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A química do prazer...

Enquanto espera a oportunidade de retomar o trono que é seu por direito, o rei exilado Alix Saint Croix preenche seus dias – e noites – com incontáveis amantes. Ao entrar em uma loja de fragrâncias parisienses em busca de um presente, ele encontra algo que não estava procurando: um desejo avassalador pela exótica perfumista Leila Verughese. O aroma que Alix exala desperta todos os sentidos dela, fazendo com que Leila decida entregar sua inocência para o rei. Contudo, esta alquimia trará consequências inesperadas, que transformarão a vida de ambos para sempre.


– O que você está propondo exatamente com essa coletiva de imprensa e me levando para a Ilha de Saint Croix? Alix estudou-a. Era ainda mais bonita do que se lembrava. Os olhos verdes estavam enormes. No momento que a viu parada no hall, foi como se seu sangue tivesse recebido injeções de eletricidade pura. – Você irá porque está carregando meu herdeiro e o mundo todo já sabe. Leila cruzou os braços. Seus seios pareciam maiores. Por causa da gravidez? A ideia do corpo de Leila amadurecendo com a semente dele, seu filho, causou-lhe outra onda de desejo. E a recordação de acariciar aquele mamilo com a boca, sentindo a doçura invadiu sua mente. Alix reprimiu brutalmente as imagens. Leila estava andando pela sala. – Qual é a solução? Tem de haver uma... – Ela parou e o encarou. – Quero dizer, não é como se você realmente quisesse se casar comigo. O noivado é apenas fachada, até que as coisas se acalmem... Ela parecia tão esperançosa que Alix quase sentiu pena. A relutância de Leila em se casar com ele o deixava, de algum modo, possessivo. – Não, Leila. Nós vamos nos casar. Em duas semanas.


Querida leitora,

A inocente Leila sempre preferiu focar no trabalho e manter-se afastada de relacionamentos. Até o rei Alix entrar em sua loja. A atração é instantânea e intensa. E, por mais que soubesse que ele é um conquistador, Leila não consegue resistir ao seu poder de sedução e entrega-se ao desejo. Porém, logo ambos percebem que apenas uma noite não seria suficiente.

Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Abby Green

ESSÊNCIA DO DESEJO

Tradução Deborah Mesquita de Barros

2016


CAPÍTULO 1

LEILA VERUGHESE estava se perguntando o que aconteceria quando seus poucos suprimentos de perfume acabassem, quando, pelo canto do olho, viu alguma coisa e virou-se, satisfeita pela distração de seus pensamentos negativos. Era um carro preto polido, parando na frente de sua pequena perfumaria, chamada Chez Leila. A loja que herdara da mãe, na Place Vendôme, em Paris. Quando ela olhou mais de perto, viu uma verdadeira frota de carros pretos polidos. O líder deles tinha bandeiras balançando sobre o capô, mas Leila não conseguiu decifrar de que país eram, embora tivesse passado a maior parte de sua vida identificando as glamorosas chegadas e partidas do exclusivo Hotel Ritz, do outro lado da rua. Um homem saiu do carro, claramente algum tipo de guarda-costas, com um fone de ouvido nas orelhas. Ele olhou ao redor, antes de abrir a porta traseira, e Leila arregalou os olhos quando viu quem emergiu. Era um homem... inequivocamente um homem. O que era uma coisa ridícula a se pensar. Ou era um homem ou uma mulher, afinal de contas. Mas era como se a masculinidade o precedesse, como uma energia poderosa. Ele tinha bem mais de 1,80m, agigantando-se sobre o homem mais baixo e mais troncudo ao lado. Um corpo forte, com ombros largos num sobretudo longo preto. Ele parecia vir em direção à loja quando parou de repente. Leila viu um ar de irritação cruzar sua expressão por um momento antes de ele se virar para falar com alguém que devia estar no banco de trás do carro. Uma esposa? Namorada? Leila viu de relance uma longa coxa bronzeada e uma mecha de cabelo loiro, então o homem voltou a caminhar em direção à loja. Somente então registrou o rosto dele. Jamais vira algo tão belo e ousado em toda a sua vida. Pele cor de oliva. Morena o bastante para um árabe? Maçãs do rosto elevadas e boca sensual. Poderia ser gracioso se não fossem os olhos profundos, as sobrancelhas fortes, que por fim revelaram uma expressão de irritação. Ele tinha cabelos escuros cortados rente à cabeça, cujo formato era o mesmo do lindo e másculo rosto. Leila permaneceu em choque por um longo momento, enquanto ele chegava mais perto. Por um segundo, logo antes de a porta da loja se abrir, os olhos dele encontraram os seus, e ela teve a estranha impressão de uma enorme ave de rapina aproximando-se para agarrá-la com as presas e carregá-la para longe.

ALIX SAINT Croix mal reparou na vendedora morena atrás da vitrine. Surpreenda-me. A boca dele endureceu. Se pudesse dizer que a noite anterior havia sido... prazerosa, talvez estivesse mais propenso a “surpreender” sua amante. Não estava acostumado a obedecer às exigências de ninguém, e a única razão pela qual cedeu ao repentino capricho de Carmen por perfume era porque estava ansioso demais para se livrar dela.


Ela visitou sua suíte na anoite anterior e o ato de amor foi... adequado. Alix perguntou-se quando foi a última vez que esteve tão consumido pela luxúria ou por uma mulher que se perdeu de prazer? Nunca, sussurrou uma vozinha. Alix ficou entediado na noite anterior. Uma vez que as mulheres tinham um sétimo sentido feito especialmente para detectar aquilo, sua amante tornou-se dócil e meiga. A ponto de deixá-lo irritado. E, depois de um dia inteiro assistindo a modelos magras demais na passarela, ele estava ainda mais irritado. Mas era como seu conselheiro apontou ao telefone mais cedo: – Isso é bom, Alix. Ajuda-nos a envolvê-las numa falsa sensação de segurança: elas acreditam que você não tem nenhuma outra intenção, exceto socializar e sair com modelos. Alix não gostava de ser considerado um caçador de modelos e abriu a porta da loja com mais força que o necessário, enfim reparando na vendedora que o observava com uma mistura de choque e admiração. Também reparou que ela era a mulher mais bonita que já tinha visto. Possuía pele cor de oliva pálida, um nariz reto, lábios carnudos. Sexy. Maçãs do rosto firmes, mas delicadas. Os cabelos negros e lisos caíam atrás dos ombros, e Alix teve uma compulsão bizarra de tocá-los. Mas foram os olhos que o impressionaram. Enormes esmeraldas verde-claras, emolduradas por longos cílios negros. Ela parecia uma princesa do oriente. – Quem é você? Alix mal reconheceu a própria voz. Lá estava o fogo do qual sentiu falta na noite anterior. Era como se o corpo estivesse à frente do cérebro, enquanto absorvia a beleza dela. Ela piscou, e os enormes cílios cobriram os impressionantes olhos por um momento. – Sou a dona da loja, Leila Verughese. O nome combinava com ela. Exótico. De algum modo, Alix encontrou as habilidades motoras necessárias para estender a mão. – Alix Saint Croix. Os olhos da mulher lampejaram ao reconhecê-lo. Ela corou, e Alix supôs cinicamente que era óbvio que ela já tinha ouvido falar dele. Quem não ouvira? Uma mãozinha delicada encontrou a sua, e o efeito foi como de um foguete sendo lançado dentro dele. Seu sangue ferveu. Ele lutou para dar sentido a suas reações físicas e mentais. Estava acostumado a ver uma mulher e avaliá-la a distância, com os desejos firmemente controlados. Aquela mulher... Leila... era inegavelmente linda. Mas estava vestida como farmacêutica, um jaleco branco sobre uma blusa azul e calça preta. Mesmo com sapatos baixos, ela era relativamente alta. Alcançava seus ombros. Ele se pegou imaginando-a de salto alto: aquela boca tentadora ficaria tão próxima. Ela recolheu a mão, e Alix piscou. – Está procurando um perfume? O raciocínio de Alix estava lento. Perfume? Por que estava procurando perfume? Carmen. Esperando-o no carro. Sua expressão fechou no mesmo instante, e a mulher deu um passo atrás. – Desculpe, não... – Alix praguejou em silêncio. O que havia de errado com ele? – Quero dizer, sim. Estou procurando um perfume. Para alguém. A mulher olhou-o. – Tem algum aroma em mente? Alix desviou o olhar dela com esforço e estudou a perfumaria pela primeira vez. Todas as paredes eram espelhadas, com prateleiras e balcões de vidro. Vidros de perfume dourados cobriam as superfícies. A decoração era opulenta, sem ser sufocante. E não havia o cheiro forte de perfume que Alix normalmente associaria a uma loja como aquela. O ambiente era fresco e calmo. Como ela. De um jeito distraído, ele disse: – Estou procurando um perfume para minha amante. Quando não houve reação imediata, como Alix estava acostumado – ele dizia o que queria e as pessoas se assustavam –, ele encarou-a. A boca da mulher estava franzida com um ar inegável de reprovação. Ninguém mostrava a Alix reações verdadeiras. Ele arqueou uma sobrancelha.


– Algum problema? Para sua fascinação ainda maior, ela corou e desviou o olhar. Então falou: – Não sou eu quem deve dizer qual o termo apropriado para sua... parceira. Leila censurou-se por demonstrar reação e foi até uma das paredes de prateleiras, como se para procurar amostras. Seu pai um dia ofereceu o papel de amante a sua mãe depois de ela ter dado à luz sua filha ilegítima. Ele seduziu Deepika Verughese quando foi à Índia a negócios, mas lhe deu as costas quando ela desembarcou em Paris grávida, vinda da longínqua Jaipur. Sua mãe recusou a oferta de ser a amante, orgulhosa demais depois da rejeição inicial dele, e contou a história a Leila enquanto apontava as amantes de vários famosos que estiveram na loja ao longo dos anos, como uma lição sobre o que as mulheres estavam preparadas para fazer por dinheiro. Leila reprimiu a lembrança dolorosa. Detestava ter reagido tão sem profissionalismo, mas antes que pudesse dizer outra coisa viu o homem aproximar-se pelo espelho. Ele parecia ainda maior no reflexo. Ela percebeu que seus olhos eram acinzentados. – Você sabe quem eu sou? Ela assentiu. Percebeu quem era assim que ele disse o nome. Era o famoso rei exilado de um pequeno reino insular perto da costa da África do Norte. Era um famoso gênio financeiro, com dedos em quase todos os negócios que se podia imaginar, incluindo, mais recentemente, um investimento astronômico nos novos campos de petróleo de Burquat, no Oriente Médio. Havia rumores de que ele reivindicaria o trono do lugar, mas, naquele momento, estava preocupado apenas em comprar presentes para a amante. E ela não sabia por que aquilo a irritava tanto. Alix Saint Croix continuou: – Então, sabe que um homem como eu não tem namoradas ou parceiras. Tenho amantes. Mulheres que sabem o que esperar. Algo endureceu dentro de Leila. Sabia tudo sobre homens como ele. Infelizmente. E a evidência da natureza cínica daquele homem deixava-a enojada, porque a lembrava de sua própria inocência diante da evidência opressora de que o que procurava não existia. Todavia, estava determinada a não deixar que aquele homem a arrastasse para outra lembrança dolorosa. Ela cruzou os braços. – Nem todas as mulheres são tão cínicas quanto você imagina. – As que frequentam meus círculos são. – Talvez seus círculos sejam pequenos demais? Leila não podia acreditar nas palavras que escapava de sua boca, mas ele a provocara. Ela quase esperou que ele saísse correndo da loja, mas, para sua surpresa, a boca de Alix Saint Croix se curvou em meio sorriso, tornando-o ainda mais sexy. Perigoso. – Talvez. Leila sentiu-se de repente quente e claustrofóbica. O olhar dele baixou para onde seus seios estavam realçados pelos braços cruzados. Ela os descruzou imediatamente e alcançou um vidro de perfume. – Esta é uma das nossas fragrâncias mais populares. É floral com um toque cítrico. Suave e picante. Alix Saint Croix balançou a cabeça. – Não. Acho que não serve. Quero algo mais sensorial. Leila devolveu o vidro e pegou outro. – Este deve ser mais apropriado, então. Tem notas frutadas, mas uma base amadeirada e almiscarada. Ele ergueu a cabeça e murmurou, pensativo: – É muito difícil saber, a menos que você possa sentir o cheiro. A camisa de Leila pareceu apertada demais. Ela queria abrir o botão de cima. O que havia de errado com ela? Virou-se para o balcão e tirou uma tira de papel testador de um pote, pronta para espirrar o perfume a fim de que ele pudesse experimentar. E partir. Queria que ele fosse embora. Era perturbador demais para seu equilíbrio normalmente plácido. Mas, antes que borrifasse, uma mão grande agarrou seu braço, impedindo-a. Um calor atingiu diretamente seu estômago. Ela olhou-o.


– Não num pedaço de papel. Acho que concordaria que uma fragrância tem de estar na pele para ser mais bemapresentada. Sentindo-se levemente zonza e estúpida, Leila respondeu: – É uma fragrância feminina. Ele arqueou a sobrancelha mais uma vez. – Então borrife um pouco no seu pulso para que eu possa cheirar. O choque que reverberou através de Leila foi exatamente como se ele tivesse dito tire toda a sua roupa, por favor. Ela precisou lutar para se recompor. Sempre passava perfume na própria pele para os clientes sentirem, mas aquele homem fazia o pedido parecer quase indecente. Rezando para que as mãos não tremessem, Leila abriu o vidro e puxou a manga para borrifar o perfume. Quando o líquido atingiu a parte de dentro de seu pulso, ela estremeceu de leve. Foi uma sensação absurdamente sensual e repentina. Alix Saint Croix ainda segurava seu pulso. Baixou a cabeça para sentir o perfume, chegando bem perto dos seios dela. Mas continuou encarando-a, e, por um breve momento, Leila viu nuances mais claras de cinza nos olhos dele, como mercúrio prateado. Sua respiração parou ao sentir lábios quentes tão perto da palma de sua mão suada. Ele pareceu analisar o aroma, enquanto os nervos de Leila tiniam dolorosamente. Um movimento acima da cabeça dele chamou a atenção de Leila, e ela viu uma loira alta e esguia emergir do carro com um telefone colado à orelha. Usava um vestido indecente de tão apertado e uma jaqueta nada eficiente para o clima de outono. Ele devia ter reparado na sua distração, porque se endireitou e olhou pela janela também. Leila notou que o corpo do homem ficou tenso quando a namorada... amante... gesticulou com clara irritação. – Sua... amante... está esperando – gaguejou Leila. Por fim ele largou-lhe o braço. E transformou-se diante de seus olhos. Em alguém mais frio, indecifrável. De um jeito perverso, isso não a confortou. – Vou levar. Leila piscou. – O perfume – explicou ele com os olhos brilhando. Leila entrou em ação. – Claro. Vai levar apenas um momento para embrulhar. Ela foi pegar papel e não demorou a embrulhar o perfume. Entregou-lhe o pacote, evitando seu olhar. Um maço de dinheiro aterrissou no balcão, mas Leila não conferiu. E então, sem nem mais uma palavra, ele virou-se e saiu, pegando sua – o que quer que ela fosse – pelo braço e levando-a depressa de volta ao carro. O aroma dele permaneceu no ar e, numa reação bastante tardia, Leila assimilou os elementos. O perfume de Alix causou um impacto irracional no momento em que ele entrou na loja. Era uma reação visceral. Primitiva. O cheiro era único, com um toque de algo muito másculo que certamente não vinha de um vidro. O tipo de aroma evocativo que enriqueceria a pessoa que colocasse num frasco a essência pura de um macho viril. Terrosa. Almiscarada. Sentindo uma pulsação entre as pernas, Leila as pressionou, horrorizada. O que havia de errado com ela? O homem era um rei, pelo amor de Deus, e tinha uma amante! Aquilo a lembrava de outro homem que esteve na loja e foi muito habilidoso ao cortejá-la, apenas para se tornar detestável quando descobriu que Leila não tinha intensão alguma de dar o que ele queria. Ela olhou o dinheiro no balcão e percebeu que ele pagara demais pelo perfume, mas tudo o que conseguia pensar era no olhar enigmático que lhe dera antes de entrar no carro. Um olhar que parecia dizer que ele voltaria. E logo. E diante das sensações que ele lhe causara Leila sabia que não deveria estar nem remotamente intrigada. Mas estava. E nem o fantasma das lembranças do passado afastou o sentimento.


UM POUCO mais tarde, depois de trancar a loja e subir para o pequeno apartamento que dividira com a mãe por toda a sua vida, Leila viu-se gravitando para a janela que fornecia uma vista da Place Vendôme. Os binóculos que a mãe usou por anos para observar os hóspedes do Ritz estavam ali perto, e Leila sentiu uma onda de pesar por ela. Colocou o passado de lado e pegou os binóculos, apontando-os para o alto, onde ficavam os quartos, e seu corpo congelou quando ela avistou uma figura masculina familiar. Focou os binóculos, incapaz de desviar o olhar. Era ele. Alix Saint Croix. Estava de costas e vestia colete, camisa e calça. As mãos nos bolsos esticavam o tecido da calça sobre o traseiro musculoso. Na mesma hora Leila sentiu uma umidade quente lá embaixo e apertou as pernas. Ele estava olhando para algo à frente, e Leila ficou ainda mais tensa quando viu a mulher do carro. Ela despira o casaco e usava apenas o vestido mínimo. Seu corpo era esguio e bronzeado. Leila a reconheceu vagamente como uma modelo famosa de lingerie. Viu que a mulher segurava o vidro de perfume. Ela borrifou um pouco no pulso e cheirou. Um sorriso sexy delineou sua boca. Borrifou mais perfume pelo corpo todo, e Leila se encolheu. O segredo do perfume era sempre menos é mais. Então, a mulher jogou o vidro de lado e começou a tirar as finas alças do vestido, até expor seios pequenos, porém perfeitos. Leila ofegou diante da segurança da mulher. Jamais teria coragem de despir-se daquele jeito na frente de um homem. Então Alix Saint Croix moveu-se. Afastou-se da mulher e caminhou para a janela. Por um segundo, agigantou-se no foco de Leila antes que fechasse a cortina, quase como se soubesse que ela estava observando do outro lado da praça. Desgostosa consigo mesma, Leila atirou os binóculos para longe e começou a andar pelo apartamento. Como um homem como aquele podia chamar sua atenção? Ele era exatamente o tipo contra o qual sua mãe alertou-a: rico e arrogante. Disposto a enxergar as mulheres como nada além de amantes que poderiam ser substituídas com facilidade. Uma vez Leila já recusou-se a aceitar o conselho de sua mãe e sofreu um golpe duro a sua confiança e orgulho como resultado. Cheia de energia contida, pegou um casaco e saiu para dar uma volta pelos jardins Tuileries, dizendo a si mesma que não acontecera nada com Alix Saint Croix em sua loja naquele dia, que não o veria novamente e também que não se importava.

O DIA seguinte estava escurecendo quando Leila trancou a porta da loja. Foi um longo dia, com poucos clientes e apenas duas vendas. Graças à recessão, pequenos negócios afundavam por toda a parte, e desde que a fábrica que fazia os perfumes da Chez Leila fechou, ela não teve condições de procurar outra. Não lhe restava opção a não ser vender o estoque, na esperança de que vendas suficientes lhe dessem os fundos necessários para começar a fabricar os perfumes por conta própria. Estava prestes a passar o trinco quando avistou uma figura alta e familiar se aproximando. O efeito quase violento em seu corpo, por vê-lo novamente, zombou do fato de ter conseguido não pensar nele o dia todo. O rei exilado com um passado trágico. Num momento de fraqueza, Leila pesquisou sobre ele na noite anterior e descobriu que os pais e o irmão mais novo de Alix Saint Croix tinham sido assassinados em um golpe militar. Sua fuga para o exílio tornou-se lendária. Seu instinto imediato foi trancar a porta e baixar as persianas... rápido. Mas ele já estava à porta, olhando-a. O leve esboço de um sorriso tocava-lhe a boca. Obedecendo mais aos reflexos profissionais do que aos instintos, Leila abriu a porta. Ele entrou e, mais uma vez, o cérebro dela desacelerou, ocupando-se em notar a pura beleza masculina. Determinada a não deixar que ele a abalasse mais uma vez, Leila assumiu uma máscara educada e profissional. – Sua amante gostou do perfume? A imagem assustadora da mulher se despindo ameaçou a compostura de Leila, mas ela reprimiu-a com esforço. Alix Saint Croix fez um gesto quase desdenhoso. – Ela gostou. Não é por isso que vim.


Leila achou difícil respirar. De repente aterrorizada pelo motivo da visita, balbuciou: – A propósito, você deu dinheiro a mais pelo perfume. Ela foi até o balcão e pegou um envelope com o dinheiro. Apesar da intenção de levar ao hotel, não teve coragem. Alix mal olhou para o envelope. – Eu quero levá-la para jantar. Leila entrou em pânico, apertando o envelope na mão e amassando-o. – O quê? Ele colocou as mãos nos bolsos, chamando atenção para os músculos que pertenciam mais a um guerreiro do que a um homem urbano civilizado. – Eu disse que gostaria que você jantasse comigo. Leila franziu o cenho. – Mas você tem uma amante. Algo inflexível cruzou o rosto de Alix Saint Croix, endurecendo os olhos acinzentados. – Ela não é mais minha amante. Leila lembrou-se do que tinha visto na noite anterior e exclamou: – Mas eu vi vocês... estavam juntos... – Ela parou, sentindo-se enrubescer. A última coisa que queria era que ele soubesse que espionara. – Ela certamente pareceu ter a impressão de que vocês estavam juntos. A expressão de Alix foi indecifrável. – Como eu disse, não estamos mais juntos. Leila sentiu desespero. E decepção, o que era ainda pior. Claro que um homem como ele trocava de mulher com a maior facilidade. – Mas eu nem o conheço. Você é um estranho. – O que pode ser resolvido com algumas conversas durante o jantar. Leila teve um forte ímpeto de se afastar, mas forçou-se a ficar no lugar. Estava em sua loja. E tudo gritava para ela resistir àquele homem. Ele era bonito demais, grande demais, polido demais, famoso demais... Então, ela pegou-se falando: – Eu vi vocês... não tive a intenção, mas quando olhei pela janela vi vocês dois no quarto. Ela estava se despindo... Leila lutou contra a vergonha e levantou o queixo num gesto desafiador. Não se importava que ele achasse que ela o espionara. Os olhos acinzentados se estreitaram. – Eu vi você também... sua silhueta na janela. Ela empalideceu. – Viu? Ele assentiu. – Apenas confirmou que eu queria você, e não ela. Leila meneou a cabeça. – Você fechou a cortina. Para privacidade. – Sim – replicou ele em tom firme. – Para ter privacidade enquanto pedia a ela que se vestisse e saísse, porque o relacionamento estava terminado. Leila estremeceu diante da frieza dele. – Mas isso é tão cruel. Você tinha acabado de dar um presente a ela. Algo infinitamente cínico brilhou nos olhos acinzentados, e Leila detestou aquilo. – Acredite. Uma mulher como Carmen não alimenta ilusões sobre o destino da relação. Ela sabia que acabaria. Acabaria mesmo que eu não conhecesse você. Leila cruzou os braços e lutou contra o instinto de segui-lo às cegas. Havia feito isso com um homem uma vez, demonstrando abertamente seus sentimentos. A experiência a endureceu. – Obrigada pelo convite, mas receio que devo recusar. Ele franziu o cenho. – Você é casada?


Ele olhou para a mão esquerda dela, obviamente notando a falta de anéis. Leila fechou as mãos. Tarde demais. A pergunta pessoal disselhe que ela estava fazendo a coisa certa. – Isso não é da sua conta, senhor. Eu gostaria que fosse embora. Por um breve momento, os olhos de Alix Saint Croix se arregalaram, e ele disse com a voz fria: – Muito bem, desculpe importuná-la. Boa noite, srta. Verughese.


CAPÍTULO 2

ALIX ESTAVA a meio caminho da praça silenciosa, repleto de descrença e raiva. O pensamento venceu: nenhuma mulher jamais o rejeitou daquele jeito. Tão sumariamente. Friamente. Como se ele tivesse ultrapassado alguma marcação invisível no chão. Como se ele estivesse... abaixo dela. Ele dispensou o segurança com um gesto, enquanto caminhava para o hotel onde os empregados se apressavam para atendê-lo. Ignorou a todos, não podendo acreditar que ela tivesse dito não. Ele terminou a relação com Carmen especificamente para procurar Leila Verughese. Quando Carmen se despiu em sua frente, ele não sentiu nada além de impaciência para vê-la partir. E então, quando foi até a janela e vira a luz acesa na janela acima da loja de perfumes e a figura esguia, tudo o que enxergou foi o fascinante corpo dela em sua mente. A silhueta das curvas generosas indicava uma forma feminina clássica – não exatamente ligada ao mundo da moda como Carmen –, com seios pequenos e uma silhueta quase andrógina, mas muito mais atraente. Ele a queria com uma avidez que não se permitia sentir havia muito tempo. E a partida de Carmen tornou-se uma necessidade. Quando Alix voltou à suíte, ficou perambulando como um animal inquieto. Sentia-se animalesco. Como ela ousava rejeitá-lo? Ele a queria. A princesa exótica que vendia perfume. Por que a desejava tanto? A pergunta o incomodava como uma pequena farpa. Só havia desejado uma mulher daquela maneira uma única vez. Uma mulher que o fez pensar que era diferente das outras. Mas foi ainda pior. Alix, jovem e inocente aos 18 anos, tinha sido seduzido por um corpo bonito e uma atitude inocente representada com perfeição. Até que entrou no quarto dela na faculdade um dia e viu um de seus guarda-costas entre as pernas pálidas dela. A imagem foi clara o bastante para zombar dele durante anos. Como se o casamento venenoso de seus pais já não o tivesse convencido de que homem e mulher juntos traziam dor e desarmonia. Desde então, Alix exercitou todas as emoções no que dizia respeito às mulheres. Elas eram amantes... que o satisfaziam e o acompanhavam a eventos sociais. Até que chegasse o momento de escolher uma esposa para ser sua rainha. E seu casamento seria diferente. Não seria venenoso. Seria harmonioso e respeitoso. Alix pensou sobre isso. Porque aquele momento chegaria logo. Ele já estava sendo apresentado a prováveis esposas. Princesas de diferentes reinos que não o atraíam nem um pouco. Mas Alix não se importava. Sua esposa seria sua consorte, adepta aos aspectos sociais de seu papel e provedora de seus herdeiros. Então por que aquela mulher estava mexendo tanto com ele? Não estava, afirmou a si mesmo.


Ela era apenas uma mulher deslumbrante com quem teve uma conexão em algum nível muito básico, e ele não estava acostumado a isso. Alix não gostava de se lembrar daquele primeiro encontro, quando a simples visão da mulher foi como um desfibrilador trazendo-o de volta à vida. Sua vida não precisava de grandes distrações naquele momento. Já havia bastante coisa acontecendo com a perspectiva real de retomar o controle de seu trono nas próximas semanas. Algo pelo qual trabalhara ao longo de toda a sua vida. E, no entanto, aquela mulher persistia em sua mente, levando-o a tomar decisões impetuosas. E, ainda assim, Alix se viu mais uma vez atraído pela enorme janela através da qual avistou Leila na noite anterior. A loja estava escura. Uma onda de frustração o envolveu. O andar de cima também estava escuro. Será que ela saíra? Com outro homem? Alix ficou tenso diante do pensamento e precisava relaxar. Não era ciumento. Não desde que jogou seu guarda-costas nu para fora da cama de sua namorada adúltera. Teria sido mesmo ciúmes? Ou apenas orgulho ferido? Ele emitiu um som de irritação e tirou um telefone do bolso. A ligação se estabeleceu em segundos, e ele disse: – Quero que descubra tudo o que puder sobre uma mulher chamada Leila Verughese. É dona de uma perfumaria na Place Vendôme, em Paris. Alix desligou. Disse a si mesmo que ela devia estar se fazendo de difícil. Mas ele não se importava. Porque não bancava mais o idiota de mulher alguma. Ele a teria e acalmaria a urgência, antes que sua vida mudasse irrevogavelmente e se tornasse uma vida de deveres e responsabilidades. Ela não tinha o poder de desestruturá-lo. Nenhuma mulher tinha.

POR DOIS dias, Leila permaneceu na loja, extremamente consciente dos movimentos de Alix Saint Croix pela praça. Toda vez que o carro dele passava, ela ficava tensa. Como se quisesse que ele parasse e a convidasse para jantar de novo. Detestava saber que o carro dele estava parado em frente ao hotel. Naquele momento, o telefone tocou. Era do hotel. Eles queriam que Leila levasse uma seleção de perfumes para um hóspede. Ela concordou, sentindo-se nervosa de imediato. O que era ridículo. Não era um pedido incomum. Os hóspedes do hotel normalmente avistavam a loja e solicitavam serviços pessoais. Uma vez, Leila levou perfumes para a esposa de um presidente estrangeiro. Mesmo que estivesse se aventurando perto demais do covil do leão, gostou da diversão e começou a juntar tantas amostras quanto podia. Chegando ao hotel, de terninho escuro com camisa branca, cabelos presos e de posse de sua valise protetora, Leila foi levada à cobertura. O mesmo andar da suíte de Alix Saint Croix. Sentiu uma onda de pânico, mas lutou contra ela. Para seu alívio, foram na direção oposta à da suíte que ela observou na noite anterior. O gerente abriu a porta e impulsionou Leila para dentro, dizendo: – Seus clientes chegarão em breve. Leila sorriu. – Certo. Obrigada. Quando ficou sozinha, abriu a valise e começou a tirar algumas amostras, feliz em se distrair com o que fazia melhor. Sem tempo de pensar em... Ouviu a porta se abrir e virou-se com um sorriso, esperando por uma mulher. O sorriso desapareceu de seu rosto quando ela viu Alix Saint Croix. Cliente, não clientes. Por um longo momento, Leila só teve ciência do disparo em seu coração. Ele usava camisa branca e calça escura. As mangas dobradas e os botões de cima estavam abertos. Mãos nos bolsos. Olhava-a como um predador que encontrara sua presa. Então por que ela estava subitamente excitada? Ele deu um passo à frente e inclinou a cabeça na direção da valise. – Você trabalha com fragrâncias masculinas também?


Leila estava determinada a não se mostrar abalada e disse em tom frio: – Para começar, não gosto de emboscadas, sr. Saint Croix. Mas já que estou aqui... sim. Também tenho fragrâncias masculinas. Alix Saint Croix deu-lhe um olhar enigmático com um leve sorriso. – O hotel me disse que você vem aqui regularmente para consultas pessoais. Acha que todos os clientes prepararam uma emboscada? Leila corou. – Claro que não. – Ela se sentiu afobada. – Olhe, vamos acabar logo com isto. Tenho certeza de que é um homem ocupado. Ele se aproximou, fitando-a com um brilho intenso nos olhos acinzentados. – Pelo contrário, eu tenho todo o tempo do mundo. Leila ferveu por dentro e queria sair correndo. Mas para onde? De volta à loja vazia? Para limpar as infinitas prateleiras? Ele acabou de sugerir uma consulta pessoal lucrativa. Mesmo que a intenção tivesse sido maldosa. Sem mencionar o maço de dinheiro que deixara no balcão da perfumaria. Engolindo sua ira e sem gostar do modo como ele a irritava, ela forçou um sorriso e disse: – Claro. Então, sente-se. Leila ocupou uma cadeira a um ângulo à direita do sofá. Depressa, tirou amostras de essência pura e um misturador da valise. Quando ele passou por ela, a fim de sentar-se, Leila se viu inconscientemente procurando pelo cheiro dele, o qual a atingiu de uma maneira tão poderosa quanto na primeira vez. Ela teve uma súbita visão de si mesma tendo acesso ao corpo nu daquele homem, com todo o tempo que pudesse utilizar para descobrir os aromas da essência dele para que pudesse analisá-los e transformá-los em um perfume. Praguejou em silêncio contra sua imaginação e disse sem olhá-lo: – Você tem algum aroma em mente? Do que gosta normalmente? Estava ciente das coxas fortes em sua visão periférica, a calça mal escondendo a musculatura. – Não tenho ideia – replicou ele em tom seco. – Experimento novos perfumes o tempo todo e normalmente compro o que me agrada no momento. Mas, no geral, não gosto de nada muito carregado. Leila o estudou. O rosto era inexpressivo, mas havia uma intensidade nos olhos acinzentados que a deixava nervosa. Por um momento, acreditou que ele não estava falando sobre aromas e sentiu vontade de dizer que não precisava alertá-la sobre não estar propenso a compromissos. Porque ela não tinha nenhuma intenção de conhecê-lo melhor. Mesmo assim, não podia negar que seu corpo parecia cantarolar na presença dele. Por instinto, ela pegou um vidro e abriu. Mergulhou uma fita dentro do frasco e apresentou-lhe para que ele sentisse o cheiro. – O que acha deste, sr. Saint Croix? – Por favor, me chame de Alix. Leila enrijeceu, recusando-se a ceder ao flerte. Finalmente percebendo a resistência óbvia dela, ele pegou a tira de papel de sua mão. Então, encarou-a, enquanto sentia o cheiro com cuidado. Ela viu algo flamejar nos olhos dele por um instante e sentiu uma reação correr sob sua própria pele. – Gostei... o que é? – É fougère. Uma mistura de lavanda, musgo e cumarina: uma ótima base para um perfume. Um aroma leve e amadeirado. Ela estava começando a ficar mais relaxada, concentrada em seu trabalho, como se não existisse nada nas entrelinhas. – Experimente este. Ele pegou a segunda tira de papel e voltou a olhá-la. Ela achou difícil desviar o olhar. Cada movimento daquele homem era tão ousadamente sensual. Sexy. Fazia com que Leila quisesse se encolher e tentar não ser notada. – Este é mais... exótico? – É indiano. Bastante raro. Madeira do agar. Uma essência muito diferente. As pessoas amam ou odeiam. A boca dele se torceu de leve. – Eu gosto. O que isso diz sobre mim? Leila estremeceu enquanto pegava outro vidro, tentando não demonstrar nada além de profissionalismo.


– Apenas que você reage a fragrâncias complexas. Talvez não seja surpreendente que um rei aprecie um espécime tão raro. Houve uma tensão imediata entre eles, e Leila se ocupou de abrir outro vidro. A voz dele foi aguda desta vez. – Um rei exilado. Para ser mais preciso. Faz alguma diferença? – Tenho certeza de que não – replicou Leila em tom frio. – Você ainda é um rei, não é? Ele emitiu uma espécie de gemido. Leila perguntou-se quanta paciência ele ainda teria para esse jogo. Como se alguém como ele tivesse tempo para consultar uma perfumista pessoal. Ela o observou experimentar a fragrância e se contorcer com o cheiro, fazendo uma careta. Leila lutou contra um sorriso. – O que é este? Ela pegou o papel de volta. – Uma essência extraída da flor de narciso. – Devo entender isso como um elogio? Que eu não me identifico com Narciso? Leila evitou olhá-lo e começou a recolher os frascos, ansiosa por se livrar daquele homem. – Se gostou de alguma dessas essências, eu posso fabricar algo para você. – Eu gostaria. Mas quero que adicione algo que não experimentei. Algo que acha que combinaria unicamente comigo. Leila enrijeceu pela perspectiva de escolher algo exclusivamente para ele. Fechou a valise. – Receio decepcioná-lo. Perfume é muito pessoal. – E eu gostaria que você entregasse em pessoa esta noite. Leila levantou-se de repente e o encarou. – Sr. Saint Croix, aprecio a oportunidade que me deu esta noite, mas receio que... Ele também se levantou, e as palavras secaram na boca de Leila, enquanto o corpo alto agigantava-se sobre ela. Estavam tão próximos. – Você está mesmo me dizendo que vai recusar a oportunidade de fabricar um perfume pessoal para a realeza da Ilha de Saint Croix? Quando ele falou daquele jeito, Leila pôde ouvir a voz de sua mãe em pânico. Você perdeu o juízo? O que estava fazendo? Na pressa de escapar da tensão perturbadora, estaria disposta a arriscar a venda mais potencialmente lucrativa que teve em anos? A simples menção de associação profissional com um rei levaria suas vendas às alturas. Em voz baixa, ela disse, por fim: – É claro que eu não rejeitaria tal oportunidade. Posso misturar algumas fragrâncias e entregá-las no hotel mais tarde. Você me diz quais prefere. – Um aroma, Leila, e quero que traga pessoalmente, às sete horas. Seu nome nos lábios dele foi absurdamente íntimo, como se a tocasse. Ela não tinha espaço para se mexer. Então disse a si mesma para se controlar. Alix Saint Croix podia perturbar seus sentidos de muitas maneiras, mas dificilmente a sequestraria. Não iria precisar. Esse era o problema. Leila temia que, se tivesse mais contato com ele, suas defesas começariam a enfraquecer. Escondendo a irritação por ele ignorar suas reservas com tanta facilidade, ela abaixou-se e fechou a maleta, mas antes que pudesse levantá-la ele agarrou a alça com firmeza. Ela endireitou o corpo. Alix estendeu a mão e arqueou a sobrancelha. – Vá na frente. Para o embaraço de Leila, ele insistiu em acompanhá-la até o saguão e parecia distraído para o modo como todos ficavam alertas. Inclusive seus guarda-costas. Chamou um deles e entregou a maleta, instruindo-o a levá-la de volta à loja de Leila, apesar dos protestos dela. – A que horas devo enviar Ricardo para acompanhá-la até o hotel? Leila virou-se, a fim de assegurar que não havia problema algum em atravessar a praça sozinha, mas assim que viu o olhar dele murmurou com um suspiro resignado: – Às 18h55. – Até lá, então.


DE VOLTA à suíte, Alix permaneceu olhando para a praça por um longo tempo. A relutância de Leila em submeter-se a ele o intrigava. Mesmo que soubesse que devia ser apenas um jogo da parte dela, estava disposto a participar, porque a desejava. E tinha bastante tempo. Sentiu uma ponta de culpa ao pensar sobre o que sua equipe havia contado sobre ela. A família Verughese era rica e respeitável na Índia. Uma linhagem de perfumistas que forneciam essências a marajás e aos mais ricos da sociedade. Havia poucas referências a Deepika Verughese, a mãe de Leila. Ela mudou-se para Paris depois de romper relações com a família e teve uma filha: Leila. Nenhuma menção do pai. Em todos os outros aspectos, não havia nada comprometedor. Nenhuma notícia nos jornais. Seu telefone vibrou no bolso, e ele atendeu sem verificar quem era. Era seu conselheiro-chefe, e Alix acolheu a distração. Deu as costas à vista da janela e atendeu: – Sim? – Como estão os planos para o plebiscito? A ilha de Saint Croix votaria, em duas semanas, se queria ou não a volta de Alix ao trono. Ainda era arriscado para Alix ir ao país, portanto, dependia dos políticos leais e do povo, que fizeram dura campanha para restaurar a monarquia. Enfim, o grande objetivo estava em vista. Mas era uma ação delicada, que poderia ruir a qualquer momento. O partido predominante na Ilha Saint Croix era implacável, e somente o fato de terem concordado em deixar observadores internacionais entrarem no país impediu que o processo ruísse. Andres estava animado. – As pesquisas mostram vantagem sua, mas não tanta para preocupar os militares. Eles ainda são arrogantes o bastante para acreditarem que estão no controle. Alix o ouviu reiterar o que já sabia. Algo agridoce penetrou seu coração. Quando retomasse o trono, enfim teria a chance de vingar a morte brutal do irmão caçula. Alix voltou a atenção à conversa quando o homem perguntou: – É verdade que você terminou o romance com Carmen Desanto? Está nos jornais. Somente porque Andres era um de seus amigos mais antigos e confiáveis, ele considerou responder. – Qual o problema? – Bem, não é uma boa hora. Quanto mais parecer que você está ocupado com assuntos não políticos, melhor, para dar ao regime na Ilha Saint Croix uma falsa noção de segurança. Mesmo se ouvirem rumores que está conseguindo apoio de países estrangeiros, quando virem as fotos nos jornais... Ele não precisou terminar. Alix pareceria ser o rei imoral e nada ameaçador, em exílio, que sempre fora. Mesmo assim, não gostava de ser doutrinado desse modo. – Bem, por mais conveniente que uma fachada como Carmen fosse, eu não estava mais disposto a aguentar a tagarelice dela. A imagem de outra mulher surgiu em sua mente. Alguém cuja tagarelice não incomodaria. E ele duvidava que ela tagarelasse. Aqueles belos olhos eram inteligentes demais. Do outro lado da linha, Andres suspirou. – Só estou dizendo que agora seria um ótimo momento para defender sua reputação de solteiro desejável, destruindo os corações femininos do mundo. Alix só havia se interessado por uma conquista até então, mas, de repente, a ideia de perseguir Leila tomou uma nova dimensão. Era, na verdade, justificável. Ele sorriu. – Não se preocupe, Andres. Tenho certeza de que posso conseguir algo para manter a mídia feliz.

QUANDO OUVIU a batida à porta, às 19h01 naquela noite, Alix não gostou de reconhecer a expectativa correndo nas veias. A lembrança de que Leila o afetava de um modo sem precedentes não era bem-vinda. Disse a si mesmo que era apenas desejo. Químico. Controlável. Abriu a porta para ver um olhar levemente rebelde na expressão de Leila. – Entre, por favor.


Ele notou que ela não trocara de roupa. Ainda vestia o elegante terninho escuro, e os cabelos estavam presos num rabo de cavalo baixo. Nenhuma maquiagem, entretanto, os lindos traços se destacavam como se ela fosse uma pintura. A pele cor de oliva clara, o nariz reto, a boca carnuda e os olhos verdes e cintilantes causavam um efeito que fez Alix balançar a cabeça mentalmente, enquanto a acompanhava ao interior da suíte. Como uma mulher assim podia trabalhar escondida em uma loja de perfumes? Ela virou-se para encará-lo, na sala de estar palaciana, e estendeu-lhe uma brilhante sacola da Chez Leila. – Seu perfume, Monsieur Saint Croix. Alix refreou o ímpeto de praguejar e disse em tom calmo: – Leila. Pedi para me chamar de Alix. Os olhos dela brilharam. – Eu não acho apropriado. Você é um cliente... – Um cliente que acabou que pagar uma quantia significante por um perfume personalizado – adicionou ele. Ela fechou a boca, e o remorso brilhou nos olhos verdes. Alix ficou fascinado pelo jogo de emoções que viu no rosto expressivo. Deus sabia que ele não revelava emoções havia anos. E aquela mulher provavelmente não reconheceria uma emoção verdadeira, mesmo que fosse mordida por ela. Ela o fitou, e ele sentiu dificuldade de respirar, perfeitamente consciente da linha dos seios contra a seda da blusa. – Muito bem, Alix. Seu nome nos lábios de Leila teve um efeito parecido com o que teria se ela o tivesse beijado intimamente. O sangue esquentou, e ele enrijeceu. Travando os dentes contra uma ereção feroz que zombava de qualquer ilusão de controle, Alix respondeu: – Não foi tão difícil, certo? – Ele gemeu por dentro pela escolha infeliz de palavras e pegou a sacola para tentar distraí-la. Então gesticulou para que ela se sentasse. – Fique à vontade. Quer beber algo? – Não, obrigada. Eu realmente deveria voltar... – Não quer saber se eu vou gostar do perfume? Leila hesitou, enfim murmurando: – É claro... Mas você poderia mandar uma mensagem, caso não goste. Alix franziu o cenho e aproximou-se. – Por que você fica tão nervosa comigo? Ela engoliu em seco. Alix podia ver a pulsação batendo na base do pescoço elegante. – Não estou nervosa. Ele se aproximou mais, e Leila corou. – Mentirosa. Está pronta para se atirar daquela janela para se livrar de mim agora mesmo. Uma sobrancelha graciosa arqueou-se. – Você não está acostumado com esse tipo de reação? A tensão deu uma pequena trégua a Alix. – Normalmente não. Alix gesticulou mais uma vez para que Leila se sentasse e quando, após breve hesitação, ela andou até o sofá e sentou-se, ele relaxou. Largou a sacola do perfume enquanto servia-se de uma bebida. – Tem certeza de que não quer nada? Ela observava a sala, de olhos arregalados, e, de repente, toda a opulência pareceu berrante para Alix. Ela encontrou-lhe o olhar. – Está bem. Aceito um pouco do que você está bebendo. Aquilo era loucura. Alix queria gritar de triunfo. Pelo fato de ela ainda estar ali, quando ele normalmente descartava mulheres. – Uísque? Ela assentiu com timidez. – Nunca experimentei. A confissão o desarmou um pouco. Assim como a percepção das emoções nos olhos verdes. Alix levou as bebidas, cuidando para não se sentar tão perto, pois sabia que ela reagiria.


Entregou-lhe um copo. – Santé, Leila. Ela bateu o copo no dele e deu um gole cuidadoso. Ele observou-lhe os olhos marejando e as bochechas corando. Bebeu de seu próprio drinque, esquentando ainda mais o corpo já caloroso. – O que achou? Ela pensou por um momento e esboçou um pequeno sorriso. – Parece fogo. Gostei. – Sim – concordou Alix, hipnotizado pela boca de Leila. – Parece fogo. O momento se estendeu, então ela colocou o copo sobre a mesa, indicando a sacola que levara. – Você deveria experimentar o perfume. Alix pegou a sacola, de onde tirou uma caixa dourada. Havia um rótulo na frente que dizia apenas Alix Saint Croix. Ele abriu a caixa e removeu o belo e pesado vidro com tampa negra. Era bem masculino. Sólido. – É bem forte – disse Leila, enquanto ele abria a tampa. – Só precisa de uma pequena quantidade. Experimente no dorso da mão. Alix borrifou e experimentou. Não estava pronto para o efeito imediato em seus sentidos. Impactou seu interior profundamente. Muitas camadas de aromas adentraram seu cérebro e criaram imagens rápidas demais para serem analisadas. Ele foi levado ao passado, para seu lar na ilha, com o aroma do mar e, no entanto, também sentia o cheiro da terra e a essência de flores exóticas que havia na Ilha Saint Croix. Sentiu até mesmo algo oriental, que o fez pensar em seus ancestrais mouros que emprestaram sua arquitetura distinta à ilha. Não estava preparado para as emoções fortes que o atingiram quando surgiu uma lembrança: ele e o irmão brincando perto do mar. – O que há aqui? – perguntou por fim. Leila pareceu preocupada. – Não gostou? Gostar era uma palavra muito fraca para o que o perfume lhe causou. Alix se levantou de um jeito abrupto, sentindo-se exposto. Dieu. Ela era uma bruxa? Ele foi até a janela e manteve-se de costas para Leila. Ergueu a mão e sentiu novamente o perfume. O impacto inicial estava se dissipando, enquanto a essência suavizava. Era ele. O perfume era tudo o que ele era em sua essência, que ocultava seu verdadeiro eu. No entanto, aquela mulher havia capturado. Depois de apenas dois encontros e poucas horas.


CAPÍTULO 3

LEILA SE levantou, incerta de como responder. Jamais vira alguém ter tamanha reação a um perfume. – Pesquisei um pouco sobre a ilha para saber quais eram as flores nativas e me aproximei delas tanto quanto consegui, com o que tinha disponível na loja. Adicionei aromas cítricos e de brisa marinha. Alix Saint Croix parecia enorme, formidável, em contraste à janela e à escuridão outonal. Sua primeira reação ao conhecer aquele homem fora fascinação, e desde então seu instinto vinha sendo fugir, e rápido. Mas naquele momento seus pés estavam colados ao chão. – Se você não gostou... – Eu gostei. A resposta foi aguda e curta. Ele parecia quase... irado. Leila estava confusa. Hesitante, ela disse: – Tem certeza? Não parece muito satisfeito. Ele virou-se e colocou as mãos nos bolsos. Olhou-a e balançou a cabeça, como se tentasse clarear as ideias. Por fim, murmurou: – Estou apenas um pouco surpreso. O perfume não é o que eu esperava. Leila deu de ombros. – Um perfume personalizado tem um impacto maior que um perfume comum... Alix deu um sorriso sexy e voltou para o sofá. Leila não conseguia desviar os olhos dele. – Certamente tem um impacto. – Se estiver forte demais, eu posso... – Não. – A voz de Alix interrompeu-a. – Não quero que mexa nele. Uma batida à porta fez Leila encolher-se um pouco. Estava tão absorta pela reação daquele homem que quase se esqueceu de onde estava. Alix disse: – É o jantar. Tomei a liberdade de pedir para dois, se não se importar em juntar-se a mim. Leila apenas o olhou e sentiu mais uma vez o ímpeto de correr. Mas também uma urgência em ficar. Rebelde. Embora não tivesse muita certeza de contra quem estava se rebelando. Contra si mesma e todos os instintos que gritavam para ela sair correndo? Ou contra o fantasma da decepção de sua mãe? Justificou sua fraqueza para si mesma: aquele homem lhe forneceu mais renda do que teria em um mês. Deveria ser educada. Há!, sussurrou uma voz interior maliciosa. Não há nada educado na maneira como você se sente perto dele. Ela ignorou a voz e disse tão friamente quanto conseguiu: – Só se não for muita imposição. Ele deu-lhe um olhar zombeteiro. – Não �� imposição alguma. Alix a conduziu para a sala de jantar de decoração suntuosa. Ela teve um vislumbre de uma porta entreaberta e quase tropeçou na tentativa de evitar olhá-la de novo. Lembrou-se da facilidade com que aquela mulher despiu-se para o amante. E de como Alix afirmou que nada havia acontecido, apesar das evidências.


Por que ela se importava, considerando que ele devia estar mentindo? Leila quase empacou naquele momento, mas, como se percebesse sua trepidação, Alix puxou uma cadeira e olhou para ela de maneira significativa. Não havia como escapar. Ela sentou-se, observando a fileira de travessas na mesa. Havia o bastante para um pequeno exército. Alix devia ter percebido seu olhar, porque falou: – Eu não sabia se você era vegetariana, então pedi de tudo. Leila não conseguiu evitar o sorriso sarcástico. – Eu sou vegetariana. Influência materna. Embora, às vezes, eu coma peixe. Alix começou a servi-la: uma seleção de entradas, incluindo algo que parecia bolinho de arroz com ervas. Os aromas a fizeram salivar, e ela percebeu que não havia comido nada desde cedo naquele dia, pois ficou com o estômago embrulhado por ter revisto Alix Saint Croix e por pensar nele a tarde toda, enquanto trabalhava no perfume. Podia sentir o cheiro da fragrância. Exótica e cítrica. E tremeu por dentro. Combinava com ele: leve, mas com notas marcantes. Ele entregou-lhe o prato e tirou uma garrafa de vinho branco do balde com gelo. Leila não estava acostumada a beber e ainda sentia o efeito do uísque, então levantou a mão quando Alix ia servi-la. – Vou beber água, obrigada. Ele se serviu e perguntou de maneira casual: – De onde são seus pais? Leila enrijeceu quando a figura alta e sombria do pai apareceu em sua mente. Ela o viu apenas em fotografias de jornal. – Minha mãe era solteira. Era da Índia. – Era? Leila assentiu. – Ela faleceu há alguns anos. – Sinto muito. Deve ter sido difícil, já que eram somente vocês duas. Leila ficou surpresa e confusa pela sinceridade na voz dele. – Foi muito difícil. Ela evitou-lhe os olhos e deu uma boa garfada, não esperando a explosão de sabores. Quando levantou a cabeça, ele sorria da sua reação. – Eu trouxe meu chef pessoal. Ele é da Ilha Saint Croix, portanto mantém a culinária local. Uma mistura de norteafricana com mediterrânea. Aliviada por se afastar de conversas pessoais, Leila murmurou: – Jamais provei nada igual. – Então foi sincera ao admitir: – Não viajei muito. – Você nasceu aqui? – Sim. Minha mãe veio quando estava grávida. Meu pai era francês. – Era? Leila arrependeu-se daquela informação na mesma hora. Mas sua mãe não estava mais viva. Certamente o segredo não precisava mais ser guardado. Então, lembrou-se da facilidade com que o pai virou as costas para elas e repetiu as palavras que a mãe usava sempre que alguém perguntava: – Ele morreu há muito tempo. Eu jamais o conheci. Para seu alívio, Alix não fez nenhum comentário. Eles comeram em silêncio por alguns minutos, e Leila tentou não pensar muito sobre onde e com quem estava. Quando chegou à metade do prato, olhou para Alix. Ele estava recostado, segurando a taça de vinho e estudando-a. A pele dela arrepiou-se. – Espero não a ter feito perder muitos clientes, exigindo sua atenção hoje. Ele não parecia nada arrependido, e, mesmo contra a vontade, Leila deu um sorriso irônico. – Não... pelo contrário. A loja vem lutando para se recuperar desde a recessão. Pequenas empresas como a minha foram as mais atingidas. Alix franziu o cenho. – Entretanto, você conseguiu manter a loja? Leila assentiu, um pouco tensa ao se lembrar da luta para restaurar as vendas. – Assumi a loja logo após a morte de minha mãe.


– Isso é ótimo, mas você poderia vender. Não preciso lhe dizer quanto deve valer aquela loja com o apartamento nesta parte de Paris. Leila meneou a cabeça. – Eu jamais venderei a perfumaria. – A loja e o apartamento eram o legado de sua mãe: um paraíso seguro. Sentindo-se envergonhada novamente, ela colocou seu guardanapo sobre a mesa. Os olhos acinzentados se estreitaram. – Preciso ir. Obrigada pelo jantar... realmente não precisava. Ela viu um músculo enrijecer no rosto de Alix e esperou – desejou? – que a impedisse. Mas ele apenas se levantou. – Obrigado pela companhia. Para a desorientação de Leila, Alix não fez esforço para detê-la com ofertas de chá ou café. Pegou a sacola que ela levara e entregou-lhe. Detestando a sensação de desapontamento por ele a deixar partir tão facilmente, ela repetiu: – Obrigada. Alix fez uma pequena reverência, e, mais uma vez, ela foi atingida pela pura beleza e pela masculinidade poderosa. – Na verdade... tenho ingressos para a ópera amanhã. Gostaria que você fosse comigo. Leila não acreditou na fachada inocente nem por um minuto. Como se ele tivesse acabado de ter a ideia. Mas não conseguiu raciocinar direito, tomada pelo alívio que substituiu o desapontamento de segundos antes. Estava lidando com um mestre. Não era a primeira vez que um homem a convidava para sair, no entanto, seu peito foi atingido como uma flechada. O último encontro desastroso que teve voltou à memória como um espectro negro. Exceto que o homem a sua frente eclipsava totalmente Pierre Gascon. O bastante para causar satisfação. Como se algum homem pudesse competir com aquele espécime alto e forte. Sexy. A abstinência sexual jamais foi tão evidente para Leila. Agora era. Podia sentir a consciência pulsando entre as pernas. E foi a consciência do quanto Alix Saint Croix a tirava do eixo que a fez responder: – Realmente não acho que seja uma boa ideia. – Covarde, sussurrou uma voz. Ele arqueou a sobrancelha. – E por que não? Você é solteira, eu também. Somos adultos. Estou oferecendo uma maneira agradável de passarmos a noite. Só isso. Ela se sentiu deselegante. Estava pensando em sexo quando ele certamente não estava. – É só que... Eu não pertenço exatamente ao seu meio, Monsieur Saint Croix. – É Alix – insistiu ele, chegando mais perto. – Chame-me de Alix. Leila engoliu em seco. – Alix... – Melhor. Agora me diga por que não é uma boa ideia. Sentindo-se encurralada e irritada consigo mesma, mais do que com ele, Leila gesticulou. – Sou dona de uma lojinha e você é um rei. Não estamos exatamente no mesmo nível. Alix inclinou a cabeça para o lado. – Você é uma perfumista, não é? Uma carreira bastante louvável. Incapaz de afastar a amargura da voz, Leila disse: – Para ser uma perfumista, você precisa fabricar perfumes. – Algo que tenho certeza de que você fará, assim que os negócios recuperarem o equilíbrio. O encorajamento sutil, mas firme, causou uma onda de alegria em Leila. Mas ela reprimiu o sentimento. Não se permitiria cair no charme daquele homem. – Você não tem coisas mais importantes a fazer? Uma expressão curiosa cruzou o rosto dele. – No momento, não. A recusa teimosa de Leila em submeter-se a seus desejos tinha um efeito bizarro em Alix. Ele poderia alegremente permanecer ali por horas, argumentando com ela. – Não sabia que fingir desinteresse é uma maneira certeira de fazer um homem se interessar por você? – disse ele, estudando-lhe a reação.


Ela corou no mesmo instante, e suas costas se retesaram com indignação. Com os olhos flamejando, retrucou: – Eu não estou fingindo desinteresse, sr. Saint Croix, estou genuinamente intrigada sobre o motivo pelo qual está persistindo tanto. E, para ser franca, acho que prefiro que me deixe em paz. Ele deu um passo à frente. – Verdade, Leila? Posso deixá-la sair desta suíte agora, e nunca mais me verá. – Ele pausou, então acrescentou com a voz suave: – Se for isso que você realmente quer. Mas não acho que seja. Ah, Deus. Ele percebeu sua decepção. Ela nunca foi boa em esconder suas emoções. Também jamais sentiu tanto desejo. Não sentira aquela urgência voraz com Pierre. Ele era bem mais sutil. E bastante manipulador. Alix era direto. Não havia jogos. Não disfarçava as palavras com ilusões. O longo silêncio fez algo endurecer no olhar de Alix, e Leila sentiu uma pontada de pânico. Sentiu que ele não insistiria mais se ela assim lhe pedisse. Se acreditasse que ela estava lhe dando falsas esperanças. O que não estava. Estava? Inconscientemente? Detestava pensar que pudesse ser capaz disso, mas não podia negar a sensação de algo ilícito cada vez que o via. Toda vez que ele voltava, apesar de ela ter dito não. Leila sentiu como se estivesse brincando à beira de uma fogueira que a hipnotizava, ao mesmo tempo que a fazia temer o calor. Havia se fechado depois da experiência com Pierre, pasma ao concluir que fizera tamanho julgamento errado. Mas naquele momento podia sentir uma parte sua se expandindo por dentro mais uma vez, exigindo ser atendida. Ser libertada. Outra chance. Nunca tinha ido à ópera. O convite mais excitante de Pierre foi um passeio pelo rio Sena, que Leila já tinha feito um milhão de vezes com a mãe. O anseio cresceu. Ouviu a si mesma perguntando: – Somente a ópera? A dureza no olhar de Alix cedeu, mas ele foi cuidadoso para não demonstrar que tinha ganhado um ponto. – Sim, Leila, apenas a ópera. Se puder fechar a loja um pouco mais cedo amanhã, eu a pegarei às cinco horas. Fechar mais cedo dificilmente prejudicaria seus negócios. Ela deu um longo suspiro e tentou não dar importância demais àquele momento. – Muito bem. Aceito o convite. Alix pegou-lhe a mão e levou-a à boca, beijando-a quase imperceptivelmente. Mesmo assim, a respiração dele queimou sua pele. – Estou ansioso pelo momento. A bientôt.

ÀS TRÊS da tarde no dia seguinte, Leila encontrou-se às voltas com uma invasão de clientes nada habitual e demorou alguns segundos para reparar no homem parado perto da porta. Quando por fim percebeu que era Ricardo, o guardacostas de Alix, notou que ele tinha uma grande caixa branca nas mãos. Ela se aproximou, e ele entregou-lhe a caixa. – É um presente do sr. Saint Croix. Leila pegou a caixa com cuidado e olhou para os clientes, que estavam ocupados em experimentar as fragrâncias que lhes mostrara. Olhou de volta para Ricardo e teve um pressentimento. – Pode esperar um minuto? Ele assentiu, e, se Leila tivesse tido tempo de apreciar o quanto ele parecia deslocado no meio de delicados vidros de perfume, teria sorrido. Ela suspeitava saber o que havia na caixa. Abaixou-se atrás do balcão e abriu. E arfou ao retirar da caixa o vestido mais bonito que já vira. Era verde-clarinho, de um ombro só e busto drapeado, de onde saíam camadas do mais delicado chiffon, que caíam até o chão. Havia sapatos e até mesmo roupas de baixo. Ela corou, e mais ainda ao perceber que Alix acertara o tamanho. Ficou tentada a atravessar a praça e dizer-lhe para esquecer o encontro, mas se segurou. Devia ser assim que ele tratava todas as suas mulheres. E era tão arrogante a ponto de pensar que Leila fosse como elas?


– COMO ASSIM, ela não aceitou? Ricardo pareceu desconfortável antes de falar em voz muito baixa: – Ela deixou um bilhete na caixa. – Deixou? – Alix controlou a irritação. – Obrigado, Ricardo. É só. Alix estava numa reunião em sua suíte e, para alívio de todos, dispensou os participantes. Quando saíram, Alix abriu a tampa da caixa e viu o pedaço de papel com a breve mensagem: Obrigada, mas posso me vestir sozinha. Leila.

Alix não pôde conter um sorriso. Teria alguma mulher, alguma vez, devolvido um presente? Não que ele lembrasse. Deixou cair a tampa e foi até a janela que dava vista para a praça. Por um longo período em sua vida, desde a dramática fuga da Ilha Saint Croix, tantos anos antes, ele sentiu-se como um animal enjaulado. Forçado ao papel de fingir que não estava engajado numa batalha para recuperar o trono. A possibilidade de voltar à ilha, com a brisa salgada do oceano no ar quente... Às vezes, o anseio pelo lar era quase insuportável. Alix suspirou e olhou para a pequena perfumaria brilhando sob a luz do entardecer. Podia ver a familiar silhueta esguia movendo-se para todos os lados. O animal enjaulado em seu interior ficou ainda mais indomável. O anseio se transformou em expectativa. Não haveria dificuldade alguma em perseguir a senhorita Verughese e deixar o mundo pensar que nada demais acontecia nos bastidores.

LEILA OLHOU-SE no espelho e teve um súbito ataque de nervos. Talvez tivesse sido muito burra ao devolver o presente. Nunca esteve numa ópera. Nem mesmo sabia que tipo de roupa se usava. O perfume que colocara se sobressaiu e, por um momento, ela quis tirar. Não era leve e floral como seu perfume habitual. Era um perfume que sempre a fascinou: uma das criações mais sensuais da mãe. Chamou a sua atenção na prateleira, assim que ela fechou a loja para se aprontar. Chamava-se Desejo Obscuro. A mãe tinha uma tendência a dar nomes enigmáticos aos perfumes. Assim que borrifou um pouco no pulso, ouviu a voz dela: Este perfume é para uma mulher, Leila. Uma mulher que sabe o que quer e consegue. Você será essa mulher algum dia. E não será tola como sua mãe. Leila sentiu o aroma mais uma vez. A profunda sensualidade, notas terrosas e almiscaradas e de flores exóticas. Não era nada parecido com ela, mas agradava-a. Sentia-se exposta ao usá-lo. Como se ficasse óbvio que ela estava tentando ser algo que não era. A campainha tocou. Tarde demais para tirar o perfume, mesmo que quisesse. Leila desceu a escada com o coração palpitando. Suprimiu as lembranças de outro homem que ela deixou se aproximar demais. Foi como se, assim que a influência de sua mãe se afastou, ela automaticamente procurou uma prova de que nem todo homem merecia desconfiança. E acabou provando que estava muito errada. Leila lutou contra as lembranças. Aprendeu a lição. Não era mais tola. Ainda queria algo diferente do que a mãe teve, mas Alix Saint Croix era o último homem que poderia oferecer isso. Portanto, estaria segura com ele. Deu um longo suspiro e abriu a porta. Alix bloqueava a visão com os ombros largos. Vestia um smoking preto clássico e gravata-borboleta branca. A boca de Leila secou. A sensação de segurança desapareceu de repente. Nem mesmo notou que os olhos de Alix se arregalaram ao vê-la. – Você está linda. Ela voltou a ficar nervosa, enquanto gesticulava de um jeito tímido para sua roupa. – Eu não tinha certeza... espero que o traje esteja apropriado. Alix a encarou. – Você está deslumbrante. Parece uma princesa. Leila corou e ocupou-se de fechar a porta.


Ela vestia um traje indiano típico, com um toque muito moderno. A túnica era feita de seda verde e dourada, com calça justa no mesmo tom de verde. Calçava sandálias de tiras douradas e tinha uma echarpe jogada sobre os ombros. Os cabelos estavam presos num coque alto. Usava brincos ornamentais que pertenceram à mãe. Como um talismã que devesse protegê-la de cair no redemoinho que aquele homem criava. O motorista mantinha aberta a porta do carro polido, e Leila deslizou para o interior luxuoso, enquanto Alix juntava-se a ela pelo outro lado. Alix pegou-lhe a mão, e ela o fitou. – Você está maravilhosa. Nenhuma outra mulher estará vestida assim. Leila deu um sorriso irônico, gostando demais da sensação da mão dele sobre a sua. – É disso que estou com medo. Ele balançou a cabeça. – Você irá se destacar como um pássaro do paraíso. As mulheres morrerão de inveja. Leila sorriu e tentou puxar a mão, mas Alix segurou-a mais forte, virando o pulso para cima. Franziu o cenho e levantou o pulso para sentir o perfume. O coração de Leila disparou. – Não é seu perfume habitual? Leila recolheu a mão. – Não. É outro... mais apropriado para a noite. – Gostei. Leila podia sentir o perfume dele, também. O que ela fabricou. Sabia que permaneceu na pele de Alix desde que ele o testou mais cedo. Não tinha o toque agudo de um perfume que acabara de ser aplicado. Ela pensou nos aromas de ambos, misturando-se. O que a tornou insuportavelmente ciente da proximidade entre eles. Do sangue quente correndo debaixo de suas peles, suavizando e mudando as essências. Era uma alquimia que acontecia com todo mundo de um modo distinto, uma vez que o perfume respondia unicamente a cada indivíduo. Por fim ela desviou o olhar para ver que estavam saindo da cidade. Afastando-se cada vez mais da casa de ópera de Paris. – Pensei que fossemos à ópera. – E vamos. – Mas estamos saindo de Paris. Alix sorriu. – Eu disse que iríamos à opera, mas não disse onde. Ondas de pânico deixaram-na tensa. – Não gosto de surpresas. Diga aonde vamos, por favor. Os olhos acinzentados se estreitaram, e Leila refreou o impulso de censurá-lo por presumir que ela fosse uma deslumbrada qualquer que ficaria feliz em permitir que a levasse para um local desconhecido. A voz de Alix soou dura e fria: – Estamos indo para Veneza. – Veneza? – gritou Leila. – Mas não estou com meu passaporte. Como poderemos...? Alix pegou-lhe a mão novamente e falou como se estivesse acalmando um cavalo bravo: – Não precisa de passaporte. Tenho imunidade diplomática para nós dois. O voo levará uma hora e quarenta minutos. Estará de volta à Paris à meia-noite. Prometo. Leila hesitou. – Você disse voo? Alix assentiu com cautela, como se esperasse outra explosão. – Eu nunca estive em um avião antes – admitiu ela. Como se Alix pudesse se incomodar com sua falta de sofisticação e fazer o retorno para levá-la para casa. Ele apenas franziu o cenho de leve. – Mas... como isso é possível? Leila deu de ombros, percebendo, para sua consternação, que não queria afastar a mão da de Alix.


– Minha mãe e eu não viajávamos muito. A não ser para outras partes da França. Fomos à Inglaterra uma vez para visitar uma fábrica, mas fomos de trem. Minha mãe tinha medo de avião. – Gostaria de voltar para casa então? – perguntou ele. – Ou quer fazer seu primeiro voo? Podemos voltar agora, se quiser. Foi como perguntar se ela queria avançar na vida ou retroceder. Leila sentiu a já familiar onda de calor. O polegar de Alix alisava a parte interna de seu pulso, tornando o calor mais intenso. Ela pensou no carro fazendo a volta e retornando para a praça e sua loja. Ficou nauseada e balançou a cabeça. – Eu gostaria de voar com você. Alix beijou-lhe a mão com suavidade. – Então vamos voar. Leila podia não ser tão sofisticada quanto as mulheres usuais de Alix, mas mesmo ela soube que estavam falando de algo bem diferente quando ele aproximou-se e cobriu-lhe a boca com a sua. Ela havia sido beijada antes. Por Pierre. Mas o beijo era insistente e invasivo. Molhado demais, sem delicadeza. O de Alix era... Leila perdeu toda a sua capacidade de formular um pensamento racional quando sua boca se abriu, por livre e espontânea vontade, para sentir o primeiro contato eletrizante da língua dele na sua. Estava perdida.


CAPÍTULO 4

A ÚNICA coisa que impedia Alix de entrar em órbita pela sensação da boca macia de Leila, com seu toque tímido da língua, era a mão com a qual envolvera a cintura dela. Ficou rijo quase no mesmo instante. Jamais experimentara tanta doçura. A boca sob a sua tremia, e ele precisou se esforçar para ir devagar. Sentiu-a ofegar enquanto o beijo se aprofundava e puxou-a para si, até sentir a curva dos seios contra o peito. Naquele momento, Alix não conseguiria se lembrar do próprio nome. Ela afastou-se de súbito, e ele arregalou os olhos. – Por favor, não faça mais isso. Alix estava em terras desconhecidas. Outra primeira vez. Não estava acostumado com mulheres rejeitando-o. E sabia que Leila estava gostando. Estava se derretendo junto ao corpo ele, como sua fantasia adolescente mais sensual. Lançando mão do pouco controle que ainda tinha, Alix recuou. Estudou-a. Rosto corado, peito arfando, evitando seu olhar. Boca rosada e molhada. Levou-o a imaginar outra parte dela que também deveria estar úmida. Praguejou em silêncio. Onde estava sua sofisticação? Ele segurou-lhe o queixo, levantando-o para que ela fosse obrigada a encará-lo. Os olhos de Leila estavam enormes e cautelosos. Havia uma indicação de algo que ele não conseguia decifrar. Sentiu uma ponta de recriminação. Ele forçara demais? Mas sabia que não. Esforçara-se tanto para se refrear. – Você teve alguma experiência desagradável com algum ex-namorado? Ela empurrou-lhe a mão. – Não é da sua conta. Mais uma vez, Leila evitou seus olhos, e ele quis gritar de frustração. Mas chegaram ao aeroporto particular, e os empregados se dirigiram ao carro, apressados. Alix desceu e vestiu o paletó, detestando ter de esconder sua ereção. Olhou para o motorista, que estava ajudando Leila a sair do carro. Quando ela ficou ao seu lado e a brisa soprou uma mecha dos cabelos negros no rosto bonito, ele precisou se conter para não a beijar novamente. Segurando-lhe a mão, quando normalmente evitava demonstrações de afeto em público, ele a conduziu para o avião: um pequeno jato particular que usava para viagens curtas pela Europa. Percebeu como não dava valor para coisas como aquela. Leila nunca tinha voado antes. Ele parou e virou-se para ela. – Você não está com medo, está? Ela olhou do avião para ele e admitiu com cuidado: – Parece um pouco pequeno. Alix sorriu e sentiu a densa camada de cinismo em seu coração afrouxar um pouco. – É tão seguro quanto uma casa. Prometo. Ele a conduziu ao subir a escada, passando por um comissário uniformizado. Escolheu assentos opostos para que pudesse ver a expressão dela. Afivelou os cintos de ambos e o avião começou a taxiar. Logo, decolou ao céu escuro de


Paris. Alix observou a expressão de Leila enquanto subiam ao ar. As mãozinhas agarravam os braços do assento, e, quando ela deu-lhe um rápido olhar, ele arqueou a sobrancelha. – Tudo bem? Ela esboçou um sorriso vacilante. – Acho que sim. Ela colocou a mão na barriga, como se para se acalmar. Alix ficou encantado com a reação. A expressão era ávida e as pequenas mãos relaxaram aos poucos, conforme o avião ganhava altitude. Então o semblante de Leila tornou-se maravilhado, à medida que ela assimilava o fato de estarem sobrevoando a cidade de Paris. Com todas as luzes se acendendo, foi um momento perfeito. Alix olhou pela janela e viu a torre Eiffel brilhando. Passou tanto tempo sem notar aquilo que foi uma novidade ver o cenário através dos olhos de outra pessoa. Leila sentia como se estivesse em um sonho. Seu estômago estava um pouco embrulhado, mas começava a se acalmar. Estar tão acima da cidade e suas luzes brilhantes... a simples beleza daquilo quase a fez chorar. E ainda a distraía, ajudando a bloquear quão incrível fora aquele beijo. Como tinha sido difícil recuar. O que a fez voltar à razão foi a percepção de que estava sendo beijada por um expert, que já beijara muitas mulheres mais belas do que ela. – Por que sua mãe odiava tanto voar? Leila olhou para Alix na cadeira oposta, com as pernas estendidas e cruzadas nos tornozelos. Apesar de seus esforços, um olhar para aquela boca sensual trazia o beijo de volta em cores vivas, a maneira como a queimou. Ela forçou-se a encará-lo e tentou se lembrar da pergunta. – Ela voou apenas uma vez na vida, quando veio à França da Índia. Foi uma viagem traumática. Estava grávida e solteira, e sofrendo muito com os enjoos. – Leila encolheu-se de leve, sabendo que estava contando tudo. – Ela sempre associou voar com esse trauma e jamais quis entrar num avião novamente. – Você não tem curiosidade sobre sua família indiana? Era uma pergunta inocente, mas que despertava um ressentimento familiar em Leila. A família de sua mãe jamais contatou nenhuma das duas. Nem quando um jornal anunciou que alguns deles estavam em Paris para uma feira de perfumes. Leila escondeu suas verdadeiras emoções e forçou um sorriso. – Infelizmente, a família de minha mãe cortou todos os laços conosco. Mas talvez, um dia, eu volte para visitar o país e meus ancestrais. Ela refugiou-se na vista mais uma vez, esperando que Alix não fizesse mais perguntas pessoais. As luzes da cidade estavam ficando esparsas. Deveriam estar saindo de Paris. Mas era como se Alix pudesse ler sua mente e estivesse frustrando-a de propósito. Ele perguntou em tom suave: – Por que você se afastou quando eu a beijei? Sei que não queria que eu parasse. Leila congelou. Não esperava que Alix percebesse a fração de segundo em que ela se sentiu insegura. Não queria mesmo que o beijo acabasse. Jamais sentiu prazer tão grande. E a ideia de ele a beijando de novo... ela sabia que não conseguiria afastá-lo,. Uma necessidade urgente de autoproteção a envolveu. Precisava tentar repelir Alix em algum nível. Certamente um homem de uma linhagem real não iria querer nada com a filha ilegítima de uma indiana abandonada. Ele a estava observando. – Você me perguntou antes se eu tive uma experiência ruim com algum namorado... Alix endireitou-se. – Você disse que não era da minha conta. – E não é – reiterou ela. – Mas, sim, eu tive um encontro negativo com alguém e realmente não quero repetir a experiência. Alix ficou imóvel, e Leila viu o orgulho masculino inato em sua expressão. Ele não podia acreditar que ela o estava comparando a outro homem. – Sinto muito que tenha tido essa experiência, mas não pode condenar todos os homens por causa de um.


Leila respirou fundo. Alix não estava sendo dissuadido. Apesar das borboletas em seu estômago, ela continuou: – Na verdade, minha mãe era protetora demais. – As borboletas aumentaram diante da imobilidade de Alix. – O fato é que não sou tão experiente quanto... – Está pronto para jantar, Vossa Majestade? Ambos olharam para o comissário, que segurava cardápios. Alívio inundou Leila por ter sido impedida de revelar a afronta de sua inexperiência. Acolheu a distração de aceitar o menu. Imaginou que Alix acreditaria que ela ainda fosse virgem tanto quanto acreditava em unicórnios. Mas, felizmente, quando ficaram sozinhos outra vez, ele não pareceu inclinado em continuar o assunto. Apenas lhe deu um olhar enigmático e disse: – Recomendo o risoto. É vegetariano. Leila sorriu. – Parece ótimo. Quando o jovem retornou, Alix fez o pedido. Então serviu champanhe. Levantou a taça e murmurou com um brilho nos olhos: – Às novas experiências. Ela se encolheu por dentro. Ele não precisava continuar com o assunto. Adivinhara seu segredo. Leila ergueu sua taça também, mas não disse nada. Tinha a impressão de que ele não pararia por aí. E, por mais que quisesse dizer-lhe que voar era a única nova experiência em que estava interessada em compartilhar com ele, não conseguiu formular as palavras.

– POR QUE estão todos nos olhando? Alix olhou-a, incrédulo. Leila não tinha ideia da sensação que causava... que causou no momento em que saíram do barco dele e entraram no antigo palazzo no Grand Canal, onde a ópera aconteceria. Leila se destacava sem esforço, como uma joia entre pedras comuns. Era o intervalo, e eles estavam sentados numa área privativa. Privativa, mas visível. – Eles não estão olhando para nós. Estão olhando para você. Ela corou. – São as roupas, não são? Eu deveria... Alix balançou a cabeça. – Não são as roupas. Bem, são. Mas é porque você está mais bonita que qualquer mulher aqui e está envergonhando-as com seu estilo. Todas estão olhando para você e imaginando por que não conheciam a tendência. O rubor de Leila aprofundou-se e teve um efeito direto nos níveis de ereção de Alix. – Tenho certeza de que não é nada disso. Nunca vi tanta gente bonita num só local. Nunca vi um lugar tão magnífico! O canal, este palazzo... – Ela baixou a cabeça um momento antes de continuar: – Obrigada... A noite está sendo mágica. Alix precisou disfarçar sua expressão. Não se lembrava da última vez que uma mulher lhe agradeceu por tê-la levado para sair. – Está feliz por vencer sua relutância em passar um tempo comigo? – perguntou ele com inocência. Os olhos verdes prenderam os seus, e Alix perdeu o fôlego por um segundo. Loucura. Mulheres não tiravam seu fôlego. – Sim, estou feliz. Mas não deixe isso subir à cabeça. Uma escolha infeliz de palavras, uma vez que elas o conscientizam da parte de sua anatomia que se recusava a obedecer a seus comandos. Leila parecia tão incandescente naquele momento, com um leve sorriso nos lábios e olhos brilhantes, que Alix precisou fechar as mãos em punhos para se impedir de beijá-la novamente. As luzes enfraqueceram e os atores tomaram seus lugares. Alix desviou o olhar dela, questionando sua sanidade e rezando para ter controle e não a violentar como um animal selvagem na escuridão.

DEPOIS QUE a ópera terminou, Alix levou Leila a uma pequena cantina rústica, onde foi recebido pelo dono como um velho amigo. Comeram aperitivos e, para surpresa de Leila, a conversa fluiu com facilidade, como se eles se


conhecessem havia meses. Algo aconteceu. Ou assim que ela concordou com o encontro, ou no avião, quando os acontecimentos se tornaram um espetáculo estonteante. Ou talvez foi quando ela escolheu um perfume diferente para si mesma... Sentia como se fosse uma pessoa diferente, habitando a mesma pele. Como se tivesse jogado fora algum tipo de algema que a prendia ao passado. Estava um pouco embriagada. Mas jamais se sentiu tão leve, tão... efervescente. Tão aberta a novas possibilidades e experiências. Não era tão ingênua para pensar que aquilo seria algo além de transitório. Especialmente com um homem como Alix. E estava tudo bem. Na pior das hipóteses, essa era uma forma de proteção. Praticamente estavam pregados na testa dele avisos de Cuidado! Perigo! Ela devia ter rido um pouco, porque Alix perguntou: – Eu falei alguma coisa engraçada? Leila meneou a cabeça e olhou-o, de súbito, sóbria novamente. Ele era lindo. Os perfumes misturados a envolviam. Ela os imaginou adentrando o cérebro, enfraquecendo-a. Levando-a a querer o que ele estava oferecendo... Leila percebeu, com desespero, que queria o que ele estava oferecendo. Queria se perder. Queria experimentar o proibido. Não queria voltar para seu apartamento apertado em cima da loja e ser a mesma pessoa. Olhando a vida passando pela praça. Queria que a vida acontecesse para ela. Nunca sentira aquilo com tanta força. Era a sedução persistente de Alix, o perfume, o vinho, a ópera, sair do país pela primeira vez. Era o beijo dele. Era ele. Impetuosamente, ela inclinou-se para a frente. – Nós precisamos voltar à Paris esta noite? De imediato, os olhos acinzentados se estreitaram. – O que você está sugerindo? Sentindo-se ousada pela primeira vez na vida, Leila disse: – Estou sugerindo... não voltar a Paris. Ficar aqui, em Veneza. – Passar a noite aqui? Ela assentiu. A enormidade do que estava fazendo era estonteante, mas não podia mais retroceder. Seu coração batia em um ritmo frenético. Alix inclinou a cabeça. – Acho que está um pouco bêbada, srta. Verughese. – Talvez – concordou ela com voz rouca. – Mas sei o que estou dizendo. – Sabe mesmo? – Alix estudou-a, com expressão pensativa. Por um segundo, um calafrio percorreu a coluna de Leila. Talvez ela tivesse entendido tudo errado. Talvez Alix estivesse apenas brincando com a moça deselegante da perfumaria, até que aparecesse alguém mais adequado. Sem dúvida, ele estava se divertindo bastante com as reações dela diante do voo e da ópera. E então isso. Talvez a ideia de dormir com uma virgem não fosse agradável para um homem de gostos tão sofisticados. Ela pensou naquela mulher se despindo na frente dele, e seu interior se contraiu. Jamais poderia fazer aquilo. Ela procurou sua bolsa e sua echarpe. – Esqueça. Tenho certeza de que você tem compromissos... De repente, Alix capturou-lhe a mão, e Leila o olhou com relutância. Ele parecia intenso. – Você está dizendo que quer passar a noite em Veneza e dividir minha cama, Leila? Ela detestava que ele a obrigasse a falar aquilo em voz alta, mas levantou o queixo e disse: – Se não está interessado... A mão forte apertou a sua. – Ah, eu estou interessado. Só quero me certificar de que você não se arrependerá pela manhã e culpará o vinho. Leila o encarou, suprimindo uma vontade de dizer: Vou culpar muito mais que isso. Ele não entenderia. – Eu quero, mesmo que seja apenas por uma noite. Alix entrelaçou os dedos nos seus. Foi como uma carícia íntima. – Não será apenas por uma noite, Leila. Posso garantir. Ela estremeceu por dentro. Ele falou como se tivesse fazendo uma promessa. – Signor Alix?


Ele nem olhou o amigo. – Terminamos, Giorgio. Obrigado. Alix demorou um longo tempo para desviar o olhar e soltar-lhe a mão, antes de se levantar. Leila não se lembrava de ter saído do restaurante ou da viagem de barco pelo Grand Canal. Estava apenas consciente das coxas fortes de Alix tocando as suas no assento, dos braços fortes em volta de seus ombros, da mão quente descansando perto da curva dos seios de maneira perturbadora. Estava ciente de que enfim deixaria uma parte de sua vida para trás e adentraria o desconhecido. Não podia acreditar que tinha sido tão atrevida e, no entanto, sabia que, mesmo se tivesse uma chance, não recuaria. Aquele homem destravou uma parte profundamente secreta sua, e ela queria explorá-la. Não se importava que Alix Saint Croix fosse rico ou da realeza. Estava interessada no homem. Ele a atraía num nível muito básico, que ninguém jamais tocou antes. E, enquanto o barco cortava as águas, Leila assegurava a si mesma que faria aquilo de olhos bem abertos. Sem ilusões românticas. Não era mais ingênua. Pierre acabou com sua ingenuidade quando ela lhe permitiu cortejá-la. Aquilo foi logo após a morte da mãe, quando ela estava bastante vulnerável. Não estava mais vulnerável. E não tinha intenção de se fechar como uma freira pelo resto da vida. Eles estavam se aproximando de um prédio, outro palazzo. Um homem parado na doca atirou uma corda ao piloto. Alix desceu e ajudou Leila. No píer, ele a manteve perto de seu corpo, e ela arregalou os olhos quando sentiu sua barriga roçar uma parte bastante rígida dele. Sua pulsação acelerou, e ela sentiu umidade entre as pernas. Ele pegou-lhe a mão, para que atravessassem as portas abertas. – Que lugar é este? – É de um amigo. Ele não está aí. – Ah... Uma mulher pequena e mais velha, vestida de preto, aproximou-se, e Alix trocou algumas palavras com ela em italiano fluente. Somente então, Leila reparou na grandeza do hall de entrada. O piso era de mármore e havia enormes colunas até o teto, o qual era coberto de afrescos antigos. Então Alix pegou-a pela mão de novo, e eles seguiram a mulher por uma escadaria. Os olhos dos inúmeros retratos enormes os seguiam, e Leila, com superstição, evitou olhar para eles. Entraram num corredor forrado com carpete espesso. Enormes portas de madeira estavam fechadas dos dois lados. No final do corredor, a mulher encontrou portas duplas e as abriu, para que entrassem. A respiração de Leila parou. Era a mais bela suíte que já vira. Soltando a mão de Alix, ela caminhou para as portas francesas de vidro, que estavam abertas e levavam a um terraço de pedra com vista para o canal. Ouviu a porta se fechar e virou-se para ver Alix parado no meio do quarto. Mãos nos bolsos. Peito largo. Ele estendeu uma das mãos. Leila se aproximou em silêncio, tirando as sandálias. Quando alcançou Alix, ele removeu-lhe a echarpe dos ombros. Alcançou o grampo que prendia seus cabelos, que caíram sobre os ombros como uma cortina pesada, e ele entrelaçou os dedos nas mechas sedosas. – Eu quis fazer isso no primeiro momento em que a vi – disse ele. Sentindo-se vulnerável de repente, Leila murmurou: – Você não dormiu mesmo com aquela mulher quando fechou as cortinas, naquela noite? – Não. Não dormi com Carmen naquela noite. Eu não mentiria para você sobre isso, Leila. Ela descobriu que acreditava nele, mas ainda teve de lutar contra a suspeita de que ele diria qualquer coisa para levála para cama. Não que precisasse falar muita coisa... ela mesma já implorara! Ela bloqueou o clamor crescente das vozes internas e tocou a boca de Alix com a sua. – Leve-me para cama, Alix – sussurrou ela.


CAPÍTULO 5

À LUZ difusa da opulenta suíte, Alix parecia muito poderoso. Uma súbita onda de medo a inundou. Será que ela poderia lidar com um homem daquele? Mas então ele pegou-a pela mão e conduziu-a para outro cômodo. O quarto. A mobília era gloriosamente luxuosa. Uma cama de dossel no centro, rodeada de grossas cortinas de veludo. Pela janela, Leila via o Grand Canal. As cortinas balançavam com a brisa e, no entanto, ela sentia-se acalorada. Queimando. Alix parou na sua frente. Os olhos estavam na altura do peito largo. Ela nunca esteve tão consciente da pura masculinidade e força dele. Desejou ter coragem de tocá-lo, mas não o fez. A ousadia que a levara até ali parecia desaparecer diante da dura realidade que encarava. Alix ergueu-lhe o queixo, e Leila foi obrigada a encará-lo. – Vamos fazer isso devagar. Leila engoliu em seco. Lá se fora a chance de repeli-lo com sua inexperiência. Os olhos acinzentados flamejavam. E algo derreteu dentro dela. Alix puxou-a, até que os seios tocassem o corpo sólido. Os mamilos enrijeceram. Ele segurou-lhe o rosto com ambas as mãos e cobriu-lhe a boca com a sua. Leila emitiu um som delicado. Ele explorou sua boca até abri-la, tornando o beijo mais íntimo, os dentes de Alix brincando com seus lábios carnudos. As mãos dela agarraram-lhe a camisa. Ele era todo musculoso e quente, e tinha gosto de vinho. Quando Alix se afastou, após momentos entorpecentes, Leila o seguiu, abrindo os olhos devagar, todos os seus sentidos se derretendo num pulsar de desejo. Ela jamais imaginara que pudesse ser assim. Depois de apenas um beijo. Alix levou as mãos aos pequenos botões de sua túnica, e Leila observou enquanto a roupa se abria devagar, para revelar o sutiã de renda. – Tão bonitos... – sussurrou Alix ao ver os seios revelados, mais voluptuosos do que Leila gostaria. Ele deslizou a mão pela túnica e envolveu um deles, testando o formato e a firmeza. O efeito em seu corpo foi tão intensamente prazeroso que Leila ficou envergonhada demais para encará-lo. Ela baixou a cabeça, e seus cabelos caíram nos ombros, de modo que as pontas tocaram as mãos dele. Leila ofegou quando a outra mão de Alix juntou seus cabelos atrás da cabeça, puxando-os com delicadeza. Dedos fortes apertavam um de seus seios, e o mamilo enrijeceu ainda mais. Ela queria algo, mas não tinha certeza do quê. Mais. Quando ele se abaixou para tomar sua boca mais uma vez, ela gemeu. E então Alix levantou o sutiã e envolveu os seios nus, acariciando os mamilos com os dedos. O beijo foi mais ardente, mas Leila correspondeu com avidez, sentindo-se mais confiante, enquanto ele abria sua túnica. Havia algo rústico na expressão dele que fazia a excitação se misturar a uma ponta de medo dentro de Leila. Alix se moveu para trás, levando-a consigo até se sentar na beira da cama.


Os seios estavam expostos, emoldurados pelo sutiã e pela túnica. Ela deveria estar se sentindo tímida, mas não estava. Então Alix envolveu um dos seios e levou-o até a boca, provocando o mamilo enrijecido com beijos íntimos e profundos. Leila pensou que poderia morrer. Ali mesmo. Jamais experimentou nada tão excitante, tão delicioso quanto o calor daquela boca. Quando ele dedicou a mesma atenção ao outro seio, as pernas de Leila falsearam, e ela caiu sentada no colo dele. As carícias da boca e língua quentes em sua pele faziam-na se contorcer, enquanto um turbilhão de tensão crescia entre suas pernas. Ele recuou de repente e disse com a voz áspera: – Eu preciso ver você. Alix colocou-a de pé e começou a remover-lhe a túnica devagar. Depois de um momento de hesitação, Leila levantou os braços para ajudá-lo, até que a túnica caiu aos seus pés. Em seguida, ele tirou-lhe o sutiã, e ela ficou nua da cintura para cima. Alix tinha um olhar sombrio e indecifrável. As mãos habilidosas acariciavam os contornos de Leila, com se ela fosse uma escultura de mármore. – Eu quero ver você. – Leila ouviu as palavras saindo de sua própria boca, mas nem mesmo tinha consciência de estar pensando nelas. Perigoso. Ele baixou as mãos e parou em frente a ela, convidando-a em silêncio a despi-lo. Leila alcançou a camisa e desabotoou-a devagar, puxando-a para fora do cós da calça, a fim de desfazer os últimos botões. Alix abriu os punhos e tirou a camisa. Leila estava fascinada. A pura força dos músculos sob a pele cor de oliva era fascinante. Ele tinha alguns pelos no peito e uma linha escura sobre o abdome definido, que desaparecia dentro da calça. Ele direcionou suas mãos para o corpo poderoso. O cheiro de Alix a hipnotizava. Terroso, almiscarado e másculo. O perfume que ela fabricou misturado ao cheiro único dele. Ela inclinou-se para pressionar os lábios na pele quente, encontrando a ponta do mamilo enrijecido. Beijou-os, e Alix teve um sobressalto. Ela recuou. – Machuquei você? Ele balançou a cabeça e sorriu. – Não. Você não me machucou... feiticeira. Deite-se na cama – instruiu ele. Leila ficou feliz em concordar. Sentia-se trêmula. O gosto da pele dele era viciante. Ela caiu na cama, e Alix a cobriu com o corpo, antes de beijar-lhe a boca e se mover para baixo, numa trilha de beijos pelo rosto, pescoço, até chegar aos seios, umedecendo um depois o outro. Ele recuou de leve e fitou-a antes de dizer: – Vou tirar sua calça... Leila mordeu o lábio e assentiu. Sua barriga se contraiu quando os dedos de Alix alcançaram o botão e o zíper, abrindo-os. Então, ele colocou as mãos nas laterais da calça de seda, a fim de deslizá-la para baixo. Alix também tirou a própria calça num movimento rápido. Juntamente com a cueca. Ficou gloriosa e desavergonhadamente nu. Leila apoiou-se sobre os cotovelos e arregalou os olhos diante da visão. O corpo dele era uma massa de músculos firmes e contornos masculinos. Ela jamais vira nada igual. Entre as coxas e o baixo ventre, ficava uma moita escura, de onde surgia o centro de sua virilidade. Longo e rígido. Orgulhoso. Enquanto ela observava, ele se tocou de modo gentil. O ato foi tão incrivelmente sensual que a boca de Leila secou, mesmo que outras partes de seu corpo estivessem úmidas de excitação. Leila voltou a se deitar, e Alix tirou-lhe a calcinha, jogando-a no chão. Estavam ambos nus e Alix acomodou-se ao lado na cama. Ela sentia a ereção poderosa contra a coxa. Um convite potente. Mas era tímida demais para explorá-lo ali. Ele a beijou. Beijos longos e apaixonados que a fizeram perder o juízo, enquanto mãos hábeis exploravam seu corpo. Então, ele afastou-lhe as pernas e explorou-a com os dedos ali, onde ninguém jamais tocou. Nem ela mesma. Num momento de pânico diante da exploração íntima, Leila cobriu-lhe a mão com a sua para impedi-lo. Ela o olhou, ofegando, sentindo-se quente. Uma das coxas de Alix estava entre suas pernas, e ela sentia o calor que vinha daquela parte, muito próxima ao ápice de suas pernas, onde a mão dele estava. E tão repentinamente quanto o pânico, Leila sentiu também uma urgência que não compreendia. – Eu não machucarei você, Leila – prometeu ele. – A qualquer momento que quiser parar, apenas diga e eu pararei.


– Obrigada. A mão dele recomeçou a se mover, e, quando ela sentiu um dedo penetrar seu interior, depois outro, ofegou e jogou a cabeça para trás, fechando os olhos, como se aquilo pudesse controlar as reações quase violentas que percorriam seu corpo. Alix movimentou os dedos num ritmo crescente, e Leila se sentiu cada vez mais molhada. Sem perceber, levantou os quadris, impulsionando-se na direção dele, procurando mais. Ela estava inconsciente do sorriso de pura satisfação masculina no rosto de Alix, enquanto ele a observava. Algo espiralava em seu interior, e ela implorava, sem coerência, para que aquilo parasse, ou acalmasse, ou qualquer coisa. Era dolorido, porém, ao mesmo tempo, era a coisa mais prazerosa que já sentira. Então todo o seu corpo foi envolvido numa tempestade, e ela se partiu em milhões de pedaços. Prazer e dor. Tudo de uma só vez. Quando seu corpo estava relaxado e sem forças, ela abriu os olhos. Alix parecia incrédulo. – Foi a primeira vez que atingiu o clímax? Leila assentiu. Viver num espaço tão pequeno com sua mãe não a incentivou exatamente a uma exploração feminina normal. E depois estivera em luto e ocupada... A expressão no rosto de Alix mudou de incrédula para intencional. Ele moveu-se de modo a se posicionar entre as pernas dela, forçando-as a abri-las. Leila ainda estava sensível lá embaixo, mas os movimentos sutis de Alix fizeram com que sua excitação crescesse mais uma vez. Uma necessidade de mais, embora mais certamente não fosse possível... Alix a beijou, envolvendo-a em seu calor e força. Leila passou as mãos em todo o corpo dele. Nas costas e quadris, no traseiro musculoso. E durante o tempo inteiro ele se balançava contra ela com delicadeza, e aquela urgência crescia dentro de Leila outra vez. Por algo... por ele. Ele afastou a boca de seu seio, e ela sentiu a ponta da ereção tocar o limiar de seu centro, escorregando de maneira tentadora. – Você está bem? Ela assentiu. Não estava mais na terra. Estava em algum planeta exótico, onde tempo e espaço haviam se tornado imateriais. Não havia mais um mundo real. – Sim – disse em voz alta para que não houvesse dúvida. – Isso pode doer no começo... fique comigo. Vai melhorar, prometo. E com isso ele mergulhou na carne intocada de Leila, abrindo espaço. Ela ofegou e arqueou-se contra ele, em parte, por rejeitar a invasão e, em parte, admirada por aquilo parecer tão adequado, apesar da dor, cuja intensidade quase a cegava. Mas ela respirou e olhou com confiança para Alix. Ele era tão grande e pesado. E se moveu. Vagarosa e profundamente. Forçando a resistência dela. Então recuou. Leila sentiu suor brotar em sua testa e entre os seios. Alix foi implacável, aprofundando a penetração aos poucos, e o corpo de Leila acostumou-se a ele e o acomodou melhor, a terrível ferroada de dor transformando-se em algo muito mais prazeroso. Ainda mais do que antes. Alguma coisa na urgência de Alix foi transmitida a ela, e por instinto Leila enlaçou as pernas em volta dele, sentindo a força masculina dentro de seu corpo. Os movimentos dele se tornaram mais fortes, mais poderosos. E os quadris de Leila se moveram em círculos. Ele a tocou ali, bem perto de onde estava investindo. Circulando o dedo, fazendo estrelas explodirem nos olhos dela, fazendo seu corpo voltar a enrijecer de desejo. Leila estava arfando e gemendo, enquanto ele a levava ao limite extremo de sua resistência. Então ela caiu, novamente, de uma altura ainda maior que da primeira vez. Estava navegando numa onda de êxtase tão grande que mal notou o corpo de Alix investindo com vigor dentro de seu corpo, antes de enrijecer e explodir, soltando uma torrente de calor em seu interior.

LEILA DESPERTOU quando se sentiu sendo levantada da cama, flexível e fraca. Conseguiu erguer a cabeça e abrir os olhos para ver que ele os estava conduzindo a um banheiro parcamente iluminado. Vapor saía de uma enorme banheira. Alix ajoelhou-se e depositou-a com delicadeza na deliciosa água quente.


Ela o olhou, já completamente acordada. – O que você está fazendo? – Você ficará dolorida... e sangrou um pouco. Leila pensou nos lençóis suntuosos. Mortificada, exclamou: – Ah, não! – A culpa foi minha. Eu deveria ter preparado... Uma expressão que lembrava horror cruzou a face dele, mas era difícil enxergar nas sombras do cômodo, então desapareceu, substituída por algo indecifrável. Alix se levantou, e Leila viu que ele enrolara uma toalha na cintura. Ainda não escondia a protuberância, e ela corou ao afundar nas bolhas. – Voltarei em um minuto. Alix saiu do banheiro, e Leila experimentou se mover, estremecendo quando sentiu um misto de dor e prazer entre as pernas. Seu corpo todo doía. Mas de uma forma agradável. Encostou a cabeça e deixou a água acalmar o corpo. O cérebro estava nublado, mas uma coisa estava bastante clara: não era mais virgem. E o ato foi... incrível. Estupendo. Transformador. Era como se o corpo que teve por toda sua vida fosse de repente algo novo. Sua mão se moveu, por vontade própria, a um de seus seios. O mamilo enrijeceu. Quando Leila o acariciou, uma ponta de prazer atingiu seu sexo. Ela sentiu-se encorajada... poderosa. Sentiu-se mulher pela primeira vez na vida. O perfume que escolhera antes... passou a entendê-lo. Poderia possuir um perfume como aquele e usá-lo com orgulho. Sorriu com ar sonhador, a mão ainda sobre o seio, brincando com ele, como Alix fez...

ALIX SENTIU-SE absurdamente mais controlado vestido em sua calça. Até alguns minutos antes, sentia como se alguém o tivesse drogado e ele tivesse perdido a razão e o controle. E perdera mesmo. Mas já estava começando a se distrair de novo, perdendo o foco. Parou junto à porta do banheiro, observando Leila com a mão no seio e um pequeno sorriso nos lábios. Enrijeceu na mesma hora. Pronto para ela. Aquela primeira investida no corpo delicado foi o céu e o inferno, porque ele sabia que, enquanto experimentava possivelmente o momento mais sensual de sua vida, ela sentia dor. Mesmo sendo tão gentil quanto possível. Então, quando a dor diminuiu nos olhos verdes e o corpo delgado começou a se mover, Alix transformou-se em escravo das exigências de seu corpo, tocando-a intimamente, aproveitando-se de sua inexperiência. Porque sabia que não poderia esperar até que ela terminasse. Então explodiu. Dentro dela. Sem nenhuma proteção. Alix controlou o pânico. Entrou no banheiro. – Como se sente? Leila tirou a mão do seio, abrindo os olhos com timidez. – Estou bem. Acho. Alix estendeu uma toalha. Leila se levantou, e ele não conseguiu evitar olhar a água escorrendo pelo corpo perfeito. A pele dela era como seda. Ela era maravilhosa. Magra, mas muito feminina, com quadris e seios cheios. Alix travou a mandíbula para parar de pensar em como foi bom ser aninhado pelas coxas e quadris dela. Como pareceu certo. Certo o bastante para deixá-lo maluco. Para fazê-lo esquecer coisas importantes. Como proteção. Leila secou-se, evitando seus olhos, então Alix lhe ofereceu um roupão. Ela deu-lhe as costas para vesti-lo, antes de se virar novamente para ele, parecendo preocupada. – Há algo errado? Alix sentiu um peso em seu peito. Os olhos verdes eram tão grandes. Tão inocentes. – Venha para o quarto. Pedi comida e bebida para a governanta. A mesa estava posta perto da janela. Uma vela bruxuleava. Ouviam-se, bem fracos, sons do canal. Eles se sentaram, e Leila pareceu ainda mais preocupada. – O que foi, Alix? Você está me assustando. – Nós não usamos proteção. – Ele fez uma careta. – Quer dizer, eu não pensei nisso. Presumo que você não toma nenhum tipo de anticoncepcional.


Leila balançou a cabeça. – Não. Também não pensei nisso. – Era minha responsabilidade. Ela desviou o olhar por um longo momento, antes de encará-lo. – Acho que tudo bem. Não estou no período fértil. Acabei de terminar um ciclo. Alívio o inundou, mesmo que outro sentimento o atingisse. Uma sensação de perda. Estranho. Ele pegou-lhe a mão. – Eu não estava pensando direito. Normalmente não esqueço. Não tenho condições de esquecer. Ele viu quando a compreensão escureceu os enormes olhos verdes. Leila puxou a mão. Sua voz endureceu. – É claro. Um homem como você tem de ser mais cuidadoso que a maioria. Eu entendo. Alix sentiu uma vontade bizarra de dizer-lhe que não era nada pessoal. Mas não conseguiu. Porque era verdade. Ele precisaria ter um herdeiro com sua rainha, e com ninguém mais. O próprio pai criou uma tempestade de controvérsias, indo para a cama com várias amantes, que apareciam de vez em quando, alegando que tinham filhos dele. Foi uma das muitas razões pelas quais o povo da Ilha Saint Croix ficou desiludido com o rei. – Isso não acontecerá de novo, Leila. Desculpe. Ela o olhou de repente, e ele sorriu. – Eu não quis dizer isso. Faremos de novo, apenas não esquecerei a proteção. A comida estava intocada à frente, e Alix tentou manter a civilidade. Pegou um pedaço de queijo. – Está com fome? Leila meneou a cabeça e desviou o olhar, envergonhada. Alix segurou-lhe o queixo e sorriu. – Mas está com fome de alguma coisa? Os olhos verdes baixaram para sua boca, e ele viu o mesmo apetite insaciável que sentia percorrer seu corpo. Ela assentiu, dizendo-lhe sem palavras o que queria. – Mas você ficará muito dolorida... Leila balançou a cabeça, encarando-o. Feminina e cheia daquela sabedoria inata que um homem jamais poderia decifrar. Alix não notara muito antes porque jamais vira isso como algo espontâneo. As mulheres com que saía eram cínicas demais até para tentar. – Eu estou bem. De verdade. As palavras roucas o tiraram de seu devaneio. Não precisava de mais encorajamento, então levou Leila para a cama.

QUANDO LEILA acordou, já era de manhã. Abriu os olhos e viu que o quarto estava banhado de sol. Estava sozinha. Mas Alix logo saiu do banheiro, arrumando a gravata. Estava com roupas impecáveis. Barbeado. Enquanto ela sentiase libertina. Ela se sentou e puxou o lençol, desorientada. Alix apoiou-se num dos pilares da cama e cruzou os braços, com um sorriso sensual. – Você está adorável. Toda desarrumada. Leila fez uma careta e esquentou ao pensar em como ficou desarrumada quando Alix a levou para a cama pela segunda vez. De algum modo, foi mais fácil encará-lo na luz difusa. Mas já era dia. Um retorno à realidade. E não era agradável. Pontadas e dores a fizeram estremecer, e ela inclinou-se para procurar suas roupas. Alix aproximou-se. – Você está bem? Leila olhou para ele e não conseguiu respirar. – Estou. Que horas são? Ela não tinha ideia de como se comportar naquele cenário da manhã seguinte. Uma manhã seguinte em Veneza, depois de uma noite de mais devassidão do que ela jamais imaginara que era capaz. Ficou mortificada.


Alix olhou seu relógio, ignorando o turbilhão dentro dela. – Já passa das dez. Sinto muito, mas preciso voltar a Paris para um almoço de negócios. Leila forçou-se a encará-lo, mesmo querendo se esconder debaixo das cobertas. – Claro. Eu também preciso voltar. Alix a segurou pelos quadris, encurralando-a. – Não se arrependeu, não é? O rosto dele estava tão próximo que ela podia enxergar as nuances de cinza-claro. E sabia que, por mais deselegante que se sentisse, não se arrependia de nada. Meneou a cabeça, e ele beijou sua boca. – Ótimo. A governanta mandou café da manhã e pedi que nos enviassem roupas. – Pediu? Alix deu de ombros. – Claro. Liguei para minha assistente em Paris e ela as encomendou em uma loja daqui. É claro, pensou Leila com ironia. Quase esquecera quem ele era. De seu poder. A facilidade com que estalava os dedos e suas ordens eram obedecidas. A facilidade com que ela havia ido para a cama com ele... Precisava parar de pensar nisso. Leila saltou da cama, enrolando o lençol em volta do corpo, ciente do olhar de Alix. – Vou tomar um banho rápido – disse ela, entrando no banheiro com tanta dignidade quanto conseguiu. No banheiro, ouviu o telefone de Alix tocar e sua voz grave ao atender. Uma lembrança de que ele estava ansioso para voltar a Paris e a sua vida. E ela precisava seguir em frente também. No chuveiro, disse a si mesma que, se tivesse apenas aquela noite em Veneza com um lindo rei exilado, ficaria feliz. Esforçou-se para ignorar a pontada em seu peito que discordava do pensamento. Ela não era sua mãe e não iria se apaixonar pelo primeiro homem com quem dormiu.

UMA HORA depois, estavam de volta ao avião de Alix. Ele falava ao telefone num idioma desconhecido. Algo que parecia espanhol. Era um alívio que ele não estivesse atento a ela por um momento. Leila olhou pela janela e suspirou. Difícil acreditar que seu mundo mudou de maneira definitiva em menos de vinte e quatro horas. Vestia as roupas novas que os empregados de Alix tinham enviado. Uma calça que lhe caía com perfeição e uma blusa de seda de mangas longas, com um cardigã da mais divina cor de safira. Eles haviam mandado até mesmo roupas de baixo e sapatos. Ela sentiu-se mimada. Perigoso. Porque ele fazia esse tipo de coisa com mulheres o tempo todo. Quando estavam tomando café, Leila o pegou olhando-a intensamente. – O que foi? – Sem maquiagem, ela se sentia exposta. Alix balançou a cabeça. – Você está linda. Então ele pegou sua mão, e ela não conseguiu desviar o olhar. – Quero vê-la de novo. Hoje... esta noite. Amanhã. O coração de Leila disparou com violência. – Mas foi apenas uma noite... Não foi? Foi assim que justificou seu comportamento ultrajante. Foi um momento único. – Uma noite é o bastante para você? – questionou ele. Presa ao olhar de aço, ela perguntou a si mesma se poderia fazer aquilo. Concordar com um caso com aquele homem? Sim, respondeu uma voz suplicante. Ela meneou a cabeça devagar. Não era o bastante para ela também. Queria mais. Alix entrelaçou os dedos nos seus. – Bem, então...


E então lá estava ela. Arremessada de volta ao mundo real e a uma ligação com a qual não tinha certeza se poderia lidar. Ouviu Alix desligar o telefone e pensou no vestido que comprou para ela ir à ópera e naquelas roupas novas. Desviou o olhar da vista, e encontrou-o estudando-a. Antes de perder a coragem, Leila falou de pronto: – Não quero ser sua amante. Agradeço pelas roupas, mas não quero que compre mais nada para mim. Ele franziu o cenho, como se não entendesse, então deu de ombros. – Está bem. Leila pensou em outra coisa e sentiu a mão fria do pânico no estômago. A possibilidade da intromissão da imprensa. Ser fotografada com Alix. Seria inevitável que sua vida fosse investigada, o que ela não queria de maneira alguma. – Não podemos sair em público. Não quero ir parar nos jornais. Não estou preparada para este tipo de intromissão. Alix endireitou-se, e uma expressão estranha surgiu no rosto (surpresa?) antes que desaparecesse tão depressa que Leila pensou que talvez tivesse imaginado aquilo. – Eu tenho uma equipe a minha disposição. Vou me certificar de que você esteja protegida. Leila pensou em Ricardo e no fato de ele já ter entrado e saído de sua loja algumas vezes, e ninguém parecer ter notado. Talvez ficasse tudo bem. Talvez os esqueletos em seu armário não saíssem para mordê-la. Ela forçou um sorriso. – Certo.


CAPÍTULO 6

– PLANETA TERRA para Alix... Olá? Alguém em casa? Alix piscou e olhou para seu amigo e conselheiro-chefe, Andres, que voara da Ilha de Saint Croix para encontrá-lo. Andres era a arma secreta de Alix. Devotado a levar Alix de volta ao trono, ele também trabalhava como espião na ilha. Era a razão por que Alix iria recuperar o trono. – Você ouviu uma palavra do que eu disse? Alix não ouvira. Sua mente estava consumida pela pele sedosa. Longos cabelos negros. Enormes olhos verdes. Leves ofegos e gemidos. A onda de prazer poderosa quando ele... droga. Saltou da cadeira. Aquilo era ridículo. Leila era como uma febre em seu sangue. Ele não conseguia se concentrar. Parou em frente à janela e disse ao amigo: – Eu conheci uma pessoa. Andres deu um pequeno assobio e um sorriso cauteloso. – Sei que você é rápido, Alix, mas nunca foi tão rápido assim. Normalmente dá um espaço de uma semana entre os namoros. Mas é bom. Quando veremos as fotos na imprensa? Alix cruzou os braços e fez uma careta. Então, lembrou-se do que Leila disse sobre evitar a intromissão da imprensa. E, por mais que precisasse da exposição, de repente a ideia de paparazzi rodeando-a não era nada agradável. Fazia-o se sentir... protetor. Devia haver uma solução. Teve uma ideia, e, quanto mais pensava nela, mais sedutora se tornava. – Nossos aliados na ilha sabem que estamos conduzindo uma campanha ilusória, não sabem? Andres assentiu. – Com certeza. Sabem que você está pronto para retornar, não importa o que a imprensa divulgue. – Então, se eu ficar uns dez dias na minha ilha no Caribe, isso contará a meu favor? – Claro... quer dizer, você estará em contato. E, se surgirem fotos do seu banho de sol com alguma beldade, a oposição será pega de surpresa quando puxarmos o tapete deles. Alix sorriu. Expectativa inundou seu sangue. – Exatamente minha ideia. Andres franziu o cenho. – Mas, Alix, você sabe que sua ilha é impenetrável. Paparazzi jamais o filmaram lá. É remota demais. O sorriso de Alix enfraqueceu. – Por isso você vai garantir que meus empregados mais confiáveis da ilha tirem fotos de longe e desfocadas o bastante para identificar a mim, mas não Leila. Ele pode mandá-las por e-mail, e você envia a quem achar melhor. Quero isso controlado. Alix sentiu uma pequena fisgada em sua consciência e disse a si mesmo que ainda protegeria a identidade dela. Os olhos de Andres brilharam com interesse pelo que o amigo estava disposto a fazer por uma mulher, mas Alix o cortou antes que ele pudesse dizer algo.


– Não quero falar sobre ela, Andres. Organize isso. Voaremos amanhã.

– VOCÊ QUER me levar para onde? Leila tinha acabado de encerrar o dia de trabalho quando Alix apareceu, causando-lhe uma reação física sísmica. Ela não teve notícias dele desde aquela manhã, quando voltaram de Veneza, e não gostava de admitir que ficou nervosa ao se perguntar se ele a procuraria, apesar do que disse. E então lá estava ele, dizendo: – Tenho uma ilha particular no Caribe. Cancelei meus compromissos por dez dias. Preciso de um tempo. Quero que venha comigo, Leila. Quero explorar o que está acontecendo entre nós. Leila ficou desconcertada e, ao mesmo tempo, excitada. – Mas eu não posso simplesmente... viajar! Quem cuidará de minha loja? A última coisa de que preciso agora é fechar. – Posso contratar alguém para gerenciar a loja na sua ausência – ofereceu Alix em tom calmo. – Não terá seu conhecimento, mas poderá cobrir as vendas até sua volta. Leila abriu a boca para protestar, mas a verdade é que não poderia mesmo receber encomendas de novos perfumes enquanto não encontrasse um local para uma fábrica, então, por enquanto, apenas vendia o que tinha em estoque. Podia fazer perfumes em uma escala muito pequena, como fez para Alix. Portanto, não era tão necessária. Ela tentou um protesto. – Passamos apenas uma noite juntos. Eu não posso viajar assim. Alix arqueou a sobrancelha. – Não pode? O que a está impedindo? Leila ficou irritada. – Nem todo mundo vive em um mundo onde possa ir para o outro lado da terra por impulso. Alguns de nós precisam pensar nas consequências. Mas Leila sabia que não estava falando de consequências financeiras, mas das emocionais. Já. Então Alix segurou-lhe a nuca, puxou-a para perto e murmurou com a voz suave: – Eu vou lhe mostrar as consequências. O cheiro dele atingiu seu cérebro. O sangue começou a esquentar, e ela sentiu a umidade surgir entre as pernas. Desejo e medo atingiram-na tão depressa que ela não conseguiu controlar. E, quando Alix beijou-a, Leila já estava perdida. Consentindo e jogando a precaução ao vento. A verdade é que era mais assustador lidar com ele ali. Talvez, ir para o outro lado do mundo os mantivesse na terra da fantasia. E, quando terminasse, ela voltaria à normalidade. O que quer que isso significasse. Quando o beijo acabou, a respiração de ambos estava pesada, e ela disse com voz trêmula: – É só que... isso não vai perdurar. – Ela nem mesmo deu um tom de pergunta. Alix endureceu o olhar e balançou a cabeça. Por um momento, pareceu quase triste. – Não. Nunca perdura. Leila respirou fundo. Mais um passo fora do limite não machucaria. Faria aquilo de olhos bem abertos. Sem ilusões. Sem se apaixonar. Não era ingênua como a mãe. – Está bem. Eu irei com você. Alix apenas sorriu.

– LÁ ESTÁ. Ali embaixo. Leila olhou e não acreditou em seus olhos. Jamais vira cores tão vívidas. Verde exuberante, areia branca, água azul cristalina. Era como um sonho. Não conseguia falar. Aquele era o último de uma série de voos que os levaram de Paris a Nassau, e então, em um avião menor, para a ilha particular de Alix, chamada Isle de la Paix. Ilha da Paz. O lugar parecia sossegado. Como o avião voava baixo, ela conseguiu ver uma bela casa colonial com jardins cuidados levando a uma longa faixa de praia, onde ondas espumantes batiam na costa imaculada.


Ficou feliz em ter ido, porque sabia que a experiência a ajudaria a manter Alix no mundo da fantasia quando o romance acabasse. Depois de aterrissarem Leila viu alguns empregados aguardando perto de um jipe. Quando desceram do avião, o calor a atingiu como se um forno se abrisse diante de seu rosto. Úmido. E delicioso. Já sentia os efeitos deixando seu corpo mais fluido, menos tenso. O funcionário sorridente levou as malas para o carro. Alix sorriu. Leila sorriu de volta, com o coração leve, e percebeu que ele sempre parecia um pouco tenso, mesmo quando estava relaxado. Mas não ali. – Gostaria de um breve tour pela ilha, madame? – Eu adoraria. Eles partiram, e Alix os conduziu pelas estradas de terra no meio das florestas exuberantes que contornavam as praias mais belas que ela já vira. O sol os banhava de calor. Leila inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos, deleitando-se com a sensação. Quando o jipe parou, ela abriu os olhos e viu que estavam à beira de uma praia pequena e perfeita. O cheiro do mar era forte, juntamente com o aroma da vegetação e da terra seca. Estava ansiosa para analisar as fragrâncias, mas a vista pedia atenção. Era uma overdose de sentidos. E a água cristalina, da cor mais perfeita que ela já vira, batia na praia a apenas alguns metros de distância. Alix saiu do jipe e soltou o cinto dela, levantando-a nos braços antes que ela protestasse. Levou-a até a praia. Era final de tarde e ainda estava quente. Ele a colocou no chão. – Você já nadou nua? – É claro que não! – Ela corou, mesmo enquanto sentia uma pontada ilícita de rebeldia. Alix já estava se despindo. A boca de Leila encheu de água, enquanto o corpo magnífico se revelava. Ela o vira nu apenas à luz difusa do palazzo em Veneza, e então ele estava ali, iluminado pelo sol glorioso num cenário paradisíaco. Era espetacular. Pura beleza cor de oliva. Um músculo em particular chamou sua atenção. Leila enrubesceu e desviou o olhar. – Não posso... não podemos! E se aparecer alguém? Alix parou na frente dela, segurou seu queixo e disse: – Ouça. Apenas ouça. Leila obedeceu. E não ouviu nada. Nenhum som além da brisa, das árvores, dos pássaros e do mar. – Somos só nós, Leila. Exceto pelos empregados na casa, estamos sozinhos. Uma sensação de liberdade que ela jamais experimentara fez o peito inchar e uma leveza inundou o corpo. Era poderoso. – Agora, você vai entrar na água por livre e espontânea vontade ou terei de atirá-la de roupa e tudo? Leila começou a se despir e zombou com petulância: – Sim, Vossa Majestade. Alix observava-a, seus olhos escurecendo enquanto Leila tirava, com timidez, a blusa e a calça. Ela lutou contra a lembrança da outra mulher e deixou cair o sutiã. A pele nua tiniu e os mamilos enrijeceram. Evitando olhá-lo, ela tirou a última peça. Estava nua num paraíso tropical com um homem igualmente nu. Era demais para absorver, portanto, com um grito de alegria, ela correu para o mar, sentindo a água salgada e quente abraçá-la.

LEILA VAGAVA pela casa de Alix vestida apenas com uma camiseta dele. Jamais esteve tão nua em toda a sua vida e, depois da timidez inicial, percebeu, para seu próprio espanto, que apreciava a liberdade. Do mesmo modo que apreciou a sensação de seu corpo nu no mar no primeiro dia. Desde que voltaram para casa depois do mergulho, havia três dias, mal saíram do quarto. Ele pegava comida na cozinha de vez em quando, e haviam se fartado um do outro num banquete de sensações. A inexperiência de Leila estava logo ficando reduzida ao passado sob a tutela especialista de Alix. Quando Leila acordou, pela primeira vez, Alix não estava ao lado. Então ela foi procurá-lo. Admirou o esplendor da casa pela primeira vez. Luxuosa sem ostentação. Tons de cinza e creme. Cortinas de musselina ondulavam com a suave brisa. De fato, era o paraíso.


Pequenos objetos de arte colocados aqui e ali, revelando bom gosto. Leila parou diante de um pequeno retrato pendurado no hall principal e ficou boquiaberta ao perceber que devia estar diante de um Picasso original. Um leve som a fez se virar, e ela corou quando viu uma mulher atraente de meia-idade observando-a com um sorriso terno. A mulher estendeu a mão. – Desculpe por assustá-la, srta. Verughese. Gostaria de saber se quer almoçar. Sou Matilde, a governanta. A mulher tinha sotaque americano. Leila deu um sorriso tímido. Não encontrara nenhum empregado antes. Gesticulou para suas roupas. Ou melhor, para a falta delas. – Desculpe, eu estava procurando pelo sr. Saint... quer dizer, Alix. O sorriso de Matilde ampliou-se. – Não se preocupe, querida. Esta ilha é para isso mesmo. Relaxar. Encontrará Alix em seu estúdio no final do corredor. Posso preparar um bom almoço para vocês no terraço. Estará pronto em meia hora. Leila sorriu de volta para a mulher, que claramente era íntima o bastante com Alix para chamá-lo pelo primeiro nome. – Chame-me de Leila, por favor. E um almoço seria ótimo. A mulher estava saindo, mas virou-se e disse: – Sabe, ele nunca trouxe uma mulher aqui antes. E com uma piscadela ela desapareceu no corredor, deixando Leila com o estômago cheio de borboletas. Ela se incomodou por ter ficado tão feliz com a informação. Leila vagou pelo corredor com piso de madeira polido. Ouviu uma voz e seguiu-a até um cômodo, onde encontrou Alix com o peitoral nu, sentado a uma mesa, com um notebook aberto diante dele. Estava ao telefone e tinha o cenho franzido. O cômodo era tão bonito quanto o resto da casa, com prateleiras do chão até o teto, cheias de livros que pareciam bastante usados. Ele a viu e uma expressão indecifrável cruzou seu rosto, antes de dizer algo que Leila não conseguiu ouvir e desligar o telefone. Leila sentiu que tinha atrapalhado alguma coisa. – Desculpe. Eu não queria incomodá-lo. Alix levantou-se, e Leila viu que ele usava apenas jeans desbotado. Sentiu um friozinho na barriga. Ele ficava lindo de terno, mas daquele jeito ele estava quase irresistível. – Você não está me incomodando. Desculpe por eu tê-la deixado... – Encontrei Matilde – balbuciou Leila. – Ela parece adorável. Vai preparar o almoço e o servirá no terraço em meia... Alix colocou o dedo na frente do lábio dela e deu um sorriso sexy. – Meia hora? Leila assentiu. Alix ergueu-a nos braços antes que ela soubesse o que estava acontecendo e logo estava subindo a escada. Leila sibilou: – Ela está preparando o almoço, Alix. Não podemos simplesmente desaparecer... Eles pararam diante da porta do quarto, e a visão da cama fez Leila se calar. Ao que parecia, podiam, sim.

QUANDO ENFIM desceram ao terraço, bem mais tarde, Matilde foi discreta e serviu um banquete. Saladas e massa. Asinhas e costeletas estilo americano. Peixe apimentado e arroz, patas de caranguejo com molho de alho. Lagosta. Vinho branco gelado. Depois de comer o peixe, Leila lambeu os dedos e capturou o olhar divertido de Alix. – O que foi? – Tem molho no canto de sua boca. Leila esticou a língua e encontrou o dedo de Alix, que tentava limpar o molho. Uma desejo carnal logo a percorreu, e ela se mexeu, de modo que pudesse tomar-lhe o dedo na boca, exatamente como ele a ensinou. Soltou o dedo, perplexa em como estava se tornando escrava daquele homem e de seus próprios desejos. Viu-se exclamando a primeira coisa que veio à cabeça para tentar dissipar a intensidade: – É verdade que você nunca trouxe


uma mulher aqui? – Ela se arrependeu das palavras na mesma hora. Maldita língua solta. – Tudo bem – acrescentou de pronto. – Não precisa responder. Não importa. Alix foi cuidadoso na resposta. – Eu deveria saber que Matilde não resistiria. É uma romântica de coração. Como acho que você também é, Leila. Ela o olhou, o horror inundando-a diante da ideia do que ele podia imaginar. Balançou a cabeça. Forçou todos os sentimentos românticos a saírem de seu corpo e mente e disse com firmeza: – Não sou, não. Sou realista e sei que este é apenas um momento na história. E estou feliz com isso, acredite. Alix estudou-a à luz bruxuleante da vela. A ilha estava calma e cheirosa em volta deles. Como ela. Ao que parecia, ele não precisava se preocupar que Leila tivesse entendido errado a afirmação de Matilde e não sabia bem por que a ideia não lhe causava uma sensação de conforto. Será que queria que ela se apaixonasse por ele? Ela estava de perfil e, mais uma vez, ele ficou atordoado pela beleza de Leila. Sem adornos e ainda mais estarrecedora. Nos últimos dias, a pele perfeita perdeu a palidez e se tornou mais rica. A herança indiana se tornou óbvia, dando-lhe um ar de mistério exótico. Os olhos verdes se destacavam ainda mais. Ele sentiu culpa quando se lembrou da conversa que teve com Andres para armar a fotografia. Seria uma foto bem menos invasiva do que aquelas que ele tirou com outras mulheres, então por que se sentia desconfortável? Culpado? Quando Leila o olhou com uma expressão indecifrável, isso não contribuiu para aliviar o peso de sua consciência. Ele ficou irritado, como se ela tivesse se retraído para trás de um escudo. – Você acha que algum dia irá recuperar seu trono na Ilha de Saint Croix? Alix piscou e voltou à realidade. Ficou logo desconfiado. Depois, sentiu-se ridículo. Ela não era espiã da Ilha de Saint Croix, enviada para descobrir seus movimentos. Mesmo assim, Alix manteve sua motivação em segredo por tanto tempo que não estava a fim de entregar sua alma a ninguém. Nem mesmo a ela. Deu de ombros, com ar despreocupado. – Talvez algum dia. Se a situação política melhorar o bastante para que eu reclame o trono novamente, mas há muita raiva ainda... pelo meu pai. Leila se virou na direção dele e apoiou os cotovelos sobre a mesa, descansando o queixo numa das mãos. O robe transparente que usava mostrava o contorno dos seios desnudos, e Alix se distraiu no mesmo instante. Precisou arrastar sua mente de volta. – Como ele era? A pergunta foi feita com inocência, entretanto, causou uma sensação imediata de raiva em Alix. Ele se sentiu agitado e levantou-se para se aproximar da balaustrada que protegia o terraço, observando o gramado abaixo. Ouviu Leila se mexer. – Desculpe. Se você não quiser falar sobre isso... Mas ele achou que queria. Ali, num dos recantos mais calmos da terra. Com ela. Ele não se virou. – Meu pai era corrupto... pura e simplesmente. Foi criado com privilégios e nunca precisou pedir nada, e isso o arruinou. Meu avô era um bom governante, mas fraco. Deixou meu pai enlouquecer. Quando ele se casou com minha mãe, uma princesa de uma antiga linhagem veneziana, estava fora de controle. O país estava se despedaçando, mas ele não notou a pobreza crescente. Minha mãe também não se dedicou ao povo. Passava mais tempo viajando pelo mundo do que na ilha. Alix virou-se e se apoiou na balaustrada. Olhou sua taça de vinho e sorveu o líquido. Quando voltou a encará-la, Leila tinha os olhos arrebatados. O peito dele se apertou. – Meu pai tinha amantes. Garotas locais, famosas, não fazia diferença. Levava-as ao castelo, minha mãe estando lá ou não. Acho que ele pensava que, uma vez que já tinha provido um herdeiro e um substituto, podia fazer o que quisesse. – Você teve um irmão mais novo? – perguntou ela. – Sim – confirmou Alix. – Max. Ele continuou: – Um dia, ambos os meus pais estavam em casa, o que era raro. Uma jovem local estava tentando ver meu pai. Segurava um bebê e chorava. O bebê estava doente e precisava de ajuda. Ela dizia que era dele, o que era


bastante provável. Meu pai fez os soldados expulsarem a jovem do castelo... Alix torceu a boca. – Ele não percebeu que uma multidão tinha se formado do lado de fora, e, quando viram aquilo, eles atacaram. Nossos soldados enfrentaram a multidão, que foi na direção de meus pais. Atiraram neles e em meu irmão, mas eu escapei. Alix deliberadamente fez com que parecesse menos terrível do que tinha sido. Bebeu o resto do vinho de um gole só. Os olhos de Leila brilhavam com o que pareciam lágrimas. O que causou um profundo efeito em Alix. – Seu irmão... vocês eram próximos? Ele assentiu. – Muito. Tudo o que faço é para vingar a morte dele, para que não tenha sido em vão. No mesmo instante Alix percebeu que falara demais. Ela claramente estava imaginando como levar uma vida luxuosa de playboy poderia ter a ver com vingar a morte prematura do irmão. Claro que Leila não sabia das instituições de caridade que ele tocava e que apoiavam famílias que haviam perdido familiares em circunstâncias traumáticas. Ou das inúmeras vezes que ele participou de missões de paz e reconciliação em todo o mundo, observando como as coisas eram feitas, para que pudesse aplicar em seu país quando retornasse. Leila o fitou, tão alto e pensativo ao luar. Seu coração doía por ele. Pelo menino que fora, desamparado, assistindo aos próprios pais destruindo seu legado. E levando o irmão mais novo com eles. Ela lembrou-se de que mentiu sobre a morte de seu pai e sentiu-se desonesta, depois que ele contou sua história. – Alix – começou ela –, tem algo que eu deveria... Mas ele interrompeu-a ao se aproximar da mesa e depositar o copo ali. Ela viu que o olhar ardente baixou para seus seios sob o robe fino. Calor inundou-a instantaneamente, e ela esqueceu o que ia dizer. – Acho que já falamos demais por esta noite. Quero você, Leila. – Então, quase como uma reflexão, ele acrescentou: – Preciso de você. Preciso de você. Aquelas três palavras incendiaram o sangue de Leila. Ela sentiu que ele precisava se soltar depois de contar sua história. Então, levantou-se, de modo que ele pudesse vê-la através do tecido transparente. Ele podia ter dito que precisava dela, mas Leila sabia que ele se referia a isso. E, enquanto Alix a levava de volta ao quarto, ela afirmou a si mesma, mais uma vez, que não tinha problema.

– QUEM IMAGINARIA que você gosta de ler romances policiais americanos? A voz de Leila era provocante, enquanto ela estava deitada no peito de Alix, numa grande espreguiçadeira no jardim. Ele baixou o livro e olhou-a, arqueando uma sobrancelha. – E que você iria gostar da coleção de romances históricos de Matilde, recheados de homens rústicos com longos cabelos louros? Leila riu. – É culpa de minha mãe. Ela os devorava e me influenciou desde jovem. – Você deve sentir falta dela. Leila sentou-se, puxou os joelhos até o queixo e abraçou-os. Olhou a estonteante vista do jardim nos fundos da casa, onde ficava a piscina. – Eu sinto falta dela, é claro. Sempre fomos somente nós duas – murmurou em tom calmo. Leila teve medo de olhar para Alix, no caso de ele perceber sua emoção. Uma mistura de pesar e felicidade. E gratidão por estar naquele lugar. Por estar com aquele homem e saber que não deveria esperar mais. Mesmo que seu coração se contorcesse um pouco por isso. Alix apoiou-se em um cotovelo. – O homem com quem estava antes... o que ele fez? Leila o olhou. Droga. Esquecera que mencionara Pierre. – Foi um erro. Eu fui ingênua. – Como?


Leila mordeu o lábio. – Foi logo após a morte de minha mãe. Eu estava vulnerável. Ele me deu atenção. Acreditei quando ele disse que só queria me conhecer, que não me pressionaria. Mas uma noite ele foi ao meu apartamento e disse que estava cansado de esperar e tentou me violentar. Alix endireitou-se num movimento fluido e pegou o braço de Leila, virando-a de frente para si. Raiva faiscava em seus olhos. – Ele a machucou? Leila ficou chocada com aquela demonstração de sentimentos. – Não. Ele... tentou, mas eu o ameacei com spray de pimenta. Então ele me insultou e saiu. – Dieu... Leila... ele poderia ter... – Eu sei – disse ela. – Mas não aconteceu. Graças a Deus. E eu fui tola por acreditar que ele... Alix apertou-lhe o braço. – Você não foi tola. Queria apenas um pouco de atenção. Palavras tremeram nos lábios de Leila. Sobre como gostaria de acreditar que o amor e a segurança poderiam existir. Mas não conseguiu proferi-las. Não para aquele homem. Ele não fez promessas. Ofereceu aquele pedaço de paraíso. Ela seria tola mais uma vez se sonhasse com algo mais vindo de um homem como Alix. Ele a recostou na espreguiçadeira e abraçou-a, acariciando seus cabelos. – Esse cara era um idiota. Ele encontrou-lhe a boca, e os dois se deliciaram num beijo longo e ardente. Leila sentiu-se emotiva, como se Alix estivesse expressando sem palavras sua gratidão por ela ter confiado a ele sua inocência. O beijo esquentou. Alix desatou o laço do biquíni dela e agarrou seu traseiro com gentileza, depois, com mais firmeza, acariciou perto de onde a abertura de seu corpo estava quente e úmida. Obedecendo ao clamor de seu corpo, ela acomodou-se de pernas abertas sobre ele, pressionando os seios no peito largo. Com uma economia de movimentos, Alix conseguiu livrá-los das roupas de banho. Leila acostumou-se tanto ao respeito à privacidade deles que se sentiu desinibida. Suas pernas estavam bem abertas, e ela podia senti-lo rígido e potente. Alix encaixou sua ereção entre eles, e Leila apreciou mover o corpo para cima e para baixo, fazendo-o gemer, fazendo ambos desejarem mais. Até que ela não pudesse mais provocá-lo e precisasse morder o lábio, enquanto ele se protegia. E então exalou o ar quando ele uniu seus corpos mais uma vez e penetrou-a. Nada existia no mundo, exceto aquele momento. A maravilhosa escalada ao êxtase em seu auge.


CAPÍTULO 7

ALIX OLHAVA para o jardim onde Leila tinha uma conversa animada com o jardineiro. Ele percebeu que, apesar de talvez estar diante do momento mais tumultuado de sua vida, nunca se sentiu tão calmo. Ou contente. Os últimos dez dias foram diferentes de tudo o que já experimentara. Jamais havia passado tanto tempo sozinho com uma mulher. Nem mesmo com aquela para quem pensou ter perdido seu coração. Era fácil conversar com Leila. Perturbadoramente fácil. Ele lhe contara coisas que jamais contara a ninguém, nem mesmo a Andres. E a química entre os dois continuava acesa. Alix franziu o cenho. Sabia que deveria deixá-la. Dentro de alguns dias, sairia a notícia de que o povo de Alix optou, em votação, pelo retorno dele à Ilha de Saint Croix. Sua vida não lhe pertenceria mais. E não poderia voltar com uma amante. Precisava retornar sozinho e depois encontrar uma esposa. De repente, sentiu um peso no peito. Então Leila o avistou. Ela disse algo ao jardineiro e apertou a mão dele. O velho pareceu encantado, e Alix meneou a cabeça. O efeito Leila. Ela correu em sua direção com uma caixa nas mãos, vestida para viajar, com calça justa e uma blusa de malha sem manga. Ele a absorveu com desejo. Não estava pronto para deixá-la. E, no entanto, como poderia mantê-la? – Desculpe tê-lo feito esperar. Alix sorriu enquanto uma ideia lhe ocorria. – Não fez. Lucas ajudou? – Incrivelmente. – Ela sorriu. – Ele até me deu algumas flores para levar. Jamais senti um cheiro como o delas. Se eu pudesse destilar a essência... – Ela parou, envergonhada. – Desculpe... precisamos ir. Vou pegar minha bolsa. Leila fez menção de entrar, mas parou ao lado de Alix e olhou-o. – Obrigada. Foi mágico. Ele segurou-lhe o queixo e traçou-lhe o lábio inferior com o polegar. E naquele momento percebeu que não estava pronto para deixá-la partir e que faria o que fosse preciso para impedila.

– FICA COMIGO esta noite? Leila olhou-o ao seu lado no carro dirigido por um motorista. Era bem tarde, passava da meia-noite, e as ruas parisienses molhadas de chuva eram como uma paisagem estranha para Leila. Ela percebeu que nem sentiu saudade. Percebeu também, apesar de suas melhores intenções, que não estava preparada para deixar Alix. Assentiu com um gesto de cabeça. A Place Vendôme estava vazia quando chegaram e foram escoltados ao hotel com discreta eficiência. Leila espantouse um pouco ao ver como o staff bajulava Alix e como ele pareceu se transformar instantaneamente em alguém mais distante, mais austero. Por um momento, ela esquecera quem ele era.


Quando entraram na suíte, Leila foi até a janela sentindo-se inquieta de repente. Via sua loja escura e vazia e um leve presságio a fez estremecer por um momento. Então avistou Alix no reflexo da janela. Ele veio em sua direção, e, na tentativa de quebrar a intensidade, Leila desaviou o olhar. Ainda impressionada pelas sensações que ele lhe causava. Então viu algo em cima de uma mesa e, quando registrou o que era, arfou. – Ah, não! Um segundo depois Alix notou o que ela viu e praguejou em silêncio, prometendo demitir a pessoa que deixara aquilo ali. Era uma revista popular francesa, em cuja capa havia uma fotografia de Alix e Leila na praia. Estavam deitados na areia, vestindo roupas de banho. O rosto dela estava virado para ele, portanto não era possível identificá-la, mas a ele, sim. Leila pegou a revista, mas Alix a tirou de sua mão e jogou-a fora, falando com urgência: – Eles não pegaram seu rosto. Está tudo bem. Ela estava pálida, chocada, e encarou-o. – Você sabia sobre isso? A consciência de Alix pesou tanto que doeu. Engraçado que ele nem achava que possuía uma consciência. Antes. – Minha assistente envia atualizações de todas as notícias. Leila pareceu magoada. – Por que não me disse? – Porque eu tinha esperança de que você não visse. – Bem, a França toda já viu agora – disse ela, gesticulando com o braço. Então olhou para o chão onde estava a revista e leu: – Quem é a mais nova namorada misteriosa do rei exilado? Alix levantou-lhe o queixo, sentindo a resistência. – Eles não sabem quem você é, e eu me certificarei de que não descubram. Por favor, confie em mim. Uma expressão que Alix não gostou cobriu as feições dela. – Isso tem de acabar depois desta noite, Alix. Não fui feita para seu mundo e não quero ser levada aos jornais como mais uma de suas mulheres. Alix negou tudo o que ela disse, e uma sensação de desespero cresceu em seu interior. A necessidade de torná-la sua. Mas não podia articular isso. Então, usou sua boca para cobrir a de Leila, desejando que ela correspondesse. E ela correspondeu, porque era tão impotente diante da situação quanto ele.

NA MANHÃ seguinte, quando Leila acordou, levou algum tempo para se orientar. Estava numa cama enorme com os lençóis mais luxuosos que já sentira. Estava nua e sozinha. O corpo doía. Entre as pernas uma sensação delicada. Então tudo voltou. Alix a conduziu até lá e tirou-lhe as roupas com tanta reverência como se ela fosse preciosa. Depois a deitou e a submeteu ao que só poderia ser descrito com um ataque sensual. Um ataque totalmente consensual. Era como se tudo o que ele já lhe ensinara fosse apenas o nível básico. Alix não foi carinhoso nem gentil. Foi feroz e selvagem, mas Leila corou ao lembrar como se deleitou, correspondendo em todos os sentidos, regozijando-se, cravando as unhas nas costas largas, implorando por mais. Mesmo o fato de sua foto ter aparecido na revista diminuiu de importância. Leila tinha uma vaga lembrança de adormecer nos braços de Alix. Franziu o cenho quando outra lembrança surgiu. Alix beijou sua cabeça e disse: – Você não vai a lugar algum. Isso não terminou. Leila estranhou. Ouviu mesmo aquilo? E o que significaria? A ideia de Alix ter decidido que algo mais permanente pudesse acontecer fez seu tolo coração acelerar. Precisava falar com ele. Saiu da cama, tomou banho e foi à procura de Alix. Ouviu sua voz antes de vê-lo. Ela sorriu. Até mesmo aquela voz profunda lhe causava um friozinho na barriga. Talvez houvesse realmente algo diferente entre eles. O fato de ela não ser como as mulheres que ele costumava ter.


Leila parou atrás da porta quando ouviu seu nome. – Leila é perfeita, Andres. É bonita, talentosa, inteligente, refinada – enumerou Alix. Ela corou por espionar daquela maneira. E por ouvi-lo falar sobre ela assim. Mas Alix pareceu um pouco nervoso quando voltou a falar: – O simples fato de ela não querer ser vista comigo é um ponto a seu favor. Ela é diferente de qualquer mulher com quem eu já estive. Leila franziu a testa. Um ponto a seu favor? Parecia que ela estava sendo avaliada. Quando Alix continuou, os pelos da nuca de Leila se eriçaram. – Para ser honesto, eu não poderia ter arquitetado um resultado melhor nem se tivesse planejado os acontecimentos. Estamos na iminência de uma consulta popular que me colocará de volta ao trono, e o partido reinante nem faz ideia. Eles devem pensar que estou me divertindo com ela no Caribe. Tudo está se encaixando perfeitamente. Leila recuou, chocada e horrorizada. Alix deu uma risada sarcástica. – Desde quando amor teve alguma relevância quando se trata da esposa que escolherei? O que importa é que ela está apaixonada por mim. Tenho certeza. Não será como o casamento de meus pais, tóxico de dentro para fora. Ele continuou, ignorando a devastação que acontecia do lado de fora da sala, conforme o que dizia penetrava em Leila. – Como eu sei? Ela era virgem, Andres. Uma mulher não se entrega com tanta facilidade. Retornar ao poder com uma noiva irá me colocar numa posição muito mais forte. Leila será uma grande rainha. Tenho certeza. É a escolha perfeita. Ele fez uma pausa, então murmurou em voz mais baixa: – Não tenho dúvida alguma de que ela dirá sim. Se eu tiver de assegurá-la de que também a amo, para atingir meus objetivos, o farei. Não será nenhuma dificuldade. E, quanto mais cedo tivermos filhos, melhor. Um herdeiro será o sinal mais forte de estabilidade para a Ilha de Saint Croix. Um sinal de esperança e de mudanças. O coração de Leila batia com tanta força que ela pensou que fosse desmaiar. Ela era virgem. Uma mulher não se entrega assim tão facilmente. Se eu tiver de assegurá-la de que a amo também, o farei. Uma dor aguda em seu coração quase a fez se dobrar. O que Alix estava propondo a enojava. Embarcaria numa vida com ela baseada em mentiras e falsidades, apenas para apresentar o pacote completo a sua preciosa ilha. Uma ilha que estava na iminência de recuperar, depois de tê-la feito acreditar que era uma possibilidade distante. Ele mentiu descaradamente. E seria pai de uma criança apenas para prosseguir com seus objetivos políticos! A ironia foi como um golpe em seu rosto. Seu próprio pai rejeitara uma filha pelas mesmas razões. Mas Leila não estava disposta a apreciar aquele humor negro. Toda a conversa deles assumiu um tom sinistro. As perguntas sobre as opiniões políticas dela teriam sido para se certificar de que ela não fosse nenhum tipo de anarquista? Quando ele lhe pediu opinião sobre um assunto qualquer, estava fazendo uma entrevista? E a intensidade da relação íntima teria sido para garantir que Leila apoiaria o interesse dele em ter um herdeiro? O que a trouxe de volta do choque foi o fato de Alix ter parado de falar. Sentindo-se enjoada, Leila caminhou até a porta em silêncio. Ele estava parado diante da janela, com as mãos nos bolsos. Mestre de tudo o que sondava. Incluindo, como ele obviamente acreditava, sua amante inocente e ingênua. Um homem implacável que a via apenas como um meio de ajudá-lo a recuperar o trono. Leila sentiu raiva intensa. Queria apenas fugir de Alix e esquecer que o conheceu. Esquecer que reviveu o destino de sua mãe: apaixonar-se pelo primeiro homem que a seduziu.

O CÉREBRO de Alix ainda zunia depois do telefonema. Disse mesmo a Andres que estava preparado para tornar Leila sua rainha? Sim. Ele esperou por uma sensação de arrependimento, pânico ou claustrofobia. Mas ainda parecia correto. Jamais conheceu alguém como ela. Leila era doce, inocente. Não tão inocente assim. Seu corpo enrijeceu ao recordar como ela aprendeu depressa, os movimentos timidamente eróticos, ousados na cama. Como ela o tomou com a boca, sentindo seu gosto, poucas horas antes.


Seu corpo enrijeceu. Uma figura conhecida atravessando rapidamente a praça apareceu em seu campo de visão, e sua respiração parou. Era Leila, carregando a mala. A única mulher que conhecia que não viajava com uma dúzia de malas. Aonde estava indo? Alix sentiu um calafrio ao se recordar da conversa ao telefone. Será que ela escutou? Mas se tivesse escutado, por que estaria fugindo? Que mulher fugiria da perspectiva de uma união permanente com um homem como ele? Uma voz sussurrou: Uma mulher como Leila. Alix estava prestes a segui-la, quando o telefone tocou novamente. Ele atendeu. Viu-a desaparecendo dentro da loja e não gostou da chama de pânico em seu estômago. A sensação de que se não a seguisse jamais a veria de novo. – Vossa Majestade, está aí? Precisamos discutir os planos para quando o resultado da consulta popular for anunciado, amanhã. Amanhã. No dia seguinte sua vida mudaria para sempre. A lembrança foi um susto. Um susto que dizia que ele corria o risco de perder o foco quando mais precisava dele. Por causa de uma mulher. Mesmo que ela fosse a mulher que escolheu para ser sua rainha, ainda era apenas uma namorada que não estava envolvida em sua vida. Alix reprimiu a sensação de algo escapando de suas mãos e concentrou-se na ligação. Por meia hora. Quando enfim desligou, foi até a janela outra vez, e, quando absorveu a visão, cada músculo de seu corpo enrijeceu. Leila estava do outro lado da praça, trancando a porta da perfumaria. As cortinas estavam fechadas e ela vestia jeans, tênis e uma jaqueta. Carregava uma pequena mala.

LEILA ESTAVA quase na esquina quando Alix segurou seu braço. Ela não se virou, e ele sentiu a tensão no corpo dela. – Quanto você escutou? Ela virou-se então, com uma inexpressividade no rosto que Alix jamais vira. Ele ficou gelado. E sentiu-se exposto. – O bastante. Eu ouvi o bastante, Alix. – Ela puxou o braço. – Agora, se me der licença, vou pegar um trem. Alix franziu o cenho. Havia apenas algumas horas, ele a deixou exausta e saciada na cama. E sussurrou palavras que nunca disse a mulher alguma. A sensação de exposição se intensificou. – Aonde você vai? Leila pareceu surpresa. – Ah, eu não lhe contei? Preciso ir a Grasse para discutir os pormenores de uma fábrica com um velho mentor de minha mãe. Alix sentiu pânico e não gostou. – Não, você não me disse. Leila consultou o relógio. – Eu devo ter esquecido. – Tentou dar a volta, mas ele segurou seu braço mais uma vez. – Solte-me. – Você não tinha planos até ouvir aquela conversa. Ela o encarou com raiva. – Quer dizer, seu decreto real? Alix sabia que eles estavam chamando a atenção das pessoas que passavam e, a distância, avistou um brilho que suspeitou ser a lente da câmera de um paparazzi. – Precisamos conversar... e não aqui. Leila deve ter visto algo na expressão dele, porque pareceu rebelde por um segundo, mas puxou o braço e começou a voltar para a loja. Alix tirou-lhe a mala da mão. Eles entraram. Alix fixou o olhar no rosto pálido. – Por que você está indo embora? E sem se despedir. Ele não falou essas palavras. Mulheres não se despediam dele. Ele é que se despedia delas. Ela cruzou os braços. Estava obviamente zangada.


– Preciso cuidar dos meus negócios. E também porque sua arrogância é surpreendente. Como ousa presumir que estou apaixonada por você? Só nos conhecemos há duas semanas. Ou pensou que, por eu ser virgem, tinha menos células cerebrais que a maioria das mulheres, e por isso me apaixonaria pelo primeiro homem que me levasse para a cama? Alix sentiu algo violento em seu interior diante da implicação de que haveria outros homens, e ele seria apenas o primeiro. Ela parecia ainda mais nervosa. – Você disse a alguém chamado Andres que eu era virgem. Como ousa discutir minha intimidade com outras pessoas? – Infelizmente, a vida de um membro da realeza tende a ser propriedade pública. Mas eu não tinha o direito de divulgar essa informação. Leila deu uma risada irônica. – Bem, é uma vida que não tenho a menor intenção de saber como funciona, portanto, daqui para a frente, eu adoraria que mantivesse para si mesmo os detalhes de nosso caso. Pode ficar descansado, Vossa Majestade, pois não estou apaixonada. Alix disse a si mesmo que ela não fugiria daquele jeito se algo a respeito da conversa não a tivesse afetado emocionalmente. – Se é o que diz. – É a verdade – retrucou Leila. – Poupei você do incômodo de precisar fingir que sente algo por mim e pouparei ainda mais seu tempo com a indubitavelmente falsa proposta de casamento que tinha em mente. A resposta é não. Alix arqueou a sobrancelha. – Diria não à possibilidade de ser uma rainha? A uma vida de luxo e riqueza ilimitados? O estômago de Leila se revolveu. – Eu diria não a um casamento desprovido de qualquer sentimento verdadeiro. Como você, entre todas as pessoas, pode honestamente pensar que eu iria querer trazer ao mundo uma criança que tivesse de viver com pais que representassem um papel? Os olhos de Alix estavam frios. – Você não estava representando esta manhã. De imediato, Leila foi invadida pela lembrança: suas pernas envolvendo a cintura dele, dedos cravados no traseiro. Ela deu uma pequena risada sem diversão. – Certamente, você não confunde desejo com amor, não é, Alix? Pensei que fosse mais sofisticado. O rosto dele corou, mas aquilo não confortou Leila. Sentia-se nauseada. – Ouça – disse Alix –, sei que deve estar um pouco magoada. A verdade é que a mulher que eu escolher para ser minha rainha deve preencher alguns requisitos. Nós nos respeitamos. Gostamos um do outro. Temos uma química insana. São fundamentos excelentes para um casamento. Melhor que algo baseado em emoções volúveis ou antipatia logo no início. Algo perigosamente empático invadiu Leila quando ela pensou no que lhe contou sobre o casamento dos pais. Então se lembrou da avaliação que ele fez sobre ela estar um pouco magoada, e a empatia se dissolveu. A mágoa era humilhante. A última coisa que ela queria era que Alix até mesmo suspeitasse de quão devastador fora ouvir aquela conversa. – Você nem mesmo me contou que estava prestes a recuperar o trono – acusou Leila. – Eu não podia. Apenas meus aliados mais próximos sabem. – Então tudo, a viagem toda para a ilha, foi uma tentativa elaborada de dissuadir seus oponentes? E a mim? Uma peça de decoração para sua charada? Uma amante conveniente no lugar daquela que você largou tão sumariamente? – Leila riu alto e começou a andar pela casa. – Mon Dieu, mas eu fui mesmo uma tola. Pela segunda vez seguida. Alix falou em tom duro: – Eu não sou como aquele homem, e você não foi uma tola. – Sim, eu fui. Por ter acreditado que uma viagem como aquela fosse espontânea. Você mandou alguém nos fotografar, não mandou? Alix corou e não negou.


Leila balançou a cabeça e afastou-se. Suas últimas esperanças desapareceram. Ela achava que haviam compartilhado momentos íntimos sozinhos. Ele a levou a acreditar que estavam sozinhos na ilha. Despiu-se de corpo e alma para aquele homem, e ele explorara isso. Precisava se proteger. Precisava mandá-lo embora, antes que ele percebesse como ela estava frágil por trás da raiva. – Para ser honesta, Alix, eu usei você.

EU USEI você. No mesmo instante, Alix reagiu com uma pontada no estômago. Dor. Um eco do passado sussurrou para ele. Outra mulher. Usei você, Alix. Queria voltar para a Europa e vi você como um meio de entrar lá e restaurar minha reputação. Ele ficou gelado e rígido por dentro. – Você me usou? Leila assentiu e deu de ombros. – Eu queria perder minha virgindade, mas nunca conheci ninguém com uma perspectiva palatável. Até que você entrou na minha loja. Foi meu único motivo, Alix. E o desejo... não vou negar. Minha mãe era protetora demais, mas finalmente sou livre e independente e não estou pronta para me algemar a um casamento de conveniência porque você me considera uma candidata adequada à posição de noiva e mãe de seus preciosos herdeiros. Uma expressão zombeteira cruzou o rosto dela. – Estou irritada que tenha me usado para suas finalidades, mas esta é a extensão de qualquer mágoa. E você acha mesmo que é o primeiro homem rico que me convida para sua suíte para uma consulta particular? Não foi o primeiro nem será o último. A visão de Alix anuviou por um momento diante da ideia de Leila entrando em outra suíte, sorrindo para algum homem, sacando seus frascos. Fabricando o perfume perfeito para ele, como uma feiticeira. Dormindo com ele. Tristeza o inundou. Ela o usou. Exatamente como ele tinha sido usado antes. Havia jurado que jamais permitiria que acontecesse. No entanto, permitiu. A evidência de tamanha fraqueza embrulhou seu estômago. Estava disposto a convencê-la a ser sua noiva. A trazê-la para sua vida, desfilar com ela como sua rainha. A ter Leila como a mãe de seus filhos. Os herdeiros da Ilha de Saint Croix. Algo ocorreu em meio à ira crescente de Alix. – Você pode estar grávida. O pensamento tornou-se repugnante para ele, embora, horas atrás, pensasse em usar aquilo para persuadi-la a concordar com o casamento. Leila ficou um pouco mais pálida, mas levantou o queixo. – Não estou, não. Alix não queria ficar com nenhuma dúvida. – Como você sabe? – Minhas regras vieram esta manhã. Alix sorriu sem humor. – E suponho que gostaria que eu acreditasse que, se você estivesse grávida, não viria atrás de mim, exigindo tudo o que pudesse? Alix notou os braços dela baixando até a lateral do corpo com as mãos fechadas em punhos. No entanto, ele não sentiu nada. Somente um desejo de discutir. – Seu cinismo realmente não tem limites. Preciso pegar um trem. Por favor, saia. Sem uma palavra, Alix virou-se e saiu da loja. Somente quando chegou à suíte, aquela nuvem obscura clareou em seu cérebro. Não podia nem sequer acusar Leila de cobiça. Havia um milhão de outras mulheres que teriam ouvido a mesma conversa e a usariam para se infiltrar na vida dele, pegar tudo o que oferecia e mais. Mas não ela. A ironia sombria zombava dele. Alix viu a cama desarrumada pelo canto dos olhos. E algo mais. Entrou no quarto e pegou o vidro de perfume da Chez Leila com sua fragrância personalizada.


A imagem de Leila na banheira, depois de fazerem amor pela primeira vez, surgiu na sua mente. O pequeno sorriso sensual, a mão no seio. Ela parecia satisfeita. Missão cumprida. Eu usei você. Numa crescente onda de ódio, Alix atirou o frasco na parede mais próxima, onde se partiu em milhões de pedaços. O aroma o atingiu em cheio. Ele pegou o telefone e deu uma breve instrução para que sua equipe inteira fosse para outro hotel. Logo depois, recebeu uma ligação de Andres. O homem estava animado. – As pesquisas chegaram, e todas sugerem uma vitória esmagadora. O governo está em pânico, mas é tarde demais. Chegou o momento, Alix. É quase hora de ir para casa. Quando retornar com Leila nos braços... Alix o cortou friamente: – Nunca mais mencione o nome dela. Houve silêncio do outro lado da linha, antes que o homem se recuperasse e continuasse, como se nada tivesse acontecido. Alix ouviu com expressão sombria. Quando a conversa terminou, seu staff apareceu, apressando-se para atender a exigência. Alix praguejou contra si mesmo por ter uma reação exagerada. Leila Verughese era apenas uma bela mulher. E a luxúria prejudicava seu julgamento. Nada mais. Na pior das hipóteses, aquela tinha sido uma lição valiosa. No momento em que Alix saiu do carro e entrou em sua nova residência temporária, Leila Verughese não era uma lembrança recente nem distante. Ela foi extirpada de sua mente com a precisão cirúrgica que Alix usava havia anos para remover qualquer coisa na qual não queria pensar. Seu destino estava prestes a ser ressuscitado das cinzas como uma fênix, e isso era a coisa mais importante no mundo.

SOMENTE QUANDO o trem saiu de Paris é que Leila sentiu a rígida tensão deixar seus músculos travados. A mandíbula relaxou. A dor na garganta diminuiu um pouco. Ela enviou agradecimentos silenciosos à velha amiga de sua mãe que a hospedaria por um tempo em Grasse. Não havia planos para uma fábrica, mas isso a tiraria de Paris até Alix partir. Então a dor subiu à superfície. A dor que dizia que foi preciso muita força para fingir que Alix não significava nada para ela. Que ela o usou. Ele a usou. Graças a Deus, a imprensa não descobriu sua identidade. Sua ingenuidade lhe causava enjoo. O que a lembrou da leve sensação de náusea que experimentou nos últimos dias. Colocou a culpa na comida forte de Matilde. Mentiu para Alix sobre suas regras. Ainda não tinham vindo. Mas queria que ele se fosse. Se ele achasse que pudesse haver uma mínima chance... Horror a preencheu com a ideia. Ela colocou a mão na barriga e disse a si mesma que não estava grávida, porque o universo não seria tão cruel para impor à filha os pecados da mãe. Se estivesse grávida, não queria imaginar a reação de Alix. Depois da última conversa, ele defenderia apenas uma coisa para proteger sua preciosa ascensão ao poder: aborto. Porque Leila Verughese acabou de se afastar do que se esperava da noiva adequada.


CAPÍTULO 8

Sete semanas depois ALIX CONTEMPLAVA a vista de seu escritório no castelo da Ilha de Saint Croix. Ficava na parte de trás, onde o muro intransponível do castelo descia até o mar e as pedras. O cômodo mais seguro.

A janela estava aberta, permitindo que a brisa quente entrasse, trazendo os aromas da infância: terra, mar, flores selvagens. E mais aromas exóticos de temperos e ervas vinham do mercado local. As últimas semanas haviam sido tumultuadas, mas ele ainda estava ali, e isso era alguma coisa. Leila. Um fantasma constante em sua mente. Atormentando-o. Assim que voltou à Ilha de Saint Croix numa onda de triunfo, o perfume da ilha o lembrou do perfume que ela fabricou para ele. Estaria ela sentada na luxuosa suíte de um hotel naquele momento? Sorrindo para algum desafortunado? Cativandoo? Feiticeira. Ele ainda não acreditava que ela recusou a oportunidade de se tornar rainha. Ou que a recusa o aborreceu tanto. Disse a si mesmo que aquele era um ataque de egocentrismo. Escolheu Leila porque acreditava genuinamente que ela possuía os atributos necessários. Ademais, os dois se davam bem e ele sentiu que ela era íntegra e que podia confiar nela. Sem falar da química insana. E o tempo todo ela também teve intenções. Uma batida à porta interrompeu seus pensamentos. – Entre. Era Andres, parecendo preocupado. Segurando um tablet. Quando chegou à mesa de Alix, estava sisudo. – Há algo que você precisa ver. Alix levou um segundo para entender o que estava vendo, mas, quando aconteceu, seu corpo todo enrijeceu e uma onda de calor preencheu seu peito. Era uma foto sua com Leila, discutindo na rua, naquele dia, sete semanas antes. Ele lhe segurava o braço e ela parecia irritada. E linda. Mesmo naquele momento, ela tirava seu fôlego. A manchete dizia: Quer conhecer a perfumada amante misteriosa do novo rei da Ilha de Saint Croix? Vá à página seis... Alix olhou para Andres. – Faça isso. Andres rolou a tela e parou. Alix leu, mas não conseguiu absorver direito. As palavras pulavam em sua frente: Filha ilegítima de Alain Bastineau... próximo presidente da França? Teste de gravidez... positivo... herdeiro real? O rei Alix sabe se é o pai?


Escândalo e controvérsia não parecem querer deixar o novo rei em paz...

LEILA AINDA estava em choque, embora desde o dia anterior tentasse absorver a novidade. Ela confirmou aquilo depois de semanas tentando negar a possibilidade, quando suas regras falharam por dois meses. Estava grávida... aproximadamente de oito semanas, segundo o médico que consultou depois de três testes. Todos positivos. Grávida e sem o pai. Exatamente como a mãe. Uma sensação de vergonha e futilidade a inundou. Aquilo era genético. Ela provou não ser menos suscetível a um belo homem com intenção de seduzir. A única diferença era que, dessa vez, o pai teria ficado feliz em se casar com a mãe de seu filho. Leila deu um sorriso irônico. Talvez um progresso? Talvez na próxima geração sua filha não engravidasse, evitando ter de lidar com a possibilidade de rejeição ou de um casamento por conveniência? Ah, Deus. Leila passou a mão na barriga. Seu filho ou filha. Com esse legado em seu passado. Que patético. Lágrimas amargas inundaram seus olhos. Uma batida furiosa à porta da loja assustou-a. Ela ouviu um clamor de vozes. Estava atrasada para abrir a loja, mas os clientes dificilmente vinham em grupo ou socavam a porta. Leila desceu apressada, pensando que talvez algum acidente tivesse acontecido. Mais batidas, vozes urgentes. Leila lutou com a trava e abriu a porta. Encontrou uma barreira de flashes piscando, vozes e pessoas empurrando em sua direção. Aquilo era tão chocante e inesperado que ela levou alguns instantes para absorver o que estavam dizendo, e então ouviu: É verdade que você está grávida de Alix Saint Croix? Vão voltar a ficar juntos? Há quanto tempo estão juntos? Por que brigaram? Vocês mantêm contato? Ele sabe do bebê? As vozes tornaram-se uma só, e por fim Leila teve a presença de espírito de fechar a porta, mas antes de fazê-lo alguém atirou um jornal, que caiu a seus pés. Ela pegou-o. Estampada na primeira página estava um foto sua com Alix, discutindo na rua, naquele dia. Ele segurava seu braço, e ela o encarava: brava. Magoada. Humilhada. Leila encolheu-se ao ver suas emoções tão expostas. E pensar que achava que estava no controle. E a manchete: Leila Verughese, a namorada secreta de Alix Saint Croix e a filha mais secreta ainda, que Alain Bastineau nunca quis que você descobrisse. Eles sabiam sobre seu pai. Leila encostou-se à porta e escorregou até o chão. Mal notou as batidas na madeira e a gritaria do lado de fora. Se já achava que as coisas estavam péssimas havia algumas horas, quando soube da gravidez e ainda era segredo, elas estavam prestes a piorar bastante. De algum lugar, vinha um zunido persistente. Leila reconheceu fracamente que era o telefone. Engatinhou até o aparelho e atendeu. De algum modo, não ficou surpresa ao ouvir a familiar voz masculina autoritária. Mas não lhe causou emoção alguma. Ela estava anestesiada pelo choque. Ele informou-a de que, em uma hora, Ricardo estaria na entrada dos fundos da loja com um chamariz. Ela teria de deixá-lo entrar. Enquanto isso, deveria arrumar uma mala e partir com ele quando instruída. O choque impediu Leila de pensar nas instruções, ou na multidão do lado de fora. Em pouco mais de uma hora, deixou Ricardo entrar, com uma garota perturbadoramente parecida com ela. Leila não pensou duas vezes em emprestar um de seus casacos à garota, nem no fato de ele tê-la mandado sair pela porta da frente. A multidão enlouqueceu, então, acalmou-se novamente, enquanto ela ouvia gritos de: Ela está fugindo! Ricardo disse em tom de urgência: – Não vai demorar, srta. Verughese, para que eles percebam que ela não é você. Onde está sua bagagem? Precisamos trancar a loja e sair. Já.


Então Leila foi escoltada para o banco de trás de um carro com janelas escuras, que logo saiu pelas ruas de Paris. Em algum momento, Ricardo deve ter ficado preocupado com sua complacência chocada, pois perguntou se ela estava bem. Leila olhou-o pelo espelho e disse com a voz entorpecida: – Sim, Ricardo, obrigada. Quando eles pararam em frente de um dos hotéis mais exclusivos de Paris, o choque enfim começou a se dissipar. Uma multidão de homens com ternos pretos rodeou o carro, e um deles abriu a porta. Leila olhou para Ricardo, que tinha se virado para encará-la. – Está tudo bem, srta. Verughese, são os seguranças do rei. Eles têm instruções para levá-la diretamente a ele. O rei. Ele era rei. Leila empalideceu. – Ele está aqui? Ricardo assentiu. – Ele veio o mais rápido possível. Está esperando pela senhorita. O homem quase pareceu solidário e aquilo assustou Leila. De maneira alguma, fariam com que ela sentisse que estava errada. Sua vida acabou de ser partida em pedaços, e era tudo culpa dele. A onda de indignação durou até que ela estivesse parada do lado de fora de portas imponentes num dos andares mais altos do luxuoso hotel. O guarda-costas que a escoltava bateu na madeira polida. A indignação foi facilmente substituída por nervosismo e náusea. Ela o veria de novo. Queria sair correndo. Não estava pronta... Uma voz veio do interior da suíte. Profunda, fria e arrogante: – Entre. O guarda-costas abriu a porta com um cartão e a conduziu para um hall de mármore que envergonharia uma mansão. Era circular e havia portas em todas as direções. Por um segundo, ela sentiu vontade de rir. Sentia-se como Alice no País das Maravilhas. Então, uma silhueta alta e larga saiu de uma das portas. Alix. Ele parecia ainda maior. Seus cabelos estavam severamente curtos, e ele estava barbeado. Na mesma hora, Leila sentiu-se fraca e detestou-se por isso. Lutou contra o sentimento e levantou o queixo. – Convocou-me, Vossa Majestade? Um músculo saltou no maxilar dele. Mas ele não mordeu a isca. Apenas deu um passo ao lado e disse: – Precisamos conversar... entre, por favor. Leila passou por ele com toda a confiança que conseguiu, entrando depressa na enorme sala com grandes janelas, de onde se tinha uma vista da Place de la Concorde, com a Torre Eiffel visível a distância. Ela tentou não inalar o cheiro de Alix enquanto passava, mas foi inútil, pois penetrou seus sentidos, de qualquer forma. Todavia, ela não conseguiu distinguir os aromas que colocara na essência. Era o perfume antigo. Ela sentiu uma pontada de dor. Ele não estava mais usando o seu perfume... Leila olhou pela janela e cruzou os braços, desejando estar mais apresentável. Que não estivesse vestindo a mesma calça escura, camisa branca e sapatos baixos. Os cabelos amarrados num rabo de cavalo. Nenhuma maquiagem. – É verdade? Você está grávida? Leila lutou contra a vontade de colocar a mão sobre a barriga, como se pudesse impedir que o feto ouvisse a conversa. – Sim, é verdade. – E é meu? Ela respirou fundo e virou-se. – É claro que é seu. Como ousa insinuar? Alix levantou a mão. Ele parecia frio e distante. Ela jamais o vira assim, exceto no último encontro. – Insinuo porque eu tenho um dote bastante considerável. Leila retrucou: – Bem, se é que se lembra, você veio a mim, e não ao contrário. Alix colocou as mãos nos bolsos. – E você teria vindo a mim? Leila abriu a boca e fechou-a mais uma vez, um pouco surpresa. Mas sabia que seu medo da reação de Alix a teria inibido. Pelo menos de procurá-lo diretamente.


Ela evitou ir ao ponto. – Eu acabo de ter certeza. Não tive muito tempo de assimilar. Era verdade. Alix parecia tão obstinado que Leila sentiu medo. – Eu não vou me livrar da gravidez só porque não sou mais uma esposa adequada. Ele franziu o cenho. – Quem disse alguma coisa sobre livrar-se do bebê? – Uma expressão de desgosto cobriu o semblante dele. – Você suspeitava que estivesse grávida naquele dia, não é? O rosto de Leila esquentou. Ela olhou para o chão, sentindo-se culpada. – Minhas regras não tinham vindo. Mas eu não queria dizer nada. Poderia estar apenas atrasada, e tinha esperança de que... – Ela parou. – De que não houvesse consequências? – completou Alix com a boca retorcida. Leila assentiu. – Bem, há. Consequências de longo alcance. Mais do que medo percorreu a coluna de Leila. Mas, antes que pudesse perguntar o que ele queria dizer, Alix andou em sua direção. E parou... perto demais. Ela podia sentir o cheiro dele. Queria se afastar, mas não o faria. – Você mentiu para mim. – Mas eu acabei de saber... – Sobre seu pai. Disse que ele estava morto. Leila sentiu-se fraca de novo. Deixou, por conveniência, aquela bomba escorregar para um canto de sua cabeça. Olhou para Alix. – Você também mentiu para mim. Disse que estava prestes a recuperar o trono e me usou como cortina de fumaça. Alix pareceu ignorar aquilo. Cruzou os braços e fitou-a com olhos estreitos. – Por que mentiu sobre seu pai? Leila deu-lhe as costas de novo. Ele veio ao seu lado. Ela mordeu o lábio. Alix esperou, em silêncio. – Foi minha mãe – contou ela com relutância. – Era o que ela sempre dizia. Ele está morto para nós, Leila. Ele não nos queria. Só queria que eu me prostituísse para ele. Se alguém perguntar, ele está morto. Alix permaneceu em silêncio. – Eu sabia quem ele era, A vida perfeita em família. A ascensão à fama política. Por que eu admitiria que ele era meu pai? Eu era uma vergonha para ele. Uma coisa é ser rejeitada por um pai que o conheceu a vida toda, outra é ser rejeitada antes mesmo de ele conhecer você. Ela e sua mãe tinham visto os dois lados da moeda. O tom de Alix foi gelado, ele transbordava desaprovação perante o passado dela. – Descobrimos que a imprensa se aproveitou da história de sua identidade para desenterrar seu passado e ver se podiam encontrar algo suculento. E encontraram. Seu pai já está fazendo o possível para limitar os estragos, alegando que os relatórios são falsos. Uma tentativa de frustrar suas chances nas eleições. Leila ficou magoada. Outra rejeição... e pública, dessa vez. – Eu não estou surpresa – disse ela com pesar. E na frente de Alix. A situação poderia piorar? Ao que parece, poderia. – A coletiva de imprensa acontecerá em uma hora – murmurou Alix, do seu lado. – Contratei uma estilista e sua equipe para arrumarem você. Leila virou-se para fitá-lo. – Coletiva de imprensa? Estilista? Para quê? Alix a encarou. Sua expressão não permitia discussão. – Uma coletiva para anunciar nosso noivado, Leila. Depois da qual você vai voltar comigo para a Ilha de Saint Croix. – Voltar? Mas eu nunca estive... – Seu cérebro estava entorpecido, e ela mal conseguia falar. Um som agudo veio do nada, e Alix tirou um telefone do bolso. Antes de usar o aparelho disse a Leila: – Espere aqui pela estilista. Voltarei logo.


E saiu do cômodo, antes que ela pudesse protestar. Quando reagiu, Leila sentiu lava incandescente correr em suas veias. A arrogância daquele homem! Presumir que ela concordaria humildemente com essa ordem, só porque ele tinha complexo de King Kong! Leila saiu atrás de Alix pelos corredores intermináveis, que acabavam em quartos, salas e uma sala de jantar que parecia acomodar umas cem pessoas. Por fim, ouviu vozes detrás de uma porta fechada e, sem bater, escancarou-a. – Agora me escute. Que parte de eu não quero me casar você não entendeu da primeira vez que eu falei? Leila parou de um jeito abrupto quando uma dúzia de rostos virou-se para ela. Havia duas mulheres no grupo, assustadoramente arrumadas. Alix estava no meio, parecendo austero, e todos assistiam a alguma coisa na televisão. Um homem mais ou menos da idade de Alix separou-se do grupo e veio até ela, com a mão estendida. – Srta. Verughese, é um prazer conhecê-la. Sou Andres Balsak, chefe do staff do rei Alix. Leila o deixou pegar sua mão, sentindo-se exposta. – Estamos assistindo a uma reportagem. O grupo se separou, e ela notou que a examinavam. Evitou olhar para a expressão indubitavelmente furiosa de Alix. A reportagem mostrava uma cidade muito bonita, com casas coloridas perto de um porto. Um imponente castelo erguia-se em uma colina atrás da cidade. Um repórter dizia: – Será que o rei Alix conseguirá acalmar esta tempestade escandalosa tão no início de seu reinado? Teremos de esperar para ver. A televisão foi desligada. Alix disse: – Saiam todos. Agora. A sala ficou vazia em um instante. Ver aquela reportagem, mesmo por um rápido momento, fez Leila se conscientizar da magnitude do que estava encarando. Ela virou-se para Alix. – O que você está propondo exatamente com essa coletiva de imprensa e me levando para a Ilha de Saint Croix? Alix estudou-a. Ela parecia ter 18 anos. Estava ainda mais bonita do que ele se lembrava. Os olhos verdes estavam enormes. No momento que ele a viu parada no hall, foi como se seu sangue tivesse recebido injeções de eletricidade pura. E quando Leila passou por ele o aroma familiar lhe trouxera lembranças demais. Deixou-a entrar em sua vida com tanta facilidade. E ainda a desejava tanto. Confiou tanto nela. Será que ela o teria procurado para contar sobre o bebê? Ele tinha a impressão que não, e seu sangue ferveu. Alix sentiu raiva dela. E raiva do senso de proteção que sentiu quando Leila revelou a verdade sobre seu pai. Não podia pensar naquilo por ora. – Você virá porque está carregando meu herdeiro e o mundo todo já sabe. Leila cruzou os braços. Seus seios pareciam maiores. Por causa da gravidez? A ideia do corpo de Leila amadurecendo com a semente dele, seu filho, causou-lhe outra onda de desejo. Uma recordação surgiu... de acariciar aquele mamilo com a boca, sentindo a doçura. Alix reprimiu brutalmente as imagens. Leila estava andando pela sala. – Qual é a solução? Tem de haver uma... – Ela parou e o encarou. – Quero dizer, não é como se você realmente quisesse se casar comigo. O noivado é apenas fachada, até que as coisas se acalmem... Ela parecia tão esperançosa que Alix quase sentiu pena. A relutância de Leila em se casar com ele o deixava, de algum modo, possessivo. – Não, Leila. Nós vamos nos casar. Em duas semanas. Noivados curtos é tradição na Ilha de Saint Croix. Leila gritou: – Duas semanas? – Ela achou uma cadeira e sentou-se, parecendo desconcertada. – Isso é ridículo! Alix balançou a cabeça. – É o destino, Leila. Nosso e de nosso bebê. A criança que você carrega está destinada a ser o futuro rei ou rainha da Ilha de Saint Croix. E terá um enorme legado anterior e posterior. Negará isso a ele? Leila descruzou os braços. Alix precisou se conter para não enlaçar os dedos dela nos seus. – Bem, é claro que não, mas deve haver uma maneira...? – Negará a seu filho a chance de crescer junto com o pai? Cercado pela segurança de um casamento estável? Você, entre todas as pessoas?


Leila empalideceu e se levantou. – Isso é golpe baixo. Alix precisou mais uma vez ignorar o peso em sua consciência. – Precisamos pensar na criança agora. Nossos problemas são secundários. Se você escolher ficar contra mim, não hesitarei em usar minha influência para convencê-la. – Seu imbec... Alix a interrompeu. – Não há apenas a criança a ser considerada, mas o povo da Ilha de Saint Croix. A situação está instável desde que recuperei o trono. Estamos em um estágio muito delicado e precisamos alcançar estabilidade e começar a recolocar o país nos trilhos. Tudo pode voltar ao caos a qualquer momento. Esse escândalo é tudo de que meus inimigos precisam para desestruturar a situação. Sua consciência vai ficar tranquila? Leila pensou nas imagens que acabara de ver na televisão da bela cidade. Da ilha idílica, ou assim parecia. Engoliu em seco. – Isso não é justo, Alix. Não sou responsável pelo que acontece com seu povo. – Não! – concordou ele. – Mas eu sou, e estou me responsabilizando pela situação.

NO FINAL, foi o peso da inevitabilidade e da responsabilidade que venceu Leila. E a percepção de que sempre suspeitou que isso pudesse acontecer. Ou então Alix teria pedido que ela se livrasse do bebê. E o fato de ele não ter... Ela pôs a mão na barriga com a familiar e crescente sensação de proteção. Sentiu isso no momento em que o médico confirmou a gravidez. Juntamente com um amor incondicional. Então era por isso que sua mãe tinha passado? A situação atual colocava sua mãe numa perspectiva nova. Como ela foi corajosa em enfrentar tudo sozinha! E Leila nem estava enfrentando a mesma situação. Mas o oposto. Um casamento forçado com alguém que a desprezava, depois de ela dizer que o usara. Uma tentativa patética de esconder o quanto estava magoada. E teria que viver com isso. Mas, enquanto se lembrasse da conversa de Alix ao telefone, não voltaria atrás. Para ele, tudo foi apenas um meio para atingir um fim. E pelo menos ele não a levou a pensar que estava apaixonado. Seu filho não sofreria pela ausência do pai, como ela. Rejeição. Abandono. Alix podia querer o filho pelo que ele representava: continuidade. Mas seria responsabilidade de Leila certificar-se de que ele jamais soubesse quão implacável o pai era. – Aqui está, srta. Verughese, veja o que acha. Leila sorriu para a estilista, que estava esperando com uma arara de roupas quando Alix a levou de volta à suíte. Havia também pessoas para arrumar seu cabelo e aplicar maquiagem. Ela olhou-se no espelho e suspirou. Estava bem diferente. Elegante. Numa blusa verde-escuro de mangas compridas, com gola alta e saia evasê até os joelhos. Os cabelos estavam presos num coque. Os olhos e bochechas pareciam ainda mais destacados. Ela culpou a maquiagem, e não seu apetite, que aumentou consideravelmente no último mês. Recebeu um par de sapatos de saltos altos. Então Alix apareceu. Vestia uma gravata no tom do vestido de Leila. Ela pensou na velocidade em que ele reagiu às noticias e se preparou. – Por favor, nos deixem a sós. Assim que estilista e a equipe saíram do quarto, os olhos acinzentados a percorreram, fazendo-a sentir-se envergonhada. Aquele homem era um estranho para ela. Mas um estranho que fazia seu corpo pulsar. Ele estendeu uma caixa de veludo e abriu-a. Continha um belo par de brincos de esmeralda, num estilo quase indiano. – São lindos. – Pertencem às joias da coroa. Estavam protegidos por meus aliados enquanto eu estive ausente. Coloque-os. Leila o encarou. – Por favor – acrescentou ele. Leila obedeceu em silêncio. – E tenho algo mais...


Alix segurava uma caixa de veludo menor. O coração dela acelerou. Sonhava com aquele momento, embora não tivesse admitido nem para si mesma. Mas não assim. Não com ressentimentos vindos em sua direção. Alix abriu a caixa, e ela quase se sentiu tonta. Era o anel mais lindo que já vira. Cinco esmeraldas, obviamente muito antigas. Encrustadas numa aliança de ouro escuro. Era suavemente imperfeito. Leila estendeu um dedo e o tocou. – De que época é este anel? – É da metade do século XVII. Ela olhou, impressionada. – Eu não posso aceitar. – Combina com seus olhos. Leila sentiu algo traidor ao pensar nele escolhendo joias porque combinavam com seus olhos. Que ele pensou nisso, em vez de apenas pegar o primeiro anel que visse. Alix tirou o anel da caixa e pegou-lhe a mão. Então, fitou-a por um instante, antes de deslizar o anel no seu dedo, e Leila prendeu a respiração. Era como se o destino e todo o universo conspirassem contra ela, porque serviu perfeitamente. Ele não soltou sua mão, e ela olhou para cima, confusa. A expressão de Alix era indecifrável. – Há mais uma coisa. – Mais joias? Realmente não preciso... Mas as palavras foram cortadas quando Alix baixou a cabeça e cobriu-lhe a boca com a sua. Ela ficou tão chocada que não reagiu por um segundo, dando-lhe a oportunidade de aprofundar o beijo. Quando Leila recuperou o bom senso, tentou afastá-lo, mas Alix segurou-lhe a cabeça e impediu-a. Toda a sua sanidade gritava para que ela o empurrasse, mas seu corpo se deleitava com o beijo, saboreando, com se estivesse faminto num deserto havia semanas e tivesse acabado de encontrar água. O perfume de Alix a inebriava, e antes que ela pudesse evitar, já estava pressionando seu corpo contra o dele. Uma batida à porta dissipou a nuvem sensual, e Alix quebrou o contato. Leila não teve tempo de praguejar, porque Andres já estava com a cabeça dentro da sala. – Estão todos prontos. – Nós já estamos indo. Andres desapareceu, e, percebendo que agarrava o paletó de Alix, Leila deu um passo atrás. Ele a olhava quase com cuidado, como se ela pudesse explodir. E quase explodiu mesmo nos braços dele. – Para que foi isso? – perguntou ela com fraqueza. – A imprensa mundial está nos esperando lá embaixo. Precisamos convencê-los de que tivemos uma briguinha de namorados e que voltamos. A gravidez foi um acontecimento feliz que nos reuniu. A velocidade e tranquilidade com que Alix parecia reagir a toda a situação, sem contar a atenção aos detalhes – aquele beijo – apenas confirmava o quanto ele era insensível. E como ela jamais o conheceu de fato. Ela queria tirar os sapatos e correr o mais rápido que conseguisse. Mas não podia. Tinham feito um filho juntos, e o bebê teria de vir primeiro. Exatamente como Alix disse. Leila alisou o vestido e endireitou os ombros. – Muito bem. Não devemos fazê-los esperar. Alix observou-a andar até a porta. A coluna dela estava ereta como a de uma bailarina, e sua postura era mais real do que a de qualquer princesa de sangue azul que ele já conheceu. Sentiu algo como admiração atravessando o redemoinho de desejo que ainda mantinha seu corpo desconfortavelmente excitado. Tentou bloquear o efeito que ela lhe causava, dizendo a si mesmo que não foi tão intenso quanto ele imaginava. Mas tinha sido.


CAPÍTULO 9

O AVIÃO que os levava à Ilha de Saint Croix era maior que aquele que Alix usou antes. O fato de Leila ter viajado apenas em aviões particulares era algo que ela deveria achar ironicamente divertido, mas leveza não era o que sentia naquele momento. A coletiva de imprensa passou numa névoa de perguntas e fotos. Leila teve de cravar as pernas no lugar para que não bambeassem na frente de todos. Andres enviou alguém para coletar os pertences mais importantes de seu apartamento e guardá-los em um depósito. O staff de Alix estava todo na parte de trás do avião, incluindo Andres, e ela e Alix estavam sozinhos na luxuosa parte da frente. Havia uma sala de estar, de jantar e uma suíte. Os comissários tinham oferecido jantar, mas Leila apenas beliscou. Seu estômago estava muito embrulhado. Leila pensou na resposta que Alix deu a uma pergunta sobre o pai dela na coletiva. – Se Alain Bastineau está tão certo de que não é o pai da minha noiva, então que prove com um teste de DNA. Leila, no avião, falou: – Quando perguntaram sobre meu pai, você não precisava responder daquele jeito. – Precisava, sim. Um homem que rejeita o próprio filho não é um homem. Você será a rainha da Ilha de Saint Croix, e eu não permitirei que façam especulações sobre sua vida. No mesmo instante, Leila sentiu-se diminuída. Ele só a defendeu por causa das preocupações com sua própria reputação. Ela foi tola em enxergar qualquer outra coisa. – Você precisa comer mais. Perdeu peso. Alix a olhava com atenção, e Leila censurou-se por tê-lo recriminado. Sentia-se constrangida. – É comum perder peso na primeira gravidez. A voz de Alix soou áspera: – Providenciaremos para que se consulte com o médico real assim que estiver acomodada. Precisamos organizar seu pré-natal. Leila ficou surpresa com a veemência na voz de Alix e concluiu que tudo aquilo significava bem mais para ele do que o simples fato de um bebê. Ela e o bebê representavam estabilidade para o futuro da ilha. Ela franziu o cenho, pensando em outra coisa. – Como eles descobriram? Alix foi severo. – Eu lhe disse... eles tinham nossa fotografia na rua e fizeram pesquisas para saber mais de você. E, como eu tinha acabado de me tornar rei, eles sabiam que havia potencial para uma história bem maior. Estavam de olho em você, Leila. Achamos que alguém vasculhou seu lixo e achou os testes de gravidez. Leila sentiu-se nauseada e pôs a mão na boca. Levantou-se de uma vez e correu para o banheiro. Sabia que não era apenas por causa do que Alix dizia. Suas crises de enjoo aconteciam em diferentes momentos do dia. Para sua vergonha, quando se endireitou no pequeno banheiro, viu Alix pelo espelho, parecendo preocupado. – Estou bem... isso é normal – disse ela com a voz fraca.


– Está pálida como um fantasma. Deite-se. Precisa descansar. Alix foi para o quarto e virou as cobertas. Leila evitou-lhe o olhar ao se sentar. Então pensou em algo mais e fitou-o em pânico. – E minha loja? – Podemos providenciar para que alguém a gerencie por um tempo. Provavelmente será melhor vender. Você estará ocupada com seus deveres de rainha e de mãe. Fúria percorreu as veias de Leila, espantando todo o cansaço. – Como se atreve a tirar meu sustento? – Leila, ouça... – Não, ouça você. – Leila apontou o dedo na direção dele e todo o tumulto do dia enfim a atingiu. – Aquele negócio é o único legado de minha família. Fazer perfumes é uma vocação e não vou desistir dela. Se você insistir no contrário, não hesitarei em deixar a Ilha de Saint Croix no primeiro voo disponível. Ela cruzou os braços. Alix pareceu nervoso. – Está bem – concordou ele por fim. – Discutiremos um modo de incorporar seu trabalho a sua nova vida. Então a raiva enfraqueceu de maneira tão repentina quanto viera. Leila se deitou e virou para o outro lado, fechando os olhos. Talvez, quando acordasse, descobrisse que tudo não passava de um sonho ruim.

ALIX ESTAVA de pé, observando a mulher deitada, cuja respiração se acalmava. Leila estava de costas para ele, o que apenas reforçava sua frustração. Ele sabia que ultrapassara os limites, sugerindo que ela vendesse a perfumaria, mas não pôde evitar. Notou o aumento quase imperceptível da cintura dela. Leila acabara de colocar a mão na barriga, como se quisesse proteger a criança. E, de repente, uma forte necessidade de protegê-la o dominou. Ele pensou nos paparazzi perseguindo-a e lembrou-se de quando Andres mostrou a notícia. Seu instinto foi ir até ela para mantê-la segura, não para confrontá-la sobre a gravidez. Aquilo fazia com que ele se sentisse exposto. Por fim Alix se afastou da cama e saiu do quarto. Pediu um uísque ao comissário. Girou o líquido no copo de cristal por um longo momento. Sempre achou que ter um filho suscitaria um sentimento bastante racional. Não desprovido de emoção, é claro. Ele seria tão carinhoso quanto fosse possível. Mas como poderia ser algo sobre o qual não sabia nada a respeito? Um pai carinhoso? Alix amou somente uma pessoa de verdade: seu irmão. E a dor que sentiu quando ele foi assassinado quase o matou. Jamais esqueceria aquela dor e aquela raiva. E jamais queria voltar a sentir aquilo. Mas, naquele momento, suas emoções sombrias estavam profundas demais. Logo que teve a ideia de tornar Leila sua rainha, a decisão pareceu relativamente descomplicada. Ele gostava dela. De conversar com ela. Passar o tempo ao seu lado. Gostava de ter sido seu primeiro amante. A química intensa entre eles indicava que não haveria problemas no quarto. Para alguém que sempre soube que a escolha de sua noiva seria, acima de tudo, estratégica, aquela parecera uma escolha lógica. Uma bela noiva, uma rainha com quem não teria dificuldade alguma em criar uma família. Até que ela rejeitou sua oferta de pronto. Então, descobriu-se grávida de seu filho, e ele não tinha escolha senão torná-la sua esposa. Estava sendo zombado pelos deuses por sua complacência inicial. Alix reprimiu os pensamentos obscuros. Acreditou que Leila estivesse apaixonada por ele, quando ela evidentemente não estava. Ignorou o aperto em seu peito e disse a si mesmo que isso apenas facilitaria as coisas. Sem emoções de ambas as partes. Sem ilusões. Tudo giraria em torno do bebê e do futuro da Ilha de Saint Croix, e, embora Leila não fosse a noiva que escolheria se tivesse a chance, faria tudo funcionar. Pelo bem de seu povo e de seu legado para o futuro.


QUANDO CHEGARAM à Ilha de Saint Croix, já passava da meia-noite. Tarde demais para uma recepção formal, para o alívio de Leila. Ela ainda se sentia um pouco oprimida. Suas primeiras impressões da ilha foram de calor e umidade. Mais quente do que esperava. O céu claro estava repleto de estrelas. Havia o frescor de água e sal, vindos do oceano. E algo bem mais exótico e intrigante. Na viagem até o castelo viu vilarejos bonitos e uma cidade maior perto do mar. Então fizeram uma curva e, a distância, no alto de uma colina, estava o iluminado castelo. Ela não pôde evitar um suspiro de admiração. Na televisão, o castelo parecia um brinquedo. Ao vivo, podia ver como era gigantesco e imponente. Como se tivesse sido esculpido diretamente nas rochas. O estilo era mouro, com telhados achatados e muros altos, parecendo um monte de edifícios quadrangulares. Algo na beleza extrema daquele castelo cativou Leila. – Aquele é o castelo. Nosso lar. Nosso lar. Era surreal. Leila sentiu-se oprimida mais uma vez e disse: – Não sei nem que língua vocês falam... Alix virou a cabeça. – É uma mistura de espanhol, francês e árabe. Mas a língua oficial é o francês, porque os franceses foram os colonizadores que permaneceram mais tempo aqui. – Tem tanta coisa que eu não sei. – Pedirei a Andres para lhe providenciar um tutor. O carro estava descendo uma ladeira de curvas. Leila viu as luzes de uma cidade próxima, provavelmente a capital. Quando chegaram a um enorme pátio de pedras com uma fonte no centro, o carro parou. Leila viu, pelas janelas coloridas, uma mulher alta e bonita esperando por eles. Ao saíram do carro, Alix a levou até a mulher e disse com afeto evidente na voz: – Esta é Marie-Louise, a gerente do castelo. Ela e seu marido arriscaram suas vidas para proteger os mais antigos artefatos de minha família, incluindo as joias da coroa. O anel de noivado de Leila brilhou ao luar. – Foi muita coragem da sua parte. A mulher sorriu e os conduziu para dentro, onde o castelo espalhava-se em imponentes corredores de pedra e pátios internos. Alix soltou-lhe a mão, chamando-a a segui-lo por um dos longos corredores iluminado por pequenas lanternas flamejantes, e, por um momento, Leila teve a impressão de que voltara no tempo. Os dois pararam diante de uma imensa porta de madeira esculpida. O guarda se afastou e fez uma reverência, enquanto Alix abria e os conduzia. – Estes são os aposentos particulares da família real. – Ele parou diante de outra porta e abriu-a. – E estes são os seus aposentos. Leila sentiu alívio misturado com decepção. – Não vamos ter de compartilhar um quarto? Alix viu o olhar um pouco esperançoso de Leila. Absteve-se de dizer-lhe que seria considerado perfeitamente normal se cada um tivesse sua própria suíte. Ele meneou a cabeça. – É apenas até nos casarmos... para respeitar as convenções sociais. O olhar esperançoso de Leila transformou-se em algo cínico. Ela apontou para a barriga. – Até parece que as pessoas não sabem que já consumamos nosso relacionamento. Alix precisou lutar contra a vontade de dizer-lhe como foi maravilhosa a consumação. A magnitude do fato de Leila estar sob seu teto, grávida, estava mexendo profundamente com ele. Ele entrou na suíte. – Espero que fique confortável. Leila olhava ao redor com olhos arregalados. Ele também viu o ambiente como se fosse a primeira vez: o luxo foi suavizado pelo regime que ocupou o poder antes. Estava um pouco simplório, mas ainda com toques da antiga glória opulenta. Uma glória que seria restaurada.


Com a esposa ao lado. Com isso em mente, Alix reprimiu qualquer emoção e murmurou: – Os quartos ficam na parte de trás. Você terá tudo de que precisa. Leila o encarou, e ele viu as sombras debaixo dos olhos verdes. O fato de ela não querer estar ali pesava como uma pedra em seu peito. Ele ignorou. Não daria esse poder a ela. – Eu providenciei uma ultrassonografia no hospital amanhã... aparentemente está na época. – Para se certificar de que o bebê está bem, antes de se comprometer? Alix cerrou os dentes diante da vontade repentina de colar sua boca na dela para enfraquecer a rebeldia. – Algo assim. – Ele foi até a porta. – Você precisa descansar, Leila. Os próximos dias serão agitados. Então saiu do quarto, quase receoso de que ela percebesse sua falta de controle. Leila o observou sair. Mal notou a beleza do que a rodeava, apenas a lembrava vagamente de que haviam atravessado um pátio aberto para chegar à sala. Estava entorpecida pelo cansaço. Explorando a parte de trás, encontrou um quarto e um banheiro. Enormes. Havia também um closet um pouco mais moderno, luxuosamente acarpetado e repleto de roupas. Uma ilha central continha centenas de acessórios em prateleiras e gavetas, bem como roupas de baixo que fizeram suas bochechas corarem. Ela fechou as gavetas depressa, pensando no desperdício que seriam as adoráveis roupas íntimas. Era óbvio que Alix não sentia mais nenhum desejo por ela, apesar do beijo mais cedo, que foi apenas pela aparência. Ele a olhou como se mal suportasse sua presença. Ela ignorou a dor em seu coração e encontrou a roupa de dormir mais discreta que conseguiu. Pijama de seda. Fez uma rápida passagem pelo banheiro e, tentando não se intimidar pela grandeza, subiu na cama, onde deveria caber um time de futebol. Permaneceu um longo tempo olhando para o teto. Não conseguia parar de pensar no fato de que, se Alix não a desejava mais, então o que poderia segurar a união dos dois além das obrigações e da responsabilidade pelo filho?

NO INÍCIO da tarde seguinte, Leila estava andando de lá para cá na sala de estar da luxuosa suíte. Marie-Louise aparecera naquela manhã com uma jovem de aparência meiga que, ao que parecia, seria a criada pessoal de Leila. Leila protestou, mas foi ignorada e só lhe restou marchar até a pequena sala de jantar, onde um delicioso café da manhã havia sido posto. Seu estômago ainda estava embrulhado, portanto ela não comeu muito. Ela explorou tudo, descobrindo que o lindo átrio ao ar livre tinha uma pequena piscina, com mosaicos brilhantes no fundo e peixes coloridos. No quarto havia também um terraço com vista para a cidade distante. Aromas chegaram a suas narinas. Terra, flores, o mar, um toque de madeira. E então percebeu por que Alix teve uma reação tão forte ao perfume que ela fabricou. De algum modo, Leila recriou os aromas daquela ilha, sem ter estado ali. Detestando sentir-se magoada porque ele não usava mais o perfume, Leila concentrou-se em checar sua aparência. Escolheu um vestido envelope simples, azul bem escuro com sapatos combinando. Tentou fechar a abertura na parte dos seios, que estavam sensíveis e pareciam bastante inchados. Colocou a mão na barriga, sabendo que ainda não era evidente, mas sentindo a protuberância. – Como você está hoje? Leila assustou-se e se virou para ver Alix num terno escuro e camisa branca, emanando puro poder e sensualidade masculina. O tapete devia ter-lhe abafado os passos. Era terrível que ele a tivesse encontrado num momento tão íntimo. Pior ainda era o corpo de Leila voltar à vida imediatamente na presença dele. – Hora de confirmar que está tudo bem com seu precioso herdeiro? Ele pareceu zangado com a insolência. – O médico está nos esperando no hospital. Leila saiu do quarto antes dele, rezando para que ele não visse que ela estava prestes a perder o controle.


Os dois caminharam por intermináveis corredores de pedra, e Leila teve uma sensação ainda maior da grandeza do castelo. Tinha de admitir: estava impressionada. Assim como ficou quando chegaram à entrada do castelo e cerca de uma dúzia de guarda-costas ficou alerta. Alix abriu a porta do passageiro de um jipe e, depois que ela entrou, acomodou-se atrás do volante. Guardas se posicionaram à frente e atrás deles. Um pouco nervosa, Leila perguntou: – Você disse que as coisas estavam precárias por aqui. É perigoso? O maxilar de Alix enrijeceu. – Eu jamais colocaria você ou o bebê em perigo. Estamos protegidos pela melhor empresa de segurança do mundo. Leila ficou perplexa com a veemência. – Eu não quis implicar que você me colocaria... nos colocaria em perigo. Leila sabia, é claro, que Alix provavelmente não se importava se ela estivesse em perigo. Era com o bebê que ele estava preocupado. – Desculpe. Mas não há com que se preocupar. Os oponentes ao trono são minoria e estão enfraquecidos depois de anos sem cumprir suas promessas de construir uma sociedade igualitária. Eles não têm poder algum. Mesmo assim, nada é certo. Por isso é melhor garantir nossa segurança, até que a Ilha de Saint Croix esteja numa situação econômica mais sólida. Ao passarem pela cidade, Leila pôde ver seu charme mais de perto. Notou também que a cidade necessitava de muitas melhorias. Algumas pessoas acenavam, e Alix retribuía o gesto. – Levará tempo para que todos se adaptem ao novo rei – murmurou ele. – Não sabem como lidar comigo ainda. – E realmente gostaria que eles fizessem reverência e se esfregassem em você? Alix fitou-a com incredulidade. – Deus, não. Eu não poderia imaginar nada pior. Ele olhou de volta para a estrada, uma mão no volante, outra na coxa. O que tirou o foco de Leila, pois a fez lembrar-se daquelas coxas separando as suas para um mergulho profundo. – Eu quero viver lado a lado com meu povo. Andar entre eles como um igual. Não quero pompa nem cerimônia. Mas ainda quero ser o líder deles e seu protetor. Aquelas palavras tiveram um efeito profundo nela. Ele pareceu tão... protetor. Antes que pudesse analisar que sensações aquilo lhe causava, Leila percebeu que estavam entrando em um estacionamento. Alix sorriu enquanto estacionava. – O hospital não parece nada de mais, mas tem alguns dos melhores médicos do mundo. Eu mesmo mandei muitos de nossos estudantes de medicina para a faculdade, a fim de trazê-los para casa, a fim de que trabalhassem e ensinassem os outros. Estamos em processo de construir um novo hospital. Mais uma vez, Leila ficou surpresa por descobrir a profundidade do compromisso de Alix com a ilha. E por descobrir quão pouco ela o conhecia. Alix segurou-lhe a mão, e Leila concluiu que obviamente ele queria projetar uma frente unida. Promover o conto de fadas de que estavam apaixonados. Ela foi apresentada ao staff e ao médico que cuidaria do pré-natal, um senhor adorável. Então foi levada, a fim de ser preparada para o exame, deixando Alix para trás. A enfermeira era tímida e gentil, e Leila fez o possível para relaxar, apesar de estar bastante nervosa. E se encontrassem algo errado? Quando estava vestida com o avental e deitada na cama, o médico entrou com Alix. Ele era falante e caloroso, mas Leila não conseguiu relaxar enquanto o gel frio era espalhado por sua barriga. Deu uma olhada em Alix, mas ele estava com os olhos fixos no monitor. Quando o doutor apertou forte, ela retraiuse um pouco e quase pegou na mão de Alix. Alguma parte sua ansiava pela força e apoio dele. Mas cerrou os punhos e olhou para o monitor também. Embora o pai de seu bebê estivesse ao lado, ela poderia muito bem estar sozinha, já que ele não oferecia nenhum apoio emocional. De repente, uma batida rápida preencheu o quarto e Leila levou um segundo para perceber que era o coração do bebê.


O médico sorriu. – Ele, ou ela, é forte, com certeza. Uma silhueta aparecia na tela, como uma noz enrolada. A cabeça era visível. E a coluna. Tão delicada e frágil. Crescendo. Tornando-se alguém. Um filho ou uma filha. O peito de Leila foi tomado de emoções, e ela precisou levar a mão à boca para impedir que um soluço escapasse. O amor que sentiu, juntamente com um senso feroz de proteção, deixou-a tonta. Até então, a gravidez tinha se limitado ao plano das ideias. Mas aquilo era visceral. Primário. O médico estava falando, em tom tranquilizador – Tudo parece ótimo. Você voltará aqui dentro de algumas semanas para ver como as coisas estão progredindo, mas, por enquanto, apenas se alimente bem, faça exercícios leves e durma bastante. Leila assentiu, emocionada demais para falar. O médico deu-lhe um tapinha na mão como se visse aquilo todos os dias, o que provavelmente era verdade. Quando Leila sentiu-se um pouco recuperada, olhou para Alix. Mas, mesmo endurecendo a si mesma, não estava preparada para ver a expressão fechada no rosto dele. Os olhos estavam indecifráveis. Era certo que ele não estava experimentando a mesma profundidade de emoções que ela, e aquilo foi como um golpe físico. Os olhos acinzentados ainda estavam fixos na tela, antes que ele saísse do aparente transe, dizendo brevemente: – Então, está tudo bem? – Sim, sim. Nada com que se preocupar. – Ótimo. Ele não a olhou. Estava rígido. Haviam confirmado que o bebê estava bem. Era tudo com que Alix se importava. Leila estava emocionada demais para lidar com a satisfação presunçosa de Alix e sentiu-se grata pela distração quando a enfermeira apareceu para ajudá-la a se vestir. O médico e Alix saíram, e Leila fez o possível para ignorar o nó na garganta e o vazio no peito. Jamais imaginou como seria a experiência, mas, mesmo que tivesse imaginado, esperaria que o pai de seu filho ficasse um pouco mais interessado. Quando Leila foi para o corredor, sua ira aumentou ao ver Alix andando de um lado para outro, ao telefone. Como se não tivessem acabado de constatar que o bebê estava bem. Ele a viu e acenou para dizer que estavam de partida. Ela quase precisou correr para acompanhar as passadas largas dele e, a cada passo, sentia-se mais furiosa. E magoada. Alix terminou a ligação quando entraram no jipe, e o silêncio reinou. Leila estava determinada a não o quebrar, sentindo-se sensível e emotiva demais. Sabia que Alix estava lançando olhares em sua direção, mas o ignorou com firmeza, observando o belo cenário sem absorver nada. Quando estacionaram do lado de fora do castelo, ela abriu a porta e saiu antes que ele, ou qualquer outra pessoa, pudesse fazê-lo. Entrou correndo na enorme fortaleza de pedra e caminhou cegamente pelos corredores, esperando estar indo na direção correta. Tudo estava misturado: sua mágoa, o importuno desejo por Alix e a necessidade de se afastar do homem que tinha virado seu mundo de ponta-cabeça. Ela ouviu passos atrás de si. – Leila, o que...? Pare! Ela parou, sem fôlego e desesperadamente perdida. Virou-se para encarar Alix e foi tomada por mais raiva. E por uma necessidade feroz de proteger o bebê. Sentiu as paredes do enorme prédio se fechando sobre ela, apertando-lhe o peito. Todavia, o sentimento predominante era a mágoa. Ela pôs a mão na barriga. – Você não sentiu nada naquela sala, não é? Exceto, talvez, uma onda de satisfação pelo seu precioso herdeiro estar bem. Alix estudou-a. Nunca a vira mais linda. O rosto estava corado, os olhos verdes brilhando de raiva. E de mais alguma coisa que ele não queria identificar. Viu movimento em sua visão periférica e, percebendo a presença de empregados, caminhou para a frente e pegou o braço de Leila. – Aqui, não!


Olhou em volta e avistou uma porta, reconhecendo-a. Abriu-a e conduziu a resistente Leila para dentro. Ela livrou seu braço e afastou-se, arregalando os olhos ao notar o ambiente luxuoso. – Que lugar é este? A voz de Leila estava trêmula, e Alix detestou que isso o afetasse tanto. Ele avançou cômodo adentro. Era uma opulenta câmara de pedra com uma plataforma de mármore mais alta. Havia pias em alcovas nos cantos. O teto era abobadado e incrustado com milhares de estrelas brilhantes de madrepérola. – Era o hammam das mulheres, a sauna turca. E o harém também fica nesta parte do palácio. Leila olhou, incrédula. – Um harém? Pensei que ainda estivéssemos no ocidente civilizado, não em algum longínquo reino medieval. Alix refreou sua irritação. – O harém não é usado regularmente há muito tempo. Leila deixou escapar o riso. – Uau! Que alívio. Mas talvez você esteja pensando em reativá-lo? Arranjar mais esposas apenas para preencher sua cota real de filhos? Alix estava tão tenso que doía e, no entanto, não conseguia evitar uma série de imagens de Leila sendo despida, massageada, banhada e vestida por um exército de mulheres. E ele indo àqueles aposentos secretos e sensuais para encontrá-la esperando por ele. Suplicante. – Você gostaria de explicar por que está tão zangada? Ela cruzou os braços, o que serviu apenas para fazê-lo notar que os seios estavam maiores a cada dia. O vestido estilo envelope acentuava cada curva feminina. – Porque você parecia estar assistindo à previsão do tempo naquela sala... A imagem do nosso bebê na tela não o afetou nem um pouquinho?


CAPÍTULO 10

ALIX OLHOU-A. A imagem do nosso bebê na tela não o afetou nem um pouquinho? Sua mente girou. Aquilo o afetou tanto que ele quase se dobrou de orgulho, misturado com amor e uma sensação entorpecente de medo. Medo de que algo pudesse acontecer àquela vida frágil que ainda nem nascera. De que algo acontecesse com Leila. Medo de uma emoção que ele não esperava sentir de novo. Leila não esperou resposta. – Você foi tão frio. Impenetrável. Eu não vou trazer um bebê para um casamento no qual você não sente nada, exceto reponsabilidade e obrigação. É óbvio que não sente nada por este bebê, além do fato de que ele herdará... Alix levantou a mão para silenciá-la. Aquelas palavras acertaram diretamente seu coração, no entanto, ele não conseguiu se expressar... Tudo o que via era ela. Tão linda, tão viva e ali, no castelo. Aproximou-se e ficou grato ao ver a pulsação no pescoço dela e os seios inflando com a respiração. – Você diz que não há nada entre nós? Ela assentiu. Não estava mais tão segura. – Não há. Você só me procurou para distrair as pessoas de seus planos. Não me quer. Quer apenas um recipiente para seus herdeiros. E não é o bastante. Nem para mim nem para o bebê. Alix estava tão perto que sentia o cheiro de Leila. Sua marca única de almíscar e doçura. – Está errada, sabia? – Como? – perguntou ela de maneira desafiadora. Alix pegou uma mecha dos cabelos escuros e brilhantes e enrolou no dedo, puxando-a gentilmente na sua direção. Ela resistiu. – Existe, sim, algo entre nós e é suficiente para nos unir para sempre. Ele a viu engolir em seco. Puxou-lhe os cabelos mais uma vez e ela tropeçou para a frente, quase contra sua vontade. – Eu quero você. Eu a quis no momento em que a vi. Fui consumido pelo desejo nas últimas sete semanas. E receio que jamais deixarei de querê-la, não importa o quanto eu a tenha. E com isso Alix perdeu o controle. Tomou-a nos braços e beijou-a, pressionando-a junto a seu corpo, o qual doía pela necessidade de ser envolvido pelo calor dela. Leila foi tomada por ardor e luxúria. Por longos segundos, sentiu apenas um alívio intenso pela pressão da boca de Alix. Então sua mente clareou, fazendo-a se lembrar das palavras dele: fui consumido pelo desejo. Exatamente como ela. E o desejo estava enfim sendo satisfeito. As grandes mãos de Alix alisaram suas costas e cintura, encontrando os quadris. Envolveram seu traseiro, levantando-a contra ele de modo que a rigidez da ereção a tocasse bem ali. Ela gemeu, querendo mais. Estava incoerente de desejo. Sinos de alerta diziam-lhe para parar e pensar no que tinham acabado de dizer um ao outro. Mas foram ignorados.


Leila também sabia que estava provando algum ponto a Alix... não necessariamente um ponto que queria provar. Mas era tarde demais. Precisava dele com desespero. Precisava daquilo. Contato físico. Sem palavras nem emoções confusas. Apenas satisfazer necessidades. Alix afastou-se e abriu as laterais do vestido, expondo os seios cobertos pela renda. Leila mordeu o lábio para se impedir de implorar. Ainda estava em pé, apenas porque um dos braços de Alix a envolvia. Suas pernas estavam bambas. Ele abaixou seu sutiã, libertando os seios para acariciar os mamilos. Estavam tão sensíveis que ela quase gritou. Num movimento rápido, ele ergueu-a nos braços. Os sapatos caíram enquanto Alix deixava a sala do hammam para entrar no harém. O caminho era escuro e misterioso. Pelos corredores havia salas de todas as cores. Ele abriu uma porta com os ombros, e Leila arregalou os olhos ao ver uma enorme cama circular, com roupas de cama de seda vermelha. As paredes eram cobertas de murais e levou um segundo para ela perceber que descreviam o Kama Sutra com desenhos explícitos. Um pátio cheio de flores era visível através das portas francesas, e um pássaro colorido voejava sobre uma fonte. Era como se fosse um conto de fadas. Quando Alix deitou-a na cama, ela percebeu que não era um conto de fadas. Ele estava seriamente intencionado. Concentrado. E ela sabia que deveria levantar-se, fugir. Mas não conseguiu se mexer. E pior, não queria se mexer. Se isso era tudo o que havia entre eles, então ela queria com tanta ferocidade quanto ele. De algum modo, ali, com Alix despindo-se de sua camada urbana, Leila podia fingir que nada mais existia. Por um momento. Já nu, Alix deitou-se sobre ela, dando beijos quentes em seu pescoço e tracejando um caminho até onde sua pulsação batia como um tambor. Beijou e mordeu de leve aquele ponto, como se quisesse marcá-la. Ela gemeu com genuína satisfação feminina ao encontrar os músculos rígidos do abdome definido. E alcançou a ereção viril, envolvendo-a na mão, de repente mais confiante do que jamais se sentira. Acariciou-o, adorando a forma como os músculos da barriga dele se contraíam com o toque. Então, Alix afastou sua mão. – Eu vou explodir se continuar me tocando assim. Preciso de você... agora. De repente, Leila estava frenética com a mesma urgência e percebeu que ainda estava vestida, apesar do vestido escancarado e o sutiã abaixado. Alix a despiu sem demora, antes de afastar-se e observá-la por um momento. Depois, acomodou-se sobre ela, apartando-lhe as pernas. Deu atenção abundante aos seios, usando a boca até que estivessem úmidos e enrijecidos de necessidade. Então trilhou os lábios num caminho para a barriga dela, até onde o bebê estava aninhado. Alix pareceu permanecer ali por um momento, e Leila sentiu uma onda de emoção, mas não expressou nada, com medo do que ele diria. Até que não conseguiu mais pensar, porque Alix movia a boca mais para baixo, enquanto levantava suas pernas para os ombros largos e agarrava-lhe o traseiro, para que pudesse beijá-la ali. Na abertura quente e úmida de seu corpo, onde ela não podia esconder o quanto o desejava. Sentiu-se absolutamente exposta, mas não conseguiu frear as investidas da língua quente diretamente no centro de seu prazer, até lhe agarrar os cabelos e projetar o quadril de encontro à língua, que ia cada vez mais fundo. E, apesar de ter atingido o clímax, provocado pelos beijos íntimos, não foi suficiente. Ela estava ofegante, quase soluçando, quando ele se levantou como um tipo de deus. Suas pernas se abriram e Alix trouxe sua rigidez. Após um segundo de silêncio enigmático, investiu profundamente no centro dela. E o mundo de Leila se estilhaçou pela segunda vez. Ela tornou-se pura sensualidade, envolvida num momento de benção. Alix se movia com ela, mais fundo e com mais força a cada investida. Ela estava fraca, no entanto, não conseguiu evitar a formação do novo clímax. Seu olhar foi atraído por algo acima deles. Um espelho. Antigo e escuro. Mas ela via o traseiro esculpido e musculoso de Alix movendo-se para dentro e para fora de seu corpo, suas pernas enlaçadas nele. E foi enquanto observava o corpo enorme e poderoso se movendo contra o seu com tanta beleza e força que ela se despedaçou pela terceira vez, num orgasmo tão intenso que ela mal percebeu a liberação de Alix em seu interior, enquanto ele estremecia em espasmos com o efeito do próprio prazer.


QUANDO LEILA acordou, sentiu-se desorientada. Estava sozinha na enorme cama circular, com as cobertas puxadas até o peito. Via a si mesma refletida no espelho, seus cabelos espalhados sobre o travesseiro. Imagens lhe voltaram à mente... a pura sensualidade carnal da união deles. A velocidade humilhante com que ela havia cedido. – Você está acordada. Leila ficou tensa e levantou a cabeça. Alix estava perto das portas francesas. Anoitecia do lado de fora, e pássaros cantavam. O aroma das flores era poderoso. Ela apoiou-se nos cotovelos, notando que Alix estava de calça, mas ainda sem camisa. – Sim, estou acordada. Ela parecia ter sido virada do avesso. Tentou trazer de volta a raiva que sentia antes, mas era difícil, pois sentia como se alguém tivesse lhe injetado algum tipo de elixir do prazer. Viu seu vestido aos pés da cama e sentou-se, segurando o lençol sobre o corpo, enquanto o alcançava. Vestiu-se sem jeito, sabendo que Alix observava, antes de se sentar na beira da cama. – Você perguntou se a visão do bebê me afetou? Leila ficou imóvel e assentiu. – É claro que me afetou. Que tipo de homem eu seria se não sentisse nada vendo meu próprio filho? Leila levantou-se, esperando que as pernas não bambeassem. Precisava se afastar da cama, o cenário onde perdeu o controle de maneira tão espetacular. Sentou-se numa cadeira ao lado. – Por que você não disse nada? Alix foi sucinto, estava tenso. – Porque eu não consegui. A sensação foi muito intensa. Leila sentiu uma frágil ponta de esperança. – Também achei. Mas, quando olhei para você, estava tão fechado, como se estivesse ticando um item de uma lista. Tenho medo de que você não ame o bebê. Que ele seja apenas uma ferramenta para suas metas. Como o casamento. Alix pareceu não querer continuar a conversa, mas por fim murmurou: – Preciso lhe contar sobre meu irmão. – Você disse que ele foi assassinado, como seus pais. Alix assentiu. – Max era deficiente. Falta de oxigênio no cérebro, pois nasceu prematuro. Não tinha incapacidades severas, só dificuldade em acompanhar as crianças de sua idade. Eu tinha cinco anos quando ele nasceu. Passou muito tempo no hospital, numa incubadora. Meus pais não estavam interessados, então eu passava a maior parte do tempo com ele. O coração de Leila se apertou. Podia imaginar Alix, uma criança de cinco anos, cujos pais estavam Deus sabe onde, cuidando do irmão. – Era óbvio para nosso pai que Max jamais se tornaria rei, então ele perdeu o interesse no filho. Leila escondeu o choque. – E sua mãe? – Ela mal sabia que eu existia, imagine Max. – Ele deve ter amado muito você. – Amava, sim. Seguia-me para todo lado. Mas eu não podia dar o que ele mais precisava: carinho e amor paterno. Leila sentiu a relutância dele em falar. Mas precisava saber, porque, se fossem ter uma vida juntos, ela não aguentaria se ele deixasse o filho de lado. – O que aconteceu no dia em que ele morreu? – Eles o mataram... não os assassinos comuns, mas meus pais. Eles é que se certificaram de que eu estivesse protegido para que a linhagem preciosa pudesse seguir e mantiveram Max com eles, sabendo que morreria, esperando que a visão dele distraísse os soldados o bastante para que eu escapasse. A última coisa que me lembro de ouvir foi Max gritando por mim. Ele não entendia por que eu não o levei comigo. E eu não podia voltar, eles não deixariam. Um dos homens que me levava embora me nocauteou. Eu acordei num barco, deixando a ilha. Ele olhou para Leila. – Saber que eu o deixei para trás quase me matou. Tive pesadelos durante anos. Às vezes, ainda tenho... Leila levantou-se.


– Ah, Alix... eu sinto muito. Ela entendeu, num instante, que algo deveria ter se partido dentro dele no dia em que perdeu seu lar e seu amado irmão. Ia se aproximar, mas algo na expressão de Alix a impediu. Alix foi duro. – Não sinta pena, Leila. É a última coisa que quero ou mereço. Contei-lhe isso, porque você precisa saber que não fiquei impassível hoje. Mas não vou mentir. Sempre me imaginei mantendo uma distância emocional de minha rainha e de meus filhos. Meu papel como rei é um trabalho, e preciso evitar distrações. Preciso focar o que é melhor para o país e para o futuro. Mas quando vi a imagem hoje tudo voltou... o amor que senti por Max e a horrível dor quando ele morreu. Alix balançou a cabeça. – Apavora-me a ideia de não controlar meus sentimentos em relação ao meu próprio filho, se alguma coisa acontecer. Eu não poderia sobreviver a essa dor mais uma vez. Leila sentiu um vazio se abrir no peito. O que poderia dizer? Não era o terror de todos os pais que algo pudesse acontecer aos filhos? Não temiam não serem capazes de protegê-los dos menores perigos? O que Alix ainda não entendia era que não seria capaz de controlar isso. Ele veio até ela, e Leila tentou desesperadamente armar alguma defesa. Ainda não sabia o que fazer com aquela informação. – Quero você, Leila, e quero nosso filho. Farei o possível para servi-los da melhor maneira, assim como a qualquer outro filho que possamos ter. Leila não se mexeu. Nada mudou, na verdade. Embora ele tivesse se aberto com ela, sua principal preocupação era o bebê. Não ela. E deveria estar aliviada por ele admitir que não negligenciaria o bebê. Alix estendeu a mão, mas Leila deu um passo atrás. Se ele a tocasse, ela se partiria num milhão de pedaços. Esforçouse para parecer bem mais calma do que se sentia. – Estou muito cansada. Eu gostaria de voltar ao meu quarto, por favor. Alix ainda sentia-se sensível pelo sexo estonteante e pelo que acabou de revelar sobre o irmão. Mas não suportava o pensamento de que Leila acreditava que ele não sentia nada pelo bebê. E ela merecia saber a verdade. Que ele não estava preparado para reviver todas aquelas emoções. Estendeu a mão para tocá-la, mas ela evitou o toque. Seu primeiro instinto foi chegar mais perto, mas algo o impediu. Se a tocasse de novo, quem sabe o que sentiria vontade de revelar? Ele baixou a mão. Jamais desejou tanto uma mulher e, naquele momento, não conseguia ver um fim para tal avidez constante. O ambiente suntuoso do harém não ajudou. E o fato de ter sido ela quem se afastou o perturbava. Leila tinha controle, quando ele estava prestes a perder o seu. – Certo. Vamos. Alix colocou o resto das roupas, e Leila vestiu-se. Ela pegou os sapatos ao sair, e Alix sentiu-se um pouco envergonhado. Pareciam dois adolescentes, escondendo-se no lugar privado mais próximo para fazerem amor. Ele era um rei, pelo amor de Deus. – O que você vai fazer com este lugar? – perguntou Leila, enquanto saíam. – Eu tinha pensado em me livrar dele, mas agora já não estou tão certo. Ela parou e fitou-o, e antes que pudesse falar alguma coisa Alix aproximou-se, até que a distância entre os corpos fosse de apenas centímetros. – Não será para mais esposas, Leila. Será apenas para nós dois – disse ele. Ela corou. – Mas isso é... exorbitante. Um hammam e um harém apenas para duas pessoas? Alix riu da mistura de expressões no rosto dela: levemente escandalizada, mas, ao mesmo tempo, interessada. – Será puramente para nosso prazer. Você vai se tornar minha rainha, e quero me certificar de que esteja satisfeita. A cor desapareceu da face dela. – Eu ficarei satisfeita se você não ignorar nosso filho, Alix. Sexo é apenas sexo.


As palavras foram como um soco no peito de Alix. Ele observou enquanto ela começava a andar pelo corredor. Sexo é apenas sexo. – Leila – chamou ele. Ela parou e se virou, com evidente relutância. – É por aqui. Alix apontou para a direção oposta e observou-a voltar e passar por ele com a cabeça erguida. Teve de impedir a si mesmo de jogá-la de volta ao harém para mostrar que sabia muito bem que sexo era apenas sexo.

LEILA NÃO tinha certeza de como chegou a seus aposentos, com Alix seguindo-a e olhando-a com intensidade. Pensou no harém, que existia apenas para o prazer carnal. Quase se derretera quando ele disse que seria para o uso exclusivo dos dois. Sexo é apenas sexo... rá! A quem ela estava enganando? Aquilo despertou todas as emoções que ela sentiu quando retornou de Veneza, quando se viu perigosamente perto de acreditar que estava apaixonada por ele. A verdade a atingiu como um golpe. Estava apaixonada por Alix havia algum tempo, se fosse honesta consigo mesma. E aquele último surto de apenas sexo a deixou sem lugar para se esconder. Quase soluçou de alívio quando viu a porta do quarto. Quando chegaram ao quarto dela, Alix disse: – Espere. Leila virou-se, disfarçando suas feições. De modo algum, Alix sabia que o que acabara de acontecer tinha sido cataclísmico para ela. – Sim? – Teremos uma festa de noivado no final desta semana. É uma chance de apresentá-la à sociedade, e haverá alguns convidados internacionais. Na mesma hora Leila ficou nervosa. Ela era uma perfumista, gerente de loja, não alguém que andava confiante no meio da realeza! Mas precisava afastar-se de Alix para processar tudo o que aconteceu, portanto apenas assentiu com indiferença. – Está bem. Então entrou no quarto e recostou-se à porta, deixando escapar um longo suspiro. Estava apaixonada por um homem que admitira ser avesso ao amor porque sofrera muito ao perder o irmão amado. Leila podia entender o trauma. E ele teria sentido ainda mais por ser jovem. Mas quem era ela para dizer que ele não poderia controlar quem ou como amaria? No entanto, ele estava disposto a fazer o possível pelo bem do filho. Evidentemente isso teria de ser suficiente. E deveria ser. Tudo o que ela fazia era pelo bem do bebê. Seus próprios desejos e necessidades não eram importantes. Sim, e você vai definhar e morrer neste ambiente sem amor, sussurrou uma voz interna. Leila ignorou-a. Por mais que ansiasse por uma vida diferente daquela que teve com a mãe, seria tola em esperar, mesmo que por um instante, que houvesse um conto de fadas em algum lugar. Ela despiu-se e entrou no chuveiro quente, tentando não pensar na sensação de ter Alix entre suas pernas, tocando-a tão profundamente que suas acusações acabariam se tornando uma piada. Sexo nunca é apenas sexo, a mesma voz interna falou. Ela ignorou-a mais uma vez, reprimindo as lágrimas.

NA NOITE da festa de noivado, Leila estava uma pilha de nervos. O fato de mal ter visto Alix desde sua última conversa não ajudava em nada. Mas foi grata pelo espaço, especialmente diante do que acontecera. Teve sonhos eróticos com o harém durante toda a semana. Alix enviou mensagens e bilhetes, explicando que estava ocupado com reuniões políticas e com os preparativos para o casamento. E Leila esteve ocupada com aulas da história da ilha, de etiqueta, instruções sobre o comportamento esperado dela como rainha. E com provas de vestidos de noiva. Sua vida estava mudando de forma tão radical que era opressora.


A última coisa de que precisava era ver Alix e ele perceber como ela se sentia frágil. Sua criada pessoal, Amalie, acabava de vesti-la, e Leila assustou-se um pouco com a sensibilidade de seus seios. O que apenas a fez lembrar-se da sensação da boca de Alix neles. Amalie obviamente não interpretou o desconforto de Leila de maneira correta. – Está com calor, mademoiselle? Quer que eu abra as janelas? Leila meneou a cabeça. – Não, estou bem... de verdade. Forçou um sorriso e olhou-se no espelho, sem reconhecer a mulher bem penteada à sua frente, experimentando um momento de insegurança e medo de Alix não sentir nada além de decepção por sua noiva inconveniente. Alix estava parado perto da porta havia alguns minutos, sem ser notado, observando enquanto Leila tornava-se deslumbrante, em vez de apenas bonita. Ele perdeu o fôlego. Ela usava um vestido creme tomara-que-caia, com o busto drapeado do qual saíam camadas de chiffon até o chão. Os cabelos escuros estavam enrolados num coque elaborado. A maquiagem ressaltava os olhos e a deliciosa boca. O corpo de Alix reagiu com uma força previsível. Uma força que evitou durante toda a semana, ocupando-se do que podia. Como um covarde. Ficara frente a frente com um dos homens que atirou em seus pais e irmão e não sentiu nem a metade do redemoinho que sentia naquele momento. Como se percebesse sua atenção, Leila se virou e o viu. Ela corou, e Alix cerrou os dentes para impedir que seu corpo reagisse ainda mais. Sentia-se como um homem das cavernas. Queria jogá-la nos ombros, carregá-la até o harém e trancá-los ali por um mês. Ele entrou no quarto com uma caixa de veludo nas mãos, percebendo vagamente que a criada fazia uma reverência e saía. Leila olhou da caixa para ele. – Mais joias? Ela disse aquilo como se fosse um cálice de veneno, e ele percebeu, com tristeza, que talvez o casamento fosse isso para ela. Refreou sua irritação. – Sim, mais joias. Alix aproximou-se e abriu a caixa, observando os olhos verdes se arregalarem diante do maravilhoso conjunto de colar e brincos de ouro. Ele pegou o colar, sabendo que ficaria lindo na pele cor de oliva perfeita. Abriu o fecho e colocou em volta do pescoço dela. Leila pôs a mão no colar. – É lindo. Não quero parecer ingrata. Só não estou acostumada com... isso. Sinto como se eu não fosse digna. Alix percebeu a insegurança dela e ficou abismado ao ver quão pouca consciência Leila tinha de sua beleza e poder. Sobre ele. – Você é tão qualificada quanto qualquer outra. A maioria das rainhas desta família era escrava. Garotas trazidas do norte da Europa em navios tomados por piratas. Leila fitou-o com um raro brilho de humor nos olhos. – Uma parte de sua história que eu não gostei muito de aprender. Alix entregou-lhe os brincos e a observou colocá-los. Dieu. Até aquilo ele achou erótico. – Desculpe-me por tê-la deixado sozinha a semana toda – disse ele, constrangido. – Eu tive muitos afazeres. A desculpa parecia esfarrapada. Patética. Nenhuma mulher jamais o fez sentir como se não estivesse no controle. Exceto aquela. – Pronta? Quando Leila assentiu, ele pegou-lhe a mão e a conduziu pelos corredores, ciente da tensão dela e com vontade de apaziguá-la. Tranquilizá-la. Conceitos estranhos a ele. Estavam se aproximando do lugar de onde vinha o som de mais de duzentos convidados quando ela parou. Alix olhou-a, e seu coração se apertou diante do medo que viu no rosto de Leila. Ele causou isso. Jamais pensou em ter uma esposa para a qual aquele evento não fosse corriqueiro. – E se eu não conseguir? Não sou uma princesa...


Alix não pôde evitar estender a mão para lhe massagear o pescoço, até que ela relaxasse. Sentiu a pele macia e não resistiu em puxá-la para junto de si e beijá-la. O beijo se aprofundou e esquentou, antes que ele tivesse alguma chance de controle. Estavam no corredor. Prestes a encarar os convidados. E ele estava pronto para levantá-la contra a parede e amá-la ali mesmo. Alix afastou-se, se sentindo tonto. Leila também pareceu desorientada. A boca rosada e inchada. – Você ficará bem. Apenas me acompanhe. Leila não sabia se conseguiria fazer os pés se moverem depois daquele beijo, mas, de algum modo, encontrou apoio nas palavras de Alix. Embora tivesse de concluir que o beijo foi um movimento calculado para deixar seus olhos brilhando antes de encarar os convidados. E, de repente, estavam no topo da escada, na entrada do majestoso salão de bailes, e Leila voltou a ficar nervosa. O lugar era cheio de retratos dos ancestrais dele. Ao avistá-los, a multidão se alvoroçou. Alix colocou a mão dela em seu braço. Um homem vestido num uniforme elaborado da Ilha de Saint Croix aos pés da escada gritou: – Apresento-lhes o rei da Ilha de Saint Croix, Alixander Saul Almaric Saint Croix e a futura rainha e mãe da Ilha de Saint Croix, Leila Amal Lakshmi Verughese. Leila ficou absurdamente emocionada por ser chamada de mãe da Ilha de Saint Croix, enquanto Alix a conduzia pela escada. Ela respirou fundo quando chegaram à parte de baixo, e, de repente, o caos se organizou, quando Andres aparecei e os conduziu pelo salão, apresentando-os a todos.


CAPÍTULO 11

O QUE pareceu séculos mais tarde, Leila imaginou se o sorriso nunca mais sairia de sua boca. Os pés queimavam nos sapatos de saltos altos demais. Felizmente, a multidão se dissipara, e ela sentiu que podia respirar outra vez. Alix terminou de conversar com um homem cujo nome Leila não lembrava. Ele virou-se para ela, parecendo verdadeiramente preocupado. – Você está bem? Provavelmente não deveria ficar em pé tanto tempo. Leila forçou um sorriso. – Não seja tolo. Estou grávida, não aleijada. Mas, na verdade, estava mesmo se sentindo um pouco cansada. Alix acenou para um empregado, dando-lhe um sinal, e levou Leila até um pátio isolado. Leila sentou-se aliviada, tirando os sapatos por um momento para esticar os pés. Viu o olhar de Alix e disse: – Que alívio. Meus pés estavam começando a me matar. O empregado reapareceu com uma bandeja de salgadinhos e água com gás. Alix também se sentou, afrouxando a gravata. Surpresa pela demonstração de preocupação, ela murmurou: – Você não precisa esperar aqui comigo. Só preciso de um minuto. Alix colocou uma azeitona na boca e balançou a cabeça. – Também preciso de um tempo. O embaixador francês estava começando a me entediar. Leila sorriu, imaginando que poderia ser assim: um senso de comunhão, tirar um sorrateiro intervalo das obrigações. Mas logo reprimiu tais pensamentos. Eles iam em direção aos perigosos contos de fadas novamente. Ela pegou um canapé de cogumelo, com mais fome do que queria admitir. – Você precisa comer mais. Ela olhou para Alix. – Ainda fico enjoada algumas vezes, mas o médico disse que vai melhorar logo. Alix levantou-se e admirou a vista. Pareceu tão solitário naquele momento. Foi como se ela jamais pudesse alcançálo ou conhecê-lo verdadeiramente. Perguntou-se se alguém alguma vez já o conhecera, mas não gostou do sentimento que o pensamento lhe causou. Ciúme. Ela forçou um tom de voz leve: – Já se apaixonou alguma vez, Alix? Ele ficou tenso, e ela prendeu a respiração. – Pensei que estivesse apaixonado uma vez, mas não foi amor, apenas fiquei com meu jovem ego bastante ferido. – Quem era ela? Alix virou-se para encará-la, encostando-se à parede. Sua expressão estava endurecida. – Eu a conheci nos Estados Unidos quando era estudante. Pensei que ela apenas me conhecesse como Alix Cross. Estava tentando ficar incógnito e acreditei que ela estivesse apaixonada por mim, e não por quem eu era.


Ele apoiou as mãos na parede. – Ela era inglesa. Fora para os Estados Unidos a fim de escapar do escândalo do pai, que havia perdido todo o dinheiro da família no jogo. Eles tinham parentes nobres. Ela estava procurando um modo de retornar à Europa e restaurar sua reputação através de alguém. No caso, eu. Eu era jovem e ingênuo. Arrogante o bastante para acreditar quando ela disse que me amava. Mas a verdade é que apenas me usou para conseguir o que queria. E obviamente eu não era suficiente para ela, porque a encontrei na cama com um de meus guarda-costas. Leila observou a expressão fria de Alix. Ela apenas me usou. As mesmas palavras que atirou nele voltavam como um golpe em seu rosto. Então Alix disse: – Já lhe contei que Max foi a única pessoa que amei. Fui criado sabendo que o casamento seria uma aliança estratégica, apenas com a finalidade de trazer herdeiros. Não vi amor entre meus pais. Amor nunca foi parte da equação para mim. Foi o que ele disse a Andres ao telefone naquele dia em Paris. – Eu posso prometer honrá-la e respeitá-la, Leila. Você saiu-se bem esta noite e não tenho dúvidas de que será uma ótima rainha. E mãe de nossos filhos. Mas isso terá de bastar, porque não posso oferecer nada mais. Lá estava: a verdade brutal. Destruindo qualquer sonho ou esperança que Leila pudesse ter. – Bem – disse ela, por fim, como se seu coração não estivesse sendo estraçalhado em milhões de pedaços –, pelo menos sabemos onde estamos pisando. Numa tentativa desesperada de evitar que Alix visse sua devastação, Leila se levantou também. Pensou no que ele disse sobre ser usado e sua consciência pesou. Ela não queria fazer isso, mas foi obrigada a ser honesta também. – Eu lhe devo desculpas. – É? Leila assentiu, evitando olhá-lo. – Naquele dia em Paris, quando eu disse que o havia usado para me livrar de minha virgindade, eu menti. Falei sem pensar para que você não percebesse que, na verdade, eu estava humilhada e magoada. Alix pareceu horrorizado. Mas ela continuou: – Não se preocupe. Eu não estava apaixonada. Foi apenas orgulho ferido. A expressão de Alix suavizou-se, e ela sentiu uma dor monumental no coração ao ver o alívio evidente dele. – Ouça, tudo o que quero é que, daqui para a frente, sejamos honestos. Dessa forma, talvez possamos construir algo. Não vou negar que este casamento não me dará tudo de que eu preciso emocionalmente, mas faço isso pelo bebê e tentarei ser uma boa rainha para você. Alix ficou pasmo, embora, apenas um segundo antes, tivesse ficado aliviado em saber que ela não estava apaixonada por ele. Este casamento não me dará tudo de que preciso. A confissão o balançou. O fato de Leila ter admitido que não o usou destruiu algo a que ele se agarrou desde que se reencontraram. Como se aquilo pudesse protegê-lo. Alix se orgulhava dela, aquela mulher que saíra de uma loja para entrar num mundo completamente distante de tudo o que conhecia, e que cativou todos aquela noite, comportando-se com uma graça natural que ele nem sabia que ela possuía. Leila estava ofuscando todos a sua volta. Incluindo ele. Alix sentiu-se uma fraude. Pela primeira vez, sentiu com se estivesse maculando algo bonito. Deveria deixá-la partir, mas não conseguia. Estavam unidos pelo bebê. Devia a Leila honestidade total. – Há algo que precisa entender. Quando eu a conheci, fui consumido de desejo por você. Nunca planejei usá-la como cortina de fumaça. Não havia intenções. Quando viajamos para Isle de la Paix, foi espontâneo, porque você disse que não queria intromissão da imprensa. Mas vi uma oportunidade e planejei para que alguém tirasse aquela foto, aproveitando a chance de desviar a atenção. Alix deu um suspiro pesado. – Eu não tinha o direito de explorá-la para meus próprios fins. Sinto muito. Isso acabou levando a imprensa até você. Mas quando eu a procurei foi porque queria você... pura e simplesmente.


A confissão fez Leila sentir-se vulnerável. Saber que ele não a usou insensivelmente desde o início dificultou as coisas. Ela murmurou com a voz mais calma que pôde: – Bem, isso é passado e estamos aqui agora, portanto, acho que precisamos apenas seguir em frente. Ela passou por ele e voltou ao salão. Evitou-o pelo resto da noite, para que Alix não visse suas emoções à flor da pele. Sabia que tinham concordado em ser honestos, mas não havia como ser completamente honesto. Ela percebeu que, se tivesse de negociar uma vida com um homem que jamais a amaria, precisaria desenvolver alguns bons mecanismos de autoproteção.

– ELA NASCEU para isso, Alix. Se você a tivesse visto... as crianças a amam. As enfermeiras e os médicos estão admirados. É possível que ela tenha feito mais pela Ilha de Saint Croix em um dia do que você conseguiria em seis meses. Sem ofensas. Alix fez uma careta ao se lembrar de seu encontro recente com Andres. É claro que não ficou ofendido porque sua noiva seria uma rainha tão perfeita quanto ele esperava. Quando acreditou que ela estava se apaixonando por ele. O fato de ela ter assegurado que não estava apaixonada o afetava muito. Desde a festa de noivado, Leila dedicava-se a aprender tudo sobre seu novo papel. Alix ia ao quarto dela à noite e encontrava-a dormindo. Por mais que quisesse escorregar para baixo dos lençóis com ela, algo o impedia. Ele a desejava muito, mas depois de tudo o que tinham dito um ao outro temia que, se a tocasse, talvez deixasse escapar alguma verdade que ainda não estava preparado para reconhecer. – Vossa majestade? Sua noiva está aqui para vê-lo. Materializando-se de seus pensamentos para assombrá-lo? – Chame-a para entrar, por favor. Leila entrou, e Alix sentiu o impulso de luxúria familiar misturado a algo bem mais complexo. Ela estava pálida. Alix logo ficou preocupado. – O que aconteceu? – praguejou enquanto pegava uma cadeira para ela. – Você tem feito coisas demais. Eu disse a Andres que está ocupada demais com os preparativos do casamento... Ela não se sentou. – Eu estou bem. Sério. Adorei a visita ao hospital. – Você foi um grande sucesso. Ela corou e baixou a cabeça, e Alix sentiu uma pontada perto do coração. A habilidade de Leila em corar e demonstrar emoções era uma das coisas que o levou a se apaixonar. Alix ficou imóvel ao registar as palavras que atingiram em cheio seu coração.

ALIX ESTAVA subitamente tão quieto que Leila o olhou. O sorriso sumira do rosto dele, deixando-o mortalmente pálido. Ela estendeu a mão. – Alix, você está bem? Parece que viu um fantasma. Ele evitou o toque e uma expressão de terror tomou conta de seu rosto. Leila encolheu-se por dentro. Mas, na verdade, aquilo apenas confirmava a razão pela qual precisava conversar com ele. Precisava se proteger. Nos últimos dias, ela descobriu que talvez pudesse, de verdade, ser rainha, que poderia, com alegria, devotar sua vida ao povo da Ilha de Saint Croix. Mas, para sobreviver, precisava criar uma fronteira bastante firme no que dizia respeito a Alix. O fato de ele não tentar dormir com ela nas últimas noites a deixou frustrada e aliviada em iguais proporções. Ela sabia que a intimidade física sem amor acabaria destruindo-a... ou fazendo-a confessar o quanto o amava. E não podia suportar rever aquele olhar de terror no rosto dele.


Alix refugiou-se atrás da mesa, como se precisasse colocar uma barreira física entre eles. Leila tentou não ficar magoada e permaneceu impassível. – Eu queria conversar com você sobre o casamento. Alix sentou-se, e ela fez o mesmo. – Vá em frente – disse ele, asperamente. – Estou comprometida a dar o melhor de mim para ser uma rainha da qual você possa se orgulhar, e amarei nosso filho... ou filhos. Acredito que podemos ter uma união harmoniosa. Alix franziu o cenho. – Leila... Ela continuou falando: – Mas, a não ser pelos filhos ou para promover uma aparência unida em ocasiões sociais, eu preferia que pudéssemos viver tão separadamente quanto possível. Não quero dividir o quarto com você. E preferia que as intimidades fossem apenas com o intuito de procriar. Entenderei se não for suficiente para você, mas pedirei apenas que seja discreto com amantes, se sentir necessidade. A expressão de Alix ficou sombria. Ele levantou-se e pôs as mãos na mesa. Leila tentou não ficar intimidada. – Deixe-me entender. Você quer compartilhar a cama para procriação? E se eu sentir necessidade devo procurar uma amante discreta? Leila assentiu, dizendo a si mesma que não pareceu tão ridículo quando formulou o pensamento em sua mente. Mas era o único jeito que achava possível sobreviver ao casamento, sabendo que ele não a amava. Pelo menos, se conseguisse criar uma família, teria um propósito na vida. Mas percebeu que era o motivo mais egoísta do mundo para se formar uma família. Alix meneou a cabeça. – Meu pai desfilou com suas amantes pelo castelo e causou danos irreparáveis a este país. Jurei jamais repetir as atitudes corruptas dele, portanto, não. Não aceitarei sua útil sugestão. Ele circulou a mesa, agigantando-se sobre Leila. Ela levantou-se. – Não concordo em manter vidas separadas. Você irá compartilhar minha cama todas as noites, e espero muitas e variadas intimidades. Está sugerindo mesmo que vou pegar à força uma esposa relutante? Leila precisou conter uma gargalhada. Claro que ele não teria de forçar uma esposa relutante. Mesmo naquele momento ela o desejava. Percebeu que subestimara sua habilidade de sobreviver, mesmo que pudesse manter alguma distância dele. E claro que ele não concordaria com seus termos ridículos. No que ela estava pensando? – Então acho que eu não posso fazer isso, Alix. Pensei que pudesse, pelo bem do bebê, mas não posso. Ela sentiu-se fraca, patética, egoísta. – O que está dizendo, Leila? – Estou dizendo que quero mais do que você pode oferecer, Alix. Sinto muito. Pensei que fosse conseguir, mas não posso. Com medo de começar a chorar, Leila saiu correndo. A cabeça de Alix girava. Precisava reconhecer a amarga ironia do fato de Leila ter descrito o tipo de casamento que ele sempre acreditou que queria. Espaço entre ele e sua esposa. Ela seria sua consorte em público e mãe de seus filhos. E não se intrometeria na sua vida de nenhuma outra maneira significativa. Ele poderia ter rido se ainda não estivesse consumido pela aterrorizante revelação que fez seus membros amolecerem. O amor que sentiu durante a ultrassonografia era tanto por Leila quanto pelo bebê. Apenas bloqueou essa verdade cataclísmica. Ela acabou de dizer que queria mais. E o mais irônico era que ele também queria mais. De repente, queria tudo... e era tarde demais. Os deuses não estavam apenas zombando dele, estavam rolando no chão e rindo histericamente.

LEILA ESTAVA ciente dos guarda-costas a uma distância discreta e tentava ignorá-los. Seu coração doía de emoção contida. Ela pegou um jipe e foi para longe do castelo, precisando de espaço. Deveria saber que não conseguiria se


mover sem acionar um alerta de segurança nacional. E mesmo a vista estonteante do mirante era incapaz de acalmá-la. Ouviu o som de outro veículo e suspirou de frustração. Virou-se. Sua respiração falseou quando ela viu Alix saindo do carro. Ele parecia severo e dispensou os guarda-costas. Então, olhou-a por um longo momento antes de se aproximar. Parou ao lado e gesticulou para a vista. – Num dia claro e com bons binóculos você pode ver o litoral da Espanha e da África daqui. Leila não retribuiu o olhar. – É lindo. – Há centenas de barcos naufragados em volta da ilha. Tenho planos de usá-los para incentivar o mergulho de exploração. É parte do pacote de turismo que estamos planejando. – A ilha é mágica, Alix. Você não terá problemas para atrair pessoas. Ele a encarou. – E para fazê-las ficar? Que incentivo que eu poderia oferecer para isso? Seu amor, Leila pensou tristemente. Mas precisava reconhecer a futilidade de seu posicionamento e murmurou: – Desculpe-me. Eu tive uma reação exagerada. É claro que não vou partir. Não posso. Nosso bebê merece pai e mãe e uma base estável. Foram apenas... os hormônios. Alix não disse nada por um momento, então estendeu a mão. – Pode vir comigo? Quero lhe mostrar algo. Relutante, Leila deslizou a mão na dele. Alix conduziu-a até o jipe e dirigiu em silêncio por cerca de dez minutos. Depois, pegou uma trilha de terra. Não estavam muito longe da cidade principal, e Leila podia ver o castelo à distância. Depois de um quilômetro, Alix parou e desceu. Leila também desceu, mas não viu nada de interessante. Ele a levou até uma grande área que parecia estar em processo de limpeza e nivelação, embora não houvesse trabalhadores no local. – O que é isto? Leila o fitou quando Alix não respondeu de pronto. Ele estava tão bonito contra a luz do sol. Realmente pertencia àquele lugar. E, de algum modo, ela teria de pertencer também. E acalmar a dor emocional. – Será sua nova fábrica. – Minha nova... fábrica? Alix assentiu. – A área está sendo limpa e chamei arquitetos para discutirem como você quer que seja construída. Há também espaço para um jardim em que seriam cultivadas plantas e flores. Temos uma grande variedade na ilha, incluindo um tipo raro de lavanda do mar. Há espaço para uma estufa também, se precisar. Leila olhou em volta sem palavras. A área era enorme. E ali ela conseguiria plantar qualquer coisa. O que Alix acabou de dizer era demais para absorver. Ela estava atônita. – Não gostou do local? – perguntou ele, preocupado. – É pequeno demais? Leila balançou a cabeça e lutou contra as lágrimas, receando que as emoções começassem a escapar. – Não, não. É maravilhoso... incrível. Quando se sentiu no controle, ela o encarou. Sua voz estava rouca. – Pensei que você tivesse dito que eu tinha outras prioridades... o bebê e meu papel como rainha? Alix pareceu sério. – Leila, você inala o mundo sem nem perceber. É parte de você. É conduzida pelo seu nariz. Quero que seja feliz aqui. E espero que isso a faça feliz. Sei que quer mais. Você merece muito mais. Ele adotou uma expressão triste. – E preciso que faça mais daquele perfume. Destruí o vidro que me deu em Paris. Porque estava bravo e magoado. O coração de Leila disparou. – Você não estava magoado. Seu ego estava ferido porque ousei lhe dizer não. Alix assentiu.


– Eu também achava que fosse meu ego. Mas a verdade é que não foi apenas meu ego. Foi meu coração. E não tive coragem de admitir. Ele pegou-lhe as mãos. – Descobri hoje, Leila. Estou apaixonado por você desde o momento em que a vi na loja. Quando saímos da Isle de la Paix, eu sabia que deveria deixá-la, mas não queria. Acho que tive a ideia de pedi-la em casamento porque era o único modo de fazê-la ficar... – Está dizendo que me ama? – sussurrou Leila Ele assentiu. Por um momento, Leila sentiu um lampejo estonteante de alegria, então uma voz ressoou em sua mente. Leila tola, não existe conto de fadas. A alegria dissolveu-se. Ela libertou as mãos. – Por que está fazendo isso? Eu disse que não vou embora. Alix franziu o cenho. – Fazendo o quê? Dizendo que a amo? Porque eu a amo. Leila balançou a cabeça, lágrimas ameaçando mais uma vez. – Não acredito que você seja tão cruel, Alix. Por favor, não insulte minha inteligência. Eu digo que quero ir embora, e de repente você diz que me ama? Esqueceu que ouvi sua conversa ao telefone naquele dia? Se eu tiver que convencê-la que a amo, farei isso. Alix passou a mão pelos cabelos, visivelmente frustrado. – Por que eu faria isso agora? Fingir? – Você defendeu com muita convicção sua incapacidade de amar, e agora devo acreditar que teve algum tipo de epifania? Sei o quanto o casamento é importante para você e para a Ilha de Saint Croix, mas nunca pensei que você pudesse ser desnecessariamente cruel. Alix pareceu ter levado um soco no estômago, mas Leila permaneceu firme. Ele abriu a boca, mas ela logo interferiu: – Alix, não. Por favor. Aprecio o que está tentando fazer... e tudo isso... – Ela indicou o local da fábrica. – É o bastante. De verdade. Teria de ser. Pelo menos, ele não sabia que ela o amava. Era sua última defesa. Ela virou-se e começou a voltar para o jipe, lutando ferozmente contra as lágrimas. Não viu Alix empalidecer. Também não viu o olhar de severa determinação na expressão dele.

A VIAGEM de volta ao castelo foi em silêncio. Quando chegaram, Leila desceu do jipe, mas Alix segurou-lhe a mão antes que ela pudesse reagir. Conduziu-a pelo castelo e, quando ela tentou livrar a mão, ele apertou ainda mais e a olhou com a expressão mais séria que ela já vira. – Não terminamos esta conversa, Leila. Ela quase precisou correr para acompanhar os passos de Alix e só reconheceu onde estavam quando ele abriu a porta. Leila cravou imediatamente os pés no chão. – Eu não vou entrar aí. Alix disse em tom zombeteiro: – Por que, Leila? Afinal, sexo é apenas sexo, não é? Estavam na impressionante sala do hammam e a porta se fechou. Alix cruzou os braços. – Sabe, nunca pensei que você fosse covarde, Leila. – Eu não sou covarde. Alix aproximou-se. Ela olhou para a porta, imaginando se conseguiria correr até lá, então registrou as palavras dele. – O que você quis dizer com isso? – Você é uma covarde emocional, Leila Verughese. E sei disso porque também já fui assim. Uma onda de pânico a envolveu. – Isso é ridículo. Não sou covarde e você é um mentiroso. Ele assobiou. – Que rude. Eu digo que a amo e me chama de mentiroso? – Por que está fazendo isso, Alix? Eu disse que estou feliz em ficar. Você não precisa adoçar as coisas.


– Está “feliz em ficar”, como algum tipo de mártir? A época dos piratas que raptavam escravas europeias já acabou. Quando nos casarmos, será porque você quer tanto quanto eu. Porque você também me ama. Só que é covarde demais para admitir. Por que outro motivo iria querer manter distância, enquanto estivermos casados? Leila sentiu que sua última defesa estava se despedaçando. – Eu não o amo – mentiu ela. – Mentirosa. Alix se aproximou, aumentando a tensão entre eles. – Se eu tivesse sido mais honesto comigo mesmo antes, teria reconhecido isso no dia em que estivemos aqui e você disse que sexo é apenas sexo. Essa era a questão. Sexo sempre foi apenas sexo para mim. Até você chegar. Por isso, não a toquei desde o dia em que chegamos aqui. Porque quando eu a toco perco o controle. E acho que é assim para você também. Leila podia sentir seu coração dilacerado. – Mas você não me ama. Não consegue. Você disse. Ela soou acusadora. O conto de fadas era como uma miragem e ela sabia que, no momento em que acreditasse, o sonho desapareceria. Alix foi impiedoso. – Consigo, sim, e eu a amo. Você me mostrou que não vale a pena viver sem se render ao amor com todos os seus riscos. Fico aterrorizado, porque sei como é horrível perder alguém que se ama, mas percebi que é impossível viver com esse medo para sempre. Também quero mais... e quero com você. Ninguém mais. Leila balançou a cabeça, e lágrimas anuviaram sua visão. Alix estava certo. Ela era covarde. Tinha medo de confiar. O fantasma de sua mãe ainda sussurrava em seu ouvido que não havia sonhos. Alix chegou mais perto. – Fale, Leila. Ela meneou a cabeça. – Por favor, não me obrigue a... Alix segurou-lhe a nuca. – Então vamos fazer assim. Você é minha, corpo, alma e coração, e eu não deixarei que se esconda. Então ele a beijou. Leila resistiu. Era disso que tinha medo. E subitamente falar as palavras não parecia tão assustador. O pior era a honestidade que ele lhe arrancaria dali em diante, porque ela literalmente não teria onde se esconder. Mas era tarde demais para resistir. Leila era fraca e ele tinha razão. Ela era mesmo covarde. Então aceitou e aprofundou o beijo. Dessa vez, não conseguiriam chegar à cama do harém. Alix deitou-a na plataforma de mármore. Os movimentos não foram graciosos. Havia uma urgência feroz de unirem-se. Roupas foram arrancadas. As mãos dele foram rudes como o beijo. Ela agarrou-lhe os cabelos, e ele enterrou as mãos em seu corpo com tanta força que ela percebeu que ficaria marcada, mas deleitou-se na sensação. Era seu homem, e ela o amava. Alix deitou-se sobre ela. Leila viu a necessidade nas feições bonitas. Viu a incerteza, apesar da bravata dele, e seu coração doeu. Ele preencheu-a com propósito devastador, observando-a. Demandando que ela se expusesse por completo. Leila não tinha onde se esconder. Ele era fiel às suas palavras. Ela enlaçou as pernas em volta de Alix e, por fim, libertou-se dos limites do medo. Ele a tocou tão profundamente que ela arfou e, segurando-lhe o rosto nas mãos, falou com emoção: – É claro que eu o amo, Alix. Com todo o meu coração e alma. Você é meu e sou sua para sempre. Uma expressão de pura satisfação masculina surgiu no rosto dele. E de amor. Leila libertou seu coração e a deliciosa dança do amor começou. E, quando o ápice do prazer a atingiu, ela olhou para cima e avistou milhares de estrelas brilhando sobre suas cabeças. Enfim acreditava no amor dele... bem no seu âmago, onde Alix a partiu e então juntou os pedaços.


EPÍLOGO

LEILA SAIU correndo do jipe para entrar o castelo, cumprimentando o staff enquanto entrava. Felicidade e realização eram coisas que sentia todos os dias, mas não as desprezava nem por um segundo. Nos dezessete meses desde que se casou com Alix numa cerimônia profundamente emotiva, tanto eles quanto a ilha tinham sofrido mudanças sísmicas. O país estava prosperando e ficando mais forte a cada dia. Sua fábrica abrira havia alguns meses e também estava florescendo, enquanto ela recomeçava a fabricar perfumes. Seu apartamento em Paris tornou-se um escritório em cima da loja, para onde ela ia uma vez por mês. Leila ficou atônita em receber uma ligação da filha de seu pai... sua meia-irmã. Ele sofreu pressão pública para fazer o teste de DNA que provou a paternidade de Leila e, em consequência, isso arruinou sua carreira política. A meia-irmã de Leila, Noelle, confessou que sua vida e a de seu irmão haviam sido manchadas pelos inúmeros casos amorosos do pai e pela tristeza da mãe. Ela foi à Ilha de Saint Croix para conhecer Leila e Alix, e as duas estavam ficando próximas. Mas o verdadeiro centro de sua vida estava bem ali, no castelo. Todo o resto era bônus. Quando Leila entrou no escritório de Alix, não conseguiu evitar o sorriso diante da cena. As duas pessoas que mais amava na vida. Alix e Max, o filho de onze meses e cabelos escuros. Max pulava energicamente no colo de Alix, batendo os punhos na mesa enquanto tentava colocar na boca o que parecia uma banana muito amassada. Com firmeza, Alix segurava o filho com uma das mãos e digitava no notebook com a outra. Ambos a viram ao mesmo tempo. Dois pares de olhos acinzentados, um arregalado e sincero, o outro mais adulto, cheio de apreciação masculina e amor. – Mama! Os bracinhos se levantaram na direção dela, e Leila o pegou do colo de Alix. Mas, antes que pudesse se afastar, Alix enlaçou sua cintura e a puxou para seu colo. Max ficou encantado, batendo as mãos e fazendo voar pedaços de banana para todos os lados. Leila riu. – Eu estava tentando ajudar. Alix afastou os cabelos dela para um ombro e beijou-lhe o pescoço exposto. Ela estremeceu em deleite e perguntou um pouco sem fôlego: – Onde está Mimi? – Dei a tarde de folga a ela. Estávamos solitários sem você, não estávamos, rapazinho? Max sorriu. Leila levantou-se e encontrou um lenço umedecido para limpar o filho, antes de colocá-lo no cercado e observá-lo abraçar seu brinquedo favorito. Ela fitou Alix com um brilho nos olhos. – Eu estive na fábrica por três horas e vocês ficaram solitários?


Alix levantou-se, pegou a mão de Leila e a conduziu até um sofá próximo, puxando-a de modo que ela acabou sentada em seu colo. Dessa vez, ficou bem mais perto de uma parte estratégica da anatomia dele. – Fico solitário no momento em que você sai da minha visão – murmurou ele. – Eu também. O cercado estava quieto demais e Leila viu o filho deitado de costas, com o polegar na boca, abraçado ao brinquedo e dormindo profundamente. Esgotado. Ela recostou-se ao marido. – Eu tenho algo para você. Alix arqueou a sobrancelha e moveu-se sutilmente para mostrar que também tinha algo para ela. – É? Leila assentiu e tirou um frasco de vidro do bolso. O rótulo dizia Sonho de Alix. Era o perfume que fizera para ele em Paris. E que era tão pessoal que ela nunca o vendeu a ninguém. Ele a beijou longa e profundamente. – Obrigado. – Mmm – disse ela com apreciação. – Terei de fabricá-lo mais vezes, se essa for a reação que receberei. Alix se mexeu e ela caiu no vão de seu colo, um pouco frustrada, um pouco excitada. – Alix... – Vou fazer uma passagem secreta daqui até o harém. Leila corou ao pensar no local bastante particular deles e que fora completamente reformado. O hammam também era utilizado e estava aberto às mulheres do castelo e do reino. Leila adorava ficar ali no meio delas, ouvindo suas histórias. Era uma das coisas que tinha dado a eles o amor e o respeito do povo: suas maneiras humildes e o desejo de serem considerados tão iguais quanto possível. Alix enrolou uma mecha dos cabelos dela nos dedos. – Andres disse que você foi ao hospital hoje. Outra visita à nova ala das crianças? Leila assentiu. Então a excitação borbulhando em seu interior não pôde mais ser contida. – Sim, mas também fui a uma consulta com o dr. Fonteinebleau. Alix logo ficou tenso ao ouvir o nome do médico real. – Há algo errado? Leila balançou a cabeça e colocou a mão dele em sua barriga. – Não. Tudo está muito bem... mas ficaremos um pouco mais ocupados dentro de oito meses. Alix empalideceu e voltou a corar. Ele a abraçou forte e deitou-a no sofá. Seu corpo formidável a cobriu. A alegria dele era palpável. Quando falou, a voz estava um pouco engasgada: – Você sabe que me fez o homem mais feliz do mundo e que eu a amo para além do infinito? Leila lutou contra lágrimas de emoção e abraçou o pescoço do marido, trazendo-o para mais perto ainda. – Eu sei. Porque é exatamente como me sinto. Agora, sobre a passagem secreta para o harém... acha que podemos fazê-la antes de o bebê chegar?


LAÇOS DE SANGUE


Caitlin Crews

Não tinha tempo para tristeza. Assistira ao noticiário pela manhã. Rihad al Bakri, o temido irmão mais velho de Omar e agora ditador do minúsculo país no Golfo Pérsico de onde Omar fugira aos 18 anos, acabara de chegar a Nova York. Sterling não tinha dúvidas de que ele viria procurá-la. Ela sabia que havia chance de já estar sendo vigiada, de o sheik ter enviado uma equipe antes para vir atrás dela, mesmo ele tendo chegado a menos de meia hora. Esse pensamento fez com que diminuísse o ritmo de seus passos, para que parecesse calma, apesar do coração acelerado. Sorriu ao atravessar o saguão, como se fosse um dia qualquer. Não honraria Omar se deixasse que ela – ou pior, seu bebê – caíssem nas garras das pessoas de quem ele lutara tanto para escapar. E ela sabia um pouco sobre como os predadores reagiam ao ver presas agindo como presas. Quanto mais medo mostrasse, com mais força eles atacavam. Sterling sabia disso muito bem. Então, caminhou. Sterling caminhou como a modelo que fora antes de assumir sua posição ao lado de Omar tantos anos atrás. Como a amante sensual e famosa do playboy internacional, como Omar era visto pelo mundo. Saiu pela manhã de Nova York e não olhou em volta para a cidade que tanto amava. Não tinha tempo para despedidas. Não se quisesse manter o seu bebê – e de Omar – a salvo. Podia ter perdido Omar, mas, com a ajuda de Deus, não perderia seu bebê. A manhã de verão estava clara e quente, dando-lhe uma desculpa para esconder sua tristeza e ansiedade, e as lágrimas que se recusava a deixar escorrer por trás das lentes dos óculos de sol. Demorou um pouco mais de tempo do que deveria para perceber que, embora fosse a SUV preta de Omar parada no meio-fio, não era o seu motorista que estava parado ao lado. Este homem estava encostado na lateral do carro como se ali fosse um trono e ele, seu rei por direito. Sua atenção estava no celular, e alguma coisa na forma como ele mexia na tela dizia que era insolente. Ou talvez a forma como se mexeu e levantou o olhar, escuro e desaprovador, que encontrou o dela com a forma de um soco. Sterling precisou parar para não cair – e não tinha nada a ver com tristeza. Porque aquele olhar parecia um toque, íntimo e de luxúria. E apesar de a imagem de mulher que se entregava aos prazeres da carne que Sterling trabalhara duro para ter, ela não gostava de ser tocada. Nunca. Nem mesmo assim. Quando sabia que não era real. Parecia real. Este motorista era muito... Muito alto, muito sólido. Muito real. Vestia um terno escuro, o que fazia seu corpo esbelto e perigoso parecer letal. O cabelo escuro era grosso e curto, como para esconder os cachos, pele morena e os lábios mais sensuais que Sterling já vira em um homem. Ele era incrivelmente bonito. Ele era a última pessoa que deveria querer que a levasse para sua liberdade, ou a primeira, e Sterling não tinha tempo de decidir isso. Não tinha tempo para nada. Sentiu seu celular vibrar no bolso e sabia o que aquilo significava. Rihad al Bakri. O próprio rei, desde que o pai dele e de Omar morrera alguns anos antes. Ele estava finalmente aqui, em Manhattan, como ela temera. Seus amigos e os amigos de Omar estavam lhe enviando mensagens para avisar, ligando para terem certeza de que ela estava consciente da ameaça iminente. Porque independente do que acontecesse, do que acontecesse com Sterling sem o homem que era tudo para ela, o irmão de Omar não podia saber sobre o bebê.


Lançamentos do mês:

PAIXÃO 471 – DIAMANTE DE CONVENIÊNCIA – MAISEY YATES Para Victoria, só há um jeito de recuperar a empresa da família: casando-se com o ex-lutador Dmitri Markin. Porém, para que ele aceite sua proposta, Victoria terá que acatar todas as suas exigências…

PAIXÃO AUDÁCIA 003 – BODAS DE UM PECADOR – MAYA BLAKE Minissérie – Os Sete Pecados Sensuais – Segunda Temporada 3/4 Para salvar a família da vingança implacável de Zaccheo, Eva Pennington aceita sua proposta de casamento. Ela achou que seria apenas conveniência, até Zaccheo exigir que o matrimônio seja real… em todos os sentidos.

PAIXÃO ARDENTE 003 – LAÇOS DE SANGUE – CAITILIN CREWS Minissérie – Sheiks e suas Noivas Ousadas 1/2 O sheik Rihad al Bakri quer que o bebê de Sterling McRae seja criado como seu sucessor ao trono e não descansará até conseguir o que deseja. Contudo, ele não contava que a desafiadora Sterling abalaria suas estruturas.

PAIXÃO ESPECIAL 001 – OS IRMÃOS DE ANGELIS – CATHY WILLIAMS Aliança da paixão Theo De Angelis estava acostumado seguir as próprias regas. Até uma dívida familiar obrigá-lo a dar adeus aos seus dias de solteiro. Ele acreditava que Alexa Caldini não fazia seu tipo. Porém, ela logo conquistaria o coração desse poderoso magnata.

Mar de volúpia Delilah ficou dominada pelo desejo ao conhecer Daniel De Angelis em um navio. Porém, retornar à terra firme a faz ter de encarar duas verdades: ele mentira sobre sua identidade… e ela está grávida de Daniel.


Próximos lançamentos:

PAIXÃO 472 – SEDUÇÃO IMPLACÁVEL – MIRANDA LEE Sergio Mancini sempre manteve a distância da estonteante Bella Williams. Porém, quando se reencontram, decidem saciar o desejo que os consome por anos. Contudo, a noite que tiveram apenas serviu para deixá-los ansiando por mais!

PAIXÃO AUDÁCIA 004 – INOCENTE pecadora – SARA CRAVEN Minissérie – Os Sete Pecados Sensuais – Segunda Temporada 4/4 Dana Grantham sonha com um futuro na mansão onde crescera. Mas o poderoso bilionário Zac Belisandro estraga seus planos. Então, ele a faz uma proposta: dará tudo o que Dana sempre quis… se ela aceitar ser sua esposa!

PAIXÃO GLAMOUR 004 – HERANÇA DE SOMBRA – TARA PAMMI Ludibriado pela irmã adotiva, Nathaniel Ramirez volta para casa, tendo de encarar o passado… e a bela Riya. Agora, ele está determinado a usar todas as suas armas para conseguir a herança… e levar Riya para a cama como parte do acordo!

PAIXÃO ARDENTE 004 – Algemas de sedução – CAITLIN CREWS Minissérie – Sheiks e suas Noivas Ousadas 2/2 O sheik Kavian considera a fuga de sua prometida um ato intolerável. Então, assim que Amaya retorna, ele usa todo o seu poder de sedução para comandar a redenção de sua noiva. Mas será que é o suficiente para convencê-la a abraçar o futuro como rainha?


Essência do Desejo - Abby Green