CONTRAPONTO 01 - A arte de manipular bonecos

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A Liga Estudantil de Jornalismo está atuando na estruturação interna da organização. Este é o momento para ampliar horizontes e fazer acontecer. Se você ou a sua empresa acredita no desenvolvimento social através da comunicação e da informação, estamos dispostos a por isso em prática. Entre em contato, nós cumpriremos nossa missão.


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Editorial

A LIGA ESTUDANTIL Com riqueza de palavras, de cultura e de sentimentos, a Liga Estudantil de Jornalismo Primavera forma-se diante da certeza. Esta que nos motiva a construir uma ideologia apoiada em horas de debate, trocas de informações, leituras coletivas, descontentamento com a realidade e atitude de mudança para a valorização do ser. No dia 11 de junho de 2011, inauguramos uma nova fase em nossas vidas. Esta revista é o fruto público de estudos incansáveis, de entrevistas muito bem pensadas, nas abordagens criativas, com o foco na introspecção da diversidade comunitária. Realizamos aqui uma discussão. De reportagem em reportagem, exploramos os sentidos mais nobres do jornalismo. Um conteúdo vindo da própria educação de seus produtores, respeitando as observações diárias e a cultura adquirida dentro da academia. Ancorada, inclusive, pelos professores que semearam em seus

alunos um anseio pela qualidade da informação, pela profundidade dada às questões, pela objetividade expressada nos textos e, sobretudo, pelo interesse público que o jornalismo traz consigo que não deixaremos ser esquecido. Itens e mais itens, separados por vírgulas, figuram numa lista interminável de expressões que culminam nas páginas a seguir. Não há compromisso com as respostas concretas, elas não movem o mundo, buscamos as perguntas que não nos deixam em uma zona de conforto social. Desejamos a você, uma excelente leitura. Formada por acadêmicos de jornalismo, residentes na cidade de Chapecó, Santa Catarina, a Liga Estudantil de Jornalismo Primavera é uma organização não-governamental sem fins lucrativos. Tem em seus pilares estatutários a independência editorial e é patrocinada

apenas por ideologias de mudança. Os membros da LEJ Primavera não têm uma única convicção e muito menos o mesmo objetivo de vida. Pelo contrário, vivem a discordar e discutirem arduamente cada parágrafo publicado. Acreditamos na pluralidade, no debate e vivemos enraizados por um sentimento de liberdade para pensar e expressar. Em comum, a busca por um jornalismo capaz de despertar uma sociedade adormecida no senso comum. Daí Primavera, nome dado a Liga Estudantil. Uma analogia direta com o fim da escuridão do inverno, esperança de mudança que não nos deixa parados. A ONG foi criada na noite fria e inspiradora de 11 de junho de 2011, através de uma dinâmica criadora da visão, dos valores e da missão. Para conhecer melhor e ter contato com a LEJ e seus membros, acesse o site lejornalismo.com.br.


CONTRAPONTO A revista da Liga Estudantil de Jornalismo Produção Camila Dourani Arruda Eduardo Kauê Florão Isabela Sudatti Julherme José Pires Kaehryan Alyssa Fauth Luiz Antonio Pancotte Lydiana Caroline Rossetti Orso Natan Augusto Silveira Pricila Eduarda Lira Stéfany Cristina Breda Ozelame Vinicius Alexandre Farfus Todos os direitos reservados Liga Estudantil de Jornalismo Primavera © 2012


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Mapa

PANAROTTOCULT

JORNALISTA GANHA BEM? 24

18 A SOCIEDADE POR SLIM A ARTE DESCOMPLICADA

6 24 A VIDA DE ASSESSOR DE IMPRENSA

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Artes Visuais

Arte: um bicho de uma cabeça As confusões em relação à arte podem ser desfeitas com uma única atitude Luiz A. Pancotte


A

Arte pode ser definida sob um ponto de vista bastante simples: como uma maneira de expressarmos sentimentos, sensações, vivências ou espaços através da utilização de uma linguagem gráfica ou estética. Neste sentido, percebe-se que há certa dificuldade em definir formalmente o que é arte, uma vez que ela necessita ser compreendida dentro de um contexto histórico social, onde uma determinada obra foi escrita, pintada, elaborada. Arte significa expressão. Desde o momento em que o homem elaborou as famosas pinturas na gruta de Lascaux (França), essa forma de expressão vem acompanhando diferentes momentos históricos, sociais e econômicos, os quais o homem moderno experimentou. Tanto como forma de expressão de um sentimento ou vivência, ou utilizada para difundir até mesmo ideais políticos, a arte, sob determinados aspectos, é caracterizada como uma forma de linguagem. Quem nunca entrou em um museu ou em um teatro e ao ver uma obra de arte ou ouvir uma

7 música erudita se perguntou: o que significa isso realmente? Ao se fazer essa pergunta, o observador ou ouvinte passa a ter seus sentidos provocados. E é justamente isso que uma obra de arte significa: uma explosão de sentimentos despertos, onde a vivência pessoal do artista se mostra totalmente despida diante do observador. Questões passam a ser feitas, dúvidas começam a surgir, sentimentos de paixão, ódio, amor, etc. Tudo aflora do consciente ou inconsciente do observador. Nesse sentido, definir arte passa a ser a tarefa mais difícil outorgada a um ser humano, uma vez que arte pode ser em última instância inerente a apenas um indivíduo da raça humana. Você já pediu a algum artista para definir a arte? Não? Então não pergunte isso nunca. Não se tem uma definição exata do que é. Ao frequentar locais onde material artístico é exibido, o observador deve se despir de todo e qualquer preconceito. Desta forma não haverá confronto com a ideia do artista. Como a arte também significa a herança de determina-

dos aspectos que influenciam na linguagem técnica da criação do artista, o resultado é algumas obras mais apreciadas do que outras. Consequentemente, algumas obras passam a ser definidas como belas, audíveis, legíveis ou não. Despido de preconceito em uma exposição de arte ou audição de uma orquestra sinfônica, a primeira reação será principalmente emocional, seguida dos sentimentos de aceitação. Indiferente de qual seja a reação do público, é uma reação, que traduz o objetivo de todo e qualquer artista: despertar emoções no observador. Como é usual dar valor somente quando a arte está inserida em um contexto, muitas vezes ela passa despercebida aos olhos ou ouvidos. Um exemplo claro disso está em uma experiência feita pelo The Washington Post. A proposta foi colocar Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, tocar seu Stradivarius, estimado em três milhões de dólares, em uma estação de metrô de Nova Iorque. De calça jeans, camiseta e boné, Bell tocou por mais de 45 minutos Izabel Vizotto

Artistas debatem a arte e como enxergá-la


o seu instrumento. O resultado: foi praticamente ignorado pelos que passavam pelo local. Alguns dias antes, Bell havia se apresentado no Symphony Hall de Boston, onde uma boa cadeira custa a bagatela de US$ 100. Arte provoca controvérsias, uma vez que sua própria definição abrangente permite tal situação. O que pode ser considerado belo e estético para uma determinada parcela da população pode ser ofensivo e não ser revestido do próprio conceito de arte ou a qualquer aspecto teórico que a remete a esta concepção. No entanto, não se pode esquecer que, mais ou menos elaboradas, manifestações artísticas são capazes de quebrar paradigmas e remeter a uma dimensão de reflexão, dúvidas e emoções. A história da arte está repleta de exemplos que quebram os limites da estética convencional e entram para o panteão das obras-primas imortais: os Girassóis de Van Gough, a Capela Cistina, pintada por Michelangelo e os auto-retratos de Frida Kahlo. A arte de rua deve ficar restrita somente às ruas? A grafitagem, facilmente observa-

rano, considerado uma representação divina sobre a terra. Sendo divino, as concepções de vida após a morte assumiam uma dimensão importante, inclusive no cotidiano da população. Grandes monumentos erigidos como tumbas mortuárias atingiam o grau máximo de sofisticação. Na Grécia e Roma antigas, igualmente, as obras representavam o feito de dominação de outros povos, em que esses impérios absorviam não somente suas riquezas, mas também aspectos culturais. A famosa obra Landahlauts dessa época, a Coluna de Trajano, magnificamente ilustra este da em paredes e muros externos exemplo. Utilizando-se de uma de grandes cidades, reflete tal dis- linguagem artística até então não cussão. Até pouco tempo conside- imaginada, pode ser observada a rada um movimento de contesta- história de dominação do império ção, passa a ter conotação artística romano sobre povos com poderio quando seus traços e formas de lin- bélico inferior. Esta obra de arte guagem refletem a realidade social até hoje inspira artistas, principale histórica dos criadores. Tal refle- mente os que utilizam a linguagem xão se faz com os movimentos so- cinematográfica para divulgar uma ciais que divulgam as rádios comu- ideia ou emoção. No mundo monitárias, dança de rua, embaladas derno, outros inúmeros exemplos pelo ritmo do funk, com letras re- podem ser abordados. Métodos de cheadas de frases de protestos e de divulgação dos ideais nazistas ducontestações. É importante ressal- rante a primeira metade do século tar que esse tipo de arte possui um passado, onde a fotografia e o cinemovimento “de baixo para cima”, ma passam a assumir uma imporisto é, surgido nas classes sociais tância bastante grande para divulmais desfavoráveis e se proliferam gação desses ideais, abrangendo o nas consideradas mais elevadas. maior número possível de pessoas. Contudo, em um primeiro mo- A arte, mesmo que deturpada de mento, este deslocamento encon- seu nobre ideal, deixa de ser vista trava forte barreira por motivos somente por poucas pessoas e paspreconceituosos, uma vez que os sa a agregar grandes massas da poditos intelectuais pertenciam a es- pulação entre seu público. sas classes mais abastadas. Afinal, Indiferente da maneira arte é cultura, e mesmo assim não como é produzida e divulgada, nos chega a todas as classes sociais. dias atuais, a arte pode atingir dife Durante toda a história rentes culturas e classes sociais. Ao da humanidade, a arte vem sendo estabelecer uma real comunicação utilizada também para razões obs- com a obra e o autor, facilmente o curas, com fins políticos. Desde os público percebe que a arte não é antigos egípcios e babilônios, ela um bicho de sete cabeças. foi usada intensamente para demonstrar o poderio de um sobe-

Audrian Cassanelli

Artes Visuais


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A fotografia não é o bicho, mas cada vez é mais popular


Impacto

crônica

A ARTE DE MANIPULAR BONECOS Kaehryan Fauth

P

arecia ser dia. O céu, amarelado, confundia a pessoa largada sob o céu encoberto de nuvens cinza. Aparentemente acordou agora, sem saber de nada. Como chegou ali? Acordou mas continua parada, como se não tivesse força, vontade de sair de onde está. Miserável, sujeita a tudo, porém nada tão ruim quanto o que já lhe aconteceu. Algo estava visivelmente a mantendo presa ao nada, mas o quê? Cordas caíam de seus punhos. Presas ao vento, demonstravam pesar mais do que o ferro. Tiraram tudo que a mantinha viva. Tiraram sua vida sem sequer a matar. Extorquiram sua alma e agora já não vê a própria vida que restou. Há vida que depende de evolução, construção de ideais e propósitos. Há vida, que depende dos outros mais do que de si próprio, vida que inexiste sem manipuladores. Marionetes não tem alma. Antes o céu resplandecia no brilho por trás das nuvens brancas, tudo tinha mais cor e

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autonomia vivenciada no desabrochar de flores, me lembro bem. Tempos bons, as pessoas tinham opção. Optavam pelo mais conveniente, mas sem deixar o bom senso de lado. Algumas não se davam ao trabalho de julgar as opiniões, mas faziam valer seu pré-julgamento. Lembro-me bem, tão bem que me assusto de pensar como tudo foi acabar assim. O que vejo agora são pessoas presas à cordas invisíveis, transparentes ao seu próprio senso. O tempo parou para elas. São as novas cobaias do círculo vicioso de estagnação crítica e social. São as novas marionetes da elite. A sociedade foi sendo apunhalada aos poucos, das mais diversas formas. Com sorrisos, sussurros, promessas, passado, tudo foi moldado para que parecesse conveniente àquela realidade. O contexto, porém, não exigia análise. Cidadãos e soldados, com a farda colorida, que as poucos foi desbotando. Os sorrisos e a cordialidade deram lugar a tempos difíceis, pintados na tela em tons de cinza,

que aos poucos aumentaram seu contraste para definir o preto e o branco, diferenças distintas. Tudo aconteceu pela busca desenfreada por uma vida perfeita, uma vida perfeita, o “sonho americano”, que sempre será um sonho. As vestes pesavam sob os ombros dos soldados, que não eram regidos por si próprios, e sim, pela ambição enganosa. O decreto foi a definição de um líder que teria de trazer redenção, mas trouxe apenas discórdia entre as classes. O julgamento consistiu em fatores artificiais, anilina pura jogada na chuva, pra dar cor ao que estava morto. Votos à quem não merecia sequer chance. Manipulação teatral. A raça alienada não se importou com a abstenção de seus votos. Uma cesta deles foi dada em troca de promessas. Votos baratos. A raça que se opunha ao jogo tinha um semblante guerreiro, porém


11 uma cesta vazia, carregada com a derrota. A cesta branca, pura e repleta de planos que jamais seriam colocados em prática. A sociedade foi dominada democraticamente. O líder se levantou e ninguém se opôs. Bastou. O líder persuadiu. Usou sua retórica da forma mais convincente possível ao olho dos ingênuos. Qualquer um que o contradissesse estava condenado a uma sentença de exclusão silenciadora. O ideal já não era superação, não era voltar ao que foi, era dominação. Um ideal em comum, sujeito a modificações da própria mente dos membros da tribo. Individualismo. Agregados por pensamentos em comum, segregados da massa pelo fato de perceberem aos poucos que, na verdade nunca fizeram parte dela. O teatro de cordas, no qual os figurantes não eram aqueles que viviam, e sim os soberanos sobre toda a rede. Os protagonistas da paródia da vida. O líder finalmente dominou a massa, com todos os truques e ferramentas que não lhe custaram nada que não fosse seu tempo. A história é narrada de maneira trágica pela usurpação de almas através da persuasão desenfreada, concluída em promessas sonegadas: mentiras. Não há como voltar no tempo e reformar as ideologias. O início comprometeu o fim de tal forma que as amarrações presas nos punhos dos atordoados sejam tão fortes quanto às máscaras de gelo que mumificam meu rosto. Manipulação camuflada. As ameaças transpassam

os direitos e vozes. Guerra fria pós-moderna. Meus olhos enxergam tudo. Ainda que meus lábios não se mecham, posso narrar silenciosamente o massacre de todo um povo. A fraqueza maior é a dor que transpassa minhas veias ao ver toda uma geração sujeita ao nada. Destinada a sofrer por seus próprios erros, escolhida a dedo por seus próprios enganos. Metaforicamente, é como nascer borboleta com as asas cortadas. Viver sete dias sem sequer poder voar. É como ter uma tela e não poder pintar. É como ter cabeça e não querer pensar. Manipular Diante de tais fatos, chego à conclusão de que a arte de manipular envolve a aptidão das duas partes: a opressora e a oprimida. Ou talvez, o manipulador e a marionete. Certas artes como manipulação de ventríloquos exige uma ligação constante entre o manipulador e o ventríloquo. Já na manipulação de bonecos há uma total entrega de atos. O boneco está sujeito aos desejos de quem o manipula, sem limites nem cumplicidade, relação de troca: vida por aplausos. A manipulação de bonecos exige primordialmente duas aptidões essenciais ao manipulador: retórica e desenvoltura. Já do boneco, o que se espera é o que virá de quem o manipula. Ele é mera peça do teatro, detalhe do show que precisa estar de acordo com o que seu mestre exige, mas a troco de quê? De sua pele seca emanam suspiros de quem um dia pôde ser algo e não foi. A questão não é ser boneco ou ventrí-

loquo. A real indagação é o por quê de seres humanos se submeterem a cargos tão cruéis, de manipuladores de sua própria raça, enquanto outros se sujeitam a serem manipulados, papel tão lamentável em uma peça vivencial que não atrai nada além do comodismo e da exploração de sua própria raça. Não é cômodo nem recompensador. É o que o meio lhe propõe. Onde está o contraponto ao meio? Onde está a resposta dos oprimidos? Nada se resolve enquanto não for dito. A manipulação só é efetiva quando há a sujeição de ambos os lados, se não houver, haverá luta. As etapas não envolvem ciclos de convencimento, na maioria das vezes inclui apenas a repressão, atos desencadeados pela estagnação psicológica. Ausência de alma. Alma que só desperta com cores, raios de sol. A esperança hibernada na gélida chuva. Os raios em meio às nuvens negras dão o sinal de que a chuva não vai tardar. É a última chance. O manipulado despertado, aprisionado, pode enfim acordar de seu sono atordoante com a chuva. O reino do “felizes para sempre” estava materializado naquela imensidão de pessoas em busca de um propósito enquanto eram usadas. Um ideal em comum, sujeito a modificações contextuais da própria mente dos membros da tribo. Individualismo ou massa incrédula? Enfim, o último entardecer antes de um novo dia, o despertar trará novas fontes e ideais. Autonomia e emancipação. Vejo ao longe, o sol. Com ele, a esperança do reprimido.


Paralelo

PARA CONSTRUIR UMA CULTURA EM NÍVEIS Camila Arruda

Uma grande “peça teatral”, estrelada pelo “ator” Roberto Panarotto. É assim que o graduado em Letras – que trabalha com literatura, quadrinhos, cinema, produção audiovisual, designer, publicidade e jornalismo – encara seus 38 anos de vida. Fazia teatro na escola, escrevia, dirigia e interpretava. “Com os cabelos e a barbas sempre crescendo”, estas são as informações que você encontra sobre Panarotto no Facebook. De Chapecó, Santa Catarina, a figura, conhecida pelos vinte anos da Banda Repolho ou nos seis anos do programa de televisão Voo do Morcego, hoje atua no Studio Alice. Onde se estuda, se cria, se produz, se planeja, se inventa comunicação. Além do Studio, atua como professor de realidade regional, cinema e processos criativos na Universidade Comunitária da Região de Chapecó. Desde 1991 na irreverente Banda Repolho, mais uma de tantas parcerias dos irmãos Roberto e Demétrio Panarotto, desconstrói e brinca com os cenários ao redor. No “Agito com Balalau” (acb2. wordpress.com), há oito anos Roberto escreve algo a partir de um ponto de vista. O dele. É a partir deste olhar que Roberto Panarotto concede entrevista a CONTRAPONTO sobre a ideia plural e nivelada da cultura e como a manipulação social limita e cega

a percepção cultural. CONTRAPONTO: O que qualificar como cultura no contexto pós-moderno, o que pode ser nominado como cultura? Roberto Panarotto: É difícil medir cultura, dizer que eu tenho mais cultura que você, mas eu acho que a cultura se faz em níveis. É difícil você transitar no mundo globalizado de hoje, a tua percepção em relação às coisas muda quando você conhece mais coisas. Eu gosto de usar o exemplo da leitura e o próprio processo de aprendizagem que você tem dentro disso, você é criança e lê: o gato, o gato e o novelo de lã, o gato bebe leite. Você tem três, quatro, cinco anos, e o teu poder de percepção está voltado para aquilo. Se você nunca mais ler, quando tu tiver vinte anos a tua percepção da leitura vai continuar dentro da mesma linha de raciocínio, quer dizer você precisa treinar, o cérebro entre aspas é um músculo, você precisa fomentar ele. Aí quando você começa a ler mais coisas você vai exigindo um grau de dificuldade maior, então consequentemente, vai chegar a certa idade que você vai querer ler Paulo Coelho, legal é leitura, mas vai chegar o momento que você vai querer ler o Luiz Carlos Borges, Jaimes Joice, Ulisses, que é uma outra coisa bem mais complexa. Então para mim a cultura se faz neste sentido,


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Luiz. A. Pancotte

quanto maior for a tua absorção de informações maior será a tua percepção de mundo. E a cultura para mim, não necessariamente pra mim, mas é da forma que eu vejo, ela é meio que a espinha dorsal da sociedade. Esse é um dos princípios e das propostas culturais que

dia, tem uma produção per capta de literatura, música, teatro que é um absurdo, uma das maiores do mundo. Mas são 300 mil habitantes, em uma ilha, isolados. Se eles conseguem pensar cultura, por que a gente não pode pensar a cultura aqui na nossa região? Ou potencializar isso de alguma forma?

de uma forma poética. Não estou dizendo que tem que ser complexo, pode ser genial sendo simples. Mas a música sertaneja, a meu entender, é pobre. Ela acaba sendo o reflexo das pessoas que consomem isso. Elas entendem o que é cantado, se você colocar mais dois verbos e três substantivos elas não vão entender.

CP: E a questão de não potencializarmos a cultura, você acredita que tem relação com o comercial, e neste caso, certas manifestações culturais seriam mais viáveis? Panarotto: Tem uma frase que eu não sei se é do Tom Zé que fala que “quando tu aumentas muito a No final do dia, informação você Roberto Pandiminui o públiarotto recebe co, e quando dia CP em seu minui a informaestúdio. ção você aumenta o público”. É por a gente tenta abordar. Como tu isso, por exemplo, que você vê valorizas um teatro, tendo a per- uma crescente de bandas sertanecepção de que aquilo é importante. jas, por que é uma música que não É como eu penso a cultura, é uma tem informação. E quando eu digo coisa orgânica, ela se movimenta, que não tem informação, não tem ela se mistura e está tudo total- informação nem enquanto música mente interligado. E o povo culto por que eles trabalham com muito ele produz muito mais, cria muito poucas notas, muito pouca letra, mais perspectiva. Eu costumo fa- por que é só refrão, justamente zer uma comparação entre Santa para as pessoas cantarem. É mais Catarina e a Islândia, em termos fácil a pessoa cantar um “ai ai ai ai de extensão territorial, não em for- ai” do que a pessoa ter uma poemato, Santa Catarina é muito pa- sia ali, com uma letra um pouco recida com a Islândia. A Islândia mais complexa, e porque toca nestem 300 mil habitantes aproxima- sa questão do sentimento, eles só damente, é a região Oeste de Santa falam de amor e amor é popular. Catarina. 80% da Islândia é inabi- Não que seja ruim falar de amor, tável, por que tem geleira e vulcão. você tem exemplos como o RoberOs 300 mil que vivem na Islân- to Carlos, que escreve sobre amor

CP: Neste contexto, pode-se falar em cultura popular e cultura erudita? Panarotto: Os termos muitas vezes acabam sendo mercadológicos. Sim, eu acho que existe essa ideia de cultura popular e cultura mais profunda. Eu não separaria desta forma, porque acho que algumas coisas poderiam ser “popular” se o nível intelectual das pessoas fosse mais elevado. A Graforreia Xilarmônica comprovou que pode ser popular, pode ser bacana e pode ter informação. Eu não sei se essa divisão é pertinente. E na verdade, eu acho que o problema está na educação, o povo não é educado para consumir coisas culturais. A gente vive em um país em que é muito mais fácil você manipular as pessoas que são limitadas ou ignorantes no sentido real da palavra, de você ignorar as coisas. O governo nunca vai investir em política cultural, às vezes educacional, porque é muito mais fácil dar uma cesta básica do que dar um livro para a pessoa aprender. E isso não é agora, isso é histórico no Brasil. Independente de partido, sempre foi assim. Um país para evoluir precisa potencializar a educação. CP: Vamos falar sobre o movimento de contracultura. Como você percebe hoje manifestações desse movimento que teve seu auge em 1960? Panarotto: Todas essas manifestações eu tenho impressão que são muito pertinentes a sua época, di-


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Unocultural Divulgação

gamos assim. Quer dizer, você estava vivendo em um mundo “x” na década de 1950 e 1960, e essas pessoas pensaram em alternativas. A contracultura tem esse lado de pensar a cultura de uma forma mais abrangente, e de certa forma valorizar coisas que não eram tidas e vistas como arte. Lógico que o termo “contracultura” está muito vinculado àquele período, assim como você dizer que o Barroco estava vinculado com aquele período, hoje você pode fazer uma obra com características barrocas. A contracultura vai permanecer ali, mas muitas das coisas que a gente pensa para o Unocultural (Programa de incentivo cultural dirigido por R. Panarotto na Unochapecó), por exemplo, talvez carreguem esses princípios. Se você tem na mídia Ivete Sangalo e as bandas baianas – que são covers delas mesmas – você tem que mostrar para as pessoas que existem alternativas. Então, está todo mundo olhando para um lado você tem que virar o rosto da pessoa para o outro. Aquele movimento foi muito importante naquele período, porque ele fez com

O projeto Unocultural entra no terceiro ano

que aumentassem as possibilidades. A ideia da cultura, a meu entender, tem que ser plural. A hora que tu tiveres batendo sempre na mesma nota, não tem sentido. Não tem sentido você restringir um universo de possibilidades a uma coisa só. Os movimentos que pen-

savam alternativas naquela época hoje não fazem muito sentido. Por que hoje você tem outra realidade, você não repete as coisas. Tem um livro do Deleu-ze, filósofo francês, que fala em diferença e repetição. Quer dizer, as coisas se repetem, mas elas não são iguais, você nun-


15 ra, mas esta frase tem um sentido absurdo. Quer dizer, a gente vive em um mundo que é plural, pra que limitar se tu podes abrir as possibilidades? Por que dizer que só isso é legal e passar o dia inteiro fumando maconha, se tu podes fazer muitas outras coisas? Sem olhar pelo lado do preconceito. E a mesma coisa com a música. Por que ficar ouvindo só sertanejo e tomando cerveja no final de semana? Mas isso é o reflexo cultural do trabalho, como é a novela, a televisão, a manipulação.

mo não usando, eu não sou contra. Mas as pessoas que ficam muito presas a isso não fazem nada. As pessoas não ficaram famosas porque usavam drogas, elas ficaram famosas porque elas pensavam, porque elas produziam coisas diferentes.

ca vai conseguir fazer um novo Woodstock. Outro conceito ligado a esse movimento da contracultura é a liberdade. Abrir as portas da percepção. Que é muito bacana, mas tu não podes levar ao pé da risca hoje. Hoje tu podes abrir as portas da percepção vendo um show do Otto, Tom Zé, Vitor Ramil. Tu podes pensar que a droga hoje é mais uma opção, mas não pode ser “a” opção. Mes-

CP: Como isso te influencia? Panarotto: Influencia-me muito nessa coisa que começa a surgir meio pós isso, que se ninguém está fazendo por ti então faz. Um dos princípios do movimento punk: faça você mesmo. E aí em termos de referência a gente bebe muito dessa coisa: de você olhar e ver que essas pessoas estavam pensando em coisas diferentes, estavam olhando para o outro lado, estavam vendo o mundo de uma forma diferente. Eu gosto de citar a frase do “filósofo” Xirú Missioneiro: “o mundo para ser mundo tem quer de tudo um pouco”. Óbvio que é brincadei-

CP: É relacionado à indústria cultural, que desde a teoria critica já fazia menção a essa dominação? Panarotto: É. Nesse caso a massificação é utilizada de forma política. Porque o cara trabalha o dia inteiro – não sei se tem um país em que as pessoas trabalhem tanto quanto no Brasil – de forma escrava e no sentido de não pensar. Chega o final da tarde em casa tu não vais querer ler o Dostoievski. Tu vais querer ver a novela “Fogo e Paixão” e ouvir o Fogo e Paixão do Vando. Isso tudo tem um fator político dentro da nossa sociedade, que é uma forma de você manipular. Você vai manipular as pessoas dessa forma: coloca trabalhar o dia inteiro, dá dois dias de folga e vende cerveja, por exemplo, e divulga que cerveja é bom. E aí a ideia de massificação e a percepção da indústria cultural. Volto a dizer não sou contra. Eu adoro cinema, que nasce dentro de uma indústria cultural. Mas é a mesma percepção, você pega o cinema produzido em Hollywood, ele é produzido e pensado desde o início para ser comercial, para ganhar dinheiro e para dar retorno. Mas em paralelo a isso surge o cinema russo, surge o movimento francês com a Nouvelle vague, que faz coisas geniais. Aí tu cais naquela ideia que eu acho


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que é a diferença entre entretenimento e cultura. Entretenimento é entreter somente. Cultura pode ser entretenimento também, mas é mais profundo, não é tão raso. Mas eu acho que é importante. Para viabilizar uma exposição eu preciso de dinheiro, esbarro na questão comercial, na indústria da massa, na indústria cultural. CP: E o Unocultural, surge com a ideia de não limitar as possibilidades culturais? Panarotto: Você é aquilo que você consome, mas principalmente você é o reflexo do que a sua família te proporciona. Então, por exemplo, eu e o Demétrio Panarotto – meu irmão que é guitarrista da Banda Repolho – somos aqui de Chapecó, a gente tinha acesso a coisas simples como ver o meu pai lendo o tempo todo, eu não via o meu pai de outra forma a não ser lendo. Em casa a gente tinha acesso a televisão, mas a gente tinha acesso a uma biblioteca e meu pai tinha discos e fitas cassete, e a minha mãe era professora e pintava. Então, a gente cresce na década de 1970 em Chapecó em um universo que é totalmente ligado a questões

culturais. Em função da nossa ligação com a música surge a Banda Repolho, que propõe brincar com o cenário, desconstruir. Em 1997, chegou o momento de entrarmos na universidade, onde você muda a tua percepção de mundo. E aí a gente olhou e disse: a universidade deveria proporcionar cultura. Na época, trouxemos Tom Zé e Zé Geraldo, além de mobilizar uma série de outras coisas e organizar shows de amigos. Passou aquele período, entramos no mercado de trabalho e cinco anos depois eu volto para a universidade com a mesma fixação, achando que esta mesma universidade deveria proporcionar eventos culturais. Aí eu começo a perceber isso de uma maneira diferenciada, dessa vez como professor. Na época, conversei com o Ricardo Ravanello que era Diretor de Marketing e Comunicação da Unochapecó e propus um evento musical. Se o estado não consegue nem dar o básico para a população, como é que vai gerar cultura que é “supérfluo”, não deveria, mas cultura é supérfluo – tu deixas de ler um livro, mas não deixa de comer. Então o projeto começou a potencializar alguns trabalhos, trazendo gente de fora

no sentido musical, cinema, teatro, e apostando nas produções locais. O Unocultural está apenas começando o segundo ano de trabalho, mas a ideia é evoluir. Enfim, a ideia do projeto surge dessa necessidade. É aquele princípio que eu falei no início de você construir a cultura. CP: Em relação ao público do Unocultural, são as mesmas pessoas? Panarotto: Depende da atração, é um público muito plural. Isso é bacana, porque quando você termina o projeto e atinge 10 mil pessoas, diversifica muito o público. CP: A ideia é ir disseminando a proposta através disso? Panarotto: Com certeza, para este ano estamos planejando trazer o Marcelo Camelo. Pode ser que nem todas as pessoas gostem, mas você coloca mil pessoas para assistir o show e novecentas saem satisfeitas e falando maravilhas. Sempre apostando na diversidade, não queremos bater sempre na mesma tecla. Isso tem a ver com que você disse de potencializar.


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A FALSA DEMOCRACIA Contexto

C

artigo

onhecido como o braço forte do capitalismo na América Latina, o Brasil é o país da desigualdade. Terra onde a educação não floresce, as instituições não se atualizam e uma parte da população passa fome. Em gravíssimo estado de alerta, os movimentos sociais estão cada vez mais estrangulados. Apesar da evolução comunicacional, através da internet, e a formação de diversos protestos online, a sociedade está presa na invisibilidade dos conceitos mercantilistas. Os estrategistas trocaram a opressão coercitiva pela conceitual. Hoje em dia as pessoas estão presas no que a teoria do jornalismo “espiral do silêncio” impecavelmente explica. A teoria defende que os indivíduos buscam a integração social através da observação dos outros, e procuram se expressar dentro dos parâmetros da maioria, para evitar o isolamento. A cultura popular deseducada e empobrecida é terreno fértil para a abordagem ideológica e pragmática dos tradicionais veículos de comunicação. A implementação de modelos baseados no padrão consumista é peça chave para a manutenção do sistema, e infelizmente já estão impregnados na sociedade. Achamos que votamos em quem é melhor para nós, mas somos seduzidos por outras

Crônicas de uma sociedade iludida, vivendo na ficção Julherme J. Pires “verdades”. Alguns filósofos e sociólogos consideram a democracia brasileira e residente na maioria dos países do ocidente, não operante. E até mesmo exerça o contrário de seu papel. Ou seja, um regime atuando em estado de opacidade. Para exemplificar o enfraquecimento das tradições, está o desaparecimento das festas populares. As que ainda persistem são basicamente religiosas e existem nas regiões mais pobres e deslocadas dos grandes centros ou longe até mesmo do perímetro de alcance dos meios de comunicação. O etnólogo, musicólogo e folclorista, Luís da Câmara Cascudo contextualiza o maior exemplo: “o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver. O carnaval, digamos, de 1922 era compartilhado, dançado, pulado, gritado, catucado. Agora não é mais assim, é para ser visto”. Quando os povos perdem as suas culturas, ficam mais suscetíveis a serem dominados.

Escreve Eduardo Galeano em sua obra prima As Veias Abertas da América Latina: “a democracia formal teria continuidade caso se pudesse garantir que não escaparia ao controle dos donos do poder”. O trecho mostra o porquê da opção “democrática”. Os países vivem reféns de forte influência política de opressores. Por muitas vezes eles mudam de nome, mas sempre estão lá. São forças que fazem girar o mercado de capitais. Nos EUA, os grandes bancos comandam o clero político, como mostra o documentário vencedor do Oscar de 2011, Trabalho Interno. Em outros países, como do mosaico europeu, pegando o exemplo a Espanha, são enforcados por políticas econômicas nocivas à integridade social da própria população. Lá, o povo já está entendendo a mecânica de funcionamento do sistema. O movimento spanish revolution é a maior prova disso. Trata-se de um movimento íntegro e sem liderança, que está avançando sobre esta falsa democracia que impera nos países capitalistas do ocidente. Isso porque a atitude contaminou diversos outros países, como Israel e Inglaterra. Expandiu-se tanto, que chegou ao berço da calúnia, os Estados Unidos da América. Com outro nome, mas com o mesmo objetivo, os indignados lutam contra a supremacia do 1% mais rico, que detém cerca de 40% das riquezas do país. Nada como um espelho para o mundo.



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Música

ESSA É PA TOCA NA RÁDIO Como a dupla de rappers Slim Rimografia e Thiago Beats faz da música um recanto de teorias e uma análise profunda da sociedade contemporânea Julherme J. Pires

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arulho de ônibus ao fundo, “licença”, “você pega sempre esse ônibus?”. Slim: “Um CD sai a R$10,00, eu faço três por 25. Aceito passe de ônibus, metrô e ticket restaurante”, conclui o rapper. Um dos passageiros, observando o discurso do músico pergunta, “Será que é bom isso aí?”. “Olha, não sei não, viu. Com essa voz aí, imagine cantando... deve ser o fim!”, responde uma passageira. Esta descrição é da primeira faixa do primeiro álbum do rapper Slim Rimografia, Financeiramente Pobre (2003). Aí já vem o aviso claro de que se trata de um repertório inde-

pendente de gravadora e que preza pelo espírito original do rap – ritm and poesy. É, você vai encontrar gente dizendo que rap não é música. No entanto, resultado de um arranjo, com batidas próprias (okey!?), este estilo musical tem se tornado um ponto de fuga para as letras mais bem pensadas da música brasileira atualmente. Quem ouve Slim Rimografia na primeira vez pensa que é brincadeira, mas é só ir clicando nas seguintes para descobrir uma fonte rica de pensamento crítico e anseio por transformação. Dentro do universo criado pelo mago das rimas, destacam-se

faixas tanto do primeiro, quanto do segundo e terceiro álbuns. Em Introspectivo (2006), a faixa Novos Tempos faz a mente do ouvinte dar um solavanco. “Novos tempos, pessoas sem tempo pra nada, selva de concreto e cimento, onde tento viver e sonhar”. O refrão é apenas a porta de entrada para a reflexão intensa disposta ao decorrer da letra. As batidas aqui são misturadas com outros sons presentes na vida moderna: leia-se celulares, carros... “A vida é um grande carnaval, você tem que se fantasiar para ser alguém pelo que tem, nunca pelo que é”. Slim Rimografia é um rapaz comum, como

explica a faixa Autobiografia. Em entrevista a CONTRAPONTO ele esclarece que concluiu o Ensino Médio. Mesmo assim, suas letras estão abastecidas com as principais teorias da pós-modernidade (ou contemporaneidade). São encontrados vestígios destas convergências em diversos trechos de seus álbuns. O Filósofo e antropólogo francês, Edgar Morin, dá uma pincelada do que é a contemporaneidade: “o século XX fez a aliança com duas barbáries, uma carrega a guerra, massacre, deportação e fanatismo, e a outra é anônima e gélida ao contato, seu interior abriga a “racionalização,


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que só conhece o cálculo e ignora o indivíduo, seu corpo, seus sentimentos, sua alma e que multiplica o poderio da morte e da servidão técnico-industriais”. O grande carnaval é claramente o resultado da racionalização calculista erguida pela sociedade ao longo do século passado.

“Pensar o Pós-modernismo implica em refletir o contraste daquele com o Modernismo e como este rompe com a Modernidade, herdeira da tradição que opera com a racionalidade iluminista nas ciências, na tecnologia e até mesmo nas artes”, explica o professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP, Olympio José Pinheiro, em seu artigo “A Encruzilhada de Janus Bifrons: Arte, Ciência e Tecnologia na C ontemp oraneidade”. E neste processo de alteração, provocado essen-

cialmente pelo modo de produção capitalista, d e s e s t a bi l i z ou até mesmo os valores sociais, principalmente no Ocidente. “O amor se corrompeu, a fé virou ateu. Até o amor morreu entre Julietas e Romeus. Humanidade em ruínas me lembra o coliseu. Nos púlpitos não sei se são Profetas ou fariseus. Pra alguns é o apogeu, pra mim apocalipse. Huma-

MAIS QUE EXISTIR “Hoje minha vida é difícil me sinto sempre tão inseguro. Os dias me assustam quando caminhando pelas ruas penso no futuro.” “Sonhos, morreram prematuros em dias duros e frios.” “Coração cheio de magoas sorrir? É quase um desafio. Seguro as lágrimas, solitário entre milhões de almas que vagam. Perdido entre tristes passos nesse deserto sem água”. “O que me resta? Revolta é voz da frustração que me testa. Em cada brinde que saúda a derrota entre botecos e festas”. “A fé move montanhas, ateu, meus pés ficam estáticos. A esperança se foi e hoje os versos melodramáticos, me diz...” Viver, é bem mais que existir (força pra lutar) Viver, é bem mais que existir (força pra sorrir) Viver, é bem mais que existir Viver..


Música nidade na escuridão vivendo um eterno eclipse.”, diz a letra de Epifania, do mais recente disco de Slim, Mais que existir (2009). Neste, o rapper apresenta seu pessimismo na mais alta voltagem. O ponto de efusão negativa chega na faixa que dá nome ao álbum, Mais que existir: “Tem muito luto pra tão pouca

Cássio Abreu

luta, valores invertidos orgulho do fracasso, vergonha de ser bem sucedido. Conduta contrária de tudo aquilo que acredito. Vai vendo, hoje vitória não é quem vence mais e sim quem sofre menos!” Mas é claro, não se pensa a atualidade sem olhar para trás. Slim faz o paralelo explícito. A explicação, digamos perfeita, da atual situação dos negros no Brasil. Na faixa Zumbi, ele justifica o resgate histórico necessário e essencial para formular a poesia crítica: CONTRAPONTO: Quem escreve as letras? Slim Rimofragia: Todas as letras são escritas por mim “Slim Rimografia” sempre escrevi muito antes dos raps já fazia alguns poemas e textos. CP: No que se baseia para as escrever?

“Apagar a história é ensinar a ignorar. (...) Sabe quem Zumbi foi... aquele que lutou, morreu por você, foi...”. De fato, Zumbi é um herói nacional, tanto que o dia de sua morte virou o “dia da consciência negra”, feriado adotado por mais de 200 municípios em todo Brasil. Desde as batalhas nos quilombos, muita coisa mudou. “A rotina tirou a inspiração da poesia, tirou as cores do pincel do quadro que o pintor coloria, tirou a emoção da canção e de quem a fazia, tirou a felicidade do palhaço e o sorriso da alegria”, cantarola a faixa Novos Tempos. Slim vai além: “Escravidão não acabou se sabe o que mudou? temos nossas própria senzala bem longe da casa do sinhô”, diz na faixa Canção da Vitória. Apesar de forte, os versos de Slim vão de encontro ao pensamento de Edgar Morin: “Se a modernidade é definida como fé incondicional no progresso, na tecnologia, na ciência, no desenvolvimento econômico então – conclui – esta modernidade está morta”. Foi no primeiro álbum, que Slim Rimografia pôde ter alcançado sua obra-prima. Trata-se de a música Poeticamente a Vida. Num trecho,

ele e Morin chegam a quase uniformidade: “Amor hoje confundido com bens matérias. Dinheiro faz das pessoas: assassinos, celebridades, estrelas ou marginais.” Aliás, o primeiro álbum já tem uma riqueza intelectual de amplitude extrema. O trecho, “baseado em fatos reais, aqui não tem ficção; nosso efeito causa efeito, deixo todo mundo bobo; informação, não alienação como nas novelas da globo”, vem dela. E veja que esta não é a única crítica a mídia tradicional exposta nas letras do rapper. O Professor do Departamento de Comunicação da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), Antonio Albino Canelas Rubim, entende a contemporaneidade como a “Idade Mídia”. E ele utiliza de exemplos claros de livros e artigos intitulados com o tema. “‘Aldeia Global’ (McLuhan, 1974), ‘Era da Informação’ ou ‘Sociedade Rede’ (Castells, 1992), ‘Sociedade Informática’ (Schaff, 1991), ‘Sociedade da Informação’ (Lyon, 1988; Kumar, 1997, dentre outros), ‘Sociedade Conquistada pela Comunicação’ (Miège, 1989), ‘Sociedade da Comunicação’ ou ‘Sociedade dos Mass Media’ (Vattimo, 1991), ‘Sociedade da Informação ou da Comunicação’ (Soares, 1996), ‘Capitalismo de Informação’ (Jameson, 1991) e ‘Planetas mídias’ (Moraes, 1998). Todas estas denominações, entre muitas outras possíveis, têm sido insistentemente evocadas para

SR: Na vida não só na minha vida, mas em toda vida que nos cerca acho muito inspirador observar o mundo e roubar poemas do cotidiano.

SR: 2º grau completo acho que a maioria tem esse nível de intrução.

CP: Qual é o grau de instrução, tanto do Slim como do Thiago (e de quem escreve e dos outros participantes em geral)?

CP: Qual é o objetivo das letras? É provocar um despertar da sociedade para as questões abordadas ou simplesmente fazer poesia? SR: Acho que os dois fazer poesia é um despertar particular, espalhar poesia é compartilhar essa


23 Na faixa Honra Meu Mérito, Slim canta: “Pianos tocam notas e acordes tão tristes. Soldados lutam por paz que não existe”. Esta leitura é similar a feita ainda na década de 40 pelo jornalista e escritor inglês Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell. Em sua obra 1984, Blair trabalha conceitos sociais pensando em 40 anos para mais tarde. “E, como é praxe, os grupos dominantes das três potências ao mesmo tempo sabem e ignoram o que estão fazendo. Dedicam a vida à conquista do mundo, mas também sabem que é necessário continuar a guerra, sem fim e sem vitória”. Neste trecho do livro, Blair explica como os “mandantes” organizam uma agenda militar para controlar a população criando patriotismo e medo. Um modelo de dominação presente em nossa sociedade. dizer o contemporâneo. Parte desta sociedade está na cultura. E é quase unânime entre os estudiosos das ciências sociais, de elaque se tratar de a mais importante. Susana de Castro é doutora em filosofia pela Ludwig-Maximillian Universität de Munique (Alemanha) e professora de Filosofia da Educação do Departamento de Fundamentos da Educação da Faculdade de Educação da UFRJ. Em seu artigo “Nancy Fraser e a teoria da justiça na Contemporaneidade”, ela explica que “em países como o Brasil, com enormes disparidades econômicas, seria uma grande alienação acharmos que a questão cultural se sobrepõe à econômica”. E o professor da mesma universidade carioca, Claudio de Paiva Franco, explica “desestabilizar o pensamento vigente de uma sociedade, o senso comum, questionar a origem das coisas é uma tarefa desafiadora. É dessa forma que o multiculturalismo é apresentado: como algo perturbador que, ao questionar vários aspectos da vida social, pode propiciar novas possibilidades para que indivíduos

“aprisionados” em falsas identidades sejam reconhecidos pela sociedade”. Está mais do que claro de que cultura não é algo adicional ou supérfluo. É um elemento fundamental para a identidade de uma sociedade. E eis o porquê de “mago das rimas”: “Ocuspocus, abra kadabra, poder transformador com a magia das palavras. Sim simsalabim, alakasam, que se abram os portais do conhecimento guardados pela fada guardiã. Aqui chamada denominada biblioteca, com magia parecida com a que foi construída templos astecas. Rimas mágicas a serviço da construção de um novo ser com novas filosofias, um novo saber. Somos bruxos, magos e centuriões, do povo os verdadeiros e legítimos guardiões, montados num cavalo alado chamado cultura”. Esta obra, Rimagia, também está no primeiro álbum. Ao longo dos três álbuns, Slim Rimografia dá mostras de estar conectado com os estudos mais avançados da pós-mo-

vontade de mudar algo de sentir a vida é despertar pro mundo é acordar pra vida.

muito tempo livre para fazer projetos sociais apenas pequenos workshop e palestras.

CP: Vocês têm outras ações sociais fora da música? SR: O Thiago (Beats) trabalha com Silkscreen eu Slim só faço músicas e por alguns anos fui arte educador porem os shows não nos deixa

CP: O que pensam sobre o capitalismo? SR: Não é o melhor porem é impossivel ser comunista ou socialista num sistema capitalista temos a necessidade do dinheiro, mas

dernidade. Isso se chama visão. Não é olhar somente para o próprio umbigo. É perceber o que acontece a sua volta. Cultura num nível elevado gera transformação e quem a detém se liberta do censo comum e das correntes das informações pagas. “Escuta: tem muito luto pra tão pouca luta. Você escuta muito discurso e vê pouca conduta”, este verso da faixa Postura conclui bem esta reportagem. Janaina Castelo Branco/siteNOIZ

jamais ser escravo dele. CP: Planos para o futuro da dupla? SR: Fazer muita música.


Jornalismo

JORNALISMO INSTITUCIONALIZADO Entre tantas definições e especulações sobre o mercado da Assessoria de Imprensa, a CP foi em busca do que é, o que faz e o que os profissionais pensam sobre Lydiana Rossetti conceito e desconfiança dos profissionais da imprensa, que acreditavam que este segmento limitava a atuação de um jornalista, quase que uma traição à profissão. Em alguns países se nega até hoje a condição de jornalista para profissionais que trabalham nesta área. Para o professor universitário e autor do livro A Reportagem, Nilson Lage, o surgimento das assessorias contribuiu decisivamente para a profissionalização do setor de comunicação social, com a delimitação de posições, o lado de quem fornece e o de quem coleta a informação. Um assessor de imprensa exerce serviços muito maiores que apenas a produção e reprodução de releases. Elaboração de produtos jornalísticos como fotografias, programas de rádio ou televisão, edição de periódicos destinado ao público externo e interno do órgão assessorado, e a participação na definição de estratégias de comunicação também fazem parte das funções deste profissional. Para a jornalista e coordenadora do Núcleo de Relações

Aurora divulgação

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ato de comunicar segundo o dicionário é fazer saber, por em contato, tornar comum. E é o que querem muitas empresas: fazer com que a informação rápida, passageira, se torne algo permanente, conhecido pelas pessoas. Afinal quem não é visto não é lembrado. As empresas estão utilizando cada vez mais as estratégias e os meios de comunicação para firmarem relacionamento com seu público, seja ele interno ou externo. As assessorias de comunicação são a peça chave para esta relação, que é realizada por departamento interno ou pela contratação de instituições especializadas no assunto. O que envolve os três campos da área da comunicação social: Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda. Especialmente aos profissionais de jornalismo cabe a função de assessor de imprensa. Esta prática profissional consolidou-se após a segunda guerra mundial, e desde a criação sofreu muito pre-

com o Mercado do Senai de Chapecó, Ana Paula Eckert, a função de assessorar cabe totalmente a um jornalista, preferencialmente formado, que além da produção de material sobre a empresa, sabe lidar com a imprensa. Ana cita o exemplo de solicitações de entrevista da mídia local. Os veículos entram em


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Lydiana Rossetti

contato com ela para designar alguém que saiba falar sobre o tema a ser tratado, portanto ela como assessora deve conhecer desde a pessoa que entenda o assunto até a pessoa que se porte bem na frente das câmeras, que saiba conceder uma entrevista. Desde 2005, Ana trabalha

Assessoria tem pressão menor em relação a tempo

no Senai. Entrou na empresa ainda na faculdade, mas não atuava na área. Em 2007, um ano antes de se formar, entrou para o Núcleo onde hoje é a coordenadora. Ela conta que o trabalho realizado é uma comunicação integrada. Além dela, uma publicitária e uma administradora trabalham no setor, desenvolvem desde um informativo a organização de eventos. As organizações Mostrar o assessorado não significa deixar de lado o interesse público. Tanto interna quanto externa a informação deve ser importante para o “destinatário”. Um produto produzido jornalisticamente só terá resultados se for de interesse da sociedade. De acordo com a Gerente de Comunicação Social, Isabel Cristina Trierveiler Machado, é desta forma que a comunicação da Aurora Alimentos procura trabalhar. A comunicação interna funciona com o auxílio de jornais murais, rádio, revista, para que funcionários sintam-se parte da empresa. Há 12 anos, a Aurora contrata uma empresa terceirizada para prestar assessoria de imprensa externa. Para Isabel, a comunicação é essencial para o crescimento e fortalecimento da instituição. “Se a empresa não se comunicar com o público, fica a mercê do mercado”, explica. É também o que Ana afirma, “não vejo o Senai sem esse setor”, quando se refere ao núcleo que trabalha. Para ela, um profissional tem que estar sempre aberto a novas experiências, não se prender a apenas a sua função e mostrar para a empresa o quanto a comunicação é necessária.

As vantagens e as desvantagens Na região muitas empresas ainda não perceberam a importância de ter ou contratar os serviços na área de comunicação. “Grandes empresas que poderiam ter um profissional atuando não possuem, ou a pessoa não é formada”, conta Ana. Ao contrário de Ana, a responsável pela assessoria de imprensa da empresa Nova Multicomunicação de Chapecó, Camila Farias, acredita que esta é uma área que ganham a cada dia mais reconhecimento. Eles assessoram oito empresas, sem contar as que contratam os serviços eventualmente. Camila acredita que a comunicação terceirizada com a qual trabalha, seja a mais vantajosa. “Para uma empresa manter um profissional é muito caro. Então terceirizar é a melhor opção. Muitas empresas não precisam de uma assessoria diária”, explica. Mesmo com a vontade repentina que às vezes toma conta em pegar um assunto que renda uma boa pauta e começar a redigir o texto, Ana Paula gosta muito do que faz, “não me vejo saindo daqui”. Ela confessa que onde trabalha não se fala em piso salarial, mas sim em planos de cargos e salários, e por trabalhar oito horas e a função agregar outros processos empresariais acaba ganhando mais que um repórter, por exemplo. Benefícios como plano de saúde, odontológico, auxílio creche, além de não precisar trabalhar em feriados, fins de semana e fazer plantão, são fatores que Ana acredita a deixar estável e confortável na área em que trabalha. Com um olhar exterior aos meios, já que nunca trabalhou em um, ela comenta: “em um veículo de comunicação é mais difícil crescer em questão de cargo, o que é diferente em uma empresa de outra área”.


Jornalismo

SER JORNALISTA? EIS A QUESTÃO Natan Silveira

S

ete horas da noite. Aprovados através do vestibular ou processo seletivo especial, chegam à universidade para o início do ano letivo. O curso escolhido: Jornalismo. De um lado – acomodados dentro da sala de aula -, os calouros esperam ansiosos a entrada do professor com as primeiras palavras sobre a profissão. De outro, veteranos, mestres e profissionais da área prontos para “aprontar” com os novos alunos. Entre uma e outra brincadeira, depoimentos são apresentados aos acadêmicos. De um deles sai a seguinte afirmação: “Ser jornalista não é fácil. Se trabalha muito, mas se ganha pouco”. A partir daí, uma pergunta “percorre” os neurônios dos estudantes. Vale a pena ser jornalista? O jornalista chapecoense, Rafael Henzel, 37 anos, diz que vale e declara que a profissão é apaixonante. “O futuro promissor está nas relações profissionais que o jornalista desenvolverá na carreira”, revela. E qual é o motivo para existir tanta paixão, deve imaginar a maioria dos acadêmicos? Para Henzel, é pela importância que a profissão tem frente à socieda-

de. Ele explica que o jornalismo é uma das ferramentas importantes para educar e orientar a população, bem como deve ser utilizada para fiscalizar e auxiliar o crescimento econômico e cultural de uma cidade, de um estado ou até mesmo do país. O diretor tesoureiro do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (SJRS), Antonio Barcellos, se mostra convergente ao conceito de Rafael e acrescenta: “O jornalismo é o termômetro da consolidação democrática”. No livro O Que é Ser Jornalista, Ricardo Noblat discorre sobre o problema que a imprensa norte-americana enxergava: o controle de muitos veículos de comunicação por um número reduzido de empresários – fato semelhante ao ocorrido no Brasil entre 1930 e 1960, com os Diários Associados de Assis Chateaubriand. Contudo, no caso descrito por Noblat, os donos das megaempresas pensavam o jornalismo como um negócio que deveria ser subordinado a outros mais lucrativos. Entretanto, o jornalista e escritor, expõe a função e o método como o profissional deve lidar com essas intempéries. “O jornalista veio ao mundo para cor-

rer atrás da notícia e oferecê-la ao estimado público da melhor maneira possível. Com precisão, clareza e honestidade”, afirma. Assim, a indicação apresentada no livro por Ricardo – sem querer – complementa a ideia relatada por Henzel e Barcellos. Porém, para muitos estudantes de Jornalismo, estes argumentos são considerados pouco. Hoje, o fator preponderante para a continuação no curso é a questão salarial e a situação acerca do diploma que regulamenta o exercício da profissão de jornalista. Mito ou Realidade? No dia 17 de junho de 2009, nove ministros do Supremo Tribunal Federal discutiram a problemática sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Com oito votos contra, a formação em um curso superior de Jornalismo deixou de ser necessária para a atuação em veículos de comunicação ou assessorias de imprensa profissionais. Mas, esta medida não significou o fim dos cursos da área nas universidades brasileiras. Na ocasião, apenas o ministro Marco Aurélio defendeu o diploma para o exercício da profissão. Desde então, mo-


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Rafael Renzel em jogo da Chapecoense: dá trabalho, mas vale Natan Silveira

bilizações e debates sobre a importância do diploma são realizados pelos sindicatos de jornalistas em todo o país, relata Barcellos. Destaca-se o abaixo-assinado online a favor das PECs 33/2009 e 386/2009, de autoria do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE) e do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), respectivamente, disponibilizado no site da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) a partir do mês de agosto do ano passado. Para Antonio Barcellos, a maior dificuldade na adesão das manifestações sindicais da profissão, é o baixo índice de sindicalização dos jornalistas. “Por tradição o jornalista ‘abraça’ todas as categorias, menos a sua”, conta. Todavia, a folha de pagamento do profissional não tem influência do diploma de graduação em curso superior. Pelo menos essa é a posição do presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC), Rubens Lunge. Em seu ponto de vista, existem outras questões mais relevantes e que determinam a quantia embolsada. Lunge cita como exemplo, a experiência adquirida pelo profissional. Na mesma linha de raciocínio, Henzel coloca outro fator, não menos importante: a negociação. O jornalista chapecoense lembra uma situação que aconteceu com ele no Rio de Janeiro. Sem

formação superior, foi contratado por uma emissora de televisão e a questão salarial foi definida em acordo com o veículo de comunicação. Aspecto também levantado por Rafael Henzel, diz respeito à burocrática abertura de uma empresa, no intuito de aumentar a renda. “Utilizei minha experiência de 15 anos em veículos de comunicação para montar uma empresa de assessoria de imprensa. Tenho uma renda muito maior”, enfatiza. O problema é que a criatividade nem sempre aflora nas mentes e almas jornalisticamente formadas. Para muitos, a academia serve apenas para proporcioná-los a garantia da diplomação. Resultado: uma mesa, um computador, uma térmica de café e alguns copinhos descartáveis, além da falta de independência do profissional. Então são das redações que saem os mitos da profissão? Pode-se dizer que sim. Entretanto, para Barcellos, há um pingo de verdade na questão. O diretor tesoureiro do SJRS diz que a situação dos jornalistas é semelhante a dos professores, contudo os profissionais da educação começaram a escancarar seus salários de fome, enquanto os jornalistas não o fazem por excesso de vaidade. “No jornalismo existe um grande glamour e um pequeno salário”, ressalta. Porém, Rubens Lunge analisa de forma diferente. A tese que o presidente do SJSC utiliza é a seguinte: falta compreensão dos jornalistas quanto à remuneração. O piso salarial da categoria estipulado pelo sindicato é apenas uma referência e deveria servir como base para os recém-formados, também chamados de “focas”. Uma pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), apontou que os jornalistas catarinenses recebem, em média, mais de dois mil reais mensais. Para Lunge, é inte-


Jornalismo ressante que os profissionais com uma carreira consolidada utilizem-se de um quesito apresentado por Rafael Henzel: negociar os vencimentos com o veículo de comunicação. Discussão encerrada? Claro que não. Os pisos salariais também são debatidos. Na esperança de dias melhores Por que eu ganho tão pouco? Gostaria de ganhar mais, pois mereço. Perguntas e respostas dessa relevância são encontradas em qualquer empresa. E as redações jornalísticas não fogem o padrão. Até porque no Brasil não existe apenas um “salário mínimo” para jornalistas. Cada sindicato estadual estipula o seu piso. Mas, porque existem discrepâncias entre os estados, que podem chegar a 60%? Lunge e Barcellos, em consenso, têm a orientação. Na opinião dos membros dos sindicatos estaduais do RS e SC, a falta de sindicalização, ou até mesmo o apoio às mobilizações e debates da categoria, por parte dos profissionais, contribui para a estagnação no valor dos vencimentos. “O salário dos jornalistas será melhor quando a categoria quiser que isso ocorra, demonstrando isso em participação em assembléias dos jornalistas, em ações concretas sobre a necessidade de melhorais salariais, em manifestações coletivas”, adverte Lunge. O mesmo argumento é utilizado pelos dois, quanto ao futuro da profissão no país. Barcellos se mostra confiante e otimista. “Temos muito claro que é uma batalha que depende muito do aumento do nosso exército de jornalistas”, ressalta. Para ele, esta é a maneira de expor o risco que a sociedade corre na informação decorrente da contratação, pelos veículos de comunicação, de profissionais sem formação superior.

Valores

A INFLUÊNCIA DA TELINHA Na frente da televisão, crianças ficam expostas ao lado bom e ruim da tecnologia Stéfany Breda

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ob Esponja, Pokémon e Os Simpsons fazem parte da rotina de muitas crianças, que trocam seus carrinhos, bonecas e brincadeiras pela televisão. Deste modo, a falta de atividades físicas, pode causar danos a aprendizagem e a saúde ou torná-las suscetíveis ao conteúdo exibido pela mídia. O desenvolvimento infantil nos aspectos motor, emocional, social e intelectual, depende do que a criança aprende e acredita ser correto. Assim, a influência da TV e seus programas contribui ou atrapalha para este progresso pessoal? Segundo o pesquisador alemão em neurobiologia, Manfred Spitzer, em entrevista concedida ao Zero Hora, a TV engorda, emburrece e torna as crianças agressivas. Ele afirma que crianças que passam mais de quatro horas por dia na frente da televisão possuem déficit de concentração e tem pro-


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Dimitris Papazimouris

blemas sérios com a aprendizagem. Contudo, a psicóloga Michele Gaboardi Lucas, diz que a televisão é somente um fator, mas não o causador da falta de atenção. “Se a criança consegue se concentrar em outras coisas, até mesmo na televisão, o problema não é de concentração”, afirma. Michele explica que o mundo da fantasia é positivo e pode favorecer os pequenos, sobre os aspectos de esperteza e intelectualidade. Todavia, deve existir uma dosagem do tempo de exposição na frente da TV. “O acompanhamento dos pais, no controle do tempo é de extrema importância”, ressalta. A colocação de limites ensina às crianças a diferença entre a fantasia e o real. Deixá-la fazer

todas as suas vontades, construirá uma barreira entre pai e filho, quando for citada a palavra “não”, já que as crianças estão acostumadas a fazer tudo o que desejam, no momento em que lhes interessam. Uma palavra negativa soará como uma “ tempestade”. TV Cultura, Disney Juniors e TV Futura. Para a dona de casa Eliane Gnoato, estes são os canais mais indicados para crianças. Eliane é mãe de Eloisa Gnoato, de sete anos. “O conteúdo destes canais ajudam na criatividade e no desenvolvimento das crianças. Ensinam jogos, brincadeiras e atividades que despertam o pensar dos pequenos”, conta. Os canais indicados por Eliane são educativos, transmite cultura, curiosidades informações,

brincadeiras, dentre outras programações que contribuem para a educação das crianças. Conta com desenhos animados e educativos, como cocoricó, para descontrair. Pais, professores, legisladores e educadores se preocupam com os programas expostos as crianças. De nada adianta estes ensinarem de uma forma, se a televisão orienta de outra. Este é um grande desafio a quem realmente se preocupa com o futuro da nação. As propagandas de roupas e brinquedos acabam induzindo as crianças a serem seres consumistas desde pequenos. Dessa forma, quanto mais tiverem, mais irão querer. Muitas vezes a justificativa é ausência dos pais. É o caso da pequena Larissa Ribeiro que alega


Valores

precisar de uma boneca para lhe fazer companhia enquanto a mãe está fora. “ Vou ter com o que brincar quando você tiver no trabalho”, relata Larissa de cinco anos. Tais atitudes geram problemas no convívio com outras crianças e até mesmo na afetividade com os pais. Com o grande avanço do desenvolvimento tecnológico, os pais já não têm mais tempo de ficar junto com os filhos. Eles acabam passando o dia todo no trabalho. Os filhos ficam nas escolas ou com babás. A noite, os pais já estão cansados demais para dar atenção. Em “A criança e a TV”, Raquel Soifer, afirma que as sequências dos desenhos animados, das séries ou das propagandas cujos personagens as crianças tendem a imitar desde tenra idade, não tem relação com a realidade cotidiana e mantêm os pequenos em um mundo totalmente distanciado dela. Em lugar de oferecer modelos educativos, tais personagens destacam-se por sua astucia cruel, sua imoralidade e sua maldade. “Os supostos heróis de programas apresentados diariamente na televisão e que têm estado mais em moda acentuam a tendência infantil a limitação, com o que incitam as crianças a cometer atos imprudentes e perigosos, como atirar-se no espaço, subir pelas paredes, fazer traquinagens, etc”, escreve. A partir deste fato contemporâneo percebe-se a diferença nas relações familiares comparadas ao passado. As mães ficavam em casa cuidando dos filhos e ensinando às meninas os trabalhos domésticos. Os pais levavam os meninos para ajudá-los nas plantações e no cuidado com os animais. Desta forma, além das crianças ficarem acompanhadas dos pais, aprendiam desde muito cedo como cuidar de si e da casa. Outro fator importante é que as famílias eram maiores, portanto as crianças tinham com quem

brincar, se comunicar e aprender. Não ficavam isolados em frente à televisão por não terem companhias. Além disso, somente as famílias mais opulentas tinham acesso a TV. Ela - a televisão - não era um aparelho essencial na vida das famílias. O instrumento preponderante na época era o rádio. Os pais devem ter consciência de que as crianças precisam ter limites. Por ficarem muitas vezes, o dia todo em casa, a grande parceira dos pequenos acaba sendo a TV. Aspecto com mesmo grau de relevância, é que os pais acabam querendo aliar atenção com descanso. O que acaba gerando atitudes nem sempre corretas a serem tomadas. O caso de Adriane Carvalho, de nove anos é um exempo. Ela conta que assiste televisão com os pais à noite. Novelas, o programa A Fazenda e filmes, são os programas mais assistidos pela família dela. Percebemos que essa é a forma dos pais de Adriane dedicarem um pouco mais de atenção e carinho a menina A professora Leocimara Laura de Faria, explica que em sala de aula, estas questões estão sempre presentes. Manifestam a preocupação com a situação da criança que fica diretamente sob a influência da TV e das outras mídias. “Cada vez mais aumenta o número de famílias que estão entrando para o mercado de trabalho e deixando os filhos sozinhos em casa. “Eles têm, muitas vezes, como único enlevo a própria TV”, revela. O tempo que as crianças ficam expostas em frente à televisão, pode tanto trazer pontos positivos quanto negativos. Depende de uma dosagem que não vicie e nem apresente às crianças cenas contra indicadas. Essa falta de cuidado pode provocar conflitos futuros. Então a dica da psicóloga Michele, é que os pais adquiram novos hábitos, para conviver mais com as crianças.


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Nação

DOSSIÊ INÉDITO REVELA ABUSOS RUMO À COPA DO MUNDO A Pública teve acesso ao relatório feito por organizações populares das 12 cidades-sedes da Copa. Ele diz que o povo e os seus direitos estão ficando de fora. Agência Pública O clipe que propagandeia a Copa do Mundo de 2014, que será no Brasil, mostra uma mesa de reuniões de um escritório em Nova York. Um grito de gol ecoa de um lugar longinquo e um americano engravatado diz (em inglês): “Você ouviu isso?”. O vídeo segue mostrando as nossas belezas naturais como as lindas praias do Rio de Janeiro e as cataratas de Foz de Iguaçu. O locutor termina: “O Brasil está te chamando. Celebre a vida aqui”. Aqui no Brasil, porém, a voz das ruas parece mais protesto do que comemoração. Apaixonados por futebol, os torcedores dizem ter sua cidadania ameaçada por acordos de gabinete e seus direitos roubados pelas exigências da FIFA e pelas obras faraônicas que rasgam as cidades. É o que se lê no dossiê

12/12/2011

“Mega-eventos e violações de Direitos Humanos no Brasil”, preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas, e lançado nesta segunda-feira (12) de forma simultânea pela Pública e em atos de Comitês Populares por todo o país. No Rio de Janeiro, haverá uma concentração em frente à Prefeitura às 10h30; em Belo Horizonte haverá uma marcha que se concentrará na Praça 7 às 14h; em Curitiba, uma marcha sairá às 10h rumo à Prefeitura de São José dos Pinhais. Em Natal haverá uma audiência pública; em São Paulo e em Porto Alegre, o documento será entregue às devidas prefeituras, enquanto em Brasília o comitê regional irá buscar o governo federal. Acompanhamento das obras O lançamento do documento

acontece pouco depois da Articulação lançar um site próprio (http://www.portalpopulardacopa. org) que deve acompanhar a situação dos torcedores na contagem dos dias para a Copa do Mundo. Tanto o site quanto o relatório foram produzidos conjuntamente por comitês populares, que são agremiações de organizações sociais e pessoas que serão atingidas pelas obras em Belo Horizonte, Brasilia, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Além de denúncias de violações de direitos, o documento traz um quadro completo de acompanhamento das obras para a Copa do Mundo, incluindo custos previstos, valores licitados e como está o andamento até o momento. A reforma do Maracanã,


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por exemplo, tinha um valor previsto em 600 milhões mas acabou sendo licitada a um valor de 859 milhões, metade pago pelo BNDES segundo o dossiê. Da mesma forma, os píeres do porto do Rio de Janeiro, cujo custo estimado era de 314 milhões, foram licitados a 610 milhões. O mesmo ocorre com dezenas de projetos apontados no levantamento.

2016 no Rio de Janeiro agrega novos elementos críticos à já grave questão habitacional nessas capitais: grandes projetos urbanos com impactos econômicos, fundiários, urbanísticos, ambientais e sociais. Por exemplo, devem se proliferar os condomínios de luxo e centros empresariais que não “comportam” pobreza em seus arredores, ou que podem atropelar comunidades para se expandir. É só o começo Não há dados oficiais sobre Os movimentos populares, apoia- os despejos; o documento faz uma dos por acadêmicos e pesquisado- estimativa a partir de relatos de res, estimam que pelo menos 170 quem mora nas cidades. mil pessoas têm seu direito à mo- Até o início de dezembro, radia violado ou ameaçado pelos havia 21 casos de vilas e favelas nas mega-eventos que estão por vir, em cidades de Belo Horizonte, Curitiespecial a Copa do Mundo de 2014 ba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, e as Olimpíadas de 2016. Rio de Janeiro e São Paulo que fo O dossiê aponta que a rea- ram desocupadas, segundo o relato lização da Copa do Mundo 2014 de seus moradores, “com estratéem doze cidades e das Olimpíadas gias de guerra”.

“(São) estratégias de guerra e perseguição, como a marcação de casas a tinta sem esclarecimentos, a invasão de domicílios sem mandados judiciais, a apropriação indevida e destruição de bens móveis, a terceirização da violência verbal contra os moradores, as ameaças à integridade física e aos direitos fundamentais das famílias, o corte dos serviços públicos ou a demolição e o abandono dos escombros de uma em cada três casas subseqüentes, para que toda e qualquer família tenha como vizinho o cenário de terror”, diz o documento. Um dos casos mais emblemáticos é o do Parque Linear Várzeas do Tietê, na cidade de São Paulo. “Dividida em três etapas, a obra prevê a construção de uma avenida, ‘Via Parque’, para ‘valorizar a região’ [...] que fica às margens da rodovia Ayrton Sen-


Nação na, entre o Aeroporto Internacional de Guarulhos e o futuro estádio do Corinthians, provável sede paulista na Copa do Mundo, em Itaquera. Mais de 4.000 famílias já foram removidas do local sem serem consultadas sobre a implantação do parque e sem saber para onde iriam. Outras 6.000 famílias aguardam, ignorando seu destino. ‘Pegaram nós de surpresa. Com um projeto de tamanha proporção, a comunidade no mínimo tinha que ser consultada. [...] As famílias foram morar ali há mais de 40 anos, quando ainda não era Área de Proteção Ambiental’, diz o líder comunitário Oswaldo Ribeiro”. Um dos locais mais ameaçados é Fortaleza, que segundo o documento terá mais de 15.000 famílias atingidas por empreendimentos relacionados à Copa do Mundo. Exploração dos trabalhadores gerou 10 greves pelo país A Fifa determinou que as obras dos estádios deveriam estar prontas antes de 31 de dezembro de 2012, a tempo de sediar a Copa das Confederações em 2013. Diversas vezes Jérôme Valcke, secretário-geral da entidade, fez pronunciamentos em que alertava para o atraso das obras e cobrava do país um ritmo mais acelerado. Diante de tanta pressão, alguém tinha que pagar a conta. Segundo o dossiê, foram os trabalhadores das obras: “Essa pressão parece favorecer também às próprias empreiteiras, uma vez que contribuiu para os atropelos legais, aportes adicionais de recursos públicos, irregularidades nos processos de licenciamento de obras e inconsistência e incompletude de alguns projetos licitados sem qualquer segurança econômica, ambiental e juridical”, afirma o

documento. “Mais do que isso: serviu como pretexto para as violações de direitos dos trabalhadores nas obras dos estádios e dos projetos de infraestrutura. A conjugação entre a magnitude das obras e os cronogramas supostamente apertados para realizar os empreendimentos já tem resultado em más condições de trabalho e na superexploração dos operários, a despeito das cifras milionárias destinadas às obras”. Em pouco tempo, mobilizações, paralisações e greves começaram a pipocar pelo país. O dossiê contabiliza que até novembro de 2011, foram registradas pelo menos dez paralisações em seis dos 12 estádios que serão usados para a Copa: no Mineirão em Belo Horizonte, no Mané Garrincha em Brasília, no Arena Verdão em Cuiabá, Arena Castelão em Fortaleza, no Arena Pernambuco em Recife e até no Maracanã, no Rio de Janeiro. Entre as principais reivindicações das greves estavam desde aumento salarial e concessão de benefícios como plano de saúde, auxílio alimentação e garantia de transporte até melhoria nas condições de trabalho (em especial, os trabalhadores reclamam das condições de segurança, salubridade e alimentação), aumento do pagamento para horas extras e o fim do acúmulo de tarefas e jornadas de trabalho “desumanamente prolongadas”. O povo, excluído da festa Enquanto os movimento sociais estão promovendo cada vez mais o debate sobre as obras da Copa, a população em geral não participa dos órgãos e da estrutura de organização de sua preparação. As portas estão fechadas à participação popular, segundo o dossiê. “Informações sobre os


35 processos de preparação para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 não são apenas negadas à população em geral, mas mantidas secretas até mesmo para os órgãos de controle do próprio Estado, como o Ministério Público” diz o dossiê, e ainda: “Nesse contexto, vemos as populações atingidas fora das instâncias decisórias e mesmo sem ter acesso à informações básicas para a defesa de seus direitos. Enquanto isso, uma diversidade de organismos são instituídos em nível federal, estadual e municipal, tais como grupos gestores, comitês, câmaras temáticas e secretarias especiais da copa”.

Sam Javanrouh

O brasileiro está pagando uma festa em que o mundo todo irá desfrutar

Passada a Copa, fica o legado Em uma carta anexa ao documento, os comitês populares se mostram preocupados com o legado dos mega-eventos. Dizem que até agora não é evidente que as obras contribuam minimamente para a inclusão social e a ampliação de direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais: “Ao contrário, a falta de diálogo e transparência dos investimentos aponta para a repetição do que ocorreu no período dos Jogos Panamericanos de 2007, quando assistimos ao desperdício de recursos públicos (de acordo com o TCU, mais de R$ 3,4 bilhões foram gastos de forma indevida, mas ninguém foi punido) em obras superfaturadas que se transformaram em elefantes brancos”.

apublica.org


Literatura Noukka Signe

Ler para crescer Kaehryan Fauth

Era uma vez...”, quantas mães sabem o quão importante é contar histórias para seus filhos desde que nascem? Já viemos ao mundo condicionados a aprender as diversas formas de linguagem para que possamos nos comunicar na sociedade. O psicólogo Peter Jusczyk da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, descobriu que seis meses após o nascimento os bebês já são capazes de associar sons e palavras aos seus significados. Parece impossível, mas a capacidade de aprendizagem do ser humano começa desde sua formação no útero, e continua mais intensamente nos primeiros anos de vida. Uma pesquisa realizada em Chicago, no Estado da Califórnia, também nos Estados Unidos, revela que filhos estimulados pelos pais com gestos ou mesmo à interação com outras crianças têm uma maior facilidade de socialização e de descobrir palavras novas. Outro segredo, nem tão secreto assim, é o incentivo a leitura, que além de ajudar a criança a memorizar a grafia das palavras, ajuda também a estimular a construção de frases mais harmônicas. A boa leitura é base da for-

mação cultural de qualquer pessoa, são registros históricos feitos em livros que nos apresentam a diferentes culturas, hábitos, realidades, ideologias, entre tantas outras coisas. Mas quantos livros você lê por ano? Segundo a Câmara Brasileira do Livro, cada brasileiro lê pouco mais de dois livros por ano. Este número, sem dúvidas, é alarmante e influencia diretamente na economia, inclusive na classe social de cada indivíduo. É verdade, o Brasil está longe de ter uma formação escolar homogênea, mas com o incentivo à leitura é possível dar asas para que alunos ampliem seus pensamentos, sonhos e objetivos. Os ingleses mantém uma média de cinco livros lidos anualmente. No que isso resulta? A Inglaterra possui um dos melhores sistemas de ensino do mundo. As escolas têm papel fundamental de educadoras e formadoras de bons hábitos, mas, a leitura é um princípio que deve ser instigado tanto na escola como pelos educadores fundamentais, os pais. Segundo o Ministério da

Educação, a leitura desenvolve o repertório cultural, instiga o senso crítico, amplia o conhecimento geral, o vocabulário, estimula a criatividade, emoções e claro, prepara melhor a criança, e consequentemente facilita o ato de escrever. Mas afinal, qual a fórmula para o estímulo da leitura? Para a professora de Língua Portuguesa, Juceli Morello Lovatto, o segredo é começar pelo que a pessoa mais


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gosta, “o interesse pela leitura dá-se, principalmente, pelo estímulo favorável e pelo aguçar da curiosidade sobre o fabuloso mundo da escrita”. Para ela, a leitura culmina em discussões mais consistentes

dos com sugestões”. Segundo ele, cobrava-se muito o uso de palavras alternativas para evitar a repetição exaustiva. A partir disso, já é possível estabelecer alguns objetivos para quem lê mais: a leitura como

além de inquietação e satisfação pelo conhecimento, “podemos nos arrepender de não ter lido, mas nunca de ter lido!”, afirma. O jornalista Tiago Franz admite que nas disciplinas de redação e língua portuguesa havia muita cobrança, “Os professores procuravam manter a originalidade de cada aluno, mas quase sempre os textos corrigidos eram rabisca-

meio de se informar, de estudar, e acima de tudo de forma prazerosa. Quanto mais cedo houver essa busca, seja por qualquer um dos objetivos, mais eficazes serão os livros. Lembre-se: antes um livro na mão do que dois na estante. Ler é um ato contínuo de desenvolvimento da capacidade crítica, o processo da leitura exige um esforço que garante uma compreensão ampliada

do mundo, de nós mesmos e da nossa relação com a sociedade. Gíria ou armadilha? “Saca” esse “lance” das gírias? São expressões que geralmente surgem entre os jovens e têm significados específicos. Elas têm caráter popular e surgiram como uma espécie de identidade cultural de determinados grupos ou tribos. Gíria não é sinônimo de falta de instrução ou de mau uso das palavras, é uma busca pela representação de algo que não tem significado específico ainda, ou que tem um significado que complica demais a expressividade do termo. Estas palavras que se agregam e aos poucos tomam conta do vocabulário tem um papel muito importante, o de renovação das expressões linguísticas. Elas existem desde sempre e distinguem gerações. Algumas gírias são situacionais, outras se camuflam e aos poucos se infiltram no nosso cotidiano, tomando conta dele até mesmo de forma imperceptível. As gírias passaram de regionais ou de determinados grupos sociais, a socialização a nível mundial, tendo como principal vetor de divulgação a internet. Mas é preciso estar atento: quem tem o costume de usar gírias precisa se autovigiar para não usá-las em momentos inapropriados. Afinal, você não vai a um evento formal com uma roupa de ginástica, “tá ligado”?


Silvio Tanaka

Fotografia