faria? BERNARDO fecha os olhos, pensando. ANA Outra pergunta difícil. ANA vai se afastando. BERNARDO a segura. BERNARDO Espera. Eu acho que sei responder. BERNARDO e ANA se beijam, longamente. BERNARDO (em off) Quando você fala tudo o que tem que falar, tudo o que está entalado na garganta, você se sente mais leve. É ainda melhor quando você não fala nada, quando você faz, sem pensar no depois. INT: Quarto da Casa Abandonada – Noite. A Música que começou na cena anterior está ainda mais alta. Vemos uma colagem de cenas. BERNARDO e ANA se beijam. BERNARDO tira a camisa e depois tira a blusa de ANA. A cena fecha em close na janela, onde a Lua brilha. Vemos um close também da rosa de ANA. Cena 33 INT: Quarto da Casa Abandonada – Manhã. BERNARDO está deitado na cama. O sol bate em seus olhos, ele desperta. Olha para os lados, ANA não está lá. INT: Corredor da Casa – Manhã. BERNARDO se posta na porta do banheiro. Podemos ver que ANA está lá, vomitando na privada. Ela levanta e olha para BERNARDO. BERNARDO O que ta acontecendo? ANA Eu bebi demais. BERNARDO Quer que eu ligue para alguém?


ANA Bernardo, ligar pra quem? BERNARDO Acho que deve ter algum remédio por aqui. INT: Quarto da Casa Abandonada – Manhã. BERNARDO entra no quarto e ANA o segue. Ele começa a procurar alguma coisa em uma cômoda. BERNARDO Um comprimido, você sabe se tem alguma coisa dessa por aqui? ANA está apreensiva. BERNARDO vê uma foto. Vemos que é a foto de ERIC e ANA juntos. BERNARDO (perdendo o desespero) Que dia vocês tiraram essa foto? ANA Não sei. Um dia desses. BERNARDO Não. Vocês estão bem mais novos aqui. Que foto é essa? Você já conhecia o Eric antes? ANA não responde. BERNARDO Você conhecia o Eric? ANA Eu conhecia. Eu conheci ele quando a gente era criança. Mas o que isso importa? BERNARDO É por isso. É por isso que ele te olha daquele jeito. ANA Bernardo, não começa. Isso é idiota! BERNARDO Ele não pode fazer isso! ANA Não pode o que? A gente não tem nada, lembra? A gente não tinha nada até ontem? BERNARDO (começa a chorar) Vocês me enganaram. As únicas pessoas no mundo inteiro em quem eu posso confiar e vocês estão me enganando? ANA Não é isso, cara! O que importa isso? BERNARDO Importa pra mim! ANA Olha, eu sei. A gente não devia, mas o tempo foi passando e nem precisou. BERNARDO Eu não acredito nisso. BERNARDO sai com a foto na mão. INT: Cozinha da Casa – Manhã. BERNARDO entra rapidamente, acende um fósforo, liga o fogão e queima a foto enquanto discute com ANA, que o segue. ANA Bernardo, você está fazendo uma tempestade num copo d’água! BERNARDO Justo o Eric? ANA O que tem o Eric?


BERNARDO Como se você não soubesse. Foi ele o tempo todo. A culpa foi dele o tempo todo. Sempre. Foi ele que me trouxe aqui, foi ele que me ofereceu essas coisas. É ele. Sabe o dinheiro que o Cachorro tava falando? É ele que deve. Ele que me mudou. ANA Não acredito no que você está falando. Ele tava lá quando minha mãe morreu. Ele sempre esteve lá. BERNARDO Ele quer você, ele quer tirar você de mim também. ANA Como ele pode me tirar de você se eu nunca fui sua. ANA vai embora. BERNARDO pragueja e joga um copo na parede. Cena 34 INT: Casa Abandonada – Tarde. BERNARDO está sozinho, pensando, triste. Ele chuta uma garrafa. Fuma um pouco, apaga o cigarro logo em seguida. Tira uma almofada do lugar e encontra o celular. Pega e disca um número. INT: Casa de Bernardo – Tarde. MAGALI está deprimida, num canto. LÍVIA está mais adiante, preocupada, sem saber o que fazer. O telefone toca. MAGALI se desespera. MAGALI Alô. INT: Casa Abandonada – Tarde. BERNARDO não tem coragem de falar nada. INT: Casa de Bernardo – Tarde. MAGALI Bernardo! Filho (ela chora) Volta pra casa! Fala comigo, filho! INT: Casa Abandonada – Tarde. BERNARDO desliga. INT: Casa de Bernardo – Tarde. MAGALI chora com o telefone na mão. RUBENS passa por ela com malas na mão. Eles se olham, closes alternados em seus rostos. LÍVIA abraça o pai, mas ele não reage. Ela sai. RUBENS sai da casa. MAGALI continua chorando, mas não faz escândalo. INT: Casa Abandonada – Noite. BERNARDO rega a flor de ANA. Cena 35 EXT: Cidade – Fim de Tarde. Percebemos que alguns dias se passaram. BERNARDO está andando na rua. A roupa ainda é a mesma, ele está bem diferente, deprimido. BERNARDO (em off) Eu ouvia uma música que dizia o seguinte: eu ando pelo mundo, e meus amigos, cadê? Minha alegria… meu cansaço… meu amor, cadê você? Eu acordei e não tem ninguém ao lado.


EXT: Rua – Fim de Tarde. BERNARDO vaga. Chega a um cinema onde estão vários ADOLESCENTES. Então, vê ANA. E logo depois, ERIC, ao seu lado. Eles conversam, estão muito felizes e bem diferentes. BERNARDO (em off) É agora! BERNARDO se aproxima. ERIC se surpreende. ANA teme. Todos os ADOLESCENTES olham. BERNARDO E aí, gente? Como é que vão? Tudo bem? ANA Bernardo, para com isso. ERIC E aí, Bernardo? Como tem passado? BERNARDO Como eu tenho passado? Hahaha! ERIC Calma, cara, tou perguntando na boa. ANA Bernardo, calma! LEONORA chega com ingressos para o cinema na mão. LEONORA O que você ta fazendo aqui, seu delinqüente? ERIC Tudo bem, mãe. LEONORA Tudo bem nada. Não sei se você percebeu mas sua roupa não ta adequada para o lugar. Aliás, só a roupa não. Você inteiro está inadequado. Quando você vai perceber que tem que ficar longe do meu filho? BERNARDO O que? LEONORA Foi você. A culpa é sua. Desde que você apareceu, só trouxe problemas. Vai embora daqui agora antes que eu chame a segurança. LEONORA vira as costas. ERIC olha para BERNARDO e a segue. ANA Bernardo, o que te deu pra aparecer aqui? BERNARDO Eu achava que a flor de plástico tinha conseguido ganhar vida. Mas eu to vendo que essa vida não era a que ela queria ter. ANA Bernardo, você ainda ta fumando, bebendo? Dá pra sentir daqui o cheiro. BERNARDO Você me diz isso? Esqueceu que foram vocês que me ensinaram? ANA Mas a gente não ta mais nessa. Nem eu nem o Eric. E você deveria sair também. Dá um jeito na vida. BERNARDO E depois? ANA Não tem depois. Não tem antes. Nunca teve agora. ANA segue ERIC e LEONORA. EXT: Rua – Fim de Tarde. BERNARDO observa a entrada da casa de MARIANA. MARIANA e LIA vêm descendo a rua.


LIA Nossa, esse ano ta passando tão rápido! Quem imaginaria, hem? Você e o Luís deram certo mesmo, né? MARIANA Pois é. LIA Pois é. Falando nisso, o Vitinho chamou a gente pra ir pra casa dele na sexta à noite. Vamos? Ver um filme, conversar… MARIANA Claro! LIA Então tchau, querida! Elas se cumprimentam. LIA vai embora. MARIANA entra. BERNARDO assobia. Ela se volta e vai ao seu encontro, rápido. MARIANA Bernardo! (eles se abraçam) Onde você andou? Ta todo mundo preocupado! BERNARDO Eu estive fora. Acho que nunca estive tão fora. MARIANA Olha, eu não vou perguntar nada. Você sabe o que você faz. BERNARDO Sei nada. Se soubesse que seria isso, talvez não teria feito. MARIANA Teria sim. BERNARDO E aí? Eu não tinha mais o que fazer, nem pra onde ir, resolvi te perguntar como anda a vida. MARIANA Não mudou muita coisa. Você faz falta. Está sempre nos nossos assuntos, é como se você ainda estivesse entre nós. Aí a gente se lembra que não é assim e… BERNARDO Eu sei. MARIANA Eu sei que eu não deveria estar me metendo, mas eu nunca mais te vi junto com aquele seu amigo da escola nova, o Eric. BERNARDO Por que? Você tem visto ele? MARIANA Ele mudou pra nossa escola, está fazendo o maior sucesso com o pessoal. BERNARDO Sério? Em tão pouco tempo? MARIANA É o assunto da semana. Acho que teve uma festa na casa de um daqueles garotos idiotas e o Eric… BERNARDO O que tem ele? MARIANA Bom, me disseram que ele estava fornecendo drogas pro pessoal. Tipo dessas coisas mais fracas só pra animar. E pelo que eu soube está ganhando bem. BERNARDO Tem certeza? Ele está vendendo drogas? MARIANA O que você vai fazer? BERNARDO E essas festas? São onde? MARIANA Acho que tem uma hoje. Agora é festinha todo dia. BERNARDO Você se importaria de ir até lá comigo? MARIANA Bom, eu tenho umas coisas pra fazer.


BERNARDO Por favor. Cena 36 EXT: Casa de Luxo, piscina – Noite. Alguns ADOLESCENTES estão animados, jogando sinuca, bebendo, gritando, falando. Vemos uma visão panorâmica deles. ERIC está no meio, de óculos escuros e com um celular na mão. Um GAROTO passa perto e lhe entrega algo despistadamente, pegando outra coisa em troca. O GAROTO se afasta rapidamente. MARIANA e BERNARDO entram na festa, estão procurando por ERIC. O celular de ERIC toca. Ele olha o número do identificador e sua expressão muda, está com medo. BERNARDO se aproxima. MARIANA fica longe. ERIC Oi. Não, tudo bem. Calma, cara! Você sabe que eu vou te pagar. Eu vou pagar. Eu sei o quanto eu devo! Cachorro, dá pra você acreditar em mim, cara! Eu não vou furar. Eu sei o que você pode fazer, não precisa… Espera, cara… ERIC levanta os olhos e vê que BERNARDO ouviu tudo. BERNARDO Achei que você tinha saído dessa. ERIC Bernardo, você conhece minha mãe, me desculpa, cara… BERNARDO Era o Cachorro, né? Quanto você deve pra ele? ERIC (pausa) 5 mil reais, já te disse. BERNARDO Eric, como você vai pagar isso? ERIC Eu descolei um negócio… BERNARDO Eu sei. Mas não dá pra tirar 5 mil vendendo lança-perfume pra esses caras mimados, cara. Não dá. ERIC Me ajuda. BERNARDO Como? ERIC Lembra o dinheiro da festa de formatura? BERNARDO Que é que tem? ERIC Me ajuda, Bernardo. Eles vão me matar. BERNARDO Eu não. O que eu vou ganhar com isso? ERIC Eu conto pra ela. Eu conto toda a verdade. Eu vou contar. Eu digo que foi tudo culpa minha. BERNARDO Eu não acredito mais em você. ERIC Cara, eu tou desesperado. Tem uma arma na minha cabeça. Eu tou falando de morte mesmo, cara. Eu preciso de 5 mil reais. E aí eu conto tudo pra Ana. BERNARDO Como você consegue me controlar? ERIC Você vai fazer? Tem uma porta que fica sempre aberta, eu já chequei. BERNARDO Não estudo mais na escola, esqueceu? ERIC


Mas eu estudo. E tem a Mariana também. BERNARDO olha pra MARIANA, que acompanha a conversa, de longe. Ela está tensa. Cena 37 EXT: Lado de Fora da Escola – Noite. MARIANA e BERNARDO estão em frente à escola. MARIANA Olha, eu vim com você até aqui, mas não dá mais. Eu não posso fazer isso. BERNARDO Você tem que me ajudar a entrar lá. MARIANA Não, cara. Eu já fiz muita coisa por você e não lembro de ter recebido em troca. BERNARDO Mariana, me desculpa. Me desculpa por tudo o que eu fiz e por tudo o que eu vou fazer, mas me ajuda agora. Eu preciso disso. MARIANA Não dá, esquece. Entra lá e acaba com isso. BERNARDO Você vai falar pra alguém? MARIANA Não, eu nunca estive aqui. MARIANA se afasta até desaparecer. BERNARDO olha para a escola. Começa música agitada. BERNARDO pula o muro, por trás, entre as sombras. EXT: A Porta dos Fundos – Noite. BERNARDO observa se há alguém e força a porta até abri-la. INT: Corredor escuro – Noite. BERNARDO se esgueira. INT: Corredor – Noite. BERNARDO encontra uma sala. Olha em volta mais uma vez e tenta destrancá-la com um grampo. INT: Sala – Noite. BERNARDO entra na sala e acende uma lanterna, vai até um cofre escondido atrás de um armário. Um alarme soa. BERNARDO se desespera. A luz acende por trás dele. Vemos o que ele vê: o rosto sonolento de um dos seguranças. SEGURANÇA Mas… que diabo… Cena 38 INT: Delegacia – Noite. Vemos BERNARDO sentado, em pânico, com os olhos vidrados, em um canto de uma sala de espera. MAGALI se aproxima e se senta do seu lado. Está muito tensa, mas aliviada por tê-lo encontrado. MAGALI Tudo bem? BERNARDO


Eles disseram que eu estou drogado, né? MAGALI Sim. (pausa) Mas vamos esquecer. O seu pai já deve estar chegando. Ele está passando um tempo na casa da sua avó. Mas acho que ele vai voltar agora. Acho que é a melhor coisa pra todos nós. Você quer ir? BERNARDO olha inexpressivo.

para

MAGALI.

Uma

lágrima

cai

de

seus

olhos,

mas

ele

está

BERNARDO (em off) Mesmo quando tudo está no lugar errado, quando todos os seus amigos não são mais seus amigos, quando a vida está uma droga, tem sempre um lugar pra você voltar, aonde ninguém nunca vai te condenar por você ter errado. E eu nunca pensei que um dia ia querer tanto voltar pra lá. Mas às vezes você quer. BERNARDO balança a cabeça. MAGALI Então vamos logo, daqui a pouco ta amanhecendo. BERNARDO e MAGALI se levantam. MAGALI abraça o filho, que está envergonhado. Ela chora um pouco. MAGALI Que bom que você voltou. BERNARDO a abraça também. MAGALI Tudo vai ficar bem… Cena 39 INT: Casa de Bernardo – Madrugada. RUBENS E LÍVIA estão sentados num sofá. RUBENS está apreensivo, inquieto. LÍVIA está preocupada. MAGALI entra em casa. BERNARDO entra atrás. LÍVIA pula no pescoço dele. LÍVIA Bernardo! Que bom! A gente sentiu sua falta. BERNARDO tenta sorrir. RUBENS se dirige a ele. RUBENS É bom ter você aqui. Eu queria que você pudesse me perdoar. Todo mundo estava muito nervoso. RUBENS abraça BERNARDO desajeitado. INT: Quarto de Bernardo – Madrugada. BERNARDO acende a luz e vê tudo como ele deixou, tempos atrás. BERNARDO olha o desenho de ANA e depois se vê no espelho. BERNARDO (em off) É a primeira vez em muito tempo que eu me olho no espelho. Há algum tempo atrás eu só queria mudar. Eu consegui. Eu consegui olheiras enormes, um aspecto horrível e fui pego com dinheiro roubado e drogas. E eu só queria mudar. Só queria viver. Às vezes você se cansa. BERNARDO chora desesperado e quebra o espelho. INT: Quarto de Bernardo – Madrugada.


Vemos o que BERNARDO vê: A TV, onde passa o filme de ANA. BERNARDO adormece. Cena 40 INT: Casa de Bernardo, sala – Manhã. MAGALI está colocando tudo em ordem. A campainha toca. Ela abre a porta. É ANA, que parece bem nervosa e inquieta como nunca. ANA Eu posso ver o Bernardo? MAGALI Ele está descansan… BERNARDO aparece por trás de MAGALI. BERNARDO Tudo bem, mãe. MAGALI sai. ANA (muito nervosa) Diga que não foi você. BERNARDO O que aconteceu? ANA (pegando no braço de Bernardo, quase desesperada) Diga! Olha no meu olho e diga! BERNARDO O que? Fica calma! ANA (ela se afasta) Calma? Meu sonho acabou. Minha vida acabou. Você sabia disso. BERNARDO Ana, eu não entendo. ANA O meu dinheiro desapareceu. O dinheiro que eu junto há 10 anos. 10 anos, você tem noção disso? BERNARDO fica atônito. ANA Diga que não foi você, por favor. BERNARDO Por que eu pegaria o seu dinheiro? ANA Eu odeio você! (ela bate nele, mas pára, sem forças, e chora, escondendo o rosto) ANA Por que você não me disse que precisava de dinheiro? BERNARDO Eu não sei do que você está falando. ANA O Eric me contou tudo. Me contou que você estava com uma dívida com o Cachorro, que você estava vendendo drogas. Ele me contou do roubo na escola. Bernardo, eu teria entendido. Por que? BERNARDO Eu não fiz nada disso! Aquele garoto é doente! Foi ele! ANA Sempre ele, sempre ele. Bernardo, você sempre joga a culpa nele. BERNARDO Mas o que… ANA Eu vou ter que ficar nesse fim de mundo pra sempre! Por culpa sua! BERNARDO Calma. Você vai pra Itália, você vai conseguir.


ANA Conseguir nada. Eu não vou conseguir nada. Eu nunca vou conseguir sair dessa porra de país, nem mudar essa vida de merda! BERNARDO (emocionando-se e se aproximando) Ana… ANA (mais calma) Eu sei, Bernardo. BERNARDO Eu não fiz nada… ANA Eu sei, dentro da sua câmera. BERNARDO O que? ANA Estava lá dentro. O Eric encontrou. Eu achei que não tinha sido você, mas… BERNARDO Não fui eu… Ana, você viu? ANA Não… BERNARDO Então? Você vai acreditar nele de novo? ANA Eu te odeio. ANA sai, chorando, correndo. BERNARDO chuta um móvel gritando. Cena 41 INT: Casa Abandonada – Tarde. ERIC entra na casa, está um pouco chapado. mauricinhos estão lá, fumando e bebendo.

PATRÍCIA,

ÍGOR

e

mais

alguns

ERIC Patrícia! PATRÍCIA Eric? O que você ta fazendo aqui? ÍGOR E aí, otário? Você está incomodando a gente. Dá pra ir embora? ERIC Não se mete! PATRÍCIA O que você quer, Eric? ERIC Eu preciso me esconder aqui. ÍGOR A área é nossa agora, rapaz. A gente que manda aqui. Você não é mais nada. PATRÍCIA Volta pra sua mãezinha, você ta bêbado. ÍGOR É, cara, sai daqui agora. ERIC sai. EXT: Casa Abandonada – Tarde. ERIC está desesperado. Ele pega o celular e disca um número. ERIC (disfarçando a voz) Oi. Eu queria fazer uma denúncia anônima… é… Não, não é trote. Tem um pessoal suspeito em uma casa… é, isso…


Vemos o ódio nos olhos de ERIC. Agora vemos ERIC de costas enquanto ele fala. Ele percebe, se vira. O seu celular cai no chão. Vemos o que ele vê: CACHORRO. CACHORRRO E aí? Já ta com a grana? ERIC O que vocês vão fazer? A gente ta no meio da rua. CACHORRO Eu não tô vendo ninguém aqui. ERIC Cachorro, vamos conversar. CACHORRO Ta com o dinheiro ou não? ERIC Tou, mas são 5 mil reais. CACHORRO E daí? ERIC (o desespero some dos olhos dele) E daí que eu não vou jogar fora 5 mil reais com um otário como você. CACHORRO parte para cima, mas ERIC saca uma arma. CACHORRO para de sopetão. CACHORRO Calma, cara! Não atira. Você ta chapado! Abaixa isso! ERIC atira em um pé de CACHORRO. Ele grita. ERIC foge. Cena 42 INT: Quarto de Bernardo – Tarde. BERNARDO está de frente para o espelho. Tem uma lâmina nas mãos. Observa seu pulso e passa a lâmina de leve sobre a veia. BERNARDO (em off) Como tudo foi apontar direto pra mim? Como isso aconteceu? Nada é tão ruim que não possa ficar pior. Daqui pra frente tudo vai piorar, eu tenho certeza. Mas como… Close na expressão surpresa de BERNARDO. Ele se lembrou de alguma coisa. Flashback INT: Casa Abandonada – Tarde. Estamos novamente na festa em que vimos CACHORRO pela primeira vez. BERNARDO O que você faz, né? Estou fora disso. Eu não devo nada. ERIC Você consumiu, Bernardo. BERNARDO Você ofereceu. Quanto você deve, cara? ERIC Uns 5 mil, sei lá. BERNARDO 5 mil? É muito dinheiro, cara! ERIC Eu sei. Eu consegui arrumar, mas eu não posso dar pra ele agora. Ainda não ta comigo. BERNARDO Eu acho que esqueci minha câmera por aqui. Você viu ela? ERIC Eu vi. Ta no quarto. Eu coloquei lá pro pessoal não mexer. Corta de volta para


INT: Quarto de Bernardo – Tarde. BERNARDO aperta a lâmina. BERNARDO (em off) As coisas mudam rápido demais. As pessoas em que você mais confia podem te esfaquear num segundo. Um segundo é o bastante para a perfeição. Um segundo também é o bastante para a destruição. Close da mão de BERNARDO. Ele sente a dor, sua mão está sangrando. BERNARDO (em off) Eu comecei tudo isso quando decidi ser completamente honesto comigo mesmo e ser fiel a todos os meus instintos. O meu instinto me diz só uma coisa. Diz não. Ele grita bem alto. Cena 43 EXT: Praça Deserta – Tarde. O lugar é isolado, afastado. ERIC anda rápido, verificando se está sendo seguido. Então, se senta em um banco, abre a mochila e pega a câmera de Bernardo. Abrindo, conta o dinheiro que se encontra lá dentro. Pega também um cigarro de maconha e acende. Vemos alguns flashes, como se alguém o seguisse. Ele pressente e procura por alguém por trás das árvores. EXT: Praça Movimentada – Tarde. A praça é mais movimentada, mais cheia de vida do que o cenário anterior. LEONORA chora, sentada em um banco. MAGALI se aproxima e se senta perto dela. MAGALI Oi, posso me sentar aqui? LEONORA não diz nada. EXT: Praça Deserta – Tarde. ERIC se levanta e observa se alguém está por perto. EXT: Praça Movimentada – Tarde. MAGALI Você é a mãe do Eric, não é? Como anda o seu filho? EXT: Praça Deserta – Tarde. ERIC continua fumando, está ficando paranóico. EXT: Praça Movimentada – Tarde. LEONORA Meu filho é um exemplo de garoto. Meu filho nunca cometeu um erro na vida. O único erro dele foi ter andado com más companhias. EXT: Praça Deserta – Tarde. A voz de LEONORA continua durante essa tomada. LEONORA (em off) Meu filho é o melhor filho que uma mãe poderia ter (ela começa a chorar). ERIC está um pouco tonto. Sua visão está embaralhada: vemos o que ele vê. Um vulto que se transforma em BERNARDO. BERNARDO está com os olhos cheios de ódio.


EXT: Praça Movimentada – Tarde LEONORA se levanta. Todos olham para ela. LEONORA Olhem para mim. Riam de mim. Me aplaudam! Sou a mãe perfeita do filho perfeito! EXT: Praça Deserta – Tarde. ERIC saca a arma e aponta para BERNARDO. ANA aparece, mas nenhum dos dois consegue vê-la. ERIC está cambaleando, muito tonto. O seu cigarro cai no chão, temos um close dele. Ouvimos um tiro. EXT: Praça Movimentada – Tarde. LEONORA O filho perfeito… Corta para PRETO. Cena 44 INT: Quarto de Bernardo – Manhã. A câmera abre. Vemos Bernardo em frente a câmera, está gravando um vídeo. (música: Você pode ir na janela – Gram) BERNARDO Meu nome é Bernardo. Tenho 16 anos, quase 17. Este sou eu. Passei por muita coisa desde que conheci uma garota chamada Ana e um garoto chamado Eric. Tudo acabou agora. EXT: Praça Deserta – Tarde. ANA está caída, com o braço cheio de sangue. BERNARDO se joga pra cima dela. BERNARDO Ana! Ana, fala comigo! BERNARDO levanta os olhos para ERIC, que está completamente tonto. Ele cai sobre os joelhos. A arma cai de sua mão. BERNARDO volta a reanimar ANA. INT: Quarto de Bernardo – Manhã. BERNARDO (para a câmera) Eu não morri. Talvez tivesse sido melhor. Melhor do que ver Ana sofrer. Ela também não morreu. O tiro pegou de raspão. Eu chamei uma ambulância, ela foi para o hospital e foi a última vez que eu a vi. Liguei, tentei, até já fui procura-la, mas nada adiantou. Eu pensei de novo em me suicidar e nem isso eu consegui. Não consegui ser fiel aos impulsos. Eu falhei, Ana. Mas no final das contas… EXT: Praça Deserta – Tarde. BERNARDO caminha até a mochila de Eric, pega sua câmera e encontra o dinheiro. INT: Quarto de Bernardo – Manhã. BERNARDO (para a câmera) Também não vi mais o Eric. Me disseram que ele se mudou pro interior, foi pra cidade da família do pai. A Patrícia, os outros, a turma antiga… EXT: Casa Abandonada – Tarde.


BERNARDO passa andando por PATRÍCIA, ÍGOR e os OUTROS, viciados, com os olhos fundos. Eles o ignoram. BERNARDO continua andando. INT: Quarto de Bernardo – Manhã. BERNARDO (para a câmera) Não gastei o dinheiro da Ana e nunca vou gastar. Vai ficar de lembrança, junto com o desenho dela. Lembrança do maior instante de perfeição que eu já vivi. (pausa) Bom, e o que eu aprendi? Cena 45 EXT: Escola – Dia. BERNARDO vai andando do lado de fora de sua antiga escola. Os ESTUDANTES, os mesmos vistos nas primeiras cenas, o cumprimentam. Continuamos a ouvir sua voz. BERNARDO (em off) Eu aprendi que você deve ser honesto com você mesmo sempre e saber bem o que você quer da vida. E às vezes é preciso fazer tudo sem pensar nas conseqüências, aproveitar seus anos de juventude. Se você acertar, ótimo. Se errar, melhor ainda, você aprende. E falar tudo o que está entalado na garganta é bom, às vezes. Mas agora eu penso um pouco antes de falar ou fazer alguma coisa. Se fosse alguém me dizendo isso um mês atrás eu não acreditaria, chamaria de moralismo. Mas isso é bom pra mim. Eu me acostumei a ser conveniente. E consigo pela primeira vez na vida… ser eu mesmo. BERNARDO encontra LIA, VÍTOR, PAULO e MARIANA. Agora vemos o que ele vê. VÍTOR Oi, Bernardo! PAULO Fala, Bernardo. Todos se cumprimentam. LIA Tá todo mundo com saudades, cara! VÍTOR Você tem muita matéria pra colocar em dia… MARIANA Oi. Voltamos para o plano geral aberto da cena. LIA A gente vai avisar os professores que você voltou! LIA, PAULO e VÍTOR saem. BERNARDO Será que você pode me perdoar… MARIANA Deixa. A gente pode fechar os olhos (ela fecha os olhos apertados) Não vamos falar mais nisso. E aí? Que dia você vai filmar a gente de novo? MARIANA e BERNARDO vão andando em direção cumprimentam de longe. O plano vai abrindo mais. Cena 46 INT: Um Restaurante – Tarde.

à

escola.

Outras

pessoas

o


BERNARDO e alguns AMIGOS estão conversando em uma mesa de um restaurante. O ambiente é bem jovem e agradável. Ao fundo, uma decoração estilo anos 80. BERNARDO está abraçado com uma MOÇA. BERNARDO (em off) Estou em São Paulo. Faço o curso que sempre quis fazer. Vivi um pouco mais desde os meus 16 anos. Mas nunca me esqueci. BERNARDO observa uma garçonete, envolvida no trabalho, do outro lado do balcão. É ANA. Ela não o vê. (música: Dessa vez – Nando Reis) BERNARDO (em off) E agora, eu de frente para o meu passado. O que fazer? E se essa for a chance da minha vida pra recomeçar? GAROTA Vamo embora? A gente já pagou a conta. BERNARDO Vamos. BERNARDO (em off) Cada vez que você faz um mesmo desenho ele sai diferente. Depende do vento, do momento, da seu estado de espírito e até da sua mão. Nenhum desenho é igual ao outro. Mais uma coisa que aprendi com ela. BERNARDO e os OUTROS se levantam. BERNARDO passa pelo balcão, bem perto de ANA. Ela não o vê, mas o sente. Olha para eles, que estão de costas, saindo do restaurante. ANA caminha até a mesa. No lugar em que BERNARDO estava sentado, ANA vê algo. Vemos o que ela vê: Um maço de dinheiro e uma fita de vídeo. Uma lágrima desce do rosto de ANA. EXT: Praça – Tarde. Estamos de novo na praça onde BERNARDO e ANA se viram pela primeira vez. Ele está sentado no mesmo banco. BERNARDO Às vezes você aprende. As coisas seriam diferentes se nunca tivéssemos nos conhecido? Talvez nos encontraríamos de novo daqui a dez anos… e tudo seria perfeito. Pelo menos por um instante. Flashback EXT: Praça – Tarde. Uma folha de papel voa em sua direção. BERNARDO pega e lê. BERNARDO olha em volta. Ponto de Vista de BERNARDO: ele vê uma GAROTA – ANA desenhando, provavelmente de onde veio o papel. BERNARDO caminha até ela, mas passa direto. Créditos Finais.

LALA  

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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