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Edição:


BRAGANÇA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

ARQUEOLOGIA, ETNOGRAFIA E ARTE

POR

FRANCISCO MANUEL ALVES, ABADE DE BAÇAL

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TÍTULO: MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA TOMO X - ARQUEOLOGIA, ETNOGRAFIA E ARTE AUTOR: FRANCISCO MANUEL ALVES, ABADE DE BAÇAL COORDENAÇÃO GERAL DA EDIÇÃO: GASPAR MARTINS PEREIRA REVISÃO DESTE VOLUME: TERESA SOEIRO UNIFORMIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA: MARIA SARMENTO DE CASTRO EDIÇÃO: CÂMARA MUNICIPAL DE BRAGANÇA/INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS – MUSEU DO ABADE DE BAÇAL EXECUÇÃO GRÁFICA: RAINHO & NEVES, LDA./SANTA MARIA DA FEIRA ISBN: 972-98569-1-5 DEPÓSITO LEGAL: 152080/00 OBRA CO-FINANCIADA PELO PRONORTE, SUBPROGRAMA C JUNHO DE 2000


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INTRODUÇÃO Francisco Manuel Alves etnógrafo das terras bragançanas TERESA SOEIRO

1. O etnógrafo Francisco Manuel Alves (1865-1947), o Abade de Baçal, como ficou mais conhecido também no panorama da Antropologia Portuguesa, dedicou a estes estudos um número considerável de páginas dos três últimos volumes da sua obra maior, agora reeditada, as Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. Mas, significativamente, a Etnografia não lhe mereceu honra de título, reservando-a apenas para complemento, nos referidos três volumes finais, partilhado com a Arqueologia e a Arte. É a partir dos textos insertos, dispersos, nas Memórias, e de alguns artigos divulgados em publicações periódicas, que tentaremos compreender o posicionamento do Abade de Baçal face à Etnografia e o seu lugar na história desta disciplina no nosso país. As Memórias são um exemplar produto da erudição historicista com profundas raízes oitocentistas, tão divulgada por todo o Portugal, que fez emergir em cada localidade ou região um erudito ou sábio de assuntos da área geográfica em que nascera, ou à qual se encontrava profundamente vinculado. Cumprindo essa obrigação moral de fazer a história ou monografia da sua pátria pequena, o erudito local eleva-se no meio social a que pertence como o depositário e guardião do mais alto bem da comunidade, a comprovação da sua identidade ancestral e singularidade atemporal, ponto de encontro de todos os naturais, sem diferenciação de classes ou interesses 1. É este o discurso do Abade de Baçal ao longo das Memórias, em que expressa repetidamente a vontade de servir a sua região e lamenta o desinteresse de alguns que com ele não cooperaram2. Aos que o ajudaram, por vezes ao longo de todo o percurso autoral, não regateará elogios.

(1) SILVA, Augusto Santos – Os lugares vistos de dentro: Estudos e estudiosos locais do século XIX português. «Revista Lusitana». Lisboa. Nova Série, nº 13-14 (1995), p. 69-95 (2) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo XI, p. 411.

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Mas ao mesmo tempo que devotava o seu esforço aos estudos regionais, Francisco Manuel Alves foi-se convertendo aos olhos da sua comunidade, mas também dos meios culturais nacionais, no bragançano por antonomásia, autoridade indiscutida sobre assuntos de cultura e património, acima das mesquinhas disputas de elites sociais e dos conjunturais interesses do poder. Vivendo numa casa rústica e em meio aldeão de uma área interior e fronteiriça de Portugal, então de difícil acesso viário, o Abade vai ser motivo suficiente para que intelectuais e artistas de todo o país, e alguns estrangeiros, se dêem ao incómodo de ir até lá, para ter o privilégio de o conhecer, de lhe pedir informações, de com ele discutir3. As paredes da habitação registaram estas visitas ilustres, os bragançanos certificaram-se de que tinham no seu Abade um monumento mais do qual se orgulhar. Comprar cada tomo das Memórias deveria ser ao tempo uma obrigação de todo o cidadão que se prezasse, um contributo individual para que essa obra, que a todos ilustrava, fosse possível. Era ficar com um pedacinho da glória que o autor expressamente repartiu com os seus mecenas, com todos os que o acompanharam e lhe enviavam informação. Possuí-las, mesmo sem as abrir e ter lido os seus milhares de páginas, seria um atestado de cultura e bragançofilia. No conjunto das Memórias, a etnografia representa uma parte menor e sobretudo pouco sistematizada, mas com mais relevância do que acontecia em tantas outras monografias coevas, em que por vezes não ia além de curiosidade perpassada por extravagâncias, que a segura superioridade da cultura dominante e do progresso podia agora olhar com condescendência, como se estivesse a repassar cenas da infância da propria sociedade. Fixando no papel a tradição oral, integrando-a na obra monumental que estava a construir, o Abade garantia a sua legitimidade, permitia que não se perdesse com o passar do tempo e dava-a a conhecer a quem nunca a ouvira, abrindo caminho a novas adesões à cultura caracterizadora da região. Embora atento aos sinais de decadência4, o povo surgirá na obra do Abade mais frequentemente como uma maravilha inata de preservação da raiz : «Como esta perduração na arte popular de modalidades étnicas, que se supõem desaparecidas, assombra e dá que pensar! Quem ensina ao pastor, à tecedeira, ao serralheiro bragançano a fixar na roca de fiar, no canhão de fazer meia,

(3) BRANCO, Adérito – Abade de Baçal: vida e obra. Mirandela, 1997, p. 34 e seg. (4) LEAL, João – Imagens contrastadas do povo: cultura popular e identidade nacional na antropologia portuguesa oitocentista. «Revista Lusitana». Lisboa. Nova Série, nº 13-14 (1995), p. 125-144.

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no tapete, na colcha, no ferro forjado, motivos ornamentológicos, lavores exóticos, representativos de dogmas culturais desaparecidos há milénios?! Mistérios grandiosos da natureza humana! Encanto irresistível da etnografia!»5. *** Quando Francisco Manuel Alves inicia a sua produção etnográfica, o panorama da disciplina encontrava-se ainda dominado pelas figuras cimeiras que lhe haviam definido o campo académico e museológico nas últimas décadas do século XIX, fazendo prevalecer o triângulo disciplinar constituído pela conjugação com a Arqueologia e a Filologia. A literatura e as colectâneas de tradições populares tinham ocupado a atenção dos mestres6 Adolfo Coelho7, Teófilo Braga8, Consiglieri Pedroso9 e mesmo Leite de Vasconcelos 10, que a estas temáticas dedicaram diversas publicações de forte efeito multiplicador entre os amadores e eruditos, incentivados a imitá-las ao nível local, como sucedeu com Francisco Manuel Alves. Mas o programa de trabalho dos mestres era bem mais extenso e integrado, abrangia uma visão global da sociedade, como bem ficou expresso no Esboço de um Programa de Estudos de Etnologia Peninsular, de Adolfo Coelho (1880), ou, mais tarde, no projecto de roteiro para a Exposição Etnográfica Portuguesa, (1896). Como obstáculo à sua prossecução Adolfo Coelho lamentava que a etnologia peninsular fosse cultivada por diletantes, mais ou menos eruditos, mas falhos de método científico nas suas recolhas e sistematização. A necessidade primeira da disciplina seria pois de voltar aos factos, coligi-los com exactidão e em primeira mão, para todo o exercício de compreensão e teorização construído sobre eles ter base sólida. A fim de cum(5) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo IX, p. 15. (6) DIAS, A. Jorge – Bosquejo histórico da etnografia portuguesa. Sep. Revista Portuguesa de Filologia. Coimbra, 1952, p. 7 e seg. (7) Sobre a obra deste autor veja-se: LEAL, João – Prefácio, in COELHO, Adolfo – «Obra etnográfica I Festas, costumes e outros materiais para uma etnologia de Portugal». Lisboa, 1993, p. 13-31. (8) Sobre a obra deste autor veja-se: B RANCO , Jorge Freitas – A propósito da presente reedição, in B RAGA , Teófilo – «O povo português nos seus costumes, crenças e tradições». Lisboa, 1995, p. 15-25. (9) Sobre a obra deste autor veja-se: LEAL, João – As «fontes» da obra etnográfica de Consiglieri Pedroso. «Revista Lusitana». Nova série. Lisboa, nº 2 (1981), 129-163; idem – Prefácio, in PEDROSO, Consiglieri – Contribuições para uma mitologia popular portuguesa e outros escritos etnográficos. Lisboa, 1988, p. 13-35. (10) Sobre a obra deste autor veja-se: LEAL, João – Prefácio, in VASCONCELOS, José Leite de – «Signum salomonis; a figa; a barba em Portugal: Estudos de etnografia comparada». Lisboa, 1996, p. 15-37.

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prir o objectivo superior de preencher os programas que redigira, seria preciso um enorme manancial de informação primária, só passível de ser recolhida por um grande número de bons colaboradores, cada um contribuindo com os conhecimentos que pudesse adquirir directamente no seu limitado raio de acção. Esta atitude foi de facto a marca distintiva de José Leite de Vasconcelos que, tendo uma visão de conjunto não muito diferente da de Adolfo Coelho, conseguiu imprimir-lhe uma atitude pragmática de grande tenacidade e persistência. Materializando o seu projecto numa instituição pública de dimensão nacional como era o Museu Etnológico Português, congregou em seu redor uma rede de colaboradores/informadores que cobria todo o país, de quem recebia notícias locais mas também objectos, e a quem valorizava com a publicação de textos, por eles próprios assinados, na sua prestigiada Revista Lusitana (e também n’O Arqueólogo Português), ou pela menção da fonte quando se tratava de as inserir em obras de síntese. Fundamental para a manutenção destes contactos foram também as visitas que Leite de Vasconcelos fazia por todo o país, para amarrar com relações pessoais esta cuidada teia. O Abade de Baçal fez também parte deste complexo. Francisco Manuel Alves foi mais uma pedra dessa «rede de personalidades, instituições e saberes»11 que desde as últimas décadas do século XIX se organizara a nível nacional, como uma sucessão de pirâmides sobrepostas em que se vai concentrando a informação até chegar ao topo, indiscutivelmente ocupado por Leite de Vasconcelos. Para o Abade convergiam as colectas dos seus múltiplos informadores locais, ele concentrava o material de toda a região, eventualmente filtrava-o, e reenviava-o seleccionado para o nível superior. Leite de Vasconcelos terá o Abade como colaborador regular d’O Arqueólogo Português desde o últmo fascículo do número 12, de final de 1907, mas nunca chegarão a surgir trabalhos seus na Revista Lusitana, cuja publicação se iniciara vinte anos antes, e para a qual as colaborações chegavam de todo o país, tantas vezes sob a forma de colectâneas de recolhas não elaboradas, no âmbito do folclore (no sentido leitiano) e do vocabulário, como as que Francisco Manuel Alves inseriu nas Memórias. Foi louvado por aquele a quem reconhecia como o nosso venerando mestre nestas áreas disciplinares. N’O Arqueólogo Português, em nota a um artigo sobre Trás-os Montes, ficou escrito que: «revela o auctor sempre tão solidos conhecimentos e tanto criterio, – meritos realçados de mais a mais por virtuosa modestia –, que ninguem que trate de perto com as obras do (11) SILVA, Augusto Santos – O povo nos seus lugares: o clima moral da primeira etnografia portuguesa, in «Palavras para um país». Oeiras, 1997, p. 115.

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Abade de Baçal poderá deixar de o admirar e lhe querer bem. Para os Bragançanos é ele, com justificada razão, um idolo» 12. Na Etnografia Portuguesa Leite de Vasconcelos diz «o Revº Pe Alves, abade de Baçal, minha constante guia em cousas transmontanas»13. Foi pelo mestre visitado na sua residência de Baçal, assim o recorda mais uma inscrição na parede, viu o seu contributo ser incluído em obras de síntese, nos diversos volumes da Etnografia Portuguesa, no Romanceiro Português, nos Contos e Lendas e no Cancioneiro Popular Português. O Abade participou na Miscelânea científica e literária dedicada ao Doutor J. Leite de Vasconcelos (v. 1, Coimbra, 1934, p. 274-275) com um artigo intitulado «As terras bragançanas ao Benemerente», em que recorda os trabalhos deste sobre a região. * Francisco Manuel Alves sentiu-se pouco atraído pelo estudo da ergologia, das condições materiais de vida das comunidades agro-pastoris transmontanas, nas quais ao fim e ao cabo vivia imerso, talvez por demasiado integrado, sem alteridade suficiente para as observar como investigador14. O artigo sobre Vestígios do regime agrário comunal 15, escrito em 1909, respondia a um pedido expresso de Rocha Peixoto, que estava interessado em reunir na Portugália documentação sobre o tema16. O exemplo e incentivo que este autor lançou na revista para que a cultura material, a ergologia leitiana, fosse objecto de atenção por parte dos estudiosos locais não teve outras repercussões maiores na obra do Abade. As rocas decoradas que o Museu coleccionava quase nenhum comentário lhe inspiraram17. Uma página sobre a casa transmontana, algumas linhas acerca de rega com picota ou a forma de secar figos18 não mostram mais favorável disposição. A discussão do trajo transmontano é feita a pedido de Leite de Vasconcelos, que na Etnografia (12) VASCONCELLOS , J. Leite de – Por Trás-os-Montes. «O Arqueólogo Português». Lisboa, nº 22 (1917), p. 44. (13) VASCONCELLOS , J. Leite de – Etnografia portuguesa. Tentame de sistematização, v. 3, Lisboa 1941, p. 179 (14) A cultura material não ocupou demasiado espaço em muitas «compilações eruditas» deste tempo, e quando nelas surgia era «como um acessório não do processo produtivo, mas como simples arranjo cénico para possibilitar o desempenho de papéis prescritos na persistência de usos e costumes tradicionais»: BRANCO, Jorge Freitas – Cultura como ciência? Da consolidação do discurso antropológico à institucionalização da disciplina. «Ler História». Lisboa, n.º 8 (1896), p. 91. (15) Falecido Rocha Peixoto e posto de lado o projecto Portugália, este artigo viria a ser publicado na Ilustração Transmontana. Porto, n.º 3 (1910), p. 137. (16) GONÇALVES, Flávio – Prefácio, in PEIXOTO, Rocha – «Etnografia Portuguesa (Obra etnográfica completa)». Lisboa, 1995, p. XLVIII. (17) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo XI, p. 470. (18) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo X, p. 271 e 813, 813, 818 respectivamente.

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Portuguesa transcreve integralmente a carta recebida19. Ignorou também, quase completamente, as formas de vida social como tema. Já tanto desinteresse não se verificava nos domínio do folclore, em que a erudição de quem tinha cursado seminário e a postura de padre o colocavam para lá do meio de origem, com a vantagem de o conhecer bem. À defesa e explicação das práticas e representações tradicionais dedicará boa parte do seu artigo sobre crendices 20, no volume XI, defendendo a utilidade prática destas, bem como das superstições, sendo que em ambas se manifestavam formas de pensar alternativas, em nada inferiores às científicas e mesmo às ratificadas pela hierarquia religiosa católica. «Como é grande a imaginação popular e como faz ciência a seu modo!» exclama a propósito das explicações encontradas para a toponímia21. O estudo dos falares regionais estava também muito em voga no círculo leitiano, como podemos constatar pelos artigos insertos na Revista Lusitana. O Abade de Baçal empregou na escrita de toda a sua obra inúmeros regionalismos, e em dois momentos vai atentar mais pormenorizadamente no assunto: em 1916 quando envia à Academia das Ciências de Portugal, a pedido de Oscar de Pratt, uma «grande colecção de palavras populares bragançanas»22, da qual desconhecia o destino; em 1942 para responder ao Inquérito Linguístico Boléo. Do cumprimento destas duas tarefas poderia ter resultado o apartado linguístico inserido no último tomo das Memórias23. Francisco Manuel Alves está, perante estas temáticas, numa dupla posição, é na sua região natal e em relação ao povo, à generalidade da população transmontana de onde emergiu, um outro, homem escolarizado, culto e com ligações a esferas de poder e a círculos culturais nacionais; mas quando entra nestes mundos representa o seu personagem de transmontano, castiço no trajar e no falar, temido por certa boçalidade que parece propositadamente acentuar para não ser obrigado a jogar socialmente segundo convencionalismos académicos que não domina24. Se não como entender que, em (19) VASCONCELLOS , J. Leite de – Etnografia portuguesa. Tentame de sistematização, Lisboa, 1975, v. 6, p. 484-485. (20) Sobre o tema escreveu ainda: Superstições, crendices, medicina popular. «Ocidente. Revista Portuguesa». Lisboa, nº 17 (1942), p. 184-188. (21) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo X, p. 140, 639. (22) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo X, p. 635 nota. (23) Ver nota 16 do volume XI. (24) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo X, p. 619. A pág. 581 do tomo XI comenta uma situação que lhe parece semelhante à sua, na figura de John Gibbons. A pouca formalidade com que este se apresentou em Lisboa para receber o prémio atribuído pelo Secretariado da Propaganda Nacional ao seu livro sobre Coleja (Carrazeda de Ansiães), intitulado I Gathered no moss, deliciou o Abade.

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texto impresso, à mistura com uma sobrecarga de erudição, familiaridade com os autores latinos, ou capacidade de ler textos cuja grafia os torna crípticos para os demais, faça gala em afirmar que cava a horta e poda as fruteiras por suas próprias mãos, faz festas ao cão e ao gato, e conversa com o pisco? * A obra etnográfica de Francisco Manuel Alves compreende-se assim à luz das tendências dominantes na prática etnográfica finissecular, sobretudo quanto às áreas abordadas, já que do ponto de vista teórico e metodológico é manifestamente pobre, como o próprio assumiu25. Porém, ela não se ajustará melhor à tendência dominante na primeira metade do século vinte, de uma etnografia cada vez mais descritiva, propositadamente desprovida de ambições teóricas26, mesmo quando praticada pelos velhos mestres, como Leite de Vasconcelos27. A folclorização acentuar-se-á na década de quarenta, mas já se anunciara antes28, difundindo-se através do SPN/SNI 29. Conhecidas acções como o Concurso dos Ranchos Folclóricos ou o Concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal30, a recriação estilizada da dança pelo Verde Gaio ou a manipulação de temas etnográficos para a construção da imagem de Portugal a transmitir nas exposições internacionais ou, sob a forma de síntese do Centro Regional, no conjunto Aldeias Portuguesas e na secção da Vida Popular da Exposição do Mundo Português31, ajudam a definir contornos precisos para esse idealizado Portugal português32. Francisco Manuel Alves, que nunca se revelara um apoiante seguro do regime, por esta altura já bastante idoso, parece escapar, como o seu mestre (25) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo IX, p. 236. (26) LEAL, João – Prefácio, in VASCONCELOS, José Leite de – «Signum salomonis; a figa; a barba em Portugal: Estudos de etnografia comparada». Lisboa, 1996, p. 32 e seg. (27) CABRAL, João de Pina – Os contextos da antropologia. Lisboa, 1991, p. 27. (28) BRANCO, Jorge de Freitas – A fluidez dos limites: discurso etnográfico e movimento folclórico em Portugal. «Etnográfica». Lisboa, vol. 3, nº 1, (1999), p. 42 e seg. (29) Catorze anos de política do espírito. Lisboa, 1948. (30) BRITO, Joaquim Pais de – O Estado Novo e a aldeia mais portuguesa de Portugal, in «O Fascismo em Portugal». Lisboa, 1982, p. 511-532 (31) ACCIAIUOLLI, Margarida – Exposições do Estado Novo 1934-1940. Lisboa, 1998. (32) PAULO, Heloisa – «Vida e Arte do Povo Português». Uma visão da sociedade segundo a propaganda oficial do Estado Novo. «Revista de História das Ideias». Coimbra, N.º 16 (1994), p. 105-134; Ó, Jorge Ramos do – Os anos de Ferro. O dispositivo cultural durante a «Política do Espírito» 1933-1949. Ideologia, instituições, agentes e práticas. Lisboa, 1999. (33) A relação do SPN/SNI com os etnógrafos locais nem sempre teria sido das mais cooperantes, embora este seja um domínio ainda largamente por investigar: ALVES, Vera Marques – Os etnógrafos locais e o Secretariado da Propaganda Nacional. Um estudo de caso. «Etnográfica». Lisboa, vol. 1, n.º 2 (1997), p. 237-257.

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Leite de Vasconcelos, a toda esta movimentação33 que Luís Chaves, também transmontano e amigo do Abade, personifica. Numa ou noutra ocasião ridicularizará mesmo a celebração do popular, folclorização estetizada e domesticada, que caía mal ao seu telurismo e conhecimento directo da realidade vivencial das comunidades agro-pastoris da sua região. É assim que comenta: «El tiu Salazar tem cada lembradura! Esta de pôr a dançar o povo cansado de dançar, há tanto tempo, o fado da fome e de mais a mais agora no tempo das sementeiras...»34. Se participa no programa dos centenários, fá-lo com artigos em periódicos e, sobretudo, com um texto histórico, escrito para as Memórias, que as autoridades distritais remetem para as comemorações centrais, como se explica no Prefácio do volume XI. Resolveu-se assim, simultaneamente, o problema posto pela necessidade de patrocínio para a sua publicação e a obrigação do distrito contribuir para aquele evento nacional. Em 1941 enviará ao SPN/SNI o manuscrito Excursões transmontanas, ao que parece nunca publicado, e talvez destinado à recém-criada revista Panorama, que dedicou números especiais às diversas províncias35. Resume-o no tomo onze das Memórias 36, voltando pouco adiante ao tema, para acescentar algo acerca das indústrias e ao mesmo tempo referir a publicação do volume comemorativo dos centenários, Vida e arte do povo português37, no qual alguns etnógrafos do regime escrevem sobre coisas bragançanas. Mais no espírito do círculo de colaboradores leitianos do que no da etnografia do Estado Novo, os seus três últimos volumes das Memórias, que interessam à etnografia, padecem de falta de método, são: «uma amálgama de informação não trabalhada, ordenada alfabeticamente…Uma tal pobreza analítica chega a ser surpreendente»38. A sua simpatia pessoal, a atitude de tolerância e o respeito pelo relativismo cultural serão as virtualidades éticas que Jorge Dias virá a realçar como atitude própria de um etnólogo, nem sempre fáceis de encontrar nos conturbados anos da guerra em que com ele privou, reconhecendo embora que para a ciência ele foi sobretudo um «carreador de materiais», cujo método se limitava a ordenar alfabeticamente o que quer que dissesse respeito ao espaço bragançano39. (34) FERNANDA, Hirondino, org. – Cartas do Abade de Baçal a José Montanha. Bragança, 1973, p. 68-69. (35) PAULO, Heloisa – Vida e Arte do Povo Português» Uma visão da sociedade segundo a propaganda oficial do Estado Novo. «Revista de História das Ideias». Coimbra, 16 1994, p. 117. Anteriormente Francisco Manuel Alves escrevera o artigo «Trás-os-Montes» para integrar a publicação oficial Portugal, relativa à Exposição Portuguesa em Sevilha, de 1929. (36) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo XI, p. 303- 313 e 337-343 (37) Vida e arte do povo português. Lisboa, 1940. (38) CABRAL, João de Pina – Os contextos da antropologia. Lisboa, 1991, p. 27-28. (39) DIAS, Jorge – O Abade de Baçal como etnógrafo. «Brigantia. Revista de Cultura». Bragança, n.º 5, (1985), p. 341-344.

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2.Trabalho de Campo Poderemos dizer que a primeira grande fonte de informação etnográfica de Francisco Manuel Alves teria sido a sua própria enculturação como membro de uma família rural, mesmo que cedo o destino de clérigo o tenha afastado parcialmente dela. Dentro do núcleo familiar mereceu-lhe um carinhoso destaque, assumido quando já era autor consagrado, a tia Luísa Alves «por constantemente espicaçar a minha curiosidade com lendas, contos, anedotas e factos históricos da Guerra Peninsular»40, afinal, como a velha ama de Garrett. A colecta de dados realizou-a directamente por todo o distrito, a par das digressões arqueológicas, ou utilizando alguns expedientes como o questionário concelho a concelho dos recrutas que se apresentavam à inspecção e, na cidade, dos incorporados no regimento sediado no quartel de Bragança. Tudo o que via e ouvia de curioso ia parar aos seus apontamentos, o couseiro lhe chamava. Com a boa vontade de outras autoridades, civis e religiosas, pôde contar toda a vida, bem como com a colaboração por correspondência remetida por párocos, professores primários e funcionários, junto dos quais incentivava a elaboração de recolhas41. Como Leite de Vasconcelos, também o Abade cultivava estas amizades, em visitas e excursões às quais lhe serviam de guia e de anfitriões, com pedidos enviados pelo correio, por meio de incentivos a doações para o Museu, com elogios publicados nos vários tomos das Memórias. Sirva de exemplo o dedicado a António Alberto Jorge Lopes, que lhe dera informações sobre Freixo de Espada à Cinta: «se em todas as vilas bragançanas houvesse um... como seria completa a história do nosso rincão transmontano»42. Assim descrevia Francisco Manuel Alves a obra que construía e o seu próprio labutar: «com muitas notícias inéditas, capítulos inteiros mesmo, auridas, não comodamente em trabalhos de gabinete, mas por montes e vales, sem temor de frio, calor, chuva e mil outros incómodos inerentes às excursões, só avaliados por quem a eles se dedica»43, «metendo em linha de conta o meio enervante da aldeia em que vivo, num isolamento que, se é útil a muitos respeitos, tem o supremo inconveniente da falta de livros para consultar»44. Mas o acesso pessoal ou indirecto a fontes bibliográficas e documentais também nunca lhe faltou.

(40) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo X, p. 544. (41) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo X, p. 171-172, 660. (42) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo XI, p. 320. (43) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo IX, s/p. (44) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo I, p. IX.

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3. A etnografia no Museu45 Ao apoio à formação de colecções de âmbito local e regional dedicou Leite de Vasconcelos parte da imensa energia pessoal e o peso do seu prestígio, dispensando-lhes protecção e exemplo, sobretudo depois de criado o seu Museu Etnográfico Português (1893). Com forte componente arqueológica, campo em que uma investigação de superfície gerava muitos materiais, nem sempre esteticamente interessantes ou economicamente cotados, por vezes difíceis de transportar e guardar em casa particular, estes museus nasceram um pouco por todo o país, sob a tutela dos municípios e dos distritos, e o apoio de grupos de amigos e de sociedades científicas46. O projecto do Museu Municipal de Bragança, concretizado a 4 de Novembro de 1896, sendo a inauguração a 14 de Março de 1897, integra-se nesta corrente e pôde contar com o aplauso de Leite de Vasconcelos, que transcreve n’O Arqueólogo Português várias notícias de imprensa relativas a esta nova instituição, então chefiada por Albino Pereira Lopo, um seu colaborador47. No programa delineado por este director, característico do final de Oitocentos, tinham cabimento elementos arqueológicos, etnográficos, antropológicos e de história natural. Em nota a um daqueles artigos, Leite de Vasconcelos sublinha já o lugar de Francisco Manuel Alves entre os nomes de beneméritos que haviam oferecido espólio, classificando-o como «um protector do Museu»48. Este Museu Municipal ficará encorporado, pelo decreto 2119 de 13 de Novembro de 1915, no Museu Regional de Bragança, financiado pela administração central, como os seus pares com atribuições no âmbito da arte e da arqueologia, e neste caso ainda da numismática, ganhando assim um novo lugar no xadrez da política museística da I República, exactamente no momento em que alguns destes estabelecimentos criados no final do século anterior se achavam em situação crítica. Isto mesmo sucederia em Bragança, apesar do inicial apoio do município e do apelo formulado pelo bispado, segundo Rocha Peixoto: «Se o sr Albino Lopo só ha encontrado os tropeços que justificam os seus queixu(45) Sobre o passado e futuro deste Museu veja-se: JACOB, João Manuel Neto – O Museu do Abade de Baçal: ontem, hoje e amanhã. «Brigantia», n.º 16, (1996), p. 127-143. (46) GOUVEIA, Henrique Coutinho – Acerca do conceito e evolução dos museus regionais portugueses desde finais do século XIX ao regime do Estado Novo. «Bibliotecas, Arquivos e Museus». Lisboa, vol. 1, n.º 1, (1985), p. 147-184. (47) VASCONCELOS , J. L. de – Museu Municipal de Bragança. «O Arqueólogo Português». Lisboa, n.º 3, (1897), p. 48-58: CRUZ, P. Belchior da – Museu Municipal de Bragança. «O Archeólogo Português». Lisboa, n.º 3, (1897), p. 99-100; 155-156, 244. 48 VASCONCELOS, J. L. de – Museu Municipal de Bragança. «O Arqueólogo Português». Lisboa, n.º 4, (1898), p. 155.

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mes, imagine Bragança, desembaraçada das suas diligencias e rogações, das suas raivas e dos seus amúos! Lá vae o museu para cantaría!» 49. Por então, 1905, «a secção ethnográphica, ainda precaria, encerra já alguns documentos referentes á fiação e tecelagem locaes, á esculptura em madeira e á indumentária»50. A este Museu Municipal e aos respectivos problemas se reporta o Abade de Baçal no tomo II das suas Memórias, de 1910 51. Nem a sua presença no elenco autárquico, como vereador, durante dois anos, tinha sido suficiente para os obviar. O ponto de inflexão deverá ter ocorrido em 1914, quando o iminente leilão do importante recheio do Paço Episcopal de Bragança levou até aquela cidade José de Figueiredo, figura maior da actividade museológica nacional. Retirado da hasta pública o espólio mais importante, ficou grande parte dele em Bragança, diligenciando José de Figueiredo, uma vez regressado à capital, para que ali fosse criado um Museu Regional, o que, na lei, veio a suceder no ano seguinte. Teria também sido ele a sugerir o nome do Abade para o dirigir 52. Quando Leite de Vasconcelos, jornadeando por Trás-os-Montes, no Verão de 1915, passou em Bragança, sabia já da criação do novo museu, mas o que viu foi o antigo, em que «tudo está muito acumulado e mal arrumado, por falta de espaço e de mostradores» 53. Reconhece porém que a colheita de peças para o Museu Etnológico foi reduzida, porque Albino Lopo a fizera antes para o Museu Municipal. Dissemos antes que todos os museus regionais deste período seriam fundamentalmente de arte e arqueologia, como os Conselhos das três circunscrições que tutelavam o sector do património, sem atender a especificidades locais ou regionais, como antes se propusera e pouco depois se voltaria a reclamar. A Etnografia tornar-se-á na valência mais solicitada, existindo em alguns destes museus mesmo sem estar legalmente consagrada. O folclore regional e a etnografia artística tinham já na década de vinte muitos cultores, que os queriam ver presentes nos museus da respectiva área, ao lado também do espólio representativo da história local. Porta-voz deste movimento, com presença no Museu Regional de Bragança, foi Vergílio Correia, que aí proferiu uma conferência em 193054, apon(49) PEIXOTO, Rocha – O Museu Municipal de Bragança – «Portugália». Porto, n.º 2, (1905-1908), p. 120. (50) Idem, ibidem. (51) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo II, p. 381- 384. (52) Idem, tomo X p. 332-334. Francisco Manuel Alves, no tomo XI das suas Memórias dedica uma rubrica a FIGUEIREDO (José de), como reconhecimento pelo seu apoio ao Museu Regional. (53) VASCONCELLOS , J. Leite de – Por Trás-os-Montes. «O Arqueólogo Português». Lisboa, n.º 22, (1917) e De terra em terra; Lisboa, 1927, vol. 1, p. 101 e 104. 54 CORREIA, Vergílio – Da importância dos museus regionais. sep. «Biblos». Coimbra, 1930.

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tando estes novos rumos para a museologia regional, a qual devia reservar sempre lugar pelo menos para quatro secções: arqueologia, arte, etnografia e história55. Bragança continuava a possuir secção de etnografia, como nos diz o Abade de Baçal no tomo IX das suas Memórias, publicado em 1934. Apesar de longa, citaremos aqui a sua descrição desta secção, tão bem ela reflecte a abrangência e falta de sistematização daquilo que coligiu sobre estas matérias: «Na secção etnográfica há pintura, escultura, gravura, tecelagem, bordados, lhamas, brocados, mobiliário, cerâmica, serralharia, ferragens, pratas lavradas e armoriadas. Nesta secção merece atenção especial a Sala Mirandesa, pelos manequins com o típico trajo regional; pelas rocas de fiar com ornamentação tradicional, que evoca a arte rupestre neolítica, e ainda pela tecelagem, que parece derivar dos ornatos da mesma época. São tambem muito para ver os dois freios das mulheres maldizentes e a medida de bronze, tanto para sólidos como para líquidos, do tempo de el-rei D. Sebastião...»56. Nas páginas anteriores longa é a lista dos «devotados regionalistas que teem oferecido dádivas ao Museu Regional de Bragança, que muito se agradecem». Refere-se a ofertas posteriores a 1925, data em que fora nomeado director (Diário do Governo, II série, 6 de Março de 1935). Os elogios aos beneméritos e as violentas invectivas contra os que de alguma forma prejudicavam o Museu podem ser ilustradas com a seguinte referência pessoal feita no volume X «É digno dos maiores encómios o nobre gesto do...em oferecer todo o conjunto do tesouro arqueológico... ao Museu Regional de Bragança em vez de o explorar mercantilmente ou de o distribuir por várias mãos à cata de graças pessoais interesseiras ou de o guardar avaramente, como troféu avoengo nobilitante, evitando assim o injustificável capricho estúpido laivado do proverbial egoísmo»57. As tentativas para formar pequenos museus locais, que prejudicavam a centralização do espólio bragançano no Museu Regional, são também objecto de crítica58. * À medida que avança a década de trinta e com a aproximação das comemorações dos centenários, a etnografia será objecto de um cada vez maior desvelo por parte das autoridades do Estado Novo, cujo quadro legal (decreto (55) GOUVEIA, Henrique Coutinho – Acerca do conceito e evolução dos museus regionais portugueses desde finais do século XIX ao regime do Estado Novo. «Bibliotecas, Arquivos e Museus». Lisboa, vol. 1, n.º 1, (1985), p. 170-171. (56) ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico-Históricas…, tomo IX, p. 14-15. (57) Idem, tomo X, p. 278. (58) Idem, tomo XI, p. 673.

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de 1932 e Código Administrativo de 1936) manteve a existência de museus regionais (e provinciais). O projecto dos centenários contemplava a criação de um museu de etnografia em cada capital de província, além de apoiar outros menores, a nível de município, freguesia ou mesmo nas agremiações oficiais. Se os resultados desta política foram parcos em criações, que não tiveram lugar na sede do distrito de Bragança, interessam certamente no sentido de integrar ou valorizar as colecções etnográficas em museus já existentes. Jorge Dias caracteriza a secção etnográfica de Bragança, no início da década de cinquenta, da seguinte forma: «Além das vitrines com manequins com trajes regionais (capa de honras de Miranda, pauliteiros), vêem-se lindas rocas gravadas, utensílios pastoris e de uso doméstico»59. Como sugestão ao seu novo director, pede-lhe que amplie esta secção recolhendo alfaia agrícola, mobiliário doméstico e exemplares das antigas pipas e dornas de aros de madeira. * Queríamos por fim sublinhar o paralelismo entre o Museu Regional de Bragança e o de Lisboa, quanto à homenagem prestada, ainda em vida, aos seus principais fautores. O Museu Etnológico Português, assim denominado desde 1897 depois de ter sido Etnográfico de 1893 até essa data, passa a Museu Etnológico Dr Leite de Vasconcelos em 1929, em homenagem a este seu fundador e director, quando ele atinge o limite de idade e é aposentado com elogio oficial. Manteve-se, porém, no exercício do cargo, como director honorário. Em Bragança, o Museu Municipal, depois Museu Regional, tomará em 1935 a designação de Museu Regional do Abade de Baçal (Diário do Governo, II série, 9 de Abril de 1935) por ocasião da jubilação deste seu director, como preito de gratidão e homenagem, com lugar a grandes comemorações colectivas, objecto de adesão oficial ao mais alto nível60. Francisco Manuel Alves conservou vitaliciamente o título de director honorário, por deferência do poder central.

(59) DIAS, A. Jorge – Bosquejo histórico da etnografia portuguesa. Sep. Revista Portuguesa de Filologia. Coimbra, 1952, p. 52. (60) Abade de Baçal: Cinquentenário da morte. Bragança, 1997, p. 9 e seg.

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RABAL A noroeste de Rabal, concelho de Bragança, fica no cume de um cabeço cónico, de lados escarpadíssimos, coisa de seiscentos metros da povoação, um local chamado Castro, admiravelmente defendido pela sua natural posição. O recinto, fortificado por muros e fossos, tudo ainda visível, apesar de muito deteriorado pela cultura cerealífera, apresenta secção elíptica com duzentos noventa e três passos no eixo maior e cinquenta e oito no menor. Nos extremos do norte e sul, o sistema defensivo é reforçado por uma gola, devido a ser mais fraca neles a defensão natural. Tem limitadíssimo horizonte, menos a nascente, por onde liga visualmente com os castros de Baçal, Sacoias e Caravela. Abundam no Castro de Rabal os fragmentos de lousa, talvez cobertura de casas, pois ainda hoje as da povoação são tapadas com material idêntico, e as mós manuárias, tipo castrejo, de granito. De cerâmica, tijolo ou telha nada tem aparecido. Também lá vimos muita abundância de pequenos seixos e pedras roladas do rio, certamente aproveitadas para qualquer uso, e seixos maiores, elípticos, de dois palmos de comprimento, plus minus, também rolados do rio, com uma face lisa e côncava, a denotar utilização de polidores, afiadores, trituradores de grãos, sementes, cereais, em movimento de vaivém, à laia de primárias mós de moinho, entre as quais se farinhavam os comestíveis, a poder de esfregar com uma pedra sobre outra. Os arqueólogos dão o nome de trituradores a estes aparelhos e atribuem-nos à época neolítica, começos do período eneolítico (1). Auxiliam a defesa artificial do Castro de Rabal grandes fragueiros de pissarra dura como ferro, sulcada de fundas brechas naturais, onde os sonhadores de tesouros julgam estar imensa riqueza guardada por uma moura encantada, ligados por muros nos intervalos. De tempos a tempos aparecem parvos que atacam a ferro e fogo os rochedos, nada mais conseguindo do que perder tempo. E, apesar de ser este o resultado colhido sempre, tanto aqui como em toda a parte por tais visionários, nunca faltam bacocos prontos a renovar a experiência, sem haver insucesso que os desanime! Demência humana: sede do ouro a quanto obrigas!... Quilómetro e meio a sul de Rabal, no cimo de um cabeço sobranceiro à estrada que vai para Bragança, fica a Torre, assim chamada por apresentar grandes restos de fortificações, constituídas por muitos carros de pedregulhos, ainda em disposição circular num raio de seis metros.

(1) DÊCHELETTE – Manuel d’Archéologie, I, p. 531.

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RABAL

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Liga visualmente a Bragança, distante oito quilómetros; deve ser relativamente moderno e relacionar-se com a Atalaia de Baçal, ruínas de Carocedo e com algumas das de Babe para o sistema defensivo de Bragança (2).

QUINTANILHA O Castro de Quintanilha, concelho de Bragança, fica um pouco abaixo da povoação e, como o de Gimonde, é formado por uma cortadura feita no outeiro do Barrocal que lhe permitiu isolar um circuito no contraforte da montanha, que, semelhando um promontório, corre para o rio Maçãs (3).

REBORDAINHOS No termo de Rebordainhos, concelho de Bragança, há um local chamado Cabeço Cercado, que apresenta ainda vestígios de fossos e muros, dos quais os moradores têm levado muita pedra para curricas e vedações de propriedades. Nas ruínas vive uma moura encantada. Na povoação há um bairro chamado do Castro, sinal de que a actual aldeia assenta sobre um castro.

REBORDÃOS Dois quilómetros a noroeste de Rebordãos, caminhando para o santuário da Senhora da Serra, sito no cume da Serra de Nogueira, distante quilómetro e meio, fica o local chamado Castelo de Rebordãos, constituído por enormes fragueiros, apenas acessível pelo nascente e sul, apresentando os outros dois lados uma rampa a pique de mais de quatrocentos metros. Tem forma elíptica com vinte e quatro metros no eixo maior e treze no menor. Nos pontos de mais fraca defesa há restos de fossos e muros com metro e meio de largura por três de altura, formados de pedra e argamassa. No interior vêem-se paredes formando pequenos compartimentos, com vestígios de cal, pintados a tinta vermelha, e uma faixa preta junto ao solo. Casas de habitação? No recinto tem aparecido cerâmica, telha, mós manuárias de granito, vinte pontas de seta de ferro, muitas das quais se guardam agora no Museu Regional de Bragança, esporas também de ferro, e muitos ossos humanos. (2) Ver p. 41, 123 e 144, do tomo IX destas Memórias e O Arqueólogo Português, vol. V, p. 87. (3) BEÇA, Celestino, Major in O Arqueólogo Português, vol. XX, p. 94.

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REBORDÃOS

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Vivia neste castelo um potentado mouro, a quem as povoações limítrofes pagavam o tributo de certo número de donzelas para o seu harém, mas uma delas, certa noite, quando ele dormia, deu sinal, segundo combinara, colocando uma vela acesa no prado, ainda hoje, por isso, chamado da VeIa Acesa, e o régulo foi atacado, morto, o castelo destruído e as donzelas libertas. Em várias páginas do tomo IX destas Memórias nos referimos a lendas idênticas tocantes a Alfândega da Fé, Balsemão, Castro Vicente, Espadanedo e Simancas (Espanha) (4). A lápide que o gráfico junto memora está em Rebordãos, na casa do nosso amigo António Joaquim Gonçalves Xavier, que a encontrou em Vale de Pereiro, sítio do termo do mesmo povo, já assinalado por documentos da mesma natureza (5), onde a copiámos em 1924, publicando-a depois em O Arqueólogo Português (6). É de granito; faltam-lhe os cantos superior e inferior da direita, sem prejuízo da leitura. Tem de altura 0,45 metros, de largura 0,26 metros e de grossura idem. O texto, em superfície rebaixada. diz: D(iis) M(anibus) Cebalae Gemini mei filia (e)avia. Trata-se de uma avó que mandou levantar o monumento à neta Cebala, filha do seu Gemino. O ponto em forma de coração (hedeFigura 1 rae distinguentes), muito usado desde o imperador Augusto em diante, que separa as duas letras da primeira linha, talvez avulte o sinal de carinho patenteado pela fórmula Gemini mei, saída da boca da avó, que via morrer a jovem neta. De qualquer maneira é este um dos textos epigráficos mais comoventes e o primeiro da glíptica bragançana neste género. No cume da serra de Nogueira, mas no termo de Rebordãos, fica um santuário muito concorrido de Romeiros no dia da festa principal, 8 de Setembro, e nos oito dias que a precedem, onde centenas deles estacionam dia e noite, como em praia de veraneação, entregues a actos de pie(4) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. III, p. 115 e 244, vol. VI, p. 95, e vol. XII, p. 305, onde publica fotografias do castelo e pelourinho de Rebordãos, bem como de uma interessante janela que há numa casa da povoação, notável pelos motivos ornamentológicos. PINHEIRO, José Henriques – Estudo da estrada militar romana de Braga a Astorga, 1895, p. 53. (5) Ver p. 12 e 75 do tomo IX, destas Memórias. (6) O Arqueólogo Português, Vol. XXVII, p. 21.

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dade e também a distracções morigeradas deleitando-se ao mesmo tempo com a pureza dos ares, fontes e sabor de mantimentos. Possivelmente tão vincada tradição cultual em tal altitude e tão distante de povoados, remonta a tempos pré-cristãos, pois, como dizemos no artigo Pré-história, págs. 648 e segs. do tomo IX destas Memórias, perto, numa fraga junto de uma fonte, há gravada uma ferradura e na vertente inclinando para Sortes as insculturas rupestres mencionadas no mesmo artigo. Agora, Setembro de 1934, apareceram lá em escavações três moedas de cobre do tempo do império romano. Falando deste santuário diz Barros: «a meia legoa [de Bragança] está o Mosteiro conventual de Crasto de Avelans que tem muitos monges e valle hu conto de renda. A duas legoas está a hermida de Nossa Senhora da Serra, que ha pouco que se fundou de esmollas e offertas e se fez hua casa tamanha como hu mosteiro, grande, de tres naves, aonde concorre grande numero de gente; e me foi afirmado que houvera algus dias, onde se offerecera valia de LXX r.s (7). Ali vi eu a medida de hua cobra, que hu clerigo de VilIa Real trazia no corpo, a qual ali lançou, que era de XIII palmos em comprido, que, certo para se criar em hu corpo, era tanto de espantar, como criarse em Africa o Regulo de Atlicio, que era de CXX pés» (8). Certamente que um régulo de tal comprimento é lenda; mas a cobra bem pode entender-se pela ténia ou bicha-solitária. Contígua à antiga casa da Câmara de Rebordãos, agora convertida em escola primária, enfrentando com a antiga cadeia da mesma vila, agora apropriada a residência do professor, tudo próximo do pelourinho, há uma casa em ruínas inculcadora de antiga grandeza, documentada pelos restos da cornija em fiadas salientes de telhas embebidas em argamassa e por uma porta em arco de granito, já caído, mas conservando ainda de pé os batentes, nos quais estão gravadas duas cruzes da Ordem de Malta, indicativas dos respectivos proprietários (9). Ainda na mesma casa, faceando com a porta, há uma janela, que vandalizaram, rasgando-a em porta. Consta de envasamento rectangular granítico, muito ornamentado por folhagem em série ao longo das pilastras e no tímpano por trifólios, quadrifólios e flor-de-lis, tudo a emoldurar a interessante janela, geminada, composta de dois arcos semicirculares, divididos por mainel, já desaparecido, talvez quando da estúpida rasgadura em porta. Deve pertencer à transição do gótico para a renascença, séculos XV-XVI.

(7) Outros códices dizem CLX r.s; LXV r.s; CX r.s. (8) BARROS, João de – Geografia de entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, manuscrito de 1549, publicado em 1919 pela Biblioteca Municipal do Porto, p. 121. (9) Ver tomo IX, p. 417, destas Memórias, onde falamos dos bens que ali tinha.

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REFEGA

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REPRESÁLIA

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REFEGA O Castro da Refega, concelho de Bragança, fica um pouco adiante desta povoação, ao lado esquerdo do caminho da Petada, que segue para Espanha depois de atravessar o rio Maçãs. É de pequenas dimensões e formado por rochedos em círculo ligados por muros No espólio abundam pedras roladas do rio, talvez para serem arremessadas pelos indígenas como meio defensivo.

REPRESÁLIA Represália é o direito que têm os príncipes para tomarem aos seus inimigos as coisas que lhes apreenderam ou outras equivalentes. Também dão os príncipes cartas de represálias aos seus súbditos para poderem tomar aos seus inimigos o que injusta e violentamente lhes tomaram. Os antigos chamaram à represália Clarigátio, porque em alta e clara voz pediam os Facies as coisas que o inimigo lhes tinha usurpado. Inclinavam-se alguns ministros à represália, diz o Portugal Restaurado, parte I, pág. 309. Desculpando a represália com aparentes motivos, refere a Monarquia Lusitana, tomo VII, pág. 430 (10). No Museu Regional de Bragança há uma carta de um ministro de Estado dirigida ao bispo de Miranda que diz: «Ex.mo e Rev.mo Snr. Sendo presente a S. Magestade a necessidade que havia de se consultarem varios assentos de Obitos, Casamentos e Baptizados nos Livros das Freguezias que são sugeitas á Jurisdição de V. Ex.cia, afim de se poder completar com legalidade o Tombo dos Bens da Represalia a que se tem mandado proceder nas Comarcas de Bragança e Miranda; he a Mesma Senhora servida ordenarme haja de fazer avizo a V. Ex.cia em seu Real Nome para que ordene a todos os Reverendos parrocos dessa Diocese hajam de manifestar e apresentar ao Doutor Juiz do Tombo dos referidos Bens da Represalia todos os livros de Baptizados, de Casamentos e de Obitos, que lhes forem requeridos pelo mencionado Ministro, para delles poder extrair as provas de que necessitar para a legalidade da sua diligencia. O que participo a V. Ex.cia de ordem de S. Magestade, para que o faça cumprir e executar. «Deus G.e a V. Ex.cia – Palacio de Queluz a 14 de Novembro de 1791. Luiz Pinto de Souza».

(10) BLUTEAU – Vocabulário Português, artigo «Represália».

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REPRESÁLIA

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RIBALONGA

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RIFÕES POPULARES

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No Diário do Governo de 9 de Fevereiro e 10 de Junho de 1874 aparecem vários bens da represália sitos em Aveleda, Varge e Rabal postos em arrematação. Por toda a colecção do mesmo Diário encontram-se muitas fazendas da represália do distrito de Bragança. No Arquivo de Simancas guardam-se também grandes listas dessas propriedades situadas em Portugal, confiscadas a portugueses bandeados com Castela após a emancipação de 1640 e a ordens religiosas que as possuíam em Portugal, como eram na região bragançana os Freires de Alcaniças, Moreirola e São Martinho da Castanheira. Ver o artigo Frades, tomo IX, pág. 404, destas Memórias.

RIBALONGA «No termo de Ribalonga e ao norte num alto, se vem vestigios de muralha e grandes destroços e ruinas que mostram ter havido ali fortificação e ainda n’algumas partes se conservam pequenos pedaços de parede feita de cantaria e pedra miuda e tem o nome de Castelo da Ribalonga. Para o nascente de Ribalonga e a pequena distancia ha um sitio a que chamam Santa Ana e Traz Vinhas e Santo Ovidio e em todos estes sitios que estão conjuntos se acham e veem neles muitas sepulturas abertas na rocha bem lavradas e se acham e descobrem muitas pedras de varios feitios e buracos abertos em fragas e pias redondas, que indicam serem de algum edificio e pedras de moinhos pequenos de mão e em qualquer parte que se cave em terra se desenterram muitos tijolos fortissimos e louça quebrada. Apareceu também aqui uma pedra de altura de seis palmos e meio, partida em dois pedaços e quadrada com seu feitio no cimo e com as seguintes letras [é a inscrição que damos acima], não se sabendo se teria outras, porque a pedra estava partida» (11). Querem dizer: Esta memória foi consagrada a Jovi Óptimo Máximo em cumprimento de uma promessa. I O V I. O P. M. VOTVM

RIFÕES POPULARES – LOCUÇÕES PROVERBIAIS [1] Os provérbios, também chamados rifões, anexins, adágios, sentenças, exemplos, ditados, máximas, parémias, apotegmas, aforismos, encerram a filosofia de um povo sintetizada em breves conceitos por forma elegante, irónica, metafórica, alegórica, rimada, faceta, jogralesca, que muito elucidam a (11) Memórias Paroquiais de 1758, «O Arqueólogo Português», vol. VI, p. 239.

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etnografia do mesmo, caracterizando o grau da sua mentalidade. É grande a sua importância; deles se serviram os filósofos antigos de todos os povos, os poetas, os legisladores e os sacerdotes para divulgar suas doutrinas. Sócrates e Platão testificam a sua utilidade e Vico chama-lhe a linguagem dos deuses. Todas as línguas possuem várias colecções de provérbios impressos em livros. Eis alguns dos portugueses: Padre Frei Aleixo de Santo António, Filosofia moral tirada de alguns provérbios, 1640; Padre António Delicado, Adágios populares, 1651 (é esta a colecção mais antiga da nossa língua); D. Francisco Manuel de Melo, Feira de anexins, obra póstuma só publicada em 1875; Padre Bento Pereira, Florilégio dos modos de falar e adágios da língua portuguesa, 1655; Padre D. Rafael Bluteau, Vocabulário português e latino, 1712 a 1728; Pedro José Súpico, Apotegmas, 1720; Padre Manuel Bernardes, Nova floresta, 1706 a 1728; Francisco António da Cunha de Pina Manique, Ensaio fraseológico... sentenças, provérbios e máximas da língua portuguesa, 1856. Ver José Leite de Vasconcelos, Ensaios etnográficos, tomo II, pág. 277 e segs., e tomo III, págs. 51, 307 e 335, onde se mencionam vários outros. No «Preâmbulo» do tomo V destas Memórias apresentamos alguns rifões relacionados com judeus. Nestes, agora, ainda pensamos em incluir só os de carácter regional; mas como a destrinça é difícil e pelo conjunto dos correntes é que se pode julgar da fácies do povo que os emprega, incluímos quantos temos ouvido em terras bragançanas, embora se achem ou não noutras colectâneas. Alguns correm ainda em língua galega, fenómeno que se dá também no nosso cancioneiro e romanceiro, em razão da comunidade de origem e língua. Muitos adágios parecem contraditórios uns com outros, olhando apenas à letra; mas se atendermos ao seu fim alegórico, metafórico, à razão da sua criação, nem sempre se mantém essa contradição. Grande parte deles têm similares, quanto ao pensamento, noutros do latim e da Bíblia; todavia, o sainete vem-lhe do modo como o povo os concebe e expressa. A cabra e a azenha são de quem a ordenha. A casa do amigo rico irás sendo requerido, e à do necessitado sem seres chamado. A cautela morreu de velha. A cavalo dado não se olha o dente. A chuva não quebra costela. Também se diz: El-rei não manda chover, manda andar. A comer e a ralhar basta começar. A corda quebra sempre pelo mais fraco. A dança sai da pança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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A desconfiança é a sentinela da segurança. A galinha onde tem os ovos ali tem os olhos. A melhor candeia é a que vai diante. A mortalha nem sempre é para quem se talha. A ocasião faz o ladrão. A ovelha que mais corre não é a que mais come. A palavras loucas, orelhas moucas. A passo de boi. A poder de pingaduras faz-se um círio pascal. A preguiça é a chave da pobreza. A preguiça nada faz bem feito. A preguiça quando acorda deita fogo à casa. A primeira hóstia sempre sabe ao ferro. A primeira na escaleira (12), a segunda na cadeira. A quem coze e amassa não furtes a lenha nem a fogaça. A quem má fama tem, nem acompanhes nem digas bem. A quem não anda não lhe dá o vento. A sorte tanto anda como desanda. A união faz a força. A vaca do pobre quando há-de parir amove. À conta da barba longa. À conta do compadre boa sopa ao afilhado. À sombra dos ciganos comem os aldeanos. Abrigada de esqueiro e sombra de fragueiro (13). Água o deu, água o levou. Ainda aqui está quem falou. Ainda dura o pão da boda. Ainda não se foram os da feira. Ainda que quero mal ao meu irmão, não quero que outros lhe ponham à mão. Amor e senhoria não quer companhia. Anda pelo mundo ao pão grande (à vadiagem perdida moralmente). Ande eu quente e ria-se a gente. Antes cara amarela que vergonha nela. Antes fraco no mato, que gordo no cu do gato (relaciona-se com a fábula do cão gordo e do lobo fraco). Antes quero burro que me leve do que cavalo que me derrube. Antes só que mal acompanhado. Ao cura e ao juiz o diabo lho diz. Ao fundo todos os santos ajudam.

(12) Outros dizem: na borralheira. (13) Esqueiro ou barda, depósito de lenha junto às casas de habitação para fazer lume.

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Ao nascer e ao morrer gente quer haver. Ao porco gordo o rabo lhe untam. Equivale a corre o ouro p’ro tesouro. Ao puto não putes e ao ladrão não furtes. A trabalhar, o corpo não é de ferro; ao comer, não há que pôr amarelo. Ao velho nem vinho, nem tabaco nem buraco. Aqui é que são elas. Aqui torce a porca ao rabo. As misturas só são boas p’ra botica. Asno morto cevada ao rabo. Asnos vão e asnos vêm de Lisboa p’ra Santarém. Ver tomo I, pág. 64, destas Memórias. Às cegas como a justiça. Às cegas, sem lei nem Roque. Às vezes, onde parece que não há estacas há toucinhos, e onde parece haver toucinhos nem estacas há. Até ao lavar dos cestos é vindima. Atirar às pombas no ar. Atirar com o barro à parede. Barba ruiva uma diz e outra cuida. Bem parece a fogaça alheia na casa cheia. Bem se canta na Sé, mas é quem é. Bem-vindos sejam os hóspedes pelo gosto que nos dão quando se vão. Também se diz: o hóspede e o carneiro aos três dias tomam cheiro. Besta que não faz estrume fora da estrebaria. Boa demanda, que má demanda, o escrivão da tua banda. Boa romaria faz quem a sua casa tem em paz. Boi de outro lugar as vacas o vão escornar. Boi morto, vaca é. Bole c’u rabo o cão? Não é por ti, é pelo pão. Botar o carro diante dos bois. Burro morto, cevada ao rabo. Burro velho não toma andadura, e se a toma pouco lhe dura. Burro velho pouco verde. Buscar agulha em palheiro. Cá, como cá e lá, como lá. Ou então: cré, com cré e lé, com lé; e ainda: cada pardal com os do seu igual. Cabra manca não tem sesta e se a tem pouco lhe presta. Caçador de cana come mais do que ganha; se a cana quebra vai o pescador à merda. Cada carneiro por seu pé se esfola. Cada moucho a seu soucho. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOMO X

Cada roca com seu fuso e cada terra com seu uso. Cada um enterra o seu pai como pode. Cada um fala da festa como lhe vai nela. Cada um queixa-se de onde lhe dói. Cada um sabe as linhas com que se cose. Cama, se não dorme o olho, descansa o osso. Cão que ladra não morde. Casa onde não há pão todos pelejam e nenhum tem razão. Castela, castiga, se não é à entrada é à saída. Cem esmolas não valem um jantar. Chá de parreira e café de cortelha. Coadjutor nem sê-lo, nem tê-lo. Com águas passadas não moem moinhos. Com duas pedras na mão (com má vontade, hostilmente). Com o pé no estribo (rápido, à pressa, sem atenção). Com que bulas você fez isso! Com boas bulas você possui aquilo! Com vinagre não se apanham moscas, mas sim com mel. Come c’o guarda, mas guarda-te do guarda. Comeu o carrelo (14) e cagou no pingarelo. Comeu o isco e cagou no anzol. Como os santos o tenham e os padres lho sintam, tanto lhe cantam até que lho limpam. Conta de três o diabo a fez. Contas na mão e o diabo no coração. Contra a boa fome não há mau pão. Corre mais a lebre de mês do que o burro de três. Corre o ouro p’ro tesouro. Costureira sem dedal, cose pouco e esse mal. Cunhados são cunhas. Da água arramada aproveita-se o que se pode. Dá Deus o frio conforme a roupa. Dá Deus as nozes a quem não tem dentes. Dádivas quebrantam penhas. Dar às trancas. De anos a anos voltam as águas a seus canos. Outros dizem: cada anos mil volta o carro ao seu carril e o rego por onde costuma ir. De fora virá quem de casa nos expulsará. De homem poupado nunca te verás vingado. De hora a hora Deus melhora (se não piora, editam alguns). (14) Carrelo, cibaco e isco chamam aqui ao cibo que os pássaros levam aos filhos no ninho e às formigas de ala e outros engodos postos nas costelas e anzóis.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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17 TOMO X

De longe vai a água ao moinho. De noite todos os gatos são pretos. De Pedro a João poucas diferenças vão. De pequenino é que se torce o pepino. De quem tem cama e dorme no solo, não há que tener dolo (mirandês). Devagar que tenho pressa. Devagar se vai ao longe e bem tolo é quem se mata. Depois da casa roubada trancas nas portas. Depois de nós virá quem de nós bom fará. Depois que vi a pele da vaca na figueira, disse logo: não és tu que fazes a sementeira. Detrás dos rege-ruges vêm os cascavéis. Deu a mecha p’ro sebo. E também: deu o sejugueiro p’ra correia. Diz-se de um negócio que rendeu mais do que se esperava. Deu com as ventas num sedeiro. Deu em fraga. Deus ajuda a quem trabalha. Deus nos livre de justiça nova e de escrivão de finanças velho. Deus nos livre de taberneiro velho e confessor novo. Dia anuviado vai-se de calado. Dia de São Nunca à tarde. Digo-te a ti sogra para que entendas tu nora. Dinheiro e santidade, metade da metade. Diz a letra c’o a careta. Diz o corvo à pega: tira-te para lá que és negra. E ainda: diz o tacho à sertã: tira-te lá que me sujas. Diz o sapateiro: sovela grossa e linha delgada, que é para o corno do lavrador que nos faz a arada. Diz o lavrador: raro, raranho, que é p’ro corno do sapateiranho. Dize-me com quem acompanhas, dir-te-ei as tuas manhas. Do contado come o lobo e anda gordo. Do mal o menos. Do pão do compadre boa sopa ao afilhado. Do prato à boca cai muitas vezes a sopa. Duas pedras duras não fazem farinha. Duro com duro não faz bom muro. É coisa muito feia meter a foice em seara alheia. É dos de meia tigela. Diz-se do intermediário entre o remediado e o pobre. É dos que quer um Deus para si e um diabo para os outros. É fino, mas não caça ratos. É malhar em centeio verde. Diz-se das tentativas sem condições para dar resultado útil. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOMO X

É melhor prevenir do que remediar. É melhor ser desejado do que abominado. É ramo de souto: vai-se um, vem outro. Em tempo de guerra, mentiras por mar e por terra. Em que mãos foi cair o pandeiro!... E também: em boa mão foi cair o pandeiro!... Em que sonhas, porco? Na bolota. Encomendas sem dinheiro esquecem em qualquer ribeiro. Enquanto o pau vai e vem descansam as costas. Enquanto o saco está cheio é que é apertar-lhe o baraço. Enquanto se capa não se assobia. Entende tanto daquilo como eu de lagar de azeite. Também se diz: não percebe nada de riscado. Entra fazendo, sairás comendo. Entre parentes e irmãos não metas as mãos. Entre vivos e mortos alguém há-de escapar. Esmola Mateus primeiro aos teus. Esmola avultada faz desconfiar o pobre. Espeta mais do que assa, diz-se do gabarola que alardeia bazófias, e ainda: atira muito às pombas no ar, e também: você bota chicha ó pote todos os dias. Estão de candeias apagadas, diz-se de pessoas que estão de mal. Este mundo é um fandango e quem o não baila é um asno. Falas de mel, alma de fel. Faze bem, não cates a quem; faze mal e guarda-te. Fazer de mula de médico. Fazer ouvidos de mercador. Fazer pouco da gente. E ainda: fazer gato-sapato de uma pessoa. Feiras de verão, feiras de três P. P. P. (padres, pu... e porcos). Fere mais a má palavra que a espada afiada. Ferreiro de casa, espeto de pau. Festas e romarias não pode ser todos os dias. Fia-te na Virgem e não corras. Fidalgos, galgos e calvos, vê-los e arrenegá-los. Filho da cidade, filho da iniquidade. Filho de lobo sempre tem a orelha parda. Dizem também: nas unhas ou nos pés, hás-de dar a quem és. O que se herda, não se compra. Se ele já o herdou. Filho de peixe sabe nadar. Filho és, pai serás, assim como fizeres assim acharás. Foi aos gambozinos; foi à vida airada; foi a dar pães grandes pelo mundo. Equivale a dizer: foi à vadiagem. Foi-se às malvas. Equivale a: acabou, morreu, está sepultado na terra que produz malvas. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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19 TOMO X

Fui a casa do meu vizinho e envergonhei-me; vim à minha e remediei-me. Gato escaldado de água fria tem medo. Gato farto não é murador. Gato ladrão, assim como é julga que todos são. Gasta o real e mal. Gente de quinta, Deus a fez e o diabo a pinta. Gente de vila mais panelas que comida. Grão a grão enche a galinha o surrão. Guarda que comer e não guardes que fazer. Guardado está o bocado para quem o há-de comer. Guerra, caça e amores, por um prazer cem dores. Guisado que não hás-de comer, quem to manda mexer. Honra e proveito não cabem num saco. Honra sem proveito faz mal ao peito. Igreja, mar ou Casa Real. Ir buscar lã e voltar tosquiado. Isso não é gado do meu sinal. Isso não são contas do meu rosário. Já a formiga tem catarro. Diz-se do fedelho que se quer dar ares de gente e do mais por analogia. Julgam os namorados que os outros têm os olhos tapados. Ladrão só e pu... só. Largos dias têm cem anos. Lembra o conselho desde que se vai o coelho. Lenha verde mal se acende; quem muito dorme pouco aprende. Leva água no bico. Equivale a: tem sentido ambíguo, reservado, irónico, alusivo a factos estranhos ao caso. Lume ao pé das estopas vem o diabo e assopra-as. Madrasta o nome lhe basta. Ma-lo haja quem mal de mim diz; ma-lo haja quem mo traz ao nariz. Mal de muitos consolo é. Mãos frias, coração quente: amor para sempre. Maria vai c’o as outras. Maridico, porque nos perdemos? Porque tu vales pouco e eu ainda menos. Menina, que leva na abada? Levo vidros; se caio não levo nada. Migalhas também é pão. Miguel, não tens colmeias e vendes mel! De onde te vem o mel, Miguel? MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Minha casa, meu lar; quem a avaliou não a sabia avaliar. Moinho quieto não ganha maquia. Moleiro que muito maquia perde a freguesia. Morra Marta, morra farta. Morrer por morrer, morra meu pai que é mais velho. Muito custa a vida aos pobres e a morte aos ricos. Muito e bem não há quem; pouco e mal, qualquer sarrafaçal. Na primeira cai a velha; na segunda cai se quer ela. Na terra onde existires faz e como vires. Nada há mais escusado do que alumiar a cegos, pentear calvos e falar a mudos. Não as faças, não as temas. A las orillas de la agua Me hei puesto a llorar mis peñas; La agua me respondió: No las agas, no las temas. Não deixa fazer o ninho atrás da orelha. Não dês o dedo ao vilão, porque te tomará a mão. Não compres a mula coja cuidando que sanará: cojó Dios la sana, quanto mas la que ia está. Não é pela grande orelha que o burro vai à feira. Não cuspas p’ro ar que te pode cair a saliva na cara. Não há companhia de tanto logro como a do genro em casa do sogro. Não há formosa sem senão. Não há cego que se veja, nem coxo que se conheça. Não há gosto sem desgosto, Nem liberdade sem pena; Não há gosto nesta vida Que por fim não traga pena. Não há mal que cem anos dure, nem bem que se não acabe. Não há mentira sem pé de cantiga. Não há pior cego do que aquele que não quer ver. Não há rosa sem espinhos. Não há terra que dê tão bom fruto como a que come a sogra. Não mija ó lar. Indica que não tem medo. Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu. Não te rias do mal do teu vizinho, porque o teu já vem pelo caminho. Não ter papas na língua. Dizer as coisas pe-à-pá Santa Justa. Pão, pão, queijo, queijo. Nem de sabugueiro bom vencelho, nem de cunhado bom conselho. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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21 TOMO X

Nem por muito madrugar se amanhece mais cedo. Nem tudo quanto luz é ouro. Nem zombando, nem deveras, com teu amo não jogues as pêras. Nesta terra terruca, quem não trabalha não manduca. Ninguém as calçou (ceroulas) que as não borrou. Ninguém é profeta na sua terra. Ninho feito, pega morta. No perigo é que se conhece o amigo. Num tear bem aparelhado tece qualquer burro albardado. Numa porta se põe o raminho e noutra se vende o vinho. Nunca faltou um sapo para uma sapa nem um chamanco para um manco. Nunca matou porco magro. Nunca o invejoso medrou nem quem ao pé dele morou. O amigo e o cavalo não há que esforçá-lo. O bem passar em todo o tempo não traz bom testamento. O bem-querer sai do... [comer]. O bem soa e o mal voa. O cavalo que há-de ir à guerra não há égua que o amova. O chedo volta sempre à serra onde nasce. O diabo também tem horas boas. O hábito não faz o frade. O homem põe e Deus dispõe. O hóspede e o carneiro aos três dias tomam cheiro. O mal e o bem à cara vêm. O medo guarda a vinha. O pai impertinente faz o filho desobediente. O primeiro milho é dos pássaros. O putanheiro quanto mais, menos; e o borracho quanto mais, mais. O que não custa a ganhar não custa a gastar. O serviço do menino é pouco, mas quem o perde é louco. O valente morre na mão do fraco. Obras em havendo sobras. Olhos no bolso, dentes na algibeira e corpo que anuncia o tempo; leve o diabo tal casamento. Onde está a cabeça não mandam os pés. Onde há lume sempre fumega. Onde não há monte não há caça. Onde não há que arranhar não se gastam as unhas. Onde o ouro fala, tudo cala. Onde todos mandam e ninguém obedece, tudo fenece. Os conselhos dos velhos são Evangelhos. Os males do meu pulhino me fizeram alveitar. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOMO X

Ou nas unhas ou nos pés hás-de dar a quem és. Ouviu cantar o cuco, mas não soube onde. Pai carrejão, filho visconde e neto pobretão ou ladrão. Também se diz: os ricos são os netos dos pobres e os pobres os netos dos ricos. Palavras leva-as o vento. Pancada de cego. Para a feira e para o moinho não esperes pelo vizinho. Para baixo até as pedras rolam. Para cá do Marão governam os que cá estão. Para cura novo sacristão velho. Para onde vai o coração p’raí vai a razão. Para quem poupas, poupador? Para um grande gastador. Passarinho do ar é para quem o apanhar. Pé de boi. Pede o guloso para o desejoso. Pedra solta não tem volta. Pedro, burro negro, lameiro por cima do rego, mula que faz hin e mulher que sabe latim nunca têm bom fim. Pedro, um bom e por erro. Pelo castigo, o tonto volve-se acordo. Pelo rabo da colher vai o gato às filhós. Pelo rodar da carruagem se conhece quem vai nela. Pelas obras e não pelo vestido é o homem conhecido. Pelas tuas ovelhas julgas as alheias. Pelas vésperas se tiram os dias santos. Perderá o carneiro a lana, mas não perde o lobo a manha. Pobre daquele que a mulher bate nele. Pobre do pobre que não tem quem o chore. Pobre do pobre que não tem pão que lhe sobre. Pode limpar as mãos à parede. Por causa dos santos beijam-se as pedras. Por dizer as verdades agastam-se as comadres. Porfiar sempre, apostar nunca. Por mais que a mona se vista de seda, se mona é, mona queda. Por quem Deus nos manda avisar. Por que te não casas, João? Porque as que me querem não as quero e as que quero não mas dão. Porta aberta o justo peca. Pouco fel basta para azedar muito mel. Quando a perdiz canta e o canal corre, o melhor sinal de água é quando chove. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Quando Deus quer, com todos os ventos chove. Quando o nariz pinga, a ... (falus) minga e o soldado pergunta a quantos estamos do mês, estão f... (perdidos) todos três. Também se diz: quando o nariz pinga e a ... (falus) minga mal vai à tia Dominga. Quando tu nasceste já eu engatava. Quando vires as barbas do teu vizinho a arder deita as tuas de molho. Quanto mais alto se sobe maior é a queda. Quanto mais fino é o pano mais penetra a mancha. Quanto tens, tanto vales; nada tens, nada vales. Quatro horas dorme o santo, cinco aquele que não é tanto, seis um estudante, sete um caminhante, oito o porco e daí por diante um morto. Quem a boa árvore se acolhe boa sombra o cobre. Quem adiante não olha, atrás fica. Quem a ferro mata a ferro morre. Quem anda à chuva sempre se molha. Quem anda, desanda. Quem às onze não vier, comerá do que trouxer. Quem aos vinte não é, aos trinta não tem, aos quarenta não é ninguém. Quem bem fizer a cama, bem se deitará nela. Quem bem nada não se afoga. Quem cedo começa cedo acaba. Quem cedo nasce cedo pasce. Quem com o seu vizinho conta sem ceia se deita. Quem com rapazes se deita cagado se levanta. Quem corre com gosto não cansa. Quem da casa dos outros faz celeiro faz da sua palheiro. Quem dá esmola aos pobres empresta a Deus. Quem dá o que tem a pedir vem. Quem dá tudo a fazer dá tudo a comer. Quem dá o seu a quem o entende, não o dá, que bem o vende. Quem desdenha quer comprar. Quem de mel se faz as moscas o comem. Quem diante anda, diante apanha. Quem diz o que quer, ouve o que não quer. Quem duas conveniências quer ter alguma delas há-de perder. Quem escuta de si ouve. Quem espera desespera e quem há-de vir não tarda. Quem espera por sapatos de defunto toda a vida anda descalço. Quem espera sempre alcança. Quem fala na barca quer embarcar. Quem faz um cesto faz um cento, se lhe dão verga e tempo. Quem fez a casa na praça a muito se aventurou; uns dizem que é baixa e outros que de alta passou. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Quem fuma tem uma fornalheira e quem cheira uma estrumeira. Quem jantares come jantares paga. Quem mais jura mais mente. Quem mal quer aos seus, não quererá bem aos alheus. Quem me engana uma vez, que o leve o diabo; quem me engana segunda, que nos leve a ambos e quem me engana terceira que me leve só a mim. Quem me suja não me lava. Quem muito abarca pouco abraça. Quem muito fala pouco acerta. Quem muito se agacha mostra o cu. Quem não aparece esquece. Quem não anda pelo pé não come do que quer. Quem não faz as coisas bem de uma vez fá-las de duas ou três. Quem não é em Castilha não é em Sevilha. Quem não está acostumado a bragas mordem-lhe as pontadas. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Quem não quer a boa mãe tem a má madrasta. Quem não se arrisca não petisca. Quem não se aventurou nem perdeu nem ganhou. Quem não se emenda por palavras não se emenda por pancadas. Quem não tem padrinhos morre mouro. Quem não tem pernas não pode dar coices. Quem não tem unhas não toca guitarra. Quem nos dá um osso não nos quer ver morto. Quem o alheio veste na praça o despe. Quem o feio ama bonito lhe parece. Quem paga e mente a bolsa lho sente. Quem para bem não presta para mal tem jeito. Quem porcos lhe faltam touças lhe roncam. Quem porfia mata caça. Quem poupa o castigo odeia o filho. Quem quer dar seu jeito lhe encontra. Quem quer dar pau acha. Quem quer cão de caça procure-lhe a raça. Quem quer os bons ofícios aprende-os. Quem quer peixes molha os eixes. Quem quiser conhecer o vilão meta-lhe o pandeiro na mão. Outros dizem: meta-lhe o governo na mão. Quem quiser fazer o rei pobre pague-lhe os direitos. Quem quiser ver um aranhão meta-lhe uma candeia na mão. Quem se chega ao lume sempre se aquece. Quem se gaba suja-se e não se lava. Quem se muda Deus o ajuda. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Quem se obriga a amar obriga-se a padecer. Quem semeia ventos colhe tempestades. Quem tamancos gabou nunca sapatos calçou. Quem tem amores não dorme. Quem tem boca não diz aos outros assopra. Quem tem boca vai a Roma. Quem tem capa sempre escapa, e quem a não tem escapa também. Quem tem mulher formosa, castelo na fronteira e vinha na carreira não lhe faltará canseira. Quem tem quem o chore todos os dias morre. Quem tem um burro e o vende lá se entende. Quem tem mocidade regrada tem velhice sossegada. Quem tiver remoinho na testa não irá comigo à festa. Quem torto nasce tarde ou nunca se endireita. Quem traz capa no verão ou está doente, ou anda roto, ou é ladrão. Quem troca odre por odre algum deles sai podre. Quem tudo quer tudo perde. Quem vai a Roma tarde ou nunca assoma. Quem vai à festa e rompe a testa e gasta o que tem, boa festa lhe vem. Quem vai ao açougue se mal fala pior ouve. Quem vai ao vento perde o assento, mas quem vai ao mar torna-o a encontrar. Quem vai por atalhos nunca lhe faltam trabalhos. Riam-se do pontão mas não se riam do tostão. Sabe mais o tolo no seu do que o avisado no alheu. Santos de casa não fazem milagres. São mais as vozes que as nozes. Sempre os há, a questão é procurá-los. Entende-se asnos, parvos, etc. Se o velho pudesse e o novo soubesse, não havia coisa que se não fizesse. Se quiseres fazer as coisas depressa anda devagar. Serviço feito não mete pressa. Sogra?! nem de barro à porta. Outros dizem: sogra, mesmo de açúcar amarga. Sol na eira e água no nabal não pode ser. Tal o sebo como a bota. Também dizem: calhou bem o pez c’oa bota, e ainda: tal a salada como o molho. Tanto dizem eiras, eiras, até que o pão vem a eilhas (mirandês). Tanto morre o Papa como quem não tem capa. Tanto quer o corvo aos filhos que lhe tira os olhos. Tantas vezes vai o cântaro à fonte até que lá fica a asa. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Telha de igreja sempre goteja; se não chove, chuvisca. Tem-te não caias. Tem de ser. Todo o burro come palha, a questão é saber-lha dar. Todos os conselhos ouvirás, mas o teu não deixarás. Tran-plan-tran, minha carapuça dinheiro me custa. Trás de tempo tempo vem. Tristezas não pagam dívidas. Tu que não podes leva-me às costas. Tudo de vinho e nada de linho. Alude à resposta da mulher ao marido, que lhe recomendava poupar algo na pinga para arranjar lençóis para a cama. «Um engano de afeiçam é mais brando que veludo de Bragança» (Jorge Ferreira de Vasconcelos, Eufrosina, edição de 1919, conforme a de 1561, pág. 22). Uma andorinha só não faz verão. Outros dizem: uma mosca só não faz verão. Uma das habilidades dos homens é tocar sinos, burros e foles. Uma mão ajuda a outra e ambas lavam a cara. Uns cardam a lana e outros levam a fama. Uns comem os figos e a outros empolam os lábios. Uns são os que pegam na cabra e outros os que a ordenham. Vaca que não come com os bois ou come antes ou come depois. Vai a cabra pela vinha, tal a mãe qual a filha. Vai o vinho a vintém, bebe-o quem o tem. Vai pentear macacos. Vale mais a enxalmadura que a cavalgadura. Vale mais a pior avença do que a melhor sentença. Vale mais calar do que mal falar. Vale mais na loja do que arresponsado. Vale mais o molho do que o polho. Vale mais quem Deus ajuda do que quem muito madruga. Vale mais um pássaro na mão do que dois a voar. Vale mais um toma do que dois te darei. Vão as leis para onde querem os reis. Vão lá saber do homem da capa parda. Vão-se os anéis fiquem os dedos. Veio a talho de foice. Velho que casa com moça quer ser corno à força. Ver-se em papos de aranha. Vizinho que não serve e faca que não corta, ainda que os leve o diabo não importa. Visita de médico. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Vozes de burro não chegam ao céu. Zangam-se os compadres por lhe dizerem as verdades. Zás-trás, nó cego. Zorro, ou bem esperto ou bem tolo. AGRICULTURA E ECONOMIA DOMÉSTICA A cabra e a colmeia é castrá-la quando está cheia; vezes há que é melhor matá-la do que deixá-la. A colmeia e o coelho querem monte velho. A fazenda é fazendo-a. A pita que põe na vindima é rainha. Ainda que arreganhes o dente não comas a semente. Ano chuvoso verão abundoso. Ano de bolotas pobres pelas portas; ano de bulhacos pão pelos buracos; ano de gamões pão aos montões. Ano de muito vinho, guarda o teu vinho; ano de pouco vinho, vende o teu vinho. Ano de nubrinhas pão pelas cortinhas. Ano de ovelhas, ano de abelhas: um ano de cria e dois de morrinha (mortandade). Ao toro da esteva, giesta e sardão dá bem o pão. Ao toro da urze, carqueja e sargaço nem murgaço. Atem-te à raiz. O povo deriva este adágio do canto de um pássaro pouco maior que um pardal, chamado chinchalaraiz por onomatopeia, e diz que a avezinha lhe está lembrando constantemente a necessidade de conservar a propriedade. Azeite do cimo, vinho do meio e mel do fundo. Bens de ribeira bens de canseira. Boa terra: má água e má pedra; má terra: boa água e boa pedra. Boi acorreado, boi medrado. Boi grande besta que ande. Burro p’ro pó, cavalo p’ro lodo e macho ou mula p’ra todo. Cão capado e pastor casado fora do meu gado. Casa que não é ralhada não é bem governada. Chuva na Ascensão fura as nozes e tira o sustento ao pão. Colmeias e abelhas nem comprá-las nem vendê-las; se se te derem farás por elas. Comprar sem poder é vender sem querer. Com quem tem ovelha, abelha e pé-de-altar não te ponhas a assolhar. Criado retornado é caldo resquentado. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Deitar cedo, cedo erguer, dá saúde e faz crescer. Deita-te sem ceia não te deites sem candeia. Deus nos livre de pão pesado e vinho aquartilhado. Do cerejo ao castanho bem me amanho; do castanho ao cerejo mal me vejo. Em tua casa nem fidalgo nem galgo. Enquanto a potra potreia a égua enxameia. Escudeiro mancebo, deitar tarde e levantar cedo. Homem espingardeiro, nem tulha nem palheiro. Homem jeireiro, nem tulha nem palheiro. Gagos, calvos e fidalgos vê-los e deixá-los. Guarda da risa p’ra chora. Lá vai serôdio com temporão, mas não na palha nem no grão. Lenha no lume em cruz nem arde nem luz. Mais valem alimpaduras de minha eira que o trigo da tulha alheia. Mal vai à loja onde o boi velho não geme. Ma-lo haja o dente que come a semente. Malhar e no dia seguinte limpar o pão, não esperes pelo feijão (refere-se ao vento, pois quando abunda no verão falham os feijões). Na semana das Ladainhas não lances as tuas galinhas. Também se diz que nesta semana se não devem sementar feijões, porque nascem sem cabeça. Não há casa boa sem gado ou coroa (padre). Não compres mulher em feira nem boi à luz de candeia. Não queiras mais mal ao teu vizinho do que ver-lhe a fazenda em dinheiro derretido. Natal na praça, Páscoa em casa. Nem Pedro, nem burro negro, nem lameiro por cima do rego, nem mula que faça hin nem mulher que saiba latim. No alto vai a vinha e na baixa a vindima. No mau não te mates e no bom não te agaches (refere-se ao bom e ao mau tempo). No tempo das uvas cada um às suas. No verão para chover ou há-de trovejar ou há-de arrefecer. Nunca vejas ano de nozes, nem de pêras nem de bêberas. O cavalo até aos sete anos para meu irmão, dos sete aos catorze para mim e dos catorze por diante para o meu inimigo. O céu é de quem o ganha e as terras e o dinheiro de quem o apanha. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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O fio não quebra pelo delgado, quebra pelo mal fiado; mas enquanto o grosso endelgadece o delgado fenece. O olho do dono engorda o cavalo. Oliveira do meu avô, castanheiro de meu pai e vinha minha. O potro que o crie otro. O vinho porque está cozido tem o mérito garantido. O pão é nas châiras; O canto nos lombeiros: A paz nas crianças E a verdade em poucos eidos. Ou bem perto da serra ou longe dela. Pão caído dono levantado. Pão com olhos, queijo sem olhos e vinho que salte aos olhos. Pão mole de seu se engole, pão em massa de seu se passa, pão duro enche bandulho. Pão e vinho, um ano teu e outro do teu vizinho. Pão torrado nem farta amo nem criado. Diz o povo que o pão se queixou ao Criador dos maus tratos que lhe faziam pela forma seguinte: Enterram-me. E tu a crescer, volveu-lhe Ele. Segam-me. E tu a crescer. Malham-me. E tu a crescer. Moem-me. E tu a crescer. Cozem-me. E tu a crescer. Torram-me. A esta queixa não respondeu o Senhor, inculcando assim, pelo silêncio, a sua reprovação. Para ser bom ano de pão hão-de vir sete neves e um nevão. Para em terras bragançanas indicarem a necessidade de cada um olhar pelo seu, sem se afastar para muito longe dele e memorar os perigos das aventuras, canta-se: Fui às vindimas ao Douro Não achei que vindimar; Vindimaram-me as costelas, Foi o que lá fui ganhar. Poda curta vindima larga. Poda e sementeira cada dia sua jeira. Por onde vão os nabais vai o demais. Porcos e bois vale mais um que dois. Quando o carro empina o rabo já é dia claro. (O povo chama carro a um dos doze signos do Zodíaco). Quando o cuco canta e a bubela põe, amarga lá rabaça e queima el agrõe. Quando se fazem as espalhadouras? Propunha este problema rico proprieMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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tário aos pretendentes à mão de sua única e formosa filha. Quando se encontram, respondeu o feliz que a conseguiu, depois de muitos desacertarem. Costumam fazer-se as espalhadouras em Setembro ao esgalhar os ramalhos de freixo, choupo, carvalho e bedulo, a fim de guardar a folha para dar aos gados durante o inverno, aproveitando nessa altura quantas aparecem. Mas o rico, ao propor o enigma, semelhante no género aos postos pela Esfinge memorados na fábula grega, queria mostrar a conveniência de aproveitar a ocasião, quando calha, porque de longe vai a água ao moinho e serviço feito não mete pressa. Queimar lenha verde e pão mole comer deita um homem a perder. Quem ara e fia ouro cria. Quem come o caldo com pão ou tem muita fome ou é lambão. Quem dorme, dorme-lhe a fazenda. Quem emprenha no bilhó [Novembro] faz a segada ele só. Quem lavra com vacas, calça abarcas e casa com mulher muda nunca lhe falta uma desventura. Quem muito tem muito quer. Quem não cria não pia. Quem não poupa água ou lenha, não poupa coisa que tenha. Quem não tem vacas ou bois, ou antes ou depois (refere-se à lavoura). Quem quer besta sem chata toda a vida anda à pata. Quem quer o alho repolhudo semeia-o pelo Entrudo. Há outro adágio que diz: o alho pelo Natal [Dezembro] bico de pardal. Quem quer o bom nabal peça a Deus que lhe nasça mal. Quem quiser bom obreiro procure-lhe bom invernadeiro. Quem quiser o carro perfeito faça-o com o meão estreito. Quem quiser saber o que valem os bois venda os seus e compre depois. Quem quiser ser pobre sem o sentir, meta obreiros e deite-se a dormir. Quem quiser ser rico semeie cevada e linho mourisco. Quem quiser ter ovelhas há-de andar tanto como elas. Quem serra negrilho não tem dó do pão nem do vinho. Ramos molhados (domingo de Ramos) anos melhorados. Remenda o teu pano, durará um ano; torna-o a remendar, voltará a durar. Se quiseres bem ferrar hás-de desferrar. Semeia no pó colherás mó. Outro diz: semeia no pó, não tenhas dó. Telha de igreja sempre goteja; se não chove chuvisca. Terra canto e lameiro campo. Terrantez (variedade de uva) não a comas nem a dês (que se fabrique em vinho). Vaca barriguda e ovelha cornuda. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Vaca grande e burra que ande. Vaca que foi e mulher que há-de ser, não as metas em casa porque te deitam a perder. Vais-te? fico. Ficas? vou-me. (Refere-se à espuma do vinho ao lançar nos copos, que tanto melhor é quanto mais depressa desaparece). Vende em casa e compra na feira se queres sair da lazeira. Vitela de vaca velha e vitelo de vacarela.

ALIMENTAÇÃO Almoço cedo cria carne e sebo. Beber sem comer é cegar e não ver. Caldo de perdiz carne de codorniz. Carne que baste, vinho que falte e pão que sobeje. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a doentes. Começam-se as sopas molham-se as bocas; sopas acabadas bocas molhadas. Das carnes o carneiro, das aves a perdiz e, sobretudo, a codorniz; mas se o porco voara não havia carne que lhe chegara. Das grandes ceias estão as sepulturas cheias. Em cantando o cuco fora pulpo. (Pulpo é polvo em espanhol, e da Galiza era de onde dantes vinha mais abundância desse molusco). Leitão de mês e cabrito de três. Merenda comida companhia desfeita. Nem boa olha sem toucinho nem bom sermão sem Santo Agostinho. O cabrito e o tenreiro (leitão) um mês no chebiteiro. O galo quando é gago. Pão e vinho anda caminho. Por cima de melão de vinho um tostão (e o quartilho a cinco réis, é o comentário). Por cima de pêras vinho bebas até que nadem elas, mas não tanto que andem de canto em canto. Quem bem janta escusa ceia. Quem lava a malga com vinho de velho torna a menino. Se queres enfermar ceia e vai-te deitar. Vale mais pão duro que vinho maduro.

CASAMENTO A boda e a baptizado ninguém vai sem ser chamado; mas a baptizado e a boda vai a gente toda. Antes que cases mira o que fazes. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Depois da minha filha casada não faltam maridos. O casamento e a mortalha no céu se talha. Quem ao longe vai casar ou vai enganado ou vai enganar. Quem casa quer casa. Quem tripas comeu e com viúva casou, sempre há-de lembrar-se do que por lá andou. Tripas e casamento em quente.

FILHOS Aos padres tirou-lhes Deus os filhos e deu-lhes o diabo os sobrinhos. Filho és, pai serás, assim como fizeres assim acharás. Filhos não tenho, netos me dão canseiras. Pai impertinente faz o filho desobediente. Quem filhos não tem cada dia mata cem. Quem tem filhas e ovelhas não pode falar das alheias. Quem tem filhos tem codilhos e quem os não tem codilhos tem. Sobrinhos são espinhos.

HOMEM E MULHER A mulher aos quinze anos é codorniz, aos vinte perdiz, aos trinta vaca e aos quarenta caca. A mulher governadeira pare a filha na dianteira. A mulher e a ovelha com sol à cortelha. A mulher e o vidro sempre estão em perigo. A p... e o cão só olham à mão. As mulheres são bens de erva: Deus as dá e Deus as leva, dizem os homens. À porta do homem rezador não ponhas o trigo ao sol; à do que não reza nada, nem trigo nem cevada. Carros velhos e mulheres novas dão cabo dos homens. De besta a muar, e de homem o de pouco falar. Em homem de bigode, que não seja empregado ou militar, não há que fiar. Guarda-te do cão que não ladra e do homem que não fala. Há três classes de homens: varão, varela e varunca. Varão é o que governa ele e ela não; varela é o que governa umas vezes ele e outras ela; varunca é o que governa ela e ele nunca. Homem celhudo, cão manco e mulher barbuda a três milhas de distância os saúda. Homem com socos e burro a lavrar perdem o andar. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Homem doente família p’ra frente. Homem fraco e não de fome. Homem grande besta de pau. Homem pequeno fole de veneno. Homem pequenino ou embusteiro ou bailarino. Moça bonita por pouco dinheiro e eu forasteiro a mi me la dan: tran-plantan. Mulher amovida ao ano parida. Mulher barbuda ou p... ou cornuda. Mulher doente mulher para sempre. Mulher e sardinha pequenina. (Do mal o menos). Mulher ou vaca de feira: lameiro com orvalheira. Mulher que silva e fia de pé nunca boa é. Mulher rinchadeira ou p... ou alcoviteira. Não há boi que não lavre nem p... que se não case. Não há geração sem p... ou ladrão. Não ha mulher sem fama nem besta sem manha. Não há p... sem alcoviteira. O homem barca e a mulher arca. O homem que quer não deixa de consultar a mulher. Os homens não se medem às braçadas mas sim às polegadas. Os homens são ramos de souto: vai-se um, vem outro, dizem as mulheres. Por que vos vai mal, p...? Porque somos muitas. Quem com p... joga o vinte ou fica pobre ou pedinte. Quem não tem cavalo nem mulher não monta quando quer. Quem se finta em mulheres E delas faz cabedal, Vai parar à sepultura Ou morrer no hospital. Quem serve menino, mulher e comum não serve a nenhum. Sol madrugador, homem rezador e frade cortês arrenega de todos três. Tabaco, vinho e mulher deleitam a juventude e com regra dão saúde. Tempo, mulher e fortuna depressa muda. Toda a mulher que se sujeita para melhor passar, pouco aprecia o que deve guardar. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MEDICINA Banhos quitam anos. Bexigas e sarampelo três vezes ao butelo. Outros dizem: ao pêlo. Mal prolongado morte no cabo. Mulheres dos trinta p’ra riba não deixeis molhar a barriga. No tempo das uvas não se precisam purgas. Perna no leito e braço ao peito. Quando mal maleitas. Quando o mal é de morte o remédio é morrer. Quem cagou livrou. Quem com água se cura pouco dura. Quem come, bebe, caga, dorme e mija clara urina ri-se da medicina. Testa fria, pés quentes e cu corrente salvam o doente. MESES E SUAS CARACTERÍSTICAS JANEIRO Janeiro, geadeiro. Janeiro, meia tulha e meio palheiro. Janeiro namoradeiro: a perdiz e o coelho. Janeiro sobe-te ao lombeiro, se vires verdegar, bota-te a chorar, se vires terdegar, bota-te a cantar. Verdura de Janeiro não vai a poleiro. Janeiro rabaceiro, nem tulha nem palheiro. Janeiro gradino, Fevereiro namoradeiro, Março ventoso, Abril anuvioso, Maio pardo, São João (Junho) claro Fazem um verão formoso. Outros dizem Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, Fazem, o ano formoso. Janeiro molhado, nem é bom para o pão nem para o gado. Outros dizem: Janeiro molhado, se não é bom para o pão, não é mau para o gado. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Dia de São Sebastião (20 de Janeiro) tira a vaca do pão. Porco de Janeiro vai c’o a mãe ao fumeiro. Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro. Luar de Janeiro não tem parceiro; mas lá vem o de Agosto que lhe dá pelo rosto. Quando o mocho em Janeiro canta, lá vem Fevereiro que o acalenta. Em Janeiro mete obreiro, mês meante que não ante. Em Janeiro corta madeiro. Quem vindima antes de Janeiro azeite deixa no madeiro. Galinha de Janeiro põe detrás do rilheiro. (Rilheiro encosto do escano). Janeiro comer em boda e dormir em palheiro. Da flor de Janeiro ninguém enche celeiro. Quem quiser o gato fino mate o porco e unte-lhe o focinho. Em Janeiro cantareja o galo no poleiro: Quando virá o dia? Nunca amanheça, nunca amanheça, rosna o gato infressurado nas lambeduras dos cevados mortos, se não é na salsicheira, por descuido da dona de casa. Volta o galo: Onde foi meu amo? Ao nabal, ao nabal, regouga o felino (os nabos relacionam-se com a ceva dos porcos). Em Junho invertem-se os paus: abundam os cereais, comida do galo, e escasseia a salsicheira, por isso o gato jeremia: Onde foi meu amo, que há três dias que o não vejo?! À segada, à segada, conclama o galináceo, pela sombra dos pátios, impante de fartura. FEVEREIRO Quando no Fevereiro ardem os montes, no São João (Junho) rebentam as fontes. Fevereiro quente traz o demo no ventre. Quando a candelária chora, já, vai o inverno fora; mas que chore, que cante, inverno atrás e adiante. Dizem alguns que a candelária é um passarito de cantar triste, chamado chedo, que vive nos montes áridos de urzes; mas o mais provável, como querem outros, é que candelária indique a festa da Senhora das Candeias (2 de Fevereiro), pois há outros ditados referentes a esta época modificadora do brusco inverno. Assim, no dia seguinte (3 de Fevereiro) é a festa de São Brás e o povo diz: Pelo São Brás, cegonha verás; alusivo a estas aves, que vêm nidificar à região bragançana, só aparecerem no início da primavera com o bom tempo. E ainda: que São Brás deita no seu dia uma brasa nos rios para significar o degelamento das águas ou a sua menor frialdade. Também diz o povo que, não se apagando as velas com o vento na procissão da Senhora das Candeias, será abundante o ano em fruta e pão. É mau Fevereiro o que não mata cordeiro. A neve de Fevereiro derrete-a a velha c’um peido. A decrua em Fevereiro faz o lavrador cavalheiro. Em Fevereiro bota os porcos ao lodeiro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Não chovendo em Fevereiro, nem bom pão nem bom lameiro. A castanha e o vesugo em Fevereiro não têm sumo. Fevereiro leva a ovelha e o carneiro e mata o onzeneiro. Fevereiro lavradeiro, nem tulha nem palheiro. Fevereiro fervelejou, suas pingas de água deitou, quem bem as contou na tulha as achou. Em Fevereiro entra o sol em qualquer ribeiro. Outros dizem no abixeiro. O mês de Fevereiro ou vaza ou enche celeiro. Dia de Santa Doroteia (6 de Fevereiro) já o dia tem mais hora e meia. MARÇO Março, marção, de manhã inverno e à tarde sol de verão. Não dure mais a má vizinha do que a neve marcelina. Março iguarço: O dia c’o a noite e o pão c’o xargoaço. Páscoa em Março, grande fome ou grande mortaço. Podar em Março é ser madraço. Poda em Março, vindima no rogaço. Outros dizem: quem não poda em Março, vindima no regaço. Pela Senhora da Ribeira (25 de Março) poda verdadeira. Roça que é Março (refere-se à urgência de abreviar a poda). Poda e sementeira, cada dia sua jeira. Março airoso. Em Março nem o rabo do burro molhado. Vai-te embora Março, marçaca, cá me deixas a minha ovelha e a minha vaca. Cala-te aí, velha tamboril, que com dois dias qu’eu tenho e dois que m’empresta meu irmão Abril, hei-de fazer-te andar c’o a ovelha às costas e c’o a vaca no carril. Se queres bom cabaço semeia em Março. Em Março morre a fraca (colmeia) que não a vaca. Março encanarço, Abril espiguil, Maio granaio, Junho foice em punho. Março quente, requer Abril com o diabo no ventre. Março, marçagão, de manhã cara de rosas e à noite cara de cão. Março queima as damas no palácio e os meninos no regaço. Março, marçagão, pela manhã cara de cão, ao meio-dia cara de rainha e à noite sega c’o a foicinha. Se não chover entre Março e Abril venderá el-rei carro e carril. Março ventoso, Abril chuvoso, Maio amoroso fazem o ano formoso. Março trovejado, ano melhorado. Março, marçagão, cura teias esteiras não. Entre Março e Abril o cuco há-de vir; se não vier ou el-rei é morto ou o inverno está por vir. Se o cuco não vier entre Março e Abril ou o cuco é morto ou está para vir.

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ABRIL Abril espiguil, Maio espigaio, São João (Junho) segai-o, Santa Marinha (Julho) malhai-o. Abril espiguil, vai a velha onde tem de ir e volta dormir ao seu covil. Abril frio e molhado enche o celeiro e farta o gado. Abril águas mil peneiradas por um mandil. Abris e cavalheros pocos buenos. Vinho de Abril não enche cantil. Enxame de Abril não o deixes ir, o de Maio arrecadai-o e o de São João (Junho) quer se vá, quer não. Bom ano de poda, que mau ano de poda, a Abril vai toda. Quem faz a poda em Abril faz a vindima no mandil. Se não chove em Abril perde o lavrador o carro e o carril. Manhãs de Abril são doces de dormir. MAIO Maio gradai-o (refere-se ao pão). Maio pardo, São João (Junho) claro. Maio pardo faz o pão grado. O mesmo fez o Maio às amoras e depois desejou-as. Aplica-se a quem recusa uma dádiva que se lhe oferece generosamente. Em Maio queima a velha o talho e no São João (Junho) o melhor tição. Em Maio, três vezes caldo, pão a cada via, cear com sol e à cama de dia. Pela Santa Cruz (3 de Maio) vai ver se o linho reluz. Pela Santa Cruz já o vinhago reluz. Dias de Maio, dias de amargura, mal amanhece já é noite escura. (Da psicologia dos namorados). O bom paio vem de Maio. Outros, sobre o mesmo assunto, dizem: quem quiser o bom leitão ceve-o no verão; e ainda: o bom leitão vem do verão. Uma água de Maio e três de Abril valem por mil. Maio hortelão, muita palha e pouco grão. JUNHO Água em São João (Junho) tira o vinho e azeite e não dá pão. Junho foice em punho. Uma decrua na segada é igual a uma estercada. Quem quer colher pão, decrua em Março e vima no S. João. São João molhado, se é mau p’ro pão é bom p’ro gado. Junho foice no punho, Agosto calor no rosto, Setembro meu pão sembro, Outubro meu pão acubro. Com pão ou sem pão todos vão chegando ao São João. O São João é dos curas, o São Pedro dos criados, a Santa Isabel dos cucos, andam todos abalados. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Tarde que cedo, segada pelo São Pedro (29 de Junho). São João arranhadela de cão. (Refere-se à cava das vinhas). Chovendo e nevando, vai o São Pedro chegando. JULHO Água em Santa Marinha (Julho) no mornal faz farinha. Malhar e limpar o pão, não esperes pelo feijão. (Entende-se que não é ano de feijões o de verão ventoso). Pelo São Tiago (25 de Julho) em cada ramo seu bago. (Refere-se às azeitonas). Dia de São Tiago vai à vinha e acharás bago. O trigo e o menino na Santa Marinha têm frio. A ratoeira não persegue o rato, mas o rato acaba por cair na ratoeira. No dia de São Tiago (25 de Julho) pinta o bago. Quem come quinhão depois do São Tiago leva-o o diabo (alude à carne de porco). Sobre o mesmo: bem sabe o quinhão da masseira mas na sementeira. Em Julho faz a cigarra barulho. Deus ajudando vai em Julho mercando. AGOSTO Quem malha em Agosto malha a suor do seu rosto. Em Agosto arder e em Setembro beber. Agosto refresca o rosto. Noite de Agosto frio no rosto. Em Agosto secam as fontes e em Setembro ardem os montes. Dia de São Lourenço (10 de Agosto) vai à vinha e enche o lenço; se não achares para o encher sempre arranjarás para comer. Se queres ver o marido morto dá-lhe couves em Agosto. No dia da Assunção (15 de Agosto) já a folha tem sessão. Se quiseres o nabo de lei semeia-o antes do São Bartolomeu (24 de Agosto). Quem em Agosto ara riqueza prepara. Terra lavrada em Agosto à estercada dá de rosto. Quando chover em Agosto não compres mosto. Água de Agosto, mel e mosto. Nem em Agosto caminhar nem no Natal navegar. Agosto tem as culpas e Setembro leva as frutas. SETEMBRO Quem quer mel castra pelo São Miguel (29 de Setembro), quem quer colmeal pelo Natal (Dezembro). Se destempera nas Têmporas (do São Mateus, 21 de Setembro) tarde tempera. São Miguel das uvas (29 de Setembro) tarde vens e pouco duras. Em Setembro ardem os montes e secam as fontes. Em Setembro ou ardem os montes e secam as fontes ou leva açudes e pontes. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Em chegando o São Mateus (21 de Setembro) deixa os pássaros que não são teus (15). Ainda a propósito das aves migratórias, julgamos oportuno fixar o seguinte: em 9 de Setembro de 1934 foi apanhado aqui em Baçal, concelho de Bragança, um mosco ou mosqueiro (variedade de tralhão com anilha de níquel [?]) numa pata, que tinha insculpida a legenda VOGELWARTE HELGOLAND 8003155 Comuniquei para ali a notícia e responderam-me o seguinte: «Helgoland, 21 de IX de 1934. Estação da ilha de Helgoland (Alemanha) para a observação das aves migratórias.

(15) Refere-se às pardicas, tralhões e rabos-russos, avezinhas migratórias que arribam aqui em fins de Agosto, retirando em igual período do mês seguinte, fortemente dizimadas pela caça que os rapazes e mesmo adultos lhes fazem com esparrelas e costelas, também chamadas pescoceiras. Com que saudade me lembro das minhas caçadas aos pássaros, tanto de rapaz como de adulto, pois só aos sessenta anos deixei de as praticar, sem contudo abandonar a esperança de voltar a elas, apenas largue a direcção do Museu Regional de Bragança! Ainda conservo, com estima máxima, vinte das trinta e seis costelas com que caçava, e quando há anos uns meliantes, prevalecendo-se dos ingénuos nove anos do meu sobrinhico Barnabé Alves lhe apanharam dezasseis, senti tanto ou maior desgosto do que ao pagar passante de uma dezena de contos a intrujões pseudo-falidos, dos quais fui fiador (sacador). São interessantes as migrações das aves e as lendas que o povo lhes adscreve. Em Fevereiro aparecem as cegonhas (dia de São Brás, cegonha verás, diz ele); em Março, as andorinhas (chegam dia de São José, segundo afirma o povo); pouco depois, a poupa e cuco (as mães dizem às filhinhas que cada menina tem de fazer umas meias para o cuco, pois as leva e mal trata se as não encontra prontas). Seguem-se-lhes as codornizes, rolas, gralhas, figos-maduros e toutinegras (espécie de folecra). Todas estas aves nidificam por aqui; porém, as seguintes não e retiram-se conforme a ordem da vinda pelo mês de Agosto. Em fins deste mês surgem as pardicas, tralhões e rabos-russos. Diz a lenda que se encontram no caminho com as andorinhas e que estas lhes advertem: «Onde ides loucas? Ides muitas e vindes poucas!» Ao que elas contrapõem presas à fatalidade do destino: «E vós de onde vindes, putas? Ides poucas e voltais muitas!» Em meados de Setembro aparecem os parros grandes e pequenos (patos, marrecos), que retiram às primeiras nevadas. Com estas surgem os porcos-piscos, aves-frias, garças e gralhas pretas (as outras, vindas na primavera, são mais pequenas e de cor cinzenta com manchas verdes), que passam a estação hiemal por aqui, retirando com o tempo bonançoso da primavera, entre Fevereiro e Março. Destas aves migratórias ficam algumas, poucas, por cá, talvez por se não atreverem à jornada, devido a acidentes mórbidos, se não é por espírito revolucionário, ou porque, nadas aqui, ignoram o rigor do clima e o instinto lhes não pesa bastante na mente ou lhes fecham os ouvidos. O povo bragançano, como fronteiro e vítima próxima dos castelhanos, traduz muitas vezes as vozes dos animais por expressões deprimentes, alusivas a essas recordações. Assim, no seu entender, o figo-maduro canta: bater o galego, bater o galego (a palavra não é bem bater, mas outra cheia de realismo obsceno). E a codorniz: bau, bau, bau, bau; tem-te atrás, tem-te atrás.

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«Ex. mo Sr. Padre Francisco Manuel Alves – Baçal – Bragança – Portugal. Muito agradecemos a sua comunicação, de grande interesse para nós, relativa à captura do nosso MOSCARETA n.° 8003155. Esta ave, apanhada, ao passar por aqui, nas nossas redes especiais, foi anilhada no dia 10-VII-1933. Pedimos o obséquio de mencionar este facto na sua revista, convidando os leitores a auxiliarem estas investigações internacionais acerca das migrações das aves, investigações em que colabora a maioria dos países civilizados. Basta para isso que todos os que tenham ocasionalmente efectuado a recapturação de uma ave anilhada, queiram dar-se o incómodo de o fazer constar, utilizando o endereço inscrito na anilha. Estas investigações têm grande interesse para a ciência, para os sportmens e para a protecção internacional das aves úteis. Já se obtiveram resultados notáveis. Assim, graças ao processo da anilhagem adoptado, adquiriram-se dados, seguros sobre a longa migração das cegonhas brancas e sobre a das andorinhas inglesas, que se deslocam até ao sul africano. Com as anilhas nada sofrem as aves, algumas das quais têm chegado a trazê-las dez anos. Naturalmente não deve abater-se uma ave com o único fim de averiguar se traz anilha: não teria tal prática a menor probabilidade de êxito. Mas seria para lamentar que, por falta de um pouco de cuidado, se deixasse perder qualquer anilha casualmente encontrada: dá muito trabalho a colocação de anilhas em milhares e milhares de aves, que primeiro têm de ser expressamente capturadas; e é muito reduzida a percentagem das anilhas devolvidas. Aves empalhadas portadoras de anilhas, patas com anilhas, e até simples anilhas, tudo recebemos com gratidão, a fim de ser exposto no nosso museu público. De V. Ex.a – At.to ven.dor e obrg.do Professor Dr. R. Drost».

O povo explica: um galego, ouvindo esta voz saída de um trigo junto ao caminho por onde transitava e parecendo-lhe que o intimavam a beber água e a parar, suplicava aflito: «Xá bubin, xiñor, deje-me passar», mas a ave continuava e ele teve de recuar e tomar outra via, onde encontrou um lagarto ao sol, que abria e fechava a boca para apanhar as moscas. Novo susto do viajante, supondo-se alvejado pelos gestos do animal, e em vão implorava: «Xiñor de la pinta vermeja, deje-me passar». Mas o lagarto não cessava na caça e o homem só passou à noite, quando o réptil recolheu à toca. Mais adiante, andadas algumas léguas, ouviu uma cotovia chilreando na ponta de um fragueiro: «Que che lo vi, que che lo vi... à vichelo»; diz o galego: «Pues mira que lle non fica ala». Era um ochavo que escondera na terra, ao sair da sua aldeia, e voltou atrás a guardá-lo melhor. A andorinha canta, aludindo às mulheres preguiçosas e à cultura do linho: «Fui ó mar, vim do mar e a tua teia por fiar!». A propósito do descalabro desnacionalizante que nos acarreta a incultura do linho e outras, ver tomo VII, p. 803, destas Memórias.

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Em prol dos estudos zoológicos aqui fica esta nota. Quem dirá que tão pequena avezinha se desloca assim anualmente três mil e quinhentos quilómetros à procura de alimento, isto sem contar a viajata anterior, provavelmente da África, onde inverna?! Muito custa a vida ao homem condenado a comer o pão a suor do seu rosto e não menos à restante animalidade!... Como se vê, estas aves aparecem na Alemanha em Julho e só passante de um mês entre nós, de onde parece concluir-se que entram pelo oriente europeu, trajectória clássica dos povos invasores, em direcção ao norte, descendo depois a sul, à medida que os frios avançam, sempre um pouco afastadas da zona destes, pois é precisamente nela que os saltões, moscas e outros insectos, de que se sustentam, abundam em melhores condições de captação por estarem gordos, congregados mais ou menos em bandos, como é próprio de muitos animais ao embate dos primeiros frios e também um pouco atoleimados por estes. É precisamente nesta altura meteorológica que os formigueiros expulsam os machos (formigas de ala), alimento preferido pelas aves referidas. OUTUBRO Pelo São Simão (28 de Outubro) tira os bois do trigo, do centeio não. Quando o Outubro for erveiro, guarda para Março palheiro. Pelo São Francisco (10 de Outubro) semeia o teu trigo; a velha que o dizia semeado o tenia. NOVEMBRO Santos (1 de Novembro) neve pelos cantos. De Santos ao Natal (Novembro e Dezembro), inverno natural. Pelos Santos pingam os trampos. Dia de São Martinho (11 de Novembro) mata o teu porco, barra o teu vinho e corta as relações com o vizinho. Pelo São Martinho todas as velhas têm vinho. Dia de São Martinho vai à adega e prova o vinho. Queres pasmar o teu vizinho? Lavra e esterca pelo São Martinho. Se o inverno não erra o caminho, tê-lo-eis pelo São Martinho. Pelo Santo André (30 de Novembro) todo o dia noite é. DEZEMBRO Os alhos pelo Natal (Dezembro) bico de pardal. Natal na praça e Páscoa em casa. Natal ao soalhar e Páscoa ao luar. Se não neva dia de Santa Luzia (13 de Dezembro) neva p’ro outro dia. Natal, lenha no lar e o pichel a andar. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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O gato no Natal namora, no Janeiro adora e no Fevereiro vai-se embora. Pelo Natal já o dia tem mais o salto de um pardal, mas enquanto Deus não nasceu, nem mingou nem cresceu. Dia de São Tomé (21 de Dezembro) agarra o porco pelo pé: se disser qué, qué, diz-lhe que tempo já é. Outros aplicam o ditado a dia de Santo André (30 de Novembro). Cada coisa no seu tempo e o nabo no advento (entende-se o mês de Dezembro). Dia de Santa Luzia (13 de Dezembro) mingua a noite e cresce o dia; mas enquanto Deus nasceu, nem mingou nem cresceu. Em vindo a Santa Luzia já não dura o nevoeiro todo o dia. Do Natal a Santa Luzia cresce um palmo o dia. Quem quiser ver vingança de Portugal que venham três enchentes antes do Natal.

METEOROLÓGICOS Aperta suão que as jeiras ele valerão. Dizem os ceifeiros do vento que roda com o sol. Canta o mocho pelo dia, água p’ro outro dia. Círculo da lua ou molha ou enxuga. Círculo grande, água perto. Clara no Douro, água no couro. (Como na região bragançana chove com o vento quando a nuvem levanta do Douro e, portanto, aclara, vem desfazer-se aqui em água, pelo geral). Correm as nuvens a Portugal, aparelha o burro e vai ao sal; correm a Castela, aparelha o burro e vai para a tua terra. (A razão é a mesma do anterior: chuva com o vento sul e seca com o norte). Depois do anuviado vem o escampado. Geada na lama água na cama. Geada sobre lodo água sobre todo. Larga seca larga molhada. Lua com circo traz água no bico. Na semana de Ramos lava os teus panos, que na da Paixão ou os lavarás ou não. Não te fintes no estrelado quando o nabo está folhado. Se não houvesse vento não havia mau tempo.

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RIO DE ONOR

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ROIOS

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RIO DE ONOR O Castro de Rio de Onor, concelho de Bragança, fica a poente, uns quinhentos metros da aldeia, no cume de um outeiro de acesso difícil a nascente. É de forma quadrangular, tipo do de Baçal, com uns duzentos metros de comprimento por cinquenta de largura. Terreno muito revolvido pela cultura cerealífera e vinícola. Nem cerâmica nem notícia de antigualhas nele encontradas; apenas um homem, ao plantar vinha, achou uma pedra solta de granito, aparelhada, que não vi. Os muros, a julgar pelos restos ainda visíveis, inculcam trabalho cuidado e ligam-se de rochedo a rochedo existentes no sítio, formando um todo compacto.

ROIOS Junto à povoação de Roios, concelho de Vila Flor, na margem direita da Ribeira Brava, que banha a povoação, afluente da ribeira da Vilariça e esta do Sabor, há grutas nas fragas e no sítio da Parede Nova, margens da Ribeira Brava, aparecem pedaços de telhas de rebordo, mós manuárias, cantarias lavradas, moedas romanas, ao parecer. Também lá foi encontrado um carneirinho de bronze, que pesa 52,5 gramas, agora depositado no Museu Regional de Bragança. Mais abaixo coisa de três quilómetros fica o Cabeço de São Pedro, da capela que este Santo teve ali e por todo ele aparecem vestígios de povoado: restos de telhas de rebordo, mós manuárias, cerâmica, lousinhas, alicerces de casas circulares e rectangulares feitas de pedra solta, tijolos, argamassa, pedaços de fustes de colunas de granito fino e de lápides funerárias com letras imperceptíveis e gravuras ornamentais, sepulturas limitadas por lousas, tudo profanado e despedaçado. Abunda neste Cabeço de São Pedro uma erva, chamada Tó pelo povo, que a colhe e guarda cuidadosamente, por lhe atribuir grandes virtudes contra os malefícios e maus olhados às crianças, e por isso lha dependuram ao pescoço como se fosse relíquia sagrada, de onde vem chamarem-lhe também Erva sagrada, Erva feiticeira. Virá desta erva o nome da povoação de Tó no concelho do Mogadouro (16)? O carneirinho atrás citado deve relacionar-se com a vaquinha de Sacoias, de que falamos no artigo respectivo, hoje pertença da Sociedade Martins Sarmento, de Guimarães, e ambos seriam ex-votos a alguma divindade.

(16) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. XVI, p. 49, onde vem a fotografia do carneirinho e uma gravura da lápide.

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ROMÂNICO Neste artigo englobamos os monumentos artísticos bragançanos pré-históricos, românicos, góticos, manuelinos e D. João V. O distrito de Bragança é rico em obras de arte, verdadeiras raridades algumas delas e outras jóias únicas, marcantes do gosto pelo belo de seus moradores através dos tempos, a começar nos pré-históricos até hoje, com ramificações para o campo etnográfico, como dissemos na pág. 15 do tomo IX destas Memórias a propósito das fábulas; na pág. 502 (idem) acerca da Dança dos Pauliteiros; nas págs. 236 e segs. referente às modalidades étnicas e na pág. 18 aludindo às lápides luso-romanas do Museu Regional de Bragança, tão cheias de ensinamentos elucidativos da época que as produziu e do povo que as concebeu. Estes monumentos só não se convertem em fonte de turismo, com avultada receita económica para a região, porque os não valorizamos divulgando-os pela conversa, carta, palestra, conferência, postal ilustrado, livro com gravuras e texto, barro e gesso, de modo a chamar sobre eles a atenção do mundo culto, e vergonhosamente deixamos ruir ao abandono alguns deles. Dos tempos pré-históricos temos as pinturas megalíticas policromadas do Cachão da Rapa, monumento único no seu género, como confessa Cabré (ver pág. 668 do tomo atrás citado) e as dos dólmens de Vilarinho da Castanheira e Zedes, a que aludimos nas págs. 708 e 710 do mesmo tomo. À mesma época pertencerão as sete esculturas zoomorfas, chamadas porcas, de que falamos nas págs. 541 e segs. do referido tomo IX, ainda conservadas na região bragançana, além das mais indicadas nesse artigo, cheias de alto valor como docuFig. 2 mentação artística préParte interna da porta principal da igreja -histórica. Ver págs. 521 e de São Salvador de Ansiães MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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535 do referido tomo, onde damos os desenhos da de Bragança e Torre de Dona Chama. Dos tempos pré-romanos e luso-romanos temos a enorme lista dos castros, tão grande como não há maior em outra região portuguesa (ver pág. 172 do referido tomo e os artigos respectivos, onde os descrevemos), exuberantes de ensinamentos concernentes à nossa arte bélica, cerâmica, agrícola e manufactureira. Sob o ponto de vista militar ligam-se-lhes os Fachos (ver pág. 353 do tomo IX). Dos tempos romanos temos a Ponte da Pedra (ver pág. 203, idem) e as referidas lápides do Museu Regional de Bragança, incluindo as miliárias e as votivas aos deuses regionais. Dos tempos visigóticos temos a lápide funerária de São Martinho do Peso (ver pág. 92, idem), fecunda em ensinamentos gráficos e elucidações históricas. Dos tempos medievos temos a enorme quantidade de pergaminhos avulsos, códices pergaminháceos iluminados, existentes no Museu Regional de Bragança, que vão desde meados do século XII ao século XVI (ver pág. 529 do tomo IX, onde damos o fac-símile de um) e mais os seguintes, que apontamos por ordem alfabética de terras: Adeganha. Igreja românica. Ver pág. 95 do tomo IX destas Memórias. Algosinho. Igreja românica. Ver pág. 109 do mesmo tomo. Ansiães. Duas Figura 3 igrejas românicas Arco cruzeiro da igreja de São Salvador de Ansiães (figuras 2 e 3), uma delas verdadeira jóia arquitectónica de enorme valor e raridade. Ver pág. 114 do tomo IX. Azinhoso. Igreja românica. Ver pág. 120 do citado tomo. Belver. Nesta povoação, além da igreja paroquial, há mais duas capelas – Santo Cristo e Santa Isabel – tudo em estilo românico; mas de tipo pobre de ornamentação. Na do Santo Cristo há um altar que apresenta a singularidade de poderem dizer missa ao mesmo tempo dois padres sem se ver um ao outro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Bragança. Igreja de São Bento com o tecto mudéjar. Domus Municipalis, jóia românica, única como monumento civil na Península. Igreja de São Vicente, com abside e absidíolos românicos de tipo muito raro. Torre de Menagem, vulgarmente chamada Castelo, belo monumento de arte gótica. Ver pág. 134 e segs. do tomo IX destas Memórias. Caçarelhos (figura 4). Castro de Avelãs. Igreja românica, muito interessante, não só pela fácies arquitectónica, mas também por ser em tijolo. Ver pág. 168 do citado tomo. Espinhosela. É muitíssimo interessante o arco românico da igreja matriz de Espinhosela (figura 5). Assenta sobre pilastras com chanframento, que têm adossadas colunas lisas, uma por cada, muito ornamentadas nos capitéis por besantes e molduras dentadas. Por um e outro lado de cada coluna marcham em série estrelas de quatro raios, destacadas em alto relevo por funda Figura 4 escavação nos intervalos dos Cruzeiro de Caçarelhos mesmos. Este ornato repete-se também em toda a extensão da arquivolta, alternando com outro constituído por pontas de diamantes. Faz ainda parte da arquivolta, na linha exterior, uma faixa de ornatos sobrepostos em placa ou escama de peixe. Na aduela correspondente ao fecho do arco destaca-se uma carranca ladeada por duas cabeças de carneiro. Como vemos, este arco de Espinhosela é tipicamente característico do românico dos séculos XI-XII. Freixo de Espada à Cinta. Igreja manuelina. Ver pág. 432 do tomo IX destas Memórias. Malhadas. Igreja românica. Ver pág. 461 do citado tomo. Malta. Na igreja do Santo Cristo de Malta, concelho de Macedo de Cavaleiros, há uma porta, já reconstruída em parte sem critério arquitectónico, que ostenta uma faixa na arquivolta ornamentada por estrelas de quatro raios pelo tipo da igreja matriz de Espinhosela e ainda uma carMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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ranca metida no pano da parede que talvez pertencesse ao fecho do mesmo arco. É lícito concluir por estes vestígios que se trata de construção românica dos séculos XI-XII. Miranda do Douro. Sé Catedral, estilo renascença. Ver pág. 471 do tomo IX destas Memórias. Moncorvo. Igreja matriz e púlpito da Misericórdia. Renascença, século XVI. Ver pág. 485 do referido tomo. Outeiro. A capela do Santo Cristo de Outeiro (figura 6) (melhor lhe caberia o nome de igreja, pois é uma das elegantes da diocese, mas capela lhe chamam), sede da confraria do mesmo nome, consta de três naves contrafortando as duas laterais, alpendres assentes sobre largos arcos, que lhe dão aspecto sui generis e agasalhado aos romeiros. Figura 5 Duas torres, no tipo da da Um trecho do arco românico da igreja de Espinhosela Sé de Miranda do Douro, porém muito mais baixas, flanqueiam a fachada, a meio da qual uma rosácea, ladeada por sacadas, dá luz ao templo, abrindo-se em baixo uma elegante porta de arcos geminados, sem mainel que os sustente. Numa coluna dos alpendres há uma inscrição que diz ter-se começado a capela do Santo Cristo em 1698. Em frente da porta principal fica o elegante cruzeiro reproduzido na figura 8.

Pelourinhos. Ver págs. 514 e segs. do tomo IX destas Memórias, onde damos conta dos existentes no distrito de Bragança, notáveis como documentação arquitectónica e etnográfica, revestida de particular interesse, pelo simbolismo da figuração animalesca e vegetal que os decora. Picote. Capela românica. É típico um dos modilhões, por apresentar o falo por ornato. Ver pág. 71 do tomo IX destas Memórias. Licenciosidades desMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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tas são vulgares nas igrejas medievais. Ver tomo VIII, págs IX e XVI, deste trabalho. Bem perto de nós, os modilhões da igreja matriz de Cimo de Vila da Castanheira antes parecem de Santuário fálico do que de templo cristão. São Mamede (Moncorvo), ruínas de capela românica. Santa Comba da Vilariça. Cruzeiro do século XIII (figura 7). No fuste deste cruzeiro encontra-se a inscrição da figura 9, cujo Figura 6 desenho devemos ao ilusCapela de Santo Cristo de Outeiro trado professor Francisco Manuel Fernandes de Matos, que parece dizer: Esta cruz mandou fazer Fernan José Esteves e seu filho Antonio Roiz. Tem mais a seguinte indicação: MUDADO EM MDCCXI. Ainda a meio de uma capela em ruínas na mesma freguesia de Santa Cruz da Vilariça, há outro cruzeiro que tem no fuste a legenda da figura 10, segundo desenho do mesmo professor, muito semelhante à cruz de D. Sancho, do Portugal – Dicionário Histórico, tomo I, pág. 109. Parece dizer: Esta obra fez Afonso Lopez e seu filho... (letras gastas pelo tempo) Lopez Alvrez. No tomo VII, pág. 731, n.°140, e pág. 732, n.° 152, descrevemos os estatutos pertencentes à igreja de Santa Comba da Vilariça, feitos pelo Padre Domingos de Almendra, da mesma povoFigura 7 ação, em 1708, e os de Marzagão, feitos por AleCruzeiro de Santa Comba da Vilariça xandre da Silva, de Moncorvo, em 1759, trabalhos MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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paleográficos de alto valor, que documentam amplamente a perícia artística dos calígrafos bragançanos. Selores. Igreja paroquial românica, tipo singelo sem ornamentações. Vila dos Sinos. Igreja românica. Ver adiante o respectivo artigo. Vimioso. Ver adiante o artigo com este título. Vinhais. Igreja românica. Ver adiante o artigo com esta rubrica. Em Dezembro de 1907, numa excursão ao Mogadouro, vimos no Arquivo da Igreja da Misericórdia da mesma vila a cópia da bula de que em 1559 lhe concedeu o Papa Pio IV, mandada tirar em 1767 pelo juiz de fora da vila, Francisco Xavier de Morais, provedor ao tempo da Santa Casa da Misericórdia, por o original vindo de Roma, ainda existente no referido Arquivo, «estar a maior parte delle deficil de se ler». A esta cópia concedeu o bispo de Miranda D. Frei Aleixo de Miranda Henriques no mesmo ano de 1767 autorização para valer como o original. Figura 8 Consta este códice de vinte Cruzeiro do Outeiro fólios inumerados, manuscritos em papel imperial, com o texto, em parte, a duas tintas, entre filetes e tarja dourados. A revelar a importância deste monumento gráfico destacam-se quatro iluminuras policrómicas de página: uma com as armas do Papa, concessor da bula; outra representando a visita da Senhora a sua prima Santa Isabel; a terceira com as armas nacionais e a quarta com as do bispo D. Frei Aleixo de Miranda Henriques. Na segunda excursão que fizemos ao Mogadouro em Maio de 1933 já não vimos o códice, por ter sido levado para Alfândega da Fé, segundo nos informaram, por uma pessoa que indevidamente o conserva em seu poder. Estes desvios constituem verdadeiras calamidades, porque, em geral, à morte dos amadores, desaparecem as colecções, o mesmo se dizendo das arqueológicas, e a ciência, a arte, a humanidade, o prestígio regional ficam desfalcados de seus pergaminhos nobilitantes. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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É necessário que a veneranda relíquia recolha ao Mogadouro ou, melhor, ao Museu Regional de Bragança, que, afinal, é de todo o distrito e não apenas de Bragança, onde legalmente deve guardar-se e melhores condições de conservação existem. No género há coisas verdadeiramente estupendas: uma família em Bragança conserva um caderno de actas da Câmara Municipal da mesma cidade do século XVI, de muita importância, por tratar da construção de novas ruas e das fortificações dessa época; outra, os livros antigos do Registo Paroquial da freguesia de São Pedro de Serracenos; outra, diversos livros antigos, também do Registo Paroquial de várias freguesias da diocese, e, apesar de serem intelectuais os detentores, não se resolvem a repor nos lugares devidos esses documentos de tanto valor, talvez por os suporem, dada a falta de preparação paleográfica para os lerem, pergaminhos de família ou escada para trepar a eles. Pelo mesmo teor muito e muito mais podíamos indicar pelo distrito, retido indevidamente e sem razão nenhuma em mãos particulares, com descaminho certo mais hoje mais amanhã. Quantas notícias de espólios arqueológicos caídas em mãos particulares, não digo do povo ignaro, mas de gente com obrigação de ser culta, se mencionam nestas páginas, que hoje lamentamos perdidas para a ciência! Quando chegaremos à veneração consciente do documento como factor do progresso humano (17)?!

Figura 9

Em 1914 o capelão militar Augusto Teixeira presenteou-me com um precioso códice manuscrito, encadernado, in 4.° de papel branco, liso, paginado de frente até ao fólio 28, seguido de mais doze não paginados, escritos de letras diferentes, e muitos outros em branco. Abre por uma portada muito elegante, tipo D. João V, de uma só tinta, feita à pena, encimada

Figura 10

(17) Ver adiante o artigo «Santulhão» e outros neste tomo e no anterior e no tomo VII destas Memórias o artigo «Tavares», p. 546.

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por tríplice tiara sob duas chaves cruzadas, símbolo do papado, ornada por colunas salomónicas, de capitéis coríntios, sob a qual se vê Santo António empunhando na dextra uma palma e na esquerda um cálice e em volta a legenda: Voluntas mea in manu eius dirigetir. Esai 53. No fólio I diz: «Estatutos da Confraria Ecclesiastica do Glorioso Santo Antonio, sita no lugar de Izeda d’este bispado de Miranda. Instaurados no anno de 1697, sendo juiz o Dr. Manoel Camello de Moraes, Abbade de S. Joam Baptista da Cidade de Bragança, Commissario do Santo Officio e Protonotario Apostolico por Sua Santidade». No fim têm a aprovação do bispo de Miranda D. Manuel de Moura Manuel, feita em Rebordãos a 19 de Janeiro de 1698. As letras iniciais dos vinte capítulos em que se divide o códice, bem como várias outras do texto, ornado de quando em quando por vinhetas, flores-de-lis e outras figurações, tudo feito à pena e de uma só tinta, são de muito merecimento artístico. O perito calígrafo decalcou o seu trabalho sob as letras do chamado alfabeto de Vespasiano e de Juan de Iziar (18), mas soube imprimir-lhe grácil autonomia, adindo-lhe carrancas, motivos arquitectónicos, flores, cálices, mitras, caucelas, tudo adequado ao contexto do assunto, inclusivo as duas caveiras que embelezam as letras capitais, ao tratar-se do enterro e ofício dos confrades. É muito para ver a perícia com que ajeitou o tronco e ramagem de uma palmeira, para formar o P inicial do capítulo 19.°, seguido de outro P e um D de panças constituídas pelo clássico dragão alado, arrancando de elegante pinázio. Depositámos este venerando códice no Museu Regional de Bragança. No Arquivo do Paço Episcopal de Bragança conservam-se alguns livros do Registo Paroquial (outros estão no museu), entre os quais alguns ornados por desenhos e letras pelo tipo do alfabeto de Vespasiano, indicativos do gosto artístico regional e de como a arte caligráfica continuava vigente. Entre outros, vimos num livro de Gimonde, que serviu em 1673, noutro de Mirandela, que serviu em 1683, e noutro mais, desenhos de merecimento, representando caveiras, flores, letras vespasianas, tudo adequado ao texto dos livros, segundo serviam para baptizados, casamentos e óbitos. Convém também lembrar os que deixou o Padre Joaquim Maria Felgueiras Leite Velho, pároco de Brunhoso, natural do Mogadouro, onde faleceu a 1 de Julho de 1898, nos processos de casamento em que serviu de secretário durante os anos de 1888 a 1895, guardados no Arquivo do Paço Episcopal de Bragança.

(18) Ver MERINO, Andres – Escuela de leer letras cursivas antiguas…, 1780, p. 419-422.

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SACOIAS O Castro de Sacoias, concelho de Bragança, fica uns quinhentos metros a nordeste do povo, no cume de um outeiro de difícil acesso por todos os lados, menos pelo norte. Não obstante andar muito revolvido pela cultura vinícola e cerealífera, apresenta vestígios de ter sido defendido por um muro e um fosso. A área intramuros é de 70x72 passos e, a julgar pelos escombros, deveu ter a norte uma torre e outra a sul. Têm aparecido ali alicerces de casas tipo quadrangular, fragmentos de cerâmica, mós manuárias de granito, um triturador de xisto, objectos de cobre e de ferro, moedas romanas de prata e de cobre, muitas lápides funerárias (19), abundantes escumalhas de ferro, cossoiros, pesos de tear (pondus), tégulas, tijolos, fíbulas de cobre tipo circular, segundo Fortes (20), um bezerrinho de bronze e um cavalinho (21). Diz a gente de Sacoias que o seu castro era chamado antigamente Vila de Crodio e que quando mudaram para o povo a capela erecta nas ruínas, Nossa Senhora fugia todas as noites, ao toque das ave-marias, para o local da primitiva capela. Lendas idênticas são aplicadas a várias outras capelas cristianizadoras das ruínas pagãs. De cerâmica encontrámos: Barro vermelho. A parede de um vaso grande, pasta homogénea, ornamentada por uma linha ondulada, tendo um pouco abaixo um sulco largo, canelado, com um filete em relevo a meio da canelura. Bocais de grandes vasos, pasta semeada de areias quartzosas, ornamentados exteriormente por larga canelura. Outro bocal também de barro vermelho-esbranquiçado, mas o rebordo não encurva, como no antecedente, antes se prolonga em plano horizontal levemente convexo. Outro bocal de grande vaso, rebordo menos pronunciado, ornado por traço fino feito com estilete antes da cozedura. Muitos fragmentos de vasos de barro vermelho, grosseiros, embebido de grãos de quartzo, paredes espessas, alguns chegam a 0,026 metros, duros, de ornatos geométricos incisos na parte superior, junto aos bocais. Barro cinzento. Muitos fragmentos de vasos de barro cinzento, paredes pouco espessas, barro homogéneo, boa cozedura, pastas duras.

(19) Ver p. 70 e seg. do tomo IX destas Memórias. (20) FORTES, José – Fíbulas e Fivelas, 1904, p. 5. Nestas fíbulas, muito vulgares nas estações luso-romanas, o aro vai adelgaçando para as extremidades (aro em sanguessuga), onde revira. (21) O bezerrinho, provável ex-voto, está agora no Museu de Guimarães. Encontra-se o seu desenho em O Arqueólogo Português, vol. I, p. 313, acompanhado de notícias explicativas. Ver também o vol. IV, p. 47. No artigo «Roios» falamos de um carneirinho encontrado nas ruínas do seu termo.

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Barro arretino, também chamado saguntino. Muitos fragmentos deste tipo de louça vermelha (figuras 11 a 19), vulgar nas estações arcaicas dos primeiros séculos da era cristã, notáveis pela fineza e homogeneidade das pastas, perfeição e superioridade do verniz. Esta louça é ainda notável pela elegância dos ornatos incisos num fragmento de bocal de vaso grande, e em relevo no bojo de outros menores (22). Também no Castro de Sacoias encontrámos dois machados de pedra, um anel de bronze, um alfinete deste metal, que parece ter pertencido ao fuzilhão de uma fíbula, e um cavalinho também de bronze, que deve relacionar-se com a vaquinha atrás referida (23). No tocante a moedas, Figura 11 além de várias que manCerâmica saguntina dámos para o museu (24), encontrámos mais as seguintes, que ajudam a fixar a cronologia romana do castro: Prata. Um denário de Calígula, de onde se conclui que já era habitado no primeiro século da era cristã, o que, de resto, já Hübner tinha afirmado, em vista das letras de algumas lápides. Cobre. Um grande bronze de Adriano, no III.° ano do seu consulado, ou seja do ano CXVIII da era cristã, que deixa supor continuaria a ser habitado no terceiro século. (22) O tipo de louça arretina é originário de Arretium, de onde se espalhou por todo o império romano dois séculos antes da era cristã, e houve outros centros de produção como Tarraco, na Península Ibérica. (23) Ver O Arqueólogo Português, vol. XII, onde descrevemos todos estes objectos acompanhados dos respectivos desenhos. (24) Ibidem, vol. III, p. 53.

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Entre os cossoiros ou fusaiolas encontrados no Castro de Sacoias distingue-se um de xisto vermelho-escuro, mal conservado, que apresenta em volta do orifício central um círculo formado por nove incisões redondas, à maneira de pequeninas covinhas ou fossetas. O Padre Eugénio Jalhay menciona outro idêntico aparecido na freguesia de Tendais (25). Tanto no Castro de Sacoias como em muitos outros, temos encontrado várias pedras roladas dos rios, que evidentemente foram levadas para lá de grandes distâncias; com fins guerreiros? com intuiFigura 12 tos cultuais ligados Cerâmica saguntina à litolatria? por simples curiosidade estética? Em O Arqueólogo Português, acompanhado de um artigo explicativo, deu o Dr. José Leite de Vasconcelos a figura em tamanho natural da vaquinha romana, de bronze, encontrada no

(25) Revista de Arqueologia, (1934), p. 257.

Figura 13 Cerâmica saguntina

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Figura 14 Cerâmica saguntina

Figura 15 Cerâmica saguntina

Castro de Sacoias, hoje pertença do Museu Martins Sarmento de Guimarães. Tem na testa um ornato geométrico, e na cabeça, entre os galhos, um buraco, onde estava metida uma meia-lua de metal. «A vaquinha representa, como creio, um ex-voto em honra de Diana» (26). A lápide que a figura 20 (pág. 57) representa está em Sacoias a servir de fito na boca de um forno, numa casa de José Leal, agora aplicada a palheiro. A 1.a e 3. a letras são duvidosas; as outras, ou sejam a 2. a e as quatro últimas, claras, sem dúvida.

(26) VASCONCELOS, José Leite de, O Arqueólogo Português, vol. I, p. 313. O mesmo voltou a publicá-la nas Religiões da Lusitânia, vol. III, p. 238, e em O Arqueólogo Português, vol. XXIV, p. 277, dá a fotogravura de um touro também de bronze, pertença do Museu de Castelo Branco, que apresenta igualmente um orifício entre os galhos.

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Apareceu em Sacoias em 1927 a lápide da figura 21, quando abriam o cano junto à Fonte da Igreja para conduzir a água da fonte para a povoação. Está agora a segurar o cancelo de ferro do lado sul da capela de Nossa Senhora, no alto, por cima da fonte, mas tem as letras voltadas para baixo, de modo que não se vêem. Altura da lápide 1,16 metros, largura 0,16 metros, corpo da letra 0,06 metros. ........ RIF . . . . LXST. . . Lápide de granito, apenas lavrada na parte da inscrição contida num quadrilátero rebaixado na pedra. Está em Sacoias, a servir de fito Figuras 17 e 18 na boca de um forno, na Cerâmica saguntina casa de José Acácio Vidal. Veio do castro. Falta-lhe a parte superior, que quebraram no acto de a colocar no forno, bem como a direita, que chanfraram para o mesmo fim. Altura 0,41 metros, largura 0,25 metros, grossura 0,13 metros, corpo das letras variável, em média 0,03 metros. Falta o nome do defunto, que seria filius, vel filia, de um indivíduo com o genitivo do nome em RI, falecido com sessenta anos. Os sobreviventes desejam-lhe S(it) T(ibi terra levis). Também no mesmo Castro de Figura 19 Sacoias apareceu outra lápide, Cerâmica saguntina que fiz transportar para o museu. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Divisavam-se-lhe ainda vestígios de letras, mas tão apagadas que não é possível lerem-se. Numa parede da casa de Daniel dos Santos, de Sacoias, encontra-se a parte superior de outra lápide de granito, também funerária. Contém por baixo de uma suástica de seis raios apenas estas letras: M. D., iniciais da bem conhecida fórmula da epigrafia romana D(iis) M(anibus). Os raios desta suástica apresentam a singularidade de serem formados por ângulos rectos com escavação entre as linhas, que vai aprofundando mais e mais, à medida que avança da periferia para o vértice. Figura 20 Na casa de Alexandrina Vidal, de Sacoias, hoje, por deixa testamentária, do Dr. José Hipólito de Morais Carmona (tomo VI, pág. 128, destas Memórias), servindo de lareira, há uma pedra quadrangular, de granito, de 0,75 x 0,65 metros, ornada por flores-de-lis nas esquinas. Do letreiro, consumido pelo fogo, apenas se percebe: . . . . . . . . . . . . DOR ............... A Disseram-me que viera do castro, mas não parece romana; talvez funerária da igreja paroquial que lá houve e foi mudada para dentro da povoação pelos anos de 1668 ou 1791, a julgar do cronograma que agora se vê na verga da porta principal (27). O corpo das letras é de 0,10 metros. Na casa do falecido José Vinhas, de Sacoias, há outra lápide granítica, flor-de-lisada igualmente nas quatro esquinas, de letras apagadas, consumidas pelo fogo, por estar a servir de lareira. O falecido professor primário de Sacoias, João Manuel de Abreu, disse-me que vira em casa de Prudêncio Vidal, do mesmo povo, uma lápide de granito escrita por três faces. (27) Em 1667 ainda a igreja se conservava no castro. Ver p. 353 do tomo IX destas Memórias.

Figura 21

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O falecido João Pinelo, de Sacoias, esmagou uma pedra de granito com letras, vinda do castro, para meter de lastro num forno. Quantas terão sofrido a mesma sorte, pois corre que os fornos fazem melhor pão se por baixo dos ladrilhos levarem fragmentos de granito. Além das lápides descritas, muitas outras têm aparecido no castro inutilizadas pelos sacoienses para as ajeitarem a fitos de janelas, lareiras de cozinhas, bocas e lastros de fornos, etc. (28). Grande deve ter sido a importância deste castro, a julgar pela riqueza do seu espólio e pela abundância dos fragmentos aparelhados de cantaria, se atendermos a que esta só podia vir da Serra de Montesinho, distante vinte quilómetros de péssimos caminhos, ou da de Santa Comba de Rossas, ainda mais afastada. Pelos anos de 1790, o Padre Francisco Xavier Pires, que foi cura de Sacoias e era natural de Aveleda, onde morreu a 5 de Novembro de 1801, fez construir a expensas suas, na igreja paroquial de Aveleda, o altar da parte do Evangelho, contíguo ao da Senhora do Rosário, dedicado a Nossa Senhora das Dores, erigindo-lhe confraria, que terá hoje quatrocentos irmãos da povoação e circunvizinhas, com jubileu na sexta-feira anterior à dominga de Ramos. Cardoso, que publicou o seu Dicionário Geográfico em 1747, menciona só três altares na igreja de Aveleda, sinal de que ainda então não havia o da Senhora das Dores. Alude ao facto a seguinte inscrição, de letras a tinta de óleo, que está numa tábua junto ao entablamento das colunas do altar: EU P. FRANC. CO X. ER PIRES MAND. EI POR M. DEVOÇÃO CONS TUTUIR (sic) ESTA CONFRARIA DA S. A DAS DORES NO ANNO 1790

Em Sacoias também o nome deste pároco ficou vinculado a perdurável documento, qual é o sino maior da matriz, onde se vê em letras de relevo no bronze: IHS MARIA SANTO ANTONIO ORA PRO NOBIS ANO 1790 SIENDO CONFIRMADO R. FRANCISCO XAVIER PIRES

O altar da Senhora das Dores, conquanto airoso e não desagradável, é singelo, de colunas lisas e douradas apenas nos filetes das poucas molduras que tem, deixando claramente perceber a feição do século XVIII. As benemerências do Padre Francisco Xavier Pires em prol da igreja chamaram naturalmente a minha atenção, e depois de laboriosas investi(28) Ver O Arqueólogo Português, vol. XV, p. 241.

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SACOIAS

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gações nos livros do Registo Paroquial pude restabelecer a sua genealogia. Era filho de Silvestre Pires e de Mariana Fernandes. Do seu assento de óbito, onde se encontra também transcrito o testamento, vê-se que tinha os seguintes irmãos: Domingos, que foi frade e dele falaremos abaixo. Ana, que faleceu solteira a 11 de Novembro de 1811. Catarina, falecida solteira a 23 de Janeiro de 1817. Marcos, falecido solteiro a 1 de Julho de 1821. Filipe, que casou com Isabel Pires, da Mofreita, e morreu a 5 de Março de 1805, deixando uma filha de nome Ana Pires (Ana Neta, lhe chamavam em Aveleda), que morreu solteira, deixando seus bens à família Rodrigues, de Varge, hoje representada pelo professor do Liceu de Bragança, Daniel José Rodrigues e irmãos. O ramo do Filipe extinguiu-se. Maria Pires, casou em 1782 com João Rodrigues e faleceu a 11 de Maio de 1823 deixando filho: Gregório, nascido em Aveleda a 28 de Dezembro de 1790, que casou em 1819 com Maria Afonso, filha de Ambrósio Afonso e de Ana Fernandes. Tiveram: Ambrósio, nascido em Aveleda a 27 de Dezembro de 1838, que casou com Maria Joaquina, da qual teve vários filhos e filhas, e entre eles: António Augusto Rodrigues, nascido em Aveleda a 23 de Setembro de 1876, que casou a 6 de Junho de 1902 com Cândida Augusta dos Santos, da qual tem vários filhos e filhas todos solteiros, a não ser: Etelvina Alice, nascida em Aveleda a 1 de Outubro de 1902, já casada e com geração. Do testamento de Ana Pires, irmã do Padre Francisco Xavier Pires, vê-se mais que tinha um irmão chamado Domingos, que foi frade, a quem ela manda fazer agasalho «sempre que venha a casa». Sucede que nos testamentos da Catarina e do Marcos, irmãos do já citado padre, os quais se encontram transcritos junto aos respectivos assentos de óbito, aparece instituído herdeiro António, sobrinho deles testadores, por ser filho de seu irmão Frei Domingos e de Luzia Vidal, de Sacoias. Ainda convivi em Aveleda com velhos que o conheceram e era nomeado pela alcunha de António Frade, em alusão a seu pai. Casou com Maria Rodrigues e tiveram: Maria Isabel, nascida em Aveleda a 22 de Agosto de 1817, que casou a 17 de Fevereiro de 1843 com João Afonso e tiveram: 1 – Avelino César Afonso, nascido em Aveleda a 24 de Janeiro de 1844, que casou a 11 de Maio de 1881 com Perpétua do Carmo Rodrigues. Tiveram: MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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SACOIAS

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I – Maria da Conceição, nascida em Aveleda a 23 de Janeiro de 1888 e aí casada a 7 de Novembro de 1909 com Manuel António Mores. Com geração. II – Inácia Jacinta, nasceu em Aveleda a 30 de Agosto de 1890. Casou em França, concelho de Bragança. Com geração. Esta família é parente em quinto grau de consanguinidade do autor destas linhas pelo lado de Perpétua do Carmo Rodrigues. 2 – António da Conceição Afonso, nascido em Aveleda a 28 de Novembro de 1845 e falecido a 19 de Outubro de 1924 em Varge, onde casara com Rita Tiza, aí nascida a 29 de Abril de 1852 e falecida a 11 de Maio de 1924. Tiveram filhos e neta: I – Padre Manuel Domingos Afonso Tiza; actual pároco de Aveleda, nascido em Varge a 10 de Abril de 1887. II – Ana Maria Afonso Tiza, nasceu em Varge a 30 de Agosto de 1888. Tem filha: III – Maria da Conceição Tiza, neta, nascida em Varge a 29 de Setembro de 1912, que casou em Cova de Lua. «Componenda entre os curas de Sacoias, Aveleda, Varge e Abbade de Meixedo sobre as congruas d’aquelles O Doutor Caetano José Saraiva, Abbade Reservatario de Montouto, Deão na Cathedral d’esta cidade, Provizor, Vigario Geral e Juiz dos Reziduos neste Bispado por S. Ex.cia R.ma, etc. Mando aos Reverendos Parochos dos logares de Aveleda, Sacoias e Varge, façam registar no livro dos Capitulos da Vizita de cada hua das sobre ditas Igrejas o termo que perante mim se tomou ao Reverendo Abbade de Meixedo, cujo termo he o seguinte: Aos vinte e nove dias do mez de maio de mil settecentos noventa e nove annos nesta cidade de Bragança e casas da morada do Muito Reverendo Doutor Caetano José Saraiva, Abbade Rezervatario de Montouto, Deão na Santa Sé, Provizor, Vigario Geral e Juiz dos Reziduos e Cazamentos neste Bispado por S. Ex.cia Reverendissima, etc., ahonde Eu Escrivão vim ahi em prezença do dito Reverendo Menistro apareceo prezente em sua própria pessoa o Reverendo Antonio de Moraes Madureira Pinto, Abbade de Meixedo, e os suplicantes Curas das Igrejas de Varge, Sacoias e Aveleda e por todos foi dito que sem embargo das sentenças que se havião proferido em Juizo contencioso, e dos Capitulos da Vizita que lhes augmentarão as suas Congruas, estavão promptos tanto elIe Reverendo Abbade como os curas a entrarem na Componenda que Sua Excellencia Reverendissima insinua no MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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seu despacho folhas vinte e quatro, para desta forma sem mais pleitos nem contendas se fixar esta disputa, referindo-se a tudo o que elle Menistro ponderando o Estado de cada hûa das Igrejas a necessidade e maior precizão de cada hum delles suplicantes, arbitrar-se de congrua para cada hum delles e havendo elle dito Menistro ponderado que o cura de Sacoias devendo receber a terça parte da sua congrua à côrte de Villa Viçosa não he contemplado na rezolução que o Cabido da mesma Real Capella tomou a favor dos outros dous curas e consta da carta do seu Secretario, porque não fez figura na causa em que se contendeu sobre as congruas e que tendo direito a que se lhe augmentasse a mesma congrua porque nenhuma tem; o que daria lugar para o futuro a novas inquietaçoins e pleitos, rezolveu que o sobredito cura de Sacoias houvesse de congrua annualmente dez mil e coatro centos reis em dinheiro e trinta e seis alqueires de pam e coatro almudes e meio de vinho. E o de Aveleda des mil e coatro centos reis em dinheiro, trinta alqueires de pam e coatro almudes e meio de vinho: = E o de Varge des mil e quatro centos reis em dinheiro, trinta e tres alqueires de pam e coatro almudes e meio de vinho = cujas quantias serão pagas na conformidade que athe agora se observou, a saber: a terça parte pella Real Capella de Villa Viçosa e as duas terças partes pello dito Reverendo Abbade, e mando que assim se ficasse observando para se facilitar o pagamento sem embaraço, havendo respeito á dificuldade que ha em se verificar a repartição por tres partes e attendendo tãobem a que a mesma Real Capella com esta providencia, ainda pagando ao cura de Sacoias, fica pagando menos do que o que aprovou na dita sua carta, e que julgou por Sentença este arbitrio e componenda que todos assignarão mandando se observasse, e para mais validade lhe entreponha sua auctoridade e Judicial Direito e que se copiasse no Livro da Vizita de cada hua destas Igrejas, e eu Vicente José Ferreira que o escrevi . . . . . Dado em Bragança sob meu sinal e sello aos 29 de Junho de 1799» (29). Um dos Capítulos de Visita de que fala este documento, em que se aumentaram as côngruas aos párocos de Sacoias, Varge e Aveleda, é o de 5 de Maio de 1795, no qual o visitador no bispado, Manuel Doutel de Figueiredo Sarmento, cónego da Sé de Bragança, lamenta que o abade de Meixedo, recebendo tantos dízimos, não cure de abastecer de alfaias as igrejas de sua apresentação, e, considerando que o pároco de Aveleda não tem côngrua alguma, mais do que 7$200 réis, que não pagam as missas pro populo, manda que, para o futuro, se lhe dêem, além dos 7$200 réis, mais trinta alqueires de pão meados e doze almudes de vinho, tudo pago por conta dos frutos do benefício recebidos pelo abade de Meixedo. (29) Livro das Pastorais e Capítulos de Visita da freguesia de Aveleda, fólio 64, manuscrito existente no arquivo da mesma freguesia.

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SALDANHA

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SAMIL

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SALDANHA No tomo I, pág. 355, destas Memórias publicámos, segundo o texto de Borges (30), as duas lápides seguintes, de mármore, que diz existirem na parede da igreja de Santa Bárbara, do lugar da Saldanha, termo da vila de Algoso, hoje concelho do Mogadouro: 1.a

CAPITO / MARITVS / P.

2.a

CAM. ANN. L / M. SVLP / FLAVOS / VXORISSAN / TISSIMAE / ...

Cam(ilae). ann(orum). L M(arcus). Sulp(itius) Flavos uxori ssantissimae – ou seja: Marco Sulpício Flavo a sua santíssima mulher Camila falecida de cinquenta anos. Os pontos separativos das palavras, a não ser o primeiro adiante de CAM , estão na lápide representados por figuras em forma de coração (hederae distinguentes).

SALDONHA Fica no termo de Saldonha, concelho de Alfândega da Fé, «o Cabeço do Ouro, onde há ruínas de povoação antiga, que foi constituída mais abaixo, no sítio do Castelo, onde têm aparecido moedas antigas» (31).

SAMIL O Castro de Samil – diz Lopo – fica a cavaleiro da povoação, três quilómetros e meio de Bragança. É do tipo do Lombeiro de Maquieiros, no termo de Gondesende, de traçado circular, com quatrocentos metros de circuito proximamente, distinguindo-se claramente os vestígios de muralha de pedra solta, assente, de onde a onde, em grandes fragas, cercado de fosso. No espólio encontram-se pedaços de granito lavrado, de telha, de louça grosseira e de pedras polidas, presumivelmente fragmentos de machados, martelos e pisadores. A este local chama o povo Castanheiro do Senhor, por haver no fosso uma árvore daquele fruto pertencente à confraria do Santíssimo Sacramento. Diz a lenda que aqui havia uma grande cisterna e que debaixo das (30) BORGES, José Cardoso – Descrição topográfica da cidade de Bragança. (31) BEÇA, Celestino, O Arqueólogo Português, vol. XX, p. 102.

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SAMIL

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fragas há grutas onde vivem mouras encantadas, que se ouvem tecer em teares de ouro na manhã de São João. O sítio chamado Castro fica cem metros a sul e à superfície nenhuns vestígios aparecem a documentar qualquer civilização arcaica, a não ser uma fraga, suporte de uma cruz de pau, à qual o povo vai de ladainha no tempo próprio. Nesta fraga está gravado o rasto de um sapato, que o povo diz ser a Pegada da Senhora ao passar por ali quando fugia para o Egipto ou à perseguição israelita. Noutra fraga mais acima há outra pegada menor, ambas indicando claramente trabalho intencional e não mero acidente na fraga, devido a falhas ou influências meteorológicas (32). Perto fica a Fraga do Selvagem, memorada já nos documentos antigos (33), agora quase destruída, mas que pelo nome parece relacionar-se com monumentos pré-históricos. Um pouco adiante, à beira da estrada a macadame de Bragança para Mirandela, fica a quinta de São Lourenço, onde houve uma capela dedicada a este santo, «de que apenas resta a pia de água benta e algumas cantarias lavradas metidas nas paredes da casa de habitação e suas dependências, e cuja imagem está na igreja do Loreto da cidade de Bragança. Deve ser curiosa e interessante a história dessas cavidades ou cavernas abertas em rocha branda, que o acaso descobriu há algumas semanas numa terra pegada à estrada pela parte de cima em frente das casas de São Lourenço, em que se encontram pedras soltas de diversos tamanhos, carvão muito misturado com terra, fragmentos de tijolo, de louça grosseira e de ossos, que nos deixaram na incerteza ou se ascendem a uma só época ou a diferentes, por isso que a circunstância de estes mesmos vestígios aparecerem também em certa área em volta faz presumir que pertenceram a um pequeno povoado que a tradição diz ter havido aqui. Agora acharam-se duas, mas julga-se que sejam mais, porque consta que há anos, por idênticos motivos, se pôs a descoberto outra de maiores dimensões muito próximo destas. Comunicam entre si por galerias muito estreitas, que só permitem entrar de rasto, e as suas partes mais largas tinham a forma de um forno de pão em que mal se cabia de joelhos. Ao pôr a descoberto as entradas encontraram-se pedaços de pedras de raio, machados e martelos do período neolítico. (32) Ver sobre o caso das «pegadas» VASCONCELOS, José Leite de – Tradições populares de Portugal, §§ 2 e 9, e Religiões da Lusitânia, 1905, vol. I, p. 381, onde cita factos idênticos portugueses e estrangeiros. (33) Ver tomo I, p. 372, destas Memórias.

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SAMIL

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SANHOANE

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SANTA COMBA DA VILARIÇA

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SANTA CRUZ

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Neste local houve antigamente uma grande feira e nele se encontraram muitas cantarias lavradas, ossadas em sepulturas e conta a lenda que aqui os cristãos venceram em rija peleja os mouros que fugiram do Castelo de Rebordãos, cujas ruínas ficam a alguns quilómetros de distância» (34).

SANHOANE «Ha tambem no termo de Sanhoane, concelho do Mogadouro, um monturo de seixos grande com terra misturada (modorra) e em direitura no termo da povoação, onde chamam a Pena Mosqueira, estão outros dois, a que chamam madorras; nam se sabe para que faziam os ditos, dizem que deles davam facho nas guerras» (35). A nascente de Sanhoane fica o Castro Gel, perto da modorra, e nele têm aparecido vestígios de casas, mós manuárias e telha de rebordo (36).

SANTA COMBA DA VILARIÇA No sítio chamado Santa Cruz, perto do ribeiro da Ferradosa, termo de Santa Comba da Vilariça, há ruínas e dizem que foi aqui a primitiva povoação. «Ha nesta serra distante desta freguezia huma legoa pera a parte do poente junto a quinta de Macedinho huns fojos mui profundos e estreitos, ha tradiçam, não sei se verdadeira, se falsa, foram minas de onde se tirou prata» (37). Sobre o mesmo assunto diz Carvalho da Costa (38): «Macedo [freguesia de Santa Comba da Vilariça] tem vinte visinhos, duas ermidas e duas fontes, e um ribeiro, que rega todo o lugar; junto a elle está uma serra toda cavada, e furada; e he tradição, que antigamente houve ali minas, não se sabe de que metal, e se presume serem as que prohibe a Ordenação em Trás os Montes».

SANTA CRUZ No termo de Santa Cruz, concelho de Vinhais, coisa de um quilómetro a norte do povo, há um sítio chamado Vale de Estacas, onde apareceu há (34) LOPO, Albino,O Arqueólogo Português, vol. V, (1899), p. 105. (35) Memórias Paroquiais de 1758, «O Arqueólogo Português», tomo VII, p. 129. (36) BEÇA, Celestino,O Arqueólogo Português, vol. XX, p. 101. (37) Memórias Paroquiais de 1758, «O Arqueólogo Português», tomo III, p. 230. (38) COSTA, Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo I, p. 472.

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SANTA CRUZ

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poucos anos uma sepultura feita de lajes e tapada por uma que tinha em volta um friso para melhor ajustar às outras e fazer a obturação. Dentro da sepultura estava um vaso de barro que continha duas bolinhas pretas muito lisas e redondinhas. Diz a lenda que em Vale de Estacas viveu mourama e que há encantado um tesouro constante de bolas de ouro, com que os mouros jogavam os paus, também de ouro. A igreja paroquial de Santa Cruz assenta a meia encosta de um outeiro de forma cónica, chamado Castro; todavia, nenhuns vestígios nele encontrámos justificativos do nome. Um quilómetro a sul do povo fica o sítio chamado Vale de Castro, ao sopé de uma colina coroada por restos de fortificações – muro e fosso – já pouco perceptíveis, devido à cultura cerealífera do terreno; no entanto, abunda nele a cerâmica peculiar dos castros bragançanos, as mós manuárias e a telha de rebordo. Já agora não passaremos adiante sem aludir a um fenómeno curioso que se observa no termo desta povoação de Santa Cruz. Eis como o descreve uma testemunha ocular, primeira que dele deixou relato escrito: «Na parte, mais alta da povoação, no sítio a que chamam a Beliqueira, vêem-se as ruínas de uma antiquíssima capela e em torno a elas um espesso arvoredo. Numa circunferência de quarenta a sessenta passos dali aparece todas as noites uma luz mortiça, que ora aumenta, ora desfalece, à imitação da de candeia próxima a acabar-se, no que porém ainda mais consiste a singularidade do fenómeno é em que tal luz se não vê de perto e mesmo de dentro da povoação poucas vezes e de poucos sítios se avista e só de pontos fronteiros e fora do povo perfeitamente se distingue. Numerosas experiências hão provado que não é fixa, mas sim móvel. A ninguém causa estranheza este fenómeno, e sendo esta gente propensa altamente a superstições, ninguém o atribui senão a causa natural, se bem que ainda ninguém soube dar razão deste fenómeno. Vinhais, 8 de Agosto de 1854. Emiliano António de Sousa» (39). O fenómeno ainda hoje se realiza da mesma forma, se bem que a luz não apareça todas as noites; desloca-se rápida, sem se demorar no mesmo ponto, fragmentando-se algumas vezes em duas e outras fundindo-se numa as duas, até desaparecer de todo. (39) Almanaque Luso-Brasileiro para 1855, p. 267. Emiliano António de Sousa nasceu em Vinhais a 4 de Maio de 1807 e era filho de José de Sousa e de Joana Madalena da Veiga Cabral, ambos de Vinhais.

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SANTA CRUZ

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SANTULHÃO

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No termo de Santa Cruz brota uma nascente de água sulfúrea (40) e dela mandou o Padre Miguel José Rodrigues (41) alguma a Marckwald, director do Laboratório da Escola Superior de Berlim, bem como alguns fragmentos de rocha do terreno. O sábio químico concluiu que as rochas encerravam rádio, isto é, que eram radioactivas, e a mesma conclusão tirou da análise das águas, entendendo que o governo português devia interessar-se pelo seu estudo, máxime hoje que o rádio tem enorme valor e tanto interesse científico está despertando. No mesmo sentido se pronunciaram Ferreira da Silva (42) e Muñoz del Castillo (43). Haverá alguma relação entre o rádio destas águas e o fenómeno luminoso? Luzes como estas de Santa Cruz aparecem no termo do Brinço, freguesia de Ala, no de Edrosa e no Serro de Penhas Juntas, tudo distrito de Bragança e não longe de Santa Cruz. As de Penhas Juntas surgem dos lados da Senhora da Saúde, termo de Vale de Janeiro, e vão morrer no serro referido, onde há largos vestígios de explorações minérias, compridas galerias, a que o povo adscreve várias lendas de mouras encantadas, tesouros escondidos e mouros a jogar os paus com vintes e bolas de ouro (44).

SANTULHÃO Ver tomo IX, pág. 83, destas Memórias. Convém apenas completar a transcrição do último período, que diz: «Também ali [nas ruínas de S. Mamede, perto de Santulhão] foram encontradas algumas moedas de cobre e prata do feitio de meios tostões..., que os ilustres antecessores do nosso particular amigo Sr. Dr. José Marcelino de Sá Vargas puderam haver e as levaram para Lisboa, talvez para enriquecer com elas algum museu numismático. Os habitantes de Santulhão supõem que São Mamede seria destruído ha trezentos ou quatrocentos anos». Parece que o autor deste artigo é António José Pires Avelanoso, director do Norte Trasmontano, de onde O Arqueólogo Português fez a transcrição.

(40) LOPES, Alfredo Luís – Águas Mineromedicinais de Portugal, 1892, p. 355. (41) O Ocidente de 20 de Abril de 1906 e Ilustração Trasmontana, suplemento ao n.° 5, 1808, p. V, onde publicou uma memória sobre o assunto. (42) Revista de Química pura e aplicada, p. 116. (43) Anales de la Sociedad de Fisica y Quimica, Madrid, sessão de 24 de Janeiro de 1906. (44) Ver tomo IX, p. 539, destas Memórias.

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SÃO JULIÃO

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SÃO MARTINHO DE ANGUEIRA

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SÃO PEDRO DE SERRACENOS

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SÃO JULIÃO No rio Maçãs há um sítio chamado Porto Calçado por ter um calcetamento antigo no leito do rio, a fim de facilitar a passagem, de onde vem chamarem-lhe também Vau da Madalena. Agora está inutilizado por causa do açude de um moinho que ali fizeram haverá cinco anos. Fronteiro ao Porto Calçado fica o sítio chamado Vinhais do Castro, no termo de São Julião, concelho de Bragança. É de pequenas dimensões e destinar-se-ia apenas para defesa do porto num plano táctico de testa de ponte.

SÃO MARTINHO DE ANGUEIRA «... outra [ermida] distante do lugar, um quarto de legua, de Nossa Senhora, sita aonde chamão o Crasto, onde dizem por tradição habitaram os mouros, quando senhoreavam estas terras, e ainda se vê nele fosso e cerco de pedra de altura de uma vara» (45).

SÃO PEDRO DE SERRACENOS No termo de São Pedro de Serracenos, concelho de Bragança, quinhentos metros a nascente do povo, fica o sítio chamado Chão de Arcas, pequeno vale muito agricultado entre dois cabeços, onde aparecem cacos de telha (nenhum vi de rebordo) e vestígios de construções antigas, nas escavações mais profundas feitas para arrancar gatunhas e ervas daninhas. Perto, inclinando a sul, ficam as pedreiras de cal no sítio chamado Penacal, assentes num grande cabeço a despenhar-se para o ribeiro dito do Penacal, em que a fraga apresenta à vista uma superfície de cento e tal metros de comprimento por mais de dez de altura e outros tantos de espessura, fora o que se esconde na terra, pois há seguros indícios de ser toda calcária a ossatura da montanha. É imponente o aspecto do fragueiro, devido à sua forma circular e corte a prumo, apresentando de onde a onde orifícios guarnecidos de estalactites, e na parte a sul, rocha fina, perfeito mármore branco, uma interessante gruta, que entra pelo fragueiro a dentro, igualmente guarnecida de estalactites. A cal é boa, mas não a exploram por carência de fácil transporte, a não ser para a região em restrita área das povoações circunvizinhas, e só a parte a descoberto deve orçar por muitos triliões e triliões de toneladas. (45) CARDOSO, Padre – Dicionário Geográfico de Portugal (manuscrito), 1758, «O Arqueólogo Português», vol. I, p. 319.

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SÃO PEDRO DE SERRACENOS

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A estrada a macadame de Bragança para Izeda passa coisa de duas centenas de metros das pedreiras. Em baixo fica a ponte velha de Penacal, de pavimento em ângulo no centro assente sobre três arcos de volta redonda, toda de alvenaria, e um pouco adiante desta a moderna, sobre a qual passa a estrada. Perto dela, subindo para Carocedo, brota a Fonte da Saúde, tida como muito medicinal pelo povo. Foi numa das excursões arqueológicas pelo distrito de Bragança em Agosto de 1928 que casualmente me apareceu a gruta de Talhinhas, chamada Forno dos Mouros pelo povo, caverna primitiva do ser humano, de que adiante trato, oculta entre rochedos cilíndricos, no meio de espessa floresta, negra de azeviche, mas rasteira, em penugem de relva, de pequena altura e pequena extensão, e no regresso esta de Penacal. Vagamente sabia da sua existência, mas não tratando particularmente destes monumentos, por falta de recursos para os explorar e a lei mo proibir, limitei-me a admirar-lhe a beleza das formas bem lançadas; a esquadrinhar-lhe o encanto das jóias de que foi relicário; a fantasiar o prazer do homem que primeiramente a gozou com domínio senhoril de primi capientis, enquanto ia comendo a minha merenda à sombra de suas arcadas, que me livravam das ardências de um sol abrasador, pensando ao mesmo tempo na moura encantada, genius loci na voz do povo, e aproveitando, como prémio de consolação, as jóias que à mão encontrava – alguns quícios extremamente gastos pelo uso e uma ou outra mancha da prima glíptica projectada, não no recôndito da gruta, como acontece nas cavernas de Altamira e outras, mas sim no rebordo, adjacências e colunatas, tudo porém tão apagado e tanto a desfazer-se de fugida, que carece de significação, se alguma teve. Entretanto chegaram-me aos ouvidos os sons melodiosos, encantadores, de uma voz doce, suave, sentimental, repassada de melancolia indiscritível. Lembrei-me da moura encantada a carpir saudades da sua querida mourama; porém a canção brevemente mostrou, em vez da cândida filha de Agar, a odalisca calculosa em videirismos de triunfo, furando pela vida fora em piruetas de ambiciosa aventureira, cujas malandanças o cantor, pegureiro de um rebanho ovino, sentado num rochedo, ali gemia. Dizia a letra da canção: Adeus, adeus, ó Talhinhas As costas te vou virando; Minha boca se vai rindo, Meu coração fica chorando. Coração que dois adoras, Já em ti não tenho fé; Tens o amor repartido, Pois o meu inteiro é. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


SÃO PEDRO DE SERRACENOS

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Coração que dois adoras Deves ter muito talento Para poderes arranjar Tanta mentira a um tempo. Coração que dois adoras, Algum trazes enganado; Queira Deus não seja o meu, Pois em tudo é desgraçado. Deitei o limão ao poço Apodreceu-lhe metade; Quem ama dois corações Ama um com falsidade. Das ingratas que há no mundo, Tu és a maior da fama; Só tratas com falsidade A quem deveras te ama. Cuidava que era eu só A amar o teu coração; Já vejo que somos muitos A dar passadas em vão. Tenho na minha janela Manjericos a nascer; O ver-te falar com outro Para mim é de morrer. Tenho na minha janela Tulipas até ao chão; Ver-te falar com outro São facadas que me dão. Trocaste-me a mim por outrem Por causa dos olivais; No nascer e no morrer Todos nós somos iguais. Trocaste a mim por outro, Trocaste, amor, trocaste; Estimava de saber Quanto na troca ganhaste. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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SÃO PEDRO DE SERRACENOS

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Trocaste a mim por outro Para amar a quem mais tem; Eu por riqueza não deixo D’amar a quem quero bem. Já tendes novos amores, Já tendes nova alegria, Já tendes a quem contar Meus segredos d’algum dia. Alto pinheiro da serra Já te tiraram cavacas... Já tendes novos amores... Eu não sirvo para as faltas. O meu coração traz luto E mais ninguém lhe morreu, Bem de luto pode andar Quem o seu amor perdeu. Minha mãe é pobrezinha, Não tem nada que me dar; Peço-lhe pão, dá-me beijos E põe-se então a chorar.

Este episódio, que recordo com saudade e pena do triste pastor, que nos intervalos exclamava: «E agora que farei!», fez-me lembrar de outro descrito por Cervantes, D. Quijote, tomo I, caps. XI, XII e XIII, passado com o pastor Crisóstomo, «que ha muerto de amores de aquella endiablada moza de Marcela». Já agora apontarei mais o seguinte também de tipo clássico. Em 19 de Outubro de 1924 fiz segunda peregrinação de arte às ruínas românicas de Ansiães em companhia do Dr. Raul Manuel Teixeira, juiz daquela comarca, e do Dr. Pedro Vitorino, ilustre escritor e conservador do Museu Municipal do Porto. No regresso, dei umas espreitadelas pelas antigualhas de Luzelos, Parambos, Castanheiro, e, na estação de Tralhariz, enquanto não vinha o comboio, comi a merenda e deitei-me a dormir em cima de um montão de travessas da via férrea à sombra de uma oliveira. Acordei ao som das casquinadas que dois catraios (rapaz e rapariga), dos seus nove e dez anos, um filho do chefe da estação e outro morador numa quinta vizinha, soltavam. Ofereceram-me cama em sua casa, que não aceitei, e uvas, que comi, e continuaram alegres saltitando, gralheMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


SÃO PEDRO DE SERRACENOS

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SENTRILHA

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ando, jogando variadíssimos divertimentos, e, de quando em vez, a menina, imitando o cantar do galo com tanta perfeição, que um, que por ali andava, respondia e vinha junto dela à cata do rival. A alturas tantas, a pequena, um pouco mais velha que o rapaz, vendo um figo na extrema ramada da alta figueira que ali viceja na fenda de íngreme fragueiro pendente sobre o cais da estação «comendo pó, bebendo sol e mordendo a rocha», gritou: «Ai! um figo!». De repente, veloz como um gamo, o petiz marinhou por ali acima com evidente perigo de vida e trouxe o figo à companheira de brinquedos. Admirei carinho tão espontâneo e inocente. Depois, entristeceram, sentaram-se no muro de suporte e começaram a escrever letras nas cantarias com uma telha. A rapariga traçava constantemente a palavra «Porto». O rapaz, cada vez mais triste, disse, após muitas repetições glípticas do referido termo: «Tamen, não sabes escrever outra coisa!». Cessou a escrita, amuaram, e eu a pensar no episódio de Paulo a subir aos altos coqueiros para oferecer o fruto a Virgínia e a sentir a partida desta para longas terras. Soube depois que a pequena estava em vésperas de ir para junto de uma parente residente no Porto. Chegou o comboio, vim para Baçal, cogitando na instintividade das irresistíveis leis da natureza e no partido que do caso tiraria, se o presenciasse, o brilhante e saudoso literato Campos Monteiro, que à ida, um pouco abaixo, na estação do Tua, cumprimentei pela primeira vez, apesar de há muitos anos nos cartearmos. Dá Deus as nozes...

SENTRILHA «Por baixo da quinta de Sentrilha [sic, concelho de Carrazeda de Ansiães], para a parte do norte, caminho da quinta dos Codessais, está um sitio que chamam a Aldeia Nova, no limite da dita Sentrilha, freguezia de N. S. das Neves do lugar do Pinhal, termo desta vila de Anciaens, no qual dizem fôra antigamente a dita quinta de Sentrilha, e que dele por rezão das formigas se mudara para o lugar adonde hoje está e ainda naquele se veem muitas ruinas e vestigios de casas» (46).

SIGLAS DOS CANTEIROS Nos castelos, igrejas, monumentos medievos e ainda posteriores aparecem insculpidos nas pedras os sinais com que cada artista marcava as que aparelhava. O uso de marcas por meio de siglas é antiquíssimo: apa(46) Memórias de Ansiães, 1721, manuscrito, § 64.

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rece na civilização micénica, cretense e outras, vindo já dos tempos pré-históricos, como apontam J. Deniquer, Les races et les peuples de la terre, 1900, pág. 163, e outros arqueólogos. Dá-se o nome de «siglas dos canteiros» a estas marcas representativas do nome do artífice, pois cada um usava a sua própria, de formato especial. É óbvio o interesse de uma colectânea siglar nacional para estudo dos assuntos arquitectónicos, e, quando referida ao mesmo monumento, construído numa só época, inculca o número de artistas que nele trabalharam. Segue a lista das que conhecemos no distrito de Bragança. Algosinho. Ver tomo IX, pág. 110, destas Memórias. Também numa pedra da escada do sino desta igreja de Algosinho se encontra o cronograma 1193 em algarismos arábicos, referente ao ano da sua construção, data apócrifa, quanto ao letreiro, pelas razões já alegadas (47). Num rochedo fronteiro à igreja há insculpidos dois sinais em forma de ferradura, nesta disposição: Ansiães. Nas paredes da Igreja de São Salvador, intramuros da desabitada vila de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães, há muitas siglas. Ver tomo IX, pág. 114, destas Memórias. Eis algumas das que tomamos nota: Os sinais em forma de ferradura lembram os das insculturas rupestres, Figura 22 tão abundantes nelas neste concelho. Siglas da Igreja de São Salvador de Ansiães

Azinhoso. A vila de Azinhoso e a sua igreja são ricas de tradições históricas, ligadas ao período áureo da reconstituição nacional, impulsionada pela dinastia Joanina (48). O Dr. João de Barros (49) diz que no «Azinoso» (sic) «a oito dias de Setembro se faz hua muito solemne feira, onde concorre muita gente e muitas mercadorias».

Figura 23 – Siglas da Igreja de Azinhoso (47) Ver tomo IX, p. 188, destas Memórias. (48) VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de, Frei – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usavam, 1865. Como muitas vezes citamos esta obra, por brevidade diremos simplesmente Elucidário, artigo «Azinhoso». (49) Geografia de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, manuscrito de 1549, fól. 121, publicado pela Biblioteca Municipal do Porto em 1919.

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A propósito da igreja, ver tomo IX, pág. 120, destas Memórias. A figura 23 reproduz as siglas existentes no lado externo do monumento, segundo cópia tirada ao tempo da nossa visita, em Maio de 1933, pelo nosso companheiro Dr. Casimiro Henriques de Morais Machado, do Mogadouro. Bragança. Na Domus Municipalis (50) há as siglas da figura 24 nas Figura 24 pedras da cisterna, copiadas ao Siglas da cisterna da Domus Municipalis tempo da nossa visita pelo nosso de Bragança companheiro tenente Francisco António Gonçalves Xavier, de Rebordãos, grande benemérito do Museu Regional de Bragança, bem como seu pai o abastado proprietário António Joaquim Gonçalves Xavier (51). Na Torre de Menagem de Bragança (52), vulgarmente chamada castelo, há várias siglas já dadas no tomo I, pág. 259, destas Memórias Arqueológicas; o nosso referido amigo tenente Francisco António Gonçalves Xavier pode ver mais as que seguem, esparsas pelo monumento acima, graças à agilidade da sua juventude, dispersas por pontos onde não podíamos chegar (as metidas em quadrado Figura 25 estão na mesma pedra): Siglas do Castelo de Bragança

Castro de Avelãs. Ver tomo IX, pág. 169, destas Memórias, onde demos as siglas. Freixo de Espada à Cinta. Ver pág. 432 do mesmo tomo.

Figuras 26, 27, 28 e 29 Ver legendas na p. 74

(50) Ver tomo IX, p. 137, destas Memórias, onde a descrevemos. (51) Ibidem, p. 12. (52) Ibidem, p. 137.


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SIGLAS DOS CANTEIROS

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SILVEIRA

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Fig. 26, siglas dos canteiros existentes na parte exterior da cisterna de Freixo de Espada à Cinta, segundo A. Raczynski, reproduzidas no Portugal – Dicionário histórico, artigo Maçonaria. Fig. 27, idem, idem no interior da mesma cisterna. Fig. 28, idem, idem nas muralhas e torres do mesmo castelo. Fig. 29, idem, idem na Igreja de Freixo de Espada à Cinta.

Miranda do Douro. Ver as siglas da sua muralha e torre de menagem que publicamos no tomo IV, pág. 204, destas Memórias. Moncorvo. São como seguem as siglas dos canteiros existentes no interior das muralhas do Castelo de Moncorvo, segundo o conde A. de Raczynski, reproduzidas no Portugal – Dicionário histórico, artigo Maçonaria. Ver a nossa monografia Moncorvo, separata da Ilustração Trasmontana, Porto, 1910, onde tratamos largamente desta vila bragançana.

Figura 30 Siglas das muralhas e Castelo de Moncorvo

SILVEIRA Que diz: Diis Manibus sacrum, Allia Reburina annorum XLV hic sita est. Sit tibi terra levis. Apareceu na estrada que de Vila Flor vai para Moncorvo, no sítio em que os passageiros começam a subir a colina que separa os campos de Vilariça do rio Sabor, na estalagem denominada «do Silveira» e em cima de uma das suas portas virada ao sul. Foi publicada a primeira vez pelo reverendo Carneiro de Fontoura, reitor de Lamas de Orelhão, e transcrita em O Arqueólogo Português, vol. VII, pág. 11. Hübner também a publicou em a Ephemeris Epigraphica Corporis Inscriptionum Latinarum Supplementum, vol. 9, fascículo 1.° (1903), sob o n.° 261.a. D. M. S. ALLILRE BVRINA N X L V H. S. S. T. T. L.

No mesmo sítio apareceu mais a da figura 31, que quer dizer: Aos deuses Manes e a Quinto Marcião de vinte e oito anos aqui sepultado. A terra te seja leve. Foi também publicada por Hübner no n.° 261.b da sua Ephemeris Epigraphica, já citada.

Figura 31


SOEIRA

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SOUTELO DA GAMOEDA

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SOEIRA Na fachada da Igreja Paroquial de Soeira, por cima da porta principal, há uma rosácea da forma indicada na figura junta. Como está metida dentro de um círculo para dar a janela ou rosácea circular, parece a cruz dos Templários; porém, como estes não tiveram aqui bens, mas sim a Ordem de São João do Hospital, deve, portanto, entender-se que é a cruz de Malta. Em Rabal, na sacristia da igreja paroquial, há também uma cruz inscrita num círculo Figura 32 como esta de Soeira, que também parece dos Templários, mas como estes não tiveram nada em Rabal, mas sim a Ordem de Malta, trata-se provavelmente da desta ordem. No local onde apareceu o miliário de Soeira (ver tomo IX, pág. 208, destas Memórias) (53) diz a gente de Soeira que as povoações de Prado, Paçó e Quintela, situadas em frente de Soeira, mas do outro lado do rio Tuela, subiam aos cabeços perto desses povos, de onde se avistava a capela e de lá, a mais de dois quilómetros de distância, assistiam à missa, conformando-se nas cerimónias respectivas com os movimentos dos soeirenses. Soeira está dividida em dois bairros, afastados um do outro algumas centenas de metros. No Bairro de Cima fica a casa de José Martins, inculcadora de certa grandeza pelas pedras lavradas com altos relevos que tem metidas nas paredes. As janelas da casa, também de certo lavor, são de tipo manuelino, pobre, e nos intervalos delas é que ficam as pedras: duas no lado nascente e duas no poente. Entre os seus ornatos notam-se: estrelas metidas em círculo, cálix, conchas pelo teor das do estilo D. João V, duas linhas de losangos em série; dois leões rompantes como nas armas dos Cardosos ou Pinheiros. Ver tomo VI, pág. 774, destas Memórias, onde já nos referimos a este ornato dando-o como escudo, mas talvez não seja.

SOUTELO DA GAMOEDA O castro de Soutelo da Gamoeda, cinco quilómetros ao norte da povoação, está situado no extremo do termo, entre este e a serra de Montesinho. Chamam-lhe Torre do Castro; tem forma elíptica. (53) Este miliário veio em 1934 para o Museu Regional de Bragança por influência do governador civil capitão Salvador Nunes Teixeira, solicitada pelo benemérito regionalista José Montanha.

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SOUTELO DA GAMOEDA

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SUÇÃES

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TALHINHAS

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TERROSO

TOMO X

O recinto eriçado de blocos de granito, é muito espaçoso; divisam-se ainda ali vestígios de largo e profundo fosso e de escombros da torre, que lhe deu o nome, na frente poente. Não encontramos nem cerâmica, nem moedas, nem notícia de haver lá aparecido qualquer antigualha que servisse de ponto de referência para julgar da sua cronologia.

SUÇÃES No termo de Suçães, concelho de Mirandela, «ha um braço de Serra que nace da Serra do Alvam e Maram e neste sitio se costuma chamar por huns a Serra de Santa Comba e por outros a Serra do Rei Orelhão, consta ser antigamente abitada de mouros e ainda nella se acham alguns vestigios de que abitaram nella, como sam algumas paredes demolidas sobre huma fraga bem alta a que chamam a fraga do Araste que sua altura fiqua virada ó norte» (54).

TALHINHAS Há num rochedo do termo de Talhinhas uma caverna chamada pelo povo Forno dos Mouros, em razão da sua semelhança com um forno. Tem duas bocas estreitas por onde se entra de gatas, mas depois alarga para dentro, a modo que caberão vinte homens. Entre as duas bocas de entrada fica ao alto um pequeno orifício por onde entra a luz. Um pouco abaixo do Forno dos Mouros há dois buracos em forma de caverna, mas muito mais pequena.

TERROSO No tomo I, pág. 354, destas Memórias publicamos mais as duas seguintes lápides dadas por José Cardoso Borges, que diz estavam junto às portas na parede da igreja de Terroso, concelho de Bragança: 1.a

CLODI OTVIR O N I . A N. XXV

(54) Memórias Paroquiais de 1758, «O Arqueólogo Português», vol. VII, p. 271.

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TERROSO

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TOPONÍMIA

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ou seja: A Clódio Turoni (ou a Clódio, filho de Turoni) de vinte e cinco anos falecido. 2.a

DOMIT IANOLA E S I . A N . LX

É possível que o ESI da terceira linha esteja mal lido e deva emendar-se para (h) e (c) S(epulta) i(acet). Domicianola, de sessenta anos, jaz aqui. Ou, então, EST e teríamos: é (sepultura) de Domicianola, falecida de sessenta anos.

TOPONÍMIA Este artigo, referente aos nomes das povoações, devia ir na rubrica Onomástico, mas julgou-se conveniente reuni-lo ao da Toponímia. Dado apenas a título de curiosidade, aliás indispensável neste estudo bragançano, limita-se a mencionar a proveniência dos onomásticos geográficos, sem entrar na história filológica dos nomes, para o que nos falta competência, sendo para o caso tal minúcia dispensável, além de avolumar demasiado este tomo. «Ninguém ignora como os nomes próprios, cujo estudo forma um ramo da linguista chamado Onomatologia, elucida, quando aplicado ao passado, os problemas históricos, sobretudo os etnológicos» (55). A toponímia tem hoje o valor de um irrefragável documento histórico (56). «Les noms de lieux rendent d’incontestables services a l’étymologie montrant sur place les changements que subissent les mots» (57). Estas razões têm levado, tanto em Portugal como no estrangeiro, homens de superior mentalidade a consagrar-se aos estudos onomásticos e toponímicos. Muitos nomes de povoações vêm do genitivo de um nome próprio de homem e querem dizer: vila, herdade, propriedade, casal, quinta, sorte, leira, etc., de F. Assim: villar savarizi (58); villa maurani (59); villa gondesindi (60); villa romarisi (61); hereditate de zendas (62), quer dizer: vilar de Sabariz, vila de

(55) VASCONCELOS, J. L., O Arqueólogo Português, vol. VI, p. 55. (56) BRAGA, Teófilo – A Pátria Portuguesa, p. 214. (57) LITTRE no «Prefácio» e BRACHET, A. – Gramática histórica. (58) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento n.° 420, ano 1050. (59) Ibidem. (60) Ibidem. (61) Ibidem. (62) Ibidem.

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TOPONÍMIA

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Mourão, de Gondesende, de Romariz, herdade de Sendas, tudo nomes próprios de homens que também se encontram em povoações bragançanas. Desembarca Nassau com turba ingente Junto de Tapagipe, e emprende o outeiro, Que nomear costuma a vulgar gente Do antigo habitador, Padre Ribeiro (63).

Era já este o costume dos romanos, que adjectivavam o gentílico do proprietário, ajuntando-lhe o sufixo anus. Assim, Acilianus, Antonianus, Aurelianus, indicam fundus de Acílio, de António, de Aurélio (64). Os visigodos, ao fixarem-se na Península ibérica com a invasão do império romano no século V, conservaram aquele onomástico, que só veio a ser alterado depois das invasões dos mouros no século VIII, após a reconquista dos reis asturo-leoneses no século IX e seguintes, que ao dividir as terras pelos seus, à medida que iam avançando, lhe davam os nomes destes novos proprietários (65), de onde o serem neogodos e desta época muitos dos nossos onomásticos geográficos e o rarearem os nomes latinos. É natural que os romanos, ao estabelecerem-se na península ibérica, ajeitassem a seu modo a léxica toponímica, traduzindo-a, adicionando-lhe sinónimos, elementos de composição morfológica ou substituindo-a mesmo, quando lhe soava mal a fonética. Além de muitos outros nomes de sítios de termo do distrito de Bragança, que podíamos apresentar e que são nomes próprios de homens ainda hoje usados, damos os seguintes: Alfaião, sítios chamados Martim Cansado, Vale de Godinho e Vasco. Alimonde, sítio chamado Romão. Areias, idem, idem, Janaparício, Jantrigo e Martim Calvo. Assares, idem, Urraca. Aveleda, idem, Paigil e Vale de Ramilo (Ramiro). Baçal, idem, Fonte do Mendo, Lameiro do Rodrigo e Martim Pires. Baldrez, idem, Vale de Anes. Beira Grande, idem Vale de Martinho. Bragança, idem, Tereiginha e Vale de Álvaro. Calvelhe, idem, Vale de Rodrigo. Carrazeda de Ansiães, idem, Fonte da Susana, Padreanes e Catalina. Coelhoso, idem, Vale de Vasco. Espinhosela, idem, Esteva Anes e Martim Afonso. Gimonde, idem, Vale de Egas. Grijó de Parada, idem, Baltasar. Izeda, idem, Gonçalianos. Este conserva ainda tic da povoação latina pelo sufixo anus. Luzelos, idem, Martim Gomes. Melhe, idem, Chãira da Aldonça, Giralda, Vale do Miguel e Vale da Senhora. Pereiros (Rebordainhos), idem, Janianes. Portela, idem, Fonte de Antão Vasco e

(63) DURÃO, João de Santa Rita, Frei – Caramurú, cant. IX, estância 33. (64) SAMPAIO, Alberto – As Vilas do Norte de Portugal. «Portugália», tomo I, fasc. 2, p. 281. (65) Ibidem, p. 286, que abona o caso com documentos tirados da España Sagrada, tomo 40, p. 354 e 366.

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Fonte D. Fins. Sacoias, idem, Cicrão. Seixo de Manhoses, idem, Fraga da Bárbara, Leandro e Luzia. Serapicos, idem, Vale Rodrigo. Vale da Porca, idem, Juliano. Zoio, Vale da Sancha. Outras vezes, os nomes das povoações vêm de uma capela ou santo padroeiro, da flora, fauna, condições topográficas, mesológicas, orográficas, hidrográficas, industriais, fiscais, agrícolas ou de outra qualquer circunstância local. Também alguns serão os mesmos nomes das povoações dos invasores, mouros e anteriores, dados a certos povoados em memória da sua terra ou por identidade de situação, assim como a colonização portuguesa fez no Brasil, onde há Miranda, Mirandela, Vila Flor, Vinhais, Bragança e muitas outras vilas e cidades com nomes portugueses (66). O Conde da Ericeira (67) menciona um minhoto que deu o nome de Braga a um local no território de Pernambuco (Brasil). No Prontuário das terras de Portugal, com declaração das comarcas que tocão (?) – 1689 – manuscrito da Torre do Tombo, encontram-se grafados pela forma seguidamente apontada as povoações do distrito de Bragança, que julgamos conveniente arquivar: Provedoria de Moncorvo. Alcaide-mor Manuel de São Paio de Melo. Tem no termo os lugares seguintes, além de outros que não pertencem ao distrito de Bragança: Larinho Felgar Souto Felgueyras

Macores (sic) Asureira Perredo (sic) Urros

Cabeça boa Cabeça do Mouro Orta Estevais

Pousa (sic) Quinta de Mendel (68) Quinta de Almasay (sic) Quinta de Cabana

A villa de Freixo de Espada a Sinta (sic) (69) tem no seu termo os seguintes lugares: Ilgares Poyares

Fornos Mazouto (sic)

(66) FERREIRA, Pedro Augusto, abade de Miragaia, continuador do Portugal Antigo e Moderno, tomo XII, p. 2179, apresenta uma longa lista deles. (67) MENESES, Luís de, conde de Ericeira – História de Portugal Restaurado, parte I, livro VIII, p. 133. (68) Convém notar que o Prontuário distingue entre aldeia, lugar e quinta. (69) No Livro do tombo das demarcações dos lugares das comarcas de «tralos montes e dante douro e minho que estam ao Ionguo da raia e estremo de castela e gualiza», manuscrito da Torre do Tombo feito em 1538, encontra-se escrito Freixo despada cinta.

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TOPONÍMIA

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A villa de Anciães he da coroa e se chama conselho. Tem no seu termo os seguintes lugares: Sellores Beyra grande Seixo Fonte Longa Mogo Zedes Samorinha Belver

Mazagam (sic) Carrazeda Luzellos Amedo Pombal Penhal (sic) Parambos Castinheiro

Riba Longa Quinta de Alganhafres » da Lavandeira » da Colleja » de Besteiros » de Penafria » da Fontoyra » das Arcas

Quinta da Sentrilha » de Felgueyra » da Brunheda » de Paradella » de Tralhariz » do Fiolhal » do Arnal » de Misquel » de Campellos

A villa de Villarinho he da coroa e tem no seu termo os seguintes lugares: Louza Castedo Mourão

Seixo de Manhozes Carvalho degas Val do tolmo (sic)

Quinta do Pinhal Quinta de São Paynho Quinta do Gavião Quinta de Alagoa

A villa dos Cortissos he da coroa e cada um dos moradores paga a el-rei em cada anno quatro alqueires de senteio e trinta e seis reis em dinheiro. Tem no termo os lugares seguintes: Romeu Sernade (sic, por Cernadela?)

A villa de Valdasnes nesta villa se paga hum foro de sinco alqueires de trigo, dezasseis galinhas e noventa e seis reis em dinheiro ao comendador de Malta. Não tem lugar algum no seu termo. A villa de Pinho Vello (sic) não tem lugar algum no termo. A Villa de Sezulfe não tem lugar algum no termo. A villa de Nuzellos tem os seguintes lugares: Arcas

Vilarinho do Agrochão

Vilarinho do Monte

A villa de Lamas de Orelham tem no termo os seguintes lugares: Gulfeyras Eyvados Eixes Sucais (sic) Fonte de Anes

São Pedro Marmellos Valverde São Silvestre Cobro

Carapano (sic) Avidagos Rego da Vide Carvalhal Boral (sic)

Pereyra Villa boa Franco Passos Bom regalo (sic) Ribeirinha

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TOPONÍMIA

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A villa de Abreiro tem no seu termo os seguintes lugares: Navalho

Sobreyra

Milhaes

Longra

A villa de Mirandella tem no seu termo os seguintes lugares (70): Miradossos São Salvador Quinta de Val do Freixo Quinta da Acureyra (sic) Garivanes Sedrins Quinta de Val de Sardão » da Mourel choupins Val de Pardinhos Sedrinhos Quinta de Barca » Quinta da Chorense » Quinta da Carissas

A villa de Alfandega da Fé tem no seu termo os seguintes lugares: Daganha Cardenha

Ouzizia Covellos

Xardão Rio de Vides

Nuzellos

A villa de Crasto Vicente (sic) tem no seu termo os seguintes lugares: Sebelem (sic) Aldea da Cara da barca (sic)

Alagoinha Agrebom

Aldea do Vargas (sic)

A villa de Torre de D. Chama tem no seu termo a Quinta dos Leyros. A villa de de Villa Flor tem no seu termo os seguintes lugares: Saomois

Quinta do Macedo

Quinta dos Estevais

Provedoria de Miranda. Tem no seu termo os seguintes lugares: Cazarelhos Avelanoso

Afanes Predo

Bidoedo Urros

Granja

A villa de Mogadouro tem no seu termo os seguintes lugares: Quieta do Paço

Brusó

(70) Nesta vila e nas seguintes até ao fim omitimos os nomes dos lugares escritos no códice com a grafia igual à usada ainda hoje.

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TOPONÍMIA

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A villa de Villar Seco de Lomba tem no seu termo os seguintes lugares: Giestoça

Adral (sic)

São Jumil

Passos (sic)

A villa de Vinhaes tem no seu termo os seguintes lugares: Izido Nuzedo Trespassante

Crasto Serdedo

Teozello (sic) Maseira (sic)

Cuvagens (sic) O lugar da Dubadoura Valgassos (sic)

Bragança. Tem no seu termo os seguintes lugares: Oleyrinhos do Sabor Cova da Lua Masans Ozeyuve Crestellos Montoyto

Guimonde (sic) Pitriqueira Fermil Villa Boa de Carção Mussos (sic) Bidoedo

Passó de Sortes Garalhós Castro Roupal Corujas Vergada Passo

Também não estaremos a demorar-nos com os nomes de povoações derivados de plantas ou árvores bem conhecidas, como são, entre outros, os seguintes e seus derivados: Carvalhal (quercus toza), Castanheiro (castanea sativa), Estevais (cistus ladaniferus), Fiolhal (de fiolho, foeniculum vulgare), Freixo (fraxinu angustifolia), Gestosa (de giesta, sarothamnus scoparius), Junqueira (de junco, juncus effusus), Maçaira, Marmelos, Nogueira (juglans regia), Olmos (ulmus niger), Pereiros, Pinhal (pinus pinaster), Salgueiros (salix salvifolia), Sobreira (quercus suber), Vale de Juncal (de junco), Vale de Sardão (de sardão, quercus ilex), etc. Da mesma forma deixamos os nomes de algumas povoações de significado corrente ainda em uso. Também apresentamos algumas etimologias populares, embora falhas de valor filológico, mas não etnográfico. A propósito ver págs. 187, 461, 483, 485, 603 e 624 do tomo IX, destas Memórias. Convém advertir que as etimologias propostas pelo Portugal Antigo e Moderno, e de modo especial pelo seu continuador Dr. Pedro Augusto Ferreira, abade de Miragaia, na sua Tentativa Etimológico-Toponímica, aqui tantas vezes citada, se ressentem da falta de critério filológico, ciência então incipiente entre nós, sem o vigor que hoje ostenta. Aboá. Avoá, no Novo Dic. Corográfico de Francisco Cardoso de Azevedo. São bem conhecidos na literatura os escritores judeus: Judah Abohab, rabino MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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espanhol do século XV; Isaac Abohab, também rabino espanhol que viveu no mesmo século, e Manuel Abohab, rabino português que viveu no século XVII. Virá deste apelido judaico o nome da pequena povoação do concelho de Vinhais? Viterbo (71) transcreve o texto de um documento do século XV, em que aparece a palavra aboar com a significação de apegar, separar, dividir, estremar. Virá daqui o nome, com o tema de aboá, para significar marco, marra divisória entre termos de povoações, equivalente de Mogo, no concelho de Carrazeda de Ansiães? Abreiro (Avreyro, Avreiro, Abreiro nas Inquirições (72) de D. Afonso II). Diz o Portugal Antigo e Moderno (73), guiado por Sousa (74), que Abreiro é a palavra árabe ábara, que significa entrar ou passar de um para outro lado; no entanto, pode corresponder ao nome próprio Abrario, usado na Idade Média (75). O povo diz que Abreiro deriva de abre-te rio, para indicar a passagem que ali fornece o Tua. Açoreira (Assoreira, Assureira, como escrevem alguns). Viterbo (76) cita vários documentos desde o século VIII a XII, onde aparece a palavra azoreiras para significar «matas, devesas ou moutas, em que se fazia lenha» e lembra que tiraria o nome das árvores chamadas azéros ou azereiros bravos. Azeiros ouvi eu chamar em Mairos, concelho de Chaves, às matas de medronhos ou medronheiros. Pinho Leal (77), guiado por Sousa e Moura (78) lembra que virá do árabe Assoeira, que significa imagem, ou de Azaarus, que corresponde a nêspera, fruto da nespereira. Neste sentido, Açoreira indicará terra que produz nêsperas ou terra onde há uma imagem pintada ou insculpida. Açoreiros se chamam nas Ordenações de el-rei D. Duarte os homens encarregados dos açores para caçar (79).

(71) VITERBO – Elucidário, artigo «Aboar». (72) Tomo IV, p. 29, 80, 239, 351, 368, 433, 627 e 681 destas Memórias. (73) Artigo «Abreiro». (74) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal ou Léxico das palavras e nomes que têm origem arábica, 1789, obra mandada imprimir por conta da Academia das Ciências. (75) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento n.° 221, ano 1013. (76) VITERBO – Elucidário, artigos «Azoreira» e «Azoreiras». (77) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Assureira». (78) SOUSA, João de – Vestígios da língua arábica… (79) Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines, p. 200.

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Adeganha (80), Daganha no Prontuário das terras de Portugal, 1685, manuscrito da Torre do Tombo. Viterbo (81) cita vários documentos do século IX e seguintes em que aparecem as palavras daganhas, deganas e deganhas para indicar terras emprazadas ou reduzidas a cultura, por estarem desaproveitadas. Daqui provirá o nome da povoação bragançana. Agrobom. Agro-bom, como escrevem alguns. Ver Agrochão. Agrochão. Nas Inquirições (82), Agro channo, Agro chano, Agro chaão. Viterbo (83) transcreve textos de documentos dos séculos XII e XIV, onde aparece a palavra agro para indicar campos, terrenos cultivados. Temos, pois, que Agrochão e Agrobom indicam: campo plano; campo bom. Vila Chã da Barciosa deriva o apelido da mesma circunstância topográfica. «Ager designava, postas de lado outras significações que não interessam agora, ou a área total de um prédio rústico, ou o campo, a gleba cultivada... Depois passou com a mesma significação ao português literário, estando actualmente em desuso na linguagem culta; mas conserva-se actualmente na popular, na mesma forma agro e agra para designar certos terrenos planos, onde eram cultivadas as plantas cerealíferas da antiga lavoura» (84). Águas Vivas (85). Deve entender-se águas límpidas, transparentes, correntes (86), em alusão às belas correntes que lá nascem, contrapondo-se a outras que são mortas, pantanosas, estagnadas. Aguieiras. Deve indicar sítio ou lugar onde as águias abundam. Realmente as muitas fragas que há no seu termo prestam-se à residência destes animais. Vale de Águia deve ter a mesma origem. A propósito de Pau de Afreixo ou de Pau de Freixo, como alguns escrevem, uma das quintas das Aguieiras, convém lembrar que no Tombo dos bens da comenda de Algoso feito em 1684, fól. 578 (87), aparece a grafia Prade Freixo, talvez equivalente de Prado do Freixo. Esta grafia tem grande força por ser colhida in loco da boca do povo pelo escrivão do Tombo.

(80) Tomo IV, p. 182 e 329, destas Memórias. (81) VITERBO – Elucidário, artigo «Daganha». (82) Ver tomo III, p. 312, 314, 315, 317, 326, 390 a 392 destas Memórias. (83) VITERBO – Elucidário, artigo «Almoinha». (84) SAMPAIO, Alberto, em Revista de Portugal, (1892), p. 540. (85) Tomo IV, p. 345, destas Memórias. (86) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, 1900-1901, tomo I, p. 61. (87) Ver p. 598 do tomo IX destas Memórias, onde o descrevemos.

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Ala (Ala nas Inquirições (88) feitas pelos anos de 1258). Entre os bispos que concorreram ao décimo Concílio de Toledo, celebrado em 656, aparece um de nome Ala (89). Vincêncio, nomeado mestre de cavalaria pelo rei godo Eurico, foi morto pelos condes Alla e Syndila – Vincentius vero ab Eurico Rege, quasi magister militum missus, ab Alla et Syndila comitibus Italia (noutro códice lê-se Italis) occiditur (90). Alfaião (Alfayana, Alfayãao, Alfayaa nas Inquirições (91) tiradas pelos anos de 1258). Corresponde à palavra árabe alchayam, que significa lugar sombrio. Deriva-se do verbo chaìama, fazer sombra (92). Ferreira lembra se Alfaião viria de «faião, grande faia? de Faião, rico homem da Idade Média, tronco dos Sousas? Por seu turno, Faião vem de Fafilanus, i, diminutivo de Fafila, nome godo, que deu Fafe, e Fafilinis deu Fiães» (93). Porém Viterbo (94) transcreve documentos dos séculos XV e XVI onde se vê que fiaã (plural fiaes) significa o vaso de barro hoje chamado almofia. Por analogia, podia dar-se o nome de Fiães aos lugares onde se fabricava louça ou trabalhavam os oleiros. Daqui ficariam em terra de Bragança os nomes das povoações de Oleiros e Oleirinhos e na de Valpaços o de Fiães. Alfândega da Fé (95). «Os arabes e Orientaes lhe chamam Alfandáqua, e é propriamente um grande hospicio ou estalajem segura, onde os comerciantes estrangeiros se recolhem com suas mercadorias. N’estes lugares ordinariamente se cobram os direitos reaes; e n’este sentido se disse em Portugal Alfandega, uma casa publica com seu tribunal privativo para cobrar os direitos das fazendas, que entram ou saem» (96). Também Alfândega, no sentido de hospício, pode corresponder a albergaria, asilo para passageiros (97). Fé pode ser nome de mulher (98). (88) Tomo IV, p. 36, 171, 449, 534 e 536, destas Memórias. (89) FLOREZ – España Sagrada, tomo XIV, p. 23. (90) SULPICIUS, Severus, in Epitome Chronicorum, no códice de Alcobaça, citado na Monarquia Lusitana, tomo VI, p. 172. (91) Tomo III, p. 58, 69, 87, 318, 326, 403 e 498, e tomo IV, p. 335, 445, 512, 515 e 535, destas Memórias. (92) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal ou Léxico de palavras e nomes que têm origem arábica. (93) FERREIRA, Pedro Augusto, Abade – Tentativa Etimológico-Toponímica, 1907- 1915, tomo III, p. 187. (94) VITERBO – Elucidário, artigo «Fiaã». (95) Tomo IV, p. 288, 324, 365, 368, 391, 448 e 627, destas Memórias. (96) VITERBO – Elucidário, artigo «Alfândega». (97) Ver o artigo Frades, no tomo IX destas Memórias, onde apontamos uma no concelho de Mirandela, e VITERBO – Elucidário, artigos «Albergaria» e «Alcaçaria». (98) Ver o artigo «Rica Fé».

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Algoso (Ulgoso nas Inquirições de el-rei D. Afonso III pelos anos de 1258 e noutros documentos (99), Ilgoso na carta de doação de D. Afonso na era de 1210). Algoso, diz Ferreira, «é metatese de Lagoso, como prova evidentemente uma lagoa, que ha na propria villa» (100). Virá do latim Uliginosus, a, um, apaúlado, húmido, pantanoso, alagadiço? O toponímico Lago, derivados e equivalentes, é frequentíssimo no distrito de Bragança. A 22 de Julho de 1239 fez D. Pedro Costém, comendador da Ordem dos Templários em Portugal, composição entre as comendas do Mogadouro e Penas Roias, pertencentes aos Templários, com a de Algoso, pertencente à Ordem do Hospital, também chamada de Malta (101). Ver adiante o artigo Mogadouro. Alimonde (Arrimonde, Arimundi, Aramundi, nas Inquirições feitas pelos anos de 1258 (102). Alimon, i, é uma palavra latina empregada por Plínio e corresponde ao nome de uma erva contra a fome, como pode ver-se em qualquer dicionário. Almansor. Como o toponímico Almansor é mui frequente em Portugal – povoação na freguesia de São Pedro do Paraíso, concelho de Castelo de Paiva, serra na província da Beira Baixa, lagoa na província do Algarve, rio nas vizinhanças de Montemor-o-Novo, sítio do termo de Tinhela, concelho de Valpaços – damos a sua etimologia segundo Sousa (103). Diz ele que Almansor é nome próprio de um rei mouro e quarto de Marrocos, que invadiu Portugal, assolando as terras desde o Guadiana até ao Mondego (104). Deriva-se do verbo árabe naçara, ajudar, socorrer, e, como é particípio passivo, significa socorrido, vitorioso. Alpajares, estrada no termo de Freixo de Espada à Cinta. Vem de pajares, palheiros em espanhol, e do artigo árabe al, que significa o, a, os, as, vindo, portanto, a dizer o palheiro, os palheiros (105).

(99) Ver tomo IV, p. 7, 8, 10, 12 a 15, 17 e outras, destas Memórias. (100) FERREIRA, Pedro Augusto– Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo II, p. 12, e tomo III, p. 188. (101) VITERBO – Elucidário, artigo «Preceptor». No tomo IV, p. 368, destas Memórias, falamos de outra composição. (102) Ver tomo III, p. 317, 325, 383 e 395, destas Memórias. (103) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal. (104) No tomo I, p. 54, destas Memórias dissemos das incursões de Almansor. (105) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo III, p. 200.

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Alvaredos. Cruz (106) diz que vem do árabe Albarid, o correio; mas como arboredo e alboredo são da linguagem popular, segundo observa Vasconcelos (107) e significam mata, abundância de árvores, é mais provável que o nome venha desta circunstância. De resto, nas Inquirições vemos Arimonde, Bardreas, Guadramir, Sancilis, Saamir, Felmir, Salzeda, por Alimonde, Baldres, Guadramil, Sanciriz, Samil, Fermil e Sarzeda. Ver estes artigos. Alvites (Alvitres, no foral de Mirandela, dado por D. Manuel (108) em 1512). Vem do nome próprio de homem, seguidamente apontado: Alviti, serviu de testemunha (109); Alvitiz, testemunha (110); Alvito, testemunha (111); Alvitus serviu de testemunha (112). Além destes nomes próprios de homens, mencionados nos documentos referidos em nota, temos: Alvitu Romariquize, testemunha (113), e Rodezendo Alvitizi, testemunha também (114). O nome próprio Alvitius já aparece na epigrafia romana ibérica (115). Amanso, povoação da freguesia de Edral. É nome próprio de homem. Amantius, primeiro bispo de Rodes, viveu no século V (116). Amedo. Vem de «ameiredo, o mesmo que amial e amieiral» (117). É frequente o toponímico Amedo. Ansiães (Ansilanes no foral dado no século XI (118)). No artigo Estrada, pág. 200 do tomo IX destas Memórias, algo fica dito acerca desta etimologia. Ansila, nome próprio de homem, aparece no século IX (119).

(106) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal, aumentados por Frei José de Santo António Moura, 1830. (107) VASCONCELOS , J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. II, p. 153, e vol. I, p. 149. O mesmo, nas Memórias de Mondim da Beira, 1933, p. 255, relaciona Alvaredos com alvarinho, sinónimo de carvalho ou roble. Algumas plantas têm o qualificativo de alvar, esbranquiçada para as distinguir de outras da mesma espécie. Assim: pinheiro alvar, urze alvar ou alvarinha, etc. Influiria esta circunstância na etimologia de Alvaredos? (108) Tomo IV, p. 171, destas Memórias. (109) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 21, ano 915; doc. 170, ano 994. (110) Ibidem, doc. 124, ano 918; doc. 252, ano 1023; doc. 328, ano 1043; doc. 435, ano 1063. (111) Ibidem, doc. 43, ano 937; doc. 127, ano 980; doc. 117, ano 976; doc. 158, ano 990. (112) Ibidem, doc. 20, 54, 141, 163, 173, 192, 208, 214, 224, 246, 248, 254 e 273, anos 915 a 1032. (113) Ibidem, documentos 281, ano 1033, e 639, ano 1085. (114) Ibidem, doc. 639, ano 1085. (115) Boletim de la Academia de la Historia, tomo 44, cad. 4, p. 356. (116) MORERI – El Gran Diccionario, artigo «Chamant». (117) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo III, p. 191. (118) Ver tomo IV, p. 403, destas Memórias, onde o publicamos integralmente. (119) CORTESÃO, A. A. – Onomástico medieval português. «O Arqueólogo Português», vol. VIII, p. 283.

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Angueira, rio e duas povoações no concelho de Miranda do Douro. Angueira, que também aparece nos documentos antigos com os nomes de Engueira e Ingueira (120) vem do latim anguis, a cobra, que deu anguieira ou enguieira e quer dizer: rio das anguias ou enguias (121). Ferreira lembra que o nome provém do rio ser muito tortuoso no seu curso, a modo do andar das cobras (122). Similar étimo teve na antiga Grécia o rio que deu o nome aos meandros da ornamentação arquitectónica clássica. Mais tarde o mesmo Ferreira diz que «provavelmente» tomou o nome de Anghera, tribu de Marrocos (123). Vasconcelos (124) escreveu sobre o assunto largo e erudito estudo filológico, terminando por concluir que Angueira vem de anguis, a cobra, ou por no rio haver muitas, ou por imitar no curso o andar das mesmas. Angueira virá do latim angária, ae, serviço forçado e regulamentado, com que os romanos obrigavam as províncias ao transporte dos géneros para os depósitos e portos de mar em veículos apropriados? Neste caso, ligar-se-á à estrada militar romana de Braga a Astorga, pelo distrito de Bragança, que não longe do rio Angueira passava? Virá de angueira, multa cominada por alguns forais ao que monta cavalo contra vontade de seu dono, segundo refere Herculano (125)? Virá de angueira, tributo feudal, mencionado por Ribeiro (126)? Viterbo diz que se dava o nome de angaria ao aluguel de bestas ou de quaisquer outros animais de carga; ao lugar, muda ou estação onde estavam as bestas de aluguel; ao preço deste; a quaisquer encargos ou pensões a que, contra sua vontade, eram violentadas as pessoas nos seus corpos ou fazendas e ainda a toda e qualquer violência, vexação, injúria ou tristeza (127). O cânon 19.° do terceiro Concílio de Toledo diz: Episcupos non licet in dioccesis sua ANGARIAS imponere; e o cânon 20.° do mesmo concílio acrescenta: servi ecclesiarum publicis ANGARIAS non fatigentur. Virá destas angarias o nome do rio e povoações de Angueira?

(120) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa,tomo I, p. 63. Tomo IV destas Memórias, p. 9 a 12, 15 a 17, 55, 136, 201, 345, 347, 368, 447, 531 e 532. (121) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Angueira». (122) FERREIRA, Pedro Augusto – Portugal Antigo e Moderno, vol. XII, p. 1471, artigo «Vimioso». (123) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. I, p. 35. (124) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia…, p. 63 e seg., e Religiões da Lusitânia, tomo II, p. 232. (125) HERCULANO, A. – História de Portugal, livro VIII, parte 3.ª, p. 323. (126) RIBEIRO, João Pedro, in VITERBO – Elucidário, 2.ª edição, artigos «Angueiras» e «Engueiras», onde, com mais propriedade, no nosso caso, se diz que esse tributo era prestado pelos enfiteutas e colonos ao senhorio. (127) VITERBO – Elucidário, artigo «Angarias».

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Como adiante, no artigo Toponímia, dizemos, em algumas terras bragançanas dão o nome de anguelga anguelgueira à árvore chamada avelãira (128) e o de anguelgal e anguelgueiral ao conjunto ou moitas destas plantas, motivo porque supomos que de anguelgueira veio angueira. Em Malhadas há um sítio do termo chamado Vale de Ingueira, provável corrupção de Vale de Angueira. Arcas. O povo em alguns sítios dá aos dólmens o nome de Arcas, o que sucede cá em Portugal ao pé de Carrazedo de Alvão, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, e também na Estremadura espanhola, mas nem sempre a palavra arca indica dólmen. Entre os romanos, a palavra arca era um marco especializado nos campos e formado de quatro paredes, à maneira de guardas de poço, que os agrimensores edificavam nos quadrifínios. Vide Alberto Sampaio, na Revista de Guimarães, vol. XI, pág. 45 – Du Cange, Glossarium. Da analogia que o povo achou entre as arcas, limites de terrenos, e os dólmens deu a estes aquele nome. É verdade que às vezes também os dólmens podiam servir de marcação de terrenos. Portanto, nem sempre arca significa dólmen, maxime nos documentos da Idade Média (129). Arcas era filho de Júpiter e de Calisto, filha de Lycaon, rei da Arcádia. Juno, para se vingar dela, converteu-a em ursa, que Diana matou. Pausânias diz que foi colocada no número dos astros e é a ursa maior. Hospedando-se Júpiter em casa de Lycaon, este lhe pôs no banquete em iguaria Arcas, que para isso mandou matar, para experimentar a divindade do deus, e este, em castigo, transformou-o em lobo e a Arcas em ursa menor (130). Argana. Viterbo (131) transcreve um texto do Código Afonsino, livro I, título 65, § 5, onde se menciona a palavra argaans, que significa alforges, taleigas, trouxas, mochilas, etc. Argozelo (Ulgozello, Algozelo nas Inquirições tiradas pelos anos de 1258 e já em documentos do século XII) (132). Virá do latim Uliginosus, a, um, apaú-

(128) Dizem até que as castanholas ou ferranholas, com que matraqueiam nos bailes, para serem boas e terem melhor som, devem ser de anguelga. Ver na mesma Toponímia o artigo «Angueira». (129) VASCONCELOS, J. L. de – Religiões da Lusitânia, vol. I, p. 254, em nota. VITERBO, no Elucidário, artigo «Mamoa», expõe a mesma doutrina. No tomo IX, p. 128 e 579, destas Memórias citamos alguns documentos em que arca aparece com as significações acima. SAMPAIO, Alberto – As Vilas do Norte de Portugal. «Portugália», tomo I, fasc. I, p. 126. (130) MORERI – El Gran Diccionario, artigo «Arcas». (131) VITERBO – Elucidário, artigo «Argaans». (132) Ver tomo III, p. 49, 58 e 66, e tomo IV, p. 19, 350, 447, 463, 559 e 670, destas Memórias.

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lado, húmido, pantanoso, alagadiço? Como o sufixo elo é diminutivo, temos que indica terra um pouco pantanosa. Ariães (Ponte de). Fica junto à povoação de Castro de Avelãs, sobre um ribeiro que nela passa. É contracção do nome próprio Ario Anes. A ponte é medieval e não romana, como alguns dizem. Arias (133) e Gondesindo Arianizi (134) confirmam ou testemunham nos documentos abaixo citados. Arnal. É frequente este toponímico. De arenola, do baixo latim, diminutivo de arena, ae, a areia; equivalente de areal, arenal, em espanhol, areal (135). Também se disse arneiro, terra, monte, ou praia cheios de areia (136). Arrifana. Deriva do árabe arrahána, que significa horta. É frequente no Alcorão com este mesmo significado (137) Arufe (Rufe em documentos antigos (138)). É nome próprio de homem e aparece com as seguintes variações: Ariulfe serviu de testemunha (139), Aziufiz, homem que serviu de testemunha (140); Ariufu, confirma (141); Arulfus, testemunha (142); Ruofo, confirma (143). Ver o artigo Guadramil. Assares (Pinho Leal, J. Leite de Vasconcelos e outros corógrafos escrevem Assaes, mas o povo diz Assares). O primeiro (144), guiado por Sousa e Moura (145), diz que vem da palavra árabe Aça, cujo plural é Açaes, significando por isso povoação das lanças. Pedro A. Ferreira (146) diz que Assares deriva do nome hebraico Azarias, «que no plural deu Assarias na falta do z sibilante».

(133) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 35, ano 929; doc. 143, ano 984; doc. 247, ano 1021; doc. 253, ano 1023 (134) Ibidem, doc. 489, ano 1070. (135) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo III, p. 330. (136) VITERBO – Elucidário, artigo «Arneiro». (137) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal. (138) Tomo III, p. 68, 86 e 99, e tomo IV, p. 468 e 509, destas Memórias. (139) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 768, ano 1092. (140) Ibidem, doc. 450, ano 1065. (141) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 760, ano 1091. (142) Ibidem, doc. 760, ano 1045. (143) Ibidem, doc. 311, ano 1040. (144) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Assães». (145) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal. (146) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. II, p. 63.

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Atalaia. Como este toponímico é frequentíssimo no distrito de Bragança e em todo o Portugal, damos a sua significação: corresponde à palavra Attalaâ, lugar alto, torre de onde as vigias descobrem campo, lugar eminente. Deriva-se do verbo árabe tálea, subir, e na 8.a conjugação é vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista. Também se chamam atalaias os homens que vigiam os campos, fortalezas, praças e presídios (147). Atenor (Atanor e Atenor nas Inquirições de D. Afonso III pelos anos de 1258 (148)). Carvalho (149) escreveu Tenor, talvez por erro tipográfico, pois não conhecemos documento que autorize tal grafia. Também modernamente escreviam Athenor, sem razão justificativa. Atanor vem do árabe (150), onde significa forno, boca de poço, e aparece assim mesmo escrita, tanto em espanhol como em português antigo, significando: cano para conduzir água às fontes, naquela língua; e vasilha, na nossa (151). Não parece aceitável que Athenor corresponda a Antenor, nome próprio de homem entre os gregos, como lembra Pinho Leal (152), embora na mesma região existam as povoações chamadas Gregos e Granja dos Gregos e Herculano nos diga que os gregos ocuparam grande parte da Galiza e do norte de Portugal anteriormente aos romanos. Ver pág. 18 do tomo IX destas Memórias, a propósito da influência grega entre nós, e Vasconcelos (153). Avantos. Avantes escrevem alguns corógrafos. A História menciona o povo chamado Abantes, originário da Trácia, que passou a Fócida, na Grécia, onde edificou a cidade de Abea, assim chamada do nome de Abas, seu chefe. Daqui seguiu para a ilha de Eubea, hoje Negroponto, a que deu o nome de Abantis. Os Abantes eram mui belicosos: combatiam corpo a corpo, usavam na cabeça o cabelo comprido por detrás e cortado na frente, para que o inimigo os não agarrasse por ele (154). Abante é o nome de um capitão da armada de Eneias (155). (147) SOUSA, João de, Frei – Vestígios… e VITERBO – Elucidário, artigo «Atalaia». (148) Ver tomo IV, p. 9 e 11, destas Memórias. No tomo VII, p. 722, citamos um documento de 1230 em que se escreve «Natanor». (149) COSTA, António Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo I, p. 483. (150) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal, aumentados por Frei João de Santo António Moura, 1830. (151) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 69, e tomo II, p. 9. (152) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Athenor». (153) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. II, p. 55. (154) MORERI – El Gran Diccionario, artigos «Abantes» e «Abea». (155) VIRGÍLIO – Eneida, livro III. Na mesma, livros IX e X, apontam-se vários indivíduos com o nome de Abante.

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Avelanoso (Avelanso, Avelaoso, Aveloso nas Inquirições (156) tiradas pelos anos de 1258). Vem do latim avelana, avelã (157) e quer dizer terra abundante em avelãs ou avelairas. Aveleda (Avelaeda nas Inquirições (158) tiradas pelos anos de 1258). Ferreira (159) alude à proposta de alguns que derivam Aveleda das palavras latinas – Ave + leda – salve ó leda, soltadas pelos romanos ao verem certas povoações sitas em belos locais; mas não concorda, porque muitas estão em sítios feios e outros lindíssimos, como são as margens do Lima, Minho, Mondego e Ria de Aveiro, e não tiveram tal nome. No seu entender, o nome Aveleda deriva da sacerdotisa druídica que, por exercer as suas funções nestes sítios, ou lá ter habitado, ou por outras razões ligadas ao seu culto, lho legou (160). Deve notar-se que o nome Veleda se tornou depois comum às diversas sacerdotisas druídicas. A Veleda primacial, famosa profetisa dos germanos, viveu no tempo de Vespasiano (7-79 anos de Cristo) e foi adorada como divindade depois de morta. Habitava numa alta torre, onde era consultada, nada se fazendo sem o seu conselho. Tomou grande parte na revolta de Civilis, chefe dos Batávios. Rutílio Galo fê-la prisioneira e parece que a conduziu a Roma em triunfo (161). Se as razões da palavra decomposta valessem, também podia dizer-se que Aveleda = ave + leda significavam ave alegre. É grande o número de povoações com o nome de Aveleda, como pode ver-se nos dicionários corográficos, e muitíssimo maior o dos toponímicos onde ele ou o de Veleda entram. Adiante, no artigo Toponímia, apontamos alguns.

(156) Tomo IV, p. 7, 8, 14, 16, 19, 55, 156, 157, 345, 447 e 532, destas Memórias. (157) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo II, p. 47. (158) Tomo III, p. 321 e 413, destas Memórias. (159) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigos «Aveleda» e «Pena Jóia». (160) Ibidem, artigo «Velleda», onde vem uma interessante questão a propósito de tal etimologia, que sustentou com Simão Rodrigues Ferreira, autor das Antiguidades do Porto. (161) Ver qualquer livro de história romana, e especialmente TÁCITO – Costumes dos Germanos, livro IV, cap. 61; CANTU, Cesar – Hist. Universal, tradução de Bernardes Branco, vol. II, p. 58 e 326, e vol. III, p. 158. CHATEAUBRIAND, nos Mártires, aproveitou a acção cívica desta sacerdotisa para fazer um episódio de belo efeito literário. Sobre a religião dos druídas ver o Portugal Antigo e Moderno, artigos Druídas e Aveleda, onde se transcreve o que César nos Comentários, Suetónio na História dos doze Césares e outros disseram sobre o assunto.

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Aveleda, Avelaneda passou também a ser apelido nobre, tanto em Portugal como em Espanha (162). Aveleda vem do latim avelana, avelã (163) a que se juntou o sufixo edo, eda, para indicar abundância (Avelaneda, Avelaeda) e quer dizer terra abundante em avelãs ou avelairas. Avidagos. Vem do artigo árabe al, que significa o mais vidagos ou vinhedos (164). Avinhó (Vinoso, Avinoso nas Inquirições (165) tiradas pelos anos de 1258), Vinhó em alguns corógrafos. Vem do baixo latim viniola, pequena vinha (166). Azibeiro e Azibo. Há também um ribeiro com o nome de Azibo, que passa no termo de Azibeiro, de onde tomaria o nome, e desagua no Sabor depois de atravessar o termo de Gralhós. Como um documento de 1699 dá a este rio o nome de Zebres (167), que provavelmente lhe vem da erva chamada azevre, ou da árvore denominada azero, azereiros bravos (168) e ainda azeiro noutros sítios (169) e agora nos aparece com o nome de Azibo, e Azibeiro o povo, parece líquido que provém da abundância de tais ervas ou árvores na região. É possível que a coisa não esteja muito de harmonia com as leis filológicas, mas os documentos parecem justificar tal proveniência. Na serra de Montesinho, concelho de Bragança, há uma árvore conífera, cuja folha, de verde intenso, semelha um pouco a do sardão (quercus ilex), em razão dos picos que a revestem, mas em menor quantidade e ela também um pouco maior. Chamam-lhe zebro, desenvolve-se em sítios frios e húmidos e aparece em vários lugares do distrito de Bragança, motivando, segundo entendemos, a frequência do toponímico Zebro, Vale de Zebro, etc.

(162) MENDEZ Silva, Rodrigo – Catalogo Real y Genealogico de España, p. 90 v, 121 e 122, Nobiliarios de Sanches de Baena, Haro e MORERI – El Gran Diccionario. (163) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo II, p. 47, em nota. (164) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo III, p. 200. (165) Tomo IV, p. 19 e 20, destas Memórias. (166) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo III, p. 430. (167) Ver tomo IV, p. 351 e 649, e tomo VII, p. 144, destas Memórias. O Tombo dos bens da comenda de Algoso feito em 1684, no fólio 100 v., dá ao rio o nome de Zebro. (168) VITERBO – Elucidário, artigo «Azoreira». (169) Ver artigo «Açoreira» e FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo II, p. 243, em nota.

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Em 1922 discutiram largamente na Academia de Ciências de Lisboa a questão do zebro, animal, mencionado na documentação medieva, tomando parte no debate as mais altas sumidades filológicas portuguesas. Azinhoso (Azinoso nas Inquirições (170) feitas pelos anos de 1258). Quer dizer sítio onde abundam as azinheiras, chamadas sardões ou carrascos (quercus ilex) em terras bragançanas (171). Ainda hoje há muitas junto à vila de Azinhoso. Babe (Babi, Bavy nas Inquirições (172) tiradas pelos anos de 1258). Em árabe, Babe, que significa portinha. Deriva de babon, a porta (173). Babius, ii, nome de um poeta romano, também podia dar Babe. Sob o ponto de vista militar, Babe é realmente uma portinha relativamente a Bragança e distrito, pois só pelo lado de Miranda-Vimioso-Outeiro Babe apresenta fácil entrada ao invasor. O toponímico Babão (babon) é frequente. Babilon é apelido de uma família portuguesa do século XIII (174). Baçal (Baçar, Basal, Bazal nas Inquirições e outros documentos do século XIII [3] (175)). Em árabe, Baçal, que significa cebolal, lugar de cebolas (176). Ferreira diz que «Bacal, Baçar e Bassar, são talvez formas calaicas de bazar-feira» (177). O mesmo Pedro Augusto Ferreira, numa carta, que conservamos, diz que Baçal «é talvez uma forma de Vassal (178), cujo étimo é vassallus». A propósito desta palavra diz Viterbo: «entre os godos, muitos ingénuos, mas pobres, se acostavam aos grandes senhores, de quem recebiam armas, e sustento, e os acompanhavam em todas as suas expedições militares. A estes se davam os nomes, já de “clientes”, porque eram uma espécie de “libertos”: já de “bucellarios”, pelo mantimento que recebiam: já de “exerci-

(170) Tomo III, p. 18 e 315, e tomo IV, p. 251, 255, 347 e 627, destas Memórias. (171) VITERBO – Elucidário, artigo «Azinhoso». (172) Tomo III, p. 283, 306, 310, 317, 319 e 373, e tomo IV, p. 335, 445, 534 e 536, destas Memórias. (173) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal. (174) VITERBO – Elucidário, artigo «Babilom». (175) Tomo III, p. 269, 320 e 402, destas Memórias. (176) SOUSA, João de, Frei – Vestígios… (177) F ERREIRA , Pedro Augusto – Tentativa Etimológico…, tomo III, p. 202; mas, no tomo I, p. 350, lembra que pode vir de bacelada, bacelal, bacélo, bacelar, ainda hoje muito corrente para significar vinha nova ou plantada de novo. (178) Confirma a povoação de Vassal no concelho de Valpaços.

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taes”, porque deviam servir na guerra: já de “lendes”, porque se obrigavam a serem fiéis, e unicamente servirem ao seu patrono, ou senhor, de quem tinham recebido algum benefício, ou aprestamo. Todos estes nomes se ajuntaram depois no de “vassallo”, segundo a tradução que o Fuero Jusgo fez da palavra Bucellario» (179). Depois, o mesmo autor define assim bucelário: «soldado forte, generoso, destemido, que tinha a seu cargo a guarda do Príncipe, de quem era apaniguado, e de quem tinha o senhorio de algumas terras. ... Eram pois Bucellarios uns archeiros do Soberano, mui autorizados, e nobres, e os mesmos a que os Latinos chamaram Latrones, isto é, guarda do corpo de um Príncipe: quase Laterones; por andarem sempre ao seu lado, e terem prato da sua mesa» (180). Adiante diz «que na ínfima latinidade se disse Vassus, o soldado forte, e generoso. Daqui nasceu chamarem-se vassalos os homens de armas, em que consiste a fortaleza toda dos reinos e monarquias ... Até o tempo de el-rei D. Pedro I não costumava ser vassalo, senão o filho, neto, ou bisneto do fidalgo de linhagem. Desde el-rei D. Fernando até el-rei D. Manuel se ampliou o título de vassalos aos acontiados, e se veio limitar aos lanceiros; de sorte, que neste tempo se incluíam em o número de vassalos os oficiais mecânicos e lavradores, que se admitiram a este título com vários privilégios, e eram parte da milícia, que estava efectivamente alistada no reino» (181). No tomo VI, pág. 35 e seguintes, destas Memórias, ao tratarmos da família dos Bargançãos, mencionámos alguns deles que tinham o apelido Ladrão. A julgar pelo que atrás fica dito, pode entender-se esta palavra, não no sentido rapinante de latrones, mas sim no de laterones, por andarem ao lado do príncipe, se bem que nas Inquirições (182) bastas provas ficam do latrocínio destes e de outros fidalgos e poderosos. Talvez confirme o étimo de Baçal derivado de vassalo a circunstância de haver nesta povoação um local chamado Rua do Pacio (Rua do Palácio). É precisamente na casa mais central desta rua que nós nascemos e vivemos. Ver «Paçó» no artigo Onomástico. A este respeito diz Vilas Boas: «Em algumas casas e quintas se acha o nome de Paço, e se também é antigo, é demonstração grande da nobreza daquela casa, e família, porque se não permitia este nome senão a solares de

(179) VITERBO – Elucidário, artigo «Bucellario». (180) Ibidem. (181) VITERBO – Elucidário, artigo «Vassallo». Ver Memórias da Literatura Portuguesa, tomo I, p. 287. (182) Ver tomos III e IV destas Memórias, onde as publicamos.

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fidalgos grandes, como advertiu Félix Machado, marquês de Montebelo, nas notas que fez ao Nobiliário do Conde D. Pedro. Plana 62. E já a respeito dos Solares de Navarra o considerou Gutierres. Porque, como nas casas reais havia este nome, aqueles, que pelo sangue, pelo valimento, pelo poder, ou pelas riquezas mais se lhe chegavam e viviam de espíritos grandes e levantados, queriam que no seu povo, em sua quinta, ou a sua casa, fosse no seu tanto um remedo da do príncipe» (183). Paccio e Paccia aparecem em textos epigráficos romanos como nomes próprios de homem e mulher (184). Bagueixe (Bagueyxe, Bagrexi e Bagaixe nas Inquirições (185) tiradas pelos anos de 1258). Vem do árabe Bachoeixe, diminutivo de bochxon, que significa buraco, buraquinho. Deriva do verbo árabe bachaxa, furar, abrir buraco (186). Baldrez (Baldreas e Valdreses nas Inquirições (187) tiradas pelos anos de 1258). Arias baldereiz figura no documento 593 do ano de 1080 (188). O nome próprio Baldrigo (Baldrigus, ci, de onde Baldriz, Baldrez) é frequente nos documentos medievais. Barcel (Barcell e Barcer nas Inquirições (189) tiradas pelos anos de 1258). Virá de barceo, nome que em Espanha dão a uma gramínea, espécie de esparto, de que fazem esteiras, cordas e outros artefactos do mesmo género? Em terras de Miranda chamam-lhe barcego e dão-lhe a mesma aplicação (190). Ver o artigo Vila Chã de Braciosa. Belver. Diz o povo que este nome provém da bela situação em que se encontra esta povoação, com largas e lindas vistas. Realmente tem vastos horizontes, mas...

(183) SAMPAIO, António de Vilas Boas e – Nobiliarquia Portuguesa, p. 32. (184) Guia do Museu de Leão (Espanha), p. 30; CAGNAT, René – Cours d’Épigraphie Latine, 1898, p. 71. (185) Tomo III, p. 316, 334 e 352, e tomo IV, p. 343, destas Memórias. (186) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal. (187) Tomo III, p. 310, 315, 322, 344, 355, 357, 359, 361, 363, 365, 369, 370, 373 e 385, e tomo IV, p. 649, destas Memórias. (188) Portugaliae Monumenta Historica. Diplomata et Chartae. (189) Tomo IV, p. 22 e 29, destas Memórias. (190) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 72.

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Besteiros. Os documentos medievais dão o nome de besteiros aos soldados que pelejavam com besta, isto é, com aparelho especial de carácter militar destinado a lançar setas. Tiveram grande importância militar, como consta de vários documentos dados nos tomos III e IV destas Memórias. Estavam agrupados em diversas categorias e assim se denominavam: besteiros de garrucha, de bodoque, de pelouro, de polé, de câmara, de cavalo, de fraldilha, do mar, do monte, do conto, pousados, segundo a especialidade dos dardos usados ou das funções exercidas (191). Biduedo [Viduedo] (Bidoydo e Biduido nas Inquirições tiradas pelos anos de 1258 e num documento do ano de 1308 (192), Bidoedo no Prontuário das Terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). Vem de bedul, bedulo, nome que em Montesinho e outras terras do distrito de Bragança dão à planta bêtula (bétulus), que abunda na serra do dito povo e geralmente nos terrenos frios de outras serras. No termo de Carçãozinho (Bragança) há um sítio chamado Biduleiro e outro em Biduedo denominado Bidueiro. Modernamente têm dado em escrever Viduedo, certamente por trazerem a etimologia de vide (Viduedo, abundância de videiras); mas no terreno deste povo, por ser frio, não prospera a vinha, devendo, portanto, grafar-se com b e não com v. É certo, porém, que muitos nomes de povos tirados da flora vêm, não de serem abundantes na produção cujo nome adoptaram, mas sim da sua raridade; Assim: Castanheiro do Norte, Amendoeira, etc.; contudo, a proveniência contrária também conta muitos exemplos adicionados do sufixo edo para designar abundância, ao que no nosso Biduedo parece opor-se a índole agrícola do terreno. Boa, Boas. O adjectivo Boa, que entra no nome de muitas povoações, nem sempre significará terra fértil, boa, pois na documentação medieval inculca, algumas vezes, bens, tanto móveis como de raiz (193), e neste sentido terá ficado a algumas povoações. Bornes (Bornes nas Inquirições (194) tiradas pelos anos de 1258). Bornes de Monte Mé em alguns corógrafos. Deriva da palavra árabe Borni, espécie

(191) VITERBO – Elucidário, artigos «Besta» e «Besteiro». (192) Ver tomo III, p. 302 e 380, destas Memórias e VASCONCELOS, J. Leite de – De terra em terra, 1927, p. 31, onde se estuda filologicamente a etimologia de Biduedo. (193) VITERBO – Elucidário, artigo «Boas». (194) Tomo III, p. 60, 187 e 348, e tomo IV, p. 343, 369, 446, 534 e 536, destas Memórias.

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de falcão, mas mais ágil e forte do que o falcão ordinário. Também é possível que venha do espanhol Borne, espécie de codesso (planta), que entre nós terá dado o nome a Codeçais. Em espanhol também há Borni, espécie de falcão (195). Alguns corógrafos dão, como fica dito, a esta povoação o nome de Bornes de Monte Mé, por ficar na Serra de Bornes, também chamada Serra de Monte Mé. O adágio antigo – no monte de Monte Mé atiram os pastores com ouro ao gado e não sabem o que é – já registado no tomo II, p. 404, destas Memórias, vai modernamente sendo traduzido por: na Serra de Monte Mel há ouro e prata a granel. Mas esta fórmula é literária e não popular, sendo por isso falha de interesse etnográfico. Parece também que os minérios desta serra, como dissemos no tomo citado, p. 405 e segs., não justificam a formação do prolóquio, de resto aplicado a outras terras. Assim, em Mourão diz-se: «Cabeça Murada e Vale de Lubazi (196) munto ouro e prata fica em ti» (197). Pelo mesmo teor em Freixo de Espada à Cinta e Vilariça, a propósito da Fonte de Mé Nunes. Ver p. 494 e 155 do citado tomo. Nem sempre os apodos populares valem quanto soam, talvez porque ignoramos o motivo da sua formação, a ideia pejorativa, a ironia traduzida por alguns. De Cabeça Boa, concelho de Moncorvo, diz Baptista (198) «que por antítese lhe davam o nome de Boa, pois eu que por alli andei mais do que me convinha, nunca vi nada pior». A propósito diz Vasconcelos: «O descobrirem-se de vez em quando, com o arado ou a enxada, objectos antigos de ouro e moedas, mantem [no Alentejo] a crença em sonhos, que por aqui está muito arreigada, como não só agora verifiquei. Este sobrenaturalismo dos Alentejanos não se compara porém com o dos Beirões, que supõem encantadas as riquezas [em Trás-os-Montes é o mesmo], tornando-se preciso desencantá-las para as obter, e que não raro afirmam que as pedras com que os pastores em alguns outeiros atiram ao gado são verdadeiramente ouro» (199). A crença nos tesouros das montanhas e das mouras encantadas, tão firme no povo e ainda em alguns simplórios, vencidos da vida, que sempre atri-

(195) LEÃO, Duarte Nunes de – Origem da língua portuguesa; FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica, tomo III, p. 219 e 390. (196) Hoje diz-se Lobazim, mas no foral dado a Vilarinha da Castanheira por D. Dinis em 1287 grafaram Lobazi. Ver tomo IV, p. 187, destas Memórias. (197) Ver p. 486 do tomo IX destas Memórias. (198) BAPTISTA, João Maria – Corografia moderna do reino de Portugal, 1874. (199) VASCONCELOS, J. L. de, em O Arqueólogo Português, vol. XXIX, p. 237.

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buem o incremento das casas dos vizinhos, ao passo que as suas estagnam ou vão ao fundo, perdendo o dinamismo de seus ascendentes, ao encontro de dinheiros escondidos, sem olhar à competência, energia e economia daqueles, deve provir, em grande parte, dos escritores romanos, que largamente aludem às areias de ouro dos nossos rios e às riquezas minérias dos nossos montes (200). Na nossa Galiza, «muito rica em ouro», diz Justino (201), havia uma montanha sagrada repleta de ouro, mas não se podia explorar com aprestos de ferro, porque era sacrilégio. O horror ligado ao ferro como metal profano, impuro para actos cultuais, devido, certamente, a ser relativamente moderno (202), de onde o olhar-se de soslaio pelas religiões, essencialmente tradicionalistas, encontra-se também no cristianismo. Quando D. António Bento Martins Júnior, bispo de Bragança e agora (Março de 1935) arcebispo de Braga, fez, pelos anos de 1930, a visita pastoral aos arciprestados do Mogadouro e Miranda do Douro, ao ver entre a banqueta e o altar de certa igreja espetado um prego, embora nada destoante esteticamente, destinado a segurar as toalhas do altar, de onde escorregavam facilmente por ser estreito, atirou-se a ele, cheio de sagrada indignação, na ânsia de o arrancar, como sacrílega profanação, com as próprias mãos, sem auxílio de martelo ou turquês. Os párocos ficaram espantados, sem compreenderem o alcance de tanta veemência, apesar de conhecerem a disposição litúrgica, que supunham não merecer tantas mostras de zelo e de conhecerem também as aparências mansas do prelado. Na verdade há cólera serena sob aparências brandas dificílima de avaliar; mas o caso agora proviria do metal duplamente impuro, tanto para pagãos como para cristãos. Bouça (Bouça de Nuno num documento de 1640 (203). Bouça de Nunes na «Estatística Paroquial» [1839-1840] e noutros). O toponímico Bouça é frequente nos documentos medievais (204) para indicar bosques, matas (bauzas), a par de amexinales, sautus roveria et omnis generis pomiferes (205). Bus-

(200) Ver VASCONCELOS, J. L. de – Religiões da Lusitânia, vol. II, p. 24, 104 e 106. (201) JUSTINO – Epithome Historiarum, XLIV. (202) VASCONCELOS, J. L. de – Religiões…, vol. II, p. 106. (203) Tomo IV, p. 481, destas Memórias. (204) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae. (205) Ver os artigos «Meixedo» e «Soutelo»; VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 335; LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Bouça do Nunes»; FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica, tomo III, p. 439; «Sementeiras de bouças», diz um documento de 1438, p. 167, que publicamos no tomo III destas Memórias.

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telo e bauzas eram, diz Sampaio, parcelas de terreno destinadas à produção de mato, semeado ou espontâneo, tanto para pastagem como para cama de animais. Bouza é ainda termo usual na forma bouça, por intermédio de bouza (Inquirições, p. 301 e 332 (206)). Ver artigo Chousa. Bragança (Vargancia no século IX (207); Bregança em documentos dos séculos X, XII e XIV (208); Bragancia, Blagancia e Braganseaa nas Inquirições pelos anos de 1258 (209); Bragança, Bragamça e Braguamça em vários documentos entre 1500 e 1534 (210); Bargança nos séculos XVI e XVII (211); Bargança, Vergança e Bregança também nos mesmos séculos XVI e XVII (212)). Acerca da etimologia de Bragança nada se sabe; supõe-se que a sua forma na época luso-romana seria Brigantia, palavra céltica, segundo alguns (213). Ver tomo I, p. 1 a 10, 15 a 19 e 45, destas Memórias. O adjectivo geográfico de Bragança pode ser Braganção ou Bragançano (214). As Inquirições (215) tiradas pelos anos de 1258, como escreviam Bragancia, fazem Braganciano, e no Livro de Linhagens encontra-se Barganção (216). Brito. Nome próprio de homem, ainda hoje usado tanto para nome como apelido (217). Brunheda, por abrunheda, terra abundante em abrunhos (218). O abrunheiro é uma espécie de espinheiro bravo, mas também em algumas terras bragançanas dão o nome de abrunhos a uns ameixos redondos, mais pequenos que a ameixa vulgar.

(206) SAMPAIO, Alberto, Portugália, tomo I, fasc. 1. (207) Tomo I, p. 45, destas Memórias. (208) Ibidem, e tomo III, p. 7, 265 e 274. (209) Ibidem, e tomo III, p. 107, 305, 309, 312 e 316. (210) Tomo I, p. 45. (211) Ibidem. (212) Tomo VIII, p. 18, destas Memórias. Convém também notar que em muitas obras do século XVII perdura constante a grafia Bargança. Conf. CARDOSO, Jorge – O Hagiológio Lusitano, v. g. ao dia 7 de Maio; SANTA MARIA, Francisco de – O Céu aberto na terra – História das Sagradas Congregações dos Cónegos Seculares de S. Jorge e de S. João Evangelista, 1697. (213) VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. III, p. 57, e Religiões da Lusitânia, vol. II, p. 42. (214) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 36. (215) Tomo VI, p. 27, 28, 31, 32, 33, 61 e 74, destas Memórias. (216) Ibidem, tomo VI, p. 35. (217) AZEVEDO, Pedro A. de, O Arqueólogo Português, vol. VII, p. 79. (218) Conf. Revista Lusitana, II-370.

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Cabanelas (= Cabana + elas). Quer dizer: pequenas cabanas. O toponímico Cabana é frequentíssimo no distrito de Bragança, bem como o sufixo diminutivo elo, ela junto a esta e outras palavras, como Covelas (cova + elas), Soutelo (souto + elo), Paradela (parada + ela). A par deste diminutivo aparece-nos também outro em ó, ô, ol e ola, como Mosteiró, Grijó (de igrejola), Eirol, Eiró, bairro de Vinhais (de eira) e Eirol. Noutra parte dizemos dos aumentativos edo, eda, oso, osa, que se juntaram a muitos geográficos, como Alvaredos, Aveleda, Carrapatosa, etc. Cabeça Boa (Capite bona nas Inquirições (219) tiradas pelos anos de 1258). Ver o artigo Cabeça de Mouro. Cabeça de Igreja (220). Ver a rubrica Cabeça de Mouro. Cabeça de Mouro. Etimologia popular. Ver o artigo Cabeça de Mouro, p. 140 do tomo IX destas Memórias. Aqui, como em Cabeça Boa, Cabeça de Igreja e nos mais, cabeça está por cabeço, outeiro, elevação e montanha. Tanto um como outro entram no nome de mais de vinte povoações portuguesas cada e numa infinidade de sítios de termos. Também, em alguns casos, é possível que cabeça provenha das condições administrativas da propriedade e corresponda ao que hoje dizemos cabeça-de-casal e antigamente cabeça da mata, cabeçada, encabeçada, cabecel (221), ou seja ao indivíduo que responde por toda a propriedade, foros e conservação dela, embora ande dividida por vários caseiros. Ver o artigo Vilas Boas. Caçarelhos. Já aparece assim grafado num documento de 1528 (222), e por este teor muitos outros documentos desta época; mas Ribeiro de Meireles escreve Cazarelhos (223) e Cassarelhos, Carvalho da Costa (224). O toponímico Casarelhos, equivalente a pequenas casas, pardieiros, casas em ruínas, aparece no distrito de Bragança (225) aplicado a restos de civiliza-

(219) Tomo III, p. 311 e 316, destas Memórias. (220) Ibidem, tomo IV, p. 340. (221) Ver estes artigos em VITERBO – Elucidário. (222) Livro IV dos Contratos de D. João III, fól. 74, existente na Torre do Tombo (223) MEIRELES, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal, 1689, p. 539, manuscrito da Torre do Tombo. (224) COSTA, Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo I, p. 482. (225) Ver «Casarelhos», no artigo «Toponímia», e também «Cova da Lua», p. 186 do tomo IX destas Memórias.

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ções antigas. Daqui viria o nome ao povo, derivado, possivelmente, dos vestígios arcaicos existentes no seu termo (226). Segundo a etimologia popular, Caçarelhos deriva de um grito de revolta dos moradores contra as autoridades administrativas de Miranda do Douro, que lhe exigiam a caça de um certo número de coelhos, ao que eles ripostavam: que los van caçar elhos; de onde Caçarelhos. No Tombo dos bens da comenda de Algoso feito em 1684 (227), fólio 616 v., e outros é constante a grafia Casarelhos, e como é feito in loco, à face de louvados e testemunhas, pelo escrivão do Tombo, há fortes razões para presumir que assim o ouvia pronunciar. Calvelhe (Calvilhy e Calvili nas Inquirições tiradas pelos anos de 1258 (228)). É nome próprio de homem, usado no século XIII. Calvelao, outra variante diz Calveloo, serve de testemunha em 1220 (229); Calvelino, testemunha em 1258 (230). Candedo (Candaedo nas Inquirições (231)). Como Candiedo é um dos epítetos de Júpiter (232), e do culto deste deus resta tanta documentação no distrito de Bragança (233), pode supor-se que dele viesse Candedo; mas é tão frequente este toponímico como sítio de termo e nome de povoação, que a conjectura se torna pouco provável. A oração seguinte, usada em terras de Vinhais pelas raparigas para obterem bom casamento, parece justificar a hipótese: «Cando, Candedo, Canda, Candinha, sande meu padre e minha madrinha. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria» (234). Provirá de Candial, variedade de trigo, de farinha muito branca, cujo nome deriva, provavelmente, da ilha de Cândia ou Creta, no Mediterrâneo, de onde suponho ser oriunda essa variedade cerealífera? Neste caso, equivaleria a terra que produz ou é fértil em trigo, assim como se deu a outras os

(226) Ver os artigos «Caçarelhos», «Castros» e «Pré-história» (lista dos castros), no tomo IX destas Memórias. VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 72. (227) Ver p. 598 do tomo IX destas Memórias, onde o descrevemos. (228) Tomo III, p. 330 e 350, destas Memórias. (229) Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, p. 132, col. 1.a (230) Ibidem, p. 562, coluna 1.a (231) Tomo IV, p. 42, destas Memórias. (232) VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. VIII, p. 156; idem, Religiões da Lusitânia, vol. II, p. 342. (233) Ver p. 34 e 50 do tomo IX destas Memórias. (234) MARTINS, Firmino A., Padre – Folclore do concelho de Vinhais, p. 13.

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nomes de Trigueiriças e Centeeiras, segundo a especialidade produtiva. Em espanhol dão o nome de candeal ao trigo de farinha mui branca e de superior qualidade (235). Parece mais provável que venha de candeia, no significado de luz, lume, e equivalerá então aos fachos e velas, tão frequentes na nossa toponímia. Candeiedo, de onde Candedo, significaria ponto onde havia vários fachos perto uns dos outros, exigidos pelas condições tácticas do terreno. Também, como em algumas terras, se usava e ainda se usa, em vez de candeia, alumiar os serões à noite nas cozinhas com uma planta chamada gamão, espécie de abrótea, e ainda com hastes de urze, que ficaram nos queimados depois de muito secas e embranquecidas pelo tempo, poderá entender-se que da abundância destas plantas veio o nome à terra. Pode também vir do espanhol candela (de onde candeledo), que, além de vela para alumiar e lume, significa ainda a flor do castanheiro (236), e então indicará terra de castanheiros ou onde eles abundam ou abundaram. Caravela, Caravelas. Não parece que estes nomes aplicados às povoações do distrito de Bragança, tão distanciadas do mar, derive dos barcos da navegação conhecidos por este nome, antes provirá dos toponímicos Carva, Carvas, tão frequentemente correntes para designar pequenas matas de carvalheiras entremeadas de pascigueiros. No termo de Bruçó, concelho do Mogadouro, há um sítio chamado Carvelas e outro denominado Carvelinhas. Já se vai perdendo a significação do toponímico Carva e Carvas em terras bragançanas, mas a algumas pessoas velhas ouvimos dar-lhe a indicada acima. Carção. Virá de Garçom, moço, mancebo. No Código Afonsino, livro 1, título 3.°, § 17, toma-se «Garçom por mancebo deshonesto e lascivo» (237). A conversão do g em c é frequente na evolução do português. Carocedo. Poderá vir de caroço com o sufixo edo, para indicar abundância de frutas de caroço, pomar de caroço, como ameixas, maçãs, avelãs, etc., e assim se ligaria com Meixedo, Cerdedo, Cerejais, Aveleda, etc., aldeias do distrito de Bragança.

(235) Dicionário Enciclopédico Ilustrado, 1931. (236) Ibidem. (237) VITERBO – Elucidário, artigo «Garçom».

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Também o povo bragançano dá o nome de caroços aos nabos, melões e ainda a outros frutos de idêntica configuração, quando são ruins e não atingiram a grandeza que deviam tomar, de onde carocedo, para indicar a sua abundância. O mesmo povo chama igualmente caroços a certos tumores ou excrescências, como cirros, lobinhos, etc. Depois, por analogia, pode aplicar-se a cabeços, montes arredondados e mesmo fragueiros de idêntica conformação, coisa bem cabida a Carocedo, que está situado no cume de uma montanha abundante em rochedos esferoidais. É curiosa a seguinte etimologia popular: diz ela que antigamente se chamava vila do Caroço e que, achando-se em Bragança o duque D. João no tempo da aparição da Senhora da Assunção, padroeira de Carocedo (encontrada no côncavo de uma fraga, que hoje está arrimada ao adro da igreja), a foi visitar, levantando-se cedo para se livrar do calor. Chegado ao sítio, cansado do caminho, demasiado agreste, disse para a duquesa: «Isto é caro cedo», aludindo à beleza panorâmica, à fadiga da viagem e à privação do sono matutino; de onde veio Carocedo (238). Caroceiras. Coroça, Carrossa, Croça, Oça significa o báculo do bispo e ainda benefício eclesiástico provido em condições simoníacas (239); mas no nosso caso, dada a pequena importância da povoação indicada pelo nome e a sua situação à margem de um ribeiro, deriva provavelmente do junco com que em algumas terras do distrito de Bragança se fabricam capas de palha, chamadas «caroças», ainda hoje muito usadas em tempo de chuva, por serem leves e resguardarem bem da água. Nem todo o junco serve para fabrico das caroças, mas somente um chamado «junça», que nasce em certos lameiros pantanosos, e outro produzido nas carriceiras dos rios. Viria destas aquele nome? A vestimenta eclesiástica chamada capa de asperges, ou pluvial, também nos documentos antigos aparece com a designação de croça (240). Virá daqui, por analogia, o nome às capas de palha, que, à semelhança dos pluviais, servem para resguardo da água? Ver a rubrica Carriço. Carragosa (Carregoso, Carregosa pelos anos de 1258 (241)). Vem de carrasco (quercus ilex), carrascosa, carrasquedo, sufixos edo e osa, para indicar

(238) Memórias Paroquiais de 1758, «O Arq. Português», vol. III, p. 152. (239) Ver estes artigos em VITERBO – Elucidário. (240) VITERBO – Elucidário, artigo «Coroça», que cita um documento do século XIV. (241) Tomo III, p. 309, 310, 318, 321, 398 e 404, destas Memórias. VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia…, vol. I, p. 72.

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abundância, ou seja terra onde os carrascos abundam ou abundaram. A mesma proveniência tem Carrazeda de Ansiães e Carrazedo. Carrapatas. Do zoológico carrapato ou do botânico carrapateiro (planta) e carrapato, variedade de feijão, deve ter derivado o nome desta povoação. O toponímico Carrapato e derivados abunda no distrito de Bragança e dele tomaram o nome muitas povoações portuguesas. Só no nosso distrito há: Carrapata, Carrapatas, Carrapatinha e Carrapatosa. Carrazeda de Ansiães. Ver p. 113 do tomo IX destas Memórias, e, a propósito de Carrazeda, a rubrica Carragosa. Carrazedo (Carrazedo nas Inquirições (242) tiradas pelos anos de 1258). Ver o artigo Carragosa. Carriço. Virá da ave chamada carriça ou da bem conhecida planta ciperácea chamada junça. Ver o artigo Caroceiras. Carvalho de Egas. Egas é nome próprio, sempre usado desde a Alta Idade Média até hoje. Um indivíduo de nome Egas serve de testemunha num documento do ano de 955 (243). Carviçais. Virá de Carva, Carvoíça, Carvoal, toponímicos do distrito de Bragança, indicativos de terra de carvalhos. Ferreira diz que Carviçais está por Carvijais e que vem de carvajais, carvalhais (244). Casares. Está por casais. Os senhorios e povoadores das terras dividiamnas pelos colonos para os atraírem a fixar-se nelas, segundo vemos pelos forais e outros documentos publicados nos tomos III e IV destas Memórias. Estas glebas tinham os nomes de casais, quinhões, quintas e sortes, que ainda hoje perseveram em algumas povoações do distrito de Bragança) como esta de que tratamos, Quintanilha (= pequena quinta), Quintela de Lampaças (=

(242) Tomo III, p. 325 e 383, destas Memórias. (243) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 69. (244) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo I, p. 556.

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pequena quinta), Quintela de Vinhais, Sortes e em muitos toponímicos adiante apontados no respectivo artigo. Casario. Casario pode indicar um aglomerado de casas, como ainda hoje se diz, e ainda provir de casarias, que significa: «direito real, a que chamaram direito de cabeça, censo fiscal; jugada, fossadeira, herdade. Era propriamente o Jus habitandi» (245). Castanheira (Castineyra nas Inquirições (246) tiradas pelos anos de 1258). O mesmo se aplica a Castanheiro. Ver o artigo Maçãs. Castedo. Vem do espanhol castanhedo (247), por intermédio do latim castanetum, correspondendo, portanto, a terra de castanheiros. Também pode ser contracção de Casa Tedo = Casa de Tedo. Tedon, nome próprio de homem, é frequente nos documentos medievais (248). Cas, síncope de casa, é ainda corrente hoje no espanhol popular, como apontam os dicionários. Nos Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, aparece o nome próprio Tedon nos seguintes documentos: 38, ano 933; 265, ano 1028; 292, ano 1036; 357, ano 1047; 361, ano 1047; 381, ano 1052; 405, ano 1057; 408, ano 1058; 557, ano 1078; 634, ano 1085; 817, ano 1055. Castrelos (Crestelos num documento do século XVII (249)). Vem de castro, a que já se juntou o sufixo elo, que é diminutivo. Equivale a pequeno castro. Ver o artigo Castrelos no tomo IX, p. 157 destas Memórias. Castro Roupal (Castro Roupal, Crasto Roupal nas Inquirições (250) tiradas pelos anos de 1258). Vem do nome próprio Raupario, que na documentação medieva aparece com as seguintes variações: Rauparez e frater nostro raupeiro (251),

(245) VITERBO – Elucidário, artigo «Casarias». (246) Tomo III, p. 54, 62, 79 e 358, destas Memórias. (247) FERREIRA , Pedro Augusto – Tentativa…, tomo I, p. 352, e tomo II, p. 72. A propósito da abundância ou raridade das espécies vegetais que deram o nome às terras, ver o artigo Biduedo [Viduedo]. (248) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia…, vol. I, p. 446. Idem, O Arqueólogo Português, vol. XXIX, p. 198. (249) M EIRELES , Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal, 1689, ms. da Torre do Tombo. (250) Tomo III, p. 316, 334, 351 e 372, e tomo IV, p. 534 e 536, destas Memórias. (251) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 400, ano 1058.

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Raupariz (252), Rauparizi (253), Raupario (254), Rauparius (255), Raupeiro (256), Rauperio (257) e Raupirio (258), assinam como testemunhas ou confirmantes nos documentos abaixo citados em notas. Para a etimologia popular, ver Vila Franca no artigo Toponímia, p. 462 do tomo IX destas Memórias. Celas (Celas e Cellas nas Inquirições (259)). A propósito desta palavra diz Pinho Leal: «Antigamente resolvia qualquer mulher emparedar-se, fazia um casebre, metia-se nele e aí vivia. Ás vezes eram mais de uma as que na mesma casinha se encerravam. É por isso que em Portugal ha duzentas e sessenta aldeias com o nome de Cella e dezanove chamadas Cellas, isto segundo eram muitas ou uma em uma só as encerradas» (260). Ver o artigo Selas. Centrilha (Sentrilha no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo, e nas Memórias de Ansiães. Centrilha na Corografia do Padre Carvalho da Costa e Santrinha nos corógrafos modernos). Virá do nome próprio de mulher, que aparece com estas variações: Sontrili, mulher vendedora (261); Sontrilli, mulher (262). Cércio (Cerceo nas Inquirições (263) e Cérceno como pronunciam os mirandeses). Vem talvez de Sérgio, nome de um santo, diz Ferreira (264). Vasconcelos entende que vem de quercus, através das formas quercinus, kercinu, cércino, cérceno (265), indicando, portanto, terra de carvalhos.

(252) Ibidem, doc. 315, ano 1041; doc. 321, ano 1043; doc. 474, ano 1068. CORTESÃO, A., em O Arqueólogo Português, aponta o apelido Rauppariz, que figura no diploma 304 dos Documentos do Mosteiro de Pendurada, ano 1070. (253) Ibidem, doc. 381, ano 1052 (254) Ibidem, doc. 276, ano 1032; doc. 316, ano 1041. (255) Ibidem, doc. 366, ano 1048; doc. 400, ano 1051; doc. 871, ano 1098. (256) Documentos do Mosteiro da Graça, diploma 251, ano 1058. (257) Portugaliae Monumenta Historica, doc. 625, ano 1084, doc. 706, ano 1088. (258) CORTESÃO, A., em O Arqueólogo Português, diploma 137, ano 1013. (259) Tomo III, p. 317 e 393, destas Memórias. (260) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Cellas». (261) Portugaliae…, Diplomata et Chartae, doc. 611, ano 1082. (262) Ibidem, doc. 459, ano 1067. (263) Tomo IV, p. 13, 14, 346, 347, 447 e 517, destas Memórias. (264) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. II, p. 22. (265) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 74.

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Cerdedo, Cerejais (Serdedo no Prontuário das terras de Portugal, já por vezes citado). Cerdeiro com o sufixo edo (Cerdeiredo), para indicar abundância de cerdeiras, deve ter dado Cerdedo. Ceresales et ameiselanes et avellanales (266), ou seja matas de cerdeiros, ameixieiras e aveleiras. Ceresales (267), Cersales (268) e Cersares (269). Cernadela (Cernadela nas Inquirições (270) tiradas pelos anos de 1285). Deriva de serna, que nos documentos medievais aparece para significar herdade que se semeia e tributo que se paga por ela ser cultivada (271). Temos pois que Cernadela é um diminutivo, vindo a significar um pequeno campo cultivado. Chacim (Chasin, Chasim nas Inquirições (272) de 1258). Chacim é uma palavra arcaica, que significa porco, quer doméstico, quer montês (273). Temos pois que o nome desta vila corresponde ao das povoações Vale da Porca e Vale de Porco e a tantos outros toponímicos, adiante mencionados no artigo respectivo. No tomo VI, p. 39 e seguintes, destas Memórias mencionamos um ramo da família barganção que usou o apelido Chacim, e na p. 726 outro ainda hoje chamado Leitão, equivalente daquele. Ver no artigo Chacim, p. 183 do tomo IX destas Memórias, o étimo popular. Chãos. É frequente este toponímico e corresponde a terrenos planos de veiga ou de planalto. Em Aveleda e noutras terras bragançanas ainda hoje dão o nome de chãos às leiras de regadio que produzem horta e linho. Chão também é medida agrária, correspondente a sessenta palmos de comprimento por trinta de largura (274). Também na documentação medieval aparece a expressão lugar chão, para indicar que não era acastelado defendido por fortificações militares. Chelas. Na sessão da Academia das Ciências de 12 de Junho de 1913 e seguintes levantou-se grande discussão a propósito da palavra Chela, em que entraram os mais distintos filólogos portugueses. Nos documentos

(266) Portugaliae Monumenta Historica, Dipl. et Chartae, doc. 175, ano 995. (267) Ibidem, doc. 208, ano 1030. (268) Ibidem, doc. 268, ano 1030; doc. 534, ano 1076; doc. 544, ano 1077. (269) Ibidem, doc. 221, ano 1013. (270) Tomo IV, p. 26, 27, 34, 35, 36, 257, 268 e 448, destas Memórias. (271) VITERBO – Elucidário, artigo «Serna». (272) Tomo III, p. 18, 366 e 367, e tomo IV, p. 260, 324, 368, 370, 446, 535 e 627, destas Memórias. (273) VITERBO – Elucidário, artigo «Chacim». (274) VITERBO – Elucidário, artigo «Chão».

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medievais aparece chela significando novelo de seda (275), e depois, até nossos dias, na linguagem comercial indo-portuguesa, tecido de seda ou de algodão de tecitura e tintura especial e mesmo qualquer roupa, como se vê de Diogo do Couto (276). O académico José Joaquim Nunes lembrou que chelas viria do latim planella, e o mesmo fez depois Leite de Vasconcelos (277). Embora exista na linguagem indo-europeia a palavra chela significando tecido ou qualquer roupa, é mais natural que o nome Chelas da povoação bragançana provenha dos toponímicos chã, chana, chanela, chaela, etc., frequentemente usados, como adiante se mostra no artigo Toponímia. Chousa (quinta dos Cerejais). Chousa ou Chouso é «uma fazendinha, ou pequeno espaço de terra tapado sobre si» (278). Em algumas terras chamam a estas fazendinhas, «que mais servem para pastagens de gados, que para terra de pão e outros frutos», chousal, chavascal e, no Minho, bouças (279). Cicouro. (Cycorjo [= Cicorio], Cicoiro e Cicoyro (280), Sicouro (281)). O Doutor J. Leite de Vasconcelos (282) não acha claro o étimo de Cicouro; Ferreira sente a mesma obscuridade, mas lembra que pode vir de Sequeiro ou Siqueiro, terra seca, terra de escadal ou scadal, como se diz em terras bragançanas, que sem violência pode dar Sequeiro ou Secouro, visto as formas ei e ou muitas vezes se confundirem. Cf. apeadeiro ou apeadouro, picadeiro e picadouro e outras (283). Cobro (Colubro nas Inquirições (284) tiradas pelos anos de 1258). Chama-se cobro ao foro de certa porção de carne de porco paga pelos reguengueiros ao senhorio. Entende-se que esta carne fica entre os presuntos e a cabeça do porco, ou seja o pescoço ou caluga (285). (275) DU CANGE – Glossarium Mediae et Infimae Latinitatis…, tomo I, p. 802. (276) COUTO, Diogo do – Diálogo do soldado prático, edição da Academia, p. 122. (277) O Arqueólogo Português, vol. XXII, p. 36, em nota. (278) Ibidem, artigo «Chousa», onde transcreve, para confirmação, o texto de um documento de Moncorvo do ano de 1407. (279) Ibidem, artigo «Chousal». FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica, vol. II, p. 293. (280) Arquivo Nacional da Torre do Tombo, livro dos Contratos de D. João III, 1528, e Tombo da comarca de Trás-os-Montes, da mesma época. (281) MEIRELES, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal. COSTA, António Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706. (282) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 76. (283) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica…, vol. II, p. 18. (284) Tomo III, p. 337 e 338, destas Memórias. (285) VITERBO – Elucidário, artigos «Cobro», «Calaça» e «Morteiro».

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Ferreira diz que «cobro e cobrosa são formas arcaicas de sobro e sobrosa» (286), indicando portanto terra de sobreiros. Codessaes nas Memórias de Ansiães, Codessais [Codeçais] nos modernos. Vem de codesco, codesso, planta arbustiva. Coelhoso (Coeloso nas Inquirições (287) tiradas pelos anos de 1258). Vem de coelho + oso: terra abundante em coelhos. É frequente na documentação medieval a menção do coelho, quer como peça fina e estimada de caça, quer como termo de comparação, quanto à pele, pelo seu pouco ou mesmo nenhum valor. O foral de Bragança, dado em 1187, impõe a cada vizinho (fogo) a multa de duas peles de coelho, se matarem o meirinho (288). O documento 618 (289) menciona uma venda no preço da qual entra uma pele de coelho. Assim, não admira que o coelho desse o nome a muitos sítios de termo e povoados. Comunhas (Comunhas nas Inquirições (290) de 1258). Virá de Comuna ou Comunha dos judeus, nomes mui frequentes nos documentos, segundo observa João Pedro Ribeiro (291), para indicar coisa tocante à comunidade dos judeus? As duas sinagogas de Bragança e Moncorvo, que houve em terras bragançanas (292), dão visos de provável a esta conjectura. Todavia, parece que virá antes de encomunhas, que significa foros e rendas pagos dos bens de raiz ou semoventes (293). Conlelas (Colnellas e ColmeIas nos documentos antigos). No Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691 é constante a grafia Colnellas e apenas uma vez Conlellas; igual grafia se encontra nas Inquirições (294) feitas no século XIII. Constantim, Constantino pelos anos de 1211 (295) e Costantym pelos de 1258 (296). Deriva do genitivo do nome próprio Constantinus, i, e significa (286) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica, vol. III, p. 266. (287) Tomo III, p. 87, 314, 327, 340 e 342, e tomo IV, p. 343 e 349, destas Memórias. (288) Ver tomo III, p. 108, destas Memórias, onde o publicámos integralmente. (289) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 618, ano 1083. (290) Tomo III, p. 333, destas Memórias. (291) Nota ao artigo «Cinuna», de VITERBO – Elucidário. (292) Ver tomo V, p. XLV e seg., destas Memórias. (293) VITERBO – Elucidário, artigo «Encomunhas». (294) Tomo III, p. 322 e 389, e tomo IV, p. 335, 534 e 536, destas Memórias. (295) Torre do Tombo, livro 2 das Doações de D. Afonso III, fól. 15. (296) Tomo IV, p. 11, 14 a 17, 55, 157, 346, 532 e 642, destas Memórias.

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terra, herdade, quinta, sorte, etc., de um Constantino que, por esta ou outra circunstância, deu o nome à povoação (297). Contim, Contins, Contense (rio que desagua no Sabor, em Gimonde). Virão de Gontinus, is, pela fácil conversão do g em c, muito frequente na nossa documentação medieva. Gontina, como nome de mulher, aparece num documento do ano de 1199, citado por Viterbo (298). É para notar a circunstância destes nomes se aplicarem a rios ou a povoações situadas nas suas margens; e como em Gimonde ou imediações devia ficar a estação de Complêutica da estrada romana (299), lembro não haja qualquer ligação entre esta e aqueles. Couços. Em árabe Cauçon, que significa arco. Deriva-se do verbo Caça, estender o arco (300). Cova de Lua (Cova de Luna nas Inquirições (301) tiradas pelos anos de 1258, e Cova da Lua no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). O toponímico cova, covela, covelas (pequenas covas – sufixo elo diminutivo), é frequentíssimo. Ver o artigo Cova de Lua, p. 186 do tomo IX destas Memórias. Curujas (302) ou Corujas, como escrevem modernamente. O povo bragançano ainda hoje emprega as frases: cucãina (terra onde canta ou habita o cuco), corujeira (idem da coruja), para indicar terrenos de pouco valor, falhos de qualidades produtivas. Significam ainda o mesmo conceito dizendo: é terra onde canta o pernil. Viterbo (303) mostra, com um texto tirado da Crónica de D. João I, que corujeira é «pardieiro, povoação vil, sítio penhascoso, e só próprio para criar corujas». O toponímico corujas e corujeira é frequente, e em Vinhais há um bairro chamado da Corujeira. Deilão (Deylam, Deilam, Deylan pelos anos de 1258 (304)). Vasconcelos lembra que talvez o étimo de Deilão esteja no nome latino Dellius, que apa-

(297) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia…, vol. I, p. 76. (298) VITERBO – Elucidário, artigo «Deo-Vota», p. 259, da edição de 1865. (299) Ver p. 196 do tomo IX destas Memórias. (300) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal, 1789. (301) Tomo III, p. 318, destas Memórias. (302) Tomo III, p. 87, e tomo IV, p. 193, 343 e 510, destas Memórias. (303) VITERBO – Elucidário, artigo «Curugeira». Cf. CARVALHO, Amadeu Ferraz de, em O Instituto, 1934, p. 434. (304) Tomo III, p. 344, 387, 396, 402 e 407, destas Memórias.

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rece na epigrafia ibérica, com o sufixo anus (Dellianus) para indicar propriedade (fundus), de Dellio (305). Dine (Digne nas Inquirições (306) tiradas pelos anos de 1258). Dino foi testemunha no documento abaixo citado (307). Dinea é nome romano de mulher, e uma assim chamada foi sogra de Statius Oppianicus, célebre criminoso, que a matou, envenenando-a, bem como aos próprios filhos e cunhado. Da mesma forma matou sua primeira mulher, uma cunhada, um seu primo e várias outras pessoas, para lhe herdar os bens. A acusação deste malvado por Cícero é uma das peças notáveis do famoso orador. Donai (Donay nas Inquirições (308) do ano de 1258). Nos séculos X e XI aparecem os nomes próprios Donaili, mulher (309), Donan (310), Donnani (311), Donuane (312) e Donaniz (313), que serviram de testemunhas ou confirmantes nos documentos citados nas notas. Também vejo nos jornais que a 17 de Fevereiro de 1930 recebeu o Papa em audiência particular a Mgr. Donais, bispo de Beauvais (314). No Museu de Leão (Espanha) há uma lápide votiva dedicada ao deus indígena Vago Donnaego, encontrada em Milla del Rio, perto de Astorga. Eiras, Eiró. É frequente na toponímia bragançana o termo Eira, Eiras, Eiró e derivados, o que não admira, por ser essencialmente cerealífera a região e nas eiras se fazer a debulha e outras operações indispensáveis à cultura. Também se pode entender que algo mais se radicaria o termo por se relacionar com eirádega, eirádiga ou eirádego, pensão em frutos, paga nas eiras ao senhorio da terra (315), também vigente no distrito de Bra-

(305) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. II, p. 49, em nota. (306) Tomo III, p. 318, 384, 495 e 411, destas Memórias. (307) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 384, ano 1038. (308) Tomo III, p. 69, 87, 318 e 323, e tomo IV, p. 335, destas Memórias. (309) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 563, ano 1078. CORTESÃO, A., em O Arqueólogo Português, tomo X, p. 54, cita outra Donaili, que figura no diploma 341, dos Documentos do Mosteiro de Pedroso. (310) Portugaliae Monumenta Historica, doc. 167, ano 993; doc. 191, ano 1002; doc. 237, ano 1018; doc. 411, ano 1058. (311) Ibidem, doc. 28, ano 924. (312) Ibidem, doc. 156, ano 989. (313) Ibidem, doc. 195, ano 1006; doc. 298, ano 1038; doc. 305, ano 1039; doc. 396, ano 1055. (314) A Palavra de 26-2-1930. (315) VITERBO – Elucidário, artigo «Areática».

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gança (316). Quanto a Eiró ver o artigo Cabanelas, pois não parece provável que este nome venha do peixe chamado Eiró. Ervedosa. Tem larga menção na documentação antiga esta povoação (317), que deve o nome à circunstância de ser abundante em ervas e pastagens. Espadanedo (Sapadanedo nas Inquirições (318) pelos anos de 1258). Deriva da planta vulgarmente chamada espadana, acrescida do sufixo edo, para indicar abundância, vindo pois a significar terra onde há muita espadana. Um documento do ano de 1085 menciona o geográfico agro spadamuito (319). A espadana é vulgar na flora portuguesa e acha-se representada por muitas variedades, entre as quais a Iris xiphium, o Gladiolus regetum (espadana das searas), o Gladiolus illyricus (espadana dos montes) e pelo género Sparganium, que compreende várias espécies, todas caracterizadas pela folhagem alongada em forma de espada. No artigo Espadanedo, pág. 191 do tomo IX destas Memórias, dizemos da etimologia popular desta povoação. Especiosa. Virá do latim speciosa, bela, bem situada, fértil, ou será, como julgamos mais provável, o nome de uma mulher que, à semelhança de tantas outras e outros, deu o nome à terra? Spetiosa, nome de mulher, aparece na documentação medieval (320), Speciosa (321). Faílde (Faildy e Failli em 1221 (322)). Vem do nome próprio Fagildus, i, usado nos séculos X e XI. Facildiz (323), Fagildus (324), Fagildizi (325), Fagildo (326) e

(316) Tomo IV, p. 168 e 183, destas Memórias e noutras partes da mesma obra. (317) Ver tomo III, p. 18, 66, 73, 79 e 86, e tomo IV, p. 193, 194, 343, 402, 445, 463 e 627, destas Memórias. (318) Tomo III, p. 87, 317, 329 e 382, destas Memórias. (319) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 639, ano 1085. (320) Ibidem, documentos 105 e 634. (321) Ibidem, doc. 468, ano 1068; doc. 595, ano 1081; doc. 817, ano 1095. (322) Tomo III, p. 51, 58 e 332, destas Memórias (323) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 910, ano 1099. (324) Ibidem, doc. 57, ano 946; doc. 81, ano 960; doc. 82, ano 961; doc. 102, ano 986; doc. 138, ano 983; doc. 182, ano 999; doc. 221, ano 1013; doc. 251, ano 1022. (325) Ibidem, doc. 279, ano 1033. (326) Portugaliae Monumenta Historica, documento 14, ano 907; doc. 88, ano 964; doc. 116, ano 976; doc. 119, ano 976; doc. 168, ano 994; doc. 212, ano 1009; doc. 270, ano 1031; doc. 291, ano 1036; doc. 326, ano 1043; doc. 374, ano 1050; doc. 386, ano 1053; doc. 910, ano 1099; doc. 952 (não indica o ano).

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Fagildu (327) vendem, confirmam ou servem de testemunhas nos documentos abaixo citados em notas. Felgar, Felgares, Felgueira, Felgueiras e Falgueiras. Vem da planta chamada feto, que, como adiante apontamos no artigo Toponímia, varia muito no nome. Os nossos dicionaristas dão o nome de Felga ao torrão desfeito, bem como à raiz que fica fora da terra, e o de Felgueira a uma espécie de fetos e ainda ao lugar onde nascem muitos fetos. Viterbo (328) transcreve o texto de um documento do ano de 914, onde a palavra Felgarias designa fetais ou terrenos de fetos. Ferreira (329) dá a mesma proveniência ao étimo de Felgar. Idêntica proveniência têm as povoações de Felgueiras (?), Felgares, Felgueira e Felgueiras (?). A etimologia popular diz que os moradores de Silhade, povoação extinta no termo de Felgar, onde ainda há casas aproveitadas só no tempo das culturas agrícolas pelos felgarenses, por ser local muito quente e doentio, iam para o planalto do Felgar distrair-se e divertir-se, de onde folgar, e por corrupção Felgar. Fermentãos (Foramontãos, Foramãdaos nas Inquirições (330) tiradas pelos anos de 1258). «Deu-se o nome de Foramontãos aos enfiteutas, colonos, ou caseiros que pagavam os direitos senhoris como parte da pensão, o foro de montaria, ou foro do monte, a que também chamaram Condado do Monte, que nem sempre constava de tantas ou quantas cabeças ou peças de caça; consistindo algumas vezes tão somente na obrigação de correrem os montes com armas e cães na companhia do mesmo senhorio, ou seu mordomo» (331). Portanto, Fermentãos deriva de seus moradores pagarem o foro acima dito.

(327) Ibidem, doc. 28, ano 924; doc. 41; ano 936; doc. 86, ano 964; doc. 198, ano 1008; doc. 201, ano 1008; doc. 322, ano 1042. (328) V ITERBO – Elucidário, artigo «Artilheiro». O mesmo, nos artigos «Andador» e «Ferro», refere-se à confirmação por D. Duarte em 1436 dos privilégios concedidos aos moradores do Felgar, concelho de Moncorvo, por se empregarem nas minas e laboração do ferro. (329) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo I, p. 245. VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 72. (330) Tomo III, p. 66, 308, 317, 328, 358 e 361, e tomo IV, p. 343 e 558, destas Memórias. (331) VITERBO – Elucidário, artigo «Foramontãos».

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Fermil [Formil] (Filmir e Ffelmir [sic] nas Inquirições (332) de 1258). Nas Inquirições de D. Afonso III (333) encontra-se a palavra Felmir e parece tratarse do nome de um homem. Nas mesmas (334) vem o mesmo nome, mas aqui é geográfico. Vem de Formilo «por Fromirus, palavra hipotética germânica, que pode considerar-se composta de fraus, alegre, contente, e mirus por merus, conhecido, grande» (335). Ferradosa. Virá de Ferragem, Farragem, Ferragial, Ferraginal, que nos documentos medievos aparece a designar ferrã, terra sementada de ferrã para sustento pecuário (336)?, como lembrou o Portugal Antigo e Moderno (337), ou Ferradosa será o «mesmo que ferragosa, abundante em ferro», como opina o Padre Pedro Augusto Ferreira (338)? Ferreira, Ferreiros (339). Provém de «ferros, ferraduras, fábricas de ferro, ou oficinas, em que se lavra, a que chamavam Ferrarias» (340). Fervença, rio que banha Bragança. O nome deriva, como lembra Vasconcelos (341), do escarcéu das águas em alguma cachoeira e da fumarada que então levantam, semelhando o vapor da água a ferver. Figueira. A figueira deu o nome a muitas terras, e na documentação medieva é frequente a referência a esta árvore ou ao seu fruto (ficales) (342). Fonte de Aldeia. É bem patente a proveniência do nome da povoação e o seu significado, especial objecto deste estudo; contudo, lembramos que aldeia é palavra árabe, segundo Sousa (343), e significa povoação ou lugar pequeno. Outros entendem que é anterior aos árabes (344). (332) Tomo III, p. 58, 69, 87, 317, 324 e 377, e tomo IV, p. 59, 60, 66, 335 e 507, destas Memórias. (333) Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, p. 653, 1.a col. (334) Ibidem, p. 698, 2.a coluna. (335) VASCONCELOS, J. L. de – Memórias de Mondim da Beira, 1933, p. 5. (336) VITERBO – Elucidário, artigos «Ferragem» e «Ferragial». (337) Artigo «Nossa Senhora do Amparo de Ferradosa», em nota. (338) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, vol. II, p. 310. (339) Tomo III, p. 70, 329, 360 e 390, e tomo IV, p. 166, 343 e 445, destas Memórias. (340) VITERBO – Elucidário, artigo «Ferros». Ver também o artigo «Ferraduras». (341) VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. XXII, p. 38, em nota. (342) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 534, ano 1076. (343) SOUSA – Vestígios da língua arábica em Portugal. VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 83, e vol. II, p. 9. (344) VITERBO – Elucidário, artigo «Aldea».

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Fonte Ladrão. É frequente o toponímico Ladrão, que recorda reminiscências da criminologia passada. A propósito do apelido Ladrão, ver o artigo Baçal. Vilas Boas diz que um fidalgo dos de apelido Guevara escondeu desde menino a D. Sancho Abarca, rei de Navarra, e o descobriu depois quando os navarros buscavam rei, do que lhe veio o nome de Ladrão e a seus descendentes o apelido (345). Frades. O toponímico Frade aparece com certa frequência no distrito de Bragança, como apontamos no respectivo artigo, para indicar propriedade de algum. Virá daqui o nome à povoação? Frade é apelido nobre em Portugal (346) e foi muito usado antigamente no nosso país pelos plebeus (347). Fradizela (Fradezela nas Inquirições (348) pelos anos de 1258). Nos documentos monásticos dos séculos X ao XII aparecem seculares que doavam seus bens a algum mosteiro, igreja ou casa religiosa, passando ao serviço do mesmo, debaixo da obediência do seu prelado, ou ficavam em suas casas como caseiros do mosteiro. Eram conhecidos pelos nomes de Oblatos, Ofertas, Confrades e Familiares, e as mulheres pelo de Fradas ou Fratissas (349). Fradizela vem, pois, de Fratissela, pequena fratissa ou familiar de algum mosteiro. França (Franci, Francia nas Inquirições (350) tiradas pelos anos de 1258). Ainda hoje significa os ramos mais altos das árvores, lenha miúda que fica dos troncos grossos, quando se aparam ou limpam. A estas franças chamavam antigamente fronças (351) e este nome conservam ainda hoje no distrito de Bragança. Significa, pois, lugar de arvoredos. Em 1356 deu o convento de São Martinho da Castanheira (Espanha), por quinze anos, todos os «foros e padeliças que tinha em S. Martinho de Angueira, de Miranda, e em França, e Aveleda, de Bragança» a Estêvão Pires de Bragança, para este se pagar do que os monges lhe deviam (352). França é apelido nobre em Portugal (353).

(345) SAMPAIO, António de Vilas Boas e – Nobiliarquia Portuguesa, artigo «Guevara», p. 290. (346) SANCHES DE BAENA – Arquivo Heráldico Genealógico, artigo «Frade». (347) VITERBO – Elucidário, artigo «Frade». (348) Tomo IV, p. 30 e 31, destas Memórias. (349) VITERBO – Elucidário, artigo «Familiares», p. 308. (350) Tomo III, p. 271, 319, 402 e 406, destas Memórias. (351) VITERBO – Elucidário, artigo «Fronças». (352) Ibidem, artigo «Padeliças». (353) SANCHES DE BAENA – Arquivo Heráldico Genealógico, 2.ª parte, artigo «Franco».

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Ainda como elucidativo do significado pela palavra França, damos a seguinte décima: «Nogueiras, altas nogueiras, Da quinta das Vedigueiras, Vós que em criança me vistes Dormir n’um doce abandono, Agitai as altas franças, Espancai os sonhos tristes E protegei o meu sono; Quero dormir neste dia Como dormem as crianças E como eu d’antes dormia» (354).

Franco (Franco e Francos nas Inquirições (355) tiradas pelos anos de 1258). Franco é ainda hoje apelido bem conhecido e já o era no século XI, em que um Adrianus Francus serve de testemunha (356); porém, aqui talvez provenha de alguma colónia de franceses (Francos dos documentos antigos (357), que se estabeleceu na povoação ou por qualquer circunstância lhe deu o nome. Nenhum facto histórico local conhecemos que autorize tal conjectura, além do geral referente a muitos franceses que se fixaram em Portugal nos primórdios da monarquia. Franco é apelido nobre em Portugal (358). Freixeda (Freixeeda nas Inquirições (359) tiradas pelos anos de 1258), Freixedelo (ver este artigo adiante), Freixiosa, Freixiel (Freixeel, Freixeall na documentação antiga) (360) e Freixo de Espada à Cinta devem o nome ao freixo e indicam que os há ou houve na terra. Freixedelo (Freyxeedelo, Freixeadelo e Freixeedelo nas Inquirições (361) tiradas pelos anos de 1258). Virá de freixo, árvore, ou do nome de homem Fridixilo, Fridixillo, usado no século XI (362)?

(354) PAPANÇA, António de Macedo, conde de Monsaraz, (falecido em 1913) – A musa alentejana. (355) Tomo III, p. 336 e 337, e tomo IV, p. 22, destas Memórias. (356) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 683, ano 1087. (357) VITERBO – Elucidário, artigo «Francisco». (358) SANCHES DE BAENA – Arquivo Heráldico Genealógico, artigo «Franco». (359) Tomo III, p. 308, 314, 330, 346 e 369, destas Memórias. (360) Tomo IV, p. 29, 211, 212, 239, 422, 448 e 627, destas Memórias. (361) Ibidem, tomo III, p. 275, 316, 327 e 341. (362) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 473, ano 1060, e doc. 486, ano 1070.

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Viterbo (363) menciona uma doação feita ao mosteiro de Arouca em 1085 por Fridixilo Egikaz. Freixiel (Freixeel nas Inquirições (364) tiradas pelos anos de 1258). Ver a rubrica Freixeda. Freixiosa (Ver a mesma rubrica). Freixo de Espada à Cinta (Frexeno de Espada cinta, Freixo despadacinta, Freixo despada sinta, Ffreyxeo despada cinta e Freixeno nas Inquirições (365) tiradas pelos anos de 1258 e noutros documentos). Argote (366) escreve Freixo de Espada na Cinta. Ver Freixeda. Fresulfe (Fresulfi e Tresulfy nas Inquirições (367) dos anos de 1258). Fezulfus (368), Fragulfi (369), Fragulfii (370) e Fragulfu (371), Fraiulfiz (372), Frogiulfus (373), Froiulfo (374)), Froiulfici (375) e Frugulfus, bispo (376), servem de testemunhas ou confirmam nos documentos abaixo citados nas notas. Gebelim (Jubilim nas Inquirições (377) tiradas pelos anos de 1258 e Sebelem no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). No Cartulorio de San Vicente de Oviedo (781-1200), por D. Luciano Serrano, abade de Silos, Madrid, 1929, mencionam-se vinte documentos em que Gebelim aparece como nome e apelido de personagens em documentos daquela época. Jubelin, nome de testemunha num documento do século XI (378).

(363) VITERBO – Elucidário, artigos «Bispos» e «Ferros». (364) Tomo IV, p. 29, 211, 212, 239, 422, 448 e 627, destas Memórias. (365) Ibidem, p. 55, 101, 109, 135, 281, 283, 328, 364, 369, 406, 411, 434, 448, 454, 458 e 627. (366) ARGOTE – Memórias para a História Eclesiástica de Braga, 1732, tomo I, p. 160. (367) Tomo III, p. 317, 374, 384 e 408, e tomo IV, p. 335, 445 e 535, destas Memórias. (368) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 1, ano 773. (369) Ibidem, doc. 4, anos 867-912. (370) Ibidem. (371) Ibidem, doc. 54, ano 944; doc. 275, ano 1032. (372) Ibidem, doc. 156, ano 989. (373) Ibidem, doc. 193, ano 1004; doc. 290, ano 915. (374) Ibidem, doc. 174, ano 995; doc. 194, ano 1005; doc. 213, ano 1010; doc. 241, ano 1019. (375) Ibidem, doc. 167, ano 993. (376) Ibidem, doc. 18, ano 915. (377) Tomo III, p. 37, destas Memórias. (378) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 290, ano 1036.

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O Portugal Antigo e Moderno (379), guiado pelos Vestígios da língua arábica, de Sousa e Moura, entende que Gebelin é corrupção da palavra árabe, Jabalain, que significa dois montes. Genísio (Genezio segundo Ribeiro (380)). Genízio é nome próprio de homem e até de um santo, que aparece sob as formas de Genézio, Genízio e São Gens (381). Gestosa (Giestoça no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). Vem de gesta ou giesta, arbusto, com o sufixo osa, para indicar que a terra abunda ou abundou nelas (382). Gimonde (Jemundi, Jamundy e Gemundy nas Inquirições (383) tiradas pelos anos de 1258; Guimonde no Prontuário das terras de Portugal, já por vezes citado). É nome próprio de homem e aparece com as seguintes variações: Gemondus (384), Gemondo (385), Gesmondo (386), servem de testemunhas ou de confirmantes nos documentos de venda apontados nas notas abaixo. Gondesende (Gondizindi, Gondezindy e Gondesindi nas Inquirições (387) dos anos de 1258). É nome próprio de homem e aparece com as seguintes variações: Gondezendo (388), Gondezendiz (389) Gondezendizi (390), Gundezendizi (391),

(379) Artigo «Gebelim». (380) VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal, manuscrito da Torre do Tombo, 1689, p. 539. Para a história de Genísio, ver tomo IV, p. 346, 347, 447 e 532, destas Memórias. (381) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica…, vol. II, p. 23. VASCONCELOS, José L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 84. (382) Vasconcelos, J. L. de – Estudos de Filologia…, vol. I, p. 72. (383) Tomo III, p. 165, 307, 316, 320 e 344, e tomo IV, p. 335 e 445, destas Memórias. (384) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 392, ano 1054. (385) Ibidem, doc. 193, ano 1004; doc. 330, ano 1043. (386) Ibidem, doc. 237, ano 1018; doc. 461, ano 1068; doc. 477, ano 1069. (387) Tomo III, p. 318, 320, 357 e 396, e tomo IV, p. 335, 445 e 535, destas Memórias. (388) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 190, ano 1002; doc. 195, ano 1006; doc. 434, ano 1063; doc. 502, ano 1072; doc. 732, ano 1090; doc. 856, ano 1097. (389) Ibidem, doc. 248, ano 1021; doc. 474, ano 1068; doc. 862? ano 1097; doc. 922, ano 1100. (390) Portugaliae Monumenta Historica, doc. 157, ano 989; doc. 313, ano 1041. (391) Ibidem, doc. 16, ano 908; doc. 75, ano 957; doc. 101, ano 986; doc. 156, ano 989; doc. 158, ano 990; doc. 159, ano 990; doc. 166, ano 992; doc. 170, ano 994; doc. 172, ano 994; doc. 213, ano 1010; doc. 228, ano 1016; doc. 242, ano 1019; doc. 272, ano 1039.

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Gundesendo (392) e Gundesendiz (393) servem de testemunhas ou confirmam dos documentos que as notas citam. Também na mesma época se encontram os nomes próprios Gondesindus, Gondesindo, Gundezindus, Gundezindiz, Gundesindiz, Gundesindo, Gundesindi e Gundizendo, que testemunham ou confirmam nos documentos dos Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae. Gostei (Goestei, Goestey nas Inquirições (394) tiradas pelos anos de 1258). Vem do genitivo do nome próprio de homem Godesteus, que aparece na documentação medieval com as variações seguintes: Godesteo (395), Godesteiz (396), Gudesteo (397), Gudesteu (398), Gudesteici (399), Gudesteiz (400), Goesteo (401) e Goesteiz (402) serviram de testemunhas ou confirmaram nos documentos mencionados nas notas. Também nos Livros de Linhagens, pág. 261 (403). Gouveia (404). Virá de gouvir, que significa gozar, desfrutar, utilizar-se de alguma coisa (405)? No tomo III, págs. 31, 90, 103, 122, 123, 165, 189 e 197 e noutros documentos do tomo IV destas Memórias, encontra-se o verbo gouvir empregado em diversos tempos. Deve significar o facto de quem disse que desfrutou, gozou a terra ou outra coisa. Ferreira (406) diz que Gouveia vem do latim cavea, cova, e lembra as muitas povoações e toponímicos que de cova e derivados tiraram o nome. (392) Ibidem, doc. 115, ano 976. (393) Ibidem, doc. 234, ano 1018. (394) Tomo III, p. 54, 62, 79, 288, 358, 378 e 379, e tomo IV, p. 335 e 395, destas Memórias. (395) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, docum. 40, ano 933; doc. 52, ano 943; doc. 86, ano 964; doc. 135, ano 982; doc. 167, ano 992; doc. 174, ano 995; doc. 193, ano 1004; doc. 194, ano 1005; doc. 253, ano 1023; doc. 260, ano 1025; doc. 1037. (396) Ibidem, doc. 435, ano 1065. VITERBO – no Elucidário, artigo «Cutelo», vol. II, p. 138, menciona um Ansuri Godsteiz. (397) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, docum. 54, ano 944; doc. 87, ano 964; doc. 124, ano 978; doc. 127, ano 980; doc. 131, ano 981; doc. 153, ano 987; doc. 158, ano 1021; doc. 264, ano 1026; doc. 277, ano 1032. (398) Ibidem, doc. 98, ano 968; doc. 146, ano 985; doc. 198, ano 1008. (399) Ibidem, doc. 687, ano 1087. (400) Ibidem, doc. 53, ano 934; doc. 114, ano 974; doc. 143, ano 984; doc. 148, ano 985; doc. 423, ano 1060; doc. 847. ano 1097; doc. 866, ano 1097; doc. 985. (401) Ibidem, doc. 241, ano 1019; doc. 605, ano 1082. (402) Ibidem, doc. 53, ano 951; doc. 911, ano 1099. (403) Edição dos Portugaliae Monumenta Historica. (404) Tomo IV, p. 374, destas Memórias. (405) VITERBO – Elucidário, artigo «Gouvir». (406) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica, vol. I, p. 28.

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Gradísssimo (Gradixinio nas Inquirições (407) realizadas pelos anos de 1258). Superlativo de grado, graúdo, graudíssimo, grandessíssimo, este ainda usado em terras bragançanas. Grandais (Grandaaes nos documentos antigos (408)). A etimologia popular diz que este nome provém dos grandes ais, de onde Grandais, soltados pelos mouros vencidos numa grande batalha que aí se deu. Grandais é um aumentativo de grande. Granja. Ver Gregos. Quer dizer: herdade, quintinha, courela, sorte, com sua casa ou celeiro para recolher os frutos (409). Gregos. Há também Granja de Gregos ou Granja dos Gregos, como escreve o Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo. Virá este nome de alguns colonos gregos aqui estabelecidos, à semelhança dos franceses fixados nos primórdios da nacionalidade? Ver a rubrica Atenor, onde dizemos dos elementos que vão aparecendo na nossa pronúncia referentes aos gregos. Os escritores latinos tomam a palavra «gregos» como sinónimo de «pérfidos» – graeci perfidiae nornine notati sunt; daqui o adágio Graeca fides. Alguém diz que graeci é palavra hebraica e significa deceptores, pérfidos, enganadores e intrujões. Grijó de Parada (Ecclesia e Griyoa nas Inquirições (410) feitas pelos anos de 1258). Vem de igreja, com o diminutivo ó, que deu lgrejó, Eigrejó e Grejó (411). No Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs, feito em 1501, toma-se Igrejairo por pequena igreja, capela ou oratório (412). O mesmo étimo tem Grijó de Vale Benfeito (Egriyoo, Ecclesiola nas ditas Inquirições (413)). Grijó quer, pois, dizer pequena igreja ou capela.

(407) Tomo III, p. 354, destas Memórias (408) Ibidem, p. 58, 74, 87 e 387, e tomo IV, p. 335 (409) VITERBO – Elucidário, artigo «Granja». VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia…, vol. I, p. 85. (410) Tomo III, p. 87, 316, 327, 328, 341 e 342, destas Memórias. (411) VITERBO – Elucidário, artigos «Egrejairo» e «Grijó». (412) Ibidem. (413) Tomo III, p. 330 e 352, destas Memórias.

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Guadramil (Galdramir, Galdramiro e Galdrimir nas citadas Inquirições (414) de 1258). Deve ser nome próprio de homem (415). Florez (416) menciona um documento do ano de 888, respeitante à consagração da igreja de Santo André de Fonda, no qual, entre os bispos e presbíteros assistentes, assinaram: Eles Savarigo, Arulfo, Xposalo Argemirus (daqui o nome da povoação de Argemil, concelho de Chaves, que em tempo paroquiamos como anexa de Mairos) e Gudumirus. A. Cortesão indica outro documento do ano de 985, em que figura um indivíduo chamado Gualamiro (417). Será Guadramil um composto de Guid, palavra árabe, que significa rio, e entra no nome do Guadiana (418), junta ao nome próprio Miro, mui frequente na documentação medieval, que deu Guadramil, à semelhança do Argemirus acima citado, convertido em Argemil, e muitos outros que se podiam citar? Guadramil é banhada por um pequeno ribeiro, e pode significar, sendo assim, rio de Miro. Guide (Guydi nas Inquirições (419) feitas pelos anos de 1258). Deve ser nome próprio de homem. Guidu serve de confirmante num documento do século XI (420). Também, como em árabe, guid significa rio (421), palavra que, corrompendo-se em guad, como mostra Barreiros (422) e juntando-se ao rio Ana, como lhe chamavam os romanos, deu o nome que hoje tem de Guadiana, pode supor-se que o nome da povoação bragançana vem do árabe guid, que significa rio. Auxilia esta conjectura a circunstância de passar perto de Guide o rio Tuela. Ifanes (Ifanes e Ffanes (sic) nas Inquirições (423) feitas em 1258), logar dy fanez (424), Infanes (425), Afanes (426), Infanys e Infanes noutros documentos.

(414) Ibidem, p. 310, 402, 412 e 415, e tomo IV, p. 335 e 444. (415) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia…, vol. II, p. 53. (416) FLOREZ – España Sagrada, tomo 28, «Apendice 3.°», p. 247 (417) CORTESÃO, A., em O Arqueólogo Português, tomo XI, p. 117. (418) Ver adiante o artigo «Guide». (419) Tomo III, p. 87, e tomo IV, p. 29, 448, 534 e 536, destas Memórias. (420) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 531, ano 1076, e doc. 582, ano 1080. (421) ALCALÁ, Pedro de, Frei – Vocabulista Arabigo, citado por FLOREZ – España Sagrada, tomo I, p. 210. (422) BARREIROS, Gaspar – Corografia, p. 11. (423) Tomo IV, p. 8, 9, 10, 13, 14, 16, 17, 19, 159, 346, 447, 531, 532, 642 e 965, destas Memórias. (424) Contratos de D. João III, fól. 74 v., manuscrito de 1528 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. (425) Demarcação dos lugares de Trás-os-Montes, idem, idem. (426) VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal, p. 539.

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Vem de Epifanes, patronímico de Epifánio (427); todavia, Vasconcelos não se atreve a dar a etimologia deste povo, tão obscura ela é (428). Izeda (Izeda e Dezeda nas Inquirições (429) por vezes citadas). Virá de Yezid, nome próprio árabe? Pelos anos de 661 a 681 viveu Yezid, califa da dinastia dos Omníadas. Florez (430) menciona outro falecido em 683. Em português também temos Oseda, nome próprio de homem, que serviu de testemunha num documento do século XI (431). O Doutor J. Leite de Vasconcelos diz que vem do latim iliceta (ilicetum, i) o azinhal, significando portanto terra de azinheiras (432). Izei (Izey nas Inquirições (433) de 1258), povoação extinta nas imediações de Bragança, cujo orago era São Lourenço e supomos corresponde à hoje chamada Quinta de São Lourenço. Vem do nome próprio Iseu, antigamente muito usado em Portugal, como se vê pelos Nobiliários, e no Cancioneiro de D. Dinis (434) lemos: Qual mayor poss’e o muy namorado Tristã, sey ben que non amou Iseu, Quant’eu vos amo, certo sey eu...

Iseu é o nome de um orador grego, natural da Calcidia, que viveu pelos anos de 344 antes de Cristo (435). Labiados (Labiados nas Inquirições (436) feitas pelos anos de 1258). Pode vir do corpo humano como Orelhão (Lamas de), Nazo (Senhora do); ver estes artigos; ou da família de plantas chamadas labiadas e ainda de labiado, isto é, que tem a forma de lábio.

(427) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo I, p. 29. (428) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 87. (429) Tomo III, p. 70, 188, 303, 316, 332 e 345, destas Memórias (430) FLOREZ – España Sagrada, vol. 8.°, p. 337. (431) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 331, ano 1044. (432) O Arqueólogo Português, 1934, vol. XXIX, p. 198. (433) Tomo III, p. 58 e 414, destas Memórias. (434) Cancioneiro de D. Dinis, n.° 115, citado por BRAGA, Teófilo – na Introdução e teoria da História da Literatura Portuguesa, 1855, p. 231. (435) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Iseo». (436) Tomo III, p. 310, 345, 387 e 407, destas Memórias.

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Lagarelhos (Lagarelos e Lagarelhos nas Inquirições (437) atrás referidas). Um homem de nome Lagaro serve de testemunha num documento de 927, transcrito por Viterbo (438) Viria daqui o diminutivo Lagarelhos? Lagar e Lagares é toponímico frequente e tem carácter arqueológico, como dizemos no artigo Pré-história. Também daqui pode vir o nome de Lagarelhos, pequenos lagares, lagarzinhos. Lagoaça (Laguoasa num documento de 1644 (439)). Ver adiante a rubrica Lago no artigo Toponímia, onde se mostra a grande variedade de palavras em que entra aquela, da qual Lagoaça é uma forma para indicar terreno alagadiço, pantanoso ou mesmo uma lagoa pequena. Lagomar (Lagomar nas Inquirições (440) tiradas pelos anos de 1258). Adiante, no artigo Toponímia, mostramos que o nome Lago e derivados se aplica a muitos sítios, e como no termo de Donai, contíguo ao de Lagomar, fica um deles, dar-lhe-iam o subtítulo de Lagomar por diferença, pois no termo desta povoação há uns lameiros muito pantanosos de onde brota um ribeiro, parte do qual, por canalização recente, abastece agora Bragança. No tomo III, pág. 293, destas Memórias publicamos o foral dado a uma povoação chamada Lago Mau, e como não conhecemos outra com semelhante nome e a nossa é a que mais se lhe aproxima, aventamos a conjectura de Lagomar ser correcção melhorativa de Lago Mau. À freguesia de Bornes de Aguiar, distrito de Vila Real, pertence uma povoação chamada Lago Bom. Ver o nome Mar, adiante no artigo Toponímia, pois é frequente no distrito de Bragança para indicar lagunas, pântanos, etc. Lamas de Orelhão (Lamis de orelam, Lamas de Orelian nas Inquirições (441)). «Do corpo humano foram tirados outros muitos apódos e apelidos, alguns dos quaes posteriormente deram nomes próprios, taes foram os seguintes: Aurelio, que vem do latim auris, is, a orelha, e principiou como apodo, para indicar indivíduos com orelhas grandes. Posteriormente Aurelius deu Aurelinus, diminutivo, e Aurelianus, aumentativo, que por seu turno em português deram Aurelino, Aurelina,

(437) Tomo IV, p. 39, 42, 44, 52, 340 e 447, destas Memórias. (438) VITERBO – Elucidário, artigo «Igreja», p. 34, coluna 2.ª (439) Tomo IV, p. 185, 347 e 552, destas Memórias. (440) Tomo III, p. 69, 86, 293, 317, 323 e 395, destas Memórias. (441) Ibidem, p. 336, e tomo IV, p. 21, 22, 23, 80, 169, 183, 448 e 627.

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nomes, Orelhão, casal, e Lamas de Orelhão (de Aureliano), freguesia do concelho de Mirandela» (442). Segundo a etimologia popular, Lamas de Orelhão tomou o nome do rei Orelhão, que tinha uma orelha de burro e outra de cão. Lanção (Lansa, Lansan e Lansam nas Inquirições (443) dos anos de 1258). Lazom ou Lanzom aparece como apelido de homem nas Inquirições de D. Afonso II, feitas em 1220 (444). Lamson é o nome de um médico inglês celebrizado como envenenador (445). Na ponte romana de Alcântara, em Lisboa, construída no tempo do imperador Trajano (97-117 depois de Cristo), há uma inscrição que menciona os nomes dos municípios que concorreram para a sua fábrica, e, entre outros, são os Banienses e Lancienses. Será a povoação bragançana o resto, a pegada onomástica do município memorado na célebre inscrição, ou a recordação de um povo antigo chamado Lanção, de onde Lancienses, com o qual tinha apenas identidade nominal? Ver Ligares, Limãos e o artigo Moncorvo, pág. 480 do tomo IX destas Memórias. Landedo. Virá de landa, que no latim bárbaro se «tomou pela terra maninha, inculta e desaproveitada» (446), a que se juntou o sufixo edo para indicar abundância ou grande extensão de terreno nestas condições, ou virá antes de lande, bolota? Tanto um como outro étimo convêm a Landedo agrícola e botanicamente, mas é mais provável o segundo. Larinho. Virá de larix, laricis, o lariço (pinheiro de Riga), que, segundo diz Moreri (447), deu o nome ao castelo de Larigno ou Larignum, perto dos Alpes, sitiado por Júlio César? Esta espécie de pinheiro vai bem nas terras montanhosas, serras e terrenos elevados e frescos (448). Estas condições realizam-se no Larinho e é terra de pinheiros. Lavandeira. Lavandeira de Ansiães no Portugal Antigo e Moderno; mas este epíteto nem é popular nem oficial. Há muitas povoações assim designa-

(442) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. I, p. 212. (443) Tomo III, p. 87, 317, 360 e 386, destas Memórias. (444) Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, p. 98, 1.a col. (445) Audiências de julgamento do Dr. Urbino de Freitas, 1893, p. 450 e 455. (446) VITERBO – Elucidário, artigo «Londos». (447) MORERI – El Gran Dicionario. (448) O Panorama, (1839), p. 350, onde se faz a sua descrição e se preconiza a sua cultura em Portugal.

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das, que «tomaram talvez o nome das alvéolas, chamadas também rabetas, lavandeiras e lavandiscas»(449). Algo se aproxima deste nome a alfazema, botanicamente conhecida pelo nome de lavandula, que, por analogia com lavadeira, quiçá desse lavandeira. Leirós (Quinta dos Leyros no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). É frequente o toponímico Leiras, equivalente de sortes, quinhões, parcelas de terreno, em que os senhorios dividiam a terra distribuída pelos colonos que a vinham povoar. Daqui o diminutivo depreciativo Leirós através de formas idênticas às de Igreja, para dar Grijó. Ver este artigo. Leirós significa leiras de pequeno valor. Ligares (Ilguares no foral dado em 1512 (450), num documento do século XVII (451) e nos livros do registo paroquial do século XVIII e anteriores). Sarmento (452) entende que ligares é nome ligúrico, e, segundo o mesmo, a nossa província trasmontana ou imediações foi habitada pelos lígures. Ligares é metátese de ligares, por algares, fojos, barrancos, covas e ravinas (453). Vem do latim ilicares, corrupção de iliceta. Ver Izeda (454). Limãos (Limaos, Lymaos e Limhaãos nas Inquirições (455) feitas pelos anos de 1258). Vem de Limais, que, no português antigo, significa terra pantanosa, coberta de limos (456). É muito para notar a semelhança que alguns geográficos bragançanos apresentam com outros mencionados pelos geógrafos e textos epigráficos romanos pertencentes à nossa província trasmontana ou confinantes. Assim: Parâmio e Pontia Paramica; Baceiro, rio, e Vacceus; Lanção e Lancienses; Ligares e Ligúrios; Celas e Coelernos, um dos dez povos ou cidades mencionados na inscrição da ponte de Chaves que concorreu para a sua fábrica; Limãos e Limicos, outro desses dez povos que concorreram para a mesma obra. Ver Lanção, Ligares e o artigo Moncorvo, pág. 480 do tomo IX destas Memórias.

(449) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. III, p. 320. (450) Tomo IV, p. 329, destas Memórias, onde o publicámos na íntegra. (451) VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal. (452) SARMENTO, Francisco Martins – Ora marítima, 1896, p. 86, 97, 98 e seguintes. (453) Ferreira, Pedro Augusto – Tentativa…, 1.° vol., p. 29, 2.°, p. 3. (454) VASCONCELOS, J. L. de, em O Arqueólogo Português, vol. XXIX (1934), p. 198. (455) Tomo III, p. 306, 307, 313, 334, 371 e 395, e tomo IV, p. 342 e 344, destas Memórias. (456) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, vol. IV, p. 95

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Lodões (Lodonis e Lodones nas Inquirições (457) dos anos de 1258). Lodões será o plural da árvore chamada lódão, vulgar na região, ou virá de Lodois, nome de homem no século XV, como consta de um documento citado por A. Cortesão (458)? Lombo, Lomba (459), Lombada e Lombo de Carvalhais. É frequentíssimo este toponímico tanto em sítios de termo como na documentação medieval e posteriormente para indicar planaltos, cabeços ou terrenos elevados (460). Longra. É corrupção de longa (461). Lozelos [Luzelos] (Luzellos nas Inquirições (462) tiradas pelos anos de 1258). Está por Nozelos, mata ou aglomerado de pequenas nogueiras. Ver o artigo Nozedo. Maçãs (Masaas, Massanas e Masanis nas Inquirições (463) feitas pelos anos de 1258). A especificação de manzanárias, manzanérios e maçairas, grupos de macieiras, é frequente na documentação medieval desde os séculos IX ao XII (464), de onde se deduz a importância que tinha esta árvore e conseguintemente a sua fixação onomástica. O mesmo se aplica aos nomes Castanheira e Castanheiro, castanários na mesma documentação (465).

(457) Tomo IV, p. 72, 75, 79 e 448, destas Memórias. (458) O Arqueólogo Português, vol. XI, p. 314. (459) Denominação de um concelho extinto, hoje incorporado no de Vinhais, ainda subsistente no distintivo da povoação de Vilar Seco de Lomba para evitar confusão com Vilar Seco de Miranda. (460) Tomo I, p. 42; tomo III, p. 92, 93, 94 e 264, e tomo VI, p. 471, destas Memórias. Tombo dos bens do Cabido de Miranda feito em 1561. (461) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. II, p. 134. (462) Tomo III, p. 393, destas Memórias. No VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal, várias vezes citado, também se acha Luzellos. (463) Tomo III, p. 318, 325, 344, 384 e 409, destas Memórias. (464) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 179, ano 998. (465) Ibidem, doc. 358, ano 1047.

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Maçores (466), Macores (467), Massores nos livros do registo paroquial antigos. Deve vir de masores, que significa testamenteiros, executores das mandas e testamentos (468). Malhadas (Malada e Maladas nas Inquirições (469) dos anos de 1258). É frequentíssimo este toponímico, como mostramos adiante no artigo respectivo, e relaciona-se com o regime pastoril, tanto para pernoitamento de pastores e gados, como para sestia destes à sombra de matas, ao meio-dia, no tempo estival. Cervantes emprega muito esta palavra. Assim, diz que D. Quixote e Sancho, não tendo onde recolher-se uma noite, estiveram «mirando á todas partes par ver se descubririan algun castillo ó alguna majada de pastores donde recojer-se» (470). Noutra parte menciona seis pastores «que eran los que en majada havia» (471). Ainda noutra fala de uma cabra perdida «que llegó à una majada de pastores» (472). Mais aponta uns pastores «que vienen del lugar à las majadas» (473), e outro que diz «cerca de aqui tengo mi majada, y en ella tengo fresca leche y muy sabrosissimo queso» (474). J. L. de Vasconcelos (475), conquanto admita a significação que damos à palavra Malhadas, lembra que aqui indicará eira, local onde se malha o cereal. O Tombo dos bens do Cabido de Miranda feito em 1691 a cada passo emprega a palavra Malhadas para designar matas de árvores, geralmente carvalhos, e em Malhadas menciona a Malhada dos Reis. Ainda hoje em algumas aldeias do distrito de Bragança (Aveleda, por exemplo, e outras) chamam Malhadas às matas de carvalhos e sardões, e é este o significado que lhes dão os dicionaristas como Frei Domingos Vieira e outros. Malada, como as Inquirições designam esta povoação, também é nome de mulher, segundo se vê de Viterbo (476), que menciona uma em um documento do ano de 1202. Malada, Malado, Malados também na documentação antiga significa criada, criado de servir a soldo e ainda certos foros e pensões pagos ao senhorio em algumas terras (477).

(466) Tomo IV, p. 283, destas Memórias. (467) VITERBO – Elucidário, artigo «Masores». (468) VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal… (469) Tomo IV, p. 8, 9, 10, 13, 15, 205, 346, 385, 447, 531 e 642, destas Memórias. (470) CERVANTES – D. Quijote, tomo I, cap. 2.° (p. 71 mihi). (471) Ibidem, cap. 11.° (p. 112 mihi). (472) Ibidem, cap. 23.° (p. 196 mihi). (473) Ibidem, cap. 27.°. (474) Ibidem, cap. 51.° (p. 411 mihi). (475) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 88. (476) VITERBO – Elucidário, artigo «Ferros», p. 323. (477) Ibidem, artigos «Malada», «Maladia» e «Malado».

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Martin [Martim] (Martinus nas Inquirições (478) tiradas pelos anos de 1258). É nome próprio de homem. Um Martin serve de testemunha no século X (479) e outro no século XI (480). Ver o artigo Moaz. Matela. Amatela nos livros do registo paroquial dos séculos XVIII e anteriores. Deve provir de mata, matela (pequena mata), conquanto Metella, nome próprio de mulher entre os romanos, seja frequente e de muitas distintas façam menção os autores. Mazouco (481) (Mazouto no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). Vem de «ferro massuca, ferro maçuquo, ou maçouquo», que se acha nos forais de D. Manuel I para indicar ferro grosseiro, em massa ou em barra (482), e ainda ferro massuca num documento de 1407 de Moncorvo, citado por Viterbo (483). Pinho Leal (484) diz que Maçores, mançores, vem de Almansor, nome do célebre general mouro de terrífica memória entre os cristão. Este étimo parece pouco aceitável. Nas mesmas condições estará o que propõe Ferreira (485). Meirinhos. Deve vir de Merinus, nome próprio de homem. Merinus, presbítero, figura num documento de 1028 (486). Cortesão cita outro do mesmo ano (487). Meixedo (Meyxeedo e Ameixeedo nas Inquirições (488) feitas pelos anos de 1258). Diz o Portugal Antigo e Moderno (489), guiado por Sousa (490), que o onomástico Meixedo vem do árabe Machadd, que significa entrada violenta, ímpeto, irrupção, do verbo xadda, entrar à força, impelir, irromper.

(478) Tomo III, p. 391, destas Memórias. (479) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 165, ano. 992. (480) Ibidem, doc. 622, ano 1083 (481) Tomo IV, p. 329, destas Memórias (482) VITERBO – Elucidário, artigo «Massuca». (483) Ibidem. (484) LEAL Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Maçores». (485) Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo I, p. 324, e tomo III, p. 325. (486) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, docum. 264, ano 1028. (487) O Arqueólogo Português, vol. XII, p. 230 (488) Tomo III, p. 59, 87, 318, 320 e 400, e tomo IV, p. 336, 341, 445, 471, 507 e 353, destas Memórias. (489) LEAL Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Meixedo», freguesia do concelho de Montalegre. (490) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal.

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Ameisenares (491), Ameisinales (492), Ameixenale (493), Ameixenares (494), Ameixenedo, vila (495), Ameixeneto, fundus, propriedade (496), Amexenares (497), Amexenale, Amexenales (498), Amexinales, sautus roverta et omnis genesis pomiferes (499), Ameixinarias (500) e Amexinare (501) Além destes toponímicos aplicados a propriedades, matas, bosques de ameixieiras, temos Mexido, nome próprio de um indivíduo que confirma uma escritura pública (502). Mendel. Virá de Mendo, nome próprio muito usado, de onde Menendelus, equivalente de pequeno Mendo, ou seja Mendosinho (503)? Mente (504), Mente significa lembrança, memória (505). Será, pois, rio da memória, do monumento. Milhais. Virá de milho, milharais, milhais? Ver a rubrica Milhão. A etimologia popular diz que vem de «mil ais» soltados pelos mouros numa derrota que ali sofreram. Milhão (Silham, Millão, Milhar, Milam, Mylham e Milham nas Inquirições (506) e documentos medievais). Milhão é o milho grosso de maçaroca, que, dizem alguns autores, foi trazido para Portugal no tempo de D. João II no descobrimento da Guiné (507), generalizando-se depois a sua cultura.

(491) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 93, ano 967; doc. 181, ano 998; doc. 246, ano 1021. (492) Ibidem, doc. 215, ano 1010. (493) Ibidem, doc. 284, ano 1034 (494) Ibidem, doc. 109, ano 973; doc. 544, ano 1077. (495) Ibidem, doc. 25, ano 922. (496) Ibidem, doc. 589, ano 1080. (497) Ibidem, doc. 212, ano 1009. (498) Ibidem, documentos 334 e 335, ano 1044. (499) Ibidem, doc. 370, ano 1048. (500) Ibidem, doc. 221, ano 1013. (501) Ibidem, doc. 285, ano 1034. Amexinares num documento de 870, citado por Viterbo no Elucidário, artigo Igreja, p. 33. (502) Ibidem, doc. 110, ano 973 (503) Ferreira, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico…, tomo II, p. 291. (504) Tomo IV, p. 32 e 38, destas Memórias. (505) VITERBO – Elucidário, artigo «Mente». (506) Tomo III, p. 54, 58, 70, 86 e 328, e tomo IV, p. 20, 350, 471, 497 e 559, destas Memórias. (507) VITERBO – Elucidário, artigos «Maçaroca» e «Milhom».

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Ainda hoje no distrito de Vila Real dão o nome de milhão ao milho grosso, para o distinguir do milho-painço e de um outro milho a que lá chamam barrosão. Viterbo (508) e outros entendem que o milho grosso chamado milhão data do tempo de D. João II (1481-1495), mas o nome desta povoação bragançana contraria tal pensar, a não ser que seja outra a sua proveniência, como, por exemplo, milha dos miliários romanos, de onde metaforicamente milhão a estes, assim como em algumas partes lhe chamam marrão (marra, marco grande)(509). O milho aparece mencionado em muitos documentos antigos (510). Miranda (Miranda nas Inquirições (511) feitas pelos anos de 1258). Ferreira (512) lembra que talvez viesse do latim miranda, digna de ver-se; ou que pode ver-se; vistosa? A mesma etimologia dá a Mirandela pequena miranda (513). É mais provável que Miranda e Mirandela tragam o nome de Mira e Miradouro, correspondente, nos efeitos, a Facho, Viso, Esculca, etc., toponímico frequentíssimo para indicar postos militares, onde se fazia sentinela para observar os movimentos do inimigo (514). Mirandela (Mirandella e Mirandela nas Inquirições (515) tiradas pelos anos de 1258). Ver artigo Miranda. Moaz. Em árabe Mauaz, que significa lugar da advertência. Deriva da verbo uaáz, advertir, aconselhar, exortar (516). Quando D. Afonso Henriques resolveu tomar Santarém, avisou por Martim Mohaz os mouros de que ia

(508) VITERBO – Elucidário, artigos «Maçarocas» e «Milhom». (509) Ao miliário de São Viteiro (ver p. 209, do vol. IX destas Memórias), chamam Marron na terra, e no termo de Babe, a confinar com o de Milhão, há um local chamado Marrão, que provavelmente lhe veio do miliário de Gimonde (ver p. 57 do tomo IX destas Memórias), ali encontrado. (510) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 292, ano 1036; doc. 303, ano 1038; doc. 328, ano 1043; doc. 338, ano 1044; doc. 520, ano 1075; doc. 527, ano 1075; doc. 628, ano 1084; doc. 661, ano 1086; doc. 752, ano 1091. (511) Tomo IV, p. 7 e seg., 81 e 161, destas Memórias. (512) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo II, p. 29, e tomo III, p. 390. (513) Ibidem, tomo III, p. 390. (514) Ver VITERBO – Elucidário, artigos «Arricaveiro» e «Atalaya II». (515) Tomo IV, p. 24 a 26, 28, 37, 168, 169, 196, 258, 259, 351, 374, 443, 448, 534, 536, 538, 627 e 658, destas Memórias. (516) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal.

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romper as tréguas com eles celebradas (517). Daqui se colhe que Moaz também é apelido de homem. Como no português antigo mua significa mula, talvez muaz equivalha a pequena mula. Mofreita. Monfreita nos livros do registo paroquial do século XVIII e anteriores. Mogadouro (Mugadoyro nas Inquirições (518), Mogodoyro nos forais de Lagoaça e Miranda do Douro em 1286 (519)). A propósito deste étimo diz Vasconcelos: «Se Mogadouro não ficasse tão longe do Douro, eu perguntaria se a forma Mogadoyro poderia decompor-se em Mogo-Doyro. Como é sabido, mogo em português antigo significa “marco”. No entanto, se a vila fica longe do rio, o concelho pega com ele» (520). Teremos no Mogadouro outro fenómeno linguístico idêntico ao de Rio de Onor, que nas Inquirições (521) vem com o nome de Rivulo de oor, Rio duor, depois convertido em Rio de Onor? (Rio de Honra, talvez por influência dos privilégios que lhe concedeu o duque D. Teodósio em 1627 (522)? Assim, no Mogadouro = Mogo do Doyro – influiria este rio?). Diz o povo que a vila do Mogadouro foi cidade no tempo dos mouros e constava de duas povoações: uma chamada Moga e outra Douro, de onde veio Mogadouro. É assim a etimologia popular. Sousa diz que Mogadouro vem do nome próprio árabe Maca duron, que significa coisa fatal, inevitável. A mesma prova temos – continua o mesmo Sousa – no nome da praça de Mogador em África, a que os mouros presentemente chamam, em árabe, Assoeira, coisa pequena e unida, ou junta. Antigamente lhe chamavam, também em árabe, Cid Macdur, nome de um mouro, que entre eles era de boa vida e está enterrado em uma ermida nos arrabaldes daquela povoação, de cujo nome deduziram os marítimos e os nossos europeus o de Mogador em lugar de Cid Macdor (523). Ferreira acrescenta: «É mais provável que os mouros a denominassem Mogador, como recordação da pátria deles, pois Mogador é uma vila e cas-

(517) GALVÃO, Duarte – Crónica de D. Afonso Henriques, cap. 25.° (518) Tomo IV, p. 8, 53, 54, 83, 185, 252, 255, 281, 288, 324, 348, 363, 366, 368, 374, 375, 412, 436, 437, 447, 532, 561 e 627, destas Memórias. (519) Ver tomo IV, p. 83 e 185, destas Memórias, onde os publicamos. (520) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. II, p. 44, em nota. (521) Tomo III, p. 282, 402 e 412, destas Memórias. (522) Ver tomo III, p. 282, destas Memórias, onde os publicamos. (523) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal, 1789.

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telo de Marrocos, distante cinco milhas do oceano junto ao cabo de Ozem ou Ocem e de um monte onde há minas de ouro e prata. Isto é mui natural, assim como nós quando povoamos o Brasil fomos dando às suas diversas povoações os nomes das povoações de Portugal e pelo mesmo modo muitas povoações conservam os nomes árabes e godos» (524). No termo de São Salvador, concelho de Mirandela, há um monte alto, de largos horizontes, chamado Mogadouro. Terá relação este nome com altitudes, pois a vila do Mogadouro também está situada em lugar alto? No artigo Algoso damos notícia de uma composição feita em 1239 entre os Templários e a Ordem do Hospital. No tomo VII, págs. 721 e 722, destas Memórias damos notícia de outras componendas referentes ao Mogadouro. Mogo de Ansiães e Mogo de Malta. Mogo significa o marco que separa um terreno de outro (525). As designações de Mogo de Ansiães e Mogo de Malta provêm de aquele pertencer ao antigo concelho de Ansiães, hoje chamado Carrazeda de Ansiães e este à Ordem do Hospital, também dita Ordem de Malta. Também pode vir de Mogo, nome próprio de homem (526). Moimenta (Mumenta, Muymenta, Moymenta e Muimenta nas Inquirições (527) feitas pelos anos de 1258). Vem do latim monimenta (plural de monimentum) e significa: monumento, sepulcro. «É possível que em alguns casos represente também monumentos pré-históricos, assim como os devem representar outros nomes de locais, como Pedra de Anta, Pedras de Altar, Pedras Alçadas. O facto de hoje se encontrarem povoações em locais assim denominados onde já não existem estes monumentos, não impede que se aceite a hipótese, porque os monumentos podem ter sido destruídos» (528). Temos pois que Moimenta equivale a Anta, Mamoa e Modorra. Sobre os monumentos arqueológicos da Moimenta ver pág. 639 do tomo IX destas Memórias.

(524) FERREIRA, Pedro Augusto – continuador do Portugal Antigo e Moderno, artigo «Zava». (525) VITERBO – Elucidário, artigo «Mogo». (526) Portugaliae Monumenta Historica, «Inquirições» de 1220, p. 100, 2.ª coluna. (527) Tomo III, p. 114, 333, 375 e 409, e tomo IV, p. 41, 44, 340 e 536, destas Memórias. (528) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. I, p. 257. Idem em O Arqueólogo Português, vol. III, p. 563, e vol. VIII, p. 68.

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Moncorvo (Turre de Menendo como nas Inquirições (529) e Torre de Mencorvo na documentação antiga). Men e Mendo, de onde Mencorvo e depois Moncorvo, é nome próprio medieval muito usado, assim como o apelido Corvo; portanto da torre que algum Men ou Mendo Corvo tinha ali, passou o nome à terra, assim como na vila da Torre de Dona Chama. Segundo a etimologia popular, um Men ou Mendo encontrou no monte Reboredo, sobranceiro a Moncorvo, um grande tesouro, e, desconfiando da incontinente loquela da mulher, disse-lhe, para a experimentar, que vira um corvo a parir muitos filhos, pedindo ao mesmo tempo segredo máximo. A mulher não se conteve e, debaixo de sigilo, foi contando a maravilha às comadres, por forma que, volvidos poucos dias, tudo era público com grandes aditamentos. Vendo então a nenhuma confiança merecida pela mulher, absteve-se de mais explicações, e para sua segurança mandou fazer uma sólida torre, onde se recolheu com a família e tesouro. Daqui a designação de Torre de Men Corvo, convertida depois em Mencorvo e Moncorvo. Montouto (Da mesma forma aparece escrito nas Inquirições (530) tiradas pelos anos de 1258, e Montoyto no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). Montouto deriva de Monte Alto (531). No termo de Mora, concelho do Vimioso, há um sítio chamado Moitoitico e também Moitoito. Relacionar-se-á com moita, moitica e Montouto com montico, montoutico? Montouto fica na encosta de um pequeno outeiro, mas em frente há um outro muito mais elevado e contíguo a este a montanha da Coroa com 1272 metros de altura. Mora (Mora nas Inquirições (532) tiradas pelos anos de 1258). Vem de amora (mora na pronúncia popular bragançana), fruta da amoreira (moreira na mesma pronúncia (533)). Morais (Moraes e Moraaes nas Inquirições (534) dos anos de 1258). Vem de Amoreira (moreira na pronúncia popular), Moreirais, Morais. Quer dizer terra de amoreiras.

(529) Tomo IV, p. 73, 150, 151, 157, 188, 189, 192, 208, 231, 272 a 323, 364 a 366, 448, 543, 627 e 642, destas Memórias. (530) Ibidem, tomo III, p. 384 e 395, e tomo IV, p. 41, 44, 50, 340 e 536. (531) VITERBO – Elucidário, artigo «Dízima». (532) Tomo IV, p. 12 e 349, destas Memórias. (533) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 89. (534) Tomo III, p. 317, 333, 351 e 363, e tomo IV, p. 344, 446 e 534, destas Memórias.

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Moredo (Moledo e Moredo nas Inquirições (535) de 1258). Virá de moreira, moreiredo, abundância de moreiras ou de muro, muredo? Mós (Moos, Moz nas Inquirições (536) dos anos de 1258 e Molas no foral dado em 1162 (537)). Virá do latim mola, ae, pedra do moinho? Realmente, nas povoações bragançanas de nome Mós abunda o granito próprio para pedras de moinhos. Mó como sinónimo de pedra é frequente (538). Pinho Leal (539) diz que os antigos portugueses chamavam aos mouros môs ou moos. Mosteiro e Mosteiró (pequeno mosteiro). Segundo se vê de vários documentos citados por Viterbo (540), foi enorme antigamente o número de casas religiosas em Portugal com o nome de Mosteiro, pois a sua fundação equivalia a um morgadio criado a pretexto religioso. E, como alguns eram insignificantes nas rendas e número de pessoal, vá de se designarem depreciativamente pelo diminutivo de Mosteiró. Muitas vezes nem convento havia; fazia as suas vezes a casa de residência de uma pessoa ou família que legara por sua morte os bens a um mosteiro, do qual se constituía familiar, continuando todavia a viver em sua casa sob tal ou qual observância das regras desse convento (541). Daqui proviria, em alguns casos, a designação de mosteiro dada a essas casas. Mourão. Virá do nome próprio de homem Mourão e Mauran? Um Mauran serve de testemunha num documento do século XI (542). Outro figura ainda no mesmo tempo (543). A. Cortesão menciona um homem de nome Mourão que viveu no século XV (544). A palavra mourão tem diversas acepções, como vemos do Vocabulário de Bluteau e significa: estaca ou cana que se mete direita na terra para sustentar a cepa; umas pedras altas que se encravam nos lados das eiras para se fazerem os azerves para tomar o vento

(535) Tomo III, p. 307, 314, 316, 317, 328, 340, 341, 343, 344, 357, 368, 369, 370, 371 e 386. (536) Ibidem, p. 87, 317, 377, 385 e 389, e tomo IV, p. 79, 231, 286, 291, 324, 412, 448 e 627. (537) Ibidem, tomo IV, p. 412. (538) Portugaliae Monumenta Historica, Os livros de linhagens, p. 181. (539) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Caramos». (540) Elucidário, artigos «Abade», «Abadia», «Familiares», «Igreja» e «Mosteiro». (541) Ibidem, lugares citados (542) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 283, ano 1034 (543) Ibidem. (544) O Arqueólogo Português, vol. XII, p. 242.

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quando é demasiado, pondo de mourão a mourão um pau, no qual se encosta o mato. Mourão no jogo das canas é o quadrilheiro que vai do lado esquerdo. Ainda, segundo o mesmo Bluteau, se dá o nome de mourão a um bichinho compridinho que anda pelas paredes e que, quando o tocam, se enrosca. A propósito da etimologia popular de Mourão, ver pág. 486 do tomo IX destas Memórias e também a rubrica Bornes. Murçó. Diz o Abade Pedro Augusto Ferreira (545) que vem de Mauriciolus, diminutivo de Mauricius. Múrias. Vem de Múria, nome próprio bem conhecido na epigrafia romana, da qual se encontra um texto no Museu Regional de Bragança (546). Nabalho [Navalho]. De nabo, nabal, nabalheira, nabalho, pequeno nabal, toponímico frequentíssimo, como adiante indicamos no artigo Toponímia. Ver a rubrica Nabo. Nabo. Pode vir de Nabam, Nabo, Nabulo e Navagem, visto todos estes nomes significarem o pré que se paga nas barcas de passagem (547). Também, como é tão frequente o toponímico nabo, nabal, nabalho e nabalheira, pode pensar-se nesta importante leguminosa, tão apreciada na cultura agrícola, como proveniência do étimo. Ferreira diz que vem de «lben» ou «Ben-Abu», nome próprio mouro (548). Naso. «Do corpo humano foram tirados muitos apodos, que passaram a nomes próprios. Assim: Nariz, do latim nasum ou nasus, i, deu Nazes e Nazido, aldeias nossas – Naso, santuário trasmontano de Nossa Senhora do Naso – e Nozão, narigão, cognome de Ovídio, por ter o nariz muito grande» (549). Nogueira (Nogueyra e Nogueira nas Inquirições (550) tiradas pelos anos de 1258). Ver a rubrica Nozedo. (545) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológica…, tomo III, p. 426 (546) Ver p. 49 do tomo IX destas Memórias. (547) V ITERBO – Elucidário, artigos «Nabam», «Nabo», «Nabulo» e «Navagem». Neste último artigo cita documentos dos anos de 1289, 1380 e 1396, existentes no arquivo da Câmara de Moncorvo, referentes à barca do Pocinho e outras no rio Douro tocantes à dita câmara. (548) FERREIRA, Pedro Augusto, continuador do Portugal Antigo e Moderno, artigo «Zava». (549) FERREIRA, Pedro Augusto em A Palavra de 16-1-1894. (550) Tomo III, p. 58, 87, 307, 310, 317, 320, 358, 379 e 388 destas Memórias.

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Nogueira (Nugaria, Nogueyra e Nogueira nas Inquirições citadas (551)). Nozedo. Vem de nux, cis, a nogueira, com o sufixo edo, para indicar terra abundante em nogueiras. Daqui tiraram o nome: Nozedo de Baixo (Nuzedo de subcastelo, Luzedo, Nuzedo e Nozedo nas Inquirições (552) feitas pelos anos de 1258). Nozedo de Cima (Nuzedo taspasandi, Nuzedo, Luzedo, Luzedo traspassandi nas mesmas Inquirições (553), Nuzedo Trespassante em Carvalho da Costa (554)). Nozelos (Luzelos e Nuzelos nas Inquirições (555) feitas pelos anos de 1258). Ver a rubrica Nozedo. Nunes (556). É patronímico de Nuno, e tanto um como outro frequentíssimos na documentação dos Portugaliae Monumenta Historica e nos Livros de linhagens publicados nos mesmos, pelo que julgamos escusado aduzir textos. Oleirinhos (Olleiroos e Oleiros do Sabor nas Inquirições (557) dos anos de 1258 e outros documentos desta época; Oleyrinhos do Sabor no Prontuário das terras de Portugal. 1689). Deriva do fabrico de telha ou olarias que aí houvesse antigamente, pois hoje nada resta. Ver Alfaião. Oleiros da Vreia (Oleiros nas Inquirições (558) tiradas pelos anos de 1258). Deve provir da indústria da olaria, como indicamos no artigo Oleirinhos. Ver a rubrica Alfaião. Olmos. Vem de olmos, negrilhos (ulmus glabra).

(551) Tomo III, p. 58, 87, 307, 310, 317, 320, 358, 379 e 388, e tomo IV, p. 365, 366, 384 e 508, destas Memórias. (552) Tomo IV, p. 47, 48 e 341. Ver também tomo III, p. 391 e 392. (553) Ibidem, p. 47, 48, 49, 52 e 341. (554) COSTA, A. Carvalho da – Corografia Portuguesa, tomo I, p. 485. (555) Tomo IV, p. 26, 28, 32, 169, 192, 257, 449, 535 e 627. Ver também tomo III, p. 173 e 393. VITERBO – Elucidário, artigo «Família», menciona um homem de nome Nonnelo, que vivia em 812. (556) Ibidem, tomo III, p. 87, 317, 325 e 381, e tomo IV, p. 336 e 470. (557) Ibidem, tomo III, p. 87 e 318, e tomo IV, p. 445 (558) Ibidem, tomo III, p. 318 e 399.

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Ousilhão (Osilhom, Ousilhão, Uzilo, Ousilhom, Uzilom e Uzilon nas Inquirições (559) tiradas pelos anos de 1258 e noutros documentos desta época). Ozeive [Zeive] (Uzeive nas Inquirições (560) feitas nos anos de 1258). Modernamente deram em escrever Zeive e também o povo a pronunciar assim. Deve vir de Ozevio, nome próprio de homem já usado no século XI (561). Paçó. É quase geral nos forais a palavra palácio (562) para indicar a casa da câmara municipal, onde se administrava a justiça e se pagavam as multas e condenações impostas aos transgressores das disposições forarengas (563). Daqui resultaram os onomásticos geográficos Paçó (pequeno pácio, paço, palácio), Paços, Palácios e Palaçoulo (pequeno palácio), aplicados a terras que tiveram jurisdição municipal. Também em alguns casos Palácio significa convento, casa, mosteiro, vivenda religiosa e ainda cartório de um tabelião público (564), bem como palácio real ou casa de algum vassalo nobre e honrado (565). Ver o artigo Baçal, pág. 95. Palaçoulo (Polaciola e Palaciolo (566), Palaçoullo (567) e Palhaçoulo (568). Palaciola na carta de doação de el-rei D. Afonso da era de 1210). Para a sua etimologia, ver a rubrica anterior (Paçó).

Palancar. No concelho do Mogadouro emprega-se a palavra palanco, que significa «certa gramínea comparada à aveia» (569), de onde pode vir

(559) Tomo III, p. 59, 87, 317, 325, 380 e 394, e tomo IV, p. 336, 445, 470, 534 e 536. (560) Ibidem, p. 318 e 410, e tomo IV, p. 336 e 445. No VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal, manuscrito da Torre do Tombo, vem escrito «Ozeine». (561) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 595, ano 1081; doc. 623, ano 1083. RIBEIRO, Pedro – Dissertações Cronológicas, tomo I, documento 17. (562) Ver os que publicámos nos tomos III e IV destas Memórias, principalmente os de p. 403 a 440 do tomo IV. (563) VITERBO – Elucidário, artigo «Palácio». (564) Ibidem, artigo «Paço». (565) Ibidem, artigo «Palácio». (566) Num documento de 1212, em que el-rei D. Afonso II fez doação do reguengo de Palaçoulo ao seu cavaleiro Pedro Meendiz. Torre do Tombo, liv. II das Doações de D. Afonso III, fól. 15 v. (567) Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Contratos de D. João III, fól. 74 v. É do ano de 1528. (568) VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal, p. 539. (569) MORENO, Augusto César – Vocabulário Trasmontano. «Revista Lusitana», vol. V, p. 99. FERREIRA, Pedro Augusto – Tentatativa Etimológico-Toponímica, vol. II, p. 27.

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palancar para indicar terra que produz palanco (570). Em terra de Bragança emprega-se muito a palavra palanca na significação de panca, bem como palanca de esterco para indicar o estrume de curral, quando sai em pelotas compactas que custam a desagregar-se. Mas tendo nós em português, como apontam os dicionários, palanca no significado de fortim, construído de estacas e terra, e palancar no de guarnecer de palancas, parece mais provável que esta circunstância indique o nome da povoação mirandesa, que assim equivalerá ao de castro e outros do mesmo género, devidos à táctica militar. Bragança também teve uma defesa constituída, em parte, por estacaria, de onde o nome de Estacada, que ainda perdura. Palas. Virá de Pala ou Palla, nome próprio de mulher (571) ou das palas, espécie de cabanas ou abrigos naturais, formados pelas fragas tão abundantes no termo da povoação? Parada. Dava-se o nome de Parada, Jantar, Comedoria, Comedura, Colecta, Colheita, Vida e Visitação (quando se tratava de bispos ou outras autoridades eclesiásticas) ao foro que o povo pagava aos senhores da terra, quando nela apareciam, e consistia em lhe terem pronta certa quantidade de mantimentos ou dinheiro para mantença e aposentadoria deles e da comitiva (572). Nos tomos III e IV destas Memórias publicamos os forais do distrito de Bragança e neles se indicam várias formas revestidas pela Parada, bem como no artigo Forais, pág. 591 do tomo IX das mesmas. Do exposto, resulta que Parada indica terra que pagou o foro atrás mencionado, e, da mesma forma, Paradinha e Paradela as que pagavam menor quantidade, meia Parada, por exemplo. O nosso venerando mestre Dr. J. Leite de Vasconcelos discorda, pois diz que «Paradela se deve entender, não como foro pequeno, mas como denominação de um lugar menor em relação a outro chamado Parada» (573). É certo, como ele lembra, que Paradela e (570) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia…, tomo I, p. 94, tomo II, p. 45. (571) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 478, ano 1069; doc. 513, ano 1074; doc. 531, ano 1076; doc. 575, ano 1080; doc. 582, ano 1080. VITERBO – Elucidário, artigos «Acrepantar» e «Deo-Vota», p. 257, menciona outras. (572) VITERBO – Elucidário, artigo «Parada». (573) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 95. O mesmo nas Memórias de Mondim da Beira, 1933, p. 263, voltando ao assunto, diz: «Hoje estou inclinado a explicar Parada por lugar onde se põe bestas para mudas de quem corre a posta (Dicionário de Morais)». É possível que assim sucedesse em alguns casos, mas em muitas povoações deste nome que conhecemos, sitas num canto sem sequência para outras, é pouco provável que tomassem o nome daquela circunstância.

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Paradinha podem referir-se a uma Parada desaparecida, mas parece-nos muito, pois só no distrito de Bragança há oito povoações com aqueles nomes mui distantes, algumas, umas das outras, e sendo medievais, a julgar pelo foro, deviam deixar vestígios; todavia nada consta. Segundo a etimologia popular, o nome de Parada, no concelho de Alfândega da Fé, resultou de os moradores de duas pequenas povoações que ali havia, antes de extinta aquela, pararem à espera uns pelos outros no sítio onde está agora Parada, a fim de juntos irem à missa a Castro Vicente (574). O Dr. J. L. de Vasconcelos (575) cita outra igualmente popular a propósito de Os Arcos de Paradela, ao pé de Mondim da Beira, resultante de parar ali o saimento fúnebre do conde de Barcelos. Como é grande a imaginação popular e como faz ciência a seu modo! Parada de Infanções (Parada nas Inquirições (576) tiradas pelos anos de 1258). Ver a rubrica Parada. Paradela. Ver a mesma rubrica. Paradinha (Paradinas e Paradina nas Inquirições (577) tiradas pelos anos de 1258). Ver a rubrica Parada. Paradinha dos Besteiros. Ver os artigos Besteiros e Parada. Parambos. Será corrupção de Paramus? Ver a rubrica Parâmio. Parâmio. (Paramio e Paramos nas Inquirições (578) tiradas pelos anos de 1258). Virá de páramo, que significa campo deserto, raso e inculto, exposto a todos os ventos, qualquer lugar extremamente frio e desabrigado? É possível que não, embora as duas palavras sejam aparentadas, e topograficamente aos Parâmios que conhecemos quadre tal classificação, mas sim de paramo, que significa «lugar, povo, quinta, casal ou herdade, que lograva os privilé-

(574) VILARES, João B. – Monografia do Concelho de Alfândega da Fé, 1927, p. 211. (575) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 95 (576) Tomo III, p. 61, 69, 309, 314, 316, 327, 339, 342 e 375 destas Memórias. (577) Ibidem, p. 58, 70, 86, 87, 314, 328 e 330. (578) Ibidem, p. 318, 325, 409 e 410.

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gios de Honra, por nele se haver criado ao peito de alguma mulher casada o filho legítimo de um Rico-Homem ou Fidalgo honrado» (579). Contudo, em abono da primeira conjectura temos um documento de Miranda do Douro do ano de 1758, citado pelo Doutor J. Leite de Vasconcelos (580), em que aparece paramio com a designação de «pardieiro» ou casa «arruinada», e no Museu de Leão (Espanha) vimos uma lápide votiva em que Quinto Tullio Maximo, legado da Legião VII Feliz, dedica à deusa Diana os cornos dos cervos que matou caçando na campina rasa (in paramia aequore) (581). Peleas. Rodrigo Mendes da Silva (582) menciona uma D. Fulquila Pelae, filha do rei D. Pelaio, de onde se colhe que Pelae é patronímico de Pelaio, do qual viria Pelaes, Peleias, para indicar as filhas de um Pelaio. Pena Branca. Pen é uma palavra céltica, que significa rochedo, fraga, cabeço, cume e elevação, de onde vem pena, penha, penhasco, penedo (583). Daqui os nossos geográficos Pena Branca (fraga branca); Penhas Juntas (fragas juntas), assim denominados porque no sítio havia rochedos brancos, agrupados; Penhas Roias, fragas avermelhadas, do latim rubia, ae, segundo J. Leite de Vasconcelos (584); Pena Mourisca (Soutelo da) fraga mourisca, ou seja de mouros. É certo que no distrito de Bragança temos: uva mourisca, linho mourisco (cânhamo), erva mourisca, e os nossos lavradores usam mui frequentemente chamar mourisca ou mourisco à vaca ou boi de cor castanho-escuro, azeitonado, quase preto, de onde se conclui que esta cor é significada por aquele nome, que muito bem quadra ao fragueiro. Penhas Juntas (Penas Juntas nas Inquirições 1258). Ver a rubrica Pena Branca.

(585)

tiradas pelos anos de

(579) VITERBO – Elucidário, artigos «Amadigos», «Honra» e «Paranho» (580) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 140. (581) Encontra-se a inscrição completa no NIETO, Angel – Guia Historico-Descriptiva del Museo Arqueologico Provincial de Leon. Madrid, 1925, p. 19 e seg. Hübner e J. Leite de Vasconcelos, no lugar atrás citado, também se referem a este texto epigráfico, bem como à palavra paramia significando «planície alta e inculta», ou seja o mesmo que páramo. (582) MENDEZ, SILVA Rodrigo da – Catalogo Genealogico, p. 26 v. (583) LEAL , Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigos «Lisboa», p. 201, e «Vianna». VASCONCELOS , J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, 1900, tomo I, p. 96 e 288. V ITERBO – Elucidário, artigo «Penella». (584) VASCONCELOS, J. L. de – Opúsculos. (585) Tomo III, p. 69, 87, 317, 326 e 390, e tomo IV, p. 193, 445 e 535, destas Memórias.

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Penas Roias (Pena Roya nas Inquirições (586) de 1258 e noutros documentos). Quanto à proveniência do nome, ver Pena Branca. Relativamente à composição entre a Ordem dos Templários e a de Malta, ver os artigos Algoso e Mogadouro no tomo IX destas Memórias. Pepim, rio que nasce na serra de Montesinho, lado este, termo de Calabor (Espanha), divide ao meio a povoação de Aveleda, banha o termo de Baçal e desagua no Sabor em Trambe las Aguas, termo de Oleirinhos. Baptista (587), no Dicionário de Geografia Universal por uma sociedade de homens de ciência, ampliado na parte referente a Portugal por Tito Augusto de Carvalho, 1874-1879, bem como outros corógrafos, dão o nome de Sabor a este rio; porém o povo tem como tal o outro nascido na mesma serra, lado poente, que passa junto às povoações de França e Rabal. Cardoso (588) diz que o rio Pepin não tem nome e Pinho Leal (589) dá-lhe o de «Aveleda», por passar nesta povoação. Mas eu soube por informações de pessoas antigas, colhidas nos anos de 1896 a 1910, em que paroquiei a freguesia de Aveleda, então anexada a Baçal, que se chamava Pepim, e este mesmo nome achei em assentos do registo paroquial, no intuito de indicarem se os interessados moravam no bairro direito ou esquerdo do rio. O seu étimo deve vir do nome próprio de homem – Pepi (590), Pepinio (591) e Pepino (592). Convém também notar que Pepin é diminutivo carinhoso, muito usado, de Pepe em espanhol, que significa José, podendo deste vir o nome ao rio. Peredo (Peredo nas Inquirições (593) tiradas pelos anos de 1258 e noutros documentos). Perredo num documento do século XVII (594). Peredo é contracção de pereiredo, sítio abundante em pereiras (595).

(586) Tomo III, p. 18, e tomo IV, p. 7, 8, 10, 12, 14, 20, 21, 53, 54, 55, 252, 255, 281, 288, 348, 368, 436, 439, 557, 448 e 627, destas Memórias. (587) BAPTISTA, João Maria – Corografia moderna do Reino de Portugal. (588) CARDOSO, Luís, Padre – Dicionário Geográfico, 1747, artigo «Aveleda». (589) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Aveleda». (590) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 540, ano 1077. (591) Ibidem, doc. 251, ano 1022. (592) Ibidem, doc. 66, ano 952; doc. 269, ano 1030. (593) Tomo III, p. 315, e tomo IV, p. 277, 279, 374 e 347, destas Memórias. (594) VASCONCELOS, Vicente Ribeiro de – Prontuário das terras de Portugal. (595) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo III, p. 391.

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Peso (596). Pode vir de teso, sítio alto, por substituição de letras (597). Como a influência espanhola se sente tanto na nossa toponímia, lembra que provirá da moeda peso, de quinze reales de valor, cujo nome ainda hoje muita gente dá aos duros, moedas de prata de vinte reales ou cinco pesetas. Há mais povoações em Portugal que tomaram o nome de peças monetárias. Petisqueira (Pedrisqueira nas Inquirições (598) de 1258 e noutros documentos). Pitriqueira no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manusc. da Torre do Tombo. Vasconcelos (599) relaciona Petisqueira com petisco, «sítio onde há abundância de produtos naturais». Mas o étimo deve estar em pedra, pedrisca e pedrisqueira, abundância de pedregulhos. Picões. Picon é nome próprio de homem, usado na Idade Média, podendo vir do genitivo dele o nome à povoação. Nos Portugaliae Monumenta Historica (600) figura um; João Pedro Ribeiro (601) menciona outro num documento da era de 1152 e Viterbo, (602) aponta um Miguel Picon num documento de 1211. Pode também vir de pico, monte, elevação, terminada em ponta aguda, e, na verdade, ao nosso Picões não deixa de calhar topograficamente este étimo. Picote (Picote nas Inquirições (603) tiradas pelos anos de 1258). É um diminutivo de pico, cabeço, outeiro, alto, elevação, píncaro, eminência equivalente a picote. Portanto, indica povoação situada nestas condições topográficas. Também picote significa tecido grosseiro de lã chamado pardo, ou picote em terras bragançanas e noutras. Viterbo (604) cita um documento de 1479 em que picote aparece com esta significação. Usou-se também deste tecido como sinal de luto, segundo inculca Cervantes: En tanto que en si vuelve Altisidora, Muerta por la crueldade de D. Quijote, Y entanto que en la corte encantadora Se vistieron las damas de picote (605). (596) Tomo IV, p. 348, destas Memórias. (597) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo III, p. 90. (598) Tomo III, p. 282 e 328, destas Memórias. (599) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo II, p. 50, em nota. (600) Diplomata et Chartae, doc. 3, anos 850-866. (601) RIBEIRO, João Pedro – Observações de Diplomacia Portuguesa, parte 1, observação X, p. 129. (602) VITERBO – Elucidário, artigo «Vizinho». (603) Tomo IV, p. 11, destas Memórias. (604) VITERBO – Elucidário, artigo «Décimas», p. 247. (605) CERVANTES – D. Quijote, tomo II, cap. 69.

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Pinela (Pinela e Penela nas Inquirições (606) tiradas pelos anos de 1258). Vem de penela (é quase constante esta grafia nas Inquirições abaixo citadas), «diminutivo de peña, penna ou penha, que na baixa latinidade significava o cabeço, outeiro, monte ou rochedo em que antigamente se fundaram os castelos, praças e defensões» (607). Pinelo (Pinello e Pinelo nas Inquirições (608) e documentos medievos). Virá do nome próprio Pigniolus (609), Piniolus (610), Piniolo (611) e Pinolo (612) ou será o diminutivo de pino, pico, cume do monte, cabeço, outeiro, para indicar que a povoação está situada em sítio alto, elevado? Ver a rubrica Pinela. Poiares (613). Poyar, no sentido de «subir, trepar, fazer poio ou escalão de alguma coisa para tomar um posto, ou escalão mais eminente», é muito usado pelos nossos clássicos antigos: Barros, Zurara e outros (614). O toponímico Poio é frequente no sul do distrito de Bragança, para indicar «monte, outeiro ou colina mais alta e acuminada» (615). Temos pois que poiares quer dizer que a povoação ou o seu termo não são planos mas sim relevados por eminências. Pombares (616): De Pombal, Pombales, pombares, por influência do espanhol. Portela (Portela nas Inquirições (617) tiradas pelos anos de 1258). Portela é toponímico frequentíssimo e significa sítio um tanto elevado entre duas eminências ou outeiros mais altos, aos quais serve como de abertura que-

(606) Tomo III, p. 311, 314, 316, 323, 340, 343, 346 e 369, e tomo IV, p. 344 e 446, destas Memórias. (607) VITERBO – Elucidário, artigo «Penela». (608) Tomo III, p. 49, 58 e 86, e tomo IV, p. 19, 21, 160, 191, 350, 385, 447 e 473, destas Memórias. (609) Portugaliae Monum. Historica, Diplomata et Chartae, documento 543, ano 1077. (610) Ibidem, doc. 638, ano 1076. (611) Ibidem, doc. 47, ano 938; doc. 357, ano 1047; doc. 423, ano 1060; doc. 767, ano 1092. VITERBO – Elucidário, artigo «Maldições». (612) Ibidem, doc. 748, ano 1091. (613) Tomo IV, p. 329, destas Memórias. (614) VITERBO – Elucidário, artigo «Poyar». (615) Ibidem, artigo «Poio». VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. XXII, p. 319. (616) Tomo III, p. 302, e tomo IV, p. 344, destas Memórias. (617) Ibidem, tomo III, p. 318, 396 e 397.

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brada, porta, entrada, garganta ou passagem (618). É um diminutivo de porto, equivalente a pequeno porto, pequena porta de entrada. Portelo. Portelo, diz Herculano, é o tribunal jurisdicional e, no sentido figurado, o exercício da jurisdição, aportelado o que a exerce. Esta denominação acha-se no século XIV geralmente usada para significar uma espécie de magistrados inferiores aos juízes municipais. Da confrontação das Inquirições de 1290 conhece-se que esses aportelados eram o mesmo que os jurados das aldeias (619). Na Torre do Tombo há um livro manuscrito referente às demarcações desta povoação de Portelo (620). Póvoa (621). Os nomes de Póvoa, Pobla, Poblança e Povoança são frequentes na documentação medieval para significar povoação (622); portanto, Póvoa quer dizer povo, povoação. Pousadas (Pousadas nas Inquirições (623) feitas pelos anos de 1258). Deve corresponder a aposentadoria e albergaria, ou seja ao direito que os fidalgos se arrogavam de hospedagem em casa dos plebeus, devorando-lhe os bens e o resto. É por isso que os forais consignam a isenção de aposentadorias como conquista grandemente almejada. Felizmente, acabaram as vexatórias aposentadorias, a não ser para o clero-povo, que ainda continua esmagado com elas pelos magnates eclesiásticos (624). Prado Gatão (Prado-Gatã (625)). Florez (626) menciona um homem de nome Gaton. D. Ordonho, rei de Leão e das Astúrias, foi casado três vezes: a primeira com D. Elvira, neta do conde Gatão, um dos principais de Galiza, que povoou Astorga e várias outras terras; descendente do rei godo Flávio Egica (627).

(618) VITERBO – Elucidário, artigos «Porto» e «Viso». (619) HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, livro 8.°, parte, 2.ª, p. 180. VITERBO – Elucidário, artigo «Aportalado». (620) Tomo VII, p. 724, destas Memórias. (621) Ibidem, tomo IV, p. 250 e 532. (622) VITERBO – Elucidário, artigos «Pobla» e «Pobra». (623) Tomo IV, p. 37, 219, 368 e 375, e tomo IX, p. 394, destas Memórias. (624) VITERBO – Elucidário, artigo «Pousada». (625) Arquivo Nacional da Torre do Tombo, livro VI dos Contratos de D. João III, fól. 74 v. Tomo IV, p. 347, destas Memórias. (626) FLOREZ – España Sagrada, vol. XVI, p. 154. (627) Ibidem, vol. XVI, p. 424

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Na Notre Dame, de Vítor Hugo (628), a malfadada Esmeralda, fascinada pelo seu Febus, diz-lhe que se não lhe agrada o seu nome, que ele não acerta a pronunciar, tomará outro, por exemplo Gaton. Gaton, abade (629), Gatone (630) e Gatonizi (631) servem de testemunhas nos documentos que as notas abaixo citam. Gatão é nome próprio de homem, como se evidencia dos documentos atrás citados (632). Quintanilha (Quinteela e Quinteela de Rivulo de masanis nas Inquirições (633) tiradas nos anos de 1258). Ver a rubrica Quintela de Lampaças. Quintela de Lampaças (Quinteela nas Inquirições (634) de 1258). Lampaças deve estar por lampaso, planta também chamada verbasco. Quintela é equivalente a quinta pequena e o mesmo quer dizer Quintanilha, de quintana, quinta pequena (635). Cervantes fala nas «hojas de verdes lampazos» (636). Quirás. Em árabe Quirat. É a semente de alfarroba, que tem o peso de seis grãos de trigo, de que usam os ourives e os boticários (637). Também pode vir dos nomes próprios de homem Queiriacus (638), Queiriaci (639), Quriagus (640), Quriagu (641), Quriaquiz (642), Cresconius quinazi (643) e Quiriaco (644), que serviram de testemunhas ou de confirmantes nos documentos abaixo citados nas notas.

(628) Livro 8.°, capítulo VIII. (629) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 6, ano 870; doc. 8, ano 875; doc. 146, ano 985; doc. 546, ano 1077. (630) Ibidem, doc. 98, ano 968. (631) Ibidem, doc. 170, ano 994. (632) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 97. (633) Tomo III, p. 305, 309, 318, 399 e 403, destas Memórias. (634) Ibidem, p. 298 e 359, e tomo IV, p. 231, 344, 446, 534,535 e 664. (635) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. II, p. 49. O Arqueólogo Português, vol. III, p. 38. (636) CERVANTES – D. Quijote, tomo 1, cap. XI, p. 114 (mihi). (637) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal, 1789. (638) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 88, ano 964. (639) Ibidem, doc. 66, ano 952. (640) Ibidem, doc. 9, ano 882. (641) Ibidem, doc. 682, ano 1087. (642) Ibidem, doc. 173, ano 995; doc. 193, ano 1004; doc. 768, ano 1092. (643) Ibidem, doc. 39, ano 933 (644) Ibidem, doc. 67, ano 953.

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Rabaçal, rio que nasce na Galiza e entra no Tuela três quilómetros acima de Mirandela. Vem de rabaça, rabaçal, sítio onde abundam as rabaças. Esta planta vegeta nos locais aquáticos. Diz a canção popular: Coitadinha da rabaça E do seu primo agrião; Sempre está na frescura. Nunca sabe quando é verão.

Rabal (Rabaal, Arravaal e Ravaal nas Inquirições (645) tiradas pelos anos de 1258). Virá do patronímico de Rabaldo, que aparece nos documentos seguintes: Rabalduz (646) e Rabaldes (647)? D. Pedro Rabaldis foi bispo do Porto pelos anos de 1197. Na Monarquia Lusitana, 2, p. 473, vem uma escritura em que Rodrigo, alcaide de Coimbra, e sua mulher Elvira Raabaldez doam certos bens ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Também se podia pensar que viesse de rabalva, medida de sólidos e líquidos (648), e não seria povoação única na província trasmontana que tomasse o nome de coisas deste género; à semelhança de Fiães, Talhas, Talhinhas, Parada, Vieiro e outras. O Doutor J. Leite de Vasconcelos (649) deriva Rabaal (= Raval) < Rabanal, terreno sementado ou que produz rábanos e ainda melhor, talvez, rabas. Na verdade, o termo de Rabal é muito próprio para rabas e cultivam-nas muito. Rebordainhos (Rebordãyos, Revordinos e Revordino nas Inquirições (650) tiradas pelos anos de 1258). Ver a rubrica Rebordãos. Rebordãos (Revordanos e Revordaos nas Inquirições (651) feitas pelos anos de 1258 e noutros documentos. Em algumas terras dão o nome de rebordã a uma castanha produzida em castanheiros não enxertados (bravos) chamados rebordãos, de sabor fino, mais apreciada que a dos enxertos e de forma arredondada. Rebordãos deve pertencer à família léxica de Roboredo, montado de carvalhos junto a Moncorvo, cujo nome vem do latim robur, is, o carvalho. Rovoreda (652), Roverdas (653) e Rovoreta (654) aparecem nos documen(645) Tomo III, p. 87, 275, 318, 321 e 405, e tomo IV, p. 336, 445, 533, 536 e 663, destas Memórias. (646) Portugaliae Monumenta Historica, Inquirições feitas em 1258, p. 488, 2.ª coluna. (647) Ibidem, Os livros de linhagens, p. 155 e 171. (648) VITERBO – Elucidário, artigo «Rabalha». (649) VASCONCELOS, J. Leite de – Onomatologia, p. 385. (650) Tomo III, p. 61, 87, 330, 360 e 372, destas Memórias. (651) Tomo III, p. 66, 299, 300, 313, 317 e 386, destas Memórias. (652) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 287, ano 1034; doc. 420, ano 1059. (653) Ibidem, doc. 173, ano 995. (654) Ibidem, doc. 224, ano 1014.

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tos abaixo citados com a significação de matas, bosques. Rebordainhos e Rebordelo são diminutivos de Rebordãos. Rebordelo (Revordelo e Rebordelo nas Inquirições (655) feitas nos anos de 1258). Ver a mesma rubrica. Refega (Refega e Arrefega nas referidas Inquirições (656) de 1258). Diz Ferreira (657) que «pode vir do espanhol Revéga – veiga ancha, grande, – ou de Revéga, o mesmo que reviéga, revelha, muito velha». Refóios. Nos documentos medievos aparece frequentemente a frase fogio lopale (658), fogium de lupo (659). No cânon 15 do Concílio de Compostela, celebrado em 1115, a que concorreram os bispos sufragâneos, bem como os de Braga, manda-se que todos os sábados os presbíteros, cavaleiros e camponeses, se juntem para dar caça aos lobos, armando-lhes precipícios, em vulgar fojos, fogios (660). Em algumas terras, diz Pinho Leal, antes da intervenção das armas de fogo, para apanharem os lobos faziam dois muros muito compridos (alguns tinham dois mil metros) e iam sempre tendendo um para o outro até terminarem num poço ou fojo, cuja abertura estava disfarçada com ramos. Os lobos eram para lá impelidos pelos povos em montarias; a esta circunstância muitas povoações com o nome de Fojo, Foio, Refóios devem o seu nome (661). Nesta minha povoação de Baçal, concelho de Bragança, ainda há um destes poços no sítio da Cabreira, que, apesar de muito entupido, ainda apresenta vestígios do que foi e a tradição popular confirma-lhe o destino primitivo. Não apresenta vestígios de muros nem fossos, mas dizem que atraíam para lá os lobos com carniça de rezes mortas e também por meio de um cordeiro vivo preso em tais circunstâncias, que o lobo caía ao poço antes de abocanhar o rechélo.

(655) Ibidem, tomo IV, p. 47, 48, 52, 342, 447 e 536. (656) Ibidem, p. 9, 10, 11, 14 e 16. (657) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, vol. II, p. 28 (658) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 486, ano 1070. (659) VITERBO – Elucidário, artigo «Foyo». (660) AMADO, José de Sousa – História da Igreja…, tomo III, p. 158. (661) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Foyo». FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. I, p. 29.

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Rego de Vide. Virá de rego da vide ou videira, por ter ao pé alguma, ou de Vitus, i, nome próprio de homem usado no século X (662)? Regodeiro. Virá de Reguadeiro, que no século XIV aparece em documentos com a designação de «arrecadador, recebedor, oficial da arrecadação de alguns direitos reais» (663)? Remondes (664). Virá no nome próprio Remondianes (Remondo Anes)? (665); ou, assim como o patronímico Reimondes vem de Reimão (666), assim também idêntica proveniência pode ter o nome de Remondes? Suarius Reimonde é um dos confirmantes num documento do tempo de D. Afonso III (667). Revelhe. Revelius (668), Revelliz (669), Revele (670) e Revelio (671) servem de testemunhas nos documentos abaixo citados nas notas. Rica Fé (Riquafe nas Inquirições (672) tiradas pelos anos de 1258). Dona Rica, filha de Ladislau, duque da Polónia, foi segunda mulher do rei de Castela Afonso VIII (673). Nos Livros de linhagens (674) mencionam-se três mulheres com o nome de Rica. Jorge Cardoso (675) refere-se à virgem lusitana chamada Santa Fé e a um colégio de jesuítas existente em Goa, dedicado a Santa Fé. Dona Rica, rainha, assina em oito documentos da era de 1192 (676). Rio de Onor (Barrio de Rivulo de Oor e Rio door nas Inquirições (677) citadas). Ver a rubrica Mogadouro.

(662) CORTESÃO, A., O Arqueólogo Português, vol. XVI, p. 246. Diploma 74, ano 976, documentos do Mosteiro de Lorvão. (663) VITERBO – Elucidário, artigo «Reguadeiro», num documento de 1385. (664) Tomo IV, p. 348, destas Memórias. (665) Portugaliae Monumenta Historica, «Os livros de linhagens», p. 204. (666) SANCHES DE BAENA – Arquivo Heráldico-Genealógico, parte II, p. CL. (667) S OUSA , António Caetano de – História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Livro I das Provas, documento n.° 6. (668) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 66, ano 952. (669) Ibidem, doc. 952, não indica o ano. (670) Ibidem, doc. 115, ano 976; doc. 217, ano 1012. (671) Ibidem, doc. 420, ano 1050. (672) Tomo III, p. 305, destas Memórias. (673) MENDEZ, SILVA Rodrigo da – Catalogo Real Genealogico, p. 80 v. (674) Edição dos Portugaliae Monumenta Historica, título 52, p. 354, e título 74, p. 384. (675) CARDOSO, Jorge – Hagiológio Lusitano, referente ao dia 14 de Janeiro. (676) S ERRANO, Luciano, Abade de Silos – Cartulorio de San Vicente de Oviedo (781-1200). Madrid, 1929. (677) Tomo III, p. 282, 402 e 412, destas Memórias.

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Roças (Rosas nas Inquirições (678) dos anos de 1258). É possível que este nome venha do mosteiro de Rosavales ou Rosas Vales (Santa Maria de), em Navarra (Espanha), que tinha propriedades na região bragançana (679). A propósito diz Viterbo: «Eu sei que em Arouca se acham documentos do século XII, que falam na Albergaria de Roças, que estava na serra da Freita, e nos de Braga se faz menção de outra [Albergaria] do mesmo nome na estrada de Braga para Bragança; e quem nos dirá se elas foram, ou não dedicadas em honra de Santa Maria de Roças Vales, que hoje dizemos de Roncesvalhes, e naqueles tempos tão famosa pelo mosteiro de cónegos regrantes, fundado por el-rei D. Sancho de Navarra, e junto dele um hospital tão célebre, assim pelas rendas, como pela batalha que ali deram os mouros ao conde Rolando?...» (680). Roios. Virá de Roio, nome próprio de homem (681)? No Dicionário de Frei Domingos Vieira aponta-se roio como equivalente de arroio, nascente ou linha de água. Romariz. Vem do genitivo do nome próprio Romaricus, Romarici. Romarigu (682), Romarigus (683), Romarigiz (684) e Romariquiz (685) serviram de testemunhas nos documentos abaixo mencionados em notas. Romeu (Romeu nas Inquirições (686) tiradas pelos anos de 1258). Pode vir de Romeus, nome próprio de homem (687). Romeu, como apelido, encontra-se em Os livros de linhagens (688). É bem conhecido o Romeu e Julieta do célebre dramaturgo Shakespeare. Virá Romeu do espanhol, onde significa alecrim?

(678) Ibidem, p. 317, e tomo IV, p. 645. (679) Tomo III, p. 317, e tomo IV, p. 645, destas Memórias. (680) VITERBO – Elucidário, artigo «Roças». (681) Portugaliae Monumenta Historica, «Inquirições» feitas em 1220, p. 92, 2.ª coluna, e p. 108, 1.ª coluna. (682) Ibidem, Diplomata et Chartae, doc. 160, ano 991; doc. 164, ano 991; doc. 180, ano 998; doc. 289, ano 1035; doc. 295, ano 1037. (683) Ibidem, doc. 26, ano 922. (684) Ibidem, doc. 393, ano 1055. (685) Ibidem, doc. 451, ano 1066. (686) Tomo IV, p. 38, destas Memórias. (687) Portugaliae Monumenta Historica, «Inquirições», p. 230, 1.ª coluna; idem, p. 325; RIBEIRO, João Pedro – Apêndice de Documentos ao tomo I das Dissertações Cronológicas, doc. 48, era 1257. (688) Ibidem, p. 153 e 154.

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Sacoias (Soquois, Çaquoys e Soquoys nas Inquirições (689) feitas pelos anos de 1258). Deve vir do nome próprio mouro Zacoi (690), Zacol iben Zacoi (691), Zacoi iben Belte (692) e Johanne iben Zacoy (693). Damião de Góis (694) menciona um xeque de Moçambique de nome Çacoeia, que visitou Vasco da Gama quando ia à descoberta da Índia. Saldanha. O erudito arqueólogo espanhol Moran (695), tratando da povoação de Saldeana, onde têm aparecido várias antigualhas, diz que esse nome provém de Saltus Dianae, que corresponde a «bosque de Diana» e entende que Diana, «deusa das selvas e da caça, filha de Júpiter e de Latona, irmã de Apolo, tinha aqui o seu lucus, lugar ou bosque sagrado, convertido em ermida da Virgem nos primeiros séculos do cristianismo». Ver p. 186 do tomo XI destas Memórias. Salsas (Salsas e Salssas nas Inquirições (696) de 1258). É possível que não venha de salsa, planta muito usada na culinária, mas sim corresponda a «salsinha, traste ainda usado com este nome nos refeitórios de algumas ordens religiosas» (697). Salselas, povoação confinante de Salsas, onde ainda hoje se fabrica muita telha, deve ter a mesma proveniência. Salselas (Salselas, Salsselas e Salsellas nas Inquirições (698) tiradas pelos anos de 1258). Ver a rubrica anterior. Sambade (Sanbady nas Inquirições (699) tiradas pelos anos de 1258). Sambati (700), São Babe, presbítero que floresceu nas Astúrias no século VIII (701).

(689) Tomo III, p. 318, 320 e 402; tomo IV, p. 336 e 353, destas Memórias. (690) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 40, ano 933; doc. 290, ano 1036. (691) Ibidem, doc. 290, ano 1036. (692) Ibidem. (693) Ibidem, doc. 113, ano 974. (694) Crónica de D. Manuel I, primeira parte, capítulo 37. (695) MORAN, Cesar, Padre – Prehistoria de Salamanca. «O Instituto», 1926, p. 627. (696) Tomo III, p. 308, 314, 317, 328, 357 e 369; tomo IV, p. 344, 446, 534 e 536, destas Memórias. (697) VITERBO – Elucidário, artigo «Justa» e nota correspondente de João Pedro Ribeiro. (698) Tomo III, p. 69, 87, 316, 323, 356, 364 e 365; tomo IV, p. 344, 354, 446 e 535, destas Memórias. (699) Ibidem, p. 349, e tomo IV, p. 324, 374, 392 e 446. (700) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 138, ano 983; doc. 143, ano 984. (701) VITERBO – Elucidário, artigo «Bieco».

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Samil (Saamir e Saamil nas Inquirições (702) acima citadas). Virá do nome próprio mouro El-Samail, ou simplesmente Samail, chefe de uma revolta, que se constituiu Wali de Saragoça (703)? Saamiriz, que deixa supor o patronímico Saamiro (de onde vem Sámil) também aparece como apelido nas Inquirições feitas em 1220 (704). Samorinha. Çamorinha na Corografia do Padre Carvalho da Costa. «Vem do baixo latim Samorinus, Samorina, o mesmo que Samuranus, Samorana, filho ou oriundo de Samora ou Zamora» (705). Sampaio ou São Paio. Pelágio, Pelaio e Paio são nomes próprios frequentíssimos na documentação medieva. Amado (706) menciona um português de nome Paio, natural da comarca de Coimbra, martirizado pelos mouros. Sanhoane. Aparece frequentemente nos documentos dos séculos XIII a XV a frase Sam Oane, Sam One, e Sayo Ane para indicar São João (707). Também se chamavam Sanhoaneiros os que pagavam certos foros no mês de São João (Junho) (708). Santa Justa (709). Justa é nome próprio de mulher, de onde deriva o da povoação. Justa é também um vaso para líquidos, que servia nas mesas e ainda como padrão de medida dos mesmos (710). Santalha (Sancte Eolaya de Sancta aala, Sancta aala e Sancta Olalha nas Inquirições (711) tiradas pelos anos de 1258). Santalha tem como padroeira Santa Eulália, de onde, por contracção, veio o nome à povoação. Carvalho (712) dá à padroeira o nome de Santa Olaia.

(702) Tomo III, p. 58, 69, 87, 308, 309, 317, 325 e 373; tomo IV, p. 336 e 337, destas Memórias. (703) HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, vol. I, p. 61. (704) Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, p. 66, 1.ª coluna, idem p. 157. (705) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo II, p. 35. (706) AMADO – História da Igreja, tomo II, p. 223. (707) VITERBO – Elucidário, artigo «Sam Oane» (708) Ibidem, artigo «Sanhoaneiras». (709) Tomo IV, p. 374, destas Memórias. (710) VITERBO – Elucidário, artigo «Justa». (711) Tomo I, p. 66, e tomo IV, p. 45, 50, 52, 447, 463, 534 e 536, destas Memórias. (712) COSTA, António C. da – Corografia Portuguesa, p. 485.

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Santulhão (Sancti Juliani e Santulam nas Inquirições (713) de 1258 e documentos antigos). Santulhão tem como orago São Julião, de onde, por contracção, veio o seu nome. São Cibrão (São Cipriano nas Inquirições (714) tiradas pelos anos de 1258). Cibraão, Cibrão e Cibrião são fórmulas do nome Cipriano, como mostram os documentos medievais. Sancti Cibriani aparece mencionado num documento do ano de 1086 (715). Viterbo indica a forma cibrião noutro do século XIV (716). Cicrão, nome ainda hoje dado a um sítio do termo de Sacoias, é outra variante de Cipriano, Ciprião. São Ciriz ou São Seriz [Sanceriz], como escrevem outros (Sanceriz, Sancires, Santilis, Sancilis, Santiriz, Sansiriz e Sansilis nas Inquirições (717) tiradas pelos anos de 1258). O Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691, códice manuscrito existente no Museu Regional de Bragança, dá-lhe o nome de S. Ciríaco e este santo é o seu orago. São Ciriz vem do genitivo do nome próprio Ciriacus, i. São Jomil. Vem do nome próprio de homem, que na documentação medieva aparece com as seguintes variedades: Gimil (718) e Dominicus Songemiriz (719) testemunham, confirmam ou vendem nos documentos que as notas abaixo citam. São Pedro de Serracenos (Zarrozino, Zarrozinhos, Zarrozinos, Sanctus Petrus e Sancti Petri Zorozynos nas Inquirições (720) dos anos de 1258). Vem do nome próprio Sarracenos, que aparece sob as seguintes formas: Sarracenus (721),

(713) Tomo III, p. 49, 58 e 67, e tomo IV, p. 11, 19, 349, 350, 444, 463 e 558, destas Memórias. (714) Ibidem, p. 394, e tomo IV, p. 344. (715) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 667. (716) VITERBO – Elucidário, artigo «Cibraão». (717) Tomo III, p. 66, 292, 308, 314, 315, 346, 362, 369 e 391, e tomo IV, p. 374, destas Memórias. (718) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, docum. 32, ano 927; doc. 781, ano 1092; doc. 850, ano 1097; doc. 866, ano 1097. Confirmam, V ITERBO – Elucidário, artigo «Igreja», p. 34, e Diploma 20 dos Documentos do mosteiro de Lorvão. (719) Portugaliae…, doc. 781, ano 1092. FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo III, p. 312. (720) Tomo III, p. 313, 314, 315, 318, 372 e 408; tomo IV, p. 336 e 445, destas Memórias. (721) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 11, ano 883; doc. 19, ano 915.

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Sarracina (722), Sarracine (723), Sarracino (724), Sarracino sarraciniz (725), Sarracine (726), Sarracinus (727), Sarracinizi (728), Sarrazina (729), Nunes Sarrazini (730), Sarraziniz (731), Sarrazino (732), Sarrazinu (733) e Sarrazinus (734) vendem, confirmam, corroboram, testemunham nos documentos abaixo citados. Nos Livros de linhagens (735) fala-se dos Sarracins e Sarracenos, que entroncam na família dos Bragançãos. Balzac (736) menciona um homem com o nome de Ernesto João Sarrazine. Sarzeda (Salzeda e Sabseda nas Inquirições (737) tiradas pelos anos de 1258). Pode vir do latim salix, icis, o salgueiro: Saliceta, local onde abunda o salgueiro (738). Também pode vir do espanhol zarra, que significa silva, de onde vem zarzeda, çardeda, terra de muita silva. Tanto um étimo como outro convêm à nossa Sarzeda. Savariz [Sabariz] (Sabaricus, Savariz e Savaris nas Inquirições (739) feitas pelos anos de 1258). Vem do nome próprio de homem Savaricus, i. Savaricus (740), Savarigiz (741), Savariquiz (742), Ecemeno Savariz (743), Savarico (744),

(722) Ibidem, doc. 309, ano 1040; doc. 310, ano 1040. (723) Ibidem, doc. 4, anos 867-912. (724) Ibidem, doc. 39, ano 933; doc. 65, ano 952; doc. 138, ano 984; documento 167, ano 993; doc. 210, ano 1009. RIBEIRO, João P. – Dissertações Cronológicas, tomo I, doc. 11, da era de 1047. (725) Ibidem, doc. 22, ano 919; doc. 50, ano 1065. (726) Ibidem, doc. 138, ano 983. (727) Ibidem, doc. 178, ano 998. (728) Ibidem, doc. 145, ano 985. (729) Ibidem, doc. 215, ano 1010. (730) Ibidem, doc. 36, ano 931-950. (731) Ibidem, doc. 165, ano 992; doc. 168, ano 994. (732) Ibidem, doc. 66, ano 952; doc. 195, ano 1006. (733) Ibidem, doc. 273, ano 1032. (734) Ibidem, doc. 99, ano 968; doc. 114, ano 974; doc. 166, ano 992; documento 214, ano 1010; doc. 238, ano 1018. (735) Edição dos Portugaliae Monumenta Historica, p. 170. (736) BALZAC – O lírio do vale, p. 109, (colecção da Biblioteca Universal Antiga e Moderna; vol. 3). (737) Tomo III, p. 58, 88, 317, 321 e 387, e tomo IV, p. 336, 446 e 559, destas Memórias. (738) VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. XVI, p. 163. FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo III, p. 379. (739) Tomo III, p. 59, 69, 318, 323 e 395, e tomo IV, p. 445 e 509, destas Memórias. (740) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 102, ano 986; doc. 222, ano 1013. (741) Ibidem, doc. 154, ano 982 (742) Ibidem, documento 297, ano 1038. Nos Livros de linhagens, título 50, p. 351 (Edição da Academia) menciona-se um Fernam Savariquiz de Caambra. (743) Ibidem, doc. 147, ano 985. (744) Ibidem, doc. 59, ano 949; doc. 126, ano 979; doc. 143, ano 984.

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Savarigo (745), Savarigus (746) e Savarigu (747) confirmam ou servem de testemunhas nos documentos abaixo citados. Ver a rubrica Guadramil. Seixas (Seixat e Seixas nas Inquirições (748) tiradas nos anos de 1258). Como Aguieiras, Vale de Águia e outras, deriva o nome de seixa, espécie de adem ou pato. Os patos bravos, uns grandes, quase como perus, e outros pequenos, como marrecos, são frequentes em terras frias bragançanas, quer nos rios, quer nas lagunas, onde aparecem principalmente no fim do verão. No Dicionário de Cândido de Figueredo diz-se que seixa é pombo bravo. Selas [Celas] (Sellas, Selas, Celas e Cellas nas Inquirições (749) de 1258 e noutros documentos). Modernamente deram em escrever Celas, talvez para desviar a sinonímia com selas, aparelho de bestas, já memorado no testamento de D. Sancho I em 1189 (750), mas não há perigo de confusão, pois Selas virá do nome próprio Selles (751), e a Bíblia (752) menciona Sela ou Seela, filha de Judá. Selores. O Doutor J. Leite de Vasconcelos diz que nos dicionários escrevem Selores, mas afirma que ouviu pronunciar Celouros, e assim escreve «por motivos filológicos» (753). As Selores, dizem na povoação, fazendo o nome feminino. Sendas. Nos documentos antigos Cendas. Tendas, Çendas e Cendas nas Inquirições (754) dos anos de 1258. Nos séculos X e XI aparecem os nomes próprios de homens Cendas (755), Kendas (756) e Zendas (757), que serviram de teste(745) Ibidem, doc. 189, ano 1002; doc. 248, ano 1021. (746) Ibidem, doc. 3, ano 850 a 866; doc. 228, ano 1016; doc. 277, ano 1032; doc. 342, ano 1046. (747) Ibidem, documento 139, ano 984; doc. 162, ano 993; doc. 175, ano 995; doc. 238, ano 1018; doc. 257, ano 1025; doc. 262, ano 1027; doc. 280. ano 1033. (748) Tomo IV, p. 45, 49 e 50, destas Memórias. (749) Ibidem, tomo III, p. 69, 87, 317, 326, 382 e 393, e tomo IV, p. 29 e 344. (750) VITERBO – Elucidário, artigo «Azimela». (751) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 445, ano 1065. Também no documento 536, ano 1076, figura um indivíduo de nome Selges como testemunha. (752) Génesis, cap. 38, v. 5. (753) O Arqueólogo Português, tomo XXIII, (1918), p. 356. (754) Tomo III, p. 317, 331 e 360, destas Memórias. (755) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 13, ano 905; doc. 39, ano 933; doc. 483, ano 1069; doc. 662, ano 1081. (756) Ibidem, doc. 473, ano 1068. (757) Ibidem, doc. 225, ano 1014.

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munhas ou confirmaram nos documentos que as notas abaixo citam. Cervantes (758) diz, a propósito do medo que Sancho Pança tinha de montar no cavalo de pau, suplicando com lágrimas nos olhos aos circunstantes «que le ayudasen en aquel transe con sendas pater nostres y sendas avemarias». O mesmo, falando de uns garotos, que à entrada do herói manchego, colocaram debaixo do rabo da sua montada e da do seu escudeiro uns arbustos espinhosos, que as obrigaram, com a dor das picadas, a saltar de forma que deram com D. Quixote e Sancho Pança em terra, diz: «y alzando el uno de la cola del rucio, y el otro la de Rocinante, les pusíeron y encajaron sandos manojos de aliagas» (759). Sendas também pode vir de seenda, habitação, casa e ainda atalho, vereda ou caminho estreito (760). Sendim. Vem do nome próprio de homem Sendinus, i. Sandinus (761), Sandinu (762), Sandino (763), Sendinus (764), Sendino (765), Sendinu (766), Sindinus (767), Sindiniz ( 768) e Sindin (769) servem de testemunhas ou confirmam nos documentos abaixo citados. Serapicos (Sarapicos (770), Çarapicos (771), Cerapicos e Çarapicos nas Inquirições (772) tiradas pelos anos de 1258). O Doutor J. L de Vasconcelos (773) entende que o étimo de Çarapicos, como ele escreve, está na palavra «galega

(758) CERVANTES – D. Quijote, tomo II, capítulo II, p. 219 (mihi). (759) Ibidem, tomo II, cap. LXI, p. 325 (mihi). (760) VITERBO – Elucidário, artigo «Seendas». (761) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 191, ano 1002; doc. 194, ano 1005; doc. 208, ano 1009; doc. 209, ano 1009; doc. 214, ano 1010; doc. 215, ano 1010; doc. 238, ano 1018; doc. 246, ano 1021; doc. 257, ano 1025; doc. 283, ano 1034; doc. 288, ano 1035. (762) Ibidem, doc. 26, ano 922; doc. 87, ano 964; doc. 150, ano 985; doc. 200, ano 1008; doc. 203, ano 1008; doc. 242, ano 1019; doc. 390, ano 1053. (763) Ibidem, doc. 56, ano 946; doc. 153, ano 987, doc. 193, ano 1004; doc. 195, ano 1006. (764) Ibidem, doc. 99, ano 968; doc. 342, ano 1045; doc. 355, ano 1047; doc. 435, ano 1063. Neste documento aparecem indistintamente as duas grafias Sandinus e Sendinus. (765) Ibidem, doc. 66, ano 952; doc. 102, ano 971; doc. 126, ano 979; doc. 167, ano 993; doc. 174, ano 995. (766) Ibidem, doc. 42, ano 936. (767) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 20, ano 915; doc. 57, ano 946; doc. 246, ano 1019; doc. 300, ano 1018; doc. 377, ano 1032. (768) Ibidem, doc. 355, ano 1047. (769) Ibidem, doc. 102, ano 971. (770) No Portugal Antigo e Moderno e também no Portugal Sacro Profano. (771) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 81. (772) Tomo III, p. 313, 316 e 331, e tomo IV, p. 55, 444, 446, 447, 512, 535, destas Memórias. (773) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 81.

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zarrapico, que se aparenta com zarrapito (ave aquática que habita os rios e os pântanos)». Também pode vir de nome próprio romano ou, melhor, alcunha. Assim, Públio Cornélio Nasica, cônsul, juntamente com Décimo Júnio Bruto, triunfador dos Galegos em 617, de Roma, teve a alcunha de Serapio (Publius Cornelius, qui Serapio appellatus est (774)) de onde provém Serapico, pequeno Serapio ou Serapiozinho. Igualmente poderá vir de serapis, apio, em latim. Sernande. Sernandus (775), Sesnandus, Sesnandi, Cernandi, Cernande (776), Sesnandus consul colinbriensis (777), Sesnandiz (778), Sisnandus (779), Sisnandiz (780), Sisnondo (781), Soesnandiz Fromosili robora (782) servem de testemunhas, de confirmantes ou roborantes nos documentos abaixo citados nas notas. Sesulfe (Sisulfi, Sisulfy e Sesulffy nas Inquirições (783) tiradas pelos anos de 1258). Vem dos seguinte nomes próprios de homem: Sezulfu (784) e Sisuufiz (785) servem de testemunhas ou de confirmantes nos documentos que as notas abaixo indicam. Soeima. Vem dos seguintes nomes próprios de homem: Zoleima (786), Zoleiman (787), testemunham e confirmam nos documentos abaixo citados. Alexandre Herculano (788) revestiu de cores poéticas a lenda referida por

(774) RESENDE, André de – De Antiquitatibus Lusitaniae, 1790, lib. III, p. 176. (775) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, docum. 36, ano 931. (776) Ibidem, doc. 688, ano 1088, e doc. 852, ano 1097. (777) Ibidem, documentos 626 e 627, ano 1087. (778) Ibidem, doc. 852, ano 1097; doc. 940, ano 1100. (779) Ibidem, doc. 727, ano 1089; doc. 786, ano 1092; doc. 802, ano 1093. (780) Ibidem, doc. 757, ano 1091. (781) Ibidem, doc. 796, ano 1093. (782) Ibidem, doc. 460, ano 1068. (783) Tomo III, p. 18, 61, 63, 67, 86 e 349, e tomo IV, p. 24, 26 a 28, 30, 33, 35, 38, 196, 198, 557 e 627, destas Memórias. (784) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, docum. 480, ano 1069; doc. 483, ano 1069. (785) Ibidem, doc. 180, ano 998. (786) Ibidem, doc. 66, ano 952; doc. 168, ano 994; doc. 342, ano 1045; doc. 355, ano 1047; doc. 452, ano 1067; doc. 855, ano 1097. VITERBO – Elucidário, artigos «Cidade III» e «Famulo», «de Deos», onde se menciona o nome próprio Zoleima. (787) Ibidem, doc. 52, ano 943; doc. 65, ano 952; doc. 66, ano 952; doc. 127, ano 980. (788) Panorama, (1839), p. 307. Ver O Arqueólogo Português, vol. VIII, p. 215, em nota.

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Duarte Nunes de Leão na Crónica de D. Afonso Henriques, relativa ao preto Çoleima feito bispo de Coimbra por aquele rei. E, em nota, alude à doação feita à Sé de Coimbra pelo presbítero Zoleima em 1088, mencionada por Brandão (789). Duarte Nunes de Leão põe em dúvida a prelacia do tal bispo preto, e no mesmo volume do Panorama se refuta a referida lenda. Nos Livros de linhagens (790) menciona-se um homem com o nome Ramdufo Çoleima.

Soeira (Ceoeira, Coeira e Ceoeyra nas Inquirições (791) feitas pelos anos de 1258). Soeira é palavra árabe e significa coisa bem pintada, edificada. Deriva-se do verbo sauara, pintar, edificar, formar, erigir (792). Pode vir também de soieira ou sojeira, palavra técnica cinegética, que significa hoje o processo de caçar coelhos, lebres, perdizes ou outros animais à espera (793). Também pode corresponder a certos usos ou costumeiras impostas nos antigos prazos, que impunham ao colono a obrigação de dar ao senhorio determinados mantimentos, como pão, vinho, etc., que acompanhavam outras dádivas, como leitões, carneiros, etc. Estas costumeiras tinham o nome de soeiras (794). Também se chamavam sueiras certas pedras preciosas, que Viterbo supõe seriam safiras (795). Soeire, Sueiro, Suerio e Suerius aparecem como nomes próprios muito usados em Portugal na documentação medieval e posterior.

Sortilha. Virá de sorte, sortinha, sórtela, sórtilha, pequeno quinhão, sorte ou courela em que se dividiu a terra pelos colonos? Também se dava o nome de sortela a uma espécie de anéis para ornar os dedos (796).

Soutelo. Significa pequeno souto, bosque, monte. Soutelo da Gamoeda, isto é, abundância de gamos; Soutelo da Pena Mourisca, ou seja da fraga anegrada. Aparecem nos documentos antigos as palavras sauta

(789) BRANDÃO – Monarquia Lusitana, parte III, livro VIII, cap. V, p. 13. (790) Edição dos Portugaliae Monumenta Historica, título 59, p. 367. (791) Tomo III, p. 318, 320 e 411, e tomo IV, p. 336, 366, 445, 534 e 536, destas Memórias. (792) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal. (793) VITERBO – Elucidário, artigos «Afeiro» e «Soieira». (794) Ibidem, artigo «Soeiras». (795) VITERBO – Elucidário, artigo «Sueiras». (796) Ibidem, artigo «Sortelas».

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e sauto para indicar matas, soutos, bosques e montes. Assim, temos: Sauta (797), Sautis (798) Sauto (799), Sautos (800) e Sautus (801).

Soutelo da Pena Mourisca. Ver a rubrica Pena Branca.

Souto da Velha. Segundo a etimologia popular, veio este nome de um grande souto de castanheiros, possuído por uma velha de Felgar, situado no local onde agora está a povoação, a qual, para melhor granjeio, mandou fazer uma casa entre fragueiros, de que ainda há vestígios, dizem. Tempo andando, mais casas vieram agregar-se, provindo daqui Souto (castanheiral, castanhal, castanhedo) da Velha. Em frente da casa da velha, junto a uns moinhos, conserva-se ainda parte de um arco de granito e cal, que tem de espessura 1,10 metros e de diâmetro interno 2,05 metros.

Talhas (Talhas e Taalas nas Inquirições (802) tiradas pelos anos de 1258). O termo talha aparece na documentação medieva e posterior para designar um foro que se pagava pelo gado bovino, equídeo, ovino, colmeias (803) e ainda a contribuição paga por cada fogo ou chefe de família, segundo sua capacidade (804). Em Miranda do Douro contam o cereal por talhas ainda hoje, e cada vinte alqueires fazem uma talha. Ainda hoje nesta minha povoação de Baçal se emprega a palavra talhão, pequena talha, para designar uma pequena parcela de terreno encravada noutro. Neste sentido, é possível que o étimo Talhas, como o de sortes e outros, corresponda a quinhões, leiras, etc., em que a terra foi dividida pelo senhorio para entregar aos colonos após a reconquista asturo-leonesa. Talha tem muitas e variadas significações, como pode ver-se nos dicionários, mas

(797) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 259, ano 1025. (798) Ibidem, doc. 26, ano 922; doc. 315, ano 1041. (799) Ibidem, doc. 2, anos 850-866; doc. 61, ano 950; doc. 188, ano 1002; doc. 194, ano 1005; doc. 223, ano 1014; doc. 233, ano 1018; doc. 241, ano 1019. (800) Ibidem, doc. 6, ano 870; doc. 10, ano 883; doc. 56, ano 946; doc. 54, ano 952; doc. 172, ano 994; doc. 175; doc. 246, ano 1021; doc. 252, ano 1023; doc. 266, ano 1029; doc. 269, ano 1030; doc. 320, ano 1042; doc. 324, ano 1043. (801) Ibidem, doc. 212, ano 1009; doc. 215, ano 1010. (802) Tomo III, p. 331, 345, 362 e 371, e tomo IV, p. 345, 446 e 649, destas Memórias. (803) VITERBO – Elucidário, artigo «Armentinho». (804) Ibidem, artigo «Talha».

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na exposta é que deverá estar a da povoação bragançana. Talhinhas deve ter a mesma proveniência.

Talhinhas (Tealinas, Tealyãs e Tãlhiãs nas Inquirições (805) tiradas pelos anos de 1258). Ver a rubrica Talhas.

Teixedo (Teyxedo, Teixeda e Teixedo nas Inquirições (806) acima citadas). Esta povoação, que ainda em 1706 tinha doze fogos (807), está desabitada, sem nenhuma casa em pé. Parece que foi pelos princípios do século XIX que a última família, apenas constituída por marido e mulher, morrendo aquele, retirou para Pombares, a cujo termo pertencia. Teixedo vem de teixo, árvore própria de terrenos frios e húmidos, por junção do sufixo edo, a indicar abundância. Ver a rubrica seguinte.

Teixeira (808). Vem de teixo (taxus), com o sufixo eira (809), conífera própria das terras frias e húmidas, como na serra de Montesinho, onde há uma belíssima mata no sítio chamado Teixedelo, habitat predilecto do porco montês.

Tereiginha, sítio do termo de Bragança, onde há importantes propriedades. Deriva do nome próprio Teresa, Teresinha. «Este Ruy Dias d’Urróo ouve huuma filha de gaamça em huuma molher filha d’algo e avia nome Dona Tareiyia Rodriguez, e chamaromlhe por sobrenome quando era moça Tareyginha porque bailava bem» (810).

Tó. No sítio chamado Cabeço de S. Pedro, termo de Roios, concelho de Vila Flor, abunda uma erva chamada tó pelo povo, que a colhe e guarda cuidadosamente, por lhe atribuir grandes virtudes contra malefícios e maus olhados às crianças e por isso lha dependuram ao pescoço como se fosse

(805) Tomo III, p. 30, 308, 315, 316, 332 e 350, e tomo IV, p. 345, 446 e 535, destas Memórias. (806) Ibidem, tomo III, p. 317, 331 e 369. (807) COSTA, A. Carvalho da – Corografia Portuguesa, tomo I, p. 503. (808) Tomo IV, p. 349, destas Memórias. (809) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia…, tomo I, p. 101. (810) Portugaliae Monumenta Historica, Livros de linhagens, título 44, p. 344.

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relíquia sagrada, de onde vem chamarem-lhe também erva sagrada, erva feiticeira. Virá daqui o nome à povoação de Tó, situada não mui longe deste sítio? É porém de notar que na povoação de Tó dão à referida erva o nome de tom.

Torre de Dona Chama. D. Chamoa Gomez figura como testadora num documento do ano de 1258, citado por Viterbo (811). Chamoa e Chama, nome de mulher, que em latim se diz Flamula, foi muito usado desde o século IX até ao XV (812). Temos pois que esta importante vila bragançana, bem digna de lhe ser restituída a autonomia concelhia, deve o nome a alguma D. Chama, que aí tinha ou mandou edificar uma torre. Flâmula, como nome de mulher, aparece em vários documentos medievais dos séculos X e XI (813). Mesmo em terras bragançanas aparece o nome Dona Chama (814). A propósito da etimologia popular, ver o artigo Torre de Dona Chama.

Tralhariz. Tralhariz está «Talhariz, e este por Calhariz e este por calhandriz, sítio em que abundam calhandras, aves» (815).

Travanca. Há diversas povoações com este nome no distrito de Bragança (816), em que a grafia se mantém constante. O Portugal Antigo e Moderno (817) diz que não lhe foi possível achar a etimologia de Travanca por mais que revolveu, e lembra que será «palavra portuguesa, cuja significação hoje se ignora». Entendo que é palavra vinda do espanhol, como tantas outras dos nossos toponímicos, onde há: Trabanco, «palo como de media vara de largo, que unido al colar del perro le impide que baje lá cabeza. Cualquier objeto analogo al de la accepcion precedente e por estencion familiar y figurada» (818).

(811) VITERBO – Elucidário, artigos «Algo» e «Cuntas». (812) Ibidem, artigo «Chamoa»; Portugaliae Monumenta Historica, Os livros de linhagens, passim. (813) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 52, ano 943; doc. 67, ano 953; doc. 219, ano 1012; doc. 384, ano 1053. (814) Tomo III, p. 370, destas Memórias. (815) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, vol. II, p. 134. (816) Tomo III, p. 61, 306, 310, 317, 345, 352, 354, 384, 387 e 407, e tomo IV, p. 9, 10, 341, 447, 532 e 581, destas Memórias. (817) Artigo «Travanca do Mogadouro». (818) JOAQUIN DOMINGUEZ, Ramon – Diccionario Nacional o Gran Diccionario Classico de la lengua española. Madrid, 1848. O mesmo significado lhe adscrevem os lexígrafos modernos, como

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Em espanhol há mesmo a palavra Trabanca, que significa, segundo Bolufer, abaixo citado, uma mesa formada por um tabuleiro assente sobre dois cavaletes. Qualquer destes significados indicará as condições topográficas que deram o nome aos povoados bragançanos, e como os do meu conhecimento estão situados na encosta de montes ou cabeços, que impedem o caminho recto, obrigando a desvios ou ladeamentos para os transpor, ouso lembrar que travanca equivalerá a trave ou trincheira impeditiva do trânsito ou coisa parecida analogicamente, se não é a sua localização em planalto a modo de tabuleiro, sustentado por contrafortes ou encostas, à laia de cavaletes, que lhe dão semelhança de mesa. Tresmonte, anexa de Gestosa, concelho de Vinhais. Pinho Leal (819) e Cunha de Azevedo (820) escrevem Tresmontes. Tresmonte está por Trasmonte, isto é, situada de trás do Monte. Tres por Trás aparece no mesmo concelho em Nozedo Trespassante (821) e no de Bragança em Fontes Trasbaceiro [Fontes Transbaceiro] ou Tresbaceiro, como pronuncia o povo e como se vê em alguns documentos oficiais (822). Tua, Tuela (Tua e Tuéla nos documentos dos séculos XII e XIII (823)) No termo de Carragosa, concelho de Bragança, há um sítio chamado Tra la Tuda. «A palavra Tua é muito antiga (como o prova o diminutivo Tuela, formado com um sufixo arcaico) e acaso aparentada com Tudae, forma préromana de Tuy» (824). Tudis é o nome de um rei godo de Espanha (825). Inigo Arista, rei de Navarra, foi casado com D. Toda (826). O nome D. Toda é frequente no Nobiliário do Conde D. Pedro e também o menciona Rodrigo Mendes da Silva (827). A. Cortesão (828) refere três documentos do século XI em que figuram duas mulheres, condessa uma delas, com o nome de Tuda. D. Toda, mulher do conde Gutierres, fez doação em 1130 de Villafrio à igreja de Lugo, como se lê na España Sagrada, 41, apêndice 4. ALEMANY Y B OLUFER, José – Diccionario Enciclopedico, 1931, acrescentando que o pau se punha aos cães para impedir que destruíssem a caça no tempo da criação. (819) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Gestosa». (820) AZEVEDO, Cunha de – Novo Dicionário Corográfico de Portugal, 1906. (821) Ver artigo «Nozedo». (822) Tomo IV, p. 535 e 536, destas Memórias. (823) Ibidem, p. 193 e 423. (824) VASCONCELOS, Leite de, O Arqueólogo Português, vol. XXII, p. 37. (825) Chronicon Albeldense in FLOREZ – España Sagrada, vol. XIII, p. 446. (826) MARIANA – Historia de España, tomo III, liv. 7, cap. 17, p. 140, mihi. (827) MENDEZ SILVA, Rodrigo da – Catalogo Real y Genealogico, p. 37. (828) CORTESÃO, A., O Arqueólogo Português, vol. XVI, p. 237.

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Tudeila (829), Tudeildu (830), Tudeildus (831), Tudegildus (832), Tudegildiz (833) e Tueildus (834) testemunham ou confirmam nos documentos abaixo citados. Tuela virá de Tudela e este de Tutela, divindade romana, mencionada em dezanove lápides votivas aparecidas em Portugal e Espanha (835)? Tuizelo (Torresolo, Tuyselo, Turoselo e Torrozelo nas Inquirições (836) tiradas pelos anos de 1258). Teozello no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo. Theodiselo, rico fidalgo, enlevado nos milagres que fazia São Frutuoso, mais tarde arcebispo de Braga, renunciou à corte, em cujo serviço estava, repartiu tudo quanto tinha pelos pobres e meteu-se no mosteiro de Castro Leão, por ele fundado (837). Por morte de Theudo, elegeram os godos por seu rei a Theudiselo, capitão que fora do seu antecessor, o qual se distinguiu por brilhante reinado e foi assassinado pelos seus em Sevilha num banquete (838). Rodrigo Mendes da Silva menciona um capitão suevo de nome Teudeselo (839). Urrós (Urros, Duros, Durros, Huros, Orrio, no foral em 1182). Urros nos documentos medievais (840). Virá do nome próprio de Oborrós? Em 1019 vendeu o mouro Oborrós uma quinta ao pé de Coimbra aos monges de Lorvão (841). Também pode vir de cevada, que nos documentos dos séculos XIV e XV aparece com os nomes de Orge, Ordo, Orgho e Orio, segundo mostra Viterbo (842). Urros (843). Ver a rubrica anterior.

(829) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 274, ano 1032; doc. 277, ano 1032; doc. 283, ano 1034; doc. 287, ano 1034. (830) Ibidem, doc. 313, ano 1041. (831) Ibidem, doc. 273, ano 1032; doc. 296, ano 1037; doc. 298, ano 1038; doc. 299, ano 1038; doc. 342, ano 1045. (832) Ibidem, doc. 316, ano 1041; doc. 341, ano 1045. (833) Ibidem, doc. 326, ano 1043. (834) Ibidem, doc. 288, ano 1035; doc. 313, ano 1041. (835) HÜBNER – Corpus Inscr. Lat., t. II, p. 1130. (836) Tomo IV, p. 43, 47, 50, 51, 52, 342, 352, 447, 534 e 536, destas Memórias. (837) BRANDÃO – Monarquia Lusitana, edição da Academia, vol. 6, p. 424. (838) Ibidem, p. 182. (839) MENDEZ SILVA, Rodrigo – Catalogo Real y Genealogico, p. 15 v. (840) Tomo IV, p. 57, 277, 279, 283, 417, 434 e 448, destas Memórias. (841) VITERBO – Elucidário, artigos «Egoa apoldrada» e «Era», p. 290. (842) Ibidem, artigos «Ordo» e «Orge». (843) Tomo IV, p. 349 e 352, destas Memórias.

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Uva. Parece natural que este étimo seja «conhecidamente o latim uva» (844); no entanto, Viterbo afirma que «na ínfima latinidade Oba, Hova, Hoba, Hobuna, Aba, Haba, Huba se tomaram pelo casal, ou pequena quinta, constante de casa e campo, em que uma família rústica se mantinha» (845). Daqui se mostra que Huba ou Uva também pode corresponder a quinta. Vale de Águia (846). Ver a rubrica Aguieiras. Vale de Armeiro. Armeiro é o artífice que faz ou conserta armas. Em muitas cidades e vilas de Portugal houve sempre mecânicos desta especialidade, pagos à custa da fazenda real e dos concelhos. El-rei D. Manuel I ordenou, por carta do 1 de Novembro de 1531, que houvesse armeiros e couraceiros em Moncorvo e noutras terras portuguesas (847). No tomo III, p. 239, destas Memórias alude-se às queixas contra o seu armeiro apresentadas ao duque anteriormente a 1640. Vale de Asnes (Valdasnes no Portugal Sacro e Profano, Val d’Asnes no Dicionário Corográfico do reino de Portugal, por Agostinho Rodrigues de Andrade, Vale de Asinis nas Inquirições (848) de 1258). Viterbo (849) cita um documento de 1173 em que Asno aparece como nome próprio. Virá daqui o nome à povoação ou será, como tantos outros, um toponímico tirado dos animais – boi, vaca, carneiro, burro, asno, etc., etc., adiante memorados? Asina ou Asna foi apelido da célebre família romana Cornélia, começada em Cornélio Cipião. Asínio Polion viveu no tempo de Augusto e foi cônsul e orador distinto, bem como seu filho Asínio Galo. Vale Benfeito. À primeira vista, lembra que Benfeito = Bem + feito proveio da situação de vale bem delineado, como Aveleda de ave alegre ou então, latinamente, Salve, ó alegre; Gostei, de gostar da sua situação; Carocedo, de caro mas cedo; Caçarelhos, de que los ban caçar elhos, como apontam as etimologias populares, de que damos conta, a título de pura curiosidade, nos

(844) VASCONCELOS, José Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 101. (845) VITERBO – Elucidário, artigo «Oba». (846) Tomo IV, p. 157, destas Memórias. (847) D. Manuel, livro XVIII, fól. 61 v. Ver a nossa monografia Moncorvo – Subsídios para a sua história, 1910, p. 30, separata da «Ilustração Trasmontana». (848) Tomo IV, p. 25, 27, 34, 75, 265 e 627, destas Memórias. (849) VITERBO – Elucidário, artigo «Saber de Asno».

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respectivos artigos, mas a verdade é que Benfeito é nome próprio de homem (850) , nem o vale de Vale Benfeito tem particularidades de fertilidade, situação, delineamento ou quaisquer outras preferentes aos de Chaves, Vilariça e tantos outros, que não têm tal nome. Ver os artigos Boa e Bornes. Vale de Fofo. Fofo não é nome de povoação bragançana, mas sim o de um sítio do termo de Baçal, onde tenho um lameiro e horta; e – porque no silêncio daquele vale passei aprazíveis tardes e escrevi muitas páginas destas Memórias enquanto descansava da sacha, monda e rega das batatas e feijões – quero mencionar a sua proveniência, não vão supor que tal nome indica terra fofa, improdutiva, sendo ela fértil, pura de ares e larguíssima de horizontes. As mesmas recordações de amenidade, labuta mental e física tenho na minha horta do castro, que, ao mais, alia a circunstância do seu passado arcaico, embora o sítio me não fosse tão grato por ser mais frequentado de gente e lhe faltar o silêncio de Vale de Fofo. Fofus (851), Fofo (852) e Fofu (853) servem de testemunhas ou confirmantes nos documentos citados abaixo nas notas. Resulta, pois, que Vale de Fofo quer dizer: vale pertencente a um indivíduo chamado Fofo. Vale de Gouvinhas. Deve vir do nome próprio de Gouvinas, que aparece nas Inquirições (854) de eI-rei D. Afonso II tiradas em 1220. Elvira Gouviaz figura como vendedora noutro documento (855). Vale de Janeiro (856). Nos documentos medievais aparecem frequentemente pessoas que têm o nome de algum dos meses do ano. Assim: illas sorores domna Abrilli et domna Ermosinda (857). Viterbo (858) menciona um Pedro Janeiro a quem D. Godinho, bispo de Lamego, emprazou certos bens em 1189. Daqui poderemos concluir que a povoação bragançana deve o nome ao proprietário do vale em que assenta.

(850) Portugaliae Monumenta Historica, «Inquisitiones», ano 1220, p. 36 e 116 ambos na 1.ª coluna, onde se mencionam dois com este nome. (851) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, documento 99, ano 968. (852) Ibidem, doc. 57, ano 946; doc. 75, ano 957; doc. 146, ano 985; doc. 160, ano 991. (853) Ibidem, doc. 58, ano 949. (854) Portugaliae Monumenta Historica, «Inquirições», p. 128, 2.ª coluna, e p. 192, 1.ª coluna. (855) Ibidem, Diplomata et Chartae, documento 921, ano 1100. (856) Tomo IV, p. 342, destas Memórias. (857) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 420, ano 1050. (858) VITERBO – Elucidário, artigo «Direitura».

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Vale de Mira (859). Pode pensar-se que virá de Baldemiro, nome próprio (860), ou então do nome próprio Miro e Mira, muito usado na documentação medieval. Pode também corresponder a Mira, Miradouro, Facho, Esculca, Viso, etc., pontos tácticos de observação de que há muitos toponímicos no distrito de Bragança, como dizemos do artigo respectivo. Vale de Torno [Valtorno] (861) (Vale do Tolno no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). Torno é palavra muito empregada por João de Barros no sentido de circuito. «Somente neste torno da ilha da banda da terra firme corre um recife» (862). Resulta que Valtorno deve o nome a qualquer circunstância topográfica que lhe dá aspecto de circuito ou de volta para algum lado. Varge (Varzea e Varzena nas Inquirições (863) tiradas pelos anos de 1258). Vem de varzena e varcena, que na documentação medieval aparecem para designar terreno baixo, alagadiço, pantanoso (864), e ainda água do rio represada por açudes artificiais ou naturais. Unum molinum cum sua varzena (865). Aos poços destas represas ainda hoje o povo bragançano chama varja e varjas. Estas varjas são denominadas vargas em algumas terras (866), de onde, por metáfora, passou este nome a significar também armadilha para apanhar peixes (867), alcunha e depois apelido de família. Variz. Vem «de Variquiz por Variquis, patronímico de Varicus, Varico, nome de um santo» (868). Vieiro. É o foro real; pensão que se pagava à coroa, que era o terço do ouro, prata e cobre que nas minas do reino se tiravam (869).

(859) Tomo IV, p. 346 e 347, destas Memórias. (860) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 687, ano 1087. (861) Tomo IV, p. 242, destas Memórias. (862) Livro VIII, cap. VI, in Memórias da Literatura Portuguesa, tomo III, p. 222. (863) Tomo III, p. 321 e 413, tomo IV, p. 337, destas Memórias. (864) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 33, ano 927; doc. 47, ano 938; doc. 193, ano 1004; doc. 246, ano 1021; doc. 248, ano 1021; doc. 326, ano 1042; doc. 360, ano 1047; doc. 420, ano 1050. (865) Ibidem, doc. 49, ano 939. (866) VITERBO – Elucidário, artigo «Varga». (867) Ibidem. (868) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. III, p. 364. (869) VITERBO – Elucidário, artigo «Vieiro».

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Vila. Como a palavra vila é frequente no nosso onomástico e toponímico, isolada ou adjunta a outro nome, damos um rápido bosquejo do seu significado. Vila, nos textos romanos, é um diminutivo de vicus, aldeia, e significa casa de campo, onde se recolhiam frutos ou residia o senhorio, como em estação de recreio. Dividia-se em urbana, rústica e frutuária. A primeira designava casa ou palacete habitado temporária ou continuamente pelo senhorio. A segunda, casa rústica, sem luxo, quando se destinava a residência do colono e família. A terceira, quando servia unicamente de celeiro dos frutos. A vila compreendia também maior ou menor porção de terreno agrícola adjacente. Depois, na documentação medieval até aos fins do século XII, vila designa pequena herdade, casal ou quinta, possuída por um proprietário, que nela reside em casa rústica, adequada porém aos serviços agrícolas, respectiva pecuária, arrecadação de frutas e aprestes culturais (870). Mais tarde, vila designou povoado de certa importância, que teve foral com autonomia jurisdicional, administrativa própria e independente, ou seja povoação que passou a sede de concelho. Modernamente, ressuscitou-se o antigo, e vila designa vivenda independente, cercada de terrenos cultivados à maneira da vila urbana. Assim, «Vila Joaquina», «Vila Laura», etc., para designar quinta de Joaquina, quinta de Laura. As povoações que não tiveram foral, nem título que as elevou à categoria de vila, são ainda hoje as representantes da propriedade rústica romano-visigótica, pois estes, ao invadir o império romano no V século, mantiveram a constituição agrícola daqueles, e o povo, graças ao seu espírito conservador, fixou no onomástico o documento falante dessa milenária organização. Vila Chã de Braciosa. Ver o artigo Agrochão. Vila Flor (Vila Frol, Villa Froll na documentação medieval (871). Virá de Froila, Froilla, nome próprio de homem usado nos séculos IX e X (872)? Vila Meã (é como hoje pronuncia o povo. Vila Meana, Villa Mediana e Villa Meyãa nas Inquirições (873) e noutros documentos do século XIII). Pode

(870) VITERBO – Elucidário, artigos «Vila» e «Herdade», SAMPAIO, Alberto – As Vilas ao Norte de Portugal, in «Portugália», tomo I, fascículo II. VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo I, p. 77, em nota. AZEVEDO, Pedro A. de, O Arqueólogo Português, vol. XI, p. 235. (871) Tomo IV, p. 231, 274, 279, 283, 324, 365, 392, 394 e 448, destas Memórias. (872) CORTESÃO, A, O Arqueólogo Português, vol. X, p. 276 e 277. FERREIRA, Pedro Augusto, continuador do – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Zava». (873) Tomo III, p. 264, 268, 309, 328 e 407, e tomo IV, p. 444, 595, destas Memórias.

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significar coisa média, nem grande, nem pequena, em cujo sentido Fernão Lopes emprega a palavra mean, ou então vila intermédia, isto é, povoação entre dois pontos ou dois povos determinados. Vilar. Como Vilar, Vilarinho, Vilarelho ou Vilarelhos têm o mesmo étimo e entram no nome de muitas povoações bragançanas, bem como no toponímico, tratamos em geral da sua significação. Vilar vem do latim vilaris, coisa de vila. Alberto Sampaio (874) diz que os vilares são courelas de terreno cultivadas por diversos indivíduos, mas não indicam constituição de povoado e correspondem à vila rústica da organização romana ou ao casal ou quinta da documentação medieval. A nosso ver, vilar é nome genérico, indicativo de povoação ou aldeia no sentido que hoje lhe damos, maior ou menor, mas povo, em suma, desabitado após a incursão mourisca no século VIII ou por outra causa, e repovoado pela reconquista asturo-leonesa (875). Nas Inquirições de D. Afonso III e D. Dinis tiradas [as primeiras] pelos anos de 1258 vemos muitas aldeias classificadas de vilares, e, no entanto, das mesmas consta que eram povoações. Assim temos: Deilão tem o título de vilar (876) e é povoação (877); idem, idem Guadramil (878); idem, idem Baldres (879); idem, idem Talhinhas (880) Mais casos podíamos apresentar. Viterbo (881) deixa entender o mesmo. Do exposto parece poder concluir-se que Vilar está para as povoações neovisigodas como castro para as luso-romanas. Mais mostram as Inquirições (882) que o rei deu ao concelho de Bragança os Vilares antigos para este povoar, isto é, distribuir por colonos que viessem habitá-los.

(874) SAMPAIO, Alberto – As Vilas ao Norte de Portugal. «Portugália», tomo I, fascículo I. (875) O Chronicon Albeldense in FLOREZ – «España Sagrada», 1756, vol. XIII, p. 456, quase contemporâneo da invasão dos mouros, fala-nos do despovoamento dos campos até ao Douro (eremavit, diz o texto latino) por Pelágio e sucessores, que se recolheram às montanhas das Astúrias com a gente cristã após a invasão, donde depois vieram pouco a pouco operando a reconquista e povoando as terras. O Chronicon Isidori Pacensis, in FLOREZ – «España Sagrada», vol. VIII, p. 299, alude ao mesmo despovoamento. Este depoimento tem valor máximo por ser de um contemporâneo da invasão mouresca. (876) Tomo III, p. 396, destas Memórias. (877) Ibidem, p. 328. (878) Ibidem, p. 402 e 412. (879) Ibidem, p. 308, 310, 315 e 322. (880) Ibidem, p. 315, 316, 332 e 350. (881) VITERBO – Elucidário, artigo «Pobrador». (882) Tomo III, p. 306, 307 e 312, e tomo IV, p. 83, 437 e 439, destas Memórias.

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No sítio chamado Vilar, desta minha povoação de Baçal, têm aparecido restos de casas ao surribar o terreno para plantação, e noutros vilares tem sucedido o mesmo. A própria insistência régia em povoar os vilares deixa ver que em algum tempo haviam sido aldeias; do contrário não seria justo cercear o património agrícola das povoações vizinhas. Temos visto em excursões arqueológicas pela região bragançana vários vilares, e em muitos deles podia viver outra povoação se os poderosos não obstassem a isso, como dizem as Inquirições. Vilar de Ossos (Vilar de Ossus e Vilar de Ossos nas Inquirições (883) tiradas pelos anos de 1258 e noutros documentos desta época). Deve vir de Osas, Ozas, Oças e Ossas, pensão que se pagava pelo casamento, como indicamos no artigo Forais, publicado na p. 393, do tomo IX destas Memórias. A propósito da proveniência do nome urso, ver o artigo Torre de Dona Chama. O povo diz ainda que o nome Ossos deriva dos muitos que aí ficaram dos mouros mortos em combate pelos cristãos; mas sendo tão abundante o toponímico ossos, como adiante apontamos, mal se compreendem tantas batalhas, de que não há notícia histórica alguma. Vilariça (Vilarisa, Vilarissa, Villarissa, Valarisa nas Inquirições (884) tiradas pelos anos de 1258). Pode vir do nome próprio Vilaricu que, no genitivo faz Vilarici (885), que também aparece sob a forma Vilarigu (886). Ferreira (887) diz que Vilariça está por Avelariça, bosque ou mata de aveleiras e Vilariça por Velariça, vindo tudo a significar terra de aveleiras, que noutras partes deram os topónimos Avelanoso, Aveleda e Angueira. Se a decomposição do nome em latim justificasse etimologias, poderíamos decompor Vilariça em Vila Larissa. Larissa é uma cidade célebre da Grécia por ser pátria de Aquiles; não menos célebre é Larissa, montanha da Arabea Petrea, onde morreu e foi sepultado Pompeu, o Grande. Ainda em Larissa ou Laris, cidade da Idumea, morreu Balduino I, rei de Jerusalém, em 1118. Larissa é uma região fértil da Itália, memorada por Horácio (888).

(883) Tomo III, p. 263, e tomo IV, p. 52, 342, 447 e 536, destas Memórias. (884) Ibidem, tomo IV, p. 71, 73, 75 e 78. (885) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 681, ano 1087. (886) Ibidem, doc. 174, ano 995. (887) FERREIRA , Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, tomo I, p. 52, e tomo III, p. 125. (888) HORÁCIO – Carminum, título I, Carmen VII-V, XI.

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Vilas Boas. Ver a rubrica Boa. Vimioso (Vimenoso, Viminoso, Vimeso nas Inquirições (889) tiradas pelos anos de 1258). Vem de vimen, inis (890), que tanto significa vime, como qualquer vara ou vergôntea dobradiça por exemplo de salgueiro, negrilho, choupo, avelã, etc. Zava. Vem de Zabda, nome próprio de um mouro (891). Cristóvão Aires (892), baseado em António de Morales, Bergança em seu Cathalogo de voces antiguas, Ducange em seu Glosario e no Fuero Juzgo, diz que Zava era uma espécie de loriga que servia para defesa do tronco do corpo humano aparando os golpes a fim de lhe atenuar a força. Se em Vale de Armeiro temos um alfageme que dá o nome à terra, aqui em Zava teremos o nome da manufactura desta especialidade opifícica. Zedes. Gedes na Corografia do Padre Carvalho da Costa. Zeide, Zaida, Zeida, é nome árabe de mulher e significa aumentadora. Vem do verbo Zada, aumentar, acrescentar. A freguesia de Zedes, concelho de Carrazeda de Ansiães, foi seu primeiro nome Zeida, variante de Zaida. Zeida era filha de AIMucamus-Ben-Hamet, rei mouro de Sevilha. Converteu-se ao cristianismo e foi baptizada com o nome de Maria e casou com D. Alfonso VI de Castela (893) . «Zedes. De Zetes ou Zethes, filho de Boreas, rei da Thracia» (894). Ver o artigo Azibo. Zeide nome próprio de homem que serve de testemunha num documento do século X (895).

(889) Tomo III, p. 10 e 349, e tomo IV, p. 11 a 13, 15, 18, 34, 36, 151, 157, 160, 201, 202, 266, 337, 340, 349, 364, 365, 367, 379, 383, 447, 449, 450, 451, 453, 532 e 627, destas Memórias. (890) VASCONCELOS, J. L. de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo II, p. 46, em nota. FERREIRA, Pedro A. – Tentativa…, tomo II, p. 12. (891) F ERREIRA , Pedro Augusto, continuador do Portugal Antigo e Moderno, vol. XII, p. 2078, artigo «Zava». Na Tentativa Etimológico-Toponímica, obra do mesmo autor, mas publicada depois da sua morte, vol. III, p. 366, puseram «Zabela» em vez de «Zabada», por engano ou má leitura, certamente, do original. (892) AIRES, Cristóvão – História do Exército Português, vol. II, p. 228. Esta explicação é a que se dá a «Zava» nos Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines, p. 133. (893) BRANDÃO – Monarquia Lusitana, tomo III, p. 281. LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Provezende». (894) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa…, tomo III, p. 367. (895) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 56, ano 946.

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Sousa (896) diz: «Zeida, em árabe Zaida, nome próprio de mulher. Freguesia na província de Trás-os-Montes, bispado de Miranda, de quem a terra tomou o nome. Significa a aumentadora. Do verbo árabe Zada, acrescentar, aumentar. Zeida, em árabe Zaida, foi filha de Almucamus, em árabe, Benhamet, rei de Sevilha, a qual, depois de baptizada, casou com D. Afonso VI, de Castela, e se chamou D. Maria». Como no bispado de Miranda não há nenhuma povoação chamada Zeida, entendemos que quis referir-se a Zedes. Zedes e Zido não terão o mesmo étimo? Ver a rubrica Zido. Zido (Isindo nas Inquirições (897) tiradas pelos anos de 1258; Izido no Prontuário das terras de Portugal, 1689, manuscrito da Torre do Tombo). Zidi, presbítero (898); Zidiz (899); Zidizi, mulher (900), testemunham, confirmam nos documentos abaixo citados. Ferreira entende que Zido deriva «do latim zithum, i e zithus, i, a cerveja, bebida arcaica, bem conhecida» (901). Zoio. Carvalho da Costa escreve Ozoyo (902). Um homem de nome Osoilo, figura como testemunha no documento 266, do ano de 1029 (903). O Chronicon de D. Pelayo (904), aponta uma igreja dedicada a Sancti Zoili, mandada construir pelo rei Bermudo II nos fins do século X. Entramos agora na toponímia propriamente dita. Os nomes de sítios dos termos de povoações adiante mencionados foram colhidos directamente por nós in loco, pela maior parte, durante os longos anos das nossas peregrinações arqueológicas pelo distrito de Bragança, ou dos recrutas nas inspecções militares, acompanhando para isso as respectivas comissões do recenseamento de concelho em concelho, e ainda dos recrutas incorporados no Regimento de Infantaria n.° 10 em Bragança. Às referidas comissões e ao coman-

(896) SOUSA, João de, Frei – Vestígios da língua arábica em Portugal ou Léxico das palavras e nomes que têm origem arábica. (897) Tomo IV, p. 42, 43 e 44, destas Memórias. (898) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, doc. 14, ano 907; doc. 124, ano 978; doc. 164, ano 991; doc. 167, ano 993; doc. 250, ano 1021; doc. 357, ano 1047. (899) Ibidem, doc. 823, ano 1095; doc. 871, ano 1098. (900) Ibidem, doc. 411, ano 1058. (901) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica, vol. III, p. 367. (902) COSTA, António Carvalho da – Corografia Portuguesa. (903) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae. (904) FLOREZ – España Sagrada, tomo XIV, p. 468, onde foi publicado.

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dante e oficiais desse regimento a profundeza do nosso reconhecimento pelas atenções, facilidades e auxílio que nos prestaram nestas investigações. Também o nosso amigo tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento, diversos párocos e professores primários nos forneceram alguns tópicos de povoações onde não pudemos ir nem obter por outra forma; no final do tomo mencionaremos com reconhecimento seus nomes, convindo memorar desde já os bons ofícios, atinentes a este assunto, que nos prestaram D. António Bento Martins, bispo de Bragança, e Bernardino Guedes de Miranda, inspector escolar. É interessantíssimo o estudo da toponímia pelos ensinamentos que presta tanto à filologia como aos outros ramos do humano saber, tais são, entre os mais: Arqueologia, nomes Anta, Penedante, Vale de Anta, Arca, Arcã, Meda, Castelo, Castro, Casas Velhas, Casarelhos, Cunca, Escrita, Pena Escrita, Forno dos Mouros, Vilar e derivados, Terronha, Caminho do Rei (havia este toponímico em Sortes e Edrosa, e já consta do «Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs» feito em 1501). Caça, nome Fojo, que se relaciona com o período neolítico. Comunidade agrícola, nomes Coito, Coitada e outros alusivos à velha exploração comum da propriedade. Fecúndia criadora do povo. Ver artigos Bouça, Fonte, Junco, Penedo, etc. Identidade de razões que levaram povos muito distantes a adoptar os mesmos toponímicos. Influência galega, nomes Gavilões, Guinda, Guingeiras, Paneiros, etc. Ironia escarninha, com os diminutivos orio, oria: Curtinhório, Fontório, etc. Indústrias, nomes Açude, Alambique, Barca, Canameira, Fiães, Linho, Linhares, Moinho, Azenha, Nona, Oleiros, Pelames, Sumagral, Telheiras (905), etc. Instituições fiscais, nomes Parada, Paradela, Paradinha, Ossa, Ossos, etc. Instituições religiosas, nomes Abade, Reitor, Cura, Bispo, Mitra, Frade, Freiras, Mosteiro, etc. Instituições judiciais, nomes Força, Picota, Tronco. Mineralogia, nomes Cal, Caleira, Penacal, Estanho, Ferreiros, Ouro, Penha Ferreira, Penicas de Ferro, etc. Modalidades criminosas, nomes, Rousso, Ladrão, etc. Modalidades agrícolas, história da propriedade e correlativas, nomes (905) No distrito de Bragança fabrica-se louça em Felgar, Nozedo de Cima e Pinela e telha em muitíssimas povoações, entre as quais Castro de Avelãs, Paçó de Vinhais e Salselas, e cal em Aveleda, Cova de Lua, Dine, Rabal, Vale da Porca e outras.

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Alcaide, Comenda, Conde, Foro, Mitra, Morgado, Rainha, Rei, Represália, Poçacos, Casais, Quintas, Sortes, Talhas, Talhinhas, Moreiras (sericicultura), Vinho, Vinhago, Vinhal, Avinhó, Vinhascal, Vinhas, Abelhas, Colmeias, Enxames, Mel, etc. Monumentos religiosos, nomes Capela e Calvário. Ver os nomes de Santos. Regime pastoril, nomes Corriça, Lambedouro, Malhada, Mosqueiro, Sestiadeiro. Táctica militar e estratégia, nomes Assumadouro, Atalaia, Cancela, Basteiros (por Besteiros), Facho, Miradouro, Esculca, Sentinela, Talanqueira, Trincheira, Viso, etc. Zoologia e botânica, espécies raras ou desaparecidas, nomes Cervo, Urso, Zebro. De alguns toponímicos com nomes de animais, como égua, asna, etc., e botânicos, como espinheiro, etc., não indicamos o sítio dos termos a que pertencem por serem vulgares e carecerem de interesse. Se o toponímico tem pouca importância, dão-se apenas um ou dois exemplos. Também não damos os toponímicos tirados de nomes próprios correntes actualmente, como Lourenço, no termo de Negreda, Vale de Maria Gonçais, no de Rabal, Pai Gil, no de Aveleda, e muitíssimos outros. Quando em seguida ao nome da povoação se acrescenta a palavra freguesia, posta entre parêntesis ou entre vírgulas, deve entender-se que o nome foi colhido na matriz predial, e portanto pode esse nome pertencer a essa povoação ou a alguma das anexas. Da mesma maneira deve entender-se – quando se não indique seguidamente ao nome do povo alguma das variantes da palavra inicial do artigo, entre parêntesis – que o sítio mencionado tem o nome da palavra inicial do artigo. Abábos. No termo do Brito, freguesia de Penhas Juntas (Lombeiro dos). Abábos significa moscardo em galego. Abade (906), Clergo, Epístola (Lameiro do), Evangelho (Olival do). Nos termos de Alfândega da Fé (Vale do), Vale Pereiro (Fonte dos Três Abades), Campelo, concelho de Carrazeda. Maçãs (Souto do), Gondesende (Lamas de), concelho de Bragança. Lavandeira (Fonte do), concelho de Carrazeda de Ansiães. Lagoa (Abadinho), Vale da Porca (Vale do), concelho de Macedo. Águas Vivas (Monte do cura), Caçarelhos (Fonte de). Vale de Gouvinhas (Prado do), concelho de Mirandela. (906) Sempre que se não indica outra coisa em seguida aos nomes das povoações, ou das palavras entre parêntesis, entende-se que o caso se refere ao primeiro toponímico indicado, ou seja abade neste agora e nos outros pela mesma forma.

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Variz (Lameiro do), concelho do Mogadouro. Felgueiras (Ribeiro do Crelego). Samões (Vale Clérigos). Eiras Maiores (Vale do Crego). Espinhoso, concelho de Vinhais (Vale de Clérigo). Abelhas. Ver Colmeias. Abessada, Abessadas. Nos termos de Gebelim concelho de Alfândega da Fé. Carocedo, Grandais, Samil, Vila Meã. Todos no concelho de Bragança. Soutelo Mourisco (Abessadas), Vinhas, concelho de Macedo. Abessedo, Abexedo, Abexeiro, Abexeirões, Abixedo, Obessedo nos termos de Vale Pereiro (Abexeirões); Vilar Chão (Abexeiro), todos no concelho de Alfândega da Fé. Labiados (Obessedo); Pombal (Abexedo); Vilarinho da Castanheira, concelho de Carrazeda de Ansiães. Todos estes nomes se empregam para designar terreno que fica à cara da sombra, mas no concelho de Bragança é mais frequente o nome Obessedo. Abiangas. No termo de Tralhariz, concelho de Carrazeda. Abixeira, Abixeiros, Bixeira. Nos termos de Fornos, Freixo de Espada à Cinta, Mazouco, concelho de Freixo. Assoreira (Abixeiros da Pia). No sul do distrito de Bragança chamam abixeiros aos terrenos do abessedo, isto é, que não ficam expostos à cara do sol. Ablaera. No termo de Chacim (freguesia), concelho de Macedo. Abloeira, Abroeira. Nos termos de Chacim (freguesia), concelho de Macedo. Lodões (Abroeira). Abrada. No termo do Pinheiro Novo, concelho de Vinhais. Abrães, Adrães. No termo de Samil, alguns dizem Adrães, concelho de Bragança. Abrange. No termo de Alfaião (Fraga de Abrange), concelho de Bragança. Abril. No termo de Freixeda (Abril do Março), concelho de Bragança. Edroso, concelho de Vinhais. Abrunheiro. Abugueira. No termo dos Codeçais, concelho de Carrazeda de Ansiães. Acenseira, Ascenseira, Censeira. No termo de Chacim, concelho de Macedo. Aço. No termo de Peredo (freguesia – Pedras do), concelho de Macedo. Açor, Açores. Nos termos de Parada de lnfanções (Ninho de), concelho de Bragança. Penhas Juntas, concelho de Vinhais. Açoreira ou Assoreira, Assoreiras. Nos termos de Aveleda e Zeive, todos no concelho de Bragança. Ligares (Vale da), concelho de Macedo. S. Salvados, concelho de Mirandela. Carviçais (Assoreiras), Castedo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Adagueira (de adague, valado ou rego para plantar vinha, segundo dizem em Argozelo). No termo de Lagoa (freguesia), concelho de Macedo. Adcavais. No termo de Marzagão, concelho de Carrazeda de Ansiães. Ademanse. No termo de Vilarinho de Lomba. Adis, Adil, Adriz. Nos termos de Carragosa; Coelhoso (Adil), Deilão (Casa dos), Donai, França, Freixeda, Parâmio, Petisqueira, concelho de Bragança. Vilar do Monte (Adil), rua da povoação, concelho de Macedo. São Salvados (Adriz), Paradela de Mascarenhas. Selas [Celas]. Adrada, Adral, Adrães. Nos termos de Formil, Rio de Onor (Adral), Cabeça Boa (Fonte Adrães), concelho de Bragança. Adreira. Nos termos de Alimonde, Labiados, Pinela (Adreiro Rego), concelho de Bragança. Sesulfe (freguesia, Cabeço da) concelho de Macedo de Cavaleiros. Peleias, Zido, Penhas Juntas, Soeira. Adroso. No termo de Babe, concelho de Bragança. Afeirão. No termo de Ventozelo. Agolineira. Nos termos de Paradela. O povo diz Agolineira, mas parece-me que será Golineira, sendo apenas o A partícula que costuma antepor aos locais do termo. Assim à Fraga, à Malhada, à Paneira, etc.; o A tem a função de indicar os terrenos, os prados, as vinhas, etc., que ficam nos sítios assim chamados. Agra, Agrada, Agrade, Agras, Agres, Agros. Nos termos de Caravela, Pinela, Portela (Agra), Rebordãos, todos no concelho de Bragança; Melhe (Vale dos Agres), Vinhas (Agres), Soeira (Agros) Revelhe, Negreda. Agrazeira. No termo de Gimonde, concelho de Bragança. Agrebom, povoação e sítio nos termos de Bornes, concelho de Macedo. Vale de Asnes, concelho de Mirandela. Agrela, Agrelos. Nos termos de Aveleda (há um grande tesouro, mas ao pé dele uma mina de peste que, abrindo-se, mata meio mundo, e por isso ninguém se aventura a arrancar aquele; ver a rubrica Babão); Izeda (Agrelo), concelho de Bragança. Nunes (Agrelos), consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691. Também do mesmo Tombo consta que há um local chamado Agrelos no termo de Alfaião. Agrigueira. No termo de Vale Benfeito (Grigueira, segundo outros), no concelho de Macedo de Cavaleiros. Aguaxás. No termo de Variz. Águia, Aguieira, as (povo e sítio de termos), Cabeço da Águia, Fraga da Águia, Pena da Águia, Penedo da Águia, Vale da Águia. Aguieiras, Aguieira. Nos termos de Serapicos há muitas fragas, Zoio (Aguieira) concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Tralhariz, concelho de Carrazeda de Ansiães. Alambique. No termo de Alfândega da Fé; Felgueiras, concelho de Vinhais. Albagueira (de albo, alba, albagueira? ou de à Lobagueira, de lobo?). No termo de Passos, concelho de Vinhais. Ver e rubrica Alvagueira. Albarda. No termo de Vilar, freg. de Milhão, conc. de Bragança. Albaredos, Albaredo, Albaredos. Nos termos de Paçó de Sortes (Alboredos), Quintanilha (Alboredos), Sanceriz (Albaredo), Calvelhe (Alboredos), Carrazedo (Alboredos), Lamas de Podence (Alboredos), Palaçoulo, São Pedro da Silva (Cabeça de Albaredo), Travanca, conc. do Mogadouro. Albazana. Nos termos de Mosteiró e Vale de Prados de Ledra. Albercas. No termo de Sesulfe, conc. de Macedo de Cavaleiros. Albericoque. No termo de Remondes. Alcacé. No termo de Guribanes. Alcazavães. No termo de Pena Branca. Alde. No termo de Fonte de Aldeia (Rigueiro de Alde). Alfado. Nos termos de Gradíssimo, conc. de Macedo de Cavaleiros. Nesta minha povoação de Baçal, concelho de Bragança, chamam alfar ao acto de o povo, em concelho, ir uma vez por ano visitar as marras do termo confinantes com o da povoação vizinha e limpar umas pequenas covas em volta delas para as tornar mais patentes e visíveis. Virá de alfa, primeira letra do alfabeto grego, para indicar que ali começa o termo da povoação, pois às ditas marras também chamam alfas? Alfaião. Nos termos de Baçal (Lameiro de). Virá de o lameiro pertencer a algum homem de Alfaião, povoação distante quinze quilómetros (apesar de ser pouco provável, pois não há notícia de tal) ou de alfaião, palavra árabe, que significa terra de sombra? Realmente, o vale onde está o lameiro é muito arborizado e, portanto, sombreado. Alguergua. No termo de Castro Vicente. Algura. No termo de Cova de Lua (Fonte de), conc. de Bragança. Alho (Vale de Salgueiro). Aliosa. No termo de Podence (Fonte Aliosa), conc. de Macedo. Almendreira, Almandreiras, do espanhol almendra, amêndoa. Nos termos de Bemposta. A mesma proveniência tem Govelães, concelho de Mogadouro. Parâmio, concelho de Bragança. Almeiros. No termo de Montouto (freguesia). Almilhanos. No termo de Cércio. Almofada. Nos termos de Vale de Prados, concelho de Macedo. É frequentíssimo o toponímico Almofada, que propriamente, como aponta Bluteau, significa coisa que está posta sobre outra. Portanto, nada mais expressivo para indicar cabeços sobrepostos, pois o toponímico Cabeço da Almofada é frequente. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Almoinha. Nos termos de Amendoeira (freguesia), conc. de Macedo. Gestosa, concelho de Vinhais. Aloco. No termo de Saldonha, conc. de Alfândega da Fé (Vale de). Alvagueira. Nos termos de Fornos e Mazouco, tudo no concelho de Freixo de Espada à Cinta. Bornes (Fragas de), concelho de Macedo de Cavaleiros. Ver a rubrica Albagueira. Alvazinhos. Nos termos de Sambade, conc. de Alfândega da Fé. Alvar ou Alvarinhos é o nome de um ribeiro que passa no termo de Sambade e desagua na ribeira de Zacarias. Alvela. Nome da ribeira que passa em Tralhariz, concelho de Carrazeda de Ansiães. Alvelina. Ver a rubrica Castelo. Alvite. No termo de Figueira (Vale de), conc. do Mogadouro. Amal. No termo de Alfândega da Fé. Amendoeira (povo e sítio de termos). Amor. No termo de Valverde, concelho do Mogadouro (Corte de Amor). Amária. No termo de Pinela, concelho de Bragança. Amedo, Amoedo, Amedas. Nos termos de Grijó de Parada, concelho de Bragança. Vale Pereiro (Ribeiro de), concelho de Alfândega da Fé. Chacim, Grijó de Vale Benfeito, Lagoa e Morais, conc. de Macedo. Sampaio, Urrós (Amoedo), Remondes, conc. do Mogadouro. Matela, concelho do Vimioso. Edroso (Amedos), Ousilhão (consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691). Amenosas. No termo do Vimioso. Amilo. No termo de Espinhosela (Vale de), conc. de Bragança. Amplairo. No termo de Peredo de Bemposta (Vale de). Amuar. No termo de Parada, concelho de Alfândega da Fé. Andorinhas. Andrineiras. No termo de Algoso. Angueira. No termo de Vila Meã, concelho de Bragança. Anguelgueiras. Nos termos de Donai, Fontes Barrosas (Enguelga) é uma fonte no povo, todos no concelho de Bragança. Aniã. No termo de Ousilhão. Ansinhas. No termo de Vila Meã, concelho de Bragança. Aranos. No termo de Pena Fria, conc. de Carrazeda de Ansiães. Arbideiros. No termo de Lagoa (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Ver a rubrica Ervedal. Anulho ou Anulo. No termo de Nogueira, conc. de Bragança. Ardi-Velha ou Ardivelha. No termo de Pinheiro Novo. Árdonho. Nos termos de Veigas, freguesia de Quintela de Lampaças, concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Ala (freguesia – Vale de), concelho de Macedo de Cavaleiros. Arebela. No termo de Vale Pereiro, concelho de Alfândega da Fé. Areias. Nos termos de Grijó de Parada (Porto das). Fica no rio Sabor, e foi aqui que se deu, nas Guerras da Aclamação, o célebre ataque dos nossos contra os castelhanos. Ver tomo I, página 90, destas Memórias. Arencal. No termo de Peredo da Bemposta (Arencal alto). Arganosa, Arganal, Argane, Argam. Nos termos de Paradinha Nova, concelho de Bragança. Ferreira (Arganal), Talhinhas (idem), conc. de Macedo; Ervedosa (Vale de Argana); Macedo do Peso (Arganal); Montouto (freguesia, Costas de Argam). Argeris. No termo de Castelãos, concelho de Macedo. Armalho. Nos termos de Cova de Lua, Donai (Vale de), concelho de Bragança. Corresponderá a fojo, armadilha para apanhar animais, principalmente lobos? Almalho chamam em terra de Chaves ao boi de dois anos, que principia a jungir-se para o trabalho. Ver a rubrica Armilha. Armeiros. No termo de Babe (Chaira dos), concelho de Bragança. Vale de Armeiro (povo no concelho de Vinhais). Armenze. No termo de Nozedo de Baixo. Armilha. No termo de Samões (Vale de). Ver a rubrica Armalho. Armonda. No termo de Dine. Arnago. No termo de Vale da Porca, concelho de Macedo. Arnal. Nos termos de Grijó de Parada, Vilarinho de Cova de Lua, concelho de Bragança. Arnal, povo do concelho de Carrazeda de Ansiães. Arneiro. No termo de Valverde, concelho do Mogadouro. ArneIa. No termo de Conlelas (Vale de), concelho de Bragança. Arrabalde. No termo de Gimonde (ver artigo Gimonde), concelho de Bragança. Em Nunes, Vilar Seco de Lomba (Fonte do), há também rua do Arrabalde. Arranhadouro. Nos termos de Babe, Castrelos, concelho de Bragança. Arras. No termo de Nogueira, concelho de Bragança. Arrebrunhados. No termo de Vilar Chão, concelho de Alfândega da Fé. Arribadela. No termo de Aveleda, concelho de Bragança. Arriqueiras. No termo de Quirás. Arrosales. No termo de Aldeia Nova, concelho de Miranda. Asnas, Asno, Asna. Nos termos da Paradinha de Outeiro (Vale de), Sacoias (Carva do Asno), concelho de Bragança. Pombal (Queda da Asna). Vale de Asnas, povo do concelho de Mirandela; Morte da Asna, Fonte das Asnas (Duas Igrejas), Pereira, freguesia dos Avidagos (Vale do Asno). Aspa. No termo de Gimonde, concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Açacoia ou Assacoia, Assacoi. No termo do Azinhoso, Penas Roias (Cabeço de Assacoi). Assaravelho. No termo de Vilarinho de Cova de Lua, concelho de Bragança. Asseienhas. No termo de Castelãos, concelho de Macedo. Assumeda, Assemada, Assumadouro. Nos termos de Bemposta (Cabeço da), Meirinhos (Fraga da), Tó (Fragas da), Variz (Assemada), Remondes (Assumadouro). Equivalerá este nome a Facho, Esculca, Vela ou Viso? Astriais. No termo de Pena Branca. Azinheiro, Azinhoso. Nos termos de Ferreira, concelho de Macedo de Cavaleiros; Cedães, concelho de Mirandela (Vale de Azinhoso). Macedinho (freguesia da Trindade, Vale do Azinhoso). Atafona. No termo de Freixiel e Carvalho de Egas. Atalaia. Ver tomo IX, p. 353 e 566, destas Memórias. Ataques. No termo de Talhinhas, concelho de Macedo. Atilhadel. No termo de Picote. Augalba, Augalva. No termo de Calvelhe, concelho de Bragança. Augariça. No termo de Rio Frio de Outeiro, concelho de Bragança. Augas Vivas. No termo de Rio Frio de Outeiro (há nascentes de boas águas), concelho de Bragança. Águas Vivas, povoação no concelho de Miranda. Auguisterra. No termo de Penhas Juntas. Avelãira, Avelaeira, Avelãiras, Avelanrais, Aveloso e Blãira. Nos termos de Freixeda, Gondesende (Aveleira), Grandais (Avelãs), Macedo do Mato (Avelaeiras) e Parada de Infanções, todos no concelho de Bragança. Burga (Avelãiras), Soutelo da Pena Mourisca (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Maçaira (Aveloso), Penhas Juntas (Blãira por Avelãira). Ver a rubrica Galgueira. Avanteiras. No termo da Beira Grande, concelho de Carrazeda de Ansiães. Aveleda, Avelheda, Veleda. Nos termos das povoações de Arufe (Veleda), Formil (Aveleda; consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1501), Meixedo (Veleda; há também no termo desta povoação um sítio chamado Avelade), Nogueira (Veleda), todos no concelho de Bragança. Cabeça de Igreja (Veleda), Edroso (Avelheda), Peleias, Vilarinho das Touças, Santalha (freguesia, Veleda), Santa Cruz. Todos os toponímicos Aveleda e Veleda correspondem a veigas abundantes de águas, terreno onde a aveleira vai bem. Aveloso. No termo de Vale de Janeiro (freguesia, Aveloso de Baixo e Aveloso de Cima). Aviães. No termo de Figueira, concelho do Mogadouro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Avinhó. Nos termos da Calvelhe e Serapicos, todos no concelho de Bragança. Avinhó, nome próprio de homem. Avós (Fonte Avós). No termo de Donai, concelho de Bragança. Ver a rubrica Voz. Azamora. No termo de Talhas. Azebeda, Azebedo. No termo de Lamalonga, concelho de Macedo. Nunes (Azebedo), Sobreiró de Baixo (Lama de Azebedo), Vilar de Baixo, Soutelo da Gamoeda. Azebro. No termo de Refoios, concelho de Bragança. Ver a rubrica Zebro. Azelheira, Azilheira. Nos termos de Alfândega da Fé, Soutelo Mourisco, concelho de Macedo de Cavaleiros. Azenhas, Azenia. No termo de Agrobom (Vale das). Rebordãos (Azenia). Guribanes (Fraga da Azinia). Azias. No termo de Murçós (freguesia), concelho de Macedo. Azibadinho. No termo de Soutelo da Pena Mourisca (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Azibeiro, Azibal, Azibo, Azibedo, Azibro. No termo de Carrazedo (Campo de), concelho de Bragança. Cabanas, concelho de Macedo. Romariz (Azibedo), Negreda (Azibro e também Azibeiro). O sítio chamado Azibro é comum a Celas; mas nesta povoação dizem Azibo (não é rio). Azibo ou Azibro, nos documentos antigos, é o nome de um rio que nasce na quinta do Azibeiro e desagua no Sabor. Azieiro. No termo de Soutelo Mourisco, concelho de Macedo. Azinha Cova. No termo de Santa Justa, concelho de Alfândega da Fé. Refoios (Cabeço da), concelho de Bragança. Babão, Bobão, Bobo. No termo de Aveleda (há uma panela de dinheiro capaz de enriquecer meio mundo, mas junto a ela está outra de peste, que mataria outro meio mundo, caso se descobrisse, e por isso ninguém ousa aventurarse; ver a rubrica Agrela); Bragança, Caravela, Carragosa, Carrazedo, Castrelos (Bobões, consta do Tombo dos bens do convento de Castro de Avelãs feito em 1501); Lanção; Meixede, Mós de Rebordãos, Nogueira (Caroceiras), Paredes (Babões Grandes), Pombares, Sarzeda (Babom, segundo escreve o Tombo atrás citado); Soutelo de Gamoeda (Bobão), Terroso, concelho de Bragança. Comunhas (Bobo). Babeco da Misericórdia. No termo de Alfândega da Fé. Babisca. No termo de S. Pedro Velho. Baçaim. No termo de Oleirinhos, concelho de Bragança. Bacarinha (Vacarinha?). No termo de Lamalonga (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Brito (Bacorinha). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Baceiro. No termo de Vilarinho de Cova de Lua. Há sítio do termo e rio com o nome de Baceiro, concelho de Bragança. Bacelar, Barcelares. Nos termos de Terroso e Carragosa (Barcelares), concelho de Bragança. Bacoubado. No termo de Izeda, concelho do Bragança. Badalhão. No termo de Serapicos (Alto do), concelho de Bragança. Bade. No termo de Souto da Velha (Bade de Breixo). Bagueira, Bagueira, Bagueiro. No termo de Baçal, concelho de Bragança. Variz (Bagueira), Pinheiro Velho (Bogoeira). Valtorno (Lage Bagueira); concelho de Vila Flor. Vale de Janeiro (freguesia). Vilarinha das Touças (Bagueiro), Bagueixas. No termo de Labiados, concelho de Bragança. Baguelina. No termo de Cicouro. Baiens. No termo de Edral. Baís. No termo de Peredo da Bemposta. Balabanha. No termo de Arufe, concelho de Bragança. Balbunas. No termo de Granja. Balesteiros. No termo de Cércio. Balizedo (de baliza, balizar, dividir com balizas?). No termo de Palácios, concelho de Bragança. Balombdo (Vale do Lombo?). No termo de Izeda, concelho de Bragança. Balsas, Balsado. Nos termos de Aveleda; Cabeça Boa, concelho de Bragança. Bornes (Balsado), concelho de Macedo. Bandeira, Bandeirinha. No termo de Vilar do Monte, concelho de Macedo de Cavaleiros. Carvalhais (Alto da). Vila Boa, concelho de Mirandela. Brunhosinho (Cruz da Bandeira), Valverde (Bandeirinha), tudo no concelho do Mogadouro. Moncorvo. Edral (Alto da Bandeira), Celas (Cruz da), Pereira, concelho de Mirandela. É frequente este toponímico. Equivalerá a Facho, Miradouro, Esculca ou Viso? Ver tomo IX, p. 353 e 566, destas Memórias. Bandorro. No termo de Freixo de Espada à Cinta. Barbuleiras. No termo de Covelas. Barcegueiras. No termo de Cércio. Barda. No termo de Fontes Barrosas, concelho de Bragança. Vale da Porca (Lamas da), concelho de Macedo de Cavaleiros. Barga. No termo de Vale de Prados (Lamas da), conc. de Macedo. Bargueirejo. No termo de Frieira, freguesia de Sanceriz, concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Barreira. É frequente este toponímico, que às vezes significa encosta, outeiro, cabeço e outras, principalmente empregado como nome de rua ou sítio das povoações, casa destinada a recolher os animais perdidos (gado de vento, como dizem os forais manuelinos), os gados encontrados a fazer dano, por falta de pastor, até que apareça dono e pague a multa da coima e o dano causado. A esta casa, denominada Casa da Barreira, também em alguns sítios chamavam Corte do Fiel. Barreirós, Barreiros, Barrosa. Nos termos de Aveleda, Pinela (Cabeço dos Barreiros), tudo no concelho de Bragança. Barres. No termo de Talhas, concelho de Macedo de Cavaleiros. Barrocal. No termo de Labiados, concelho de Bragança. Seixo de Ansiães, conc. de Carrazeda de Ansiães. Caçarelhos, conc. de Miranda do Douro. Matela (Ribeiro do), conc. do Vimioso. Barroncas. No termo de Aveleda, conc. de Bragança. Barronda, Barrondas. Nos termos de Viduedo, Parâmio (Barrondas), Pereiros (Barrondinhas), todos no conc. de Bragança. Basteiros (por Besteiros?). No termo de Penhas Juntas. Batandeira. No termo de Areias, conc. de Carrazeda de Ansiães. Baticó. No termo de Variz. Batoco, Batocos. Nos termos de Macedo do Mato, Serapicos, Bragança, conc. de Bragança. Corujas (Batocos). Vale da Porca, conc. de Macedo de Cavaleiros. Bedual, Biduleiros, Baduleiros, Bedulo, Bedulos. Nos termos de Montesinho (ver a rubrica Bidueiro), Pombares (Biduleiros), Terroso (Baduleiros), concelho de Bragança. Soutelo Mourisco (Bedulo), conc. de Macedo de Cavaleiros. Sernande (Vale de Bedulos). Ver a rubrica Bidueiro. Eiras Maiores, anexa de Penhas Juntas (Bedulo). Ver a cit. rubrica. Beiçudo. Caçarelhos (Cabeço), por semelhança deve vir Labiados, nome de povoação anexa de Babe. Belane. No termo de Coelhoso, concelho de Bragança. Belarvoso. Nos termos de Labiados, Palácios, conc. de Bragança. Belide. No termo de Mogadouro. Beliqueiro, Beloqueira. No termo de Espinhosela, conc. de Bragança. Santa Cruz (Beloqueira). Beneita. Nos termos de Póvoa, concelho de Miranda. Urrós, conc. do Mogadouro. Beque. Nos termos de Veigas, freguesia de Quintela de Lampaças (Ribeiro de), conc. de Bragança. Berbuleira. No termo de Lagarelhos. Berdugal, Bordugal. No termo de Prado Gatão. Em algumas terras de Espanha chamam Berduguilho aos lagartos (réptil). Virá daqui Berdugal? MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Verdugal, em espanhol, indica os rebentos novos do mato na primavera. Fonte de Aldeia (Bordugal). Berganceira. No termo de Variz. Bergo, Bergueira. Nos termos de Sobreda, conc. de Macedo. Vilas Boas (Bergueira), conc. de Vila Flor. Bermaia. No termo de Areias, conc. de Carrazeda de Ansiães. Bermanso. No termo de Picote. Bernardã. No termo de Terroso, concelho de Bragança. Berrão. No termo de Pereiros. Havia aqui dois berrões no género do da Porca da Vila de Bragança, macho e fêmea, mas levaram-nos, segundo diz a tradição: um para Parada e outro para Vale da Porca. Variz. Besteiros. No termo de Peredo da Bemposta. Bezerro, os, Bezerril. Vale de Bezerros. Bezerulbo. No termo de Carocedo, conc. de Bragança. Bichelra. No termo de Donai (Fonte), conc. de Bragança. Bicorina. No termo dos Couços, concelho de Mirandela. Bidueiro [ou Vidueiro]. Biduedo, Biduledo. Nos termos de Viduedo, Carçãozinho (Biduleiro e também Viduleiro), Carrazedo (Biduedo). Ver Bedual. Zeive (Biduedo), tudo no conc. de Bragança. Espadanedo (Bidueiros, e na matriz predial Vidoleiros), Vinhas (freguesia, Bidruleiros), conc. de Macedo. Caçarelhos (Biduledo), conc. de Miranda do Douro. Dine (Bidueiros), Edrosa (Biduedos), Celas (Biduedo), Paçó de Vinhais (Bidueira). Ver Bedual. Penhas Juntas (Biduedos). Ver Bedual. Bieito. No termo de Meixedo, concelho de Bragança. Bifaros. No termo de Algoso. Bifureira. Nos termos de Formil (consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691), França (Abifureira), Gimonde, Labiados (Abicureira, como vem mencionado no citado Tombo); Samil, tudo no concelho de Bragança. Bornes (Bafareira), Lamas de Podence, conc. de Macedo. Bilheiro, Bilhardo. No termo de Zedes (Fonte do), conc. de Carrazeda de Ansiães. Abreiro (Bilhardo). Bilrona. No termo de Talhinhas, conc. de Macedo de Cavaleiros. Biranas. No termo de Pinheiro Novo. Bisco Velo. No termo de Conlelas, conc. de Bragança. Bispo. Nos termos de Sesulfe (Cabeço do), Salselas (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. Blado. Nos termos de Saldonha, conc. de Alfândega da Fé (Lameiro do Blado. Virá de Velado e corresponderá a vela, vigia?). Bobo. No termo de Corujas, conc. de Macedo de Cavaleiros. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Boca. É frequente este toponímico. Boca de Cadernos (Caçarelhos). Boca da Ribeira (Armoniz). Bocefateira. No termo de Gricha, conc. de Mirandela. Boco. No termo de Pombares, conc. de Bragança. Bodido. No termo de Vale Frechoso. Boi, Boiosas (Mogadouro). Vale de Boi. Bolelas. No termo de Lombo (freguesia), conc. de Macedo. Bor. No termo de Ervedosa (Bor de Vacas). Boreira. No termo de Genísio. Borraceira, Aborraceira. No termo de Carrazeda de Ansiães. Borregos. Bortial. No termo de Navalho. Botianos. No termo de Macedo de Cavaleiros (freguesia, Vale). Botirão. No termo de Tralhariz. Bouças, Bouça, Boucil, Bouçadão, Bouçalaz, Bouxal, Bouçarigo. Nos termos de Agrobom, Cerejais, Covelas, Gebelim, Sambade, Sendim da Ribeira, tudo no concelho de Alfândega da Fé. Bouça, nome de povoação. Aveleda (Baucil); Cova de Lua (Bouças); Guadramil (Bouça Cuvas), Paçó de Outeiro, Paradinha Nova (Bouça Longa, e no mesmo termo Boucinho), Serapicos (Vale da Bouça e também há Bouçadão), todos no conc. de Bragança. Burga, (Bouçalaz), Limãos, Latães, Sobreda, conc. de Macedo. Matela (Bouxal) São Jomil (Bouçarigo), Pereira. Bourão, Bourrosa. No termo de Paçó de Sortes, conc. de Bragança. Edral (Serra da Bourrosa). Bousende. No termo de Veigas, freguesia de Quintanilha (Vale de), concelho de Bragança. Bousende, nome de povoação. Braçós. No termo de Montesinho, concelho de Bragança. Bragada, Braga, Bragadinha, Bragal, Bragueta, Bragadas. No termo de Coelhoso, conc. de Bragança. Bragada, nome de povoação. Pombal, conc. de Carrazeda de Ansiães. Podence (Braga), rua do povo, Ala (freguesia – Vale de Bragal), conc. de Macedo de Cavaleiros, Cércio (Bragueta), conc. de Miranda. São Jomil (Bragadas), Seixas (Bragadas), Santalha (freguesia, Bragadinhas). Bragança. No termo de Macedo do Mato (Vale de), concelho de Bragança. Corujas (Vale de), Lamas (Cortinha de), concelho de Macedo. Moimenta (Vale de). Brangaino. No termo de Fermentãos, conc. de Bragança. Vilarinho de Agrochão, conc. de Macedo. Branjocas. No termo de Vieiro. Brasal. No termo de Vilares da Torre. Brasil. No termo de Vale Pereiro, conc. de Alfândega da Fé. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Breçoeira. No termo de Vale de Asnes. Bregues, Bregas, Bregos. Nos termos de Paradela, Cabeça de Igreja (Bregas), Peleias. Breia, Vreia, Vereta. Nos termos de Vilar Chão, Vilarelhos, conc. de Alfândega da Fé. Baçal (Breias), Freixeda, Moredo, Outeiro, conc. de Bragança. Bornes, conc. de Macedo, Ifanes (Vereta). Breixo, Breixema. No termo de Cabanas de Baixo (Breixema). Ver a rubrica Bade. Bresma. No termo de Babe, concelho de Bragança. Bretanho. No termo de Agrobom, conc. de Alfândega da Fé. Brigues. No termo de Parambos, conc. de Carrazeda de Ansiães. Brinchaldos. No termo de Edral. Brinhaçais, Brinhaçosa. Nos termos de Baçal, Frieira, freguesia de Sanceriz (Brinhacedo), Labiados, Parada de Infanções, todos no conc. de Bragança. Britalo. No termo de Izeda, conc. de Bragança. Britamontes. No termo de Belver, conc. de Carrazeda de Ansiães. Britelo. No termo de Bragança. Britelo, povoação morta. Brotiol. Nos termos de Macedo do Mato, Paradinha Nova, conc. de Bragança. Broussial. No termo de Alimonde, conc. de Bragança. Brugueiro, Brugadas. Nos termos de Alfândega da Fé, Vilar de Ossos (Brugadas). Brulha. Nos termos de Peredo dos Castelhanos, Urros. Brunceiras. Nos termos de Lamalonga (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Vila Verdinho (Brunceiro). Brunhais, Brunhos, Brunhal, Brunheiro. No termo de Sacoias, concelho de Bragança. Cicouro (Brunhoso), concelho de Miranda. Edral (Brunhal), Fiolhal (Brunheiros). Vila dos Sinos (Brunheiro). Brunhedo. No termo de Alimonde (consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501), conc. de Bragança. Edrosa. Bubedo. No termo de Espinhosela, conc. de Bragança. Bornes, conc. de Macedo de Cavaleiros. Rio de Fornos. Bufo, Bufos. Bugalho. No termo de Sortes (Vale de), conc. de Bragança. Bugarro. No termo de Constantim. Bugueiro. No termo de Conlelas, conc. de Bragança. Buiças. No termo de Ribalonga, conc. de Carrazeda de Ansiães. Bulfata. No termo de Carrazeda de Ansiães. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Bulhagueira. No termo de Coelhoso, conc. de Bragança. Bulinheira. No termo de Paradinha Nova, conc. de Bragança. Buraco ou galeria que vai sair mui longe por baixo da terra. Ver os artigos Calaceiro e Felgueiras (Buracos). Segundo a lenda, uma cobra entrou num destes buracos e foi sair debaixo da praça de Moncorvo, que fica distante seis quilómetros. Estes buracos parecem aludir a minas antigas. Burceda, Bruceda. No termo de Baçal, conc. de Bragança. Carrazeda de Ansiães (Bruceda), Samorinha (Burceda), concelho de Carrazeda de Ansiães. Burcegueiras. No termo de Póvoa. Burdela. No termo de Picões (Curral da), conc. de Alfândega da Fé. Burgaleza. No termo de Cércio. Virá de Burga? Burgancos. No termo de Calvelhe, conc. de Bragança. Burzangal. No termo de Parâmio, conc. de Bragança. Bussaco. No termo de Vila Boa de Carçãozinho, conc. de Bragança. Bustelo. Nos termos de Alfaião, como consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691; Izeda, conc. de Bragança. Azinhoso, conc. do Mogadouro. Ferreiros, Quirás, Travanca (Bustelos), Santa Cruz (Bustelo). Cabaça, Cabaceiras, Cabaçal. Cabacide. No termo de Maçãs, conc. de Bragança. Cabadeiral. No termo de Mascarenhas. Cabajoa. No termo de Montesinho, conc. de Bragança. É também frequente o toponímico Cabage e Cabages. Cabalhão. No termo de Edrosa. Cabanas, Cabanelas. No termo de Vale Pereiro, concelho de Alfândega da Fé. Bragança (Cabanelas), Fontes Barrosas (Cabanelas), Pinela, Rabal, Rio Frio de Outeiro, Samil, Vilar, freguesia de Milhão, tudo no conc. de Bragança. Baldres (Vale de) Ferreira (Vale de), Olmos, Salselas (Vale de), Vale da Porca (Vale de), conc. de Macedo. São Pedro da Silva, conc. de Miranda, Trovelo, conc. de Moncorvo. São Joanico, Vale de Frades, conc. do Vimioso. Ousilhão (Cabanelas), Tuizelo (Chaira das), Santalha (freguesia, Cabanelas). Cabanelas é o nome de um ribeiro que corre no termo de Cerdedo e desagua no Rabaçal. Cabancas. No termo de Vale da Porca, conc. de Macedo. Vale de Armeiro (Entre Cabancas). Cabartiais. No termo de Vila Boa, conc. de Mirandela. Cabeçoita. No termo do Seixo de Ansiães. Cábedas. No termo de Tralhariz, conc. de Carrazeda de Ansiães. Lamas de Orelhão, conc. de Mirandela. Cabelaneira. No termo de Atenor. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Cabial (Fraga do). No termo de Alfândega da Fé. Cabicorna. No termo de Sendas, concelho de Bragança. Cabido. No termo de Miranda do Douro (rua da cidade). Vila Chã de Braciosa. Cabocos, Caboca, Caboucos. Nos termos de Rebordãos, Zeive (Caboca do Rigueiro), Zoio (Caboucos), tudo no conc. de Bragança. Deve corresponder a Cavarcos. Ver este artigo. Cabra, Cabras, Cabreira, Cabrito, a, Vale de Cabrito, Cabrães. Cabreira, Cabreiras, Cabrões. Nos termos de Baçal, São Pedro de Serracenos, Mogo de Malta, Ligares (Cabreiras) e Grijó de Vale Benfeito, Miranda do Douro. Abreiro (Ribeiro de Cabrões). São Martinho do Peso. Freixiel, concelho de Vila Flor. É terreno ruim. Cidões, concelho de Vinhais; é ruim terreno; Edrosa (Cabreiras). Quirás (Cabrões), Vila Verde (Cabrães), Penhas Juntas, Vale de Lagoa, freguesia de Alvites. Cachafreiros. No termo de Soutelo Mourisco. Cachão. No termo de Vilar Chão, conc. de Alfândega da Fé. Caco. No termo de Freixo de Espada à Cinta (Ladeira do). Cadavadas. No termo de Remondes. Cadaval. No termo de Vale Benfeito. Cadavez. Nos termos de Arufe e Rebordainhos. Cadela, Vale de Cadela. Cadouço, Cadouces. Nos termos de Paradinha de Outeiro, Macedo de Cavaleiros (freguesia). Sendim de Miranda (Cadouces), Vilha Chã de Braciosa. Cagáxinhas. No termo de Junqueira (Ribeiro de), conc. do Vimioso. Caíde. No termo de Santalha (freguesia). Cainho. No termo de Agrobom. Cajaboeiros. No termo de Ervedosa. Calabadas. No termo de Sendim de Miranda. Calabeiro. Nos termos de Mós de Rebordãos e São Pedro de Serracenos (Touça do). Calabor. Nos termos de Sacoias (Vale de) e Santulhão (Vale de). Calaceiro. Nos termos de Linhares (Passos de) há um buraco que vai sair a uma grande distância, e, como em todos os outros deste género, diz a lenda que lá caiu ou deitaram um cão e saiu pelado a mais de uma légua distante. A propósito destes buracos ver o que diz a lenda de Ansiães. Tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Calages. No termo de Carção. Calatria, Calate. No termo de Retordãos. Vale de Asnes (Calate). Caldeira. No termo de Vilas Boas (Fraga da), conc. de Vila Flor. Está no MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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alto do monte do Faro e tem um poço de cinquenta metros de profundidade, ao qual se desce preso por uma corda. No fundo há uma cavidade mais larga em forma de caldeira, de onde lhe vem o nome. Caleija, Caleijão. Caleira, Cal. Nos termos de Aveleda, Rabal, Calvelhe, Cova de Lua, Izeda, Paradinha Nova, S. Pedro de Serracenos. Gebelim, Poiares (Fonte da Cal). Vale da Porca (Fonte Cal). Caçarelhos (Caleira, antigas pedreiras de cal, hoje inexploradas), Granja, São Pedro da Silva. Freixeda (Urreta da Cal), conc. de Mirandela. Castro Vicente (Caleirinha), São Martinho do Peso (Caleiras) fabricaram cal, hoje não. Tó (Val Cal), Urrós (no Monte da Gaita). Dine, no sítio chamado Castro, pedreira de cal em laboração, com muita exportação para diversas terras. Mós, nos sítios da Cevadeira, Olmos, Pipa e Vale de Moreiras. Urros, conc. de Moncorvo. Vimioso (Fonte Calaço). Em todos estes sítios há ou houve exploração de cal. Calelha, Calhelhós. Nos termos de Formil, Macedo do Mato, Vale de Janeiro (freguesia, Curtinha de Calhelhós). Calhelha equivale a Canelha. Calheira. No termo de Izeda. Calhes, Calhe, Calhinha. Nos termos de Calvelhe e Paradinha Nova (Calhe). Quebradas, conc. do Mogadouro (Calhinha). Calhe. Virá do espanhol calle, rua, caleja, viela? Calhota. No termo de Lagoa, concelho de Macedo de Cavaleiros. Ver a rubrica Calhes. Calicórnio. No termo de Salsas (freguesia). Caligão. No termo de Vale de Porco. Calvário. No termo de Pombal, conc. de Carrazeda de Ansiães. Vale da Porca, conc. de Macedo. Aguieiras, Penas Roias, São Pedro Velho. Casares, Moás (lenda da moura encantada), Montouto (freguesia). Vilarinho das Azenhas. É frequentíssimo o toponímico Calvário, pois dantes o havia em quase todas as povoações. Cambi. No termo de Montouto (freguesia, Cambi de Cima). Cambrunheiras. No termo de Murçós (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Cameirão, Cameiro. No termo de Lamalonga (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Abreiro (Ribeiro de Cameiro). Campa. Nos termos de Sesulfe (Terras da Penedra da), Genísio (Campanina). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Campainha, ribeiro que nasce no planalto de Castro Vicente e desagua na ribeira de Zacarias. Campiro, Campaçotes, Campaceiros, Campelinho, Campaço, Campanha, Campiça, Campicinhas, Campelo, Campaças, Campaçois. Nos termos de Calvelhe também dizem Campairo; Coelhoso (Ribeira de Campaço; nasce no termo de Carocedo e desagua no Sabor, no sítio da Ribeirinha); Fontes Barrosas (Campanha); Gostei e Castanheira (Campicinhas); Aveleda (Campiça); Sacoias (Campelo) e Bragança (Campelo), tudo no conc. de Bragança. Ferreira (Campaças), conc. de Macedo de Cavaleiros. Aguieiras (Campaças), Cabanelas (Campelo), Lamas de Orelhão (Campaçotes), Eixos (Campaçois), conc. de Mirandela. Celas (Campaça), rua do povo. Diz a tradição que aqui nesta rua nasceram os dois santos João e Paulo memorados com missa festiva no seu dia. São os mencionados no Cânon da Missa. Vila Verde (Campaceiros), Tuizelo (Campaças). Campo (povo e sítio de termos), Campaça, Campelo, Campiça. Cana, Canal, Caneiro, Canle, Canelho, Canelo, Vale da Canle. Nos termos de Vale de Lamas (Cana Boa); virá de canada, canal, caneiro, e não de cana (planta)? No mesmo termo de Vale de Lamas há um sítio chamado Canelo, provavelmente de pequeno cano, concelho de Bragança. Canameiras. Nos termos de Carrapatas, Cortiços (freguesia), Salselas (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. Aguieiras (Canameira), Guide (Canameira), Vilar de Ledra, Vale de Couço (Canameira), tudo no concelho de Mirandela. Felgueiras, concelho de Moncorvo, Sobreiró de Cima, Gouveia (Canameira). Virá de canavi, alcanavi, espécie de linho mourisco ou cânhamo, dantes muito cultivado no Vale da Vilariça? Cancelas, Cancela, Cancelo, Cancelinhos. Nos termos de Baçal, Espinhosela, Fontes Transbaceiro (Fonte das), França (Vale de Cancelo), Freixeda (Cancelinha), Lagomar (Cancela); Martim (Cancelo), Outeiro (Fonte da), Rio Frio de Outeiro, Sacoias, Varge (Cancela), Vila Meã (Cancelo), fica junto ao povo; tudo no conc. de Bragança. Selores (Cancelinha), concelho de Carrazeda de Ansiães. Bornes (Cancelo), Chacim (Caniças; corresponderá a Cancelas? Todavia, há um sítio chamado Cancela). Ver o artigo Portas. Ferreira (Alto do Cancelo). Também no termo da mesma povoação há um local chamado Cancelinho; Lagoa, Vilarinho do Monte (freguesia); tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Picote (rua do povo), Sendim de Miranda (idem), tudo no concelho de Miranda do Douro. Edral (Cancelinhas), Edroso (Urreta Cancela), Nozedo de Baixo, Ousilhão (Cancelinhas), Felgueiras, Eiras Maiores (Vale das), Penhas Juntas, Tuizelo, Moás, Montouto (freguesia), Paçó de Vinhais (Cancelo). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Valtorno (Cancelinha), Vale Frechoso (Cancelo), Samões. Carviçais, Trovelo, Souto da Velha, conc. de Moncorvo. Tarda séculos, senão milénios, o povo em abandonar as suas criações industriais, filosóficas e artísticas, quando elas caracterizam um período da sua civilização. Pode o progresso trazer novas descobertas que aniquilem as anteriores; o povo abraçá-las-á após longos anos de relutância, mas deificará aquelas, nimbando-as de virtudes mágicas, de crendices supersticiosas; estilizá-las-á na arte, no simbolismo ornamentológico. Assim os habitantes dos castros, desde que a paz tornou dispensável a vivenda em tão trabalhosos locais, falhos de água, abundantes em vendavais e em canseiras de toda a ordem para carreamento de mantimentos e outros guisamentos indispensáveis à vida, levaram para os novos pagus a preocupação de recinto fortificado, enquistada por séculos de ancestralidade, e vedaram as bocas dos caminhos ao entrar no povoado por uma cancela, cerrada à entrada da noite por homens encarregados desse serviço, sob pretexto de impedir os gados de saírem para os terrenos semeados ou de serem devorados pelas feras. É por isso que ainda hoje perdura o toponímico cancela, cancelas a indicar locais perto das povoações e também os postes de pedra onde girava a cancela. O mesmo sentido é inculcado pelo toponímico Corredoura, existente em povoações que nunca foram muralhadas. A este propósito dizem as Ordenações do Reino (907): «E toda a pessoa que tiver campo ou pardieiro a par do muro da vila, pudesse acostar a ele e fazer obra sobre ele. Porém fica sempre obrigado, se vier guerra, ou cerco, de a derribar e dar por ela corredoura e serventia». A julgar pelo que dizem Viterbo (908) e João Pedro Ribeiro (909) também corredouro pode significar certo foro ou pensão. Cancejeiro. No termo de Paradinha Nova. Candainhos, Candeleiro. Nos termos de Refoios, conc. de Bragança. Vilar de Ouro (também dizem Candeianho), concelho de Macedo. Melhe (Candeleiro). Candãira. No termo de Bragança. Candal. Nos termos de Belver e Pena Fria, concelho de Carrazeda de Ansiães. Vale de Porco, conc. do Mogadouro. Candária. No termo do Mogadouro. Candedo, Cande, Canda, Candeda, Candedos, Candos, Candosa. Nos termos de Carçãozinho, Montesinho, Sarzeda (Ribeiro de), já vem mencio(907) Livro I, título 69, § 41. (908) VITERBO – Elucidário, artigos «Carreira» e «Corredouro». (909) RIBEIRO, João Pedro – Dissertação Cronológica, apêndice 6.° à parte 2.° do tomo VI.

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nado no Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501, Vila Boa de Carçãozinho, tudo no conc. de Bragança. Edrosa (Cande), mas na matriz predial está escrito Candedo e também Vale de Canda, Ferreira (Vale de Canda), Sesulfe (Canda); há também no mesmo termo terras do Candedo; Vale Benfeito (Candedo), Valongo de Espadanedo, Vinhas (Candeda), tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Múrias (Fonte do Vale da Canda), Navalho (Candosa), Vale Maior (Candos), tudo no concelho de Mirandela. Edral (Vale da Canda), Edrosa (Candedo), São Jomil (Candedas), Seixas (Candedos), Vale de Janeiro (freguesia, Portela dos Candos), Santalha (freguesia, Portela dos Candedos). Candegrelo. No termo de Parada de Infanções. Candeinho. No termo de Celas. Candeleiros. No termo de Edrosa, conc. de Macedo. Candia. No termo de Vila Meã, concelho de Bragança. Candoval. No termo de Santalha (freguesia). Caneiros. No termo de Casares (há ruínas dos mouros, diz o povo). Canelefros. No termo dos Alvaredos. Em algumas terras chamam caneleiro ao sabugueiro. Caneme. No termo de Travanca, concelho do Mogadouro. Cangorça. No termo de Quintela de Lampaças. Canhorca. No termo de Edral. Canineiro, Canineiros. No termo de Vale de Prados (Vale de), conc. de Macedo de Cavaleiros. Vilar de Rei (Canineiros). Ver o artigo Pelames, pois deve relacionar-se con o curtimento de peles. Canivez. No termo de Urros (Vale do), conc. de Moncorvo. Canle, Quenlha. Nos termos de Candedo (Quenlha), Edrosa. Deve relacionar-se com canelha. Cão, Espinhaço do Cão, Forca dos Cães. Caparinhos, Cáparo. No termo de Vale Pereiro, concelho de Alfândega da Fé. Pena Fria (Cáparo), concelho de Carrazeda de Ansiães. Capeludo, Capeluda. Nos termos de Paçó de Sortes, Talhinhas (freguesia – Capeludos). Rio de Fornos (Capeluda). Caraço. No termo de Freixedelo, conc. de Bragança. Caravelas, Cravelas. Nos termos de Bornes, Peredo (freguesia – Fonte), conc. de Macedo de Cavaleiros. Bruçó, Samões (Cravelas). Carbujó. No termo de Penhas Juntas. Carçantas. No termo de Babe, concelho de Bragança. Carçal. No termo de Vila Chã de Braciosa. Carcas. No termo de Espadanedo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Carceira, Curaceira, Caroceira. Nos termos de Viduedo, conc. de Bragança; Saldonha (Caroceira), conc. de Alfândega da Fé. Freixo de Espada à Cinta (Caroceira, Curaceira). Ferreira (Caroceiras), conc. de Macedo de Cavaleiros. Carçoneiros. No termo de Fonte Ladrão. Cardadora. No termo de Coleja, conc. de Carrazeda de Ansiães. Cardoeira, Cardoso, Cardanal, Cardal, Cardenhas, Cardeira, Cardeeira, Cardedo, Cardinhal. Nos termos de Santa Justa, concelho de Alfândega da Fé. Freixedelo (Cardoso), Cardanal, no termo da mesma; Gimonde (Cardenhas), Martim (Cardeira), Oleiros (Cardedo), Paradinha Nova (Cardinhal), tudo no conc. de Bragança. Carrazeda de Ansiães (Cardal). Chacim (Cardal), Vinhas (Cardal), concelho de Macedo. Granja (Cardenha), Póvoa (Cardenhas), concelho de Miranda. Variz (Cardeeira). Figueira (Cardinhas), concelho do Mogadouro. Carnalheira, Carnilhão. Nos termos dos Cerejais, Sambade. Carneiro, Vale Carneiro. Carnelhal. No termo de Vale de Frades. Carnula. No termo de Vilar Chão, conc. de Alfândega da Fé. Carocedo, Caroço. Nos termos de Espinhosela, Soutelo da Gamoeda, conc. de Bragança. Mós de Moncorvo (Curacedo). Vila Flor (Caroço Alto), Maceira, concelho de Vinhais. Caroceira. Nos termos de Alfaião (Caroceira do Abade), como consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501; Carocedo, Gimonde, Nogueira, Parada de Infanções, Paradinha Nova, consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691; Quintela de Lampaças (Caroceiras). São Pedro de Serracenos, Soutelo da Gamoeda, tudo no concelho de Bragança. Ala, Bornes, Salselas, Talhinhas (freguesia), concelho de Macedo. Celas, Soeira, Montouto (freguesia), concelho de Vinhais. Vale Maior (Caroceiras), concelho de Mirandela. Carqueija. Carramada. No termo de Gondesende. Carrambitos. No termo de Lagoa, concelho de Macedo. Carrapatas, Carrapato, Carrapatoso, Carrapata. Nos termos da Refega (Cabeço das), colhido no Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691, Sacoias (Carrapatoso). Sobreda (Carrapata), concelho de Macedo. Gandariças (Carrapato), Lamas de Orelhão (Carrapata), Suçães (Carrapatosa), Vale de Gouvinhas (Carrapata), Valbom Petiz. Carrapial. No termo de Palaçoulo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Carrasco. Carrazedo, Carrazedos, Carrazeda, nos termos de Babe, Gimonde, Rio Frio de Outeiro (Carrazeda), São Julião, concelho de Bragança. Edral, conc. de Vinhais. Vilas Boas (Carrazedos), conc. de Vila Flor. Golfeiras (Carrazeda), conc. de Mirandela. Carriçal. No termo de Martim (Carriçais), conc. de Bragança. Carriço. No termo de Vilarelhos. Fornos. O toponímico Carriço é frequente, principalmente no concelho de Mirandela. Carril, Carris, Carreixe, Carrizes. Nos termos de Donai, Mós de Rebordãos, Nogueira, Sacoias (Carris), conc. de Bragança. Freixo de Espada à Cinta. Duas Igrejas (Carreixe). Eixos (Carrizes) conc. de Mirandela. Carriona. No termo de Samil, conc. de Bragança. Carroubeiro. No termo de Celas. Carrouvelhe. No termo de Grijó de Parada. Carvalho, Carvalhos, Carvalhal, Carvalhais, Carvalhosa. Carvas, Carva, Carvoal, Carvoiça, Carveira, Carvelas. Nos termos de Sambade, Alfaião (Scarvas), Aveleda (Carvoal), Babe (Carvoiça, carvoal), Bragança, Carocedo (Carva), Gimonde, Martim, Milhão, Outeiro (Carva da Clara), Rio Frio de Outeiro, Vila Meã, Zeive. Castelãos, Castro Roupal (Carvoiças), Latães (Carvoiça), Lombo (freguesia – Carveira), concelho de Macedo. Bruçó (Carvelas). Carze. No termo de São Martinho de Angueira. Casarelhos, Casas, Casicas, Casinhas, Casulhas, Curtelha. Ver p. 566 do tomo IX destas Memórias. Castanhal. Nos termos de Felgueiras. Segundo a lenda, uma princesa de Lisboa foi desterrada para este sítio e aqui acabou a vida. Souto da Velha. Castedo. Nos termos de Carrazeda de Ansiães (consta do foral de D. Manuel), Pombal (Vale), conc. de Carrazeda de Ansiães. Cásteixeira. No termo de Golfeiras, conc. de Mirandela. Castelhana, Castelhanas. Nos termos de Carrazeda de Ansiães, Soutelo Mourisco (Castelhanas), lenda da moura encantada, conc. de Macedo. Castedo (Castelhanas). É frequentíssimo o toponímico Castelhana, Castelhanas. Indicará coisas de Castela ou de castelana, senhora de castelo? Castelo e derivados. Ver tomo IX, p. 148 e 556, destas Memórias. Castinceira. No termo de Pereira, freguesia dos Avidagos. Castinheiro (povo e sítio de termos), Castinheira (povo e sítio de termos), Castinheirão. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Castro e derivados. Ver tomo IX, págs 172 e 566, destas Memórias. Castromil. No termo de Gondesende. Catrapeiro. No termo de Baldres, conc. de Macedo. Caunho. No termo de Agrochão. Cavage, Cavages. É frequentíssimo. Cavaleiros. Nos termos de Macedo de Cavaleiros (freguesia – Prado de), é um bairro da vila, Remondes (Lombo de). Cavalhão. Nos termos de Paredes, Pinela, Guribanes e Ousilhão. Cavalheiralgo. No termo de Vila Chã de Braciosa. Cavalo, Poço Cavalo. Cavorcos. Nos termos de Baçal (cavorcos do Moinho Velho), conc. de Bragança. Caz. No termo de Babe (Val de Caz). Este local deve ser o Val de Casas mencionado pelas Inquirições. Ver tomo III, p. 306 e 310, destas Memórias. Cazais, Cazares. Nos termos de Baçal (Lama dos), Gimonde, Parada de Infanções (Fonte de), é uma fonte no povo, conc. de Bragança. Santulhão (Cazares). Cazalhão, Cazarolha. Nos termos de Espinhosela, Caroceiras (Cazarolha). Cazandeima. No termo de Fresulfe. Cazares. Nos termos de Castrelos, Donai e Fermil, concelho de Bragança, e povoação no conc. de Vinhais. Cazulha. No termo de Zeive, conc. de Bragança. Çades. No termo de Sendim de Miranda. Çaramal. No mesmo termo. Cebola. Vilar, freguesia de Milhão. Cebringas. No termo de Sambade. Cedal, Cedão. No termo de Vale de Porco. Valtorno (Cedão). Cedanho. No termo de Vale Benfeito. Cefedo. No termo de Aldeia Nova. Cegonho (Pinelo). Cemaçauga. No termo de Corujas, conc. de Macedo. Cembro (Cembo?). Nos termos de Sambade e Podence. Cendelo. No termo de Ervedosa (Rigueiro de). Cente. No termo de Santa Cruz, conc. de Vinhais, Centiais, Centieiras, Centeinhas, Centeneiras. Nos termos de Fontes Barrosas, Oleirinhos (Centeinhas), conc. de Bragança. Duas Igrejas (Centeneira). Cerca. «Como a guerra foi apregoada entre Portugal e Castela [D. Fernando I, rei de Portugal, e D. João, rei de Castela] e as gentes certas que não havia paz, trabalharam-se todos, nas vilas e logares dos estremos de guardarem todas suas cousas e colherem os mantimentos para as Cercas por não serem achados de seus inimigos e com elles se soportarem em longo cerco MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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sobre elles; e tiravam as portas ás casas e lançavam os vinhos a longe que de nenhuma cousa se podessem prestar» (910). Ver o artigo Cerquinha. Cerdedo. No termo de Paçó de Vinhais, povoação no concelho de Vinhais. Cerejal, Cerejais, Cerejeira, Cerejeiras, Cerdeiro, Cerdeira. É frequente. Ceribela. No termo de Paçó de Sortes, conc. de Bragança. Cernadas. No termo de Nogueira, conc. de Bragança. Cerquinha, Cerca, Cercado. Nos termos de Picões e Vale Pereiro, conc. de Alfândega da Fé. Gregos (há restos de muros e foi habitação de mouros), Penas Roias (Cabeço de), Urrós (Cerca) em forma de castro, mas de grande extensão. Tudo no conc. do Mogadouro. São Joanico (Cercado), conc. do Vimioso. Ver o artigo Cerca. Cisterna (Cerco), há restos de muros, fossos, trincheiras, parapeitos de terra, lenda de moura encantada. No meio do Cerco, a que também chamam Vila de Senane, há um poço ou cisterna, de onde provavelmente derivou o nome da povoação. Sobreiró de Baixo (Circa) foi habitação dos mouros, há restos de pedregulhos e lenda da moura, concelho de Vinhais. Cabeça de Igreja (Cerca); chamam-lhe também Furna dos Mouros. Há restos de muros. Há dez ou doze anos o povo revolveu a Cerca à cata de tesouros, fazendo uma grande mina, onde trabalhou dois invernos; afinal apenas lá apareceu uma chave ferrugenta. Ainda hoje os de Cabeça de Igreja indicam na faceira do Lombo Grande uma parte mais verde, que se distingue perfeitamente do resto da sementeira, e, segundo eles, era por ali que os mouros levavam os cavalos a beber à Fonte de Baixo, no termo de Revelhe. No meio da dita Cerca há uma gruta ou mina bastante espaçosa, cavada na rocha viva, a que chamam Furna. Cerrada. No termo de Gimonde. Cerrouchel. No termo de Cisterna. Cervas, Cervela, Cervo, Cervos, Cervelinha. Sítio dos termos de Vilar de Baixo (Vale das Cervas), conc. de Alfândega da Fé. Quirás (Cervela), Alvaredos (Vale de Cervo). É frequente este toponímico, junto muitas vezes a Lombo Cerveiro, Pena Cerveira, Urreta da Cerva, Vale das Cervas, etc. Cesmo. No termo de Larinho, conc. de Moncorvo. Cevadeira, Cevada, Cevadães, Cevadal, Cevadeira, Cevadeiras. Nos termos de Covelas e Picões, tudo no conc. de Alfândega da Fé. Belver, conc. de Carrazeda de Ansiães. É muito frequente o toponímico Cevada e derivados.

(910) LOPES, Fernão – Crónica de D. Fernando, cap. CXVII.

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Chaélas, Chairinha. Nos termos de Paçó de Outeiro e Paradinha de Outeiro, conc. de Bragança. Remondes (Chairinha). Os toponímicos Chaira, Chã e Chãs são frequentíssimos. Chafeirão. No termo de Angueira. Chafunda. No termo de Parada, conc. de Alfândega da Fé. Chafundos. No termo de Vale de Janeiro (freguesia). Chafurgo. No termo de Macedo de Cavaleiros. Chãilas. No termo de Grijó de Vale Benfeito, conc. de Macedo de Cavaleiros. Chainho. No termo de Travanca, conc. de Vinhais. Chamedilheiro. No termo de Pereira, freguesia dos Avidagos, conc. de Mirandela. Chamoinhas. No termo dos Eixos, conc. de Mirandela. Chanos, Chanas, Chana, Chanes, Chaneira, Chanzinha,Rechano (Chaira). Nos termos de Babe, Seixo de Manhoses, Travanca (Chanas), conc. de Macedo; Águas Vivas (Chaneira e Chana), Aldeia Nova (Rechano), Duas Igrejas e Malhadas (Chanes). São frequentíssimos os toponímicos Chaira e Chairas. Chapiço. No termo de São Pedro da Silva. Também no termo do mesmo povo há Chapaçal. Chaqueda. No termo de Algoso (Portela da). Char. No termo de Montouto (freguesia, Char da Veiga). Charra. Nos termos de Valverde, Vilar, freguesia de Milhão (Fonte da), concelho de Bragança. Chasco. No termo de Linhares, concelho do Mogadouro; Baçal (Poço do). Chastro, Chastrinha. Nos termos de Petisqueira, Vale de Lamas (Chastrinha), conc. de Bragança. Ferreira (Chastrinha), conc. de Macedo. Chedes, Chede. Nos termos de Carviçais, Figueira (Vale da Cheda), concelho do Mogadouro. Chegueiros. No termo de Gimonde. Cheilinho. No termo de Vale Benfeito. Cheiro, Chilro. No termo de Algoso (Ribeiro do), Souto, freguesia de Valverde, concelho do Mogadouro (Chilro). Chemea. No termo de Calvelhe (Vale de Chemea), concelho de Bragança. Chorça. No termo de Baldres, conc. de Macedo. Chorente. Nos termos de Rabal, Soutelo da Gamoeda (Chorenta), conc. de Bragança. Chorido. Nos termos de Bragança (Vale); Soutelo Mourisco, conc. de Macedo. Choupiça. No termo de Ferreira, conc. de Macedo. Chourinho. No termo do Lombo (freguesia), concelho de Macedo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Chouzas, Chouza, Chouzinhas. Nos termos de Cerejais, Sendim da Ribeira; Valverde (Chousinhas, Vales das), Vilar Chão (Chousinhas). Todos no concelho de Alfândega da Fé. Pombal (Chouza da Velha), Samorinha. Tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Bornes (Chousinha). Chus. No termo de Vilarinho de Agrochão (Chus da Pedra) é uma fonte, concelho de Macedo. Cibairo. No termo de Serapicos, conc. de Bragança. Cibelo. No termo de Salsas, conc. de Bragança. Cibrão, Cicrão (do nome São Cibrão, Cipriano). Nos termos de Alvaredos e Sacoias. Cibuedo. No termo de Samil, conc. de Bragança. Cidães. No termo de Nunes, conc. de Vinhais. Cidelo. No termo de Salsas, conc. de Bragança. Cigadonha, Ciradelha, Cegadonha, Cidade. Ver p. 566 e segs. do tomo IX destas Memórias. Cinquena. No termo de Ferreira, conc. de Macedo. Cirvela. No termo de Santa Comba de Rossas, conc. de Bragança. Cisterna. Nos termos de Castrelos e Zeive, concelho de Bragança; povoação. Santa Cruz, concelho de Vinhais. Clérigo. Nos termos de Bruçó (Fonte do). Matela (Cléregos). Coalheira. No termo de Vale de Lamas, conc. de Bragança. Cobrilhal. No termo de Ligares, concelho de Freixo. Cobro. No termo de Edrosa. Há também povoação. Cobuluda, Cabuluda, Cubulada, Quebuluda. Nos termos de Calvelhe, Quintela de Lampaças (Cubulada), Veigas, freguesia de Quintela de Lampaças (Quebulada), tudo no conc. de Bragança. Cochebes. No termo de Parada de Infanções. Codes. No termo de Corujas (Ribeiro de), conc. de Macedo. Codessos, Codessal, Codessais, Codesso, Codecedo. Nos termos de Labiados, Nogueira (Codeçal), Rio de Onor (Codessal), Sortes, consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691; Vila Meã (Codesso), tudo no conc. de Bragança. Campo de Víboras, São Martinho de Angueira, conc. de Vimioso. Gestosa (Codecedo), Melhe (Codessal), Vale de Armeiro (Codessal), Remondes (Cudessal), Adeganha (Codessal). Codiceira, Codiceira, Codeceira. Nos termos de Lombo (freguesia), conc. de Macedo; Carviçais, Pereira (Codeceira), freg. dos Avidagos, conc. de Mirandela. Cofinico. No termo de Malhadas. Cofras. Nos termos de Vilarinho do Monte, concelho de Macedo de Cavaleiros. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Regodeiro (Cófaros), Açoreiras, freguesia de Alvites. Cogola. No termo de Alvaredos. Coguluda. No termo de Izeda (também dizem Cobuluda), concelho de Bragança. Coiraça. No termo de Macedo do Mato (Vale da). Coitos, Coito, Couto, Coutos, Coitada. Nos termos de Alfaião, Aveleda (Coito), Bragança, Carrazedo (Couto), Cova de Lua, Espinhosela, Donai, Fermil (Couto); Fontes Barrosas, Fontes Transbaceiro, Freixeda (Coutada); Gondesende, Labiados (Coito de Caravela, povoação confinante, diz o Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691); Lagomar, Maçãs, Montesinho, Oleiros, Pinela (Coitada), Quintela de Lampaças (Coitada), Refoios, Sabariz, Sacoias (Coito Rúbio), Salsas, Serapicos (Coitada), Soutelo da Gamoeda, Vale de Lamas, Vargo, Zeive, Zoio, tudo no concelho de Bragança. Vilarinho da Castanheira, conc. de Carrazeda de Ansiães. Podence (Coitada), Sesulfe (lameira da Coitada), Vinhas, concelho de Macedo. Abambres (Coitada), Barcel (idem), Bouça (idem), Couços (idem), Fradizela (idem), Mascarenhas (idem), Mosteiró (idem), Passos (Coutos), Pousadas (Coitada), Valbom (idem), e também há outro sítio chamado Coito, Vilares da Torre (Coitada), tudo no concelho de Mirandela. Urrós (Coutada), Valverde, tudo no conc. do Mogadouro. Lousa (Couto), Castedo, tudo no concelho de Moncorvo. Nabo, conc. de Vila Flor. Candedo (Couto; também há Coutada no termo do mesmo povo). Quadra, Vila Boa de Ousilhão, Vilar Seco de Lomba (Coutada), Zido, Romariz, Tuizelo (Coutada), Montouto (freguesia, Couto), Vinhais (Coitada). Tudo no conc. de Vinhais. Gouveia (Coitada), Vale Pereiro (Prado Coitado), tudo no conc. de Alfândega da Fé. Colado, Colada, Coladras, Colaga, Colagos. Nos termos de Sacoias, Soutelo da Gamoeda (Colada), Rabal, Vila Boa de Carçãozinho, conc. de Bragança. Castelãos (Coladras), conc. de Macedo. Freixiosa (Colaga), conc. de Mirandela. Felgueiras, conc. de Moncorvo. Tenho notado que alguns destes sítios chamados Colado ficam na encosta de outeiros ou cabeços elevados. Haverá alguma relação entre o nome e estas eminências? Vila dos Sinos (Colagos). Colmeias, Abelhas, Abelheira, Enxames, Curmial. Nos termos de Agrobom, Sendim da Serra, Vale Pereiro (Fraga dos Enxames), Valverde (Vale das), Colmeias (povoação assim chamada); Cerejais (Abelheira e Abelheiras, dois sítios), Vale Pereiro (Fraga dos Enxames), Ferradosa, todos no conc. de Alfândega da Fé. Paçó de Outeiro (Abelheira), Pereiros (Bouça das Colmeias), conc. de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Areias (Cumial), Pombal (Abelheira) tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Baldres (Vale da Abelheira), Castelãos (Vale de), Ferreira (Vale da), Morais (Pedra Abelheira), Vale de Prados (freguesia, Colmial), Vilar do Monte (freguesia, Colmiais), tudo no conc. de Macedo. Fonte da Aldeia (Comenal), Granja (Cormenas), São Martinho de Angueira (Colmiais), São Pedro da Silva (Abelheira, e também há Cormenal), tudo no conc. de Miranda. Barcel (no termo da mesma povoação há também Abelheira); Cedães (Cabeço do Mel), Ervideira (idem), Lamas de Orelhão (Vale da Colmeia), Pereira (Vale do Mel), Póvoa, Torre de Dona Chama (Abelheira), Vale de Lagoa, tudo no conc. de Mirandela. Peredo dos Castelhanos (Abelheira), Gavião, Granja, São Tiago, freguesia de Vila de Ala, Serra da Abelha, tudo no conc. do Mogadouro. Junqueira, concelho do Vimioso. Alvaredos (Abelheira), Edroso (Colmiais), Nozedo de Cima (Vale de), Sandim de Lomba, Vilar Seco de Lomba (Torre da Colmeia), Vilar Seco de Lomba (Abelheiras), Vinhais (Colmiais), Tuizelo, Vale de Janeiro (freguesia, Vale das), Santalha (freguesia), Trindade (Colmeias). Colminhas. No termo de Casares e Negreda. Coluda (Colado?). Nos termos de Izeda, Martim (Colado), conc. de Bragança. Combras. No termo de Peredo dos Castelhanos. Comenda. É frequente este toponímico, de que apontamos apenas os dos termos das povoações seguintes: Malta e Edral. Compeças. No termo de Cedaínhos. Compense, Contense, Contensa. Nos termos de Gimonde, e também Contense, nome do rio que desagua no Sabor nessa povoação; Soutelo da Gamoeda (Contensa), conc. de Bragança. Comunhas. Nos termos de Macedo do Mato, conc. de Bragança. Frades e Vilar de Ossos, conc. de Vinhais. Há também povoação. Conchousa. No termo de Refoios, conc. de Bragança. Conde, Condeza. Nos termos de Bragança (Quinta do), Samil (caminho do Conde e Vale do Conde), conc. de Bragança. Castelãos (Tapada do). Angueira (Vale de). Edrosa (Vale de), Frades (Vale de), Melhe (Vale de Conde), Nuzedo de Baixo, Souto da Velha (Condesa), Tuizelo (Horta do). Confurco, Confurcos, Confurcado, no termo de Picões, concelho de Alfândega da Fé. Espinhosela, Donai, Martim (Confurco), Salsas,Vila Nova, conc. de Bragança. Mazouco (Confurcados), conc. de Freixo de Espada à Cinta. Vinhais, concelho de Macedo. Congida (Coagida?), no termo de Freixo de Espada à Cinta. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Conqueiro, Conco, Reconco, Reconcada, nos termos de Montesinho, freguesia de Coelhoso; Paradinha Nova, conc. de Bragança. Constens, no termo de Cisterna, conc. de Vinhais. Contins, no termo de Remondes (Fonte de). Contorcas, no termo de Vinhas (freguesia), conc. de Macedo. Contral, no termo de Murçós (freguesia, Chãiras de), conc. de Macedo. Contrigo, no termo de Zeive, conc. de Bragança. Corça, Corço, Vale da Corça. Cordeira, Cordeiro. Corga, Corgo, Corgas, nos termos de Valverde, conc. de Bragança. Samorinha (Corgas), conc. de Carrazeda de Ansiães. Trovelo (Corgas), conc. de Moncorvo. Corna, Cornadela, Vale da Corna. Cornacal, no termo da Petisqueira, concelho de Bragança. Cornilheiras, no termo do Sardão, conc. de Alfândega da Fé. Cornocervo, no termo da Adeganha. Cornua, no termo de Agrochão. Coronheira, no termo de Izeda. Corredoura, Corredouro, Corredoira, nos termos de Calvelhe, Macedo do Mato, Parâmio (Corredouro), Rebordainhos, Salsas (Corredouro), Zoio, conc. de Bragança. Castelãos, Chacim (rua do povo), Morais, conc. de Macedo. Malhadas (Corredeira), Miranda do Douro (nome de uma rua da cidade). Abreiro, conc. de Mirandela. Moncorvo (rua da Vila). Celas, fica a um quilómetro do povo, Vila Verde. Seixas, conc de Vinhais. Corriça, no termo de Vale de Prados, conc. de Macedo. É frequentíssimo este toponímico, que se relaciona com o regime pecuário, pois se dá nome igual a um casebre no campo, onde pernoitam gados ovinos ou caprinos. Ao mesmo regime pertencem os termos Malhada, as; Mosqueiro, Sestiadeiro, Lambedouro, etc. Corrimole, no termo de Pinela, conc. de Bragança. Cortejas = Cortelho, mas por influência galega de cortejo; nos termos de Montesinho, conc. de Bragança. Soeira (Cortelhas). Em terras bragançanas chamam cortelha à loja onde se encerram os porcos e também à carriça. Ver este nome. Corteza, no termo de Grijó de Parada, conc. de Bragança. Cortiços, no termo de Formil, conc. de Bragança, Vale de Armeiro. Há também povoação. Corvo, Corvaceira, Curvaceira, Corveira, Cabeço dos Corvos, Fonte dos Corvos, Ninho do Corvo, Seixo dos Corvos. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Corxo, no termo de Martim Tirado, conc. de Moncorvo. Do espanhol corxo, casca do sobreiro. Costabartes, no termo de Fresulfe. Costarela, Costanilha, Costeira, Costiceira, no termo de Samorinha. Caçarelhos (Costanilha), concelho de Miranda. Candoso (Costeira). Há grandes restos de ruínas antigas. Parada (Costiceira), concelho de Alfândega da Fé. Coto, no termo de Picões, conc. de Alfândega da Fé. Cotovia. Coução, no termo de Sobreda, conc. de Macedo. Coucieira, nos termos de Seixo de Manhoses, concelho de Carrazeda de Ansiães. Couços, Coussos, Coisso, nos termos de Deilão, Espinhosela (Cousso), Coelhoso (Coussos), Fontes Barrosas, Fermentãos (Fonte do Cousso), Freixedelo (Cousso), Gondesende (Cousso), Grandais (Coussos), Grijó de Parada (Chaira do Cousso), Mós de Rebordãos, Sacoias, Valverde (Cousso), Vila Boa de Carçãozinho (Cousso), Zeive, Zoio (Lama de), tudo no conc. de Bragança. Carrazeda de Ansiães, Seixo de Ansiães, tudo no concelho de Carrazeda de Ansiães. Freixo de Espada à Cinta (Coisso). Bornes (Couso), concelho de Macedo. Negreda (Cousso). Couraceira, no termo de Gricha, conc. de Mirandela. Covo, Cova, Covalho, Covéle, Covolas, Covelinhas, Covaxa, Covaigo, Cova, Ihão, Recovo, Recovelho, nos termos de Pereiros (Caminho do), Sacoias (Rata Cova), Maçãs, Nogueira (Covélo), São Pedro de Serracenos (Covelas), Sendas (Covelo), Sortes (Vale de), Refoios (Covalho), Zeive, Baçal (Covos), tudo no conc. de Bragança. Cidões (Covaxa), Carviçais (Covaxas). Crainha, no termo de Cabanas (Crainha do Lombo), concelho de Macedo. Cramuna, no termo de Agrobom. Crespo, nos termos de Agrobom, Vinhais (Crespos, bairro da vila). Cristelos, no termo de Izeda, concelho de Bragança. Croceira, nos termos de Sambade, Vale Pereiro (Caroceira), conc. de Alfândega da Fé. Cabanelas. Crugeira, Crugieira, Crujas, Crugio, Corugeira, nos termos de Vilar de Baixo, conc. de Alfândega da Fé. Brunheda (Corugeira), conc. de Carrazeda de Ansiães. Babe (Crujas), Freixeda (Crujo), Gondesende (Cruja), Outeiro (Crugieiras), consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1651; Portela (Crujas), Portelo (Cruja), Rio Frio de Outeiro, Serapicos (Crugio), conc. de Bragança. Vinhais (Crugeira), Alvaredos (Cruja). Adeganha. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Cruzeiro, nos termos de Sambade. Os toponímicos Cruz e Cruzeiro são frequentíssimos. Cuagas, no termo da Junqueira, conc. do Vimioso. Cubada, no termo de Negreda. Cubilar, no termo de Paradela. Cuco, Cuqueira, Rebordãos. Vale da Porca, Cucanha (Vila Chã da Barciosa), Couquelas (Vale de Salgueiro). Cudeiolo, no termo de Babe. Cudixeira, no termo de Açoreira, conc. de Moncorvo. Cula, no termo de Duas Igrejas. Cuncal, Cunca, nos termos de Sambade, Quintela de Lampaças e Grijó de Vale Benfeito. Cunxandas, no termo de Ousilhão. Cupete, no termo de Paçó de Outeiro. Curisco, Curiscada, Courisco, nos termos de Montesinho, Martim, Santa Comba de Rossas (Curriscada), conc. de Bragança. Souto da Velha (Courisco), concelho de Moncorvo. Curralhas, no termo de Freixo de Espada à Cinta (Curralhas Casadas). Curreliça, no termo de Sobreda, conc. de Macedo. Currelo, no termo de Terroso, conc. de Bragança. Currona, no termo de Formil, concelho de Bragança. Curtinhelas, no termo de Dine. Curvaceiros, nos termos de Frades; São Jomil e Romariz (Curvaceira), tudo no conc. de Vinhais. Curvalhão, Curvelhas, nos termos de Donai, Vila Meã (Curvelhas), conc. de Bragança. Cuxarra, no termo da Granja, conc. do Mogadouro. Do espanhol, onde significa colher. Cuxixo, no termo de Maçores. Hoje não aparece aqui o cochicho, mas haveria noutro tempo. Daila, no termo de Vila Boa (Ribeira de), conc. de Mirandela. Dalte, no termo de Vilar Seco de Lomba (Água Dalte). Delvado, no termo de Vilarinho da Castanheira, conc. de Carrazeda de Ansiães. Dentabrum, Dentrabrum. Derruida, no termo de Gebelim, conc. de Alfândega da Fé. Alimonde e Castrelos, tudo no conc. de Bragança. Desbarrelinho, no termo da Matela. Devagueiras, no termo de Vinhais. Diabo, no termo de Sobreda (Paço do), conc. de Macedo. (Casa do), adiante da Ponte de Castrelos, já no concelho de Vinhais. Diano, no termo de Peredo da Bemposta (Cabeço). Este toponímico relacionar-se-á com o culto de Diana? MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Doçãos, no termo de Gondesende. Dombrado, no termo do Fiolhal, conc. de Carrazeda de Ansiães. Domez, no termo de Vilar de Ossos. Donas. No termo de São Julião, na passagem do rio, há um sítio a que chamam Porto Calçado e Calçado aos lameiros adjacentes. Conhecem-se ainda vestígios de um caminho antigo, que é calçado no rio, e por isso se diz Porto Calçado, bem como se vêem vestígios idênticos na margem do rio tocante a Portugal e na oposta, já em território espanhol. Na região dão a este caminho os nomes de Estrada das Donas, Dueñas e ainda Mourisca. Também aparecem restos da mesma estrada nos seguintes locais do termo de São Julião: Cabecinho, Lameiro de Freixo, Barros e Castro, que fica no termo da vizinha povoação de Caravela. No termo de Gimonde há um sítio chamado Damas. Terá relação com esta estrada? Vale Frechoso (Fonte das Donas). Doneta, no termo de Alfândega da Fé. Donigo, no termo de Sobreiró de Baixo. Dorlinho, no termo de Vilarinho da Castanheira, conc. de Carrazeda de Ansiães. Dornalha, no termo de Pinela, concelho de Bragança. Dornes, Dornelas, nos termos de Aveleda, Cova de Lua, Soutelo da Gamoeda (Dornelas), conc. de Bragança. São Martinho de Angueira (Dorne). Tuizelo. Doudo, no termo de Areias (Cabeço Doudo = Cabeço do Ouro?), concelho de Carrazeda de Ansiães. Doureiro (Lombo), nos termos dos Cerejais, conc. de Alfândega da Fé. Drada, no termo de Vila Boa de Ousilhão. Dranjo, no termo de Marzagão (Vale), concelho de Carrazeda de Ansiães. Drin, no termo da Beira Grande (Drin da Beira), concelho de Carrazeda de Ansiães. Ebertiais, no termo de Aguieiras. Edreira, Edrada, Edroso, nos termos de Refoios (Rio da), Sarzeda, (Edrada), conc. de Bragança. São Martinho de Angueira (Edroso; também no termo da mesma povoação há outro sítio chamado Edrosino), conc. de Miranda. Melhe. Vilar Seco da Lomba (Edrada). Égal, no termo de Carviçais Égua, Éguas, Rabo da Égua, Urreta das Éguas, Vale de Éguas, Vale da Égua. Eiras, Eirixa, Eiró, Eirol, Eirés, Eiréles, Eiroás, nos termos de Sambade (Eiras do Lombo). Acampou aqui um corpo de tropas do exército angloMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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-luso durante as invasões francesas. Sendim da Ribeira, tudo no concelho de Alfândega da Fé. Caravela (Eirixa), Gimonde (Eirol), Calvelhe, Carrazedo, Castrelos, Coelhoso (Eiró em todos eles), Faílde (Eirol), rua do povo; Grijó de Parada, Oleiros, Quintela de Lampaças (Eirol), São Pedro de Serracenos (Eiró), tudo no concelho de Bragança. Linhares (Eiró), concelho de Carrazeda de Ansiães. Vale de Prados (Eiró), Murçós (Eires), também alguns dizem Eireles; conc. de Macedo. Vila Nova de Ousilhão (Eiroás). Eivado, no termo de Vilarelhos (Vale de Eivado), conc. de Alfândega da Fé. Carvalhal, concelho de Mirandela. Eixão, no termo de Vilarinho do Monte, conc. de Macedo. Embrão, no termo de São Pedro Velho (Vale de). Embrebeira, no termo de Castro Vicente. Embrunheira, no termo de Talhinhas (freguesia), conc. de Macedo. Empaio, no termo de Rio Frio de Outeiro (Vale de), concelho de Bragança. Emproa, no termo de Vila Franca, conc. de Bragança. Encanto, no termo de Felgueiras, conc. de Vinhais. Endrinal, Endrinheira, nos termos de Carrazedo, conc. de Bragança. Sardão (Endrinheira) conc. de Alfândega da Fé. Enfins, no termo de Conlelas, conc. de Bragança. Enganeira, no termo de São Julião (Lameiro de), conc. de Bragança. Enguada, no termo de Pombal, conc. de Alfândega da Fé. Ensil, no termo de Zeive (Veiga de), conc. de Bragança. Enxeito, no termo do Sardão, conc. de Alfândega da Fé. Enxidro, no termo de Ferreira, conc. de Macedo. Eraga, no termo de Edral, conc. de Vinhais. Ermida, no termo de Vilar, freg. de Milhão, conc. de Bragança. Ervedal, Ervedeiro, Ervideira, Ervedosa, Arvedosa, nos termos de Bragada, Calvelhe e Nogueira, conc. de Bragança. Valdrez (Ervedeira), concelho de Macedo. Atenor (Ervedosa), Caçarelhos (Arvedosa), São Pedro da Silva (Orvedosa), tudo no conc. de Miranda. Ferreiros (Ervideira). Sardão (Ervideiro), concelho de Alfândega da Fé. Ver a rubrica Arbideiros. Erzinal, no termo de Peredo da Bemposta. Escachal, no termo de Vila Nova, concelho de Bragança. Escalavada, nos termos de Labiados, conc. de Bragança. Sardão, conc. de Alfândega da Fé. Escaravana, Escaravada, nos termos de Fontes Barrosas, concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Sobreda (Escaravada) conc. de Macedo. Escarcias, no termo de Parada, conc. de Alfândega da Fé. Escarledo, no termo de Chacim, conc. de Macedo. Escarpalha, no termo de Carçãozinho, conc. de Bragança. Escarvada, no termo de Calvelhe, conc. de Bragança. Escaveda, no termo de Vilar do Monte, conc. de Macedo. Escaxagal, no termo de Labiados, conc de Bragança. Escova, Escoveira (na Lombada, antiga região do concelho de Bragança, chamam escovas às giestas). Algoso. Escravanada, Escaravanada, Escarvada, nos termos de Gebelim, conc. de Alfândega da Fé. Soutelo Mourisco (Escaravada, Escarvada) conc. de Macedo. Escudeiro, no termo de Paradela. Esculca, Esculqueira. Ver a rubrica Sculca. Esculudrada, no termo de Mós, conc. de Moncorvo. Escurial, no termo de Seixo de Manhoses, concelho de Carrazeda de Ansiães. Escusanha, Escusa, nos termos de Carçãozinho, Fontes Transbaceiro, lzeda (Escusa), Pinela, Serapicos (Fonte Escusa), conc. de Bragança. Zedes (Escusa), conc. de Carrazeda de Ansiães. Vale de Prados (Vale da Escusa), conc. de Macedo. Vilar de Ossos. Espadanal, Espadanas, nos termos de Podence, Macedo de Cavaleiros (freguesia), conc. de Macedo. Freixeda (Espadana), conc. de Mirandela. Urrós (Espadana), Paradela (Espadanas), conc. do Mogadouro. Edral (Espadanas). Espadanedo, Espadana; no termo de Rio de Onor, conc. de Bragança. Vale de Pena (Serra da Espadana). Trindade (Espadana). Espade, no termo de Soutelo Mourisco (Vale de), conc. de Macedo. Esparanhos, no termo de Avidagos. Espereirinhos, no termo de Vale da Porca (Vale dos), concelho de Macedo de Cavaleiros. Espiconhas, no termo de Trindade. Espinho, Spinho, Espinheiro, Espinheirinho, Espinhadal (Grijó de Parada). Espinhosa, no termo de Serapicos, conc. de Bragança. Esqueiredos, no termo de Sendas, conc. de Bragança. Estanheiro, no termo de Montesinho, conc. de Bragança. Ficam neste local as minas de estanho. Estercada, Estercadas. Aparece este nome nos sítios de muitos povos, e, além de outros, Vila Meã, conc. de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Bornes (Estercados), conc. de Macedo, e refere-se a terrenos que costumam ser estrumados para culturas cerealíferas. Estieiro, Estia, nos termos de Faílde, conc. de Bragança. São Jomil (Veiga Estia). Estragariças, Esfregariças, no termo de Bornes, conc. de Macedo. Estrevaliça, no termo de Izeda, conc. de Bragança. Estruniontes, no termo de Donai, conc. de Bragança. Eumares, no termo de Santalha (freguesia). Excomungado, no termo de Tuizelo (O). Fabatinhas, no termo de Figueira, conc. do Mogadouro. Fabricaria, no termo de Rego de Vide, conc. de Mirandela. Faceirinha, Faceira, Façãira, No distrito de Bragança, o terreno das povoações é dividido em duas partes: uma cultivada e outra de pousio anual. À cultivada chamam faceira ou folha do pão e à que fica de pousio folha da restrolha. Nos termos de Baçal, Izeda, Martim, Vale de Lamas, Vila Boa de Carçãozinho (Façãira), tudo no conc. de Bragança. Sobreda, conc. de Macedo de Cavaleiros. Alvaredos (Faceira). Facho e derivados. Ver págs. 353 e 566 do tomo IX destas Memórias. Facis, no termo de Carrazedo, conc. de Bragança. Faladas, no termo de Freixiel. Falcão. Faleito, Fleitosa, Faleital, Felitosa, nos termos de Guadramil, Paradinha de Outeiro (Fleitosa), Rio de Onor (Faleital), conc. de Bragança. São Tiago, freguesia de Vila de Ala. Ver o artigo Feto, pois são todos equivalentes deste nome. Falgueira, Falgarosa, Falgueiras, Falgueiro, Felgueirão, Felgueiras, Filgueiras, Fligreiras, Fulgueiras, nos termos de Carrazedo, Macedo do Mato, Martim, Montesinho (Falgueiro e Falgueirão), Paradinha de Outeiro, Rabal, Rio Frio de Outeiro (Felgueiras), tudo no concelho de Bragança. Seixo de Ansiães, Podence (Filgueiras), Vale de Porco (Fligueiras), Assares (Fligueiras), Pinheiro Velho (Falgarosa), Paços (Fulgueiras), concelho de Vinhais. Famara, no termo de Quirás. Fanado, no termo de Vale de Prados, conc. de Macedo de Cavaleiros. Fanales, no termo de Duas Igrejas. Fanancais, no termo de Trovelo, conc. de Moncorvo. Faro, no termo de Vilarinho das Azenhas. Farrajoeiro, no termo de Santa Comba de Roças, conc. de Bragança. Brito, freguesia de Penhas Juntas. Farrição, no termo de França, conc. de Bragança. Fateira, no termo de Agrochão. Fatoso, no termo de Pinela (Vale), concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Fava, Favas, Favaceiros. Fechedo, no termo de Quebradas. Fedegosa, no termo de Matela. Feitiçal, Feiticeira, nos termos de Baçal (é um largo no meio do povo). Como não lhe anda ligada qualquer lenda de feiticeiras, supomos que virá de feto, fieteira, feteiral e feitiçal. Gradíssimo (Terra da Feiticeira), conc. de Macedo de Cavaleiros. Felgar, Felgoso, nos termos de Pinela, concelho de Bragança. Gestosa (Vale de Felgoso), Vilar Seco da Lomba (Felgar). Felgueiras. Ver a rubrica Falgueiras. Felifreiro, no termo de Izeda. Fentãs (de fetais, feto), Fentais, Fental, nos termos de Frades, Gestosa (Fentais), São Jomil (Fental). Ferradal, Ferradosa, Ferrada, Ferragulhal, nos termos de Alfaião (Fonte do Ferradal). É possível que seja o sítio chamado Ferradosa pelo Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691; Alimonde (Fonte da Ferradosa), Carocedo, Faílde, Formil (Ferradosa), Grijó de Parada, Milhão (Penha do), consta do mesmo Tombo; Outeiro (Poço do), fica no rio Maçãs, segundo refere o citado Tombo; Rebordãos, Rio Frio de Outeiro (Ferradosa), Sortes, Veigas, freguesia de Quintanilha (Fonte Ferrada) e outro sítio chamado Ferragulhal, tudo no conc. de Bragança. Carrazeda de Ansiães (Ferradosa), Linhares, Seixo de Manhoses (Fonte Ferrada), tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Bornes (Fonte Ferrada), Salselas (Vale de Ferradosa), Talhinhas, Vale da Porca (Vale de Ferradosa), Vale de Prados, Vilarinho de Agrochão (Fonte Ferrada), conc. de Macedo de Cavaleiros. Frechas (há Ferradosa e Fonte Ferrada), conc. de Mirandela. Edrosa, conc. de Vinhais. Ferrantulheira, no termo de Grijó de Parada, conc. de Bragança. Ferraria, Ferrarias, no termo de Montesinho, conc. de Bragança. Fornos (Ferrarias). Ala. Carviçais, Urros, há águas férreas. Corre neste sítio uma ribeira que vai ao Douro junta com outras. Há também no termo de Carviçais um local chamado Ferraria. Ferrazes, no termo da Sobreda, concelho de Macedo. Ferrecinta, no termo de Lagoa, concelho de Macedo. Ferreira, Ferreiras, nos termos de Vale de Nogueira (Fonte Ferreira), conc. de Bragança. Penas Roias (Vale de Ferreiras). Ferreiro, Ferreiros, nos termos de Macedo do Mato (Labor do), conc. de Bragança. Granja (Ferreiros), São Pedro da Silva (idem), conc. de Miranda. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Alvites (Vale de Ferreiros), conc. de Mirandela. Brunhosinho (Ferreiros), Mogadouro (Vale de Ferreiros). Felgar (Vale de Ferreiros), conc. de Moncorvo. Uva (Ferreiros). Souto da Velha (Vale de Ferreiros e Ferreiria). Ferros, Ferreiros, Ferreiro, Ferro, Ferronha, nos termos de Pinela (Vales de), Veigas, freguesia de Quintanilha (Ferreiros), Vila Meã (Arte Ferreiro), conc. de Bragança. Vale Pereiro, conc. de Alfândega da Fé (Escalda Ferro). Coleja (Canada do Ferro), no conc. de Carrazeda de Ansiães. Vale da Porca (Ferro), conc. de Macedo. Mós (Ferronha), Carviçais (Vale de Ferreiros). Ferveda, no termo de Rabal. Fervença, rio que banha Bragança. Feto, Fetal, Fetais, Feteira, Fieteira, Fieital, Faleital, Faleito, Fleitosa, Faleital, Felitosa (Avelanoso), São Martinho de Angueira e Vilar Seco de Miranda, Fiteiro (Paradinha Nova), Fiteira, Finteira (Aguieiras), Fental (Vale de Salgueiro e Quirás). Cova dos Fieitos (São Martinho do Peso), Figueitos (assim se chama aos fetos em Urrós. Ver o artigo Faleito. Fevançudo, no termo de Paçó de Sortes, conc. de Bragança. Fevrença, Fervença, Fevereiros, Forvência, nos termos de Rebordãos e Azinhoso. Edral (Fervença) Quirás. Vila Chã da Ribeira (Fevereiros). Chelas (Forvência), concelho de Mirandela. Feucha, no termo de Morais (freguesia). Fiães, nos termos de Cova de Lua, Izeda, Paredes (Ribeiro de Fiães), Paçó de Sortes e Parada de Infanções. Nunes, Ervedosa. Em Nuzedo de Cima há um sítio do termo chamado Campo, onde fabricam cântaros e louça. Fiães, fiaã, fiaam, ffia, sfiaa e fiada é a mesma palavra antiga portuguesa e significa vaso de barro, chato e redondo, depois chamado almofia. Servia antigamente para pagar certa medida de cereais e também de manteiga; dezasseis fiães faziam um alqueire. Possivelmente, o toponímico Fiães indica terras que pagavam esse foro ou onde se fabricavam tais vasos (911). Fialho, no termo de Izeda. Fichó, no termo de Bornes (Fonte). Fidalgos, no termo da Lavandeira (rua dos), concelho de Carrazeda. (911) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Fiães», que tirou a notícia de VITERBO – Elucidário, artigo «Fiaã».

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Fiel, no termo de Passos. Figueira. Filhaçais, no termo de Covelas, concelho de Vinhais. Filhadas, no termo de Sendim da Ribeira, conc. de Alfândega da Fé. Fins, no termo de São Pedro Velho (Vale de Maria Fins). Fisga, no termo de Pombal, conc. de Carrazeda de Ansiães. Flagosas, no termo de Frechas. Fligueira, no termo de Valtorno. Fligueira por figueira é frequente no sul do distrito de Bragança. Focaza, no termo de Edroso. Fofo, no termo de Baçal (Vale de), conc. de Bragança. Ver a rubrica Vale de Fofo, pág. 165. Fojo, nos termos de Sambade, Carocedo e Paradinha Nova (Lombo do). No termo de Vila Meã há um sítio chamado Arte dos Lobos, que entendo se relaciona com fojo ou outro processo de caçar lobos. Beira Grande, Carrazeda de Ansiães, Parambos, Paradela. Vale Benfeito, Lagoa (Lombo dos Fojos). São Martinho de Angueira (Alcança Lhobos. É possível que se relacione com Fojo, pois os fojos eram poços destinados a apanhar lobos e outros animais). Avidagos, Guide (Vale de), Chelas, Vilarinho dos Galegos (Forjo); estará por Fojo? São Martinho do Peso. Meireles. Alvaredos, Celas, Vinhais, Ervedosa. Adeganha, conc. de Moncorvo. Ver a rubrica Refoios, pág. 148. Folgaroso, no termo de Soutelo da Pena Mourisca (freguesia). Folgosa, Folga, nos termos de Parada de Infanções. Vale de Prados (Fragas da Folga), conc. de Macedo de Cavaleiros. Fonte, Fontes (povo e sítio de termos), Fontaelas, Fontainha, Fontanhos (Vilar, freguesia Milhão), Fontânica (São Pedro da Silva), Fontaninos (Duas Igrejas), Fontan, Fontareja, Fontela, Fontelo, Fontelas, Fontelinho, Fontelósia (Cova de Lua), Fontesuela (Espinhoso), Fontilhado, Fontilheiro, Fontim, (Mofreita), Fontinha. Fonte Aldeia, Fonte do Bispo (em São Salvador, conc. de Mirandela, e, segundo a lenda, foi aberta com uma bengala pelo bispo de Bragança D. António da Veiga Cabral, bispo santo, como aí lhe chamam, que morreu nessa povoação em 1819, na rua da Barreira, no que prestou grande serviço à povoação, por ser extremamente falta de água. Este povo venera o bispo como santo e a ele recorre nas suas necessidades, implorando chuva nas estiagens, sol nas chuvadas, frutos nas crises alimentícias, enfim em tudo, e atribui ao bispo todos os benefícios extraordinários, miraculosos por assim dizer, que recebe), Fonte do Cano, Fonte Fria, Fonfria, Fonte Quente (em Fontes Barrosas; serão águas térmicas?), Fonte Longa (povo e sítio de terMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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mos), Fonte do Ladrão, Fonte da Pena, Fonte da Pedra, Fontes Transbaceiro, Fonte la Rosa e Vale das Fontes. Fontesquilha, no termo de Macedo de Cavaleiros (freguesia). Forca (ver Talefe), no termo de Alfândega da Fé. Freixeda (Vale da), Rebordãos, Sanceriz (Cabeço da), é comum a esta povoação e a Macedo do Mato, Vila Franca, tudo no concelho de Bragança. Freixo de Espada à Cinta (Cabecinho da). Nozelos (há forca e pelourinho, mas deste apenas resta o fuste, de forma cilíndrica), Vale de Prados (esteve aqui a forca, da qual ainda há poucos anos restavam algumas pedras), tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Miranda do Douro. Frechas, Romeu (Campo da), Vale de Asnes (Lombo da), tudo no conc. de Mirandela. Azinhoso, Castro Vicente (ainda há poucos anos se viam as pedras deste infame monumento, mas veio um raio partiu-as, derrubou-as e desapareceram levadas à formiga pelos moradores), Penas Roias (Cabeço da), tudo no conc. de Mogadouro. Mós, conc. de Moncorvo. Aboá (Monte da). Sobreiró de Baixo (Castelo do Monte da), Vinhais (Monte da), Ervedosa (Algoso). O toponímico Forca, em termos de povoações que não foram sedes de concelho e portanto careciam de jurisdição para mandar enforcar, provirá de outras circunstâncias relacionadas com o sinistro aparelho. Em 1670 roubaram a igreja de Vinha Velha de Vila Real, e o ladrão, um preto, foi enforcado no alto de um monte, em frente à igreja roubada, pelo que o dito sítio se ficou chamando Monte da Forca (912). Formarigus, no termo de Bragança. Formourisca, no termo de Parâmio. Fornaraz, no termo de Valverde, conc. do Mogadouro. Fornos, Forno, nos termos de Ala (Vale dos), Baçal (Forno), Carviçais (Vale de Forno e Forninho da Velha, dois sítios), Formil (Fornelo), Montesinho, freguesia de Coelhoso, Mora (Portela dos), Negreda (Forno), Póvoa (freguesia de Suçães), Quintela de Vinhais, Sacoias (há buracos a modo de forno nas fragas), Samil (Touça dos), Trindade, Vale de Prados (Macedo), Vila Boa de Carçãozinho (Lameira do Forno), Vinhas (Forno da Cal e Fornos, dois sítios). Em alguns sítios o toponímico Forno relaciona-se com a indústria cerâmica; noutros, porém, apresenta carácter arqueológico. Foro, no termo de Ferreira (freguesia), conc. de Macedo. Forra, no termo das Pelejas (Mão Forra). Forte, no termo de Serapicos (é uma rua do povo), concelho de Bragança. (912) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Vila Real».

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Miranda do Douro. Pinelo (Fortilheiro). Frade, no termo de Martim (Vale de), conc. de Bragança. Comunhas (Vale de Frades), Sobreda, Vale de Prados (pequena quinta, onde vive uma família), tudo no conc. de Macedo de Cavaleiros. Pinheiro Velho (Cavages do), Montouto (freguesia, Cavage do). Algoso. Remondes (Lameiro dos). Há também povoação com o nome de Vale de Frades, no conc. do Vimioso, e Frades, no de Vinhais. Fragua, Frauga, Fraguas, nos termos de Vila Boa de Carçãozinho, Baçal (Frauga), Vila Meã (Fráguas), conc. de Bragança. Franco, Franca, Francos, nos termos de Alimonde (Vale Franco), Formil (Franca), Paçó de Outeiro. Brunhosinho (Francos). Penas Roias (Franca), Nunes, Santa Cruz. Francosa, no termo de São Pedro da Silva. Franjose, no termo de Agrobom. Franzo, no termo de Vila Chã de Braciosa. Frechal, Frecha, Vale Frechoso, nos termos de Parada de Infanções, Valverde (Vale da Frecha), conc. de Bragança. Ribalonga (Cana Frechal), conc. de Carrazeda de Ansiães. Vilarinho dos Galegos (Vale Frechoso). Frediz, no termo de Rio de Onor (Vale). Freinto, no termo de Lagoa, conc. de Macedo de Cavaleiros. Freiras, Freira, nos termos de Bragança (Cabeço das). É um grande pedaço de terreno, situado na confluência do Sabor e Fervença, chamado antigamente Cabeço da Cidade, por dizerem que aí foi a sua primitiva situação, passando a ter aquela designação desde que a Câmara Municipal o doou às freiras de Santa Clara. Há também Moinho das Freiras, nome que lhe veio de pertencer às freiras de Bragança. Valverde, Vilar, freguesia de Milhão (Cabeço das), tudo no concelho de Bragança. Freixo de Espada à Cinta (Prado da). Talhinhas (Freira). São Pedro da Silva (Cabeço das Freiras). Azinhoso (Vale das). Vilar Seco (Lameiro da), conc. do Vimioso. Souto da Velha (Cavada das). Paradela de Mascarenhas (Cortinha das). Freiteira, no termo dos Codeçais, conc. de Carrazeda de Ansiães, Freixo, Freixeda (povo e sítio de termos), Freixal, Afreixenal, Freixeiro, Freixigosa, Freixerrosa (Fonte Ladrão), Fresno (Ifanes), Fresenales (Paradela, conc. de Miranda), Urreta lo Fresno, Freixanas (Rego de Vide, conc. de Mirandela). Frendeiras, no termo de Prada, conc. de Vinhais. Fresende, no termo de Nogueira, conc. de Bragança. Fresno, ribeiro que nasce na freguesia de Malhadas e desagua no Douro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Frieira, no termo de Sendim da Ribeira. Há também povoação chamada Frieira. Fris, no termo do Souto da Velha. Frões, no termo de São Tiago, freguesia de Vila de Ala (Vale Frões). Frogas, no termo de Babe. Frontoura, Frontouro, no termo de Luzelos (é o nome de uma quinta), conc. de Carrazeda de Ansiães. Soutelo (Frontouro), Linhares (idem), ambas no concelho do Mogadouro. Frousende, no termo de Vale de Frades. Frujoco, no termo de Vale de Asnes. Frunha, no termo de Rebordainhos. Fuias, no termo de São Joanico. Fulgar, Fulgueirigo, nos termos de Calvelhe (há um fosso) concelho de Bragança. São Jomil (Fulgueirigo), conc. de Vinhais. Fultreiro, no termo de Sanceriz, conc. de Bragança. Fural, no termo de Sendim da Ribeira, conc. de Alfândega da Fé. Furcacú, no termo de Freixedelo, conc. de Bragança. Furcadas, no termo de Milhão, conc. de Bragança. Furnias, no termo de Montouto (freguesia, Portela das). Gabaço, no termo de Vilar Seco de Lomba. Gafaria, Gafa, no termo de Carrazeda de Ansiães. Talhinhas (freguesia – Portela da Gafa), concelho de Macedo. Ver a rubrica Malato. Gaiosas, Gaiosa (de gaio?), nos termos de Paçó de Outeiro e Edral (Gaiosa). Gaivas, no termo de Freixeda, conc. de Mirandela. Galbote, no termo de Morais (freguesia). Galego, no termo de Águas Vivas (Cabeço do), Vale de Armeiro (Poula da Galega). Os toponímicos Galego, Galega,Castelhano e Castelhana são frequentes. Galeirões, no termo de Felgueiras. Gales, no termo de Vale Benfeito (freguesia – Ribeira de). Galgueira, nos termos de Vale de Lamas, Adeganha e Soeira, conc. de Bragança. Provavelmente, Galgueira equivale a anguelga, anguelgueira, nomes dados em algumas terras à aveleira. Galhardo, nos termos de Sortes, conc. de Bragança. Palaçoulo, Prado Gatão, Sendim de Miranda (Galharda), concelho de Miranda. Vilar Seco, conc. do Vimioso. Galheiros, no termo de Vale de Prados, conc. de Macedo. Galiana, no termo de Rebordainhos. Galo. Gamelo (de gamo?), no termo de Rio Frio de Outeiro, concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

213 TOMO X

Gamiteiros, no termo de Santalha (freguesia). Gamo, Gamoeda (nome de serra e apelido da povoação de Soutelo da Gamoeda, sita nas faldas da mesma serra), Gamonal (Pinelo), Gamão (em alguns pontos chamam gamão à haste de uma planta bolbosa, que, depois de seca, arde e serve de candeeiro para dar luz, como os galhos das urzes). Gândara, nos termos de Rebordões, Edral e Vale de Armeiro. É frequente. Gangra, no termo de Vale Pereiro (Vale da), concelho de Alfândega da Fé. Ganzal, no termo de Vale Benfeito. Garabata, no termo de Freixo de Espada à Cinta. Garbia, no termo de Coelhoso, conc. de Bragança. Gardamonde, no termo de Penhas Juntas. Gargage, Gargaxa, no termo de Calvelhe, conc. de Bragança. Seixas (Gargaxa), conc. de Vinhais. Gargulhão, no termo de Edral. Garima, no termo de Granja, conc. do Mogadouro. Garjo, no termo de Castrelos, conc. de Bragança. Talhinhas, concelho de Macedo de Cavaleiros. Garrido, no termo de Vilarinho da Castanheira. Garroira, no termo de Felgueiras (rua do povo). Gatão, nos termos de Sacoias e Quirás. Há também povo com este nome. Gato, Fraga do Gato, Pena do Gato, Rabo do Gato. Gavanceira, Garvanceira. Gavilão, Gavilães, Gavião, no termo de Rebordainhos, concelho de Bragança. Bemposta (Gavilães). Do espanhol gavilão, gavião. Gavinho, no termo de Gimonde. Gaxa, no termo de Grijó de Parada, conc. de Bragança. Gengil, no termo de Poiares (Vaso), conc. de Freixo. Genturibo, no termo de Edral. Geria, no mesmo termo. Germil, no termo de Calvelhe, conc. de Bragança. Gestosa, Gesta, Gestal, Gesteirãs, no termo de Vilar Chão, conc. de Alfândega da Fé. Há povo com este nome. E frequente o toponímico gesta e derivados. Gimonde, nos termos de Urrós. Há povo com este nome. Ginço, no termo de Macedo de Cavaleiros. Gingil (de ginja?). Girbada, no termo de Fonte de Aldeia. Goata, no termo de Lamalonga (freguesia). Godeiros, nos termos de Candoso e Vila Flor. Godial, no termo de Morais (freguesia). Goleta, no termo de Viduedo (é uma rua do povo), concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO X

Golfeiras, nos termos de Vilar de Baixo e Vilar de Cima, concelho de Alfândega da Fé. Há também povoação. Lamas (freguesia), concelho de Macedo. Mogadouro. Vila Flor (Lameira de) e Samões. Gomar, no termo de Calvelhe (Vale de). Gonda, no termo de Guribanes (Vale da), conc. de Mirandela. Gonoliban, no termo de Vale da Forca (freguesia), conc. de Macedo. Gorbas, no termo das Múrias, conc. de Mirandela. Gordo. Carvalho Gordo, Freixo Gordo, Laje Gorda, Pena Gorda, Penedo Gordo. Deve vir do espanhol gordo, que significa grosso, grande. Gozenda, no termo de Quintanilha, conc. de Bragança. Grabanceira, no termo de Cerejais, conc. de Alfândega da Fé. Gracia, no termo de Mora (Urreta), conc. do Vimioso. Gradojo, no termo de Meirinhos. Grains, no termo de Zedes, conc. de Carrazeda de Ansiães. Gralha, Gralhas, Gralheiros, Gralheiro, Gralhós (povo e sítio de termos). Gralhosa, Gralheiro, no termo de Vila Boa de Carçãozinho, concelho de Bragança. Parada (Gralheiro), conc. de Alfândega da Fé. Gramanchão, no termo de Izeda. Gramela, nos termos de Comunhas e Murçós, concelho de Macedo. Graminhal, no termo de Macedo do Mato, concelho de Bragança. Granada, no termo de São Joanico Grangés, nos termos de Fonte de Aldeia, conc. de Miranda, e Vale de Algoso (Grangis). Granja, no termo de Lagomar (consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501), conc. de Bragança. Olmos, conc. de Macedo. Há povo com este nome e também um ribeiro que nasce no termo de Carragosa e desagua no Sabor. Grazeira, no termo de Vila Chã de Braciosa. Grial, Grail, no termo de Rio Frio de Outeiro, conc. de Bragança. Beira Grande (Grail) conc. de Carrazeda de Ansiães. Grigocio, no termo de Vale Benfeito. Grigueira, no termo de Vale Benfeito (freguesia). Gril, Grilo, nos termos de São Salvador e Vilar Seco da Lomba (Prado Grilo). Grissão, no termo de Vale de Asnes. Grito, nos termos de Santalha (freguesia, Urzal do Grito). Equivalerá a Viso, Aviso, Facho, etc.? Grixa, Grixo, Grixote, Guixole, Gricheira, nos termos de Cerejais (Grichos), Covelas, Gebelim, todos no conc. de Alfândega da Fé. Arufe, Viduedo (Fonte da), Izeda (Ribeiro da), concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

215 TOMO X

Beira Grande, Coleja, Lavandeira, Parambos, Pereiros (Greixo), Samorinha (Grixa da Vaca), tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Bornes (Grixote; na matriz predial da repartição de fazenda está Guixote), Castelãos, Chacim (Fonte do Grixo), Santa Combinha (Grixo), Vale Benfeito, Vinhas (Ribeiro da), tudo no conc. de Macedo. Gandariças (Grixeira), concelho de Mirandela. Valtorno (nesta povoação ao local chamado Grixa dão-lhe indistintamente este nome ou o de Pendão. Equivaler-se-ão na significação?) e Samões. Este toponímico é frequentíssimo. Grou. Grovas, no termo das Arcas, conc. de Macedo de Cavaleiros. Grula, Grulo, Grua, no termo de Lagoa (Vale da), concelho de Macedo. Azinhoso, Brunhosinho (Grulo), conc. do Mogadouro. Candedo (Vale da Grua). Grutas. Ver a rubrica Cavernas. Guala, no termo de Arcas (freguesia). Guedim, no termo de Edral. Gueiras, nos termos de Avelanoso e Especiosa. Guerra, nos termos de Vilar Chão, concelho de Alfândega da Fé. Baçal (Vale de). Este nome deve provir de aí terem acampado os espanhóis na guerra da Sucessão, como dizemos no tomo I, pág. 117, destas Memórias. Terroso (Souto das Guerras), concelho de Bragança. Constantim (Urreta la), conc. de Miranda do Douro. Variz (Lameiro da). Guiça, no termo de Samões (Guiça Bezerros), concelho de Vila Flor. Guieiro, nos termos de Alfaião (Cabeço Gujeiro), Babe (Guileiro, Guilheiro), Gimonde é a continuação de um outeiro pela crista da montanha acima em seguida à Tiritana até ao caminho que vai para Rio Frio. No mesmo termo de Gimonde há um sítio chamado Portas de Guieiro, tudo no conc. de Bragança. Guilhado, no termo de Meixedo, conc. de Bragança. Guilhoso, no termo de Vilar Chão, conc. de Alfândega da Fé. Guimaras, no termo da Bemposta. Guimbra, Guimbeira, nos termos de Baçal (Vale de), Milhão e Bemposta (Guimbeira). Guimil, no termo da Paradinha Nova, concelho de Bragança. Guinda, no termo de Saldonha, conc. de Alfândega da Fé. Virá do espanhol guinda, ginja, variedade de cereja? Guingeiras (do espanhol guindas, ginjas?), nos termos de Talhinhas (freguesia, conc. de Macedo). Guisete, no termo de Izeda. Gulhardas, no termo de Angueira. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO X

Gulpilheiras, Gulpinha, nos termos de Izeda, Oleiros (Gulpilheira), Sacoias (Gulpinha), conc. de Bragança. Gulpilheira; estará por raposeiras, do latim vulpis, vulpelha, vulpilheira? Gumieiro, no termo do Lombo (freguesia), conc. de Macedo. Gundia, no termo de Babe. Gundibal, no termo de Vale da Porca, concelho de Macedo. Gurela, no termo de Matela (Lombo da). Gurjais, no termo de Mourão, concelho de Vila Flor. Honra, no termo de Souto da Velha (Curral de). Horta, Horteias, Hortelágio, nos termos de Cércio (Hortelágio), Mogadouro (Horteira). Há também povoação chamada Horta. Igreja Velha, no termo de Salsas, concelho de Bragança. Igrejas, ribeiro que desagua no Sabor, em Gimonde. Impaio, no termo de São Martinho do Peso (Portela de). Indiego, no termo de Poiares, concelho de Freixo de Espada à Cinta. Na pág. 481 e noutras do tomo VI destas Memórias apontamos diversos indivíduos com as nomeadas de Indiano e Africano, por terem militado nestas paragens, assim como se chama Brasileiros aos tornadiços do Brasil. lndiego relacionar-se-á com alguém que esteve na Índia? Indinoira, no termo dos Eixos, conc. de Mirandela. Ineira, no termo de Cércio (Vale de). Inferno, nos termos de Salsas, freguesia (Ribeiro dos), Labiados, concelho de Bragança. Grijó de Vale Benfeito (Ribeira do), Lagoa (Ribeiro do), concelho de Macedo de Cavaleiros. Avelanoso (Urreta L’inferno). Parada (Canelho do), conc. de Alfândega da Fé. Infestas, no termo de Pombares (Vale de), conc. de Bragança. Infins, no termo de Parada de Infanções (Veiga de). Ínsua, Insotes, no termo de Mosteiró; também há outro sítio chamado Insotes. Intique, no termo de Nogueirinha (Fonte), conc. de Macedo. Irgo, no termo de Izeda (Vale de). Iriel, no termo de Zeive (Vale de), conc. de Bragança. Ivães, no termo de Vila Chã de Braciosa. Izedo, no termo de Izeda. Jagonça, no termo de Soutelo, conc. do Mogadouro. Jainhos, no termo de Ala (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Alguns dão o nome de Jainhos a um ribeiro que banha o termo das Arcas. Jambieira, nos termos de Sendim da Ribeira, Vilar Chão e Parada, conc. de Alfândega da Fé. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

217 TOMO X

Janazes, Janal, nos termos de Urros (Vale de), conc. de Moncorvo. Vimioso (Janal). Jancarne, no termo de Fradizela (Fonte de). Jane, no termo de Lagoa, conc. de Macedo. Janeirinhos, no termo de Vale de Lamas, conc. de Bragança. Jangafo, no termo de Gavião. Janio, no termo de Babe. Janverba, no termo de Seixas, concelho de Vinhais. Jarize, Jarissa, nos termos de Peleias (Vale de) e Revelhe. Jas (ias) no termo de Sanceriz, conc. de Bragança. Joqueiriça, no termo de São Jomil. Judeu, nos termos de Lamas de Orelhão (Vale do). Vale Frechoso (Lameiro de). Jufe, no termo de Penhas Juntas (Lama de). Jugadeira, no termo de Póvoa (Penha), conc. de Miranda do Douro. Jular, no termo de Formil (também dizem Julado), conc. de Bragança. Junça, Junçoeira, (Grandais). Junco, Juncal, Junquedo, Juncarelhos (Azinhoso), Juncosa, Junqueira (povo e sítio de termos), Junquelinho (Vale de Juncal). Juntadouro, no termo de Gebelim. Jussedelo, Jussadelo, no termo de Babe. Labanho, Labanço, Labanheiras, no termo de Refoios, conc. de Bragança. Edrosa, concelho de Macedo de Cavaleiros, Avelanoso (Lavainço), conc. de Miranda do Douro, São Pedro Velho (fica num ribeiro, longe do povo), Revelhe (Labanheiros). É frequente este toponímico. Virá de lavadourinho, lavadouranho? Labuzelos, no termo de Aveleda, conc. de Bragança. Laças, nos termos de Aveleda e Lodões (Ribeiro da Laça). Laceiras, nos termos de Sambade, Carrazeda de Ansiães e Vila Verde (Laceira), conc. de Vinhais. Virá de laço, armadilha de caça e, portanto, equivalente de fojo? Lada, no termo de Cova de Lua (Vale de), conc. de Bragança. Ladeiro, no termo de Bornes (na serra deste nome), Nogueira (consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691), Castrelos, conc. de Bragança, e Edral, conc. de Vinhais. Ladrões, no termo de Refoios, conc. de Bragança. Ribalonga (Prado de Ladrão), Seixo de Manhoses (Ladrão), tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Ligares (Vale do Ladrão), conc. de Freixo de Espada à Cinta. Rio de Fornos (Rigueiro de Ladrões). Valtorno (Ladrão). Eivados (Vale de), freguesia de Suçães, conc. de Mirandela. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO X

Lagar, Lagares, Lagariça, Lagariças, Lagarelhos (povoação e sítio de termos). Ver págs. 566 e segs. do tomo IX destas Memórias. Lagarços, no termo de Oleiros, conc. de Bragança. Lagarto, Lagartixa, Lagartija, Lagarteira e Lagartosa. Lage, Lagieira. Lagoa, Lagoas, Lago, Lagos, Lacoais, Lacoeiro, Lagarço, Lagoaça, Lagoaças, Lagoaçais, Lagocias, Lagoeiro, Lagoela, Lagonalhas, Lagonhosa, Lagónica, Lhagoaçales, nos termos de Castrelos, Conlelas (Lagoas), Donai (Lago), Freixeda (Lacoeiras), Freixedelo, Izeda (Lagoas); Lagomar (o Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501 menciona em Lagomar os seguintes sítios do termo: Lagoaça, Lagoa e Lago); Oleiros (Lagoas), Sacoias (Lagoela), Samil, Santa Comba de Rossas (Lagoaçais), São Pedro de Serracenos (Lagoaça e também Logoas), Vila Meã (Lagoaça e Lagonota), Zoio (Lagócias), tudo no conc. de Bragança. Gradíssimo (Lagoas), Vale da Porca (Lacoais); no termo do mesmo povo também há um sítio chamado Lago, tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Cicouro (Lagonalhas), Especiosa (Lhagoaçales e Lagónica), Prado Gatão (Laganhosa, de laguna, e lagunha, por influência espanhola), tudo no concelho de Miranda do Douro. Gandariças (Lagoeiro), conc. de Mirandela. Agrochão (Lagoaça), conc. de Vinhais. Dine (Lagarço), Edral (Lago e Lagos), Melhe (Lagócios). Mourão (Lacoeiro), conc. de Vila Flor. Lajoso, no termo de Zeive, conc. de Bragança. Lama, Lamas, Lamela, Lamelas, Lameirica, Lameirona, Lumedo (Lagomar), Lama Longa (povo e sítio de termos), Vale de Lamas (povo e sítio de termos). São frequentíssimos os topónimos «lama» e derivados. Lambiçal, Lambedouro, Lambedelo, Lambiçais, nos termos de Espinhosela, Zeive, Gondesende e Algoso. É muito frequente este toponímico, que deve relacionar-se com a vida pastoril e pascigo de gados. Lamigueiro, no termo de Soutelo da Pena Mourisca (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Lampaça, Lampaças, Lampacinhas, nos termos de Aveleda (é uma chaira à beira do rio), Formil (Lampaças), Soutelo da Gamoeda. Bornes (Lampaças) e Vilar Seco da Lomba (Lampacinha). Lanção, no termo de Sanceriz, conc. de Bragança. Há também povoação. Lanças, no termo de Pombal, conc. de Carrazeda de Ansiães. Langueiro, no termo de Calvelhe. Lapareira, no termo de Seixo de Manhoses, conc. de Carrazeda de Ansiães. Lara, no termo de Roios (Ribeiro de), consta do Diário do Governo de 18 de Setembro de 1854. Laranjeira, no termo de Alfândega da Fé. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

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Larão, no termo de Gimonde. Larouco, nos termos de Formil e Nogueira, conc. de Bragança. Lastra, Lastredo, nos termos de Coelhoso (Lastredo) e Rabal. Latadas, no termo de Seixo de Manhoses, conc. de Carrazeda de Ansiães. Estação na via férrea da linha do Tua. Latilhares, no termo de Rio Frio de Outeiro. Lavacouros, no termo de Edral. Lavandeira, nos termos de Agrobom e Brunheda. Faílde, Gondesende, Lagomar (consta do Tombo dos bens do cabido do Mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501); Rio Frio de Outeiro, Salsas (freg.), Terroso e Vila Boa de Carçãozinho, conc. de Bragança. Abreiro e Cedães, no conc. de Mirandela. Maceira e Espinhoso, no conc. de Vinhais. Lavrouco, no termo de São Joanico (Lavrouco Serro), concelho do Vimioso. Lebre, Urreta da Lebre, Vale da Lebre, Pala da Lebre. Leira, Leiras, corresponde a sortes, casais, quinhão. De leiras virá de Leirós (nome de povo), pequenas leiras? Lemacal, no termo de Gondesende. Lentisco, Lentiscal, Lantiscais, Lantiscal. Leolo, no termo de Constantim. Levadeira, no termo de Carrazeda de Ansiães. Lhimparão, no termo de São Pedro da Silva. Equivalerá a lâmpado, como em algumas terras chamam aos rebentos nos toros dos castanheiros cortados? Lhonada, no termo de Constantim. Ligeira, nos termos de Peso, freguesia de São Martinho do Peso. Limãos, no termo de Donai, conc. de Bragança. Há também povoação. Linhares, Linhos, Linheiros, Linhar, nos termos de Picões, Sardão, Parada e Saldonha. Baçal (Linhares da Veiga). Conlelas (Linhos), Espinhosela (Linhares). Parambos (Linhares), Seixo de Ansiães. Espadanedo (Linheiros), Gradíssimo (Linhar), Grijó de Vale Benfeito, Latões (Linhar), Vale de Prados, Vilar do Monte (freguesia), Algosinho e Vilar de Rei. Alvaredos, Dine, Mofreita, Penhas Juntas, Santalha (freguesia), Algoso (Urreta dos) e Souto da Velha (ribeiro dos Linhos). Lobazim, no termo de Vilarinho da Castanheira (é o nome de uma quinta), conc. de Carrazeda de Ansiães. Lobétios, no termo de Parambos, conc. de Carrazeda de Ansiães. Lobo, Lobagueiras (Petisqueira), Casais dos Lobos, Cova do Lobo, Mindelobos (Baçal), Vale de Lobaceiro (Alvaredos). Lobos (ribeira de). Nasce no termo de Corujas e desagua no Tua. Lodeiro, no termo de Alimonde, concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO X

Lomba (região e sítio de termos), Lombo, Lombeiro, Lombeirais. Longaelas, no termo de Babe, concelho de Bragança. Longra, nos termos de Vilarinho de Agrochão e Sobreiró de Baixo. Há também povoação. Lougaco, nos termos de Deilão e Palácios (Longaço), concelho de Bragança. Lourinha, no termo de Freixedelo, conc. de Bragança. Lousa, Lousinha, Louseira, Lousela. É frequente. Tralhariz (Lousela) e no seu termo Serra da Lousa. Lousa povoação. Lua. Ver o artigo Luz. Maçãs. Rio que nasce em Espanha e desagua no Sabor. Maceira, Maçanal, Maçaneira, Macenal, Macedo, Macieira, no termo de Quintela de Vinhais. Cércio (Macenal). Vale de Miro (Maçanal), concelho de Miranda do Douro. É frequentíssimo este toponímico. Maciedo, Macedo, Maceda, nos termos de Babe; Gondesende (Macedo), Formil (Maçã Porrinha. Consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691), Portela (Macedo), concelho de Bragança. Ala (Vale Macedo), conc. de Macedo de Cavaleiros. Quirás (Maceda), conc. de Vinhais. Macorro, no termo de Cisterna, conc. de Vinhais. Maçouras, Maçores, no termo de Lamalonga (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Celas (Maçores), conc. de Vinhais. Macucar, no termo de Vila Verdinho (Fraga de). Madeiro, a, os, Vale de Madeiros. Madis, Madris, no termo de Saldanha (Urreta), conc. de Alfândega da Fé. Cisterna (Vale de Madris). Madiveiro, no termo de Felgueiras. Madre, nos termos de Castrelos, conc. de Bragança. Freixo de Espada à Cinta (Vale da), Souto da Velha e Santa Cruz. Há também povoação. Madriana, no termo de Lagoa. Madureira, nos termos de Vilar de Baixo, conc. de Alfândega da Fé. Macedo do Mato, conc. de Bragança. Mágás, no termo de Argozelo (Vale de). Maias, nos termos de Baçal (Trás-de-Maias), Cova de Lua (Maelas = Mai + elas?), Rio Frio de Outeiro, Vila Boa de Carçãozinho (Fonte dos), conc. de Bragança. Linhares (rua das), conc. de Carrazeda de Ansiães. Freixo de Espada à Cinta. Malar, no termo de Malhadas. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Malara, no termo de Gimonde, conc. de Bragança. Como Gimonde é muito sazonático, virá de malária? Malato. Dão este nome a um grande pedaço de terreno da freguesia de Quintela de Lampaças, onde há uma gruta que terá meio metro na entrada e depois dois de altura, sendo a sua capacidade interna quatro metros de comprimento por dois de largura, tudo na fraga. Diz a lenda que viveu aqui um homem leproso, chamado Malato. Perto da gruta, coisa de trezentos metros, há uma fraga com escavações circulares em forma de malga e nelas deixava a mulher do leproso o mantimento, gritando-lhe de longe: «Ó Malato, aqui te fica o jantar; vem buscá-lo», e retirava-se. Ver o Elucidário, de Viterbo, artigo Malato. Malhacú, no termo de Freixedelo, concelho de Bragança. Malhadas, Malhada, Malhadinha, Malhadais, nos termos de Calvelhe, Donai, Gimonde (Malhadinha), Grijó de Parada (Pontão da Malhada), Paçó de Outeiro, Pombares (Malhadinha), Portelo, Rio de Onor, Samil, Santa Comba de Rossas, Vilar, freguesia de Milhão, conc. de Bragança. Burga, Chacim (Malhadinhas), Lamas de Podence (Malhada), Limãos (Vale das), Sesulfe (Terras das), Vilar de Ouro (Malhada Velha), Edrosa (freguesia), tudo no conc. de Macedo de Cavaleiros. Águas Vivas (Malhada Grande), Cércio, Cicouro, Constantim (Malhada do Rei), Granja (Malhadica), Malhadas, Palaçoulo, Paradela (rua do povo), tudo no conc. de Miranda do Douro. Brunhosinho (Malhadinhas), Brunhoso (Malhada), Variz (Malhada e Malhadinha), conc. do Mogadouro. São Joanico, conc. do Vimioso. Souto da Velha (Malhadais), conc. de Moncorvo. Malhada, Mosqueiro e Sestiadouro, equivalem-se no conceito agrícola por serem matas de carvalhos, sardões ou outras árvores, onde os gados descansam à sombra no verão. Malheira, no termo de Bragança. Malho, Malhão, nos termos de Aveleda (Malhão) e Rabal. Ver os artigos Feiticeiras, Malho e Vila Franca e o tomo IX, pág. 462, destas Memórias. Malima, nos termos dos Cerejais e Alfândega da Fé (Ribeira do Malimão). Malojo, no termo de Lamalonga (freguesia). Malojo, equivalerá a manojo, nome que, em terra de Bragança, dão às vides cortadas na poda das vinhas depois de enroscadas em pequenos molhos? Malpique, no termo de Alfaião, conc. de Bragança. Mandreiras, no termo de Rebordãos, conc. de Bragança. Mangas, Manguelinhas, nos termos de Oleirinhos, Aveleda (Manguelinhas), conc. de Bragança. Manheiro (de maneiro, manaria?), nos termos de Lombo (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. Manicalvo, no termo de Contins. Manjafre, no termo de Luzelos, conc. de Carrazeda de Ansiães. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO X

Manteira, no termo de Lagoa, conc. de Macedo de Cavaleiros. Maquedo, no termo de Parada de Infanções. Mar. É mui frequente este toponímico, bem como Lago, Lagas, Lagoa e correlativos, segundo apontamos no artigo respectivo. Maragouço, Maragoute, nos termos de Vale das Fontes e Santa Cruz (Maragoute). Maral, no termo de Lamas (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Margalas, no termo da Granja. Margatosa, no termo de Caroceiras. Margotos, no termo de Mós de Rebordãos, conc. de Bragança. Margouça, no termo do Pinheiro Novo. Mariais, no termo de Penhas Juntas. Marileu e também Mirleu, no termo de Zeive, concelho de Bragança. Marimpés, no termo de Águas Vivas. Maritábola, no termo de Freixo de Espada à Cinta. Marivela, idem, idem. Marmandinhas, no termo de Rebordãos. Marmeiral, Marmoural, Marmeirais, no termo de Vilar Chão, concelho de Alfândega da Fé. Viduedo (Marmaural), Formil (idem), Valverde, conc. de Bragança. Alvités. Linhares, conc. do Mogadouro (Marmeirais). Carviçais e Souto da Velha (Marmeirais), conc. de Moncorvo. Marmelo, Marmelos (povo e sítio de termos), Marmeleiros (quinta e sítio de termos). Marmolina, nos termos de Paradela, Vila Chã de Braciosa, Vale de Miro, tudo no conc. de Miranda do Douro. Marmoniz, no termo do Mogadouro. Marmorim, no termo de Macedo de Cavaleiros (freguesia). Marmugueira, no termo de Grijó de Parada, conc. de Bragança. Marmuno, no termo de Gondesende. Marnadelas, no termo de Viduedo, conc. de Bragança. Marnotes, nos termos de Castrelos, Meixedo, Moredo, Pinela e Salsas (freguesia) concelho de Bragança. Marnune, no termo de Portela, conc. de Bragança. Marquesa, no termo de Longra (Chão da), conc de Mirandela. Marralhal, no termo de Malhados. Marrão, nos termos de Gimonde, São Julião, fica perto do povo e entre ele e a Refega, conc. de Bragança. Fonte Ladrão, conc. de Miranda. Agrochão (Vale de). Marruça, nos termos de Vilar e Parada, concelho de Alfândega da Fé. Massarolha, no termo de Vila Flor. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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223 TOMO X

Mata, Matelha (povo e sítio de termos), Matelha (Cércio). Mata Filhas, Mata Genros e Mata Homens, nos termos de Sortes (consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501), Duas Igrejas, Vilar Seco (Mata Genros), conc. do Vimioso e Milhais (Mata Homens). Matança, nos termos de Outeiro, Palácios (Lameiro da), conc. de Bragança. Freixo de Espada à Cinta, Carrazeda de Ansiães. Cicouro, Duas Igrejas e S. Martinho de Angueira. Urros, conc. de Moncorvo. Segundo a lenda, houve aqui uma grande batalha com os mouros. Aos locais do mesmo nome, sitos em Carrazeda de Ansiães e Freixo de Espada à Cinta, atribuem lenda semelhante. Mazedo, no termo do Vale das Fontes (Vale de). Mazouco, no termo de Urrós, conc. do Mogadouro. Há também povoação. Meadelo, no termo de Lamas (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. Mechão, no termo de São Julião (Cabeço do), conc. de Bragança. Meda (ver a rubrica Modorra), nos termos de Alfaião, Refoios (Fonte da), São Pedro de Serracenos, Brunheda, conc. de Carrazeda de Ansiães (é terreno plano). Corujas (freguesia – Vale de). Freixeda, conc. de Mirandela. Felgar, conc. de Moncorvo. Brito, freguesia de Penhas Juntas (Medas). Castanheira (Vale de Medas), conc. do Mogadouro. Medo, nos termos de Vale Pereiro (Ribeiro do), conc. de Alfândega da Fé. Paradinha Nova (Ribeiro de). Mogo de Ansiães (lagar do). Meira, Meiral, Meirala, Meireles, Meirele, nos termos de Alfândega da Fé (Pai de), Agrobom (Meirala). Rabal (Meiral). Seixo de Manhoses (Fraga Meireles). Malta (Meirele), conc. de Macedo de Cavaleiros. Suçães (Meiral). Bemposta (Meireles). Edrosa, conc. de Vinhais. Souto da Velha (Meiral), conc. de Moncorvo. Meirigo, no termo da Refega, conc. de Bragança. Meixide, no termo de Urrós (ver a rubrica Castelo). Meixoeira, no termo de Paçó de Outeiro, conc. de Bragança. Mel. Ver a rubrica Colmeias. Melamena, no termo de Suçães. Meligordo, no termo de Meirinhos. Melma, no termo de Palácios (Carvas de), conc. de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Menacões, no termo de Fresulfe. Mente. Ribeira afluente do Rabaçal. Merambelo, no termo de Suçães. Meranço, no termo de Vale de Asnes. Mercê. Regato que desagua na Ribeira de Lobos. Meris, no termo de Fresulfe. Merôdios (em muitas partes chamam merôdios aos morangos), no termo de Edroso (Vale de). Merouços, no termo de Parada, conc. de Alfândega da Fé. Em muitas partes chamam merouços aos montões de pedras («Mourouço» nos dicionaristas). Mezio, no termo de Grijó de Parada, conc. de Bragança. Michão, Michões, nos termos de Palácios, conc. de Bragança. Figueira (Michões), conc. do Mogadouro. Midelo, no termo de Izeda, conc. de Bragança. Midouros, nos termos de Espadanedo (freguesia – Carvalho de), conc. de Macedo de Cavaleiros. Migilde, no termo de Babe, conc. de Bragança. Migra, no termo de Babe (Fonte da), conc. de Bragança. Mijaceira, Mijagares, Mixadouro, no termo de Coelhoso, concelho de Bragança. Seixo de Manhoses (Mijagares), Ala (Mixadouro), conc. de Macedo de Cavaleiros. Milcenos, no termo de Angueira. Milharada, Milharelhos, Milhara, Milhão, Mílharas, nos termos de Vilar de Baixo, conc. de Alfândega da Fé. Conlelas (Milharelhos), conc. de Bragança. Pombal (Mílhara), conc. de Carrazeda de Ansiães. Santa Combinha (Milharadas), conc. de Macedo de Cavaleiros. Aldeia Nova (Milhão e há também Milharada), concelho de Miranda. Freixeda (Mílhara), conc. de Mirandela. Gestosa (Mílharas), Vila Boa de Ousilhão (Milhara). Milho, Milhão (povo e sítio de termos) Milharais, Milhares, Milharadas. Milo, no termo de Espinhosela (Veiga de), conc. de Bragança. Mina, no termo de Prado Gatão (Cabeço da), conc. de Miranda do Douro. Mindel, Mindes, nos termos de Quintela de Lampaças, Mogo de Ansiães (Mindes). Minglaçor, no termo de Labiados, conc. de Bragança. Minhareles, no termo de Caçarelhos. Minteira, no termo da Figueira, conc. do Mogadouro. Miomento, no termo de Cabanelas. Miotas. Aqui chamam miotas às águias que comem as carnes putrefactas dos animais. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Mira, Miranda, Mirandela, Miradouro, Mirago, Mirões. Ver tomo IX, pág. 353 e 566, destas Memórias. Misarela, no termo de Sernande, conc. de Vinhais. Miselo, no termo de Vale de Lobos (Cabeço do), concelho de Mirandela. Mitras, Mitra, nos termos de Vilar Chão, conc. de Alfândega da Fé. Vale Maior (Mitra), conc. de Mirandela. Moa, no termo de Santalha (freguesia). Mogadouro, no termo de São Salvador, conc. de Mirandela. É uma montanha alta de onde se avistam muitas terras. Mogo, Mogos, nos termos de Vila Boa do Carçãozinho, conc. de Bragança. Edral (Fonte dos Mogos), Paçó de Vinhais e Adeganha, Mogo de Malta e Mogo de Ansiães, são duas povoações do distrito de Bragança. Moiala, no termo de Covelas, conc. de Vinhais. Moinho de Vento, nos termos de Izeda e Cicouro (Muinheira). Moirios (por murios, murós), no termo de Suçães. Moitoito, Moitoitico, no termo de Mora, conc. do Vimioso. Virá de moita, moitica? Monção, no termo de Rio Frio de Outeiro (Vale de), concelho de Bragança. Mondego, nos termos de Carviçais (é uma ribeira que corre no termo deste povo) e Souto da Velha, conc. de Moncorvo. Mondim, nos termos de Urrós, conc. do Mogadouro. Vilar de Ossos, conc. de Vinhais. Monelos, no termo de Aveleda, conc. de Bragança. Monfebres, no termo de Milhais. Monfroia, no termo de Morais (freguesia) Monil, no termo de Espinhosela (Vale de), conc. de Bragança. Montesteira, no termo de Pinela, conc. de Bragança. Moradês, no termo de Fonte Longa, concelho de Carrazeda de Ansiães. Morais, Morales, nos termos de Freixedelo e Oleiros, concelho de Bragança. Picote (Vale de Morales), conc. de Miranda. Moredo, Moredos, no termo de Vilar Chão, concelho de Alfândega da Fé. Gregos (Moredos). Moreia, no termo de Outeiro (Fonte), conc. de Bragança. Moreira, Moreiral, Moreirão, Moreiras, Moreiredo, Moreirica, Moreirinhas, Moreirita, Amoreiral, nos termos de Sambade (Moreira Torta). Grijó de Parada (Moreiredo), Izeda (Moreiras), Paçó de Outeiro (Moreirita), Varge (Moreirica), conc. de Bragança. Brunheda (Moreirinha), conc. de Carrazeda de Ansiães. Poiares (Amoreiral), conc. de Freixo de Espada à Cinta. Valdrez (Moreirinhas), Bornes (idem), Castelãos (Moreiral), Ferreira MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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(Moreirinha), Malta (idem), Edrosa (freguesia, Moreirinha), tudo no conc. de Macedo de Cavaleiros. Múrias (Vale das Moreiras), Parada (Moreirinhas), Suçães (Moreirão), São Pedro de Vale de Conde (Lameiro da), Chelas, tudo no conc. de Mirandela. Saldanha (Moreiral), Valverde (Moreirinha), Figueira, concelho do Mogadouro. Mós (Moreirinho), conc. de Moncorvo. Freixiel (Moreirinha), conc. de Mirandela. Gestosa (Amoreiras), Paços (Moreirinha), Quirás (Moreira e Moreiredo), Brito, freguesia de Penhas Juntas (Moreirinhas), Ervedosa (Moreiras), Penhas Juntas (Moreirão), Vale de Janeiro (freguesia, Moreirinha), Santalha (freguesia, Porto Moreiras), tudo no conc. de Vinhais. Algoso (Moreirica e Moreirinhas). Vale Frechoso (Moreira de Videira). Morta, nos termos de Vale Benfeito (Mulher morta), Vilarinho do Monte (idem), Lombo (freguesia, Homem morto), tudo no conc. de Macedo de Cavaleiros. Mós, nos termos de Viduedo, conc. de Bragança. Brinço (Lameiro dos Mós), conc de Macedo de Cavaleiros. Freixiel, conc. de Vila Flor. Chelas, conc. de Mirandela. Mós é também o nome de uma ribeira que nasce na freguesia de Carviçais e desagua no Douro. Mosendas, no termo de São Jomil. Mosqueiro, Mosca, nos termos de Aveleda, Carocedo, Carrazedo e Formil, conc. de Bragança. Castelãos, Gradíssimo (Mosca), há também Mosqueiro, Vilarinho de Agrochão e Bornes, conc. de Macedo de Cavaleiros. Ousilhão. É frequentíssimo este toponímico e relaciona-se com a cultura pecuária. Mosteiró, no termo de Soutelo da Gamoeda, conc. de Bragança. Moucal, no termo de Saldanha, conc. do Mogadouro. Mouchão, no termo de Vila Meã, concelho de Bragança. Moucho. Moulhão, no termo de Angueira. Mouque, no termo de Bornes (Mouque, Mouco), conc. de Macedo de Cavaleiros. Mouradal, no termo de Vilar de Baixo, conc. de Alfândega da Fé. Mourais, no termo de Parâmio, conc. de Bragança. Nesta minha aldeia de Baçal chamam moura ao terreno encharcado que treme e se enterram nele as criaturas quando passam. Há mouras que absorvem completamente um homem ou qualquer animal, dando-lhe morte por MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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asfixia semelhante aqueloutra terrificamente descrita por Vítor Hugo, das quais conhecemos duas: uma no termo de Vale de Lamas, conc. de Bragança, e outra no de Tronco, conc. de Chaves. As do termo de Baçal apenas absorvem até quarenta ou cinquenta centímetros. Mourel, no termo de Vale Benfeito, conc. de Macedo de Cavaleiros, onde há ruínas de povoado antigo (dos mouros, diz o povo). Mourelo, no termo de Negreda. Mourim, nos termos de Meixedo (Vale de), conc. de Bragança. Mouriscas, no termo de Fontes Transbaceiro, concelho de Bragança. Há também Soutelo Mourisco, povoação do concelho de Macedo de Cavaleiros. Mouros, nos termos de Saldonha (Cabecinho dos), conc. de Alfândega da Fé; Alfaião (Cabeço dos), há fossos cavados na rocha; Cabeça Boa (Fraga da Moura); Coelhoso (Cabeço dos); Faílde (Fonte dos); Izeda (Ribeiro da Moura); Lagomar (Lama do Mouro, consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501); Macedo do Mato (Fonte do), fica no sítio da Terronha e foi habitação dos mouros, diz o povo. Apareceram lá os alicerces de um grande castelo, mui largos, cerâmica, restos de um cano de tijolos, telhas de rebordo e outras antigualhas. Parada de Infanções (Cabeço da Mourinha); Paradinha Nova (Mata Mouros); Pinela (Vale da Moura); Rebordões (Vale de Mouro); São Pedro de Serracenos (Figueira da Moura); Terroso (Fonte da Moura); Zeive (Cruz dos), tudo no concelho de Bragança. Lagoaça (Casal dos). É um recinto cercado por um muro de grande altura e largura. Areias (Cabeço dos). Lenda da moura encantada. Ala (Pia dos); Valdrez; Castelãos (Fornos dos); Espadanedo (Vila dos); Murcós (Cabeço dos), apareceu aqui um sino de ouro e uma cabra do mesmo metal, diz a lenda; Nogueirinha (Cortinha da Moura); Santa Combinha (Vale da Moura); Talhinhas (Forno dos); Vale Benfeito (Fonte da); Vale da Porca (Urreta da), tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Cércio (Urreta le Moura); Cicouro (Penhas do Mouro); Especiosa (Moura); Freixiosa (Poço da Moura); Teixeira (Fonte da Moura); tudo no conc. de Miranda do Douro. Freixedinha (Terra dos); Mascarenhas (Poço dos); São Pedro de Vale de Conde, no cume de um cabeço há uma capela e foi habitação de mouros; Vila Boa (Serra do Mouro). No sítio chamado Vistosa, também termo de Vila Boa, há buracos, escavações, pedregulhos, ruínas e foi habitação de mouros, diz a lenda; tudo no conc. de Mirandela. Bruçó (Fonte do Mouro); Figueira (Moura); Remondes (Casal dos Mouros); Urrós, no sítio de Meixide foi povoação dos mouros; Tó (Fraga da Moura); Vale de Porco (Cabeço dos); Variz (Poço dos); tudo no conc. do Mogadouro. Candoso (Fraga da Moura). Segundo a lenda, antigamente ninguém podia ir para este sítio, porque andava lá uma fera que devorava tudo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Santa Comba da Vilariça (Curral do Mouro); Valtorno (Fonte do Mouro); Vilas Boas (Muralha dos). Há restos de muros e ficam em volta do actual Santuário de Nossa Senhora da Assunção. Tudo no conc. de Vila Flor. Argozelo (Poço dos). Há ruínas e restos de muros. Campo de Víboras. No sítio chamado Vale de Víboras havia antigamente muitas víboras, mas hoje não, porque um mouro as encantou. Referimos lenda idêntica nos artigos Ansiães e Cabeça de Mouro nas págs. 117 e 141 do tomo IX destas Memórias; Caroceiras (Souto da Moura); Frades, no sítio chamado Fragueiro dos Bufos viveram os mouros. Maceira (Fraga dos), lenda da moura encantada; Moás (Fraga do Mouro); Montouto (freguesia, Penedo do Mouro); Ousilhão (Vale da Moura); Paços (Poula dos). Apareceram aqui sepulturas cavadas na rocha, cobertas com lousa; pedras de guiceiros (quícios) de portas, restos de habitações de mouros, diz a lenda; Pinheiro Novo, no Lombo das Aguçadeiras quiseram os mouros lançar uma ponte de ferro até à vila de Senane, termo de Cisterna (ver este artigo). Diz a lenda que o lugar da Cisterna tinha antigamente o nome de Vila de Senane; Pinheiro Velho (Cova dos). Há um buraco feito pelos mouros; Prada, no sítio chamado Mosqueiro há um poço dos mouros; Quirás, no Rigueiro do Moinho há uma fraga cheia de buracos feitos pelos mouros e na Bulhelha, também termo de Quirás, outra com um buraco (gruta?), que foi habitação de mouros. Soeira (Urze da Moura), tudo no concelho de Vinhais. Mousse, no termo de Gostei e Castanheira, como consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691, e, segundo ele, neste local tinha uma terra a Ordem de Malta. Moutinhos, no termo de Sambade. Mua, Muás, nos termos de Paçó de Outeiro (Cabeço da), Rabal. Mua quer dizer mula no português antigo. Serve para o caminho pastoril. Vila Verde, conc. de Vinhais (Muás). Mula, Mua, Muar. Mulher, nos termos de Formil (Mata mulheres) (consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691. No Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501 fala-se no Penedo de Mata Mulheres, sito no termo de Grandais, que provavelmente corresponde a Mata Mulheres no de Formil, termo confinante). Bornes (Mulher Morta), Castelãos (idem), Edrosa (idem), concelho de Macedo de Cavaleiros. Mundinhos, no termo de Vilar, freguesia de Milhão. Muralhas, Muradelhas, Murelho, Murio, Muro, nos termos de Murçós (freguesia, Cabeço das), Penhas Juntas (Muradelhas), Seixas (idem), Santa Cruz (Vale de Murelho), Muno (Armoniz). Sendim da Serra (Muradelha), há ruínas de muralhas. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Pereira (Muradelha), freguesia dos Avidagos, Rego de Vide (Muro Velho), concelho de Mirandela. Murelo, Murilhe, Murancho, nos termos de Conlelas (Vale de), Gimonde (Murelinha). Mogo de Ansiães (Murilho), Parambos (Murancho). Murganheiras, nos termos de Carocedo e Avinhó. Murganho, nos termos de Sambade (Vale de). Valbom de Mascarenhas. Murgedo, nos termos de Carragosa e Donai (Serro). Murmulina, nos termos de Genísio, Ifanes e Fonte Ladrão. Murrias, nos termos de Sobreda, conc. de Macedo de Cavaleiros. Couços, conc. de Mirandela (Vale das). Murtórios, no termo de Lodões. Mutrilas, no termo de Cércio. Naboa, nos termos de Saldonha e Vale Pereiro (Vale de), conc. de Alfândega da Fé. Naburgueira, no termo de Brunhosinho. Nacarelo, no termo de Talhas (freguesia). Nafonso, no termo de Caravelo, conc. de Bragança. Nagalha, Naga, Nagueda, nos termos de Linhares, conc. do Mogadouro, Tó (Naga), Montouto (freguesia, Nagueda). Ver Navalho. Naio, no termo de Penhas Juntas (Bouças de). Naira, no termo de Pinela (Vale de), conc. de Bragança. Nalha, no termo de Coelhoso (Urreta de). Nalvira, no termo de Tuizelo (Vale de). Nara, no termo de Bruçó (Vale de). Nária, no termo de Vale de Couso. Narze, no termo de Vilarinho de Agrochão (freguesia). Naticedo, no termo de Ala (freguesia). Navalho, Navalhos, Navalha, Navainho, Navage, Navais, Navalhais, Navalheiro, Navalinhas, Navarega, Navareja, Navelinho, nos termos de Sambade (Naval), Alfaião, Arufe, Faílde, Formil (consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501), Gondesende, Grijó de Parada, Gostei e Castanheira (Penedo do Navalho), consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691; Izeda (Navalhos; há também Navalhinho no termo do mesmo povo), Labiados (Novalhico), Outeiro, Paçó de Outeiro, Parada de Infanções. Mogo de Ansiães, Gradíssimo (Navainho, Naveinho), Lagoa (Navalinha), Talhinhas (Navalha do Carro), há também Navalhais no termo deste povo; Vinhas (Navalhos), Ferreira (freguesia, Navareja), Vale de Lobos (Alto da Navarega). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Tó (Navas). Há também povoações Nabo e Navalho. Navarra, nos termos de São Martinho do Peso, conc. do Mogadouro. Serapicos, conc. do Vimioso. Naz, no termo de Aveleda (Penedas de Naz). Nebral, no termo de Freixiosa. Nebro, no termo de Picote (Penha de). Nefiz, no termo de Variz (Vale de). Negécia, no termo de Vale Benfeito. Negrainhos, no termo de Grijó de Parada. Negues, no termo de Ligares (Fonte de). Nelas, nos termos de Melhe e Vila Boa de Ousilhão (Vale das). Nelga, no termo de São Martinho do Peso. Nestreiro, no termo de Aveleda. Néveda, no termo de Castelãos (Urreta da). Nilgas, no termo de Penhas Juntas. Nogueira, Nogal (Babe), Nogueirão, Nogueiredo (Salsas), Nogueirinha, Noz, Nozal (Aldeia Nova), Nozedo. Há Nogueira e Nogueirinha, povoações. Norra, no termo de Conlelas. Nova. Codeçais (Aldeia Nova), há ruínas de povoação extinta. Novelhos, no termo de Soutelo da Gamoeda. Novelo, no termo de Lagoa (Vale de Novelo), conc. de Macedo de Cavaleiros, onde apareceu um triturador de pedra. Perto, na Fraga do Castelo, encontram-se cacos de telha, restos de muros e diz o povo que foi cidade dos mouros. Novilha, Novilho. Nozedo, Noguedo, nos termos de Meixedo (Fonte do), Felgar (Noguedo), Nozedo de Cima, Valverde, conc. do Mogadouro (Ribeiro de Noguedo). Nustedo, no termo de Gimonde. Oitão, no termo da Lavandeira (rua do povo). Oleiros, nos termos de Parada de Infanções (Bairro dos), é uma rua do povo, Grijó de Vale Benfeito (Vale de), Abreiro (Vale de Oleiro) e Tuizelo (Lombeiro dos). Há Oleiros e Oleirinhos, povoações. Olmo, Olmos (povo e sítio de termos), Olmedo, Olmeda, Olmares (Granja). Ombriz, no termo de Peredo da Bemposta (Cabeço de). Omeição, no termo de Malhadas. Onça, no termo de Cabanas de Baixo (Cova da Onça), concelho de Moncorvo. Onisnal, no termo de Carrazedo. Onzelhas, no termo de Montesinho, conc. de Bragança. Orense, nos termos de Tó. Orgueirinhas, no termo de Lamas de Orelhão. Orjo, Orjais, Orgueiras, nos termos de Carrazedo (Cabeço do), Martim, Capelinhas (Orjais), consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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em 1691. Capelinhas é povoação extinta; para a sua localização ver tomo I, pág. 368, destas Memórias. Tudo no concelho de Bragança. Tralhariz (Orgueira), conc. de Carrazeda de Ansiães. Nuzedo de Cima (Orjais) e Vale Frechoso. Ormidão, no termo de Fradizela. Orno, Ornalhos, no termo de Vale da Porca (Vale de) e Edral (Vale de Ornalhos). Orso, no termo de Vale de Janeiro (freguesia). Equivalerá a urso? Orteias (Horteias?), no termo de Formil, conc. de Bragança. Ortevideira, no termo de Caravela, conc. de Bragança. Orvedal (por Ervedal?), no termo de Algoso. Ossa, Osso, Ossos, Osseira, no termo de Sambade (Vale da). Alfaião (Vale da Ossa), segundo aponta o Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691, Aveleda (Vale da), Paçó de Outeiro (Vale de), Vale de Nogueira (Rego de Ossos). Carrazeda de Ansiães (Osseira), Seixo de Ansiães (Osseira), Freixo de Espada à Cinta (Vale de Osso). Olmos (Vale de), Vinhas (Cabeça de), Amendoeira (freguesia – Vale da), Morais (Cabeço de), Murçós (freguesia – Cabeço de), Peredo (freguesia – Ussos; equivalerá a ossos ou será Ussos, urso?), Talhinhas (freguesia – Vale de Orso). Vila Boa, Valverde (Vale de), conc. de Mirandela (Valdosa = Vale da Ossa?). Vilar de Rei (Vale de Osso), Edrosa (Vale de Ossos), Montouto (freguesia – Falgueira da), Caroceiras (Vale de Ossos). Valtorno (Usseira, Osseira). Ver a rubrica Vilar de Ossos. Ossante, no termo de Samorinha, conc. de Carrazeda de Ansiães. Osseira, ribeira que banha o termo de Seixo de Ansiães. Oumares, no termo de Revelhe. Oureira (de ouro?), no termo de Fonte Ladrão (Caminho da). Ouro, no termo de Bragança (Vaso de), Ribeira de Ouro, no termo de Espinhosela, Luzelos (Cabecinho do), no termo de Carrazeda de Ansiães. Sobreda (Pereira de), Edrosa (freguesia, Cova do Ouro), Podence, freguesia, (Cova de). São Pedro de Vale de Conde (Fonte do), Vale de Gouvinhas (idem). Saldanha (Lombo do), há restos de povoação antiga, alicerces de casas e ainda pelos anos de 1930 achou um lavrador o sítio de uma rua. Tó (Paço do). Edrosa (Cova de), Santalha (freguesia, Fonte do), Adeganha (Regato do). Fonte do Ouro na povoação de Santo André, freguesia de Valverde, concelho do Mogadouro. Diz o povo que o nome veio de uma mulher que achou um cordão de ouro na fonte e tirou, tirou até supor que já tinha bastante riqueza ou que se cansou de tirar, cortando-o então; desapareceu porém tudo no mesmo instante. Outão, nos termos de Vale Benfeito e Amendoeira (freguesia). Outejas, no termo de Samorinha, conc. de Carrazeda de Ansiães. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Ouveira, no termo de Edroso. Ovar, nos termos de Gregos. Paânas, Panadouro, no termo de Assares, conc. de Vila Flor. Pacio, Paço, Palácios, Palaçoilo, nos termos de Baçal (é rua do povo), Carrazedo, Formil (Fonte do), Grijó de Parada (Tra lo), consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691, Izeda (Palácios), Nogueira (Paço do Arcebispo, Fonte do Paço e Bairro do Arcebispo), constam do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501, tudo no conc. de Bragança. Bornes, Macedo de Cavaleiros (freguesia). Paradela (Palácio), Vila Chã de Braciosa, conc. de Miranda. Meirinhos, rua da povoação, Sampaio (Palaçoilo), Urrós (Barrocal de Palácio) por pertencer ao palácio da Ordem de Malta, que aí teve propriedades. Tudo no conc. do Mogadouro. Frades (Paço), rua do povo, Ousilhão (Fonte do Paço, há também Pomar do Paço), constam do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs atrás citado, Paçó de Vinhais (Pácios). Benlhevai, rua do Paço. Valtorno (Paços). Padrabreia, no termo de Gimonde, conc. de Bragança. Padrão, nos termos de Carragosa e Grijó de Parada. Padre, no termo de Miranda do Douro (Mau). Paio, no termo de Valverde (Vale), conc. de Alfândega da Fé. Pala, Palorco, Palão, Palouxe, nos termos de Izeda e Parada de Infanções (Palorco), Freixo de Espada à Cinta (Palão) Talhas (freguesia – Palorco). Santa Cruz (Palouxe). Há Palas, povoação. Negreda (Pala de Melhe), Caroceiras, Pereira (freguesia dos Avidagos), concelho de Mirandela, Tralhariz (Pala Escura). Paladraga, no termo de Sendim de Lomba. Palagões, no termo de Vila Verdinho (Cabeço dos). Palancares (de pala, palão, palanca?), no termo de Angueira. Há Palancar, nome de povoação. Palhares, no termo de Bragança. Palharegos, no termo de Pinheiro Novo. Palombeira, do espanhol palomba, paloma, no termo de Saldanha. Palorca, no termo de Cedões. É também nome de uma povoação. Panasqueira, Penasqueira, no termo de Picões, Vilar Chão (Penasqueira), conc. de Alfândega da Fé. Paneira, no termo de Ifanes. Panes, no termo de Izeda (Vale de). De pan, panes, pães? Papialvo (espécie de gato montês), no termo de Alvaredos. Parabeilho, no termo de Valverde, conc. do Mogadouro. Parada, Paradela, Paradinha, Paradas, Paradelhas, nos termos de PomMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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bal, conc. de Alfândega da Fé, Babe (Lama de), Calvelhe (Vale de), Coelhoso (Paradela), Cova de Lua (Paradela), Formil (idem), Outeiro Paçó de Outeiro (Vale de), São Pedro de Serracenos (Paradinhas Alvas), Sarzeda, já vem mencionada no Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501, Vilarinho de Cova de Lua (Paradela), Mogo de Malta (Lage de Parada), Seixo de Manhoses e Gavião, conc. de Carrazeda de Ansiães. Lagoa (Corriça da), Salselas (Vale de), Vinhas (Vale de), Morais (freguesia, há Parada e Paradinha), Podence (freg., Pontão da), Sesulfe (freg.), Talhas (freguesia Paradas). Lousa. Matela (Paradela), Santulhão (idem), Cisterna, Edral (idem), Gestosa (idem), Melhe (idem), também há Parada no termo da mesma povoação. Nogueira, Nunes, consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691. Soeira (Paradela) Zido (Paradelhas) Santalha (freguesia). Caravela, freguesia de Vale de Asnes, conc. de Mirandela (Vale da). Há também no distrito de Bragança as povoações de Parada (conc. de Alfândega da Fé), Parada de Infanções, Paradela (quatro povoações), Paradinha dos Besteiros, Paradinha Nova, Paradinha de Outeiro e Paradinha Velha. Sobre o vexame das paradas e aposentadorias dos nobres, bispos e poderosos nas casas dos plebeus, ver o artigo Forais na palavra Pousada, onde em nota se cita a documentação respectiva, da qual consta o grito de protesto do povo. Há também um ribeiro chamado Paradela, que banha esta povoação no conc. de Miranda do Douro e desagua no Douro. Parâmio, no termo de Arças (freguesia – Olga do). Há povo com o nome de Parâmio. Paranhos, no termo de Ala (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Pardala, no termo de Ifanes. Pardaxardo, no termo de Pereira, freguesia dos Avidagos, concelho de Mirandela. Parpalheiros e também Perpalheiros, no termo de Vilar da Torre, concelho de Mirandela. Parpolhouro, no termo de Parâmio. Parraguês, no termo de Valbom de Mascarenhas, concelho de Mirandela. Parrinhela, no termo de Martim Tirado, conc. de Moncorvo. Partanzedo, no termo de São Cibrão. Partouro, no termo de Conlelas (Vale de), conc. de Bragança. Passai, no termo de Rego de Vide, conc. de Mirandela. É frequente este toponímico. Patacão, no termo de Maçãs (Fonte do). Pataelas, no termo de Sabariz, conc. de Bragança. Patarrinha, no termo de Sendas, conc. de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Pateira, nos termos de Coelhoso, Lanção (Fonte da), Moredo (Prado), conc. de Bragança, e Vilar Seco, conc. do Vimioso. Patim, no termo de Baçal (é o nome de uma rua do povo). Paturno, no termo de Espinhosela. Paúlo, no termo de Luzelos, conc. de Carrazeda de Ansiães. Pécareis, no termo de Refoios, conc. de Bragança. Pedinheiro, no termo de Malhadas. Pedra, Pedragal, Pedragueiras. Pedra de Ar, no termo de Comunhas; Pedras Brancas, no termo de Sobreiró de Baixo. É um fragueiro grande, e, metendo-se a cabeça numa cavidade que tem, sente-se um rugido como de água corrente. Ver tomo IX, pág. 657, destas Memórias. Pedriqueira, no termo de Melhe. Pedrogo, no termo de Vilarinho da Castanheira, concelho de Carrazeda de Ansiães. Pedrosas, Pedriças, Pedriça, nos termos de Donai, Pereiros (Pedriças), Refega (idem), Vila Meã (Pedriça), conc. de Bragança. Ligares (Pedriças), conc. de Freixo de Espada à Cinta. Pega, Pegas, Lombo das Pegas (Paradinha Nova). Peijoeira, no termo de Sanceriz, conc. de Bragança. Virá de poejo, como em algumas aldeias bragançanas chamam ao mentrasto? Péla, no termo de Rego de Vide, conc. de Mirandela. Pelagrela, no termo de Regodeiro. Pelames, Pelame, Pelameiro, Pelamo, Ptiteiro, Palame, nos termos de Babe (Pelamo), Viduedo (Palame), Grijó de Parada (Pelames), Salsas (freguesia). Bornes, Talhinhas, Ala (freguesia), Burga, Espadanedo (freguesia), Lombo (idem), Sesulfe (idem) e Talhinhas (idem). Sendim de Miranda, Bouça, Torre de Dona Chama, Chelas, Vale de Asnes (é o nome de uma rua do povo). Azinhoso, Urrós (ainda há restos de tanques do curtimento de peles) e Remondes. Mós (Ribeiro dos Palamos); deve significar Pelames, mas o informador disse Palamos, conc. de Moncorvo. Vimioso, Algoso. Edral (há um sítio chamado Lavacouros, que suponho corresponder a Pelame nos fins industriais), Vinhais, consta de um documento de 1672 (ver tomo VII, pág. 624, destas Memórias) e Penhas Juntas. Valtorno (Ptiteiro), Vale Frechoso (Pelameiro), Carviçais e Gouveia (Palame). Peleja, no termo de Ervedosa (Pleja). Pelgo, nos termos de Serapicos, conc. de Bragança e Freixo de Espada à Cinta. Pelicão, no termo de Montesinhos, freguesia de Coelhoso, concelho de Bragança. Pelourinho, no termo de Rebordãos, rua da povoação. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Mascarenhas (é o nome de uma rua do povo; dizem que se conservam ainda restos do pelourinho) e Romeu (Canelha do). Pena, Penedo, Penedro, Penedra, Penedal. Pen, radical de penedo, pedra, é frequentíssimo este toponímico. Pena Aguda, Pena de Águia, Pena Branca, Pena Cal (fraga da cal ou de onde se extrai cal), Pena Campã, Pena Cova (fraga da cova), Pena do Cavaleiro (Outeiro), Pena Coelheira, Penedante (fraga da anta), Pena Fria, Pena Mourisca, Pena Ruiva. Penas Roivas, no termo da Açoreira, freguesia de Alvites. Penha Ferreira (Angueira, fraga de ferro ou que contém minério de ferro), Penha Redonda, Penha do Sardão, Penhas Negras. Penas de Alva, Penas do Vaqueiro. Penicas de Ferro (Varge, fragas que contêm minério de ferro). Fonte da Pena. Penacal, nos termos de Alfaião e São Pedro de Serracenos. Há uma caverna mui comprida num fragueiro, onde ninguém entra, porque se apaga a luz que levar. Vive lá uma moura encantada a tecer em tear de ouro. Tudo no conc. de Bragança. Ribeiro que nasce no termo de Robordãos e desagua no Sabor. Penaguste, no termo de Lanção, conc. de Bragança. Penalva, no termo de Babe. Penatoure, no termo de Vilar de Ouro, concelho de Macedo de Cavaleiros. Pençais, no termo de Nogueira, conc. de Bragança. Pendão, nos termos de Izeda, Lodões (Alto do), Besteiros (Alto do Pendão), conc. de Carrazeda de Ansiães, Souto, freguesia de Valverde, conc. do Mogadouro, Trovelo (Pendinha), conc. de Moncorvo, Vale Benfeito, conc. de Macedo de Cavaleiros. Pendência, no termo de Valtorno. É frequente este toponímico. Penedras, Penedeira, Penedro, Penedrinhas, nos termos de Alfândega da Fé, Parada (Penedro Longo), conc. de Alfândega da Fé. Montesinho (Penedeira), Mós de Rebordãos (Penedro), concelho de Bragança. Grijó de Vale Benfeito, conc. de Macedo de Cavaleiros. Penência, no termo de Samil. Pengumeiral, no termo de Montouto, freguesia. Penidelo, no termo de Parada de Infanções. Penso, nos termos de Formil (há águas medicinais sulfúricas), Pombares (Fonte do), conc. de Bragança. Parada, conc. de Alfândega da Fé. Pepe, no termo de Fontes Barrosas, conc. de Bragança. Pepe em espanhol corresponde a José. Pepim, nos termos de Oleirinhos. É interessante notar que o rio, afluente do Sabor, com a foz no sítio de Pepim, termo de Oleirinhos, toma o MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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nome deste local ou lho deu; conc. de Bragança. Pepim em espanhol corresponde a Josezinho. Perburência, no termo de Montouto (freguesia). Perçada, no termo de São Pedro Velho. Perdinigueto, no termo de Grijó de Parada, conc. de Bragança. Perdiz, Perdigão, Vale Perdiz. São frequentes estes nomes. Peredo, nos termos de Carragosa e Talhinhas. Prado Gatão (Peredo de Baixo) e Vale de Salgueiro. Pereira, Pereiro, Peral, Urreta da Pereira, Vale de Pereira. São frequentíssimos. Perfelho, no termo de Brunhosinho. Perilhão, no termo de Grijó de Parada. Perlópia, Perlopes, nos termos de Vilar do Monte e Santa Cruz (Perlopes). Perluiz, Perlox, nos termos de Gostei e Castanheira, concelho de Bragança, São Pedro Velho (Lombo do). Em algumas terras bragançanas chamam perluiz à ave denominada pernil noutras. Permonteiro, no termo de Vilarinho do Monte, conc. de Macedo de Cavaleiros. Permouro, no termo de Ervedosa. Pernai, no termo de Gimonde. Peroubinhos, no termo de Morais (freguesia). Perpilheiras, no termo de Aveleda, conc. de Bragança. Pertiga, no termo de Rebordãos. Pervides, no termo de Edroso (Vale de). Peso, no termo de Samil. Há povoações com o nome de Peso e São Martinho do Peso. Pessarna, no termo de Morais, rua do povo. Petada, no termo de Labiados, conc. de Bragança. Pias, no termo da Póvoa, freguesia dos Estevais, conc. de Moncorvo. Picanheira, no termo de Paçó de Sortes. Picarela, Picarei, nos termos de Outeiro (rua da povoação), concelho de Bragança, e Alvaredos, conc. de Vinhais. Picarreira, no termo de Moredo, conc. de Bragança. Piçarrica, nos termos de Campo de Víboras. Produzem-se aqui bons figos, afamados pelo pregão: São da Piçarrica; três ó vintém; tem auga ó toro; quem os quer, quem os quer! Este pregão é aplicado também como apodo aos de Campo de Víboras. Picoto,Picota, Picouto, Picões (todos estes toponímicos são frequentes), nos termos de Picões e Valverde (Picota),ambos no concelho de Alfândega da Fé. Grandais (Picota) e Zeive (Picouto), conc. de Bragança. Pido, nos termos de Lagoa e Larinho. Pilanco, nos termos de Aveleda; Guadramil (Pilo), concelho de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Pilo, Pilã, Pilocha (Especiosa), Pilões (Ifanes). Pinado, no termo de Mogo de Malta. Pindurinha, no termo de Mós de Rebordãos, concelho de Bragança. Pinela, nos termos de Aveleda (rua da povoação); Calvelhe; Cova de Lua, Pereiros (Pedra Pinela), conc. de Bragança. Há também povoação com o nome de Pinela. Pingarela, no termo de Carrazedo, conc. de Bragança. Pinheiro, Pinhal, Pinheiral, Pinal (Talhas). Há quatro povoações no distrito de Bragança em que entra o nome Pinheiro ou Pinhal, não contando Pinhovelo que tem origem idêntica. Pinzelo, no termo de Parâmio. Pio, no termo do Vimioso (Ribeiro do). Pioco, nos termos de Alfândega da Fé e Vilharelhos, ambos no concelho de Alfândega da Fé. Piorno, Piornal. Pique, no termo do Mogo de Malta, concelho de Carrazeda de Ansiães. Pisão, nos termos de Baçal, Vale de Lamas (Ladeira dos Pisões), há restos de antigos pisões no rigueiro próximo, conc. de Bragança. Luzelos, Seixo de Ansiães (Pisões). Todos no conc. de Carrazeda de Ansiães. Lagoa (Pisão Velho), conc. de Macedo de Cavaleiros. Felgueiras, conc. de Moncorvo. Penhas Juntas, Revelhe, Alvaredos, Vale de Janeiro (freguesia) e Algoso. Pitainho (sic), no termo de Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães. Pito, Pitoso. É frequente. Plombeira, no termo de Parambos, concelho de Carrazeda de Ansiães. Poçacos, Poçal, Possacos, no termo de São Pedro da Silva, concelho de Miranda do Douro. Cisterna (Poçal), Brito, freguesia de Penhas Juntas (Pussaquinha), Ervedosa (Possacos). Poiares, nos termos de Parâmio, Murçós e Vila Boa de Ousilhão. Como poio significa vale; poiares indicará vales? Poio, nos termos de Santa Justa e Vilarelhos (o informador desta povoação disse-nos que por aqueles sítios dão o nome de Poio aos vales). Na Paradinha Nova e noutras partes dão o mesmo nome a uma pequena parcela de terreno ou socalcos entre fragueiros ou cabeços, fértil, mimosa, por ter alguma água e se prestar à cultura de frutos temporãos, visto estar abrigada dos ventos frios e das geadas. Parada, concelho de Alfândega da Fé. Freixedelo, Izeda, Paradinha Nova, São Pedro de Serracenos (Lama do), Vila Boa de Carçãosinho, Seixo de Ansiães, Ligares, Alvaredos e Larinho. Pojo, Pojal, Poejo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Pombaro, no termo de Samorinha. Pombeira, Pombares, Pombeiro, nos termos de Sambade, Lagomar (Pombares), consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501; Vilar, freguesia de Milhão, e Zoio. Porca, Porco, Porqueira, nos termos de Cerejais, Gebelim (Vale Porco), Valverde (Porqueira), conc. de Bragança. Linhares (Fonte do Porco), hoje, Setembro de 1935, chamada Fonte Nova, por terem desfeito a antiga e reconstruindo-a de novo, alteraram-lhe completamente a sua tão característica e original estrutura, concelho de Carrazeda de Ansiães; Couços (Porqueira). Vimieiro (Fonte do Porco), conc. de Mirandela. Porco, Porca, Porcaliças, Fonte do Porco, Horto Porcal, Vale da Porca (povo e sítio de termos), Vale do Porco (povo e sítio de termos), Urreta do Porco. Porrais, povoação e sítio nos termos de Coleja (Vale de), concelho de Carrazeda de Ansiães. Freixo de Espada à Cinta. Porreta, no termo de Vilar Chão, conc. de Alfândega da Fé. Portas, no termo de Edrosa. É possível que Portas corresponda nos efeitos militares a Cancela, Cancelas e Cancelo. Porteleiro, Portelo, Portela, no termo de Rebordãos. São frequentíssimos estes toponímicos. Portinha, no termo de Zeive. Ver a rubrica Babe, pág. 95. Porto, Portos, Portela, Portelo, Portelinha, Porfilheiro, Portesinhos (Baçal). Poulonas, no termo de Donai. Pousadouro, Pousadeiro, Pousada, nos termos de Carrazedo, Donai, Grijó de Parada, Oleirinhos, conc. de Bragança. Saldonha, conc. de Alfândega da Fé. Pombal (Pousada), conc. de Carrazeda de Ansiães. Bornes e Agrochão (Fonte das Pousadas). Viterbo, no Elucidário, diz que «pousadouro» é o sítio que fica no fim e termo de alguma colina, onde a gente descansava. Póvoa, Pova, nos termos de Caçarelhos (Fonte da), conc. de Miranda do Douro. Candoso, concelho de Vila Flor; Valverde, concelho do Mogadouro (Vale da Pova). Póvoa e Pova é possível que se relacionem com vilar, e pobra, dos documentos medievais, equivalente de povoados antigos. Pradancho, nos termos de Vale Benfeito. Pragaçais, no termo de Santa Cruz. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Prainas, no termo de Souto da Velha. Prata, Prateiro, nos termos de Meixedo, conc. de Bragança. Prateiro (Linhares, conc. do Mogadouro), Remondes. Prazis, no termo de Macedo do Mato, conc. de Bragança. Pregoago, no termo de Parada, conc. de Alfândega da Fé. Preis Douros, no termo de Carrazedo, conc. de Bragança. Preitezendes, no termo de Alvites. Prejoanes, no termo de Ferreira (Vale de), concelho de Macedo de Cavaleiros. Priames, Priamos, no termo de Ala, freguesia, concelho de Macedo de Cavaleiros. Nabo (Priamos). Pricadores, no termo de Cardanha, conc. de Moncorvo. Prigelas, no termo de Gondesende. Proeiros, no termo de Vila Meã (Fragas dos), concelho de Bragança. Prões, no termo de Lousa. Proviceira, no termo do Lombo (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. Psarna, no termo de Morais, rua da povoação. Púlpado, no termo da Sobreda (Fraga do), púlpito?, conc. de Macedo de Cavaleiros. Pulviceira, Purviceira, nos termos de Talhas, outros dizem Provinceira, Sampaio (Purviceira). Purgacia, no termo de Alvites. Purgueirixas, nos termos de Labiados; também há Purgueironas no termo do mesmo povo, conc. de Bragança. Quadra, nos termos de Vilar Seco de Lomba. Há também povoação com este nome. Quadracedo, Quadraçal, nos termos de Carrazedo e Romeu. Quatina, no termo de Pombares (Pena Quatina), concelho de Carrazeda de Ansiães. Quegeiras, no termo de Rego de Vide, conc. de Mirandela. Quegola, no termo de Labiados (também dizem Cagola), concelho de Bragança. Queiredo, Queiredos, no termo de Rio Frio de Outeiro. Vimioso (Queiredos). Queiroga, Queiroal, Queirolales, nos termos de Montesinhos, freguesia de Coelhoso, conc. de Bragança. Parambos (Queiroal), Paradela (Queirolales). Vilarinho das Azenhas (Queiroal) e Lodões (idem). Queixais, no termo de Espadanedo, concelho de Macedo de Cavaleiros. Quetrofe, no termo de Bornes, conc. de Macedo de Cavaleiros. Quinchosinho, no termo de Pombal, concelho de Carrazeda de Ansiães. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Quinhões, nos termos de Gostei e Castanheira, Veigas, freguesia de Quintela de Lampaças e Valdrez, conc. de Macedo de Cavaleiros. Quinhoverga, no termo de Nunes. Quinta, no termo de Uva (Ribeiro da). Quintas, ribeiro que nasce do termo de Portela e desagua no Baceiro. Quintela, Quintaelas, Quintana, Quinta, Quintanilha, nos termos de Nogueira e Parâmio (Quintaelas). Valdrez, conc. de Macedo de Cavaleiros, Caçarelhos (Quintanas, rua do povo). Vilar Seco (Quintanilha), conc. do Vimioso. Os toponímicos Quinta e Quintas são frequentes. Quinto, no termo de Rabal (Águas de). No termo de França há Rio Sexto. Portela (Vale Quinto), conc. de Bragança. Valdrez, conc. de Macedo de Cavaleiros. Rã, Rana. Rabaçal, Rabaceira, Rabaça, Rabaças, no termo de Sanceriz, concelho de Bragança. Linhares, concelho do Mogadouro (Rabaceira). Há rio Rabaçal afluente do Mente. Rabansosa, no termo de Calvelhe. Rabeço, no termo de Samorinha, concelho de Carrazeda de Ansiães. Rabela, no termo de Vale Pereiro, conc. de Alfândega da Fé. Rafa la Cafa, no termo de Vilar Seco, conc. do Vimioso. Rafoio, no termo de São Martinho de Angueira. Raige, Raija, nos termos de Sanceriz e Talhas (Raija). Rainha, nos termos de Talhinhas (Figueira da). Avidagos (Vinha da), Eixos (Carreira da), Parada (Fraga da), conc. de Alfândega da Fé, Carviçais (Fraga da). Raiva, no termo de Grijó de Parada. Rajadas, Rajada, Ranjada, nos termos de Baçal, Conlelas (Rajada), Refoios, Veigas, freguesia de Quintela de Lampaças (Rajada). São Pedro (Ranjada). A musa popular canta: Ma-lo haja o grão-de-bico E mai-lo feijão rajado, Ma-lo hajam os teus olhos Q’assim me trazem encantado.

Ranceiral, no termo de Areias, conc. de Carrazeda de Ansiães. Rando, no termo de Coelhoso. Randulfe, no termo de Tuizelo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Ranguenjo, nos termos de Vale de Prados, concelho de Macedo de Cavaleiros. Ranhadouro, nos termos de Vilar Chão, conc de Alfândega da Fé. Castrelos e Valverde, conc. de Bragança. É frequente o toponímico Ranhadouro, que fica sempre numa eminência ou cruzamento de caminhos, onde os cães e os lobos costumam esvaziar os intestinos e arranhar o terreno depois de feita a operação. Ranholeira, no termo de Valverde, conc. de Alfândega da Fé. Rapana, no termo de Carrapatas (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Raposa, Raposo, Raposeiras, Pala da Raposa, Spigão da Raposa. O ribeiro da Raposa nasce no termo de Rebordainhos e desagua no Azibo. Rascavelas, no termo de Zeive. Rata, Ratacova (Labiados). Ratabiados, no termo da Paradinha Nova, conc. de Bragança. Rebata, no termo de Meixedo. Rebentão, no termo de Coelhoso. Na nossa povoação de Baçal e noutras costuma o povo chamar «rebentão» a uma pequena subida no caminho ou no campo onde os bois têm de puxar mais um pouco para arrastar o carro. Rebofa, no termo de Sendim da Ribeira. Rebojo, no termo de Mogo de Ansiães. Rebolal, Reboleda, Reboleira, Rebolão, nos termos de Aveleda, Carragosa, Montesinhos, freguesia de Coelhoso, Parâmio, Rebordainhos (Reboleira), conc. de Bragança. Negreda (Rebolão), conc. de Vinhais. Rebomedo, no termo de Soeira (corrupção de Reboredo?). Rebordelo, Rebordela, nos termos de Izeda e Soeira (Rebardela). Reboreda, Reboredo, nos termos de Soutelo, conc. do Mogadouro. Moncorvo (Reboredo), Castedo (idem). Candedo (Reboredo), Samões e Vilas Boas, conc. de Vila Flor. Matela e Serapicos (Reboredo), conc. do Vimioso. Agrochão (Reboredo). Dizem que foi aqui a antiga povoação de Agrochão, onde realmente aparecem vestígios de povoado remoto. Rebranda, no termo de Coleja, conc. de Carrazeda de Ansiães. Rebre, do termo de Petisqueira, conc. de Bragança. Rechão, no termo de Sanceriz, conc. de Bragança. Rechoso, Rechouso, nos termos de Baçal (Prado). Vale de Janeiro (freguesia, Rechouso). Recouto, no termo de Águas Vivas (Recouto Santo), concelho de Miranda do Douro Redeval, no termo de Celas. Redizevos, no termo de Felgueiras, conc. de Moncorvo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Redonça, no termo de Paredes, conc. de Bragança. Redondal, Redondelo, nos termos de Coelhoso e Frieira, freguesia de Sanceriz (Redondelo), conc. de Bragança. Réfega, Réfica, nos termos de Miranda do Douro e Vila Chã da Ribeira, conc. do Vimioso. Há povoação de nome Refega. Referta, Roferta, nos termos de Montesinhos, freguesia de Coelhoso, Talhinhas (Roferta), Pereira, conc. de Mirandela. Refoio, nos termos de Lamalonga (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros, Vale de Gouvinhas, Vale Maior, conc. de Mirandela. Refunda, no termo de Alfândega da Fé. Regalhal, no termo de Peredo dos Castelhanos. Reganal, no termo de Cidões, conc. de Vinhais. Reginal, nos termos de Vilarelhos e Meirinhos. Reguengo, nos termos de Izeda, Macedo do Mato e Celas (rua da povoação). Reguiado, no termo de Paredes. Reguinais, no termo de Sendim de Miranda. Rei, nos termos de Vilarelho (Olival de el-rei), Rei Mau e Rei de Martina, no termo de Carrazedo, rio Frio de Outeiro (Pena de Rei), rua na povoação; Sortes (Caminho do Rei), consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501, conc. de Bragança. Constantim (Malhada do Rei), conc. de Miranda. Vilar de Rei (Prado de Reis), Linhares, conc. do Mogadouro (Moinho do Rei). Algoso (Cabeço do), Larinho (Pinhal do Rei Velho). Reimonte, no termo de Aveleda. Rejoá, no termo de Tuizelo. Relfa, no termo de Covelas, conc. de Vinhais. Relo, no termo de Matela. Remanguezalonga, no termo de Grijó de Parada. Remeleda, no termo de Vale de Lobo (Ribeiro da). Remidão, no termo de São Pedro Velho. Reminha, no termo de Santalha, freguesia. Remisquedo, Remiscal, nos termos de Mós de Rebordãos. Cabanas, conc. de Macedo de Cavaleiros. Remissada, no termo de Algoso. Remodouro, no termo do Parâmio. Remondes. Povoação e sítio de termo na quinta de Quebradas, concelho do Mogadouro. Renal, no termo de Seixas, conc. de Vinhais. Renda, no termo de Vilar de Ouro, conc. de Macedo de Cavaleiros. Renoleiras, no termo de Rego de Vide, freguesia do Cobro, concelho de Mirandela. Repasquinha, no termo de Saldanha. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Requeijada, nos termos de Alimonde, Feixedelo (Requeixada) e Suçães. Requeixo, nos termos de Carragosa, Salsas, freguesia, Seixo de Ansiães, Chacim e Celas. Ressajo, Ressário, Ressaios, nos termos de Freixedelo, Parada de Infanções (Ressário). Pombal, conc. de Carrazeda de Ansiães. Bemposta (Ressaios da Potra) e Vinhais. Ressumil, no termo de Vinhais. Restrelo, no termo de Santulhão. Retinlope, no termo de Outeiro. Retorno, nos termos de Aveleda e Vale de Lamas. Retorta, nos termos de Sambade e Vila Franca. Revedal, no termo de Felgueiras, concelho de Moncorvo. Revolta, Rivolta, nos termos de Baçal e Grijó de Parada (Rivolta). É frequentíssimo este toponímico aplicado a uma esplanada que se prolonga entre duas eminências ou colinas. Riada, no termo da Cisterna. Riassós, nome de um bairro da vila de Vinhais. Ribas, Ribencas, nos termos de Calvelhe e Seixas (Ribencas), concelho de Vinhais. Ribeirichas, no termo de Aveleda. Ribeiro do Inferno, nos termos de Linhares, conc. do Mogadouro. Remondes (Ribeiro do Freixo). Ribeizimprão, no termo de Gimonde. Ribo, no termo de Penas Roias (Fraga do). Riços, no termo de Izeda. Richão, Richões, nos termos do Fiolhal e Trovelo (Richões). Ride Mondes, nos termos de Bragada; mas em Vale de Nogueira, ao mesmo sítio, pois confina com o seu termo, chamam Ridemonde; conc. de Bragança. Ridoso, no termo de Pombal, conc. de Alfândega da Fé. Rifes, no termo de Vilar Seco, conc. do Vimioso. Rigazores, no termo de Rio de Onor, conc. de Bragança. Rio Frio, ribeiro afluente do Sabor. Ripielás, no termo de Aboá, conc. de Vinhais. Rixa, Rixões, nos termos de Carrazeda de Ansiães, Póvoa, freguesia Estevais, conc. de Moncorvo (Canal Rixões e Ladeira do Canal Rixões). Robeiral, no termo de Vale de Prados de Ledra. Robredo, Reboredo, Reborosa, nos termos de Milhão. Belver (Reboredo), Carrazeda de Ansiães (Serra da Reborosa), Luzelos (Reboredo), conc. de Carrazeda de Ansiães. Vimioso (Reboredo), consta do foral dado por el-rei D. Manuel. Roçada, Roçadas, Rossadas, no termo de Donai. Rodeira, Rodil. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Rodo, no termo de Sanceriz, conc. de Bragança. Rola, Roleiro, Lombo da Rola, no termo de Negreda (Roleiro). É frequente. Romãira, no termo de Mascarenhas. Romarigus, no termo de Fontes Barrosas, conc. de Bragança. Rominha, no termo de Sambade (Vale da). Rona, no termo de Vilar Seco, conc. do Vimioso. Roncal, no termo de Castelãos. Rosmaninho. Rossairo, no termo de Tuizelo. Rossi, nos termos de Vilarinho de Cova de Lua (Parte Rossi ou Parterossi, Parterosi), conc. de Bragança. Roteia, nos termos de Vilar de Baixo, conc. de Alfândega da Fé. Sanceriz e Zeive, conc. de Bragança. Linhares, está aqui um marco geodésico da triangulação primeira e há outro no Pendão, termo da Fonte Longa, Parambos. Ver tomo VII, pág. 796, destas Memórias. Tudo no concelho de Carrazeda de Ansiães. Roubões, no termo de Vale de Nogueira, conc. de Bragança. Rousso, no termo de Picões, conc. de Alfândega da Fé Deilão, Quintanilha e Peso, freguesia de São Martinho do Peso. Rozão, no termo de Fiolhal. Rugil, no termo de Contins (Vale de). Rumigão, no termo de São Pedro Velho. Ruta, nos termos de Águas Vivas (Ruta el Poço, Ruta el Inferno, Ruta do Poço, Ruta do Inferno), conc. de Miranda do Douro. Ruz, no termo de Cova de Lua (Porte Ruz), conc. de Bragança. Sabila, no termo de Mós de Rebordãos (Vale de). Sabroso, Sabrosa, nos termos de Alvites (Vale de), Parada (Sabrosa), conc. de Alfândega da Fé. Safail, no termo de Covelas, conc. de Alfândega da Fé. Safalheiras, no termo da Amendoeira, concelho de Macedo de Cavaleiros. Safrando, no termo de Coelhoso. Sainça, Saiça, Sainço, nos termos de Carrazeda de Ansiães. Lombo (freguesia, Saiça), conc. de Macedo de Cavaleiros. Fradizela (Saiça), Suçães (Sainço), conc. de Mirandela. Felgueiras, Lousa (Saiça). Sainha, Sainhas, Saias, Saiona, nos termos de Gondesende, Vila Boa de Carçãozinho (Sainha) e Gondesende, conc. de Bragança. Coleja (Vale de Saias), Marzagão (Sainhas), tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Nogueirinha (Vale de Saias), Cortiços (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. São Pedro da Silva (Saiona), conc. de Miranda. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Torre de Dona Chama (Sainha), conc. de Mirandela. Sairinho, no termo da Horta. Sal, Salina, Salgada, no termo de Alfaião (Águas Sal), conc. de Bragança. Angueira (Salina, rua da povoação), Cércio (Fonte Salgada), São Martinho de Angueira (Salinas), conc. de Miranda. Tó (Fraga do), Valverde (Sal de Paz), conc. do Mogadouro. Moncorvo (Salgada). Serapicos (Cruz de), conc. do Vimioso. É frequentíssimo o toponímico Sal ou equivalentes. Saldão, no termo de Izeda. Salgueira, Salgueiras, Salgueiro, Salgueiros (povo e sítio de termos), Salgueirinha, Salgueirinhos e Salgueirais. Vale de Salgueiro (povo e sítio de termo), Prado de Salgueiro. Salido, no termo de Martim, conc. de Bragança. Salinhar, no termo de Urrós. Salores, nos termos de Alfaião e Babe (Selores). Salsa, Salsas, Fonte Salsa, nos termos de Alfaião e Vila Meã (Salsas), conc. de Bragança. Guide (Salsas). Salvage, no termo de Samil (é uma fraga onde há buracos de minas), conc. de Bragança. Samanca, no termo de Negreda. Samarras, Samarrinha, Samarra, Samarrão, no termo de Serapicos, conc. de Bragança. Múrias (Samarrinha). Em algumas povoações do concelho de Bragança chamam «Samarrica» ou «Samarrinha» a uma uva preta tendendo para cor de azeitona, bago miúdo, acidez típica, que dizem ser mui boa para vinho, se bem que para comer é pouco agradável. Pereira (Samarrão), conc. de Mirandela. Samil, no termo de Bornes, concelho de Macedo de Cavaleiros. Há também povoação. Samões, no termo de Regodeiro (Vale de Samões). É nome de povoação no conc. de Vila Flor. Samora, Samorinha, Samorela, no termo de Paçó de Outeiro. Há também povoação. Ala (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. Sancapela, no termo de Cabeça de Igreja. Sandemiro, no termo de Serapicos, conc. de Bragança. Sangra, Sangrinho, nos termos de Seixo de Manhoses (há Sangra e Sangrinho). Corujas (Sangrinho). Sangual (de sanguinho, sanguinal, planta?), no termo de Edral. Sanguinhal, no termo de Carrazeda de Ansiães. Santos. Os nomes dos santos encontram-se aplicados a muitos sítios de termos, ou porque aí tiveram capelas ou propriedades. Também há muitos MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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locais de carácter religioso, como Calvário, Almas, Santíssimo Sacramento, etc. Eis os de que temos notícia: Adeganha. São Martinho (dizem que foi aqui a primitiva povoação de Adeganha. Há ruínas). Ala. Santo, sítio de termo, onde há uma capela. Aldeia Nova. São Martinho, capela de São João. Algoso. Santo António, Santo Cristo (estes dois relacionam-se com o convento), São Martinho, São Pantaleão, São Roque, em todos estes três há ruínas de capelas; uma pedra da de São Martinho, vínculo dos antigos morgados de Algoso, encontra-se no portal do curral de Manuel Martins e tem o seguinte letreiro: «Louvado seja o S. Sacramento». Lameiro do Senhor, Frade. Tudo em Algoso e termo. Águas Vivas. Santa Catarina (Cabeço de), Recouto Santo. Alimonde. Santo Amaro, no termo a confinar com o de Carrazedo. Também entre os mesmos termos há São Mamede. Arufe. Santa Clara. Assares (Vila Flor). Cortinha das Almas. Azinhoso. Senhora do Carrasco, São Gonçalo. Baçal. São Sebastião. Há capela coisa de duzentos metros do povo. Nesta capela venera-se São Gens, advogado das maleitas e sezões, e, como paga, os curados dão-lhe duas telhas furtadas. A circunstância de as telhas serem furtadas é comum a várias outras capelas, onde se veneram santos advogados contra as maleitas (Santa Comba e Santo Ambrósio). Qual a razão para deverem ser furtadas? Dizem que este termo furtadas é corrupção de oradas, obradas, ofertadas; mas, dada a circunstância de esta crença ser tão geral e de se achar espalhada por tantas e tão distantes partes, não será antes o resto de um culto pagão, de Mercúrio, por exemplo? Baçal. São Tiago (Lameiro de). Bagueixe. Espirito Santo (Fonte do). Braldez. [Valdrez] Vale das Almas. Bornes. Santa Marta, São Roque e São Lourenço. Bragada. A povoação primitiva foi num alto próximo e lá havia uma igreja. Bragança. São Lázaro, Santa Apolónia, São Bartolomeu, Santa Rita, São Lourenço e Santo António. Tudo sítios do termo e em cada um há a respectiva capela. Brito, freguesia de Penhas Juntas, conc. de Vinhais. Calvário. Cabanas. São Crespo (Vale de). Carção. Santo Estêvão, Santa Marinha e São Roque, tudo nomes de ruas de Carção. Carçãozinho. São Roque e São Gil. Carvalhais. São Cornélio. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Carviçais. São Cristóvão; foi aqui a primitiva povoação de Carviçais, dizem (há ruínas), Lombo de São Pedro. Castanheira (Mogadouro). Santa Marinha. Castedo. São Sebastião e São Bartolomeu. Castelãos. São Paio, São Marcos, São Bernardino e São Pedro. Castro Vicente. Cabeço do Santo Cristo, Santa Ana e São Gonçalo; no termo. Codeçais. Pinoco de Santa Clara; no termo. Coelhoso. São Domingos. Cova de Lua. Senhora da Edra. Havia capela, mas está em ruínas. Ver o artigo Cova de Lua no tomo IX, pág. 50, destas Memórias. Edral, São Tiago de Ribas; no termo. Há capela e fazem-se ali grandes romarias. Edroso, concelho de Vinhais. São Cibrão; no termo. Ervedosa, concelho de Vinhais. Fragas de Santa Ana, São Cristóvão e São Nicolau. Espinhosela. São Sebastião. Figueira (Mogadouro). Santa Ana, Prado de São Miguel. Formil. São Martinho. Teve capela, como consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691. Fornos, concelho de Freixo de Espada à Cinta. Santa Bárbara (Serrinha de). Freixeda, freguesia de Salsas. São Julião (aparecem sepulturas antigas); tudo no termo. Freixedelo. São Sebastião. Freixo de Espada à Cinta. São João, Lameiros da Senhora, Santa Luzia, São Viteiro (Cabeço de), Senhora dos Remédios e Santo Tirso; no termo. Frieira (freguesia de Sanceriz). Senhora dos Remédios. Há capela muito concorrida de romeiros. Gimonde. São Paio (havia capela agora em ruínas), Santa Comba (havia capela que caiu em ruínas, mas foi restaurada em 1916 por iniciativa do pároco Manuel António da Silva); tudo no termo. Santa Comba veneram-na como advogada das maleitas. Ver o que dizemos atrás a propósito de Baçal. Gondesende. São Cibrão, Santo André Novo e Santo André Velho. Havia também a capela de São Sebastião, segundo consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691, mas já então estava em ruínas. Grijó de Vale Benfeito. São Mamede. Izeda. Santa Catarina, Santo Apolinário e Santa Olaia. Junqueira, concelho do Vimioso. São Vicente; no termo. Lagomar. São Tiago, sítio fora do povo, onde dizem que foi a capela primitiva, sendo depois mudada para a povoação. Lamoso. Calvário. Limãos. Santo Ambrósio, advogado das maleitas. Ver atrás o que dissemos a propósito de Baçal. Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães. Santo António (rua do povo). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Linhares, conc. do Mogadouro. Santíssimo Sacramento. Lodões. Chão do Senhor e Cabeço de São Pedro. Luzelos. São Martinho; no termo. Maçãs. São João (Fonte de). Macedo de Cavaleiros. Santa Bárbara. Há capela em ruínas. Macedo do Mato. São Pedro, Santa Eulália e São Julião (Vale de). Macedo do Peso. São Pedro (nas arribas do Douro, da capela há ruínas, foi o Santo levado para o povo). Mascarenhas. Santa Maria; capela em ruínas. Meixedo. Santa Catarina (havia capela, mas desapareceu). Ver tomo II, pág. 155, e tomo IX, pág. 595, destas Memórias. Miranda do Douro. Espírito Santo (rua da cidade), São Pelaio, São Caetano, Santa Catarina e Santa Luzia. Mirandela. Senhora da Boa Morte, São Sebastião e S. João. Mogadouro. Cabeço de Santo António. Montouto (freguesia). São Paio e Santa Marta. Morais. Senhora do Monte. Capela em ruínas. Mourão. São Plácido. Nunes. Há um local do termo chamado Capela, mas nenhuns vestígios restam dela, nem tradição da sua existência, diz o nosso informador. Outeiro. São Roque; no termo. Ozeive. [Zeive] Santa Engrácia, ou Cruz de Santa Engrácia, célebre pelas lendas de feiticeiras que lhe atribuem, onde se reúnem as de sete povoações circunvizinhas. Confina com o termo de Mofreita. Paçó de Sortes. Santo António (rua do povo), Cabeço da Igreja Velha (fica junto ao povo). Houve aqui uma igreja que agora serve de cemitério. Paçó de Vinhais. São João do Monte; no termo. Palaçoulo. Santa Catarina; no termo. Parada, conc. de Alfândega da Fé. Santo Antão da Barca e Sobreiro de São Tiago. Parambos. Santa Marinha. Penhas Juntas. Lombeiro de São Sebastião e Souto de Nossa Senhora. Pereiros, conc. de Bragança. São Pedro Caderno. Pinelo, conc. do Vimioso. São Jerónimo e São Sebastião (rua do povo). Pinheiro Novo. Cabeço da Igreja, Cruzeiro. Podence. Santa Eufémia (há capela), Santo António (capela em ruínas; faziam antigamente feira neste sítio, agora acabou), Santa Rita (capela em ruínas), São Roque (largo de), capela também em ruínas, largo do Cruzeiro. Porrais, freguesia de Castro Vicente. Santa Bárbara, São Gonçalo. Calvário. Pousadas. São Pedro. Calvário. Prado Gatão. Santa Bárbara. Remondes. São Filipe. Ao plantar vinha neste sítio, apareceram vestígios de casas, Santo Antão (nome de uma quinta), São Bartolomeu, há vestígios MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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de casas e da capela, que ficava perto da povoação de Remondes, para a qual foi levada a imagem do Santo. Ribalonga. São Paio. Romeu. Santa Helena (capela em ruínas), Calvário. Sacoias. Santa Comba. Diz a tradição que houve capela, mas nem ruínas se vêem. São Julião (Vale de). Tudo no termo. Saldanha. Santa Marinha. Salsas. Santo António, São Julião, São Pedro e São Tiago. Salselas. São Francisco (há capela), Cruz Benta, São Domingos. Sambade. São Cibrão; no termo do povo. Samil. São Roque; no termo. Samorinha. Senhora da Graça. Há capela, fora do povo, no cume de um outeiro. Santa Comba. Nossa Senhora do Desterro. Há capela. Santa Justa. Cabeço da Senhora das Anúncias; no termo. Santalha. Santa Leocádia. São Pedro de Serracenos. São Caetano, nome de uma rua do povo, onde há capela dedicada a este santo. São Pedro da Silva. Santa Olaia. São Tiago, freguesia de Vila de Ala. Serra do Santo. Refere-se a São Tiago, patrono do povo, que tinha uma capela, agora em ruínas, na Serra. Seixo de Ansiães. Senhora da Ribeira. Terra de Santa Bárbara. Selas, [Celas] conc. de Vinhais. Sagrado ou Igreja Velha. Ruínas da antiga igreja. Será esta a capela do Santíssimo Sacramento, mencionada no Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691? Serapicos, conc. do Vimioso. Santa Marinha; no termo. Sobreiró de Cima. Santa Luzia; no termo. Souto da Velha. Espírito Santo, Tapadinha de São Sebastião. Suçães. Santa Águeda, São Domingos (no termo). Também havia uma capela no sítio chamado Santo Amaro e outra no sítio da Costeira, mas desapareceram para reconstruir a igreja paroquial. Talhas. Santa Marinha (capela em ruínas). Tralhariz (Carrazeda de Ansiães), Calvário e Senhora da Boa Morte. Travanca (Mogadouro), Cabeço de S. Miguel e Poço de São João. Tuizelo. Ribeira do Santo Cristo, Ribeira de Santa Maria. Vale de Algoso. Cabeço da Igreja. Vale Benfeito. São Bartolomeu, São Domingos, Senhora do Freixo. Vale de Conde. Santa Catarina, Lameira da Senhora. Vale Frechoso. Santo Estêvão (quinta), Calvário. Vale de Janeiro. Santa Eufémia (no termo). Vale de Juncal. Padre Santo (ruínas de capela). Vale de Martinho. Espírito Santo; termo. Vale Pereiro, concelho de Alfândega da Fé. São Geraldo e Portela do Calvário. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Vale da Porca. São Bartolomeu (há capela), Calvário. Vale de Prados, concelho de Macedo de Cavaleiros. Espírito Santo, São Sebastião, Santa Bárbara (houve capelas em todos estes sítios, porém agora estão em ruínas), Santa Catarina (há capela), Calvário. Vale de Prados de Ledra. Santa Bárbara, Santa Juzenda, Calvário. Vale Torno. Santo Apolinário (há capela), São Gonçalo (há ruínas de capela). Valverde (Mogadouro). Santo André, Espírito Santo. Vila Flor. São Gonçalo, São João, Senhora da Lapa, Senhora da Veiga; no termo. Vila Meã. Santa Eulália; no termo. Houve capela, mas desapareceu em ruínas. Vila Nova, conc. de Bragança. São Jorge. Há ainda capela, célebre pela visita que lhe fazia São Jorge, guardado na capela de São Sebastião em Bragança, dia 23 de Abril, vestido de general e montado em cavalo branco, acompanhado do seu estado-maior, de um esquadrão de cavalaria e de muito povo, onde assistiam à missa cantada da festa. Vilar, conc. de Bragança. São Paio. Capela em ruínas. Vilar de Baixo. São Roque. É o nome de uma rua do povo. Vilar de Ouro. São Degalinho. Vilarelhos. Santo Antão (capela). Santa Marinha. Vilares da Torre de Dona Chama. Calvário. Vilarinho da Castanheira. São Bartolomeu. Vimioso. São Miguel; no termo. Vinhais. Ermida, Rosário, Calvário, Santo António. Sanuzelos, no termo de Rabal. Sanzedelo, no termo do Vimioso. Sapeira, Sapialgo, Sapão, Sapeirão, Sapo, Sapinho, Lama do Sapo, nos termos de Santa Justa, Babe, Oleirinhos (Sapialgo), Serapicos (Fonte da Sapeira, há também Sapão), conc. de Bragança. Angueira (Sapeirão), conc. de Miranda. Sapiães, no termo de Meixedo. Sardão, Xardão, Xardoal (povo e sítio de termos), Sardoal, Sardoalico, Sardoalinho. Sardão é o quercus ilex, e em algumas terras do sul do distrito pronunciam Xardão e Xardoal, em vez de Sardão e Sardoal. Penha do Sardão. Vale de Sardão. Sardinha, Sardinheira, Sardinhosa. São muito frequentes estes toponímicos. Sariganço, no termo de Gestosa. Sarinheiras, no termo de Bornes. Em Baçal e outras terras do concelho de Bragança chamam terrenos sarilheiros aos leves, siliciosos, pouco compactos e pouco fundáveis. Sarzedo, Sarzedas, Sarzoda, nos termos de Alimonde (consta do Tombo MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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dos bens do mosteiro de Castro do Avelãs feito em 1501); Babe (Sarzedas); Salsas, freguesia (Sarzeda); conc. de Bragança. Estevais e Linhares (Sarzeda), no conc. do Mogadouro. Adeganha (Sarzeda). Savarigo, no termo de Castrelos (Vale de), conc. de Bragança. Scairo, nos termos de Alfaião, Carrazedo, Coelhoso, Espinhosela, Talhinhas e Negreda. Em algumas aldeias do concelho de Bragança dão o nome de scairo a um arco de círculo preparado pelos carpinteiros para medida no fabrico do vasilhame vinácio e o de scairar – ao trabalho executado, segundo essa medida ou aparelho. Como o scairo serve para indicar a circunferência que a vasilha há-de ter, segundo a maior ou menor abertura que lhe dão, também por ele calculam o número de litros que há-de levar depois de feita. Scalabada, Esclavadas, no termo de Alfândega da Fé. Sambade (Esclavadas), Aveleda. Scavages, no termo de Aveleda. Sculca, Sculqueira. Ver tomo IX, págs. 353 e 566, destas Memórias. Sé, no termo de Macedo do Mato. Sebucadas, no termo de Linhares, conc. do Mogadouro. Seçães, no termo de Parada de Infanções. Secoura, no termo de Lamalonga (freguesia). Sedelães, no termo de Lamas (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Sedelos, no termo de Vilar Seco, conc. do Vimioso. Seguim, no termo de Saldanha (Urreta). Seibária, no termo de Vilarinho das Azenhas. Seiririxa, Seira ou Ceira, Ceirixa, Seirinha, nos termos de Labiados, Rabal (Seira de Baixo). Castro Roupal (Seiras), Macedo de Cavaleiro (Seira Velha ou Ceira Velha), Murçós (Seirinha). Seixo, Seixa, Seixas (povo e sítio de termos), Seixagal, Seixigais, Seixedo, Fonte do Seixo, Poço do Seixo, Ribeiro do Seixo. Em Armoniz há um sítio do termo chamado Seixo, mas pronunciam Sexo a maior parte dos habitantes. Seja, no termo de Montesinhos, freguesia de Coelhoso. Sela, no termo de Peso, freguesia de São Martinho do Peso. Selamila, no termo de Cova de Lua, conc. de Bragança. Selores. Ver a rubrica Salores. Senador, no termo de Peso, freguesia de São Martinho do Peso. Sendim, nos termos de Labiados (Lameirinhas de Sendim diz o Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691), conc. de Bragança. Vale de Lagoa (Vale de Sendim), conc. de Mirandela. Senhalosas, no termo de Bemposta. Seni, no termo de Alfândega da Fé. Senilhas, no termo de Vila Chã da Ribeira, conc. do Vimioso. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Senra, nos termos de Alfaião, Espinhosela (Senréla), Rebordãos e Salsas (freguesia). Edral, Vinhais. Sentinela, no termo de Vilar Seco de Lomba (Cavanca da). Seofalha, no termo de Malhadas. Sequim, no termo de Zeive. Serra, Serralhão. São frequentíssimos. Sestiadeiros, no termo de Zeive. Sexto, no termo de França. No termo de Rabal há um sítio chamado Águas de Quinto, conc. de Bragança. Silha, no termo de Souto da Velha. Silha, Silhade, povoação desabitada na freguesia do Felgar, concelho de Moncorvo; virá do espanhol silla, cadeira, assento e corresponderá a pousadouro, toponímico frequente? Silhade, nome de uma povoação extinta nas margens do Sabor, termo do Felgar. Sítio doentio e paludoso. Silheirinha, no termo de Areias, concelho de Carrazeda de Ansiães. Silho, no termo de Urros (Penedo do). Silo, nos termos de Aveleda (há fojos cavados na rocha, provável guarda de cereais, segundo indica Viterbo no Elucidário, artigo Cova. Cervantes, no D. Quijote, parte I, cap. 46, chama ao seu escudeiro Sancho «silo de bellaquerias» – poço de velhacarias), Guadramil (Rio de Silos), Quintanilha, conc. de Bragança. Malhadas, Póvoa, conc. de Miranda do Douro. A propósito dos «Silos», dizem as posturas antigas da Câmara de Évora (1375-1395), in Boletim da Direcção-Geral de Agricultura, vol. I, pág. 195: «Covas de ter pão ...... na cidade havia muitas covas que eram arrunhadas (arruinadas) e cheias de esterco e desamparavamnas seus donos per a qual razom as outras covas que estavam a par dellas em que jazia pam se perdiam... que as cerrem e tapem... mesmo para non cahirem gentes e bestas». Silva, Silveira, Vale da Silveira, Solveira (Carviçais). Silvares, no termo de Lamalonga (freguesia). Simonde, no termo de Valpaços. Sinados, no termo de Edral (Lombo dos). Sinais, no termo de Aveleda (Vale de Sinais). É possível que Sinais se relacione com Facho, Sculca, Viso e outros toponímicos de carácter táctico militar. Sinjoanas, no termo de Seixo de Manhoses. Sio, nos termos de Castro Roupal (Vale de), conc. de Macedo de Cavaleiros. Siocas, no termo de Vinhas. Sívio, no termo de Coleja, conc. de Carrazeda de Ansiães. No mesmo concelho há também um ribeiro chamado Sívio. Soá, no termo de Sernande, conc. de Vinhais (Casa Soá de Baixo e Casa Soá de Cima). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Sobreira (povo e sítio de termos), Sobreiro, Sobreiró (povo e sítio de termos), Sobreiras, Sobralhal (Edrosa), Sobreda (povo e sítio de termos). Sobreiró, no termo de Chacim. Solombreira, no termo de Malhadas (Penha...). Solveira, no termo de Grijó de Parada. Solvilhal, no termo de Samorinha, concelho de Carrazeda de Ansiães. Soreiro, no termo das Caroceiras. Sortes, Sortegadas, nos termos de Fermentãos, conc. de Bragança. Ver a rubrica Quinhões. Vale Benfeito, Vale de Prados, conc. de Macedo de Cavaleiros. Granja, Prado Gatão (Sortes Velhas), conc. de Miranda. Bemposta, Mogadouro, Sampaio, Variz (Covas das). Moimenta (Sortegadas). Porrais, freguesia de Castro Vicente. Sotame, no termo de Vilar Seco de Lomba. Souane, no termo de Vilarinho de Lomba (Vila de). Há restos de fortificações antigas, uma cisterna e sepulturas cavadas na rocha de forma trapezóide na configuração do corpo humano. Soutelo, Souto, Soutinho, nos termos de São Jomil, Vilar Seco de Lomba (Soutelos de Cima e Soutelos de Baixo). São frequentes os toponímicos Souto e Soutinho. Sparamos, no termo de Corujas (mas na matriz predial está Paramos), conc. de Macedo de Cavaleiros. Sperlinhas, no termo de Fontes Transbaceiro, conc. de Bragança. Spondra, Spundia, no termo de Morais. Bemposta (Spundia). Sporão, nos termos de Lanção, concelho de Bragança, e Penhas Juntas. Stalqueira, no termo de Freixiel. Stapadas, no termo do Rego de Vide , conc. de Mirandela. Stelo, no termo de São Tiago, freguesia de Vila de Ala. Stibeira, nos termos de São Pedro da Silva, Brito, freguesia de Penhas Juntas. Stil ou Estil, no termo de Gimonde. Stil, stilmente é muito usado pelos judeus pobres de Bragança para indicar a sua precária situação económica. Vivo stilmente: vivo pobremente, sem recursos, passando mal ou mesmo fome. Struganos, Struganhos, nos termos de Valverde, Alfândega da Fé (Struganhos), conc. de Alfândega da Fé. Struqueleiro, no termo do Peso, freguesia de S. Martinho do Peso. Sucho, no termo de Samil. Sudra, no termo de Vale das Fontes. Sueira, no termo de Baçal, conc. de Bragança. Sulgada, no termo de Atenor. Sumagral, Simagral (Mogo de Malta). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Sumidadela, no termo de Alfaião. Sumidague, no mesmo termo. Sunague, no termo de Constantim, conc. de Miranda. Suzão, no termo de Ala (freguesia – Prado), conc. de Macedo. Tabaçós, no termo de Azinhoso. Tachada, no termo de Calvelhe (Pedra Tachada). Taimas, no termo de Longra, concelho de Mirandela. Nesta minha povoação de Baçal empregam a palavra ataimar e ataimação no sentido de trocar um prédio por outro, quando, na mesma propriedade, dois ou mais indivíduos têm diversas parcelas de terreno e, por concordância amigável, as reúnem numa só. Taimas terá o mesmo sentido? Tainha, nos termos de Melhe e Vale de Janeiro (freguesia). Talanqueira. Ver tomo IX, págs. 353 e 566, destas Memórias. Talefa, Talefe, nos termos de Marzagão. Candoso (Talefe). É um cabeço onde ainda se conservam algumas pedras de uma forca em que foram justiçados vários homens. Talho, Talholo, Talhas, Talhinhas, Talhoco, nos termos de Meixedo. Belver (Vale Talho). Ala (freguesia – Talhinhas). Paradela (Talha Brava), Picote (Talha), concelho de Miranda do Douro. Edral (Talholo), Vale de Armeiro (Talhoco). Linhares, conc. do Mogadouro (Talhinhas). Avinhó (Talhas). Talvela, no termo de Rebordãos. Tambelarana, no termo de Edroso. Tameira, Tameiro, Tameirona, nos termos de Babe, Montesinho (Tameiro), conc. de Bragança. Pinheiro Novo (Lama Tameirona). Tâpia, no termo de Sanceriz, conc. de Bragança. Cicouro (rua da povoação), conc. de Miranda. Tarrinxa, no termo de Montesinhos, freguesia de Coelhoso, concelho de Bragança. Quinta no Vale da Vilariça. Tataranha, Tatalhana, nos termos de Santa Comba da Vilariça (casa da), Aveleda (Tartalhana). Taveira, nos termos de Bornes e Vale de Asnes (Taveira e Taveira de Bornes). Tavianos, no termo de Avinhó, conc. do Mogadouro. Tecelona, no termo de Talhinhas. Teda, Tedo, Tedões, nos termos de Palácios e Rebordãos (Tedões), conc. de Bragança. Teguezo, no termo de Angueira, conc. de Miranda. Teirugas, Queirugas, nos termos de Aveleda (Teirugas). Teixo, Teixedo, Teixeira, Teixoeira, nos termos de Covelas, Sambade. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Arufe (Teixeira), Bragada (Teixedo), Martim (Teixeira), Pombares (Teixedo), Rebordainhos, Rebordãos, Vale de Nogueira (Vale de Teixo e também há Teixedo). Vale Benfeito (Teixedo), Genísio (Teixoeira). Teixugo, Teixugueira, Teixugueiras, Fraga do Teixugo. Teixugueira, nos termos de Babe, Coelhoso, Izeda, Milhão (Teixugueira de Travanca, consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda em 1691), Moredo, Mós de Rebordãos, Parada de Infanções e Vila Meã. Areias, Luzelos. Talhinhas. Telefre, nos termos de Vilas Boas (Fraga do), conc. de Vila Flor. Telha, Telhosa, nos termos de Fermentãos (Forno de), onde se fabrica telha. Seixo de Ansiães (Forno da). Ala (Telhosa), Ferreira (Vale de Telha), concelho de Macedo de Cavaleiros. Vale Frechoso, Seixas (Lombo da), Avantos (Forno da). Telhares, nos termos de Sambade. Temparão, no termo de Edroso. Tenga (de origem espanhola? tenga ustede, tome você), no termo de Lamas (freguesia), conc. de Macedo de Cavaleiros. Terças, nos termos de Sendas (Vale das), conc. de Bragança. Termino, no termo da Torre de Dona Chama. Teroleiro, no termo de Carviçais. Terragaça, no termo de Rebordainhos. Terrão, no termo de Rego de Vide, concelho de Mirandela. É frequente. Terreias, no termo de Barcel. Terronha. Ver págs. 566 e segs. do tomo IX destas Memórias. Terroso, nos termos de Freixeda e Salsas (freguesia), Angueira, concelho de Miranda do Douro. Terrum, no termo de Lamas (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. Terruvelhas, no termo de Cardanha, conc. de Moncorvo. Tertulha, no termo de São Pedro da Silva, conc. de Miranda. Tesouro, nos termos de Donai, conc. de Bragança. Aguieiras (Tisouro). Tilojas, no termo de Pereira, freguesia de Avidagos, concelho de Mirandela. Tim, no termo de Espinhosela (Vale). Tinalha, no termo de Tralhariz. Tinhoso, nos termos de Santa Justa e Carrazedo. Tiritana, Treitana, nos termos de Gimonde, concelho de Bragança. Em 12 de Abril de 1262 (era 1300) Gonçalo Gonçalves, chantre do Porto e de Coimbra, deixou em testamento, entre outros legados, para três pontes do Vouga, Águeda, Ceira, Albia e Canaveses «... ancipitrem meum... meos MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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panos de tiritana annulum meum de Robibalais», como aponta João Pedro Ribeiro, Dissertações Cronológicas, tomo V, pág. 81. Vale de Asnes (Treitana), concelho de Mirandela. Felgueiras, concelho de Moncorvo. Tis, no termo de Vale Pereiro, concelho de Alfândega da Fé. Tocos, no termo de Negreda. Toco e Tocos é frequente. Toja, no termo de Alimonde. No Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691, fólio 135, descreve-se uma terra que fica à Cabeça Toja. No fólio 138 menciona-se outra que também fica à Cabeça Toja. Será este o monte Tojia, de que fala a doação de D. Afonso Henriques em 1144 ao Mosteiro de Castro de Avelãs? Ver estas Memórias, tomo III, págs. 46, 47 e 268. Com o nome de Tojal há um sítio do termo de Samil, concelho de Bragança, e outro perto desta cidade, na quinta das Cantarias, pertencente aos herdeiros do falecido doutor Dias, junto à estrada distrital que vai para Mirandela. Outro com o mesmo nome no termo de Castrelos, mas entre este termo e o de Castro de Avelãs mete-se de permeio o de Grandais (não existiria Grandais então?). Tojada, no termo de Montesinhos, freguesia de Coelhoso. Tolacos, no termo de São Cibrão. Tombla Carreira, no termo de Rego de Vide. Toninha, no termo de Navalho. Tonre, no termo de Castelãos, concelho de Macedo de Cavaleiros. Topa, no termo do Azinhoso. Torca, nos termos de Rebordãos (Vale da). Vale das Fontes. Torfe, no termo de Vilarinho de Lomba. Torre, nos termos de Pombal (Torre do Monte), concelho de Alfândega da Fé, Alfaião (Torrica); Fontes Barrosas (Torre Velha), há também Torre Velha, no termo de Castro de Avelãs; Fontes Transbaceiro, há buracos onde estiveram os mouros, aparecem cacos e há tempos encontraram lá umas malgas que quebraram; Gondesende, Grandais (Torre Velha), ligam-lhe a lenda da moura encantada; Grijó de Parada, Gostei e Castanheira (Torre Velha, é comum a Grandais); Maçãs, há restos de muros, muitos pedregulhos, fossos, buracos que dizem ser de minas antigas e lenda de uma moura encantada; Moredo (Prado da) foi habitação dos mouros; Rabal, Salsas, freguesia (Prado da Torre); Samil (Turrica), conc. de Bragança. Freixo de Espada à Cinta (Vale da). Em Castro Roupal havia uma torre que foi mandada deitar abaixo há poucos anos por ameaçar ruína. Algumas das suas pedras estão agora na esquina da igreja e numa fonte e têm siglas dos canteiros, segundo me informa o director da Escola de Izeda. Devia ser românica, a julgar das siglas. Ifanes (rua da povoação), Vila Chã de Braciosa (Torre Menagem), concelho de Miranda do Douro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

257 TOMO X

Valbom de Mascarenhas (Torre de Meias), conc. de Mirandela. Meirinhos (Caminho da Torre), conc. do Mogadouro. Edroso (Torre da Costa), Espinhoso (Fraga da), Nunes (Lombo da), Ousilhão fica junto à povoação, havia lá uma torre e uma capela, à qual os mouros do Crasto de Ousilhão iam ouvir missa. Têm aparecido pedras com letras – uma das quais, a do deus Laesu, está no Museu. Celas, lenda da moura encantada, vestígios de fossos ou, pelo menos, taludes. O sítio da torre já vem mencionado no Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691. Vilar Seco de Lomba (Torre da Colmeia), Paçó de Vinhais (Cabeço da). Póvoa, freguesia dos Estevais, conc. de Moncorvo (Torre Branca e Torre Preta), Castedo (Fonte das Torres). Ver págs. 149 e 566 do tomo IX destas Memórias. Toural, nos termos de Baçal e Salsas (freguesia). Malhadas, Paradela, São Martinho de Angueira (rua do povo), São Pedro da Silva (rua do povo; há também Ribeiro do Toural), Vila Chã de Braciosa (é o nome de uma rua do povo), concelho de Miranda do Douro. Vilar Seco, conc. do Vimioso. Tourão. Touro, Touril (São Juanico), Turil (Especiosa), Cabeço do Touro, Vale do Touro. Toutela, no termo de Macedo do Mato, conc. de Bragança, Vale de Armeiro (Toutelo). Tozedo, no termo de Sarzeda, conc. de Bragança. Trafa, no termo de Vilar Seco (la), conc. do Vimioso. Tragano, no termo da Bouça. Trago, nos termos de Sambade e Freixedelo, conc. de Bragança. Tragual, rio termo de Meirinhos. Tramadal, no termo de Grijó de Parada, conc. de Bragança. Trambelas Águas, nos termos de Aveleda e Oleirinhos, concelho de Bragança. Tramelo, no termo de Valtorno, conc. de Vila Flor. Trampagual, no termo de Cabanas, conc. de Macedo de Cavaleiros. Trapa, nos termos de Espadanedo (Vale da), Talhinhas (Vale de), Caçarelhos e Picote. Avidagos, Vila Boa de Ousilhão (rua da povoação; já vem mencionada no Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691). Carviçais. Santalha (freguesia). É frequente este toponímico. Trás, Tra, Tre, Tras da Igreja. Fica fora da povoação, no termo de Conlelas e há ainda de pé a fachada de uma igreja, da qual resta apenas a porta em ogiva de lanceta e a sineira, conc. de Bragança. Tre la Pereira (Vale de Janeiro, freguesia), Malhadas (Tra la Torre), Tre lo Monte (Santa Cruz,) conc. de Vinhais. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO X

Trastando, no termo de Babe. Travanca, Travanqueira, Travança, Travanquela, nos termos de Babe, Espinhosela e Milhão. Cicouro (Travanqueira). Urrós (Travanca), conc. do Mogadouro. Travanca (Travanquela). Travassos, no termo de Quadra, conc. de Vinhais. Traverso, no termo de Fonte Longa, conc. de Carrazeda de Ansiães. Travocinos, no termo de Angueira. Treição, no termo de Ala, concelho de Macedo de Cavaleiros. No tomo VIII destas Memórias publicamos vários documentos referentes à dominação Filipina em Portugal, onde aparece a palavra tredores no sentido de traidores, para indicar os portugueses degenerados vendidos à Espanha. Treiginha, nos termos de Bragança, Coleja, conc. de Carrazeda de Ansiães. Treiginha equivale a Teresa, Teresinha. Ver tomo VI, pág. 42, destas Memórias. Tremoalho, no termo de Zeive, conc. de Bragança. Tremoia, no termo de Samil. Tremundes, no termo da Póvoa. Tres Lombo, no termo de Babe. Trevolo, no termo de Bornes. Tribus, no termo de Ferreira (Vale dos), concelho de Macedo de Cavaleiros. Trigueira, Trigueiras, Trigueiriças, Triganiça. Trofal, no termo de São Pedro da Silva (rua do povo), concelho de Miranda do Douro. Troia, no termo de Vila Verdinho, conc. de Mirandela. Tromedais, no termo de Izeda. Trongueira, no termo de Belver. Trugano, Trugais, Trugans, Trugalo, nos termos de Areias e Luzelos (Trugais), tudo no conc. de Carrazeda de Ansiães. Cabanelas (Trugans), conc. de Mirandela. Cabeça de Igreja, Casares (Trugais). Foi aqui, nos Trugais, que as forças republicanas de Bragança e Chaves, durante as lutas monárquico-republicanas em 1911, atacaram a gente de Paiva Couceiro, acampada em frente, no sítio chamado Pedra Ferrenha. Houve três feridos. Ver tomo VII, pág. 632, destas Memórias. Trumela, no termo de Serapicos, conc. de Bragança. Tsilvos, no termo de Rio de Onor (Rui Tsilvos), concelho de Bragança. Tua, rio que tem na origem o nome de «Tuela» até Mirandela, tomando depois aquele, e desagua no Douro. Tuanes, no termo de Vale de Prados (Vale de), conc. de Macedo de Cavaleiros. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

259 TOMO X

Tuda, nos termos de Carragosa (Tra la Tuda), Nogueira, Paçó de Outeiro, Quintanilha e Rio Frio de Outeiro. Tulacais, no termo de Melhe. Tulha, no termo de Pereiros, freguesia de Rebordainhos. Indicará arca, arcã ou silo? É possível que se refira ao monumento arqueológico anta, em algumas terras designado com os nomes de arca, arcã. Tumbio, Tumbe, Tumbeirinho, Tumbiadouro, Tômbaro, nos termos de Frieira, freguesia do Sanceriz. No termo de Vilarinho de Cova de Lua há um sítio chamado Tombro, que talvez equivalha a Tumbio, concelho de Bragança, e Tumbeirinho, nome de uma rua nesta cidade. Bagueixe (Tumbe), conc. de Macedo de Cavaleiros. Picote (Tombar), rua do povo. Relacionar-se-á com Tumbio ou Tumbe? Esta povoação é afamada pelos seus vestígios arcaicos: lápides funerárias, de que só no Museu de Bragança há oito, etc. Também no seu termo há os locais chamados Antas, Modorro e Castelo, indicativos de valor arcaico. São Pedro da Silva (Tombeirico, rua do povo), tudo no concelho de Miranda do Douro. São Salvador (Tumbeirinho), conc. de Mirandela. Meirinhos (Tumbeirinho, rua do povo), Peredo da Bemposta (Tômbaro), conc. do Mogadouro. Cisterna, Moimenta (Tumbeirinho), rua do povo, Paçó de Vinhais (Tumbiadouro: será Tumbia de Ouro?), Soeira (Tumbeirinho). Tunha, no termo de Tuizelo (Vale da). Turinho, no termo de Seixo de Manhoses. Turiz, no termo de Urros (Pai). Turrieiro (de torre, de torrar, torradoiro, sítio quente?), no termo de Paçó de Outeiro, conc. de Bragança. Em terras de Bragança usa-se a expressão «Torrieiro do sol» para indicar um sítio muito quente, abafadiço e batido no verão pelo sol. Txarim, no termo de Grijó de Parada. Ugaço, Ugas, nos termos de Labiados, conc. de Bragança. Ferreira (Ugas), conc. de Macedo de Cavaleiros. Ulia, no termo de Castro Roupal, conc. de Macedo de Cavaleiros. Unta, no termo de São Jomil. Urraque, no termo de Oleirinhos, conc. de Bragança. Urreiro, no termo de Samões. Urreta, Urretonas, Urrita, Urreta Formosa, Orreta, Ourreta. É frequentíssimo este toponímico, que significa vale, poio, etc. Urso, nos termos de Parâmio (Fraga do), conc. de Bragança. Castelãos (Vale de), Espadanedo (freguesia – Vale de), tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Meirinhos (Vale de Urso). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO X

Urteia, no termo de Negreda. Urze, Urzedo, Urzarego, Urzal. É frequentíssimo. Ustia, no termo de Castro Vicente. Ustres, no termo de Donai (Fonte Ustres), conc. de Bragança. Uxa, no termo de Vinhais. Vaca, Vacas, Vacaria (Gandariças), Vaqueiro, Vaqueira, Curral de Vacas (Brito, freguesia de Penhas Juntas), Lameiro da Vaca, Vale das Vacas, Vale de Vaqueiro. Valadares, nos termos de Calvelhe, Rebordãos, Vale Frechoso e Casares, conc. de Vinhais. Valbom, Valbão, nos termos de Alfaião, Caravela (Valbão), Gimonde (Valbão), Paçó de Outeiro, Rio Frio de Outeiro, Vila Meã (Valbão) e Vilar, freguesia de Milhão (Ponte de). Valchedes, no termo de Souto da Velha. Valdá, no termo de Gradíssimo, concelho de Macedo de Cavaleiros. Valdeiras, no termo de Macedo de Cavaleiros. Valdezaugas, no termo de Vale de Lamas, conc. de Bragança. Valdibade, no termo de Santa Comba da Vilariça. Valdineiro, no termo de Vale de Miro, concelho de Miranda do Douro. Valdique, no termo de Faílde, conc. de Bragança. Valdiz, no termo da Póvoa, conc. de Miranda do Douro. Valdramar, no termo de Cerejais, conc. de Alfândega da Fé. Valdrez, no termo de Fonte de Aldeia, conc. de Miranda do Douro. Há também povoação. Valdrieira, Valdreira, nos termos de Rabal e Dine (Valdreira). Valdrugueira, no termo de Variz. Vale, Valinho, Valinhas, Valsuco (Paradela, conc. de Mirandela), Valougo, Valhelhos (Brunhoso), Vale de Zinhos (Valesinhos?) e Valinha Falsa. É frequentíssimo o toponímico Vale, quer isolado, quer ligado a outros nomes. Vale Ancho, no termo de Aldeia Nova, conc. de Miranda do Douro. Vale de Porco, no termo de Serapicos, conc. de Bragança. É também nome de povoação. Vale de Salgueiro, no termo de Figueira, concelho do Mogadouro. Há também povoação. Vale Telhas, no termo de Lagomar, conc. de Bragança. É também nome de povoação. Vale de Torno, no termo de Santa Comba de Rossas, conc. de Bragança. É também nome de povoação. Valicovo, no termo de Formil, conc. de Bragança. Valilongo, nos termos de Parâmio e Rabal, conc. de Bragança. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

261 TOMO X

Valinho, Valinhas, Valinha, nos termos de Martim, Formil (Valinhas de Vale de Pereiro), Valinhas dos Covos (no termo de Baçal), Sarzeda e Zeive (Valinha Escura), conc. de Bragança. Valizelos, no termo de Rebordãos, conc. de Bragança. Valmompares, no termo de Macedo de Cavaleiros (freguesia). Valongo, Valilongo, nos termos de Agrobom e Valverde, ambos no conc. de Alfândega da Fé; Aveleda (Valilongo), Bragança e Chacim. Valoueiro, no termo de Maçãs, conc. de Bragança. Valoura, no termo de Valverde, conc. de Bragança. Valouta, no termo de Grijó de Vale Benfeito. Valozedo, Valuzelos, no termo de Babe, conc. de Bragança. Vila Verde, conc. de Vinhais (Valuzelos). Valteiro, nos termos de Sambade e Vilar Seco da Lomba. Valtim, no termo de Parâmio. Valverde, Valverdes, nos termos de Oleirinhos, concelho de Bragança. Chacim (Valverdes), Vale Benfeito, conc. de Macedo de Cavaleiros. É também nome de povoação. Varelos, no termo de Vilar Seco da Lomba (Vale de). Varge, Varges, Varjedoso, Vargela, Varigelas, Varja, Varjoncas, Bregelas, Brigelo, nos termos de Carrazedo, Donai (Varges), Paço de Sortes (Varigelas), Paradinha Nova (Varjanco), Vilarinho de Cova de Lua, Pombal (Bregelas), conc. de Carrazeda de Ansiães, Latões (Varjoncas), Mascarenhas (Brigelo), Rio de Fornos (Varges), Santalha (freguesia, Varjadoso), Porrais (freguesia de Castro Vicente, Varges). É também nome de povoação. Varizelos, no termo de Formil, conc. de Bragança. Virá de Vargela, Varigela? Vascal, no termo de Donai. Veiga, Veigas (povo e sítio de termos), Veiguelinhas. Veigadinha, no termo de Edral. Vela, Velada e derivados. Ver tomo IX, página 353, destas Memórias. Velagato, no termo de Rebordainhos. Velha. Aparece frequentemente este nome aplicado a Terra, Lameiro, Souto, Fonte, etc., da Velha, Chousa da Velha, que talvez se relacione com o culto das águas relembrado na lenda popular, que diz estar uma velha nas fontes, senão em todas, pelo menos em algumas delas. Labiados (Cabeço da). Vale da Velha, no termo de Poiares, Fonte da Velha, nos Cortiços, onde há um encanto; Fonte das Velhas em Lamas (freguesia), tudo no conc. de Macedo de Cavaleiros. Passos (Fonte da Velha), Vale de Salgueiro (Vale da), concelho de Mirandela. Urrós (Urreta da), Tó (Cabecinho Velho). Vale da Sancha (Fraga da), Caroceiras (Cavanca da Velha). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOMO X

Velide, no termo de Calvelhe (Vale de Velide). Vellido Delfos matou à traição D. Sancho, rei de Castela, em 1072, quando sitiava Zamora. Venasqueiro, no termo de São Pedro de Serracenos, concelho de Bragança. Vencelos, no termo de Vilar Chão, conc. de Alfândega da Fé. Veneiro, Veneira, nos termos de França (Vale de), Guadramil, Montesinho (Vale de), conc. de Bragança. Poiares (Vale de Veneira), conc. de Freixo de Espada à Cinta. Verdiz, nos termos de Vale da Porca (Vale de), Vale de Prados (Vale de), conc. de Macedo de Cavaleiros. Verdugas, no termo de Avelames. Vergudas, no termo de Outeiro, conc. de Bragança. Verila, no termo de Poiares (Vale de). Vermum, no termo de Nogueira (Vale de), conc. de Bragança. Vessada, no termo de São Pedro de Serracenos. Vezanas, no termo de Fontes Barrosas, conc. de Bragança. Vezo, nos termos de Frieira, freguesia de Sanceriz (Prado do Vezo), Izeda (Prado Vezo). Vial, Vião, nos termos de Aveleda, Baçal (Vale de Via) e Soutelo Mourisco (Vião). Víboras, no termo de Campo de Víboras (Vale de). Diz a lenda que aqui havia antigamente muitas víboras, mas agora não, porque um mouro as encantou. Ver o artigo Cabeça de Mouro no tomo IX, pág. 140, destas Memórias. Vide, no termo de Faílde, conc. de Bragança. Vila, Vilela, Vilalba, nos termos de Alfaião (Fonte da Vila), Coelhoso (Campo da Vila), Freixedelo (Fonte do Fundo de), Gimonde (Vilela), Macedo do Mato (Cimo de), Milhão (Cimo de) Parada de Infanções (Fonte), é uma rua do povo, Pereiros, freguesia de Rebordainhos (Cortinha da), Santa Comba de Rossas (Vilalba), São Pedro de Serracenos (Fundo de Vila), Zoio (Vila Meã). Chacim (Fundo da), rua do povo, Talhas (Ribeiro da), Vale de Prados (Cimo da), conc. de Macedo de Cavaleiros. São Martinho do Peso (Vale da Vila), é um vale que, segundo a lenda popular, pertencia a Penas Roias, mas que lho tiraram os de São Martinho do Peso. Os de Sacoias dizem o mesmo das lameiras de Brinhaçais, que, segundo eles, lhes foram tiradas pelos de Baçal e o mesmo dizem os de Rio de Onor das lameiras das Rochas, que lhes foram tiradas pelos de Varge. A origem destas lendas tem carácter arcaico. Sobreira (Soalheiros de Vilela), conc. de Moncorvo. Vilarei, ribeiro afluente do Tuela. Vilharalbo, no termo de Rio Frio de Outeiro. Vime, Vimes, Vale de Vimes. Vincosa, no termo de Genísio, conc. de Miranda do Douro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TOPONÍMIA

263 TOMO X

Vínculo, no termo de Vale de Janeiro (freguesia, Souto do). Vinhais, Vinhas, Vinhago, Vinhal, Vinhascal, Vinhascos, Vinhixas, Vinhó, Vinhoá, Vinhola, Avinhô, nos termos de Vilar Chão, concelho de Alfândega da Fé. Donai, há também Vinhas no termo da mesma povoação, Lagomar, Paredes (Vinhal), Sabariz (Vinhais), Salsas (freguesia), São Pedro de Serracenos (Vinhal), Vale de Nogueira (Vinhais e Vinhais, dois sítios) Veigas, freguesia de Quintanilha (Vinhola), tudo do conc. de Bragança. Coleja, Edrosa, Macedo de Cavaleiros (Vinhascal), Vale de Prados, Vinhas (freguesia), tudo no conc. de Macedo de Cavaleiros. Caçarelhos (Vinhola e Vinhicas), concelho de Miranda do Douro. Cedaínhos (Vinhas), Fradizela (Vinhascas), São Pedro Velho (Vinhascos), concelho de Mirandela. Edroso (Vinhoá), Mós de Selas (Vinhais), Nunes (Vinhoá) e Celas, tudo no conc. de Vinhais. Algoso (Urreta Vinhó). Virrão, no termo de Valverde (Vale), concelho de Alfândega da Fé. Viscaio, no termo de Alfaião (Vale Viscaio). Viso, Aviso. Ver tomo IX, págs. 543 e 566, destas Memórias. Vitelo, Cabeço do Vitelo. Voudrega, no termo de Brito de Lomba. Voz, no termo de Zeive (Vale da). Paradela de Mascarenhas (Urreta das Vozes). Xara, Xarinha, no termo de Sacoias; há também Xaricha no termo da mesma povoação, concelho de Bragança. Vilar de Ouro (Xarinha), conc. de Macedo de Cavaleiros. Xari, no termo de Zeive (Fonte do), conc. de Bragança. Xexaras ou checharas. Ver a rubrica que segue. Xé-xé; talvez melhor grafia ché-ché (grupo ch explosivo). No concelho do Mogadouro dão este nome a uma propriedade de pouco valor, quintarola, curtinhola, conchouso, cucaina, quinchoso. Ver a rubrica Chousa, pág. 109. A propósito lembro que por aqui chamam chécharas às palavras amorosas, afectadas, açucaradas, do enamorado derretido. Xixo, no termo de Zeive, conc. de Bragança. Xorca, no termo de Ala, conc. de Macedo de Cavaleiros. Xorda, no termo de Viduedo, conc. de Bragança. Zacarias, no termo de Alfândega da Fé. É também nome de uma ribeira que nasce na serra de Sambade e desagua no Sabor. Zalvérsico, no termo de Vimioso. Zambaiona, no termo de Vinhas (freguesia), concelho de Macedo de Cavaleiros. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

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TORRE DE DONA CHAMA

TOMO X

Zambona, nos termos do Mogadouro e Zava, concelho do Mogadouro. Zambujal, Zambulhal, no termo de Freixo de Espada à Cinta, Trovelo (Zambulhal), conc. de Moncorvo. Zaracalha, no termo de Pinheiro Velho. Zarego, no termo de Quirás. Zavim, nos termos de Vila de Rei e Vilarinho dos Galegos (Ribeira de). Zebos, nos termos de Rio Frio de Outeiro (Vale de), concelho de Bragança. Mós (Rio de), conc. de Moncorvo. Zebro, Zebra, Zebral, Zebreira, Zebrin, Zibreiro, nos termos de Sortes (Zibreiro); Cortiços (freguesia, Vale de Zebro); Edrosa, Montouto (freguesia, Zebros); Vale da Porca (Zebrin e outro sítio chamado Zebral); Fonte Ladrão (Zebra); Genísio (Zebra); São Salvados (Vale de Zebro); Celas (Zebreira). Ver as rubricas Azebro, Azibeiro e Azibo no artigo Onomástico. Zedo, no termo de Aveleda, conc. de Bragança. Zerracú, no termo de Sernande. Zevagueiros, no termo da Refega. conc. de Bragança. Zimbro, no termo de Parada, conc. de Alfândega da Fé. Roca, freguesia de Valverde, conc. do Mogadouro. Trovelo, conc. de Moncorvo. Abreiro, conc. de Mirandela. Zina, no termo da Póvoa (Zina Carva), concelho de Miranda do Douro. Zinhacova, no termo de Vilarelhos, conc. de Alfândega da Fé. Zom, Zonzinho, nos termos de Freixo de Espada à Cinta; no mesmo termo há também sítio chamado Zonzinho, Macedo de Cavaleiros. Zumbreiro, no termo de Ribalonga, conc. de Carrazeda de Ansiães.

TORRE DE DONA CHAMA A vila da Torre de Dona Chama «por cima em alto tem duas praças mas ambas pequenas, em huma está o pelourinho della (913), dos mais bem feitos que ha por estas terras. Tem ao pé huma ursa de pedra do tamanho da mesma ursa, e se diz que andando huma ursa, nas terras dos senhores de Murça que fazia muito damno, o senhor da terra mandara juntar os moradores della e a matara e a mandara pôr da sorte que dito fica na sua praça e dahi tomaram o titulo dos senhores de Murça e a mesma vila tomara o nome deribando-se de ursa em Murça. E na praça debaixo está hum cruzeiro chamado das almas, muito bem feito com as almas pintadas humas no centro do purgatorio, outras mais acima, outras sahindo delle. Como os demonios

(913) Ver tomo IX, p. 535, destas Memórias, onde o publicamos.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TORRE DE DONA CHAMA

265 TOMO X

em figuras de cobras e serpentes e outras varias sortes, e o demonio em bulto pegando em huma alma pelos cabelos da cabeça e São Miguel por cima do demonio, com os pés nelle com huma lança metendo-lha por uma queixada e o demonio muito horrendo como quem he com huns grandes dentes areganhados, com cornos como de crastam dando-lhe muitas boltas e de varias cores este demonio; e isto tudo em bulto. As almas asim como estam no fundo mais negras, e dahi para cima comforme o lugar, asim tem a côr, as ultimas ja estam formosas, tudo bem vistoso, cruzeiro bem feito. Nam he esta villa cercada nem murada no sitio donde hoje se acha asente, mas antiquissimamente o foi, antes de se mudar para o sitio donde hoje está. Hera antiquissimamente esta vila adonde está hoje ou sempre esteve a Igreja Matriz em hum cabeço alto, por cima donde hoje está huns seis tiros de espingarda, como já atras falamos a respeito da Igreja Matriz. O Castelo ou Torre está demulido, somente pouco mais de hûa parte tem parede de altura de quinze palmos pouco mais ou menos, e das outras partes nam tem já parede alguma. Ainda ha naquela villa os elicerses de casas. Dizesse que aquella ou esta villa tomara o nome de Torre, pella torre que nella havia no castelo que falamos e que porisso se chamou Torre e acrecentar-se Dona Chama se conta e dizem os homens de noticia que fôra por ser esta Torre e villa de hûa grande Senhora gentia, no tempo que os mouros resediram nestas terras, chamada Dona Chamorra, e que sendo inclinada ilicitamente aos christãos mandava chamar aquelles de milhor perfeiçam e os metia na Torre para satisfazer o seu apetite e para que a nam fossem descubrir nam tornavam mais a sahir por lhe fazer hir conhecer o mundo da verdade, e que sucedendo hir hum mais avisado dês que satisfizera o seu apetito se adormecera acostada a elIe e como a sentise dormindo se retirou como pode levando-lhe hum anel que lhe tirara do dedo, cousa de grande valor, e bem conhecido dos creados o dito anel; e o levara no dedo para sinal que a Dona Chamorra lhe dera para asim os enganar para que o deixassem passar as goardas, como dis que passara; e estando ja livre espertara Dona Chamorra e acudindo a mandalo chamar dizendo tornase ali, dizendo torna quá fulano que a Dona chama; e como parecendo lhe que este a descobriria se matara a si mesmo; e como se diz que se chamava a Torre da Dona Chamorra camrompera a Torre da Dona Chama, acrescentando ao vocabulo da Torre da Dona a palavra chama, ficando corruto vocavulo a Torre da Dona Chama mudando o ó diante do M em A tirando os dois erres e o A diante delles. ...... e despede deste concelho (o rio Tuela) e entra no de Mirandella por cima de hum lugar chamado Quintas, termo de Mirandella, no direito de um cabeço chamado da Sam Jusenda, que foi villa e morada de mouros e fenece este riyo no Douro, aonde chamam Fostua. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TORRE DE DONA CHAMA

TOMO X

Somente algumas pesoas curiosas fazem seus armadilhos chamados musgos, adonde quer que as querem fazer e acham conveniencia» (914). Próximo e a nascente da vila fica o Cabeço de São Brás, assim chamado da capela dedicada a este Santo que lá existe. Em volta da capela vêem-se restos de muralhas de pedra e cimento ainda bem patentes. No seu recinto apareceu um caixão de cobre cheio de machados do mesmo metal, uns em forma de cunha e outros do tipo de duas aselhas e encabadouro de tope, podendo utilizar-se como os actuais formões, bem como várias moedas de prata e cobre, sendo a mais antiga um «quinário» cunhado pela família Carisia (915). Os machados de talão e duplo anel são chamados de tipo ibérico, por serem raros fora de Espanha e Portugal (916). Em Portugal têm-se encontrado vários esconderijos de machados de cobre e bronze (917). Na sessão da Associação dos Arqueólogos Portugueses, «Secção de pré-história», de 13 de Junho de 1932, deu conta o consócio T. Simões Viana do aparecimento em Capareiros de um grupo de seis machados neolíticos sem polidura alguma e de outro esconderijo de machados de bronze na Vila de Punhe. Alguns dos instrumentos eneolíticos encontrados nestas condições, a julgar pelas rebarbas e imperfeições, depois corrigidas ao afiarem-nos, estarão ainda no local da fundição, outros, já prontos a servir, indicarão precauções em esconderijo contra roubos e talvez convulsões sociais devidas a povos ou tribos invasoras. Diz o povo que junto ao caixão dos machados de cobre apareceu um grande tesouro, que enriqueceu uma família pobre da vila. Temos encontrado em vários sítios arcaicos a ingénua infantilidade desta mesma explicação, aplicada pela simplória crendice popular aos que se levantam economicamente, a qual deve relacionar-se com os tesouros das mouras encantadas, acrescida, talvez, de certa pontinha de inveja em vencidos da vida, que não atremam a furar vendo trepar os outros, laivada de sebastianice, messianismo, preguiça nacional, incapaz de compreender a riqueza pelo trabalho e economia criteriosa (ver págs. 622, 631 e 666 do tomo IX destas Memórias).

(914) Memórias Paroquiais de 1758, «O Arqueólogo Português», vol. VIII, p. 215. Ver tomo IX, p. 457, destas Memórias. (915) O Arqueólogo Português, vol. I, p. 232-237, e vol. V, p. 279, onde vem desenhado um dos machados; os demais foram destruídos bem como o caixão. (916) CORREIA, Mendes – Os povos primitivos…, p. 232. VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. VIII, p. 133. (917) Ibidem, p. 233. Ver tomo IX, p. 681, destas Memórias.

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TORRE DE DONA CHAMA

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Na verdade, em alguns sítios arcaicos aparecem objectos ornamentais de ouro, como em Vale Benfeito o anel, a fíbula em Vinhas, os pendentes em Paredes (ver tomo IX, págs. 16, 684 e 704, destas Memórias) e a chorca de Leboção (918), para só falar dos do nosso distrito ou imediações, mas a coisa é de tão fraco valor real, que não tira os pés da lama, como reza o nosso rifão, nem a parlapatice da cabeça dos simplórios. Corre também nas aldeias bragançanas outra variante idiossincrásica da mesma lenda, apreciável como sintoma de patologia etnográfica, pela qual muitas famílias se julgam roubadas em heranças e bens por outras, suas parentes, que supõem enriquecidas à sua custa. A lenda destes roubos passa de pais a filhos em tradições de família, fomentando ódios perniciosos, indignos de sentimentos cristãos ostensivamente prezados por seus autores. Nas nossas investigações pelos arquivos do distrito temos encontrado muitos documentos referentes a estes supostos roubos, que os evidenciam como tais. «Mas meus pais não mentiam, eram verdadeiros e justos», dizem alguns a quem temos indicado a sem razão do seu pensar. Não mentiam, mas estavam iludidos, e a inveja, a depressão mental de vencidos da vida, o egoísmo ambicioso dos que, saindo da casa paterna, julgam pertencer-lhe quanto há nela, e o dos que ficam a pensar do mesmo modo, fez o resto. Ainda sobre o assunto dizem, a propósito da fonte de Mé Nunes, sita na base do Cabeço de São Brás, junto a Freixo de Espada à Cinta, perto da capela de Nossa Senhora dos Montes Ermos, que um indivíduo de Lisboa veio lá arrancar um grande tesouro, deixando depois insculpido o seguinte letreiro: Adeus fonte de Mé Nunes, Quem te dever que te pague, Q’eu dentro de ti achei O valor d’uma cidade.

Ver pág. 98, onde dizemos de outros locais assinalados por riquezas escondidas, além dos muitos que indicamos no tomo IX, artigo Mouras e tesouros encantados (pág. 487). Outra variante não menos funesta é a dos coleccionadores ou detentores de antigualhas achadas em grupos, tais como: moedas, braceletes, punhais, espadas eneolíticas, armas neolíticas, etc., e, por especulação mercantil ou captadora de amizades e valimentos de poderosos, espalhá-las por diversas mãos, quando as não retêm com intuitos de se arrogar fumaças nobilitantes como armas de seus avoengos. A propósito diz Félix Alves Pereira: «Nada há

(918) Portugália, tomo II, fascículo I.

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TORRE DE DONA CHAMA

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mais interessante para as colecções paleontológicas do que apresentar reunido e completo o que reunido apareceu. Disseminar os objectos de um só achado arqueológico é tirar-lhe grande parte do seu valor, inutilizando-lhe toda a significação de cronologia comparativa; é um erro de ofício nas pessoas que, incumbindo-lhe evitá-lo, o não evitam, por mal-entendida generosidade» (919). Vasconcelos, falando de doze objectos eneolíticos – braceletes, folha de lança, machado, punhal, folha de espada – encontrados no Casal dos Fiéis de Deus, concelho do Bombarral, oferecidos ao Museu Etnológico, diz: «Ao mérito arqueológico de cada peça acresce o do conjunto, pois este nos dá auxílio para estabelecermos cronologia relativa entre uns poucos de objectos» (920). Ainda sobre o assunto diz Abel Viana: «Finalmente, ouso lembrar que o verdadeiro lugar do material paleolítico encontrado é nos museus públicos, visto que, para a ciência, fica perdido, quando abismado nos antros dos que, à semelhança do avarento que morre legando aos ratos o papel-moeda oculto sob a tábua do soalho, tudo coleccionam, por simples mania ou na esperança de especular lucrativamente junto dos que, em obediência a necessidades do espírito, precisam dos elementos de estudo» (921).. FORAL DA VILA DA TORRE DE D. CHAMA DADO POR EL-REI D. MANUEL

(922)

«Dom Manoel per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalem mar em Afriqua senhor de Guine, e da comquista e naveguação comercio de Theopia Arabia e Percia da India etc. A quoantos esta nossa carta de foral virem dada a nossa villa de Dona Chama fazemos saber que por bem das deligencias eixames e imquiriçois em nossos reynos e senhorios de Portugal mandamos egoalmente mandamos fazer para justificação, e declaração dos forais deles, e por alguas sentenças e determinaçois que os de nosso comçelho, e letrados fazemos e acordamos a vista do foral da dita vila dado pelo Rey Dom Dyoniz que as rendas e dreitos riais se devem pagar na dita vila e arequadar na maneira seguinte, a saber os mantimentos se tomarão he haverão como emthe qui forão sem deles se pagar outro foro senão o sobredito dos trinta e seiz reiz

(919) O Arqueólogo Português, vol. VIII, p. 30. (920) VASCONCELOS, José Leite de, O Arqueólogo Português, vol. XXIV, p. 194. (921) VIANA, Abel, Portucale, 1930, p. 235. (922) Ver tomo III, p. 289, destas Memórias, onde publicamos o foral que lhe deu D. Dinis em 1287 e se diz do foro a pagar.

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TORRE DE DONA CHAMA

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como dito he de quada morador os cazeiros da comenda de Algozo da hordem de Sam João [Hospital] das terras que teverem tomadas e tomarãm no termo desta dita vila de Dona Chama que forem fora dos proprios marquos e lemites dos cazais e terras da dita hordem pera cuja declaração mandamos o corregedor da comarqua que por si va aos ditos lugares que por bem de seus forais tombos ou escripturas i estromentos antiguos dignos de fee presentes as partes a quem pertenser fação demarquação e ponhão marquos a quada huma das ditas terras pera daqui em diante não haverem mais duvidas ontre as nossas terras e as da dita hordem sobre a pagua dos nossos direitos asim da juridição e serventia e os cazeiros da dita hordem, os quoais ham de servir no dito comcelho em todas as couzas que comprirem ao nosso serviso, ou a prol da dita vila como os seus vezinhos della segundo havemos por hua sentença dada por Dom Afonso o quoarto, a qual mandamos que asim sempre se cumpra como aquy por nos he declarado o servir no dito comcelho os moradores e cazeiros de nosso Regengo e que ora estão na dita vila e Torre de Dona Chama, segundo pella dita mesma sentença he declarado, e portanto mandamos que hem todas as cousas comtheudas neste foral que pomos por ley se cumprão pera sempre do thior do qual mandamos fazer tres hum deles pera a camera da dita vila, outro pera o senhorio dos ditos direitos e outro para a nossa Torre do Tombo para a todo o tempo se poder tirar qualquer duvida que sobre isso possa sobrevir dada em a nossa muy nobre e sempre leal cidade de Lisboa aos quoatro de mayo do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quinhentos e doze e eu Fernão de Pina a fiz fazer e consertey e vai escripta em doze folhas = Rey.» (923).

(923) Copiado do foral da Torre de Dona Chama, transcrito pelo tabelião do Tombo dos bens da comenda de Algoso feito em 1707-1708, no fólio 349. Manuscrito existente no Museu de Bragança. O facto de Trás-os-Montes ter mais forais do que outras regiões portuguesas até ao século XIII prova, como advertiu o Dr. Vergílio Taborda, no livro Alto Trás-os-Montes, 1932, p. 105 e 156, a preocupação de colonizar a terra, procurando atrair para ela moradores. Como as cartas foralengas, pelo geral, davam a terra em regime de comunidade agrícola a uns tantos moradores que nela se estabelecessem e os maninhos, só prestáveis com vantagem à exploração pecuária, abundavam, resultaram os baldios paroquiais e a cultura comunista de que demos espécime na p. 348 do tomo IX. A divisão sem critério dos baldios pelos habitantes das povoações pregada por cientistas desequilibrados e favorecida pelos governos com vistas fiscais interesseiras, tem sido um verdadeiro crime social, como fica dito nas p. 425 e seg. do tomo IX.

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TRALHARIZ

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TRALHARIZ Na Quinta da Ribeira, termo de Tralhariz, perto da estação da via férrea do mesmo nome, concelho de Carrazeda de Ansiães, apareceram em Janeiro de 1899 umas ruínas romanas quando se andava a fazer um calço num olival. Constam do pavimento de duas salas da mesma vivenda, com seis, metros por cinco de lado, de um corredor, com restos de paredes de xisto de 0,52 metros de espessura, que apresentam vestígios de incêndio. O pavimento das salas é feito de mosaico policrómico (opus vermiculatum), de cores branca, azul, vermelha e amarela. Pequenos cubos de pedra formam as tesselae. As paredes apresentam-se revestidas de estuque pintado (fresco). Também apareceram capitéis, bases e fustes de colunas de pedra, cacos de grandes vasilhas (dolia) ornamentadas, uma pedra com uma cara toscamente insculpida, tijolos grossos quadrados e rectangulares, tégulas, ímbrices, pesos de barro (pondera), um cossoiro (verticillus), cacos ornamentados de vasilhas finas de barro saguntino, mós manuárias (molae manuariae), duas moedas romanas de bronze, uma das quais do século IV, vários objectos de ferro e de bronze e um machado neolítico. O espólio mostra a vivenda luxuosa, a quinta (vila) de um rico proprietário romano ou luso-romanizado, sita provavelmente perto da povoação, pois não longe encontram-se abundantes vestígios de antigualhas romanas e revela «certo esplendor de civilização romana numa província onde até o presente o que se tem encontrado romano é de carácter geralmente bárbaro...... O machado de pedra que apareceu nas ruínas da Ribeira, e que ali estava, ou casualmente, como tantas vezes sucede, ou por ter sido considerado ceraunium ou ceraunus, isto é, “pedra de raio” dos romanos, não poderia servir só por si de prova de que o terreno de Tralhariz foi povoado nos tempos pré-históricos; mas eu obtive outro, encontrado perto da povoação actual e todos os aldeãos com quem falei me notificaram o aparecimento de muitos outros. Não há pois dúvida de que aqueles territórios tiveram habitadores em épocas anteriores à dos romanos» (924). As ruínas de Tralhariz foram novamente soterradas pela acção das águas e já se não vêem.

(924) VASCONCELOS, José Leite de, O Arqueólogo Português, 1900, tomo V, p. 193, onde podem ver-se as fotogravuras do interessante mosaico e dos objectos encontrados.

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TRASMONTANA (CASA)

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TRASMONTANA (CASA) [2] Sendo geral e predominante em Trás-os-Montes o granjeio pecuário-cerealífero-vinícolo-olivícola, esparso em pequena propriedade e pequena cultura, e havendo a máxima vantagem económica, moral e de segurança contra furtos, em abrigar sob o mesmo tecto família, gados e colheitas sem mais precisar sair à rua, desde que ao escurecer se fecham as portas, criou-se aqui um tipo de casa trasmontana atinente à satisfação dos fins indicados, pois nele se cifra a vida rural em que a vigilância do chefe é tudo: o olho do dono engorda o cavalo. O ideal é habitação de um só andar, além do rés-do-chão, para lojas de animais, celeiros, adegas, forno, despensa e água, ficando aquele para a família. Esta parte da casa, suficientemente espaçosa para comportar animais e pessoas em relativas condições higiénicas, tem: varanda a sul para lavagem pelo sol dos compartimentos, luz e renovação de ar; secagem de roupa, feijões, cebolas, milho, nozes, etc., e debulhas, que deita para o curral (pátio descoberto) destinado ao esqueiro ou bardêa (montes de lenha para sustento da lareira), amplo bastante, a fim de conter meia dúzia de carros de mato, sem embaraçar o trânsito da gente, animais e arrouso de carros. Uma escada em cada extremidade da varanda liga esta ao curral que é limitado por mais três corpos de edifício, continuados entre si, formando quadrilátero, destinados: um a continuar a fachada, compartimentos e lojas da casa acima dita, e os opostos a palheiro de feno, ramalhos, palha trilhada, tudo indispensável para dar a refeição nocturna aos gados, arrumo de traves, madeiras, carros e abrigo de ovinos no tempo de inverno e da criação. Na fachada abre a porta carral de três metros de altura, para caberem os carros de lenha e feno, a modo que dê logo serventia à escada da varanda, e em frente, no lado oposto, a servir a escada do extremo, outra porta da mesma altura a comunicar com a cortinha. Uma casa sem cortinha, sem roussios ou cagadeiro, como diz o povo, nada presta, porquanto a cortinha é lameiro, melhor ainda, é o despejo das galinhas, porcos, gados mancos, doentes, etc.; depósito provisório de lenhas, paus e madeiras; eira onde se debulha e trilha o cereal; arrecadação e armazém temporário de quanto a faina agrícola não deixa colocar logo nos seus lugares; sede do cabanal (palheiro principal onde se recolhem as provisões dos gados, metendo apenas em casa as indispensáveis às refeições nocturnas invernais, para evitar, com a saída à rua, frios, chuvadas e perigos de ladrões), a fim de descongestionar de matérias mais facilmente atacáveis pelo fogo, sempre de recear, devendo, por isso, também o forno e a lareira ficarem o mais distante possível dos palheiros. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TRASMONTANA (CASA)

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Quando não é possível a água potável dentro da casa, tem esta, pelo menos, um poço para ocorrer às primeiras necessidades de lavagem ou incêndio. Todos os compartimentos abrem directamente para a varanda e curral, sem dar serventia a outros. A cozinha, muito espaçosa, guarnecida de dois escanos, pelo menos, logo no cimo da escada servida pela porta da fachada, para comodidade de quem entra e sai, sem estar a devassar o interior da vivenda, pois é a sala de visitas rural, e mesmo para facilidade da vigilância. Contígua a ela, um compartimento, também amplo, para sala de jantar e visitas, capaz de acomodar vinte a trinta malhadores ou ceifeiros. Ainda pegado à cozinha, outro quarto para casos de doença ou mortório, tudo em obediência ao critério de não devassar a habitação, aliado às comodidades de serviço e vigilância da dona da casa, que, como cozinheira, passa na lareira a maior parte do seu tempo. Os outros compartimentos e lojas, em ordem ao número de pessoas e armentio. Quando a porta da fachada não pode atingir a altura indicada por economia de obras, inadaptação de terreno (pois tem de levar em cima varanda ligada ao quarteirão da casa primeira indicada), a fim de dar franca entrada aos carros de lenha e feno, aproveitaram-lhe o máximo de altura possível e fica para as maiores carradas a da cortinha, que não tem varanda em cima e pode alterar-se à vontade. Ainda para comodidade de serviços, os palheiros ficam em tais condições que os carros entram por eles adentro descarregando-se o feno à vontade, sem necessidade de guindá-lo por janelas. Da mesma forma o lagar ou tinas, permitindo descarregar os carros de uvas com sacha, por aquelas ficarem em nível inferior e ainda mais baixa a adega, a fim de o vinho correr para ela por canos sem precisar de transporte em cântaros a braço. No fundo, é esta a casa trasmontana autêntica, quando o terreno se presta e as economias o permitem, porque obras, em havendo sobras, mas, nas precárias circunstâncias, vão-se adaptando, adindo casinhotos à medida das necessidades, empilhando as casas com as vizinhas, dando-lhe em profundidade, com supressão de curral, varanda, luz, arejamento e estética, o que lhe falta em largura. Infelizmente esta vivenda abunda ainda mais que a outra: é a casa pobre trasmontana e aquela a rica, com ressaibos de vivenda romana ou monástica. Tem-se dito que o tipo da casa trasmontana obedece ao plano da escada para a rua coberta por alpendre, e, na verdade, em muitas assim sucede; mas é inestética, e raríssimas serão as feitas com desafogo financeiro ou simplesmente com certo bem-estar de seus donos, que tal apresentem, tratando-se de casa de labor agrícola, como é a trasmontana. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TRASMONTANA (CASA)

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TRAVANCAS

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TRINDADE

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TUIZELO

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Conhecemos escadas para a rua com feição monumental na região bragançana: uma em Cova de Lua, outra no Parâmio, outra em Selores e mais algumas; mas, ou obedeceram ao plano de ocultar deficiências fundamentais ou derivaram de capricho injustificável, como a do Parâmio. A casa, como tudo, é tanto melhor quanto mais facilmente, com o mínimo de trabalho e o máximo de cómodos, satisfaz os fins a que é destinada; sem isto não há estética que valha, pois nisi utile est quod facimus stulta est gloria.

TRAVANCAS «Travancas, concelho de Chaves, confina com Galizia e o outeiro chamado Cota de grande altura, que descobre mais de quinze léguas em circuito em Galizia e Portugal, aonde por tradição consta houve uma batalha sanguinolenta de que Portugal ficou vencedor». Desta batalha veio o nome de «Escocha ao outeiro, que hoje vulgarmente se chama Cota» (925).

TRINDADE A igreja desta povoação é românica, pelo tipo da de Algosinho. Ver tomo IX, pág. 107, destas Memórias, onde a descrevemos.

TUIZELO «Ha perto do lugar de Tuizelo, concelho de Vinhais, aonde chamam ao Pizão, uma fonte milagrosa e diz a tradição que aparecera Nossa Senhora naquele sitio e que dera fala a uma muda a nativitate e fica para a parte do nascente e se tem experimentado milagres a muitos infermos com sua agua sarando de varios achaques» (926). Esta lenda concorda com a que aponta o Santuário Mariano, tomo V, págs. 619 e segs., a propósito do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, de Tuizelo, que é um dos mais concorridos de romeiros no dia da sua festa principal a 8 de Setembro. Sobre a sua origem, ver o que dissemos no tomo IX, pág. 477, destas Memórias e Padre Firmino Martins (927). (925) Memórias Paroquiais de 1755, «O Arqueólogo Português», vol.VIII, p. 256. (926) Ibidem, ibidem, p. 257. (927) MARTINS, Firmino, Padre – Folclore do concelho de Vinhais, 1928, p. 114.

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URROS

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URRÓS

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VALE DE ÁGUIA

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VALE BENFEITO

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URROS No termo de Urros, concelho de Moncorvo, perto da capela de Santo Apolinário, há um cabeço cercado no cume por «fortes muralhas em ruínas, e dentro do seu âmbito, vestígios de alicerces de muitas casas, o que prova ter aqui existido uma grande povoação. Do lado do norte, abaixo das referidas muralhas e ao fundo de uns rochedos, está uma concavidade subterrânea, chamada Buraco dos Mouros, que é uma galeria, com suficiente largura para cinco ou seis pessoas a par. Ainda não houve quem se atrevesse a chegar ao fim deste antro. Os que mais nele têm avançado, encontravam, de distância em distância, uma espécie de salões, tudo manifestamente obra dos homens. Supõem-se que fossem minas dos romanos, mas o povo atribui tudo aos mouros, pois no termo de Urros há muitos minérios de ferro, chumbo e estanho» (928). Perto da capela de Santo Apolinário fica o alto do Castelo, onde há uma outra dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, mais conhecida por Senhora do Castelo. Em 1812 apareceram várias moedas romanas de ouro, prata e cobre em escavações no adro desta capela. Ver tomo IX, págs. 103 e 678, destas Memórias.

URRÓS Adiante, no Suplemento, falaremos desta povoação.

VALE DE ÁGUIA Perto de Vale de Águia, freguesia de Miranda do Douro, fica a estação arqueológica do Castrilhouço, que, como o próprio nome indica, diz o Dr. José Leite de Vasconcelos, «é um castro, apresentando desenhos de vários objectos lá encontrados, que talvez pertençam aos tempos pré-históricos» (929). Há ainda ali visíveis restos de fortificações defensivas.

VALE BENFEITO Na cumeada de um monte chamado Calveiro, termo de Vale Benfeito, concelho de Macedo de Cavaleiros, quatro quilómetros a oeste da povoação, (928) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Reboreto». (929) VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. VIII, p. 79.

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VALE BENFEITO

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há centenas de carradas de pedregulhos, ruínas de antigas fortificações, que, pela silhueta dos escombros, deixam ajuizar da sua configuração determinada por um recinto oval, tanto quanto a crista militar do terreno e os rochedos, que aproveitaram como elemento defensivo, o permitiam. Tem de área 60x30 metros. Do lado poente, encostadas ao muro, mas na parte exterior, há vestígios de casas circulares de pedra solta, sem barro nem argamassa (pelo mesmo teor eram constituídos os muros), que terão de diâmetro uns quatro metros. Este recinto apresenta a raridade de conter ao lado norte outro de 20x22 metros, em que aproveitaram a defesa natural de um rochedo. Temos aqui uma espécie de torre de menagem, defendida por muros dentro da cidadela. Pelo lado poente reforçaram a cidadela ou recinto central por outro muro ligado ao central, deixando entre ambos um bom espaço em arco de círculo. O mesmo sistema adoptaram no lado nascente, mas aqui fizeram dois muros a vedar outros tantos arcos de círculo. Ainda reforçaram o lado norte e sul, para aproveitarem os rochedos do terreno com calotes elípticos, de 80x45 metros aquele e 130x58 metros este, ligados por muros à cidadela ou recinto central. Nem cerâmica nem coisa indicativa da época em que foi habitado o Calveiro, que, afinal, é um verdadeiro castro, algo relacionado com o tipo n.° IV, pág. 178, do tomo IX destas Memórias. Pelo alongado da forma elíptica e carência de elementos cronológicos, liga-se ao de Caravela, descrito na pág. 143 do tomo IX atrás referido.

Fig. 33 (a) Penhascos.

1 E = ——— 3000

Ruínas de fortaleza existentes no alto do monte «Calveiro» da freguesia de Vale Benfeito.

Em 26 de Agosto de 1934 fui a Vale Benfeito, a pedido do meu amigo tenente João José Pereira Vaz de Morais de Abreu Sarmento para lhe baptizar a sua filhinha Maria Cândida, precedendo licença do respectivo pároco Manuel António Faria. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VALE BENFEITO

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A igreja matriz é obra do século XVIII, como indica o seu conspecto e o cronograma na padieira da porta principal, que diz: ANTONIO ROIZ A EES (sic) ANN. D 1742 Todavia, a pia baptismal é tipicamente românica. A capela-mor, muito interessante pelo tecto apainelado, dividido em vinte e oito caixotins, ostentando quadros de certo valor, com pinturas dos apóstolos e outros Santos, pelo teor das igrejas dos Avantos, Gimonde, Meixedo e outras, mencionadas no tomo VII destas Memórias. Convém ainda destacar o retábulo do altar-mor e os de mais dois laterais no corpo da igreja, de apreciável talha dourada, que igualmente reveste o arco cruzeiro, tudo obra da mesma época, segundo deixam ver as características conchas bivalves, que nela abundam como motivo ornamentológico. Por cima da porta da sacristia, lado interno, há embutida na parede em pedra granítica, insculpida uma cruz em círculo, não bem definida nos traços, ao parecer de Malta ou dos Templários. Aproveitei a ocasião para visitar, em companhia do amigo Morais e dos seus três filhos – Alfredo, João Manuel e Fernando – o sítio dos Lagares (ver tomo IX, pág. 684, destas Memórias), onde já nada se conserva da cista aí mencionada, certamente por levarem as lajes para tapume de propriedades ou construção de casas, mas encontramos outra a poucos metros do local daquela, que ia aflorando à superfície do solo, devido à deslocação do terreno pelas lavouras agrícolas, já violada também em tempo incerto, a julgar pelos pedregulhos que a enchiam. No espólio, nem cacos nem outro qualquer índice cronológico, apenas as duas grandes lajes laterais de xisto duro postas de cutelo, faltando a da cobertura a fechar um quadrilátero de 1,80 metros de comprimento por um de largo e outro de profundidade. Deram-me notícia de terem aparecido aí em diversos tempos mais sepulturas por este tipo, de que nada resta, talvez pelas razões já ditas, e apenas a lenda do seu rico espólio, que fez enriquecer uma família da povoação (a propósito ver o que dizemos no artigo Torre de Dona Chama, pág. 266). Em frente de Lagares, olhando a nascente, coisa de mil metros e outro tanto de Vale Benfeito, fica o sítio chamado Mourel (de mouro?), povoado extinto mas ainda habitado no princípio do século XVII, segundo se vê pelos livros do registo paroquial de Vale Benfeito, e na linha de água que o lava colhemos um fragmento de telha de rebordo. Já não há vestígios de casas; apenas uma fonte e um tanque inculcam restos do que foi. Entre este sítio e Vale Benfeito fica o do Pendão, onde, segundo a lenda, se arvorava bandeira de paz ou de guerra entre os cristãos dela e os mouros de Mourel. O toponímico Pendão é mui frequente e, possivelmente, relaciona-se com Facho. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


VALE BENFEITO

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Vindo de Vale Benfeito para a estação de Grijó na via férrea e perto desta fica o sítio da Meda, também chamado Modorrão (ver págs. 684 e 700 do tomo IX destas Memórias), onde abunda a cerâmica e telhas de rebordo. Lá colhemos um fragmento de caco saguntino. Em Vale Benfeito chamam Meda à parte mais elevada do terreno e Modorrão às suas adjacências. Daqui ou de qualquer dos sítios indicados acima viriam duas mós manuárias, guardadas na povoação. Também nesta, a guarnecer a parede de uma grande fonte arcada, vi uma pedra granítica cheia de covinhas de carácter arqueológico. Na serra de Bornes, a confinar com o termo de Vale Benfeito, apareceram enterrados, ao lavrar uma terra, quatro punhais de cobre ou bronze, mas provavelmente de cobre, segundo as figuras juntas. Ver tomo IX, pág. 13, destas Memórias.

Figuras 34, 35, 36 e 37 Punhais da serra de Bornes (escala 1/7) (Desenho do professor Domingos Vinhas)

As suas dimensões são: Fig. 34. Comprimento 0,325 metros, sem contar com a parte que lhe falta na ponta, largura na. base 0,124 metros. Fig. 35. Comprimento 0,29 metros, idem, idem, largura na base 0,112 metros. Fig. 36. Comprimento 0,272 metros (está completo), larg. na base 0,085 metros. Fig. 37. Comprimento 0,256 metros (idem), largura na base 0,09 metros.

As lâminas, perfeitamente polidas e afiadas como navalhas, apresentam na base três orifícios destinados a segurar com pregos os respectivos cabos de madeira já desaparecidos. Dois filetes de nervuras paralelas correm ao MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VALE BENFEITO

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longo das lâminas junto aos gumes, servindo-lhe de motivo ornamentológico, bem como pelo centro uma moldura da secção semi-esférica, semelhando um gomo, afilada na direcção da ponta dos punhais. Divergem no formato dos encontrados em Ervidel, distrito de Beja, descritos pelo Dr. J. L. de Vasconcelos (930), porque a lâmina, de configuração lanceolada contínua, não apresenta distinta reentrância e saliência para a cabeça ou encabadouro. É grande o valor deste achado arqueológico, porque documenta na região bragançana a civilização da época dos metais (período calcolítico), cuja idade os arqueólogos colocam em dois mil anos antes de Cristo, já assinalada pelos machados de cobre, tipo de cunha, aparecidos em Urrós e noutros pontos, continuação dos anteriores da pedra polida, largamente evidenciados por toda ela; porque mostram como o artista eneolítico estava senhor da técnica metalúrgica, e porque, aparecendo em grupos, enterrados como tesouro escondido, se relacionam com os achados em idênticas circunstâncias na Torre de Dona Chama e noutras partes do distrito de Bragança e fora dele. Ver pág. 266. É digno dos maiores encómios o nobre gesto do tenente João José Pereira Vaz de Morais de Abreu Sarmento em oferecer todo o conjunto do tesouro arqueológico da serra de Bornes, também pertencente a Vale Benfeito, sua terra natal, ao Museu Regional de Bragança em vez de o explorar mercantilmente ou de o distribuir por várias mãos à cata de graças pessoais interesseiras ou de o guardar avaramente, como troféu avoengo nobilitante, evitando assim o injustificável capricho estúpido laivado do proverbial egoísmo do perro hortelão guarda das couves, que não as comia nem deixava comer ao dono. «Nada há mais interessante para as colecções paleoetnológicas do que apresentar reunido e completo o que reunido apareceu. Disseminar os objectos de um só achado arqueológico é tirar-lhe grande parte do seu valor, inutilizando-lhe toda a significação de cronologia comparativa; é um erro de ofício nas pessoas que, incumbindo-lhe o evitá-lo o não evitam, por mal entendida generosidade» (931). No Museu Etnológico do Dr. José Leite de Vasconcelos há o desenho de dois punhais idênticos a estes de Vale Benfeito, também com três orifícios para pregos. Na etiqueta dão-lhe o título de «Punhais de Trás-os-Montes» e diz-se que vieram de Guimarães.

(930) VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. XXVIII, p. 202. (931) PEREIRA, Félix Alves, O Arqueólogo Português, vol. VIII, p. 30.

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VALE DE PRADOS DAS MÚRIAS

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VALE DE TELHAS

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VALE DE PRADOS DAS MÚRIAS No termo de Vale de Prados das Múrias, concelho de Mirandela, há um local chamado Santa Juzenda, situado na confluência de uma ribeira com o Tuela. Deve ter sido povoado importante, a julgar pelas fortes muralhas e quatro ordens de andares com fossos defensivos ainda bem visíveis. O povo diz que foi aqui a cidade de Mismil, capital dos mouros, e no seu recinto aparecem fragmentos de telha de rebordo, de cerâmica e de mós manuárias (932). Ver pág. 266.

VALE DE TELHAS De uma carta do erudito escritor bragançano Padre Ernesto Augusto Pereira Sales, tantas vezes citado com louvor nestas Memórias, escrita a Pinheiro (933), transcrevemos o seguinte: «Na povoação de Vale de Telhas não achei resto algum de telha romana, nem me disseram que a haja. Ao sair da povoação para a ponte, há uma fonte bastante funda e em arco romano a que chamam a “Fonte dos mouros”, e perto desta fonte está o sítio denominado o Cabeço. Neste sítio abunda a telha romana, e ainda em maior quantidade do que na Sainça, ou no S. Pedrinho. É realmente um cabeço pouco elevado, com enormes blocos de granito e nos quais há buracos redondos, quadrados, pias quadradas e redondas, feitios de qualquer coisa. No topo do Cabeço achei restos de edificações, e em forma de semicírculo, e aí encontrei também muitos fragmentos de louça grosseira e de vários feitios. Na Monchicara e na Muralha há também muita telha romana. A Monchicara é um cabeço sobranceiro ao rio e num ponto que é vadeável. Aí existem restos de fortaleza e ainda uma pedra com letras». Os toponímicos Cabeço, Sainça, São Pedrinho, Monchicara e Muralha estão situados no termo de Vale de Telhas e nos confinantes Vale de Salgueiro e Bouça. Os «buracos redondos, quadrados, pias quadradas e redondas, feitios de qualquer coisa», mencionados na carta retro, devem relacionar-se com os descritos por Argote (934), existentes no famoso santuário de Panoias, onde também há buracos redondos e pias quadradas. Na estampa da pág. 347 des-

(932) Ver LOPO, Albino,O Arqueólogo Português, vol. V, p. 114. (933) PINHEIRO, José Henriques – Estudo da estrada militar romana, 1895, p. 48. (934) ARGOTE – Memórias para a história eclesiástica do arcebispado de Braga, 1732 tomo I, p. 328 e seg.

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VALE DE TELHAS

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ses gravados de Panoias (935) vêem-se dois pés insculpidos pelo teor dos que os romanos ofereciam nos santuários aos deuses em reconhecimento de supostas curas miraculosas (936), que trazem à lembrança as pegadas de Ifanes, Moimenta, Póvoa e outras (937). Sobre os buracos redondos, ver tomo IX, pág., 638, destas Memórias. No mesmo tomo IX (938) falamos de várias antigualhas de Vale de Telhas, publicando lápides. Agora aditamos mais: I. O. M. PVBLIVS LELIVS FLLCClNVS V. S. L. M.

ou seja: Públio Élio Flacino cumpriu de boa vontade a promessa feita a Júpiter Óptimo Máximo. Foi encontrada no sítio chamado Cabeço, termo de Vale de Telhas, e publicada originariamente por Argote (939) e seguidamente por Hübner (940), Pinheiro (941) e Dr. J. L. de Vasconcelos (942), que diz ter este monumento a «forma de ara, em cujo frontão se vê a meia-lua ladeada por duas estrelas de seis raios cada uma». Esta ara está agora no Museu Etnológico do Dr. José Leite de Vasconcelos, por oferta de José Benedito de Almeida Pessanha. Damos o texto segundo a leitura do Dr. J. L. de Vasconcelos, por estar conforme as letras da pedra em cuja leitura o informador de Argote padeceu equívoco. Depois de apresentar a lápide acima, acrescenta Argote: «Da mesma sorte sabemos que existia por ali [Vale de Telhas] a família dos Albinos, porque em um monte a duas léguas de Chaves achou João Fernandes, lavrador, um cipo, que conduziu para sua casa e tem esta inscrição:

(935) Ibidem, p. 347. (936) Ver RICH – Dictionnaire des antiquités romaines et grecques, artigo «Tabella». Os votos em tábuas e telas pintadas que vemos em muitas igrejas, ostentando muitas vezes o doente miraculado, filiam-se nestas tabelas. (937) Ver tomo IX, p. 628, 639, 647 e 713, destas Memórias, onde damos a respectiva gravura. Ver também adiante o artigo «Vilarinho dos Galegos». (938) Ver p. 203 e seg. e 364 e 694. (939) ARGOTE – Memórias para a história eclesiástica de Braga, 1732, tomo I, p. 291. O mesmo no tomo VI, p. 140, 254 e 288. (940) HÜBNER – Corpus…., II, 2466. (941) PINHEIRO, José Henriques – Estudo…, p. 48. (942) VASCONCELOS, J. L. de, O Arqueólogo Português, vol. XII, p. 243.

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VALE DE TELHAS

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ALBINUS BALESIN I. LARIPUS FIN. DLNEI ICI. SLI. BE ILS. POSVI

que lê: Albino, filho de Balesino, consagrou esta memória aos deuses das casas»; e acrescenta não saber interpretar o resto (943). Há em Vale de Telhas uma casa de altura superior à usual na povoação. O povo chama-lhe Torrinha e a cornija assenta em modilhões. Tem duas janelas, tipo manuelino, ladeadas por duas mísulas e no alto a seguinte legenda: PATER LOPERIO ME FECIT

que se entende: Fez-me (mandou-me fazer?) o Padre Lopes. Na vizinha povoação de Vale de Salgueiro há uma capela profanada, que tem na padieira da porta a legenda: 1689 _ __ LEBRE. SEDAS ALMA S DO. PVRGATORIO. O P.E ANT.° GLZ ME FEZ

Por se relacionar com o assunto, informo que a uns oito quilómetros de Vale de Salgueiro fica a povoação de Valbom de Mascarenhas, também chamada Valbom dos Figos, onde há duas capelas profanadas, agora pertencentes à família do Dr. Alberto Feliz de Carvalho (944), e numa delas este letreiro: LEMBREMSE DAS ALMAS DO PVRGATORIO

Devia tratar aqui das vinte pedras de granito insculpidas, dadas ao Museu de Bragança pelo grande Mecenas e grande benemérito Dr. José

(943) A RGOTE, Jerónimo Contador de – De Antiquitatibus conventus bracaraugustani, 1738, p. 254. Foi também publicada no LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Vale Telhas». (944) Ver tomo VII, p. 626, destas Memórias.

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VALE DE TELHAS

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Bacelar (945). Nos referidos gravados encontram-se personagens, bestiário, ornatos floriformes, episódios simbólicos e hagiológicos, cronogramas e textos epigráficos, mas tudo tão rudemente tratado que lembram a velha arte dos nossos luso-trasmontanos manifestada nos quadrúpedes, vulgarmente chamados Porcas, tipificados na da Vila de Bragança (946). Entendo, a julgar por muitas delas, e de modo especial por uma, enorme troço granítico com indícios de ter servido de verga de porta, que, no conjunto, pertenceram inicialmente, ou por adaptação, a uma portada de capela ou igreja, sendo por isso necessário que o museu, à semelhança do que sucede nos outros (947), erga, na cerca adjunta, essa portada, a fim de, pelo todo, se poder tirar a lição do monumento. Junto ao monumento anterior deve construir-se um pequeno muro para meter nele, com as figuras à vista, as nove pedras mandadas pelo grande benemérito Dr. José Silvério de Campos Henriques Salgado de Andrade, abastado proprietário de Vila Nova de Foz Côa, de quem falamos noutra parte. São de xisto muito duro e estavam no muro soterrado de uma cortinha na vila de Castelo Melhor, concelho de Foz Côa, sendo postas a descoberto quando se procedia ao desentulho do caminho para o adaptar a trânsito de automóveis pelos anos de 1932. Este muro era muito antigo e ninguém se lembra de ele ter sido feito. Muitas pedras da mesma natureza, também insculturadas com flores, bestiário e ornatos geométricos se vêem nas paredes de algumas casas de Castelo Melhor postas de invés, como a de um coelho, que está com as patas para cima, e outras, sinal de que pertenceram a outro edifício, bem como as do muro, pois certamente as não trabalhavam tão cuidadosamente, maxime sendo tão duras como são, para as colocar em parede de prédio rústico. Castelo Melhor é o solar dos célebres condes deste título, mas aqui já nada possuem; os seus descendentes vivem em Lamego e usam o apelido Vasconcelos. No termo de Vila Nova de Foz Côa, sítio chamado Caminho de Santa Bárbara, há duas ferraduras gravadas num fragueiro, e no denominado Canada do Inferno está gravada noutra fraga uma cruz reproduzida na figura 38.

(945) Ver tomo IX, p. 11, destas Memórias. (946) Ibidem, p. 541. (947) No Municipal do Porto levantaram uma portada ogival vinda de outra parte. No Etnológico do Dr. J. Leite de Vasconcelos vêem-se reconstruídas muitas sepulturas arcaicas.

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VALTORNO

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VALVERDE

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VALTORNO Num outeiro perto da povoação de Valtorno, concelho de Vila Flor, «estão os restos de uma forte muralha, pelo que a este monte se dá o nome de Cabeço Murado. A uns duzentos metros desta muralha se vêem as ruínas de um castelo e os alicerces de pequenas casas, e vasos cheios de cinzas. Dizem que aqui se têm achado moedas mouriscas» (948). Um pouco distante da povoação há uma capela românica que tem metido na parede, pelo lado interior, um arco de sepultura. Quando ultimamente procederam a escavações no adro desta capela para fazerem o cemitério, apareceram muitas cabeceiras de sepulturas medievais pelo teor das mencionadas na pág. 82 do tomo IX destas Memórias.

VALVERDE No termo de Valverde, concelho do Mogadouro, no sítio chamado Cabeço do Castelo, há ruínas, fossos, restos de muros, e no vale, junto à eminência do Castelo, têm aparecido sepulturas pelo sisFigura 38 Símbolo religioso insculpido numa fraga tema das cistas. Diz a lenda da Canada do Inferno (margens do Côa) popular que neste sítio do (Desenho de Carlos Alberto Arrepia) Cabeço do Castelo há um tesouro escondido numa área de terreno que vai da ponta da relha ao pé da ovelha (949). Também neste mesmo sítio fica a Fontela, onde, na manhã de São João, quem estiver em graça de Deus ouve tocar um sino. (948) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Vale do Torno». (949) Ver tomo IX, p. 143 e 326, destas Memórias, onde se apontam lendas baseadas sobre idênticos motivos económicos.

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VENTOZELO

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VIDE

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VENTOZELO Em Ventozelo convém anotar a capela de Nossa Senhora da Boa Morte, sita à beira da povoação, pelo alpendre adjunto à porta principal, pois, em vez de assentar em duas colunas, como geralmente sucede, apresenta várias à semelhança dos pórticos romanos chamados Pronaus (950), prolongando-se como estes sobre maior extensão de terreno. Em geral, o alpendre é uma espécie de cabanal telhado, que se apoia na fachada do templo, um pouco acima da porta principal, e em duas colunas, coisa de quatro ou cinco metros distantes desta, destinado a resguardar do sol e das intempéries os fiéis que não podem entrar, como eram antigamente alguns penitentes públicos e ainda hoje as portadoras de crianças a baptizar, enquanto o sacerdote as não exorcisma e as parturientes, que se apresentam a receber a bênção própria. Ainda restam muitos alpendres no distrito de Bragança, como em Soutelo da Gamoeda, na frente da porta principal e da lateral; em Montesinho, freguesia de França, idem, idem; em Malhadas, em frente da lateral, e outras. Ainda vimos muitos em igrejas, que já os não têm infelizmente, devido a reconstruções menos criteriosas, mas pelo tipo do da capela de Nossa Senhora da Boa Morte não conhecemos outro. Esta capela é ainda interessante pela obra de talha no forro do corpo da igreja, em toda a extensão do seu comprimento, que é de doze metros por oito de largura, e ainda pela abóbada de calota firmada sobre arcos que cobre a capela-mor. A cornija da igreja paroquial assenta sobre modilhões.

VIDE Na quinta do Couquinho, termo de Vide, concelho de Moncorvo, apareceu uma laje com insculturas pré-históricas, notável pelo modo tosco com que a figura humana é representada por traços rudimentaríssimos: os olhos por dois pontos entre um traço perpendicular, que indica o nariz e as sobrancelhas por uma linha horizontal e ligada à do nariz. No mesmo concelho de Moncorvo apareceu mais outra laje do mesmo tipo, também insculturada (951), que se guarda, bem como a anterior, no Museu Etnológico Dr. José Leite de Vasconcelos, em Lisboa. Estes monumentos são considerados ídolos-placas pelos arqueólogos e atribuídos aos fins do período neolítico que serve de transição da idade da pedra para a dos metais. (950) RICH – Dictionnaire des antiquités…, artigo «Pronaus». (951) Podem ver-se as respectivas gravuras em O Arqueólogo Português, vol. XV, p. 33-35.

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VILA CHÃ DE BRACIOSA

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VILA FLOR

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VILA CHÃ DE BRACIOSA No termo de Vila Chã de Braciosa, concelho de Miranda do Douro, perto das ruínas da Castralheira, está gravada numa pedra tosca a seguinte inscrição, cuja cópia devemos à generosidade inteligente do capitão Salvador Nunes Teixeira, Governador Civil de Bragança:

Figura 39

Algumas letras parecem ibéricas, mas também poderão explicar-se pela incapacidade do lapicida. Ignoramos o significado da leitura. No sítio chamado Ribas, termo de Vila Chã de Braciosa, há uma calçada feita pelos mouros, diz o povo. No sítio chamado Castralheira fica a Calçada dos Mouros, assim chamada por causa das muitas pedras espetadas na terra com a ponta aguda para cima, que serviam de defesa à fortaleza aí existente, da qual ainda restam vestígios de muros e fossos. As pedras espetadas na terra com a ponta para cima são os estrepes também existentes noutros castros do distrito de Bragança (952). Este sistema defensivo derivaria do Ericius romano, que constava de fortes chapões de madeira cravejados de ferros agudos, colocados nas portas das praças a fim de obstar ao ataque do inimigo (953), e ainda de modo especial do tribulus, bola de metal de onde saíam quatro ferros aguçados, um dos quais sempre ficava voltado para cima, onde quer que se atirasse com ela (954). Ver a rubrica Vilarinho dos Galegos.

VILA FLOR Hübner, no Corporis Inscriptionum Latinaram Supplementum, vol. IX, n. os 261-a e 261-b, adscreve a Vila Flor as duas inscrições funerárias que damos na pág. 74 como pertencentes à Silveira. A da Allia Reburina deve ser a mencionada no Portugal Antigo e Moderno, artigo Vale da Vilariça, e ainda existente na estalagem das Silveiras, de que se fala no tomo IX, pág. 482, destas Memórias.

(952) Ver tomo IX, p. 71, 105, 107, 149 e 539, destas Memórias. (953) RICH – Dictionnaire des antiquités…, artigo «Ericius». (954) Ibidem, artigo «Tribulus».

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VILA FLOR

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Entre os monumentos de Vila Flor destaca-se a Fonte a sul da vila (fig. 40), junto à estrada que vai para Moncorvo, coberta de calota sustentada por pilastras e colunas dóricas lisas, cilíndricas, diminuídas. No interior da abóbada vê-se o escudo dos Sampaios (955) e o cronograma «1518», que indicará o ano da sua construção. No entablamento há insculpidas figuras simbólicas, e, entre outras, uma com dupla flauta tibia, tibicina (956). No tanque do claustro do convento de São Francisco de Vinhais (957), agora convertido em Seminário Diocesano, há uma estátua também com a dupla tíbia na boca. Representará Nereo, pai das Nereidas que «saltan, y se regocijam en los mares [águas] como alegrissimos pezes, principalmente junto á los Tritones» (958)? Muitas vezes nas fontes, tanques e gárgulas a água sai da boca de uma carranca de leão, velho símbolo clássico alusivo Figura 40 às inundações do Nilo, Fonte de Vila Flor que tinham lugar quando o sol entrava no Signo de Leão (959). A igreja matriz de Vila Flor, constante de uma só nave, duas torres na fachada e grossos esporões adossados às paredes a fim de as consolidarem, é dos princípios do século XIX, em substituição da antiga que desabou em 31 de Janeiro de 1700, levando largo tempo a reconstrução, como se deduz da (955) Ver tomo I, p. 91; tomo IV, p. 231 a 235, 238, 241, 297, 301 e 303; tomo VI, p. 780, e tomo VII, p. 774, destas Memórias. (956) Ver RICH – Dictionnaire…, artigo «Tibicina», onde vem uma figura tocando a dupla tíbia na mesma atitude que a de Vila Flor e a do tanque de Vinhais. (957) Ver tomo VI, p. 493, destas Memórias. (958) VITÓRIA, Baltasar da, Frei – Primera parte del Teatro de los dioses de la gentilidad, 1737, p. 260. (959) RICH – Dictionnaire…, artigo «Antefixa».

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VILA FLOR

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canção popular fixada no Portugal Antigo e Moderno (960): Vila Flor, já não és vila Nem vila te chamarão; Porque te caiu a igreja E tarde a levantarão.

Das antigas fortificações de Vila Flor resta apenas a porta sul, de arco ligeiramente apontado, como se vê na figura junta (42). Tem 3,5 metros de largura e 4 metros de altura. Chamam-lhe «Porta da Vila» e abre a meio de um pequeno pano de muralhas (961).

Figura 41 Igreja Matriz de Vila Flor

Figura 42 Arco das muralhas de Vila Flor

(960) Artigo Vila Flor. (961) Sobre as fortificações de Vila Flor, ver tomo IV, p. 274, 279 e 283, destas Memórias.

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VILA DOS SINOS

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VILA DOS SINOS Na povoação chamada Vila dos Sinos, concelho do Mogadouro, de onde dista dez quilómetros e quatro da estação do mesmo nome da via férrea, fica a igreja matriz a poente do povo, no sítio das Eiras, de tipo românico, toda de cantaria lavrada, assente à fiada, com as dimensões internas de 17,58x6,80 metros, orientada no sentido nascente-poente. A fachada é tipicamente românica de igreja de campanário. Tem três portas: a principal na fachada voltada a poente e a lateral do lado sul [a do lado norte desapareceu na reconstrução de 1897 (962)], todas em semicírculo, formadas por aduelas, sem colunas nem ornatos. O arco cruzeiro da capela-mor é em ogiva de lanceta. O monumento sofreu diversas adulterações reconstrutivas e apenas no lado sul restam doze modilhões historiados a sustentar a cornija, tendo desaparecido os mais que devia ter. Um dos sinos tem uma inscrição de tipo monacal chamado gótico alemão, que diz: Regina Celi letari Aleluia (963). Tudo isto deixa ver que o monumento é românico de transição, séculos XII-XIII ou algo posterior e não do século Figura 43 VI, como alguns dizem. Porta principal da igreja de Vila Flor Pelo adro desta capela andava aos tombos nas mãos do rapazio o Porco do adro da Igreja, escultura de granito que mede 1,13 metros de comprimento por 0,55 metros de altura e 1,50 metros de circunferência no peito, semelhante à Porca da Vila de Bragança e às mais que indi-

(962) PEREIRA, José Manuel Martins – As terras de entre Sabor e Douro, 1908, p. 97. (963) Ibidem, p. 98, onde vem facsimilada.

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VILA DOS SINOS

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camos no artigo Porco, pág. 541 do tomo IX destas Memórias, mas em 1906, como constasse que o queriam recolher num museu, meteram-no na capela, onde se conserva, à mão esquerda da parte lateral sul. Se não é bem o caso do épico: o falso deus adora o verdadeiro, faz-lhe, pelo menos, a honra de receber e introduzir as visitas (964). Em Setembro de 1935, quando rebaixaram o adro desta igreja, que, por elevado, metia as águas pluviais para dentro, aproveitando ao mesmo tempo a terra para entupir poços nas ruas do povoado, apareceram muitas sepulturas ainda com ossos, «formadas por lajes de granito e xisto dos lados; o fundo é lajeado e cobertas com lajes igualmente. A única que está aberta, porque houve o bom senso de a não estragar, mede dois metros de comprimento, meio metro à cabeceira e trinta e dois centímetros aos pés. Cobriam-na três lajes, uma de cantaria e duas de xisto. Aos pés destas apareceu o touro e um pouco a nascente o berrão. Eu mandei-lhes cobrir tudo com uma boa camada de terra e disse-lhes para nada estragarem, e fui-lhe comprando o touro e o berrão» (965). Na carta acrescenta que o berrão é pequeno, e por isso o levou logo para o Mogadouro, deixando ficar o touro até haver carro, pois é um pouco grande. Mais diz que «ao berrão falta-lhe parte do focinho, o touro está completo, apenas lhe arrancaram um bocado na espádua esquerda com o ferro» quando da escavação. Temos pois mais um monumento do tipo Porco aparecido no distrito de Bragança (966) e outro do tipo Touro, o terceiro encontrado no mesmo distrito (967). As sepulturas acima citadas ligam-se às apontadas mais adiante, pois apareceram na mesma área, fazendo parte do cemitério pré-cristão, visto ficarem fora do adro e visto também os «vasos de louça grosseira com carvão e centeio ou trigo queimado» nelas achado. A circunstância de o touro de Malhadas se dizer que apareceu junto a uma sepultura (968) e em idêntica situação agora estes congéneres zoomorfos, sendo que o de Ligares (969) se encontrou junto às «ruínas de qualquer edifício», que bem podia ser sepulcral, parece justificar a ideia de serem monu-

(964) Ver tomo IX, p. 545, destas Memórias. (965) De uma carta do meu amigo Dr. Casimiro Henriques de Morais Machado, datada de 18 de Setembro de 1935, em que me comunica o achado. (966) Ver tomo IX, p. 541, destas Memórias. (967) Ibidem, p. 546. (968) Ibidem. (969) Ver no Suplemento deste tomo o artigo «Porco».

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VILA DOS SINOS

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mentos consagrados aos mortos ou relacionados com o culto dos mortos (970), ídolos ou divindades protectoras dos mesmos. Acresce ainda a circunstância de o de Parada (971) estar metido na parede da igreja por motivos pouco atendíveis, que bem podem ligar-se a casos funerários. Estes porcos e touros aparecidos junto às sepulturas e os porcos e quadrúpedes insculpidos nas lápides funerárias (972) não indicarão apenas a vítima sacrificada à deusa-mãe, a terra (Ceres ou Tellus (973)), postos, como os milagres de que falamos adiante no artigo Porco, nos monumentos sepulcrais como símbolo de acto cultual evolucionado, que substituía pela imagem a vítima real? No antigo Museu Municipal de Bragança ainda vi um vaso com cereal (trigo?), carbonizado como se fosse torrado, aparecido numa sepultura de Vila dos Sinos, de que fala Martins Pereira, atrás citado. Não tinha banha de verniz, inculcava fabrico com auxílio da roda do oleiro, apresentava bordo recurvo e não horizontal (974) e levaria meio litro. Desapareceu, talvez quando da mudança para o actual museu, por não atentarem na sua enorme importância arqueológica. A igreja matriz da freguesia de Vila dos Sinos é antiquíssima. Dela e da de Algosinho costuma dizer o povo em símile de antiguidade: «é tão velho como a igreja de Vila dos Sinos, que ninguém sabe os anos que tem». «Nas proximidades da igreja, junto ao adro, têm aparecido bastantes sepulturas cobertas de grandes lajes, tendo algumas cabeceiras de pedras, e estando as ossadas já reduzidas a pó pela acção do tempo. Em algumas têm aparecido também vasos de louça grosseira com carvão e centeio e trigo queimado. Também ainda existem alguns vestígios de uma antiga muralha, nas eiras, em frente da igreja, demonstrando que o antigo templo foi cercado por ela, e próximo ao arco, ou entrada do lado leste, existia uma cisterna feita de cantaria, que hoje fica dentro da sacristia e está completamente atulhada» (975). É de notar que, coroando as paredes da igreja, há um rego aberto na cantaria para apanhar as águas pluviais que, provavelmente por algerozes, agora desaparecidos, as levavam a esta cisterna, devendo entender-se que o edifício servia ao mesmo tempo de igreja e de fortificação militar. (970) Tomo IX, p. 549, destas Memórias. (971) Tomo IX, p. 544. (972) Ibidem, p. 41, 70, 72, 77 e 83. (973) Ibidem, p. 542. (974) Sobre os vasos deste tipo, ver CARDOSO, Mário – Novas urnas de largo bordo horizontal, 1926. (975) PEREIRA, José M. Martins – As terras de entre Sabor e Douro, p. 99.

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VILA DOS SINOS

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VILA FRANCA

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VILA VELHA

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A meio do povo há uma elevação de terreno de cinco ou seis metros, numa área de quinze ou pouco mais metros quadrados, a que chamam a Torre, quiçá resto de alguma fortificação militar. Vila dos Sinos é banhada por um ribeiro, e, segundo a tradição, no Bairro de Além (Bardalem, como hoje chamam ao sítio), havia também moradores, mas despovoou-se porque as formigas lhe devoravam todos os mantimentos e matavam as crianças adormecidas.

VILA FRANCA Ver a rubrica Malho, pág. 461 do tomo IX destas Memórias.

VILA VELHA Ver adiante os artigos Castelo Branco e Moncorvo. Vilar, Vilarinho, Vilarelho, Vilariça, Vilarica (ver pág. 168 deste tomo). Há sítios com alguns destes nomes nos termos das seguintes povoações: Covelas, Vilar Chão (Vilares) Vilar de Baixo e Vilar de Cima, duas povoações. Todos no concelho de Alfândega da Fé. Babe (Vilarinho); Baçal, Vilar e Vilarinho, no termo da mesma povoação; Caravela (Vilarinho), Carrazedo (Vilarinho), Cova de Lua, Espinhosela, França (Vilarinho), Grandais; Grijó de Parada (Vilarelho); Gostei e Castanheira; Izeda (Vilarelho); Lagomar (consta do Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501); Lanção; Macedo do Mato, Meixedo, Nogueira, Parada de Infanções, Parâmio, Quintela de Lampaças, Rebordãos, Sacoias (Vale de), Serapicos, Soutelo da Gamoeda, Terroso, Vila Meã, Vilar, freguesia de Milhão (aqui, além do nome da povoação, há um sítio do termo), Vilarinho de Cova de Lua (Fonte de Vilarinho), fica muito distante da povoação, nas margens do rio Baceiro e perto da ponte do Parâmio, portanto deve indicar um vilar diverso do significado pelo nome da povoação, Zeive, todos no concelho de Bragança. Carrazeda de Ansiães (Alto de Vilarinho), Luzelos (Vilarinho), conc. de Carrazeda de Ansiães. Chacim (Vilares), Grijó de Vale Benfeito (Vale de), Vinhas (Vilares), tudo no conc. de Macedo de Cavaleiros. Genísio (Vilarinho), rua do povo, Miranda do Douro (Vilarinho), São Martinho de Angueira (Vilarinho), tudo no conc. de Miranda. Angueira (Vilarinho), no conc. do Vimioso. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VILAR

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VILARINHO DA CASTANHEIRA

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VILARINHO DOS GALEGOS

TOMO X

Vilares da Torre (Vale de Vilarinho), conc. de Mirandela. Azinhoso (rua do povo; vem mencionada no Dicionário Geográfico de Cardoso), Saldanha, Urrós (Vilarinho), Valverde (Vale de), tudo no conc. do Mogadouro. Moncorvo (Vilariça), Castedo (Vilária). Nabo, conc. de Vila Flor. Junqueira, Matela, Vale de Pena (Serra de Vilarinho), consta do Tombo dos bens do cabido de Miranda feito em 1691. Tudo no conc. do Vimioso. Candedo, Dine (Vilar de Mouros e ainda outro sítio chamado Vilar), Espinhoso, Moás, Mofreita (Vilarinho), há também Vilar no termo do mesmo povo, Pinheiro Novo, São Jomil (Rigueiro do), Sobreiró de Baixo (Vilariça), Soeira, Travanca, Vilar de Ossos, há Vilar e já o nome do povo indica também vilar, Vilar Seco de Lomba, há vilar e já o nome do povo por si indica vilar, Vinhais. Tudo no conc. de Vinhais. Linhares, conc. do Mogadouro (Vilarelho) (976).

VILARINHO DA CASTANHEIRA Ver tomo IX, págs. 422, 537, 666, 679, 685, 694 e 708, destas Memórias.

VILARINHO DOS GALEGOS No termo de Vilarinho dos Galegos, concelho do Mogadouro, quilómetro e meio daquele povo, fica o Castelo dos Mouros, de que ainda há paredes com dois e três metros de altura, restos de muros e fossos em volta. Está situado num alto apenas acessível pelo lado norte, onde a defesa é constituída por larga facha de lajes de meio metro de altura enterradas no solo com a ponta aguda para cima, só mui dificilmente permitindo trânsito por entre elas. Pelos outros lados defendem-no naturalmente os despenhadeiros que se precipitam sobre o Douro. Ver a rubrica Vila Chã de Braciosa. Cem metros a sul do Castelo dos Mouros fica a Fraga do Calço, enorme penhasco de mais de quinhentos metros de altura a coroar um despenhadeiro sobre o mesmo rio, que lhe corre em baixo a setecentos metros de profundidade. No cume deste penhasco, na sua base e nas fragas que o rodeiam, há escavações feitas a picão, medindo algumas noventa centímetros de com(976) Quando se não indica outro nome em seguida ao da povoação, entende-se que tem o primeiro que epigrafa este artigo, ou seja o de Vilar.

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VILARINHO DOS GALEGOS

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VIMIOSO

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primento por setenta e cinco de largura, que talvez se relacionem com as de Panóias, mencionadas por Argote, servindo, portanto, para actos de culto religioso (977). Na Fraga do Calço há um grande tesouro encantado e não faltam parvos sonhadores que pretendem dinamitá-la para o descobrir, e no Castelo dos Mouros está uma moura encantada, que na manhã de São João espaneja ao sol a capa de D. Feliz, que foi governador do Castelo, recamada de campainhas de oiro e prata. Pelas lendas de que anda rodeada e pelo mais, talvez a Fraga do Calço seja um menir. Perto do Castelo dos Mouros fica o sítio do termo chamado Lagares, que, como dizemos noutra parte, tem significado arqueológico.

VIMIOSO No sítio da Atalaia, termo do Vimioso, vêem-se restos de uma torre e de um fosso. No mesmo termo há ainda ruínas de fortificações antigas nos seguintes sítios: «Um está no fundo do Vale de São Miguel, ainda com suas

Figura 44 Vimioso – Atalaia (mercado de gado)

paredes bem conservadas; outro na margem esquerda do rio Angueira, junto do moinho de José Marcos e da quinta dos Picadeiros, no sítio da Terronha; e outro no sítio da Botiqueira, na margem esquerda do rio Maçãs. (977) Ver a rubrica «Vale de Telhas».

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VIMIOSO

TOMO X

Ali se vêem também duas grandes rochas que, segundo Pinho Leal, são dois grandes monumentos arqueológicos. Denomina-se um deles Fraga do Mouro e tem dentro, abertas a pico, três grandes salas, para as quais se entra a custo por um buraco, também aberto a pico, no bojo do dito penedo a bastante altura do solo; a outra denomina-se Forno da Botoqueira e tem dentro uma grande sala para a qual se entra por um grande orifício ao rés-do-chão, tudo aberto igualmente a pico!... Estes edifícios misteriosos, diz a tradição que foram esconderijos feitos pelos cristãos no tempo da ocupação árabe» (978).

Figura 45 Outra vista da Atalaia do Vimioso

A igreja matriz do Vimioso foi construída pelos anos de 1570, como dissemos no tomo VI, págs. 546 e 574, destas Memórias. Tem duas torres na fachada, tudo de granito à fiada (o mesmo material predomina no resto do templo), ligadas, como na de Outeiro, sua vizinha e talvez modelo neste particular, por uma sacada ou balcão com balaústres à altura do telhado, à semelhança da catedral de Cefala. A abóbada sobre o corpo da igreja apoia-se numa rede de nervuras, como as das igrejas góticas, mas muito abatida, que saem ou se estribam em grossos esporões ou contrafortes metidos nas paredes com ressalte para fora

(978) PEREIRA, José Manuel Martins – As terras de entre Sabor e Douro, 1908, p. 203. Ver tomo IX, p. 182 e 679, destas Memórias.

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VIMIOSO

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e para dentro, cinco por cada lado. Esta rede de nervuras tem similar na Sé de Bragança, se bem que as desta nem todas são de granito como aquelas. Tem seis altares, tudo talha barroca e alguns mais modernos. Dá impressão, atenta a largura da igreja, que seria destinada a três naves, mas não apresenta mais que uma. Convém notar que o pavimento interno deste templo se eleva acima do solo, sendo, portanto, necessário subir escadas para lá entrar, tanto pela porta principal como pela lateral, a poente. A do nascente não precisa, por ficar ao nível do terreno. Esta circunstância fez-nos lembrar influência espanhola de igrejas pelo mesmo tipo existentes na província vizinha de Zamora, mas depois achamos o motivo no declive do terreno determinante de tal disposição para a deixar em horizontal. Na fachada, diz o Dr. Vergílio Correia, «apresenta como curiosidade sobre o seu portal singelo de volta redonda e óculos nus, à moda do fim do renascimento, uma magnífica fresta crucial que substitui, com graça e ineditismo, as rosáceas e janelões vulgares. Visto de frente, o edifício revela, pelos caracteres da arquitectura e decoração, o fim do século XVI. O resto da igreja, porém, riscado de gigantes grosseiros, parece mais antigo. O interior do corpo, ocupado por uma só nave repartida em quatro vãos, é larguíssimo e abobadado, assentando a abóbada em nervuras de aresta, cujos pés se firmam em culs de lamps renasFigura 46 cença. Igreja matriz do Vimioso Para poente da vila, para lá das cortinhas das traseiras das habitações, levanta-se uma capelinha da invocação de São Sebastião, cujo portal, hoje entaipado, revela certa antiguidade, dando o templozinho, no conjunto, a impressão de ser uma MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VIMIOSO

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VINHAIS

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obra da transição do românico para o gótico. É muito possível, porém, que o não seja, pois que em toda a região da terra de Miranda é vulgar deparar-se com santuários rurais dos séculos XVI e XVII, que parecem construções algumas centúrias de anos anteriores» (979).

VINHAIS IOVI O M. LOVIIS IA IIX VOTO L A P

Foi publicada por Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu Elucidário, artigo E, que diz ter aparecido perto de Vinhais, e aponta-a como exemplo de dois I I terem valido por E durante algum tempo. Assim, segundo ele, quer dizer: Jovi O(ptimo) M(aximo) Lovesia ex voto l(ibens) a(nimo p(osuit). Ou seja: Lovésia oferece esta dádiva a Júpiter Óptimo Máximo em cumprimento da promessa que lhe tinha feito. Acerca do miliário encontrado aqui, ver tomo IX, págs. 195 e 208, destas Memórias. A nordeste e a cavaleiro de Vinhais fica, numa altitude de mil e vinte e sete metros, o serro em forma de cone truncado chamado Cidadelha ou Cigadonha, ligado à vila por uma série de contrafortes. À coroa da Cidadelha chamam Bairro dos Mouros e nela se têm encontrado moedas romanas, como refere o Portugal Antigo e Moderno (980). Só em 1872 apareceram cento e tantas (981). A Cidadelha é de dificílimo acesso por todos os lados, a não ser pelo norte, e constitui uma fortificação no género dos castros de respeitável imponência, defendida no lado norte, a contar do exterior, por um fosso, um muro, coisa de vinte metros daquele, seguido logo de outro fosso em volta da explanada, que terá de diâmetro cerca de duzentos metros. Pelo lado sul, diz alguém que há vestígios de cinco ou seis andares de defeso formados de pedra solta dispostas em semicírculo; nós, porém, apenas vimos restos de dois muros e de um fosso. Contudo, bem pode ter escapado à nossa observação, devido à espessura da mata e declive do terreno, que difi-

(979) CORREIA, Vergílio – Arte e Arqueologia, 1920, p. 28. (980) PINHEIRO, José Henriques – Estudo da estrada militar…, p. 106. (981) O Arqueólogo Português, vol. XX, p. 85.

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VINHAIS

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cultam imenso o exame; todavia, sendo o lado norte o ponto atacável e não apresentando indícios defensivos além dos indicados, mal se compreende que haja tantos no lado sul, onde a defensão natural é, a bem dizer, inexpugnável, ao contrário do uso em todas as praças de armas. É provável que tais muros sejam apenas socalcos para pegar na terra entregue à cultura outrora. Como se nota noutros castros, também aqui os muros se ligam aos fragueiros naturais, quando calham a jeito para o sistema defensivo. No sítio do termo de Vinhais chamado Estripão diz o povo que se deu uma grande batalha e que lá apareceram muitas caveiras e ossos dos mortos nela, que foram transportados para o cemitério no tempo do abade Buíça, falecido há poucos anos. A igreja de São Facundo de Vinhais apresenta na fachada, aos lados da porta principal, em arco levemente apontado, esculpidos em pedras graníticas, baixos relevos. Num deles, três bustos representativos das três pessoas da Santíssima Trindade; noutro, também três personagens, sendo maior o do centro para indicar a distinção das três pessoas divinas. Do outro lado da porta, ou seja à direita de quem entra, há outra pedra Figura 47 igualmente embutida na parede, com uma só figura, que indica a reunião das três, ou seja um só Deus verdadeiro. É assim que o povo as explica. Vista em conjunto, a fachada dá ideia de ser românica de transição para o gótico, portanto séculos XII-XIII, mas talvez seja muito mais moderna, olhando ao que diz o Mestre Dr. Vergílio Correia (982) e ao que fica dito no tomo VI, pág. 774, n.° 114, destas Memórias. (982) Ver o artigo «Vimioso», atrás inserto, e também o artigo «Adeganha», tomo IX, p. 95.

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VINHAIS

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Na Torre do Tombo entraram em 1890 vários documentos pertencentes à Sé de Braga (983). No mesmo arquivo foram incorporados depois de 1910 outros documentos respeitantes aos conventos de Santa Clara e São Bento de Bragança, Santa Clara de Vinhais e convento de Santíssima Trindade, da Lousa, concelho de Moncorvo (984).

q

(983) BAIÃO, António, director do Arquivo da Torre do Tombo – Arquivo Nacional da Torre do Tombo, 1929, p. 32. Este estudo faz parte do Livro de Portugal na Exposição de Sevilha. (984) Ibidem, p. 34.

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SUPLEMENTO


ALGOSO

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ALGOSO Demarcação do seu castelo feita em 1684 «Aos vinte e dois dias do mes de Junho de mil e seiscentos e oitenta e quatro annos nesta Villa de Algozo e pouzadas do D.or Francisco Monteiro de Miranda juiz de fora deste tombo ahy perante elle aparezeu prezente o Reverendo Procurador do dito Comendador [de Algoso] e por elle foi requerido que o dito seu constetuinte pertencia a alcaidaria mor e castello desta Villa como constava das provisoens dos nossos Reis de Portugal doações e posse tomada por parte do dito seu constetuinte de que de tudo ficavão juntos titullos e instrumentos atras nestes autos em virtude dos quoais lhe requeria lhe mandace lançar neste tombo a forma delle e estado em que estava o que visto se não poder fazer medição nem demarquação delle pella iminencia da rocha em que estava e aspereza da terra que tinha em roda e emposebilidade que tinha para o poder fazer o que visto por elle D.or Juis do tombo comiguo escrivão foi ao dito castello e achou que para a parte do poente estava hûa porta de carvalho chapiada de ferro com o ferrolho groço da parte de dentro e hum postiguo na mesma porta na qual faltavão ja alguas barras e por esta se entra em hum fortim de obra morta que fica para a parte do norte dentro do qual a mão direita no meio do castello a mão direita fica hûa porta e desta se sube por huns degraos de pedra que ficão entre o muro e a torra e loguo se entra por terceira porta chapiada de pergos e barras de ferro com fechaduras e ferrolho pella parte de demtro e desta porta se entra em hûa casa no meio da qual havia hum asapão que dava para hum falço e dentro da dita caza que se acha arrujada de telhados estão coatro portas hûa em emtrando contra emtrando nella a mão direita se emtra em hûa caza que servia de tulha com hûa fenestra para o poente desta se paça a outra caza que servia de almazem de polvora com duas fenestras hûa para o poente e outra para o norte segunda porta que sobe por hûa esquada de pedra tosqua para a torre em essa terceira porta a primeira e principal do muro que sai a hum patim que tem hûa porta grande para hûa caza que serve de cavalariça arruinada e deste patim se entra em outra casa grande com dois fornos e hûa pia de cantaria grande que tudo se acha arruinado e no mesmo patim esta outra porta fronteira a principal do patim porque se entra em hûa caza de cavalariça arruinada e desta caza se sai a outro patim que fica para a parte do sul sobre o rio Angueira quoarta porta na primeira caza do muro para a parte do sul porque se entra em hûa casa de sistema de abobeda com janela no tecto e sobre esta hum fortim com suas gornicoins e MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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ALGOSO

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ALMEIDA

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campo para hûa peça junto da porta da sistema na primeira caza sobe hûa esquada de pedra tosqua da parte do nassente para o norte que colhe a maior parte do muro e sobe ao alto da torre donde esta hûa porta que entra em hûa calla e desta se entra em hûa caza que servia de armas donde se sai para hûa porta para a parte do sul que fas hûa ponte sobre o dito rio com suas ameias e junto desta caza dece hûa esquada de pedra tosqua e vem dar a segunda porta da primeira caza dentro da primeira salla da primeira porta se sobe por hûa esquada de madeira que da em outra salla que a cobre para a caza das armas nesta salla esta hûa porta ao nassente que dizem sahia para hûa baranda de madeira e desta mesma caza se sobe por hûa esquada de mão para a tallaia da torre e fica todo o castello fundado sobre o muro da parte do poente continuando ao norte e da parte do norte ao sul e nassente fiquão muros devididos da torre dentro dos quoais se achão as cazas asima sobreditas e declaradas e tudo arruinado emcapaz de defeza e abitação e não tem o dito castello barbaquão nem foços por lhe não serem nessessarios pela iminencia do monte em que esta fundado nem tem armas nem monição carretas nem peças. Tem hûa torre no meio em que se achão as quazas de que se tem feito menção a qual torre he coadrada sem abertura nem ruina no corpo della e não comtem mais em si o dito castello de que eu escrivão dou fee e pello dito procurador requerer não ser nessseçaria a medição e ser empocivel nem poder nelle aver uzurpação se não fez medição da redondez delle e mandou elIe D.or Juis do tombo que nesta forma declarada o lançace nestes autos o julgou por pertencer ao dito comendador e seus sucessores vistas as provizoins merces posse juntas a estes autos de que de tudo mandou fazer este termo que asinou com o dito Procurador e comiguo escrivão Manoel Machado de Morais, escrivão do tombo que o escrevy Manoel Machado de Morais = Monteiro = o p.e Manuel d’Araujo da Fonseca = Gualisto de Seixas = Francisco Roiz» (985). ALMEIDA (António Caetano de), o celebre Retórico e excêntrico de Bragança. Tomo VII, pág. 10. Alfim encontrei no Museu de Bragança o seu processo de património para se ordenar de presbítero em 1860. Por ele se vê que assinava Caetano Pinto de Almeida Soares; que era bacharel em cânones, professor de retórica no Liceu de Bragança e natural de Santa Cruz, comarca de Penafiel.

(985) Tombo da comenda de Algoso feito em 1684, fól. 33. v., manuscrito existente no arquivo da Câmara do Vimioso, agora depositado no Museu de Bragança. Durante a impressão do nosso livro publicou o erudito José Manuel Miranda Lopes, prior de Argozelo, o estudo sobre o Castelo e a comenda de Algoso e na p. 6 transcreve parte do documento que damos acima, respeitante à demarcação do castelo de Algoso.

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ALVES

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ALVES (Francisco Manuel), reitor de Baçal. Tomo VII, pág. 16, tomo VIII, pág. 79. Publicou mais: Memórias Arqueológico-Históricas do distrito de Bragança, tomo VII, Porto, Tipografia Empresa Guedes, 1931, 8.° de 10x820 págs.; tomo VIII, Porto, mesma tipogr., 1932, 8.° de XVIIx123x7 (inumeradas) págs.; tomo IX, mesma tipogr., 1934, 8.° de 6x718x26x3 págs. e uma de registo, profusamente ilustrado com monumentos do distrito de Bragança. Trás-os-Montes, Lisboa, 1929, 8.° de 28 págs. com dezassete gravuras. Faz parte do livro Portugal na Exposição de Sevilha. Catálogo dos manuscritos de Simancas respeitantes à História Portuguesa. Coimbra, 1933, 8.° de 168 págs. (Separata de O Instituto, vol. 82.° e seguintes). O clássico Frei Luís de Sousa. Tragédias marítimas. Notas inéditas. Porto, 1933, 8.° de 21 págs. (Separata de Portucale, vol. V). Estes dois últimos já vêm citados no VIII tomo das Memórias, pág. 79. Colaborou mais no Anuário do distrito de Viana do Castelo, 1932. Magazine do Pessoal da Shell Company of Portugal, número especial, 5.a série, n.° 7. Julho de 1932. Homenagem a Martins Sarmento, 1933, pág. 25. Idem ao Dr. José Leite de Vasconcelos. Idem em vários números especiais de periódicos, que agora não posso indicar. A 9 de Abril de 1935, seu septuagenário natalício, um grupo de bragançanos fez-lhe erigir no Jardim António José de Almeida o seu busto em bronze, modelado pelo insigne escultor portuense José Francisco de Sousa Caldas, obtido à custa de subscrição pública aberta no distrito de Bragança, à qual se associaram muitas individualidades marcantes estranhas ao mesmo. Tal gesto não significou tanto a consagração do homenageado como uma lição de civismo e um incitamento à mocidade estudiosa para trabalhar desinteressadamente em prol da Pátria e da humanidade. Ao mesmo tempo fez revestir de brilhantes festas que tomaram carácter nacional, por se associarem a elas todas as corporações científicas portuguesas e muitas individualidades em destaque, a começar pelo Presidente da República, Ministro da Instrução e mais Governo, que ofereceu ao ovacionado o cordão de oiro e respectiva medalha, insígnias de grande oficial da Ordem de São Tiago da Espada. Por centenas e centenas regulam os telegramas e cartas de felicitações nacionais e estrangeiras dos que não puderam vir assistir. A maior parte dos jornais portugueses e muitas revistas científicas se MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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ALVES

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referiram largamente ao caso (986) em vários números, acompanhando o texto de diversas fotografias. O Comércio do Porto, Diário da Manhã, Diário de Notícias, Jornal de Notícias e O Século mandaram repórteres e fotógrafos próprios a Bragança para noticiarem as festas. Convém nesta altura rememorar saudosamente o inditoso Luís Saúde Júnior, repórter do Século, que faleceu repentinamente pouco depois de chegar a Bragança. Foi publicada e distribuída largamente uma folha solta com o retrato do homenageado, colaborada pelo Dr. Abel Salazar, Professor da Faculdade de Medicina do Porto; Dr. Adriano Rodrigues, Professor da Faculdade de Ciências do Porto; Dr. Alfredo Pimenta, publicista e historiador; Dr. António Baião, publicista e director do Arquivo Nacional da Torre do Tombo; Augusto Moreno, publicista, e Dr. José Leite de Vasconcelos, Professor da Faculdade de Letras de Lisboa. O Governo deu ao Museu Regional de Bragança o título de Museu do Abade de Baçal e nomeou-o seu director-honorário, e posteriormente, por decreto de 17 de Maio de 1935, publicado no Diário do Governo do dia 20 do mesmo mês, promoveu-o a grande oficial da Ordem Militar de São Tiago da Espada. A Associação dos Arqueólogos Portugueses, na sessão de 8 de Abril de 1935, elevou-o à categoria de sócio de honra. O Instituto, de Coimbra, na sessão de 22 de Abril de 1935, conferiu-lhe o diploma de sócio de mérito. A Sociedade de Antropologia do Porto, a Academia de Ciências de Lisboa e outras corporações científicas congratularam-se em sessões solenes pelo brilhantismo das homenagens prestadas em Bragança ao Padre Francisco Manuel Alves. O Grémio de Trás-os-Montes, em Lisboa, promoveu no dia 13 de Abril de 1935 uma sessão solene em sua honra, inaugurando ao mesmo tempo a colocação do seu retrato na sala das sessões, e, em 11 de No-

(986) Entre outros, citamos: Cidade de Tomar, de 14-4.°-1935; O Comércio do Porto, de 10 e 27-1.°; 10 e 19-2.°; 20, 28 e 29-3.°; 10, 11, 13 e16-4.° e 5-10.°-1935. Correio de Mirandela, de 13-4.°-935. Diário de Lisboa, de 6-4.° e 9-11.°-935. Diário da Manhã, de 17 e 30-3.° e 7 e 10-4.°-1935. Diário de Notícias, de 15-2.°, 29-3.° e 3, 9, 10, 11-4.°-935. O Estoril, de 21-4.°-935. Jornal de Notícias, de 10, 11 e 13-4.°-935. Novidades, de 6, 10 e 12-11.°-935. A Ordem, de 16-11.°-935. O Primeiro de Janeiro, de 7, 10, 11-4.°-l935. Renascença, de 1-5.°-1935. O Século, de 10-11.°-1935. Sempre Fixe, de 14-11.°-1935, com uma interessantíssima caricatura acompanhada de texto. Terras de Bragança, de 9-4.°-1935 (este número traz colaboração de Salvador Teixeira, Governador Civil do distrito; Dr. António Quintela, reitor do Liceu de Bragança; D. Luís António de Almeida, Bispo de Bragança; D. Cândida Florinda Ferreira, professora; Padre Firmino Augusto Martins, presidente da Câmara de Vinhais, e Professor Augusto Moreno, referente ao homenageado, acompanhada do respectivo retrato) e 21-4.°-1935. Trás-os-Montes, de 1 e 16-3.°; 1 e 16-4.° e 16-11.°-1935, e A Voz, de 9, 10, 13, 15, 19 e 294.° e 11-11.°-1935.

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vembro seguinte, quando o homenageado foi a Lisboa, renovou-lhe pessoalmente a mesma cativante manifestação. Seguem alguns documentos referentes ao que fica dito: «Dom LUÍS ANTÓNIO DE ALMEIDA, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Bragança e Miranda, etc. Aos que esta Nossa Provisão virem, saúde, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo, Nosso Redentor e Salvador. Fazemos saber: Que, desejando associar-nos à solene homenagem que as personalidades mais categorizadas da cidade e distrito de Bragança resolveram tributar, no dia 9 de Abril, ao M. R. Francisco Manuel Alves, Reitor de Baçal, pelos seus muitos e apreciados estudos históricos e proficientes investigações arqueológicas, e Atendendo a que a Santa Igreja, através dos séculos, protegeu e fomentou sempre o legítimo progresso das ciências, letras e artes, abençoando, estimulando e galardoando os seus cultores, a maior parte dos quais pertenceram ao número dos seus membros e até dos seus ministros; e Atendendo outrossim a que o M. R. Francisco Manuel Alves, como escritor erudito e fecundo publicista, é uma glória do clero e, pelos valiosos serviços espontânea e desinteressadamente prestados na reorganização do arquivo da nossa Cúria Episcopal, se torna credor da gratidão desta diocese; Havemos por bem dar um público testemunho da nossa elevada consideração, afectuosa estima e sincero reconhecimento ao M. R. Francisco Manuel Alves, conferindo-lhe o titulo de ABADE DE BAÇAL, com todas as honras, privilégios e regalias inerentes que de direito lhe pertencem. Dada em Bragança, sob o nosso selo e sinal das nossas armas, aos 25 de Março de 1935 (Dia de Nossa Senhora da Anunciação).

† LUÍS, BISPO DE BRAGANÇA E MIRANDA». (Boletim da Diocese de Bragança, 1935, pág. 84) MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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HOMENAGEM DO GOVERNO «O Padre Francisco Manuel Alves, abade de Baçal, exerceu diligentemente, durante muitos anos, o cargo de director do Museu Regional de Bragança. Ao seu saber e à sua infatigável actividade deve aquele museu a honrosa posição conquistada entre os melhores museus de província portugueses. As magníficas colecções que ali se encontram, valorizadas pelos estudos que o eminente arqueólogo e historiador vem publicando sob o titulo Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, constituem na verdade uma demonstração perfeitíssima para o conhecimento desta região. Procurou o Governo perpetuar a memória dos altos serviços prestados ao Museu Regional de Bragança pelo seu eminente director, dando-lhe a designação de Museu do Abade de Baçal; mas considerando que as disposições do decreto n.° 16 563, de 2 de Março de 1929, o obrigam a abandonar no dia 9 de Abril de 1935 as funções que vinha exercendo dedicadamente; e sendo justo significar, por todos os meios de que o Governo dispõe, a gratidão nacional por tão relevantes serviços à cultura portuguesa: Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministério da Instrução Pública, que o Padre Francisco Manuel Alves seja nomeado director honorário do Museu do Abade de Baçal de Bragança. Ministério da Instrução Pública, 26 de Março de 1935.

O MINISTRO DA INSTRUÇÃO PÚBLICA

EUSÉBlO TAMAGNINI DE MATOS ENCARNAÇÃO» (987).

(987) Diário do Governo, II série, de 9 de Abril de 1935.

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«MONUMENTO AO ABADE DE BAÇAL A comissão promotora da erecção do monumento ao Abade de Baçal pede a todos os cidadãos a quem dirigiu carta-circular rogando subscrevessem para a projectada homenagem, e que ainda o não fizeram, o favor de enviarem a quantia com que concorrem ao seu tesoureiro, Sr. José Furtado Montanha, ou a qualquer dos vogais, até ao dia 4 de Abril próximo, data em que se dá encerramento à subscrição. Pede ainda a todos os filhos do distrito de Bragança, a quem, ou por lapso, ignorância de direcção ou qualquer outra circunstância, não foi dirigida a carta-circular, o obséquio de subscreverem para tão justa homenagem, certo como é que para ela e por o Abade de Baçal ser glória não só da nossa terra como de Portugal, incontestavelmente o mais ilustre filho da região bragançana, têm espontaneamente concorrido com importantes quantias cidadãos dos mais ilustres do País, que nem são naturais do distrito de Bragança, nem nele vivem ou têm quaisquer interesses. Bragança, 26 de Março de 1935.

A COMISSÃO:

Salvador Nunes Teixeira Governador Civil Manuel Gonçalves Miranda Presidente da C. E. da Junta Geral Teófilo de Morais Presidente da C. E. da Câmara Municipal António A. Pires Reitor do Liceu António Augusto Teixeira Capitão-Capelão reformado António José Teixeira Comandante Militar Bernardino Guedes Miranda Inspector Escolar P.e José Cardoso Figueira Secretário da Câmara Eclesiástica. José Furtado Montanha Agente do Banco de Portugal Raul Teixeira Secretário Geral». MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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«HOMENAGENS AO ABADE DE BAÇAL CONVITE A comissão promotora das festas de homenagem ao sapientíssimo arqueólogo e virtuoso sacerdote P.e Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, glória máxima das terras de Bragança, tem a honra de convidar o público em geral a participar das manifestações de apreço e glorificação daquele ilustre bragançano, que hão-de realizar-se no próximo dia 9 do corrente, com o seguinte

PROGRAMA Às 14,30 HORAS – Cortejo cívico, que se organizará no Jardim do Governo Civil, seguindo depois pelas ruas do Engenheiro José Beça, Combatentes da Grande Guerra e Praça de Camões até o Jardim do Dr. António José de Almeida, onde será descerrado o monumento perpetuador da memória do insigne varão. Esta comissão, mais uma vez, pede a todos os habitantes de percurso do cortejo que engalanem as fronteiras de suas casas. Às 20 HORAS – Sessão de homenagem no Museu Abade de Baçal, em que usarão da palavra os Ex.mos Srs.: Governador Civil do Distrito, com representação do Ex.mo Ministro da Instrução Pública; Dr. Manuel António da Ressurreição Fernandes, Vice-Reitor do Seminário de Bragança, representante do Clero da Diocese; Dr. Francisco António Correia, Professor da Universidade Técnica de Lisboa, com representação da Academia das Ciências; Dr. Joaquim de Carvalho, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Dr. Paulo Quintela, Professor auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com representação da mesma. Dada a pequenez da sala da Biblioteca Erudita, onde se realizará a sessão de homenagem, só poderão assistir a ela, além dos Ex.mos Sócios do Grupo dos Amigos dos Monumentos e Obras de Arte, as pessoas especialmente convidadas para tal fim. A sessão, porém, será radiodifundida, para interesse do público.

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Em razão do carinhoso respeito e alto apreço que a todos merece a estatura moral do homenageado, é de esperar o maior entusiasmo por parte de todos os seus patrícios, que, enaltecendo-lhe as virtudes, contribuirão assim para o progresso e engrandecimento da nossa terra. Bragança, 8 de Abril de 1935.

A COMISSÃO».

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O grupelho dos da católica, vendo os católicos, o Bispo de Bragança, o de Vila Real e o clero categorizado à frente da homenagem, quis cooperar também por forma característica. E, como as festas tomavam aspecto de canonização cívica, e, como em tais actos, quando religiosos, se nomeia um acusador chamado cardeal-diabo para impugnar as benemerências do ovacionado, a fim de melhor lhas acrisolar, depois de laboriosa gestação escolheu o Tigelino, que, muito constrangido e levado de santa obediência mística, se prestou a exercitar o papel supra indicado de cardeal-diabo. E não há dúvida que o desempenhou diabolicamente a primor, como quem era. Aqui, lamentou seraficamente o tempo perdido pelo homenageado em estudos arqueológico-históricos, em vez de o consagrar aos teológicos. Ali, gemeu o mesmo tempo desviado do pascigueiro das ovelhinhas, que, de papo ao alto e de boca aberta, chilreavam pelas consolações espirituais do campanariozinho particularista da sua igrejinha. Acolá, armando invejas, exaltou o zelo sacerdotal de certo pároco, bem mais digno da consagração pública, do que o do tal apoteosado. Além, carpiu desavenças do mesmo com certo superior eclesiástico. Enfim, intriga, mexerica, contesta, objecta, refuta, sofisma com tal ânsia, que alguns lembram reencarnaria nele a alma do homónimo romano; mas, como todos o conhecem, ninguém o toma a sério. Por último, chama à reitoria os subordinados, reúne conciliábulo, arenga furibundo, drapejando a memória do penate caseiro e termina catonianamente – ceterum censeo Abbatem esse delendum. Levanta seguidamente a sessão; fulmina o pobre Baldrês que ousara discordar da perlenga e, encaminhando-se para o seu quarto, saca do bolso o rosário, monologando, à laia de jaculatória, os conhecidos versos de Quevedo: No olvides, es comedia nuestra vida Y teatro de farsa el mundo todo, ....................................................... .......................................................

Chegado à cela, prorrompe solene no tom da Maria Cachucha: Quando Juan Pendailo Andava nel bailo, Luego dixo Marica: Tudo s’arranha onde le pica.

Ao mesmo tempo, na cela contígua alguém lia em Juan de Sand: «O homem mais infeliz não é o que não tem amigos, mas sim aquele que não tem inimigos e do qual todos falam com elogio, porque isso prova que MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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não tem honra de que murmurem, nem valor de que tenham receio, nem riquezas que lhe cobicem, nem talento que lhe faça sombra, nem nada que lhe invejem». Também se não podem regatear louvores aos dois cireneus escolhidos pelo Tigelino para ajudantes. O da Cesta dos Pregos, exíguo, semimagrizela, como convinha à figura cujo tipo era, perlengou, escrevinhou cartas brandindo largamente a cantilena do pesar do bispo pelo título conferido de Abade, e depois a da resignação, de que não havia exemplo no bispado, parlapatizava ele, motivada pela adesão à homenagem. Ele, conhecedor como era das verdades históricas da economia diocesana, bem sabia que mentia, pois há os casos de D. João de Aguiar em 1871 e o de D. Miguel António Barreto de Meneses em 1780, mas a questão era mentir, mentir, e o da Cesta dos Pregos mentia diabolicamente em jactoburrices incessantes para maior glória de Deus e glorificação do homenageado, entenda-se. Do outro cireneu, atrelado à corda de arrasto do patíbulo, membrudo e chibante, segundo exigia o seu papel de mazalipatão forçudo, nada posso dizer, tal a faina omnímoda posta na incessante labuta diabólica, accionada pela Soberba e pela Discórdia que em tudo semeia, metendo em permanente guerra quantos alcança a sua esfera intriguista de homem perigoso, sempre em anelos de salvar a sua alma, de onde o axioma de «o seu caso ser o caso mais grave da região». Parece que ele e o Tigelino se conluiaram de modo especial para realizar, além do seu papel particular, o de Semei ou o do Aquitofel bíblico: Dux meus et notus meus, qui simul mecum dulces capiebat cibos (988), confirmativo da sentença bíblica também: inimici hominis, domestici ejus (989). Parece que os espicaçava a ingratidão aguilhoada pela soberba invejosa, borbulhando-lhe protérvias do íntimo; mas não: estavam no seu papel característico, embora haja vocações latentes desconhecidas do próprio indivíduo, que se manifestam quando menos se pensa, de onde o aforismo corregiano: Anch’io son diabolo... É por isso que, videirinhos como pardais, ou pássaros de arribação, agora chilreiam em uníssono no tom do Vira, dando aos olhos tic abrejeirado: Algum dia por te ver Dava voltas ó lugar; Agora passo por ti Como o pardal a voar. (988) Salmo 54-14. (989) S. Mateus, 10-36.

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ANDRADE

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AVELANOSO

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Carvalho que dás bolota Porque não dás coisa boa? Cada um dá o que tem Segundo a sua pessoa. Ninguém se finte em nós, Nem no nosso falar; Temos palavrinhas de mel E coração de rossalgar. Ora vira tu, Ora viro eu; Ora viramos os dois, Ora viras tu e mais eu.

ANDRADE (Eugénio Guedes de), doutor, de Mirandela. Tomo VII págs. 24 e 611. Faleceu naquela vila em fins de Março ou princípios de Abril de 1933.

AVELANOSO Ver adiante o artigo Caçarelhos.

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(990)

Ultimamente encontrei no Castro de Baçal um triturador de granito. Este achado, aliado ao mais indicado naquela página e na 613, favorece a conjectura de o castro ser pré-romano. Os arqueólogos atribuem os trituradores à época neolítica, começos do período eneolítico (991). Estes aparelhos, muito abundantes nos castros pré-romanos, são as iniciais mós manuárias, os primitivos moinhos, utilizados como polidores, afiadores e também esmagadores de grãos, sementes e cereais em movimento de vaivém, para farinhar os mantimentos à força de os premir entre duas pedras, esfregando uma sobre a outra. Em geral, apresentam configuração alongada, mais ou menos elíptica, inferior a dois palmos de comprimento. Depois, veio outro aparelho farinhador já mais perfeito, embora igualmente impulsionado à mão; é a mola manuária dos arqueólogos, também chamada mó castrense, mó castreja, por abundar nos castros. Da mesma forma consta de duas peças – dormente e andadeira – mas sempre de granito (ao passo que os trituradores nem todos o são), de formato circular, com três palmos pouco mais ou menos de diâmetro. Apresentam ao centro da andadeira um orifício por onde cai o grão e outro (990) Tomo IX, p. 101, 122, 180, 406, 591, 613 e 681. (991) DÊCHELETTE – Manuel d’Archéologie, I, p. 531.

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na periferia, onde entra a manivela que serve para lhe imprimir movimento rotativo. A dormenta tem ainda um orifício no centro, destinado a segurar o eixo, que entraria na segurelha adaptada à parte debaixo da andadeira, e serviria para a conservar a igual distância desta, sem a deixar escapar no seu movimento giratório. É para notar a sobrevivência da mó castrense, cujo tipo se desvia muito do clássico romano (992) e não caracteriza a civilização deste povo. Muitos forais dados por el-rei D. Manuel, como o de Ansiães, Bragança, Moncorvo, Mirandela e outros (993) deixam ver que ela ainda então aqui funcionava. Assim, lemos, por exemplo, no de Mirandela dado em 1512, visto com ele concordarem os mais, debaixo da rubrica Mos, ao tratar dos direitos da portagem: «E de moos de barbeiro dous reaes e das de moinhos ou atafonas quatro reaes e de casca ou azeite seis reaes. E por mós de maão pera pãa ou mostarda hum real». É evidente, pois, que coexistiu com o moinho de maiores proporções ou atafona, talvez similar à mola romana do tipo clássico de Rich, a pequena mó manuária, simples modificação para fáceis e cómodos usos caseiros, em que se aproveitavam até as forças das crianças, das mulheres (nas intermitências do labor doméstico) e mesmo as dos homens nas longas noites de inverno. Pouco depois de encontrar o triturador, apareceram, no acto de arrancar mato, junto ao muro do Castro de Baçal, parte sul, os restos de uma casa circular, de pedras soltas, sem barro ou outro qualquer elemento de ligação, todas elas pequenas em geral, a modo de um homem as manobrar facilmente, assentes no sentido horizontal. A casa devia ser de pequeno diâmetro, talvez quatro ou cinco metros, pois não ficou toda a descoberto. Ver neste tomo as págs. 149, 153 e 165, onde se fala de casas por este tipo e também quadrangulares. Nos castros bragançanos tenho encontrado vestígios de casas circulares, ovais e quadrangulares com indícios de portas ao rés-do-chão algumas e outras sem eles, porque certamente entravam por escada de pedra, já desaparecida, ou por escada móvel. Algumas das casas redondas têm círculo passante de doze metros, devendo por isso necessitar ao centro de uma coluna para segurança da cobertura. Convém notar que ainda hoje o pombal de tipo clássico é construído em forma circular e também elipsóide, mas cortada esta ao meio, de modo a apresentar secção de calote. Em outras terras aparecem no mesmo castro casas dos três tipos acima descritos (994). (992) Ver p. 202. (993) Ver tomos III e IV destas Memórias, onde os publicamos (994) Cf. VASCONCELOS, Leite de – Memórias de Mondim da Beira, 1933, p. 16, 18, 21, 22 e 55, onde se cita muita bibliografia referente ao assunto.

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BAÇAL

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Não posso sair de Baçal sem aludir a São Gês ou Gens (que por estes dois nomes é conhecido e ainda pelo de Genísio), advogado das maleitas ou sezões, que se venera na capela de São Sebastião, sita no mesmo povo (995). Os emblemas iconográficos característicos de São Gens parecem destoar, pela extravagância picaresca, da austeridade canónica, se bem que na tradição artística encontram amplo fundamento (996). Dizem os hagiológios que São Gens era comediante e que, para ridicularizar no teatro romano os cristãos, teve de estudar seus costumes e crença, de onde resultou, em face da grandeza moral desta, converter-se em pleno teatro. Na escultura do de Baçal, que terá uns 0,60 metros de altura, nota-se um guapo moço de cabeleira aos tufos, levemente empoada; barba comprida, negra, cuidada; pescoço envolvido por colar alto, de folhos canelados como o dos figurantes do século XVI; saio recamado de flores arrochado por cordão na cinta e no cabeção a emoldurar o colar por um broche em forma de cruz. Sobre o saio amplo capote talar de estreito cabeção levemente arredondado, finalizando quase em ponta nas extremidades, seguro por elegante firmal no peito. Nas mãos acarinha um violão na atitude de correr os dedos pelas cordas. Na mesma capela há outro São Gens de 0,15 metros de altura, metido numa caixa de madeira guarnecida de portadas e de aselhas aos lados, sinal de ter servido para andar ao peito de algum pobre, como muitos vimos na nossa infância, ou de algum ermitão ou mempastor. Tem cabeleira lisa pendente sobre os ombros, dividida por carrancha ao meio da cabeça; cara rapada; véstia de abotoadura até ao joelho com mangas de bota recamada de flores; calção, botas de alto cano canelado em espiral guarnecido de vermelho: mantelete caído dos ombros e apanhado sobre os braços e o violão nas mãos em ar de tocar (997). Convém notar que já os sacerdotes romanos e egípcios tinham homens encarregados de andar pelas ruas a exibir ante os fiéis as imagens dos seus deuses, levadas em caixas e trípticos, de onde lhe vinha o nome de Pastofarus, a fim de angariarem esmolas para o culto (998). Em Deilão, concelho de Bragança, há também na igreja paroquial uma escultura de São Gens: cabeça como o maior de Baçal, gabinardo com banda de seda; calção de alçapão, meias brancas, sapato de fivela e nas

(995) Ver tomo IX, p. 101, destas Memórias. (996) Ibidem, tomo II, p. 260, e tomo VIII, p. XV. (997) Na História do trajo em Portugal, «Enciclopédia pela imagem», vem um personagem vestido pelo teor do século XVIII, cuja indumentária é muito semelhante à do São Gês pequeno de Baçal. (998) RICH – Dictionnaire des antiquités romaines, artigo «Pastopharus».

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BAÇAL

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BARROSO PEREIRA E SOUSA

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mãos o violão disposto a tocar. Enfim, o janota do século XVIII, como o de Baçal é o do anterior. B ARROSO P EREIRA E S OUSA (Francisco Manuel), natural de Mascarenhas, morador nos Avantos, filho de Luís Bernardo Barroso Pereira e Sousa, professo da Ordem de Cristo, natural de Mascarenhas, e de D. Maria Inácia da Costa, natural de Cabanelas; neto paterno de Francisco Xavier Barroso, natural de Vale de Madeiro, e de Ana Teresa Teixeira, natural de Mascarenhas, mãe do Padre António Barroso Teixeira, reitor que foi de Alvites, comissário do Santo Ofício. Habilitação de genere em 1781. Processo no Museu de Bragança, com algumas certidões, apesar de faltarem outras, mas que nada adiantam.

BISPOS DE BRAGANÇA E MIRANDA D. JERÓNIMO DE MENESES – Tomo II, pág. 250, e tomo IV, pág. 647. Ver Manuel Pereira de Novais, Anacrisis Historial, volume I, págs. 21 e 31. «Em 1579, ao ser provisto este bispo na Sé de Miranda, impôs Gregório XIII nos frutos da mesa episcopal, em favor do Santo Ofício, a pensão anual de quatrocentos mil réis, que não excediam oitocentos ducados de ouro de câmara. A pensão, dizia o papa, era livre de todo o ónus ordinário, quer ordinário, quer extraordinário, e somada com outras pendentes sobre o mesmo bispado, não chegava à terça parte dos seus frutos» (999). Este bispo não pôde assistir às cortes de Lisboa de 30 de Janeiro de 1583, em que Filipe II de Espanha foi reconhecido rei de Portugal, mas fez-se representar por D. Gaspar do Casal (1000). D. MANUEL DE SEABRA – Tomo II, pág. 26, e tomo IV, pág. 647. Dissemos que renunciou os bispados de Ceuta e Tânger antes de 1583, mas Fortunato de Almeida (1001) diz que lhe foi aceite esta renúncia a 15 de Junho de 1585. Ainda assistiu às cortes de Lisboa de 30 de Janeiro de 1583, nas quais Filipe II de Espanha foi reconhecido rei de Portugal, como bispo de Ceuta e Tânger (1002). D. JERÓNIMO TEIXEIRA CABRAL – Tomo II, pág. 30, e tomo IV, pág. 648. «Este bispo teve em Angra diversos conflitos com as autoridades civis» (1003). (999) ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, tomo III, p. 306. (1000) Revista de História, (1923), p. 41. (1001) História da Igreja em Portugal, tomo III, parte 2.ª, p. 984. (1002) Revista de História, p. 41. (1003) ALMEIDA, Fortunato de – História…, tomo III, parte 2.ª, p. 961.

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BISPOS DE BRAGANÇA E MIRANDA

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D. FREI LOURENÇO DE CASTRO – Tomo II, pág. 41. A sua transferência de Angra para Miranda foi em 1 de Dezembro de 1681 (1004). D. JOÃO FRANCO DE OLIVEIRA – Tomo II, págs. 55 e 155 e tomo IV, pág. 654. Foi confirmado bispo do Congo a 9 de Junho de 1687, marchando para lá no ano seguinte e promovido a bispo da Baía em 1691 (1005). D. DIOGO MARQUES MORATO, bispo de Miranda – Tomo II, págs. 61 e 159, e tomo IV, pág. 656. Fortunato de Almeida, na sua História da Igreja em Portugal, tomo III, parte 2.a, pág. 1136, cita a propósito deste bispo o seguinte opúsculo: Relaçam da solemne entrada que na cidade de Miranda fez... D. Diogo Marques Mourato, bispo da mesma diocese... em 21 de Outubro de 1742. Porto, 1742. D. FREI ALEIXO DE MIRANDA HENRIQUES, bispo de Miranda e Bragança. Ver tomo VI, pág. 655, onde se mencionam documentos tocantes ao seu antijesuitismo com relação à Dedução Cronológica. Tomo VII, pág. 227, onde se transcreve uma sua carta irónica ao abade de Penhas Juntas. Tomo II, págs. 66 e 168, e tomo IV, págs. 566 e 664. D. MIGUEL ANTÓNIO BARRETO DE MENESES, bispo de Bragança. Tomo II, págs. 72 e 501, e tomo IV, pág. 665. Mais tarde, encontrei no Museu de Bragança as suas bulas de nomeação episcopal e por elas se vê: que para Bragança foi eleito por Bula do Papa Clemente XIV de 8 dos idos de Agosto de 1770; que era natural da diocese de Braga, licenciado em cânones; que fora pároco e tinha quarenta e sete anos de idade. Do auto de posse, existente no mesmo museu, se mostra que esta se realizou a 22 de Fevereiro de 1772, por procuração feita ao chantre da mesma Sé, Dr. Gaspar Caetano de Sá Ferreira. D. BERNARDO PINTO RIBEIRO SEIXAS – Tomo VII, pág. 446. D. ANTÓNIO LUÍS DA VEIGA CABRAL E CÂMARA – Tomo II, págs. 75 e 180; tomo IV, pág. 666; tomo VI, pág. 162, e tomo VII, pág. 61. Morreu em São Salvador, concelho de Mirandela, pelas duas horas da manhã do dia 13 de Junho de 1819, segundo declara o seu assento de óbito no registo paroquial da freguesia da Sé de Bragança.

(1004) ALMEIDA, Fortunato de – História…, tomo III, p. 693. (1005) Ibidem, p. 994.

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No arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança conserva-se o seu processo de habilitação de genere, feito em 1778, no qual requereu desta maneira: «Diz António Luis da Veiga Cabral da Camara, que sendo educado, e influido com especial vocação para a vida, e estado ecleziastico, se aplicou sempre aos estudos da latinidade, e umanidades com muito fervor, e não menos no exercicio da moderação, com que pertende morigerarse, e fazerse digno do sacerdocio, não tem presentemente o supplicante ainda feito as deligencias necessarias e que devião preseder o ser admitido; comtudo movido do grande desejo de se adir ao serviço da Igreja, e esperançado na liberal grandeza de V. Ex.cia, de que se dignará promover o supplicante, e iniciálo na Prima Tonsura emquanto recorre aos meios ordinarios da abilitação. P. a V. Ex.cia seja servido admitir o supplicante a justificar provisionalmente, que ele he natural da villa de Viana do Arcebispado de Braga, filho legitimo do General Francisco Xavier da Veiga Cabral, governador que foi das Armas da Provincia do Minho e Tras dos Montes, e comendador das comendas de Santa Maria de Bragança, Baçal, Rabal, Deilão, Rio de Onor e Petisqueira, natural desta cidade [de Bragança] e da freguezia de São João Baptista, e de sua mulher D. Rosa Joanna de Moraes Pimentel, natural desta cidade e da referida freguezia; Neto pella parte paterna do Mestre de Campo General Sebastião da Veiga Cabral, governador que foi das Armas desta Provincia, e comendador das ditas comendas de Santa Maria, Rabal, etc., e de sua mulher D. Maria de Figueiroa que foi administradora das ditas comendas, e natural desta cidade [de Bragança]; Pella parte materna he o supplicante néto de Domingos de Moraes Pimentel comendador de S. Pedro de Babe na Ordem de Christo natural desta cidade e de sua mulher D. Luiza Caetana da Mesquita Pinto, natural da Vila de Mirandella; E assim mais pertende justificar o supplicante tanto a paternidade de seu irmão Manoel Cabral da Veiga que foi ordenado de menores, como tãobem a ser sobrinho direito dos Reverendos Antonio da Ponte Cabral, e Sebastião da Veiga Cabral que foi Abbade de Carrazedo, e finalmente pella parte Paterna e Materna se acha o supplicante abilitado reiteradas vezes». Junto a este processo vem o organizado para receber Epístola em 1786, sendo já então abade da Mofreita, e nele há o seguinte despacho do Promotor: «Sem exame de escrita, e conta; sem certidão de canto chão; sem vir em publica forma a do seu baptismo; sem a de Palestra, ou aula de Moral, supprido tudo pelo constante, e inimitavel Merecimento do Ill.mo Promovendo [o requerente António Luís da Veiga Cabral da Câmara]; apparece com tudo o mais, que o dispoe, e que se as legislações respectivas cogitassem de sugeito tão Eximio, Benemerito, e que a sua promoção viria a depender MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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do Illuminado Acerto de S. Ex.a R.ma o exceptuarião nos preceitos, e ordem de proceder, como limitarião no provimento do seu Beneficio pelo seguro interesse de feito em quem se respeitão verificadas todas as qualidades que fazem gloriosa a eleição, e felicitada a freguesia. Promotor Delgado». No mesmo processo se acha transcrito o auto de posse da Igreja de Zeive, anexa da Mofreita, tomada pelo referido António Luís da Veiga Cabral da Câmara a 1 de Março de 1786 por meio de procurador, «abrindo e fechando as portas da Igreja, tocando os sinos da mesma abrindo e fechando caixões da sacristia, tocando os paramentos sagrados, calix, missal, e castiçaes e sentando-se na cadeira doutrinal, etc.». D. FREI JOSÉ DE SANTANA NORONHA – Tomo II, págs. 97 e 187, e tomo IV, pág. 667. O grande escritor Dr. Júlio Dantas teve em seu poder algumas cartas referentes a esmolas feitas por este bispo a diversas pessoas, uma das quais D. Ana Maria do Bocage, irmã do célebre poeta deste apelido, que o mesmo ilustre escritor publicou em O Comércio do Porto, de 20-V-1934, fazendo depois entrega da valiosa colectânea ao Museu de Bragança, onde agora se encontra, por intermédio do seu actual director Dr. Raul Manuel Teixeira. Estas cartas são muito interessantes pelas notícias políticas que encerram. D. JOSÉ ANTÓNIO DA SILVA REBELO – Tomo II, págs. 102 e 189; tomo IV, pág. 667. A carta-ofício do general Avilez, transcrita na página 103 do tomo II, encontra-se também copiada no Livro dos Acórdãos do Cabido de Bragança de 1829 a 1863, e o original guarda-se no Museu de Bragança «Maço da Correspondência Episcopal». A carta de 20 de Outubro de 1836, mencionada na pág. 104 do tomo II, em que o Dr. Rodrigo de Sousa Machado desiste do governo da diocese de Bragança, é datada de Sande e encontra-se transcrita no mesmo Livro dos Acórdãos do Cabido de Bragança, fólio 34, v. D. JOÃO DE AGUIAR – Tomo II, págs. 113 e 217, e tomo IV, pág. 668. Na carta que o presidente da Câmara Municipal de Bragança dirigiu ao administrador do concelho datada de 17 de Novembro de 1857, convidando-o a incorporar-se na manifestação, diz-se que a sua entrada solene em Bragança se realizará no dia 19 do mesmo mês. Esta carta conserva-se no Museu de Bragança, «Maço da Correspondência do Governo Civil». D. JOSÉ LUÍS ALVES FEIJÓ – Tomo II, págs. 118 e 219, e tomo IV, pág. 668. Ampliando o que escrevemos na pág. 125 do tomo II destas Memórias, acrescentamos: «1862. No dia 23 de Dezembro foi iniciado na Loja “Civilização” o cónego da Sé de Bragança e deputado da Nação, José Luís Alves Feijó, tendo tomado o nome simbólico de Origines. Este maçom faleceu MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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em Novembro de 1874, sendo bispo de Bragança» (1006). Em várias outras publicações mais próximas da época da iniciação vimos este bispo incluído em listas maçónicas, mas o Dr. José Maria da Cunha, que foi nosso professor de teologia no Seminário Diocesano de Bragança e secretário do mesmo bispo, asseverou-nos que ele negava absolutamente tal ligação maçónica. D. JOSÉ ALVES DE MARIZ – Tomo II, págs. 133 e 227, e tomo IV, pág. 669. Como aditamento à pág. 369 do tomo II destas Memórias, acrescentamos: Às onze horas da noite de 12 de Dezembro de 1909 mão criminosa fez rebentar uma bomba colocada numa janela do Paço Episcopal, por baixo da sala ocupada pelo bispo, que esmigalhou o peitoril da janela, mas, devido a um feliz acaso, não feriu o bispo. Como implicado na tentativa foi processado o estudante António Guilhermino Lopes, de alcunha o Carcereiro (1007), por seu pai exercer esta profissão na cadeia civil de Bragança, e seu irmão, que estiveram presos na Relação do Porto, mas foram soltos em Outubro de 1910, por ocasião da implantação da República. D. LUÍS ANTÓNIO DE ALMEIDA – Bispo de Bragança. Ver tomo VIII, nos aditamentos (pág. 393). Fez a sua entrada solene em Bragança a 26 de Janeiro de 1933, e tendo-lhe sido aceite pelo Papa Pio XI a resignação da diocese, em razão do seu «precário estado de saúde», despediu-se da mesma, por carta de 1 de Novembro de 1935 (1008), seguindo no dia 5 do mesmo mês para a sua terra. A passagem do bondoso bispo D. Luís António de Almeida pela diocese bragançana fica assinalada por forma imorredoura na conclusão do Seminário Diocesano de Bragança, que o seu antecessor deixara inacabada (1009); na erecção da igreja do mesmo; na construção do grandioso muro que lhe envolve a extensa cerca e na compra do Seminário de Vinhais para residência dos alunos incipientes. E fica assinalada espiritualmente pelas suas visitas pastorais às freguesias da diocese; pelo incremento que deu às obras de beneficência social, conferências de São Vicente de Paula, catequese e outras. É que D. Luís António de Almeida era um «Mestre abalizado, um santo, um apóstolo, um grande coração», como escreveu o Vigário Capitular, que lhe sucedeu no governo da diocese (1010); por isso a Santa Sé pro(1006) O Castrense, semanário de Castro Daire, de 16 de Agosto de 1931, de onde transcreveu a notícia o Trás-os-Montes de 30 de Setembro de 1932. (1007) Ver p. 356 do tomo II, destas Memórias. (1008) Boletim da Diocese de Bragança, de 1935, p. 357, onde vem publicada. (1009) Ver tomo VIII, p. 111, destas Memórias. (1010) Boletim da Diocese de Bragança, 1935, p. 359.

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curou, de algum modo, reconhecer-lhe os méritos, nomeando-o bispo in partibus de Azena. A propósito do Seminário de Vinhais aditamos o seguinte: Após a implantação da República em 1910 e da Lei da Separação da Igreja do Estado, o governo tomou conta da casa onde funcionava o Seminário de Bragança, que fora antigo convento de jesuítas, cedido à diocese pouco depois da expulsão destes, e instalou lá o liceu. O seminário transferiu-se então para uma casa das Baronesas (1011) na rua da Amargura em Bragança, mas como era pequena e falha de condições indispensáveis, em 15 de Novembro de 1920 tomou o bispo D. José Lopes Leite de Faria de arrendamento o antigo convento dos franciscanos de Vinhais à família dos condes deste nome, seus proprietários após a expulsão das ordens religiosas, representada por Francisco Alçada, marido de uma descendente daqueles titulares, e lá estabeleceu o seminário e residiu até que morreu em 1927. Vendo o bispo D. António Bento Martins Júnior (1012) que o Seminário de Vinhais, além de ameaçar ruína iminente, quase impossível de reparar, dada a falta de recursos da diocese, não tinha condições higiénicas nem pedagógicas, sendo também deficitárias as economias locais, iniciou a construção do de Bragança em 1931, e com tal energia que dois anos depois já ali recolheu escolares dos primeiros anos de preparatórios e pouco depois tudo, ficando apenas em Vinhais os principiantes. Dizem que a compra do Seminário de Vinhais, apesar de canonicamente se mandar que haja dois estabelecimentos desta natureza em cada diocese – um para os pequenos alunos e outro para os grandes – foi antieconómica, dada a pobreza diocesana e a facilidade com que no de Bragança, construído já para este fim pelo sistema de pavilhões isolados, podiam viver sem comunicação miúdos e crescidos; mas, segundo afirma a voz pública, um obcecado pela fariolatria e dois especuladores, que a exploraram para fins inconfessáveis, tanto intrigaram, mexericaram e urdiram, que o bondoso bispo D. António Luís de Almeida não pôde resistir. Mais acrescenta que isto muito concorreu para lhe abalar a saúde, já de si fraca. Maquinações por este teor haviam os mesmos tentado antes por diversas vezes ineficazmente, chegando a lançar uma subscrição para tal fim entre o clero, que pouco rendeu, pois lhe via a sem razão. É curioso! os tais exploravam o espírito e a memória do bispo Faria, e, no entanto, este, podendo muito bem fazê-lo, nunca quis realizar tal compra, por inadequada aos fins a que devia satisfazer. (1011) Ver tomo VI, p. 139, destas Memórias. (1012) Ver tomo VIII, p. 425, destas Memórias.

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BOTELHO

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Já em tempos o bispado de Bragança se fragmentou em dois, tornando depois a unir-se num só por motivos económicos: o mesmo há-de suceder aos dois seminários, diz o bom senso diocesano. B OTELHO (Manuel de Matos), abade de Duas Igrejas. Tomo VII, pág. 55. No Arqueólogo Português, 1934, vol. XXIX, págs. 125 e 139, encontram-se publicadas duas cartas que o secretário da Academia Real de História lhe dirigiu a propósito das notícias que forneceu à mesma.

BRAGANÇA AÇOUGUE – Em provisão de 2 de Maio de 1816 do Príncipe Regente D. João, a pedido de António Carlos Cary, tenente-general, comandante de cavalaria n.° 12, da guarnição de Bragança, foi permitido que este regimento tivesse açougue privativo, como já o tinha infantaria n.° 24, onde os oficiais superiores, inferiores e soldados pudessem comprar carne e vender os sobejos ao povo (1013). ALCAIDES-MORES – Os alcaides-mores de Bragança tinham casa de residência dentro do castelo, segundo diz Columbano Pinto Ribeiro de Castro na sua «Demarcação da Província de Trás-os-Montes» feita em 1796. ALFÂNDEGAS NA RAIA SECA pelos anos de 1874: Bragança, com delegação de 1.a ordem em Miranda do Douro e de 2.a em Outeiro e Vimioso. Barca de Alva, com delegação de 1.a ordem em Bemposta e Freixo de Espada à Cinta e de 2.a em Lagoaça e Escarigo. Chaves, com delegação de 1.a ordem em Vinhais e de 2.a em Rebordelo (1014). Por portaria de 24 de Dezembro de 1898 foi extinta a delegação aduaneira de Bragança e transferida para Quintanilha. Em 1846 Bragança exportou: em belbutina 41.000$000 réis, em chitas 42.000$000, em lenços de algodão 40.000$000, em panos de linho e de algodão 80.000$000, em lã bruta e chapéus da mesma 11.000$000, além de outros muitos artigos miúdos de sua produção, ao passo que a sua importação não excedeu 13.000$000. Era então a mais importante alfândega da raia seca do reino (1015). (1013) Livro do Registo da Câmara de Bragança, fól. 70. (1014) BAPTISTA, João Maria – Corografia Moderna do Reino de Portugal, I vol., artigo «Alfândegas». (1015) CÂMARA, Paulo Perestrelo da – Dicionário Geográfico, artigo «Bragança». Ver tomo II, p. 468 e seg. destas Memórias Arqueológico-Históricas.

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B ISPADO – Tomo I, pág. 379. Em 1545 a renda da Sé de Miranda foi computada em 1166 2/3 cruzados para efeitos de cálculos na cúria romana, referentes a imposição de pensões eclesiásticas, mas na realidade o rendimento era muito maior (1016). No tempo de D. João IV rendia o bispado de Miranda 22.000 cruzados (1017). Bragança está admiravelmente situada nas margens do rio Fervença, no meio de um campo fértil. Tem algumas fábricas de veludo e seda. Os escritores do século XVI sustentavam que Bragança havia sido edificada por el-rei Brigus, e Fernão Lopes, o Froissart português, assevera que foi dentro de seus muros que o bispo da Guarda casou D. Inês com D. Pedro. A província de Trás-os-Montes abunda em vinhos. De vinho verde lavra anualmente setenta mil pipas. Tem também óptimos azeites e as montanhas estão cobertas de castanheiros, de que se sustenta uma parte dos habitantes (1018). Bragança – Com este nome há uma cidade no Pará (Brasil) e vários povoados com o nome de outras terras de Portugal. Nas Crónicas breves e memórias de Santa Cruz de Coimbra, in Portugaliae Monumenta Historica, «Scriptores», pág. 26, diz-se que D. Sancho I povoou Bragança. Os Bargançãos, tomo I, pág. 295. Numa antiga Memória de Santa Cruz de Coimbra, hoje talvez perdida mas ainda vista por Frei António Brandão no princípio do século XVII, nomeavam-se, além de outros, como combatentes da batalha de Campo de Ourique [tempo de el-rei D. Afonso Henriques], a Fernão Mendes e a seus dois irmãos Rui Mendes e Nuno Mendes, todos de Bragança. «São estes os chamados Braganções, orgulhosa família de alta linhagem, dominante em Terra de Ledra, região setentrional do mesmo distrito de Bragança, limítrofe do território leonês. Conhecida é a estada de Fernão Mendes no sítio de Lisboa em 1147, pela narrativa do cruzado Osberno, testemunha do cerco, nada importando, para o caso, o cronista enganar-se quanto a seu parentesco com o soberano, dizendo-o sogro deste em vez de cunhado» (1019). CAMILO CASTELO BRANCO E BRAGANÇA – O grande romancista e vernáculo escritor Camilo Castelo Branco, honra da nossa província trasmontana, de onde era natural, embora acidentalmente nascesse em Lisboa, frequentemente se lembra nas suas obras da nossa terra. (1016) ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja…, tomo III, p. 302. (1017) Ibidem, p. 238. (1018) DINIS, Fernando – Portugal Pitoresco ou descrição histórica deste reino, 1847, tomo IV, p. 234. (1019) VEIGA, A. Batalha da Costa – Combatentes de Ourique em documentos medievais. «Nação Portuguesa», tomo I, série V, n.° 6, p. 449.

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Como parte do concelho de Chaves pertenceu, até há pouco tempo, ao bispado de Bragança, não é fora de propósito a menção que dessa vila faz o grande escritor. Diz ele: «As tais fêmeas bem vestidas e douradas de cordões e arrecadas mudaram de terra com medo que a justiça as despisse como ladras e esconderam o seu opróbrio nos alcoices da Babilónia de Chaves e da outra Babilónia de Amarante». Camilo Castelo Branco, Serões de São Miguel de Seide, segundo comendador, pág. 21. Em A queda dum anjo figura como protagonista Calisto Elói e Benevides Barbuda, morgado de Agra de Freima, nascido em Caçarelhos, concelho do Vimioso. Ver tomo VI, pág. 200, destas Memórias. No Amor de perdição figura Bento Machado, recoveiro de Carção, concelho do Vimioso, e seu filho, que lhe vinga a morte galhardamente. Em A filha do regicida dá como vinda para o convento de São Bento de Bragança por ordem régia em 1647 Maria Isabel, amante de el-rei D. João IV. Ver tomo II, pág. 267, destas Memórias. Nas Memórias do cárcere dá como vindo fixar residência a Bragança um dos seus colegas de prisão na Relação do Porto, que se dedicou à profissão de alfaiate. Nas Noites de insónia, 1874, tomo 3.°, Maria do Resgate, protagonista do romance, vem curtir saudades a um convento de Bragança, onde morre devorada pela amorosa flama que o ingrato Valdez em seu peito despertara. O facto, se é verdadeiro, deveu realizar-se pelos anos de 1856. A propósito destes mal correspondidos amores, refere Camilo uma lenda que dá como passada em Lisboa. Em Bragança não conheço lenda nenhuma a tal respeito. Nas Duas horas de leitura, Dois santos não beatificados em Roma apresenta como personagem principal o Januário Pires de Miranda, natural de Mirandela, com ramificações de parentesco em Carção. Tenho ideia de que ainda no Santo da montanha volta a naturalizar no distrito de Bragança um dos seus personagens, mas não posso agora verificar. Foi na «Tipografia [sic] de Bragança. 1847.», que saiu a primeira edição do «Agostinho de Ceuta, drama em 4 partes», 8.° de oitenta páginas, de Camilo Castelo Branco. CASTELO – Na Revista Popular, n.° 2, Lisboa, 1849, vem um artigo intitulado Bragança, que traz uma gravura representando as muralhas da cidade, Torre de Menagem, Torre da Câmara e Igreja de Santa Maria. Diz que há na Torre de Menagem «uma pequena cisterna, duas salas subterrâneas e outras duas por fora com alguma água. A pequena distância encontra-se um poço, com degraus até ao fundo, a que chamam de el-rei. Seguem-se umas casas acasteladas, que hoje caem em ruínas, pertencentes aos duques de Bragança; nestas casas viveram séculos os alcaidesMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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-mores... Para o lado do nascente vê-se o excelente e vasto quartel do batalhão de caçadores n.° 3, mandado levantar, como muitas outras obras de pública necessidade, pelo general Sepúlveda, que por largos anos governou esta província». CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO – No tomo I, pág. 339, destas Memórias falamos de João Garcia Nogueira, marido de Maria Lopes de Morais, falecido a 12 de Dezembro de 1673 (1020), que mandara fazer uma capela com vínculo de morgadio na «ladeira d’além do rio passante a ponte das Tinarias», defronte das suas casas de moradia, sitas na rua Direita de Bragança. Informado por Américo dos Santos Maurício, empregado no Jardim António José de Almeida, da existência de uma casa no bairro de Além do Rio com vestígios de antiguidade, fui vê-la em Abril de 1936 acompanhado por ele. Efectivamente, na casa que foi de Abílio António Fernandes, natural de Meixedo, morador em Bragança, falecido em 1932, e agora de sua viúva Maria das Graças Fernandes, natural de Bragança, casa que eles compraram pelos anos de 1912 ao falecido negociante Luís Lopes, e presentemente utilizam para adega, há, logo à entrada da porta lateral voltada a sul, metida na parede, metro e meio pouco mais ou menos acima do solo, uma pianhazinha de granito, ornada por gomos espadanados no extradorso, elegantemente lavrados. Junto ao cimo, este pequeno compartimento apresenta ombros avançados para o interior, pelo sistema dos arcos cruzeiros que dividem a capela-mor das igrejas do respectivo corpo, e naquela outra pianhazinha também de granito, igualmente metida na parede, à mesma altura da anterior. Pelo lado de fora apenas se nota a fachada terminada no alto em trapézio, indicativa de campanário, abatido provavelmente quando o templozinho foi profanado. Do exposto, parece concluir-se que se trata de edifício religioso, possivelmente da tal capela de Nossa Senhora da Conceição, dada a sua situação na ladeira de Além do Rio, em frente das casas da rua Direita, profanada quando da extinção dos morgadios, como tantas outras, se é que o não foi antes pela lei de 3 de Agosto de 1770, que permite extinguir quantos não tenham rendimento superior a 100$00. É extraordinário o número de capelas que temos encontrado profanadas e convertidas em adegas. Na rua do Norte em Bragança vimos a campa sepulcral do fundador de outra em 1676, também utilizada para adega, numa casa pertencente (1020) A viúva passou a segundas núpcias com Francisco de Figueiredo Sarmento. Ver tomo VI, p. 62 e 137, destas Memórias.

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ao Dr. António Rapazote de que demos notícia no tomo VI, pág. 46, destas Memórias. O triste, vendo talvez instintivamente a sorte que o esperava, pede misericórdia atinente a perpetuar a sua memória e a graça divina. Pelo que me toca, já lha fixei no tomo acima citado e já pedi ao amigo Dr. António Rapazote que ouça o clamor mandando recolher a lápide ao museu, como é de justiça, e agora renovo a mesma súplica, invocando os seus nobres sentimentos de bom cristão e de cultor intelectual, visto tratar-se de um documento de valor histórico para ajuizarmos da fácies psíquica de uma certa época, visto tratar-se da vontade de um morto, que deve ser sagrada, e de remover uma profanação quase sacrílega. Ouvi-me amigo Rapazote e bem merecereis da História. C ONFERÊNCIA DE SÃO VICENTE DE PAULA – Esta instituição de beneficência destinada a angariar donativos para os pobres e doentes envergonhados, distribuindo-lhos em suas casas, resultou, em Bragança, de reunião, a 22 de Agosto de 1898, de seis beneméritos compadecidos da miséria em que a destruição dos vinhedos pelo filoxera, seguida de escassas colheitas agrícolas, lançou muitas famílias. Em 4 de Abril de 1899 obtiveram do Conselho Geral de Paris a sanção religiosa, acompanhada de graças espirituais concedidas pelos sumos pontífices aos confrades, que já no fim desse ano eram dezasseis associados activos e trinta e quatro subscritores, sob a presidência do escrivão-notário Delfim José Direito, natural de Freixo de Espada à Cinta, morador em Bragança. No Nordeste de 22 de Março de 1899 vem transcrito o relatório da conferência, assinado pelo seu presidente, que é uma verdadeira peça literária de muito merecimento, demonstrativa da fama de competência e caridade gozada por seu autor. Neste ano de 1936 há duas Conferências de São Vicente de Paula em Bragança e distribuem avultadas esmolas, uns oito contos, números redondos. Em Moncorvo há também uma Conferência de São Vicente de Paula, que no mesmo ano distribuiu uns dez contos, números redondos. CONVENTO DE SÃO BENTO – Tomo II, pág. 265. Ver Manuel Pereira de Novais, Anacrisis Historial, vol. IV, pág. 23. A igreja deste convento tem seis altares, todos de talha D. João V, excepto um feito há poucos anos e outro do tipo Luís XV. A propósito de Maria Teixeira, fundadora deste convento, mencionada na pág. 265 do II tomo destas Memórias, e de sua mãe, indicada na pág. 266 do mesmo tomo, diz-me o erudito genealogista e grande amigo Francisco de Moura Coutinho, tantas vezes citado com reconhecimento nestas páginas, em carta de 12 de Outubro de 1914: «Verifico agora que a Maria, filha de Helena da Costa e de Gonçalo Teixeira, que com a mãe MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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fundou o Convento de Santa Escolástica [é o mesmo de S. Bento, mas também chamado de Santa Escolástica, sua padroeira], nasceu em Bragança em 11 de Maio de 1567 e que foi seu padrinho o bispo de Miranda D. António Pinheiro. E também que a Helena da Costa não era filha do alcaide-mor Francisco da Costa Homem, como vós erradamente dizeis no vosso II vol. das Memórias [pág. 266], era sobrinha e filha de um Leonis de Oliveira e de uma Catarina da Costa» (1021). CONVENTOS E IGREJAS – Na sessão de 25 de Março de 1854, a Câmara Municipal de Bragança dirigiu à abadessa e mais religiosas do Real Convento de Santa Clara, de Bragança, um memorial, onde lhe dizia: «que pela extinção do Convento de S. Bento (portanto, o requerimento dos de Fornos de Ledra não deveu ter efeito; ver este artigo) lhe coube a fortuna de possuir a milagrosa imagem do Senhor Menino, sumamente venerada pelas religiosas e mais pessoas daquela casa, e, por julgar ela câmara que em parte nenhuma ficaria melhor colocada do que no recinto deste real convento, de que tem a honra de ser padroeira, por isso nas suas mãos a depositam, esperançados de que valerá de muito a todos os munícipes mediante as orações de tão respeitável e virtuosa comunidade. Porém, se por causa imprevista este real convento for extinto, o que Deus tal não permita, a câmara deve recolher na sua Capela de S. Sebastião da mesma cidade a dita sagrada imagem para ali ser venerada, a fim de que por maneira alguma passe a estranha situação» (1022). C ONVENTO DE S ÃO F RANCISCO – Tomo II, pág. 243. Este convento já aparece mencionado em 1271, como se diz no tomo e página citados. E no tomo III, pág. 272, fala-se na rua de S. Francisco num documento de 1331 sinal de que então já existia o convento. Na fachada da igreja adjunta ao convento, há, em granito, o cronograma «1635», que indicará construção diferente da actual, pois esta é moderna, singela, como todos os templos franciscanos, mas de muito pé direito. Tem oito altares, todos simples e apenas dois de estilo D. João V. Em 1521 foi castigado Diogo Lopes, ferreiro, por ser encontrado a ler a Celestina (tragicomédia de Calisto y Melibea) de Francisco de Rojas a um grupo de mulheres no Mosteiro de São Francisco de Bragança, perante o sacramento (1023). Na Revista Popular, n.° 25, Lisboa, 1850, vem um artigo intitulado Bragança – O convento de S. Francisco, vendo-se de uma gravura que o con(1021) A data do nascimento já está indicada no tomo VI, p. 689, destas Memórias. (1022) Livro do Registo da Câmara Municipal de Bragança, fólio 126 v. Sobre a imagem do Senhor Menino, ver tomo II, p. 265, destas Memórias. (1023) Revista de História, (1919), p. 273.

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vento tinha três andares, coisa que hoje não tem. Diz que o convento foi arruinado por um incêndio em 1728, sendo reedificado em 1800 em toda a frente, à custa da ordem e das esmolas «como agora se vê da gravura», pelas diligências do general Sepúlveda. «Hoje, causa dó vê-lo de todo arruinado, sem telhado nem janelas, podendo servir de alguma utilidade pública». No exemplar que vimos há uma nota manuscrita que diz: «Presentemente acha-se reedificado para hospital militar, 1859». Portanto, a gravura com os três andares indica o estado do convento em 1850, segundo ficou pela reedificação de Sepúlveda, e, como estava «arruinado, sem telhados» e foi entre 1850 e 1859 reedificado para hospital militar, nesta reconstrução é que ficou sem um andar. CORREIO – O Diário do Governo de 22 de Fevereiro de 1893 traz a lista das estações do correio de 2.a classe que recebem paga e são, no concelho de Bragança: Carragosa, Gimonde, Faílde e Espinhosela; ao todo trinta e seis, mas não menciona as outras. CRUZEIRO DA PRAÇA DA SÉ – Ver tomo IX, pág. 137, destas I H S Memórias. No pedestal deste artístico monumento está gra- 1 6 8 9 vado este cronograma: As três letras da primeira linha dizem: Jesus, segundo escreviam em breve nos tempos medievais, apresentando apenas as consoantes, e não Jesus Hóstia Sagrada ou Jesuítas Homens Santos, como muitos lêem. Os algarismos indicarão o ano em que o cruzeiro se fez. Tem certo interesse esta data, embora tipologicamente, pela sua coluna com parras e uvas no extradorso, se ligue ao estilo barroco do século XVII, também chamado Renascença Jesuítica, e às colunas da porta principal da Igreja de Santa Maria de Bragança, feitas pelos anos de 1711 a 1720 (1024), mostra a sua contemporaneidade e influência artística, provada com documentos históricos. DOMUS MUNICIPALIS – Tomo I, págs. 291 e 342, e tomo IX, pág. 135. Na Revista Popular, n.° 29, Lisboa, 1850, vem uma gravura e um artigo intitulado Bragança – Paços do Concelho, em que o autor (não vem assinado) diz ter escrito mais de uma vez sobre Bragança nesta Revista; que a câmara mandou há anos abrir a janela na cisterna que deita para o quintal, antigo cemitério da Igreja de Santa Maria. Esta janela foi tapada no restauro de 1932. Queixa-se por a câmara há tempos deixar de fazer lá as sessões camarárias e diz que as janelas das arcarias estão entupidas de pedra e cal. Lembra que em Bragança e arredores existem várias lápides romanas, (1024) Ver tomo II, p. 277 e 504, destas Memórias.

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que deviam ser guardadas nessa casa da câmara, que já por si é uma relíquia arqueológica. A gravura mostra como era então o telhado da casa da câmara. Numa parede interior da Domus Municipalis está uma placa de mármore comemorativa da visita que lhe fez o grande escritor Gomez Moreno, com este letreiro: 14 – XII – 1931 VISITA DO INSIGNE ARQUEÓLOGO ESPANHOL

GOMEZ MORENO

Poucos decímetros distante da anterior está fixada outra placa circular, em bronze, com a efígie em alto relevo do ministro que concedeu a primeira dotação para restauro da Domus Municipalis, tendo em volta a legenda: DR. ALFREDO DE MAGALHÃES

Por baixo desta, há outra quadrangular, também em bronze, que diz: A PEDIDO DO ENTÃO GOVERNADOR CIVIL DE BRAGANÇA CAPITÃO DE CAVALARIA

TOMAZ

FRAGOSO

CON

CEDEV A PRIMEIRA DOTAÇÃO PARA A REINTEGRAÇÃO DESTA

« JOIA

VNI

CA» EM 11-1-1928 O MINISTRO DA INS TRUÇÃO, DOVTOR ALFREDO DE MA GALHÃES , TENDO SIDO A DOTAÇÃO FINAL

CONCEDIDA

PELO

MINIS

TRO DO COMÉRCIO, DOVTOR JOÃO ANTVNES GVIMARÃES, EM PATROCINOV

9-11-1929.

CARINHOSAMENTE

ESTA OBRA O DIRECTOR GERAL DOS EDIFÍCIOS E MONUMENTOS NACIO NAIS ,

CAPITÃO

HENRIQUE

DE

GOMES

DA

ENGENHARIA SILVA , ELA

BOROV O PROJECTO E DIRIGIV AS OBRAS DA RESTAVRAÇÃO O ARQUI TECTO BALTAZAR DE CASTRO. CO MEMORADA A CONCLVSÃO DO RES TAVRO EM

23-X-1932.

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BRAGANÇA

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Por cima da porta de entrada, no lado exterior, está fixada estoutra placa, que tem o seguinte letreiro: «JOIA UNICA» PALAVRAS

COM

JOAQUIM

DE

QUE

MESTRE

VASCONCELOS

QUALIFICA ESTA CASA NA

« AR

TE ROMANICA EM PORTUGAL» (1025).

FEIRAS – Tomo I, págs. 233 e seguintes. Bagueixe – Feira anual a 13 de Dezembro. Bragança – Teve feira anual em 1272 (1026). Por acórdão de 1 de Agosto de 1927 resolveu a Câmara Municipal de Bragança criar uma feira-franca anual no último domingo de Agosto, com exposição agrícola e pecuária. Em Fevereiro de 1916 criou a mesma, por proposta do vereador Padre Manuel Domingos Afonso Tiza, natural de Varge e pároco de Aveleda, mais uma feira nos dias 12 de cada mês. Ver tomo IV, pág. 644, destas Memórias. Grijó de Vale Benfeito – Tinha feira de produtos sericícolas no dia 15 de Agosto. Ver o tomo II, pág. 454. Izeda – Na sessão da Câmara Municipal de Bragança de 19 de Abril de 1932 foi criada em Izeda uma feira no segundo domingo de cada mês, transferida porém para o dia 11 quando esse domingo caísse nos dias 12, 13 e 14. Macedo de Cavaleiros – Tem agora feira, além da do dia 29, mais as dos dias 6 e 18 de cada mês. Ver o referido tomo IV, pág. 644. Mirandela – Tinha também feira de produtos sericícolas no dia 24 de Agosto, além da do dia 24 de Junho. Ver o citado tomo II, pág. 459. Morais – Além da feira anual de 30 de Novembro, tem uma no dia 8 de cada mês. Parada de Infanções – A feira do dia 12 desta povoação foi, em 1919, transferida para o dia 15 por causa da de Bragança, e em 1921 para o dia 13. Rebordãos – Na sessão de 14 de Agosto de 1919 criou a Câmara Municipal de Bragança uma feira anual no dia 6 de Setembro junto ao santuá-

(1025) Quando corrigia estas provas recebi pelo correio esse monumento de arte e saber, onde pontificam Henrique Gomes da Silva e Baltasar de Castro, que é o Boletim da DirecçãoGeral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.° IV, DOMUS MUNICIPALIS de BRAGANÇA, precioso trabalho acompanhado de texto e quarenta e duas esplêndidas fotogravuras, onde se estuda o monumento sob o ponto de vista histórico e arquitectónico. (1026) BARROS, Gama – História da Administração Pública em Portugal, tomo 2, p. 214.

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rio de Nossa Senhora da Serra, no termo de Rebordãos, mas não teve efeito, porque o bispo D. José Lopes Leite de Faria feriu com excomunhões, suspensões e interditos o clero e fiéis que assistissem aos ofícios divinos celebrados no templo, e, como estes eram o principal motivo da concorrência, lá se gorou a feira. Rossas – Em Novembro de 1916 criou a Câmara de Bragança uma feira em Rossas no dia 4 de cada mês. Vila dos Sinos – Feira anual no dia 24 de Agosto. Vinhais – Em Outubro de 1933 criou a Câmara Municipal de Vinhais mais uma feira mensal no primeiro domingo de cada mês. FONTES – Nos tomos I, pág. 344, e III, pág. 203, falamos das fontes de Bragança. Em 12 de Março do 1928 começou o fornecimento das águas de Sabariz à cidade e casas de habitação. Até então, quem queria água tinha de ir buscá-la às fontes e marcos fontanários, como dizemos na pág. 346 do tomo citado, mas na data acima, com a canalização da grande nascente de Sabariz, a água chegou para cada morador ter sua bica em casa. FONTES – ÁGUAS MEDICINAIS – CLIMA DA PROVÍNCIA – O clima de Trás-os-Montes, diz Baptista de Castro, é frio em extremo, tem nove meses de inverno e três de verão ardentíssimo, por não ser arejado do norte, que embaça nas montanhas, e contudo é terra sadia e de boas águas, excepto em Bragança e Miranda, que são péssimas. Enganou-se Florião do Campo quando disse que esta província é terra infrutífera, porque, suposto não ser tão fértil como Entre Douro e Minho, a verdade é que há nesta província vales deliciosos e muitas vilas abastadas de pão, vinho, azeite, frutas, gados, caças, legumes e sedas (1027). Fontes – Águas medicinais – Vimos atrás que João Baptista de Castro diz serem as águas de Bragança e Miranda as piores da província de Trás-os-Montes, no que errou notavelmente, pois conquanto Bragança não tenha nascentes dentro da cidade, são boas as dos seus arrabaldes, e ele mesmo, esquecido do que escreveu no Roteiro terrestre de Portugal, diz que, «além de outras fontes notáveis que há na cidade de Bragança, há uma na quinta de Vale de Flores [arrabaldes de Bragança] cuja água é eficacíssima para facilitar a digestão e abrir a vontade de comer» (1028). Fonte do Conde – A 27 de Março de 1727, Sebastião Alves, sargento de infantaria da guarnição de Bragança, permitiu por escritura pública que

(1027) CASTRO, João Baptista de – Mapa de Portugal antigo e moderno, 1762, parte I, p. 56. (1028) Ibidem, 2.a edição, tomo I, artigo «Fontes». Ver nestas Memórias o artigo «Alfaião».

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se explorasse numa terra que tinha por cima da Fonte do Conde a água que nela havia para ser encanada para a fonte (1029). Três quilómetros ao norte de Bragança, na Quinta do Areal, brotam duas nascentes medicinais, de cuja composição química apenas consta ser numa sulfúrica e noutra salina (1030). Bragança «tem boas águas e duas fontes notáveis; a de Afonso Jorge e a do Conde, ambas medicinais, para expelir pedra e areia da bexiga» (1031). Da ruindade atribuída, como vimos, às águas de Bragança por Baptista de Castro tomaram a notícia outros corógrafos (1032), sem curarem de se informar, qual outro estudante cábula que se imita a copiar ipsis verbis o tema do vizinho, de onde vem darem-nos Bragança e Miranda como «lugares pantanosos e baixos, pouco ventilados e insalubres» (1033). FORTIFICAÇÕES MILITARES – Tomos I, pág. 259, e IX, págs. 129 e segs. «A necessidade de os nossos edificarem os castelos rapidamente para se defenderem fez com que se atendesse pouco à sua solidez, e assim poucos dos castelos antigos que nos restam remontam além da época de D. Dinis ou Afonso III» (1034). GOVERNADORES DE BRAGANÇA – Tomo I, pág. 332: Pedro Monteiro Juzarte, governador de Bragança, faleceu nesta cidade, freguesia de Santa Maria, a 8 de Abril de 1656, como consta do respectivo assento de óbito. Ver tomo VI, pág. 681, destas Memórias. Gregório de Castro Morais, governador de Bragança, casado com D. Francisca da Rocha; vivia em 1665, pois no assento de baptismo de seu filho Tomás, realizado na freguesia de São João, hoje Sé, a 15 de Setembro desse ano, se declara que é governador de Bragança. Ver tomo VII, pág. 819 (idem). Manuel Homem – Era governador de Bragança em 1737, como se diz no tomo I pág. 328, destas Memórias. Manuel Leite Pereira, brigadeiro. Era governador de Bragança em 1809, como se colhe do Livro dos acórdãos do cabido de Bragança de 1804 a 1829, fóls. 10 a 24, e se diz no tomo IV, pág. 645, desta obra.

(1029) Livro do Registo da Câmara Municipal de Bragança, fól. 26, verso. (1030) LOPES, Alfredo Luís – Águas mineromedicinais, p. 135. PINTO, A. F. de Macedo – Topografia médica da cidade de Bragança. (1031) BAPTISTA, João Maria – Corografia moderna do reino de Portugal. (1032) CÂMARA, Paulo Perestrelo – Dicionário Geográfico, artigo «Bragança». (1033) Ibidem, 2.° vol., p. 14. (1034) HERCULANO, A. – História de Portugal, livro VII, parte 3.ª, p. 295.

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IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA, hoje Sé – Tomo II, pág. 278. Este templo era a matriz de uma das duas freguesias de Bragança, depois transferida para a actual Sé após a expulsão dos jesuítas. Por decreto de 18 de Julho de 1865 foi concedida à Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia de São João Baptista da Sé licença para instituição e aprovação dos seus estatutos (1035). IGREJA DE SÃO VICENTE – O painel de azulejos embutido no lado sul da parede desta igreja, referente ao general Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda e à proclamação contra os franceses, foi inaugurado a 11 de Junho de 1929 e deve-se à iniciativa do benemérito bragançano Dr. Raul Teixeira. Nele se vê a seguinte legenda: O HEROICO BRIGANTINO TENENTE GENERAL MANUEL JORGE GOMES DE SEPULVEDA, NA TARDE DO DIA

1808

11 DE JUNHO DE

NAS ESCADAS DA EGREJA DE S . VICENTE , FALANDO

AO POVO DE BRAGANÇA QUE O ACLAMA COMO CHEFE DO MOVIMENTO QUE INICIOU A LIBERTAÇÃO DE PORTUGAL DO DOMINIO FRANCEZ.

Composição em azulejos, vendo-se o general em atitude de proclamar ao povo, representado por nobres, padres, frades, militares e mulherio (1036). JARDIM ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA – Este jardim, contíguo ao rio Fervença, sito na antiga cerca do Seminário de São José de Bragança, agora aplicado a liceu, foi concluído em 29 de Junho de 1933. Na sua área incluiu-se a Fonte da Raínua, que teve de ser arrasada. Ver tomo I, pág. 346, destas Memórias. JARDIM DA V ILA – Assim chamado por ficar junto às muralhas da cidade, lado noroeste, vulgarmente denominada Vila. Era o único jardim e passeio público que havia em Bragança em 1846 e foi devido aos cuidados do comandante de caçadores n.° 3, António Silvestre de Sousa, de onde o ficar conhecido por «Jardim de Caçadores 3». Para este melhoramento concorreram os habitantes da cidade com duas subscrições (1037). Numa placa circular de azulejos embutida nas muralhas, à entrada das portas, lado esquerdo, há esta legenda, posta recentemente: (1035) Diário do Governo de 29 de Agosto de 1865. (1036) Ver tomo I, p. 30, destas Memórias. (1037) Farol Trasmontano, (1846), p. 142.

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JARDIM DO BATALHÃO EXPEDICIONÁRIO DE CAÇADORES N.°

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Do lado direito das mesmas portas há uma placa de mármore mandada colocar em 1932 pelo tenente-coronel António José Teixeira, comandante do Regimento de Infantaria n. 10, que diz: «MUDAY DE OPINIÃO PORQUE OS HOMENS OS TORNA MAIORES QUE O ESFORÇO O DEIXAREM-SE VENCER PELA RAZÃO». MAIO DE MCCCLXXXVI PALAVRAS DE NUN’ALVARES AO CASTELÃO PIMENTEL PROFERIDAS NESTE LUGAR QUANDO LHE DIZIA QUE TOMASSE O PARTIDO DE DON JOÃO I . FREI

D. TEIXEIRA (1038).

1932. LUZ ELÉCTRICA – Os trabalhos da luz eléctrica terminaram em Novembro de 1921, fornecendo-se logo luz à cidade e casas dos moradores. MISERICÓRDIA – Em 1796 a Misericórdia de Bragança tinha de renda 300$000 réis, segundo diz Columbano Pinto Ribeiro de Castro na Demarcação da Província de Trás-os-Montes. Por decreto de 15 de Março de 1800 doou o governo vários bens às misericórdias. O alvará de 18 de Outubro de 1806 ordena que todas as misericórdias que não tiverem estatutos próprios se governem pelos da de Lisboa. A Misericórdia de Bragança era servida antigamente por nove capelães e tinha um bom hospital (1039). MUSEU – Ver tomo IX, pág. 1, destas Memórias. Transcrevemos do Diário de Lisboa de 12 de Abril de 1935 o seguinte:

(1038) Ver tomo I, p. 68, destas Memórias. (1039) COSTA, Carvalho da – Corografia Portuguesa, tomo I, p. 496.

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«COMO SE FUNDOU O MUSEU REGIONAL DE BRAGANÇA, GRAÇAS À INICIAF IGUEIREDO – Agora, que Bragança está consagrando o Abade de Baçal, um dos homens bons de Portugal, sacerdote exemplar e investigador penetrante tanto no campo literário como no artístico, é interessante evocar a criação do museu regional daquela cidade, que ele há uns vinte anos dirige com escrupulosa proficiência. A evocação, que é pitoresca e incisiva, é feita pelo sr. Dr. José de Figueiredo, cujos títulos omitimos para focar o seu esforço constante e inteligente em prol do nosso património artístico. Sem ele, ter-se-iam perdido centenas de obras de arte, os painéis de Nuno Gonçalves – em que não é demasiado insistir – telas de mestres, desbaratadas nos solares da província ou prestes a desaparecer na voragem dos leilões, peças de ourivesaria, retábulos de igrejas, cerâmicas, mobiliário, numa palavra, tudo quanto nos restava desse velho Portugal, que, apesar de saqueado pelos franceses, guardava ainda centenas de preciosidades dignas de museu. Esse trabalho de selecção, de identificação, de recolha, deve-se, quase na sua totalidade, à previdência do presidente da Academia de Belas-Artes. O que ele nos vai contar acerca da fundação do Museu Regional de Bragança tem o sabor curioso de uma página de memórias. Sem a sua intervenção, teriam desaparecido, vendidas ao desbarato, algumas das peças mais preciosas que hoje estão integradas naquela casa. – Em 6 de Novembro de 1914 – diz-nos o sr. Dr. José de Figueiredo – recebia em Lisboa, dentro de um envelope, uma lista impressa, anunciando o leilão de várias peças de arte, na sua maior parte pertencentes ao Paço Episcopal de Bragança. – Coisas interessantes? – Algumas delas muito interessantes e de real valor artístico, como depois constatei. Preços baixíssimos, mesmo ridículos para o tempo. Por exemplo: duas liteiras, uma delas cujo estado era susceptível de arranjo, iam ao leilão por cinco escudos, enquanto a uma péssima oleografia, representando a primeira missa no Brasil, era atribuído o valor de dois mil e quinhentos – cinquenta mil réis de agora – uma linda gravura, com a ceia dos apóstolos, vendia-se apenas por mais cinco tostões. Quatro cadeiras de encosto, de veludo cardinal, estavam marcadas por quatro mil e quinhentos. Uma série de cadeiras de couro, espaldar alto, com as armas episcopais, do melhor do género, a quinze escudos cada uma. Imagine, eram tão boas que algumas delas estiveram na Exposição Portuguesa, do jogo da Pela, em Paris. Quadros a óleo a dez tostões, e tudo assim à proporção. – Ficou alarmado! – Como deve calcular! Imediatamente dei os passos necessários para que o leilão dos bens eclesiásticos, que estavam sob a alçada da Lei da Separação, fosse adiado. Caí ali como o cardeal-diabo. TIVA DO SR . DR . J OSÉ DE

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Na estação esperava-me já uma chusma de antiquários, alguns solícitos, outros furiosos, todos a quererem-me convencer que o leilão não tinha importância. Mas tinha. Durante alguns dias examinei cerca de trezentos e setenta objectos. Apartei cerca de duzentos, e só depois, salvos os interesses sagrados do nosso património artístico, se fez a almoeda. – Esses duzentos objectos... – Trouxe alguns, poucos, para as Janelas Verdes. A quase totalidade, porém, constitui hoje o fundo essencial do Museu de Bragança, juntamente com peças de epigrafia e escultura que ali estavam num pequeno museu municipal. Ao mesmo tempo, pus de parte algumas espécies de bibliografia, a que o sr. Dr. Júlio Dantas agregou outras, fundando-se por iniciativa dele uma biblioteca pública. E, depois, avivando as suas recordações: – Ao ver a importância das coisas reunidas, instei e consegui dos poderes públicos que em Bragança fosse criado um museu regional. Não esqueço, porém, o apoio que me deu a comissão central da Lei de Separação – o Dr. Artur Lopes Cardoso, que mais tarde era ministro da Justiça, o Dr. António Joice, então governador civil, o falecido secretário daquela comissão central Artur Costa, o jornalista Álvaro Carneiro, Moura Coutinho, Custódio Ribeiro, Dr. Raul Teixeira, agora director do museu. Sem eles, a minha acção teria sido muito mais difícil. – E o Abade de Baçal? – Tenho que pôr em destaque, com verdadeira admiração, o seu desinteresse e o seu amor a Bragança, de resto já comprovados, nessa época, pela sua valiosíssima obra de investigação. Honro-me de ter sido eu quem o indicou para director do Museu de Bragança. É curiosa a carta que ele escreveu a um amigo, que encarreguei de lhe falar sobre o assunto. É um documento que revela um carácter. Peço que a transcreva, como uma das melhores homenagens que se lhe podem prestar. Eis a carta: Amigo C. – Não há dúvida: pelo amor que tenho aos livros e aos documentos antigos, sobretudo da nossa região, de bom grado aceito a direcção do museu e biblioteca anexa, e a minha recompensa será o ter feito alguma coisa em favor desta terra abandonada. – Vosso FRANCISCO MANUEL ALVES». QUINTAS DOS ARREDORES DE BRAGANÇA E PERTENCENTES A FAMÍLIAS DESTA CIDADE

Reconco – Duas quintas. Vale de Flores – Duas quintas: uma de D. Rosa Edra e outra da família Calaínho (Ferreiras Sarmentos). Ver tomo II, pág. 305, e tomo VI, págs. 67 e 700, destas Memórias. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Fontercada – Dezasseis quintas, pertencentes aos seguintes indivíduos: Dr. Morgado (família Vargas), Manuel Calaia, José Manuel, Manuel Entocas, Balias, Leirós, coronel Silva (família Novais), D. Eugénia (família Sá), António Carvalho, Joaquim dos Cabritos, Artur Lima, Chiquinhas, Afonsos. Ver tomo VI, pág. 46. Cortinheiros – Uma quinta. Rica Fé – É a melhor quinta do termo de Bragança. Foi dos jesuítas e pertence ao Dr. José Hipólito de Morais Carmona. Ver tomo II, págs. 289, 301, 302, 330 e 397; tomo III, pág. 305, e tomo VI, págs. 125 e 746. Sete Entradas – Uma quinta. Britelos – Uma quinta; fica no termo de Donai. Ver tomo I, pág. 374; tomo II, pág. 297, e tomo III, pág. 58. Campo Redondo – Uma quinta. Ver tomo I, pág. 321, e tomo VI, pág. 118. Alvo – Uma quinta. Granja e Ponte de Ariães – Uma quinta; fica no termo de Castro de Avelãs. Ver tomo VI, pág. 85. Campelo – Uma quinta. Coxa – Três quintas. Formarigos – Uma quinta. Vale de Conde – Uma quinta; fica no termo de Nogueira. É possível que o nome lhe venha do conde de Mesquitela. Ver tomo I, pág. 345. Santa Apolónia – Três quintas. Ver tomo II, pág. 304, e tomo VI, págs. 33, 34, 42, 186, 677, 679 e 689. Cantarias – Quatro quintas. Formiga – Uma quinta. Vale de Chorido – Seis quintas. Conde (quinta do) – Uma quinta. É possível que o nome lhe venha do conde de Mesquitela. Ver tomo I, pág. 345. São Bartolomeu – Três quintas. Ver tomo II, pág. 303. Malhada – Uma quinta; fica no termo de Samil. Santa Rita – Uma quinta. Ver tomo II, pág. 305, e tomo VI, págs. 46 e 685. Estripão – Uma quinta. Miavó – Uma quinta. Cabeço do Touro – Uma quinta. Branquinho (quinta do). Cabeço Grande – Uma quinta. São Lourenço (termo de Nogueira) – Uma quinta. É a extinta povoação de Izei. Ver tomo I, pág. 372; tomo II, págs. 303 e 304; tomo III, págs. 58 e 414, e tomo IV, pág. 445, Cabanelas (termo de São Pedro) – Uma quinta. Foi povoação extinta. Ver tomo I, págs. 27 e 371, e tomo III, págs. 58, 87 e 414. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Cabeça Boa – Fica no termo de Samil. Palhares – Fica no termo de Samil. Ver tomo III, págs. 308 e 316. Alfaião – Fica no termo de Alfaião. Belancia – Fica no mesmo termo. Anoques e Ponte do Jorge. Bentas. Fontainha. Ribeira – Três quintas. Jorge. Ver tomo I, págs. 13 e 295, e tomo III, págs. 48 e 58. Vale de Vessadas. Vaso de Ouro. Almoxarife. Valongo. São Lázaro – Quintas pertencentes às famílias Vargas, Felgueiras, Baronesas (Barão de Santa Bárbara), hoje ligadas à família Sepúlveda. Carvas – Quatro quintas e um moinho. Duas delas e o moinho pertencem à viúva D. Guilhermina Maria Teixeira (ver tomo VII, pág. 553); outra aos herdeiros da família Paulino de Oliveira e outra ao Gaiteiro, por compra que fez à família Sarmento de Santo Estêvão, concelho de Chaves. Ver tomo II, págs. 399 e 503, e tomo III, págs. 64, 318 e 415. Pedaço – Cinco quintas, pertencentes a Padre António Teixeira (ver tomo VII, pág. 550), capelão-militar, Artur Costa e herdeiros das famílias Pimentel e Mós (cónego António Joaquim de Oliveira Mós. Ver tomo VII, pág. 352). Canaboa – Uma quinta. Espinheiro – Uma quinta. Candãira – Cinco quintas, pertencentes à viúva D. Guilhermina Maria Teixeira e aos herdeiros de João António Pires Vilar (ver tomo VII, pág. 420), general Veiga, cónego António da Cruz e Sousa, vulgarmente conhecido pelo cónego Ervões (ver tomo VI, pág. 51). Poldras – Uma quinta, pertencente à família Vidal. Pena de Águia – Uma quinta. Joana Dias. Vale de Álvaro. Tereiginha – Uma quinta, pertencente à família Vargas. Rica propriedade. Ver tomo VI, págs. 42 e 59. Moinho dos Padres – Foi dos jesuítas. Ver tomo II, pág. 330. Moinho do Cerdeira. Moinho das Freiras – Foi das freiras de Santa Clara. REVOLTA DE BRAGANÇA – À meia hora do dia 27 de Outubro de 1933, ou seja à meia para a uma da manhã do referido dia, alguns civis comandados pelo 1.° sargento Manuel Duarte Sacavém, vindo transferido de LisMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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boa para Bragança havia treze meses, atacaram o quartel do Regimento de Infantaria n.° 10, mas foram repelidos e presos, sendo, contudo, morto por uma bala, na pequena refrega que houve, o oficial de dia tenente António Evangelista Rodrigues, à energia de quem se deve a sufocação da revolta. Parece que o movimento se ligava a outros destinados a rebentar ao mesmo tempo noutros pontos, mas abortou. O tenente António Evangelista Rodrigues nascera em 14 de Dezembro de 1888 em Rio Frio de Outeiro, sentara praça em 1905, fora promovido a alferes em Novembro de 1924 e a tenente em 1929. O Governo, como prémio, promoveu-o a capitão por distinção, para efeitos da pensão de sangue concedida à sua viúva e filho. Como implicados na revolta, foram julgados e condenados no Tribunal Militar do Porto em Dezembro de 1933: Manuel Duarte Sacavém, 1.° sargento, instigador da revolta. Ernesto Rodolfo Mascarenhas, 1.° cabo, autor da morte do tenente António Evangelista Rodrigues. João Francisco Canuto, 1.° cabo. João Fidalgo Afonso, 1.° cabo, todos em prisão maior celular. António Gomes dos Santos, António Cruz Pires, Claudino César Afonso e Guilhermo Augusto, todos 1.os cabos, condenados em prisão correccional, bem como o 2.° cabo Francisco António Branco. O soldado João de Deus Fernandes e o cabo-músico Mário Gonçalves Freitas foram julgados à revelia, por se haverem evadido. Foram promovidos ao «posto imediato pela coragem, decisão e sangue-frio de que deram provas, com risco da própria vida» por ocasião da mesma revolta: Miguel Augusto Tavares, 1.° sargento, natural de Freixo de Espada à Cinta. António Inácio Subtil, furriel, natural de Parada de Infanções. Américo Augusto, natural de Peredo da Bemposta, 2.° cabo, promovido a furriel. Belmiro de Jesus Miranda, de Moredo, freguesia de Salsas, soldado, promovido a furriel. RODA DOS EXPOSTOS OU DOS ENJEITADOS – A Casa da Roda dos Expostos ou Enjeitados de Bragança foi construída pelos anos de 1789 (1040), numa casa à mão esquerda de quem vai para baixo, na antiga rua do Tumbeirinho, hoje (Agosto de 1936) pertencente a Manuel Benito Rodrigues, a qual, pelo lado do nascente, confina com os quintais da rua do Paço. Nas Ordenações do Reino, livro 1.°, título 73, § 4, encontram-se disposições relativas à criação dos expostos. E pela ordem da Intendência da

(1040) Ver tomo I, p. 342, destas Memórias.

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Polícia de 10 de Maio de 1783 mandam-se criar casas da roda em todas as sedes das comarcas e em cada uma das vilas, onde se podiam expor as crianças sem que se conhecesse quem as levava e se criavam até à idade de sete anos à custa dos rendimentos da comarca. Mas nem em todos os concelhos se estabeleceram as rodas. Os alvarás de 18 de Outubro de 1806 e 31 de Janeiro de 1775 encerram mais algumas disposições a tal respeito. RUAS – Ver tomo I, pág. 337. No Rol dos Confessados da Colegiada da freguesia de Santa Maria da cidade de Bragança do ano de 1737, manuscrito existente no Museu de Bragança, apontam-se as seguintes ruas. Vila dentro dos muros – Noventa e três fogos. Viviam nela, além de outros: António Gomes Mena, alcaide-mor; Manuel Homem, governador; João Rodrigues Bugalho, penitenciado, confissão somente. Também lá vivia Manuel de Lapenha, penitenciado. Costa Grande – Vinte e oito fogos. Nesta rua vivia o brigadeiro Domingos Teixeira, casado com D. Maria Barbosa, que era servido por um pajem, uma criada, três escravos e três escravas. Não lhe aponta filhos, certamente porque os não tinha ou eram crianças, ainda não obrigadas a confissão. Nem nesta rua, nem na Costa Pequena se mencionam Figueiredos; mas na vila intramuros regista-se o tenente de cavalos Sebastião de Figueiredo. No Rol de 1744 aparece Domingos Teixeira de Andrade, brigadeiro, acima mencionado, vivendo na rua de Santa Clara; o nome da mulher é o mesmo e menciona mais os filhos: D. Antónia, D. Ana, António Bernardo, sobrinho, um pajem, uma aia e um criado. Costa Pequena – Quinze fogos. Rua dos Prateiros – Sete fogos. Rua da Amargura – Doze fogos. Vivia nesta rua António de Abreu Sarmento, casado com D. Rosa e tinha filha D. Sebastiana. Rua da Alfândega – Treze fogos. Nesta rua vivia Francisco José de Lozada (sic), casado com D. Joana de Morais; tinham estes filhos: Pedro, João, Francisco, D. Teresa, D. Joana, D. Francisca, D. Antónia, D. Maria e D. Rosa e mais três criados e duas criadas. No Rol de 1711, pertencente à mesma freguesia, também guardado no museu, vem com o nome de Francisco José Sarmento, tenente-coronel, e a mulher com o de D. Joana de Morais Ferreira; aos filhos dá-lhe o apelido de Ferreira. Rua de São Francisco – Cinco fogos. Eiras de São Bento – Vinte e três fogos. Rua do Espírito Santo – Sessenta e quatro fogos. Nesta rua vivia António Doutel de Almeida, que tinha filho o Padre Lourenço de Morais, ausente ao tempo, e quatro criados e três criadas. No Rol de 1744 aparece já António Doutel de Almeida, sargento-mor e o padre, seu filho, como ausente ainda. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Rua de Santa Clara – Dezasseis fogos. Rua Nova – Vinte e seis fogos. Rua dos Oleiros – Quarenta fogos. Viviam nela, além de outros, as seguintes penitenciadas: Rosa, irmã de José Gomes, Beatriz (idem), Joana (idem), Luísa (idem), e Isabel, irmã de António Dias. Rua do Cabo – Treze fogos. Rua do Paço – Dezoito fogos. Rua Direita (parte do sol) – Cinquenta e oito fogos. Além de outros viviam nela: Pascoal Ramos, Baltasar da Costa, Luís Álvares (solteiro), Garcia (irmão), Ana (irmã), Maria (idem), Mécia (idem), Garcia de Leão (viúvo), Francisco Lopes, Sebastião da Costa e Manuel (filho), todos penitenciados. Rua Direita (parte da sombra) – Cinquenta fogos. Viviam nela, entre outros, as penitenciadas Josefa Henriques (mulher de Bélchior Ferreira), Maria (irmã de José Lopes) e o penitenciado Jerónimo Lopes Pereira. Rua dos Quartéis – Vinte e quatro fogos. Rua Fora das Portas do Cabo – Oitenta e um fogos. Batocos – Vinte e dois fogos. No Rol de 1744 vem com o nome de Bairro de Além do Rio. Rua das Moreirinhas – Quarenta fogos. Além da Ponte das Tinárias – Quarenta e sete fogos. Forte de São João de Deus – Três fogos. Moinhos do Alcaide-Mor – Três fogos. Parece que eram três; pelo menos, menciona este número. No Rol de 1744 aparecem os seguintes: moinhos de Domingos Rodrigues; moinho do alcaide-mor; moinho de João Gonçalves: moinho do Chasco e moinho de Domingos Fernandes. Quinta de Miguel Ferreira, um fogo. Quinta de André Lopes, dois fogos. Quinta de São Lázaro, um fogo. Vem também no Rol de 1744. Quinta de António Abreu, um fogo. Quinta de Santa Apolónia, um fogo. Vem também naquele Rol. Quinta das Carvas, um fogo. Vem no mesmo Rol. Quinta de João Galego, um fogo. Idem. Quinta de José Cardoso Borges (não indica os fogos; seria a da Rica Fé?). Quinta de André Lopes, dois fogos (1041). Menciona seguidamente a «Lista da companhia de granadeiros do 1.° batalhão», constante de vinte e nove soldados, cujos nomes aponta.

(1041) No Rol de 1744 aponta-se mais a Quinta de Santa Rita.

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Companhia do brigadeiro Domingos Teixeira de Andrade ...... soldados 41 Companhia do tenente-coronel ................................................ soldados 50 Companhia do sargento-mor .................................................. soldados 51 Companhia de João Ribeiro ...................................................... soldados 58 Companhia de Manuel de Morais ............................................ soldados 45 Companhia do capitão António Nogueiro .............................. soldados 58 Companhia do capitão de cavalos Francisco Pinto Correia .... soldados 84 Soldados .................... 387

Total: fogos, 703; almas, 2369. Penitenciados pela Inquisição, 20. (Os penitenciados não recebiam a comunhão – diz o Rol – por lhe ser proibido pela Inquisição). No já mencionado Rol dos confessados da freguesia de Santa Maria de Bragança, relativo ao ano de 1744, apontam-se catorze penitenciados pela Inquisição, cujos nomes são: Henrique Novais da Costa, viúvo, morador na rua dos Oleiros; tinha filho Francisco e neta Perpétua, três criados e três criadas. Luís Alves, solteiro; Ana, irmã, solteira; Mécia, idem, idem; Francisco Lopes, tecelão, casado, com filhos e filhas; Sebastião da Costa, casado; Manuel, filho; Isabel Maria, mulher de Pascoal Ramos; Garcia de Leão, tendeiro, casado. Todos moradores na rua Direita, parte do sol. Maria, irmã de José Lopes, solteiros; Jerónimo Lopes Pereira, casado com Branca Maria, quatro filhos, e Miguel Carvalho, solteiro. Todos moradores na rua Direita, lado da sombra. Teresa Maria, mulher de António de Morais, torcedor, morador na vila. Falta um, que não vi indicado, para fazer a conta dos catorze. SANTA MARIA, SANTA MARIA DO SARDÃO – Vulgarmente conhecida pelo nome de Vila, é uma das duas freguesias em que se divide a cidade de Bragança. Orago, Santa Maria, que modernamente corresponde a Nossa Senhora da Assunção. Segundo o Dic. de Geografia manuscrito, era priorado da apresentação alternativa da Santa Sé e do ordinário (bispo de Bragança e Miranda), mas o padre Carvalho na sua Corografia Portuguesa menciona só o ordinário, fala só no prior com quatro icónomos, ao passo que aquele diz haver nela erecta – isto é, na Igreja de Santa Maria – uma colegiada que ainda existia em 1862, segundo diz a Estatística Paroquial. Por decreto de 27 de Dezembro de 1849 (1042) foram suprimidas as colegiadas que não tivessem rendimento até uma certa quantia.

(1042) Diário do Governo de 1 de Janeiro de 1850.

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Em 1725 dizia D. Maria de Figueiroa, viúva de Sebastião da Veiga Cabral, comendador de Santa Maria de Bragança, a quem queriam obrigar a concorrer para certas obras na dita igreja: que os dízimos desta igreja se repartiam entre o bispo de Miranda, os icónomos, o prior e a fábrica da mesma igreja; que a fábrica tem um benefício geralmente arrendado em 50$000 réis e por isso nunca os comendadores pagaram para obras da capela-mor; que a comenda dava de côngrua ao prior 46$000 réis e quarenta alqueires de trigo e ao sacristão nove alqueires de trigo, vinte e cinco almudes de vinho e 2$500 réis; que a comenda constava de Santa Maria de Bragança, Samil e Baçal, onde se fez à conta do pai dela o retábulo do altar-mor e se dourou; que apenas em Baçal tinha os dízimos e em Samil somente as primícias (1043). «Os estatutos mais antigos que existiam na Colegiada de Santa Maria de Bragança foram feitos pelo bispo de Miranda D. Diogo em 1599, nos quais se lê, fól. 92, que os primitivos se tinham perdido. Segundo os livros das visitas, estatutos antigos e modernos, o fim principal da colegiada, além da reza no coro nos dias festivos de primeira classe, foi sempre a coadjuvação dos priores na administração dos sacramentos, e era tal a obrigação que os estatutos prescreviam que se sustasse a reza do coro quando houvesse necessidade de sacramentos. Foi abandonada esta colegiada pelos seus beneficiados com a extinção dos dízimos de que se sustentavam. Todos os beneficiados tinham direito aos dízimos, ofertas dos fregueses e rendimentos do pé-do-altar, ou direitos de estola, sendo metade para o prior». (Copiada ipsis verbis de uma nota que me mandou o prior João de Deus Fernandes de Azevedo). O Santuário Mariano, tomo V, liv. 2.°, tít. X, pág. 584, fala na Colegiada de Santa Maria de Bragança, que dá como existente em 1140. A colegiada constava de um prior, três beneficiados, um coadjutor, dois sacristãos, um organista e dois coristas. O prior e os beneficiados eram de apresentação da Santa Sé Apostólica e do Ordinário, nos meses que lhe pertenciam, e os outros do prior, assim como as duas igrejas de Baçal e Samil. SÃO J ORGE – «Foi tomado por patrono da cidade de Bragança, pelo que seus habitantes iam anualmente por voto inviolável, como os de Samil, festejá-lo na capelinha branca, levantada a sós em ar de guarita guerreira fora de portas» (1044). (1043) Livro do Registo da Câmara Municipal de Bragança, fól. 12. Ver tomo I, p. 117, destas Memórias. (1044) CARDOSO, Jorge – Agiologio Lusitano, 1657, tomo II, p. 691.

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SEDA – Na Revista Popular, n.° 2, Lisboa, 1849, vem um artigo intitulado Bragança, onde se diz que esta cidade «foi justamente celebrada pela indústria e perfeição das suas manufacturas; houve tempo em que trabalhavam em Bragança trezentos teares de cetim, sarjas, nobrezas, tafetás e lenços; e ainda em 1827 funcionavam sessenta, que empregavam sessenta oficiais, quarenta e oito aprendizes e duzentas e quarenta e quatro mulheres, consumindo anualmente oito mil e quatrocentas libras de seda». SEMINÁRIO – O subsídio concedido pela Bula da Cruzada ao Seminário de Bragança desde 1852 (ano em que esta instituição começou a socorrer os seminários) até 1884-85 foi de 72.458$628 réis e para o ano de 1885-66 subscreveu com 3.790$100 réis. Ver tomo II, págs. 323, 349 e anteriores destas Memórias, onde se aponta o subsídio até ao ano de 1904-1905. Sobre as contas da bula da cruzada e subsídios aos seminários, ver Diário do Governo de 23 e 30 de Dezembro de 1903, 7 de Março de 1911 e Contas da Administração da Bula da Cruzada, ano 1907-1908. No particular da diocese de Bragança, ver o nosso opúsculo Notas biográficas de D. José Alves de Mariz, Bispo de Bragança, 1906, pág. 26. Este bispo deu sempre contas anuais nas suas Pastorais (1045) dos subsídios concedidos pela bula para o seminário e para as igrejas pobres da diocese até que faleceu em 25 de Agosto de 1912. Só os obtidos para as igrejas pobres por seu intermédio quase igualam os dos cinco bispos seus antecessores em quase duplo espaço de tempo. Os seus sucessores nunca deram contas por documento público à diocese da administração dos dinheiros da bula e simplesmente se queixam que vão diminuindo (1046) da décupla altura que chegaram a atingir no decénio passado. É que os cooperadores no incremento da bula também são gente e gostam de saber do emprego do seu dinheiro, ainda mesmo quando manejado por pessoas de incontestável probidade.

BRAGANÇANOS NAS PRAÇAS DE MARROCOS A NES (João – Johane), Fernando Esteves, Gomes Martins e Afonso Eanes, moradores no termo de Ansiães, foram presos pelo corregedor de Trás-os-Montes Estêvão Fernandes, por tirarem da cadeia seu tio João Anes, acusado de roubar umas escrituras da casa de um vizinho. El-rei

(1045) Podem ver-se os extractos no citado opúsculo e no tomo II, p. 227 e seg., destas Memórias. (1046) Boletim da Diocese de Bragança, 1935, p. 361.

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indultou-os por ocasião das Endoenças (Semana Santa), atendendo a terem prestado serviço militar «no pallanque» [fortaleza de Ceuta] e pagarem quinhentos «brancos» para as obras de Santa Clara do Porto, mas o corregedor meteu-os na cadeia e condenou-os para Ceuta, porém el-rei D. Afonso, por carta de 23 de Janeiro de 1440, perdoou-lhe (1047). ANES (Joham), morador em Marzagão, concelho de Ansiães, hoje Carrazeda de Ansiães, foi preso em razão da queixa de furto dada contra ele por Martim Esteves, seu cunhado. Lopo Vaz, sobrinho do preso, tirou-o da cadeia «com temor que avia de seer por ello preso e que sentindo que nos fazia serviço se fora em esta armada que foy sobre Tamger e estevera no cerco do pallanque atee o deradeiro dia do recolhimento com o Ifante Dom Anrrique meu tyo com quem vive». Atendendo a estes serviços, el-rei D. Afonso V perdoou-lhe por carta de 16 de Fevereiro de 1439 (1048). ANES (João – Johane), «morador na aldea da Oseira termo de Ansiães», hoje concelho de Carrazeda de Ansiães, teve altercações com Vasco Martins, seu enteado e os «vigairos daldea do Seixo termo da dita villa...... ho apenarom em quinhentos reaes e degredaram para Cepta por dous anos poendo-lhe que renegara de deus». El-rei D. Afonso V, atendendo a várias razões que alegou, perdoou-lhe por carta de 21 de Maio de 1443 (1049). ANES (Estêvão) e seu irmão Álvaro Preto, moradores no termo de Mirandela, indo da sua povoação para Sesulfe, termo de Bragança, tomaram-se de palavras com Diego Afonso, residente em Sesulfe, e mataram-no, «por a quall morte el andara amoorado e que quando El Rey meu Senhor e padre cuja alma deus aja fezera a armada sobre Tanger fora em elle e se fora em companhia do ifante Dom Anrrique meu tio ao cerco de Tanger e estevera no dito cerco e pallanque ataa o seu recolhimento e se fora a Cepta e hi estevera per espaço de tempo em nosso serviço». El-rei D. Afonso, atendendo a estes serviços e a ter cumprido quatro anos de degredo no couto de Sabugal, perdoou-lhe por carta de 5 de Abril de 1440 (1050).

(1047) Chancelaria de D. Afonso V, livro 20, fól. 56, in «Documentos das Chancelarias Reais anteriores a 1531, relativos a Marrocos», publicados por Pedro de Azevedo, 1915, tomo I, p. 125. (1048) Ibidem, livro 18, fól. 22, in «Documentos das Chancelarias Reais…», p. 45. Na p. 151 traz o autor outro documento referente ao assunto e nele se diz que Lopo Vaz é «homem de pee do ifante dom Anrrique». (1049) Ibidem, livro 27, fól. 83 v., in «Documentos das Chancelarias Reais…», p. 234. (1050) Ibidem, livro 20, fól. 56, in «Documentos das Chancelarias Reais…», p. 15 v.

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BOTELHO (Afonso), «escudeiro do conde de Vila Real, que Deus aja», chegando, havia dois anos, ao lugar de «Huva termo d Ulgosso», foi acusado de matar aí um homem chamado Fernão Gonçalves, morador em Uva, e «des o dito tempo aca andava amoorado com temor das nossas Justiças e ainda pello dito aazo estevera algûm tempo em a dita nossa cidade de Cepta». El-rei, atendendo a estes serviços e a outras razões, perdoou-lhe por carta de 12 de Junho de 1445 (1051). BRANCO (Joham), morador em Chacim, foi acusado há um ano, pouco mais ou menos, de ter matado nessa povoação a Martim Grande «e que amdando por elo amoorado soubera como seguravamos aos omeziados que nos servisem em a gerra que ouveramos com ifante Dom Pedro em a qual nos elle servira e que nos pedia por mercee que em remuneraçãm do serviço que nos em ella fezera lhe perdoassemos a nossa justiça a que nos el per razam da dita morte era theudo a qual lhe perdoaramos com tanto que el fose estar em a nossa cidade de Cepta quatro anos». Por estas razões e por outras que apresentou, el-rei perdoou-lhe a ida para Ceuta por carta de 20 de Março de 1450 (1052). AFONSO (Diego), de Sesulfe, Ver Anes (Estêvão). AFONSO (Inez), de Vilar de Ossos. Ver Lourenço. AFONSO (Martim), morador em Alfândega da Fé. Diz que haverá dez ou doze anos foi morto na referida vila Afonso Salvador, lavrador, e ele culpado no caso. El-rei perdoa-lhe, contanto que vá residir cinco anos em Ceuta, por carta de 12 de Dezembro de 1450 (1053). DIAS (Gomes), de Vila Flor («Villa Frol»), culpado na morte de Fernão Machado, realizada em Lisboa, «pella qual razam el andava omiziado e foy narmada que El Rei meu Senhor e padre cuja alma Deus fez sobre Tanger». El-rei concede-lhe licença para trazer armas, a fim de se defender dos parentes do assassinado, por carta de 20 de Novembro de 1439 (1054). EANES (Afonso), morador no termo de Ansiães. Ver Anes (João).

(1051) Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, fólio 28, in «Documentos das Chancelarias Reais»…, p. 293. (1052) Ibidem, livro 34, fól. 20, in «Documentos…», p. 591. (1053) Ibidem, fól. 217, in «Documentos…», p. 427. (1054) Ibidem, livro 20, fól. 48, in «Documentos…», p. 520.

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ESTEVES (Fernando), de Marzagão. Ver Anes (Joham). FERNANDO (Luís), de Vilar de Ossos. Ver Lourenço. GONÇALVES (Fernão), de Uva. Ver Botelho. GONÇALVES (Lopo), morador no termo de Mirandela, condenado em dois anos para Ceuta, por ferimentos feitos a Pedro Gonçalves, que el-rei lhe comutou em quatro para a ilha da Madeira, por intervenção do Infante D. Henrique, por carta de 21 de Julho de 1445 (1055). GONÇALVES (Pedro), do termo de Mirandela (?). Ver Gonçalves (Lopo). GONÇALVES (Vasco), de Vilar de Ossos. Ver Martins (João). GRANDE (Martim), de Chacim (?). Ver Branco. LOURENÇO, de «Tuisllo» (Tuizelo?), acusado de adultério com Inês Afonso, mulher de Luís Fernandes, de Vilar de Ossos, foi desterrado por dois anos para Ceuta. El-rei indultou-o em razão do perdão geral então concedido para repovoar os lugares desabitados, ou quase, em razão do marido lhe perdoar também, por carta régia de 19 de Setembro de 1445 (1056). MACHADO (Fernão), Ver Dias. MARTINS (Gomes), morador no termo de Ansiães. Ver Anes (Johane). MARTINS (João – Joham), morador no «Zijndo» (Zido?), termo de Vinhais, culpado na morte de Vasco Gonçalves, morador em Vilar de Ossos, sucedida no dito lugar do «Ziindo». Alega que foi na armada de Tânger, mandada pelo rei anterior, «onde estevera sempre no pallanque ataa o recolhimento do ifante dom Anrrique meu tio». Por esta razão e porque depois fora desterrado para o couto do Sabugal por dois anos, onde já residira um, el-rei perdoa-lhe o outro por carta de 4 de Novembro de 1439 (1057). MARTINS (Vasco), morador em Oseira, termo de Ansiães. Ver Anes (João). PRETO (Álvaro), morador no termo de Mirandela. Ver Anes (Estêvão). (1055) Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, fól. 42, in «Documentos…», p. 298. (1056) Ibidem, fól. 74 v., in «Documentos…», p. 302. (1057) Ibidem, livro 18, fól. 15 v., in «Documentos…», p. 111.

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SALVADOR (Afonso), de Alfândega da Fé. Ver Afonso (Martim). VAZ (Lopo), de Marzagão. Ver Anes (Joham). BUÍÇA (Abílio Augusto da Silva), abade de Vinhais. Tomo VI, pág. 583. Era filho natural de Manuel Diogo da Silva Buíça e de Teresa Augusta Rodrigues, de Vinhais; neto paterno de Manuel José da Silva e de D. Josefa Joaquina Buíça, de Vinhais, e materno de Caetano José Rodrigues e de Maria José. Processo de habilitação de genere existente do arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança, feito em 1859. CABRAL (Francisco da Conceição Pereira), presbítero, natural de Vila Flor, director espiritual do Seminário do Porto. Ver tomo VII, pág. 623. Faleceu no Porto a 1 de Fevereiro de 1933. C AÇARELHOS e AVELANOSO . Em 1646 André Pires Limpo, abade de Caçarelhos, teve demanda com Diogo Carneiro Coelho, abade de Avelanoso, que pretendia ser Caçarelhos anexa da sua freguesia. Nas alegações, contestando, dizia Limpo: «Provará que o lugar de Avelanoso se despovoou na ultima gerra [sic] que el-rei D. Henrique 3.° de Leão e de Castela teve com El-Rei Don João o primeiro de Portugal no ano de 1397 quando por seu capitão Gonçalo Nunes de Gusmão mestre de Calatrava, e outros tomou a cidade de Miranda do Douro, e que esteve despovoado até 26 de dezembro do anno de 1458 que forão 61 annos e que no dito anno por estar já povoado h~ ua pequena aldea de 10 ou 12 vizinhos o Reverendo Arcebispo de Braga D. Fernando a annexou em perpetuo com todos os requesitos de direito á Igreja de Sam Cibram de Angeira [sic]». O texto da carta do arcebispo de Braga D. Fernando, na parte respectiva diz: «Aos 26 dias de outubro do dito anno de 1458 em Coimbra annexou o Senhor Arcebispo a Igreja de São Pedro de Avelanoso de terra de Miranda in perpetuum á Igreja de S. Cibrão de Angeira [sic] da dita terra, porque os fregueses são de sua presentação in solidum a qual annexa he vaga desde o tempo das geras [sic] e pouco tempo ha que se povoou essa Aldea erma de des ou dose fregezes [sic] e por não padecerem damno annexou o senhor Arcebispo com as clausulas costumadas». CAGIGAL (António Olímpio), Doutor. Tomo VII, pág. 59. Faleceu em Lisboa a 29 de Abril de 1933. Era sócio da Academia de Ciências e notável como médico, pela sua grande competência e extrema bondade, que o levava, sendo pobre e morrendo pobre, a nada levar pelas visitas aos necessitados, dando-lhes ainda avultadas esmolas e pagando-lhes os MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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remédios, tão grande era a sua caridade cristã, mais e mais afervorada à medida que avançava em anos. C ALAÍNHO (D. Alexandrina Augusta Ferreira Sarmento de Lousada Pimentel). Tomo VII, pág. 60. Faleceu em Algoso, onde ultimamente fixara residência, em Dezembro de 1930. CAMPILHO (Pedro Vicente de Morais Sarmento). Tomo VI, pág. 619. Sendo demitido por ocasião do movimento revolucionário de 19 de Janeiro de 1919, foi depois reintegrado na magistratura, exercendo o cargo de juiz em Lisboa ao tempo da sua morte, sucedida em princípios de Fevereiro de 1936. Sua esposa, D. Maria Carolina Bessa Cardoso da Cunha Soares, havia falecido no Porto a 8 de Maio de 1931.

CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO [3] Têm publicado colectâneas, mais ou menos extensas, de cantares e romanças populares bragançanas: D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1058), Doutor J. L. de Vasconcelos (1059), Doutor Daniel José Rodrigues (1060), Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1061), Padre Firmino Augusto Martins, pároco de Tuizelo (1062), Padre José Augusto Tavares, abade de Carviçais (1063), Padre José Manuel Miranda Lopes, prior de Argozelo (1064), Doutor Luís Cha(1058) VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de – Estudos sobre o romanceiro Peninsular. 1907-1909. (1059) VASCONCELOS, J. L. de – Ensaios Etnográficos, 1896-1906. De terra em terra, 1927. (1060) RODRIGUES, Daniel José – Romanzas, 1907, separata do «Instituto». Romanzas, Pastorelas e Cantigas de amor, 1933, separata da «Labor». Ilustração Trasmontana, 1908-1910. (1061) SANTOS JÚNIOR, Joaquim Rodrigues dos – As pinturas pré-históricas do Cachão da Rapa, 1933. As telhas do teu telhado, 1933 (algumas são galaico-portuguesas). Nota da coreografia popular trasmontana «A dança dos pretos» (Moncorvo), 1935. Afinidades galaico-portuguesas de folclore, 1929. (1062) MARTINS, Firmino Augusto – Folclore do concelho de Vinhais, 1928. Este valiosíssimo trabalho encerra, além de muitas notícias etnográficas, duzentas e oitenta e sete canções em forma de quadras, sessenta e cinco romanças de segadas e malhas, a curiosa canção do «Dá-la-Dou» e outras composições líricas referentes a jogos infantis e medicina popular. (1063) TAVARES, José Augusto, Ilustração Trasmontana, 1908-1910. Revista Lusitana, em diversos números. Naquela publicou cento e doze cantigas e cinco romanças. (1064) SPOLETO, Mário Aldino de, pseudónimo de José Manuel Miranda Lopes, prior de Argozelo – Cantares da minha terra – Subsídios para o «Cancioneiro de Bragança», 1935. Esta interessante colectânea abrange oitocentas e quarenta e uma quadras, inéditas pela maior parte, além da «Cantiga dos Trilhadores», única, talvez, na região bragançana, e quarenta e seis já publicadas nos Cancioneiros de Teófilo Braga, Augusto Pires de Lima e Afonso do Paço, por também correrem na região bragançana. Nos Cantares da minha terra reproduziu seu autor as que publicara na Agenda Brigantina, 1928, e no Trás-os-Montes (quinzenário), 1929-1933.

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ves (1065) e Dr. Vergílio Taborda (1066). Não reproduzimos os cantares dos escritores bragançanos a não ser quando encontramos uma outra variante e os de carácter regional. Como no resto de Portugal e em Galiza (Espanha), tão propínqua etnograficamente à nossa província de Trás-os-Montes, há muitas colectâneas de cantares, nem por isso omitimos os nossos, embora idênticos e já publicados nelas, porque documentam a sua expansão geográfica e porque, ignorando-se o seu berço de origem, mostram a emotividade lírica, as modalidades étnicas e psíquicas do povo que os criou ou que os adoptou, legitimando-os ou generalizando-os. Tanto quanto foi possível, agrupámos as cantigas por assuntos e por ordem alfabética, para melhor facilidade de consulta, a fim de constatar os temas predilectos do povo e a sua capacidade lírica acordada pelas coisas da sua vida corrente que mais lhe emocionam a alma. Olhando assim para o conjunto, podemos melhor ajuizar da mentalidade etnográfica da gente trasmontana, fim especial destas colecções, vendo ao mesmo tempo as suas predilecções agrícolas, sociais e morais. Da nossa colectânea tivemos de retirar cinquenta e oito cantigas, por saírem antes nos Cantares da minha terra, do Prior de Argozelo, José Manuel Miranda Lopes, e são as que ele dá com os n.os 8, 13, 17, 22 (e pág. 145), 27, 28, 29, 57, 71, 73, 74, 77, 88 (esta já vem no Folclore do concelho de Vinhais, pág. XIII), 105, 140, 149, 155, 162, 211, 274, 305, 309, 315, 320, 330, 332, 352, 365 (esta já foi publicada no citado Folclore de Vinhais, pág. 258), 380, 429, 480, 488 (já saiu no mesmo Folclore, pág. 266), 493, 498, 499, 503, 515, 519, 522, 545, 548, 551, 558, 565, 568, 616, 626, 632, 636, 664, 704, 705, 716, 751, 766, 799 (já veio no citado Folclore, pág. 337), 800 e a da «Água clara», já no fim, pág. 145. Da mesma forma e pelo mesmo motivo tivemos de suprimir nove canções, por já virem publicadas no mencionado Folclore de Vinhais. São elas: Adeus caminho da fonte Cala, cala, meu menino Pega tu, Mineta Ó água que estás correndo Da minha janela rezo À Senhora das Candeias

Pág. 262 Pág. 255 Pág. 246 Pág. 263 Pág. 154 (1067) Pág. 154

(1065) CHAVES, Luís – Mouras Encantadas, 1924. Trás-os-Montes no horizonte das almas e da terra, 1931. Portugal Além, 1932. (1066) TABORDA, Vergílio – Alto Trás-os-Montes, 1932. (1067) Esta já vem em CHAVES, Luís – Portugal Além, p. 48.

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Janela de pau de pinho, Ó que janela tão alta Manjerico da janela

Pág. 256 (1068) Pág. 256 Pág. 262 (1069)

Além das cantigas que a seguir apontamos, em número de mil e seiscentas, por estas Memórias ficam mais duzentas e noventa e cinco, insertas no tomo I, pág. 230; tomo II, págs. 467 e 468; tomo V, pág. XX; tomo VI, pág. 239; tomo VII, pág. 189; tomo IX, págs. 154, 181, 246, 263, 264, 268, 272, 286, 296, 308, 310, 317, 321, 326, 337, 346, 347, 451, 455, 655 e 717, e tomo X, págs. 29 e 68. Escrevo na minha colectânea cancioneira muitas palavras que parecem barbarismos ou provincianismos, porque assim as ouvi pronunciar e usa o povo bragançano na linguagem corrente, bem como muitas outras pelo mesmo teor, que deviam ser arquivadas nos dicionários, pois correm igualmente em galego, militando, portanto, a seu favor o uso de muitos séculos, o interesse léxico e a razão histórica demonstrativa das afinidades étnicas galaico-portuguesas e mais vincadamente galaico-trasmontanas. Tais, entre muitas outras que omito e adiante vão sublinhadas no cancioneiro à frente inserto. Acipreste por cipreste. Adonde por onde. + Aire por ar (1070). Anadar por nadar. + Arrastrar por arrastar. Arreceio por receio. Atromentar por atormentar. + Balor por bolor. Belota e abelota por bolota. Betão por botão. Bigote por bigode. Boticairo por boticário. Brégança por Bragança. Calineiro, sabugueiro. Carcarmas, mentiras. Castinheiro por castanheiro. Crecer por crescer. (1068) Variante desta no LIMA, Fernando de Castro Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, 1935, n.° 129. (1069) Esta também se encontra no citado LIMA, Pires de – Cancioneiro…, n.° 138. (1070) O sinal +, antes das palavras, indica que as temos encontrado nos escritores galegos, citados neste Cancioneiro.

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Decer por descer. + Despois por depois. Di-le por diz-lhe. + Dixo por disse. Donde quer por onde quer. Edra por hera. Espenicar por depenicar. Fai por faz. Fermosa, fermesura, por formosa, formosura. + Frauga por frágua. Gromo por gomo. + Hai por há. + Home por homem. + Iba por ia. + Inda por ainda. Inauga por enágua. Le por lhe. Liboração por desembaraço. Mai-lo por mais o. Ma-lo haja por mal haja. Meija por mija, mijar. + Mentres, enquanto, entretanto. Moreira e mora, por amoreira e amora. Mouricego por morcego. Niada por ninhada. Niu por ninho. + Páxaro e paxaro por pássaro. Peleiro por poleiro. Perxigueiro por pessegueiro. Rastro por rasto. Recorda por acorda. Reixerol por rouxinol. Renace por renasce. + Somentes por somente. Susparado por separado. Talego, tolo. Tamén por também. Veleno por veneno. Vental por avental (1071).

(1071) Nem sempre empregámos estes provincianismos, porque entre os nossos informadores houve alguns mais peliquitreques, que já queriam falar à cidadona, e deles são as palavras que saem do cânon apontado.

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É enorme a importância histórica e etnológica de um glossário por este teor; para ele, fora as matérias aqui exaradas, concorremos com as arquivados no artigo Toponímia, pág. 173. Vieira da Costa e C. M. (1072), José Augusto Tavares, abade de Carviçais (1073) e Padre Firmino Augusto Martins (1074) publicaram colectâneas deste género. É encantadora a intuição lírica da musa popular e a finura dos seus conceitos onde os mestres parecem inspirar-se. Assim, estas cantigas correntes em terras bragançanas: Aires da minha terra Vinde por mim e levai-me, Que os aires da terra alheia Não fazem senão matar-me.

Minha terra, minha terra, Minha terra e eu aqui! Os anjos do céu me levem À terra onde eu naci.

Cantai, raparigas, cantai, Cantai a vosso modo; Que estou na terra alheia, Quero cantar e choro.

Lembram os Airiños da mina terra, da bem conhecida poetisa galega Rosalía de Castro. Estoutra que o povo canta tanto em galego como em português: Moreno pintan a Cristo, Morena la Madalena; Moreno es el bien que adoro, Viva la jente morena.

Lembra a Morena, de Guerra Junqueiro. É que as canções populares, como diz uma nossa conterrânea ilustre, são a «magnífica floração da alma poeticamente sonhadora ou graciosamente irónica do nosso Povo» (1075). E a «província de Trás-os-Montes não fica atrás de nenhuma outra em espécies de poesia, antes as excede a todas» (1076).

(1072) Ilustração Trasmontana, (1908), p. 73, 96 e 136. (1073) TAVARES , Augusto, Portugália, tomo II, fascículo IV. Deste estudo, publicado sob o título «Etnografia trasmontana (concelho de Moncorvo)», tirou-se separata. Abrange especialmente os nomes populares de alfaias agrícolas e pertenças tocantes à cultura e colheitas cerealíferas. (1074) MARTINS, Firmino Augusto – Folclore do concelho de Vinhais, p. 339 a 351. (1075) D. Cândida Florinda Ferreira, numa conferência publicada no Terras de Bragança em Abril de 1935. (1076) VASCONCELOS, José Leite de – De terra em terra, 1927, p. 25.

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A 1. A caveira de meu pai Sem ter língua me falou: Vê, filho, o triste estado Em que a morte me deixou. 2. A flor da fava é branca, Cai no chão, fica amarela; Ninguém vá pedir a moça Sem primeiro falar com ela. 3. A larica é má erva, Enroscada no centeio: Quem tem amor bonito Ri-se de quem o tem feio. 4. A minha comadre Pelónia Não há outra como ela; Dá as batatas ao home E a carne come-a ela. 5. A modinha do Landum Quem a havia d’aumentar? Foram os presos da cadeia, Estão à sombra, têm vagar. 6. A mulher do choramingas Anda chorando na horta, Que lhe roubaram o home Pela gateira da porta. 7. A mulher do mal-pecado Anda-se a peneirar na eira, E o mal-pecado está vendo Como a mulher se peneira. 8. A pedra que está no rio Mandei-a eu assentar; Não é minha, nem é vossa: É de quem nela lavar.

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9.

A raposa é muito fina, Para tudo tem manha; Vai à capoeira Enquanto a dona está na cama.

10. A renda do vental Tem o coração no meio; Quando estou ao pé das moças Então é qu’eu me maneio. 11. A Senhora da Ascensão Tem um navio de vidro, Que lho deu um marinheiro Quando se viu em perigo (1077). 12. A sua boca, menina, É uma carta fechada; Hei-de abri-la aos suspiros, Depois de aberta beijá-la. 13. A tua cara é notada Entre as mais raparigas, Como a papoula encarnada Entre o louro das espigas. 14. À entrada desta rua Logo me cheirou a rosas; Logo o meu coração disse: Aqui há moças formosas. 15. À porta das almas santas Bate Deus a toda a hora; As almas lhe responderam: Ó meu Deus! que fareis agora?! 16. À sombra do verde cedro Onde o sol não pode entrar, Passo os meus dias tristes Só por ti a suspirar.

(1077) Variante de outra em BRAGA, Alberto Vieira – O culto de S. Gonçalo na Baía, 1935, p. 41.

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17. À sua porta, menina, A lama quem a faria? A auga dos seus olhos, Qu’esta noite não chovia. 18. À sua porta, menina, Há pedra mármore vermelha, Onde se sentam os moços A pentear a guedelha. 19. À sua porta, menina, Não se pode namorar; De dia, velhas à porta, De noite, cães a ladrar. 20. Abre-te, ó terra sagrada, Abre-te que quero ver O corpo da minha amada Antes da terra a comer. 21. Adeus, que me vou embora, Adeus, que me quero ir; Dá-me cá esses teus ossos Que me quero despedir. 22. Adeus tempo dalgum dia, Quando por cá tornarás?! Quem com lágrimas pudera Tornar ao tempo de trás? 23. Agora cantam os grilos, É sinal de tempo quente; Adeus, amor dalgum dia, Que não foste para sempre. 24. Ai de mim! ai de meus ais! Ai de minhas agonias! Quem morre, morre para sempre E eu morro todos os dias. 25. Ai que pena! Ai que dor! Menina bonitinha Há-de ser o meu amor. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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26. Ainda não merquei, Mas hei-de comprar Lencinho amarelo Para te acenar. 27. Algum dia era eu Do teu prato a melhor sopa; Agora sou um veleno Ressalgar na tua boca. 28. Algum dia era eu Raminho de andar na mão; Agora sou a vassoura Com que varres o chão. 29. Algum dia para te ver Dava voltas à capela; Agora tamem as dou, Mas é com mais cautela. 30. Algum dia para te ver Dava mil voltas à rua; Agora tamem as dou, Mas não é por causa tua. 31. Algum dia por te ver Dava voltas ao lugar; Agora passo por ti Como o pardal a voar. 32. Algum dia por te ver Dava voltas ao lugar; Agora tamem as dou Só para te não falar (1078). 33. Algum dia por te ver Ia de noite à fonte; Agora peço a Deus Que nunca te encontre (1079).

(1078) Variante da n.° 67 nos Cantares da minha terra e da publicada pelo abade Tavares, Ilustração Trasmontana, (1910), p. 40, n.° 35 (1079) Ibidem, n.° 36.

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34. Algum dia por te ver Saltava trinta quintais; Agora para te não ver Salto trinta e ainda mais. 35. Alegrai-vos, albardeiros, Que aí vem a palha nova, Para fazer os casaquinhos Às meninas d’agora (1080). 36. Alegrias e tristezas Tudo por mim tem passado; Se muito me tenho rido Muito mais tenho chorado. 37. Altos céus que me roubastes A minha doce companhia; Já lá vai pelo mar fora Quem na minha cama dormia. 38. Altas torres tem seu peito Nessas torres já m’eu vi; Não se me dá que outros subam As torres que já desci. 39. Amar sem ser amado Nunca te aconteça; Ama a quem te ama, Ama a quem te mereça. 40. Amor com amor se paga, Porque não pagas, amor? Olha que Deus não perdoa A quem é mau pagador. 41. Amores, ao longe, ao longe, Ao pé da porta quem quer os tem; Os amores ao pé da porta Não são leais a ninguém.

(1080) Variante da n.° 66 em SPOLETO, Mário Aldino de – Cantares da minha terra.

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42. Amores novos valei-me, Que os velhos já faleceram; Faz de conta que foram Folhas de papel que arderam. 43. Anda cá, chega-te a mim, Que não como gente viva; Assim faz quem se quer bem, Chega-se e não se retira. 44. Anda cá que nada te quero E eu a ti nada te dou, Só quero que te lembres Do tempo que já passou. 45. Anda cá larica verde Enroscada no centeio; Os homes não têm palavra, Isso é que eu receio. 46. Andais de baixo para cima, Como o ouro na balança; Andai mais devagarinho Se em mim tendes confiança. 47. Andas morta por saber Quem é o meu ramalhete; É um rapaz trigueirinho Vestido d’azul-ferrete. 48. Andas para mim agastado Ó meu cara de ferreiro; Anda o tempo que quiseres, Não te puxo a terreiro. 49. Ando por aqui de noite E as pedras me metem medo; Bem podias tu menina Tirar-me deste degredo (1081).

(1081) Variante da n.° 89 e SPOLETO – Cantares da minha terra.

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50. Ando por aqui de noite Para de dia não andar; Ando lavrando terreno Para outros sementar. 51. Ando rouco do peito; Não é catarro nem tosse: É o ladrão do amor Que de mim quer tomar posse. 52. Ando vestido de preto, Ou de roxo, cor de lírio, Mas ninguém me morreu; É luto por quem está vivo. 53. Antes que eu te chame tola E tu a mim tolo; Sempre sou o teu amor E tu a minha rola. 54. Ao romper da aurora Sai o pastor da cabana, Gritando em altas vozes: Desgraçado é quem ama. 55. Aquela menina chora, Chora porque a enganei; Ela neste mundo chora E eu no outro penarei. 56. Aquela menina cuida Que não há outra no mundo; Não há poço tão alto Que se lhe não veja o fundo. 57. Arredai-vos raparigas Que o terreiro é estreito; Quero dar duas voltinhas, Quero dá-las a meu jeito. 58. As penas do verde gaio São brancas e amarelas; Não m’empurres, que eu não caio, Que estou firme nas chinelas. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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59. As telhas do meu telhado Correm água sem chover; Trocaste-me por outra Inda te hás-de arrepender. 60. As telhas do teu telhado São vermelhas, têm virtude; Passei por elas doente, Logo me deram saúde (1082). 61. Assim que te vi logo disse Tenho amor para sempre; Conheci-te falsidade, Retirei-me, estou ausente. 62. Atiraste-me, atirei-te, Encontraram-se as pedradas; Quando as pedras se encontram, Que farão as nossas falas (1083)? 63. Atiraste-me, atirei-te, Encontraram-se as pedradas: São pedrinhas d’amor, Venham mais continuadas. 64. Atiraste-me com pedrinhas Ao estar a lavar a louça; Atira-me com beijinhos De modo que a mãe não ouça.

ACIPRESTE

(1084)

65. Acipreste bate à porta, Alecrim vai ver quem é; É um cravo e uma rosa E uma açucena ao pé.

(1082) Idêntica, JÚNIOR, J. R. dos Santos – As telhas do teu telhado, 1933, p. 2. (1083) Variante da publicada pelo abade TAVARES na Ilustração Trasmontana, (1908), p. 104, n.° 20. (1084) Ver também o artigo «Homem».

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66. Acipreste com a ponta Escreve carta no chão; Nunca pensei de ter Por amor tanta paixão. 67. Acipreste com coroa Escreve uma carta ao rei Tira de mim o sentido Qu’eu de ti já o tirei. 68. Acipreste florido Foi cousa que nunca vi; Dizes que me queres deixar E eu nunca te pertendi. 69. Acipreste, rei das árvores, Abrigo dos passarinhos, A quem destes os abraços Dá também os beijinhos (1085). 70. Acipreste verde-triste, Mestre de toda a ciência; Quando à vista me és falso, Que fará na ausência. 71. Aciprestes e malmequeres Tenho eu no meu jardim; O acipreste já acabou, O malmequer não tem fim. 72. O acipreste não tem sombra Senão a que vem do céu; Senta-te aqui meu amor À sombra do meu chapéu, 73. O acipreste vira a ponta Quando pára de crescer; Assim fazem os meus olhos Quando te não querem ver (1086).

(1085) Variante da n.° 177 em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, 1935. (1086) Variante da n.° 508 de SPOLETO – Cantares da minha terra.

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74. Subi ao acipreste, Cheguei ao meio caí; Acipreste dos mortais, Tinha de morrer, morri.

AÇUCENA 75. A açucena c’o pé n’auga Dura quarenta dias; Eu, sem ti, nem uma hora, Tu, sem mim, anos e dias (1087). 76. A açucena melindrosa Nasce no cimo do souto; Quem entende por acenos Não diga que sabe pouco. 77. Acorda, vem à janela, Minha branca açucena, Vem ver o teu amor A chorar com tanta pena. 78. Fui às torres de vidro, Bebi água na açucena; Não há gosto nesta vida Que por fim não traga pena. 79. Se soubesse que aí vinhas, Alívio das minhas penas, Tinha-te a sala composta Rodeada de açucenas. 80. Venho agora do meu horto De plantar açucenas; Elas são o meu conforto, Alívio das minhas penas.

ÁGUAS, FONTES, RIOS 81. A auga quanto mais fresca Mais depressa tira a sede; O amor quanto mais firme, Mais depressa cai na rede. (1087) Variante da n.° 1, em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto.

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82. Adeus, ó fonte da praça, Bica do chafariz; Onde deitei o meu laço, Não me quis vir a perdiz. 83. Algum dia era eu Quem no seu jardim regava; Agora somos muitos Desse poço a tirar água. 84. Amores além do rio Não os quero, nem de graça; Por pouco que o rio cresça Logo dizem que se não passa. 85. As quatro esquinas da fonte Já se não chamam esquinas; Chamam-se confessionários De confessar as meninas. 86. Auga chove, rio cresce, Navio não dês à costa; Não tomes outros amores Até segunda resposta. 87. Chafariz de quatro esquinas Feito de pedra morena; Não há gosto nesta vida Que por fim não traga pena. 88. Deitei-me e adormeci Ao pé da auga que corre; A auga me respondeu: Quem tem amores não dorme (1088). 89. Do centro da terra nasce Auga fria, sem lodo; Por bem martírios que passe, Ninguém sabe por quem morro.

(1088) Já se encontra em VASCONCELOS, J. Leite de – Canções do berço, p. 81, e LIMA, Pires de – Cancioneiro…, n.° 116.

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90. Fui à fonte beber auga Achei um ramo de flores; Quem o perdeu tinha sede, Quem o achou tinha amores. 91. Fui à fonte beber auga, Santo António me chamou; Quando os santos têm amores, Que fará quem já pecou! 92. Fui á fonte das três bicas Dei a mão à liberdade; Estava vária dos sentidos Quanto te fiz a vontade (1089). 93. Fui à fonte por ver Ana, Achei meu primo com ela; Adeus primo da minha vida, Deus te faça bem com ela, 94. Hei-de ir e hei-de vir Àquela fonte beber; Se der em continuar O que o mundo há-de dizer? 95. Hei-de-me ir e deixar-te, Como a auga deixa a fonte, Que me vejo tão perseguida Como o coelho no monte. 96. Meninas do rio triste, Vinde lavar ao alegre; A auga do nosso rio Deixa a roupa como neve. 97. Nossa Senhora da Serra Fez um milagre no monte: Um menino pediu-lhe auga Logo lhe abriu uma fonte.

(1089) Pequena variante em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 111.

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98. Nunca vi rio sem fonte Nem monte sem arvoredo, Nem feia sem seu agrado, Nem bonita sem seu erro (1090). 99. O meu amor e o teu Andam ambos na ribeira: O meu anda à erva cidra E o teu à erva cidreira (1091). 100. Ó água que vais correndo Por baixo do campo santo, Diz à terra que não coma O corpo que eu queria tanto. 101. Ó auga que vais correndo Por esses campos em fora, Vai dizer ao meu amor Que quem ama, suspira e chora. 102. Ó auga que vais p’ro rio E passas pelo bem que adoro, Leva nas tuas ondas Estas lágrimas que choro. 103. Ó passar da ribeirinha, Auga sobe, auga desce; Dei a mão ao meu amor, Não quis que ninguém o soubesse. 104. Ó passar da ribeirinha Franscisquinho dá-me a mão; Eu prometo de ser tua, Mas por ora inda não. 105. Ó passar da ribeirinha, Onde o fetinho está louco; Tira de mim o sentido Qu’eu em ti tenho pouco.

(1090) Os dois últimos versos na n.° 113 de SPOLETO – Cantares da minha terra. (1091) Variante da n.° 84 publicada pelo abade Tavares, Ilustração Trasmontana, (1910), p. 94. Idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 222.

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106. Ó passar da ribeirinha, Passo mais, passo menos, Tenho lá os meus amores Com rigorosos acenos. 107. Ó passar da ribeirinha Pus o pé, molhei a meia; Não casei na minha terra, Fui casar na terra alheia (1092). 108. Ó passar da ribeirinha Pus o pé na falsa pedra; A falsa pedra quebrou, Quem é falso sempre quebra. 109. Ó rio que foste rio, Agora és um regato; Quem ama falsamente Nunca d’amor é farto. 110. Ó rio que vais tão turvo, Se aclaras passarei; Ninguém diga neste mundo Desta auga não beberei. 111. Ó tanque de quatro esquinas, Bem podias tu ter nove; Bem podias tu, menina, Dar uma esmola ó pobre. 112. Passei o rio Negro, Passei-o numa carreira, Para pilhar uma lebre Pilhei uma questureira. 113. Por um cano de mármore Vai a auga à cidade; Por fazenda ninguém deixe Amores da sua vontade (1093).

(1092) Variante em SPOLETO – Cantares da minha terra, n.° 152. (1093) Ibidem, variante do n.° 1.

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114. Pus-me à beira do rio A chorar minhas penas; A auga me respondeu: Não as faças, não as temas (1094). 115. Pus-me a chorar à beira d’auga Lágrimas de sentimento; Uma voz me respondeu: Nada cura como o tempo (1095). 116. Pus-me a escrever na areia E a notar à beira da auga; A tinta sai-me dos olhos E a pena sai-me da alma. 117. O papel em que te escrevo Sai-me da palma da mão, A tinta sai-me dos olhos E a pena do coração (1096). 118. Faça do cu um tinteiro, Da língua pena aparada; Meta a pena no tinteiro E escreva uma carta fechada. 119. Quando passas à minha porta, Ao vires da arada, Pego na cantarinha Para ir à fonte buscar auga 120. Quando te disse adeus, ó Ana, Da janela do navio, As lágrimas eram tantas Que fizeram crescer o rio.

(1094) Corre também em galego, como se vê na p. 20 deste tomo. (1095) Também se encontra em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 265. (1096) Variante n.° 35 nos Cantares da minha terra, do Prior Miranda Lopes. Já vem em VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, 1906, III, p. 355, e LIMA, Pires de – Cancioneiro, n.° 254.

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121. Quebra-te, ó cântara nova, Quebra-te como há-de ser; Já não quero ir à fonte, Já não tenho a quem ver. 122. Quero bem à veia d’auga Que corre p’ro meu moinho; Quero bem a esses teus olhos Que me tratam com carinho. 123. São João por ver as moças Fez uma fonte de prata; As moças não vão a ela E São João todo se mata (1097). 124. Tira-te da pedra da fonte, Paxarinho, ó ladrão! Não sejas alcoviteiro Das moças que à fonte vão. 125. Vou-me despedir do rio E das pedrinhas de lavar; Não me despeço de ti Para te não ver chorar.

ALECRIM 126. Deste-me o alecrim por prenda Por ter a folha miúda Mandaste-me experimentar, Meu intento não se muda (1098). 127. O alecrim à borda da auga Deita cheiro que recende; Não há coisa mais humilde Do que o amor quando pertende.

(1097) Já vem em VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios, II, p. 179, e CHAVES, Luís – Mouras encantadas, 1924, p. 45. Idêntica em S ANTOS J ÚNIOR – Afinidades galaico-portuguesas de folclore, p. 12, acompanhada da correspondente em galego. (1098) Variante da n.° 201 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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128. O alecrim da borda da auga Deita cheiro que recende; Ninguém se finte nos homens Sem serem seus de repente. 129. O alecrim das muralhas Quando chora reverdece; Quem tem o amor feio Sempre bonito lhe parece. 130. O alecrim é pau alto, No meio tem seu encosto; Não me custa andar em fama Com amor do meu gosto. 131. O alecrim é rei das ervas, O oiro rei dos metais; E vós, minha menina, Sois rainha dos meus ais. 132. O alecrim não se rega, Porque no verde renace; O amor firme não se rende Por martírios que passe. 133. Ó alecrim, rei das ervas, Ó oiro, rei dos metais! Quem tendes na vossa terra Que tantos suspiros dais?! 134. Se os beijinhos espigassem Como espiga o alecrim, As tuas faces, menina, Eram um perfeito jardim (1099). 135. Vai andando, que eu já vou, Espera-me ao alecrim; Desejava de saber Quem te disse mal de mim.

(1099) Idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 310.

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136. Vai andando, que eu já vou, Espera-me ao alecrim, Que te quero procurar Se a alguém queres mais que a mim.

ALFAIATES, SAPATEIROS 137. Alfaiates não são homes, Sapateiros tamen não: Homes são os lavradores Qu’enchem as tulhas de pão (1100). 138. Alfaiates não são homens, Sapateiros tamen não, Juntaram-se catorze P’ra matar um aranhão. 139. Sapateiros e alfaiates É um bando de ladrões: Os sapateiros roubam sola E os alfaiates os botões (1101). 140. Se tiver de tomar amores Há-de ser c’um alfaiate Que me faça um colete Que d’arrochado me mate.

AMIEIRO 141. Amieiro do Sabor Vai devagar, qu’eu já vou; Quero ir à tua sombra Já que o luar me deixou. 142. Amieiro d’ó pé do rio Deita p’ra cá um ramo Para dar ao meu amor; Quero saber a quem amo.

(1100) Variante da n.° 293 em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto. (1101) Já vem em LIMA, Pires de – Cancioneiro…, n.° 292.

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143. Amieiro do Sabor Procura ao marmeleiro Qual amor é mais firme: Se o segundo se o primeiro (1102). 144. Se o primeiro não é firme, O segundo tamen não: Firmes são os lavradores Qu’enchem as tulhas de pão (1103). 145. O amieiro lhe respondeu Com toda a liboração: Se o primeiro não é firme, O segundo tamen não.

ANDORINHAS 146. Andas vestida de preto, Do trajo da andorinha; Pensas de me enganar, Essa tenção não é a minha. 147. Andorinha mensageira Eu do coração te imploro: Vai dizer à minha amada Que do coração a adoro. 148. Meu amor, se te fores Para a terra das andorinhas, Deita uma carta ao correio Para ter notícias minhas. 149. Não conheço as florzinhas Que há na serra e no vale; Só conheço as andorinhas Pelos seus risos de cristal. 150. Quem procura Quer saber, Esta andorinha Onde vai ter? (1102) Variante da n.° 678 em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1103) Ver a rubrica Alfaião.

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Dizem que alguém pôs este letreiro na asa de uma andorinha e na Primavera seguinte recebeu esta resposta: 151. Andorinha criadeira Na ilha da Madeira Em casa dum picheleiro: Faz visitas a teu amo Quando o tornares a ver. 152. Se tivesse asas voaria Ao branco azul do céu, Fazer como a andorinha Atrás do bem que perdeu. 153. Triste da minha vida, Triste da vida minha; Quem me dera ir contigo P’ra onde vão as andorinhas.

ANEL 154. Anel d’oiro não é prenda, De prata é gravidade; O anel de contas pretas Foi o da nossa amizade. 155. Hei-de mandar fazer, Ou talvez já esteja feito, Um anel para o teu dedo E um cordão para o teu peito. 156. Meu anel de sete pedras Salta fora do meu dedo, Tu foste o causante D’eu tomar amores tão cedo (1104). 157. Não olheis para os meus anéis Quando na mão me pegais; Custaram-me o meu dinheiro, Não mos deu quem vós pensais. (1104) Variante da n.° 420 nos Cantares da minha terra e da publicada pelo Abade Tavares na Ilustração Trasmontana, (1910), p. 93.

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TOMO X

158. O anel que tu me deste Era de vidro, quebrou; Tantos anos dures tu Como o anel me durou (1105). 1 59. O anel que tu me deste Era de vidro, quebrou-se; O amor que tu me tinhas Era bom, mas acabou-se. 160. O anel que tu me deste, Josezinho alfaiate, Ficou-me largo no dedo, Caiu-me no açafate. 161. O anel que tu me deste Não o dei nem o vendi; Atirei-o da ponte abaixo, O mesmo te faria a ti. 162. O anel que tu me deste No domingo do Senhor Era-me balágo (1106) no dedo E apertado no amor. 163. Trago brincos e anéis, Ando bem preparada; Por enquanto não preciso Que o amor me dê nada.

B 164. Bem parece um carro novo À porta dum carpinteiro Bem parece uma menina Ao pé dum moço solteiro. 165. Bem sei a quem disseste Que me não podias ver; Isso pouco me importa Mas estimei de o saber. (1105) Idêntica à n.° 183 em LIMA, Pires de – Cancioneiro… (1106) Balágo: largo.

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373 TOMO X

166. Bem sei a quem disseste Que me havias de deixar A mim não se me dá nada, Sem ti hei-de passar. 167. Bem sei a quem disseste Que por mim não perdias tempo; Vai-se um amor, fica outro, Assim se vai passando o tempo. 168. Bem sei que vos estais rindo Da minha sinceridade; Não sou do vosso gosto Nem vós da minha vontade. 169. Bem sei que vos estais rindo Do meu juízo ser pouco; Qualquer homem de bem Tem uma veia de louco. 170. Bem sei a tua casa, Bem sei o teu viver; Bem sei a quem amas, Se t’o quiser dizer. 171. Branca é a cor mais linda Que aos olhos pode agradar: Branca a lua, branca a rosa, Branca a onda à beira-mar.

C 172. Cá vou eu, mais o meu par, Cá vou eu, muito contente; Se alguém m’o quiser roubar De paixão fico doente. 173. Cada vez que considero Que de ti me hei-de apartar, Não me lembram senão penas, Não faço senão chorar.

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TOMO X

174. Chamaste-me cereja, E eu cereja quero ser; inda que caia de madura Tu não me hás-de comer. 175. Chamaste-me cerejinha Diante de tanta gente; Agora me fica o nome: Cerejinha para sempre. 176. Chamaste-me doidinha E tu és o variado; Nunca falaste comigo Que não fosses enganado. 177. Chamaste-me pé de ginja, Eu não sou tão delicada; Quem pé de ginja me chama Pouco bem me quer ou nada. 178. Chamaste-me pé de ginja, Não sou tão delicada; Sou um corpinho bem feito Em ti mal empregada. 179. Chorando vou regando O pé a todas as flores; Chorando porque me deixas E tens outros amores. 180. Coitadinha da rabaça E de seu primo agrão, Sempre estão na frescura Nunca sabem quando é verão (1107). 181. Coitadinho de quem tem Amores em terra alheia; De dia gasta calçado, De noite fica sem ceia.

(1107) Variante de outra em MARTINS, Firmino – Folclore do concelho de Vinhais, p. 265, e da n.° 161 de SPOLETO – Cantares da minha terra.

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375 TOMO X

182. Com a pena do pavão E o sangue da cotovia Hei-de escrever uma carta Ao meu amor um dia. 183. Com a ponta desta agulha, Com este mesmo didal, Com fio de retrós verde Teu retrato hei-de bordar. 184. Comprei um chapéu branco Para aprender a namorar; O chapéu branco acabou-se E o namoro de arranjar. 185. Constipei-me à tua porta Por causa dos gargarejos; Agora tens de curar-me C’uma gemada de beijos (1108). 186. Lá te mandei um ramo De ginjas garrafais; A do meio ia dizendo: Adeus para nunca mais (1109). 187. Menina, sois como a cereja Que todas as cores tem: Sois vermelhinha e branca E verde no pé também (1110). 188. Sois branca como o papel, Coradinha como a cereja; Sois a primeira fruta Que o meu coração deseja (1111). 189. Sois branca como a rosa, Coradinha como a cereja; Sois a cara mais linda Que entra na nossa igreja.

(1108) Variante da n.° 169 em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1109) Variante de outra em MARTINS, Firmino – Folclore do concelho de Vinhais, p. 260. (1110) Ibidem, p. 259. (1111) Variante da n.° 722 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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TOMO X

CABELO 190. Chamaste ao meu cabelo Açafate de flores; E eu chamo aos teus olhos Laço de prender amores (1112). 191. Chamaste ao meu cabelo Cabelo duma tirana; Também eu chamo ao teu Laço de prender quem ama (1113). 192. Desenrola o teu cabelo, Não o tragas enrolado; Desengana o teu amor, Não o tragas enganado. 193. Esses cabelos da testa, Que te ficam tão bem, Parecem cabelos de oiro Onde se enleia o meu bem. 194. Esses cabelos da testa São os que te dão a graça; Parecem meadas de oiro Onde o sol se embaraça (1114). 195. Menina do cabelo louro, Todo encaracolado, Em cada caracolzinho Tem o seu amor pintado (1115). 196. Meu cabelo, meu cabelo, Minha linda cabeleira! De dia serve de gala, De noite de travesseira (1116).

(1112) Ibidem, variante da n.° 152. (1113) Variante da n.° 47 em LIMA, Pires de – Cancioneiro…, e de outra na revista Alto Minho, p. 50, colhida em Geraz do Lima. (1114) Variante de outra em VASCONCELOS, J. L. DE – Ensaios Etnográficos, II, p. 59, e em MARTINS, Firmino – Folclore do concelho de Vinhais, p. 328. (1115) Variante da n.° 735 em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1116) Estes dois últimos versos noutra variante a p. 328 no Folclore do concelho de Vinhais.

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377 TOMO X

197. Nas ondas do teu cabelo Vou-me deitar a afogar, P’ra que toda a gente saiba Que há ondas sem ser no mar. 198. Quando eu era pastor Guardava bem o meu gado; Agora guardo ovelhas De cabelo encrespado. 199. Se passares pelo adro No dia do meu enterro, Pede à terra que não coma As tranças do meu cabelo. 200. Tendes o cabelo curto, Só vos dá pelo pescoço; Não tendes feição nenhuma Que não seja do meu gosto. 201. Tendes o cabelo louro Pelas costas estendido; Nessa trancinha do meio Trazeis o amor escondido (1117). 202. Tendes o cabelo louro Pelas costas ó comprido, Parecem cadeias d’ouro A martelo rebatido (1118). 203. Tens o cabelo louro Penteado ó desdém; São as cordas sedutoras Onde se enlaça o teu bem (1119). 204. Tendes o cabelo louro Suspendente cor ó vento; Com outro tendes a fama, Comigo passais o tempo.

(1117) Variante da n.° 733 em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1118) Variante de outra na p. 328 de MARTINS, Firmino – Folclore do concelho de Vinhais. (1119) Pequena variante da n.° 77 em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Pires de Lima.

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TOMO X

CAMA 205. Ainda te não vais à cama Porque me sentes na rua; Vai-te deitar, são horas, Eu prometo de ser tua. 206. Deixa-me ir dormir contigo Que uma noite não é nada; Entro pelo escuro E saio de madrugada (1120). 207. Eu queria ser o luar P’ra entrar pela vidraça; Queria ir ver-te à cama, Olhinhos de tanta graça. 208. Esta noite há-de chover Uma água miudinha; Hei-de-me ir recolher À sua cama, menina. 209. Já dormi na tua cama, Já teus lençóis me cobriram; Minhas lágrimas de oiro Sobre teu peito caíram (1121). 210. Queria ser como a edra E pela parede subir, Para te ir ver à cama, Ó teu quarto de dormir. 211. Rapariga do meu tempo, Que nasceste quando eu, Na cama onde tu dormes, Porque não durmo eu? 212. Se eu fosse rato, ratinho, Muita parede furava; Iria à tua cama E muitos beijinhos te dava.

(1120) Idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 63. (1121) Variante da n.° 354 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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379 TOMO X

213. Sou solteira, durmo só, Ando bem arranjadinha: Sapatos à papo seco, Vestido à Delaidinha.

CANA VERDE 214. A cana verde no mar É mais alta que o Marão; Brinquei c’uma tendeira Logo m’encheu d’algodão. 215. Cana verde, cana verde, Cana verde d’encanar; A mulher do Caldeiro Sempre de cu p’ró ar! 216. Ó minha caninha verde, Cana verde d’encanar; Bem te vejo, não te logro, Bem te podia lograr (1122). 217. Ó minha caninha verde, Ó minha verde caninha Quando chegará a hora Em que hás-de ser minha?

CANDEIA 218. A candeia por estar alta Não deixa de alumiar; O meu amor por estar longe Não deixa de me lembrar. 219. A luz daquela candeia Tem dois cravos no morrão; Também eu tenho mil penas Dentro do meu coração (1123).

(1122) Idêntica em VASCONCELOS, J. L de – Ensaios Etnográficos, III, 109, apenas diferindo o segundo verso, colhida em Braga. (1123) Variante da n.° 145 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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TOMO X

220. Alumia-me, ó candeia, Que me quero ir deitar; Sem torcida nem azeite Como te hei-de alumiar? 221. Alumia-me, ó candeia, Até o bairro d’Além Como te hei-de alumiar Se tu não és o meu bem (1124)? 222. Apagai essa candeia. Espetai-a no rigor (1125); Corpinho tão delicado Não serve para velador. 223. Apagai essa candeia, Que vai o azeite caro; Há olhos nessa cara Qu’inda alumiam mais claro. 224. Bendita seja a candeia E o azeite que nos alumia; Benditos sejam os olhos Que nos dão a luz do dia. 225. O candeeiro tem três bicos E a tripeça tem três pés; Tenho três amorzinhos Com pena de não ter dez. 226. Saudades te persigam Como o vento à candeia, Para que saibas quanto custam Amores em terra alheia.

CANTAR, CANTIGAS 227. A cantar ganhei dinheiro E a cantar se me acabou Agora posso dizer (1126): Água o deu, água o levou. (1124) Variante da n.° 69, em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1125) Não me souberam dizer o significado de rigor. (1126) Em Urrós, este verso é: Ó dinheiro mal ganhado.

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381 TOMO X

228. A cantiga bem cantada Não se canta duas vezes: A semana tem seis dias E o ano doze meses (1127). 229. Ai de mim que já não posso Cantar como já cantei Bebi a água no Tejo Logo a fala mudei. 230. As cantigas que você canta Meta-as num corno quente; Não são cantigas de cantar Diante de tanta gente (1128). 231. As cantigas que você sabe Meta-as num corno frio; Não são cantigas de cantar Comigo ao desafio (1129). 232. As cantigas que você sabe Meta-as numa azeiteira; Não são cantigas de cantar Nem aos porcos da bezeira. 233. Afamado cantador Que neste arraial entrou Chegou, pediu licença, Como está, como passou? 234. Agora não canto mais Até despois de ceia; É um regalo cantar Despois da barriga cheia. 235. Canta amor, cantemos ambos, Já que outra vida não temos; Anda a morte pelo mundo, Cedo nos apartaremos.

(1127) Variante da publicada pelo VASCONCELOS, J. L. de – Ensaios Etnográficos, vol. III, p. 250. (1128) Variante da publicada por SPOLETO – Cantares da minha terra, sob o n.° 148. (1129) Variante da publicada pelo mesmo, sob o n.° 147.

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TOMO X

236. Cantai comigo rapazes, Ajudai-me, ó raparigas, Que é o último ano Que ouvis minhas cantigas. 237. Cantai comigo rapazes Que o vosso cantar me alegra, Se o vosso cantar não fora Já não estava nesta terra (1130). 238. Cante lá uma cantiga Dessas que você sabe, Qu’as minhas estão na gaveta E perdi o tino à chave. 239. Cantigas são meninices Que se cantam à viola; Quem me não quiser assim Pegue no chapéu e vá-se embora. 240. Cantigas são meninices, São falas que leva o vento; Quem de cantigas faz caso É falto de entendimento. 241. Dizeis que canto mal Por ter a voz grossa: Cantai vós, minha menina, Veremos depois a vossa. 242. Dizeis que não sei cantar, Que nem sei como se canta: Dá-se um jeitinho à voz E um remanso à garganta. 243. Dizeis que não sei cantar. Que tenho a fala grossa; Com ela me remedeio, Não vou pedir a vossa.

(1130) Variante da publicada por MARTINS, Firmino, Padre – Folclore do concelho de Vinhais, p. 264.

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383 TOMO X

244. Já fui alegre cantando, Agora meus olhos tristes choram; Estão pagando o tributo Do tempo que alegres foram (1131). 245. Já não posso cantar alto, Nem o coração me ajuda; Morreu meu pai há pouco, Sou filho de uma viúva. 246. Não canto por bem cantar, Nem por linda voz eu ter; Canto para tapar os olhos A quem me não pode ver (1132). 247. Não canto por bem cantar, Para mim canto bastante; Quem me não quiser ouvir: Arre burro p’ra diante. 248. Não me atires com cantigas Que eu sou a mãe delas; As cantigas nascem do chão E eu passo por cima delas. 249. Não sei se cante, se chore. Se ande triste, se ande alegre: Se peça a Deus que me mate E ao diabo que me leve. 250. O cantar é dom dos anjos, O dançar dos variados; Alegria dos solteiros E tristeza dos casados. 251. Ontem à noite ouvi cantar, Ouvi cantar e chorei Pela minha mocidade Que tão mal a logrei.

(1131) Variante da do Prior Miranda Lopes, em SPOLETO – Cantares da minha terra, n.° 359. (1132) Variante da do Padre MARTINS, Firmino – Folclore do concelho de Vinhais, p. 256.

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TOMO X

252. Quem em cantigas repara, Não é tolo, faz mui bem; Em cantigas vou dizendo Aquilo que me convém. 253. Quem me ouvir cantar Dirá, e tem razão, Dirá que estou alegre, E sabe Deus meu coração. 254. Quem me ouvir cantar Pensará que estou alegre; Tenho o coração mais negro Que a tinta com que s’escreve (1133). 255. Quem tem filhos pequeninos Por força tem de cantar; Quantas vezes a mãe canta Com vontade de chorar. 256. Quero cantar, que me mandam, Não quero ser descortês; Quero fazer a vontade A quem nunca ma fez. 257. Quero cantar, ser alegre, Enquanto solteira for; Depois de casadinha Já me ralha o meu amor. 258. Quero cantar ser alegre, Que a tristeza não faz bem; Nunca vi a tristeza Dar de comer a ninguém. 259. Tenho um saco de cantigas E mais um guardanapo; Se quereis ir ao desafio Ponho-me a desatar o saco.

(1133) Variante da n.° 647 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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385 TOMO X

260. Tenho um saco de cantigas E mais um guardanapo; Vamos cantando estas Enquanto se desata o saco (1134). 261. Vós dizeis que cante, que cante, Se quereis que cante, dai-me dinheiro; Bem sabeis que a minha garganta Não é o fole de ferreiro.

CARVALHO 262. Carvalho que dás abelotas, Por que não dás coisa boa? Cada um dá o que tem Igual à sua pessoa. 263. O carvalho da Portela Tem a folha revirada Que lha revirou o vento Numa noite de geada. 264. O carvalho é desterro, Ó desterro da abelota: Eu bem desterrado ando, Menina, da tua porta. 265. O carvalho é uma árvore Que no ano dá quatro frutos; Bilharacos e bulhacas, Abelotas e maçacucos (1135).

CARVOEIRO 266. Carvoeiro, carvoeiro, Negro é o teu dinheiro; De noite vais, de noite vens, De noite comes o que tens. (1134) Variante da n.° 707 em SPOLETO – Cantares da minha terra e da de VASCONCELOS, J. L. de – Ensaios Etnográficos, III, p. 355. (1135) Variante da de CHAVES, Luís – Portugal Além, 1932, p. 80.

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TOMO X

267. Negro é o carvoeiro, Negra a vida que tem; De noite vai, de noite vem, De noite come o que tem. 268. Ó meu velho, velho, Ó meu velho, velharrão, Já tens as barbas ruças De andar ó carvão. 269. Venha minha mãe e traga dinheiro, Que já ali vem o carvoeiro: Vem clamando em seu passo Quem compra carvão de carrasco? 270. Também vendo carvão de carvalho, Que a firmeza não está nas mulheres, Nem também está nos homens, Mas sim no tronco dos oróles (1136). 271. Não está no tronco Nem na rama, Mas sim no peito Duma serrana.

CASAMENTO

(1137)

272. A oliveira é paz, Que se dá aos bem casados, E o alecrim é ramalhete Que se dá aos namorados. 273. Casei com uma velha Por vias da filharada; O diabo leve a velha, Trouxe dez d’uma niada. 274. Casei-me por um ano P’ra ver a vida que tinha; O ano vai acabado, Quem me dera solteirinha. (1136) Foi colhida em terras mirandesas e pronunciaram oróles. Será deturpação do espanhol robles (carvalhos)? (1137) Ver tomo IX, p. 317, destas Memórias.

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387 TOMO X

275. É boa vida ser casado, Matar um bom cebado; Há três anos que casei, Nunca sem matar fiquei, A não ser este ano, O ano passado E no ano que me casei. 276. Eu casar bem me casava Se não fosse o arreceio D’andar com o saco às costas A saber de centeio (1138). 277. Isto só pelo diabo, É qu’eu tal mulher não queria; Se o quero comer à noite Tenho de o ganhar de dia. 278. Já te começas a queixar Aos três dias de casada; Quando andavas d’amores Não te queixavas nada. 279. Meninas casai comigo, Não tenhais medo à fome; Meu pai tem uma quinta Que sustenta a quem não come. 280. Minha ameixieirinha branca, Diz-me: quem te abanou? Se queres casar comigo Fala com quem me criou. 281. Minha mãe casou-me em Braga Com uma mulher de feição; Ela bonita não era; Pobre sim, honrada não. 282. Minha mãe para me casar Prometeu-me uma azeiteira; Depois de me ver casada Disse-me que as havia na feira. (1138) Variante da 257 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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TOMO X

283. Minha mãe para me casar Prometeu-me quanto tinha; Quando foi ao dar o dote Deu-me uma agulha sem linha (1139). 284. Minha mãe para me casar Prometeu-me três ovelhas: Uma manca e outra cega, Outra socha das orelhas (1140). 285. Ó rio, como vais turvo! O que vais de caudaloso! Se tu fosses casado Irias mais carinhoso. 286. Pensei que o casar Só era dar a mão; Governar filhos e mulher É uma grande sujeição. 287. Quando eu era solteira Trazia fitas e laços; Agora, depois de casada, Trago os filhos nos braços (1141). 288. Solteirinha cor de cravo, Casada cor de limão, Pouco valem as casadas Onde as solteirinhas estão (1142). 289. Solteirinha não te cases, Logra a tua boa vida; Eu bem sei duma casada Que dá ais d’arrependida. 290. Solteirinha não te cases, Olha que o casar é mau; Mais vale andar pelo mundo Vendendo colheres de pau.

(1139) Variante da n.° 436 em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1140) Socha, o povo pronuncia çocha e significa que tem as orelhas cortadas. (1141) Ibidem, VASCONCELOS, J. L. de – Canções do berço, p. 27. (1142) Os dois últimos versos da n.° 403 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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389 TOMO X

291. Tenho três ovelhas E mais uma cordeira. Quero-me casar E não acho quem me queira. 292. Tenho três canhonas E mais um cordeirico; Quero-me casar Que já é um tagalhico. 293. Toda a mulher que se casa Largo castigo merece: Deixa o pai, deixa a mãe E vai com quem não conhece. 294. Toda a mulher que se casa Não é para trabalhar; Tem o homem obrigação De na cama a sustentar. 295. Triste vida ser casado, Melhor era não o ser; Todas as vidas são tristes, Melhor era não nascer. 296. Uma velha fez papas, Botou-las o porco fora Isso foi há cem anos E inda hoje a velha chora (1143).

CASTANHEIRO 297. A castanha no ouriço Está com toda a gravidade, Como a moça solteira Na flor da sua idade (1144). (1143) Esta também a cantam em galaico-português, dizendo: Una vieja hizo papas, Icholas el puerco fuera; Esso ia bai cien años Y on hoi la vieja llora. (1144) Variante da n.° 4 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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TOMO X

298. A folha do castinheiro É abicada como a renda; Se algum dia te casares Vale mais gente que fazenda. 299. A folha do castinheiro É abicada como a renda; Se me derem a escolher Quero gente e não fazenda. 300. A folha do castinheiro É fresca para o verão; Se me mandares a ela Não direi que não. 301. A folha do castinheiro Enquanto verde não roge; Aproveite-se, ó menina, Do seu amor que lhe foge. 302. Castinheiro que dás castanhas, Castinheiro dá cá uma, Para a dar de parva Ao meu amor que jejua. 303. Nesta terra não há nozes Nem tão-pouco há castanha, Que já as embarcaram todas Lá p’r’o centro de Espanha. 304. No alto daquela serra Tem meu pai um castinheiro; Dá castanhas no Maio E azeitonas em Janeiro (1145). 305. Oh! valha-me Deus, Já o cuco é tendeiro! Foi armar a tenda À ponta dum castinheiro (1146).

(1145) No Portelo, concelho de Bragança, recolheu o Dr. Raul Teixeira uma variante do verso final, que diz: E cravos roxos em Janeiro. Outra variante em J ÚNIOR , Santos – Afinidades galaico-portuguesas de folclore, p. 8, onde dá a correspondente em galego. (1146) Variante de outra de CHAVES, Luís – Portugal Além, p. 80.

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391 TOMO X

306. Que lindos outeiros! Ao longe a montanha; Que bons castinheiros! Que bela castanha! 307. Quem me dera cá o verão, O tempo das escarmiçadas! Queria dar ao meu piaçá Quatro castanhas assadas (1147). 308. Subi ao castanheiro, Pus o pé numa castanha; Dizem que tenho amores, Ó que mentira tamanha!

COBRA 309. Chamaste-me cobra fina; Sou cobra, não o nego. Quando a maré vai brava No mais alto cachão navego. 310. Da minha janela à tua É o salto duma cobra; Inda espero de chamar A tua mãe minha sogra (1148). 311. No alto daquela serra Onde a cobra se detém, Corpinho tão delicado Só com o meu dizia bem.

(1147) Variante de outra de CHAVES, Luís – Mouras encantadas, 1924, p. 191. Eu ouvi e aqui diz-se escarmiçadas e não ‘scamisadas. Escarmiçar, de onde escarmiçadas, é a operação de abrir os veldros (velos) da lã para serem cardados. Geralmente, este serviço é feito às noites em Setembro, com grandes pagodeiras, auxiliando-se os vizinhos uns aos outros. (1148) Pires de Lima no Cancioneiro de Celorico de Basto, 1935, n.° 60, dá outra idêntica, bem como SANTOS JÚNIOR – nas Afinidades galaico-portuguesas de folclore, p. 9, onde apresenta a correspondente em galego.

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TOMO X

COELHO 312. Anda cá corpo bem feito, Cinturinha de coelho, Olhinhos de sal miúdo, Lábios de cravo vermelho. 313. Hei-de correr a terra A cavalo num coelho, Para que todos digam: Que cavalo tão vermelho! 314. O coelho é matreiro, Dorme com os olhos abertos; Eu durmo com eles fechados Porque tenho os amores certos. 315. No alto daquela serra Andam dois coelhos aparelhados. Já é tempo de juntar Dois corações ausentados (1149).

CORAÇÃO 316. A margaça é má erva Que me picou esta mão; Também a maldade pica Os homes no coração. 317. Coração, coraçãozinho, C’uma faca te hei-de abrir, Que te deixaste enganar De quem podias fugir. 318. Coração apaixonado Anda o meu há três dias, Mortificado com penas, Todo cheio de agonias, 319. Coração que ouves e calas E fazes papel de mudo; Fazes bem, meu coração: Quem cala vence tudo. (1149) Variante na n.° 478 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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393 TOMO X

320. Da minha janela à tua, Do meu coração ao teu Podia andar um navio E o navegante ser eu (1150). 321. Dá cá as tuas mãos mimosas Com os teus dedos estendidos, Palpita-me inocentemente Nossos corações unidos. 322. Das janelas da botica Me atiraram com o limão; A casca deu-me no peito E o sumo no coração. 323. Dava-te o meu coração Se o pudesse arrancar; Se o arranco fico morto, Morto não te posso amar. 324. Dei um suspiro n’amêndoa, E um ai no fio cru; No meu peito ninguém entra, No meu coração só tu. 325. Deitei o cravo ó poço, A rosa no chafariz; O meu coração no teu Já vai criando raiz. 326. Dizeis que me quereis muito, Que no coração me levais; Assim que eu virar as costas Já de mim vos não lembrais. 327. Há tempo que lá me tens O meu coração por prenda; Olha lá como mo tratas, Qu’eu tenho quem o defenda.

(1150) Idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 58.

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394

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TOMO X

328. Hei-de trazer-te sobre o peito, Onde bate o coração; Não descubras a ninguém Os suspiros por quem são. 329. Já não tenho coração, Nem inteiro, nem partido; Já o mandei ao amor Dentro dum limão metido. 330. Já não tenho coração, Que m’o partiram as aves; As aves que m’o partiram Foram as tuas saudades (1151). 331. Já não vou a tua casa, Mando lá o meu coração, Que a tua gente costuma Dar bofetadas sem mão. 332. Já vi augas encharcadas, Já vi augas a correr, Já vi corações ausentes Tornarem-se inda a querer. 333. Menina, se sabe ler, Leia no meu coração, Que dentro dele há-de achar Se lhe quero bem ou não. 334. Meu amor se vires cair Folhas verdes na varanda, Olha que são saudades Que meu coração te manda. 335. Não há coisa que mais custe. Nem que chegue ao coração, Do que ter o amor vencido E vê-lo fugir da mão.

(1151) Variante de outra em MARTINS, Firmino – Folclore do concelho de Vinhais, p. 257.

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395 TOMO X

336. Nem no mundo há dois mundos, Nem no céu há dois Senhores; Nem o meu coração pode Ser leal a dois amores (1152). 337. O meu coração é um tanque Cheio de água, mete medo; Abre-te, meu coração, Vai regar o arvoredo. 338. O meu coração é terra, Hei-de mandá-lo lavrar, Para semear desejos Que tenho de te falar (1153). 339. O meu coração é teu, O teu de quem será? O meu morre pelo teu, O teu por quem morrerá? 340. O meu coração fechou-se, Fechou-se, já não se abre; Quem o fechou era seu, Ausentou-se e levou a chave (1154). 341. O meu coração tem penas, Ninguém o há-de saber; Ele as fez, ele as causou, Ele as há-de padecer. 342. O meu coração veste luto, E mais ninguém lhe morreu; Bem de luto pode andar Quem o seu amor perdeu. 343. Ó ave que vais voando Sem tripas, nem coração; Dás alívios aos mortos E aos vivos consolação. (1152) Variante da n.° 148 em SPOLETO – Cantares da minha terra e idêntica da publicada pelo Abade Tavares na Ilustração Trasmontana, (1908), p. 103, n.° 1. (1153) Variante de outra MARTINS, Firmino – Folclore do concelho de Vinhais, p. 265. (1154) Variante de outra publicada por CHAVES, Luís – Portugal Além, p. 104.

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TOMO X

344. Ó coração de baeta, Daquela mais denegrida, Sete anos há que te amo E ainda não estás resolvida! 345. Ó coração, ó pombinha, Ó asas, ó primavera; Estimava de saber A tua tenção qual era. 346. Ó tristeza, ó tristeza! Que mal te faria eu? Que tanto te assenhoreaste Do triste coração meu (1155). 347. Pus o pé na batateira, Atromentei o batatal; Não vi cara do meu gosto, Nem coração do meu igual. 348. Que não tenho coração Disseste há pouco, eu sei: Como queres que inda tenha Uma coisa que te dei? 349. Quem me dera amar um dia, Por amor ter afeição; Ser escravo, dar a vida Por um terno coração. 350. Quem perdeu o que eu achei Em cima desta parede? O coração duma pomba Bordado a fita verde. 351. Quero-te tanto, amor, Que não sei onde te meta; Meto-te no coração, Na derradeira gaveta.

(1155) Variante da n.° 580 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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397 TOMO X

352. Tenho o coração partido Às lanchas como o marmelo; O corpo tenho-o aqui E o sentido onde eu quero. 353. Tenho dentro de meu peito, A par do meu coração, Duas letrinhas que dizem Morrer sim, deixar-te não (1156).

CRAVO 354. Atiraste-me c’um cravo Pela minha porta adentro, Tão agastada me trazes Que nem com cravos me contento. 355. Cravo branco da janela Criado à revelia: Quem quer bem, trata por tu, Amor não tem senhoria (1157). 356. Cravo branco é loucura, Mandai-o p’r’ó hospital; Eu por ti bem louco ando, Não tem cura o meu mal. 357. Cravo roxo douradinho, Amante de toda a hora, Alívio de toda a pena; Queres-me deixar agora?! 358. Cravo roxo douradinho Que me nasceu na almofada, Não durmo nem descanso, Nem como nem faço nada.

(1156) Ibidem, variante das n.° 383 e 768. (1157) Idêntico em em LIMA, Pires de – Cancioneiro…, n.° 52. Outra variante diz no quarto verso: Quem não, por senhoria.

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TOMO X

359. Cravos brancos são beijinhos, Eu alguns te tenho dado; A maior pena que tenho É não ser do teu agrado. 360. Daqui p’ra minha terra Tudo são janelas verdes; Tudo são cravos e rosas Metidos nas paredes (1158). 361. Deitei o cravo ó poço Fechado, saiu aberto; Não há regalo maior Do qu’enganar um esperto. 362. Deitei o cravo ó poço E a rosa no chafariz; Agora vai-te gabar Que fui eu que te não quis. 363. Deitei o cravo ó poço Lá no fundo criou rama; Com amores do meu gosto Não se me dá de ter fama (1159). 364. Esta noite choveu água À borda do meu poço; Todas as flores murcharam, Só ficou o cravo roxo. 365. Estou presa nas mãos dum cravo D’um cravo do teu jardim; Se a prisão foi do meu gosto, Não tenham dó de mim.

(1158) Padre Firmino Martins, no Folclore do concelho de Vinhais, p. 264, menciona outra levemente diferente. Idem, José Manuel Miranda Lopes, Prior de Argozelo, na Agenda Brigantina, (1928), do dia 20 de Novembro, que é a mesma, depois publicada sob o n.° 159 nos Cantares da minha terra. (1159) Variante da n.° 197 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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399 TOMO X

366. Eu cravo, tu a rosa, Qual de nós se estima mais? Eu cravo pelas janelas, Tu rosa pelos quintais (1160)? 367. Não há roxo como o lírio, Nem verde como o loureiro, Nem vermelho como o cravo, Nem amor como o primeiro. 368. Nesta rua não há cravos, Nem janelas para os ter; No meio de tanta rosa Algum cravo há-de haver (1161). 369. O cravo depois de seco Significa amor perdido; Inda que queira não posso Tirar-te do sentido. 370. O cravo por simpatia À rosa branca se uniu, Foi por tão ditoso laço Que o amor-perfeito saiu. 371. O cravo roxo na tinta Deve sair amarelo; Mal d’amores não tem cura, Eu por mim me considero (1162).

(1160) LIMA, F. de Castro Pires de, no Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 101, dá outra idêntica. Na Revista Lusitana, vol. XVII, vem outra que diz: És o sol, eu sou a lua, Qual é que se estima mais? As rosas pelas janelas, Os cravos pelos quintais. (1161) MARTINS, Firmino A., no Folclore…, p. 259, e TAVARES, José Augusto, na Ilustração Trasmontana, (1910), p. 40, n.° 55, dão esta cantiga, da qual os dois últimos versos também se encontram em VASCONCELOS, J. L. de – Memórias de Mondim da Beira, p. 454. (1162) Variante da n.° 178 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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TOMO X

372. O cravo tem vinte folhas, A rosa vinte e uma, O cravo anda em demanda Por a rosa ter mais uma (1163). 373. O cravo tem vinte folhas, A rosa vinte e cinco; As penas que por ti passo Deus o sabe e eu o sinto. 374. Tendes cravos à porta, Acima vos vai o cheiro; A baga vos está caindo Na renda do travesseiro (1164). 375. Tendes o cravo na boca, Correntinha na garganta; Oh! quem vos vira menina Às horas que o galo canta! 376. Tendes um cravo na boca E um jasmim em cada dente; Tendes o falar muito doce E o querer muito excelente. 377. Trazeis um cravo no peito E uma rosa na cintura; Tendes os braços abertos P’ra minha sepultura.

D 378. Dá-me um beijo, Filomena, Que eu te darei um vintém; Os beijos da Filomena São caros, mas sabem bem.

(1163) MARTINS, Firmino A. – Folclore…, p. 259, e LIMA, Fernando de Castro Pires de, no Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 190, mencionam esta cantiga. (1164) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 260, dá uma com o mesmo sentido, mas diferente algo nas palavras.

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401 TOMO X

379. Dai-me o sim, dai-me o não, Tudo me podeis dar: Dai-me o sim de me querer E o não de me não deixar. 380. Dança, morena, Que eu já dancei: Eu e o par Que te arranjei. 381. Daqui à minha terra é longe, Não chegam os meus suspiros; Se tivessem de lá chegar Iam mais mortos que vivos (1165). 382. Das lágrimas faço contas Que rezo às escuras; Ó morte que tanto tardas! Ó vida que tanto duras (1166)! 383. Debaixo da gesta branca Saiu uma escritura; Duas letrinhas que diziam: Descansa, amor, sou tua. 384. De lá baixo vem o verão, Tempo de colher a fruta; Vou contar-te minhas queixas, Se me queres ouvir, escuta. 385. De Lisboa me mandaram Uma camisa bem feita; Com o retrato do amor No punho da mão direita. 386. Dei um ai que fez tremer As esquinas à capela; Recolheram-se as estrelas, Saiu o sol à janela.

(1165) Variante de outra na Revista do Minho, n.° 17 (1894). (1166) Variante da n.° 752 em SPOLETO – Cantares da minha terra e idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro…, n.° 61.

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TOMO X

387. Dei um ai que fez tremer As esquinas à tua sala; Se estás a dormir, acorda, Se estás acordada, fala. 388. Dei um nó na fita verde E outro no preto rigor; Ainda espero de dar outro Nos braços ao meu amor. 389. Deixaste a mim por outra, Isso pouco me importa; Inda te hei-de procurar. Como te vai na troca? 390. Delaidinha não te cases, Que ainda és muito criança; Se algum rapaz te falar, Nunca lhe dês confiança. 391. Deus do Céu valei-me, Já que o da terra não pode; O do Céu ‘stá sempre vivo, E o da terra logo morre. 392. Diga lá, ó menina, Já que é tão entendida: De que sorte se defende Quando se vê pretendida? 393. Eu sou como a flor vermelha Que no campo se está vendo, Metida entre espinhos; Desta sorte me defendo. 394. Dizeis que tenho amores No caminho da cidade; Se até agora era mentira Agora é verdade. 395. Doba, doba, dobadeira, doba, Não me enrices a meada; O novelo está pequeno Inda cabe em mão fechada. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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403 TOMO X

396. Os teus beijos são veleno, Que matam quem for beijado; Eu tenho muitos desejos De morrer invelenado (1167).

E 397. É certo o que diz o povo, É certo o que o povo diz: Na falta de competentes Pode um burro ser juiz. 398. É uma tesoura afiada A questureira d’aldeia: Corta chitas baratas, Casacos da vida alheia. 399. Em m’eu indo destas terras, Não me quero despedir, P’ra que uns não tenham pena E outros se fiquem a rir (1168). 400. Enjeitaste-me por pobre E eu a ti por judeu; Olha a diferença que faz O teu sangue para o meu (1169). 401. Era uma vez Um gato montês; Alça-lhe o rabo E chupa-lhe o pez. 402. Escrevi em tronco seco Algum dia o nome teu; O nome era tão lindo Que o tronco enverdeceu.

(1167) Idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 249. (1168) Variante de outra publicada pelo abade Tavares na Ilustração Trasmontana, (1910), p. 135, n.° 98. (1169) Variante da n.° 153 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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TOMO X

403. Esta noite sonhei eu Contigo, minha beleza; Acordei, achei-me só: Em sonhos não há firmeza (1170). 404. Essas mãos de alva neve, Mete-as em luvas verdes; Não te rói a consciência De m’enganares tantas vezes? 405. Esta noite sonhei eu, Sonhei que contigo estava; Depois da salvação Era o que mais desejava. 406. Esta noite sonhei eu Um sonho divertido: Que tinha na minha cama A forma do teu vestido. 407. Esta ronda está parada, Por não haver quem cante; Agora começo eu: Siga a ronda para diante. 408. Está o meu amor doente, Mas não é para morrer; Está o céu anuviado Mas não é para chover (1171). 409. Estes meninos d’agora, Estes que agora vão ser, Oferecem dez réis às almas Para a barba lhe crecer. 410. Estes meninos d’agora, São poucos, mas são valentes; Trazem a pia dos porcos Atrancada nos dentes (1172). (1170) Idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro…, n.° 78. (1171) Idêntica publicada pelo abade Tavares na Ilustração Trasmontana, (1910), p. 135, n.° 90. (1172) Ver tomo IX, p. 279, destas Memórias.

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405 TOMO X

411. Estou aqui neste deserto, Onde a desgraça me tem: Chamo, ninguém me responde, Olho, não vejo ninguém (1173). 412. Estou aqui neste terreiro, E o orvalho a cair; Por bem que o orvalho caia, Do terreiro não me hei-de ir (1174). 413. Estou entre dois caminhos, Não sei qual hei-de seguir: Quem nasce para a desgraça Pouco lhe serve fugir. 414. Estou à chuva, não me molho, Não sei donde a chuva vem; Vem das Frieiras da Régua Debaixo do armazém. 415. Estou rodeada de penas, Não são penas agravadas: De penas é meu vestido, Mas são penas mui desejadas. 416. Eu a amar-te e a querer-te, Tu a fugires de mim; Deus te dê por castigo Saudades sem ter fim (1175). 417. Eu amava um piáçá, Outro mais belo não há: Devemos estar prevenidas: Esse foi-se, outro virá. 418. Eu amar hei-de te amar, Que já to tenho prometido; Casar contigo não hei-de, Amor, logo to digo.

(1173) Variante da publicada pelo abade Tavares na Ilustração Trasmontana, (1908), p. 104, n.° 18. (1174) Colhida pelo Dr. Raul Teixeira no Portelo, concelho de Bragança. (1175) Variante da apresentada pelo CHAVES, Luís – Mouras encantadas, p. 231.

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406

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TOMO X

419. Eu amei-te, amei-te, Bem sabes que te amei; Conheci-te falsidade E logo te deixei. 420. Eu hei-de-te amar, truz, truz, Eu hei-de-te amar, zás-trás; Eu hei-de-te amar ó sério, Eu hei-de-te amar, tu verás. 421. Eu não sei que gato preto Se meteu entre nós ambos; Dantes inda nos queríamos, Agora nem nos falamos (1176). 422. Eu ouvi cantar o cuco Na rabela do arado; Estes mocinhos d’agora Trazem o rabo alçado.

ESTUDANTE 423. A capa do estudante Parece um jardim de flores, Toda cheia de romendos Cada um de várias cores. 424. Cantigas ao desafio Comigo ninguém as cante, Eu tenho quem mas ensine, O meu amor é estudante (1177). 425. Se o teu amor é estudante Também o meu sabe ler; Na escola onde o teu andou Tamen o meu foi aprender. 426. Diga-me cá, ó menina, Já que tanto aprendeu: Que coisa há no mundo Que nasceu e não morreu? (1176) Variante da n.° 272 em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1177) Idêntica em LIMA, Pires de – Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 42.

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407 TOMO X

427. Diga-me, ó senhor estudante Que estuda filosofia, Qual é a ave voante Que não tem peitos e cria; Aos vivos dá alimento E aos mortos alumia (1178)? 428. Estudante deixa o estudo, Anda p’r’o pé de mim; Vale mais uma hora d’amores, Que dez anos de latim. 429. O meu amor é estudante, Anda a estudar no liceu; Todas mo querem roubar E o meu amor é só meu. 430. O meu amor é estudante, Anda agora em latim; Se se chegar a ordenar Ninguém tenha dó de mim (1179). 431. O meu amor é estudante, Filho d’um juiz direito; Quando vai passear Parece um amor-perfeito. 432. Ó senhor estudante, Que estuda filosofia, Diga-me qual é a ave voante Que filhos ó peito cria (1180).

No folclore popular andam esparsos vários problemas de carácter científico, como vemos nos dois anteriores respeitantes a história natural. Na página 29 do tomo X destas Memórias mencionamos outro e agora adimos mais os seguintes tocantes à álgebra: Um gavião encontrou um bando de pombas e disse-lhe: «De onde vindes cem pombas?» «Cem pombas não, tornaram elas; mas nós, com outras tantas como nós, a quarta parte de nós e tu, gavião, cem pombas são». De quantas pombas constava o bando? De quarenta e quatro. (1178) Refere-se à abelha, mel e cera, de que se fazem velas para alumiar. (1179) Outra variante diz: «É que lhe direi que sim». E no terceiro verso: «Se se chegar a formar».

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408

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TOMO X

Corre ainda no povo outro problema algébrico. Diz ele: Um passageiro encontrou uma capela e prometeu ao padroeiro vinte réis se lhe dobrasse o dinheiro que levava. O santo fez o milagre e o viajante deu-lhe o vintém, guardando o resto. Mais adiante encontrou outra: fez o mesmo pedido com idêntico resultado. Ainda encontrou terceira capela e tudo se passou como nas anteriores, mas o vovente, depois de dar o vintém prometido, ficou sem dinheiro nenhum. Que quantia tinha inicialmente? Dezassete réis e meio. Estes e outros problemas, a par de muitas adivinhas populares, servem de espevitamento mental à lareira, nas longas noites de inverno. Ver adiante o artigo Fiar.

F 433. Fandango Maria, Fandango Zabel, Por vias do fandango Romperam-me a pele. 434. Feiticeira que fazes feitiços, Que mal te fiz eu? Se me tiras a vida na terra, Não me tires a glória no céu. 435. Foste gabar-te, garoto, Que me tinhas dado um cravo; Não foi cravo, não foi rosa, Foi um lencinho bordado. 436. Foste gabar-te, garoto, Que já me tinhas na mão! Gabaste-te antes de tempo, Quanto engana a presunção! 437. Foste gabar-te ao Porto, Ó meu cara de assobio: Eu até me desprezava Se em ti pusesse o meu brio. 438. Foste dizer mal de mim A quem meu peito adora; Se muito me queria antes, Muito mais me quer agora. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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409 TOMO X

439. Fui ó monte da carqueja Trouxe o molho pequenino; Estes rapazes de agora Estão marcados no focinho.

FIAR, FUSO, LINHO, ROCA, MEIA 440. Brinquinho, tanto brincar, Já o brincar me aborrece; Quanto mais brinco contigo Mais a barriga te cresce (1181). 441. Entre dois lençóis de linho Também tenho um de estopa, Onde o diabo limpa o cu Para você limpar a boca. 442. Maria, monda o teu linho, Não estejas à janela; Inda ontem passei nele, Não sei s’é linho, s’é erva! 443. Menina, venha-me ver Às grades desta cadeia; Se não quer perder tempo Venha fazendo na meia (1182). 444. Se não quer fazer na meia, Venha fiando na roca; Uma fala, duas falas, Fia-se uma maçaroca. 445. Ó quem fora rato! Ratara pelo chão; Ratara as maçarocas Às meninas do serão. 446. Quem fora tão ditoso Como o linho que fiais? Quem vos dera tanto beijo Como vós ó linho dais. (1180) É o mouricego (morcego). (1181) Refere-se ao fuso e à maçaroca. (1182) Ver a de n.° 426 nos Cantares da minha terra. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOMO X

447. Quem me dera ter a dita Que tem o pano de linho! P’ra andar nesse teu peito A servir de colarinho. 448. Quem tem linhaça tem linho, Quem tem linho tem vinténs; Quem tem amores tem carinhos, É coisa que tu não tens. 449. Tendes colete de linho, A mais delicada prenda; Andais mui arriscadinha, Nosso Senhor vos defenda. 450. Tendes colete de linho Por fora ramos de seda, Espartilho d’oiro batido Cordão de meia moeda. 451. Uma meia meia-feita E outra meia por fazer, Diga-me lá, ó menina, Quantas meias vêm a ser?

FIGUEIRA

(1183)

452. Fui à figueira aos figos, Corri-lhe todos os canos; Tomar amores no céu, Qu’os da terra são enganos (1184). 453. Nunca vi figueira preta Dar figos verdiais; Nunca vi moça solteira Dar as queixas que vós dais. 454. Nunca vi figueira brava Dar os figos na raiz; Nunca vi moça solteira Ter tento no que diz. (1183) Ver o artigo Padres. (1184) Variante da n.° 308 nos Cantares da minha terra.

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411 TOMO X

455. Nunca vi figueira preta Dar figos amarelos; Nunca vi rapaz solteiro Beber água sem farelos. 456. Pensais que sois mais que as outras. Que só em vós se encerra a virtude; Sois como o pau da figueira Muita cinza e pouco lume (1185). 457. Pensais que sois mais que os outros, Que só em vós se encontra o saber; Sois como o pau da figueira Que se queima sem arder. 458. Tendes cravos na janela, Melhor era ter figueiras; As figueiras dão figos E os cravos dão canseiras.

FLORES E ARBUSTOS DIVERSOS 459. A madre-silva cheirosa No monte reverdece; Quem altos amores toma Dobradas penas padece. 460. Anda cá meu goivo branco Criado na goivaria; Se em tua casa és estimado Eu também te estimaria. 461. Coentro verde do poço, Canastro velho sem fundo, Já te podes ir deixando Das vaidades do mundo. 462. Das flores que há no campo O rosmaninho é o rei; Tiveste pena de mim, Choraste, qu’eu bem sei (1186). (1185) Variante da n.° 155 nos Cantares da minha terra. (1186) O abade José. A. Tavares publicou outra quase idêntica na Ilustração Trasmontana, (1908), p. 103, n.° 6.

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TOMO X

463. Debaixo da malva-rosa Tenho o amor encoberto; Não importa que o mundo fale Se ninguém o sabe ao certo. 464. Deitei-me e adormeci Ao pé do triste xarguaço; A flor me respondeu: Não chores por quem t’é falso (1187). 465. Fui ao jardim das tulipas Colher um amor-perfeito; Achei o jardim fechado, Pus um martírio ó peito. 466. Hei-de amar o feto Que tem a folha em cruz: Hei-de amar esses teus olhos Que até de noite dão luz. 467. Junquinho verde ouvi-me Manjaricão escutai-me, Rosa branca respondei-me, Amor-perfeito falai-me. 468. Lá te mandei um raminho Colhido p’las três da tarde; Estimava de saber Se era da tua vontade (1188). 469. Se era da minha vontade Tu não o hás-de saber; Tenho templas (1189) em meu peito, Mais certo era morrer. 470. Não há flor como o suspiro, Cá na minha intenção; Todas as flores se vendem, Só os suspiros se dão.

(1187) Padre Firmino A. Martins, no Folclore do concelho de Vinhais, p. 257, dá outra idêntica no sentido, mas algo variada nas palavras. (1188) Variante da n.° 388 em SPOLETO – Cantares da minha terra. (1189) Templas deve significar mágoas, mas a cantadeira não me soube dizer se assim era.

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413 TOMO X

471. Não há flor como o suspiro Nem cheiro tão singular, Nem tempo tão mal perdido Como o que gastei em t’amar. 472. O meu amor vai além, Vai além qu’eu bem o vejo; Tem o passo miudinho Como a folha do poejo. 473. O pobre do malmequer Não faz mal a ninguém; São todos a desfolhá-lo P’ra ver a sina que têm. 474. Ó alto lírio roxo Cobre-me c’oa tua sombra; Roubei uma menina, Não tenho onde a esconda (1190). 475. Ó arvoredo fechado Não digas que aqui vim; Vou colher uma flor Sem pôr a mão no jardim. 476. Parei a chorar minhas penas Ao pé do verde xarguaço; Uma flor me respondeu: Não chores por quem te é falso, 477. Pus o pé na junqueirinha Quando por ela passei; Dá-me novas, junqueirinha D’um amor que te entreguei. 478. Pus-me a apalpar as gamboas Que a quinteira tem na quinta; Já tem marmelos maduros E o seu bastardo já pinta (1191).

(1190) O Padre Firmino A. Martins, no Folclore…., p. 260, dá outra quase idêntica. (1191) Recolhida pelo Dr. Raul Teixeira, no Portelo, freguesia de França.

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479. Quem diz que o verde é feio Digo eu que mente; Não há jardim de flores Onde o verde não entre. 480. Se a perpétua cheirasse, Era a rainha das flores; A perpétua não cheira, Por isso não tem amores. 481. Semeei o bem-te-quero À beira do meu quintal; Veio a água e levou-mo, Não te quero bem nem mal (1192). 482. Semeei o bem-te-quero À borda do areal, Veio a água e levou-o; Não te quero bem nem mal. 483. Semeei o bem-te-quero Nos campos do bem-te-adoro; Bem-te-queria, bem-te-quero, Dias há que por ti morro. 484. Tenho na minha janela Tulipinhas a nacer; Trocaste-me a mim por outra Inda t’hás-de arrepender (1193).

FREIXO 485. Deixa-me ir depressa Ao freixo tirar um ninho Está o freixo a quebrar Com o peso do passarinho (1194). 486. Naci entre dois freixos, Foi assim a minha sorte; Padeço mal d’amores, Não tenho quem me conforte. (1192) Colhida pelo Dr. Raul Teixeira, no Portelo, freguesia de França. (1193) Idem, idem. (1194) Variante da n.° 64, em LIMA, Pires de – Cancioneiro…

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487. O freixo é árvore bonita, Com toda a sinceridade; Faz lá niu o passarinho Porque é da sua vontade. 488. O freixo é prado verde, Que no ar sustenta a rama; Contigo, minha menina, Já me não livro da fama. 489. Quando o sol deixar de dar Na ponta do alto freixo Eu lhe direi, menina, A razão porque a deixo. 490. Ripa a folha ao teu freixo Que ao meu já lha ripei; Tira de mim o sentido Qu’eu de ti já o tirei. 491. Subi ao alto freixo A cortar uma verdasca; O amor que é entendido Um aceno lhe basta. 492. Subi ao alto freixo Na ponta fiz um anel; Estes meninos d’agora Todos trazem arganel.

G 493. Gentil e formosa moura És a minha salvação; Eu em paga te darei O meu leal coração. 494. Gosto de ti, rapariga Por seres acautelada; Quem se acautela não perde, Se não perde não ganha nada.

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GAITEIRO, GUITARRA, VIOLA, PANDEIRO

(1195)

495. A guitarra chora e grita Nas mãos do tocador; Também as beatas choram Aos pés do seu confessor. 496. Este pandeiro qu’eu trago, Este pandeiro que tenho na mão, É da minha cunhada, Mulher do meu irmão. 497. Lá vem a gaita No cimo do lugar; Pousei a roquinha Pus-me a bailar (1196). 498. Lá vem a gaita E o gaiteiro não; Ó que dor me deu No meu coração. 499. Mandei fazer uma bengala Deste pau que veio de fora, Para escachar a cabeça Ao tocador da viola. 500. Não sei ler nem escrever, Nem mesmo tocar viola; Ainda espero de aprender, Menina, na sua escola. 501. O meu amor é chofer, Trabalha de gasolina; Quando chega à minha porta Toca bem a buzina. 502. O pandeiro é moreno, Morenico e toca bem; A tocadora que o toca Morenica é também. (1195) Ver artigo Sogra. (1196) Variante da dos Cantares da minha terra, «Prefácio».

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503. Tiro-liro, liro, Flor do calineiro; Todos se namoram Da filha do gaiteiro! 504. Toca, toca, pandeirinho, Senão hei-de-te rasgar; À porta do meu amor Eu te farei ressonar. 505. Tocador da viola Tens dedos de algodão; A viola não m’agrada E o tocador também não. 506. Tocador da viola Tens dedos de marfim; A viola não m’agrada Mas o tocador sim.

GALEGAS Como o antigo reino ibérico da Galiza forma um todo geográfico com o nosso Portugal, principalmente a parte a norte do Douro, e com ele constituiu nação à parte, resulta que a etnografia, a comunidade léxica evidenciada nos cancioneiros, romanças, rifões populares, locuções proverbiais e quanto englobamos sob a rubrica do folclore, apresenta claros vestígios dessa ligação (1197). Esta comunidade já vem dos tempos luso-romanos, dos pré-romanos mesmo e ainda dos pré-históricos, segundo se colhe da identidade da arte neolítica e rupestre e também da arquitectónica românica, gótica e posterior. Da mesma forma de lá vieram e também daqui para lá foram muitas famílias memoradas nos cancioneiros e livros genealógicos, devendo presumir-se o mesmo quanto às plebeias. Não há pois influência de uma região sobre outra, mas sim paralelismo evolucionando de um fundo comum étnico em contacto perma-

(1197) Para o intercâmbio galaico-português tocante a outras terras portuguesas, estranhas ao distrito de Bragança, pode ver-se com proveito SANTOS JÚNIOR – Afinidades galaico-portuguesas de folclore, 1929 (Separata do fascículo II, vol. IV, dos Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia), onde aponta quarenta e quatro cantigas galaico-portuguesas.

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nente, mantido depois da separação em duas nacionalidades pelo intercâmbio económico e multíplices relações de vizinhança. Algumas das romanças adiante publicadas são cantadas mesmo em galaico-português, noutras encontram-se várias palavras; o mesmo fenómeno se observa no Folclore do concelho de Vinhais, v. g. na pág. 178 e noutras, bem como nas cantigas propriamente ditas, como adiante se verá, No índice final deste tomo apresentam-se notícias referentes aos Freires de Alcanices, Monte de Rama, Moreirola, São Martinho da Castanheda, todos situados em Espanha, e às muitas terras que possuíam no distrito de Bragança, onde, por este facto, deviam influenciar. No tomo IV, págs., 107, 114, 117, 119, 120, 121 e 124, e tomo VIII, pág. 82, publicamos diversos documentos régios dos séculos XV e XVI, que concedem grandes privilégios aos castelhanos por ser gente de «muito boa vizinhança». Tudo isto devia concorrer poderosamente para manter o intercâmbio étnico. Amiguinhos, amiguinhos, mas de quando em vez barulhavam, espancavam-se, farpeavam-se ironicamente. No indicado índice geral do presente tomo, artigo Guerras, apontam-se as diversas páginas destas Memórias, onde se narram os roubos, incêndios, morticínios e danos que espanhóis e portugueses se fizeram reciprocamente, facto que da mesma forma devia concorrer para conservar o intercâmbio folclórico e o esfuziar irónico. Nas povoações raianas vive mais intensamente este sentimento e é enorme a lista das anedotas com que mutuamente se frecham. Algumas para amostra: Um galego (1198) encontrou um sapo e, não sabendo que bicho era, fez com que o alcalde reunisse o concelho a fim de ver se alguém o conhecia em face das características que disse ter: focinho rombo e pata curta. Pues pata corta e fociño rombo es um cegoño, disse um dos mais entendidos em zoologia. Outro andou a servir em casa de um farmacêutico português, e quando se foi embora roubou as receitas, indo estabelecer-se como médico em terra distante. Quando ia visitar os doentes metia a mão no fardel das receitas, que levava ao ombro debaixo do capote, dizendo ao mesmo tempo: Dios la saque buena e entregava-a aos doridos para ser aviada na botica e o remédio aplicado ao doente. Outro, ouvindo um pregador a resenhar os tormentos aplicados a Cristo quando marchava para o Calvário, dizia no final de cada um: bien hecho. Deram-lhe tantos açoites, e o galego: bien hecho. Cuspiram-lhe tantas vezes – bien hecho, e assim sucessivamente. Como alguém lhe estra(1198) Convém notar que os bragançanos chamam galegos a todos os espanhóis de qualquer província que sejam, e a esta palavra ligam sentido depreciativo.

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nhasse a blasfémia, obtemperou convicto: baia, baia, pues todos los años a pegar-le, a arrastar-se-lo, a cuspilo, a clavar-lo y no tiene emenda, pues que se emende y no voelva acá. Outro, da povoação raiana de Padornelo, ouvindo cantar a torda em fins de Junho, disse para um vizinho: Ai compadre, vamos tener la primabera temprana, iá canta la chulra-mulra aos vinte e cinco de S. Juan na ribeira de Padornelo. Convém notar que a torda é dos primeiros pássaros que canta logo em Fevereiro e ainda antes. Picara, si no fuera por impedir la navegacion te sorvia dum trago. Assim apostrofou um galego, na sua costumada linguagem hiperbólica, o mar, por uma onda lhe ter molhado os sapatos. – És um idiota – dizia o amo português ao seu criado galego, que lhe pedia licença para ir à terra assistir ao baptizado de um filho recém-nascido – pois não vês que estando em minha casa há mais de dois anos, sem nunca veres a mulher, o filho não pode ser teu! – Como no es mio?! – exclamou o criado – entonces los jatos de las vacas de ustede nascidos en la quinta da Tapada, onde vuestra Siñoria so lo vai de años a años, no son suios? – Está certo – diz o amo, e o homem lá seguiu satisfeitíssimo em demanda dos caros penates, favoneados por mais um rebento. O clero, que tantos serviços prestou à causa patriótica (1199), subsidiando-a pecuniariamente, dando-lhe pratas, alfaias, rendimentos do tesouro da igreja, arrumando, à laia de reforma, os estropiados e mutilados das guerras em sinecuras, fomentando-a moralmente pela criação de lendas, sebastianices e mística nacionalista (1200), não se ficou atrás e fuzilou nuestros hermanos anedoticamente no seu latim escarninho. Eis algumas, das muitíssimas que podíamos citar: Um cura galego foi chamado a fazer exame de confessor, e como lhe mandassem traduzir a oração da reza do dia, que era São Nicolau (6 de Dezembro) e diz: «Deus, qui beatum Nicolaum Pontificem innumeris decorasti miraculis......», leu: Deus que devoraste o beato Pontífice Nicolau pelos ombros...... (bom estômago, monologou o examinador). É que cá esta, repontou inchado o cura, miraculis, por milagre. Devorou-o miraculosamente. – Muito bem, disse o examinador, é assim mesmo que se entende o espírito da língua latina, traduzindo por alto, sem se prender com o sentido material das palavras, como fazem os idiotas ignorantes, e aprovou o padre com distinção. Outro, que era pároco de Torrente, chamado também a exame de confessor, bebeu demasiado durante a viagem, caiu do macho abaixo e rom(1199) Ver tomo IV, p. 475 a 505, 530, 538 a 555 e 564 destas Memórias. (1200) Ibidem, tomo I, p. 76, e tomo IV, p. 497.

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peu a cabeça. No exame mandaram-lhe traduzir o texto do Salmo 109, versículo 7, que diz: De torrente in via bibit: propterea exaltavit caput. Depois de reflectir maduramente, exclamou: pero que presto supierum ustede los chasco que me passó. Lo que es? arriscou o examinador. O padre contou então o caso do vinho, seguido da queda do macho, e traduziu: o da Torrente, isto é, o cura da Torrente, bebeu no caminho e por isso se lhe exaltou o couro furado da cabeça. Os examinadores, maravilhados pela agudeza com que o padre sabia ajeitar os textos bíblicos aos diversos casos da vida, aprovaram-no com louvor e fizeram com que o bispo o chamasse para professor de exegese no seminário. Outro, querendo animar um penitente a confiar na misericórdia divina, que muito receava por causa da grandeza das suas culpas, lembrava-lhe que todos éramos transgressores, inclusivamente os astros, e justificava com o texto do Salmo 50, versículo 6, que diz: Tibi soli peccavi, traduzindo: até o sol pecou. Outro, também num exame de confessor, traduzindo o Salmo 113, versículo 3, que diz: Mare vidit, et fugit: Jordanis conversus est retrorsum, leu: o meu macho viu as éguas do tio João e virou-se a fugir para trás, isto é, para elas. É que realmente no caminho lhe passara caso idêntico e supôs que o texto era com ele próprio. Yo no comprendo el flamenque, dizia um padre espanhol a um colega francês que lhe perguntara em latim, visto de sacerdote se tratar, se era pároco daquela povoação – Tu es pastor hujus populi? Outro, numa peregrinação a Roma, não caía em si de admirado ao ver as crianças a falar francês nesta nação, coisa que ele, apesar de ter ficado sempre distinto nos seus estudos, nunca pudera conseguir. O mesmo, chegando a Roma e vendo um colega que se lhe dirigia em latim, disse para os companheiros: picaro, me hablo en italiano e por esso no lo pude contestar que se me habla en latin lo confundia. Mais outra para terminar, e esta autêntica, pois a resenha de todas daria grosso volume. Um padre de Rio de Onor de Cima, povoação fronteiriça ao concelho de Bragança, que fora professor de teologia no Seminário de Astorga e se arrumara na sua aldeia quando velho, exclamou colérico ao avisarem-no para exame de confessor: Tanto examino, tanto diabro para una porra duna Missa que un hombre tiene de decir! Contou-ma o Padre José Martins Portelo, de Baçal, que se refugiara, quando estudante, naquela povoação, a fim de escapar à apanhia para soldado pelos anos de 1845. Muitas vezes me lembra o caso do Padre de Rio de Onor de Cima ao ir para as Conferências Eclesiásticas, vulgarmente chamadas «Palestras», impostas pelo Novo Código de Direito Canónico, ou, melhor, pelos que não MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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vêem o espírito da lei e a estendem antipedagogicamente a velhos de mais de setenta anos, incapazes já de aprender, máxime quando os presidentes, inchados de prestígio palaciano e vazios do mental, as esterilizam com rabugices fátuas auridas em cartapácios sem cotação teológica ou devocionários amaneiradinhos cheios de preciosismos baratos. Reconheço a utilidade das conferências para os menos de setenta anos, mas queria que à frente delas, pelo menos na sede diocesana, estivesse, como era fácil, um professor de teologia do seminário, que soubesse o que dizia e entendesse o que lhe dizem. Só mais outra anedota, e esta recente, ouvida também em Rio de Onor de Baixo pelo actual pároco Padre Manuel João Rodrigues. Num enterro, o pai da defunta, ao ser lançada à sepultura, vociferou aflito: Adiós Maria, rica hija de mi alma! me cago en la muerte judida, recoño. Quem conhece a linguagem corrente espanhola não estranha certos palavrões que parecem obscenos e não são, pois os encontramos de não menor crueza nas Crónicas de Fernão Lopes, nos Livros de Linhagens e noutros dos nossos escritores quinhentistas. Outro estava jogando el tresillo e recomendou que o avisassem a tempo de poder rezar o Breviário. Siñor cura es hora; dieron la onze! O cura não fez caso, e ele continuou: Que dieron las onze y media. Baia, baia, contestou, Matines y Laudes son p’ra los frailes; Prima, Tercia, Sexta y Nona, Dios perdona; Viesperas e completas breve se le hecha. Siñor cura, que está dando la media noche. Bueno, disse ele, pues passó la hora. 507. La vaca rabona Del cura chiquito Mi padre la tiene Num quarto baxico Y mi madre nos hace Mui bueno puxerico. 508. El cura chiquito Durmio com mi madre, Que desgraça será Se mi padre lo sabe (1201).

O significado da versalhada é este: roubaram ao cura uma vaca e presumia-se quem fora, mas não havia testemunhas e ele prometeu um fato novo ao filho do suposto ladrão, se no domingo cantasse na igreja a sexti-

(1201) Outra variante diz nos dois últimos versos: Buena vai ‘star la cosa Se mi padre lo sabe

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lha acima, sem descobrir nada antes. O rapaz porém disse-o à mãe e esta impôs-lhe a quadra em vez da sextilha. Quando no domingo o padre, à estação da missa paroquial, falou no caso da vaca, lembrando que as verdades saíam da boca dos inocentes e ouviu a quadra, voltou-se para o altar dizendo: vamos, vamos, de niños no se hace caso: Orate frates, e continuou a missa. Tal a explicação que dão da locução proverbial Orate frates, orate frates, muito usada em Espanha para mostrar indiferença por um assunto de que se esperava tirar partido, mas que, por circunstâncias imprevistas, resultou contraproducente.

QUADRAS SATÍRICO-IRÓNICAS 509. Os galegos da Galiza Quando se vão casar Levam la barriga llena De patacas por cascar. 510. Os galegos da Galiza Quando se vão casar Levam a jaqueta rota E a camisa por lavar. 511. Os galegos da Galiza Quando vão de procissão, Levam um gato por santo E uma velha de pendão. 512. O gaiteiro da Godinha (1202) Já não toca quando quer Quebraram-lhe a gaitinha E emprenharam-lhe a mulher. 513. Se fores a Portugal Não vás p’ra Fiães, Que prendem as pedras E çomam-te os cães (1203).

(1202) Godinha, povoação galega fronteiriça do distrito de Bragança. Ainda conheci o gaiteiro: chamava-se Alonso e gozava de enorme fama nas festanças portuguesas como tocador. (1203) Dizem os bragançanos que um galego veio a Fiães, povoação fronteiriça raiana no concelho de Chaves, convizinha do distrito de Bragança, numa manhã de grande geada e, vendo-se ata-

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QUADRAS QUE SE CANTAM NO DISTRITO DE BRAGANÇA MESMO EM GALEGO

514. A tu puerta estamos três, Todos três te queremos, Salga la niña y escoja, Los demas nos marcharemos (1204). 515. A Zamora, a Zamora, Que las hai guapas; Dejemos Alcañices Curral de vacas. 516. A la entrada d’Alcañices Hai una gran laguna, Onde se laban las feas Que guapa no hai ninguna. 517. Adiós cidade de Burgos Recordos traigo de ti: Namorei uma burgalesa Y ella no me quijo a mi. 518. Ella no me quijo a mi, Con otro se casó; Agora anda pescudando La vida que traigo yo. 519. Ai de mi, que dieron las once Y mi marido no viene! Qual será la picarona Que mi marido detiene?

cado pelos cães e não podendo utilizar as pedras para se defender, por estarem pegadas ao solo pelo gelo, entendeu que acintosamente as tinham prendido; de onde a cançoneta. Ainda com o mesmo sainete dizem: se fores a Portugal nun che vás p’ra terra de bregancia, que che dan unos garvanços: dois nel tenedor, tres nel solo, ficache un hombre muerto de ambre; vaiche p’ra terra de Mirandela, que che dan unas couváças, los señoritos como iñorantes, comem las verdaças y a nós otros dan nos las maduraças: unas nel tenedor, otras a rastros, tudo se vai p’ra pança y ficache un hombre como um tudesco. (1204) Variante de outra em MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 323.

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520. Ai de mi, que no tiengo Padre ni madre: Tiengo una cuñadita, Diós me la guarde. 521. Ai de mi, que siendo niña, Dei la palabra al mancebo: Sin licencia de mi padre A cumplila no me atrebo. 522. Ai de mi, valga-me Dios, Que valor tiene el dinero! Una niña como yo Rendida dun trampolinero! 523. Cada vez que te veo, Veo la muerte; Ai de mi que no puedo Passar sem verte! 524. Carretera de Zamora Como te van poner! Veinte y cinco faroles Toda la noche a arder. 525. Cavallito como el mio Nó lo tiene el rey d’España! Para ménear una pata Es menester una semana. 526. Como te llamas? Maria Caca. Y tu madre? Caca Maria. Como no vas ser caca Se vienes de cacaría?! 527. De los cielos á la tierra Oyi una voze nel aire; Lo que quiera bibir tranquilo No ponga su amor en nadie. 528. Debajo del puente Estan retrumbando; Son las castellanicas Qu’estan llavando. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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529. Debajo del puente Retumba la auga; Es una labadera Que panos llaba. 530. El amor y el interesse Se pusierum á la porfia: Pudo mas el interesse Que el amor que te tenia. 531. El dia que Dios nació Nacieron todas las flores; En la pila del bautismo Cantaron los rouxinoles. 532. El padre del niño Fue a Ribadeo; Estava malo tiempo. Luego se volveu. Tun-tun, ró-ró Ró-ró, tun-tun. 533. Se num me intiendes Yntiendel-o aora; Que en casa ’stá Ei padre del niño que llora. Tun-tun, ró-ró, Ró-ró, tun-tun. 534. Hija, peina-te bien Y bai al baile; Comas, que no comas, Nadie lo sabe. 535. La palomilla del rio Tiene la pechuga blanca, Tamien la Virjen Maria Fué concebida sin mancha. 536. La Virjen ama todos Los lismoneros; Disprecia los ladrones Y sus dineros. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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537. Las ermanas de Manólo Ya no salen de passeo, Porque tienen nel carcel Su ermano prisionero. 538. Naquela ilha está um cadaver, Esse cadaver de quien será? Me han dicho que es de Manólo Que se murió na solidad. 539. Las muchachas de Zamora Dicen que no beben bino; Pero debajo del manton Tienen el jarro ’scondido. 540. Mi madre solo quiere que traiga Muchachos de cara blanca; Y yo soi uno carboeríco Que vengo de Salamanca. 541. Mira que che mira Dios, Mira que che ’sta mirando; Mira que vas murir, Mira que no sabes quando. 542. Nel Robledo nace el sol, Nel Ojilde las estrelas, Nel pueblo de Lobeznos Las muchachas parideras (1205). 543. O piolho está doente, Á pulga doille a barriga E o ladrón do coscobello Tem a espiñela caida (1206). 544. Por las calles fué a Zamora, Corriendo tienda por tienda, Solo a ver se encontraba Un pañuelo de encomienda.

(1205) São três povoações espanholas fronteiriças de Bragança. (1206) Vem em FRAGUAS FRAGUAS, Antón – Do Fol-klore de Armeses-Listanco, 1931, p. 6 (separata do «Nós»).

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545. Quando Juan Pendailo Andava nel bailo, Luego dixo Marica: Todos se arrañan onde le pica. 546. Quando passo por tu puerta Cojo pan y voi comendo, Para que no diga tu padre Que solo cun verte me mantiengo. 547. Quando passo por tu puerta Lievo las medias caidas Para que no digan tus padres Que te prendo con las ligas. 548. Quando passo por tu puerta Siempre se me cai el sombrero, Mirando para tu ventana Se tiene bueno subidero. 549. Quatro nombres Tiene el mi majo: Quico, Francisco, Pancho y Paco. 550. Se fores a Formoselle Não bebas agua nel Doro, Que está corriendo para ele La sangue de matar el toro. 551. Sale morenita ao balcon, Quiero mirar-te la cara; No salgo, granero, nó Que me tienes enfadada. 552. Señor alcaide maior No prenda ustede los ladrones, Que tiene ustede una hija Que rouba los coraciones. 553. Se el mar fuera de tinta Y el cielo de papiel Y los pices escrivanos A escrivir a dos manos No escrivirian en cien años La maldade de una mujer. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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554. Tenho três ovelhas No Vale de La Ribera, Uma já não come, Outra já não bebe E outra por li anda Tocando la sincerra. 555. Tu madre anda diciendo Que y’o p’ra ti soi poco; Passemos la ribera Y cortaremos un chopo. 556. Una vez que fui nobia Perdi el rozario; D’otra vez que lo sêa Tendré cuidado. 557. Vós otros decis Que yo soi mui feáca; Las incas de mi padre Me hacen guápa.

QUADRAS QUE SE CANTAM NO DISTRIRO DE BRAGANÇA IDÊNTICAS A OUTRAS GALEGAS EM PORTUGUÊS

558. A salsa na minha horta Arrebenta pelo pé; Assim arrebente a boca A quem diz o que não é. EM GALEGO

559. Teño unha herba no prado Rebenta pel-o pé; Tamen tu vas rebentar Por decir o que non é (1207).

(1207) Publicada por FRAGUAS FRAGUAS, Antón – Do Fol-klore de Armeses-Listanco, p. 7, n.° 47.

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EM PORTUGUÊS

560. Aqui está meu coração, Se o queres matar, podes; Olha que estás dentro dele, Se o matas também morres (1208). EM GALEGO

561. Ahi tienes mi corazon Si lo quieres matar, puedes, Mas dentro del vas tu... Si lo matas también mueres.

EM PORTUGUÊS

562. Chamaste-me morena, Isto é do pó da eira; Se me vires no domingo Sou como a rosa na roseira (1209) EM GALEGO

563. Anque che son moreniña Eche do polvo da eira; Verasme para o domingo Como rosa na roseira (1210). EM PORTUGUÊS

564. Debaixo da água se criam Coisinhas que sabem bem Tamem eu m’ando criando Para regalo d’alguém. (1208) Variante das n. os 106 e 527 em S POLETO – Cantares da minha terra e idêntica a outra dada por VASCONCELOS, J. L. de, nos Ensaios, II, 228, acompanhada da versão, que diz ter ouvido a um espanhol. (1209) Quase idêntica em CHAVES, Luís – Portugal Além, p. 56; LIMA, Pires de – Cancioneiro…, n.° 352, e em SPOLETO – Cantares da minha terra, n.° 156. (1210) Publicada por LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro galego, 1932, p. 7 (separata do «Nós»).

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EM GALEGO

565. Debaixo da auga nacen Cousinas que saben ben; Eu tamen me vou criando Para amparo de alguién (1211).

EM PORTUGUÊS

566. És branca como o pote, Corada como o trigo; Se não te levarem de noite De dia não tens perigo.

EM GALEGO

567. Eres blanca como o pote, Negra como a parrumeira; Se pol-a noite non campas De dia no hai quen te queira (1212).

EM PORTUGUÊS

568. Hei-de subir ao alto, Que do alto vejo bem; Só para ver o meu amor Se fala com alguém (1213).

EM GALEGO

569. Teno de subir, subir, Que do alto vexo bén, P’ra mirar os meus amores Si me falam con alguén.

(1211) Ibidem, p. 4. (1212) Ibidem, p. 7. (1213) Variante de outra dada pelo DR. SANTOS JÚNIOR – Afinidades galaico-portuguesas de folclore, p. 7, colhida em Barcelos, de quem é a galaica.

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CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

431 TOMO X

EM PORTUGUÊS

570. Hei-de casar este ano Ou p’r’o ano que vem; Vão as mulheres baratas: Quatro centos ó vintém (1214). 571. As casadas a pataco, As solteiras a tostão, E a canalha das viúvas A dez réis o quarteirão. 572. Ora seja Deus louvado! Que barateza aí vem Cada homem cinco réis. Quatro por um vintém.

EM GALEGO

573. Alabado sea Dios Que xa ven a barateza: Os homes a catro cartos As mulheres á peseta (1215). 574. Alabado sea Dios Que xa ven a barateza: Os homes a catro pesos As mulheres á peseta (1216).

EM PORTUGUÊS

475. Lá baixo vem o mocho De penedo em penedo; Vai-te daí ó mocho, Só c’os olhos metes medo.

(1214) Nos Cantares da minha terra vem uma variante desta sob o n.° 248, mas aplicada aos homens. (1215) LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro galego, p. 6. (1216) Ibidem.

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432

CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

TOMO X

EM GALEGO

576. Canta moucho, canta moucho Arredor d’ese penedo; Anque rebougues os ollos Eu ter non che teño medo (1217). EM PORTUGUÊS

577. Lá em baixo vem o sol Carregadinho de colheres; As verdades são dos homes E as mentiras das mulheres. EM GALEGO

578. Marica, tente dereita Que che can os alfileres; As verdades son dos homes, As mentiras das mulheres (1218). EM PORTUGUÊS

579. Meu amor fala baixinho, Que as paredes têm ouvidos; Olha que os segredos encobertos São os mais sabidos. EM GALEGO

580. Namorados falar baixo Que as paredes ten oidos; Os amores mais secretos Son eses os mais sabidos (1219). EM PORTUGUÊS

581. Minha mãe é bravazona, Bate c’os pés no sobrado; Ela diz que não quer genro E eu já lho tenho buscado. (1217) Publicada por FRAGUAS FRAGUAS, Antón – Do Fol-klore de Armeses – Listanco, p. 5. (1218) Publicada por LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro…, p. 6. (1219) FRAGUAS FRAGUAS, Antón – Do Fol-klore de Armeses-Listanco, p. 6.

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CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

433 TOMO X

EM GALEGO

582. Miña nai cando me reñe Peta co pé no sobrado; Ela di que non quer xenro E eu xa llo teño buscado (1220). EM PORTUGUÊS

583. Minha mãe é pobrezinha, Não tem nada que me dar; Peço-lhe pão, dá-me beijos, Volta as costas e põe-se a chorar (1221). EM GALEGO

584. Mina nai como é moi probe E non ten pan que me dare, Enche-me a cara de bicos E despois rompe a chorare (1222). EM PORTUGUÊS

585. Minha mãe me está chamando Das Lajinhas da Adeganha; Valha-me Deus, que mulher, Pensa que o vento m’apanha (1223). EM GALEGO

586. Mina nai chama por mim Dende o alto da Portela: Pensa que me leva o aire E o aire a mim non me leva (1224).

(1220) LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro galego, p. 15. (1221) Já vai neste tomo, p. 70, mas repete-se para melhor se ver o paralelismo. (1222) LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro…, p. 16. (1223) Já saiu no tomo IX, p. 272, mas repete-se para melhor confronto com a galaica. (1224) LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro…, p. 15.

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434

CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

TOMO X

EM PORTUGUÊS

587. Minha mãe, minha mãezinha, Linda mãe tenho eu; Vendeu o seu colete Para me comprar o meu! EM GALEGO

588. Miña nai, miña naiciña, Que boa nai teño eu: Vendeu o seu coletiño Para me mercar o meu (1225). EM PORTUGUÊS

589. Morenita, morenita, Vai-te lavar ó cachão; Por mais que te laves, morenita, Morena és de nação. EM GALEGO

590. Morenina, morenina, Vaite lavar ó cachon, Que por muito que te laves Es morena de nazón (1226). EM PORTUGUÊS

591. Neste moinho entrei, Um saco de pão furtei; Em o tendo o tornarei, Que a fome não tem lei (1227). EM GALEGO

592. No moiño de vento entrei, A fome non ten lei, Ferrado e médio roubei, Assi que lle veña o novo Xa aqui llo volverei (1228). (1225) LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro galego, p. 16. (1226) Ibidem, p. 7. (1227) Variante da n.° 486 nos Cantares da minha terra. (1228) FRAGUAS FRAGUAS, Antón – Do Fol-klore de Armeses-Listanço, p. 3.

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CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

435 TOMO X

EM PORTUGUÊS

593. Por mais que a mona Se vista de seda, Se mona é, Mona se queda. EM GALEGO

594. Por mas que la mona, Se vista de séda, Se mona és, Mona se queda. EM PORTUGUÊS

595. Por te amar deixei a Deus, Olha, amor, o que eu perdi; Agora fico sem tudo: Sem Deus, sem amor, sem ti. EM GALEGO

596. Por ti me olvidé de Dios; Por ti la gloria perdi; Y ahora me voy a quedar Sin Dios, sin gloria y sin ti (1229). EM PORTUGUÊS

597. Quando passo à tua porta E à janela não estás, Meus passos vou encurtando Para ver se ainda virás (1230). EM GALEGO

598. Quando passo por tu puerta Y en tu ventana no estás, Me voi encurtando el passo Por ver se te assomaras.

(1229) Variante de outra dada pelo VASCONCELOS, J. L. de – Ensaios Etnográficos, III, 32, onde transcreve a parte espanhola que damos no texto. (1230) Variante da n.° 637 nos Cantares da minha terra.

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436

CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

TOMO X

EM PORTUGUÊS

599. Tendes os olhinhos pretos, Inda agora reparei; Se tivesse reparado mais cedo Não amava a quem amei. EM GALEGO

600. Que os teus olhos son negriños Inda ahora reparei; Se mais antes reparara Non amara a quen amei (1231). EM PORTUGUÊS

601. Uma velha, muito velha, Mais velha que a saragoça, Falaram-lhe em casamento E tornou de velha a moça. EM GALEGO

602. Á unha vella moito vella, Mais vella que Zaragoza, Trataronlle o casamento E a vella volveuse moza (1232). EM PORTUGUÊS

603. Uma velha, muito velha, Mais velha que o meu chapéu. Falaram-lhe em casamento E pôs as mãos p’r’o céu. EM GALEGO

604. Á unha vella moito vella, Mais vella que o meu chapeu, Trataronlle o casamento Levantou as maus ó céu (1233). (1231) LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro…, p. 10. (1232) Ibidem, p. 5. (1233) Ibidem.

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CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

437 TOMO X

Leitão de mês e cabrito de três 605. A marran de tres semanas, O cabritino de um més, A miniña de quince anos, O galan de vintetrés (1234). A mulher e a sardinha, pequenina 606. Sardiña de chan e lombo Casi brinca no panel; Pequeniña, redondiña, Asi quer ser a muller (1235).

GALO, GALINHA 607. É certo que no inferno O diabo dá um estalo Por não haver uma galinha Que possa servir de galo. 608. Canta o galo, é de dia, Relógio dos namorados; Vamo-nos daqui embora, Não nos chamem dilatados (1236). 609. Ó senhora Mariquinhas Repreenda o seu galo, Qu’a minha galinha Anda a namorá-lo. 610. Ontem à meia-noite, Nem meia-noite seria, Ouvi cantar o meu galo No teu peleiro, Maria (1237).

(1234) LOURENÇO FERNANDEZ, Xaquin – A muller no cancioneiro galego, p. 5. (1235) Ibidem. (1236) Variante da n.° 144 em SPOLETO – Cantares da minha terra (1237) Variante de outra em VASCONCELOS, J. L. de – Canções do berço, p. 66.

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438

CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

TOMO X

611. Ontem à meia-noite, Pela cantada do galo, Ouvi-te dar um suspiro, Quantos tu terias dado?! 612. Passei pela tua porta Pela cantada do galo, Ouvi-te dar um suspiro, O meu coração deu um ’stalo (1238). 613. Tenho uma galinha preta Que põe três ovos ó dia; Se pusesse vinte e quatro Melhor conta me fazia.

H 614. Hei-de fazer um barquinho Da casca da noz mais forte Para dar ao meu amor; Serve-lhe de passaporte. 615. Hei-de fazer um relógio Dum cacho de queijo, Para contar os minutos. Do tempo que te não vejo. 616. Hei-de fazer um relógio, Se a ciência me ajudar, Para contar os minutos Que vivo sem te falar. 617. Hei-de ir, não sei quando, Pela rua não sei onde, Namorando não sei quem Que mora não sei onde. 618. Hei-de ir um dia a Espanha A cavalo numa lebre Para que digam os espanhóis: Ó que cavalo tão leve! (1238) Variante da n.° 611 em SPOLETO – Cantares da minha terra.

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439 TOMO X

619. Menina que está lá dentro, Com seu relógio à cinta, Diga-me as horas que são, Fale a verdade, não minta.

HOMENS, MULHERES 620. A cobra vai pelo adro, Foge que desaparece; Quem se finta em mulheres Grande castigo merece. 621. A Deus peço paciência Com esta minha mulher: Nem ela faz o que eu digo Nem eu o que ela quer. 622. A folha do castanheiro É abicada como a renda; Ninguém se finte nos homens Que os homens são má fazenda (1239). 623. A laranja quando nasce É verde e logo amadura; É como o génio dos homens: Pobre de quem os atura! 624. A maçã do acipreste É verde e tem a casca amarga; É como o amor das mulheres: Tanto pega como larga. 625. A mulher enquanto é nova É um baraço de loucura; Depois que vai para velha Nem o diabo a atura (1240).

(1239) Variante de outra colhida na região de Geraz do Lima e publicada na revista Alto Minho, (1935), p. 50. (1240) LIMA, F. de Castro Pires de, no Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 15, publicou outra em que põe braço em vez de baraço.

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440

CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO

TOMO X

626. A salsa é p’r’os ovos E a hortelã p’r’as couves; Os homens p’ra Deus E as mulheres p’r’os açougues. 627. A salsa é p’r’os ovos, E a hortelã p’r’o caldo; Os homens p’ra Deus E as mulheres p’r’o diabo. 628. Tanta laranja partida, Tanto limão pelo chão; Tanta menina bonita, Nenhuma na minha mão. 629. As mulheres são o diabo, Levadas de Berzabu, Mal a pita põe o ovo Logo lo tiram do cu. 630. Desgraça sobre desgraça, Desgraça é ser mulher; Se é bonita é desgraçada, Se é feia ninguém a quer. 631. Fui ao monte buscar carqueja, Pus o pé no verde tojo; Estas meninas d’agora De asseadas metem nojo. 632. Já passei o mar em roda Nas asas duma cegonha; Quando nasceram as mulheres Nasceu a pouca-vergonha. 633. Lá em baixo vem o sol Carregadinho de colheres; As verdades são dos homens E as mentiras das mulheres (1241).

(1241) Variante de outra publicada pelo SANTOS JÚNIOR – Afinidades galaico-portuguesas do folclore, p. 9.

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441 TOMO X

634. Menina não seja vária, Recolha o seu pensamento; A amizade dos homens Dura mui pouco tempo. 635. Meu amor não embarques, Olha que o mar não tem fundo; É como o amor dos homens Que engana todo o mundo (1242). 636. Ninguém se finte nos homens Ainda que le caiam as tripas, São capazes de enganar Até as almas benditas. 637. O amor das mulheres é vário, É pior que as borboletas; Voam sempre inconstantes, Sempre pousam inquietas. 638. O diabo leve os homens Enfiados num cordel; O primeiro seja António E o segundo Manuel. 639. Os homens são o diabo Que vão de noite às uvas; Ninguém se finte neles: São falsos como Judas; 640. Os homens são o diabo, Santo nome de Jesus; Quando passo por eles Faço o sinal da cruz. 641. O diabo leve os homens Enfiados num cordão: O primeiro seja José E o segundo seja João.

(1242) F. de Castro Pires de Lima, no Cancioneiro de Celorico de Basto, n.° 218, dá outra idêntica.

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